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[...] Maio, mês das borboletas noivas flutuando em brancos véus. Sua exclama- ção talvez tivesse sido um prenúncio do que ia acontecer no final da tarde desse mesmo dia: no meio da chuva abundante encontrou (explosão) a primeira espécie de namorado de sua vida, o coração batendo como se ela tivesse englutido um passarinho esvoaçante e preso. O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. Ele a olhara enxugando o rosto molhado com as mãos. E a moça, bastou-lhe vê-lo para torná-lo imediatamente sua goiabada-com-queijo. Ele... Ele se aproximou e com voz cantante de nordestino que a emocionou, perguntou-lhe: — E se me desculpe, senhorita, posso convidar a passear? [...] Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. [...] Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de Macabéa parecia lágrimas escorrendo. Da terceira vez em que se encontraram — pois não é que estava chovendo? — o rapaz, irritado e perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo lhe ensinara, disse-lhe: — Você também só sabe é mesmo chover! — Desculpe. Mas ela já o amava tanto que não sabia mais como se livrar dele, estava em desespero de amor. Numa das vezes em que se encontraram ela afinal perguntou-lhe o nome. — Olímpico de Jesus Moreira Chaves, mentiu ele porque tinha como sobrenome apenas o de Jesus, sobrenome dos que não têm pai. Fora criado por um padrasto que lhe ensinara o modo fino de tratar as pes soas para se aproveitar delas e lhe ensinara como pegar mulher. [...] Olímpico de Jesus trabalhava de operário numa metalúrgica e ela nem notou que ele não se chamava de “operário” e sim de “metalúrgico”. Macabéa ficava con- tente com a posição social dele porque também tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhasse menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico eram alguém no mundo. “Metalúrgico e datilógrafa” formavam um casal de classe. [...] LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 42-45. (Fragmento). A hora da estrela Neste trecho, o encontro de Macabéa com Olímpico e o “namoro” dos dois são apresentados pelo narrador. 1. Transcreva do trecho algumas características de Macabéa e Olímpico. Considerando a caracterização dos dois, como pode ser interpretada ff a frase “Eles não sabiam como se passeia”? 2. Transcreva expressões do texto que revelam os sentimentos de Ma- cabéa por Olímpico. a) O que essas expressões indicam a respeito da dimensão dos senti- mentos da moça? b) É possível afirmar que Olímpico nutria o mesmo tipo de sentimento pela jovem? Explique. Cena do filme A hora da estrela, de Suzana Amaral. Brasil, 1985. Um casal de classe Em A hora da estrela, o narrador Rodrigo S. M. apre- senta-se ao leitor e define seu objetivo literário: narrar a história de uma nordestina, chamada Macabéa, que mo- rava no Rio de Janeiro, vinda de Alagoas. A moça, descrita como completamente inex- pressiva, dividia um quarto de pensão com mais quatro colegas e trabalhava como datilógrafa. Apaixona-se por Olímpico, também nordesti- no, é abandonada por ele e morre atropelada, depois de uma visita a uma cartomante para saber o que o futuro lhe reservava. Ao relato da vida de Ma- cabéa e suas misérias inter- liga-se um segundo plano, constitutivo da narrativa: os questionamentos desse nar- rador masculino (o primeiro na obra da escritora) sobre a sua maneira de narrar, os motivos que o levam a contar a história da jovem e sua di- ficuldade em compreender a própria personagem, perten- cente a uma camada social muito diferente da sua. Englutido: engolido. TEXTO PARA ANÁLISE 682 U n id ad e 8 • O P ós -M od er ni sm o R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap29_C.indd 682 11/11/10 4:53:51 PM c) Olímpico é definido pelo narrador como “a primeira espécie de namorado” da vida de Macabéa. O que o uso dessa expressão indica a respeito da relação que existia entre eles? 3. Nos três primeiros encontros dos dois jovens está chovendo. Que sensação a repetição desse fato provoca no leitor? ffMacabéa é caracterizada, ao longo da narra- tiva, como alguém insignificante, incapaz de qualquer rea ção diante da vida. De que ma- neira essa característica pode ser percebida no momento em que Olímpico atribui a ela a responsabilidade pela chuva? 4. A ingenuidade de Macabéa é uma de suas ca- racterísticas mais marcantes. Como isso fica evidente no último parágrafo? ff Embora tenha a mesma origem, Olímpico não adota a mesma atitude de conformidade diante da vida apresentada por Macabéa. Como a ambição dele é insinuada pelo narrador no último parágrafo? 