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Direito Penal – Parte Especial
Ponto 6
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Turma: Clube Delta
Material: Ponto 6 (Direito Penal – Parte Especial)
MATERIAL DE APOIO
(PONTO 6)
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SUMÁRIO
1. DOUTRINA RESUMO ..................................................................................................... 4
2. QUESTÕES ................................................................................................................... 68
3. GABARITO COMENTADO ............................................................................................ 72
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1. DOUTRINA RESUMO
1.1. DANO
Dano
Art. 163 - Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Dano qualificado
Parágrafo único - Se o crime é cometido:
I - com violência à pessoa ou grave ameaça;
II - com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato
não constitui crime mais grave;
III - contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal,
de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa
pública, sociedade de economia mista ou empresa
concessionária de serviços públicos; (Redação dada pela Lei nº
13.531, de 2017)
IV - por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a
vítima:
Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa, além da
pena correspondente à violência.
Ação penal
Art. 167 - Nos casos do art. 163, do inciso IV do seu parágrafo e
do art. 164, somente se procede mediante queixa.
1.1.1. FIGURA SIMPLES
Objetividade jurídica – Tutela-se o patrimônio, devendo a coisa ser alheia. O
delito não recai sobre a destruição, inutilização ou deterioração de coisa própria,
abandonada ou sem dono.
Sujeito ativo – Qualquer pessoa (crime comum), exceto o proprietário da coisa.
No tocante ao crime praticado por condômino, assim decidiu o STF, aplicando
lógica semelhante à existente no crime de furto de uso (art. 156):
“CRIME DE DANO. PODE SER AGENTE ATIVO DESSE CRIME O
CONDÔMINO QUE DANIFICA DOLOSAMENTE COISA COMUM,
SALVO SE A COISA E FUNGÍVEL E O PREJUÍZO NÃO EXCEDE O
VALOR DA PARTE A QUE TEM DIREITO O AUTOR DO FATO. H.C.
INDEFERIDO” (HC 57245/ SP, Rel. Min. Cordeiro Guerra, 2ª T., j.
14/11/79).
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Sujeito passivo – Qualquer pessoa.
Núcleo do tipo – O tipo penal abrange 3 condutas: destruir (demolir, derrubar,
arruinar), inutilizar (tornar inútil, sem serventia) ou deteriorar (estragar, deixar em pior
estado). É crime de ação múltipla.
O objeto da conduta é a coisa alheia, podendo ser móvel ou imóvel.
Tratando-se de coisa sem dono (res nullius) ou coisa abandonada (res derelicta),
não há crime, pois não há lesão ao patrimônio alheio. Por outro lado, configura crime o
dano contra a coisa perdida (res desperdita).
Se o agente danificar coisa própria em poder de 3º por determinação judicial
ou convenção, responde pelo crime do art. 346.
Elemento subjetivo do tipo – O delito é punido exclusivamente a título de dolo
(direito ou eventual). Ou seja, o dano culposo não é punível criminalmente pelo Código
Penal.
Existe divergência a respeito da necessidade do elemento subjetivo específico.
Parte dos autores afirma que, além do dolo, é necessária a especial intenção de causar
prejuízo ao patrimônio alheio (animus nocendi) (Hungria). É como vem decidindo o STJ:
STJ: “Consoante jurisprudência desta Corte, para a configuração
do crime de dano previsto no art. 163 do Código Penal, mostra-
se imprescindível a presença do elemento subjetivo específico,
qual seja, o animus nocendi, que consiste na vontade deliberada
de causar prejuízo ao patrimônio alheio” (AgRg no HC 409417 /
SC, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, 6ª T., j. 24/10/2017,
v.u.).
Outros consideram dispensável o especial fim de agir, exigindo tão somente o
dolo genérico (Noronha). Há precedente do STF nessa linha:
STF: “CRIME DE DANO. PRESO QUE DANIFICA A CELA PARA
FUGIR. EXIGÊNCIA APENAS DO DOLO GENÉRICO. CP, art. 163,
parágrafo único, III. I. - Comete o crime de dano qualificado o
preso que, para fugir, danifica a cela do estabelecimento
prisional em que está recolhido. Cód. Penal, art. 163, parag.
único, III. II. - O crime de dano exige, para a sua configuração,
apenas o dolo genérico. III. - H.C. indeferido” (HC 73189/MS, Rel.
Min. Carlos Velloso, 2ª T., j. 23/02/1996, v.u.).
Essa distinção ganha relevância prática em casos nos quais o agente danifica a
cela ou uma viatura para fugir, sem o propósito específico de destruir o patrimônio. Para
aqueles que entendem indispensável o animus nocendi, o fato será atípico.
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Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 87 – 03: O delito de
dano ao patrimônio público, quando praticado por preso para
facilitar a fuga do estabelecimento prisional, demanda a
demonstração do dolo específico de causar prejuízo ao bem
público (animus nocendi), sem o qual a conduta é atípica.
Consumação e tentativa – O delito se consuma com a efetiva destruição,
inutilização ou deterioração da coisa, que podem ser totais ou parciais. Trata-se de crime
material e instantâneo.
É admissível a tentativa. De ver, contudo, que se o agente pretende destruir a
coisa, mas chega apenas a deteriorá-la, já está consumado o delito.
Insta salientar que o crime de dano é subsidiário, configurando-se somente na
hipótese em que o agente não pretende conduta criminosa posterior e mais grave.
1.1.2. FIGURA QUALIFICADA
Parágrafo único - Se o crime é cometido:
I - com violência à pessoa ou grave ameaça;
II - com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato
não constitui crime mais grave;
III - contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal,
de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa
pública, sociedade de economia mista ou empresa
concessionária de serviços públicos; (Redação dada pela Lei nº
13.531, de 2017)
IV - por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a
vítima:
Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa, além da
pena correspondente à violência.
1.1.2.1. Com violência à pessoa ou grave ameaça
Trata-se de crime pluriofensivo, atingindo não apenas o patrimônio, mas
também a incolumidade da vítima. A violência e a grave ameaça são utilizadas como
meios para assegurar o dano à coisa. Se forem posteriores, não haverá dano qualificado,mas dano simples em concurso material com lesão corporal (art. 129) ou ameaça (art.
147).
Se, em razão da violência empregada, a vítima sofrer lesão corporal,
responderá o agente pelo dano qualificado e pelo crime do art. 129, em concurso
material. É o que se extrai do preceito secundário (“Pena - detenção, de seis meses a
três anos, e multa, além da pena correspondente à violência”). Como o dispositivo fala
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apenas em “violência”, entende-se que a grave ameaça fica absorvida pelo dano
qualificado.
1.1.2.2. Com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato não constitui
crime mais grave
Esta figura é expressamente subsidiária. Se o fato constituir crime mais grave,
como incêndio (art. 250) ou explosão (art. 251), será este o crime a ser reconhecido, em
detrimento do dano.
1.1.2.3. Contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou
de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou
empresa concessionária de serviços públicos
O dispositivo foi alterado pela Lei 13.351/2017. Confira no quadro abaixo o teor
da modificação:
ANTES DA LEI 13.531/2017 DEPOIS DA LEI 13.531/2017
Dano qualificado
Parágrafo único - Se o crime é cometido:
(...)
III - contra o patrimônio da União,
Estado, Município, empresa
concessionária de serviços públicos ou
sociedade de economia mista;
Dano qualificado
Parágrafo único - Se o crime é cometido:
(...)
III - contra o patrimônio da União, de
Estado, do Distrito Federal, de Município
ou de Autarquia, Fundação pública,
Empresa pública, sociedade de economia
mista ou empresa concessionária de
serviços públicos;
Buscou-se corrigir omissão existente na legislação anterior, que deixava fora da
qualificadora, sem razão, alguns entes de extrema relevância:
Distrito Federal, Autarquia, Fundação pública e Empresa pública.
Embora não fosse um tema pacífico, diversos julgados, anteriores à Lei
13.531/17, rejeitavam a possibilidade de analogia contra o réu para considerar
qualificado o dano contra tais pessoas jurídicas. Confira:
STJ: “AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. DANO
QUALIFICADO. LEI N.º 5.346/67. INCLUÍDAS AS EMPRESAS
CONCESSIONÁRIAS DE SERVIÇOS PÚBLICOS E SOCIEDADES DE
ECONOMIA MISTA. LEGISLADOR NÃO AS CONSIDEROU
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ABRANGIDAS PELO ENTE UNIÃO DESCRITO NO TIPO. DISTRITO
FEDERAL NÃO ELENCADO NO ROL. ANALOGIA IN MALAM
PARTEM. VEDADA. DESCLASSIFICAÇÃO PARA DANO SIMPLES.
AGRAVO DESPROVIDO. 1. A norma criminal insculpida no artigo
163, parágrafo único, inciso III, do Código Penal foi acrescida pela
Lei n.º 5.346/67, a fim de incluir a empresa concessionária de
serviços públicos e a sociedade de economia mista, findando a
discussão anterior acerca de se o dano cometido contra esses
entes estaria abrangido neste tipo, ao tratar do evento danoso
contra o patrimônio da União. 2. De se notar que o Distrito
Federal é um ente federativo, regido por lei orgânica, lhe sendo
atribuídas as competências legislativas reservadas aos Estados e
Municípios (artigo 32, caput, e § 1.º, da Constituição Federal). 3.
Não se descurando da mens legis no tocante à proteção do
patrimônio público, nem da discrepância em considerar o
prejuízo aos bens distritais menos gravoso do que o causado aos
demais entes elencados no dispositivo criminal, verifica-se que é
inadmissível fazer-se analogia in malam partem, vedada em
Direito Penal, com o escopo de incluir o Distrito Federal no rol
taxativo previsto no delito de dano qualificado. 4. Agravo
regimental a que se nega provimento.” (AgRg no Resp.
1469224/DF, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, 6ª T., j.
05/02/2015, v.u.).
Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 87 – 04: A ausência de
menção expressa ao patrimônio do Distrito Federal no art. 163,
parágrafo único, III, do Código Penal torna inviável a
configuração da forma qualificada do crime de dano quando o
bem danificado for distrital, em virtude da vedação da analogia
in malam partem no sistema penal brasileiro. (Tese superada)
Se adotada essa ótica (ou seja, de que não era possível a analogia para
considerar qualificado o dano contra tais entes), ter-se-á de concluir que a Lei 13.531/17
é prejudicial ao acusado, não podendo retroagir para atingir fatos pretéritos à sua
entrada em vigor.
ATENÇÃO! Tenham bastante atenção quando do estudo das informações contidas nas
Teses da Jurisprudência do STJ, para que se evite estudar como certos temas já
superados, a exemplo do caso apresentado acima. Isso ocorre porque as Teses
expostas no sítio da Corte Cidadã não são constantemente atualizadas. Por isso, fique
sempre atento e acompanhe a evolução da jurisprudência nos seus estudos.
Referida Lei também modificou o § 6º do art. 180, punindo mais severamente
a receptação envolvendo bens de tais entes.
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É importante vislumbrar que, segundo o STJ, não é possível a aplicação do
princípio da insignificância nas hipóteses de dano qualificado, quando o prejuízo ao
patrimônio público atingir outros bens de relevância social e tornar evidente o elevado
grau de periculosidade social da ação e de reprovabilidade da conduta do agente
(Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 87 – 05).
Por fim, cabe o questionamento: comete delito de dano o particular que, após
receber ordem de desocupação, destrói terras ou das acessões localizadas em uma
fazenda indígena?
Sim, seguindo a orientação do STF, temos que:
(...) 5. Crime de dano ao patrimônio da União. As terras
tradicionalmente ocupadas pelos índios são propriedade da
União – art. 20, XI, da Constituição Federal. As plantações e
edificações incorporam-se ao terreno, tornando-se propriedade
da União, que deverá indenizar o ocupante de boa-fé – art. 231,
§ 6º, da Constituição Federal e art. 1.255 do Código Civil. A
propriedade das plantações e edificações é adquirida pela União
por acessão – art. 1.248, V, do Código Civil –, ou seja, a plantação
ou construção incorpora-se ao patrimônio da proprietária pela
simples incorporação ao solo, sendo irrelevante a transferência
da posse. São irrelevantes a tradição ou o ato administrativo de
inventário ou tombamento dos bens no patrimônio público. Os
particulares ocupantes não são proprietários das terras ou das
acessões, pelo que não podem legitimamente destruí-los.
Tipicidade, em tese, da destruição pelo art. 163, parágrafo único,
III, do CP. (...) (Inq 3670, Relator(a): Min. GILMAR MENDES,
Segunda Turma, julgado em 23/09/2014, ACÓRDÃO
ELETRÔNICO DJe-241 DIVULG 09-12-2014 PUBLIC 10-12-2014)
1.1.2.4. Por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima
Motivo egoístico é aquele excessivamente individualista, em que o agente
busca de forma descomedida e vil a satisfação de um interesse próprio. Ex.: “flanelinha”
risca o carro de pessoa porque ela não quis lhe pagar.
Já o prejuízo considerável para a vítima deve ser analisado no caso concreto,
sopesando a extensão do prejuízo e a condição econômico-financeira do ofendido.
1.1.3. AÇÃO PENAL
Art. 167 - Nos casos do art. 163, do inciso IV do seu parágrafo e
do art. 164, somente se procede mediante queixa.
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No tocante à ação penal, temos as seguintes hipóteses:
Dano (art. 163) Ação penal
Simples (caput) Privada
Qualificado pela violência ou grave ameaça à pessoa
(parágrafo único, I).
Pública incondicionada
Qualificado pelo emprego de substância inflamável ou
explosiva (parágrafo único 1º, II).
Pública incondicionada
Qualificado em razão da vítima (União, Estado, Distrito
Federal, Município ou de Autarquia, Fundação pública,
Empresa pública, sociedade de economia mista ou
empresa concessionária de serviços públicos
(parágrafo único 1º, III).
Pública incondicionada
Qualificado pelo motivo egoístico ou prejuízo
considerável para a vítima (parágrafo único, IV).
Privada
1.1.4. CONFRONTO
Dano e furto
Se o dano for um meio utilizado pelo agente à subtração da coisa, configura-se
somente o crime de furto qualificado pelo rompimento de obstáculo (art. 155, § 4º,
I,), ficando o dano absorvido. Da mesma forma, se o agente furta a coisa e a danifica,
responderá somente pelo furto, ficando absorvido o crime de dano (post factum
impunível).
Crime ambiental
Dano culposo – Na Lei 9.605/98 (crimes contra o meio ambiente) há um crime
específico de dano, que admite a modalidade culposa:
Art. 62. Destruir, inutilizar ou deteriorar:
I - bem especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial;
II - arquivo, registro, museu, biblioteca, pinacoteca, instalação científica ou similar
protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
Parágrafo único. Se o crime for culposo, a pena é de seis meses a um ano de detenção,
sem prejuízo da multa.
Pichação – Se praticada contra edificação ou monumento urbano, configura o crime
do art. 65 da Lei 9.605/08:
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Art. 65. Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.
§ 1º Se o ato for realizado em monumento ou coisa tombada em virtude do seu valor
artístico, arqueológico ou histórico, a pena é de 6 (seis) meses a 1 (um) ano de
detenção e multa.
§ 2º Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar o
patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que consentida
pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário ou arrendatário do bem privado e,
no caso de bem público, com a autorização do órgão competente e a observância das
posturas municipais e das normas editadas pelos órgãos governamentais
responsáveis pela preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico
nacional.
Se praticada contra outro bem (ex.: veículo), pode configurar o crime do art. 163 do
Código Penal.
Destruição de documentos - Há diversas figuras específicas:
Supressão de documento (art. 305) – “Destruir, suprimir ou ocultar, em benefício
próprio ou de outrem, ou em prejuízo alheio, documento público ou particular
verdadeiro, de que não podia dispor: Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa, se
o documento é público, e reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é
particular”.
Inutilização de edital ou de sinal (art. 336) – “Rasgar ou, de qualquer forma, inutilizar
ou conspurcar edital afixado por ordem de funcionário público; violar ou inutilizar selo
ou sinal empregado, por determinação legal ou por ordem de funcionário público,
para identificar ou cerrar qualquer objeto: Pena - detenção, de um mês a um ano, ou
multa”.
Subtração ou inutilização de livro ou documento (art. 337) – “Subtrair, ou inutilizar,
total ou parcialmente, livro oficial, processo ou documento confiado à custódia de
funcionário, em razão de ofício, ou de particular em serviço público: Pena - reclusão,
de dois a cinco anos, se o fato não constitui crime mais grave”.
Sonegação de papel ou objeto de valor probatório (art. 356) – “Inutilizar, total ou
parcialmente, ou deixar de restituir autos, documento ou objeto de valor probatório,
que recebeu na qualidade de advogado ou procurador: Pena - detenção, de seis meses
a três anos, e multa”.
Violação de sepultura (art. 210) – “Violar ou profanar sepultura ou urna funerária:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa”.
Art. 20 da Lei 7.170/83 (Lei de Segurança Nacional) – “Art. 20 - Devastar, saquear,
extorquir, roubar, sequestrar, manter em cárcere privado, incendiar, depredar,
provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos de terrorismo, por
inconformismo político ou para obtenção de fundos destinados à manutenção de
organizações políticas clandestinas ou subversivas. Pena: reclusão, de 3 a 10 anos”.
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Código Penal Militar – Também há modalidades culposas de dano (arts. 262, 263, 264
e 265 c.c. o art. 266).
1.2. APROPRIAÇÃO INDÉBITA
Art. 168 - Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse
ou a detenção:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Aumento de pena
§ 1º - A pena é aumentada de um terço, quando o agente
recebeu a coisa:
I - em depósito necessário;
II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário,
inventariante, testamenteiro ou depositário judicial;
III - em razão de ofício, emprego ou profissão.
1.2.1. FIGURA SIMPLES
Objeto jurídico – Protege-se o patrimônio. O agente, abusando da qualidade
de possuidor ou codetentor, passa a ter o bem móvel como seu, dele apropriando-se
arbitrariamente.
Sujeito ativo – Qualquer pessoa, desde que tenha a posse ou detenção legítima
e desvigiada da coisa móvel alheia. Trata-se, portanto, de crime próprio.
Sujeito passivo – É o proprietário ou possuidor da coisa entregue ao sujeito
ativo. Pode ser pessoa física ou jurídica, e não necessariamente aquele que entregou o
bem ao sujeito ativo.
Núcleo do tipo – Apropriar-se significa apossar-se ou assenhorar-se de coisa
pertencente à outra pessoa. O objeto da conduta é a coisa alheia móvel, de que tem a
posse ou a detenção (conceitos extraídos dos arts. 1.196 e 1.198 do CC).
