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335 ObjetIvOs de aprendIzagem Após estudar este capítulo, você estará ca- pacitado para: »» Definir as necessidades de mudanças pessoais e organizacionais. »» Compreender a onda de reestruturações rumo à inovação. »» Empreender um programa de criativida- de e inovação. »» Descrever as etapas da mudança organi- zacional. »» Definir os métodos de desenvolvimento de pessoas. »» Descrever as técnicas de desenvolvimen- to organizacional. O Que será vIstO adIante »» Os novos tempos. »» Uma onda de reorganizações. »» Gestão do conhecimento corporativo. »» Criatividade e inovação. »» Mudança organizacional. »» Desenvolvimento de pessoas. »» Desenvolvimento organizacional. desenvolvIMento de pessoas e de oRGanIzações CaPítulo 13 CasO IntrOdutórIO: o Banco Planetário Como presidente do Banco Planetário, Pedro Behring recebeu a incumbência de colocá-lo entre os melhores bancos do país. A preocupação com a qualidade dos ser- viços passou a ser a prioridade para as 60 agências espa- lhadas pelo país. Mas, na prática, as coisas não aconteciam como Pedro pretendia. A empresa continuava lenta, moro- sa, burocratizada e com serviços medíocres. Pedro reuniu toda a diretoria para analisar se o problema era técnico ou humano. Queria estimular a área de relações humanas (RH) para servir de ponta de lança nas mudanças necessá- rias. Na reunião, Pedro perguntou ao diretor de RH o que se deveria fazer. O que fazer no lugar do diretor de RH? A busca do desenvolvimento mútuo e continua- do entre organizações e pessoas é, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes da moderna gestão de pessoas (GP). A legitimidade da área está fortemente vinculada à capacidade de desenvolver pessoas – a única forma de ultrapassar os obstáculos que se colo- cam para o futuro das organizações e torná-las perma- nentemente atualizadas e viáveis. Mas os processos de capacitação e desenvolvimento das pessoas envolvem questões complexas como preparação de lideranças, introdução do coaching e mentoring, educação corpo- rativa continuada, gestão do conhecimento, aquisição de novos talentos e aprendizado organizacional. O treinamento é um esforço de melhora indivi- dual. Como tal, é indispensável, mas insuficiente para as necessidades organizacionais de um mundo em constante mudança. Torna-se necessário um esforço mais amplo e compreensivo de mudança e melhora organizacional. E por quê? Simplesmente porque esta é uma era de instabilidade e mudanças que requerem pessoas e organizações dinâmicas, flexíveis, mutáveis e inovadoras. Os novos tempos exigem novas organi- zações e uma nova postura das pessoas. os noVos temPos A maioria das organizações foi estruturada e organi- zada nos costumeiros padrões de relativa estabilidade e permanência. O tradicional modelo organizacional em 336 parte v – desenvoLvendo pessoas que elas se inspiraram foi moldado no início do século XX para as condições da Era Industrial. As organizações eram feitas para durar para sempre, como se fossem prontas, perfeitas e acabadas e não requeressem melho- rias ou ajustes com o passar do tempo. As principais ca- racterísticas do modelo tradicional e mecanístico eram: comando centralizado pela hierarquia e controle exter- no e absoluto do desempenho das pessoas, cargos defi- nitivos com atribuições delimitadas e tarefas simples e repetitivas, regras e regulamentos para impor ordem e eficiência, departamentos funcionais com objetivos es- pecíficos e orientados para especialidades, um modelo estático e conservador de negócio no qual não se prevê qualquer mudança ou flexibilidade. Era como se o mun- do fosse fixo e não sofresse mudanças. Mas os tempos mudaram. Hoje, em plena Era da Informação e globalização do mundo dos negócios, a crescente mudança e a instabilidade ambiental colo- cou em cheque o antigo modelo rígido e definitivo de organização, que passou a ter pouca serventia nos tem- pos atuais. O ambiente que circunda as organizações tornou-se instável e imprevisível, e o tradicional mo- delo organizacional não funciona nessas condições. É preciso mudar as organizações para que elas possam ser adaptativas e competitivas na era atual (Figura 1). rH de HOje: o show da General Electric 1 Quando assumiu a presidência da General Electric (GE), em 1981, Jack Welch encontrou uma empresa burocratiza- da e voltada para o seu interior. Welch sinalizou os esforços iniciais para a renovação da cultura organizacional em um programa de 10 anos de inovações, que foi considerado um dos mais agressivos da história das empresas. Sintomatica- mente, Welch começou queimando o Blue Books da GE – o guia de treinamento gerencial da empresa. Os tradicionais programas de treinamento focavam apenas em análises e habilidades. Trabalhando em conjunto com o diretor de trei- namento da GE e com a Universidade de Michigan, Welch impôs a abordagem de aprendizagem por ação (action learning): os 3.500 executivos da GE em equipe devem re- solver problemas de negócios identificados pelos dirigen- tes da companhia. Problemas como o mercado financeiro da Índia ou como competir com os concorrentes, como Electrolux, Toshiba ou ABB Asea Brown Boveri, passaram a ser ventilados nos novos programas de desenvolvimento de pessoal. No final de cada mês, cada equipe mostrava as soluções a Welch e à diretoria da GE. Refletindo o impe- rativo da competição global, os executivos-estudantes da GE passavam pela livraria, aprendiam fazendo e iam para o aeroporto enfrentando o mundo por meio de entrevistas e pesquisas. Pé na estrada e mãos à obra. A teoria administrativa tem demonstrado que os ambientes estáveis exigem organizações rígidas e me- canísticas, enquanto os ambientes mutáveis exigem organizações orgânicas. A Era Industrial se caracteri- zou por um ambiente estável, de permanência e con- servação. Por essa razão, as organizações mecanísticas e burocráticas proliferaram na maior parte do século XX. Com a Era da Informação, a mudança acelerou e o Ambiente estável e previsível Ambiente instável e imprevisível As demandas do produto ou do serviço oferecido pela organização são estáveis e previsíveis. O ciclo de vida do produto é longo As demandas do produto ou do serviço oferecido pela organização mudam dramaticamente, pois os concorrentes introduzem produtos melhorados Os concorrentes não mudam suas estratégias e nem mudam seus produtos e serviços Os concorrentes fazem mudanças súbitas e inesperadas nas estratégias e nos produtos/serviços A inovação tecnológica e o desenvolvimento de novos produtos são lentos e evolucionários. A necessidade de mudanças nos produtos/serviços pode ser prevista antecipadamente A inovação tecnológica e o desenvolvimento de