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CCUURRSSOO DDEE PPEEDDAAGGOOGGIIAA MMÓÓDDUULLOO:: HHIISSTTÓÓRRIIAA DDAA EEDDUUCCAAÇÇÃÃOO II 2021-2024 DIRETORA GERAL Suzana Karling VICE-DIRETORA GERAL Prof.ª Me. Daniela Caldas Acosta DIRETOR PEDAGÓGICO Prof. Me. Argemiro Aluísio Karling COORDENADORA DO CURSO DE PEDAGOGIA Profª. Me. Tais Reis Leal Murta ELABORAÇÃO DO CONTEÚDO Prof. Me. Argemiro Aluísio Karling Profª. Me. Nelci Gonçalves Dorigon Profª. Me. Gabriela de Angelis Barros Profª. Me. Marisa Morales Penati REVISÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA Prof. Me. Cleide Durante Nenhuma parte deste fascículo pode ser reproduzida sem autorização expressa do IEC e dos autores. Direitos reservados para INSTITUTO PARA O DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO E DA CIDADANIA Av. Carlos C. Borges, 1828 – Borba Gato CNPJ – 02.684.150/0001-97 CEP: 87060-000 - Maringá – PR – Fone: (44) 3225-1197 e-mail: fainsep@fainsep.edu.br HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 3 Sumário APRESENTAÇÃO 4 PLANO DE ENSINO 5 INTRODUÇÃO 6 UNIDADE 1 7 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: UM BREVE PANORAMA HISTÓRICO 7 1 A EDUCAÇÃO NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA: FORMAÇÃO DA CULTURA GREGA 8 2 A EDUCAÇÃO NOS TEMPOS HOMÉRICOS 11 3 A EDUCAÇÃO EM ESPARTA 13 4 A EDUCAÇÃO EM ATENAS 14 5 O TEATRO GREGO: A EDUCAÇÃO PELA EMOÇÃO 15 6 A EDUCAÇÃO NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA - ROMA 17 UNIDADE 2 33 A EDUCAÇÃO NA MEDIEVALIDADE 33 1 A IGREJA: A MAIS IMPORTANTE INSTITUIÇÃO NA MEDIEVALIDADE 34 2 OS MOSTEIROS 35 3 A EDUCAÇÃO NO GOVERNO DE CARLOS MAGNO (O IMPÉRIO CAROLÍNGIO) 39 4 AS ESCOLAS PALACIANAS 40 UNIDADE 3 49 A EDUCAÇÃO NA MODERNIDADE 49 1 UM TEMPO DE MUDANÇAS 49 2 A EDUCAÇÃO NO SÉCULO XVII 54 3 OS PEDAGOGISTAS E SEUS PROJETOS 55 QUESTÕES DE ESTUDOS 58 REFERÊNCIAS 60 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 4 APRESENTAÇÃO Prezados estudantes Mais um módulo inicia e gostaria de lembrá-los da missão da FAINSEP que é de formar profissionais educadores, bacharéis e tecnólogos; ampliar a formação humanística de pessoas para o pleno exercício da cidadania e preparo básico para funções técnicas e serviços gerais; oferecer educação continuada por meio de cursos de atualização, aperfeiçoamento e especialização, inclusive para o exercício de docência na educação superior; enfim, promover a educação e a cidadania por todos os meios, utilizando para tal o conhecimento, o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias e educação a distância. Dessa forma, saiba que a formação e profissionalização do educador, com apropriação de competências e conhecimentos necessários ao exercício da ação docente, serão desenvolvidas durante a Graduação em Pedagogia. Com isso, espera-se o desenvolvimento de atitudes de reflexão e análise da atuação pedagógica e de valores para bem atuar na sociedade como agente de transformação, em busca de uma sociedade mais justa, a partir da identificação e análise das dimensões sociopolíticas e culturais de seu meio. A Pedagogia abrange o campo teórico e investigativo da educação, do ensino, de aprendizagens e do trabalho pedagógico propriamente dito, portanto saibam que, nesta Instituição, ao término da graduação, vocês não terão apenas um diploma, mas, sim, uma mudança e/ou transformação, tanto nos aspectos pessoais como profissionais, tornando- se um indivíduo crítico, criativo e participativo na busca de uma sociedade mais justa. Bons Estudos! A Direção HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 5 PLANO DE ENSINO PLANO DE ENSINO Módulo: HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO I Carga Horária: 60 horas Código: HE I 1.EMENTA Contexto histórico, político, econômico e social das mudanças na organização educacional: da Idade Antiga à modernidade. Principais concepções do pensamento pedagógico. Os ideais e as propostas educacionais de pensadores e pedagogistas, ao longo da história. 2. OBJETIVO GERAL Possibilitar a compreensão da educação e de seu processo histórico a partir dos condicionantes sociais, culturais, políticos e econômicos que influenciam o processo educacional da antiguidade até a idade moderna. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 6 INTRODUÇÃO Toda educação assenta-se sobre uma concepção de ser humano e de sociedade, ou seja, pressupõe uma ideia de humanidade e um tipo de sociedade na e para a qual se quer formar os educandos. Com o intuito de conhecer a história da educação, nossos estudos estão inseridos no tempo. O conhecimento de diferentes civilizações, marcadas por ideais distintos de educação, é que nos dará condições de estabelecer relações, participar da herança cultural dos nossos antepassados e realizarmos projetos de mudança. Você deve estar questionando: para que serve saber do passado? É no passado que os seres humanos buscam respostas para suas inquietações atuais. Compreender a História da Educação ajuda a deixar de considerar naturais os aspectos do cotidiano, como se fossem necessários e imutáveis. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 7 UNIDADE 1 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: UM BREVE PANORAMA HISTÓRICO “A história é a interpretação da ação transformadora do homem no tempo. A pedagogia é a teoria crítica da educação, isto é, da ação do homem quando transmite ou modifica a herança cultural” (ARANHA, 1996, p. 15). Falar em história da educação implica falar em tempo, em cronologia. A contagem de tempo da história individual do homem é feita de ano a ano. Para o estudo da história, todavia, esta unidade de tempo é muito pequena, insignificante. Os historiadores preocuparam-se em demarcar em categorias: Século, quando o período estudado é de cem anos, Milênio, quando é de mil anos, Idade (Idade Média, Idade de Ferro, Idade do Bronze, etc), para definir um período ou um espaço de tempo da história da humanidade que apresente determinadas características culturais, econômicas e sociais, Período (período arcaico, período clássico), quando se refere a um intervalo de tempo entre dois acontecimentos ou duas datas marcantes. Neste texto, adotamos os critérios da historiografia francesa, também chamada de historiografia tradicional. Nesta divisão adotam-se critérios políticos de periodização, ou seja, o que separa um período do outro são os grandes acontecimentos políticos. Assim, adotaremos a divisão da história da educação nos seguintes grandes períodos: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna, e Idade Contemporânea. Estude esta unidade antes do encontro! HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 8 1 A educação na Antiguidade Clássica: formação da cultura grega A cultura grega é o resultado de um longo processo, marcado por invasões e miscigenação cultural. Provavelmente, os primeiros habitantes foram os pelasgos ou pelágios. De 2000 a.C. a 1200 a.C.: longo período de invasões, de origem indo-européia, provenientes da região da Ásia Central, começaram a chegar em pequenos grupos, subjugando lentamente os pelasgos. Os primeiros invasores foram os aqueus (2000 a. C a 1700 a. C), que ao chegarem fundem sua cultura com a da população local, e na ilha de Creta constroem vários povoados importantes, como Faísto, Cânia, Mália e Cnosso. Essa civilização ficou conhecida como cretense ou minóica. Depois dos aqueus chegaram outros povos como: os eólios, os jônios e os dórios. A miscigenação destes povos foi facilitada pela possível origem comum, pois todos seriam indo-europeus. Não se sabe ao certo as razões, mas a partir de 1400 a. C. a civilização cretense entra em declínio. Segundo os arqueólogos, muitas localidades nessa época foram destruídas em meio a grandes incêndios. Oscretenses dominavam uma escrita chamada de Linear A, ainda hoje não decifrada. Nesse mesmo momento em que a civilização cretense entra em declínio, uma nova população, formada pelos aqueus, funda muitas localidades e ocupa outras já existentes. Uma nova sociedade começa a se formar, tendo como centro a cidade de Micenas, berço da civilização micênica. Os micênios também dominavam uma escrita, chamada pelos especialistas de Linear B, que foi decifrada em 1950. O 2º grupo de invasores incluía os eólios e jônios (1700 a.C a 1400 a.C); o 3º. grupo de invasores era compostos pelos dórios (1200 a. C) - povos guerreiros. Os HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 9 registros paleontológicos, as escavações, mostram que nessa mesma época em que os dórios chegam à região da Grécia, as sociedades micênicas começam a desaparecer. Muitos palácios são incendiados ou destruídos, outros se mantêm erigindo muros reforçados, o que sugere a presença de povos invasores. Muitas cidades são destruídas, porém a cultura micênica manteve-se forte o suficiente para influenciar a formação da cultura grega posterior. Após o desaparecimento da civilização micênica, as escavações arqueológicas mostram que inúmeros palácios, fortalezas, povoados desapareceram, inclusive a escrita. A vida material empobreceu, tornou-se rústica, as tumbas tornaram-se mais simples, os mortos passaram a ser sepultados sem os riquíssimos tesouros, e a vida política e econômica também regrediu. Esse período, do século XII a. C (1200) ao século VIII a.C. (800), é conhecido como “A Idade das Trevas”, embora o declínio tenha-se concentrado nos 100 ou 150 anos iniciais do período; quando doravante a sociedade vai se reorganizando, dando origem a uma nova forma social. Ao período de formação do povo grego, dos séculos XX – XII a.C., os historiadores denominam de Pré-Homérico. O período homérico (séculos XII-VIII a.C) conhecido também como “ idade heroica”: o desaparecimento da escrita por 400 anos não implica que os relatos de guerra, os mitos, as poesias, os hinos religiosos tenham deixado de existir. Ao contrário, continuaram sendo criados e transmitidos oralmente. Quando a escrita ressurgiu, por volta de 800 a. C, essas tradições orais começaram a ser compiladas (recolhidas, selecionadas, reunidas) por escrito. Esse é ocaso da “Ilíada” e da “Odisséia”, dois longos poemas épicos que sobrevivem até hoje. Os gregos antigos, em sua quase totalidade, acreditavam que esses poemas fossem obra de um único e genial poeta, chamado Homero. Hoje, sabemos que isso não é verdade. Esses poemas são, certamente, fruto de uma longa tradição oral em que os poetas (aedos) declamavam os episódios da guerra de Tróia e as aventuras de Odisseu. Esses relatos eram cantados acompanhados por música, e passados de geração em geração, tendo sofrido muitas alterações e adaptações. Só mais tarde, cerca de 550 a.C., os poemas foram escritos pela primeira vez. 1 A educação na Grécia Antiga A educação é um termo que se origina do latim. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 10 Educação= tirar (o educando) de um estado e levá-lo a outro (do não-saber ao saber); extrair (do educando) o potencial latente, criar o educando ou criar nele a condição de aprender, instruí-lo ou passar-lhe informações. Entre os gregos, a palavra para designar educação era paidagogia: Paid= menino, filho Ago= levar, trazer, impelir Na Grécia antiga, pedagogo era o escravo que conduzia o adolescente até a escola. Historiadores afirmam que os gregos desenvolveram, ao longo de seu processo de formação cultural, um alto grau de consciência de si mesmos, algo jamais visto na história da humanidade até então, dando origem a uma nova concepção cultural que conferiu ao indivíduo papel de destaque na sociedade, o que repercutiu na educação ofertada. Por isso, de modo geral, a educação grega visava uma formação integral, que envolvesse o desenvolvimento do corpo e do espírito, embora alguns povos gregos enfatizassem o preparo esportivo e outros, o debate intelectual. Vejamos a descrição feita por Aranha (1996, p. 50): Nos primeiros tempos, quando não existia a escrita, a educação é ministrada pela própria família, conforme a tradição religiosa. Com o aparecimento da aristocracia dos senhores de terras, de formação guerreira, os jovens da elite são confiados a preceptores. Apenas com o advento das póleis começam a aparecer as primeiras escolas, visando atender a demanda. No período clássico, sobretudo em Atenas, a instituição escolar já se encontra estabelecida. Mesmo que essa ampliação represente uma “democratização da cultura, a escola ainda permanece elitizada, atendendo principalmente aos jovens de famílias tradicionais da antiga nobreza ou dos comerciantes enriquecidos”. Aliás, na sociedade escravagista grega, o ócio digno significa a disponibilidade de gozar de tempo livrem privilégio daqueles que não precisam se preocupar com a própria subsistência. Não por acaso, a palavra grega para escola (scholé) significa inicialmente “o lugar do ócio”. A educação física, que antes é predominantemente guerreira, militar, passa a se orientar, sobretudo, para os esportes. O hipismo, por exemplo, constitui um esporte elegante e restrito a poucos, por ser de manutenção cara. Com o tempo, o atletismo ampliou a participação do público frequentador dos ginásios. Nessas escolas de formação mais esportiva que intelectual, o ensino das letras e cálculos demora um pouco mais para se difundir. Por volta do século VI, mais HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 11 provavelmente no século V a.C., porém, já se tornou bem mais frequente. A inversão total do polo predominante na educação – da formação física para a espiritual – se dará bem depois, quando se fizer mais marcante a tendência que caracteriza o ensino superior ministrado pelos filósofos. Um aspecto comum às cidades gregas é não se transmitir a cultura apenas na família ou nas escolas nascentes. As tradições são aprendidas nas inúmeras atividades coletivas, como durante os festivais, os banquetes e nas reuniões na ágora. Essa praça pública, no coração da cidade, servia ao mesmo tempo para o mercado e para as assembleias políticas. Vejamos, então, as diferentes expressões da educação grega, de acordo com as transformações sofridas em diferentes espaços e tempos históricos: 2 A educação nos tempos homéricos No período da aristocracia guerreira, tão fortemente retratadas nas epopeias de Homero, a educação visava formar o nobre cortês e virtuoso, cujas principais características era ter força e coragem, principais atributos do bom guerreiro. Além disso, os valores aristocráticos gregos, oriundo de linhagens nobres e de origem divina, incluíam lealdade, beleza, hospitalidade, honra, glória, desafio à morte etc. A criança nobre permanecia em casa até os sete anos, quando era enviada aos palácios de outros nobres a fim de aprender, como escudeiro, o ideal cavalheiresco. Também eram contratados preceptores, que conferiam uma formação integral baseada no afeto e no exemplo. Os nomes que sinalizam os germens das ideias sobre a educação entre os gregos são: Homero e Hesíodo. Homero é chamado “educador da Grécia”. Na narrativa homérica, encontram-se os germens das diversas outras espécies de manifestação literária, ou seja, da lírica, da tragédia e da comédia, e isto