A coisa fungível pode ser objeto de apropriação indébita? Há precedentes do
STF e do STJ no sentido de que sim.
STF: “Penal e processual penal – Apropriação indébita – Art. 168,
§1º, III do Código Penal – Contrato de armazenamento de bens
fungíveis – Indeferimento de perícia desnecessária, requerida na
fase do art. 499 do CPP – Não caracterização de cerceamento de
defesa – A fungibilidade do objeto do contrato não afasta o
delito de apropriação indébita – Perda do produto muito
superior à quebra técnica admitida – negativa em restituir a
coisa, como fora pactuado – Proposta de reposição da perda na
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descaracteriza o ânimo de apropriação – Configuração do dolo
(...)” (ARE 734221 AgR-ED / TO, Rel. Min. Luiz Fux, 1ª T., j.
24/09/2013, v.u.).
STJ: “Tendo o depositário a obrigação de devolver o mesmo
produto entregue pelos depositantes, e não produto de igual
espécie, torna-se possível a configuração do crime de
apropriação indébita” (RHC 19683 / SC, Rel. Min. Gilson Dipp, 5ª
T., j. 19/06/2007, v.u.).
Porém, o tema não é pacífico. Damásio e Nucci, entre outros, afirmam que o
depósito ou empréstimo de coisa fungível, com a obrigação de restituição de outra de
mesma espécie, quantidadee qualidade, encerra uma transferência de domínio (arts.
645 e 586 do CC). Desse modo, não ocorre o crime, que exige a apropriação de coisa
alheia. Damásio faz uma ressalva: “Excepcionalmente, entretanto, a coisa fungível pode
ser objeto material. É a hipótese de o sujeito entregar ao autor coisa fungível para fim
de que a transmita a terceiro ou a ostente na vitrina de uma loja”.
Na apropriação indébita, o agente recebe a coisa legitimamente (por ato
voluntário da vítima) e, num segundo momento, passa a se comportar como dono,
praticando ato de disposição ou se recusando a devolvê-la.
Podemos identificar as duas modalidades de apropriação indébita:
a) Apropriação indébita propriamente dita – prática de ato de
disposição da coisa.
Ex.: Arnaldo empresta o seu celular para Rafael, que o recebe
legitimamente e fica obrigado a devolver tal aparelho quando
solicitado. Pouco depois, descobre-se que Rafael vendeu o
celular na feira do rolo.
b) Negativa de restituição – recusa em devolver a coisa.
Ex.: Arnaldo empresta o seu celular para Rafael, que o recebe
legitimamente e fica obrigado a devolver tal aparelho quando
solicitado. Um mês depois, Arnaldo pede o celular de volta,
momento em que Rafael afirma que não irá devolver.
Podemos também visualizar os requisitos para a configuração da apropriação
indébita:
- Entrega voluntária da coisa pela vítima – A vítima entrega a
coisa de bom grado, sem ter sofrido violência, grave ameaça ou
qualquer tipo de fraude (pois do contrário o crime seria de
roubo).
- Boa-fé do agente ao receber a coisa – Se o agente já recebe a
coisa de má fé, pode-se configurar o crime de estelionato.
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Observe-se que a pena da apropriação indébita é inferior à do
estelionato, de modo que, havendo dúvida quanto à intenção do
agente quando do recebimento, deve-se presumir a boa-fé.
- Posse ou detenção desvigiada – Se a detenção for vigiada e o
agente se aproveitar de uma distração do dono para subtrai-la,
o crime será de furto.
- Inversão do ânimo da posse em domínio – O agente passa a se
comportar como dono da coisa, praticando ato de disposição
(apropriação indébita propriamente dita) ou se negando a
devolvê-la (negativa de restituição).
Elemento subjetivo – O crime é doloso (dolo direto ou eventual). Parte da
doutrina (minoritária) afirma a necessidade do elemento subjetivo específico (animus
rem sibi habendi), enquanto outros consideram que tal fim de agir já está abrangido pelo
verbo do tipo (“apropriar-se”).
Não se pune a apropriação culposa (ex.: agente não restitui a coisa por mero
esquecimento).
Na apropriação indébita o dolo é atual ou subsequente?
Como em qualquer crime, o dolo deve estar presente no momento da conduta.
Ou seja, o dolo é atual em relação à conduta. Porém, o dolo é subsequente (posterior)
ao recebimento da coisa. Se o agente, desde o início, pretende se apoderar da coisa
(dolo ab ovo ou ab initio), tem-se o crime de estelionato (art. 171).
Qual a diferença entre apropriação indébita e estelionato?
Na apropriação indébita o dolo, ou seja, a vontade de se apropriar, surge depois
de ter o agente a posse da coisa, recebida legitimamente. No estelionato a vontade de
se assenhorar da coisa é antecedente à posse.
Qual a diferença entre apropriação indébita e furto?
No furto, o agente subtrai a coisa da vítima. Na apropriação indébita ele a
recebe legitimamente e, num segundo momento, inverte o ânimo da posse, passando a
se comportar como dono.
Consumação e tentativa – Consuma-se no momento em que o agente inverte
a detenção ou posse em domínio (crime material). Isso é revelado por qualquer conduta
externa incompatível com a vontade de restituir a coisa ou de dar-lhe o destino certo
(ato de disposição ou negativa de restituição).
Nesse sentido:
STJ: “É certo que o delito de apropriação indébita se consuma no
momento em que ocorre a inversão da posse do bem, ou seja,
no momento em que o agente decide se apossar da coisa com
animus domini” (CC 133495 / PI, Rel. Min. Ericson Maranho, 3ª
Seção, j. 25/02/2015, v.u.)
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
É controvertida a possibilidade de tentativa. Existem posições em sentidos
diversos:
a) não admite tentativa;
b) admite tentativa;
c) admite tentativa apenas se envolver prática de ato de
disposição (“apropriação indébita propriamente dita”).
Contudo, embora de difícil ocorrência prática, será possível a tentativa se o
crime for praticado na forma plurissubsistente. É preciso analisar o caso concreto.
Muñoz Conde, citado por Nucci, traz o seguinte exemplo real:
o agente “possuía um quadro, que lhe fora confiado; quando
solicitado a instado a devolver, levou ao ofendido uma cópia. A
vítima logo percebeu e exigiu o original, momento em que o
agente desistiu de prosseguir e entregou-lhe o original. Pode-se
sustentar a tentativa de apropriação. Na prática, é muito difícil
encontrar uma situação semelhante, até porque, no caso
retratado, a vítima, como regra, dá-se por satisfeita e nem
registra a ocorrência”.
Princípio da Insignificância - A princípio, não há óbice à aplicação do princípio
da insignificância, salvo nos casos de apropriação indébita majorada, diante da maior
reprovabilidade (STJ HC278453/RJ). Tanto o STF quanto o STJ já reconheceram ser
admissível a aplicação do princípio da insignificância no crime em análise.
Apropriação indébita de uso – diferentemente do que ocorre no crime de
furto, não existe a figura da apropriação indébita de uso, pois, na apropriação, o agente
já se encontra usando a coisa que lhe foi confiada pela vítima. Assim, no momento em
que esta pede o que é seu de volta, deve ser imediatamente restituído.
1.2.2. CAUSAS DE AUMENTO DE PENA
§ 1º - A pena é aumentada de um terço, quando o agente
recebeu a coisa:
I - em depósito necessário;
II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário,
inventariante, testamenteiro ou depositário judicial;
III - em razão de ofício, emprego ou profissão.
1.2.2.1. Recebimento da coisa em depósito necessário
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
A pena é aumentada por abranger situações em que a única alternativa da
vítima era confiar a coisa ao agente.
Mas o que é depósito necessário?
Assim dispõe o art. 647 do Código Civil: É depósito necessário:
I - o que se faz em desempenho de obrigação legal;
II - o que se efetua por ocasião de alguma calamidade, como o
incêndio, a inundação, o naufrágio ou o saque.
A doutrina majoritária entende que a causa de aumento apenas se aplica ao
inciso II do art. 647, chamado depósito necessário miserável.
A hipótese trazida no inciso I, denominado depósito necessário legal, seria
resolvida criminalmente por outras figuras, como peculato (se o agente for funcionário
público), ou apropriação qualificada em razão de ofício, emprego ou profissão.
1.2.2.2. Na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante,
testamenteiro ou depositário judicial
Trata-se de causa de aumento em razão da qualidade pessoal do agente. O rol
não pode ser ampliado (rol taxativo).
Incide o aumento de pena previsto no inciso II, do §1º, do art. 168 do CP, caso
o síndico de condomínio se aproprie de quantias do condomínio?
Não. Segundo o STJ:
“O fato de síndico de condomínioedilício ter se apropriado de
valores pertencentes ao condomínio para efetuar pagamento de
contas pessoais não implica o aumento de pena descrito no art.
168, § 1°, II, do CP (o qual incide em razão de o agente de
apropriação indébita ter recebido a coisa na qualidade de
"síndico"). Isso porque, conforme entendimento doutrinário, o
"síndico" a que se refere a majorante do inciso II do § 1º do art.
168 do CP é o "administrador judicial" (Lei n. 11.101/2005), ou
seja, o profissional nomeado pelo juiz e responsável pela
condução do processo de falência ou de recuperação judicial.
Além do mais, o rol que prevê a majorante é taxativo e não pode
ser ampliado por analogia ou equiparação, até porque todas as
hipóteses elencadas no referido inciso - "tutor, curador, síndico,
liquidatário, inventariante, testamenteiro ou depositário
judicial" - cuidam de um munus público, o que não ocorre com o
síndico de condomínio edilício, em relação ao qual há relação
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
contratual. REsp 1.552.919-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da
Fonseca, julgado em 24/5/2016, DJe 1/6/2016.”
Isso ocorre porque, nos termos do inciso II do § 1º, do art. 168 do CP, o “sindico”
é o sujeito responsável pela massa falida, ou seja, é o administrador judicial, sendo,
portanto, figura diferente daquela do síndico de condomínio edilício, consoante decisão
acima colacionada.
Incide o aumento de pena previsto no inciso II, do §1º, do art. 168 do CP para
o fiel depositário de penhora judicial sobre o faturamento?
Sim. Segundo o STJ:
O fiel depositário de penhora judicial sobre o faturamento está
sujeito às penas previstas no art. 168, § 1º, II, do Código Penal.
STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1.871.947/PR, Rel. Min. Rogério
Schietti Cruz, julgado em 26/04/2022.
Sobre o tema o STJ já havia se posicionado no sentido de ser possível a
condenação por apropriação indébita decorrente de depósito de bem fungível, vejamos:
“Este Tribunal Superior já reconheceu a possibilidade de
ocorrência do delito de apropriação indébita quando se trata de
bem fungível. 2. É também entendimento deste Sodalício que o
ressarcimento do prejuízo decorrente do desvio do bem
depositado - inocorrente no caso - não descaracteriza o delito.
[...] 3. Agravo regimental improvido” (AgRg no AREsp n.
528.420/MS, Rel. Ministro Jorge Mussi, 5ª T., DJe 02/03/2018)
"Não configura coisa própria, a elidir a elementar 'apropriação
de coisa alheia', o fato de originalmente ser a mercadoria de
propriedade da empresa onde associado o acusado, pois a ele
entregue na condição de depósito e porque os bens da empresa
não se confundem com bens do sócio" (RHC n. 58.234/PR,
relator Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em
20/9/2016, DJe 3/10/2016). 3. Na hipótese vertente, como bem
consignado no acórdão recorrido, "ao denunciado foi entregue
a posse do bem sendo, entretanto, obrigado a entregá-lo na
forma de depósito de parcela do faturamento advindo de sua
administração. A partir do momento que o fiel depositário deixa
de repassar a parcela do faturamento penhorada, portanto
vinculada à execução trabalhista, resta objetivamente
configurada a apropriação de coisa alheia". 4. Agravo regimental
desprovido. (AgRg no REsp n. 1.468.046/SC, Rel. Ministro
Antonio Saldanha Palheiro, 6ª T., DJe 26/5/2021)
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
1.2.2.3. Em razão de ofício, emprego ou profissão
É mais grave o crime quando o agente recebe a coisa em razão da atividade
profissional, para devolução futura, e dela se apropria. Trata-se de circunstância pessoa,
logo, incomunicável em concurso de pessoas.
1.2.3. APROPRIAÇÃO INDÉBITA PRIVILEGIADA
Art. 170 - Nos crimes previstos neste Capítulo, aplica-se o
disposto no art. 155, § 2º.
Aplicam-se as mesmas regras do furto privilegiado, já estudadas: “Se o
criminoso é Primário, e é de Pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a pena
de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a
pena de multa”.
Reparação do dano e Arrependimento Posterior - no crime de apropriação
indébita, a restituição do bem ou o ressarcimento do dano antes do oferecimento da
denúncia não excluem a tipicidade do crime ou extinguem a punibilidade do agente,
sendo apenas causa de redução da pena, nos termos do artigo 16 do Código Penal (STJ,
RHC 93.195/SP).
1.2.4. APROPRIAÇÃO INDÉBITA PREVIDENCIÁRIA
Art. 168-A - Deixar de repassar à previdência social as
contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma
legal ou convencional:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem deixar de:
I – recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância
destinada à previdência social que tenha sido descontada de
pagamento efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do
público;
II – recolher contribuições devidas à previdência social que
tenham integrado despesas contábeis ou custos relativos à
venda de produtos ou à prestação de serviços;
III - pagar benefício devido a segurado, quando as respectivas
cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela
previdência social.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Considerando que as contribuições, inclusive as previdenciárias, tem natureza
tributária, a apropriação indébita previdenciária é um crime contra a ordem tributária.
Bem jurídico - Tutela-se o patrimônio de todos aqueles que fazem parte da
seguridade social, mais precisamente no seu aspecto previdenciário. Protege-se de
forma imediata o bem jurídico da subsistência financeira da previdência social e, de
forma mediata, a própria ordem tributária.
Sujeito ativo é a pessoa que tem o dever de repassar à Previdência (oficial ou
privada) a contribuição recolhida dos contribuintes (substituto tributário).
Sujeito passivo é a Previdência Social (União), podendo os segurados lesados
serem, também, vítimas do delito.
O crime deve ser praticado a título de dolo (direto ou eventual), ou seja,
vontade consciente de deixar de repassar à Previdência social, os valores recolhidos.
Para o STF e o STJ a apropriação indébita previdenciária não pressupõe finalidade
especial. Não há modalidade culposa.
O entendimento dominante na doutrina é o de que a apropriação indébita
previdenciária é crime formal, dispensando o locupletamento do agente ou o efetivo
prejuízo ao Erário.
Contudo, o STF já decidiu ser o crime material (Inq. 2.537/GO, DJe 13/06/2008).
A posição é compatível com a redação da súmula vinculante nº 24:
“Não se tipifica crime material contra a ordem tributária,
previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do
lançamento definitivo do tributo”.
No mesmo sentido o STJ:
“Na linha da jurisprudência deste Tribunal Superior, o crime de
apropriação indébita previdenciária, previsto no art. 168-A,
ostenta natureza de delito material. Portanto, o momento
consumativo do delito em tela corresponde à data da
constituição definitiva do crédito tributário, com o
exaurimento da via administrativa (RHC 36.704/SC, Rel.
Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, DJe 26/02/2016). Nos
termos do art. 111, I, do CP, este é o termo inicial da contagem
do prazo prescricional” (AgRg no REsp 1.644.719/SP, DJe
31/05/2017).
Jurisprudência em Teses do STJ – Edição 87 – 06: O crime deapropriação indébita previdenciária (art. 168-A do CP) é de
natureza material e exige a constituição definitiva do débito
tributário perante o âmbito administrativo para configurar-se
como conduta típica.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Trata-se de uma norma penal em branco homogênea, pois necessita de
complemento da legislação previdenciária (em especial, a Lei 8.212/91).
O crime é omissivo próprio, portanto, inadmissível a forma tentada.
Jurisprudência em Teses do STJ – Edição 87 – 07: O delito de
apropriação indébita previdenciária constitui crime omissivo
próprio, que se perfaz com a mera omissão de recolhimento da
contribuição previdenciária dentro do prazo e das formas legais,
prescindindo, portanto, do dolo específico.
Jurisprudência em Teses do STJ – Edição 87 – 08: A apropriação
indébita previdenciária é crime instantâneo e unissubsistente,
sendo a mera omissão de recolhimento da contribuição
previdenciária dentro do prazo e das formas legais suficiente
para a caracterização da continuidade delitiva.
1.2.4.1. Extinção da punibilidade
§ 2º - É extinta a punibilidade se o agente, espontaneamente,
declara, confessa e efetua o pagamento das contribuições,
importâncias ou valores e presta as informações devidas à
previdência social, na forma definida em lei ou regulamento,
antes do início da ação fiscal.
Atualmente, a suspensão da pretensão punitiva estatal e a extinção da
punibilidade são disciplinadas no art. 83 da Lei 9.430/96, com alterações promovidas
pela Lei 12.382/11.
Suspensão da pretensão punitiva Extinção da punibilidade
Parcelamento do crédito tributário,
desde que o pedido de parcelamento
tenha sido formalizado antes do
recebimento da denúncia. Durante a
suspensão, não corre prescrição.
Pagamento integral dos débitos, a
qualquer tempo (até mesmo após o
trânsito em julgado).
O STJ havia firmado Tese em sua Jurisprudência, indicando que a extinção da
punibilidade dependeria da quitação integral do débito tributário se realizado após o
recebimento da denúncia, mas desde que não fosse posterior ao trânsito em julgado:
Jurisprudência em Teses do STJ – Edição 87 – 10: O pagamento
integral dos débitos oriundos de apropriação indébita
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
previdenciária, ainda que efetuado após o recebimento da
denúncia, mas antes do trânsito em julgado da sentença
condenatória, extingue a punibilidade, nos termos do art. 9º, §
2º, da Lei n. 10.684/03. (Tese já superada).
Ocorre que, em decisão posterior, seguindo o posicionamento já adotado pelo
STF, o STJ passou a considerar que o pagamento do tributo, a qualquer tempo, até
mesmo após o advento do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, é causa
de extinção da punibilidade do acusado:
STF: (...) Apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, § 1º, I,
CP). Condenação. Trânsito em julgado. Pagamento do débito
tributário. Extinção da punibilidade do agente. Admissibilidade.
Inteligência do art. 9º, § 2º, da Lei nº 10.684/03. Precedentes.