novos produtos são rápidos e intensos. As organizações investem em pesquisa e desenvolvimento para inovar constantemente As políticas governamentais quanto à regulamentação e à taxação da indústria mudam pouco com o passar do tempo As políticas governamentais mudam rapidamente a respeito da regulamentação e da taxação, para acompanhar a onda de novos produtos/serviços que são introduzidos pelas empresas fIgura 1 Ambiente estável em comparação com ambiente mutável. CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 337 mundo dos negócios se transformou em um ambiente instável e turbulento, abrindo as portas para organi- zações orgânicas e flexíveis que melhor se ajustam às novas características ambientais. As características do modelo orgânico passaram a ser: redução dos níveis hierárquicos e descentralização; autocontrole e auto- direção do desempenho pelas próprias pessoas; cargos mutáveis e constantemente redefinidos; tarefas mais complexas e diferenciadas; trabalhos não mais indi- vidualizados, mas desempenhados em equipes mul- tifuncionais, autogeridas e empoderadas; interação constante para a busca da eficácia; órgãos flexíveis e mutáveis cada vez mais substituídos por equipes: um modelo dinâmico e inovador na busca de flexibilida-de e adaptação ao mundo exterior. A passagem de um ambiente estável para um ins- tável está permitindo que as organizações migrem da estrutura mecanística e tradicional para a estrutura orgânica e moderna. Uma verdadeira onda de reorga- nizações foi responsável por essa migração (Figura 2). gp de HOje: o que as empresas têm pela frente 3 A pesquisa do Programa de Estudos em Gestão de Pes- soas (Progep) da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), feita em 2003, mostra que três desafios devem concentrar a atenção dos gestores: 1. Ampliar os mercados de atuação da empresa (57%). 2. Reduzir custos (39,8%). 3. Promover estruturações internas (29,6%). As estratégias competitivas consideradas mais relevan- tes para os negócios são: 1. Orientação para excelência operacional, revendo pro- cessos e reduzindo custos como estratégia crucial (para 37,6% das empresas pesquisadas). 2. Orientação para serviços (22,6%). 3. Busca de intimidade com o cliente (18,8%). 4. inovação em produtos (16,7%). As competências organizacionais consideradas cruciais são: 1. GP: que alcançou destaque absoluto (73,4%). 2. Gestão de negócios (59,9%). 3. Gestão da inovação em produtos (40,8%). A arquitetura estratégica deve exigir um modelo de GP bastante diferente daquele que ainda prevalece na maio- ria das organizações. fIgura 2 Organizações mecanísticas e orgânicas.2 Organizações mecanísticas Organizações orgânicas Ênfase na cadeia de comando Despreocupação com a cadeia de comando Divisão funcional do trabalho, problemas e tarefas relativos à organização como um todo são decompostos em atividades especializadas Estrutura de trabalho divisionalizada e autossuficiente. A responsabilidade pelo trabalho não é vista como um campo limitado de direitos, obrigações e métodos Os cargos são altamente especializados, definidos e permanentes Os cargos não são claramente definidos, mas continuamente ajustados e redefinidos às demandas da situação Utilização da hierarquia formal como meio de coordenação A comunicação é feita por uma estrutura matricial ou em rede As descrições de cargo são detalhadas para proporcionar definição precisa de direitos, obrigações e métodos técnicos para desempenhar cada cargo A comunicação é mais lateral que vertical e há ênfase sobre a consulta mais que sobre o comando. A comunicação transita mais informações e sugestões do que instruções e decisões A interação entre funcionários é vertical, entre superior e subordinados Há o comprometimento que motiva os funcionários a manter o autocontroleO comportamento é governado por instruções e decisões tomadas pelos superiores 338 parte v – desenvoLvendo pessoas vOltandO aO CasO IntrOdutórIO: o Banco Planetário A primeira providência que Pedro Behring tinha em mente era dotar o Banco Planetário de uma nova estrutura organizacional orgânica e baseada em equipes. A segunda era a mudança da cultura tra- dicional para uma nova cultura baseada no capital humano e na participação das pessoas. Mas como fazer tudo isso em uma organização tradicionalista e territorialmente dispersa? Pedro pediu uma suges- tão do diretor de RH. O que fazer no lugar de Pedro? uma onda de ReoRganIzações As décadas de 1980 e 1990 foram caracterizadas por uma intensa onda de reorganizações nas maio- res empresas do mundo todo. Falou-se muito em reengenharia, downsizing, rightsizing, reestrutura- ções, fusões, terceirização (outsourcing), quarteiriza- ção e coisas do gênero. Muitas organizações deixa- ram de lado o organograma tradicional e passaram a inovar em termos de estrutura organizacional e organização do trabalho. E não o fizeram pela mera vaidade de ostentar uma estrutura moderna, mas pela imperiosa necessidade de se tornarem mais ágeis, flexíveis, inovadoras e rápidas no gatilho. Muitas delas comprimiram a hierarquia e cortaram níveis intermediários e inverteram as bolas fazendo com que as pessoas que se relacionam com o cliente externo se tornassem os elementos mais importan- tes da organização. Em vez de servir verticalmente à hierarquia, o pessoal da linha de frente passou a ser- vir horizontalmente ao cliente, tendo a organização como retaguarda ou como ferramenta de trabalho, como foi o caso pioneiro da Scandinavian Airlines System (SAS). Nessa onda de reestruturações, as pessoas dei- xaram de ser um recurso produtivo ou mero agen- te passivo da administração para se tornar agentes ativos e proativos do negócio. Os ativos tangíveis – como capital financeiro, instalações e maquinário, que podem ser comprados em qualquer lugar do mundo como commodities – perderam espaço para ativos intangíveis – como conhecimentos, habili- dades e competências, que devem ser construídos e desenvolvidos sob medida para o negócio da orga- nização. gp de HOje: para quem as pessoas trabalham? 