já é educativo. A Ilíada e a Odisséia (Homero) são educativas no sentido de produzir modelos comportamentais universais, e, portanto, que extrapolam o tempo e o espaço. Seus personagens, ainda que mitológicos (deuses, semi-deuses), apresentam características humanas (antropomorfização). Hesíodo é a segunda fonte de estudo da cultura grega, até o século VII a.C. Deixou dois poemas: “A Teogonia” e “ Os trabalhos e os dias”. Na Teogonia, Hesíodobusca uma explicação para o surgimento das inúmeras divindades, colocando assim, uma ordem no caos. Ele dá uma sistematização ao cosmos até então desordenado e, em Os Trabalhos HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 12 e os Dias, Hesíodo dirige-se a seu irmão, Perses, com a finalidade de incentivá-lo ao trabalho e à prática da justiça. Todo o poema destina-se a orientá-lo para a melhor época do plantio, como fazê-lo, como tratar o vizinho etc. Trabalhar não envergonha, o que envergonha é a preguiça. A fome é sempre companheira do homem preguiçoso. Não se deve roubar as riquezas. Não procure lucros desonestamente; lucros desonestos trazem desgraças; Não adiar para manhã nem para depois de amanhã. Guarda bem na tua alma o temor dos deuses. Assim, estes poemas são considerados educativos porque ensinam modelos de comportamentos; porque tratam das questões humanas e universais; e porque transmitem concepções de vida. Entre Homero e Hesíodo há algumas diferenças que podem ser assim compreendidas: Homero: representa o mundo e a cultura grega do ponto de vista da aristocracia. Por isso, ele fala dos valores da guerra, da importância do guerreiro, da luta, do herói, da coragem, da lealdade, da bravura etc. Hesíodo representa o mundo e a cultura do ponto de vista rural. Por isso exalta a importância do trabalho, da agricultura, da terra. Antes do período homérico, a educação grega é assistemática, ou seja, a educação não foi feita de acordo com algum planejamento, nem teve um espaço especial: ela acontecia nas ágoras, onde os cantadores ambulantes (aedos), divulgavam os feitos dos heróis das diversas cidades gregas e, assim, apresentavam modelos de comportamento. Todavia, a partir do período homérico, a educação aparece sistematizada e acontece em espaços, cujos nomes são variados: Ginásio e palestra são locais destinados à pratica da educação física, os ginásios para os adultos, as palestras para os adolescentes e jovens; Academia (ou liceu, ou escola) local onde se ensinam e treinam várias práticas desportivas ou recreativas. Como em todos os lugares e em todas as épocas, o aprendizado dos valores começava pela educação da adolescência. Como na maioria das sociedades em organização, privilegiavam-se, inicialmente, os ensinamentos destinados ao fortalecimento do corpo e ao enrijecimento do caráter. Nesses tempos primordiais, a HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 13 tarefa educativa priorizava a preparação do moço para a defesa ou para a administração da polis, no futuro, portanto, o ensino era por princípio, militar. Com este fim é que se escolhiam os conteúdos educativos. De um modo geral, eram três as disciplinas de ensino: a gramática, a música e a ginástica. A ginástica consistia, principalmente, na prática dos exercícios do pentatlo; a saber: luta corporal, corrida, salto (em distância e com obstáculos), arremesso de discos, arremesso de lanças. A música era ensinada pelo citarista e o estudante aprendia a tocar a cítara, a flauta e a cantar. A gramática era ensinada pelo gramatista: o estudante devia se habilitar a ler, escrever e “contar” (isto é, fazer contas: somar, multiplicar, subtrair, dividir). O exercício destas três habilidades era praticado sobre placas revestidas com uma fina camada de cera; para escrever, o estudante riscava a placa encerada, fazendo um sulco, com um estilete de metal ou de osso; fazia parte das lições, decorava trechos de poemas, particularmente da Ilíada e da Odisséia ou das obras de Hesíodo. 3 A educação em Esparta Esparta era uma importante cidade-estado que, mesmo após a fase heroica, em que as guerras eram mais intensas, conservou a valorização exacerbada das atividades guerreiras, desenvolvendo uma educação militar severa. Portanto, em Esparta, o espírito era sacrificado ao corpo; privilegiava-se a força física, buscava-se a formação de atletas e de soldados. Nos ginásios, os moços exercitavam-se quotidianamente no salto, na corrida, em lutas corporais, no arremesso de lanças e dardos. A formação intelectual do espartano era escassa: consistia do conhecimento dos poemas homéricos e de uma iniciação musical. O resultado dessa formação era o culto da sobriedade e da coragem, em detrimento ao conhecimento. Além disso, o culto ao corpo envolvia, primeiramente, uma política de eugenia, prática de melhoramento da espécie, que recomendava o abandono de crianças deficientes ou frágeis demais, além de propor o fortalecimento das mulheres, a fim de gerarem filhos mais robustos e sadios. Tal como no período homérico, as crianças permaneciam com a família até os sete anos. A partir disso, o Estado oferecia educação pública e obrigatória, marcada pela supervisão daqueles que se distinguiam nas tarefas educativas. Desenvolviam o estudo de música, canto e dança coletiva, de modo que até os 12 anos, prevaleciam as atividades lúdicas. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 14 Na medida em que a crianças crescia, aumentava o rigor da aprendizagem e a educação física se transformava em verdadeiro treino militar, de modo que os jovens aprendiam a suportar o frio, a fome, a dormir com total desconforto, a vestir-s despojadamente etc. Já, quando à educação moral, valorizava-se a obediência, a aceitação de castigos, o respeito aos mais velhos e a vida comunitária. Não constituía traço característico da educação espartana, a valorização dos debates e discursos, tampouco o refinamento intelectual. Já, as mulheres tinham especial atenção em Esparta, podem participar de atividades físicas, como salto, lançamento de disco, corrida e dança. Nas festividades, inclusive, podiam exibir sua força e beleza em jogos públicos. 4 A educação em Atenas A educação ateniense é entendida como referência na formação cultural grega, pois institui a formação do cidadão da polis, considerada primordial para que o indivíduo participe ativamente dos rumos da cidade. Essa concepção está atrelada ao surgimento da classe dos comerciantes que, contraposição à antiga aristocracia, exige uma nova forma de participação social e exercício do poder, o que requer outra forma de educação, que capacite o indivíduo a exercer tal protagonismo social e político. Por isso, em Atenas, sem negligenciar o corpo, dava-se ênfase à educação do espírito. A formação do jovem não se esgotava com a frequência aos ginásios, mas evoluía em escolas de gramática e de música; entretanto, a educação física era vigiada de perto pelo Estado, ao passo que a formação intelectual era particular. A partir da idade de sete anos, inicia-se o processo educativo. As meninas permaneciam no gineceu, ou seja, ficavam numa parte da casa onde se dedicavam aos afazeres domésticos. Quanto aos meninos, um pedagogo os conduzia alternadamente ao ginásio, à escola de gramática ou à escola de música e dança, formação que dependia principalmente do nível econômico e social do aluno. A instrução musical sempre mereceu dos gregos uma especial atenção. Platão e Aristóteles dirão que o ritmo e harmonia dão à alma o amor à disciplina e acalmam as paixões. Por isso, qualquer jovem bem-educado deveria aprender a tocar um instrumento (lira, cítara ou flauta); dominar a arte do canto, sobretudo em corais; declamar poesias; dançar. A partir do séc. V, inicia-se uma época em que o ideal da educação não será mais preparar para a glória guerreira. Poetas como Teógnis (545-500 a. C.) e Píndaro (521-541 HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 15 a. C.) chamam a atenção para a efemeridade da vida, a moderação, ao bom uso da riqueza e ao espírito de clemência e de justiça. Outros exaltam a disposição de ânimo na superação de si mesmo por ações extraordinárias (areté). Assim, com o passar do tempo, intensifica-se a exigência de uma melhorformação intelectual, dando origem a três níveis de educação: elementar, secundária e superior. O ensino elementar completa-se em torno de 13 anos. Tal como em períodos anteriores, envolvia o ensino ministrado pelo gramático, que costumava ensinar ao ar livre, nas ruas e praças; ensinava a ler e a escrever e, ao mesmo tempo, com base nos textos de Homero, colocava o aluno em contato com a mitologia; ou seja, o livro-texto consistia em “recortes” da Ilíada ou da Odisseia. Os alunos escreviam em tábuas enceradas e faziam cálculos o auxílio dos dedos e do ábaco. Ao completar o ensino elementar, os pobres saíam em busca de um ofício, enquanto os jovens ricos continuavam os estudos, sendo encaminhados aos ginásios. Dos 16 aos 18 anos, a educação assume uma dimensão cívica que engloba a preparação militar, conhecida como efebia. Porém, com o tempo, o serviço militar foi extinto na Grécia, e a efebia torna-se o ensino de filosofia e literatura. A educação superior surge com os sofistas, os quais se dedicavam á profissionalização dos mestres e à didática, ampliando as disciplinas de estudo. Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles também ministravam a educação superior, formação exclusiva das elites, que podiam se dedicar ao ócio produtivo. 5 O teatro grego: a educação pela emoção A tragédia Não há exagero nenhum em afirmar que o teatro foi (e, aliás, continua sendo até hoje) uma grande escola. Como já ensinava Píndaro, Ésquilo também ensina que o homem deve buscar a moderação; nada em excesso, significa não ultrapassar as medidas pelo orgulho, pela arrogância, sob pena de se desencadear daí a lição trágica. O trágico Sófocles (495-405 a. C.) usa esta arte para pôr em evidência a noção da responsabilidade humana ante os dilemas da escolha, quer religiosa, quer moral, quer cívica; Eurípides (480-406 a.C.) põe em relevo o viés psicológico dos dramas humanos. Eurípides documenta um tempo em que os atos humanos não mais se subordinam à HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 16 exigência dos deuses (como queria Ésquilo), nem à vontade subjetiva do indivíduo (como entendia Sófocles), mas se sujeitam à paixão (pathos). A comédia Tal como a tragédia, a comédia também traz outras tantas lições. Já estamos no tempo novo da cultura e da educação grega. O tempo em que desponta a arte de um comediógrafo chamado Aristófanes (448-380 a.C.) é regido, sobretudo, pelas ideias do filósofo Sócrates (469-399 a. C.) e pelos ensinamentos dos sofistas. Dentro do cadinho formidável de ideias em que se constituiu o elástico período dos séculos V e IV a.C., entretanto, as novas propostas não mudam a fórmula clássica do currículo escolar existente entre os gregos: a gramática, a música e o mestre da educação física. Com essas disciplinas, pretendia-se fazer penetrar na alma da criança o ritmo e a harmonia e fornecer modelos que lhe despertassem a emulação. Ninguém explicitou melhor do que Platão a importância da educação sobre as primeiras impressões de uma criança: Numa natureza jovem e tenra, o começo é tudo, toda ela se impregna da marca que lhe dá. De acordo com Platão, qualquer outra educação fora do padrão tradicional produzirá a discórdia social, a pusilanimidade de caráter dos indivíduos, a fraqueza do Estado. Aliás, a educação platônica sacrifica todos os direitos da pessoa humana e da família à unidade ideal da pátria. Na sociedade ideal, a segurança da coletividade será mais importante que a formação do indivíduo e que o aperfeiçoamento do homem. Xenofonte (430-355 a. C.) é nome interessante a ser referido, na sequência. Historiador, Xenofonte interessa aqui pelo fato de transmitir e interpretar os ensinamentos de Sócrates. Na escola de Sócrates, Xenofonte aprendeu e transmitiu a importância da vida frugal, da educação física e da exercitação na prática militar; acentuou o protesto legítimo contra as tendências emolientes da segunda metade do séc. V a. C e que empolgavam a juventude grega, tornando-a simpática aos ensinamentos sofistas e mais inclinada ao tirocínio verbal dos retóricos. Aristóteles (384-322) expõe um corpo de teorias fundamentadas e coerentes sobre o mecanismo da razão humana; as implicações do disciplinamento do ato de pensar sobre a educação virão, pois, por consequência lógica. A respeito da doutrina aristotélica sobre a educação, cumpre dizer que é vasta e variada, mas se condensa particularmente na Política. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 17 O princípio fundamental da pedagogia de Aristóteles consiste em distinguir, necessariamente, três etapas no desenvolvimento do homem: em primeiro lugar, a vida física; em segundo, o instinto; e em terceiro, a razão. De acordo com estas etapas da vida, então, é que se vai graduar a progressão dos exercícios e dos estudos. O nascimento do corpo é anterior ao nascimento da alma; e a alma mesma apresenta duas partes: a racional e a irracional; a formação de uma precede à da outra. O educador deve respeitar esta ordem natural, ocupar-se do corpo antes da alma, desenvolver o instinto antes de exercitar a inteligência, se bem que, em definitivo, não se forma o corpo a não ser em função da alma, não se excitam os instintos a não ser como preparação ao exercício da razão. O educador Aristóteles mostra preocupação com os futuros pais dos educandos, preanunciando a comprovação “tão moderna” de que uma família mal constituída dará origem a crianças problemas; nessa preocupação, chega a detalhes relativos ao aleitamento materno. Particulariza também cuidados com as crianças mesmas: com os movimentos dos membros ainda frágeis das crianças na tenra infância; com a temperatura da água nos seus banhos; com a companhia que terão habitualmente; com os espetáculos que podem frequentar. Aristóteles suscita, porém, questionamentos de outra ordem, como, por exemplo: será necessário impor uma regra de disciplina à criança; a educação deve ser pública e uniformizada pelo Estado ou particular e livre, de acordo com cada família; quais, enfim, os aspectos educacionais a serem priorizados na formação do indivíduo? Bem se vê que são questões sempre presentes ainda hoje. 6 A educação na antiguidade clássica - Roma A educação romana tinha como objetivo formar cidadãos para atuar ativamente na vida pública; daí a importância da eloquência. O exercício da cidadania se dava por meio da ocupação de cargos públicos e o objetivo deles era formar os jovens para serem fortes na guerra. O comportamento do cidadão no Império Romano era marcado por questões éticas, sob a influência da corrente filosófica Estóica. A Escola Estóica foi fundada em Atenas, aproximadamente no ano 315 a.C., por Zenão. É chamada de estoicismo pelo HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 18 fato de os estóicos se reunirem com seus seguidores e ouvintes debaixo de um pórtico (stoa). Segundo o estoicismo: o homem para atingir a virtude, a