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1º EDIÇÃO - 2019 SÃO PAULO - SP DIRETO AMBIENTAL E LEGISLAÇÃO ELISANGELA SZCARD 1º EDIÇÃO - 2019 SÃO PAULO - SP DIRETO AMBIENTAL E LEGISLAÇÃO Elisangela Szcard DIRETO AMBIENTAL E LEGISLAÇÃO EXPEDIENTE COORDENAÇÃO GERAL Nelson Boni COORDENAÇÃO/ PROJETO GRÁFICO E CAPA João Guedes COORDENAÇÃO DE PROJETOS PEDAGÓGICOS Hikaro Queiroz COORDENAÇÃO DE REVISÃO ORTOGRÁFICA Esthela Malacrida AUTORA Elisangela Szcard DIAGRAMAÇÃO João Antônio P. A. Lima 1º EDIÇÃO - 2019 SÃO PAULO - SP Sumário UNIDADE 1 – DIREITO AMBIENTAL E MEIO AMBIENTE ������������������������������������������������� 5 CAPÍTULO 1 – DIREITO AMBIENTAL �����������������������������6 CAPÍTULO 2 – CONSTITUIÇÃO FEDERAL E O MEIO AMBIENTE ������������������������������������������������������28 UNIDADE 2 – POLITICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE E RESPONSABILIDADE POR DANOS AMBIENTAIS ����������������������������������� 55 CAPÍTULO 3 – POLITICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE ������������������������������������������������������56 CAPÍTULO 4 – RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANOS AMBIENTAIS ����������������������������������������78 UNIDADE 3 – LICENCIAMENTO E CRIMES AMBIENTAIS ������������������������������������������� 100 CAPÍTULO 5 – LICENÇAS AMBIENTAIS ��������������������� 101 CAPÍTULO 6 – CRIMES AMBIENTAIS E LEGISLAÇÃO � 111 UNIDADE 4 – DIREITO AMBIENTAL E ECONÔMICO � 144 CAPÍTULO 7 – DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO SUSTENTÁVEL E O DIREITO AMBIENTAL ECONÔMICO �������������������������������������� 145 CAPÍTULO 8 – INSTRUMENTOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS AMBIENTAIS SUSTENTÁVEIS ������������������������������������������������������ 154 UNIDADE 1 DIREITO AMBIENTAL E MEIO AMBIENTE CAPÍTULO 1DIREITO AMBIENTAL –DIREITO AMBIENTAL– 7 O direito ambiental, ciência dotada de autonomia cien- tífica, apesar de apresentar caráter interdisciplinar, obedece a princípios específicos, pois, de outra forma, dificilmente se obteria a proteção eficaz pretendida sobre o meio ambiente. Nesse sentido, seus princípios caracterizadores têm como escopo fundamental orientar o desenvolvimento e a aplicação de políticas públicas que servem como instrumento fundamental de proteção ao meio ambiente e, consequente- mente, à vida humana. Direito ambiental é um ramo do Direito que estuda as relações jurídicas ambientais, observando a natureza cons- titucional, difusa e transindividual dos direitos e interesses ambientais, buscando a sua proteção e efetividade. Fundamenta-se em diversos princípios, tais como: aces- so equitativo aos recursos naturais, prevenção, reparação, qualidade, participação popular e publicidade. 1.1 Princípios do Direito Ambiental São princípios que permitem compreender a autonomia do Direito Ambiental em face dos outros ramos do Direito e que auxiliam no entendimento e na identificação da unidade e coerência existentes entre todas as normas jurídicas que compõem o sistema legislativo ambiental. É dos princípios que se extraem as diretrizes básicas que permitem compreender a forma pela qual a proteção do meio ambiente é vista na sociedade e que servem de critério básico e inafastável para a exata inteligência e interpreta- ção de todas as normas que compõem o sistema jurídico –DIREITO AMBIENTAL– 8 ambiental, condição indispensável para a boa aplicação do Direito nessa área. Podemos citar: a) Princípio do acesso equitativo Segundo o princípio do acesso equitativo aos recursos naturais, os bens ambientais devem ser utilizados de forma a satisfazer as necessidades comuns de todos os habitantes da Terra, orientando-se sempre pela igualdade de oportunidades na sua fruição. Além disso, devem ser explorados de tal modo que não haja risco de serem exauridos, resguardando-os para as futuras gerações. b) Princípio da prevenção ou precaução O princípio da prevenção ou precaução prescreve que as normas de direito ambiental devem sempre se orientar para o fato de que é necessário que o meio ambiente seja preservado e protegido como patrimônio público. A prevenção aplica-se tanto a situações onde há certeza, quanto aos riscos de danos ambientais e também às situações onde existem dúvidas e incertezas. A finalidade ou o objetivo final do princípio da pre- venção é evitar que o dano possa chegar a produzir-se. Para tanto, necessário se faz adotar medidas preventivas. A efetiva consolidação do princípio da precaução tem lugar a partir