4 O presidente da Asea Brown Boveri (ABB) do Brasil afirma que “a empresa não trabalha para o presidente, mas para o cliente. O presidente está aqui para agregar valor. O seu papel é olhar no longo prazo”. E qual foi a sua maior realização no comando da ABB? A resposta dele: não foi au- mento de vendas. Nem lucro maior. Foi sim a importância dada às pessoas. Ele acabou com o cartão de ponto para o pessoal. “A empresa precisa demonstrar confiança para seu pessoal. O que importa para a ABB é fabricar produtos com elevada qualidade e no tempo certo. A que horas o colabo- rador vai trabalhar, não interessa. Mais importante do que o horário são os resultados do seu trabalho”, diz ele. Quando Roberto Goyzueta era presidente da Coca-Cola Co., dizia que o seu trabalho tinha um objetivo único: agregar valor à companhia, aos clientes, aos investidores, aos fornecedores e, principalmente, aos colaboradores. São eles que fazem a companhia. No fundo, ele queria se referir aos resultados a serem ofertados aos stakeholders da companhia. gestão do conHecImento coRPoRatIVo Tudo depende do conhecimento: pensar, raciocinar, decidir, fazer. Segundo Drucker, o conhecimento é a in- formação que transforma algo ou alguém no sentido de realizar ações ou em função de dotar o indivíduo ou a instituição da capacidade de agir de maneira diferente ou mais eficiente.5 Conhecimento significa informação estruturada e capaz de agregar valor e gerar riqueza. gp de HOje: conhecimento como riqueza O conhecimento é uma mistura de experiência con- densada, valores, informações contextuais e insight (discer- nimento) de uma pessoa e que proporciona uma estrutura para a avaliação e a incorporação de novas experiências e informações. O conhecimento está na mente das pessoas. As pessoas transformam a informação em conhecimen- to, fazendo comparações, analisando as consequências, buscando as conexões e conversando com outras pessoas sobre as informações recebidas. Nas organizações, o co- nhecimento está embutido em documentos, rotinas, pro- cessos, práticas e normas organizacionais. O conhecimen- CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 339 to conduz à ação no desenvolvimento de novos produtos ou serviços, na tomada de decisões acertadas em relação aos clientes, na formulação de estratégias para enfrentar os concorrentes, na logística a ser adotada, etc. Quando o conhecimento deixa de evoluir, transforma-se em opinião ou, o que é pior, em dogma. Pela sua importância, o conhe- cimento está sendo considerado um ativo corporativo e as empresas bem-sucedidas perceberam que é necessário geri-lo e cercá-lo do mesmo cuidado que dedicam à obten- ção de valor em outros ativos tangíveis.6 Quanto mais as empresas dominam o conhecimento, tanto maior a sua vantagem competitiva. E por que o co- nhecimento é vital? Porque todos os aspectos intangíveis que agregam valor à maioria dos produtos e serviços são baseados em conhecimento: know-how técnico, projeto de produto, estratégias de marketing, entendimento do cliente, criatividade pessoal e inovação. A inteligência hu- manaestá por trás disso tudo.7 O conhecimento é muito mais do que uma pessoa ou um grupo de pessoas sabe e conhece. Ele é também o que a organização sabe e conhece e é continuamen- te agregado e ampliado a partir de fontes internas e externas por anos ou décadas de história. Mas o co- nhecimento não é formado ao acaso. Ele precisa ser administrado, isto é, planejado, organizado, dirigido e monitorado. A gestão do conhecimento (GC) é o pro- cesso pelo qual as organizações geram valor a partir do capital intelectual e de ativos intelectuais.8 Quando se fala em geração de valor, isso significa compartilhar e aproveitar os ativos intelectuais entre colaboradores, gerentes e dirigentes para transformá- -los em resultados concretos. Representa o esforço para descobrir e aprender novas e melhores práticas, novas e melhores soluções, novos produtos e servi- ços. Conhecimento é a principal base do capital inte- lectual das organizações. O capital intelectual representa o inventário de re- lacionamentos e conhecimentos gerados pela organi- zação e expressos nos seguintes aspectos: 9 •» Tecnologia: patentes, processos, produtos e serviços. •» Informação: conhecimento de clientes, fornecedo- res, concorrência, entorno, oportunidades e pesquisas. •» Habilidades e competências: desenvolvidas pe- los colaboradores. •» Inovação: solução de problemas em equipe, comu- nicação, gestão de conflitos, desenvolvimento de inteligência competitiva. •» Stakeholders: envolvidos de maneira sistêmica no negócio da organização. Tudo unido, conjugado e orientado para criar va- lor de forma contínua por meio de todos os membros da instituição. Em poucas palavras, é a soma do que sabem todos em uma organização e que proporciona a ela uma vantagem competitiva no mercado e em re- lação ao seu futuro. A GC trata da identificação do que se sabe ou do que se deve saber em uma organização. Significa criar, capturar, arquivar, organizar, sistematizar, disseminar e aplicar o conhecimento de maneira a rentabilizá-lo. Envolve informação e expertise entre os colaboradores com interesses e necessidades similares para criar ino- vação e gerar retorno. Em resumo, a GC está vinculada à decisão sobre qual é o conhecimento crítico que im- porta realmente à organização e que serve aos seus pro- pósitos e permite proporcionar resultados concretos. A maioria dos sistemas de GC é facilitada pela tec- nologia da informação (TI) e pela internet. Apesar da base tecnológica (hardware e software), a GC é mais sobre pessoas, relações de trabalho e comunicação. Na verdade, é uma filosofia administrativa que combina boas práticas em GC proposital com uma cultura de aprendizagem organizacional no sentido de melhorar o desempenho dos negócios.10 dICa: gestão do conhecimento A GC refere-se à criação, identificação, integração, recu- peração, compartilhamento e utilização do conhecimento na empresa. Está voltada para a criação e a organização de fluxos de informação nos e entre os vários níveis organi- zacionais, para gerar, incrementar, desenvolver e partilhar o conhecimento na organização, sobretudo para incentivar trocas espontâneas de conhecimento entre as pessoas. Ao contrário do que acontecia antigamente – quando as empresas guardavam e escondiam o conhecimento a sete chaves por meio da confidencialidade –, a GC (knowledge management) procura orientar a empresa inteira para pro- duzir o conhecimento, aproveitá-lo, disseminá-lo, aplicá-lo e lucrar com ele. Cada pessoa precisa agregar valor aos processos e produtos da empresa. E esse valor é alcançado mediante o compartilhamento do conhecimento e repre- senta a essência da inovação. O segredo não mais está em deter o conhecimento nas mãos de poucos, mas divulgá-lo em toda a organização, em distribuir e disseminar, e não retê-lo ou escondê-lo (Figura 3). 340 parte v – desenvoLvendo pessoas dICa: desafios da gestão do conhecimento Os três principais desafios da gestão do conhecimento são:11 1. criar uma infraestrutura administrativa do conhe cimento: essa tarefa envolve a construção de redes, bancos de dados, estações de trabalho, etc. Muitas or- ganizações desenvolvem centros de aprendizagem ou universidades corporativas para essa finalidade. Outras definem um executivo de alto nível – como um gerente do conhecimento – para tocar e desenvolver o assunto. 