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Protocolos e Diretrizes Clínicas Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto setembro/2020 Protocolos e Diretrizes Clínicas 2 PREVENÇÃO E MANEJO DA HEMORRAGIA PÓS- PARTO setembro/2020 Esta é a última versão deste protocolo e é válida até nova revisão SUMÁRIO GRUPO ELABORADOR DO PROTOCOLO (GEP) .............................................................................5 ESCOPO E OBJETIVOS ..........................................................................................................................6 OBJETIVOS GERAIS ......................................................................................................................... 6 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ................................................................................................................ 6 A QUEM ESSE PROTOCOLO SE DESTINA ........................................................................................... 6 PROFISSIONAIS/USUÁRIOS DO PROTOCOLO ..................................................................................... 6 METODOLOGIA DE ELABORAÇÃO/REVISÃO ..................................................................................7 QUEM ELABOROU ESTE PROTOCOLO ............................................................................................... 7 PROCESSO PARA REVISÃO DESTE PROTOCOLO................................................................................ 7 AVALIAÇÃO, SÍNTESE, CLASSIFICAÇÃO DAS EVIDÊNCIAS E FORÇA DAS RECOMENDAÇÕES ................... 8 DEFINIÇÕES/DIAGNÓSTICO/CLASSIFICAÇÃO DA HPP ...............................................................9 ETIOLOGIA ...............................................................................................................................................10 PLANEJAMENTO, PREVENÇÃO E PRONTIDÃO ............................................................................11 IDENTIFICAÇÃO DE FATORES DE RISCO........................................................................................... 11 Baixo risco .............................................................................................................................. 11 Médio risco ............................................................................................................................. 11 Alto risco ................................................................................................................................. 12 Além do mais .......................................................................................................................... 12 MANEJO ATIVO DO TERCEIRO PERÍODO .......................................................................................... 12 Ocitocina ................................................................................................................................. 12 Tração controlada do cordão ................................................................................................. 14 Massagem uterina .................................................................................................................. 15 OUTRAS MEDIDAS PREVENTIVAS E DE PRONTIDÃO .......................................................................... 15 RECONHECIMENTO ...............................................................................................................................16 QUANTIFICAÇÃO DA PERDA SANGUÍNEA ......................................................................................... 16 MANEJO DA HEMORRAGIA ................................................................................................................19 Tônus .............................................................................................................................................. 22 Trauma ............................................................................................................................................ 22 Tecido ............................................................................................................................................. 22 Trombina ......................................................................................................................................... 22 TAMPONAMENTO UTERINO COM BALÃO ......................................................................................28 USO DE SANGUE E HEMOCOMPONENTES NA HEMORRAGIA PÓS-PARTO .......................33 RECOMENDAÇÕES GERAIS ............................................................................................................ 33 RECOMENDAÇÕES DE ACORDO COM OS HEMOCOMPONENTES ........................................................ 34 Concentrado de hemácias (CHM) ......................................................................................... 34 Plasma fresco congelado (PFC) ............................................................................................ 34 Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 3 Plaquetas ................................................................................................................................ 34 Crioprecipitado ....................................................................................................................... 35 TRATAMENTO CIRÚRGICO DA HEMORRAGIA PÓS-PARTO .....................................................36 ORGANIZAÇÃO E EQUIPE ............................................................................................................... 36 LAPAROTOMIA .............................................................................................................................. 36 MEDIDAS TEMPORÁRIAS PARA ESTABILIZAÇÃO DE PACIENTES HEMODINAMICAMENTE INSTÁVEIS ....... 37 Pacientes com risco iminente de exsanguinação ................................................................. 37 Compressão manual da aorta ........................................................................................................ 37 Pacientes sem risco iminente de exsanguinação ................................................................. 38 Torniquete Uterino .......................................................................................................................... 38 Empacotamento pélvico ................................................................................................................. 39 TRATAMENTO CIRÚRGICO DEFINITIVO ............................................................................................ 39 Desvascularização uterina progressiva ................................................................................. 40 Suturas uterinas compressivas .............................................................................................. 42 Técnica de B-Lynch ........................................................................................................................ 42 Técnica de Barbosa da Silva .......................................................................................................... 42 Técnica de Hayman ........................................................................................................................ 43 Histerectomia.......................................................................................................................... 47 Controle de danos para sangramento persistente ................................................................ 47 Laparostomia com bolsa de Bogotá ............................................................................................... 47 Laparostomia com bolsa de Bogotá com sistema de drenagem .................................................. 47 Tamponamento guarda-chuva ....................................................................................................... 49 Cuidados após controle de danos/empacotamento abdominal ....................................................52 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................................53 ANEXO 1 - MANUFATURA DO BALÃO INTRAUTERINO ARTESANAL DE ALVES ...............58 ANEXO 2 – PROTOCOLO DE TRANSFUSÃO MACIÇA DA AGÊNCIA TRANSFUSIONAL DO HOSPITAL SOFIA FELDMAN ...............................................................................................................62 ÍNDICE DE TABELAS TABELA 1. Sinais e sintomas de choque resultantes de perda sanguínea ................................ 10 TABELA 2. Mnemônico para as causas específicas de HPP – Os Quatro Ts ........................... 10 ÍNDICE DE QUADROS QUADRO 1 - Esquema para profilaxia de hemorragia pós-parto em cesariana ........................ 14 QUADRO 2 – Cuidados após o parto para reconhecimento precoce e redução de risco de hemorragia ..................................................................................................................................... 16 QUADRO 3 – Quantificação da perda sanguínea após parto vaginal ........................................ 17 QUADRO 4 – Quantificação da perda sanguínea em cesariana ................................................ 18 QUADRO 5 – Quantificação da perda sanguínea em caso de laparotomia ............................... 19 QUADRO 6 – Técnica para tamponamento uterino com balão hemostático por via vaginal ..... 29 QUADRO 7 – Técnica para tamponamento uterino com balão hemostático durante cesariana 30 Protocolos e Diretrizes Clínicas 4 ÍNDICE DE FIGURAS FIGURA 1: Compressão uterina por via abdominal (manobra de Chantrapitak) ........................ 26 FIGURA 2: Compressão uterina bimanual por via vaginal/abdominal (manobra de Hamilton) . 27 FIGURA 3 – Balão de Bakri para tamponamento uterino ............................................................ 31 FIGURA 4 - Balão artesanal de Alves para o tamponamento uterino ......................................... 31 FIGURA 5 – Técnica de Matsubara para inserção do balão de tamponamento uterino pela via abdominal ...................................................................................................................................... 32 FIGURA 6 - “Método nelaton” associado a “amarra” do tree-way para inserção do balão de tamponamento uterino pela via abdominal ................................................................................... 32 FIGURA 7 - Compressão aórtica com o punho fechado .............................................................. 37 FIGURA 8 - Pontos de compressão aórtica ................................................................................. 38 FIGURA 9 – Torniquete uterino .................................................................................................... 39 FIGURA 10 – Desvascularização uterina progressiva ................................................................. 41 FIGURA 11 - Sutura uterina compressiva de B-Lynch ................................................................ 44 FIGURA 12 - Técnica de Barbosa da Silva .................................................................................. 45 FIGURA 14 – Associação da tríplice ligadura de Tsirulnikov e sutura uterina compressiva de Hayman .......................................................................................................................................... 46 FIGURA 15 – Laparostomia com bolsa de Bogotá ...................................................................... 48 FIGURA 16 - Laparostomia com duas bolsas de Bogotá e sistema de drenagem..................... 49 FIGURA 18 – Técnica de empacotamento pélvico adaptando um balão de tamponamento uterino ............................................................................................................................................ 50 FIGURA 17 – Pacote construído com sacola de filmes de rx ...................................................... 