sabedoria e a felicidade, deveria viver em harmonia com a natureza, com o cosmos. Deveria viver moderadamente, sem temer os homens, os deuses, a morte, o destino. A riqueza, o luxo trazia muitas infelicidades ao homem, por isso este deveria levar uma vida simples, regrada, de poucas necessidades. Nada ocorre por acaso; o destino do homem já está traçado ao nascer. Por isso, de nada adianta temer o destino. Era preciso aceitá-lo tranquilamente; Pregava a doutrina da fraternidade universal entre os homens, propondo o desligamento e a independência em relação ao mundo exterior. Na sociedade romana, uma criança recém-nascida somente era recebida na sociedade mediante a aprovação do chefe de família. Ao ser retirada do útero materno, ela era colocada imediatamente no chão, devendo o pai levantá-la, executando a função conhecida como tollere, por meio do qual a criança era reconhecida.A criança que o pai não levantava era exposta diante da casa ou simplesmente abandonada em um monturo público. Essa prática deixou de acontecer com o Estoicismo. Outro exemplo marcante da influência do estoicismo na sociedade romana é o que acontecia com os adolescentes, quando a puberdade e a iniciação sexual eram sinônimos. Entre a puberdade e o casamento, os meninos gozavam de grande liberdade, frequentando, durante quase uma década, os prostíbulos. Sob a influência do estoicismo, esta nova ética centrava-se em conter os excessos cometidos pelos rapazes até o momento do casamento. Estes passaram a guardar-se puros até o casamento. No século I d.C. o verdadeiro meio estóico é a família. A família era a célula da sociedade, de onde provinha o futuro cidadão. A educação dos meninos: começava no lar, com os pais ou com os pedagogos,geralmente escravos de origem grega que ensinavam a ler e escrever; a partir dos 7 anos, iam para a escola onde aprendiam: a gramática, o latim, o grego e a retórica; com aproximadamente 17/18 anos frequentava por 1 ano o fórum, com um amigo da família, notável e idoso; HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 19 depois prestava o serviço militar, para adquirir a formação guerreira. As aulas ocorriam em locais, como os pórticos, os alpendres das lojas, nos quais eram colocados bancos e um assento para o professor. As crianças guardavam seu material em maletas e escreviam em tábuas cobertas por uma camada de cera mole. A educação das meninas: eram educadas em casa pela mãe, que lhes ensinava a tecer a lã e os serviços domésticos. Aos doze anos, atingindo a idade núbil, estavam prontas para o casamento. Aos quatorze anos já eram senhoras e podiam aprender música, canto, dança. Entre os seis ou dez anos de idade, as filhas de famílias ricas poderiam ser escolhidas para se tornar vestais. Nesse caso, não poderiam se casar e deixavam sua casa para habitar o templo de Vesta, onde permaneciam durante trinta anos. Havia ainda um 2º. Momento da educação: retórica e declamação. Como forma de preparar os jovens para participar dos longos debates públicos no Senado, o sistema educacional romano no fim da República e início do Império era, em todos os sentidos, fiel aos gregos, que ensinaram em Roma na sua própria língua: ensinava-se a gramática e a retórica. Em Roma, o poder público concedia um apoio à educação, tendo como destaque: Criação de bibliotecas públicas por Augusto; Vespasiano subvencionou as disciplinas de retórica grega e latina e inaugurou uma política de serviços públicos locais para professores; Marco Aurélio financiou disciplinas de filosofia a serem cursadas em Atenas. Essa concepção de educação aos poucos vai se alterando, principalmente com a difusão do Cristianismo que se consolidou como uma religião importante num período de crise interna (230-260) e de guerras civis. Podemos destacar como principais aspectos da doutrina cristã: Proposta de salvação universal, pregava a existência de um Deus único, afirmava a imortalidade da alma; anunciava uma vida futura ( a verdadeira); dizia que a sabedoria seria alcançada por todos aqueles que tivessem fé. propunha a pobreza como meio para se atingir ao céu (desprendimento material). HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 20 Por meio dessas ideias vemos que o cristianismo traz uma nova concepção de mundo, pois haveria um mundo terreno e um espiritual (que era o verdadeiro); o mundo surgiu do nada, por um ato da vontade de Deus; o mundo teve um começo e um dia chegará ao final, onde os homens serão julgados por todos os seus atos aqui na terra e, o mundo é regido exclusivamente pela vontade de Deus. Apresenta também, uma nova concepção de homem: caridoso, humilde, cooperativo, solidário e com amor no coração. Surge uma nova proposta de sociedade: cujos alicerces deveriam centrar-se nos valores do Evangelho; e uma nova concepção de família: com laços de amor e fraternidade, respeito mútuo. TEXTO COMPLEMENTAR "EDUCAÇÃO GREGA" members.tripod.com/pedagogia/grgos.htm A educação na Grécia teve formas diferentes. No decorrer deste trabalho, veremos essas diferenças. Em Esparta ela assume um papel de preparação para a guerra. Entretanto, em Atenas assume uma papel mais intelectual. Na Grécia foi o local onde fluiu a sofistica, mesmo que, não tenha sido a Grécia o local de origem da sofistica. Os sofistas tiveram grande importância na profissionalização da educação. Além disso, a Grécia é considerada como o berço da pedagogia. No decorrer deste trabalho veremos todos esses aspectos da educação grega e as contribuições que ela trouxe até os dias de hoje. A ANTIGUIDADE GREGA: A PAIDEIA Foi devido ao poder econômico de seu império que a Pérsia conseguiu dominar todo o oriente. No entanto, vencidos contra os gregos, os persas perderam o predomínio sobre os outros Estados da Antiguidade. Dessa forma, a hegemonia econômica se deslocou das civilizações do Oriente próximo para a civilização grega. Veremos a seguir como a civilização grega conquistou o poderio econômico sobre todo o mundo antigo e acabou perdendo-o para o Império Romano. * Período Pré-Homérico (2500-1100 a.C.), período que aconteceu a formação do povo grego. * Período Homérico (1100-800 a.C.), fase retratada pelos poemas de Homero, Ilíada e Odisséia. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 21 * Período Arcaico (800-500 a.C.), fase da formação das cidades-estado: a escrita, a moeda, a lei e a pólis. * Período Clássico (500-400a.C), fase correspondente ao apogeu da civilização grega. * Período Helenístico (336-146 a.C.), fase da decadência da Grécia. A Grécia está localizada a leste do mar Mediterrâneo, na Península Balcânica, apresentando relevo acidentado e um litoral recortado por golfos e bóias, banhado pelo mar Egeu e pelo mar Jônio. O território grego é cortado ao meio pelo golfo de Corinto. Ao norte desse golfo localiza-se a Grécia continental; ao sul, a Grécia peninsular. Devido ao relevo marcadamente montanhoso, a prática da agricultura releva-se difícil na Grécia, registrando-se um quinto das terras. Assim, o comércio tornou-se a atividade econômica básica. FORMAÇÃO DO POVO GREGO O período anterior à formação do povo grego é denominado pré-Homérico, ou da Grécia Primitiva na região ocupada pela população autóctone - isto é, originária da própria região -, desenvolveu-se a civilização creto-Micênica, cujos principais centros eram a cidade de Micenas e a Ilha de Creta. Os cretenses foram fundadores do primeiro império marítimo de que se tem notícia, e os mesmos cultivavam vinhas, cereais e oliveiras que utilizavam para seu próprio consumo ou para exportar para outras regiões. Ensinados por outros povos tornaram-se hábeis artesãs, trabalhando principalmente com metais e cerâmica. Utilizando as madeiras, construíram navios de até vinte metros de comprimento. São famosos seus edifícios públicos, embora não tenham ficado vestígios dessas construções. Cnossos, a capital de Creta, era uma cidade de grandes palácios, onde viviam reis (chamados Minos) cercados de uma poderosa nobreza, o que refletia sua pujança econômica. A partir do século XX a.C., sucessivas invasões de tribos nômades, de origem indo- européia, abalaram o vigor cultural creto-micênico. Aqueus, Jônios, Eólios e Dórios saquearam e destruíram a região e assimilaram parte dos costumes e das instituições formando, pela mistura racial e cultural, o povo grego. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 22 A civilização Micênica se desenvolve desde o início do segundo milênio, constituída por diversos povos, sobretudo os Aqueus, que se estabeleceram com um regime de comunidade primitiva. Com o tempo, forma-se uma aristocraciamilitar: a figura do guerreiro tem importância cada vez maior, e os chefes mais destacados vivem nos castelos de Tirinto e Micenas. No século XII a. C., partem Agaménon, Aquiles e Ulisses para sitiar e conquistar Tróia, no litoral da Ásia Menor. No final desse mesmo século ocorre a invasão dos Bárbaros Dórios, que mergulham a Grécia em um período obscuro até o século IX. Muitos Aqueus fugiram para a Ásia Menor, onde fundam colônias e prosperam pelo comércio. AS TRANSFORMAÇÕES DA MENTALIDADE: DO MITO À RAZÃO. A Concepção mítica do homem nos poemas homéricos Até o século VI a.C. pode-se dizer que na Grécia ainda predomina uma concepção mítica do mundo. Isso significa que as ações humanas se acham explicadas pelo sobrenatural, pelo destino, pela interferência divina. Os mitos gregos são escolhidos pela tradição e são transmitidos oralmente pelo aedos e rapsodos, cantores ambulantes que dão forma poética a esses relatos e os recitam de cor em praça pública. Dentre estes, destacamos Homero, provável autor das epopéias Ilíadas, que trata da guerra de Tróia (Illion, em grego), e da Odisséia, que relata o retorno de Ulisses (odisseus, em grego) a Ítaca, após a guerra de Tróia. A Emergência da Consciência Racional O surgimento da filosofia na Grécia não é na verdade, um salto realizado por um povo privilegiado, mas a culminância de um processo que se fez através de milênios e para o qual concorreram diversas transformações. - A escrita gera uma nova idade mental fixando a palavra, e consequentemente, o mundo para além daquele que o profere. - E o advento da lei escrita? Drácon, Sólon e Clístenes são os primeiros legisladores que marcam uma nova era. - A invenção da Moeda desempenha um papel revolucionário. Muito mais do que um metal precioso que se troca por qualquer mercadoria, a moeda é um artifício racional, uma convenção humana, uma noção abstrata de valor. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 23 - A pólis se faz pela autonomia da palavra: não mais a palavra mágica dos mitos, concedida pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, do discurso e da argumentação. - Decorre disso tudo uma nova concepção de virtude (areté), diferente da virtude do guerreiro belo e bom. Se antes a virtude era ética, aristocrática, agora é política, voltada para o ideal democrático da igual repartição do poder. - A filosofia, "filha da cidade": a filosofia surge como problematização e discurso de uma realidade antes não questionada pelo mito. A EDUCAÇÃO ESPARTANA Grécia achava-se dividida em Cidades-Estado, das quais as mais conhecidas são as antagônicas Esparta e Atenas. Esparta ocupava o fértil vale do rio Eurotas, na região da Lacônia, ao sudeste da península do Peloponeso. No oitavo e no sétimo século a.C, Esparta travou uma guerra com Missênia. “Essa guerra teve por motivo básico o desejo de Esparta de se apoderar das terras férteis dessa região, que eram as melhores de todo o Peloponeso."(PEDRO. Antônio & CÁCERES. Florival. História Geral. p. 48). "Por volta do século IX, o legislador Licurgo organiza o Estado e a educação. De início os costumes não são tão rudes, e a formação militar é entremeada com a esportiva e a musical. Com o tempo e, sobretudo no século IV a.C. quando Esparta derrota Atenas - o rigor da educação se assemelha à vida de caserna" (ARANHA. Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. p. 38). "A visão que os gregos tinham do mundo os distinguia de todos os demais povos do mundo antigo, ao contrário destes, os gregos em vez de colocarem a razão humana a serviço dos deuses ou dos deuses monarcas, enalteceram a razão como instrumento a serviço do próprio homem (...) Recusavam qualquer submissão aos sacerdotes e tampouco se humilhavam diante dos seus deuses. Glorificavam o homem como o ser mais importante do universo (...) O primeiro povo a enfrentar explicitamente o problema da natureza, as ideias, as tarefas e objetivos do processo educativo foi o povo grego. Os alicerces institucionais dessa atitude encontram-se na realidade sócio-poética da Grécia, processo que se realiza entre 1200 e 800 a.C. Trata-se do período pré-Homérico (GILES. Thomas Ranson. História da Educação. p. 11). Esse período recebeu esse nome, devido ao conhecimento baseado na interpretação das lendas contidas nos poemas épicos: A ILÍADA e A ODISSÉIA, que a tradição atribui ao poeta grego Homero (op. cit. p. 46) “ HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 24 "Nessa época as principais ocupações são a agricultura e o pastoreio. Excetuando- se algumas formas de artesanato, não há especialização, e a estratificação da sociedade é mínima". EDUCAÇÃO ATENIENSE Atenas passou pelas mesmas fases de desenvolvimento de Esparta; mas enquanto Esparta se deteve na fase guerreira e autoritária, Atenas priorizava a formação intelectual sem deixar de lado a educação física que não se reduzia apenas a uma simples destreza corporal mas que vinha acompanhada por uma preocupação moral e estética. Na primeira parte de sua cultura, aparecem formas simples de escolas e a educação deixa de ficar restrita à família e a partir dos 7 anos começava a educação propriamente dita, que compreendia a educação física, a música e a alfabetização. O pedotriba era o responsável em orientar a educação física na palestra onde os exercícios físicos eram praticados. Além da educação física, a educação musical era extremamente valorizada não se limitando apenas à música, mas também à poesia, ao canto e à dança. Os locais que eram praticados eram geralmente as palestras ou, então, em lugares especiais. O ensino elementar como a leitura e a escrita durante muito tempo não teve a sua devida atenção como teve as práticas esportivas e musicais tanto que os mestres eram geralmente pessoas humildes e mal pagas e não tinham tanto prestigio quanto o instrutor físico. Com o passar do tempo foi se exigindo uma melhor formação intelectual delineando-se três níveis de educação: elementar, secundária e superior. O didáscalo era o responsável em ensinar a leitura e a escrita em locais não definidos e com métodos que dificultam a aprendizagem e por volta dos 13 anos completava-se a educação elementar. Aqueles que tinham maiores condições de continuar os seus estudos entravam para a educação secundária ou ginásio onde, inicialmente, eram praticados os exercícios físicos e musicais, mas com o tempo deu-se lugar as discussões literárias abrindo espaço para o estudo de assuntos gerais como a matemática, geometria e astronomia principalmente a partir das influências dos professores. O termo secundário chegou mais próximo do seu conceito atual quando foram criadas as bibliotecas e salas de estudos. Dos 16 aos 18 anos, a educação superior só se dá com os sofistas, que mediante retribuições elevadas se encarregavam de preparar a juventude para a oratória. Sócrates, Platão e Aristóteles também ministravam a educação superior. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 25 Neste contexto não havia uma preocupação com o ensino profissional, pois estes eram aprendidos no próprio mundo do trabalho com exceção da medicina que era uma profissão altamente valorizada entre os gregos e que tomavam como parte integrante da cultura grega. A EDUCAÇÃO NO PERÍODO HELENÍSTICO No final do século IV a. C., inicia-se a decadência das cidades-estados gregos assim como a sua autonomia e a força da cultura helênica se funde à das civilizações que a dominam se universaliza e converte-se em helenísticas; nesse período a antiga Paideia, torna-se enciclopédia ou seja, “educação geral" consistindo na ampla gama de conhecimentos exigidos na formação do homem culto diminuindo ainda mais o aspecto físico e estético. Nesse período eleva-se o papel do pedagogo coma criação do ensino privado e o desenvolvimento da escrita, leitura e o cálculo. O conteúdo abrangente das disciplinas humanistas (gramática, retórica e dialética) e quatro científicas (aritmética, música, geometria e astronomia). Além do aperfeiçoamento do estudo da filosofia e, posteriormente, o de teologia na era cristã. Inúmeras escolas se espalham e da junção de algumas delas (Academia e Liceu) é formada a Universidade de Atenas, foco importante de fermentação intelectual, que perdura inclusive no período de dominação romana. PERÍODO CLÁSSICO Atenas havia se tornado o centro da vida social, política e cultural da Grécia, em virtude do crescimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artes militares. Atenas viva seu momento de maior florescimento da democracia. "A democracia grega possuía duas características de grande importância para o futuro da filosofia. Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da polis. Em segundo lugar, e como consequência, a democracia, sendo direta e não por eleição de representantes no governo, garantia a todos a participação no governo e os que dele participavam tinham direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia assim, a figura do cidadão" (CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, p. 36). Contudo, é bom lembrarmos que as opiniões, não eram simplesmente jogadas às assembléias e aceitas por elas, era necessário que o cidadão além de opinar, falar, deveria também buscar persuadir a assembléia, daí o surgimento de profundas mudanças HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 26 na educação grega, pois antes da democracia as famílias aristocratas eram donas não só da terra como também do poder. A educação possuía um padrão criado por essas famílias que era baseado nos dois poetas gregos Homero e Hesíodo que afirmava que o homem ideal era o guerreiro belo e bom. Entretanto, com a chegada da democracia, o poder sai das mãos da aristocracia e, "esse ideal educativo vai sendo substituído por outro. O ideal de educação do Século de Péricles é a formação do cidadão" (IDEM. p. 36). O cidadão somente se faz cidadão a partir do momento em que exerce seus direitos de opinar, discutir, deliberar e votar nas assembléias. Dessa forma, o novo ideal de educação é a formação do bom orador, ou seja, aquele que saiba falar em público e persuadir os outros na política. Para suprir a necessidade de dar esse tipo de educação aos jovens em substituição a educação antiga, surgem os sofistas que foram os primeiros filósofos do Período Clássico. Em síntese, os sofistas surgem por razões políticas e filosóficas, entretanto, mais por funções políticas. Os sofistas foram filósofos que surgiram de várias partes do mundo e não tinham, portanto, uma origem bem definida. "Sofista significa "sábio" - "professor de sabedoria". Em um sentido pejorativo, passa a significar "homem que emprega sofismas", ou seja, homem que usa de raciocínio capcioso, de má-fé com intenção de enganar. Os sofistas contribuíram bastante para a sistematização da educação. Eles se julgavam sábios, possuidores da sabedoria e como Atenas passava por uma fase de crescimento cultural e econômico e paralelo a isto, o surgimento da democracia, os sofistas ensinavam principalmente a retórica, que é a arte da persuasão, instrumento principal para o cidadão que vivia a democracia. Contudo, é bom ressaltar que não ensinavam de graça, mas cobravam, e bem, por seus ensinamentos. Isso teve grande contribuição na profissionalização da educação. Entretanto, por cobrarem e se julgarem sábios e possuidores da sabedoria, foram bastante criticados por Sócrates e seus seguidores, haja visto que para Sócrates o verdadeiro sábio é aquele que reconhece sua própria ignorância. Para combater os sofistas, Sócrates desenvolve dois métodos que são bastante conhecidos até os dias de hoje: a ironia e a maiêutica. O primeiro consiste em conduzir, através de questionamentos, o ouvinte que até o momento está convencido de que domina completamente determinado conteúdo, de que este não sabe realmente tudo. A partir do momento em que este se convence disto, Sócrates passa a utilizar o segundo método HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 27 que é a maiêutica, que significa dar luz às ideias. Nesse momento o ouvinte consciente de que não sabe tudo busca saber mais buscando respostas por si próprio. A PEDAGOGIA GREGA O termo pedagogia é de origem grega e deriva da palavra paidagogos, nome dado aos escravos que conduziam as crianças à escola. Somente com o tempo, esse termo passa a ser utilizado para designar as reflexões feitas em torno da educação. Assim, a Grécia clássica pode ser considerada o berço da pedagogia, até porque é justamente na Grécia que tem início as primeiras reflexões acerca da ação pedagógica, reflexões que vão influenciar por séculos a educação e a cultura ocidental. Os povos orientais acreditavam que a origem da educação era divina. O conhecimento que circulava na comunidade resumia-se aos seus próprios costumes e crenças. Essa realidade impedia uma reflexão sobre a educação, uma vez que esta era rígida e estática, fruto de uma organização social teocrática. A divindade, portanto, era autoridade máxima, logo, sua vontade não poderia ser contestada. Na Grécia Clássica, pelo contrário, a razão autônoma se sobrepõe às explicações puramente religiosas e místicas. A inteligência crítica, o homem livre para pensar e formar os juízos a cerca da sua realidade, preparado não para submeter-se ao destino, mas para influenciar e ser agente de transformação como cidadão, eis no que se resume a revolucionária concepção grega da educação e seus fins. Dentro dessa nova mentalidade, surgem várias questões cuja reflexão visa enriquecer os fins da educação. Como por exemplo: - O que é melhor ensinar? - Como é melhor ensinar? Essas questões enriquecem as reflexões de vários filósofos e dão origem à dimensões tendenciosas. Para entendermos melhor é necessário fazermos a divisão clássica da filosofia grega, não esquecendo que o eixo central é Sócrates: Período pré-socrático (Século VII e VII a.C.); os filósofos das colônias gregas que iniciam o processo de separação entre a filosofia e o pensamento mítico. Período socrático (Séculos V e IV a.C.) Sócrates, Platão e Aristóteles. Os sofistas são contemporâneos de Sócrates e alvos de suas críticas. Isócrates também é desse período. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 28 Período pós-socrático (Séculos III e II a.C.) época helenística, após a morte de Alexandre. Fazem parte ainda as correntes filosóficas mais famosas: o estoicismo e o epicurismo. PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO O período pré-socrático inicia-se por volta do século VI a.C., quando aparecem os primeiros filósofos nas colônias gregas da Jônia e na Magna Grécia. Podemos dividi-los em várias escolas: Escola Jônica: fazem parte os seguintes filósofos: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Empídoeles; Escola Itálica: Pitágoras; Escola Eleática: Xenófones, Parmênides, Zenão; Escola Atomista: Gencipo e Demócrito. Esse período caracteriza-se como uma nova forma de analisar e ver a realidade. Antes esta era analisada e entendida, apenas do ponto de vista mítico, agora é proposto o uso da razão, o que não significa dizer que a filosofia vem para romper radicalmente com o mito, mas sim para suscitar o uso da razão no esclarecimento, sobretudo da origem do mundo. Os antigos relatos míticos da origem, inicialmente transmitidos oralmente e depois transformados em poemas por Homero e Hesíodo, são questionados pelos pré- socráticos, cujo objetivoprincipal é explicar a origem do mundo a partir da "arché" ou seja, o elemento originário e constitutivo de todas as coisas. Nessa busca de desvendar racionalmente a origem, cada um surge com uma explicação diferente, como por exemplo: - Tales: a origem é a água; - Anaxímenes: a origem é o ar; - Anaximandro: a origem está no movimento eterno que resulta na separação dos contrários (quente e frio, seco e úmido, etc.) - Heráclito: tudo muda, tudo flui. A origem reside num constante “devir". - Parmênides: A origem está na essência: o que é, é e não pode ser ao mesmo tempo. Outra diferença que podemos notar entre a filosofia nascente e as concepções míticas é que esta era estática, ou seja, não admitia reflexões ou discordância. A filosofia HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 29 nascente por sua vez, deixa o espaço livre para reflexão, daí cada filósofo surgir com uma explicação diferente para o "arché", ou seja, a origem. Apesar dessas diferenças, vale ressaltar que não há uma ruptura radical com o pensamento mítico, permanecendo este, presente em algumas explicações desses filósofos frente às divindades, uma vez que este não aceita a interferência dessas nas explicações. Assim, a "phisys" (natureza) é dessacralizada e todas as afirmações passam a exigir fatos que justifiquem as ideias expostas. Toda essa mudança de pensamento é de fundamental importância para o enriquecimento das reflexões pedagógicas em busca de uma educação ideal que faça do homem grego senhor de si mesmo, combatendo assim, as velhas ideias de submissão às explicações puramente mitológicas. O PENSAMENTO DE PLATÃO Se Sócrates foi o primeiro grande educador da história, Platão foi o fundador da teoria da educação, da pedagogia, e seu pensamento foi baseado na reflexão pedagógica, associada à política. Platão nasceu em Atenas (428 -347 a.C.) de família nobre. Foi discípulo de Sócrates, que induziu ao estudo da filosofia. O vigor de seu pensamento nos faz questionar sempre o que de fato é socrático e que já é sua criação original. Para que possamos compreender a proposta de Platão, não podemos dissociá-la do projeto inicial que é, antes de tudo, político: vejamos algumas características do pensamento filosófico de Platão. Platão se preocupou a vida inteira com os problemas políticos. A situação de seu país, saído de uma tirania, o impede de participar ativamente da vida política, em compensação, dedica a esta, grande parte de seus escritos entre eles as obras mestras, A República e As Leis. No livro VII de A República, Platão relata o mito da caverna. A análise deste mito pode ser feita pelo menos sob dois pontos de vista: 1. Epistemológico (relativo ao conhecimento): compara o acorrentado ao homem comum que permanece dominado pelos sentidos e só atinge um conhecimento imperfeito da realidade. 2. Político: quando o homem se liberta dos grilhões é o filósofo, ultrapassa o mundo sensível e atinge o mudo das ideias, passando da opinião à essência, deve se dirigir aos HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 30 homens para orientá-los. Cabe ao sábio dirigir, sendo-lhe reservada a elevada função da ação política. A UTOPIA PLATÔNICA Platão propõe uma utopia, onde são eliminadas a propriedade e a família, e todas as crianças são criadas pelo estado, pois para Platão, as pessoas não são iguais, e por isso devem ocupar posições diferentes e serem educadas de acordo com essas diferenças. Até os 20 anos, todos merecem a mesma educação. Ocorre o primeiro corte e definem-se quem tem "alma de bronze", são os grosseiros, devem se dedicar a agricultura, comércio e ao artesanato. Mais dez anos de estudo, se dá o segundo corte. Aqueles que têm "alma de prata". É a virtude da coragem. Serão guerreiros que cuidarão da defesa da cidade, e a guarda do rei. Os que sobrarem desses cortes por terem "alma de ouro" serão instruídos na arte de dialogar e preparados para governar. Quando analisamos o postulado platônico voltado para sua época, é visível uma dicotomia na relação corpo e espírito. Na Grécia Antiga, o cuidado com o aspecto físico do corpo merecia uma atenção muito especial. No entanto, Platão apesar de reconhecer a importância atribuída aos exercícios físicos, acreditava que outra educação merecia relevante atenção ao ponto de ser superior às questões corporais. Trata-se da educação espiritual. No desenvolvimento de seus argumentos, ao tratar da superioridade da alma sobre o corpo, Platão explicita que a alma ao ter que possuir um corpo, torna-se degradante. Para Platão o corpo possui uma alma de natureza inferior que dividida em duas partes: uma que age irrefletidamente, de maneira impulsiva e outra voltada para os desejos e bens materiais. Argumenta ainda que todo problema humano está centrado na tentativa de superar a alma inferior através da alma superior. Se esta não controlar a alma inferior, o homem será incapaz de possuir um comportamento moral. Nesta concatenação está explícito o ideal pedagógico na concepção platônica. O conhecimento para ele é resultado da lembrança do que a alma contemplou no mundo das ideias. Nesse sentido a educação consiste no despertar no indivíduo do que ele já sabe e não no apropriar de um conhecimento que está fora. Ele enfatiza ainda a HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 31 necessidade da educação física no sentido de que esta proporcione ao corpo uma saúde perfeita, evitando que a fraqueza se torne um empecilho à vida superior do espírito. Outro aspecto na pedagogia platônica é a crítica que se faz aos poetas. Na época, a educação das crianças era baseada em poemas heróicos da época, contudo, ele diz que a poesia deveria ser restrita ao gozo artístico e não ser usada na educação. Argumenta que ao ser trabalhado uma imitação, como as dos textos das epopéias, o conhecimento verdadeiro torna-se cada vez mais distante: "o poeta cria um mundo de mera aparência". Em Aristóteles (384-332 a.C.) podemos perceber outro aspecto da pedagogia grega. Apesar de ser discípulo de Platão, conseguiu ao longo do tempo, através de influências, inclusive a do seu pai, superar o que herdou de seu mestre. Aristóteles desenvolveu, ao contrário de Platão, uma teoria voltada para o real, onde procurava explicar o movimento das coisas e a imutabilidade dos conceitos. Trabalho totalmente divergente à superioridade do mundo das Ideias desenvolvida por Platão. Em seu raciocínio, ao explicar a imutabilidade dos conceitos, Aristóteles afirmava que todo ser possui um "suporte aos atributos variáveis", ou melhor, esse ser ou substância possui variáveis e que essas variáveis são, em síntese, características que geralmente damos a ele e ressalta que algumas dessas características assumem valores essenciais no sentido de que se estas faltarem o ser não será o que é. Por outro lado, existem outros que são acidentais, uma vez que sua variação necessariamente não irá alterar a essência do ser. Ex.: velho, novo. Outros conceitos também são usados por Aristóteles para a explicação do ser. Conceitos intimamente ligados como forma e matéria são em seu postulado ricos e, tal explicação, uma vez que ele considera a forma como princípio inteligível. Uma essência que determina a todos que são o que são. "Numa estátua por exemplo, a matéria é o mármore; a forma é a ideia que o escultor realiza". Assim como os pré-socráticos Heráclito e Parmênides, Aristóteles, também se preocupou com o devir, com o movimento e consequentemente às suas causas. Ainda se utilizando dos conceitos de forma e matéria, ele argumenta que tudo tende a atingir a sua forma perfeita, assim uma semente de uma árvore, tende a se desenvolver e se transformar em uma árvore novamente. Dessa maneira tudo para Aristóteles tem um devir, um movimento, uma passagemdo que ele chama de potência para o ato. Aristóteles ao fazer tal abordagem, comenta ainda que o movimento assume algumas características: movimento qualitativo onde uma dada qualidade é alternada; movimento quantitativo em que se percebe a variação da matéria e por fim o movimento HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 32 substancial onde o que se tem é uma existência ou inexistência, o que nasce ou que se destrói. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 33 UNIDADE 2 A EDUCAÇÃO NA MEDIEVALIDADE É muito difícil precisar quando começou a Idade Média e quando ela acabou. Na verdade, não é possível determinar com exatidão quando começaram a ocorrer certos fatos históricos e quando eles acabaram, uma vez que tão importantes quanto os acontecimentos históricos são os processos que os engendraram. Primeiramente, que os fatos a serem estudados neste texto não ocorreram no mundo todo. Não faz parte deste universo uma série de povos como: os árabes, os bizantinos, os chineses, os hindus e os japoneses. Esse esclarecimento se faz importante, pois quando falamos de Educação na Idade Média, tratamos dos aspectos que ocorreram basicamente na Europa, aproximadamente entre o século V e o século XV. Convém também, antes de tudo, esclarecer alguns equívocos frequentes de expressão sobre esse período da história. O mais comum deles é dizer que a Idade Média foi a “Idade das Trevas”, onde os homens eram brutos e o conhecimento e a ciência pouco se desenvolveram. O termo Idade Média foi uma invenção dos pensadores humanistas e renascentistas1 (séculos XIV, XV e XVI), a qual se espalhou pelo mundo e foi posteriormente retomada pelos filósofos iluministas 2(século XVIII). Essa ideia equivocada criada, durante os séculos XV e XVI, pelos humanistas retorna e ganha força no século XVIII, com os pensadores iluministas. Entre outros aspectos, o que caracteriza de certo modo a filosofia iluminista é o seu anticlericalismo. Vários pensadores daquele século atribuíram à Igreja o atraso cultural dos povos, pois consideravam que sua doutrina não favorecia o esclarecimento (daí o nome iluminista) dos homens, a capacidade de bem compreender e pensar com autonomia. Para eles, portanto, o período da História dominado pela Igreja foi um período de trevas e escuridão, em que o homem esteve preso à doutrina e aos dogmas cristãos. 1 Humanistas e renascentistas foram os pensadores que, principalmente durante os séculos XV e XVI, defenderam um ideal de formação do homem não mais calcado nos modos medievais, mas na valorização da antiga cultura grega e romana. Esses homens foram chamados de humanistas por defenderem a valorização do homem como o centro do universo e de renascentistas por acreditarem que estavam provocando um renascimento dos ideais clássicos da civilização greco-romana. 2 Pensadores do século XVIII que desenvolveram novas teorias filosóficas, que convidavam o homem a pensar por si mesmo. Tais filósofos lutavam contra as “trevas” do conhecimento antigo e, por consequência, acreditavam estar levando homens às luzes, donde o nome Iluministas, aqueles que iluminam. Estude esta unidade antes do encontro! HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 34 Somente no século XIX, em virtude dos estudos de muitos pesquisadores é que se rompeu com o preconceito em relação a este período. Mais do que isso, eles descobriram um mundo cheio de riquezas culturais desconhecidas e renegadas. Segundo Jacques Le Goff, pela fusão do mundo romano com o mundo bárbaro é que surge o mundo ocidental medieval e os fatores que contribuíram para a formação deste foram: a crise do Império Romano; a aproximação entre o Ocidente e o Oriente; a influência das religiões orientais ( misticismo); as invasões “ bárbaras” (os godos, visigodos, ostrogodos, francos, vândalos, anglos, jutos, saxões, hérulos, burgúndios, suevos, quados) o advento do cristianismo Não era por maldade que os povos do Norte invadiam outros territórios. Eles próprios eram obrigados a buscar novas regiões mais bem situadas, de clima mais ameno, de solo fértil, próximo ao mar. Além disso, muitos invasores estavam sendo acossados por outros povos mais fortes ou cruéis. As consequências dessas invasões foram muitas e podemos destacá-las como: cidades e campos destruídos; instaura-se um clima de medo e insegurança; retração demográfica; desaparecimento paulatino das crenças, instituições, artes, literatura, da organização militar e das cidades; ocorre um processo de ruralização; há um vazio moral 1 A Igreja: a mais importante instituição na medievalidade Falar do mundo medieval e não falar da Igreja é impossível. O papel que ela desempenhou foi crucial para a mudança que se estabeleceu entre a cultura do mundo greco-romano e a nova cultura cristã. Após o fim do governo romano sobre os territórios da Europa – com a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 – a Igreja passou a ocupar a função de instituição detentora e ordenadora da cultura “ocidental”. A disseminação da religião cristã por boa parte da Europa, do Norte da África e várias extensões da Ásia e Oriente Médio, fazia HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 35 dela o centro de irradiação de uma nova cultura, baseada em novos valores morais e éticos. Na falta de um governo civil minimamente organizado que pudesse disciplinar a vida nas cidades, a partir do século V, a Igreja cristã passou a cumprir essa tarefa, tendo nos bispos e padres os líderes locais. Segundo Le Goff, os bispos e monges agiam como religiosos e políticos, negociando com os “bárbaros”, atuando como “embaixadores”; distribuíam víveres e esmolas; protegiam os pobres contra os poderosos; organizavam resistência militar; lutavam contra a violência; moderavam os costumes. Na medievalidade, as instituições educacionais eram: 1. As escolas dos mosteiros ou escolas abaciais (termo que vem de abadia, sinônimo de mosteiro); 2. as escolas no governo de Carlos Magno ( fins do séc. VIII e início do IX) 3. as escolas, catedralícias e palacianas 4. o ensino nas corporações de ofício; 5. a formação do cavaleiro; 6. as universidades; 7. a educação na cidade. 2 Os mosteiros O surgimento dos mosteiros deve-se a vários fatores, dentre os quais a um hábito desenvolvido desde os primeiros momentos do cristianismo: a opção de algumas pessoas pela vida solitária, afastada de todos os bens materiais, com a finalidade de se dedicar apenas à oração, hábito também conhecido como eremitismo. Já nos séculos I e II, sabe-se de histórias de homens que decidiram abandonar o que possuíam para viver em lugares afastados, dedicados apenas à oração e ao trabalho, chamados eremitas ou anacoretas3. Principalmente a partir dos séculos III e IV, o que era uma prática de vida singular torna-se comum, a ponto de já se identificarem pequenos grupos de eremitas vivendo em vários lugares da Europa. No início do século VI, em 529, Bento de Núrsia fundou uma comunidade de monges4, que se tornou a principal ordem monástica e a referência para todas as outras que se estabeleceram. 3 Em grego anachoresis, que significa aquele que vive retirado. 4 Monge vem do latim monacus, que significa aquele que vive sozinho. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 36 O monge consagra-se a rezar e trabalhar para as obras de Deus, longe do mundo das cidades e das coisas “mundanas”: uma vida dedicada aos valores “superiores” da religião. Em função dessa nova proposta de vida, entre outros fatores, as comunidades monásticas ou mosteiros tornam-se, a partir do início do século VI, um centro de atração de várias pessoas, chegando alguns mosteiros a ter mais de 2000 membros.Esse sucesso não se deve somente a fatores religiosos. Há que se levar em conta que os mosteiros tornaram-se lugares seguros e estáveis em meio às constantes perturbações e turbulências pelas quais passavam as cidades européias, sempre alvos de invasões e saques por parte dos povos “bárbaros”5. Um resultado prático dos mosteiros foi a atenção que deram ao ensino. Desde sua criação, os mosteiros foram locais em que as obras herdadas da romanidade ficaram guardadas e onde se dava um mínimo de instrução aos seus membros. Em quase todos os mosteiros havia algum armário6 com obras para a oração e estudo dos monges. Serão os mosteiros, por um espaço de quase 300 anos, os lugares privilegiados, para não dizer únicos, de ensino e formação intelectual no Ocidente latino, bem como de guarda e depósito da cultura latina. As Escolas dos Mosteiros (ou Abaciais) As primeiras escolas que surgiram nesse período conturbado foram nos mosteiros, conhecidas também como “escolas abaciais” – termo que vem de abadia, outro nome para mosteiro. Objetivo: formação do clero e instrução básica dos religiosos. Essas escolas dependiam totalmente dos mosteiros aos quais estavam ligadas e, portanto, a formação que era oferecida também dependia de estes apresentarem ou não os meios adequados (livros e bons mestres). Conteúdo: ensino religioso, liturgia da Igreja, gramática latina, retórica, cálculo, aritmética, geometria, música. Dedicavam-se ainda ao estudo do discurso, de como falar corretamente. 5 Uma curiosidade: a palavra bárbaro vem de balbus, aquele que balbucia. Ora, os gregos chamavam de bárbaros todos aqueles que balbuciavam ou não falavam corretamente a língua grega, ou seja, aqueles que não tinham a cultura e a civilização de um grego. Daí que bárbaro é todo aquele que não sabe falar, que não possui os “modos civilizados” de uma determinada cultura. Para os gregos, todos os não-gregos eram bárbaros. Para os romanos todos os povos não- romanos eram bárbaros. Assim, cada “civilização” rotula a outra como bárbara, quando esta não sabe os seus modos e comportamentos. 6 Era esse o nome dado ao lugar onde ficavam guardados os livros. O termo biblioteca foi adotado posteriormente. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 37 À medida que os mosteiros se organizavam melhor e ampliavam seus acervos de obras, bem como incorporavam em sua comunidade mestres habilitados, esse programa de ensino foi sendo ampliado até receber um formato que durou por quase toda a Idade Média, conhecido como Trivium e Quadrivium. Com a duração de aproximadamente 7 anos, a formação iniciava-se com o ensino do Trivium, ou seja, da gramática, da retórica e da dialética. a) Gramática. Dada inicialmente por textos de fácil leitura para que os versos fossem gravados rapidamente e corretamente pronunciados. Como não havia muitos livros para serem copiados, os professores ditavam os textos que deveriam ser corretamente escritos, forçando os alunos a apreenderem a forma correta com base na pronúncia. Esse exercício era o dictamem, cuja prática era feita à exaustão. Com isso os alunos rapidamente gravavam as regras gerais da língua e, por técnicas de memorização. b) Retórica, também conhecida como a arte de bem falar, ou seja, de fazer discursos e pronunciamentos públicos; não era mais praticada, uma vez que não se falava mais o latim no cotidiano. Neste período da Idade Média as línguas neolatinas, como o francês, o italiano, o português etc., já estavam em formação e eram predominantes na comunicação nas comunidades. O latim só era conservado nos textos e documentos oficiais. O ensino da retórica era realizado basicamente por meio de exercícios escritos, nos quais o aluno desenvolvia a sua capacidade de construir textos bem ornamentados. c) Dialética é a arte do raciocínio ou do debate. O termo “dialética” deriva de “diálogo”, duo (dois) logos (razão), ou seja, composição ou confronto de dois logos, de duas razões. A dialética era a técnica ou a arte de exercitar a razão, os argumentos, com vista à exposição ou explicação de algo. II - Depois do estudo do trivium, os alunos passavam ao estudo do Quadrivium, que consistia na aritmética, geometria, música e astronomia. a) A Aritmética consistia no aprendizado de cálculos simples. b) A Geometria consistia no estudo das figuras simples e planas. Esse estudo era o “mais filosófico”, já que as formas geométricas, por serem abstratas, levavam os HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 38 homens a pensar nas ideias, início da pesquisa filosófica. c) A Astronomia resumia-se ao estudo das fases da lua, das constelações, das estações do ano, enfim, dos fenômenos básicos da natureza conhecidos até então. Esse conhecimento também era útil para a agricultura e a navegação. d) A Música iniciava-se pelas noções de teoria musical, para depois se concentrar num instrumento, como a flauta, a cítara, a harpa ou a trompa. Pesquisas mostram que a música teve um lugar de destaque durante o período medieval, tendo diversos praticantes em quase todos os lugares. Lembremo-nos de que neste período da Alta Idade Média o ensino concentrava-se no básico, preparando as pessoas para exercer cargos altos na Igreja, na administração e conhecer, por seus próprios meios, aquilo que lhes interessasse. Não se estudava para conseguir um emprego ou qualquer tipo de vantagem econômica ou social. Haviam ainda as escolas catedrais (escolas catedralíciais), que eram mantidas pelos bispos, que funcionavam junto à catedral. Essas escolas também tinham a função de preparar com um mínimo de instrução os futuros clérigos. Tal como nas escolas abaciais, nas escolas catedrais dava-se importância, primeiro, aos estudos eclesiásticos (estudo da bíblia, da doutrina cristã e da liturgia), para depois se passar aos estudos laicos propriamente ditos. Nessas escolas o ensino se compunha do trivium e do quadrivium. O aprendizado nas corporações de ofícios dava-se por meio das sete artes mecânicas, sendo elas: arte da tecelagem, arte do ferreiro, arte da guerra, arte da navegação, arte da agricultura, arte da caça, arte da medicina. Essas artes não eram ensinadas nas escolas, por meio de manuais técnicos, mas nas corporações de ofício. O conhecimento técnico necessário para a execução desses ofícios era adquirido através da instrução de um mestre, no contato direto com o trabalho. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 39 Havia ainda as sete artes da cavalaria: equitação, esgrima, torneio, luta, corrida, salto, arremesso da lança. O menino escolhido para ser cavaleiro começava como pajem e, aos poucos, era introduzido nas outras sete artes: equitação, natação, tiro de flecha, luta, caça, xadrez e versificação. 3 A educação no governo de Carlos Magno (o Império carolíngio) A educação característica da primeira parte da Idade Média sofre uma profunda alteração com a instauração do Império Franco, sob o comando de Carlos Magno. Com a queda do Império Romano, a Europa ficou dividida em vários reinos, controlados por senhores locais, sem a presença de um governo que centralizasse politicamente os territórios. A unificação política tem seu início no começo do século VIII, com o rei Pepino, o Breve, que realiza uma série de conquistas para o seu reino Franco7. O filho de Pepino, Carlos Magno (742-804), prossegue nesse projeto de expansão das fronteiras, formando, no final do século VIII, um vasto Império que domina quase toda a Europa. Nos primeiros momentos de seu reinado, Carlos Magno percebe uma grande falta de funcionários com um mínimo de instrução para auxiliá-lo na tarefa de administrar o reino. O imperador percebe a carência de homens capacitados para arrecadar impostos,administrar a justiça, fazer a comunicação no interior do Império, construir e restaurar as estradas e o transporte etc. Para suprir essa falta, ele institui as escolas palacianas, mantidas pelo Império, para oferecer instrução básica aos jovens, numa clara intenção de formar quadros para a administração. Além desse primeiro passo de institucionalização das escolas, Carlos Magno também promove uma reforma nos conteúdos e nos modos do ensino com a renovação do império. 7 O Império Franco teve como sede os territórios que seriam hoje a França. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 40 Para realizar essa tarefa, ele chama da Irlanda o monge Alcuíno de York, que coordenará sua escola palaciana. Essa época também ficou conhecida como a Renascença Carolíngia, No entanto, é necessário ressaltar que esse estímulo ao ensino não foi fruto somente dos desejos do imperador. Com as conquistas e a unificação política dos territórios da Europa central interrompeu-se um grande ciclo de invasões bárbaras. A segurança dada pelas tropas imperiais fez com que a vida nos castelos, feudos e vilarejos transcorresse com mais calma e tranquilidade. Essa segurança também proporcionou um maior desenvolvimento econômico, diminuindo a incidência de pestes e epidemias. Todos esses fatores combinados geraram um ambiente em que os homens podiam se dedicar à cultura e à educação, deixando de viver apenas em razão de sua sobrevivência. 4 As escolas palacianas As escolas desempenharam um papel de destaque na retomada da cultura nos territórios do Império Franco (ou Carolíngio), transformando-se em centro de difusão cultural. Todavia, elas não nasceram com Carlos Magno; na verdade elas já existiam e apenas se difundiram pelos territórios imperiais. As escolas palacianas, apesar de serem mantidas pelo Império e não pela Igreja, apresentavam, também, no seu currículo, o caráter religioso das outras modalidades de escola. Isso porque os professores e mestres eram recrutados entre os únicos que possuíam conhecimento: os religiosos. Conteúdo: o trivium e o quadrivium; a instrução religiosa cristã estava presente em todos os momentos da formação dos alunos. Quando as escolas são formadas, seu objetivo era o ensino básico, a instrução mínima necessária para que o Império e a Igreja tivessem membros mais aptos para as suas funções. No entanto, algumas dessas escolas se desenvolveram, formando bibliotecas com várias obras e mestres dedicados somente ao ensino e aos estudos. Nessas escolas em que se ampliam e intensificam os estudos, além do objetivo primeiro de transmitir os conhecimentos existentes, começa-se, pouco a pouco, uma preocupação com o desenvolvimento de novos conhecimentos, com a pesquisa especulativa. Dentre essas escolas que se desenvolvem, aquelas ligadas às catedrais conseguem uma significativa ampliação entre os séculos X e XII. Esse crescimento deve- HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 41 se a dois fatores básicos: o ressurgimento da vida urbana e a constituição das corporações de ofício ligadas aos mestres-escolas. A partir do século XI tem-se a retomada lenta e gradual da vida nas cidades. Pequenos artesãos e mercadores passam a morar do lado de fora dos muros do mosteiro, realizando pequenos serviços para os monges. Estes homens são também conhecidos como burgueses, já que moram no burgo, vila dependente das comunidades religiosas. As cidades podem originar-se também dos castelos episcopais ou nobiliárquicos, que têm em seu interior um número restrito de moradores, com um pequeno mercado para atender às necessidades cotidianas. Há um aumento no número de artesãos e de qualificações. Esses profissionais vão se organizar para controlar os mercados e disseminar conhecimentos ou técnicas de cada ofício, formando as corporações de ofício. Neste novo espaço urbano ocorre também a valorização da cultura. As cidades tornam-se, centros de irradiação e recepção de ideias, valores e conhecimentos até então restritos a poucas pessoas. O estudo ganha força nesse novo mundo cultural que se organiza. Nas cidades a liberdade para o estudo e para a investigação intelectual é muito maior do que nos mosteiros e castelos. Se nesses lugares a formação escolar ocupa um papel secundário e restrito a um grupo social, nas cidades a organização das escolas é muito mais livre, permitindo inovações nos currículos e nas disciplinas. Ocorre também o aumento do número de escolas e de sua importância. Professores e estudantes passam a não se contentar mais com aquilo que era dado no trivium e no quadrivium; as trocas na cidade provocavam discussões e debates, que a todo o momento questionavam os limites e os alcances das ideias transmitidas na formação escolar. A escola não tinha sido concebida como lugar de experimentação intelectual, não era um espaço destinado à criação e elaboração de novos conceitos e ideias. A escola era, tão somente, o lugar de transmissão dos rudimentos da cultura para os jovens. Se havia a necessidade de descobrir coisas novas, de investigar ideias, esse lugar não era a escola. Era necessário, portanto, inventar um novo espaço para que se realizassem as investigações intelectuais: as universidades. Surge ainda uma nova “profissão” neste renascimento da cidade do século XII: os mestres-escolas ou professores que organizavam cursos ligados às escolas catedrais ou livremente, sem nenhuma ligação com as instituições eclesiásticas. Quem eram esses “professores”? O padre secular e o clérigo + clérigo goliardo. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 42 Os padres seculares (em oposição ao padre regular, vive na cidade ou na aldeia, ou seja, no espaço secular, espaço laico. O padre secular é o pároco da cidade que cuida e vive junto a uma determinada comunidade de fiéis) adquirem autonomia para organizar escolas em suas paróquias, ou seja, esses padres fundam escolas que ficam sujeitas a todas as influências que chegam nessas cidades. Outra figura que vai trabalhar nessas escolas paroquiais e vai desempenhar um papel decisivo na formação das universidades é o clérigo. O clérigo, ao se inserir na vida secular, vai trabalhar como professores nas escolas, recebendo dos bispos ou dos alunos algum salário para o seu sustento. Mais do que os padres seculares, os clérigos terão uma ampla liberdade para ensinar, tornado-se em geral os professores de maior prestígio. Há, ainda, outra figura que contribuirá para a criação das universidades são os clérigos goliardos, formado por um grupo de “críticos” ou intelectuais que vagavam pelas cidades. Têm eles origem diversa, são camponeses, nobres, gente das cidades, mas, antes de tudo, são homens que andam de um lugar ao outro, disseminando críticas às estruturas sociais, à ordem estabelecida, à Igreja e aos frades8. São esses homens livres que, com instrução, disseminarão a prática do debate público e aberto, no qual os temas são escolhidos conforme a necessidade e a crítica é feita sem temores, com o único compromisso do “amor à verdade”. Os professores organizados em torno das corporações de ofício passam a oferecer um tipo de formação superior àquele transmitido nas escolas. Esses conhecimentos serão divididos em quatro grandes áreas: Medicina, Direito, Teologia e Artes. Nascem, portanto, as Universidades, lugares em que esse estudo superior, de caráter investigativo e não repetitivo, será feito por meio de debates e disputas dialéticas. Dada a natureza libertária de seus idealizadores, as universidades reivindicarão sempre a liberdade para estabelecer seus currículos, suas regras, enfim, sua vida. A luta contra qualquer tipo de controle externo e a defesa da liberdade será uma característica predominante em quase todas as universidades em qualquer tempo e lugar.As várias mudanças ocorridas na vida européia nos séculos XI, XII e XIII, especialmente no modo de vida e na cultura, implicam modificações na educação escolar. O objetivo fundamental do ensino não era mais a formação religiosa; cresce uma tendência à laicização, ou seja, os estudos voltados para as questões terrenas, humanas: o mundo comercial exigia novas habilidades intelectuais, além disso uma nova conjuntura política, diferente da monárquica começava a ser formar: a república, 8 Assim é também chamado o frei das ordens religiosas, como os franciscanos, dominicanos, carmelitas, etc. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 43 descentralizando o poder político para grandes parcelas da sociedade. A ocupação de cargos políticos exigia o domínio da linguagem e da retórica; cargos administrativos, burocráticos, como os relacionados à justiça e à diplomacia exigiam o conhecimento aprimorado do bem escrever, das regras de convencimento, do aprimoramento das técnicas de escrita e composição das cartas. Como não havia nenhuma instituição que ofertasse esse conhecimento requerido pelos novos tempos, os comerciantes, advogados e funcionários públicos contratavam os professores de retórica para. Esses professores ensinavam, para aqueles que já haviam recebido a instrução escolar, técnicas mais elaboradas de como escrever uma carta a um rei ou nobre, uma carta de exortação a alguém, um pedido a um juiz, entre outras necessidades. As técnicas de redação ensinadas pelos ditadores, pois eram assim conhecidos esses professores, cria a arte de ditar, de bem escrever. Portanto, além da formação básica nas escolas, a nova vida urbana exigia cada vez mais o conhecimento das técnicas de bem escrever, de bem se comunicar, pois a conversa, o contato, eram a base da sociabilidade. Todos esses acontecimentos revelam o declínio do poder de influência seja da Igreja seja da religião cristã nos homens. Esse aumento de importância das coisas civis implica a diminuição da força do mundo religioso. No campo da educação, o que se nota é a crescente laicização9, ou seja, as cidades e os homens cultos passam a se encarregar da educação. A tarefa de ensinar ainda é desempenhada majoritariamente pela Igreja, mas escolas e institutos organizados por leigos começam a aparecer. A educação vai adquirindo um caráter mais laico e menos religioso, mais ligado aos valores da cidade, aos valores civis e vai se desprendendo dos ideais da religião cristã. Os mosteiros, conventos e os claustros, que antes encantavam as populações, não as cativam mais. Passa-se a acreditar que se pode ser feliz na cidade, fora dos muros seguros das instituições religiosas. O que antes era considerado lugar de perdição, de pecado, adquire uma nova significação para os homens: passa a ter grande valor e admiração. Quando ocorre essa inversão de valores, o ideário medieval começa a desaparecer e uma nova etapa se anuncia: o humanismo e o renascimento. 9 Sinônimo de laico ou leigo, aquilo que não é religioso. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 44 TEXTO COMPLEMENTAR EDUCAÇÃO MEDIEVAL RELIGIOSA RESUMO Quando o leitor anseia pela compreensão do pensamento ocidental deve observar os modelos educacionais ao longo da história, em especial os da Idade média e para tanto necessita agregar através da pesquisa subsídios para tal análise. A síntese apresentada percorre um período da história compreendido entre a queda do Império Romano e surgimento do Renascimento, falamos da Idade Média, período de grande influência da Igreja Católica e formação de novos modelos educacionais pautados na doutrinação religiosa. Alguns aspectos pertinentes à educação na Idade Antiga também são levantados, pois servem de alicerce aos modelos educacionais da Idade Média. O controle da educação medieval por parte da Igreja pode se fazer notar pelos principais pensadores, a maioria ligada à Igreja. INTRODUÇÃO A educação ocidental apresenta forte influência dos conceitos educacionais greco – romanos e, por conseguinte da educação cristã. São justamente estes conceitos inerentes ao cristianismo medieval que serão analisados e comentados, bem como os fortes cravos deixados e transmitidos para as correntes educacionais hoje defendidas e utilizados como modernos processos de aprendizagem. Os mais desavisados acabam ignorando a reprodução contida nas teorias pedagógicas apresentadas aos profissionais da educação, crendo de fato em mudanças significativas nos modelos educacionais. A fase histórica investigada remota a Idade Média principalmente, buscando o final da Idade Antiga, mais especificamente o período que antecede a queda do Império Romano e suas características declinatórias. Apresenta comentários acerca da influência no pensamento ocidental e seus reflexos na atualidade. Lembrando que o norte da referida análise é a educação. SÍNTESE DA EDUCAÇÃO ROMÂNICA Para uma análise didática e coesa ocorre a necessidade de resumidamente descrevermos a educação romana. Esta recebeu forte influência grega, tanto que após as conquistas romanas no Mediterrâneo foi absorvida a cultura helênica e adotada como principio para a educação dos patrícios, sendo difundida por todo o reino latino. Surge sob o império a figura do pedagogo remunerado, mas não nos enganamos a educação continua sendo elitista e dominadora. A educação romana segue duas linhas, a virtutes (moral, civismo e religiosidade) de base românica e a doctrinae ou cultura (instrução escolar técnica em especial as letras) esta quase que totalmente grega. Quando o Império HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 