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DEFINIÇÃO Postura do repórter. Meios de registro da entrevista. Entrevistas presenciais. Entrevistas ao vivo. Entrevistas por e-mail. Técnicas para entrevistar. Dificuldades na entrevista. Arte de entrevistar. Ethos do jornalista como credibilidade. Rapport. PROPÓSITO Apresentar condutas e estratégias na condução da entrevista, assim como características do repórter que refletem em uma boa entrevista. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar estratégias para a condução da entrevista MÓDULO 2 Descrever as relações do ethos do entrevistador com a produção jornalística de qualidade INTRODUÇÃO Vamos começar este estudo sobre a condução da entrevista tratando de um momento anterior ao encontro com o entrevistado. A entrevista aqui é presencial. O repórter já recebeu a pauta comunicada ou enviada por escrito pela chefia da reportagem. Já realizou uma pré-apuração, possivelmente redigiu um questionário ou tomou notas importantes de assuntos a tratar e perguntas a fazer. Agora, está a caminho da entrevista junto ao fotógrafo ou cinegrafista. Há pontos importantes a alinhar com esse colega. Também pode ser o momento de rever o planejamento da entrevista, deixar os dados e as perguntas mais frescas na memória. Em breve, estará frente a frente com o entrevistado. Entrevista presencial Este tema tratará das boas práticas na condução da entrevista, além de apontar algumas características pessoais do jornalista que podem influenciar nesta etapa da apuração. MÓDULO 1 Identificar estratégias para a condução da entrevista TEXTO E IMAGEM Para que a entrevista renda boas imagens, quanto mais o repórter de imagem souber sobre a pauta, sua angulação e sobre o entrevistado, melhor. É recomendável que a dupla converse antes da entrevista. Como repórter, o fotógrafo/cinegrafista também precisa de sensibilidade para captar expressões, cenários e detalhes não apenas de apelo estético, mas, principalmente, com conteúdo informativo, jornalístico. Se o entrevistado conta que a vida tem sido difícil depois da morte de uma pessoa querida ou comenta as dores de uma derrota existencial, um raro sorriso ou uma gargalhada pode acontecer, mas essa não é a imagem que melhor informará a ressaca do revés e a tristeza da perda – se o entrevistado, de fato, falar na entrevista sobre sentimentos e sofrimento. Cinegrafista O autor do texto (escrito ou falado) e o autor das imagens (em movimento ou não) são ambos repórteres. Se trabalham, de fato, como dupla e não cada um por si, o resultado tende a ser melhor. O repórter de imagens também pode fazer perguntas para o entrevistado (não ao vivo), embora o repórter de texto conduza a entrevista. O cinegrafista deixa a câmera funcionando o tempo todo. Já o fotógrafo tem de observar se sua movimentação incomoda e intimida o entrevistado. Nessa hipótese, deve ser mais discreto e, no limite, não fotografar o tempo inteiro. VOCÊ SABIA Há casos em que fotógrafo e repórter não vão juntos, em que fotos podem ser feitas depois. Em alguns casos, usam-se imagens de agência de notícia. Há, inclusive, entrevistas que não demandam fotos do entrevistado. Entrevista por vídeo ENTREVISTA SEM CONTATO PRESENCIAL OU INTERAÇÃO INSTANTÂNEA POR VÍDEO/ÁUDIO Existem entrevistas em que o meio ou a forma de conexão com o entrevistado não permite interação instantânea, com a interrupção do entrevistado pelo entrevistador ou o contrário. São entrevistas por e- mail ou por aplicativos de mensagem, como WhatsApp. Nessas circunstâncias, torna-se mais difícil obter um bom resultado. Se o contato presencial não foi possível, o ideal é que, ainda assim, a entrevista – principalmente aquela como gênero jornalístico (e não mera apuração de alguns poucos dados) – seja ao vivo, por videoconferência ou mesmo pela ligação de vídeo do WhatsApp. Se não for possível ver o rosto, as expressões do entrevistado, é melhor fazer uma entrevista por telefone do que por e-mail. Por telefone, aliás, o padrão é avisar ao entrevistado que a conversa será gravada. Por e-mail, o costume é o entrevistador enviar de uma só vez a relação de perguntas ao entrevistado. DICA Vale como dica antecipar-se e obter do entrevistado o compromisso de que possam ser feitas novas perguntas para esclarecer respostas parciais e nebulosas ou mesmo para levar adiante algum ponto que mereça maior desdobramento ou destaque. Entrevista presencial ENTREVISTA PRESENCIAL Há uma máxima no jornalismo que diz: A entrevista é um exercício de sedução. Ao encontrar o entrevistado, cumprimente-o com simpatia, buscando estabelecer desde o início uma conexão que o estimule a falar à vontade. É evidente que a relação com um bombeiro que salvou uma criança em um prédio em chamas não será igual à relação com um serial-killer. A entrevista será distinta: uma, com um herói que merece a admiração da comunidade; outra, com um criminoso que colhe repulsa. Mesmo com entrevistados tão diferentes, a essência do trabalho do entrevistador é a mesma: perguntar. No módulo a seguir, falaremos mais do ethos do entrevistador, de aspectos mais subjetivos e de como eles interferem na entrevista. Por ora, vamos nos deter em questões mais objetivas. Mas alguns pontos tocam as duas questões (objetivas e subjetivas). ETHOS javascript:void(0) Palavra de origem grega que significa identidade. Trata-se do “conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de determinada coletividade, época ou região”. Fonte: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. PERGUNTAR É ESCLARECEDOR Antes de começar a entrevista propriamente dita, cheque com o entrevistado algumas informações biográficas. Não suponha que já sabe tudo, porque as informações sempre foram publicadas “do mesmo jeito”. Acreditar que se sabe tudo pode ser arrogância, e, no jornalismo, como em qualquer profissão, é preciso ter humildade. No módulo 2, trataremos mais de humildade e ambição – ambas necessárias ao jornalista. COMENTÁRIO Até a década de 1990, o nome do técnico de futebol Zagallo era grafado pelo jornalismo com um L a menos: “Zagalo”. Em uma palestra para jornalistas, ele esclareceu qual era a grafia correta. Por não perguntar à arquiteta Monica Benicio, viúva da vereadora Marielle Franco, se seu nome e sobrenome têm acento, jornalistas costumam adotá-lo equivocadamente. Da mesma maneira, se quiser saber a idade do entrevistado – informação, às vezes, relevante –, não deixe de perguntar sobre a data de nascimento. Algumas pessoas se habituaram a contar a idade pelo ano, mesmo antes do dia do aniversário, o que é tradição em outros países, mas não no Brasil. GRAVADOR OU