5. A obra de Clarice Lispector se caracteriza sobre- tudo pela narrativa intimista, introspectiva, sem preo cupação em tratar explicitamente de ques- tões sociais. Assim, de que maneira a construção de uma protagonista como Macabéa diferencia A hora da estrela de outros textos da autora? Jogo de ideias Você viu, neste capítulo, que Guimarães Rosa notabilizou-se por sua capacidade de recriar, em sua obra, a linguagem e o mundo do sertão e, por meio dessa recriação, discutir grandes questões universais, como o bem e o mal, a sanidade e a loucura, o certo e o errado, etc. Viu, também, que as personagens criadas pelo autor mineiro e suas histórias até hoje encantam inúmeros leitores. Como não se emocionar com a história de Riobaldo e Diadorim ou com a cena da descoberta da visão pelo garoto Miguilim? Esse último, inclusive, emprestou seu nome ao grupo de contadores de histórias de Cordisburgo, cidade natal de Guimarães. E são os Miguilins de hoje os responsáveis, em parte, por, oralmente, manter vivas as narrativas rosianas, recontando trechos de Campo geral e de outras histórias criadas por Guimarães. Para compreender os temas tratados pelo autor em suas obras e encantar outras pessoas com as histórias criadas por ele, propomos que você e seus colegas se organizem em grupos de contadores de histórias, como os Miguilins de Cordisburgo, e recontem trechos das narrativas rosianas. Para cumprir essa tarefa, vocês deverão adotar os seguintes procedimentos: ff dividir a sala em cinco grupos. Cada grupo deverá escolher, para recontar para outras turmas de alunos do colégio, um trecho de Campo geral ou um dos seguintes contos de Guimarães: "A menina de lá, A terceira margem do rio, Famigerado, A partida do audaz navegante"; ff selecionar o conto ou o trecho de Campo geral que deverá ser re- contado e determinar, em primeiro lugar, quem serão os ouvintes de vocês (alunos das turmas do ensino médio ou do fundamen- tal II). Vocês também poderão escolher entre duas formas de recon- tar a narrativa selecionada: fazer uma leitura dramatizada do conto/trecho selecionado ou contá-lo de cor, como fazem os Mi- guilins. Para auxiliá-los nessa tarefa, seria interessante que, antes de recontar os textos escolhidos, vocês explorassem as indicações, referentes à obra de Guimarães, propostas na seção “Conexões”; ff realizar a atividade, recontando, para o público escolhido, os textos de Guimarães selecionados por vocês. Lembrem-se: no momento de recontar de cor ou fazer a leitura dramática da narrativa sele- cionada, é fundamental usar a entonação adequada e recriar, nesse processo, o “tom” presente no texto do autor, para, de fato, encantar os ouvintes e fazê-los mergulhar no universo rosiano. Material complementar Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br Palavra de Mestre: Davi Arrigucci Jr. Conteúdo digital Moderna PLUS http://www.modernaplus.com.br Tema animado: Modernismo no Brasil.A prosa pós-moderna. 683 C ap ít u lo 2 9 • A pr os a pó s- m od er na R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap29 REIMPRESSÃO.indd 683 2/10/11 9:15 AM A tradição da prosa pós-moderna: vozes intimistas A introspecção das mulheres em Clarice Como foi visto neste capítulo, Clarice Lispector trata em seus textos de diversos aspectos da condição feminina e da busca pelo “eu” de suas personagens. Essa voz feminina caracteriza-se por tra- tar de modo intimista temas relacionados às mulheres e aos seres humanos em geral. As angústias e os dramas interiores das mulhe- res que descobrem, de repente, a possibilidade de uma existência individual diferente da vida a que foram habituadas são expostos em textos que irão influenciar outras autoras a esmiuçar a dimensão existencial do indivíduo. O olhar de Lygia Outra escritora brasileira surgida na década de 1950 dá con- tinuidade, na prosa, à construção de uma literatura marcada pela percepção feminina da realidade e pelo desnudamento do mundo interior dos seres humanos. Lygia Fagundes Telles trata em seus textos sobretudo das experiências afetivas de suas personagens e dos sentimentos experimentados por elas. Ódio, ciúme, amor, solidão são alguns dos temas que povoam o universo ficcional criado pela autora, expressos, muitas vezes, por meio do fluxo de consciência dos protagonistas de seus romances e contos. No texto a seguir, a personagem reflete sobre seu amor pelo companhei- ro e seu desejo de permanecer com ele, ainda que seja por um sentimento “meio esgarçado”. As pérolas [...] Era verdade, ela preferia ficar, ela ainda o amava. Um amor meio esgarçado, sem alegria. Mas ainda amor. Roberto não passava de uma nebulosa imprecisa e que só seus olhos assinalaram na distância. No entanto, dentro de algumas horas, na aparente candura de uma varanda... Os acontecimentos se precipitando com uma rapidez de loucura, força de pedra que dormiu milênios e de repente estoura na avalancha. E estava em suas mãos impedir. Crispou-as dentro do bolso do roupão. TELLES, Lygia Fagundes. Oito contos de amor. São Paulo: Ática, 1996. p. 34. (Fragmento). Os internos da gente Transpondo para as personagens de seus textos os temores, as fanta- sias e as angústias que vivem em todos nós, Marina Colasanti, escritora contemporânea, dá outro impulso à prosa introspectiva que a obra de Cla- rice Lispector tão bem soube realizar. Com narrativas que enfocam mais os efeitos da vida sobre os indivíduos que os acontecimentos propriamente ditos, a autora desvenda o inconsciente de suas personagens, revelando a realidade interior de cada um e de todos nós. Observe como o universo interno de um homem em estado vegetativo é a matéria para a exploração existencial da narrativa. DALÍ, Salvador. Cabeça de Rafael rebentada. 1951. Óleo sobre tela, 43 3 33 cm. 684 U n id ad e 8 • O P ós -M od er ni sm o R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt . 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . I_plus_literatura_cap29_C.indd 684 11/11/10 4:53:54 PM