45 Romano do Ocidente aproxima - se de sua desintegração, nas portas da Idade Média, o mesmo ocorre com a educação clássica. De acordo com Manacorda (2000, p. 107): Nesta situação de total destruição, em cuja descrição se percebe a mão de um funcionário saído das escolas de retórica, num império desolado e invadido por populações inteiras de bárbaros armados, é impossível falar de organização da vida civil e menos ainda de difusão de uma escola. Para a maioria, já não se tratava de educar os filhos, mas de arrancá-los da morte e da fome. O que pode sobreviver da velha escola senão ilhas esporádicas de instrução familiar ou privada. EDUCAÇÃO MEDIEVAL Após drásticas modificações na geopolítica surgem os feudos, protetorados que agregam vários donos de terras que as submetem a proteção de um nobre com total apoio da igreja. Igreja esta que sobrevive a desintegração do Império Romano, gênese do feudalismo. Devemos lembrar que aspectos do modelo romano continuam sendo seguidos (influência nas letras, gramática, retórica, organização e logística militar), pois os bárbaros sofreram aculturação, exceção feita a Britânia que ignora totalmente a cultura do antigo império. O período de instabilidade provocado pela decadência e queda do império, bem como a formação dos diferentes feudos gerou um processo de regressão cultural, haja vista que a educação passou a ser secundária. Na nobreza e no clero a falta de cultura e até mesmo analfabetismo torna – se relativamente comum, tal característica é estendida a todos os cantões do antigo império, embora uma parcela dos bárbaros, agora no poder de seus feudos, tenha sofrido aculturação e conversão ao cristianismo. De acordo com Manacorda (2000, p. 111): No que concerne particularmente ao campo da instrução, verificam–se dois processos paralelos: o gradual desaparecimento da escola clássica e a formação da escola cristã, na sua dupla forma de escola episcopal (do clero secular) nas cidades, e de escola cenobítica (do clero regular) nos campos. Mas, não obstante as exceções, o nível cultural é muito baixo quer entre os bárbaros,quer entre os homens da Igreja, quer ente os representantes do império. A nova educação cabe à família e à Igreja que abarca características bíblicas, nasce então o modelo de escola cristã. A Igreja passa a ser a controladora e mantenedora da educação, formam-se mosteiros e distintas ordens religiosas, onde os nobres passam a ser instruídos e doutrinados, juntamente com alguns eleitos que HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 46 formarão o alto clero, culto e dominador. Devemos destacar a ignorância da maioria dos indivíduos do baixo clero, onde até mesmo casos de analfabetismo total era possível ser presenciado. A escolástica nasce do pensamento cristão europeu da Idade Média. Segundo Manacorda (2000, p.122), "Pode-se dizer, considerando as iniciativas educativas do clero secular e do clero regular, que mudaram os conteúdos, e que dos clássicos da tradição helenístico-romana passou-se para os clássicos da tradição bíblico-evangélica". Foi durante o governo Carolíngio que a Europa atinge avanços significativos com a construção de vários mosteiros, abadias e conventos, também é criada a escola Palatina que mais tarde serve como referência para vários pontos da Europa. É sob o governo de Carlos Magno que surge o primeiro programa de educação e são trazidos vários religiosos da Europa, educando desta forma a nobreza. De acordo com Martins (2006), além de Alcuíno,vão trabalhar na corte imperial, Paulo Diacre, um italiano que trabalhou na corte da Lombardia; Teodulfo que traz de Espanha a riqueza da cultura moçoárabe, Scoto Eriúgena, o teólogo irlandês e por fim, o germano Eginardo. Frequentavam esta escola o próprio imperador, os príncipes e os jovens da nobreza. Ao lado desta instrução e educação ministrada aos jovens da nobreza por eclesiásticos, a Idade Média oferece-lhes ainda uma educação militar e cortezã, educação à qual, desde cedo, a Igreja procurou também imprimir uma orientação religiosa e doutrinal. O modelo escolástico atinge seu apogeu através de Santo Tomás de Aquino, pensador aristotélico que diverge do precursor da escolástica, Santo Agostinho. Para Aquino à divergência entre o que chamava de metafísica e a teologia eram claros, porém passíveis em determinados pontos de convergência. Embora rígido, o modelo admitia espaço para a reflexão e discussão, bem como aplicação da lógica doutrinatória da Igreja. A Igreja na Idade média dominava o cenário religioso, detentora do poder espiritual, a Igreja influenciava o modo de pensar, a psicologia e o comportamento. O poder econômico também era vasto, pois possuía terras em grande quantidade e até mesmo servos a seu dispor. Os monges e outros clérigos eram responsáveis pela proteção espiritual de toda a sociedade. O final da Idade Média apresenta sinais de mudanças que atingirão o desenvolvimento intelectual, artístico e científico que florescerão na Idade Moderna, seja por inúmeros fatores como; a organização educacional proposta no período Carolíngio e de fato posta em prática, pela criação das primeiras universidades que rapidamente se espalharão pelo continente, a redescoberta e valorização dos clássicos greco-romanos, HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 47 surgimento dos mecenatos, cisma da Igreja Católica e advinda do Protestantismo, proposto por Lutero CONCLUSÃO É forte a influência dos grandes filósofos gregos desde a Grécia Antiga, passando pelo vasto Império Romano e impregnando obras de pensadores como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, talvez o maior expoente da Idade Média. A educação apresentada na Idade Média passou por momentos de transição como o fim do Império Romano e o início da Idade Moderna. Os primeiros quatrocentos anos da Idade Média são marcados pela firmação territorial dos novos reinos, pela falta de ênfase no processo educativo da nobreza e até mesmo do clero e, pelo rompimento do modelo clássico, com a concentração massiva na escola cristã patrística. Mais tarde, nasce a educação escolástica de controle exclusivista da Igreja, sendo ela a única fomentadora da produção literária e do pensar. Nada mais conveniente para Igreja que o esquecimento dos clássicos. Somente no governo de Carlos Magno ocorre uma preocupação acentuada com a educação dos nobres e clérigos, surge então um incentivo à construção de mosteiros e abadias, bem como a primeira escola livre da administração religiosa, a escola Palatina que mais tarde serviria de modelo para várias partes da Europa. O modelo escolástico apresenta seu apogeu com Santo Tomás de Aquino que visualiza a possibilidade clara de aproximação e convívio entre a metafísica e a teologia, talvez seja esta sua maior contribuição para o pensamento ocidental. São ainda heranças do modelo escolástico, os processos de separação em áreas do conhecimento, do sistema de repetição e memorização, a elitização da educação e a doutrinação do indivíduo. Fica clara a correlação entre os modelos educacionais convergentes nos países periféricos com as características acima descritas, mesmo que a educação esteja elencada nos direitos universais do cidadão, a educação padece de qualidade e investimento, continuando por este motivo no controle de poucos. REFERÊNCIAS MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. 8ª ed. São Paulo: Cortez, 2000. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 48 LUZURIAGA, Lorenzo. História da educação e da pedagogia. 6ª Ed. São Paulo. Ed Nacional.1972. 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Por isso, o texto fará um recorte: procurará explicitar o núcleo central do embate pedagógico entre os pensadores da modernidade e os conservadores e reacionários ao redor das questões fundamentais daquele momento, tais como liberdade de pensamento, de expressão e de pesquisa, dúvida metódica, metodologia científica, ensino universal, público e gratuito. Primeiro discute-se as questões gerais das mudanças, particularmente o que se refere às propostas humanistas e às transformações no âmbito das ciências e pedagogia, com destaque para o pensamento de Francis Bacon e os fundamentos da pedagogia dos jesuítas e, posteriormente são apresentados os fundamentos das propostas pedagógicas de três dos mais significativos pensadores do tema: Juan Luís Vives, João Amós Comenius e Jean-Jacques Rousseau. 1 Um tempo de mudanças O período histórico que se estende de 1453 a 1789 e que a tradição historiográfica ocidental denomina Idade Moderna caracteriza-se por um longo processo de transformação, durante o qual o declínio medieval se consumou e a revolução burguesa se estruturou, vindo a se realizar cabalmente no século XIX. Nos três séculos de sua duração, a Idade Moderna foi o palco da luta entre os remanescentes da feudalidade e os que buscam consolidar novas formas de se produzir a riqueza: o mercado internacional suplantando a feira do vilarejo e da aldeia; o cerceamento das terras, antes comunais, para a criação de carneiros fornecedores de lã para a manufaturatêxtil que se consolidava nas cidades, renascidas ou então recém- criadas; a transformação dos antigos camponeses em assalariados urbanos; a oficina, Estude esta unidade antes do encontro! HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 50 com a divisão do trabalho, eliminando o atelier do mestre artesão. Todo esse conjunto de transformações criou os fundamentos para a Revolução Industrial do século XVIII e a consolidação do capitalismo industrial e urbano ao longo do século XIX. No campo da política, a Idade Moderna foi o tempo da constituição dos Estados Nacionais europeus, Portugal e Espanha na vanguarda, encerrando o tempo histórico do domínio dos senhores feudais na maior parte da Europa e a consequente concentração do poder nas mãos de uma dinastia, ou Casa Real: Bourbon, Bragança, Habsburgo, Sabóia etc. O Rei passou a ser o símbolo da unidade nacional da cada Estado Europeu (p.108). As sucessivas guerras entre famílias poderosas da aristocracia européia, nas Guerras dos Cem Anos e na Guerra dos Trinta anos, criaram os modernos Estados Nacionais europeus, é certo, mas, além disso, ensejaram também o aparecimento, paulatino e tímido, de outras ideias políticas, diferentes das ideias políticas medievais. Entre elas, o conceito de liberdade foi, aos poucos, se estruturando e se consolidando como o fundamento da sociedade burguesa que então ensaiava seus primeiros passos. No terreno das ciências e das especulações filosóficas, tem-se a emergência do humanismo (desde o século XIV), o qual forjava um novo conceito de Homem, um novo conceito de humanidade que suplantava, ia além do conceito formulado pelo pensamento predominante na Idade Média. O conceito de Homem, cultivado e difundido na Idade Média, calcado em uma suposta dualidade corpo-espírito, sendo o corpo considerado a prisão do espírito, foi suplantado pela noção de que o homem é um ser dotado de corpo e espírito. Se o espírito devia continuar sob a égide da religião católica, o corpo passava a ser objeto da ciência, das artes e da política. As novas ideias influenciam o surgimento de 2 movimentos: o Humanismo e a Reforma Protestante. Esse é o ponto central, a pedra fundamental para o entendimento dos projetos pedagógicos elaborados por diversos pensadores ao longo dos três séculos da Idade Moderna. Trata-se do avanço da cultura letrada e a busca de comportamentos distintivos por parte de camadas cada vez mais largas da sociedade que impulsionam a nova instituição. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 51 A tarefa pedagógica cabia até a Idade Média às famílias, aos colégios e às escolas cristãs. Já, nos tempos modernos, uma das características mais importantes foi a criação do sistema escolar de formação/ educação pública. A escola moderna surge por volta do séc. XVI com a Reforma Protestante, com Lutero, cujo objetivo era incitar as populações para a leitura direta das Sagradas Escrituras e preparar os meninos para a administração das cidades. Nesse momento já podemos identificar formas históricas e democratização das oportunidades escolares para a população civil. Pela primeira vez, com Lutero o mundo moderno ouviu falar de ação de Estado na educação. Em 1523, enviou uma “carta aos magistrados de todas as cidades alemãs para que construam e mantenham escolas cristãs”. Portanto suplico a todos, estimados governantes e amigos, pela graça de Deus e pela juventude pobre e abandonada, não considerar isto como assunto sem importância [isto é, a criação de escolas], como fazem alguns que, em sua cegueira, menosprezam os ardis do Inimigo. Pois é um grande e solene dever que nos está imposto, um dever de imensa importância para Cristo e o mundo, prestar auxílio e conselho à juventude...A prosperidade e bem-estar de uma cidade não consistem somente em acumular riquezas, em construir sólidas muralhas e belos edifícios ou em fabricar armar e munições. Seu melhor e maior bem, sua fortaleza, é contar com muitos cidadãos cultos, polidos, inteligentes, honrados e bem educados, que possam depois reunir, conservar e empregar bem tesouros e riquezas (LUZURIAGA p. 56). Calvino, outro reformador da Igreja Cristã, (século XVI) destaca para as autoridades municipais que se deveria erguer uma estrutura coletiva de escolarização, destinada a oferecer às populações cristãs a articulação entre leitura, escrita e ortodoxia cristã. (p.136) Calvino remarcava a necessidade de as crianças e os criados aprenderem “a ler e ver com os próprios olhos aquilo que Deus ordena e manda”. Seu propósito institucional supunha uma estratégia pedagógica calcada na preparação do espírito mediante uma estrita disciplina, meticulosamente planejada, com divisão de horários e de tarefas de instrução e de catecismo. A doutrina da predestinação (para Calvino, a salvação não depende dos fiéis; depende de Deus, que escolhe previamente as pessoas que deverão ser salvas).: “Nós chamamos predestinação á decisão eterna de Deus pela qual determinou o que queria fazer com cada indivíduo. Pois ele cria todos em condições semelhantes, mas ordena uns à vida eterna e outros à eterna danação” (ARRUDA, Toda a História, p.165). Assim, cabia ao homem procurar os sinais de sua predestinação nas obras e no mundo. Era preciso trabalhar e ter responsabilidade individual. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 52 Em outras palavras, é necessário que se entenda esse momento como o tempo de elaboração da Modernidade, e por modernidade deve-se entender o novo mundo, as relações sociais, econômicas, culturais e políticas que se consolidaram com o capitalismo e a sociedade burguesa. Ou seja, um mundo novo, fluido, dinâmico, veloz, onde tudo parecia se desmanchar no ar. A ampliação de todas as atividades econômicas (mercantis e comerciais) provocou o desenvolvimento de novos grupos e classes sociais. Ao mesmo tempo, o Renascimento gerou ideias fora do controle da hierarquia da Igreja Católica Romana: os novos conceitos de liberdade, de ciências, de interpretação dos textos sagrados. Nesse fervilhar de novas realidades, de novas ideias, ficava evidente para os novos pensadores a necessidade de se educar as novas gerações em consonância com o mundo moderno. Desde o italiano Vitorino da Feltre, nos finais do século XV, até Rousseau ou Pestalozzi, nos finais do século XVIII, passando por Juan Luís Vives, João Amós Comenius, Locke, Rollin, Bodin e até mesmo os jesuítas, embora estes com um vetor em direção contrária, a preocupação dos pedagogistas foi a educação do homem para o mundo e não mais para o Céu. Educar para a "cidade dos homens" significava colocar o próprio homem no centro das preocupações, especulações e investigações e, com isso, abriam-se espaços para os avanços científicos. É o que apregoava o Humanismo. 