2. construir uma cultura do conhecimento: derrubar barreiras e criar mecanismos para o desenvolvimento e a manutenção do conhecimento nos vários departamen- tos da organização. Isso envolve a mudança da cultura or- ganizacional para incrementar o valor do conhecimento. Está trazendo uma nova concepção do treinamento – e do aprendizado – como um processo de comunicação do conhecimento. Assim, os profissionais de GP tornam-se agentes de aprendizado e consultores em desempenho. 3. administrar resultados: para saber qual é a melhor for- ma de gestão do conhecimento que ajuda a fazer ou eco- nomizar recursos e documentar o impacto econômico. tipos de conhecimento Nonaka e Takeuchi desenvolveram um modelo coerente que relaciona o processo de inovação a co- nhecimentos tácitos e explícitos.11 Para ambos, o co- nhecimento pode ser: •» Tácito: é altamente subjetivo, difícil de comunicar, registrar, documentar ou ensinar aos outros, pois está no indivíduo e na maneira como este interpreta a realidade. É o conhecimento como resultado do pro- cessamento de informações e do aproveitamento dos insights subjetivos e das intuições dos funcionários e é amplamente aceito. No modelo japonês, é o ponto de partida do processo de inovação na organização. •» Explícito: quando é objetivo, claramente descritível e possível de ser codificado em documentos, práti- cas e treinamento. Toda documentação, modelos de negócios, projetos, procedimentos e métodos são exemplos. O conhecimento explícito é aquele que se pode comunicar e transmitir. No modelo ocidental, é o conhecimento útil, aquele que pode ser formali- zado, sistematizado e facilmente comunicável. Os conhecimentos das pessoas e organizações – sejam tácitos ou implícitos – não podem ser isolados, pois interagem entre si gerando exponenciação, como mostra a Figura 4. Formalização Aprendizagem Ambiente Aquisição Aplicação Construção e expansão DisseminaçãoRetroação A roda da gestão do conhecimento Internalização Externalização Combinação Socialização Tempo Indivíduo Grupo Organização Dimensão epistemológica Dimensão ontológica Co nh ec im en to ex pl íci to Co nh ec im en to tá cit o fIgura 3 A incessante roda da gestão do conhecimento.11 fIgura 4 Diferentes tipos de conhecimento requerem dife- rentes abordagens de CG.11 As empresas que criam conhecimento são aquelas que sistematicamente criam novas competências, dis- seminam pela organização inteira e as incorporam ra- pidamente a novas tecnologias e produtos pela espiral CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 341 baseada em processos de conversão do conhecimento implícito em explícito, envolvendo desde o indivíduo até o grupo, a organização e o ambiente.12 Daí os quatro modelos de conversão do conhecimento 11 (Figura 5). ção, autonomia, flutuação e caos criativo, redundância e variedade. Essas condições habilitadoras se resumi- riam nas seguintes práticas que a alta administração deveria garantir:12 •» Conceitualização de uma visão sobre o tipo de conhe- cimento que deve ser desenvolvido na organização. •» Uso constante de metáforas, analogias e modelos para direcionar os esforços das pessoas. •» Verbalização de conceitos, até certo ponto ambí- guos, que permitam o aparecimento de novos sig- nificados e maneiras de se pensar as coisas. •» Criação de um constante senso de urgência para aumentar a tensão criativa. •» Estímulo à variedade por meio de frequentes mu- danças da estrutura organizacional, por exemplo. •» Estímulo ao compartilhamento de informações ba- seado no apoio ao trabalho em equipes multidisci-plinares com algum grau de autonomia. Sem dúvida, a maior vantagem competitiva de uma organização se baseia no capital humano, ou me- lhor, no conhecimento tácito que seus funcionários possuem. Este é realmente difícil de ser imitado ou co- piado. E é, ao mesmo tempo, invisível, pois reside na cabeça das pessoas. A GC está intrinsecamente ligada à capacidade das organizações em utilizar e combinar as várias fontes e tipos de conhecimento organizacional para desenvolver competências específicas e capacida- de inovadora que proporcionem novos produtos, pro- cessos, sistemas gerenciais e liderança de mercado.12 A GC pressupõe como base a gestão da informação que proporcione o hardware e o software necessários para capturar, organizar, formalizar, disseminar e com- partilhar a informação para a educação corporativa. Em outra linha de pensamento, Itami define quatro tipos de conhecimento organizacional:13 1. Conhecimento ou especialização: em determi- nada disciplina ou indústria. 2. Conhecimento metodológico: sobre como abor- dar tipos de projetos ou problemas. 3. Conhecimento social: para entender a interação humana e facilitar os processos comunicativos, particularmente o intercâmbio de conhecimentos. 4. Know-how: para colocar o conhecimento em ação, com base na prática e na experiência. fIgura 5 Modelos de conversão de conhecimento. Conhecimento tácito para Conhecimento explícito Conhecimento para Conhecimento tácito explícito Internalização Externalização Combinação Socialização 1. Socialização: é o processo pelo qual experiências são compartilhadas e, a partir delas, conhecimen- tos tácitos ou modelos mentais e habilidades técni- cas são criados. É o caso do treinamento no local de trabalho, sessões informais, interações com clien- tes. Na tradição ocidental, este conceito se aproxi- ma ao da cultura organizacional. 2. Externalização: é o modo de conversão mais im- portante, pois permite a criação de novos conceitos explícitos. Na tradição japonesa, envolve a articula- ção do conhecimento tácito em explícito pelo uso de metáforas, analogias, conceitos, hipóteses e mo- delos. Segundo Takeuchi e Nonaka, este conceito está ausente da teoria organizacional ocidental. 3. Combinação: baseia-se na troca de informações explícitas e no paradigma da TI. É o modelo mais frequente no ocidente. Envolve o uso de mídias como documentos, reuniões formais, conversas telefônicas e redes computadorizadas. A educação formal está incluída neste tipo. É por este processo que surgem os protótipos e modelos reais. 4. Internalização: é um processo equivalente ao aprender fazendo (learning by doing), em que os membros da organização vivenciam o resultado prático do novo conhecimento. Isso significa o co- nhecimento operacional que os autores identificam com os conceitos das organizações que aprendem. Os processos de conversão do conhecimento re- querem certas condições habilitadoras, como inten- 342 parte v – desenvoLvendo pessoas Além disso, o conhecimento é armazenado de qua- tro maneiras diferentes:14 1. Nas cabeças das pessoas: por meio de educação for- mal, experiência, intercâmbio de informações, etc. 2. Em sistemas técnicos: no decorrer dos anos por co- letas de dados, análises, codificação, reestruturação e redesenho. Alguns exemplos são: manuais, procedi- mentos de trabalho e estruturas de banco de dados. 