da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992. –DIREITO AMBIENTAL– 9 Este princípio afirma que no caso de ausência da certeza científica formal, a existência do risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam prever, minimizar e/ou evitar este dano. Assim, se, por exemplo, na permissão ou autorização de uma obra ou de um novo agrotóxico há incerteza sobre a existência ou probabilidade de danos à saúde pública ou à natureza, tal atividade, em observância ao princípio da pre- caução, não deverá ser autorizada ou, pelo menos, deverão ser tomadas medidas preventivas que afastem os riscos. Enfim, prevenir é agir antecipadamente a fim de evitar danos graves e irreparáveis ao meio ambiente. De outro lado, antes de ser colocada a questão “há cer- teza quanto a possibilidade de dano?”, deve ser feita outra pergunta, mais importante que a primeira: “precisamos real- mente desta atividade?”. Ou seja, deve ser questionado, antes de tudo, se a atividade atende ao bem comum e, apenas em caso afirmativo, questionar-se quanto aos impactos no meio ambiente e às formas de prevenção. O principal instrumento na aplicação deste princípio é o Estudo de Impacto Ambiental, analisado mais adiante. Diante de tais constatações, é possível delinear uma nítida diferença entre o princípio da prevenção e o princípio da precaução. O princípio da prevenção é aplicado quando são conhecidos os males provocados ao meio ambiente decor- rentes da atividade potencialmente predadora ou poluidora, possuindo elementos seguros para afirmar se a atividade é efetivamente perigosa (atividades sabidamente perigosas). –DIREITO AMBIENTAL– 10 Como exemplo, temos as atividades de mineração, nas quais os impactos sobre o meio ambiente são notórios. Por outro lado, quando não se conhece o impacto de atividades potencialmente causadoras de degradação ambiental, deve se aplicar o princípio da precaução, ou seja, como não se tem certeza quanto aos possíveis efeitos negativos, por pre- caução, impõem-se restrições ou impede-se a intervenção no meio ambiente até que se comprove que a atividade não acarreta efeitos adversos ao meio ambiente. Podemos citar, como exemplo, as discussões sobre os impactos, ainda des- conhecidos, dos alimentos transgênicos (OGM-Organismos Geneticamente Modificados) e da radiofrequência das antenas de telefonia celular ao meio ambiente e à saúde humana. c) Princípio da reparação O princípio da reparação, decorrente do princípio da prevenção, orienta que aquele que causar lesão a bens am- bientais deve ser responsabilizado por seus atos, reparando ou indenizando, de forma adequada, os danos causados. Evitar a incidência de danos ambientais é melhor que remediá-los. Essa é a ideia chave dos princípios da preven- ção e da precaução, já que as sequelas de um dano ao meio ambiente muitas vezes são graves e irreversíveis. Tais princípios se caracterizam como dois dos mais im- portantes em matéria ambiental, tendo em vista a tendência atual do direito internacional do meio ambiente, orientado mais no sentido da prevenção do que no da reparação. –DIREITO AMBIENTAL– 11 d) Princípio da qualidade O princípio da qualidade prescreve que as normas de direito ambiental devem se orientar para o fato de que o meio ambiente deve ter qualidade propícia a vida saudável e ecologicamente equilibrada. e) Princípio da participação popular O princípio da participação popular é também chamado de princípio democrático ou de princípioda gestão demo- crática e deve ser aplicado tanto em relação aos três Poderes ou funções do Estado. No que diz respeito ao Poder Executivo, esse princípio se manifesta por exemplo através da participação da sociedade civil nos Conselhos de Meio Ambiente e do controle social em relação a processos e procedimentos administrativos como o licenciamento ambiental e o estudo e relatório de impacto ambiental. Em relação ao Poder Legislativo, esse princípio se mani- festa por exemplo através de iniciativas populares, plebiscitos e referendos de caráter ambiental e da realização de audiên- cias públicas que tenham o intuito de discutir projetos de lei relacionados ao meio ambiente. No que concerne ao Poder Judiciário, esse princípio se manifesta por exemplo através da possibilidade dos ci- dadãos individualmente, por meio de ação popular, e do Ministério Público, da organizações não governamentais, de sindicatos e de movimentos sociais de uma forma geral, por meio de ação civil pública ou de mandado de segurança –DIREITO AMBIENTAL– 12 coletivo, questionarem judicialmente