(...) 1. Tratando-se de apropriação indébita previdenciária (art.
168-A, § 1º, I, CP), o pagamento integral do débito tributário,
ainda que após o trânsito em julgado da condenação, é causa de
extinção da punibilidade do agente, nos termos do art. 9º, § 2º,
da Lei nº 10.684/03. (...) (RHC 128245, Relator(a): Min. DIAS
TOFFOLI, Segunda Turma, julgado em 23/08/2016, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-225 DIVULG 20-10-2016 PUBLIC 21-10-2016)
STJ: (...) 1. Com o advento da Lei 10.684/2003, no exercício da
sua função constitucional e de acordo com a política criminal
adotada, o legislador ordinário optou por retirar do
ordenamento jurídico o marco temporal previsto para o
adimplemento do débito tributário redundar na extinção da
punibilidade do agente sonegador, nos termos do seu artigo 9º,
§ 2º, sendo vedado ao Poder Judiciário estabelecer tal limite. 2.
Não há como se interpretar o referido dispositivo legal de outro
modo, senão considerando que o pagamento do tributo, a
qualquer tempo, até mesmo após o advento do trânsito em
julgado da sentença penal condenatória, é causa de extinção da
punibilidade do acusado. (HC 362478 - 2016/0182386-0 de
20/09/2017)
1.2.4.2. Perdão Judicial ou privilégio
§ 3º - É facultado ao juiz deixar de aplicar a pena ou aplicar
somente a de multa se o agente for primário e de bons
antecedentes, desde que:
I – tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de
oferecida a denúncia, o pagamento da contribuição social
previdenciária, inclusive acessórios;
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
II – o valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja
igual ou inferior àquele estabelecido pela previdência social,
administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento
de suas execuções fiscais.
§ 4º - A faculdade prevista no § 3º deste artigo não se aplica aos
casos de parcelamento de contribuições cujo valor, inclusive dos
acessórios, seja superior àquele estabelecido,
administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento
de suas execuções fiscais. (Incluído pela Lei nº 13.606, de 2018)
O art. 168-A, §3º, I foi tacitamente revogado pelo art. 9º da Lei 10.684/03.
O STF e o STJ possuem entendimento de que não é possível a aplicação do
princípio da insignificância aos crimes de apropriação indébita previdenciária e de
sonegação de contribuição previdenciária, independentemente do valor do ilícito,
vajamos:
STF: (...) Apropriação indébita previdenciária e sonegação de
contribuição previdenciária. Condenação. 3. Reconhecimento da
prescrição. Impossibilidade. Necessidade de esgotamento da via
administrativa para deflagração da ação penal e início da
contagem do prazo prescricional. Não ocorrência da alegada
prescrição. 4. Aplicação do princípio da insignificância.
Impossibilidade. Elevado grau de reprovabilidade da conduta.
(...) (RHC 132706 AgR, Relator(a): Min. GILMAR MENDES,
Segunda Turma, julgado em 21/06/2016, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-159 DIVULG 29-07-2016 PUBLIC 01-08-2016)
STJ: (...) II - Inaplicável o princípio da insignificância aos delitos
de apropriação indébita previdenciária (art. 168-A, do Código
Penal) e sonegação de contribuição previdenciária (art. 337-A,
do Código Penal) consoante entendimento assentado do. col.
Supremo Tribunal Federal que conferiu caráter supraindividual
ao bem jurídico tutelado, haja vista visarem proteger a
subsistência financeira da Previdência Social. Precedentes. (...)
(AgRg na RvCr 4.881/RJ, Rel. Ministro FELIX FISCHER, TERCEIRA
SEÇÃO, julgado em 22/05/2019, DJe 28/05/2019)
OBSERVAÇÃO: O STJ firmou Tese entendendo ser possível a existência de continuidade
delitiva entre os delitos de “sonegação previdenciária (art. 337-A do CP)” e a
“apropriação indébita previdenciária (art. 168-A do CP)”, apesar de eles estarem em
tipos penais diferentes, pois refletem delitos que guardam estreita relação entre si:
“É possível o reconhecimento da continuidade delitiva de crimes de apropriação
indébita previdenciária (art. 168-A do CP), bem como entre o crime de apropriação
indébita previdenciária e o crime de sonegação previdenciária (art. 337-A do CP)
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena daadoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
praticados na administração de empresas distintas, mas pertencentes ao mesmo grupo
econômico.” (Jurisprudência em Teses do STJ – Edição 87 – 09)
1.2.5. CONFRONTO
Apropriação indébita contra idoso (pessoa com idade igual ou superior a 60 anos)
configura o crime do art. 102 da Lei 10.741/2003 (Estatuto do Idoso):
Art. 102. Apropriar-se de ou desviar bens, proventos, pensão ou qualquer outro
rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da de sua finalidade:
Pena – reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa.
2 observações:
- o Estatuto do Idoso é mais abrangente, não fala apenas em coisa alheia móvel, mas
em bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento, além de não exigir que
estejam na posse do sujeito ativo.
- Por outro lado, a pena é a mesma do art. 168, caput, do Código Penal, mas não são
aplicáveis as causas de aumento do § 1º. Logo, se o curador se apropriar de dinheiro
do idoso, terá a pena menor do que a mesma conduta contra vítima não idosa.
A lei 13.146/15 (estatuto da pessoa com deficiência) pune, em seu art. 89, com pena
de reclusão de 1 a 4 anos e multa, a conduta de apropriação de bens, proventos,
pensões e benefícios, remuneração ou qualquer outro rendimento da pessoa com
deficiência.
A apropriação indébita, quando praticada por funcionário público envolvendo bem
de que tem a posse em razão do cargo, configura o crime de peculato (Art. 312 -
Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel,
público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em
proveito próprio ou alheio).
Comete o crime do art. 5º da Lei 7.492/86 (Crimes contra o Sistema Financeiro
Nacional) o controlador ou administrador de instituição financeira que “Apropriar-se,
quaisquer das pessoas mencionadas no art. 25 desta lei, de dinheiro, título, valor ou
qualquer outro bem móvel de que tem a posse, ou desviá-lo em proveito próprio ou
alheio”.
No crime de estelionato, previsto no art. 171 do CP, o sujeito quer se apropriar da
coisa alheia móvel de forma ilícita desde o início. Na apropriação indébita, o sujeito
recebe a coisa alheia móvel licitamente e depois decide se apropriar.
1.2.6. QUADRO RESUMO
Figura simples (art. 168)
CPF: 860.542.154-18
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Apropriação
indébita
(art. 168)
Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a
detenção:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Modalidades:
Apropriação indébita propriamente dita (prática de ato de
disposição da coisa).
Negativa de restituição (recusa em devolver a coisa).
Requisitos:
- Entrega voluntária da coisa pela vítima.
- Boa-fé do agente ao receber a coisa.
- Posse ou detenção desvigiada.
- Inversão do ânimo da posse em domínio.
Consumação e tentativa – Consuma-se no momento em que o
agente inverte a detenção ou posse em domínio (crime
material). Controvertida a possibilidade de tentativa.
Causa de aumento de pena (§ 1º)
Pena é aumentada de 1/3 se o agente recebeu a coisa:
I - em depósito necessário (art. 647, II, CC – efetuado por
calamidade, como incêndio, inundação, naufrágio ou saque).
II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário,
inventariante, testamenteiro ou depositário judicial.
III - em razão de ofício, emprego ou profissão.
Receptação Privilegiada (art. 170)
Primário + Pequeno valor da coisa
Juiz pode:
Substituir pena de reclusão por detenção.
Diminuí-la de um a dois terços.
Aplicar somente a pena de multa.
1.3. ESTELIONATO
Estelionato
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em
prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro,
mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, de quinhentos mil
réis a dez contos de réis.
§ 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo,
o juiz pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º.
§ 2º - Nas mesmas penas incorre quem:
Disposição de coisa alheia como própria
I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em
garantia coisa alheia como própria;
Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria
II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa
própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que
prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em
prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;
Defraudação de penhor
III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou
por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do
objeto empenhado;
Fraude na entrega de coisa
IV - defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que
deve entregar a alguém;
Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro
V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa
o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão
ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de
seguro;
Fraude no pagamento por meio de cheque
VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder
do sacado, ou lhe frustra o pagamento.
Fraude eletrônica
§ 2º-A. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e
multa, se a fraude é cometida com a utilização de informações
fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio
de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio
eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento
análogo. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021)
§ 2º-B. A pena prevista no § 2º-A deste artigo, considerada a
relevância do resultado gravoso, aumenta-se de 1/3 (um terço)
a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado mediante a utilização
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
de servidor mantido fora do território nacional. (Incluído pela Lei
nº 14.155, de 2021)
§ 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em
detrimento de entidade de direito público ou de instituto de
economia popular, assistência social ou beneficência. (Incluído
pela Lei nº 14.155, de 2021)
Estelionato contra idoso ou vulnerável (Redação dada pela Lei
nº 14.155, de 2021)
§ 4º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime
é cometido contra idoso ou vulnerável, considerada a relevância
do resultado gravoso. (Redação dada pela Lei nº 14.155, de
2021)
Ação Penal
§ 5º Somente se procede mediante representação, salvo se a
vítima for: (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)
I - a Administração Pública, direta ou indireta; (Incluído pela Lei
nº 13.964, de 2019)
II - criança ou adolescente; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)
III - pessoa com deficiência mental; ou (Incluído pela Lei nº
13.964, de 2019)
IV - maior de 70 (setenta) anos de idade ou incapaz. (Incluído
pela Lei nº 13.964, de 2019)
1.3.1. FIGURA SIMPLES
A palavra “estelionato” vem de “stellio”, nome de um camaleão que muda de
cor para iludir seus inimigos.
O estelionato é caracterizado pelo emprego de fraude para enganar a vítima,
fazendo com que ela entregue espontaneamente ao agente a vantagem por ele
pretendida. Não há qualquer tipo de violência, grave ameaça ou coação.
Objeto jurídico – Tutela-se o patrimônio.
Sujeito ativo – Qualquer pessoa (crime comum).
Sujeito passivo – Qualquer pessoa, sendo tantoa pessoa enganada quanto
aquela que sofre o prejuízo patrimonial (física ou jurídica e ainda que seja um ente
público).
Núcleo do tipo - Pune-se a conduta de obter vantagem ilícita, em prejuízo
alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer
outro meio fraudulento.
Induzir significa persuadir, incutir. No contexto do art. 171, significa provocar o
engano, ou seja, a falsa percepção da realidade. Ex1.: agente finge ter o bilhete
premiado da loteria e oferece-o à vítima por um valor menor. Recolhe o dinheiro do
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ofendido e desaparece. Ex2.: sujeito se passa por parente da vítima, dizendo que o carro
quebrou e precisa de dinheiro para o mecânico.
Manter quer dizer conservar, fazer permanecer. Aqui, o agente faz com que o
ofendido continue em situação de engano, na qual ele já estava. Ex.: vítima se confunde
quanto à pessoa a quem deve pagar uma dívida. O agente se aproveita do equívoco e
finge ser o credor para receber a quantia.
Vantagem ilícita – Trata-se de expressão mais ampla que a empregada no tipo
do furto. Abrange qualquer tipo de benefício, desde que seja patrimonial (afinal, o
estelionato está relacionado entre os crimes contra o patrimônio). Registra-se a posição
de Bitencourt, para quem o prejuízo sofrido pela vítima deve ter natureza patrimonial,
mas a vantagem obtida pelo agente pode ter outra natureza.
Se a vantagem for lícita, pode-se configurar o crime de exercício arbitrário das
próprias razões (art. 345).
Mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento:
- Artifício (fraude material) - envolve o emprego de algum objeto
(tal como instrumento ou vestimenta) para enganar a vítima.
- Ardil (fraude moral ou intelectual) - o agente se vale de
conversa enganosa para enganar a vítima.
- Outro meio fraudulento – Abrange qualquer tipo de fraude,
inclusive o silêncio (bastaria a lei dizer “qualquer meio
fraudulento” e estaria tudo abrangido).
Em prejuízo alheio – Para a consumação do estelionato, não basta que o agente
obtenha vantagem ilícita, sendo imprescindível que ocorra também prejuízo a outrem
(resultado duplo).
A 6ª Turma do STJ, no julgamento do HC 332676-PE, Rel. Min. Ericson Maranho
(Desembargador convocado do TJ/SP), julgado em 17/12/2015 e noticiado no
informativo 567, considerou possível a exasperação da pena-base (tendo em vista as
circunstâncias desfavoráveis) no cometimento de estelionato em detrimento de vítima
que conhecia o autor do delito e lhe depositava total confiança.
Elemento subjetivo – O crime é punido exclusivamente a título de dolo. Exige-
se, ainda, o elemento subjetivo do tipo específico, consistente na vontade de obter lucro
indevido para si ou para outrem. Não é prevista a forma culposa.
Consumação e tentativa - O estelionato é um delito de duplo resultado. Para
sua consumação, devem estar presentes dois requisitos cumulativos: a) efetiva
obtenção de vantagem ilícita + b) prejuízo alheio.
A tentativa é admissível. Ex.: apesar de induzir a vítima em erro, o agente não
consegue obter a vantagem e/ou a vítima não sofre prejuízo.
Se o agente emprega a fraude e obtém da vítima um título de crédito, o
estelionato é tentado ou consumado?
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Há divergência. Para alguns, o crime está consumado, pois o agente recebeu a
vantagem indevida em prejuízo alheio. Outros entendem que há apenas tentativa, pois
o efetivo prejuízo à vítima ocorre apenas quando o título se converter em dinheiro em
favor do agente.
A torpeza bilateral afasta o crime de estelionato?
Torpeza bilateral é situação em que as pessoas envolvidas buscam enganar uma
à outra, reciprocamente. Em determinados casos, a vítima do estelionato sofre o delito
justamente por tentar se aproveitar da aparente ingenuidade do agente (como no
famoso golpe do bilhete de loteria premiado ou da venda da máquina de fazer dinheiro).
Mesmo nessas hipóteses, prevalece que subsiste o delito de estelionato, pois a boa-fé
da vítima não é elemento do tipo do art. 171.
Há posição minoritária, no sentido de que a torpeza bilateral afasta o delito
(Hungria).
O denominado “estelionato judiciário” configura crime?
“Estelionato judiciário” é a utilização abusiva do Poder Judiciário para a busca
de alguma vantagem pessoal, com base em teses descabidas e/ou inverídicas, entre
outras condutas, com o objetivo de induzir ou manter o Poder Judiciário em erro.
A posição tradicional do STJ é pela inadmissibilidade da prática desse crime,
posto que não há previsão no ordenamento jurídico. Trata-se, portanto, de uma conduta
atípica, vejamos:
STJ – Quinta Turma: (...) 3. O estelionato judicial consiste no uso
do processo judicial para auferir lucros ou vantagens indevidas,
mediante fraude, ardil ou engodo, ludibriando a Justiça, com
ciência da inidoneidade da demanda. Percebe-se que a leitura
das elementares do art. 171, caput, do Código Penal deve estar
em consonância com a garantia constitucional da
inafastabilidade jurisdicional (CF, art. 5º, XXXV), do que decorre
o entendimento segundo o qual o direito de ação é subjetivo
público e abstrato, em relação ao direito material. Desse modo,
verifica-se atipicidade penal da conduta de invocar causa de
pedir remota inexistente para alcançar consequências jurídicas
pretendidas, mesmo que a parte ou seu procurador tenham
ciência da ilegitimidade da demanda. 4. A conduta constitui
infração civil aos deveres processuais das partes, nos termos do
art. 77, II, do Código de Processo Civil, e pode sujeitar a parte ao
pagamento de multa e indenizar a parte contrária pelos danos
processuais, consoante arts. 79, 80 e 81 do Código de Processo
Civil ilícito processual. Outrossim, conforme art. 34, XIV, da Lei n.
8.906/1994, verifica-se infração profissional do advogado
deturpar a situação fática com o objetivo de iludir o juízo.
Conclui-se, pois, que a conduta descrita não configura infração
penal, mas meramente civil e administrativa, sujeita à punição
correlata. (...) (HC 435.818/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS,
QUINTA TURMA, julgado em 03/05/2018, DJe 11/05/2018)
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
STJ – Sexta Turma: (...) 2. Não configura "estelionato judicial" a
conduta de fazer afirmações possivelmente falsas, com base em
documentos também tidos por adulterados, em ação judicial,
porque a Constituição da República assegura à parte o acesso ao
Poder Judiciário. O processo tem natureza dialética,
possibilitando o exercício do contraditório e a interposição dos
recursos cabíveis, não se podendo falar, no caso, em "indução
em erro" do magistrado. Eventual ilicitude de documentos que
embasaram o pedido judicial são crimes autônomos, que não se
confundem com a imputação de "estelionato judicial". 3. A
deslealdade processual é combatida por meio do Código de
Processo Civil, que prevê a condenação do litigante de má-fé ao
pagamento de multa, e ainda passível de punição disciplinar no
âmbito do Estatuto da Advocacia. 4. Ordem concedida, ex
officio, para reconhecer a atipicidade do delito de estelionato,
trancando, por conseguinte, a ação penal, por falta de justa
causa, sem prejuízo da apuração de outros crimes porventura
existentes. 5. Recurso ordinário prejudicado. (RHC 88.623/PB,
Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA,
julgado em 13/03/2018,DJe 26/03/2018)
Contudo, em alguns julgados, o STJ tem feito a seguinte diferenciação:
- Não há crime: quando é possível ao magistrado, durante o
curso do processo, constatar a fraude (ex: por meio de perícia,
por prova testemunhal, documental etc.);
- Há crime: se não for possível ao juiz, durante o curso do
processo, ter acesso às informações que caracterizam a fraude é
possível a configuração do crime.
STJ: (...) A conduta intitulada por estelionato judiciário é atípica,
por ausência de previsão legal e diante do direito de ação
previsto na Constituição Federal, desde que o Magistrado,
durante o curso do processo tenha condições de acesso às
informações que caracterizam a fraude, como no caso dos autos.
(HC 393890 / RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., j.
13/06/2017, v.u.).
STJ: (...) 1. Não se desconhece a existência de posicionamento
doutrinário e jurisprudencial, inclusive desta Corte Superior de
Justiça, que não admite a prática do delito de estelionato por
meio do ajuizamento de ações judiciais. 2. Contudo, em recente
julgado, esta colenda Quinta Turma firmou o entendimento de
que quando não é possível ao magistrado, durante o curso do
processo, ter acesso às informações que caracterizam a fraude,
é viável a configuração do crime de estelionato. (RHC
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
53.471/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado
em 04/1 2/2014, DJe 15/12/2014)
A “cola eletrônica” em concursos públicos configura estelionato?