3. Em sistemas administrativos: tanto formais quan- to informais, como em regras, procedimentos, estilos de administração, gerenciamento de projetos, con- trole de qualidade e gerenciamento de informações. 4. Em normas e valores: para manter o conjunto do que foi descrito anteriormente como entendimen- to compartilhado de como o aprendizado deve ocorrer e também a franqueza, a curiosidade e a maneira de lidar com conflitos de interesses. A GC envolve três níveis de integração, conforme demonstrado na Figura 7. a organização que aprende Esta é a era da aprendizagem organizacional: orga- nizações que aprendem por meio de pessoas, valores e sistemas que a habilitam a mudar e melhorar conti- nuamente seu desempenho pelas lições da experiên- cia. As molas mestras da aprendizagem organizacio- nal são a criatividade e a inovação. As organizações e seus gerentes devem se adaptar constantemente a no- vas situações para que possam sobreviver e prosperar – o que requer administração progressiva. Nas orga- Conhecimento: Hardware e software Talentos e competências Objetivos: Incentivar a criatividade Promover a inovação Compreender os produtos e os serviços Compreender os requisitos do cliente Antecipar-se às necessidades do cliente Ajudar a construir melhores serviços Compreender os processos do negócio Compreender os stakeholders Melhorar a inteligência competitiva Proporcionar retorno do conhecimento Aumentar o capital humano Aumentar o capital intelectual Gestão de informação Gestão do conhecimento Capturar Adquirir Organizar Formalizar Disseminar Compartilhar Promover Aprender Construir Aplicar Proporcionar retroação Alcançar resultados fIgura 7 Pirâmide dos três níveis da GC.15 fIgura 6 Transformação do conhecimento em riqueza organizacional. Nível 3 Inteligência organizacional Nível 2 Criação, compartilhamento e gestão da informação Nível 1 Gestão da documentação Integração do trabalho Aumenta o know-how organizacional Funciona como apoio ao desempenho Interage com bancos de dados operacionais Ajuda a construir redes de expertise Captura e distribui expertise Promove gestão da informação em tempo real Ajuda a comunicação e a colaboração Ajuda a criar novos conteúdos Permite acesso e distribuição Os documentos são arquivados on-line CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 343 nizações que aprendem, as pessoas estão expandindo continuamente a capacidade de aprender e criar os resultados desejados ao mesmo tempo que absorvem novas maneiras de pensar, aumentam as ambições e aprendem umas com as outras. Senge descreveu cin- co disciplinas que, no conjunto, constituem os ingre- dientes principais de uma organização que aprende:16 1. Pensamento sistêmico: é a quinta disciplina, porque permite que todas as demais funcionem juntas para o benefício da empresa. Proporciona um meio de en- tender a complexidade do negócio e entrever o inter- -relacionamento das partes em vez de instantâneos do status quo ou cadeias lineares de causa e efeito. A base fundamental desta disciplina é o feedback, isto é, como as ações podem causar, reforçar ou cancelar umas às outras. As pessoas devem descartar velhos modos de pensar e as rotinas padronizadas para resolver proble- mas ou desempenhar cargos para adotar novas ma- neiras de pesquisar, testar, melhorar e inovar. 2. Domínio pessoal: refere-se à habilidade de esclare- cer e aprofundar a visão pessoal, focalizar a energia, desenvolver o foco e ver a realidade objetivamente. É o autodescobirmento que leva ao autoentendi- mento. As pessoas expandem continuamente as habilidades de criar e inovar, comunicam-se aberta- mente com as outras (por meio das fronteiras verti- cais e horizontais) sem temer críticas ou punições. 3. Modelos mentais: são pressuposições a respeito de como se conhece o mundo exterior. Definem como se imagina poder interagir com o mundo com suces- so. Recebem o nome de paradigmas. São sistemas de pensamento. As pessoas devem pensar em termos de processos, padrões e inter-relações da organiza- ção com o ambiente como parte de um sistema de relações, e não simplesmente em coisas estáticas. 4. Visão compartilhada: emerge de visões pessoais, deri- vando energia e alimentando o comprometimento na medida em que evolui. Quanto mais as pessoas com- partilham a visão ou se associam a ela, tanto maior a probabilidade de sentirem que é realizável. As pessoas devem ter uma visão comum e compartilhada daquilo que pretendem criar. 5. Aprendizado em equipe: exige a disciplina de sus- pender as pressuposições pessoais e pensar juntos sobreaprender a reconhecer padrões de interação e como eles podem tanto prejudicar quanto acentuar o aprendizado. Senge faz uma diferenciação entre diá- logo e discussão. No diálogo, existe uma exploração livre e criativa de questões complexas e sutis. Na dis- cussão, há a apresentação e a defesa de perspectivas e opiniões diferentes em busca da melhor resposta para um problema. Ambas são potencialmente comple- mentares, embora a maioria das equipes não consiga fazer distinção entre elas. As pessoas devem trabalhar juntas para intercambiar experiências e conhecimen- tos dos vários membros da equipe a fim de tornar a ação coordenada e inovadora e engajar no diálogo. A organização que aprende é, no fundo, um concei- to abstrato, mas altamente inspirador na essência, nos princípios e práticas, como se pode ver na Figura 8. Disciplina Essências Princípios Práticas Pensamento sistêmico Holismo Interconectividade Estrutura influencia o comportamento Arquétipos de sistema Resistência à política Simulação Alavancagem domínio pessoal Ser Capacidade de gerar concatenação visão Esclarecer a visão pessoal Tensão criativa versus emocional Manter a tensão criativa com foco nos resultados e observando a realidade atualSubconsciente modelos mentais Amor pela verdade Franqueza Teoria versus aplicação Dados e abstrações dos dados Escada de inferências Testes de pressuposições Equilíbrio de inquirição e defesa Coluna esquerda Visão compartilhada Propósito comum visão compartilhada visualização por meio do compartilhamento da visão, audição e escolha livre Parceria Comprometimento em vez de obediência aprendizado em equipe Inteligência coletiva Alinhamento Diálogos e discussões complementares Rotinas defensivas Suposições suspensivas Agir como colegas Trazer à tona a própria capacidade de defesa Colocar em prática fIgura 8 Cinco disciplinas da organização que aprende.20 344 parte v – desenvoLvendo pessoas A aprendizagem é a