as ações ou omissões do Poder Público ou de particulares que possam repercutir negativamente sobre o meio ambiente. O princípio da gestão democrática, decorre da necessi- dade de uma democracia participativa, bem como do fato de que cuidar do meio ambiente não é tarefa apenas do Estado, mas de toda a sociedade civil. Assim, é fundamental um es- paço de diálogo e cooperação entre os diversos atores sociais, seja para a formulação e execução de uma política e de ações ambientais, seja para a solução de problemas. Como exemplo deste princípio temos as audiências públicas e os conselhos de recursos hídricos. Diz respeito não apenas ao meio ambiente, mas a tudo o que for de interesse público. Na verdade, a democracia participativa também é consagrada por diversos dispositivos da Constituição Federal, como o parágrafo único do art. 1º, que dispõe que o poder é exercido por meio de representantes eleitos ou diretamente pelo povo. Entretanto, no que diz respeito ao meio ambiente o prin- cípio da gestão democrática é ainda mais importante, visto que se trata de um direito difuso que em regra não pertence a nenhuma pessoa ou grupo individualmente considerado. A realidade tem mostrado que é praticamente impos- sível que o Poder Público consiga acabar ou diminuir a de- gradação ambiental sem a participação da sociedade civil. Por sua vez, o princípio da publicidade ou da informação decorre do princípio da participação e visa assegurar sua efi- cácia. Assim, toda a informação referente ao meio ambiente é –DIREITO AMBIENTAL– 13 pública, vale dizer, qualquer cidadão pode ter acesso a ela. A informação visa garantir ao cidadão a possibilidade de tomar posições ou intervir em determinada matéria, e refere-se tanto a documentos, como relatórios de impacto ambiental, até estudos realizados sobre o meio ambiente. Estes princípios se especializam nos seguintes mandamentos: I – Ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico, considerando o meio ambiente como um patrimô- nio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo; II – Racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar; III – Planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais; IV – Proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas representativas; V – Controle e zoneamento das atividades, potencial ou efetivamente, poluidoras; VI – Incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologia orientadas para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais; VII – Acompanhamento do estado da qualidade ambiental; VIII – Recuperação de áreas degradadas; IX – Proteção de áreas ameaçadas de degradação; –DIREITO AMBIENTAL– 14 X – Educação ambiental a todos os níveis do ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para a defesa ativa do meio ambiente. Esses princípios estão consolidados no art. 225 e pará- grafos da Constituição Federal e na Lei 6938/81, que esta- belece os objetivos da Política Nacional de Meio Ambiente e tem sua execução regulamentada pelo Decreto 99.274/90. f) Princípio do Poluidor-Pagador (PPP) O objetivo do princípio do poluidor-pagador é forçar a iniciativa privada a internalizar os custos ambientais gerados pela produção e pelo consumo na forma de degradação e de escasseamento dos recursos ambientais. Esse princípio estabelece que quem utiliza o recurso ambiental deve suportar seus custos, sem que essa cobrança resulte na imposição de taxas abusivas, de maneira que nem Poder Público nem terceiros sofram com tais custos. Ao causar uma degradação ambiental, o indivíduo inva- de a propriedade de todos os que respeitam o meio ambiente e afronta o direito alheio. O princípio do poluidor-paga- dor foi introduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 26 de maio de 1972 por meio da Recomendação C(72) 128 do Conselho Diretor, que trata da relação entre as políticas ambiental e econômica. A segunda parte do inciso VII do art. 4º da Lei nº 6.938/81 prevê o princípio do poluidor-pagador, ao deter- minar que a Política Nacional do Meio Ambiente, visará –DIREITO AMBIENTAL– 15 à imposição ao usuário de contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos. A Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento também dispôs sobre o princípio do po- luidor-pagador ao estabelecer no Princípio 16 que “Tendo em vista que o poluidor deve, em princípio, arcar com o custo decorrente da poluição, as autoridades nacionais de- vem procurar promover a internacionalização dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, levando na