O STF já examinou essa questão e, por maioria de votos, entendeu que não (Inq
1145/PB, Rel. Min. Maurício Corrêa, Rel. p/ acórdão Min. Gilmar Mendes, Pleno, j.
19/12/2006, m.v.).
No mesmo sentido tem decidido o STJ:
“A ‘cola eletrônica’, antes do advento da Lei n. 12.550/2011, era
uma conduta atípica, não configurando o crime de estelionato”
(AgRg no AREsp 702915 / DF, Rel. Min. Nefi Cordeiro, 6ª T., j.
10/10/2017, v.u.).
Após o advento da Lei 12.550/11, pode configurar o crime do art. 311-A,
introduzido no Código Penal:
Art. 311-A - Utilizar ou divulgar, indevidamente, com o fim de
beneficiar a si ou a outrem, ou de comprometer a credibilidade
do certame, conteúdo sigiloso de:
I - concurso público;
II - avaliação ou exame públicos;
III - processo seletivo para ingresso no ensino superior; ou
IV - exame ou processo seletivo previstos em lei:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem permite ou facilita, por
qualquer meio, o acesso de pessoas não autorizadas às
informações mencionadas no caput.
§ 2º - Se da ação ou omissão resulta dano à administração
pública:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
§ 3º - Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se o fato é cometido
por funcionário público.
Há entendimento de que o novo tipo penal não abrange a “cola eletrônica”,
pois o gabarito não poderia ser considerado “conteúdo sigiloso”.
Agente que faz refeição em restaurante e não paga pratica estelionato? Como
fica a questão da “pendura”?
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Se o agente faz refeição e não dispõe de recursos para pagamento, configura-
se o crime do art. 176 do Código Penal (“tomar refeição em restaurante, alojar-se em
hotel ou utilizar-se de meio de transporte sem dispor de recursos para efetuar o
pagamento”).
Quanto ao caso da “pendura”, quando os acadêmicos de Direito, que
normalmente têm os recursos para efetuar o pagamento, mas se negam a fazê-lo,
alegando a existência de uma tradição, temos duas correntes:
a) Como os estudantes têm os recursos para pagamento, devem
responder pelo crime de estelionato.
b) Fato atípico. Não há o emprego de fraude por parte dos
estudantes, nem vontade de obter lucro indevido, mas sim de
comemorar. Além disso, se a hipótese não foi abrangida no art.
176, é porque a intenção do legislador foi excluí-la do campo
penal. Logo, deve ser relegada ao âmbito cível.
O terceiro, beneficiário da vantagem indevida, que não pratica o estelionato,
nem induz, instiga ou auxilia o autor a fazê-lo, responde por qual crime?
Respondemos com a lição de Cleber Masson:
- Se recebe o bem ciente de sua origem criminosa, responde por
receptação dolosa própria (CP, art. 180, caput, 1ª parte);
- Se recebe o bem devendo presumir sua origem criminosa,
responde por receptação culposa (CP, art. 180, § 3°);
- Se não tiver ciência da origem criminosa do bem, nem teria
como presumir tal circunstância, não responde por qualquer
delito, pois ausente dolo e culpa.
O sujeito que altera o sistema de medição para que passe a apresentar
resultado menor do que o real consumo comete o crime de estelionato?
Sim. Trata-se de estelionato e não de furto mediante fraude, vejamos:
ALTERAÇÃO NO MEDIDOR DE ENERGIA ELÉTRICA. FRAUDE POR
USO DE SUBSTÂNCIA. REDUÇÃO DO CONSUMO DE ENERGIA.
INDUZIMENTO A ERRO DA COMPANHIA ELÉTRICA. TIPICIDADE
LEGAL. ESTELIONATO. CONDENAÇÃO MANTIDA. RECURSO
ESPECIAL DESPROVIDO. 1. Extrai-se dos autos que fraude
empregada pelos agravantes - uso de material transparente nas
fases "a" e "b" do medidor - reduzia a quantidade de energia
registrada no relógio e, por consequência, a de consumo,
gerando a obtenção de vantagem ilícita. 2. "No furto qualificado
com fraude, o agente subtrai a coisa com discordância expressa
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
ou presumida da vítima, sendo a fraude meio para retirar a res
da esfera de vigilância da vítima, enquanto no estelionato o
autor obtém o bem através de transferência empreendida pelo
próprio ofendido por ter sido induzido em erro". (AgRg no REsp
1279802/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA,
julgado em 8/5/2012, DJe 15/5/2012) 3. O caso dos autos revela
não se tratar da figura do "gato" de energia elétrica, em que há
subtração e inversão da posse do bem. Trata-se de prestação de
serviço lícito, regular, com contraprestação pecuniária, em que
a medição da energia elétrica é alterada, como forma de burla
ao sistema de controle de consumo, - fraude -, por induzimento
ao erro da companhia de eletricidade, que mais se adequa à
figura descrita no art. 171, do Código Penal - CP (estelionato). 4.
Recurso especial desprovido. (AREsp 1418119/DF, Rel. Ministro
JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 07/05/2019,
DJe 13/05/2019)
Em assim sendo, podemos esquematizar a situação da seguinte maneira:
FURTO MEDIANTE FRAUDE ESTELIONATO
“Gato”. Alteração do sistema de medição.
Ex: desvio de energia por meio de uma
ligação direta clandestina, que não se
utiliza de medição.
Ex: uso de material transparente nas
fases "a" e "b" do medidor - reduzia a
quantidade de energia registrada no
relógio e, por consequência, a de
consumo, gerando a obtenção de
vantagem ilícita.
O agente subtrai a coisa com discordância
expressa ou presumida da vítima, sendo a
fraude meio para retirar a res da esfera de
vigilância da vítima.
O autor obtém o bem através de
transferência empreendida pelo próprio
ofendido por ter sido induzido em erro.
A fraude diminui a vigilância da vítima
viabilizando, assim, a inversão da posse.
A fraude faz com que a vítima incorra em
erro e, de forma voluntária, transfira a
posse do bem.
1.3.2. ESTELIONATO PRIVILEGIADO
§ 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo,
o juizpode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º.
CPF: 860.542.154-18
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Requisitos do estelionato Privilegiado: Primariedade e Pequeno valor do
prejuízo (aqui, leva-se em consideração não o pequeno valor da coisa, mas sim o prejuízo
sofrido pela vítima).
Se o crime for tentado (ou seja, a vítima não sofreu perda econômica), leva-se
em consideração o prejuízo que pretendia causar.
Consequências:
“(...) o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção,
diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de
multa”.
1.3.3. FIGURAS EQUIPARADAS
O § 2º do art. 171 dispõe que nas mesmas penas incorre quem:
1.3.3.1. Dispõe de coisa alheia como própria
I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em
garantia coisa alheia como própria;
Nesta figura, o agente atua como se pudesse dispor da coisa que, na realidade,
é de outrem. Estão abrangidas pelo dispositivo tanto a coisa móvel quanto imóvel.
O sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum), figurando como
vítima tanto o adquirente do bem (que esteja de boa-fé) quanto o proprietário da coisa.
É crime de dupla subjetividade passiva.
A consumação se dá com a efetiva venda, permuta, dação em pagamento, em
locação ou em garantia, sendo imprescindível que o agente receba a vantagem indevida
em prejuízo alheio (crime material). Nesse sentido:
STJ: “Para que se tipifique o estelionato, na modalidade
disposição de coisa alheia como própria (art. 171, § 2º., I do CPB),
exige-se a demonstração da obtenção, para si ou para outrem,
da vantagem ilícita, do prejuízo alheio, do artifício, do ardil ou do
meio fraudulento empregado com a venda, a permuta, a dação
em pagamento, a locação ou a entrega, em garantia, da coisa de
que não se tem a propriedade” (Resp. 1094325/SP, Rel. Min.
Napoleão Nunes Maia Filho, 5ª T., j. 14/04/2009, v.u.).
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Embora o tema não seja pacífico, há precedente do STJ no sentido de que o
contrato de compromisso de compra e venda pode configurar o crime em exame,
enquadrando-se na conduta de “vender”:
STJ: “O paciente, mediante procuração que não lhe conferia
poderes para alienar imóvel, firmou promessa de compra e
venda com a vítima, que lhe pagou a importância avençada no
contrato sem, contudo, ser investida na posse. Mesmo diante da
discussão a respeito de o contrato de promessa de compra e
venda poder configurar o tipo do art. 171, § 2º, I, do CP, o
acórdão impugnado mostrou-se claro em afirmar que o paciente
efetivamente alienou o imóvel que não era de sua propriedade
mediante essa venda mascarada, da qual obteve lucro sem
efetuar sua contraprestação por absoluta impossibilidade de
fazê-la, visto que não era o proprietário do lote que, de fato,
vendeu. Daí ser, no caso, inequívoca a tipicidade da conduta,
mesmo que perpetrado o crime mediante a feitura de promessa,
não se podendo falar, assim, em trancamento da ação penal”
(HC 54353-MG, Rel. Min. Og Fernandes, 6ª T., j. 25/08/2009).
1.3.3.2. Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria
II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa
própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que
prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em
prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;
Ao contrário da figura anterior, aqui a coisa é do agente (“coisa própria”).
Porém, se trata de bem inalienável, gravado de ônus ou litigioso, ou imóvel que
prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações (compromisso de
compra e venda). Para configuração do crime, é imprescindível que o agente silencie a
respeito dessas circunstâncias. Trata-se de crime próprio, só podendo ser praticado
pelo dono da coisa que dela dispõe de maneira fraudulenta.
A consumação se dá com o recebimento da vantagem pelo agente, em prejuízo
alheio (crime material). É admissível a tentativa.
1.3.3.3. Defraudação de penhor
III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou
por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do
objeto empenhado;
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
O sujeito ativo é o devedor que tem a posse da coisa empenhada, enquanto o
sujeito passivo é o credor pignoratício (art. 1.431 do Código Civil).
Nesta figura, o agente tem a posse de um objeto empenhado. Porém, ele
aliena a coisa sem o consentimento do credor (vende, doa etc.) ou defrauda por
qualquer modo a garantia pignoratícia (ex.: destrói, abandona, oculta etc.).
O dispositivo se refere ao penhor (coisa empenhada é aquela dada pelo
devedor ao credor para garantir uma obrigação assumida) e não à penhora (ato judicial
por meio do qual são gravados bens do devedor para a garantia de uma dívida). A
defraudação de coisa penhorada pode configurar o crime de fraude à execução (art. 179
do Código Penal) ou estelionato na figura básica (art. 171).
O entendimento clássico é de que se trata de crime material, cuja consumação
requer a obtenção de vantagem pelo agente em prejuízo alheio. Contudo, há
precedentes no sentido de que o delito é formal:
STJ: “O delito do art. 171, § 2º, III do CP é crime formal que
ocorre no momento da alienação sem autorização do credor,
sendo desnecessária a obtenção de efetiva vantagem pelo autor.
Precedentes” (AgRg no Resp. 489389/RS, Rel. Min. Arnaldo
Esteves Lima, 5ª T., j. 03/03/2009, v.u.).
1.3.3.4. Fraude na entrega de coisa
IV - defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que
deve entregar a alguém;
A conduta consiste em defraudar (despojar, espoliar por meio de fraude) a
substância (ex.: cobre no lugar de ouro), a qualidade (ex.: carne de segunda em lugar
de carne de primeira) ou a quantidade (ex.: peso inferior), de coisa que deva entregar
a alguém.
A consumação se dá com a efetiva entrega do bem (tradição se coisa móvel);
transcrição se imóvel (crime material), sendo admissível a tentativa.
1.3.3.5. Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro
V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa
o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão
ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de
seguro;
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
O inciso V traz condutas fraudulentas praticadas pelo segurado (sujeito ativo)
contra a seguradora (sujeito passivo), com o objetivo de receber a indenização ou valor
de seguro.
Ex.: destruir o próprio veículo fingindo ter ocorrido um acidente de trânsito /
ocultar bens da residência simulando um furto / cortar a própria mão simulando ter
havido um acidente.
Trata-se de crime formal, de consumação antecipada ou de resultado cortado:
a consumação exige apenas a realização da conduta com o intuito de haver indenização
ou valor de seguro, sendo desnecessária a efetiva obtenção da indevida vantagem
econômica.
Sendo o crime plurissubsistente, a tentativa é admissível (ex.: sujeito comunica
à seguradora que o veículo caiu acidentalmente em um lago e, propositalmente, começa
a empurrar o veículo lago adentro, quando é detido pela polícia).
1.3.3.6. Fraude no pagamento pormeio de cheque
VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder
do sacado, ou lhe frustra o pagamento.
É modalidade mais recorrente de todas as figuras equiparadas.
Sujeito ativo - Qualquer pessoa. O endossante não é emitente do cheque,
portanto não é sujeito ativo dessa figura equiparada (exceto se atuar como partícipe).
Noronha, por seu turno, entende que a expressão “emitir” deve ser tomada em sentido
amplo, abrangendo também o endossante.
Sujeito passivo - É o tomador do cheque (pessoa física ou jurídica).
Condutas típicas
1ª) emitir cheque sem suficiente provisão de fundos em poder
do estabelecimento bancário sacado - o agente emite (coloca
em circulação) cheque (ordem de pagamento à vista), não tendo
suficiente saldo bancário.
2ª) frustrar o seu pagamento – aqui, o sujeito tem provisão de
fundos. Contudo, retira fraudulentamente a quantia antes do
saque ou emite uma contraordem de pagamento (susta o
cheque ou encerra a conta).
Para a configuração do delito, é imprescindível a existência de fraude. Se o
correntista, por exemplo, tem o direito de emitir a contraordem de pagamento, não
responderá pelo delito. Nesse prisma a súmula 246 do STF: Comprovado não ter havido
fraude, não se configura o crime de emissão de cheque sem fundos.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Consumação e tentativa - A fraude no pagamento por meio de cheque é um
crime material, exigindo a efetiva realização do fim pretendido pelo agente.
Ressalte-se, que a jurisprudência consolidada se posiciona indicando que o
prejuízo de outrem, embora faça parte do tipo penal, diz respeito à consequência do
delito e não à conduta propriamente. A parte nuclear do tipo penal é a obtenção
vantagem ilícita, por este motivo a consumação se dá no momento em que os valores
entram na esfera de disponibilidade do autor do crime.
No que toca a competência territorial para o processo e julgamento do delito,
recente alteração legislativa superou entendimento jurisprudencial, inclusive sumulado,
no sentido de que o local da recusa do pagamento é o foro competente para a ação
penal.
Súmula 521 do STF: O foro competente para o processo e
julgamento dos crimes de estelionato, sob a modalidade da
emissão dolosa de cheque sem provisão de fundos, é o do local
onde se deu a recusa do pagamento pelo sacado. (Súmula
Superada)
Súmula 244 do STJ: Compete ao foro do local da recusa
processar e julgar o crime de estelionato mediante cheque sem
provisão de fundos. (Súmula Superada)
OBSERVAÇÃO: O crime de estelionato praticado por meio saque de cheque fraudado
compete ao Juízo do local da agência bancária da vítima. STJ. 3ª Seção. CC 182.977-
PR, Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 09/03/2022 (Info 728).
A tentativa é admissível.
ATENÇÃO! Incide na figura equiparada (§ 2º, VI) o agente que emite cheque PRÓPRIO
sem provisão de fundos ou lhe frustra o pagamento. Ou seja, o agente é o titular de
conta e emite legitimamente a cártula, mas não tem fundos ou frustra o pagamento.
Certas condutas não se encaixam nesse arcabouço típico, ensejando a figura do
caput do art. 171. Dentre elas, pode-se mencionar a emissão de: cheque de terceiro
falsificado, cheque de terceiro furtado ou roubado, cheque de conta encerrada,
cheque de conta aberta com dados falsos. Nesses casos, será competente o juízo do
local da obtenção da vantagem ilícita:
Súmula 48 STJ: Compete ao juízo do local da obtenção da
vantagem ilícita processar e julgar crime de estelionato
cometido mediante falsificação de cheque.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
ATENÇÃO! Nesses casos, não incidem qualquer das alterações promovidas pela Lei
14.155/21, portanto, a Súmula 48 do STJ manteve-se válida com a novidade legislativa.
Vejam a jurisprudência abaixo:
AGRAVO REGIMENTAL. CONFLITO DE COMPETÊNCIA.
ESTELIONATO. ADULTERAÇÃO DE CHEQUE. CONSUMAÇÃO.
LOCAL EM QUE SE VERIFICA O PREJUÍZO À VÍTIMA. INSURGÊNCIA
DESPROVIDA. 1. Conforme entendimento consolidado no
âmbito da Terceira Seção, o delito de estelionato é consumado
no local em que se verifica o prejuízo à vítima. Precedentes. 2.
Ainda que o delito de estelionato seja praticado mediante
adulteração de cheque, a competência para o processo e
julgamento dos fatos deve ser declarada em favor do juízo do
local em que a vítima mantém a conta bancária. Precedente. 3.
Agravo regimental desprovido, confirmando-se a competência
do Juízo de Direito da 1ª Vara Cível e Criminal de Mafra/SC. (AgRg
no CC 146.524/SC, Rel. Ministro JORGE MUSSI, TERCEIRA SEÇÃO,
julgado em 22/03/2017, DJe 30/03/2017)
Pagamento do cheque até o recebimento da denúncia – obsta a ação penal,
conforme se extrai da súmula 554 do STF, a contrario sensu:
Súmula 554 do STF: O pagamento de cheque emitido sem
provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta
ao prosseguimento da ação penal.
A jurisprudência majoritária afirma que a Súmula 554 do STF aplica-se
unicamente para o crime de estelionato na modalidade de emissão de cheque sem
fundos (art. 171, § 2º, VI), não incidindo sobre o estelionato no seu tipo fundamental
(art. 171, caput).
HABEAS CORPUS. IMPETRAÇÃO ORIGINÁRIA. SUBSTITUIÇÃO AO
RECURSO ORDINÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. RESPEITO AO SISTEMA
RECURSAL PREVISTO NA CARTA MAGNA. NÃO CONHECIMENTO.
(...). ESTELIONATO. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL.
ATIPICIDADE DA CONDUTA. RESSARCIMENTO DO PREJUÍZO
SOFRIDO PELA VÍTIMA ANTES DO RECEBIMENTO DA DENÚNCIA.