BLOCO DE ANOTAÇÕES? O ideal numa entrevista presencial é usar dois gravadores (checando pilha e bateria antes) e um bloco de notas. Um dos gravadores pode ser o do smartphone, que, aliás, se não for desligado, deve ser colocado em modo avião. É constrangedor para o entrevistador seu telefone tocar durante a entrevista. Isso reflete amadorismo. Sugira ao entrevistado que seria bem melhor se ele fizesse o mesmo. Equipamentos necessários para a entrevista presencial Se o ambiente for excessivamente cerimonioso, e você ainda não tiver conseguido quebrar o gelo, a sugestão pode ser oblíqua, indireta. EXEMPLO — Já coloquei meu celular no modo avião... Ou — O senhor se importaria de desligar o telefone? Assim, poderemos nos concentrar mais na entrevista... Cada tipo de entrevista, cada momento e cada entrevistado pedem uma abordagem. Disso resultam algumas escolhas feitas na hora, mas é importante pensá-las previamente. Sobre o bloco de notas, é importante utilizá-lo também para se guiar, anotar informações pontuais. As anotações do bloco podem auxiliar na transcrição do áudio registrado. O bloco também pode ajudar no próprio momento da entrevista. Quando não for adequado interromper seu entrevistado, se ele estiver embalado, eocorrer a você uma nova pergunta, anote-a para não esquecer. Ela pode ser feita em seguida ou mais no fim da entrevista, o que lhe parecer mais conveniente. Bloco de notas COMO ABRIR A ENTREVISTA Devemos começar ou não a entrevista com as perguntas mais duras e espinhosas? Depende. Em uma entrevista coletiva, por exemplo, o repórter tem de fazer, na primeira oportunidade, a pergunta que julga mais importante, pois, talvez, não tenha chance de perguntar outra vez. Se o entrevistador dispõe de um tempo restrito, não haverá como “aquecer” a entrevista e, só então, tocar no assunto mais delicado. Em televisão, nos programas sem elasticidade de tempo, incluindo os programas ao vivo, pode ser mais indicado abordar logo o tema mais relevante, com pergunta confortável ou não para o entrevistado. Já em entrevistas com tempo maior ou livre — e que serão editadas —, convém não entrar imediatamente em terreno minado. Começar por amenidades, deixando o entrevistado relaxar, é indicado como a melhor abordagem. O jornalista Fred L. Zimmerman, repórter e editor do Wall Street Journal, tem uma dica: É legítimo iniciar a entrevista com um circunlóquio, rodeando as questões mais importantes. Mas não perca seu foco. CIRCUNLÓQUIO Elocução (“lóquio”) em círculos, ou seja, rondar o assunto desejado, sem fazer referência muito direta ou explícita. Nas expressões populares, seria o equivalente a “comer pelas beiradas” antes de chegar ao centro das questões. Vamos ver dois exemplos a seguir: Um bom exemplo de como desarmar o espírito do entrevistado foi o comportamento do entrevistador Juca Kfouri com o entrevistado Jaime Lerner, arquiteto e político paranaense, em uma entrevista publicada na revista Playboy em setembro de 1991. Lerner era, então, o prefeito de Curitiba. As três primeiras perguntas de Kfouri: - Prefeito Jaime Lerner, Brahma ou Antarctica? - Chico ou Caetano? - Atlético ou Coritiba? javascript:void(0) javascript:void(0) JUCA KFOURI Um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro, Juca Kfouri especializou-se no jornalismo esportivo. Passou por importantes veículos de comunicação, como a revista Playboy, os jornais O Globo e Folha de S. Paulo, as emissoras de TV SBT, Rede Globo, ESPN, rádio CBN, entre outros. Juca Kfouri Mais tensa foi a abordagem do repórter McCandlish Phillips a seu entrevistado Daniel Burros, em 1965. Um editor do jornal The New York Times, A. M. Rosenthal, recebeu a informação de uma fonte: Burros, chefe do grupo supremacista Ku Klux Klan (KKK) em Nova York e militante do Partido Nazista dos Estados Unidos, tinha ascendência judaica. Os principais alvos de sua militância racista eram os judeus, bem como pessoas negras. Três repórteres foram escalados para a pauta, com Phillips à frente. Burros esquivou-se dele, mas acabou aceitando falar em uma lanchonete. Phillips começou recapitulando a trajetória do entrevistado na KKK e no Partido Nazista, contando o que havia apurado, checando informações. Orgulhosamente, Burros as confirmou, acrescentou dados e se descontraiu. O entrevistador deixou para o final a questão mais delicada, que poderia desencadear reação violenta em um militante de organizações cultivadoras de ódio e praticantes de violência: - Há uma coisa sobre você que simplesmente não se enquadra no retrato, e não consigo entender. Seus pais foram casados pelo reverendo Bernard Kallenberg em uma cerimônia judaica no Bronx. Burros reagiu ameaçando de morte o repórter em caso de publicação de seu segredo. McCandlish, Rosenthal e o jornal Times consideraram que havia relevância pública no fato de um notório antissemita ser judeu e o noticiaram. Burros suicidou-se. John McCandlish Phillips MODELOS E ROTEIROS CLÁSSICOS DE ENTREVISTAS Há alguns modelos clássicos de perguntas para entrevistas. Um é conhecido como Questionário Proust, pois foi popularizado ao ser respondido pelo escritor francês Marcel Proust. MARCEL PROUST Escritor, ensaísta e crítico literário, Proust foi autor de uma das mais importantes obras da literatura mundial: Em busca do tempo perdido – romance em sete volumes, publicados de 1913 a 1927. Esse questionário pode ser adequado para entrevistas que buscam o chamado perfil do entrevistado, ou seja, constitui-se de questões sobre a personalidade do entrevistado, como: O que você mais aprecia em seus amigos?, Qual sua ideia de felicidade? javascript:void(0) Marcel Proust VOCÊ SABIA A história do jornalismo é repleta de seções fixas de entrevistas. Por 19 anos, o escritor João Condé manteve na revista O Cruzeiro uma página intitulada “Arquivos Implacáveis”. Seu padrão eram dez perguntas. Elas versavam sobre As dez maiores personalidades do Brasil, Dez coisas que detesto etc. Um quadro consagrado em entrevistas é o “bate-bola”, com perguntas e respostas curtas. Costuma ser usado ao fim da entrevista, sobretudo em televisão. Outro modelo é o de pedir para outras pessoas, normalmente de projeção pública, fazerem perguntas ao entrevistado. Veja algumas dicas para realizar boas entrevistas: UM PERGUNTA DE CADA VEZ Faça, de preferência, uma pergunta de cada vez. No máximo, duas. Muitas perguntas enunciadas ao mesmo tempo dificultam a resposta do entrevistado ou o ajudam, caso ele queira driblar algum assunto. Seja objetivo na pergunta, ainda que, na introdução a ela, você possa ser mais subjetivo, ter menos foco. Como lembra Oyama (2014): “Perguntar não é fazer discurso”. EVITE PERGUNTAS QUE SUGIRAM A RESPOSTA Evite perguntas que sugiram a resposta ou contenham uma resposta implícita. O uso de perguntas com respostas implícitas deve ser avaliado cuidadosamente. Há motivo para fazê- lo? Se o jornalista sabe a resposta, por que fazer a pergunta? Há casos em que determinadas informações só podem vir do entrevistado, mas há diferentes maneiras de se ouvir declarações importantes. Induzir a uma resposta pode desestimular o entrevistado a dar suas próprias declarações, que, provavelmente, serão mais ricas de informação. EVITE DAR OPINIÕES PESSOAIS Depois de uma pergunta, é comum o entrevistado dirigir-se ao entrevistador e perguntar: “O que você acha?” ou “Qual é sua opinião?”