devida conta o interesse público, sem distorcer o comércio e os investimentos internacionais”. Embora no Direito Ambiental vigore o Princípio da Responsabilidade Civil, não podemos reduzir o princípio do poluidor-pagador a um princípio de responsabilidade. Isso porque as sanções civis têm efeito preventivo que pressupõe a ocorrência de um dano ao meio ambiente e, principalmente, porque as atividades poluidoras se apresentam lucrativas, seja pela possibilidade de não pagamento, seja pelo lucro líquido auferido com a atividade, mesmo que seja obrigado a indenizar. Contudo, o seu objetivo não é recuperar um bem lesado nem criminalizar uma conduta lesiva ao meio ambiente, e sim afastar o ônus econômico da coletividade e voltá-lo para a atividade econômica utilizadora de recursos ambientais. O PPP parte da constatação de que os recursos am- bientais são escassos e o seu uso na produção e no consumo acarretam a sua redução e degradação. Ora, se o custo da redução dos recursos naturais não for considerado no sistema –DIREITO AMBIENTAL– 16 de preços, o mercado não será capaz de refletir a escassez. Em assim sendo, são necessárias políticas públicas capazes de eliminar a falha de mercado, de forma a assegurar que os preços dos produtos reflitam os custos ambientais. O princípio do poluidor-pagador visa a fazer com que o empreendedor inclua nos custos de sua atividade todos as despesas relativas à proteção ambiental. A poluição dos recursos ambientais, de uma maneira geral, e especialmente em se tratando daqueles bens mais facilmente encontrados na natureza, como a água, o ar e o solo, por conta da natureza difusa, é normalmente custeada pelo Poder Público. Em termos econômicos, esse custo é um subsídio à ati- vidade econômica poluidora, já que não está sendo levado em conta os prejuízos sofridos pela sociedade que ocorrem tanto quando a coletividade sente os efeitos da poluição quando os cofres públicos deixam de aplicar seu dinheiro em outra finalidade para descontaminar uma determinada região ou um determinado recurso ambiental. O objetivo do princípio do poluidor-pagador é evitar que ocorra a simples privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos dentro de uma determinada atividadeeconômica. Os recursos ambientais, de uma forma geral, e prin- cipalmente aqueles encontrados em maior abundância na natureza, como a água (no caso de determinadas regiões do Brasil e do mundo), o ar e a areia, são historicamente degradados por determinados setores econômicos, que têm obtido o lucro à revelia do prejuízo sofrido pela coletividade. –DIREITO AMBIENTAL– 17 Trata-se de uma espécie de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos, o que significa um enriqueci- mento ilícito, visto que, de acordo com o caput do art. 225 da Constituição Federal, o meio ambiente é um “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida”. O PPP leva em conta que os recursos ambientais são escassos, portanto, sua produção e consumo geram reflexos ora resultando sua degradação, ora resultando sua escassez. Além do mais, ao utilizar gratuitamente um recurso ambiental, está se gerando um enriquecimento ilícito, pois como o meio ambiente é um bem que pertence a todos. Boa parte da comunidade nem utiliza um determinado recurso ou, se utiliza, o faz em menor escala. g) Princípio da responsabilidade O princípio da responsabilidade faz com que os respon- sáveis pela degradação ao meio ambiente sejam obrigados a arcar com a responsabilidade e com os custos da reparação ou da compensação pelo dano causado. A responsabilidade ambiental, ou seja, a responsabili- dade pelos danos causados ao meio ambiente, tem expressa previsão constitucional, no parágrafo 3º do artigo 225, se- gundo o qual as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independente- mente da obrigação de reparar os danos causados. Deve ser implementada levando-se em conta os fa- tores de singularidade dos bens ambientais atingidos, da –DIREITO AMBIENTAL– 18 impossibilidade ética de se quantificar o preço da vida e, sobretudo, que a responsabilidade ambiental deve ter um sentido pedagógico tanto para o poluidor como para a própria sociedade, de forma que todos possamos aprender a respeitar ao meio ambiente. h) Princípio do limite A expressão mais notável da aplicação do princípio do limite faz-se quando a Administração Pública estabelece pa- drões de qualidade ambiental que se concretizam em limites de emissões de partículas, de limites aceitáveis de presença de determinados produtos na água