principal vantagem competiti- va da organização. Conduz à criatividade e à inovação. Embora pareça um produto, a aprendizagem organiza- cional é um processo; não é um fim, mas um começo. E os processos não se revelam facilmente para que todos os vejam. Assim, é necessário desenvolver nas organi- zações uma mentalidade de aprendizagem contínua, como a principal vantagem competitiva (Figura 9).17 fIgura 9 Aprendizagem como meio de criar e exponenciar valor aos stakeholders. Aprendizagem envolvendo o cliente Aprendizagem organizacional Aprendizagem em equipe Aprendizagem individual Capital de acionistas Capital de clientes Capital estrutural Capital humano fIgura 10 Competências de aprendizado das organizações.19 Educação Manuais Projetos Equipes de projetos Conferências Regulamentos Programas Uso do know-how Contato com clientes Procedimentos Produtos finais Pesquisa de mercado Análise competitiva Sistemas de informação Simulações Aperfeiçoamento dos produtos Fornecedores Estudos de melhor prática Diálogo Consulta a clientes Aquisição Intercâmbio interno Discussão Criação de protótipos Pesquisa Coaching Autoavaliação Alcance de objetivos Cenários criativos Aconselhamento Medição do desempenho Quebra de barreiras Redes profissionais Mentoring Recompensas Redes informais Reengenharia Rodízio de cargos Retroalimentação Difusão UtilizaçãoAbsorção Geração O conhecimento é o conceito fundamental para uma organização que aprende, ainda mais em um contexto em que as organizações adquirem um grau cada vez mais elevado de conhecimento. O primeiro passo para aprimorar o aprendizado organizacional é criar um forte entendimento e a consciência da ne- cessidade do aprendizado organizacional. Um diag- nóstico da capacidade de aprendizado da organiza- ção aumenta o entendimento e a consciência. Além disso, o próprio diagnóstico cria um fundamento para a ação.18 Sprenger e Ten Have salientam que a organização que aprende precisa juntar quatro competências de aprendizado (Figura 10):19 1. Absorção de conhecimento de fora. 2. Difusão de conhecimento dentro. 3. Geração de conhecimento dentro. 4. Utilização de conhecimento em produtos e serviços. As competências que a organização combina para absorver, difundir, gerar e utilizar o conhecimento é que garantem a sua verdadeira vantagem competi- tiva.21 Há uma diferença entre a abordagem de per- fil e a competência para criar uma organização que aprende. A abordagem de perfil tenta criar tanto uma nova estrutura organizacional quanto sistemas para CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 345 habilitar os processos de aprendizado. Entretanto, isso conduz ao comportamento consumista em vez do comportamento de aprendizado. A abordagem de competência do aprendizado organizacional é muito mais sustentável.22 cRIatIVIdade e InoVação Até décadas atrás, as organizações mecanísticas exigiam um comportamento burocrático, repetitivo e reprodutivo das pessoas. O foco se concentrava na efi- ciência: fazer as coisas de acordo com regras, métodos e procedimentos da organização. As pessoas não podiam pensar, apenas executar e seguir as ordens. Hoje, as or- ganizações orgânicas estão impondo um novo padrão de comportamento às pessoas: criatividade e inovação. Não basta a eficiência. Nem a repetição continuada na execução das tarefas. Se o mundo mudou, as empresas também estão mudando na mesma direção e, cada vez mais rapidamente, requer mudanças em produtos e serviços, métodos e processos, equipamentos e tecno- logia, estrutura organizacional e cargos e, sobretudo, no comportamento das pessoas. A criatividade está na base de tudo. Criatividade significa a aplicação da imaginação e da engenhosidade para proporcionar uma nova ideia, uma diferente abordagem ou uma nova solução para um problema. Ela é essencial às organizações que en- frentam demandas de um ambiente instável e mutá- vel. Em situações complexas e mutáveis de trabalho, os gerentes precisam utilizar todas as vantagens da fIgura 11 Os caminhos da inovação.23 Pensar variar Imaginar Criar Inovar participação, do envolvimento e do empoderamento (empowerment) das pessoas para estimular a criativi- dade individual e grupal. A habilidade de encorajar a criatividade e tolerar erros parece ser, hoje em dia, uma das mais importantes responsabilidades geren- ciais. Pois quem erra pode acertar mais rapidamente. A criatividade é a base para a mudança construtiva e o seu aspecto mais importante é a inovação. A inovação requer criatividade. Inovação é o proces- so de criar novas ideias e colocá-las em prática.23 É o ato de convergir novas ideias para aplicações concretas na situação. Nas organizações, essas aplicações concretas podem ocorrer de duas formas: inovação de processos, com a criação de novas maneiras de fazer as coisas; e inovação de produtos, que resulta na criação de produ- tos ou serviços novos ou melhorados (Figuras 11 e 12). gp de HOje: a mágica da inovação 24 A Apple sempre deu aulas de inovação. Seu ex-líder, Steve Jobs, era um gestor com uma visão e meios de torná-la realidade, recrutando e mantendo a seu lado as pessoas certas – e, claro, no lugar certo, no tempo certo, com a remuneração certa. A criação e a produção do iPhone geraram 200 novas patentes no mercado norte-americano – mais que o dobro do que o Brasil registrou em todo o ano de 2005. Na Apple, 20% do tempo de trabalho das pessoas é livre e pode ser dedicado a projetos pessoais de inovação. Top de inovação Inovação constante e sinergística Criatividade e inovação interna integradas Criatividade e inovação interna difusas Uso de benchmarking externo para ultrapassar a concorrência Uso de benchmarking externo para se igualar à concorrência Uso de benchmarking externo para seguir a concorrência Pequenas mudanças genéricas e programadas Pequenas mudanças tópicas e aleatórias Manutenção do status quo Pouca memória organizacional fIgura 12 Níveis de inovação nas organizações. 