UTILIZAÇÃO DE CHEQUE FURTADO. ENUNCIADO N.º 554 DA
SÚMULA DO STF. NÃO INCIDÊNCIA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
NÃO CONFIGURADO. 1. Esta Corte Superior de Justiça já
sufragou o entendimento de que o agente que realiza
pagamento através da emissão de cheque sem fundos de
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
terceiro, que chegou ilicitamente a seu poder, incide na figura
prevista no caput do art. 171 do Código Penal, não em seu § 2.º,
inciso IV. 2. Tipificada a conduta da paciente como estelionato
na sua forma fundamental, o fato de ter ressarcido o do
prejuízo à vítima antes do recebimento da denúncia não
impede a ação penal, não havendo falar, pois, em incidência do
disposto no enunciado n.º 554 da Súmula do Supremo Tribunal
Federal, que se restringe ao estelionato na modalidade de
emissão de cheques sem suficiente provisão de fundo, prevista
no art. 171, § 2.º, VI, CP. 3. Se no curso da ação penal restar
devidamente comprovado ressarcimento integral do dano à
vítima, antes do recebimento da peça de acusação, tal fato pode
servir como causa de diminuição de pena, nos termos do
disposto no art. 16 do Estatuto Repressivo. 4. Habeas corpus não
conhecido. (HC 280.089/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA
TURMA, julgado em 18/02/2014, DJe 26/02/2014)
O STJ também possui entendimento no mesmo sentido, vejamos:
Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 84 – 08: O
ressarcimento integral do dano no crime de estelionato, na sua
forma fundamental (art. 171, caput, do CP), não enseja a
extinção da punibilidade, salvo nos casos de emissão de cheque
sem fundos, em que a reparação ocorra antes do oferecimento
da denúncia (art. 171, § 2º, VI, do CP).
Se o agente falsifica um documento e o utiliza para enganar alguém, obtendo
vantagem ilícita em prejuízo alheio, responde por estelionato ou falsidade
documental? Existem 4 correntes:
1ª) A falsidade documentalabsorve o estelionato (Hungria) – O
falso é crime formal, consumando-se com a simples falsificação
do documento. O resultado naturalístico advindo da obtenção
de vantagem indevida não configura outro crime, mas mero
exaurimento da falsidade.
2ª) O estelionato absorve a falsidade – Tem-se uma relação de
crime-meio (falsidade) e crime-fim (estelionato), aplicando-se o
princípio da absorção ou consunção. É a posição que prevalece.
Súmula 17 do STJ: Quando o falso se exaure no estelionato, sem
mais potencialidade lesiva, é por este absorvido.
3ª) Concurso material de crimes – São dois crimes e duas
condutas (falsificação e estelionato), devendo-se somar as
penas, nos termos do art. 69 do CP.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
4ª) Concurso formal de crimes – Existem dois crimes (falsificação
e estelionato), porém praticados numa sucessão de atos que
compõem uma conduta única. Aplica-se a regra do art. 70 do
Código Penal.
Utilização de papel moeda grosseiramente falsificado – Configura o crime de
estelionato.
Súmula 73 STJ: A utilização de papel moeda grosseiramente
falsificado configura, em tese, o crime de estelionato, da
competência da Justiça Estadual.
Emissão de cheque pós-datado configura crime?
O cheque pós-datado não é considerado ordem de pagamento à vista, mas
promessa de pagamento, de modo que não se aplica a figura do § 2º, VI. Em tais casos,
diante da dificuldade de comprovação do dolo, há diversos julgados reconhecendo a
atipicidade do fato. Excepcionalmente, se demonstrada a intenção de praticar a
fraude, configura-se o crime do art. 171, caput. Na jurisprudência:
STF: “Habeas-corpus. Cheque sem provisão de fundos. Não se
tratando de simples emissão de cheque pré-datado, em garantia
de dívida, mas de conduta típica do estelionato, tendo em vista
a pluralidade de vítimas a evasão do paciente da praça e o
abandono da família, que deixam claro o propósito de fraudar os
credores, não cabe o trancamento do processo penal. Recurso
improvido” (RHC 63783, Rel. Min. Carlos Madeira, 2ª T., j.
29/04/1986).
STJ: “Sedimentou-se na jurisprudência desta Corte Superior de
Justiça o entendimento de que a emissão de cheques pós-
datados pode caracterizar o crime previsto no artigo 171 do
Código Penal quando restar comprovado que as cártulas não
foram fornecidas como garantia de dívida, mas sim com o intuito
de fraudar. Precedentes do STJ e do STF” (HC 336306/MS, Rel.
Min. Jorge Mussi, 5ª T., j. 15/12/2015, v.u.).
1.3.4. QUALIFICADORA DO ESTELIONATO MEDIANTE FRAUDE ELETRÔNICA
§ 2º-A. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e
multa, se a fraude é cometida com a utilização de informações
fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio
de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio
eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento
análogo. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021)
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
À exemplo do que foi realizado no crime de furto, atualmente, o delito de
estelionato conta com uma qualificadora, que deve ser aplicada nos casos em que o
agente obtém vantagem ilícita por meio de informações da vítima que ele obteve da
própria vítima ou de um terceiro, tendo sido estes induzidos em erro.
Assim, a pena é mais rigorosa quando o terceiro ou a vítima for induzido em
erro por meio de:
- Redes sociais (facebook, instagram...);
- Contatos telefônicos (whatsapp ou ligação, onde o sujeito
simula que pertence à alguma grande empresa ou serviço
público);
- Envio de correio eletrônico fraudulento (e-mail fraudulento);
- Por qualquer outro meio fraudulento análogo (páginas da
internet).
Mas, atentem-se ao detalhe diferencial entre esta qualificadora (art. 171, § 2º-
A) e a sua correspondente no delito de furto (art. 155, § 4º-B):
Estelionato mediante fraude eletrônica
(art. 171, § 2º-A)
Furto mediante fraude por dispositivo
eletrônico ou informático
(art. 155, § 4º-B)
§ 2º-A. A pena é de reclusão, de 4 (quatro)
a 8 (oito) anos, e multa, se a fraude é
cometida com a utilização de informações
fornecidas pela vítima ou por terceiro
INDUZIDO A ERRO por meio de redes
sociais, contatos telefônicos ou envio de
correio eletrônico fraudulento, ou por
qualquer outro meio fraudulento
análogo.
§ 4º-B. A pena é de reclusão, de 4 (quatro)
a 8 (oito) anos, e multa, se o furto
mediante fraude é cometido por meio de
DISPOSITIVO ELETRÔNICO OU
INFORMÁTICO, conectado ou não à rede
de computadores, com ou sem a violação
de mecanismo de segurança ou a
utilização de programa malicioso, ou por
qualquer outro meio fraudulento
análogo.
1.3.5. CAUSA DE AUMENTO EM RAZÃO DA RELEVÂNCIA DO RESULTADO GRAVOSO:
SERVIDOR MANTIDO FORA DO TERRITÓRIO NACIONAL.
§ 2º-B. A pena prevista no § 2º-A deste artigo, considerada a
relevância do resultado gravoso, aumenta-se de 1/3 (um terço)
a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado mediante a utilização
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
de servidor mantido fora do território nacional. (Incluído pela Lei
nº 14.155, de 2021)
Trata-se de causa de aumento de pena relacionada com o § 2º-A, ou seja,
aplica-se aos casos de estelionato mediante fraude eletrônica.
O que fundamenta o aumento é a prática do crime praticado por meio de
conexões transnacionais. Assim, havendo conexões mediante a utilização de servidor
mantido fora do território nacional, deverá ser aplicada a causa de aumento.
A gravidade do resultado deve servir, então, para parametrizar a quantidade
de pena aplicada em função das frações de 1/3 a 2/3.
1.3.6. CAUSA DE AUMENTO DE PENA EM RAZÃO DA NATUREZA DA VÍTIMA
§ 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em
detrimento de entidade de direito público ou de instituto de
economia popular, assistência social ou beneficência.
Se o crime for praticado contra entidade de direito público ou de instituto de
economia popular, assistência social ou beneficência, incide a causa de aumento de
pena de 1/3.
Sobre o tema, o STJ entende que “o princípio da insignificância é inaplicável ao
crime de estelionato quando cometido contra a administração pública, uma vez que a
conduta ofende o patrimônio público, a moral administrativa e a fé pública, possuindo
elevado grau de reprovabilidade (Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 84 – 02).
1.3.6.1. Estelionato Previdenciário e causa de aumento de pena
Também se aplica a majorante se a vítima for entidade autárquica de
previdência social, conforme súmula 24 do STJ:
Súmula 24 do STJ: Aplica-se ao crime de estelionato, em que
figure como vítima entidade autárquica da previdência social, a
qualificadora do § 3º, do art. 171 do Código Penal.
Indaga-se se a fraude contra a previdência social para ensejar o recebimento
de benefício indevido configura crime instantâneo, permanente ou continuado. A
questão ganha relevância, sobretudo porque, a depender da posição adotada, haverá
diferentes reflexos no cálculo da prescrição.
O STF e o STJ distinguem as seguintes situações:
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
1ª) se o próprio favorecido pelas prestações frauda a Previdênciapara receber
indevidamente o benefício (ex.: sujeito se vale de documentos falsos para dar entrada
em pedido de aposentadoria por invalidez) - Trata-se de crime permanente, pois o
benefício é recebido mensalmente. O termo inicial da prescrição ocorre com o último
recebimento indevido. Nesse sentido:
STF: “O crime de estelionato previdenciário, quando praticado
pelo próprio favorecido pelas prestações, tem caráter
permanente, cessando a atividade delitiva apenas com o fim de
sua percepção, termo a quo do prazo prescricional.
Precedentes” (HC 121390/MG, Rel. Min. Rosa Weber, 1ª T., j.
24/02/2015, v.u.).
STJ: “A 3ª Seção desta Corte, no julgamento do Resp.
1.206.105/RJ, firmou a orientação de que o crime de estelionato
previdenciário, quando praticado por quem aufere o benefício
indevido, tem natureza permanente, uma vez que a ofensa ao
bem jurídico tutelado é reiterada, mês a mês, enquanto não há
a descoberta da fraude, sendo que o termo inicial do prazo
prescricional se dá com o último recebimento indevido da
remuneração” (AgRg no AREsp 462655/RJ, Rel. Min. Nefi
Cordeiro, 6ª T., j. 12/09/2017, v.u.).
Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 84 – 04: “O delito de
estelionato previdenciário (art. 171, § 3º do CP), praticado pelo
próprio beneficiário, tem natureza de crime permanente uma
vez que a ofensa ao bem jurídico tutelado é reiterada, iniciando-
se a contagem do prazo prescricional com o último recebimento
indevido da remuneração”.
2ª) se é terceiro quem comete a fraude para permitir que outrem obtenha a
vantagem indevida (ex.: funcionário da Previdência comete a falsidade para que outra
pessoa passe a receber indevidamente o benefício) – Trata-se de crime instantâneo de
efeitos permanentes. O agente pratica apenas uma conduta (por isso é instantâneo),
mas o terceiro continuará recebendo o benefício mês a mês (daí os efeitos
permanentes). Nesse caso, a prescrição será contada da consumação, ou seja, do
recebimento da primeira prestação do benefício indevido. Confira:
STF: “Este Supremo Tribunal Federal assentou que o crime de
estelionato previdenciário praticado por terceiro não
beneficiário tem natureza de crime instantâneo de efeitos
permanentes, e, por isso, o prazo prescricional começa a fluir da
percepção da primeira parcela. Precedentes” HC 112095/MA,
Rel. Min. Carmen Lúcia, 2ª T., j. 16/10/2012, v.u.).
STJ: “A jurisprudência desta Corte tem entendido que o crime de
estelionato previdenciário praticado para que terceira pessoa
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
possa se beneficiar indevidamente da fraude tem natureza de
crime instantâneo com efeitos permanentes, devendo ser
contado o prazo prescricional a partir do recebimento da
primeira prestação do benefício indevido. A orientação se alinha
com o entendimento exarado pela Corte Suprema, ao examinar
o Agravo Regimental no ARE n. 663.735/ES, quando reconheceu
a natureza binária do crime de estelionato previdenciário, a
depender de quem pratica a conduta, o próprio beneficiário da
vantagem indevida ou um intermediário para que terceira
pessoa receba o benefício previdenciário ilicitamente” (RvCr
3900/SP, Rel. Min. Reynaldo da Fonseca, 3ª Seção, j.
12/12/2017, v.u.).
Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 84 – 05: “O delito de
estelionato previdenciário, praticado para que terceira pessoa se
beneficie indevidamente, é crime instantâneo com efeitos
permanentes, iniciando-se a contagem do prazo prescricional a
partir da primeira parcela do pagamento relativo ao benefício
indevido”.
3ª) o agente permanece recebendo benefício que, embora inicialmente
legítimo, deveria ter cessado (ex.: em razão da morte do beneficiário). Há julgados do
STJ entendendo que há continuidade delitiva, considerando, em razão das mesmas
considerações de tempo, lugar e modo de execução, cada vantagem recebida
continuação da outra. O início do interregno da prescrição ocorre com o último
recebimento.
STJ: “O delito de estelionato, praticado contra a Previdência
Social, mediante a realização de saques depositados em favor de
beneficiário já falecido, consuma-se a cada levantamento do
benefício, caracterizando-se, assim, continuidade delitiva, nos
termos do art. 71 do Código Penal, devendo, portanto, o prazo
prescricional iniciar-se com a cessação do recebimento do
benefício previdenciário. Precedentes” (AgRg no Resp.
1.378.323/PR, 6ª Turma, j. 26/08/2014).
Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 84 – 06: “Aplica-se a
regra da continuidade delitiva (art. 71 do CP) ao crime de
estelionato previdenciário praticado por terceiro, que após a
morte do beneficiário segue recebendo o benefício
regularmente concedido ao segurado, como se este fosse,
sacando a prestação previdenciária por meio de cartão
magnético todos os meses”.
1.3.7. ESTELIONATO PREVIDENCIÁRIO E REPARAÇÃO DO DANO
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
A devolução dos valores ilicitamente recebidos à Previdência social, antes do
recebimento da denúncia, não extingue a punibilidade do crime de estelionato
previdenciário (art. 171, § 3º, do CP). Nesse sentido:
Jurisprudência do STJ em Teses – Edição 84 – 07: “A devolução
à Previdência Social da vantagem percebida ilicitamente, antes
do recebimento da denúncia, não extingue a punibilidade do
crime de estelionato previdenciário, podendo, eventualmente,
caracterizar arrependimento posterior, previsto no art. 16 do
CP.”
Por fim, compete à justiça comum estadual processar e julgar crime de
estelionato praticado mediante falsificação das guias de recolhimento das
contribuições previdenciárias, quando não ocorrente lesão a autarquia federal.
É o teor da súmula 107 do STJ: Compete a justiça comum estadual processar e
julgar crime de estelionato praticado mediante falsificação das guias de recolhimento
das contribuições previdenciárias, quando não ocorrente lesão a autarquia federal.
1.3.8. CAUSA DE AUMENTO DE PENA EM RAZÃO DA IDADE OU DA VULNERABILIDADE
DA VÍTIMA
Estelionato contra idoso ou vulnerável
§ 4º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime
é cometido contra idoso ou vulnerável, considerada a relevância
do resultado gravoso. (Redação dada pela Lei nº 14.155, de
2021)
O dispositivo foi incluído pela Lei 13.228/2015 (prevendo apenas o aumento
em razão da idade da vítima) e alterado pela Lei 14.155/2021 (que incluiu mais uma
hipótese de aumento, desta vez em função da vulnerabilidade da vítima).
Até 2021, a pena na causa de aumento em função da idade da vítima deveria
ser aplicada em dobro. Entretanto, após a publicação da Lei 14.155/21, a pena foi
suavizada, prevendo a possibilidade da flutuação da pena entre 1/3 e o dobro.
Trata-se, pois, de uma novatio legis in mellius e, em assim sendo, pode retroagir
para beneficiar o réu sentenciado pelo cometimento de estelionato contra idosos, salvo
se as circunstâncias concretas justificarem a manutenção do aumento no máximo.
Aplica-se, portanto, se a vítima tiver idade igual ou superior a 60 anos ou for
pessoal ou vulnerável.
O que fundamenta o incremento na pena é a prática do crime em face das
pessoas determinadas na lei. Assim, tendo o crime sido praticado contra idoso ou
vulnerável, deverá ser aplicada a causa de aumento.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
A gravidade do resultado deve servir, então, para parametrizar a quantidadede pena aplicada em função das frações de 1/3 a 2/3.
A majorante é aplicável à figura básica (caput) e também às equiparadas do §
2º do art. 171.
ATENÇÃO! Há crimes específicos no Estatuto do Idoso. Ver abaixo.
1.3.9. AÇÃO PENAL
A Lei 13.964/19, o Pacote Anticrime, introduziu o §5º, no art. 171 do CCP,
devendo, em razão da sua posição topográfica, ser aplicado ao estelionato em todas as
modalidades, incluindo as equiparadas.
Assim, atualmente, temos a seguinte situação:
REGRA EXCEÇÃO
Crime de ação penal pública
condicionada à representação.
Crime de ação penal incondicionada
quando a vítima for:
a) a Administração Pública, direta ou
indireta;
b) criança ou adolescente;
c) pessoa com deficiência mental; ou
d) maior de 70 (setenta) anos de idade ou
incapaz.
É importante lembrar que as normas que tratam de “ação penal” possuem
natureza híbrida, considerando que são normas de direito processual penal com efeitos
no direito material penal, reverberando, por exemplo, na extinção da punibilidade, na
decadência e na renúncia ao direito de queixa.
Tal natureza híbrida decorre da coalizão das seguintes regras:
a) as leis processuais possuem aplicação imediata (tempus regit
actum - art. 2º do CPP), não retroagindo para alcançar fatos
anteriores à sua vigência e regulando os atos processuais a
serem realizados após entrar em vigor;
b) as leis penais não são retroativas, salvo para beneficiar o réu
(art. 5º, XL, da CF e art. 2º, parágrafo único, do CP).
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Dessa forma, para as normas que possuem natureza híbrida (normal processual
penal com reflexos penais) é aplicada a mesma regra empregada nas leis penais (item
“b” acima), isto é, não retroagem, salvo se para beneficiar o réu. Em outros termos, essa
alteração irá retroagir para alcançar fatos anteriores à sua vigência.
A referida lei incluiu normativo que prevê mudança mais benéfica, levando em
conta que, como regra, surgiu uma nova condição para que o Ministério Público possa
ajuizar a ação penal contra o autor do estelionato: a representação da vítima.