50 file://///Users/joaobatista/Documents/Sofia%20Feldman/Protocolos%20e%20Diretrizes%20Clínicas/Em%20revisão:elaboração/Protocolo%20HPP%20Sofia/Hemorragia%20pós-parto_2020_09_final.docx%23_Toc51682225 file://///Users/joaobatista/Documents/Sofia%20Feldman/Protocolos%20e%20Diretrizes%20Clínicas/Em%20revisão:elaboração/Protocolo%20HPP%20Sofia/Hemorragia%20pós-parto_2020_09_final.docx%23_Toc51682226 file://///Users/joaobatista/Documents/Sofia%20Feldman/Protocolos%20e%20Diretrizes%20Clínicas/Em%20revisão:elaboração/Protocolo%20HPP%20Sofia/Hemorragia%20pós-parto_2020_09_final.docx%23_Toc51682227 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Coordenador do GEP. Álvaro Luis Lage Alves Médico Obstetra do Hospital Sofia Feldman e do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Doutor em Ginecologia e Obstetrícia. Débora Lucas Gonçalves Viana Enfermeira Obstétrica. Mestre em Enfermagem. Especialista em Trauma, Emergência e Terapia Intensiva. Coordenadora da Unidade de Gestação de Alto Risco e Coordenadora do Programa de Residência em Enfermagem Obstétrica do Hospital Sofia Feldman. Gustavo Henrique de Abreu Caetano Médico anestesiologista. Coordenador da Clínica de Anestesiologia do Hospital Sofia Feldman Tácila Fagundes Lacerda Braga Rodrigues Enfermeira Obstétrica. Coordenadora do Pronto Atendimento e Coordenadora do Ensino Clínico do Programa de Residência em Enfermagem Obstétrica do Hospital Sofia Feldman Protocolos e Diretrizes Clínicas 6 ESCOPO E OBJETIVOS Objetivos gerais Este Protocolo tem como finalidades principais: • Sintetizar, avaliar e sumarizar a informação científica disponível em relação às práticas mais comuns para a prevenção e manejo da hemorragia pós-parto (HPP), fornecendo subsídios e recomendações a todos os envolvidos no cuidado. Objetivos específicos • Uniformizar e padronizar as práticas mais comuns utilizadas na prevenção e manejo da hemorragia pós-parto; A quem esse Protocolo se destina Esse Protocolo deverá servir de referência e orientação para a assistência a: • Mulheres grávidas durante o pré-natal, parto e até 42 dias pós-parto para prevenção e manejo da hemorragia pós-parto, incluindo transfusão e procedimentos e técnicas minimamente invasivas e cirúrgicas para o tratamento. As seguintes situações não serão cobertas pelo Protocolo: • Outras situações hemorrágicas da gravidez; • Manejo de inserções anômalas da placenta; • Técnicas de histerectomia. Os tópicos clínicos relacionados à assistência aparecem nas seções do Protocolo de acordo com a relevância definida pelo Grupo Elaborador e os achados da busca na literatura. Profissionais/usuários do Protocolo Audiência primária: • Todos os profissionais envolvidos diretamente na assistência ao parto no Hospital Sofia Feldman, tais como médicos obstetras, anestesiologistas; enfermeiras obstétricas, enfermeira intensivistas ou obstetrizes; enfermeiras assistenciais, técnicos de enfermagem, etc. • Todos os profissionais em processo de treinamento no Hospital Sofia Feldman, envolvidos diretamente na assistência, tais como especializandos e residentes de enfermagem obstétrica e médicos residentes de obstetrícia, e anestesiologia. Audiência secundária: Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 7 • Todos os profissionais envolvidos indiretamente na assistência no Hospital Sofia Feldman como psicólogos, assistentes socias etc. • Estudantes de graduação na prática de estágio curricular ou extra-curricular no Hospital Sofia Feldman envolvidos no processo de assistência; • As mulheres, seus familiares ou representantes, usuários da assistência no Hospital Sofia Feldman; • Doulas, educadores perinatais, etc. em atividade no Hospital Sofia Feldman METODOLOGIA DE ELABORAÇÃO/REVISÃO Quem elaborou este Protocolo Esse Protocolo foi revisado por dois médicos obstetras, um médico anestesiologista e duas enfermeiras obstétricas da equipe do Hospital Sofia Feldman, chamado Grupo Elaborador do Protocolo (GEP) que foi coordenado por um médico obstetra. Processo para revisão deste Protocolo Esse Protocolo foi revisado a partir de diretrizes e/ou protocolos já elaborados por outros grupos ou instituições e adaptadas ao contexto do HSF. Foi realizada uma busca por protocolos e diretrizes publicadas a partir de 2015 em inglês, espanhol, francês e português, para análise e potencial adaptação para. Publicações secundárias, cujas evidências tenham sido analisadas e sintetizadas através de metodologia padronizada, assim como alguns estudos primários e outros tipos de publicações consideradas relevantes pelo GEP, para responder a questões específicas não abordadas nas diretrizes e/ou protocolos encontrados, também foram incluídas na pesquisa. A combinação dos termos gerais utilizados para busca foram: (hemorragia pós-parto) E (transfusão maciça). Esses termos foram adaptados para os diferentes idiomas e bases de dados eletrônicas e foram utilizados filtros de acordo com o objetivo da pesquisa. A busca foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas e sítios da internet: Tripdatabase - http://www.tripdatabase.com GIN - http://www.g-i-n.net GPC Colômbia - http://gpc.minsalud.gov.co/gpc/SitePages/default_gpc.aspx NICE - http://www.nice.org.uk SIGN - http://www.sign.ac.uk http://www.tripdatabase.com/ http://www.g-i-n.net/ http://gpc.minsalud.gov.co/gpc/SitePages/default_gpc.aspx http://www.nice.org.uk/ http://www.sign.ac.uk/ Protocolos e Diretrizes Clínicas 8 ICSI - https://www.icsi.org HAS (França) - http://www.has-sante.fr Collége National des Gynécologues et Obstétriciens Français - http://www.cngof.fr/pratiques- cliniques/recommandations-pour-la-pratique-clinique?folder=RPC%2BCOLLEGE Bilbioteca de Guías de Práctica Clínica del Sistema Nacional de Salud (Espanha) - http://portal.guiasalud.es/web/guest/catalogo-gpc Projeto Diretrizes/Brasil - http://www.projetodiretrizes.org.br BIGG – Base Internacional de Guías GRADE - http://sites.bvsalud.org/bigg/biblio/ CMQCC – California Maternal Quality Care Collaborative - https://www.cmqcc.org UpToDate – https://www.uptodate.com/contents/search Google Scholar - Os documentos encontrados e que serviram de base para a revisão deste protocolo estão listados na bibliografia. Após análise das diretrizes e outras publicações, o grupo elaborador deste protocolo resolveu utilizar como fonte inicial para a sua elaboração/revisão o pacote de ferramentas do CMQCC – California Maternal Quality Care Collaborative (LYNDON, 2015). As outras publicações serviram como fontes secundárias de consulta. Avaliação, síntese, classificação das evidências e força das recomendações A avaliação, síntese e classificação das evidências foi realizada nos documentos que serviram de fonte para o protocolo. O grupo elaborador deste Protocolo/Diretriz decidiu não descrever e nem classificar as evidências, adaptando apenas as recomendações das diretrizes fonte. Entretanto, o uso do verbo deve ou outros verbos no infinitivo ou imperativo (ex. “realizar”, “realize”, “informar”, “informe”, etc.) se referem a recomendações onde existe uma forte confiança de que os efeitos desejáveis da intervenção superam os efeitos indesejáveis e o uso do negativo não precedendo estes verbos, se refere a recomendações onde os efeitos indesejáveis da intervenção superam os efeitos desejáveis. Quando os efeitos desejáveis de uma intervenção provavelmente superam os efeitos indesejáveis, mas a confiança na magnitude desses efeitos não é forte, utiliza-se o verbo considerar, significando que a intervenção pode ser utilizada em situações individuais a critério do profissional assistente. Foi mantida parte do texto da última versão do Protocolo/Diretriz, com atualização de acordo com a necessidade. Os interessados https://www.icsi.org/ http://www.has-sante.fr/ http://www.cngof.fr/pratiques-cliniques/recommandations-pour-la-pratique-clinique?folder=RPC%2BCOLLEGE http://www.cngof.fr/pratiques-cliniques/recommandations-pour-la-pratique-clinique?folder=RPC%2BCOLLEGEhttp://portal.guiasalud.es/web/guest/catalogo-gpc http://www.projetodiretrizes.org.br/ http://sites.bvsalud.org/bigg/biblio/ https://www.cmqcc.org/ https://www.uptodate.com/contents/search Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 9 em se aprofundar nos temas e avaliar as evidências que embasaram as recomendações podem consultar os documentos fonte da adaptação constantes da bibliografia. DEFINIÇÕES/DIAGNÓSTICO/CLASSIFICAÇÃO DA HPP Para fins deste protocolo as seguintes definições devem ser utilizadas para a hemorragia pós- parto: • Qualquer perda sanguínea estimada em mais de 500 ml após um parto vaginal ou mais de 1.000 ml após uma cesariana; • Presença de sangramento, independente do volume, associado a sinais de instabilidade hemodinâmica ou choque; • Os sinais e sintomas de choque hipovolêmico listados na tabela 1 devem ser utilizados para avaliar, de maneira aproximada, a quantidade de sangue perdida; • É classificada como primária ou precoce quando acontece nas primeiras 24 horas após o parto e secundária ou tardia após 24 horas e até 6 semanas após; • Na vigência de hemorragia, classificar a sua gravidade de acordo com os estágios abaixo: o Estágio 1: Perda Sanguínea Quantificada (PSQ) em > 500 mL Para Parto Vaginal Ou > 1000 mL em Cesariana ou FC ≥ 110 bpm, PA ≤ 85/45 mmhg, SpO2 < 95% com sangramento aumentado OU Índice de Choque (FC/PAS) entre 1,0 e 1,3; o Estágio 2: Perda Sanguínea Quantificada (PSQ) > 1000 ml e < 1500 mL com sangramento contínuo ou dados vitais instáveis OU Índice de Choque (FC/PAS) entre 1,4 e 1,6; o Estágio 3: Perda Sanguínea Quantificada (PSQ) > 1500 mL OU > 2 Unidades de Hemácias Transfundidas OU Dados Vitais Instáveis OU Suspeita de CID (Coagulação Intravascular Disseminada) OU Índice de Choque (FC / PAS) ≥ 1,7. Protocolos e Diretrizes Clínicas 10 Tabela 1. Sinais e sintomas de choque resultantes de perda sanguínea Grau de choque Perda sanguínea Sinais e sintomas Leve < 20% Diaforese Perfusão capilar diminuída Extremidades frias Ansiedade Moderado 20 a 40% Os acima MAIS Taquicardia Taquipnéia Hipotensão postural Oligúria Grave > 40% Os acima MAIS Hipotensão Agitação/confusão Instabilidade hemodinâmica ETIOLOGIA • As causas de hemorragia pós-parto estão descritas na tabela 2. Utilizar o mnemônico “4 Ts” (Tônus, Trauma, Tecido e Trombina) para facilitar a lembrança. Tabela 2. Mnemônico para as causas específicas de HPP – os Quatro Ts 4 Ts Causa específica Frequência relativa Tônus • Atonia uterina • Exaustão do músculo uterino • Distensão uterina aumentada (ex. gemelar, polihidrâmnio) • Corioamnionite • Distorção anatômica do útero • Uso de agentes relaxantes uterinos 70% Trauma • Lacerações e/ou hematomas da vagina, períneo ou colo • Lacerações na cesariana, extensão de incisão • Inversão e ruptura uterina 20% Tecido • Retenção de tecido placentário e/ou coágulos • Placenta acreta, increta, percreta 10% Trombina Coagulopatias • Pré-existentes o Doença de Von Willebrand o Hemofilia • Adquiridas na gravidez ou parto o Coagulação intravascular disseminada (CID) 1% Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 11 Tabela 2. Mnemônico para as causas específicas de HPP – os Quatro Ts o Trombocitopenia o Síndrome HELLP • Uso de anticoagulantes PLANEJAMENTO, PREVENÇÃO E PRONTIDÃO Identificação de fatores de risco • No momento da admissão da mulher os fatores de risco devem ser avaliados através da leitura do cartão de pré-natal e/ou anamnese e a mesma deverá ser classificada de acordo com as categorias de risco abaixo; • A avaliação de risco deve continuar durante toda a internação da gestante por complicações clínicas, durante o trabalho de parto, parto e puerpério até a alta; • A conduta diante da categoria de risco deverá ser de acordo com as ações definidas para as categorias conforme os quadros a seguir. Médio risco • Cesariana ou outra cirurgia uterina prévia • Gestação múltipla • > 4 partos vaginais prévios • Corioamnionite • História prévia de HPP • Miomatose uterina extensa Ação: Coletar sangue para exames de rotina da admissão, enviar parte da amostra à AT para ser guardada e ser utilizada em caso de necessidade e continuar avaliação de risco. Baixo risco • Nenhuma incisão uterina prévia • Gravidez única • ≤ 4 partos vaginais prévios • Nenhum distúrbio de coagulação conhecido • Nenhuma história de HPP Ação: Coletar sangue para exames de rotina da admissão. Continuar avaliação de risco durante a internação Protocolos e Diretrizes Clínicas 12 Alto risco • 2 ou mais situações de médio risco • Placenta prévia ou de implantação baixa • Suspeita de acretismo placentário • Htc < 30% e outros fatores de risco • Plaquetas < 100.000 • Sangramento ativo na admissão • Coagulopatia conhecida Ação: Coletar sangue para tipagem sanguínea e triagem de anticorpos (Coombs Indireto). Amostra deve ser guardada para realizar prova cruzada em caso de necessidade. Além do mais • Todas as mulheres com cesariana prévia devem ter a determinação da localização placentária por ultrassonografia antes do parto, se possível, para identificar a possibilidade de placenta acreta, increta ou percreta; • Mulheres com placenta acreta, increta ou percreta têm um risco altamente elevado de HPP catastrófica; • Caso sejam identificadas, deve haver uma atuação de equipe multidisciplinar para o planejamento adequado do parto com a garantia da presença de médico obstetra ou cirurgião com habilidades avançadas no manejo de inserções anômalas da placenta, equipe de anestesiologia e de enfermagem ciente e preparada para atuar em situações de gravidade, disponibilidade de hemácias, plasma e plaquetas e garantia de vaga na Unidade de Gestação de Alto Risco (UGAR). Manejo ativo do terceiro período • Deve ser oferecido para todas as mulheres e inclui: o Ocitocina imediata; o Tração controlada do cordão (opcionalmente). Ocitocina • Dentro de 1 minuto após o desprendimento fetal no parto vaginal, palpar o abdome para afastar a possibilidade da presença de outro feto e aplicar 10 UI de ocitocina IM. A ocitocina é preferível porque atua 2 a 3 minutos após a injeção, tem efeitos colaterais Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 13 mínimos, pode ser utilizada em todas as mulheres e é mais efetiva que as outras opções disponíveis; • Opcionalmente a ocitocina pode ser utilizada após a dequitação espontânea da placenta; • Na indisponibilidade de ocitocina, utilizar metilergometrina 0,2 mg IM ou misoprostol sublingual na dose de 600 a 800 mcg. Certificar-se de que não existe nenhum outro feto antes de utilizar tais medicamentos; • Evitar ergometrina em mulheres com hipertensão porque ela aumenta o risco de convulsões e acidentes cerebrovasculares; • Se o parto for por cesariana, utilizar ocitocina de acordo com o Quadro 1. Protocolos e