Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

R
ep
ro
d
uç
ão
 p
ro
ib
id
a.
 A
rt
.1
84
 d
o 
C
ód
ig
o 
P
en
al
 e
 L
ei
 9
.6
10
 d
e 
19
 d
e 
fe
ve
re
iro
 d
e 
19
98
.
25
Figura 1.10 Exemplo de um procedimento científico. A partir da 
observação de moscas pousadas nas goiabas e da constatação 
de que elas podem ter “bichos”, e tendo em mente a teoria de que 
todo ser vivo surge somente pela reprodução de outros seres vivos, 
um cientista elabora a seguinte hipótese: os “bichos” de goiaba 
são larvas de moscas. Com base nessa hipótese, pode ser feita 
uma dedução: se as goiabas forem protegidas com saquinhos de 
papel, nelas não se desenvolverão “bichos”. Após a realização do 
experimento, a previsão se confirma e dá credibilidade à hipótese.
O teste de uma hipótese baseia-se no seguinte raciocínio: 
se uma hipótese é válida, podem-se prever determinadas con-
sequências disso, ou seja, podem-se fazer deduções a partir da 
validade da hipótese. Por isso esse tipo de procedimento é chama-
do de hipotético-dedutivo. Se as deduções não são confirmadas 
pelos resultados dos experimentos ou de novas observações, 
ou mesmo de simulações matemáticas, o cientista retrocede e 
modifica a hipótese, ou a substitui por outra. Por outro lado, se 
as previsões se confirmam, a hipótese é aceita.
Vejamos um exemplo. Um pesquisador estuda as informações 
disponíveis sobre as necessidades nutricionais das plantas, en-
tre elas a de que a cor verde das folhas deve-se à presença de 
clorofila, substância que contém magnésio em sua composição 
química. A partir disso, o pesquisador elabora uma hipótese 
para explicar por que as folhas dos tomateiros cultivados em 
certa região ficaram amareladas: há deficiência de magnésio 
no solo, o que impede a síntese normal de clorofila. Com base 
nesse raciocínio, ele pode fazer as seguintes previsões: a) uma 
análise química do solo mostrará deficiência de magnésio; b) se 
magnésio for adicionado ao solo, as plantas deixarão de apre-
sentar folhas amareladas. 
Como veremos no próximo item, o teste de uma hipótese 
pode demonstrar que ela é falsa, mas nunca pode demonstrar 
que é verdadeira. Portanto, em ciência, podemos ter certeza 
de estarmos errados, mas nunca teremos certeza de estarmos 
certos. Explicações científicas, portanto, nunca são definitivas; 
elas são aceitas como “verdades” apenas enquanto não há mo-
tivos para duvidar delas, ou seja, enquanto não são rejeitadas 
pelos testes. É por isso que usamos aspas ao dizer que uma 
hipótese é “verdadeira”.
Em termos simples, o procedimento hipotético-dedutivo de in-
vestigação da natureza costuma seguir estes passos lógicos:
1. Identificação de um problema.
2. Formulação de uma hipótese.
3. Levantamento de deduções a partir da hipótese.
4. Teste das deduções, por meio de novas observações ou 
de experimentos.
5. Conclusões sobre a validade ou não da hipótese.
Na prática, as deduções são testadas por meio de novas obser-
vações ou pela experimentação. Um experimento é uma situação 
artificial, criada pelo cientista com o objetivo de verificar se as 
consequências previstas por uma hipótese se confirmam ou não.
Um exemplo cotidiano de procedimento hipotético-dedutivo 
é apresentado na Figura 1.10. Analise-a, acompanhando o texto 
da legenda.
Conclusão
Fato
Hipótese
Dedução
Experimento
1
2
3
4
5
AMPLIE SEUS 
CONHECIMENTOS
AMPLIE SEUS 
CONHECIMENTOS
R
ep
ro
d
uç
ão
 p
ro
ib
id
a.
 A
rt
.1
84
 d
o 
C
ód
ig
o 
P
en
al
 e
 L
ei
 9
.6
10
 d
e 
19
 d
e 
fe
ve
re
iro
 d
e 
19
98
.
Exemplos pioneiros de procedimento científico em Biologia
A história da febre puerperal
Um exemplo altamente ilustrativo de procedimen-
to científico foi a descoberta, no começo do século XIX, 
da importância da higiene para a Medicina. Nessa 
época, no Hospital Geral de Viena, cerca de 25% a 30% 
das mulheres que tinham bebês eram acometidas 
por uma doença grave, geralmente fatal, conhecida 
como febre puerperal. O médico húngaro Ignác Fülöp 
Semmelweis (1818-1865) notara que as pacientes cujo 
parto era assistido por professores e estudantes de 
Medicina apresentavam maior incidência da doença 
que as pacientes assistidas por enfermeiras. Qual seria 
a explicação para essa diferença?