. É uma forma de ganhar tempo ou de saber o que o jornalista pensa. O mais indicado é o entrevistador não responder e dizer algo como: “O entrevistado é o senhor”. SEJA MAIS DIRETO Se o entrevistado não está contando nenhuma novidade, não está apresentando uma análise inédita e nem fazendo uma declaração original, um caminho possível é ser mais direto: Até agora, o senhor não disse nada de novo. Ou Será desmoralizante eu publicar/exibir uma entrevista sem nada de novo. Ou O senhor se importaria de contar alguma novidade importante? Foi isso que uma repórter fez anos atrás ao entrevistar, em Brasília, um presidente da República – entrevista que ela havia pedido meses antes. A reação do presidente, surpreendido pela altivez da jornalista, foi revelar vários planos e muitas informações que ainda não tinham sido noticiados. EVITE SE DISTRAIR Se a entrevista é na televisão, ao vivo ou gravada, é possível que o entrevistador tenha um ponto eletrônico no ouvido. O ponto poderá ser útil quando o editor quiser pedir ao entrevistador uma pergunta não prevista. É importante o entrevistador não se distrair nem tornar o ponto uma muleta que lhe permita não estar atento para apresentar questões não planejadas, motivadas pelas respostas do entrevistado. ATENÇÃO O silêncio do entrevistado, depois de ouvir uma pergunta ou durante uma resposta, não é um constrangimento. Pelo contrário, muitas vezes, antecede afirmações fortes, originais, importantes. Quando o entrevistado faz uma pausa em busca de uma palavra ou por outro motivo, não complete a frase e o raciocínio por ele. O silêncio pode gerar barulho. SITUAÇÕES INUSITADAS DURANTE A ENTREVISTA Observe algumas situações que podem acontecer: 1) BEBIDA ALCOÓLICA DURANTE A ENTREVISTA E se o entrevistado oferecer bebida alcoólica ao entrevistador? Nãohá nada contra aceitar, mas é recomendável que, nesse caso, o entrevistado também beba. Na hipótese de o entrevistado se embriagar, impõe-se o dever ético de não publicar a entrevista. Seria impróprio reproduzir relatos e opiniões feitos sem sobriedade etílica. Neste caso, a exceção pode existir se o fato de o entrevistado ser quem é, e se embriagar, for em si uma notícia excepcionalmente relevante e não uma fofoca mundana. O pior que pode acontecer é o entrevistado permanecer sóbrio, e o entrevistador se embebedar e perder o rumo. Esse vexame não seria inédito. 2) MAIS UM GRAVADOR: O DO ENTREVISTADO O que fazer se, ao lado dos gravadores do entrevistador, o entrevistado colocar um gravador dele para ter o próprio registro da conversa? A resposta é simples: aceitar. Trata-se de gesto legítimo do entrevistado sob vários aspectos, inclusive o direito de ter prova do que realmente falou. Outra situação é conhecida como Off the records. Veja: No meio da conversa, o entrevistado pede para o entrevistador desligar os gravadores, porque quer confidenciar algo off the records. A decisão depende de observação, critérios e intuição do jornalista. É possível recusar por dois motivos: A razão do encontro é uma entrevista para publicação, e o repórter só quer ouvir o que pode publicar. O entrevistador nota que o entrevistado quer muito contar algo e, com a recusa ao off, talvez fale on the records. Se aceitar desligar o gravador, além de ouvir o entrevistado, o entrevistador deveria oferecer argumentos para o interlocutor se pronunciar publicamente sobre a questão tratada em reserva, desde que ela tenha interesse jornalístico. Em entrevista para TV, YouTube, rádio e podcast, a hipótese não existe. Vale para o jornalismo escrito (em plataformas digitais ou impresso). javascript:void(0) javascript:void(0) O entrevistado pede para que os gravadores sejam desligados OFF THE RECORDS Termo jornalístico para uma declaração ou informação sem registro (sem gravação e sem associação da informação à fonte que a forneceu). Também é chamado, de maneira mais simples, de off. Em alguns casos, a informação pode ser publicada; em outros (o chamado off total), ela serve de base para futuras apurações. ON THE RECORDS Todas as informações que têm permissão do entrevistado para serem registradas e a ele associadas. Mas o que fazer se o entrevistado não permitir que a entrevista seja gravada? RESPOSTA É preciso lhe explicar que a gravação existe em benefício dele, para que suas palavras não sejam distorcidas, alteradas ou descontextualizadas, mesmo sem querer, e, sobretudo, em benefício dos leitores, que têm o direito de receber um relato escrupulosamente fiel ao que foi dito pelo entrevistado. Se for para a elaboração do perfil de outra pessoa, a entrevista poderá ser transformada em conversa em off. Se for uma autoridade pública ou um protagonista da iniciativa privada, o mais adequado será desistir da entrevista, entre outros motivos, porque o jornalista não terá prova do que ouviu, se for acionado na Justiça pelo entrevistado. Esse tipo de atitude – recusar a gravação – tornou-se raríssimo. Ao aceitar o pedido de entrevista, está implícito que se aceita a gravação. QUESTÕES SOBRE PRIVACIDADE Pode ser proveitoso especular sobre questões mais sensíveis em uma entrevista para pensar com mais tempo como se comportar diante de reações bruscas do entrevistado. Vejamos um episódio real: SITUAÇÃO Um repórter inexperiente foi entrevistar um artista de prestígio, que tinha uma doença grave sobre a qual já havia falado publicamente e que interferia em sua produção artística. Ao ouvir o começo da pergunta, o entrevistado repeliu vigorosamente a abordagem, e o repórter passou para a próxima. SOLUÇÃO Ora, o repórter deveria ter dito que o artista tinha muitos admiradores, que numerosas pessoas se preocupavam com a saúde dele, que tinham interesse em saber como evoluía seu trabalho. Deveria argumentar – o que era verdade – que a resposta não se destinava a ele (repórter), mas a um público amplo que guardava muito carinho pelo artista. CONCLUSÃO Não admira que, no mesmo