Diretrizes Clínicas 14 Quadro 1 - Esquema para profilaxia de hemorragia pós-parto em Cesariana Cesariana Eletiva de Baixo Risco Cesariana Intraparto ou cesariana eletiva de alto risco para hemorragia (ver lista de checagem estágio 0) 1 UI de ocitocina IV em bolus, logo após a extração fetal, seguida de infusão contínua a 2,5-7,5 UI/hr ou 0,04-0,125 UI/min 3 UI de ocitocina IV em ≥ 30 segundos, logo após a extração fetal, seguida de infusão contínua a 7,5-15 UI/hr ou 0,125-0,25 UI/min Exemplo de diluição: 20 UI de ocitocina em 500 mL de SF 0,9% a 62,5-187,5 mL/hr ou 1,04 a 3,12 mL/min Prescrição prática: SF 0,9% ---------- 500 mL Ocitocina 5 UI --- 4 amp. EV a 125 mL/hr em BIC Exemplo de diluição: 40 UI de ocitocina em 500 mL de SF 0,9% a 93,75-187,5 mL/hr ou a 1,56-3,12 mL/min Prescrição prática: SF 0,9% ---------- 500 mLOcitocina 5 UI --- 8 amp. EV a 125 mL/hr em BIC Após 2 minutos da dose inicial, se houver necessidade (tônus uterino inadequado e/ou sangramento considerado maior que o habitual), realizar mais 3 UI de ocitocina em ≥ 30 segundos; A infusão deve ser mantida por 2 a 4 horas após a cirurgia, dependendo do quadro clínico da mulher, a critério do médico anestesiologista e/ou obstetra Caso haja necessidade (tônus uterino inadequado e/ou sangramento considerado maior que o habitual), após a segunda dose de ocitocina e durante a infusão, ativar protocolo de hemorragia a partir de ergometrina. Tração controlada do cordão • A tração controlada de cordão pode ser utilizada OPCIONALMENTE para a extração da placenta, não devendo ser obrigatória; • Clampear o cordão umbilical próximo ao períneo 60 a 180 segundos após o desprendimento fetal. Segurar o cordão clampeado e o final da pinça com uma das mãos; • Colocar a outra mão imediatamente acima do osso púbico e estabilizar o útero pela aplicação de uma contra tração durante a tração controlada do cordão para ajudar a prevenir a inversão uterina; • Gentilmente manter a tensão sobre o cordão e esperar uma contração uterina forte (2 – 3 minutos); • Quando o útero se tornar arredondado ou o cordão se alongar, tracionar o cordão muito gentilmente para baixo para retirar a placenta. Não esperar golfada de sangue Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 15 antes de aplicar a tração no cordão. Continuar a aplicar a contra tração no útero com a outra mão; • Se a placenta não descer durante 30 – 40 segundos de tração controlada (i.e. não há nenhum sinal de descolamento), suspender a tração; • Segurar o cordão gentilmente e esperar nova contração. Se necessário, clampear o cordão mais próximo do períneo enquanto ele se alonga; • Com a próxima contração, repetir a tração controlada com a contra tração; • Não aplicar a tração no cordão sem aplicar a contra tração acima do osso púbico com a outra mão; • Durante a extração da placenta as membranas podem se romper. Segurar a placenta com as duas mãos e gira-la gentilmente sobre o seu eixo até que as membranas estejam torcidas; • Puxar vagarosamente para completar a dequitação; • Se as membranas se romperem, examinar gentilmente a porção superior da vagina e colo e utilizar uma pinça apropriada para remover qualquer fragmento de membrana que estiver presente; • A placenta e membranas devem ser examinadas logo após a sua expulsão. Começar o exame pela face fetal e depois a face materna. Deve-se verificar a presença de anomalias e/ou sua integridade. Caso haja dúvidas quanto à integridade ou se constate a retenção uterina de restos placentários, proceder à realização de uma curetagem uterina com cureta romba; • Se ocorrer inversão uterina reposicionar o útero; • Se o cordão se romper a extração manual da placenta pode ser necessária. Massagem uterina • Não realizar massagem uterina de rotina no manejo ativo do terceiro período. Outras medidas preventivas e de prontidão • Evitar episiotomia de rotina; • Realizar monitoração de rotina para todas as mulheres após parto vaginal ou cesariana para reconhecimento precoce e redução do risco de hemorragia (Ver Quadro 2). Protocolos e Diretrizes Clínicas 16 RECONHECIMENTO Quanto mais for eficiente o processo de reconhecimento da hemorragia melhores serão os desfechos e todos devem estar preparados para que seja realizado o mais precocemente possível, possibilitando intervenções eficientes em tempo hábil. Quantificação da perda sanguínea • Em todos os partos, vaginais ou cesarianas, a perda sanguínea, deverá ser quantificada de rotina e isto envolve um esforço de toda a equipe; • Quantificar a perda de acordo com as recomendações dos Quadros 3, 4 e 5 Quadro 2 – Cuidados após o parto para reconhecimento precoce e redução de risco de hemorragia Cuidados de Rotina Frequência/observações Dados vitais (SISMOM) A cada 15 min. nas duas primeiras horas. Após este período de acordo com a clínica (SISMON) ou rotina. Saturação de oxigênio (SISMOM) Se houver alterações no padrão respiratório. Avaliação uterina e lóquios A cada 15 min nas duas primeiras horas. Após este período de acordo com a rotina. Dor Na avaliação inicial e nas evoluções de rotina. Nível de consciência Na avaliação inicial e nas evoluções de rotina. Manter a mulher aquecida e confortável após o parto Nas 2 primeiras horas e depois de acordo com a necessidade. Realizar contato pele a pele precoce contínuo Desde o nascimento nas primeiras 2 horas e depois conforme rotina. Auxiliar na amamentação Incentivar amamentação na primeira hora de vida. Após por livre demanda do bebê. Vigilância clínica para sinais de choque (SISMOM) A cada 15 min. nas 2 primeiras horas e depois em avaliações de rotina. Retirada de acesso venoso Avaliar estado da paciente antes de retirar o acesso IV nas primeiras 24 horas pós nascimento. Reconhecimento precoce de hematoma perineal O sinal marcante é dor excessiva ou persistente. A apresentação dependerá do local, volume e taxa de formação de hematoma. Taquicardia é um sinal precoce. Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 17 Quadro 3 – Quantificação da perda sanguínea após parto vaginal 1. Após o nascimento da criança, antes da dequitação, retirar imediatamente o campo que está sob as nádegas da mulher; 2. Colocar um novo campo seco sob as nádegas da mulher antes da dequitação; 3. Proceder à dequitação de rotina; 4. Após a dequitação e/ou outros procedimentos, como reparo de trauma perineal, pesar o campo ou campos utilizados, juntamente com compressas encharcadas com sangue e coágulos; 5. Subtrair do peso aferido o total do peso dos campos e compressas secas e quantificar a perda sanguínea de acordo com a seguinte fórmula: 6. Peso dos campos e compressas encharcados com sangue + coágulos, em gramas – peso das compressas e campos secos, em gramas = perda sanguínea em mL. 7. Anotar resultado no prontuário, na descrição do parto; 8. Exemplo de anotação: “Parto normal em posição .... Dequitação espontânea após 10 UI de ocitocina IM. Placenta completa. Feita revisão do canal de parto, sem lacerações. Sangramento quantificado = 320 mL.” Protocolos e Diretrizes Clínicas 18 Quadro 4 – Quantificação da perda sanguínea em cesariana 1. Após a ruptura das membranas, antes do nascimento da criança, aspirar ou secar com compressas todo o líquido amniótico; 2. Descartar essas compressas em recipiente diferente das compressas encharcadas com sangue; 3. Se o líquido for aspirado, anotar o nível registrado no recipiente do aspirador; 4. Após o nascimento da criança e dequitação, aspirar e/ou secar com compressas todo o sangue eliminado; 5. Descartar as compressas encharcadas com sangue em outro recipiente diferente das compressas encharcadas com líquido amniótico; 6. Se o sangue for aspirado anotar o nível final no recipiente do aspirador; 7. Contar e pesar todas as compressas encharcadas com sangue e coágulos; 8. Calcular a perda sanguínea, subtraindo o peso das compressas secas do peso das compressas encharcadas com sangue mais a diferença entre o nível final e o nível inicial de fluidos no recipiente do aspirador de acordo com a seguinte fórmula: 9. (Peso das compressas embebidas em sangue + coágulos, em gramas – peso das compressas secas, em gramas) + (Nível final no recipiente do aspirador – nível inicial) = perda sanguínea em mL. 10. Comunicar à equipe cirúrgica o resultado; 11. Ao término do procedimento pesar todos os campos encharcados com sangue e subtrair do valor o peso dos campos secos; 12. Somar esse resultado ao encontrado no item 9; 13. Anotar o resultado na folha de sala, na descrição da cesariana; 14. Exemplo de anotação: “....Sangramento quantificado = 540 mL.” Prevenção e Manejo daHemorragia Pós-parto 19 MANEJO DA HEMORRAGIA • Assim que a hemorragia pós-parto for reconhecida as medidas iniciais de manejo devem ser adotadas imediatamente independente do profissional que identificá-la; • Algumas ações deverão ser realizadas de forma simultânea e outras sequenciais de acordo com a resposta às medidas anteriores e em estágios sucessivos dependendo da gravidade da hemorragia; • Um trabalho em equipe efetivo é fundamental para o sucesso no manejo da hemorragia pós-parto; • As atribuições dos membros da equipe são definidas de acordo com o nível de complexidade requerido para as ações e os profissionais que poderão executá-las; Quadro 5 – Quantificação da perda sanguínea em caso de laparotomia 1. Se houver necessidade de laparotomia e houver sangue na cavidade abdominal, aspirar todo o seu conteúdo antes de se proceder a qualquer irrigação peritoneal e anotar o nível registrado no recipiente do respirador; 2. Se necessário utilizar compressas para a limpeza da cavidade abdominal, utiliza-las antes de qualquer irrigação peritoneal e descarta-las em recipiente único para elas; 3. Após a aspiração e limpeza com compressas, se for necessário realizar irrigação peritoneal, aspirar o líquido, de preferência para outro recipiente. Se for para o mesmo recipiente para onde o sangue foi aspirado, anotar o nível registrado além do nível de sangue; 4. Caso haja necessidade de repetir os procedimentos, ou seja, aspiração de sangue, limpeza com compressas, seguidos de lavagem peritoneal, repetir os processos acima; 5. Descartar as compressas encharcadas só com fluido da limpeza intra-abdominal em outro recipiente diferente das compressas encharcadas com sangue; 6. Contar e pesar todas as compressas encharcadas com sangue e coágulos; 7. Calcular a perda sanguínea, subtraindo o peso das compressas secas do peso das compressas encharcadas com sangue mais a quantidade de sangue no aspirador após subtração da quantidade de fluido de limpeza de acordo com a seguinte fórmula: 8. (Peso das compressas embebidas em sangue + coágulos, em gramas – peso das compressas secas, em gramas) + (Nível final no recipiente do aspirador – quantidade de fluido aspirada) = perda sanguínea em mL. 9. Comunicar à equipe cirúrgica o resultado; 10. Ao término do procedimento pesar todos os campos encharcados com sangue e subtrair do valor o peso dos campos secos; 11. Somar esse resultado ao encontrado no item 8; 12. Anotar o resultado na folha de sala, na descrição do procedimento; 13. Exemplo de anotação: “....Sangramento quantificado =1.640 mL.” Protocolos e Diretrizes Clínicas 20 • O profissional deverá estar ocupado com a tarefa mais complexa de acordo com suas habilidades técnicas, não devendo perder tempo em tarefas menos complexas que podem ser executadas por outros; • Os principais responsáveis pelas tarefas estão identificados pelas legendas nas listas de checagem seguintes; • Os passos para a organização do cuidado e o manejo clínico e cirúrgico da hemorragia pós-parto estão nas listas de checagem seguintes; • Assim que a hemorragia for detectada, a lista de checagem deve ser iniciada e todos os componentes de cada estágio deverão ser cumpridos, sem exceção, para um manejo eficiente da hemorragia. Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 21 Estágio 0: Todos os partos – Prevenção & Reconhecimento da Hemorragia Pós-Parto Avaliação Pré-Natal & Planejamento Identificar e se preparar para pacientes em situações especiais: placenta prévia/acreta, coagulopatia, que rejeitam hemoderivados (Testemunhas de Jeová). Identificar e tratar anemia grave: Se Fe VO falhar, tratar com Fe parenteral até atingir Hb/Ht desejado AVALIAÇÃO & PLANEJAMENTO NA ADMISSÃO AVALIAÇÃO CONTÍNUA DE RISCO Verificar tipagem sanguínea e Coombs Indireto (CI) no pré-natal Se não disponíveis: Solicitar tipagem sanguínea e CI Se CI + (exceto baixos títulos por uso de Ig): Solicitar prova cruzada e reserva de 2 U de CHM Avaliar fatores de risco na admissão, durante o TP e no puerpério e a cada troca de plantão Se médio risco: Reservar amostra de sangue e encaminhar à AT Revisar protocolo de hemorragia Se alto risco: Solicitar tipagem e PAI (Pesquisa de anticorpos irregulares) Revisar protocolo de hemorragia Notificar anestesiologista Identificar mulheres que possam recusar transfusão: Notificar MO para plano de cuidados Notificar anestesiologista Rever consentimento informado No trabalho de parto: • Segundo período prolongado • Uso prolongado de ocitocina • Sangramento genital ativo • Corioamnionite Uso de sulfato de magnésio Considerar múltiplos fatores de risco como Alto Risco Se nível de risco aumentar (ver abaixo) converter para tipagem e PAI (Pesquisa de anticorpos irregulares Monitorar sangramento aumentado no pós-parto AVALIAÇÃO DE RISCO PARA HEMORRAGIA NA ADMISSÃO Baixo Risco (continuar avaliação de risco durante a internação) Médio Risco (reservar amostra de sangue e encaminhar à AT e continuar avaliação de risco) Alto Risco (tipagem e CI – pesquisa de anticorpos irregulares) Nenhuma incisão uterina prévia Gestação única ≤ 4 partos vaginais anteriores Nenhum distúrbio de coagulação conhecido Nenhuma história de HPP Cesariana(s) ou cirurgia(s) uterina(s) prévia(s) Gestação múltipla > 4 partos vaginais anteriores Corioamnionite História prévia de HPP Miomas uterinos volumosos 2 ou mais situações de médio risco Placenta prévia/placenta baixa Suspeita de acretismo placentário Hematócrito < 30% E outros fatores de risco Sangramento ativo na admissão (excluir tampão) Plaquetas < 100.000 Coagulopatia TODOS OS PARTOS – OCITOCINA PROFILÁTICA, QUANTIFICAÇÃO DE PERDA SANGUÍNEA E MONITORAÇÃO RIGOROSA DE DADOS VITAIS Todas as cesarianas: Ácido Tranexâmico 1 g IV em 5 minutos, 10 minutos antes da incisão Manejo do Terceiro Período: Ocitocina: 10 U IM (parto vaginal); Se cesariana, ver Quadro 1. Avaliação de perda sanguínea (PSE): 15 em 15’ por 2 hs e depois de 4 em 4 h (cesariana); 6 em 6 hs (parto vaginal) Monitoração de Dados Vitais: 15 em 15’ por 2 hs e depois de 4 em 4 h (cesariana); 6 em 6 hs (parto vaginal) Se PSE > 500 mL Para Parto Vaginal Ou > 1000 mL em Cesariana OU FC ≥ 110 Bpm, PA ≤ 85/45 mmhg, SpO2 < 95% E Sangramento Aumentado OU Índice de Choque (FC/PAS) entre 1,0 e 1,3 ir para o Estágio 1 Protocolos e Diretrizes Clínicas 22 ESTÁGIO 1: PSQ EM > 500 ML PARA PARTO VAGINAL OU > 1000 ML EM CESARIANA OU FC ≥ 110 BPM, PA ≤ 85/45 MMHG, SPO2 < 95% OU ÍNDICE DE CHOQUE (FC/PAS) ENTRE 1,0 E 1,3 COM SANGRAMENTO AUMENTADO MOBILIZE AJA PENSE TE ou EA ou EO ou MO Ativar protocolo e iniciar lista de checagem TE ou EA Chamar EO e/ou MO Chamar outra TE ou EA Alertar MA Comunicar AT e reservar 2 U de CHM EO Delegar funções para TE e/ou EA TE ou EA Providenciar 2 acessos venosos mínimo 16 G Colher sangue para exames (HMG/PLQS, COAG, Fibrinogênio) e teste do coágulo Iniciar reposição volêmica com SF livre Realizar massagem uterina vigorosa (via abdominal ou vaginal/abdominal – ver figuras 1 e 2) Avaliar vias aéreas e respiração e iniciar O2 para manter SpO2 > 95% Esvaziar bexiga Monitorar DV (pulso, PA, SpO2) a cada 15 min. Pesar material e calcular PS a cada 15 min. Manter paciente aquecida EA ou EO ou MO Administrar 1,0 g de ácido tranexâmico EV em 10 min. e Iniciar 20 UI de ocitocina/500 ml SF em infusão livre concomitantemente. Administrar 0,25 mg de metilergometrina IM se sangramento continua após a administração rápida de ocitocina EO ou MO Realizar revisão do canal de parto. Avaliar as causas (4 Ts – à direita) Administrar misoprostol 600 mcg SL ou 800 mcg VO se sangramento continua após a administração da metilergometrina e passar para o estágio 2 do manejo MO (se cesariana e abdome aberto) Inspecionar fonte de sangramento em todos osníveis: ligamento largo, útero posterior, placenta acreta etc. Etiologia: Tônus Trauma • Lacerações do canal de parto • Hematomas • Ruptura uterina, hematoma de ligamento largo, inversão uterina. Tecido • Produtos retidos (restos placentários, membranas, coágulos) • Placenta acreta Trombina • Tratar doenças de base e avaliar a coagulaçao de forma seriada • Repor hemocomponentes • Se teste de coágulo positivo iniciar PFC (sem laboratório) Se a paciente se estabilizar e o sangramento for controlado no estágio 1 manter vigilância estrita no pós-parto. Se Trauma, Tecido e/ou Trombina presentes passar para o estágio 2 Se PSQ > 1000 ml e < 1500 mL e sangramento continuado ou dados vitais instáveis OU Índice de Choque (FC/PAS) entre 1,4 e 1,6 passar para o Estágio 2 Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 23 ESTÁGIO 2: PSQ > 1000 ML E < 1500 ML E SANGRAMENTO CONTINUADO OU DADOS VITAIS INSTÁVEIS OU ÍNDICE DE CHOQUE (FC/PAS) ENTRE 1,4 E 1,6 MOBILIZE AJA PENSE TE ou EA ou EO Chamar EIA Chamar MCO Comunicar MIA EIA Notificar AT, solicitar 2 U de CHM, reservar 2 U de PFC e 1 U de PLQ Designar responsável pelo transporte de material para exames e hemoderivados Designar EA ou TE para execução das ações na coluna à direita Comunicar com AT, registrar eventos, preencher lista de checagem Chamar SPS p/ comunicar c/ a família TODOS Utilizar comunicação padronizada SPS Comunicar de maneira apropriada e sensível com a família LÍDER DA EQUIPE (MCA ou MO) Administrar 1,0 g de ácido tranexâmico EV em 10 min se sangramento persistir após 30’ da primeira dose. Manter ocitocina 20 UI/500 ml SF 125 mL/h e fluidos (SF ou RL) Massagem uterina abdominal ou vaginal/abdominal (figuras 1 e 2); Progredir p/ outras intervenções SEM DEMORA. Ver coluna da direita Transfundir 2 U de CHM, baseado na resposta e nos sinais clínicos, sem resultados de laboratório. Considerar CHM O- se PC não disponível Solicitar transferência p/ BC (se no AC, HD ou SP) Solicitar exames complementares (HMG/PLQ, COAG, Fibrinogênio, GASO, íons, lactato) 1a. TE ou EA Estabelecer 2 acessos venosos mínimo 16 G, se ainda não disponíveis Providenciar equipos de sangue e aquecedores de soluções Administrar medicamentos, hemoderivados e coletar sangue para exames Manter paciente aquecida 2a. TE ou EA ou EIA Monitorar e comunicar DVs a cada 5-10 minutos Quantificar perda sanguínea acumulada a cada 5-15 minutos Realizar cateterismo vesical com bolsa medidora de volume Transferir paciente p/ BC (se no AC, HD ou SP) e chamar MA Preparar sala e material p/ cirurgia AT Descongelar duas unidades de PFC se forem transfundidas > 2 U de CHM Providenciar plaquetas Preparar para ativar protocolo de hemorragia maciça Tônus: Balão intrauterino. Se cesárea: Suturas compressivas (B-Lynch, Hayman, Cho, Barbosa da Silva) Trauma: Reparar lacerações cervicais e vaginais; investigar e tratar ruptura uterina, hematoma de ligamento largo, inversão uterina. Tecido: Restos placentários, acretismo (curagem, curetagem). Se sangramento persiste na presença de acretismo encaminhar precocemente para tratamento cirúrgico e passar para o estágio 3. Trombina: Continuar avaliação da coagulaçao de forma seriada e repor hemocomponentes Se sangramento cessar e paciente estabilizar encaminhar para UGAR e manter vigilância por no mínimo 12 hs. Manter infusão de ocitocina 20 UI/500 ml de SF a 67,5 ml/h por até 24h, com monitorização da intoxicação hídrica. Se PSQ acumulada > 1500 ml, OU > 2 unidades de hemácias transfundidas OU dados vitais instáveis OU suspeita de CID (coagulação intravascular disseminada) OU Índice de Choque (FC / PAS) ≥ 1,7 passar para o estágio 3 do manejo Protocolos e Diretrizes Clínicas 24 Estágio 3: PSQ > 1500 mL OU > 2 Unidades de Hemácias Transfundidas OU Dados Vitais Instáveis OU Suspeita de CID (Coagulação Intravascular Disseminada) OU Índice de Choque (FC/PAS) ≥ 1,7 MOBILIZE AJA PENSE EO, EIA, MO, MCA Ativar protocolo de Hemorragia Maciça EIA Chamar MCO se ainda não presente Chamar MIA Reavaliar pessoal disponível e solicitar ajuda se necessário Solicitar transferência p/ sala de cirurgia se ainda não realizada Iniciar preparativos para transferência p/ UTI ou UGAR SPS Comunicar de maneira apropriada e sensível com a família Líder da equipe (MCA + MIA) – definir papéis Solicitar pacote de hemorragia maciça (CHMs, FPC, PLQ) ver coluna da direita Mudar para BC se ainda não realizado Repetir exames complementares (HMG/PLQ, COAG, Fibrinogênio, GASO, íons, lactato) a cada 30-60 min. MIA Iniciar suporte vasopressor se necessário Realizar intubação endotraqueal se necessário Estabelecer acesso venoso central se necessário Estabelecer linha para pressão intra-arterial Repor cálcio se hipocalcemia Monitorar eletrólitos 1a. TE ou EA Continuar administração de medicamentos, hemoderivados e coletar sangue para exames Aquecer soluções a serem infundidas. Providenciar infusor rápido p/ fluidos e sangue Manter paciente aquecida Aplicar meias compressivas nos membros inferiores 2a. TE ou EA Anunciar dados vitais e perda sanguínea acumulada a cada 5-10 min. Preparar sala e material p/ cirurgia se ainda não realizado EIA ou designada Continuar registro de eventos e preencher lista de checagem Intervenções baseadas na etiologia (Tônus, Trauma, Tecido, Trombina) ainda não realizadas Prevenir hipotermia e acidemia Cirurgia conservadora ou definitiva: • Desvascularização progressiva (lig. aa uterinas, ovarianas e hipogástricas) • Suturas compressivas (B-Lynch, Barbosa da Silva, Hayman) • Histerectomia Coagulopatia • Repor fatores de coagulação para manter plaquetas acima de 50.000/ml, fibrinogênio ≥ 200mg/dL e RNI < 1,5 Para Ressuscitação: Transfusão agressiva baseada em Dados Vitais e Perda Sanguínea Após 2 U de CHM Proporções quase iguais de PFC/CHM 4-6 CHM/4 PFC/1 PLQ Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 25 LEGENDAS AC = Alojamento Conjunto AT = Agência Transfusional BC = Bloco Cirúrgico CHM = Concentrado de Hemácias CI = Coombs Indireto COAG = Coagulograma EA = Enfermeira Assistencial EIA = Enfermeira intensivista ou obstétrica com habilidades avançadas no manejo de hemorragia pós-parto e/ou pacientes graves EO = Enfermeira Obstétrica EV = Endovenoso GASO = Gasometria Arterial GS = Grupo Sanguíneo HD = Hospital-Dia HMG = Hemograma IM = Intramuscular MA = Médico Anestesista MCA = Médico Cirurgião ou Obstetra com habilidades avançadas no tratamento da hemorragia obstétrica MIA = Médico Intensivista ou anestesiologista com habilidades para lidar com pacientes graves MO = Médico Obstetra PC = Prova Cruzada PFC = Plasma Fresco Congelado PLQ = Plaquetas PSE = Perda Sanguínea Estimada (avaliação visual subjetiva) PSQ = Perda Sanguínea Quantificada (avaliação quantitativa. Ex. pesagem de compressas) SF = Soro Fisiológico ou Solução Salina SL = Sublingual SP = Sala de Parto SPS = Assistente Social ou Psicólogo TE = Técnico de Enfermagem UGAR = Unidade de Gestação de Alto Risco VO = Via oral Protocolos e Diretrizes Clínicas 26 Figura 1: Compressão uterina por via abdominal (manobra de Chantrapitak). A – Compressão apenas no segmento inferior (parede abdominal tensa; ex: obesidade, primiparidade); B – Compressão no segmento inferior e contrapressão no fundo uterino (parede abdominal relaxada) A B Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 27 Figura 2: Compressão uterina bimanual por via vaginal/abdominal (manobra de Hamilton) Protocolos e Diretrizes Clínicas 28 TAMPONAMENTO UTERINO COM BALÃO A partir do estágio 2 da hemorragia, a paciente já deverá estar em ambiente cirúrgico e o manejodeve progredir para outras intervenções, SEM DEMORA. • Após afastar ou reparar trauma e afastar ou retirar restos placentários, o sangramento persiste, realizar tamponamento uterino com balão; • O tamponamento deve ser realizado principalmente em casos de atonia e/ou sangramento oriundo do segmento uterino; • O tamponamento deverá ser realizado com Balão de Bakri® (disponível no Hospital Sofia Feldman – figura 3) ou Balão Artesanal de Alves (figura 4 e Anexo 1); • Ver Quadros 6 e 7 para técnica de tamponamento uterino; • Após a introdução do balão, o volume do sangramento através do tubo de drenagem deve ser mensurado e registrado; • Se após 15-30 minutos de introdução do balão o sangramento continuar (≥ 50 ml no coletor) e não houver sinais claros que está diminuindo, partir sem demora para o tratamento cirúrgico; • O tubo de drenagem deve ser lavado periodicamente para evitar oclusão por coágulos sanguíneos; • Ficar atento também para os sinais vitais pois, se continuarem a se deteriorar, mesmo na ausência de sangramento pelo tubo de drenagem, pode significar alguma laceração uterina com sangramento para a cavidade abdominal; • Marcar a altura uterina na cavidade abdominal com uma caneta de marcação. Aumento na altura uterina, associada a deterioração de sinais vitais e redução do volume urinário, mesmo na ausência de sangramento pelo tubo de drenagem pode ser devido a oclusão do balão. Nesse caso proceder a uma lavagem do tubo e continuar com a observação; • Em algumas situações, o sangramento pode ser originário do segmento uterino e uma ligeira tração no balão, localizando-o mais no segmento, pode controlar o sangramento; • Se o balão se desalojar parcialmente na cavidade uterina, esvaziá-lo, reposicioná-lo e enchê-lo novamente; • A equipe cirúrgica deve estar pronta para intervir imediatamente se o estado hemodinâmico da paciente se deteriora ou não melhora; • Manter infusão de ocitocina (20 UI/SF a 125 mL/h) e considerar antibioticoprofilaxia durante o tamponamento (Cefazolina 1 g IV de 8 em 8 horas ou Gentamicina 5mg/Kg dose única + Clindamicina 900 mg IV de 8 em 8 horas); • O balão deve permanecer na cavidade uterina até 24 horas após a sua introdução, podendo ser retirado antes, durante o dia, a critério do médico obstetra responsável; Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 29 • Para remover o balão, esvaziá-lo por etapas, retirando 100 ml a intervalos de 30 minutos, monitorando o sangramento e estar de prontidão para a eventualidade de intervenção cirúrgica; • Deixar o balão esvaziado na cavidade uterina por 30 minutos para observar o sangramento e retirá-lo após confirmar ausência de sangramento; • Se houver recorrência do sangramento após esvaziamento do balão, comunicar a equipe, providenciar sala cirúrgica e progredir para