etc. A Administração Pública tem a obrigação de fixar limi- tes máximos de emissões de matérias poluentes, de ruído, enfim, de tudo que possa implicar prejuízos para os recursos ambientais e à saúde humana. A violação dos limites fixados deve ser sancionada. Há uma importante questão a ser examinada, que é a de saber qual o parâmetro a ser adotado quando da ocasião da fixação dos padrões. A fixação de parâmetros de forma que estes possam estimular o desenvolvimento tecnológico, com vistas ao alcance de índices mais baixos de emissão de partículas, mais elevados de pureza da água e do ar, é um importante elemento para que se alcance a modernização tecnológica e a ampliação dos investimentos em pesquisas de proteção ambiental. –DIREITO AMBIENTAL– 19 i) Princípio do usuário pagador O referido princípio exige uma forma de limitação do uso de recursos ambientais mediante a cobrança de contra- prestação, de modo que a gratuidade possa ensejar o con- sumo exacerbado do bem ambiental passível de escassez. Pretende-se que ao ser cobrado pelo consumo, o usuário seja incentivado a utilização com moderação para que não haja diminuição significativa do recurso natural ou sua escassez no futuro. Esse princípio foi plenamente agasalhado pelo artigo 19 da Lei 9.433/97, que, de forma didática, demonstram os objetivos da cobrança de recursos hídricos, in verbis: Art. 19. A cobrança pelo uso de recursos hídricos objetiva: I – reconhecer a água como bem econômico e dar ao usuário uma indicação de seu real valor; II – incentivar a racionalização do uso da água; III – obter recursos financeiros para o financiamento dos programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos. j) Princípio do desenvolvimento sustentável O princípio do desenvolvimento sustentável consiste na exploração do meio ambiente de forma a conservá-lo, procurando-se não esgotar os recursos naturais existentes, com vistas a sua manutenção em condições adequadas para o futuro. –DIREITO AMBIENTAL– 20 A Constituição Federal possui um dispositivo que foi redigido com base na concepção de um meio ambiente sus- tentável, qual seja, o art. 225, VII, que dispõe que devemos “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práti- cas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade” O princípio do desenvolvimento sustentável, além de impregnado de caráter eminentemente constitucional, en- contra suporte legitimador em compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro e representa fator de ob- tenção do justo equilíbrio entre as exigências da economia e as da ecologia, subordinada, no entanto, a invocação desse postulado, quando ocorrente situação de conflito entre va- lores constitucionais relevantes, a uma condição inafastável, cuja observância não comprometa nem esvazie o conteúdo essencial de um dos mais significativos direitos fundamen- tais: o direito à preservação do meio ambiente, que traduz bem de uso comum da generalidade das pessoas, a ser res- guardado em favor das presentes e futuras gerações (...). A atividade econômica não pode ser exercida em desarmonia com os princípios destinados a tornar efetiva a proteção ao meio ambiente. k) Princípio da educação ambiental Tendo em vista a demanda por preservação ambiental em face dos grandes fenômenos que têm atormentado a sociedade, é pertinente se ressaltar o desafio que se impõe acerca de uma educação ambiental crítica e inovadora, que –DIREITO AMBIENTAL– 21 compreenda ainda dois níveis o formal e o informal, como preceitua a lei n° 9.795/99 que dispõe sobre a educação ambiental e cria a Política Nacional de Educação Ambiental no Brasil. Educação ambiental como ato político capaz de promover a transformação social. Contudo, entende-se a necessidade de uma ação que compreenda sociedade e meio ambiente como um todo in- decomponível, já que os recursos naturais são bens que, de certa forma, se esgotam e que o homem é o principal consu- midor dos mesmos e, ainda, o primeiro agente degradador. Logo, educação ambiental é entendida mais como um instrumento a serviço do poder, da colonização da subjeti- vidade e dos desejos humanos. Mais precisamente, a educação ambiental, hoje, é re- lacionada ao tema desenvolvimento sustentável e percebida como condição essencial para se modificar a estrutura econô- mica global, além, é claro, de se garantirem ações favoráveis à redução do quadro de degradação ambiental. Mas, insiste-se na premissa de que a educação ambien- tal, no atual contexto social, não seja suficiente, já que essa se