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A poliomielite, também conhecida como pólio ou paralisia infantil, é uma doença contagiosa aguda, o que evidencia sua natureza de transmissão vertiginosa por meio de agentes infecciosos, neste caso sendo proveniente de um vírus intestinal de nome Poliovírus. O vírus da poliomielite pode acometer tanto crianças quanto adultos, se utilizando de contato direto com dejetos ou secreções bucais como meio de propagação, normalmente, os sintomas referidos são febre, mal-estar, dor de cabeça, de garganta e no corpo, vômitos, diarreia, constipação ou prisão de ventre, espasmos, rigidez na nuca além de meningite. Em casos mais graves e singulares, provoca flacidez muscular (paralisia), atingindo comumente os membros inferiores (SECRETÁRIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE, 2010; FIOCRUZ, 2022; MINISTÉRIO DA SAÚDE, s.d.). No Brasil, por mais que existissem registros de eventuais casos de poliomielite remontando o final do século XIX, foi somente em 1911 que se deu a primeira descrição de um surto em território nacional, essa realizado pelo pediatra carioca Fernandes Figueira. O também diretor da Policlínica de Crianças examinando 39 casos ao todo e habituado com a bibliografia estrangeira constatou que, entre o período de 1909 e 1911 decorreu no país o primeiro episódio da poliomielite epidêmica (FIGUEIRA, 1911: 58; apud CAMPOS, A. L. V, 2000). Mais tarde, em 1917, o Dr. Francisco de Salles Gomes Júnior registrou um segundo incidente da doença em Vila Americana, estado de São Paulo, cujo dos 17 casos presenciados, dois vieram a óbito (GOMES JR, 1919:11; apud CAMPOS, A. L. V, 2000). Salles Gomes, em vista do crescimento do número de ocorrências e da presença de particularidades frisadas em surtos ocorridos em outras partes do mundo foi concludente ao afirmar que se tratava novamente de uma epidemia (GOMES JR, 1919; apud CAMPOS, A. L. V. et al. 2003). Em virtude da epidemia de 1917, em 29 de dezembro daquele ano promulgou-se a Lei 1596 da qual reestruturou o Serviço Sanitário de São Paulo tornando a partir de agora, mediante ao artigo 231, a poliomielite de notificação obrigatória. Diante desse contexto, nota-se uma considerável atenção do estado brasileiro tendo em conta a paralisia infantil via gestão paulista. Ambos os médicos foram capazes de, mais do que ponderar as respectivas manifestações em suas localidades, dar uma resposta adequada as mesmas tendo em conta a época da qual se situava. Essa conduta foi possível graças a familiaridade de Figueira e Salles Gomes com os trabalhos de Flexner e Lewis a respeito da poliomielite importados para o Brasil mediante a periódicos especializados como o Brazil Medico. A coluna intitulada Imprensa Medica Estrangeira da edição de 1910, realça que a moléstia é contagiosa declarando portanto que os infectados por ela devem ser isolados. Além disso aponta que: As experiencias de Flexner (dos Estados Unidos) tendem a provar que o vírus da polyomyelite epidemica é encontrado em grande quantidade na membrana mucosa da naso-pharynge, e que, portanto, as secreções da garganta e do nariz devem ser uma das fontes principaes do contagio (BRAZIL MEDICO, 1910, p.467) Por mais que o modelo de Flexner e Lewis dota-se de credibilidade entre as autoridades, ele não era um consenso. Uma outra hipótese que circulava deliberava à mosca domestica o papel de vetor da poliomielite, dessa forma a mesma buscava alicerces na ideologia do higienismo para sustentar suas ideias ao mesmo tempo em que explicava a transposição da enfermidade para outras classes sociais se não as menos abastadas (ROGER, 1996, p.114 apud CAMPOS, A. L. V. et al. 2003). O movimento higienista até a metade do século XX detinha um caráter social, à medida que almejava a conscientização do indivíduo de modo que este estabelece um porte de zelador consigo mesmo e os demais referentes as questões sanitárias. Ademais, os adeptos desta corrente enxergavam nestas adversidades problemas de grande pertinência para a nação (FERNANDA, Priscila Dantas; OLIVEIRA, Kécia Karine S. de; s.d.). Posteriormente a estas epidemias iniciais do início do século XX nas cidades de Americana e Rio de Janeiro outras eventos surtiram em 30 e 40. Em 1953, novamente no Rio de Janeiro se dá mais uma ocorrência da doença, contudo essa vêm a se configurar como a maior epidemia da doença até então documentada no país (MINISTÉRIO DA SAUDE, 1988). A partir de então quadros como este passaram a escalar, em tamanho e frequência, como resultado desta propagação ouve também uma crescente ânsia da população por medidas