Adepto do procedimento científico, Semmelweis 
passou a reunir todos os fatos relacionados à febre 
puerperal para obter uma explicação. Dois fatos prin-
cipais chamaram sua atenção:
Fato 1
A febre puerperal ocorria principalmente no am-
biente hospitalar; mulheres que davam à luz em casa 
quase nunca apresentavam a doença. (Fig. 1.11)
Fato 2
Na ala das enfermeiras, muitas das mulheres assis-
tidas permaneciam deitadas de lado durante o parto, 
enquanto na ala dos médicos e estudantes a parturien-
te sempre permanecia deitada de costas.
Com base nesses fatos, Semmelweis levantou 
a seguinte hipótese: dar à luz deitada de costas, no 
hospital, aumenta o risco de ter febre puerperal. Para 
testar a validade de sua hipótese, ele fez a seguinte 
previsão: se também na ala dos médicos os partos 
passassem a ser realizados com as parturientes 
deitadas de lado, a incidência de febre puerperal de-
veria diminuir, tornando-se semelhante à da ala das 
enfermeiras. Para testar sua hipótese, ele convenceu 
alguns médicos a adotarem o procedimento usado 
pelas enfermeiras, isto é, deitar as parturientes de 
lado. A mudança, entretanto, não reduziu em nada a 
incidência da doença. Assim, a previsão não se confir-
mou e a hipótese foi rejeitada.
Continuando a investigar o assunto, Semmelweis 
tomou conhecimento de um fato novo, que parecia 
sugerir uma nova explicação para a febre puerperal.
Fato 3
Um médico cortou-se com o bisturi enquanto dis-
secava um cadáver, vindo a morrer com os mesmos 
sintomas da febre puerperal.
Ligando esse novo fato aos anteriores, Semmelweis 
teve o palpite de que a enfermidade das parturientes 
podia ser causada por algo presente nos cadáveres 
que, de alguma maneira, era transmitido a elas pelos 
médicos. Seguindo essa nova pista, o pesquisador 
lembrou-se de outro fato.
Fato 4
Médicos e estudantes de Medicina costumavam 
cuidar das parturientes após terem dissecado ca-
dáveres nas aulas de Anatomia; em geral, eles não 
lavavam as mãos nem os instrumentos cirúrgicos 
entre as duas atividades.
Com base nesses fatos novos, Semmelweis formu-
lou uma nova hipótese: a febre puerperal é causada por 
alguma matéria presente nos cadáveres, transmitida 
às parturientes pelas mãos de médicos e estudantes, 
e por instrumentos cirúrgicos contaminados. Com 
base nessa nova hipótese, Semmelweis fez a seguinte 
dedução: se médicos e estudantes lavarem bem as 
mãos e os instrumentos cirúrgicos antes de atenderem 
as parturientes, a incidência de febre puerperal deverá 
diminuir.
Com muito custo, Semmelweis convenceu alguns 
médicos e estudantes a lavarem as mãos com solu-
ção de cloro antes de atenderem as parturientes. O 
resultado foi que, entre as pacientes assistidas pelos 
que adotaram essa prática, a doença desapareceu. 
Em vista desse resultado, ele aceitou a hipótese da 
contaminação pelos cadáveres como explicação para 
a origem da doença.
Os procedimentos de Semmelweis não convence-
ram a maioria de seus colegas médicos, incapazes de 
compreender e de aceitar as evidências. Somente anos 
depois, os princípios de higiene passaram a ser adota-
dos na maioria dos hospitais da Europa. Hoje sabemos 
que a febre puerperal é causada por microrganismos 
que proliferam nos cadáveres e não por matéria cada-
vérica, como Semmelweis havia pensado. Isso mostra 
uma das grandes vantagens do método científico: 
mesmo sem saber a “verdade” completa sobre os fatos, 
é possível adotar um procedimento adequado, com 
base nas previsões a partir de hipóteses.
Figura 1.11 Ilustração de uma 
maternidade no século XIX.
26
U
n
id
a
d
e
 A
 • 
A
 n
at
u
re
za
 d
a
 v
id
a
AMPLIE SEUS 
CONHECIMENTOS
AMPLIE SEUS 
CONHECIMENTOS
R
ep
ro
d
uç
ão
 p
ro
ib
id
a.