mostra, justamente, como uma ferramenta aplicada na mediação entre culturas, comportamentos e interesses de grupos sociais diversos, a fim de se constituir transformações sociais pré-definidas, favorecendo, certamente, a determina- dos grupos políticos. No entanto, é oportuno que se ressaltem os princípios fundamentais da educação ambiental. Educar, nesse sentido, implica oferecer métodos efi- cazes e pertinentes ao desenvolvimento de práticas sociais –DIREITO AMBIENTAL– 22 centradas, essencialmente, no conceito de natureza, e não na lógica capitalista. Deve, ainda, a educação ambiental promo- ver a reflexão sobre as dimensões do progresso humano, sobre o impacto que este causa ao meio ambiente em detrimento do desenvolvimento tecnológico, em especial. Deve-se reconhecer a educação ambiental como um processo político dinâmico, em permanente construção, orientado por valores baseados na transformaçãosocial. Nesse sentido, a iniciativa das Nações Unidas de implementar a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014) e o de 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade, ano que reforçou mundialmente a susten- tabilidade a partir da educação. A educação ambiental deve ser uma concepção totali- zadora de Educação e que é possível quando resulta de um projeto político-pedagógico orgânico, construído coletiva- mente na interação escola e comunidade, e articulado com os movimentos populares organizados comprometidos com a preservação da vida em seu sentido mais profundo. Seria, portanto, com o auxílio da escola, que a educa- ção ambiental assumiria verdadeiramente a sua função, a de aprofundar conhecimentos sobre questões ambientais, como também criar espaços para a participação coletiva, ressaltando princípios e valores éticos que integrem o homem moderno à natureza. A educação ambiental tem por escopo desenvolver a hegemonia popular, a transformação do contexto social, e não o reproduzir de modo a fazer os cidadãos máquinas –DIREITO AMBIENTAL– 23 destrutivas da natureza. Então, como componente de cida- dania, a educação ambiental implica em novos métodos de ensino, novos saberes, que sejam proficientes e compreendam a complexa relação homem/natureza. 1.2 Estudos de Impactos Ambientais O princípio da prevenção é o maior alicerce, por exem- plo, do Estudo de Impacto Ambiental - E.IA. - (art. 225, parágrafo 1°, inciso IV, da Constituição de 1988) realizado pelos interessados antes de iniciada uma atividade poten- cialmente degradadora do meio ambiente, dentre outras medidas preventivas a serem exigidas pelos órgãos públicos. De acordo com a Associação Internacional para Avaliação de Impacto – IAIA (do inglês International Association for Impact Assessment), avaliação de impacto ambiental é o processo de identificar as consequências futuras de uma ação presente ou proposta. Trata-se de uma defini- ção bastante concisa, mas já revela uma das características fundamentais da Avaliação de impacto Ambiental - AIA, que é avaliação prévia dos impactos de um projeto, visando evi- tar ou prevenir a ocorrência de efeitos indesejáveis ao meio ambiente devido à implantação de um projeto. Outras características importantes da AIA são: • Trata-se de um processo sistemático de avaliação ambiental, que é composto por várias etapas caracte- rísticas, ou seja, triagem; definição de conteúdo dos estudos; descrição do projeto; descrição do ambiente –DIREITO AMBIENTAL– 24 a ser afetado; identificação, previsão e avaliação dos impactos significativos e das medidas mitigadoras; apresentação dos resultados; processo de revisão dos estudos e tomada de decisão. A AIA deve ser um processo cíclico, com interações consideráveis entre os vários passos; • A AIA é realizada para apoiar a tomada de decisão sobre a autorização ou licenciamento de um novo projeto, fornecendo aos tomadores de decisão infor- mações sobre as prováveis consequências de suas ações; • O processo de AIA prevê consulta e participação pública, isto é, o envolvimento público na realização dos estudos e na tomada de decisão. A AIA é uma ferramenta de gestão ambiental antecipa- tória e participativa, da qual o Estudo de Impacto Ambiental é apenas uma parte. No Brasil, projetos de grande porte, financiados por organismos multilaterais, foram submetidos à Avaliação de Impacto Ambiental, como por exemplo, a Usina Hidrelétrica de Sobradinho, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí etc. Tais experiências promoveram a inclusão do AIA como um dos instrumentos da Política Nacional de Meio