políticas efetivas perante transtorno que se instaurava. Foi diante deste cenário que os veículos de imprensa se incumbiram de noticiar as respostas das autoridades cabíveis em frente a essa crise de saúde, e é com base na mídia do período que verificamos a sucessão de uma espécie de ‘roteiro’ defendido por Charles Rosenberg (1992). O historiador da medicina americano compreende as epidemias como fenômenos sociais as quais estão condicionadas a uma forma dramaturga, se instanciando em determinado ponto da história, se colocando no palco por um intervalo limitado de espaço e tempo, convergindo para o seu clímax e subsequentemente se encerrando. Nesse progresso, uma epidemia passa por quatro estágios fundamentais. Sendo o primeiro deles chamado ‘revelação progressiva’, consistindo sua instauração pequena em tamanho e expressão cuja habitualmente a sociedade responde a ela como em um ‘susto’, que gera uma preocupação e desconforto momentâneo todavia, consecutivamente se escolhe por ignora-la até quando esta adquiri uma outra fisionomia de impossível desdenho. Rosenberg argumenta essa reação ocorre pela ameaça que o reconhecimento de distúrbio público apresentaria para interesses econômicos e institucionais, de modo mais íntimo a segurança e complacência dos sujeitos. O segundo é intitulado ‘gerir aleatoriedades’ e compreende justamente o que o nome sugere, correspondendo as implicações derivadas da admissão da doença. A essa altura as autoridades buscam respostas perante ao problema de acordo valores e crenças vigentes na ocasião. Até a idade média as epidemias eram encaradas exclusivamente segundo uma relação moral e transcendental do homem e Deus. A Londres de 1665 a exemplo, foi afetada por uma grande epidemia de peste bubônica, das quais muitas comunidades viam na peste como um castigo divino, interpretando-a como consequência de pecados ou falhas morais. Outras acreditavam que era uma prova de fé ou um sinal do apocalipse. Contudo, a partir do século XVI estas explicações divinas passaram a concomitar com as de cunho cientifico. A terceira fase abrange aos movimentos comunitários suscitados pelas conclusões originadas anteriormente, rotinas religiosas, medidas sanitárias ou políticas das quais o engajamento da população com estas ações reforça a crença da mesma em contornar a respectiva epidemia fundada. A quarta e última etapa remete-se as marcas deixadas após a superação da crise, quais diligências fixas são desempenhadas após o debelar e quais alterações sociais esta reflete na comunidade (ROSENBERG, op. cit., pp. 280-292). Este primeiro ato alegado pelo historiógrafo é perceptível diante da epidemia que ocorreu entre janeiro e julho de 1937 em Santos, estado de São Paulo (VIEIRA, 1948). A princípio tais acontecimentos da ‘terrível moléstia’ eram divulgadas por meio boatos dos quais enfatizavam a todo o momento as proporções dos fatos, se estendendo desse modo além das extremidades do município. Foi assim sendo, que o diário O Estado de São Paulo recorreu ao então delegado de Saúde de Santos, Castro Simões, para conferir uma resposta perante a gravidade e a grande quantidade de casos de paralisia infantil na cidade. Simões buscou reduzir a verdadeira magnitude do episódio afirmando que “Trata-se, na verdade, de uma exacerbação da molestia que existe endêmica em Santos como na capital e em outras cidades”, em sequência assegurou que “até a presente data não podemos affirmar que se trata de uma epidemia” (O ESTADO DE SÃO PAULO, 30 de Julho de 1937,p.4). Dois anos mais tarde, em 1939, outra vez no Rio de Janeiro, capital da Republica figurava novamente uma proeminente epidemia do poliovírus cuja Décio Parreiras, diretor do Serviço de Saúde do Distrito Federal (1942, p.155; apud CAMPOS, A. L. V. et al. 2003), ponderou anos depois seu número de notificações oficiais com os apresentados entre 1920 e 1938, apurando que a somatória de ocorrências era 6,5 vezes maior e que seu total de óbitos denotava mais de um terço dos falecimentos registrados pela doença nos 20 anos antecedentes. Concluindo assim que esses dados legitimaram o grande desespero que a cidade manifestou naquele período. Contudo, por mais que as circunstâncias estivessem rumando para um ponto de difícil desprezo dado o escalonamento do número de adoentados, o diretor do Departamento Nacional de Saúde, Dr. Samuel Libano deu alegações no sentido de atenuar a situação, segundo o próprio “não ha nenhum surto epidemico do mal, nem aqui nem nos Estados, registrando-se, apenas, um pequeno accrescimo na incidencia da molestia, o que, entretanto, não justifica nenhum