 A
rt
.1
84
 d
o 
C
ód
ig
o 
P
en
al
 e
 L
ei
 9.6
10
 d
e 
19
 d
e 
fe
ve
re
iro
 d
e 
19
98
.
27
C
a
p
ít
u
lo
 1
 • 
B
io
lo
g
ia
 e
 c
iê
n
ci
a
Estudo do fototropismo pelos Darwin
Para exemplificar a formulação de uma hipótese e 
seu teste experimental, escolhemos um outro exemplo 
simples. Você já deve ter notado que plantas cultivadas 
dentro de casa crescem em direção à janela; caso você 
gire o vaso, as folhas das plantas, após alguns dias, 
estarão novamente voltadas para o local de onde vem 
a luz. Uma pergunta que se pode fazer é: qual parte da 
planta “percebe” de onde vem a luz?
Há mais de 100 anos, Charles Darwin e seu filho 
Francis fizeram essa mesma pergunta e, a partir de 
observações prévias, formularam a seguinte hipótese: 
a luz é percebida pela ponta do caule das plantas. Com 
base nesse palpite, os Darwin fizeram uma previsão: se 
é realmente a ponta do caule que percebe a luz, então 
plantas decapitadas, ou com as pontas dos caules co-
bertas, perderão a capacidade de se curvar em direção 
à fonte luminosa.
Para testar sua hipótese, eles decapitaram algumas 
plantas jovens de alpiste e de aveia e colocaram-nas 
perto de uma janela, juntamente com plantas intactas. 
Alguns dias depois, verificaram que as plantas intactas 
haviam crescido curvadas em direção à luz, ao passo 
que as plantas decapitadas haviam crescido eretas, 
sem se curvar.
Em outra experiência, os Darwin cobriram pontas 
de plantas com papel preto, à prova de luz: as plantas 
cobertas, como as decapitadas, também cresceram ere-
tas. O resultado das experiências confirmou a previsão 
e a hipótese adquiriu validade.
Diversas perguntas podem ter ocorrido durante o 
experimento dos Darwin, como, por exemplo: “De que 
modo a planta percebe a luz?” ou: “Qual é o mecanismo 
que faz a planta se curvar?”. Essas questões não preci-
sam ser respondidas para validar a hipótese original. No 
entanto, ilustram algo que costuma ocorrer na ciência: 
os experimentos, além de testarem hipóteses, levan-
tam outras questões, para as quais serão elaboradas 
outras hipóteses e feitos novos experimentos; é assim 
que o conhecimento científico progride.
Tanto os procedimentos realizados por Sem-
melweis como os dos Darwin são exemplos de ex-
perimentos científicos controlados. Nesse tipo de 
experimento comparam-se os resultados obtidos em 
um grupo experimental com os obtidos em um grupo 
controle. O grupo controle é praticamente idêntico ao 
grupo experimental com exceção de um aspecto, cujo 
efeito está sendo testado. 
Nos experimentos dos Darwin, por exemplo, os gru-
pos experimentais eram as plantas decapitadas ou com 
o ápice coberto; o comportamento desses grupos era 
comparado com o dos grupos de controle, constituídos 
pelas plantas intactas descobertas ou com a cobertura 
em local diferente da ponta do caule. Nos experimen-
tos de Semmelweis, o controle foi representado pelas 
parturientes assistidas pelos médicos que se recusaram 
a aceitar a proposta de lavar cuidadosamente as mãos 
e os instrumentos cirúrgicos. Nos partos assistidos por 
esses médicos, a mortalidade continuou tão alta quan-
to antes, servindo de comparação com a mortalidade 
no grupo experimental, praticamente reduzida a zero. 
Os controles fornecem ao pesquisador uma base de 
comparação, para que se possam estabelecer relações 
de causa e efeito no problema investigado. (Fig. 1.12)
Figura 1.12 Representação do 
experimento sobre o efeito da luz
no movimento das plantas de alpiste, 
realizado por Charles Darwin e seu 
filho Francis. As ilustrações 1 e 4 
referem-se a grupos de controle, 
enquanto 2 e 3 representam os 
grupos experimentais. O controle 
4 permite descartar a hipótese de 
que é o papel, independentemente 
de sua posição, o responsável pelo 
comportamento da planta.
Ápice
removido
Ápice
recoberto
Base
recoberta
Fonte de luz
Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br
Texto: O experimento de Pasteur
1 2 3 4

Mais conteúdos dessa disciplina