Ambiente, Lei nº 6938/81, em associação ao licenciamento das atividades utilizadoras dos recursos ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras. Em 1986, foi editada a Resolução Conama 01/86, esta- belecendo as definições, responsabilidades, critérios básicos –DIREITO AMBIENTAL– 25 e as diretrizes para o uso e implementação da avaliação de impacto ambiental, aplicado ao licenciamento ambiental de determinadas atividades modificadoras do meio ambiente. Entre os aspectos relevantes da citada resolução, podemos destacar: • prevê que o estudo de impacto ambiental contemple alternativas tecnológicas e de localização do projeto (inciso I do art. 5º); • define o conteúdo básico do Estudo de Impacto Ambiental, ou seja: diagnóstico, análise dos impac- tos ambientais, definição de medidas mitigadoras, e proposição de programas de monitoramento e acompanhamento (Art. 6º); • sugere a execução de audiência pública para infor- mação sobre o projeto e seus impactos ambientais e discussão do RIMA (parágrafo segundo do artigo 11º). No artigo 225 da Constituição Federal de 1988, dedicado ao meio ambiente, foi incluída a obrigação do Poder Público de exigir a elaboração de AIA para instalação de obra ou ati- vidade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente. Em 19 de dezembro de 1997, foi editada a Resolução do CONAMA nº 237, que regulamentou, em normas gerais, as competências para o licenciamento nas esferas federal, esta- dual e distrital e as etapas do procedimento de licenciamento. A Resolução CONAMA nº 237/97 conferiu ainda ao órgão ambiental a competência para a definição de outros estudos ambientais pertinentes ao processo de licenciamento, –DIREITO AMBIENTAL– 26 em se verificando que o empreendimento não é potencial- mente causador de significativa degradação ambiental. 1.2.1 Relevância ambiental e social De acordo com o Banco Mundial, a avaliação de impacto ambiental permite identificar problemas na etapa inicial do ciclo de um projeto; introduz melhorias ambientais no pro- jeto; evita, mitiga, e compensa os efeitos adversos do projeto. Com base em estudo realizado na Dinamarca com es- tudos de impacto ambiental realizados entre 1989 e 2004, a conclusão geral é que o EIA gera um número significativo de mudanças nos projetos. Em, aproximadamente, 50% dos casos estudados, modificações foram feitas antes da conclusão do estudo e sua apresentação ao órgão licenciador. Durante o processo de avaliação, modificações foram feitas em mais de 90% dos casos, embora em grande parte se tratassem de mudanças de pouca significância. As mudanças mais significativas eram feitas em obras de infraestrutura. A Convenção da Biodiversidade reconhece a avaliação de impac- to como uma ferramenta importante para garantir que o pla- nejamento do empreendimento contemple a biodiversidade. A avaliação de impactos sociais, que é geralmente rea- lizada no âmbito dos estudos ambientais, aumenta a legiti- midade do empreendimento, e pode facilitar o processo de implantação, removendo as incertezas do processo, tanto da comunidade como do empreendedor. Além desses benefícios, de acordo com a Agência Canadense de Avaliação Ambiental (Canadian Enviromental –DIREITO AMBIENTAL– 27 Assessment Agency), a avaliação de impacto permite uma melhor tomada de decisão sobre empreendimentos, com di- versos benefícios, incluindo oportunidade para participação pública, maior proteção para a saúde humana, redução de riscos de danos ou desastres ambientais, etc. 1.2.2 AIA e a gestão ambiental O objetivo da avaliação de impacto ambiental é assegu- rar a realização de gestão ambiental efetiva dos projetos de desenvolvimento. Para tanto, devem ser previstas no processo de licenciamento ambiental, ferramentas de gestão capazes de garantir que as medidas mitigadoras e compensatórias previstas na fase de aprovação da viabilidade ambiental do projeto, sejam efetivamente implementadas durante a im- plantação e operação do empreendimento. A prática tem mostrado que, considerando o grande porte, o alto investimento e o grande número de trabalhado- res envolvidos na execução e operação dos empreendimen- tos licenciados com AIA, para se ter a eficácia pretendida, é necessário que tais medidas venham compor Programas Ambientais. Nestes Programas são contempladosos prin- cípios de gestão ambiental, conforme a série ISO 14.000, ou seja, o planejamento, a definição de responsáveis, os procedimentos ambientalmente adequados; as formas de verificação e registros, incluindo as não conformidades, etc.