346 parte v – desenvoLvendopessoas A gestão da inovação, tanto de processos quanto de produtos ou serviços, inclui o apoio intensivo à invenção – o ato de descobrir – e à aplicação – o ato de usar. A invenção se relaciona com o desenvolvi- mento de novas ideias. Os gerentes estão sendo so- licitados a criar novos ambientes de trabalho que estimulem a criatividade e o surgimento de novas ideias. A aplicação se refere à utilização das inven- ções para extrair e tirar vantagem de seu valor. Aqui, os gerentes devem assegurar a implementação de boas ideias para novos ou diferentes processos de trabalho; devem assegurar que o potencial comer- cial de ideias de novos produtos ou serviços seja to- talmente realizado. dICa: como criar uma estrutura de criatividade na organização Para criar um ambiente de criatividade na organização é preciso: •» Implantar e incentivar um programa de sugestões. •» Desenvolver grupos de geração de ideias (brainstor- ming). •» Criar oficinas de criação ou gerenciamento de con- ceitos. •» Criar centros de criatividade. •» Desenvolver círculos de qualidade e criatividade. •» Elaborar programas de treinamento em criatividade. •» Implantar um programa de melhoria contínua e incre- mento da inovação. •» Fazer pesquisa e desenvolvimento de ideias com as pessoas. •» Criar sessões criativas regulares. •» Desenvolver pessoas que atuem como facilitadores da criatividade. o processo inovador As profundas mudanças e transformações tecno- lógicas, econômicas, políticas e sociais constituem as principais características do mundo atual e influen- ciam fortemente as organizações; por isso, os gerentes devem ser incumbidos de estimular, apoiar e alcançar a inovação por meio das pessoas. O processo de inovação ocorre em cinco etapas:25 1. Criação de ideias: proporciona novas formas de conhecimento por descobertas, extensões de co- nhecimentos atuais ou criatividade espontânea pela inventividade das pessoas e da comunicação com as outras. 2. Experimentação inicial: as ideias são inicialmen- te testadas nos conceitos pela discussões com ou- tras pessoas, clientes, consumidores ou técnicos e/ ou na forma de protótipos ou amostras. 3. Determinação da viabilidade: a praticidade e o valor financeiro das ideias são examinados em es- tudos formais de viabilidade que identificam cus- tos e benefícios potenciais, assim como mercados e aplicações potenciais. 4. Aplicação final: ocorre quando o novo produto é finalmente comercializado e posto à venda no mer- cado aberto, ou o novo processo é implementado como parte da rotina operacional normal. 5. Avaliação dos resultados: aferição do sucesso na empreitada e retroação para possíveis melhoras. vOltandO aO CasO IntrOdutórIO: o Banco Planetário Para poder mudar a estrutura e a cultura do Banco Planetário, Pedro Behring queria estimular a criatividade e a inovação. Embora predominassem certos aspectos ro- tineiros e burocráticos em boa parte das atividades ban- cárias, Pedro queria oxigenar e renovar sua empresa, fo- calizando-a totalmente no cliente externo e incentivando o trabalho em equipe. Para começar, derrubou paredes e símbolos hierárquicos (como salas de executivos, estacio- namento privativo, restaurantes e banheiros separados), para aproximar todos os funcionários. Queria que o DRH desse uma mão nessas providências. Como agir no lugar do diretor de RH? A criatividade e a inovação constituem um modo de vida em muitas organizações, e isso significa que elas dependem da cultura organizacional (Figura 13). A 3M – uma das empresas norte-americanas mais inovadoras e bem-sucedidas do mundo – atri- CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 347 bui o êxito à criatividade dos funcionários. E como consegue isso? Pela cultura organizacional extrema- mente aberta e participativa que privilegia as pes- soas. Liberdade e franqueza imperam na organiza- ção. Para incentivar a criatividade das pessoas, a 3M dá um tempo livre para o colaborador fazer o que bem entender no horário de trabalho. Essa liberdade faz com que a 3M consiga a proeza de lançar um pro- duto novo a cada semana. dICa: sugestões para incentivar a criatividade organizacional 27 •» desenvolver a aceitação da mudança: as pes- soas devem acreditar que a mudança trará bene- fícios a si mesmas e à empresa. Pode-se incremen- tar essa crença quando as pessoas participam na tomada de decisões e nos assuntos relacionados com as pessoas, como segurança no emprego, quando as mudanças são planejadas e implemen- tadas. Isso remove possíveis resistências pessoais às mudanças. •» encorajar novas ideias: os executivos, desde o topo até os supervisores de primeira linha, devem assumir claramente, em palavras e atos, que estão abertos a novas ideias. Para encorajar a criativida- de, devem estar prontos a ouvir sugestões dos su- fIgura 13 Características das pessoas e organizações criativas.26 A pessoa criativa A organização criativa 1. Fluência conceitual Abertura mental 1. Canais abertos de comunicação Interação com fontes externas Territórios sobrepostos Sistemas de sugestões, técnicas grupais (brainstorming) 2. Originalidade 2. Atribuição de problemas a não especialistas Atribuições excêntricas Utilização intensiva de equipes 3. Menor autoridade Maior independência 3. Descentralização Posições pouco definidas Controle frouxo Aceitação de erros Normas para assumir riscos 4. Alegria no trabalho Curiosidade Exploração não disciplinada 4. Liberdade de escolha e busca de problemas Cultura descontraída e pouco rígida Liberdade para discutir ideias 5. Persistência Comprometimento Abordagem focalizada 5. Recursos alocados ao pessoal criativo e a projetos sem retorno imediato Sistema de recompensas para a inovação Atribuição de responsabilidades periféricas bordinados, a implementar as boas ideias ou levá- -las a seus superiores. •» Permitir maior interação: pode-se promover um cli- ma permissivo e criativo dando às pessoas a oportuni- dade de interagir com outros membros do próprio grupo de trabalho ou de outros grupos. Essa intera- ção encoraja o intercâmbio de informações úteis, o livre fluxo de ideias e novas perspectivas na resolu- ção dos problemas. •» tolerar erros: muitas ideias novas podem ser inúteis ou sem praticidade. Os gerentes eficazes aceitam o fato de que tempo e recursos devem ser investidos na experimentação de novas ideias, mesmo que não conduzam a qualquer solução. •» Definir objetivos claros e dar liberdade para al cançálos: as pessoas devem ter propósito e dire- ção para a criatividade. Os gerentes devem apontar linhas de orientação e limites razoáveis para ter al- gum controle sobre o volume de tempo e recursos investidos no comportamento criativo. •» oferecer reconhecimento: pessoas criativas traba- lham motivadas, mesmo em tarefas duras ou que não lhes interessam, quando são recompensadas por um trabalho bem feito. Ao oferecer reconhecimento de maneira tangível e clara, como prêmios e aumen- tos salariais, os gerentes devem demonstrar que o comportamento criativo é valorizado na organização. 