1.1 O Humanismo A Idade Média (476-1453) marcou uma série de mudanças na sociedade, algumas das quais sentimos ainda hoje seus impactos. Conhecido também como Idade das Trevas esse período histórico concretizou sistemas políticos e iniciou o processo que suscitou a efetivação das bases do capitalismo. Além disso a Idade Média foi marcada também pela construção de concepções ideológicas que serviram para introduzir o Homem no contexto social e filosófico da humanidade. A Igreja Católica, além de possuir o domínio territorial em grande parte da Europa, tinha também o poder de estabelecer os critérios e os rumos para a pesquisa científica. Praticamente todo pensamento científico da Idade Média estava subordinado aos interesses da religião. Para solidificar sua ideologia religiosa a Igreja difundia a teoria teocêntrica, onde defendia que Deus seria a explicação para a origem e o destino dos seres humanos, por exemplo. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 53 O Homem estava submetido ao poder de Deus,enquanto este guiava o rumo de sua vida. Sempre colocado pela religião em segundo plano, o Homem era um agente passivo mediante o poder divino que concretizava alianças monárquicas e militares e incitava a caça aos hereges. Todo esse poder exercido pela Igreja foi, ao longo dos anos, ganhando força, enquanto espalhava seus domínios pelo continente europeu. Entretanto, quando as bases do sistema feudal começavam a ruir, movimentos revoltosos de camponeses eclodiam em alguns pontos da Europa. Começariam a surgir questionamentos sobre o teocentrismo e o Homem passava então a pensar o mundo sob o ponto de vista Humanista. A teoria Humanista veio surgir somente no início do século XIV quando o italiano Francesco Petrarca (1304-1374) colocou o homem como centro de toda ação e como agente principal no processo de mudanças sociais. Essa posição de alguns pensadores causou impactos na Igreja. No entanto o humanismo em nenhum momento renegou o catolicismo. Humanistas como Petrarca eram religiosos, porém não aceitavam apenas uma explicação como verdade plena. O pensamento Humanista baseou-se no antropocentrismo. Se antes Deus e a Igreja guiavam o Homem e seus passos, agora o Homem, por si só, obedecia a reflexão mais aprofundada para discernir seus caminhos. O pensamento Humanista fez ressurgir na cultura europeia a filosofia greco-romana. Não obstante o grande avanço do pensamento Humanista, este se restringiu à filosofia e à literatura, não englobando outros setores como as artes plásticas, por exemplo. Petrarca, como fundador do Humanismo, é figura central no processo de revolução do pensamento europeu que culminou com o movimento conhecido como Iluminismo. Foi ele o primeiro humanista do Renascimento. O novo, o moderno dessas novas formas de pensar era o Humanismo, a nova ou renovada concepção de Homem dentro de um princípio revolucionário: a liberdade. O humanismo foi uma violenta reação ao modo de pensar, educar, exprimir-se e, pode-se mesmo dizer, uma reação contra a maneira de viver da Idade Média. Desde o humanismo renascentista, estabeleceu-se que o saber humano não dependia da Revelação Divina – teoria católica do conhecimento – mas era produto mesmo da experiência dos homens no seu contato sensório-motor com o mundo natural. Portanto, é na Idade Moderna, mais especificamente no Renascimento, que surge uma abundância de produção pedagógica de grandes autores, Rabelais, Erasmo, Thomas More, Lutero, Vives, Montaigne etc., até publicações de autores caídos no esquecimento. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 54 Desenvolveu-se, desde então, uma necessidade vigorosa de pesquisa e de estudo da "natureza", primeiro pelo conhecimento integral dos Antigos e, mais tarde, com Galileu, Bacon e Descartes, pela própria ciência. Entre os grandes pensadores daquele momento, o nome de Francis Bacon (1561 - 1626). é um marco na formulação desse avanço, conhecido como o pai do Experimentalismo. No seu livro, Nova Atlântida, propõe que a finalidade das instituições de ensino deveria ser “[...] o conhecimento das causas e dos segredos do movimento das coisas e a ampliação dos limites do império humano na realização de todas as coisas que forem possíveis” (BACON, 1973, p. 268) (p.114). Indo bem além e demonstrando confiança inabalável na nova ciência que se pretendia criar, Bacon fez previsões que a moderna engenharia genética veio confirmar. Dando a palavra ao Diretor da hipotética Casa de Salomão, ele faz com que ele descreva as experiências que lá se realizavam: Conseguimos torná-los (os animais) mais fortes e mais altos do que o normal da espécie e também, ao contrário, menores pela interrupção de seu crescimento. Fazemo-los mais fecundos e prolíficos que o normal, ou, ao contrário, estéreis e infecundos. Podemos mudar-lhes a cor, a forma, a atividade, de muitas maneiras. Conseguimos obter numerosas espécies de serpentes, vermes, moscas e peixes, de substâncias em putrefação...E o que conseguimos não ocorre por mero acaso, já que sabemos com antecedência que espécie de criatura nascerá de cada substância ou cruzamento (BACON, 1973, p. 271). As grandes navegações, embora feitas sob a bandeira da Ordem de Cristo, somente foram possíveis com avanços científicos. A descoberta de que a Terra era redonda e que girava ao redor do Sol; novo abalo na concepção bíblica da criação. 2 A educação no século XVII Este é o século que presencia a configuração de uma educação onde: Há o florescimento dos colégios protestantes e católicos por toda a Europa; Configura-se um modelo de escola que marca a modernidade pedagógica. Das escolas calvinistas aos colégios jesuíticos procuram-se separar a criança do mundo (internatos) e estabelecer uma forte vigilância, para que ela não se desviasse do “caminho de Deus”; Subjacente a essa proposta, está a ideia de que a criança tem uma propensão ao vício, à corrupção (por causa do pecado original e da inocência infantil). O ato pedagógico, a educação, o método de melhor ensinar a mais gente tornam- se uma questão central nas propostas pedagógicas deste século. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 55 Com a Revolução Francesa surge o ideário da igualdade, da liberdade, da fraternidade e, uma nova concepção de escola. “Todos nascem livres e têm o mesmo direito”. Nasce a escola única, universal, laica, obrigatória e gratuita: “escola de Estado”. Este tipo de escola surgiu com a Revolução Francesa. Esta, baseada nos ideais iluministas de liberdade e igualdade, veio romper com padrões estabelecidos até então. À nova forma de governo (a República), advinda com a Revolução, correspondeu outro tipo de escola, que desempenharia não mais exclusivamente a função de formar religiosos, mas também a de formar o cidadão. 3 Os pedagogistas e seus projetos JUAN LUÍS VIVES: nasce na Espanha, em 1492 O primeiro ponto a nos chamar a atenção é sua defesa de um sistema público de ensino, gratuito e que fosse aberto a todos. Começava-se a pensar a necessidade de constituir o Estado como bem e patrimônio público. O segundo ponto a ser observado: seu projeto pedagógico sugere a observação direta das coisas e a experiência sensório motora. O método pedagógico clássico da Idade Média, com forte amparo nas doutrinas de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, recorria à autoridade dos autores mencionados. Dizia-se que não era necessário a observação nem a experiência. JOÃO AMÓS COMENIUS: natural da Morávia, onde nasceu em 1592. Comenius propôs-se a construir um método pedagógico ou tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. Ele se propunha a criar mecanismos apropriados para o bem ensinar e o bem aprender. Propôs organizar um sistema de educação: “uma escola maternal por toda parte, escolas elementares em cada comuna, povoado ou aldeia, um ginásio em cada cidade, uma academia em cada Estado ou, até, em cada grande região “ (p.119). Defendeu a ideia de serem a escolarização e o saber direitos de todos. (p.121): ricos, pobres, homens, mulheres, crianças com deficiências físicas e emocionais etc. Ele não admitia a ideia de ter alguém fora da escola., O objetivo da educação seria o aperfeiçoamento moral do homem, distinto, portanto, de instrução. Eis uma razão a mais para que não houvesse ninguém fora da escola: a educação e a regeneração moral. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 56 Propõe uma nova concepção de homem: a de um homem autor de sua própria felicidade, de sua própria vida. Estava-se distanciando do dogmatismo medieval que entendia o homem como paciente da ação divina. JEAN JACQUES ROUSSEAU: nasceu na Suíça, em 1712. Rigorosamente falando, Rousseau não escreveu manuais pedagógicos nem projetos educacionais que pudessem ser convertidos em práticas imediatas. Suas ideias educacionais sãomais profundas do que isso: refletem sua complexa concepção de mundo, sua visão aguda sobre a sociedade européia às vésperas da Revolução Francesa. Suas premissas no campo especificamente educacional: Primeiro, Rousseau rompe com o tradicionalismo da doutrina católica, e cristã em geral, ao negar os fundamentos do Pecado Original, ao afirmar que não existe perversidade original nos homens. Para ele a ação humana é responsável pela degeneração social. Fundamentalmente, o projeto de Rousseau é a reconstrução de um homem social. Porém, essa reconstrução haveria de se fazer segundo as leis da ordem e da razão que viriam de Deus, ou seja, segundo a natureza. Não mais uma natureza dada, como a do selvagem, mas a verdadeira natureza, construída conforme a vocação humana, tal como Deus a teria constituído. Deus, natureza, sociedade, razão até, todos esses termos concordam entre si e, se nos esquecermos de um deles, a pedagogia de Rousseau perde todo o sentido (CHÂTEAU, 1978, p. 176). Para Rousseau a única possibilidade de se construir, ou reconstruir, o homem em sociedade não é a educação familial, a educação individualizada então vigente, mas é a educação pública. (p.124) Rousseau centra o seu projeto na criança e, nesse momento, revela um caráter profundamente humanista e um tanto deslocado do mundo burguês. Seu humanismo aparece na exortação aos homens para que sejam realmente homens e que o sejam por meio do amor às crianças: Não seria demasiado, afirmar, à guisa de conclusão, que Rousseau não foi um pedagogo (ou pedagogista) no sentido estrito do termo. Antes de tudo, ele foi um pensador preocupado com a construção do novo homem para viver no novo mundo. Esperar dele regras claras e eficientes de como dar aulas ou organizar um curso seria perda de tempo. Dele se deve esperar uma leitura, uma interpretação do mundo de então, HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 57 uma visão de como deveria ser a nova sociedade, organizada pelo conceito de Nação e regida por leis eficientes e respeitadas. Para saber mais... Renascimento:humanismo e reforma in História da Educação. Maria Lúcia de Arruda Aranha. Ed Moderna, 2ª edição revisada e atualizada, São Paulo, 1996. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 58 QUESTÕES DE ESTUDOS 1. Qual a importância de Homero e Hesíodo para a educação, na Idade Antiga? 2. Como era a educação grega na antiguidade, incluindo o período homérico? 3. Quais as diferenças entre a educação ministrada nas cidades de Esparta e Atenas? 4. Quais as principais características da educação romana e qual a contribuição do estoicismo nessa educação? 5. Qual a importância do teatro para a educação grega e a contribuição da comédia e da tragédia para essa educação? 6. Quais são os princípios pedagógicos apregoados por Aristóteles? Tais princípios são válidos para a sociedade atual? 7. Quem era o pedagogo na educação grega e qual o seu papel no processo formativo? 8. Qual a contribuição do cristianismo para a educação romana? 9. Como se deu a formação da cultura grega? 10. A Odisseia e a Ilíada são obras poéticas, mas também educativas. Quais as dessas obras nos modelos educativos gregos? 11. Qual foi a contribuição dos sofistas para a educação? Por que eram criticados? 12. Quais as principais contribuições de Platão para a educação? 13. Como a Igreja angariou tanto poder político, econômico e cultural, na Idade Média? 14. Qual o papel desempenhando pela Igreja na educação medieval? Quais foram os aspectos positivos e negativos? 15. A educação ministrada na Idade Média ensinava o trivium e o quadrivium. Quais as semelhanças e diferenças entre esse ensino e o currículo vigente na educação básica, no Brasil, atualmente? 16. Quais foram principais contribuições dos Mosteiros e das catedrais para a educação, na Idade Média? 17. Quais as instituições educacionais, na Idade Média? 18. O que foram as escolas palacianas no império de Carlos Magno? Quais foram as contribuições dessas escolas para a educação medieval? 19. Como se configurou a formação das universidades? Qual a importância disso para a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna? 20. Quais fatores desencadearam o término da Idade Média? HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 59 21. Quem eram os professores na Idade Média? 22. A Idade Média ficou conhecida como a “Idade das trevas”, mas trouxe muitas mudanças na sociedade, na cultura e na educação. Quais forarm algumas dessas mudanças? 23. Quais acontecimentos merecem destaque na transição para a Idade Moderna? 24. O que foi o Humanismo e quais foram as contribuições para a sociedade e para a educação, na Idade Moderna? 25. Quais as principais características da educação no século XVII? 26. Quem foi Jean Jacques Rousseau e qual a sua contribuição para a educação? 27. Quem foi Vives e quais as suas contribuições para a educação? 28. O que significou a mudança do teocentrismo para o antropocentrismo na sociedade moderna? 29. Quais os avanços impetrados pela Reforma Protestante em relação à educação ministrada na Idade Média? HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Graduação em Pedagogia 60 REFERENCIASREFERÊNCIAS REFERÊNCIAS ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da educação e da pedagogia: geral e Brasil. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2008. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. 1ª edição. Ed Moderna, São Paulo, 1989. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2002. 255 p. 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