outras formas de tratamento; • Nesse caso o balão deve ser enchido temporariamente enquanto se prepara para o procedimento definitivo; • Providenciar alívio adequado da dor durante a inserção do balão e enquanto estiver em uso. Quadro 6 – Técnica para tamponamento uterino com balão hemostático por via vaginal 1. Colocar a paciente confortavelmente em posição de litotomia; 2. Realizar antissepsia e inserir um cateter de Foley no trato urinário; 3. Colocar o balão na palma da mão e introduzi-lo na cavidade uterina através do colo uterino dilatado (opcionalmente realizar a introdução utilizando pinças de Foerster); 4. Para prevenir a sua extrusão, o balão deve ser mantido na cavidade uterina com a própria mão, ou pela introdução de compressas na vagina (uma ou duas), até ser infundido com solução salina; 5. Ter cuidado para não dobrar o tubo ou tubos do balão (a dificuldade para infusão é indicativa do mau posicionamento do tubo ou tubos); 6. Enquanto um operador mantém o balão na cavidade uterina, outro procederá a infusão (no uso do balão de Bakri o tree-way do tubo de infusão deve ser fechado durante o enchimento da seringa; no uso do balão de Alves a sonda nasogástrica que compõe o tubo de infusão deve ser dobrada ou tampada durante o enchimento da seringa); 7. Infundir o balão através do tubo apropriado com solução salina até 300-500 mL; 8. No processo de infusão, o operador que está mantendo o balão na cavidade uterina avalia o tônus uterino com a outra mão, para determinar a quantidade de fluido necessário para a infusão; 9. A quantidade de fluido utilizada deve ser registrada; 10. Após terminar a infusão do balão, o tubo de drenagem deverá ser conectado a uma bolsa medidora de volume (no caso do balão de Alves pode ser necessária a conexão de um pequeno segmento de látex para unir a sonda nasogástrica que compõe o tubo de drenagem à bolsa coletora); 11. Introduzir compressas (uma ou duas) na vagina para manter o balão dentro da cavidade uterina caso ainda não tenha sido realizado; 12. As compressas podem ser atadas ao tubo do balão para evitar a sua retenção na cavidade vaginal no momento da sua retirada; Protocolos e Diretrizes Clínicas 30 Quadro 7 – Técnica para tamponamento uterino com balão hemostático durante cesariana 1. Antes do fechamento uterino, introduzir o final do tubo ou tubos do balão na cavidade uterina através do colo até a vagina; nas pacientes em cesárea eletiva pode ocorrer dificuldade para a passagem dos tubos do balão pelo colo uterino, podendo ser necessárias estratégias como a técnica de Matsubara ou o “método Nelaton" associado à “amarra do tree-way” para resolução da dificuldade (Figuras 5 e 6); 2. Certificar-se que o tubo ou tubos se encontram na vagina e não enrolado(s) no segmento uterino inferior. Para isso, um operador assistente, embaixo dos campos cirúrgicos e utilizando luvas estéreis, deve introduzir a mão na vagina e auxiliar no posicionamento do balão; 3. Este assistente deve continuar segurando o(s) tubo(s), assegurando a retenção do balão na cavidade uterina, enquanto o cirurgião procede ao fechamento do útero; 4. Após o fechamento uterino, o balão deve ser infundido com um volume inferior ao do parto vaginal (entre 200 e 250 ml; e 100 ml se uso associado à sutura uterina compressiva - técnica do “sanduíche uterino”); 5. Seguir as mesmas orientações para após parto vaginal. Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 31 Figura 3 – Balão de Bakri para tamponamento uterino Figura 4 - Balão Artesanal de Alves para o tamponamento uterino Protocolos e Diretrizes Clínicas 32 Figura 5 – Técnica de Matsubara para inserção do balão de tamponamento uterino pela via abdominal Figura 6 - “Método Nelaton” associado a “amarra” do tree-way para inserção do balão de tamponamento uterino pela via abdominal Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 33 USO DE SANGUE E HEMOCOMPONENTES NA HEMORRAGIA PÓS-PARTO Recomendações gerais • O recurso à transfusão de sangue na vigência de hemorragia pós-parto deve ser precoce, não sendo justificadas demoras para o seu início; • No reconhecimento da hemorragia, ou seja, no estágio 1, duas unidades de concentrado de hemácias (CHM) devem ser reservadas; • No estágio 2 da hemorragia, ou seja, sangramento quantificado > 1000 ml E a paciente continua sangrando OU apresenta dados vitais instáveis (FC ≥ 110 bpm, PA ≤ 85/45 mmhg, SpO2 < 95%, Índice de Choque [FC/PAS] entre 1,4 e 1,6) duas unidades de CHM devem ser transfundidas imediatamente, sem aguardar resultados de exames laboratoriais; • Caso a prova cruzada ainda não tenha sido realizada, iniciar a transfusão com hemácias O negativo; • A continuidade da transfusão não deve ser retardada devido à ausência de prova cruzada e, se necessário, deve ser continuada com hemácias O negativo; • A transfusão deve continuar, se necessário, baseada na perda sanguínea e estado hemodinâmico da paciente e não por resultados de exames laboratoriais; • Caso o sangramento evolua parao estágio 3 ou seja, sangramento quantificado > 1500 mL OU > 2 Unidades de Hemácias Transfundidas OU Dados Vitais Instáveis OU Suspeita de CID (Coagulação Intravascular Disseminada), OU Índice de Choque [FC/PAS] ≥ 1,7) o protocolo de transfusão maciça deve ser acionado (Ver Anexo 2); • O processo de transfusão deve ser coordenado ou pelo médico obstetra líder ou pelo anestesiologista líder e essa função deverá ser definida assim que o protocolo for acionado; • Uma boa comunicação com a agência transfusional é fundamental e um profissional da equipe deve ser designado para o transporte de hemocomponentes e amostras para exames; • Durante a transfusão maciça, a proporção dos hemocomponentes pode ser tanto 6:4:1 ou 4:4:1 ou seja, seis ou quatro unidades de CHM, quatro unidades de plasma fresco congelado (PFC) e uma unidade em pool de plaquetas (derivado de 4-5 unidades de sangue total). Ver Anexo 2 – protocolo de transfusão maciça. • Evitar hipotermia durante a transfusão através do aquecimento da paciente, dos fluidos e dos hemocomponentes, exceto plaquetas; • A velocidade de infusão dependerá da velocidade da perda sanguínea e do estado hemodinâmico da paciente, infusão rápida (ex. 1 unidade em 5-10 minutos) se necessária deve ser realizada; Protocolos e Diretrizes Clínicas 34 • Os níveis de cálcio devem ser monitorados a cada 30 minutos durante a transfusão e a sua reposição ser realizada na vigência de hipocalcemia. Recomendações de acordo com os hemocomponentes Concentrado de hemácias (CHM) • Inicialmente solicitar 2 ou 3 unidades de CHM do pacote de transfusão maciça considerado; • O restante deverá ser solicitado de acordo com a resposta da paciente; • O objetivo da transfusão de CHM deve ser manter um hematócrito mínimo de 21-24% e hemoglobina 7-8 g/dL. o Uma unidade de CHM aumenta o hematócrito em aproximadamente 3-4% e 1 g/dL na hemoglobina em uma paciente de 70 kg; • Se o sangramento cessar e a hemoglobina estiver entre 7-8 g/dL, não há necessidade de restabelecer seus níveis fisiológicos; Plasma fresco congelado (PFC) • O PFC contém praticamente todos os fatores de coagulação e pode ser usado até 24 horas após ser descongelado; • O PFC deve ser usado concomitantemente com o CHM e 2 ou 3 unidades devem ser solicitadas juntamente com a solicitação das hemácias, de acordo com a proporção dos hemocomponentes escolhida. o Considerar que o PFC pode levar 20-30 minutos para ser descongelado; • O objetivo da transfusão de PFC é manter um RNI < 1,5; • Se houver sangramento difuso ou evidência laboratorial de coagulação intravascular disseminada (CIVD) e o tipo sanguíneo da paciente for desconhecido, utilizar PFC tipo AB, se disponível. o Na indisponibilidade de PFC tipo AB, até 2-3 unidades de PFC não compatível podem ser utilizadas. Plaquetas • Solicitar plaquetas se a contagem for < 100.000/uL e a paciente continua sangrando; • O objetivo da transfusão de plaquetas é manter a sua contagem entre 50.000-100.000; • Um pool de plaquetas pode aumentar a contagem de plaquetas em uma paciente de 70 kg em aproximadamente 40-50.000/uL; Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 35 • A contagem de plaquetas deve ser utilizada apenas como um guia, devendo ser interpretada junto com as condições clínicas da paciente; • Considerar contagens maiores de plaquetas para iniciar ou manter a transfusão, principalmente se a paciente continua sangrando; • Plaquetas não necessitam prova cruzada e nem sempre são tipo específicas. o Para pacientes Rh negativo utilizar preferencialmente plaquetas derivadas de sangue total Rh negativo; o Na ausência de plaquetas Rh negativo, uma dose de imunoglobulina anti Rh (D) pode ser utilizada para evitar a sensibilização em pacientes Rh negativo; o Plaquetas obtidas por aférese são raramente contaminadas com células vermelhas e podem ser utilizadas com segurança em pacientes Rh negativo. Crioprecipitado • O crioprecipitado deve ser utilizado se o fibrinogênio estiver abaixo de 200 mg/dL em qualquer fase da hemorragia, tendo como objetivo mantê-lo acima disso; • Cada unidade de crioprecipitado contém aproximadamente 150 mg de fibrinogênio e 10 unidades podem aumentar o nível de fibrinogênio em uma paciente de 70 kg em aproximadamente 75 mg/dL; • Em casos de descolamento prematuro de placenta ou embolia por líquido amniótico, o crioprecipitado deve ser solicitado no momento da solicitação inicial dos outros componentes, já que, estas situações estão associadas com depleção significativa de fibrinogênio. Protocolos e Diretrizes Clínicas 36 TRATAMENTO CIRÚRGICO DA HEMORRAGIA PÓS-PARTO A decisão sobre o manejo cirúrgico da HPP deve ser rápida e deve-se proceder imediatamente à sua realização após a confirmação de que as medidas clínicas e minimamente invasivas não surtiram o efeito desejado. Qualquer demora pode piorar bastante o prognóstico da paciente. A seguir apresenta-se recomendações gerais sobre os passos necessários e técnicas para o manejo cirúrgico, respeitando-se a experiência e decisão do cirurgião responsável. Organização e equipe • A equipe cirúrgica deve ser liderada por cirurgião com habilidades avançadas no manejo cirúrgico de hemorragia pós-parto; • A equipe de anestesiologia deve ser liderada por anestesiologista com habilidades avançadas no manejo de pacientes em estado crítico; • A equipe de enfermagem deve ser liderada por enfermeira intensivista ou enfermeira obstétrica com habilidades avançadas no manejo de pacientes em estado crítico; • O laboratório e a agência transfusional devem estar cientes do procedimento e de prontidão durante toda a sua realização; • O Serviço Psicossocial deve ser acionado para prestar apoio à família da mulher que deve ser informada constantemente do andamento do procedimento; • Essa equipe deve atuar em harmonia tendo como objetivo principal o bem-estar da mulher; Laparotomia • Se a mulher teve um parto por via vaginal, realizar, de preferência, uma laparotomia mediana que oferece melhor exposição tanto da pelve como do abdome; • Em pacientes que foram submetidas a cesariana, a incisão existente deve ser utilizada e ampliada lateralmente, se necessário, para melhor exposição; • Utilizar um afastador que permita uma boa exposição lateral e superior (ex., Balfour); • Ao entrar no abdome, remover sangue e coágulos por aspiração e/ou compressas e depois irrigar a cavidade abdominal e identificar a origem do sangramento (atonia, retenção de fragmentos de placenta, laceração uterina, incisão uterina etc.). o O sangramento deve ser quantificado de maneira objetiva de acordo com as instruções do Quadro 5; • O útero deve ser inspecionado cuidadosamente, principalmente em busca de lacerações posteriores, assim como todos os ligamentos; Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 37 • Avaliar sistematicamente o retroperitônio e a possível presença de trauma nos ramos dos vasos pudendos e uterinos se a origem do sangramento não foi prontamente identificada na avaliação inicial; • A presença de sangue na cavidade abdominal sem uma ruptura uterina óbvia ou vaso sangrante pode ser devido a ruptura hepática ou esplênica ou aneurisma ou pseudoaneurisma arterial. Medidas temporárias para estabilização de pacientes hemodinamicamente instáveis Pacientes com risco iminente de exsanguinação Compressão manual da aorta • Realizar pressão direta sobre a aorta para comprimi-la contra a vértebra, alguns centímetros acima do promontório sacral, logo acima da bifurcação das artérias ilíacas comuns; • A compressão pode ser realizada utilizando o punho fechado ou a palma da mão (figura 7); • Alternativamente a compressão pode ser realizada logo abaixo das artérias renais, minimizando o fluxo colateral das artérias ovarianas e mesentéricas inferiores, podendo ser mais eficiente nocontrole do sangramento (figura 8); • Manter a compressão até estabilização da paciente para depois seguir com o procedimento. Figura 7 - Compressão aórtica com o punho fechado Protocolos e Diretrizes Clínicas 38 Pacientes sem risco iminente de exsanguinação Torniquete Uterino • Considerar a aplicação de um torniquete uterino antes de seguir para a cirurgia definitiva; Compressão aórtica A. renal A. ovariana Compressão aórtica A. mesentérica inferior A. ilíaca externa A. ilíaca interna A. uterina A. vaginal Figura 8 - Pontos de compressão