De todo o exposto, sobreveio a seguinte dúvida: A mudança na ação penal do
crime de estelionato, promovida pela Lei 13.964/2019, retroage para alcançar os
processos penais que já estavam em curso?
O tema não é pacífico e pode ser esquematizado da seguinte maneira:
NÃO retroage.
3ª Seção do STJ
1ª Turma do STF
Retroage
2ª Turma do STF
A retroatividade da representação
prevista no § 5º do art. 171 do CP deve se
restringir à fase policial. A exigência de
representação no crime de estelionato,
trazida pelo Pacote Anticrime, não afeta
os processos que já estavam em curso
quando entrou em vigor a Lei nº
13.964/2019. Assim, se já havia denúncia
oferecida quando entrou em vigor a nova
Lei, não será necessária representação do
ofendido.
STJ. 3ª Seção. HC 610201/SP, Rel. Min.
Ribeiro Dantas, julgado em 24/03/2021
(Info 691).
STF. 1ª Turma. HC 187341, Rel. Min.
Alexandre de Moraes, julgado em
13/10/2020.
A alteração promovida pela Lei nº
13.964/2019, que introduziu o § 5º ao art.
171 do Código Penal, ao condicionar o
exercício da pretensão punitiva do Estado
à representação da pessoa ofendida,
deve ser aplicada de forma retroativa a
abranger tanto as ações penais não
iniciadas quanto as ações penais em curso
até o trânsito em julgado.
STF. 2ª Turma. HC 180421 AgR/SP, Rel.
Min. Edson Fachin, julgado em 22/6/2021
(Info 1023).
Embora trate-se de tema processual penal, outra alteração possui notável
relevância, razão pela qual se faz necessária a apresentação. O advento da Lei
14.155/21, incluiu no Código de Processo Penal o seguinte regramento:
Art. 70, §4º, Nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei nº
2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), quando
praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques
sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado ou com
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
o pagamento frustrado ou mediante transferência de valores, a
competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e,
em caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á
pela prevenção.
Cabe, por oportuno uma observação, pela regra do § 4º do art. 70, para fins de
competência, importa o domicílio da vítima, não sendo relevante o local em que se situa
a instituição financeira onde a vítima mantenha a conta bancária.
Nesse sentido o STJ:
“Nos crimes de estelionato, quando praticados mediante
depósito, por emissão de cheques sem suficiente provisão de
fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou
por meio da transferência de valores, a competência será
definida pelo local do domicílio da vítima, em razão da
superveniência de Lei nº 14.155/2021, ainda que os fatos
tenham sido anteriores à nova lei”. (STJ. 3ª Seção. CC 180832-RJ,
Rel. Min. Laurita Vaz, julgado em 25/08/2021)
“O crime de estelionato praticado por meio de saque de cheque
fraudado compete ao Juízo do local da agência bancária da
vítima”. (STJ. 3ª Seção. CC 182977-PR, Rel. Min. Laurita Vaz,
julgado em 09/03/2022)
1.3.10. CONFRONTO
Comete o crime do art. 106 da Lei 10.741/03 (Estatuto do Idoso) o agente que
“induzir pessoa idosa sem discernimento de seus atos a outorgar procuração para
fins de administração de bens ou deles dispor livremente”.
O art. 104, por seu turno, pune a conduta de “reter o cartão magnético de conta
bancária relativa a benefícios, proventos ou pensão do idoso, bem como qualquer
outro documento com objetivo de assegurar recebimento ou ressarcimento de
dívida”.
Sendo a vítima incapaz, pode-se configurar o crime de abuso de incapazes (“Art. 173
- Abusar, em proveito próprio ou alheio, de necessidade, paixão ou inexperiência de
menor, ou da alienação ou debilidade mental de outrem, induzindo qualquer deles à
prática de ato suscetível de produzir efeito jurídico, em prejuízo próprio ou de
terceiro”).
Configura o crime de duplicata simulada (art. 172) a emissão de fatura, duplicata ou
nota de venda que não corresponda à mercadoria vendida, em quantidade ou
qualidade, ou ao serviço prestado.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Se o agente corromper, adulterar, falsificar ou alterar substância ou produto
alimentício destinado a consumo, tornando-o nociva à saúde ou reduzindo-lhe o
valor nutritivo, pratica o crime do art. 272 do Código Penal.
Se falsificar, corromper, adulterar ou alterar produto destinado a fins terapêuticos
ou medicinais, incorre no tipo do art. 273 do Código Penal (crime hediondo).
Pratica o crime de fraude no comércio (art. 175) o agente que “enganar, no exercício
de atividade comercial, o adquirente ou consumidor: I - vendendo, como verdadeira
ou perfeita, mercadoria falsificada ou deteriorada; II - entregando uma mercadoria
por outra” (caput); ou ainda “alterar em obra que lhe é encomendada a qualidade ou
o peso de metal ou substituir, no mesmo caso, pedra verdadeira por falsa ou por outra
de menor valor; vender pedra falsa por verdadeira; vender, como precioso, metal de
ou outra qualidade” (§ 1º).
Se a conduta for praticada contra vítimas indeterminadas (coletividade), há o crime
contra a economia popular previsto no art. 2º, XI, da Lei 1.521/1951 (“XI - fraudar
pesos ou medidas padronizados em lei ou regulamentos; possuí-los ou detê-los,para
efeitos de comércio, sabendo estarem fraudados”).
Constitui crime contra as relações de consumo “empregar na reparação de produtos,
peça ou componentes de reposição usados, sem autorização do consumidor” (art. 70
do CDC).
Obter, mediante fraude, financiamento em instituição financeira constitui o delito
do art. 19 da Lei 7.429/86 (crimes contra o Sistema Financeiro Nacional).
No art. 168 da Lei 11.101/05 (Lei de Falência), pune-se aquele que “praticar, antes ou
depois da sentença que decretar a falência, conceder a recuperação judicial ou
homologar a recuperação extrajudicial, ato fraudulento de que resulte ou possa
resultar prejuízo aos credores, com o fim de obter ou assegurar vantagem indevida
para si ou para outrem”.
Fraudar ou contribuir para que se fraude o resultado de competição esportiva ou
evento a ela associado configura o crime do art. 41-E da Lei 10.671/03 (Estatuto do
Torcedor).
1.3.11. QUADRO RESUMO
Estelionato
(art. 171)
Figura básica simples (caput)
Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio,
induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou
qualquer outro meio fraudulento.
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Crime material - Duplo resultado (obtenção de vantagem ilícita +
prejuízo alheio).
Estelionato Privilegiado (1º)
Requisitos: Primário + Pequeno valor do prejuízo
Juiz pode:
Substituir pena de reclusão por detenção.
Diminuí-la de um a dois terços.
Aplicar somente a pena de multa.
Figuras equiparadas (§ 2º)
Disposição de coisa alheia como própria (vende, permuta, dá em
pagamento, em locação ou em garantia coisa alheia como própria).
Crime material
Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria (vende, permuta,
dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de
ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante
pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas
circunstâncias).
Crime material
Defraudação de penhor (defrauda, mediante alienação não consentida
pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a
posse do objeto empenhado).
Crime material (há precedentes de que é formal)
Fraude na entrega de coisa (defrauda substância, qualidade ou
quantidade de coisa que deve entregar a alguém).
Crime material
Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro (destrói,
total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo
ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão ou doença, com o
intuito de haver indenização ou valor de seguro).
Crime formal
Fraude no pagamento por meio de cheque (emite cheque, sem
suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o
pagamento).
Crime material. A consumação se dá no momento em que o
estabelecimento sacado nega pagamento ao cheque.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Foro competente para ação penal - Quando praticados mediante
depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente provisão de
fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou
mediante transferência de valores, a competência será definida pelo
local do domicílio da vítima, e, em caso de pluralidade de vítimas, a
competência firmar-se-á pela prevenção (art. 70, §4º do CPP).
Estelionato mediante cheque falsificado
Caracteriza a figura do caput.
Foro competente para ação penal - Local da obtenção da vantagem
ilícita. (Súmula 48 do STJ).
Pagamento do cheque até o recebimento da denúncia – obsta a ação
penal.
Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais potencialidade
lesiva, é por este absorvido.
A utilização de papel moeda grosseiramente falsificado configura, em
tese, o crime de estelionato, da competência da Justiça Estadual.
Cheque pós-datado – é promessa de pagamento, não se enquadra aqui.
O fato é atípico ou, se demonstrada a fraude, caracteriza a figura do
caput.
Fraude eletrônica
§ 2º-A. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se a
fraude é cometida com a utilização de informações fornecidas pela
vítima ou por terceiro induzido a erro por meio de redes sociais,
contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por
qualquer outro meio fraudulento análogo. (Incluído pela Lei nº 14.155,
de 2021)
§ 2º-B. A pena prevista no § 2º-A deste artigo, considerada a relevância
do resultado gravoso, aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços),
se o crime é praticado mediante a utilização de servidor mantido fora
do território nacional. (Incluído pela Lei nº 14.155, de 2021)
Causa de aumento de pena (§ 3º)
A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento
de entidade de direito público ou de instituto de economia popular,
assistência social ou beneficência.
Aplica-se ao crime de estelionato, em que figure como vítima entidade
autárquica da previdência social, a qualificadora do § 3º, do art. 171 do
Código Penal.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Compete à justiça comum estadual processar e julgar crime de
estelionato praticado mediante falsificação das guias de recolhimento
das contribuições previdenciárias, quando não ocorrente lesão a
autarquia federal.
Causa de aumento de pena (§ 4º)
A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é cometido
contra idoso ou vulnerável, considerada a relevância do resultado
gravoso.
Ação Penal (§5º)
Somente se procede mediante representação, salvo se a vítima for:
- Administração Pública, direta ou indireta;
- Criança ou adolescente;
- Pessoa com deficiência mental; ou
- Maior de 70 (setenta) anos de idade ou incapaz.
1.4. RECEPTAÇÃO
Receptação
Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em
proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime,
ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou
oculte:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Receptação qualificada
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em
depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda,
ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no
exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve
saber ser produto de crime:
Pena - reclusão, de três a oito anos, e multa.
§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo
anterior, qualquer forma de comércio irregular ou clandestino,
inclusive o exercício em residência.
§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela
desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem
a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso:
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as
penas.
§ 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento
de pena o autor do crime de que proveio a coisa.
§ 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz,
tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a
pena. Na receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art.
155.
§ 6o - Tratando-se de bens do patrimônio da União, deEstado,
do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação
pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou
empresa concessionária de serviços públicos, aplica-se em dobro
a pena prevista no caput deste artigo. (Redação dada pela Lei nº
13.531, de 2017)
Receptação de animal
Art. 180-A. Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter
em depósito ou vender, com a finalidade de produção ou de
comercialização, semovente domesticável de produção, ainda
que abatido ou dividido em partes, que deve saber ser produto
de crime: (Incluído pela Lei nº 13.330, de 2016)
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. (Incluído
pela Lei nº 13.330, de 2016)
1.4.1. RECEPTAÇÃO DOLOSA SIMPLES
Objetividade jurídica – Tutela-se o patrimônio.
Sujeito ativo – Qualquer pessoa (crime comum), exceto aquele que concorreu
para o crime anterior. Ex.: agente que concorreu para o furto recebe dos demais a sua
parte das coisas subtraídas – responderá apenas pelo furto.
Sujeito passivo – Qualquer pessoa. O sujeito passivo é a vítima do crime
antecedente. Ex.: João furta celular de Pedro e o vende a Ricardo. Ricardo (adquirente
do produto de crime) é o sujeito ativo da recepção e João (dono do celular) é a vítima.
Autonomia da receptação:
§ 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento
de pena o autor do crime de que proveio a coisa.
A receptação é denominada “crime parasitário”, “acessório” ou “de fusão”
porque depende da existência de um crime anterior.
Porém, a receptação é punível ainda que desconhecido ou isento de pena o
autor do crime de que proveio a coisa. Daí se falar em autonomia da receptação.
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Em suma: deve ficar demonstrado que o bem é produto de crime anterior, mas
não é preciso saber quem praticou aquele crime, nem que haja punibilidade.
Coisa produto de crime – Diante da expressão utilizada no tipo, se a coisa for
produto de contravenção, não há receptação. Da mesma forma, sendo a coisa produto
de ato infracional, não se configura receptação, pois a lei fala em “produto de crime” (é
a posição de Fragoso). Porém, existe posição contrária (Noronha).
O crime anterior pode ou não ser patrimonial (a lei fala indistintamente em
“produto de crime”). Pode, inclusive, ser uma receptação (ou seja, é admissível
receptação de receptação, também chamada receptação em cadeia). Ex.: João adquire
um celular furtado de Pedro. Em seguida, Marcos adquire esse celular de João, ciente
de sua origem criminosa.
Apesar do legislador não ter limitado o objeto material à coisa alheia móvel (e
de existir debate doutrinário sobre o tema), há precedente do STF no sentido de que
não se admite receptação de coisa imóvel:
STF: "Habeas corpus - Receptação de bem imóvel -
Impossibilidade de tipificação desse crime no direito penal
brasileiro vigente. - Interpretação do art. 180 do código penal.
Recurso de habeas corpus provido” (RHC 58329/MG, Rel. Min.
Cunha Peixoto, 1ª T., j. 1980).
Assim como no furto, existe controvérsia se o talonário de cheques pode ser
objeto de receptação. No julgamento do HC 222.503 de SP, de Relatoria do Min. Jorge
Mussi, o STJ reconheceu essa conduta como atípica, por não ter o talonário de cheques
valor econômico extrínseco. Contudo, há precedentes reconhecendo o crime de
receptação, notadamente quando a cártula é preenchida:
STJ: “Não se desconhece que a partir do julgamento do Resp.
150.908/SP este Superior Tribunal de Justiça firmou o
entendimento de que folhas de cheque e cartões bancários não
podem ser objeto material dos crimes de receptação e furto,
uma vez que desprovidas de valor econômico, indispensável
para a caracterização dos delitos patrimoniais. 3. Contudo, ao
examinar o CC 112.108/SP, a 3ª Seção desta Corte Superior de
Justiça modificou tal posição, consignando que o talonário de
cheque possui valor econômico, aferível pela provável utilização
das cártulas para obtenção de vantagem ilícita por parte de seus
detentores. 4. Embora haja casos em que a simples subtração de
uma folha de cheque em branco não acarrete lesão ao bem
jurídico tutelado, notadamente quando não descontada, a
hipótese dos autos é diversa, pois o réu entregou a cártula a
terceira pessoa, que a preencheu no valor de R$ 3.000,00 (três
mil reais) e a depositou, o que revela a potencialidade lesiva de
sua conduta, impedindo a sua absolvição. Precedentes. 5.
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Agravo regimental desprovido” (CC 112108 / SP, Rel. Min. Marco
Aurélio Bellizze, Rel. p/ acórdão Rogerio Schietti Cruz, 3ª Seção,
j. 12/02/2014.
O caput pode ser dividido em duas partes, originando duas formas de
receptação:
a) Receptação dolosa própria (art. 180, caput, 1ª parte):
Núcleo do tipo – Adquirir, Receber, Transportar, Conduzir ou Ocultar, em
proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime.
Trata-se de tipo misto alternativo, ou seja, mesmo que seja praticada mais de
uma conduta no mesmo contexto fático, haverá crime único.
Elemento subjetivo – A Receptação é punida somente a título de dolo direto.
O agente deve ter certeza acerca da origem criminosa da coisa (“coisa que sabe ser
produto de crime”). Se o agente apenas desconfia da origem espúria, incorre na figura
culposa (§3º). Exige-se também o elemento subjetivo do tipo específico, consistente na
intenção de obter proveito próprio ou alheio.
O dolo deve ser atual (presente no momento da conduta). Não pratica
receptação o agente que recebe a coisa de boa-fé e, posteriormente, descobre sua
origem criminosa. Registra-se a posição minoritária de Hungria, para quem há crime
mesmo que o dolo seja posterior.
Consumação e tentativa - Consuma-se no momento em que o agente
efetivamente adquire, recebe, transporta, conduz ou oculta a coisa produto de crime
(crime material). Nas três últimas modalidades, é crime permanente. A tentativa é
admissível.
b) Receptação dolosa imprópria (art. 180, caput, 2ª parte):
Núcleo do tipo – Pune-se a conduta de influir para que terceiro, de boa-fé,
Adquira, Receba ou Oculte a coisa produto de crime.
Aqui, o agente tenta convencer, persuadir pessoa honesta a adquirir, receber
ou ocultar a coisa produto de crime. Se o terceiro estiver de má-fé, responderá pela
receptação própria, e quem o convence será partícipe.
Consumação e tentativa - Consuma-se com a mera conduta de influir, mesmo
que o terceiro não adquira, receba ou oculte a coisa (crime formal).
É admissível a tentativa? Há duas correntes:
1ª) Não. É crime unissubsistente, não admite a tentativa.
(majoritária).
2ª) Sim. Nucci, por exemplo, entende que é crime
plurissubsistente, sendo possível a chamada “tentativa de
influenciação”. Ex.: agente é surpreendido pela polícia no
momento em que está tentando convencer o outro a comprar
coisa produto de crime.
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Qual a diferença entre receptação e favorecimento real?
Favorecimento real
Art. 349 - Prestar a criminoso, fora dos casos de coautoria ou de
receptação, auxílio destinado a tornar seguro o proveito do
crime:
Pena - detenção, de um a seis meses, e multa.
RECEPTAÇÃO FAVORECIMENTO REAL
Crime contra o patrimônio. Crime contra a Administração da Justiça.
O agente atua em benefício próprio ou de
terceiro (diverso do responsável pelo
crime anterior).Ex.: João adquire de
Pedro um celular produto de furto, com a
finalidade de ter lucro, pagando preço
muito inferior ao de mercado.
No favorecimento real, o agente busca
auxiliar o autor do crime anterior a tornar
seguro o proveito do crime. Ex.: Após
furtar um celular, Pedro solicita ajuda de
João para esconder o aparelho por um
período; Pedro então oculta o aparelho
em sua casa.
1.4.2. RECEPTAÇÃO DOLOSA QUALIFICADA
Receptação qualificada
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em
depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda,
ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no
exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve
saber ser produto de crime:
Pena - reclusão, de três a oito anos, e multa.
§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo
anterior, qualquer forma de comércio irregular ou clandestino,
inclusive o exercício em residência.