dia, o artista concedeu entrevista para uma repórter experiente e talentosa, para quem falou longamente sobre sua brava luta contra a doença. ATENÇÃO Doenças são um assunto em que o direito da sociedade à informação e o direito da pessoa à privacidade eventualmente conflitam. Essa tensão também se aplica a entrevistas. E como o entrevistador deve se posicionar em relação a doenças? javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) Se o entrevistador descobre que uma personalidade tem uma doença grave, e essa personalidade jamais tornou pública sua condição, será impróprio lhe perguntar diretamente sobre seu estado de saúde. É diferente se ela já abordou publicamente o assunto. No Brasil, há certa tradição, em contraste com o jornalismo dos Estados Unidos, de não falar da saúde de figuras públicas, ainda que sejam ocupantes de posições de poder (o mesmo vale sobre suas vidas amorosas clandestinas). Anos atrás, o governo federal brasileiro teve dois ministros operados para retirada de tumores, e as cirurgias não foram noticiadas, embora conhecidas de vários jornalistas. EXEMPLO Um caso exemplar de informação jornalística correta foi o furo de reportagem sobre o mal que, de fato, afetava o presidente eleito Tancredo Neves, em 1985. A família de Tancredo e os médicos divulgavam que ele, hospitalizado às pressas, sofria de diverticulite. A Folha de S. Paulo prestou um serviço público importante ao revelar que o presidente eleito tinha um tumor. Uma questão privada – a saúde de Tancredo – teria consequências na vida de milhões de pessoas. Era legítimo e necessário contar a verdade. O presidente morreu dias depois da revelação. É fundamental diferenciar interesse público de interesse do público – uma questão de bom senso, da qual trataremos no módulo a seguir. EXEMPLO Em um episódio em que um entrevistador perguntou a um dos dois candidatos do segundo turno de uma eleição majoritária se ele já havia fumado maconha (o jornalista descobriu na pesquisa que, muitos anos antes, o candidato tinha afirmado que sim), a pergunta era de interesse público. Em outras circunstâncias, talvez, a questão constituísse invasão de privacidade. Mas o candidato concorria em uma circunscrição profundamente abalada pelas consequências sociais do tráfico de drogas ilícitas. Nesse caso, o candidato confirmou que já havia fumado maconha. Na plateia, alguém disse: “Ele acaba de perder a eleição”. Centenas de pessoas assistiam ao vivo a entrevista. Nas urnas, o candidato venceu. O outro candidato também foi indagado, mas sua resposta era previsível. Disse que tinha abandonado seu antigo costume de fumar maconha. Ao se candidatar a uma função pública, os limites da privacidade da pessoa passam a ser diferentes dos limites de alguém que prefere ficar à margem de cargos públicos e do exercício deles. Você deve estar se perguntando: Há perguntas proibidas? Se tem caráter jornalístico, nenhuma pergunta é proibida. Representantes do poder, em particular, não têm o direito de vetar, de antemão, questões sobre qualquer tema de interesse público. Eles podem, na entrevista, não responder à pergunta – o que é diferente de um veto prévio e mesmo formal. Nas raríssimas situações em que o entrevistador aceitar previamente o veto a algum assunto, a transparência o obrigará a deixar isso claro para o público: Não perguntaremos sobre o processo judicial X, porque foi condição do entrevistado para aceitar a entrevista. Quando o entrevistado diz, durante a entrevista, que não falará de determinado tema ou de certa pessoa, cabe ao entrevistador indagar por que isso o perturba e o constrange. Um “sem comentários” do entrevistado não deve ser aceito prontamente pelo entrevistador, que insistirá no assunto, se este for importante. “Falar disso não estava combinado” é uma declaração “sem sentido” do entrevistado. Entrevistado pode não responder à uma pergunta Em uma entrevista, contemplado o interesse público, não há pauta jornalística proibida. EXEMPLO Um repórter entrevistava um candidato a prefeito visivelmente contrariado com as perguntas. Um assessor do candidato disse: – Não estava combinado tratar dessas questões. O entrevistador afirmou: – Não estava combinado não tratar. O candidato retruca: – Se você continuar falando disso [seu passado controverso], eu vou me retirar da entrevista [não era ao vivo]. – É um direito seu – disse o entrevistador, que voltou a fazer as perguntas que julgava adequadas. O entrevistado não se retirou. FIM DA ENTREVISTA Fim da entrevista Todo entrevistador experimentado sabe que algumas das declarações mais impactantes são feitas ao fim da entrevista, quando o entrevistador adota uma postura de relaxamento e é acompanhado pelo entrevistado. Nesses momentos, os entrevistados se sentem mais à vontade para falar. O motivo é uma questão mais afeita à psicologia do que ao jornalismo. Mas é o que acontece. Se a entrevista não foi ao vivo, convém combinar com o entrevistado (ou um assessor) um meio ágil (de telefone a WhatsApp e e-mail) para fazer mais uma ou duas perguntas que vierem a ocorrer ou para checar informações ou declarações pouco claras. Quer saber mais sobre a experiência de três renomados jornalistas? Assista ao vídeo abaixo e conheça essas e também reflita sobre a Inspiração X Transpiração. VERIFICANDO O APRENDIZADO MÓDULO 2 Descrever as relações do ethos do entrevistador com a produção jornalística de qualidade A ARTE DE ENTREVISTAR A entrevista jornalística é o meio mais comum de coletar informações, testemunhos, análises e opiniões. Mas a entrevista, em sua plenitude, é mais do que isso: pode ser considerada uma arte. Os bons entrevistadores possuem grandes doses de uma virtude valiosa: criatividade. REFLITA: Veja a seguir um diálogo verídico, ocorrido em algum lugar do passado. Representação de um diálogo verídico A entrevista pode trazer o novo. Não apenas um dado novo, que, em muitos casos, é a própria definição de notícia. Mas um novo olhar, uma nova pergunta, uma nova abordagem sobre o assunto. SAIBA MAIS Dois importantes livros sobre a entrevista resgatam essa ideia: A arte de entrevistar bem, de Thaís Oyama; e A arte da entrevista, coletânea de entrevistas organizada pelo jornalista Fábio Altman. Acesse as referências completas ao final deste estudo. RESPEITO E BOM SENSO É importante pensar no “outro lado”, o que envolve a compreensão do jornalista sobre seu próprio papel. Como afirma Magalhães: NÃO CABE AO JORNALISTA EMULAR JUÍZES DE DIREITO, PROMOTORES E ADVOGADOS. O JORNALISTA NÃO CONDENA, ABSOLVE, ACUSA OU DEFENDE. (MAGALHÃES, 2018) Esse entendimento é prévio e auxiliar na condução da entrevista. REFLITA: Seria despropositado chegar a uma cadeia para entrevistar um matador e dizer: Exemplo de uma situação onde não ocorreria a entrevista A entrevista não ocorreria. O entrevistado suspeito, acusado ou condenado por crime, merece o mesmo tratamento escrupuloso do entrevistador no que se convencionou chamar de entrevista para noticiar o “outro lado” – a “outra versão”. EXEMPLO O clássico A sangue frio (1965), do escritor norte-americano Truman Capote, foi baseado, especialmente, em entrevistas com dois assassinos encarcerados. Eles haviam matado quatro pessoas da mesma família. javascript:void(0) TRUMAN CAPOTE Premiado escritor e jornalista americano, autor da obra de ficção intitulada Bonequinha de luxo (1958), além de contos e peças. É um dos expoentes do new journalism, também chamado de jornalismo literário, por usar técnicas literárias na composição de reportagens. Truman Capote A entrevista não deve ser encarada como um registro protocolar de alguém que sabidamente fez algo errado. Muitas vezes, um “outro lado” bem feito, com curiosidade e rigor, derruba a matéria principal. EXEMPLO Se um relatório de órgão público mostra que sumiu determinada quantia em recursos, há uma pauta. Se o responsável pela guarda de tais recursos prova, na entrevista do “outro lado”, que a verba foi gasta de modo legal, não há matéria, ou melhor: há matéria sobre o erro de um relatório oficial. A entrevista do “outro lado” é direito do entrevistado, de ter sua versão divulgada, e do público, de conhecê-la. Muitas vezes, um “outro lado” bem feito reforça a reportagem devido à inconsistência das alegações do entrevistado. ATENÇÃO Se o entrevistado diz que não ocupava determinado cargo público em tal época, não cabe ao entrevistador chamar-lhe de mentiroso. O apropriado é: – Não é o que diz o Diário Oficial, que mostra... Entrevista do “outro lado” não pode ser formalidade. É fundamental que o jornalista tenha espírito crítico. Em 1994, algumas mães e um delegado de polícia denunciaram, em São Paulo, proprietários e funcionários da escola Base por abuso sexual de crianças. O jornalismo serviu como porta-voz acrítico de tal versão. As pessoas suspeitas tiveram suas vidas destruídas. Logo, ficou evidente, acima de qualquer dúvida, que elas eram inocentes. INTERESSE PÚBLICO X INTERESSE DO PÚBLICO É essencial diferenciar estas duas expressões: Interesse público Informação relevante para a vida dos cidadãos. Interesse do público Informação que chama a atenção, tem audiência, mas não terá consequências na vida de ninguém. Vejamos alguns exemplos: EXEMPLO 1 Um repórter descobriu que uma pessoa candidata em eleição tinha sua campanha orientada por outra que agia à sombra. Ao entrevistá-las, perguntou como isso funcionava politicamente. O repórter noticiou o segredo político (havia interesse público), mas omitiu outra informação que havia descoberto – esta sem interesse público: as duas pessoas, uma delas casada, tinham estabelecido um relacionamento amoroso. A informação tinha potencial gigantesco de interesse do público, mas, se publicada, configuraria descabida invasão de privacidade. Volta-se, aqui, à questão do bom senso, indispensável para entender quando não há interesse público que sustente a abordagem jornalística de questões privadas. EXEMPLO 2 Um repórter gravava para jornalismo escrito uma entrevista com um governante, quando ele começou a fazer deselegantes considerações acerca da vida sexual do sucessor eleito. A entrevista era on the records. Por isso, foi gravada. Ao ouvir os comentários do governante, o entrevistador apontou para o gravador e disse: – Está gravando. O entrevistado retrucou: – E é óbvio que isso é em “off”. O entrevistador poderia ter sido leviano e ter publicado o que o entrevistado havia dito, sem chamar sua atenção para o gravador. Mas não o fez. Mesmo que o entrevistado não tivesse esclarecido o caráter reservado das maledicências, o entrevistador não deveria publicá-las. Elas teriam enorme interesse do público, mas careciam de interesse público. NÃO SUBESTIME O ENTREVISTADO Uma das lições do método de trabalho de Svetlana Aleksiévitch é a convicção de que entrevistados sempre terão o que contar, ainda que a expectativa possa eventualmente se frustrar. SVETLANA ALEKSIÉVITCH Jornalista e escritora bielorrussa, entrevistadora exemplar, que faz da entrevista os alicerces de seus livros de não ficção. É autora de obras como A guerra não tem rosto de mulher (1985) e Vozes de Tchernóbil (1997). Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 2015. javascript:void(0) Svetlana Aleksiévitch Jamais subestime seu entrevistado. Por mais previsível que ele seja, pode surpreender. Especialmente se o entrevistador souber estimulá-lo a falar. Esportistas, por exemplo, costumam fazer declarações semelhantes, basicamente lugares-comuns, em entrevistas depois da conquista de títulos. Mas a experiência mostra que não é sempre assim. EU SOU O ÚLTIMO DOS MOICANOS. Toninho Cerezo, na conquista do Mundial Interclubes pelo São Paulo, em 1993. COMO DIRIA O FRANK SINATRA, “IT’S MY WAY”. Carlos Alberto Parreira, no tetrada seleção, em 1994, ao se negar a atacar seus críticos, dizendo “Esse é o meu jeito”. SOU O DEUS DA BOLA. Túlio, em 1995, quando o Botafogo venceu o Campeonato Brasileiro. VOCÊS VÃO TER QUE ME ENGOLIR. Zagallo, técnico da seleção brasileira, no triunfo da Copa América de 1997. Mesmo entrevistados que já deram antes incontáveis entrevistas não devem ser menosprezados. O que parece “notícia velha” pode ser uma pauta promissora à espera de revelações. VAMOS VER UM CASO? O caso da entrevista com Luís Alexandre Velasco – único sobrevivente de um naufrágio –, realizada por Gabriel García Márquez: GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ Expoente do realismo mágico latino-americano, Prêmio Nobel de Literatura (1982), García Márquez foi escritor e jornalista. Sua obra mais conhecida é Cem anos de solidão (1967). Gabriel García Márquez Em 1955, oito tripulantes de um navio de guerra da Colômbia morreram ao cair no mar do Caribe durante uma tormenta – era a notícia veiculada à exaustão e endossada pelos marinheiros que continuaram a viagem dos Estados Unidos à cidade colombiana de Cartagena. O único sobrevivente dos náufragos, Luís Alexandre Velasco, foi encontrado moribundo, dez dias após a tragédia. Sobreviveu. Velasco foi entrevistado numerosas vezes e consagrado como herói, assim como os sete colegas mortos. Até que se deparou com o repórter Gabriel García Márquez, de então 28 anos, do jornal El javascript:void(0) Espectador, de Bogotá. Em 20 sessões de entrevistas, que duraram, em média, seis