alarde”, dizendo ainda que “É de notar, porém que o surto occorrente não têm as proporções de uma epidemia, não havendo razão para que se inquiete a população”, “A doença é de notificação compulsoria. Todos os casos verificados estão mantidos em isolamento hospitalar ou domiciliar”. Por fim, ele finaliza declarando que a vida escolar poderia seguir a normalidade todavia era sugerido as crianças menores que evitassem aglomerações em espaço público (CORREIO DA MANHÃ, 19 de outubro de 1939, p.3). Mais adiante em 1953, esse comportamento negacionista se repetia agora em conformidade com o Departamento de Higiene da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. A direção do mesmo informou não haver nenhuma epidemia de paralisia infantil argumentando que “alguns casos estão rigorosamente dentro da incidência habitual para esta época do ano” (CORREIO DA MANHÃ, 1 de janeiro de 1953, p.2). Nessa altura, enquanto no Brasil as autoridades seguiam opondo-se aos fatos, nos Estados Unidos os pesquisadores davam passos largos rumo ao desenvolvimento de uma vacina contra a poliomielite. A primeira vacina, desenvolvida por Jonas Salk na década de 1950, foi baseada em uma abordagem inativada do vírus. Salk e sua equipe cultivaram grandes quantidades do vírus da poliomielite e, em seguida, inativaram-no quimicamente para que não pudesse causar a doença, mas ainda desencadeasse uma resposta imunológica. Os ensaios clínicos da vacina de Salk foram conduzidos em uma escala massiva em 1954, envolvendo mais de um milhão de crianças. Os resultados foram altamente positivos, demonstrando a eficácia da vacina na prevenção da poliomielite. Por outro lado, Albert Sabin adotou uma abordagem diferente. Ele desenvolveu uma vacina oral que utilizava vírus vivos atenuados. A vacina oral de Sabin foi administrada por via oral, proporcionando uma imunidade mais robusta e duradoura. Os ensaios clínicos começaram na década de 1950, e a vacina de Sabin provou ser eficaz, segura e fácil de administrar em larga escala (PAUL JR, 1971, p.256). No Brasil, o emprego da vacina Salk data o ano de 1955, tendo nos pediatras e vacinações de escala pequena propiciadas pelas secretárias de saúde estaduais e municipais do Rio de Janeiro e em São Paulo, um intermediador. Apesar da adoção ainda que em baixa proporção da vacina Salk, desde de Janeiro de 1960 debatia-se a maior eficácia daquela elaborada por Albert Sabin. Oswaldo Pinheiro Campos quando questionado sobre esta superioridade respondeu que esta seria verdadeiramente o modo mais eficaz de combate à doença apontando ainda que esta não demoraria a superar completamente a Salk (O ESTADO DE SÃO PAULO, 29 de janeiro de 1960, p.6). Em 16 de julho de 1961, o Ministério da Saúde admitiu oficialmente a vacina Sabin, iniciando a imunização em massa na cidade de Santo André, no estado de São Paulo. A meta era vacinar 25 mil crianças dos municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano. Essa ação representou um passo importante no esforço para combater a poliomielite. No Rio de Janeiro, uma experiência-piloto foi conduzida no Instituto Fernandes Figueira. Nesse caso, os filhos dos funcionários, com idades entre quatro meses e seis anos, foram vacinados. Essa etapa tinha como objetivo preparar médicos e enfermeiros para o início da vacinação em massa. A campanha em Petrópolis, realizada de 28 de agosto a 2 de setembro, foi a inauguração oficial da Campanha Nacional de Vacinação Oral contra a Poliomielite no Brasil. A expectativa para a campanha em Petrópolis era vacinar 15 mil crianças, e a iniciativa recebeu uma ampla cobertura da imprensa, destacando a importância desse esforço nacional para erradicar a poliomielite. Essa medida representou um avanço significativo na saúde pública, visando proteger as crianças contra essa grave doença (CORREIO DA MANHÃ, 1 de setembro de 1961, p.2). Ainda assim, o andamento das campanhas não se deu sem percalços, uma vez que a falta de suprimentos e obstáculos relacionados a distribuição conferiram prejuízos quanto a sua concretização de modo satisfatório. Tencionando aperfeiçoar o controle de imunização da poliomielite no Brasil o Ministério da Saúde instaurou o Plano Nacional de Controle a Poliomielite no ano de 1971. Naquele mesmo ano o Estado do Espírito Santo conveio como ensaio para avaliar a resposta sorológica à vacina e a sistematização de campanhas estaduais desempenhadas em apenas um dia, o que acabou sustando em avaliações positivas. À vista disto, o projeto foi estendido para outros 13 estados em 1972 e 1973 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1993, p.12).