aórtica Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 39 • Passar um dreno de Penrose ou um cateter de Foley em torno do segmento uterino inferior, o mais baixo possível, sem incorporar a bexiga; • As duas pontas devem ser esticadas em direções opostas, o mais apertado possível em torno do útero, ocluindo mecanicamente o suprimento vascular; • Um segundo ou terceiro torniquete pode ser aplicado se necessário; • Os torniquetes devem ser deixados no local, fixados com uma pinça (figura 9); • Quando a paciente estiver hemodinamicamente estável os torniquetes podem ser retirados e o procedimento definitivo prosseguir. Empacotamento pélvico • Se houver sangramento difuso oriundo de pequenas artérias pélvicas, hematomas de ligamento largo e retroperitoneais, lacerações difíceis de reparar por sua localização ou friabilidade tecidual ou sangramento por coagulopatia, considerar empacotamento pélvico provisório enquanto se repõe fatores de coagulação; • Ver técnica de empacotamento adiante. Tratamento cirúrgico definitivo Figura 9 – Torniquete uterino Vasos uterinos Protocolos e Diretrizes Clínicas 40 Desvascularização uterina progressiva • A desvascularização uterina deve ser o primeiro passo do tratamento cirúrgico, pois tanto pode representar a solução definitiva quanto contribuir para a estabilidade hemodinâmica da paciente, caso sejam necessários procedimentos mais invasivos; • Rebater a bexiga inferiormente e realizar inicialmente ligadura bilateral dos ramos ascendentes das artérias uterinas pela técnica de O'Leary; • Após identificação do ureter, utilizando uma agulha curva grande com fio de poliglecaprone, poligalactina, ácido poliglicólico ou categute cromado n° 0, realizar uma sutura passando através do aspecto lateral do segmento uterino, o mais próximo possível do colo e de volta ao ligamento largo, imediatamente lateral aos vasos uterinos; • Se o sangramento não for controlado, os vasos das conexões útero-ovarianas, no mesosalpinge, devem ser ligados progressivamente, distalmente ao corno uterino, através do miométrio, imediatamente medial aos vasos e depois de volta através do ligamento largo, imediatamente lateral aos vasos, até a junção das artérias ovarianas e uterinas (figura 10); • Caso queira se preservar a função reprodutiva, as trompas podem ser preservadas, realizando a ligadura das artérias ovarianas logo abaixo delas; • Caso o sangramento continue, proceder para outros métodos (ver adiante); • A ligadura das artérias ilíacas internas (hipogástricas) raramente é necessária no processo de desvascularização, tendo em vista a dificuldade para a sua realização e os bons resultados obtidos com a ligadura dos vasos uterinos. Se encontra mais indicada no sangramento proveniente das artérias vaginais ou pudendas internas (ex: trauma do canal de parto associado ao parto instrumentado, placentas percretas) ou associada ao empacotamento pélvico para o controle de danos em pacientes com CIVD. Portanto, a sua realização deve ficar a critério do cirurgião Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 41 Figura 10 – Desvascularização uterina progressiva Protocolos e Diretrizes Clínicas 42 Suturas uterinas compressivas • Se o sangramento continuar após a realização da desvascularização uterina, realizar suturas compressivas do útero, principalmente se a causa do sangramento for atonia uterina; • As técnicas de sutura uterina compressiva são várias e a seguir as mais recomendadas, ficando a sua escolha a critério do cirurgião: Técnica de B-Lynch • Utilizar a técnica de B-Lynch apenas em casos de atonia uterina; • Em casos de placenta prévia, com sangramento oriundo do segmento uterino ou no sangramento proveniente de um acretismo simples, a técnica de Barbosa da Silva deve ser considerada (vide adiante); • Uma agulha de Mayo grande com fio poliglecaprone (preferencial) ou poligalactina ou ácido poliglicólico ou catgut cromado n° 0 ou 1, deve ser utilizada para entrar e sair da cavidade uterina lateralmente no segmento uterino inferior (figura 11); • Realizar uma alça da sutura sobre o fundo uterino e reentrar na cavidade uterina inferior, no nível da incisão da cesariana, através da parede posterior; • Depois atravessar a sutura até o outro lado do segmento uterino inferior e sair através da parede posterior; • Realizar outra alça sobre o fundo e entrar anteriormente no segmento uterino inferior lateral, no lado oposto e paralelo à entrada inicial; • As pontas livres dos fios são tensionadas firmemente e amarradas (com duplo nó) para comprimir o útero, auxiliada por compressão bimanual; • A paciente deve estar posicionada adequadamente (pernas afastadas e levemente em posição de Trendelenburg reversa) para possibilitar a monitoração do sangramento; • A técnica pode ser utilizada em combinação com o tamponamento por balão, chamada “técnica de sanduiche”. Técnica de Barbosa da Silva • A técnica de Barbosa da Silva deve ser utilizada preferencialmente em caso de atonia uterina, mas se o sangramento for oriundo do segmento inferior devido a placenta prévia ou associado a um acretismo simples, deve ser considerada; • Utilizando uma agulha curva grande com fio poliglecaprone, poligalactina ou ácido poliglicóico n° 0 ou 1, realizar ligadura dos vasos uterinos no nível do segmento inferior, 2 cm abaixo da incisão da cesariana, com ponto em oito (figura 12); • Realizar duas grandes suturas paralelas em alça, transfixando totalmente a cavidade uterina, o mais baixo possível no segmento uterino inferior, a 4 cm medialmente a seu aspecto lateral; Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 43 • Tensionar firmemente e simultaneamente, com ajuda do assistente, as pontas livres dos fios, com duplo nó, no fundo uterino, comprimindo o útero; • Essa técnica pode ser a melhor opção caso o parto tenha sido por via vaginal já que não há necessidade de histerotomia. Técnica de Hayman • Realizar duas a quatro suturas compressivas paralelas em alça, transfixando a cavidade uterina no nível do segmento inferior, tensionando-as e amarrando-as no fundo uterino (figura 13); • Duas alças de suturas transversais cervicoístmicas podem ser realizadas para controle de sangramento no segmento inferior; • Essa técnica pode ser considerada também caso o parto tenha sido por via vaginal já que não há necessidade de histerotomia. • Nos casos de descolamento prematuro da placenta com útero de Couvelaire, a associação da desvascularização progressiva pela técnica de Tsirulnikov com duas alças compressivas de Hayman é uma boa opção de tratamento cirúrgico (figura 14); Protocolos e Diretrizes Clínicas 44 Figura 11 - Sutura uterina compressiva de B-Lynch Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 45 Figura 12 - Técnica de Barbosa da Silva Protocolos e Diretrizes Clínicas 46 Figura 13 – Sutura uterina compressiva de Hayman Figura 14 – Associação da tríplice ligadura de Tsirulnikov e Sutura uterina compressiva de Hayman. 1 – Ligadura das conexões útero-ovarianas à direita; 2 – Ligadura da artéria do ligamento ovariano direito; 3 – Nó da alça direita de sutura uterina compressiva Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 47 Histerectomia • Casoo sangramento não se resolva após as medidas descritas anteriormente, proceder imediatamente a uma histerectomia, independente da etiologia do sangramento; • Em pacientes com placenta acreta/increta/percreta ou ruptura uterina, deve-se partir precocemente para a histerectomia, antes das medidas conservadoras já preconizadas; • A técnica de histerectomia deve ficar a critério do cirurgião e não faz parte do escopo deste protocolo. Controle de danos para sangramento persistente • Evitar a progressão para a tríade letal de hipotermia, coagulopatia e acidose em pacientes com sangramento uterino persistente, mesmo após realização de histerectomia, através de “controle de danos”; • O controle de danos deve ser realizado para permitir tempo para a correção de distúrbios de coagulação, prevenir síndrome compartimental e permitir intervenções complementares após estabilização da paciente; • As seguintes técnicas podem ser utilizadas para o controle de danos: Laparostomia com bolsa de Bogotá • Realizar empacotamento abdominal com a utilização de 7 a 10 compressas que devem comprimir firmemente a área de sangramento; • As compressas devem ser atadas entre si e deixadas na cavidade abdominal; • As camadas da cavidade abdominal (peritônio, musculatura, fáscia e subcutâneo) não são suturadas e uma bolsa de plástico cobrindo as compressas deverá ser frouxamente suturada à pele; o A bolsa de plástico poderá ser confeccionada utilizando a parte transparente de um coletor urinário (figura 15). • Considerar deixar dreno de sucção na cavidade para monitoração de perda sanguínea Laparostomia com bolsa de Bogotá com sistema de drenagem • Realizar empacotamento abdominal com a utilização de 7 a 10 compressas que devem comprimir firmemente a área de sangramento; • As compressas devem ser atadas entre si e deixadas na cavidade abdominal; • As camadas da cavidade abdominal (peritônio, musculatura, fáscia e subcutâneo) não são suturadas; • Duas bolsas de plástico são confeccionadas utilizando a parte transparente de um coletor urinário; • A primeira bolsa será perfurada várias vezes para criar pequenos orifícios de drenagem; Protocolos e Diretrizes Clínicas 48 • Introduzir a primeira bolsa (perfurada) acima do pacote de compressas e abaixo do peritônio parietal, essa bolsa não é suturada; • Preparar um dreno tubular (ou um dreno a vácuo, ou uma sonda nasogástrica) perfurando vários pequenos orifícios de drenagem nos primeiros 20 a 30 cm da sua extremidade proximal; • Posicionar o dreno tubular acima da primeira bolsa tomando o cuidado para manter a parte perfurada do dreno somente no plano da bolsa (dentro da cavidade abdominal); • Preparar a segunda bolsa, apenas recortando o plástico do coletor, sem perfurá-lo; • Fixar a segunda bolsa na pele, com sutura contínua e passar a parte não perfurada do dreno pela sutura (Figura 16); • Conectar o dreno a um aspirador (ou ao coletor de um dreno a vácuo) • Obs: o empacotamento com drenagem reduz fístulas intestinais e eleva a taxa de fechamento primário. Figura 15 – Laparostomia com bolsa de Bogotá. A – Corte de parte transparente de um coletor de urina; B – Cavidade abdominal “empacotada” com compressas; C – Bolsa frouxamente suturada à pele A B C Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 49 Tamponamento guarda-chuva • Esta técnica é viável somente diante de histerectomia total e possui a vantagem de propiciar o controle de danos sem laparostomia; • Realizar sondagem vesical de demora; • Encher uma bolsa de plástico estéril ou de pano ou de TNT, com compressas umedecidas, amarrar a sua boca deixando os cordões longos e posicioná-la na cavidade pélvica comprimindo os pedículos vasculares sangrantes e a cúpula vaginal; • Os cordões da bolsa devem ser introduzidos na cúpula vaginal até a vagina, puxados através desta e amarrados a um peso para tracionar o pacote que exercerá pressão sobre o assoalho pélvico; • Realizar a laparorrafia; • Um balão hemostático (ex: Bakri) também pode ser utilizado com o mesmo objetivo (figuras 17 e 18). Figura 16 - Laparostomia com duas Bolsas de Bogotá e sistema de drenagem Protocolos e Diretrizes Clínicas 50 H Figura 17 – Pacote construído com sacola de filmes de Rx. A – “cúpula” do pacote; B- D – “pescoço” do pacote; E – compressas atadas; F – equipo de infusão; G – bolsa de fluido (1 L); H – Cordões do pacote através da cúpula vaginal e vagina com peso exercendo pressão sobre a pelve Figura 18 – Técnica de empacotamento pélvico adaptando um balão de tamponamento uterino Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 51 Protocolos e Diretrizes Clínicas 52 Cuidados após controle de danos/empacotamento abdominal • Considerar o uso de antibióticos profiláticos de amplo espectro enquanto o pacote estiver no lugar (ex. Gentamicina 5 mg/Kg a cada 24 hs + Clindamicina 900 mg de 8 em 8 horas); • A paciente deve ser mantida sob monitoração contínua de dados vitais e perda sanguínea devendo ser considerada transferência para CTI; • A necessidade de ≥ 2 unidades de concentrado de hemácias por hora nas três horas seguintes é sinal de sangramento persistente importante e a paciente deve retornar à sala de cirurgia para intervenção complementar; • Caso a paciente permaneça estável e a coagulopatia tenha sido corrigida, o pacote deverá ser retirado 48 horas após; • Sob anestesia adequada, a ferida é aberta e as compressas são retiradas através de tração gentil; • A pelve deve ser gentilmente irrigada, mas exploração agressiva deve ser evitada se não houver coleções sanguíneas; • Fechar a cavidade abdominal através de técnicas usuais; • No caso de tamponamento guarda-chuva, abrir a boca do saco, retirar gentilmente as compressas e depois retirar o saco. Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 53 BIBLIOGRAFIA AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS. Practice Bulletin No. 183: Postpartum Hemorrhage. Obstetrics & Gynecology, [s.l.], v. 130, n. 4, p.168-186, out. 2017. Ovid Technologies (Wolters Kluwer Health). http://dx.doi.org/10.1097/aog.0000000000002351. Disponível em: https://sci- hub.tw/10.1097/AOG.0000000000002351 . Acesso em: 28 ago. 2020 AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS. Quantitative Blood Loss in Obstetric Hemorrhage: ACOG COMMITTEE OPINION, Number 794. Obstetrics & Gynecology, [s.l.], v. 134, n. 6, p.150-156, dez. 2019. Ovid Technologies (Wolters Kluwer Health). http://dx.doi.org/10.1097/aog.0000000000003564. Disponível em: https://journals.lww.com/greenjournal/FullText/2019/12000/Quantitative_Blood_Loss_in_Obstetr ic_Hemorrhage_.40.aspx. Acesso em: 28 ago. 2020. BELFORT, Michael A. Overview of postpartum hemorrhage. In: BARSS, Vanessa A.; LOCKWOOD, Charles J. (Ed.). UpToDate. 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Couvelaire uterus: literature review and description of technique for conservative management. Manuscrito em preparação para ser publicado. CHANTRAPITAK, Wanchai et. al. Postpartum Hemorrhage Outcome in Lower Uterine Segment Compression Maneuver: A 20-Year Experience in Charoenkrung Pracharak Hospital. J Med Assoc Thai, Bangkok, v. 101, n. 4, p. 495-500, abr. 2018. CHANTRAPITAK, Wanchai; SRIJANTEOK, Kamol; PUANGSA-ART, Supalarp. Lower Uterine Segment Compression for Management of Early Postpartum Hemorrhage After Vaginal Delivery at Charoenkrung Pracharak Hospital. J Med Assoc Thai, [s.l.], v. 92, n. 5, p. 600-5, mai. 2009. CONDOUS, G. S. et al. The “Tamponade Test” in the Management of Massive Postpartum Hemorrhage. Obstetrics & Gynecology, [s.l.], v. 101, n. 4, abr. 2003. FOX, Karin A. Postpartum hemorrhage: Use of intrauterine tamponade to control bleeding. In: CHAKRABART, Alana; BERGHELLA, Vincenzo. (Ed.). UpToDate. Waltham, MA: Uptodate Inc, 2020. 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A extremidade proximal da sonda nasogástrica, utilizada como sistema de drenagem, é conectada ao coletor urinário (reservatório sanguíneo) por meio de um segmento de látex MATERIAL: - Duas sondas nasogástricas numeração 18 ou 20 - Três preservativos masculinos não lubrificados - Um coletor urinário - Um segmento de látex de aproximadamente 3 cm - Um a dois fios cirúrgicos - Esparadrapo - Seringa - Tesoura Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 59 Material utilizado na manufatura do balão intrauterino artesanal de Alves OBSERVAÇÃO 1: uma das sondas nasogástricas compõe o eixo do balão; a outra sonda nasogástrica compõe o sistema de drenagem sanguínea. OBSERVAÇÃO 2: o tempo gasto para a manufatura do balão é de quatro a cinco minutos na maioria dos casos. PASSO 1: Inserir e fixar (com fio cirúrgico) o primeiro preservativo na extremidade distal da primeira sonda nasogástrica que irá compor o eixo do balão. PASSO 2: Inserir o segundo e o terceiro preservativos sobre o primeiro preservativo e fixá-los, juntos, a 5 mm da fixação do primeiro. PASSO 3: Unir as extremidades distais das duas sondas nasogástricas com fio cirúrgico, bem proximal à fixação dos preservativos. Posteriormente unir as extremidades proximais das duas sondas nasogástricas com esparadrapo. Detalhe das fixações dos preservativos e da união distal das sondas nasogástricas no balão intrauterino artesanal de Alves PASSO 4: Protocolos e Diretrizes Clínicas 60 Conectar a extremidade proximal da sonda nasogástrica utilizada como sistema de drenagem ao coletor urinário. Utilizar um segmento de látex para essa conexão. O coletor urinário servirá de reservatório sanguíneo. Detalhe da conexão entre a sonda nasogástrica de drenagem sanguínea e o coletor urinário (reservatório sanguíneo), obtida por meio de um segmento de látex PASSO 5: Introduzir o balão na cavidade uterina com auxílio de pinças Foerster ou com a própria mão. Manter o balão dentro do útero (com as pinças ou com a mão) enquanto um auxiliar realiza a infusão de solução fisiológica na sonda nasogástrica usada como eixo do balão. Após parto vaginal realizar infusão de 500 ml. Após cesárea realizar infusão de 300 ml para não distender a histerorrafia. Para prevenir a expulsão do balão, tamponar a vagina com uma ou duas compressas ou aplicar sutura cervical. PASSO 6: Após obtenção do controle hemorrágico, adaptar o sistema de tamponamento à beira do leito. Prescrever profilaxia antibiótica e analgésicos durante todo o tempo de tamponamento, assim como drenagem vesical de demora. Detalhe da adaptação do sistema de tamponamento à beira do leito com o balão intrauterino artesanal de Alves Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 61 PASSO 7: Retirada do balão intrauterino da Alves: deve ser efetuada após evidência do controle da HPP e estabilidade hemodinâmica da puérpera. Retirar durante o dia, com uso simultâneo de ocitocina e por etapas. Sugestão de infusão de 20 unidades de ocitocina em 500 ml de soro fisiológico a 125 ml/hora. Esvaziar 100 ml a cada 30 minutos com vigilância da recidiva do sangramento até retirada completa do balão. SUPOSTAS VANTAGENS DO BALÃO ALVES Uso das sondas nasogástricas, de três preservativos e disponibilidade de um sistema de drenagem sanguínea. 1 - Sondas nasogástricas: - São mais resistentes (polivinil) que as sondas de Foley (látex), impedindo a obstrução do eixo do balão e do sistema de drenagem nos locais em que os preservativos são fixados e nos pontos de união das sondas. - Possuem múltiplos e amplos orifícios de drenagem, supostamente otimizando a drenagem sanguínea. - Possuem maior comprimento, facilitando a adaptação do sistema de tamponamento à beira do leito. 2 - Preservativos: - Três preservativos supostamente aumentam a capacidade de acomodação fluida e promovem uma fixação mais firme do balão na cavidade uterina. 3 - Sistema de drenagem sanguínea: - Permite realização do teste do tamponamento. O teste do tamponamento avalia a persistência do sangramento imediatamente após a inserção intrauterina do balão. Redução imediata da hemorragia classifica o teste como positivo, com elevada correlação com eficácia definitiva do tamponamento. Se o sangramento persistir, o teste é considerado negativo e a intervenção cirúrgica deve ser indicada. A MANUFATURA DO BALÃO INTRAUTERINO PODE SER VISUALIZADA NO CANAL YOU TUBE. ACESSE OS LINKS DO VÍDEO: https://youtu.be/3tBvjcRZBHk https://uterocompanhia.wordpress.com/ https://youtu.be/3tBvjcRZBHk https://uterocompanhia.wordpress.com/ Protocolos e Diretrizes Clínicas 62 ANEXO 2 – PROTOCOLO DE TRANSFUSÃOMACIÇA DA AGÊNCIA TRANSFUSIONAL DO HOSPITAL SOFIA FELDMAN Histórico da última revisão – Anual VERSÃO - DATA ATIVIDADES NOME CARGO/FUNÇÃO RUBRICA 1ª - JUN/2015 2ª - FEV/2017 3ª - NOV/2018 4ª - JULH/202 0 ELABORADO POR DANIELLE CRISTINE DA SILVA BIOMÉDICA AVALIADO POR DANIELLE CRISTINE DA SILVA BIOMÉDICA REVISADO POR VANESSA CLOTILDES CRUZ ALVARENGA BIOMÉDICA APROVADO POR GABRIELA CORRÊA REIS OLIVEIRA TARCÍSIO SILVA BORBOREMA NICOLE FREIRE PERIM MÉDICOS RT’S VALIDADO PELO NÚCLEO DE SEGURANÇA DO PACIENTE (NSP) QUEM: Médicos, bioquímicos, biomédicos e técnicos em patologia clínica. QUANDO: Quando for constatado um paciente com necessidade de transfusão maciça. ONDE: Agência Transfusional. CONDIÇÕES NECESSÁRIAS: EPIs. RESULTADO(S) ESPERADO(S): Padronização da conduta no caso de transfusão maciça para um atendimento seguro e o mais rápido possível. INSTRUÇÃO DE TRABALHO TÉCNICO Título: Transfusão maciça Código: AGT Página 62 de 71 Data da Emissão: 29/06/2015 Número da IT: 27 Nº e Data da Revisão: 03 – 30/07/2020 Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 63 DESCRIÇÃO DA INSTRUÇÃO DE TRABALHO 1. Higienizar as mãos conforme as ITTs nº 39 e 40 do NSP/SCI antes e após a realização do procedimento. 2. Paramentar com os EPIs adequados, conforme a ITT AGT 01. 3. Definição de transfusão maciça: A perda maciça de sangue é considerada como a perda superior a: Adultos: • Perda de uma volemia em 24 horas ou • Perda de 50% de uma volemia em 3 horas; ou • Perda de 150ml/minuto nos primeiros 20 minutos • Recomenda-se utilizar Protocolo de Transfusão Maciça nos casos de sangramento obstétrico com perda de volume acima de 1.500 ml de sangue total. Pediátricos: • Uma volemia de 70-80 ml/kg em 24horas. • 50% do volume circulante (35-40ml/kg) ou 4 bolsas de CH em 3 horas ou 2 a 3ml/kg/min. Toda hemorragia que apresentar alterações hemodinâmicas compatíveis com hipovolemia, devem ser interpretadas como choque hemorrágico. As situações que levam a grandes hemorragias são: Traumas, hemorragias digestivas e complicações obstétricas, sendo que nos sangramentos obstétricos devemos atentar a reposição de fibrinogênio precoce devido ao mecanismo de fibrinólise nessas hemorragias. Requer colaboração e comunicação efetiva entre a equipe clínica e o serviço de medicina transfusional, que prepara e fornece os hemocomponentes. 4. Situações clínicas em que a transfusão maciça é altamente possível de ocorrer: Dentre as situações previsíveis de perdas maciças de sangue estão complicações associadas à gestação ou parto; Síndrome HELLP, Traumas, Coagulação intravascular disseminada (CIVD) e Hemorragias intraoperatórias. 5. Princípios do manejo na transfusão maciça: Protocolos e Diretrizes Clínicas 64 5.1 Estratificar o risco de uma paciente com potencial hemorrágico e reservar os hemocomponentes sempre que possível (nos casos de cirurgias obstétricas); 5.2 Reconhecer precocemente o paciente com perda maciça de sangue, através de parâmetros clínicos; 5.3 Acionar precocemente o protocolo de Transfusão maciça; 5.4 Proceder ressuscitação volêmica e controle do sangramento; 5.5 Proceder ressuscitação hemostática (proporção de hemácias e plasma cada vez mais curtas); 5.6 Prevenir e tratar a coagulopatia dilucional e trombocitopenia através da infusão precoce de plasma e crioprecipitado, nos casos de plaquetopenia, infundir plaquetas; 5.7 Evitar hipotermia, corrigir hipocalcemia, acidose e hipercalemia; 5.8 Prescrever os hemocomponentes em ml/kg na pediatria em crianças < 30kg; 5.9 Uso precoce do antifibrinolítico nas primeiras 3 horas mostrou boa resposta na redução de mortalidade, principalmente nos casos hemorragias por traumas. 6. Abordagem do Paciente: A atenção inicial em pacientes com hemorragias deve ser dada à manutenção da volemia. O paciente deve ser avaliado clinicamente com o intuito de quantificar a perda sanguínea, o que é muitas vezes difícil em um paciente com hemorragia. Para tanto, é preconizada a avaliação clínica baseada nos critérios definidos pela ATLS (Advanced Trauma Life Support), descritos na tabela abaixo: De um modo geral, não há necessidade de transfusão de hemácias para os pacientes com sangramento agudo com perdas estimadas entre 500-1.000 ml (15% da volemia), particularmente em jovens que podem adaptar-se bem à anemia por perda aguda, sendo indicada a infusão de cristaloides. Se mais de 25% do volume sanguíneo foram perdidos em pacientes jovens, ou menos, em pacientes mais idosos que podem ter já de antemão funções orgânicas criticamente Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 65 comprometidas, além de receber as soluções cristaloides, necessitam restaurar a capacidade de carrear oxigênio e, eventualmente, reposição de elementos responsáveis por hemostasia. Importante lembrar que apenas um terço do volume de cristaloide administrado permanece no espaço intravascular, o restante extravasa rapidamente para o espaço intersticial, portanto a reposição de cristaloides deve respeitar um volume de 20 ml/kg. Outro detalhe, períodos variáveis de hipoperfusão tecidual determina alterações relevantes na permeabilidade de microcirculação, fazendo com que a distribuição para o espaço intersticial seja facilitada, isto é amenizado com soluções que aumentem a pressão coloidosmótica intravascular, como as soluções hidrocolóides de albumina humana ou expansores plasmáticos (risco de reação anafilática durante infusão). O hematócrito não é um bom parâmetro para guiar a decisão de transfundir ou não transfundir, devido ao fato de que só começa a diminuir uma a duas horas depois do início da hemorragia. 