Sujeito ativo – Trata-se de crime próprio. Somente pode ser praticado pela
pessoa que se encontra no exercício de atividade comercial (circulação onerosa de bens
ou serviços) ou industrial (transformação de matéria-prima em bens semi-faturados ou
faturados). Há maior desvalor da conduta do agente que pratica a receptação. O § 2º
deixa bem claro que qualquer forma de comércio, inclusive o clandestino ou exercido
em residência equipara-se à atividade comercial (ex. camelos, ambulantes, etc.).
Sujeito passivo – É a vítima do crime antecedente.
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Núcleo do tipo – São previstos 12 verbos (adquirir, receber, transportar,
conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à
venda, ou de qualquer forma utilizar). Trata-se de tipo misto alternativo, isto é, a prática
de mais de uma conduta no mesmo contexto fático enseja crime único.
Qual o elemento subjetivo existente na expressão “deve saber”?
Há duas correntes:
a) A expressão se refere ao dolo eventual, estando abrangido,
com mais razão, o dolo direto. Se a qualificadora abrange quem
“deve saber” (dolo eventual), deve incluir também aquele que
“sabe” (dolo direto). É a posição majoritária, adotada pelo STF e
pelo STJ:
STF: “O artigo 180, § 1º, do Estatuto Repressivo é constitucional
e pode ser aplicado através da utilização da interpretação
extensiva, ampliando o significado da expressão deve saber
(dolo eventual), englobando também a expressão sabe (dolo
direto). O comerciante ou industrial que adquire, vende, expõe
a venda mercadoria que sabe ou devia saber ser de origem ilícita
responde pela figura qualificada” (ARE 705620 AgR/DF, Rel. Min.
Luiz Fux, 1ª T., j. 19/03/2013).
b) A expressão se refere exclusivamente ao dolo eventual. Se o
comerciante “deve saber” (dolo eventual), responde pela figura
qualificada. Se o comerciante “sabe” (dolo direto), responde
pela figura simples. Essa corrente leva a um resultado injusto.
Por isso, Damásio sugere que, havendo dolo eventual,
desconsidere-se a pena do § 1º, aplicando-se a do caput.
Receptação qualificada praticada com dolo eventual é punida mais
gravemente que a receptação simples praticada com dolo direto. Há ofensa à
proporcionalidade?
O STF e o STJ decidiram que não. A opção legislativa é justificável, diante da
maior gravidade e reprovação da conduta, praticada no exercício de atividade comercial
ou industrial (ver STJ, EREsp 772.086-RS, Rel. Min. Jorge Mussi, j. 13/10/2010).
Há posição em sentido contrário. Confira a ressalva de entendimento feita pela
Ministra Maria Thereza de Assis Moura: “É possível a aplicação da pena cominada para
o crime de receptação simples à receptação qualificada prevista no § 1º do artigo 180
do CP. Isso porque não seria dado ao legislador preestabelecer pena mais intensa
quando o agente não se dirige frontalmente contra o bem jurídico, reprovando menos
severamente o sujeito que age com dolo direto” (HC 207856/PR, 6ª T., j. 05/09/2013,
v.u.).
1.4.3. RECEPTAÇÃO DOLOSA PRIVILEGIADA
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
§ 5º (...) Na receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art.
155.
Requisitos da receptação Privilegiada: Primariedade; Pequeno valor da coisa.
Consequências: “(...) o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de
detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa”.
Parte de doutrina entende que a receptação pode ser, ao mesmo tempo,
privilegiada e qualificada. Esta posição está em consonância com os recentes julgados
do STF e do STJ no tocante ao crime de furto, em que se admite tal possibilidade. Porém,
existe corrente em sentido contrário.
1.4.4. QUALIFICADORA EM RAZÃO DA QUALIDADE DA VÍTIMA ATINGIDA (§ 6º)
§ 6º - Tratando-se de bens do patrimônio da União, de Estado,
do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação
pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou
empresa concessionária de serviços públicos, aplica-se em dobro
a pena prevista no caput deste artigo. (Redação dada pela Lei nº
13.531, de 2017)
ANTES DA LEI 13.531/2017 DEPOIS DA LEI 13.531/2017
§ 6º - Tratando-se de bens e instalações
do patrimônio da União, Estado,
Município, empresa concessionária de
serviços públicos ou sociedade de
economia mista, a pena prevista no
caput deste artigo aplica-se em dobro.
§ 6o Tratando-se de bens do patrimônio da
União, de Estado, do Distrito Federal, de
Município ou de Autarquia, Fundação
pública, Empresa pública, sociedade de
economia mista ou empresa
concessionária de serviços públicos, aplica-
se em dobro a pena prevista no caput deste
artigo.
*Não há consenso se o § 6º constitui uma qualificadora ou uma causa de
aumento de pena:
- Qualificadora – o preceito secundário determina que a pena
seja aplicada em dobro, leia-se, a pena de reclusão, de um a
quatro anos, passa a ser de dois a oito anos (Masson, Mirabete,
Nucci).
- Causa de aumento de pena – ao determinar que a pena seja
aplicada em dobro, o dispositivo se refere à terceira fase da
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
dosimetria da pena, devendo o juiz dobrar a pena encontrada na
segunda fase (Luiz Regis Prado, Rogerio Sanches).
O § 6º é aplicável à receptação simples (própria e imprópria), mas não à
receptação qualificada (§ 1º) e culposa (§ 3º).
O dispositivo foi recentemente alterado pela Lei 13.531/2017. Buscou-se
corrigir omissão existente na legislação anterior, que deixava fora da qualificadora, sem
razão, alguns entes de extrema relevância: Distrito Federal, Autarquia, Fundação
pública e Empresa pública.
Vale anotar que referida Lei também modificou o inciso III, do parágrafo único,
do art. 163, para incluir na qualificadora do crime de dano os mesmos entes. São válidos
os mesmos comentários feitos a este dispositivo, para o qual remetemos o leitor.
1.4.5. RECEPTAÇÃO CULPOSA
§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela
desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem
a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as
penas.
Aqui, a própria lei dá os parâmetros a serem observados na tipificação da
receptação como culposa (é uma rara hipótese de crime culposo “fechado”).
Exemplos:
- por sua natureza – adquirir um veículo usado sem placas.
-pela desproporção entre o valor e o preço – celular iphone X
por dois mil reais.
- pela condição de quem a oferece – usuário compulsivo de
drogas vendendo televisão / pessoa humilde vendendo joia de
elevado valor.
1.4.5.1. Perdão judicial
§ 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz,
tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a
pena.
Aplicável apenas à receptação culposa.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
O juiz pode deixar de aplicar a pena se o réu for primário e as circunstâncias
favoráveis.
1.4.6. RECEPTAÇÃO DE ANIMAL
Art. 180-A - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter
em depósito ou vender, com a finalidade de produção ou de
comercialização, semovente domesticável de produção, ainda
que abatido ou dividido em partes, que deve saber ser produto
de crime: (Incluído pela Lei nº 13.330, de 2016)
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. (Incluído
pela Lei nº 13.330, de 2016)
A Lei 13.330/2016 procurou coibir tanto o furto de semovente domesticável
de produção, ainda que abatido ou dividido em partes (incluindo a qualificadora do §
6º no art. 155) quanto a receptação.
Objetividade jurídica – Tutela-se tanto o patrimônio quanto a saúde pública.
Sujeito ativo – Qualquer pessoa (crime comum).
Sujeito passivo – É a vítima do crime antecedente.
Núcleo do tipo – São 7 verbos: Adquirir, Receber, Transportar, Conduzir,
Ocultar, Ter em depósito ou Vender. Trata-se de tipo misto alternativo.
Elemento subjetivo do tipo – O crime é doloso. Na expressão “deve saber”,
conforme visto, está abrangido o dolo direto e o dolo eventual. Exige-se o elemento
subjetivo específico, consistente na finalidade de produção ou de comercialização.
Consumação e tentativa – Consuma-se quando o agente efetivamente adquire,
recebe, transporta, conduz, oculta, tem em depósito ou vende (crime material). O crime
é permanente nas modalidades transportar, conduzir, ocultar e ter em depósito. A
tentativa é admissível.
Parte da doutrina vem afirmando que a Lei 13.330/16 produziu efeito contrário
ao pretendido pelo legislador, ou seja, ao invés de tornar mais rigorosa a punição do
receptador de semovente de produção, abrandou-a.
Isso porque tal conduta, antes da Lei 13.330/16, era tipificada como receptação
qualificada (art. 180, § 1º), cuja pena é de reclusão, de três a oito anos, e multa. Afinal,
o art.180-A exige a “finalidade de produção ou de comercialização”, de modo que a
conduta acaba ocorrendo “no exercício de atividade comercial ou industrial”. Portanto,
estão presentes os pressupostos do art. 180, § 1º.
Como a pena do art. 180-A é de 2 a 5 anos de reclusão, na prática, constitui
uma novatio legis in melius, retroagindo para atingir fatos anteriores.
1.4.7. CONFRONTO
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Se o objeto material for moeda falsa, há o crime do art. 289, § 1º do Código Penal (“§
1º - Nas mesmas penas incorre quem, por conta própria ou alheia, importa ou
exporta, adquire, vende, troca, cede, empresta, guarda ou introduz na circulação
moeda falsa”).
Tratando-se de arma de fogo, acessório ou munição, há os tipos específicos previstos
nos arts. 14, 16 e 17 da Lei 10.826/03 (Estatuto do Desarmamento).
Pratica o crime do art. 174 da Lei 11.101/05 (Lei de Falência) quem “adquirir, receber,
usar, ilicitamente, bem que sabe pertencer à massa falida ou influir para que terceiro,
de boa-fé, o adquira, receba ou use”.
1.4.8. QUADRO RESUMO
Receptação
(art. 180)
Receptação dolosa simples própria
(1ª parte do caput)
Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito
próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime.
Elemento subjetivo – dolo direto. Exige-se o elemento subjetivo
do tipo específico, consistente na intenção de obter proveito
próprio ou alheio.
Crime material
Autonomia - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou
isento de pena o autor do crime de que proveio a coisa.
Receptação dolosa simples imprópria
(2ª parte do caput)
Influir para que terceiro, de boa-fé, adquira, receba ou oculte coisa
produto de crime.
Crime formal
Prevalece que a tentativa é inadmissível (crime unissubsistente).
Receptação qualificada (§ 1º)
Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito,
desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de
qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no
exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber
ser produto de crime.
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
Deve ser praticado no exercício de atividade comercial ou
industrial. Equipara-se à atividade comercial qualquer forma de
comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em
residência.
Crime próprio
Elemento subjetivo – Dolo eventual ou dolo direto.
Crime material
Receptação dolosa privilegiada
(§ 5º, 2ª parte)
Requisitos: Primário + Pequeno valor do prejuízo.
Juiz pode:
Substituir pena de reclusão por detenção.
Diminuí-la de um a dois terços.
Aplicar somente a pena de multa.
Receptação qualificada* em razão da vítima atingida (§ 6o)
Tratando-se de bens do patrimônio da União, de Estado, do
Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública,
empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa
concessionária de serviços públicos, aplica-se em dobro a pena
prevista no caput deste artigo.
* Há controvérsia se o § 6º é qualificadora ou causa de aumento
de pena.
O § 6º é aplicável à receptação simples (própria e imprópria), mas
não à receptação qualificada (§ 1º) e culposa (§ 3º).
A Lei 13.531/2017 incluiu Distrito Federal, Autarquia, Fundação
pública e Empresa pública.
Receptação culposa (§ 3º)
Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela
desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem
a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso.
Perdão judicial (§ 5º)
Aplicável à receptação culposa. Se o
criminoso é primário, pode o juiz, tendo
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
em consideração as circunstâncias, deixar
de aplicar a pena.
Receptação de
animal
(art. 180-A)
(Incluído pela
Lei nº 13.330,
de 2016)
Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito
ou vender, com a finalidade de produção ou de comercialização,
semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou
dividido em partes, que deve saber ser produto de crime.
A expressão “deve saber” abrange o dolo direto e o dolo eventual.
Exige-se o elemento subjetivo específico, consistente na finalidade
de produção ou de comercialização.
Crime material.
1.5. DISPOSIÇÕES GERAIS ACERCA DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO
Este tema é fácil e recorrente nas provas. Vejamos.
1.5.1. IMUNIDADE PENAL ABSOLUTA OU ESCUSA ABSOLUTÓRIA
Art. 181 - É isento de pena quem comete qualquer dos crimes
previstos neste título, em prejuízo:
I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal;
II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou
ilegítimo, seja civil ou natural.
Considerando a existência de laços familiares entreos envolvidos, o legislador
decidiu afastar a punibilidade nas hipóteses descritas no art. 181. O fato, embora típico,
antijurídico e culpável, não é punível.
Tratam-se de escusas absolutórias, condições negativas de punibilidade ou
causas pessoais de exclusão da pena, aplicáveis exclusivamente aos crimes contra o
patrimônio (Título II).
Tem-se entendido que, nessas hipóteses, não é possível a instauração de
inquérito, nem, consequentemente, oferecimento e recebimento de denúncia.
Nos termos do art. 181, é isento de pena quem comete qualquer desses crimes
em prejuízo:
I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal;
CPF: 860.542.154-18
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
O dispositivo limita-se ao casamento civil. Indaga-se se a escusa absolutória
deve abranger também o companheiro.
Existem duas correntes:
a) Sim. O companheiro se equipara ao cônjuge (CF, art. 226, §
3º; CC, arts. 1.595 e 1.723). É possível interpretação extensiva a
favor do réu (Damásio, Mirabete e Nucci – este último mudou
de posição e passou a adotar esta corrente recentemente).
Parece ser a melhor posição, até porque os Tribunais Superiores têm
equiparado as duas situações jurídicas. Nesse sentido:
STJ: “Por unanimidade de votos, a Quarta Turma do Superior
Tribunal de Justiça reconheceu a simetria entre os regimes
sucessórios da união estável e do casamento. O colegiado
aplicou ao caso o entendimento do Supremo Tribunal Federal
que declarou a inconstitucionalidade da diferenciação entre os
dois regimes”.
b) Não. A lei não traz essa hipótese e a interpretação de uma
escusa absolutória deve ser restritiva (Bitencourt).
Separação de corpos ou separação de fato – não afastam a imunidade,
consoante decisão do STJ, na qual afirmou também que a Lei Maria da Penha não
derrogou o Código Penal:
“(...) 1. O artigo 181, inciso I, do Código Penal estabelece
imunidade penal absoluta ao cônjuge que pratica crime
patrimonial na constância do casamento. 2. De acordo com o
artigo 1.571 do Código Civil, a sociedade conjugal termina pela
morte de um dos cônjuges, pela nulidade ou anulação do
casamento, pela separação judicial e pelo divórcio, motivo pelo
qual a separação de corpos, assim como a separação de fato, que
não têm condão de extinguir o vínculo matrimonial, não são
capazes de afastar a imunidade prevista no inciso I do artigo 181
do Estatuto Repressivo. 3. O advento da Lei 11.340/2006 não é
capaz de alterar tal entendimento, pois embora tenha previsto a
violência patrimonial como uma das que pode ser cometida no
âmbito doméstico e familiar contra a mulher, não revogou quer
expressa, quer tacitamente, o artigo 181 do Código Penal. 4. A
se admitir que a Lei Maria da Penha derrogou a referida
imunidade, se estaria diante de flagrante hipótese de violação
ao princípio da isonomia, já que os crimes patrimoniais
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
praticados pelo marido contra a mulher no âmbito doméstico e
familiar poderiam ser processados e julgados, ao passo que a
mulher que venha cometer o mesmo tipo de delito contra o
marido estaria isenta de pena. 5. Não há falar em ineficácia ou
inutilidade da Lei 11.340/2006 ante a persistência da imunidade
prevista no artigo 181, inciso I, do Código Penal quando se tratar
de violência praticada contra a mulher no âmbito doméstico e
familiar, uma vez que na própria legislação vigente existe a
previsão de medidas cautelares específicas para a proteção do
patrimônio da ofendida. 6. No direito penal não se admite a
analogia em prejuízo do réu, razão pela qual a separação de
corpos ou mesmo a separação de fato, que não extinguem a
sociedade conjugal, não podem ser equiparadas à separação
judicial ou o divórcio, que põem fim ao vínculo matrimonial, para
fins de afastamento da imunidade disposta no inciso I do artigo
181 do Estatuto Repressivo” (RHC 42918 / RS, Rel. Min. Jorge
Mussi, j. 05/08/2014, v.u.).
Registramos a existência de posição em sentido contrário, aduzindo não serem
aplicáveis as escusas absolutórias (ou relativas) em se tratando de crime patrimonial
praticado no contexto de violência doméstica ou familiar contra mulher. Esta corrente
se baseia no art. 7º, IV, da Lei 11.340/06, que relaciona como uma das formas de
violência doméstica e familiar contra a mulher “a violência patrimonial, entendida como
qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus
objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou
recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades”.
Deve-se observar se a escusa absolutória está presente no momento da prática
do crime. Assim, haverá punibilidade mesmo que os envolvidos casem depois do delito;
em contrapartida, não haverá punibilidade se o fato for praticado na constância da
sociedade conjugal, mas as partes vierem a se divorciar depois.
II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo
ou ilegítimo, seja civil ou natural.
O dispositivo se aplica aos parentes em linha reta, sem grau de limitação, ou
seja, ascendentes (pais, avós, bisavós etc.) e descendentes (filhos, netos, bisnetos etc.).
é também irrelevante se o parentesco é civil ou natural.
1.5.2. IMUNIDADE PENAL RELATIVA OU ESCUSA RELATIVA
Art. 182 - Somente se procede mediante representação, se o
crime previsto neste título é cometido em prejuízo:
I - do cônjuge desquitado ou judicialmente separado;
CPF: 860.542.154-18
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II - de irmão, legítimo ou ilegítimo;
III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita.
Aqui, não ocorre a extinção da punibilidade, mas tão somente se modifica a
natureza na ação penal, que passa de pública incondicionada a pública condicionada à
representação da vítima. Ou seja, o ofendido tem a opção de que o agente seja ou não
processado.
As hipóteses são as seguintes:
I - cônjuge desquitado ou judicialmente separado;
É o caso em que os cônjuges estão separados judicialmente, porém não
divorciados.
Como se vê, existe uma gradação:
Momento do crime Imunidade
Cônjuges na constância do casamento
Absoluta
(isenção de pena)
Cônjuges desquitados ou judicialmente
separados
Relativa
(ação pública condicionada à
representação)
Divorciados Não se aplica
II - de irmão, legítimo ou ilegítimo;
O Código Civil não faz mais distinção entre irmãos “legítimos” ou ilegítimos”.