horas, Velasco contou a história que foi editada como depoimento pelo jornal no transcorrer de 14 dias consecutivos. A grande habilidade do entrevistador permitiu desmascarar um engodo. Os marinheiros caíram mesmo do navio quando o contratorpedeiro virou. Mas havia segredos: Não houve tormenta. A embarcação estava com excesso de peso, provocado pelo contrabando que os tripulantes transportavam. Com o vento forte e o mar agitado, a carga se soltou e empurrou os marinheiros para o mar. Tudo isso Velasco contou a García Márquez, que cruzou as informações (por exemplo, com o serviço de meteorologia) e as confirmou. Entrevista presencial HUMILDADE E AMBIÇÃO, PERSISTÊNCIA E POLIDEZ Não subestimar o entrevistado é uma postura de humildade. Assim como entender que é ele o centro da entrevista (e não o entrevistador). Cabe ao jornalista obter respostas jornalisticamente valiosas do entrevistado, que é o cerne das atenções. O entrevistador quer saber o que o outro tem a dizer, o que pensa. Em diferentes aspectos, a entrevista é um ato de humildade do jornalista, que tem de combinar humildade com ambição – a ambição de fazer uma boa entrevista. Jornalista não é influencer. O influencer tem compromisso com o gosto médio de seus fãs. O jornalista tem compromisso com a informação de relevância pública, independentemente de ela agradar ou não a quem a recebe. Outro ponto que tem a ver com humildade advém de um velho bordão de redações jornalísticas, segundo o qual “é melhor manifestar sua ignorância ao entrevistado do que a seu chefe”. O diagnóstico é correto: quem não entende uma informação não é capaz de transmiti-la e explicá-la. O erro está em concentrar o problema na relação corporativa hierárquica. É melhor manifestar sua ignorância ao entrevistado do que a seu público. Em outras palavras, quando o entrevistado for pouco claro ao fazer uma análise, expor uma opinião, ou contar de modo confuso um episódio, não se constranja. Diga: Em caso de dúvida, o entrevistador deve perguntar ao entrevistado Se a incompreensão permanecer, insista. Enfatize que não se trata de problema pessoal. O jornalista presta um serviço de caráter público: informar. “O leitor não entenderá” e “O telespectador não entenderá” são maneiras de mostrar ao entrevistado que a afirmação que parece límpida a ele é, para outros ouvidos, obscura. Em alguns casos, o entrevistador tem de ser persistente, quando o entrevistado resiste a tratar de certos temas, mas deve evitar ser inconveniente. Pode haver, contudo, diferenças na percepção de entrevistador e de entrevistado sobre o que é comportamento inconveniente. ATENÇÃO No limite, é possível ser inconveniente aos olhos do entrevistado, mas sem perder a polidez. A persistência também pode ser útil em alguns casos para se conseguir uma entrevista. Há ocasiões em que é preciso bater mais de uma vez em uma mesma porta. ARTE DA ENTREVISTA OU EXERCÍCIO DA SEDUÇÃO García Márquez (2012) tem uma frase que faz pensar: “Quando alguém se entedia escrevendo, o leitor se entedia lendo”. Por analogia, quando alguém se entedia entrevistando, o público (leitores, telespectadores, ouvintes, internautas, seguidores) se entedia com a entrevista. Como já vimos, na entrevista, nenhuma pergunta é proibida, considerando o interesse público – jornalístico – do assunto. A confiança conquistada pelo entrevistador por conta de sua trajetória profissional ou pela seriedade com que um novato conduz a conversa contribui para a apresentação de questões “duras” sem maiores sobressaltos. Oriana Fallaci dizia que fazia muitas perguntas que colegas evitavam: ORIANA FALLACI Renomada jornalista italiana, uma das mais notáveis entrevistadoras da história do jornalismo, famosa por suas entrevistas com personalidades históricas, como o diplomata americano Henry Kissinger (1923-), o líder político religioso aiatolá Khomeini (1902-1989), o líder sindicalista e presidente da Polônia Lech Walesa (1943-), a primeira-ministra da Índia Indira Gandhi (1917-1984) e muitos outros. javascript:void(0) Oriana Fallaci ALGUNS REPÓRTERES SÃO CORAJOSOS SOMENTE QUANDO ESCREVEM, QUANDO ESTÃO SOZINHOS COM SUAS MÁQUINAS DE ESCREVER [HOJE SERIAM COMPUTADORES], MAS NÃO QUANDO ESTÃO DIANTE DE UMA PESSOA NO PODER. ELES NUNCA FORMULAM UMA QUESTÃO ASSIM: 'COMO O SENHOR É UM DITADOR, TODOS SABEMOS QUE É UM CORRUPTO. EM QUE MEDIDA O SENHOR É UM CORRUPTO?' (Fallaci apud Campos, 2018) A conexão de Fallaci com os entrevistados foi decisiva para seus êxitos jornalísticos. Seu método foi analisado pela jornalista Diana Loercher: ELA FACILMENTE ESTABELECE UMA ATMOSFERA DE CONFIANÇA E PROXIMIDADE E CRIA A IMPRESSÃO DE QUE ELA LHE FALARIA QUALQUER COISA. CONSEQUENTEMENTE, VOCÊ SE SENTE SEGURO, OU QUASE SEGURO, PARA FAZER O MESMO COM ELA. (CAMPOS, 2018) A confiança de entrevistados nos entrevistadores já produziu episódios jornalísticos controversos. Em 1979, o médico Jeffrey MacDonald foi condenado pela morte, nove anos antes, da esposa grávida e de duas filhas. Ele alegou inocência. Também em 1979, convidou o jornalista Joe McGinniss para escrever um livro sobre o caso e o integrou à sua defesa judicial para que pudesse ter pleno acesso a documentos. MacDonald tinha certeza de que o livro seria um libelo a seu favor, pois o jornalista sempre deu a entender que acreditava que ele era inocente. Lançado em 1983, Fatal Vision, o livro de McGinniss, sustentou que MacDonald era um psicopata e que havia mesmo chacinado a família. LIBELO Exposição jurídica argumentando contra ou a favor de um acusado, mas o termo é usado em sentido conotativo para dizer que alguém fez uma defesa de algum assunto. Em um robusto ensaio sobre o episódio, a jornalista Janet Malcolm apontou-o como síntese de falta de ética jornalística. Assim começa o texto, depois editado em livro com o título de O jornalista e o assassino: QUALQUER JORNALISTA QUE NÃO SEJA DEMASIADO OBTUSO OU CHEIO DE SI PARA PERCEBER O QUE ESTÁ ACONTECENDO SABE QUE O QUE ELE FAZ É MORALMENTE INDEFENSÁVEL. ELE É UMA ESPÉCIE DE javascript:void(0) CONFIDENTE, QUE SE NUTRE DA VAIDADE, DA IGNORÂNCIA OU DA SOLIDÃO DAS PESSOAS. TAL COMO A VIÚVA CONFIANTE, QUE ACORDA UM BELO DIA E DESCOBRE QUE AQUELE RAPAZ ENCANTADOR E TODAS AS SUAS ECONOMIAS SUMIRAM, O INDIVÍDUO QUE CONSENTE EM SER TEMA DE UM ESCRITO NÃO FICCIONAL APRENDE – QUANDO O ARTIGO OU LIVRO APARECE – A SUA PRÓPRIA DURA LIÇÃO. (MALCOLM, 2011). Embora estimule debates legítimos, tal passagemé, sobretudo, uma provocação saudável, considerando que, em uma sociedade democrática, o jornalismo tem de ser objeto de exame público. O autor do livro sobre os homicídios preferiu contar o que apurou