7. Considerações à transfusão maciça de sangue: 7.1 A necessidade imediata ou urgente de hemácias e outros produtos podem prescindir dos testes de compatibilidade de rotina, no entanto as amostras para testes transfusionais devem ser coletadas assim que acionado o protocolo, bem como amostras laboratoriais que incluem: Hemograma completo, fibrinogênio, coagulograma (RNI e PTTA), gasometria e íons; 7.2 Atentar para identificação correta da paciente para solicitação do hemocomponente; bem como identificação correta da amostra enviada para testes transfusionais; 7.3 A paciente deve ser mantida bem aquecida, pois a transfusão rápida de hemácias pode causar hipotermia 7.4 Atentar para complicações geradas por transfusão de grande volume durante um curto período (< 24 h), metabólicas e dilucionais; 8. Correção de Perda Sanguínea: 8.1 Acompanhar perda sanguínea da paciente, se perda superior a 1.500 ml associada a critérios clínicos acionar protocolo de transfusão maciça com o objetivo inicial de garantir a ressuscitação volêmica; 8.2 Garantir dois acessos venosos calibrosos; 8.3 Manter paciente monitorizada, com via aérea pérvia e aquecida; 8.4 Coletar exames laboratoriais: Hemograma, coagulograma, fibrinogênio, gasometria e íons 8.5 Encaminhar amostra para testes transfusionais na agência transfusional (caso a paciente não tenha reserva cirúrgica ou a reserva tenha sido solicitada há mais de 72 horas); 8.6 Infusão de cristaloides: volume de 20ml/kg (Soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato); 8.7 Se necessário associar soluções de Albumina Humana 5 a 25% ou expansores plasmáticos (atentar para possíveis riscos de reações anafiláticas); Protocolos e Diretrizes Clínicas 66 8.8 Medidas de controle local do sangramento como massagem uterina, compressão bimanual da artéria uterina e compressão da aorta; 8.9 Iniciar drogas uterotônicas a critério da equipe de obstetrícia; 8.10 Iniciar ácido tranexâmico: 1 grama em bolus em 10 minutos; 8.11 Solicitação de emergência de hemocomponentes à agência transfusional (assinar TCLE para que hemocomponentes iniciais sejamdo tipo “O NEG” e sejam liberados sem testes transfusionais), caso paciente já tenha reserva solicitada, será liberado hemocomponente isogrupo, porém continua sendo necessária assinatura do TCLE, até liberação do resultado de prova cruzada; 8.12 Informar agência transfusional assim que acionado o protocolo de transfusão maciça para garantir maior agilidade na liberação e no transporte de hemocomponentes, bem como informar equipe do laboratório para que exames sejam liberados com prioridade; 8.13 Iniciar transfusão de PFC e CH na relação 1:1 ou 2 (PFC:CH): A decisão de quais hemocomponentes e quando devem ser transfundidos deve ser feita baseando-se na avaliação clínica e resposta à terapêutica inicial. Em situações na qual a hemoglobina é inferior a 7 g/dl existe grande risco de hipóxia tissular e comprometimento das funções vitais, aqui os mecanismos compensatórios não seriam eficazes para prevenir o dano tecidual. Entre 7 e 10 g/dl de hemoglobina, a anemia pode ou não exigir transfusão, ficando a indicação na dependência da avaliação clínica do paciente e doença de base. Se sangramento controlado não há indicação para atingir níveis de hemoglobina fisiológicos através da transfusão; 9. Seleção das bolsas para transfusão: 9.1 Nos casos onde há a necessidade de TM, deve-se dar preferência a bolsas com até 3 dias de armazenamento, mas, na falta delas, transfunde-se o que estiver disponível sempre dando preferência àquelas com menor número de dias de estocagem. 9.2 Muitos casos de TM são de extrema urgência, então quando um retardo no início da transfusão for capaz de levar o paciente ao óbito, a liberação de sangue ou de concentrado de hemácias sem prova de compatibilidade poderá ser feita, desde que solicitado pelo médico (ver ITT AGT 25). 9.3 O envio da bolsa sem prova de compatibilidade não implica na não realização dessa, assim que houver amostra do paciente, de imediato deve ser feita a tipagem ABO/RhD para enviarmos hemácias isogrupo, depois enviar bolsas cruzadas e compatíveis. 9.4 Quando o resultado das provas pré-transfusionais demonstrarem que não há sangue compatível para o receptor, o médico responsável deverá ser comunicado e em conjunto com o médico do serviço de hemoterapia, realizar a avaliação clínica do paciente. 9.5 Caso seja feita a opção de se transfundir sangue incompatível, esta decisão deve ser justificada por escrito, em termo próprio que deve ser assinado pelo hemoterapeuta, pelo Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 67 médico assistente do paciente e, quando possível, pelo próprio paciente ou por seu responsável legal (ver ITT AGT 23). 9.6 A reposição de hemácias, tem como função restabelecer a capacidade de transporte de oxigênio, evitando hipoxemia tecidual. É indicada infusão rápida (1 bolsa a cada 10 min) por vezes necessária; 9.7 A reposição de plasma atua na prevenção ou tratamento da coagulopatia. Não existe uma fórmula para a reposição de plasma em transfusão maciça, sendo geralmente feita se TP ou TPPa for maior que 1.5 vezes o limite do valor de controle (após a reposição de uma volemia). O plasma deve ser solicitado precocemente, assim como o concentrado de hemácias. O plasma demora cerca de 40 minutos para descongelar, por este motivo, assim que for iniciado o protocolo de transfusão maciça a agência transfusional deve ser imediatamente acionada. O plasma pode ser heterogrupo. Atentar para sinais de sobrecarga circulatória, reações alérgicas e TRALI durante a infusão. 9.8 A concentração de fibrinogênio deve ser mantida acima de 200 mg/dl, a reposição de crioprecipitado pode ser usada com essa finalidade e também é recomendado o uso precoce na transfusão maciça, devido ao mecanismo de fibrinólise muito ativo nas hemorragias obstétricas. O crioprecipitado demora cerca de 40 minutos para ser descongelado. 10. Alterações Fisiopatológicas na Transfusão Maciça: Patogênese multifatorial está relacionada à coagulopatia precoce induzida pelo trauma (coagulopatia aguda do trauma), transfusão de hemocomponentes e infusão de cristaloides; A coagulopatia aguda do trauma está correlacionada a pior prognóstico independente da severidade da lesão. Nas hemorragias obstétricas o sangramento está associado ao mecanismo de hiperfibrinólise que ocorre nas gestantes no momento do parto. A administração de CH sem adicionar fatores de coagulação e plaquetas resulta em comprometimento da hemostasia: • Hemodiluição (coagulopatia dilucional e trombocitopenia); • Distúrbio metabólico (acidose e hipocalcemia pelo citrato na solução de estocagem e hipotermia pela refrigeração). Tríade letal: Coagulopatia refratária, Hipotermia progressiva e Acidose metabólica persistente 11. Complicações: As complicações associadas com a transfusão maciça geralmente estão associadas à infusão de produtos usados para aumentar o período de estocagem do sangue ou a alterações que ocorrem durante a estocagem. Os problemas metabólicos imediatos importantes, associados à transfusão sanguínea, se relacionam com a possibilidade de altas concentrações de potássio Protocolos e Diretrizes Clínicas 68 levar à hipercalemia e/ou a infusão rápida de citrato causar hipocalcemia. Deve ser realizada monitorização iônica nestes pacientes e atentar para sintomas de hipocalcemia. Considerar infusão de cálcio somente nos casos indicados. 11.1. Hipercalemia: A hipercalemia se origina do fato de a concentração extracelular de K+ aumentar progressivamente durante a estocagem das hemácias. A correção da volemia e do transporte de oxigênio revertem a acidose e modificam o sentido do fluxo de potássio para o interior das células. A hipercalemia esperada durante a TM não chega a ser um problema, exceto em pacientes com insuficiência renal. 11.2 Hipocalcemia: Evento temido durante a TM, por acarretar alterações no estímulo elétrico cardíaco (alargamento do intervalo QT), insuficiência ventricular aguda, convulsão e hipotensão. Pode ocorrer devido às grandes quantidades de citrato na transfusão rápida de hemocomponentes, levando a redução de 40 a 50% dos valores normais de cálcio iônico, que retornam ao valor normal em poucos minutos, após a interrupção da infusão Na maioria dos casos o uso de cálcio é desnecessário, devemos manter a vigilância dos sintomas de hipocalcemia. O tratamento pode ser feito com gluconato de cálcio ou cloreto de cálcio. Importante: Não administrar cálcio pela mesma via de administração do sangue, pois, pode ocorrer formação de microêmbolo (pela anulação do efeito quelante do citrato). 11.3. Acidose A coleta de sangue em solução de preservação ácida CPDA-1 (pH 5,5) reduz o pH para 7, quanto maior o tempo de estocagem, menor o pH (6.6), resultando acúmulo de CO2 e ácidos fixos. É preciso conhecer o pH e o déficit de base para providenciar as correções e manter o pH próximo de 7.3. 11.4. 2,3 – difosforoglicerato (2,3 – dpg) É encontrado no interior da hemácia, tem influência na afinidade da hemoglobina por oxigênio. A concentração de 2,3 – DPG cai gradualmente durante o armazenamento do concentrado de hemácias, até níveis próximos de zero. A queda na concentração de 2,3 – DPG é dependente do tipo de conservante e o mais comumente utilizado é o CPDA- 1, que mantém níveis adequados de 2,3 – DPG até 05 dias após estoque. A normalização dos níveis intracelulares de 2,3 – DPG demora cerca de 12 à 24 horas após transfusão. Aumento de 2,3 – DPG acarreta menor afinidade da hemoglobina por hemácias, favorecendo sua liberação para os tecidos, enquanto sua diminuição aumenta a afinidade e diminui a liberação de oxigênio. Em transfusão maciça, faz-se necessário o uso de concentrado de hemácias com tempo de estoque menor que 5 dias se possível. Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 69 11.5. Distúrbios de hemostasia: Entre os principais fatores que contribuem para o aparecimentode coagulopatia dilucional associada à TM estão a hemodiluição, hipotermia, hipóxia e a lesão do sistema nervoso central que constitui importante fonte de ativadores de plasminogênio, conhecidos ativadores do sistema fibrinolítico. A hemodiluição extensa pode afetar a coagulação, contudo a incidência é baixa quando é reposta até uma volemia. Nessa situação, até 40% da atividade dos fatores de coagulação é preservada e esses níveis são, de modo geral, suficientes para a hemostasia adequada. A queda de fatores de coagulação vai depender de qual hemocomponente for usada como reposição, a deficiência como causa primária de coagulopatia ocorre principalmente com o uso de Concentrado de Hemácias. Nessa situação, hipofibrinogenemia ocorre na maioria dos pacientes atingindo nível crítico (1g/dl) com a troca de 1,5 volemia. Raramente os níveis de plaquetas são inferiores a 100.000/mm3 até que haja troca de 1,5 a 2 volemias. Diluição de plaquetas e fatores de coagulação intravascular após transfusões de grande volume durante curto período de (< 24 horas): Montante de transfusão de sangue (Hemácias) Concentração residual de plaquetas ou Fatores de coagulação (fator V, fibrinogênio) 01 Volume sanguíneo 33 % 02 Volume sanguíneo 25 % 03 Volume sanguíneo 12 % 04 Volume sanguíneo 04 % 11.6. Hipotermia: A hipotermia pode ser identificada quando a temperatura central cai, abaixo de 34ºC, que pode gerar consequências graves ao paciente como alterações cardíacas (arritmias ventriculares), metabolismo alterado de citrato e lactato, desvio para a esquerda da curva de dissociação da hemoglobina e distúrbios da coagulação. As hemácias são estocadas entre 2-6º C e uma transfusão rápida de grandes volumes pode causar hipotermia. Isto é comum quando a velocidade de infusão é maior do que 100 ml/minuto, equivalente à transfusão de uma unidade em 2-3 minutos, utilizando de cateter central, Protocolos e Diretrizes Clínicas 70 posicionado próximo ao sistema de condução cardíaco. Para contornar esses efeitos há várias maneiras, como afastar o cateter central do átrio, diminuir a taxa de infusão, ou ainda utilizar aquecedor de sangue, que não deve elevar a temperatura do sangue acima de 42º C, para evitar hemólise térmica do concentrado (indisponível na agência). A CIVD associada a TM está relacionada com intensidade e duração do choque circulatório que produz isquemia tecidual, acidose e acúmulo de detritos provenientes de lesão celular e metabolismo anaeróbico. 12. Profilaxia tromboembólica após sangramentos maciços: Pacientes obstétricas com sangramento excessivo apresentam altas taxas de TVP; a profilaxia tromboembólica deve ser iniciada assim que possível. Após o sangramento cessar. Enoxaparina 40 mg SC 24/24 horas. 13. Documentação: 13.1. Devido à urgência nos casos de TM, muitas vezes impõe-se de fazermos o atendimento sem os devidos registros burocráticos. Não obstante, deve ser anotado tudo o que está sendo enviado para o paciente: tipo de hemocomponente e número da bolsa do doador para anotações a posteriores. 13.2. Solicitações de Hemocomponentes devem estar constando no mínimo os seguintes itens: • Nome completo do paciente; • Hemocomponente solicitado e volume; • Nome legível, assinatura e o número do CRM do médico solicitante (Prescrição de Hemocomponentes trata-se de ATO MÉDICO); • TERMO DE RESPONSABILIDADE (no verso da Solicitação de Hemocomponentes) assinando pelo médico responsável no qual afirme expressamente concordar com o procedimento de emergência. REFERÊNCIAS Cadernos hemominas: Capacitação de profissionais de agências transfusionais e assistências hemoterápicas. v XIV. Fundação hemominas, Belo horizonte, 2010. BRASIL. ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 34, de 11 de Junho de 2014. Dispõe sobre as Boas Práticas no Ciclo do Sangue. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Brasil, 16 jun. 2014. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Gabinete do Ministro. Portaria n.º 158, de 04 de fevereiro de 2016. Redefine o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, Brasil, 5 fev. 2016, nº 25, seção 1, p. 37. AGÊNCIA TRANSFUSIONAL - HOSPITAL UNIVERSITÁRIO JÚLIO MULLER. Procedimento operacional padrão na transfusão maciça e emergência. Hildenete Monteiro Fortes; 2005. Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto 71 Prevenção e Manejo da Hemorragia Pós-parto Sumário Índice de tabelas índice de quadros ÍNDICE DE FIGURAS Grupo Elaborador do Protocolo (gep) Escopo e objetivos Metodologia de elaboração/revisão Definições/diagnóstico/classificação da HPP Etiologia Planejamento, prevenção e prontidão Reconhecimento Manejo da hemorragia Tamponamento uterino com balão Uso de sangue e hemocomponentes na hemorragia pós-parto Tratamento cirúrgico da hemorragia pós-parto BiblioGRAFIA ANEXO 1 - MANUFATURA DO BALÃO INTRAUTERINO ARTESANAL DE ALVES Anexo 2 – Protocolo de Transfusão Maciça da Agência Transfusional do Hospital Sofia Feldman