Ou seja, basta dizer que se aplica ao irmão.
III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita.
Frise-se que não basta o crime ser praticado entre tio e sobrinho, sendo
indispensável a coabitação à época do crime, ou seja, os envolvidos devem morar
juntos.
1.5.3. INAPLICABILIDADE DAS ESCUSAS
CPF: 860.542.154-18
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O art. 183 traz hipóteses nas quais as imunidades (absolutas e relativas) não
se aplicam. São elas:
I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando
haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa;
II - ao estranho que participa do crime;
Não há imunidade penal absoluta ou relativa no tocante ao fato cometido pelo
estranho que participa do crime. Por exemplo:o filho, em companhia de terceiro,
subtrai bens de seu pai. O terceiro responde por delito de furto qualificado pelo
concurso de pessoas.
III – se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou
superior a 60 anos.
A imunidade penal, absoluta ou relativa, não se aplica ao delito cometido
contra pessoa idosa, ou seja, com idade igual ou superior a sessenta anos.
CPF: 860.542.154-18
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2. QUESTÕES
1. Quanto aos crimes contra o patrimônio, é correto afirmar que:
a) conforme entendimento sedimentado do Superior Tribunal de Justiça, aplicam-se às
qualificadoras objetivas e subjetivas do furto a causa de aumento de pena do repouso
noturno e a forma privilegiada.
b) qualifica a extorsão mediante sequestro se o sequestrado é menor de 18 (dezoito)
anos ou maior de 60 (sessenta) anos, de sorte que se restituído à liberdade depois de
completar 18 (dezoito) anos, ou sequestrado antes de completar 60 (sessenta) anos,
embora libertado a partir dessa idade, não incide a qualificadora.
c) na Apropriação Indébita Previdenciária, é facultado ao juiz deixar de aplicar a pena ou
aplicar somente a de multa se o agente for primário e de bons antecedentes, desde que
tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de ser oferecida a denúncia, o
pagamento da contribuição social previdenciária, inclusive acessórios.
d) a absolvição pelo crime pressuposto da receptação impede a condenação do
receptador quando não existir prova de ele ter concorrido para a infração penal, ficar
provada a inexistência do fato, não houver prova da existência do fato, não constituir o
fato infração penal ou existir circunstância que exclua o crime.
2. Em relação aos crimes contra o patrimônio, é correto afirmar que:
a) constitui causa de aumento de pena do furto simples a subtração de semovente
domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes no local da
subtração.
b) é isento de pena quem comete furto em prejuízo de ascendente, independentemente
da idade da vítima.
c) não incide a agravante de crime praticado contra maior de sessenta anos no caso de
estelionato contra idoso.
d) admitem a figura privilegiada os crimes de furto, dano, apropriação indébita,
estelionato e receptação.
3. NÃO admite a figura privilegiada, com substituição da pena de reclusão pela de
detenção, diminuição de um a dois terços ou aplicação somente da pena de multa, o
crime de:
a) furto.
b) duplicata simulada.
c) estelionato.
d) apropriação indébita.
e) receptação.
4. Com relação ao ilícito de dano, tipificado no artigo 163 do Código Penal:
CPF: 860.542.154-18
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a) a motivação da conduta é irrelevante para os fins de classificação típica, importando,
eventualmente, como critério de fixação da pena.
b) a doutrina brasileira mais contemporânea vem majoritariamente entendendo
exigível, para sua caracterização, o elemento subjetivo que, na teoria tradicional,
comumente é designado como dolo específico, no caso consubstanciado pelo chamado
animus nocendi.
c) a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça hoje entende que o preso que destrói
item do patrimônio prisional especificamente para fugir não comete esse crime.
d) na subtração mediante arrombamento, comumente enlaça-se em concurso formal
com o furto.
e) se trata de infração de menor potencial ofensivo, quando culposa.
5. O afilhado que cuida e tem a função de curador de sua madrinha, esta com 65 anos
de idade, acometida de Alzheimer, vendeu imóvel da ofendida por R$ 80.000,00,
recebendo, inicialmente, R$ 20.000,00. Quando foi lavrada a escritura pública, o
curador recebeu o restante do pagamento, no importe de R$ 60.000,00, apropriando-
se do numerário. Assim:
a) o afilhado é isento de pena por ter praticado o delito em prejuízo de ascendente.
b) o comportamento do afilhado caracteriza o crime de estelionato, na modalidade de
abuso de incapazes.
c) o comportamento do afilhado caracteriza o crime de apropriação indébita, agravado
em face da qualidade de curador.
d) o comportamento do afilhado caracteriza o crime de apropriação, previsto no
Estatuto do Idoso.
6. No delito de receptação qualificada, a expressão “coisa que deve saber ser produto
de crime" possui interpretação do STF no sentido de que:
a) se trata de norma inconstitucional com relação ao preceito secundário, por violar o
princípio da proporcionalidade quando comparada à pena prevista para o caput.
b) se aplica apenas aos casos de dolo eventual, excluindo-se o dolo direto.
c) abrange igualmente o dolo direto.
d) configura má utilização da expressão, por ser indicativa de culpa consciente.
e) impede que no exercício de atividade comercial possa se alegar receptação culposa.
7. Com relação às modalidades de receptação, assinale a alternativa correta.
a) A receptação própria é um crime material, consuma-se com a efetiva aquisição,
recebimento, transporte, condução ou ocultação da coisa produto de crime. A
receptação imprópria, por sua vez, é um crime formal e, teoricamente, não admite a
tentativa.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
b) Aquele que sabe sobre a origem da coisa produto de crime pratica a receptação na
modalidade própria, enquanto que aquele que deveria saber pratica o delito na
modalidade imprópria.
c) A modalidade dolosa da receptação é conhecida doutrinariamente por receptação
própria e a modalidade culposa por receptação imprópria.
d) Na receptação culposa exige-se o elemento subjetivo especial do tipo constituído pelo
fim especial de desconhecer a origem da coisa produto de crime.
e) A receptação própria está prevista no “caput” do art. 180 do Código Penal, enquanto
a receptação imprópria, ou qualificada, está descrita no §1.º.
8. Após analisar as assertivas a respeito dos crimes contra o patrimônio, assinale a
alternativa correta.
a) As ações dos seguintes crimes somente se procedem mediante representação: Furto
de coisa comum; Outras fraudes; Estelionato cometido em prejuízo de irmão que conta
20 anos de idade.
b) Aquele que encontra uma nota de cem reais sob o sofá da sala da residência de um
amigo e dela se apodera pratica o crime de apropriação de coisa achada.
c) É isento de pena quem comete furto em prejuízo de ascendente com idade igual ou
inferior a sessenta anos.
d) Aquele que subtrai coisa alheia móvel do cônjuge judicialmente separado é isento de
pena.
9. No crime de apropriação indébita exige-se uma quebra de confiança por parte do
agente, eis que a vítima voluntariamente entrega bem móvel de sua propriedade ou
posse, perpetuando-se o crime no momento que autor do delito se nega em devolver
o objeto ao seu legítimo dono. Entretanto, se o agente, de forma premeditada, pega
o bem já consciente que não irá devolvê-lo, cometerá a conduta de estelionato, e não
a acima mencionada.
( ) Certo ( ) Errado
10. Assinale a alternativa correta.
a) Agente que impõe à vítima, como garantia de dívida, a exigência ou o recebimento de
documento que pode dar causa a procedimento criminal contra esta ou terceiro,
responde pelo delito de extorsão indireta.
b) O crime de receptação dolosa imprópria independe da boa-fé do terceiro no
recebimento da coisa ilícita para efeito de responsabilização penal deste.
c) A pena do furto qualificado de veículo automotor transportado para outro Estadoou
para o exterior será de 02 (dois) a 08 (oito) anos de reclusão e multa.
d) Agente que pratica o crime de roubo com o emprego de faca será responsabilizado
pela qualificadora do emprego de arma, com pena aumentada em dois terços.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
11. Sobre os crimes contra a propriedade e o patrimônio, considerando o direito
vigente e a jurisprudência sumulada do STJ, assinale a alternativa INCORRETA.
a) O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem
indevida.
b) Não se pode aplicar analogicamente ao furto qualificado, por concurso de agentes, a
majorante do roubo.
c) Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem mediante emprego de
violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e seguida da perseguição
imediata ao agente e recuperação da coisa roubada.
d) A existência de sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou a
presença de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna
impossível a configuração do crime de furto.
e) Com o advento da Lei nº 13.964/19 ("Lei Anticrime"), o crime de estelionato passa a
ser de ação penal de iniciativa privada.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
3. GABARITO COMENTADO
1. “C”
Art. 168-A § 3º É facultado ao juiz deixar de aplicar a pena ou aplicar somente a de multa
se o agente for primário e de bons antecedentes, desde que:
I - tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de oferecida a denúncia, o
pagamento da contribuição social previdenciária, inclusive acessórios; ou
II - o valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja igual ou inferior àquele
estabelecido pela previdência social, administrativamente, como sendo o mínimo para
o ajuizamento de suas execuções fiscais.
A. Incorreta. Súmula 511/STJ: É possível o reconhecimento do privilégio previsto no §
2º do art. 155 do CP nos casos de furto qualificado, se estiverem presentes a
primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem
objetiva.
B. Incorreta. O sequestro é crime permanente.
D. Incorreta. Art. 180 § 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento
de pena o autor do crime de que proveio a coisa.
2. “C”
Estelionato contra idoso: Art. 171, § 4º do CP: Aplica-se a pena em dobro se o crime for
cometido contra idoso. (Incluído pela Lei nº 13.228, de 2015). Assim, nesse caso, como
essa circunstância já é considerada como causa de aumento de pena, a incidência da
agravante acarretaria em indevido bis in idem.
A. Incorreta. Não se trata de causa de aumento de pena, e sim qualificadora, na forma
do art. 155, §6º do CP.
B. Incorreta. Se o ascendente é pessoa idosa, ou seja, possui idade igual ou superior a
60 anos, não é aplicável tal causa pessoal de isenção de pena, na forma do art. 183, III
do CP.
D. Incorreta. Item errado, pois a figura privilegiada não está prevista para o crime de
dano.
3. “B”
Furto - Art. 155, § 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada,
o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois
terços, ou aplicar somente a pena de multa.
Estelionato - Art. 171, § 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo,
o juiz pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º.
Apropriação indébita - Nos crimes previstos neste Capítulo [apropriação indébita],
aplica-se o disposto no art. 155, § 2º.
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Receptação - Art. 180, § 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz,
tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa
aplica-se o disposto no § 2º do art. 155.
4. “C”
Segundo entendimento do STJ, a destruição de patrimônio público (buraco na cela, por
exemplo) pelo preso que busca fugir do estabelecimento no qual encontra-se
encarcerado não configura o delito de dano qualificado (art. 163, parágrafo único, inciso
III do CP), porque ausente o dolo específico (animus nocendi), sendo atípica a conduta.
(STJ, HC 260350 / GO, Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, 13/05/2014).
A. Incorreta. Nos termos do art. 163, parágrafo único, inciso IV, do CP, a motivação
egoística, qualifica o crime de dano. Portanto, percebe-se que o motivo do crime é
relevante para fins de classificação típica, pois pode mudar o enquadramento da
conduta: de dano simples para dano qualificado.
B. Incorreta. Há polêmica acerca da necessidade de um especial fim de agir (elemento
subjetivo específico), consistente no animus nocendi, isto é, na vontade de causar
prejuízo a outrem. Para Nélson Hungria, é necessário o concomitante propósito de
prejudicar o proprietário. No entanto, a doutrina mais moderna e majoritária não acha
necessária a presença desse elemento, pois compreendido na própria ação criminosa.
Basta o dolo genérico, isto é, a vontade e a consciência de destruir, inutilizar ou
deteriorar a coisa alheia. (Magalhaes Noronha e Cléber Masson, por exemplo).
D. Incorreta. O crime de dano é subsidiário, configura-se, somente na hipótese em que
o agente não pretende conduta criminosa posterior e mais grave. No caso, o crime de
dano será absorvido pelo furto qualificado.
E. Incorreta. Não existe previsão legal de dano culposo. O fato é atípico.
5. “D”
Aplica-se o crime especial do Estatuto do Idoso: “Art. 102. Apropriar-se de ou desviar
bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação
diversa da de sua finalidade: Pena – reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa”.
6. “C”
(Também responde as letras “A” e “B”). A receptação qualificada é punida a título de
dolo, discutindo a doutrina a natureza da expressão “deve saber” contida no tipo. Para
doutrina minoritária, trata-se somente de dolo eventual, e, como consequência, aquele
que atua com dolo direto, ou seja, sabe que a coisa é produto do crime, responde
simplesmente pela receptação do caput (figura simples). Contudo, para a maioria, a
expressão “sabe” está contida na “deve saber” já que se o legislador pretendeu punir
mais severamente o agente que deveria ter conhecimento da origem criminosa,
obviamente é sua intenção, punir, da mesma forma, aquele que possui conhecimento
direto sobre a proveniência da coisa. A discussão gerou a tese que a forma qualificada
da receptação é inconstitucional, contudo, o STF já se manifestou pela
constitucionalidade, abrangendo, ainda, o dolo eventual.
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
D. Incorreta. Não é o que se extrai do tipo da receptação qualificada, que não pune a
modalidade culposa. Culpa consciente é a culpa com previsão, na qual o agente prevê o
resultado, mas espera que ele não ocorra, acreditando que com sua habilidade, poderá
evita-lo.
E. Incorreta. Não há óbice para que na atividade comercial, o agente pratique a
receptação culposa, desde que as circunstâncias indiquem que ele tenha recebido ou
adquirido a coisa nos termos do art. 180, § 3º do CP.
7. “A”
Receptação
Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou
alheio, coisa que sabe ser produtode crime, à PRÓPRIA
Receptação própria - Crime material, consuma-se no momento em que o agente
adquire, recebe, transporta, conduz ou oculta a coisa produto de crime. A tentativa é
admissível. Elemento subjetivo - É o dolo direto. à Coisa que SABE ser produto de crime.
ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte: à IMPRÓPRIA
Receptação imprópria - Aqui o crime é formal. Consuma-se com o mero ato de influir,
ainda que a pessoa não adquira, receba ou oculte a coisa. Controvertida a possibilidade
de tentativa. Elemento subjetivo – exige-se o dolo direto.
8. “A”
Furto de coisa comum
Art. 156 - Subtrair o condômino, co-herdeiro ou sócio, para si ou para outrem, a quem
legitimamente a detém, a coisa comum:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
§ 1º - Somente se procede mediante representação.
§ 2º - Não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não excede a quota
a que tem direito o agente.
Outras fraudes
Art. 176 - Tomar refeição em restaurante, alojar-se em hotel ou utilizar-se de meio de
transporte sem dispor de recursos para efetuar o pagamento:
Pena - detenção, de quinze dias a dois meses, ou multa.
Parágrafo único - Somente se procede mediante representação, e o juiz pode, conforme
as circunstâncias, deixar de aplicar a pena.
Disposições gerais
Art. 181 - É isento de pena quem comete qualquer dos crimes previstos neste título, em
prejuízo:
I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal;
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É proibida a reprodução deste material sem a devida autorização, sob pena da adoção das medidas cabíveis na esfera cível e penal.
II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou
natural.
Art. 182 - Somente se procede mediante representação, se o crime previsto neste título
é cometido em prejuízo:
I - do cônjuge desquitado ou judicialmente separado;
II - de irmão, legítimo ou ilegítimo;
III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita.
Art. 183 - Não se aplica o disposto nos dois artigos anteriores:
I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando haja emprego de grave
ameaça ou violência à pessoa;
II - ao estranho que participa do crime.
III - se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta)
anos.
9. CERTO
Apropriação indébita e estelionato são crimes contra o patrimônio punidos unicamente
a título de dolo. Mas um importante ponto de distinção entre estes delitos repousa no
momento em que desponta o dolo de locupletar-se perante o patrimônio alheio.
Na apropriação indébita o dolo é subsequente ou sucessivo. O sujeito recebe de boa-
fé a posse ou a detenção desvigiada da coisa alheia móvel, e só posteriormente inverte
seu ânimo em relação ao bem, decidindo dele se apropriar. Exemplo: “A”, cliente antigo
e leal de uma locadora de automóveis, aluga um carro para usá-lo durante uma viagem.
Nesta viagem, perde muito dinheiro em jogos de azar, e então resolve vender as peças
do automóvel locado para quitar suas dívidas, evadindo-se em seguida para outro país.
Por seu turno, no estelionato o dolo é antecedente ou ab initio. Em outras palavras, o
fim de apropriação da coisa alheia móvel já estava presente antes de o agente alcançar
sua posse ou detenção. Exemplo: “A”, valendo-se de documentos falsos, realiza seu
cadastramento em uma locadora de automóveis. Em seguida, aluga um automóvel e o
conduz a um desmanche, vendendo diversas das suas peças.
10. “C”
(A) Incorreta. Na forma do art. 155, §5º, CP, a pena neste caso é de 03 a 08 anos.
(B) Incorreta. Alteração da Lei nº 13.654/18: o roubo com arma branca não é mais causa
de aumento de pena.
(C) Correta. Corresponde ao art. 160 do CP.
(D) Incorreta. Receptação imprópria é aquela formada pela associação da conduta de
influir (inspirar ou insuflar) alguém de boa-fé a adquirir (obter ou comprar), receber
(aceitar em pagamento ou simplesmente aceitar) ou ocultar (encobrir, disfarçar)
produto de crime (art. 180, caput, in fine).
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11. Letra “E”
a) verdadeiro. Súmula 96 do STJ: O crime de extorsão consuma-se independentemente
da obtenção da vantagem indevida.
b) verdadeiro. Súmula 442 do STJ: É inadmissível aplicar, no furto qualificado, pelo
concurso de agentes, a majorante do roubo.
c) verdadeiro. Súmula 582 do STJ: Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse
do bem mediante emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e
em seguida à perseguição imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo
prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada.
d) verdadeiro. Súmula 567 do STJ: Sistema de vigilância realizado por monitoramento
eletrônico ou por existência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por
si só, não torna impossível a configuração do crime de furto.
e) falso. Com as alterações da Lei Anticrime, o delito passou de uma ação penal pública
incondicionada — promovida por denúncia do Ministério Público — para ser uma ação
penal pública condicionada à representação.