ser a verdade, em vez de mentir para favorecer o protagonista. Como jornalista, seu compromisso social era com os cidadãos ou com seu entrevistado e fonte? Poucas vezes, durante a apuração do livro-reportagem, um jornalista conseguiu estabelecer uma conexão como a que McGinniss obteve com MacDonald. Condenado à prisão perpétua, o assassino permanece encarcerado. A conexão entre entrevistado e entrevistador é um componente fundamental do que se pode denominar dialética da entrevista jornalística. DIALÉTICA Na filosofia hegeliana, (i.e., de Friedrich Hegel, 1770-1831), a dialética é um método ou processo para descrever o movimento do pensamento humano, da história, entre outras realidades, marcado por três momentos sucessivos: Tese: primeira situação; Antítese: que contradiz a primeira; Síntese: resultado da resolução entre as duas anteriores. javascript:void(0) O desempenho do entrevistador (tese) influi no desempenho do entrevistado (antítese), e vice-versa. O resultado da entrevista (síntese) é a soma do desempenho dos dois. Cabe ao jornalista conquistar a confiança do entrevistado. A entrevista é um exercício de sedução. COMENTÁRIO Existe entrevistado que fala muito, e há o que fala pouco. O que esconde o que fez, e o que exagera ou inventa o que (não) fez. O que é sincero, e o que omite ou é insincero sobre suas opiniões. O que fala muito e não diz nada, e o que fala pouco e diz muito. Entrevistado, na condição de ser humano, tem de todos os tipos. Cabe ao entrevistador se adaptar às características dos entrevistados e tentar extrair o melhor de cada um – jornalisticamente falando. CONFIANÇA, EMPATIA, SENSIBILIDADE Quanto mais confiança o entrevistador transmitir ao entrevistado, mais este se disporá a revelar informações, pensamentos e sentimentos. É como um ato de confissão: contamos o que sabemos, pensamos e sentimos a quem reconhecemos como digno de nossa confiança. É possível realizar ótimas entrevistas com choques entre entrevistador e entrevistado. Mas as melhores são as que estabelecem interação intensa, empatia, sem que um e outro permaneçam entrincheirados. O entrevistador necessita de sensibilidade e intuição para transformar a conversa em um ato confessional. A qualidade do diálogo, entre o precário e o pleno, estabelecerá a qualidade da entrevista. Para haver diálogo, o entrevistador, mais do que saber perguntar, deve ter o talento de ouvir o entrevistado. Um burocrata que somente apresenta as perguntas do questionário-roteiro não prestará atenção nas respostas do entrevistado. Elas podem conter informações que ajudem a formular novas perguntas, capazes de levar às declarações mais impactantes da entrevista. O entrevistador precisa passar confiança ao entrevistado Assim como de um editor de livros se exige ser um leitor atento, o entrevistador se obriga a ser um ouvinte determinado. Para você não se desconcentrar e encorajar o entrevistado a falar o que hesita, olhe-o nos olhos. Entrevista sem olho no olho dificilmente é boa. Um ponto que pode ajudar é mostrar curiosidade pelo que o entrevistado fala, mesmo que isso não venha a ser aproveitado na edição da entrevista e que, pessoalmente, não lhe interesse. DICA Se o entrevistado quiser mostrar-lhe a coleção de armas ou seu estoque de incensos, aceite com entusiasmo – ainda que você seja pró-desarmamento, odeie o aroma de incensos ou seja alérgico. A atitude é legítima – recurso aceitável de quem busca a melhor empatia com o entrevistado. Essa conexão/harmonia é o que se chama em francês de rapport. O bom entrevistador se empenha por ela. Uma lição do que fazer, na adversidade, veio da jornalista Claudia Dreifus – célebre entrevistadora e professora da Columbia University. Ela estava na quinta sessão de entrevistas com Dan Rather, na apuração para escrever o perfil do âncora da emissora CBS, mas ainda se sentia muito distante dele. Disse-lhe, então: – Isso não está funcionando. Dan Rather concordou e a convidou para visitar em sua companhia lugares caros à história dele. A conexão deu um salto de qualidade. POSTURA ATIVA Grandes entrevistas têm dinâmica. Há a hora da razão, da emoção, da risada, de falar do passado, do presente e do futuro, às vezes misturando um pouco de tudo. A entrevista é um simulacro da vida. Não se esqueça de que entrevistador não é debatedor. Não se comporta nem como adversário nem como partidário do entrevistado, por mais que suas opiniões possam coincidir ou colidir. Além disso, ele não é hostil. Mas o entrevistador tampouco é acrítico. Mantém postura ativa. Ao ouvir algo que lhe parece despropositado, contrapõe fatos e ideias. A entrevista é diálogo, e não monólogo do entrevistado. Caso contrário, bastaria a ele fazer um pronunciamento via YouTube ou pelo aplicativo de vídeo IGTV do Instagram. O talento de ouvinte do entrevistador serve para prestar atenção no que o entrevistado fala, e não para assisti-lo passivamente. Na condição de jornalista, o entrevistador está a serviço do público. EXEMPLO Se o entrevistado afirma que, em vez de salvar vidas, a vacina contra a febre amarela mata, cabe ao entrevistador contrapor as provas científicas que evidenciam ser um absurdo o que o entrevistado diz. Nessa situação, seria oportuno indagar: O senhor tem noção de que, com a informação falsa que está divulgando, pode levar muitas pessoas a não se vacinar, contrair a doença e morrer? O jornalista não é adversário do entrevistado, mas não é levantador de bola. O espírito crítico do jornalismo, de fiscal do poder, também deve prevalecer na entrevista. Se o entrevistado defende determinadas ideias, concordemos ou não com elas, mais apropriado do que enunciar nosso pensamento é dizer: Fulana ou Sicrano pensa diferente. Afirma que... EXEMPLO Se um entrevistado, em nome de uma empresa aeroportuária, convoca uma entrevista para anunciar um novo voo para o exterior, o jornalista deve pedir informações sobre essa iniciativa, mas também questionar sobre a perda de muitos voos nos meses anteriores. SURPREENDA O ENTREVISTADO Entrevista previsível quase sempre equivale à entrevista ruim. O jornalista faz as perguntas que outros entrevistadores já fizeram várias vezes, e o entrevistado responde do mesmo modo. Se ocorrer o contrário, e o entrevistador surpreender o entrevistado (dentro das medidas do bom senso, é claro), provavelmente, surpreenderá também o público. Vejamos alguns exemplos de surpresas que renderam boas entrevistas: EXEMPLO 1 Um consagrado historiador brasileiro tinha o hábito de falar com a mesma formalidade com que escrevia. Entrevistas com tempero mais humano com ele eram complicadas, entre outros motivos, porque o