348 parte v – desenvoLvendo pessoas avalIaçãO CrítICa: impondo barreiras à inovação 25 Como impedir a inovação em uma empresa? É muito fácil. Basta seguir as regras para eliminar qualquer tentati- va de inovar ou criar: •» Isolamento da administração de topo: promover o desentendimento entre as pessoas e criar um clima de aversão ao risco e à responsabilidade. •» Intolerância para as diferenças: negar a diversidade, criar homogeneidade e rotular como problemáticas to- das as pessoas que questionam o status quo. •» focalizar as partes e não o todo: enfatizar a defesa de interesses pessoais contra os interesses gerais e dos clientes. •» encurtar os horizontes de tempo: enfatizar os ob- jetivos de curto prazo, e não o potencial de novas ideias capazes de gerar ganhos de longo prazo. •» Impor o pensamento racional: tentar tornar a cria- tividade um processo burocrático e enfatizaros progra- mas em si, não os resultados. •» Incentivos inadequados: utilizar recompensas e controles para reforçar as rotinas, desencorajar as sur- presas e as diferenças ligadas à inovação. •» Excessiva burocracia: dar força às regras, à rotina, aos procedimentos e à eficiência frustrando a imagina- ção, a criatividade e a inovação. mudança oRganIzacIonal A mudança é um aspecto essencial da criatividade e da inovação nas organizações de hoje.25 A mudança está em toda parte: nas organizações, nas pessoas, nos clientes, nos produtos e serviços, na tecnologia, no tempo e no clima. A mudança representa a principal característica dos tempos modernos. Processo de mudança A mudança significa a passagem de um estado para outro diferente. É a transição de uma situação para outra. A mudança envolve transformação, inter- rupção, perturbação, ruptura; dependendo da intensi- dade, constitui um processo composto de três etapas: descongelamento, mudança e recongelamento 28 (Fi- gura 14). 1. Descongelamento: a fase inicial da mudança, na qual as velhas ideias e práticas são derretidas, abandonadas e desaprendidas. Representa a abdi- cação ao padrão atual de comportamento para ser substituído por um novo padrão. Se não houver o descongelamento, a tendência será o retorno ao pa- drão habitual. O descongelamento significa a per- cepção da necessidade de mudança. 2. Mudança: etapa em que novas ideias e práticas são experimentadas, exercitadas e aprendidas. Mudança Descongelamento Mudança Recongelamento tarefa do gerente tarefa do gerente tarefa do gerente Criar um sentimento de necessidade de mudança Implementar a mudança Estabilizar a mudança Por meio de Por meio de Por meio de incentivo à criatividade e à inovação, a riscos e erros identificação de comportamentos novos e mais eficazes Criação da aceitação e de continuidade dos novos comportamentos Boas relações com as pessoas envolvidas Escolha de mudanças adequadas em tarefas, pessoas, cultura, tecnologia e/ ou estrutura Estímulo e apoio necessário às mudanças Ajuda às pessoas com comportamento pouco eficaz Ação para colocar as mudanças em prática Uso de recompensas contingenciais de desempenho e do reforço positivo fIgura 14 Etapas do processo de mudança. CapÍtULo 13 – desenvoLvIMento de pessoas e de organIZaÇÕes 349 é aprendizagem e aprendizagem é mudança. Ocorre quando se descobre e adota novas atitudes, valores e comportamentos. A mudança envolve dois aspectos: • Identificação (processo pelo qual as pessoas percebem a eficácia da nova atitude ou com- portamento e a aceita). • Internalização (as pessoas passam a desempe- nhar novas atitudes e comportamentos como parte de seu padrão normal). A mudança é a fase em que novas ideias e práticas são apren- didas, de modo que as pessoas passam a pen- sar e a executar de uma nova maneira. 3. Recongelamento: etapa final em que as novas ideias e práticas são incorporadas definitivamen- te ao comportamento. Significa a incorporação de um novo padrão de comportamento de modo que se torne a nova norma. O recongelamento significa que o padrão aprendido foi incorporado à prática atual e passa a ser a nova maneira que a pessoa adota no seu comportamento. O recon- gelamento requer dois aspectos: o apoio (suporte por meio de recompensas que mantenham a mu- dança) e o reforço positivo (prática proveitosa que torna a mudança bem-sucedida). Esta é a eta- pa da estabilização da mudança até que ocorra um novo descongelamento. Agente de mudança é a pessoa de dentro ou de fora da organização que conduz ou guia o processo de mu- dança em uma situação organizacional. Pode ser um membro da organização, um consultor interno ou ex- terno. O agente de mudança detém o papel de quem inicia o processo e ajuda a fazer acontecer a mudança. Os especialistas de GP estão se tornando consultores in- ternos, enquanto os gerentes de linha estão se tornando agentes de mudança nas organizações. Para funcionar como facilitador do processo de mudança, o gerente de linha deve atuar de maneira a incentivar as etapas de descongelamento, mudança e recongelamento. O processo de mudança ocorre em um campo de forças que atua dinamicamente em vários sentidos. De um lado, existem forças positivas de apoio e su- porte à mudança; de outro lado, forças negativas de oposição e resistência à mudança. Em toda a organi- zação existe uma balança dinâmica de forças positi- vas que apoiam e impulsionam a mudança, e forças negativas que a restringem e impedem. O sistema funciona em um estado de relativo equilíbrio – o con- ceito de equilíbrio quase estacionário de Lewin – que fIgura 15 Forças positivas e negativas no processo de mu- dança.29 Forças propulsoras (apoio e suporte) Necessidades dos clientes Oportunidades do mercado Novas tecnologias Concorrência feroz Cultura organizacional inovadora Forças negativas à mudança são maiores do que as forças positivas Forças positivas à mudança são maiores do que as forças negativas Acomodação dos funcionários Hábitos e costumes da organização Dificuldades de aprender Miopia e falta de iniciativa velhos paradigmas culturais velha situação velha situação Nova situação Forças restritivas (oposição e resistência) é rompido toda vez que se introduz uma tentativa de mudança. A mudança passa a sofrer pressões positi- vas (de apoio e de impulso) e pressões negativas (de oposição e resistência), criando um campo de forças. Quando as forças positivas são maiores que as forças negativas, a tentativa de mudança é bem-sucedida e a mudança ocorre efetivamente. No entanto, quan- do as forças negativas são maiores do que as forças positivas, a tentativa de mudança é malsucedida e a mudança não ocorre, prevalecendo a velha situação. O agente de mudança deve tentar maximizar o efei- to das forças positivas e minimizar o efeito das forças negativas para poder conduzir o processo de mudança com eficácia. Toda mudança rompe a rotina e impõe uma ruptura com relação ao passado (Figura 15). Na verdade, o processo de mudança organizacional é um pouco mais complicado e segue um padrão comum, surge a partir de um estímulo interno ou externo na forma de pressão sobre a administração, que incentiva a ação de mudança, como mostra a Figura 16. Parte V - Desenvolvendo Pessoas Capítulo 13 – Desenvolvimento de Pessoas e de Organizações