historiador priorizava interpretações e análises. Em uma entrevista para uma biografia de um amigo já falecido do historiador, a conversa não fluía, não havia novidades. O entrevistado era um homem muito formal. Até que o entrevistador o surpreendeu: – Fulano era bonito? – Como assim? – reagiu o entrevistado. – Bonito, ora – respondeu o entrevistador. A partir desse momento, o historiador aventurou-se por novos horizontes, contando fatos e impressões sem maior valor para uma biografia ensaística ou acadêmica, porém importantes para uma biografia jornalística, que nada mais é do que uma grande reportagem. EXEMPLO 2 Um empresário brasileiro de fama mundial já havia dado um sem-número de entrevistas sobre sua trajetória. Por maior que fossem a criatividade do entrevistador para formular perguntas e o talento para obter confidências, a perspectiva era que, na entrevista, não houvesse novidades. Ela seria feita na apuração para um perfil do entrevistado. Dias antes da entrevista, o repórter descobriu que o pai do empresário havia se casado novamente em segredo fazia pouquíssimo tempo.Até então, tinha escondido a informação do filho famoso. O entrevistador sabia do desconhecimento do filho e, na entrevista, com dois gravadores sobre a mesa do restaurante onde jantavam, perguntou: – Você [o entrevistador era poucos anos mais jovem do que o entrevistado] sabia que seu pai se casou em um cartório duas semanas atrás? O entrevistado tomou um susto e quis saber como o entrevistador havia descoberto aquilo. O jornalista preservou a fonte da informação e não a identificou. A surpresa teve tal impacto que o entrevistado relaxou diante de alguém que sabia tanto sobre sua família. As revelações do empresário sobre seu passado feitas na entrevista foram usadas até em livros. O perfil foi publicado em jornal. EXEMPLO 3 Nas décadas de 1950 a 1970, várias gerações conheceram revistinhas com desenhos pornográficos assinadas por um tal Carlos Zéfiro. Eram chamadas maliciosamente de “catecismos”. Nunca se soube quem se escondia atrás do pseudônimo. Até que o jornalista Juca Kfouri recebeu a informação de que se tratava de um funcionário público de nome Alcides Caminha, de alguma fama por ter assinado sambas – um deles A flor e o espinho, com os compositores brasileiros Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Kfouri procurou Alcides Caminha em 1991 para, alegadamente, conversar sobre a relação com Nelson Cavaquinho. E, assim, a conversa fluiu por mais de uma hora – tática para não tocar logo no assunto mais delicado. Até que, de supetão, o repórter falou: – Seu Alcides, e o Zéfiro? O entrevistado se surpreendeu, resistiu, mas acabou confirmando o que era um velho segredo. Se tivesse antecipado qual era sua pauta real, Kfouri talvez não tivesse nem sido recebido. Deixou a surpresa para a hora certa e escreveu uma reportagem antológica. Assista no vídeo exemplos da boa condução da entrevista. VERIFICANDO O APRENDIZADO CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS A arte de entrevistar envolve muitos aspectos e, como toda arte, requer técnica, dedicação e sensibilidade. Algumas questões são bem práticas, como alinhar com o fotojornalista ou cinegrafista a angulação da conversa e o tom da reportagem, ou fazer uma ou duas perguntas de cada vez para ter domínio na condução do diálogo. Outras são mais subjetivas, como sentir o momento certo de fazer determinada pergunta, ou por que caminho gerar empatia. Há, ainda, aquelas que são uma mistura dos dois: avaliar até onde vai o direito de uma pessoa pública à privacidade; e saber que não há pergunta jornalística proibida. A distinção entre interesse público e interesse do público é importante para se ter segurança em todo o processo da entrevista, desde a pauta até a edição final. A curiosidade e o espírito crítico também são fundamentais em sua condução e embasam quaisquer variações de abordagem ao longo da entrevista. PODCAST AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ALTMAN, Fábio. (org.). A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias. Tradução de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosane Pauseiro Pousada. São Paulo: Scritta, 1995. CAMPOS, D. 4 principles of interviewing. The future of NYC, mar. 2018. CAPOTE, Truman. A sangue frio. São Paulo: Companhia das Letras, 1965. GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Relato de um náufrago. Tradução de Remy Gorga Filho. 27. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Gabo periodista: antología de textos periodísticos de Gabriel García Márquez. Bogotá: Editorial Maremágnum, 2012. MAGALHÃES, Mário. Pequeno dicionário de grandes personagens da República – Jornalista. Revista Serrote, São Paulo, n. 29, jul. 2018. MALCOLM, Janet. O jornalista e o assassino: uma questão de ética. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. OYAMA, Thais. A arte de entrevistar bem. São Paulo: Contexto, 2014. TALESE, Gay. O reino e o poder: uma história do New York Times. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. EXPLORE+ Os livros de reportagem contam com inúmeras entrevistas, mesmo que não tenham formato de pergunta e resposta. Leia-os com o olhar e a curiosidade de “como quem escreveu o livro deve ter conduzido as entrevistas ali contidas”. Sugerimos que se aprofunde na leitura de algumas obras listadas nas referências deste tema: Duas entrevistas de Oriana Fallaci estão, na íntegra, na obra A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias, organizada por Fábio Altman. Dicas de Fred L. Zimmerman, do Wall Street Journal, sobre a entrevista podem ser lidas na obra de D. Campos, 4 principles of interviewing. A série de reportagens para o jornal El Espectador, escrita por Gabriel García Márquez, está reunida no livro Relato de um náufrago. A reconstituição dos bastidores da reportagem do jornalista do New York Times, McCandlish Phillips, sobre Daniel Burros, citada no Módulo 1, é contada por Gay Talese na obra O reino e o poder: uma história do New York Times. CONTEUDISTA Mário Magalhães Jornalista e escritor, trabalhou nos jornais Tribuna da Imprensa, O Globo, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo – diário do qual foi repórter especial, colunista e ombudsman. Manteve um blog no portal UOL e uma coluna no site The Intercept Brasil. Recebeu 25 prêmios jornalísticos e literários no Brasil e no exterior. Entre eles, Every Human Has Rights Media Awards, Grande Prêmio Esso de Jornalismo, Prêmio da Associação Interamericana de Imprensa e Prêmio Jabuti. Foi professor de dois MBAs da Fundação Getúlio Vargas: Cinema documentário e Jornalismo investigativo.