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Copyright © Viseu
Copyright © Yuri Maia
Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer
forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por
meio de processos xerográ�cos, incluindo ainda o uso da
internet, sem a permissão expressa da Editora Viseu, na pessoa
de seu editor (Lei nº 9.610, de 19.2.98).
editor: Thiago Domingues Regina
projeto editorial: BookPro
coordenação editorial: Giselle Rocha
revisão: Carolina Esperança Patrocinio
copidesque: Eliel Silva
versão digital: Kauê Rodrigues
capa: Vinícius Moura
e-ISBN 978-65-254-1912-1
Todos os direitos reservados, no Brasil, por
Editora Viseu Ltda.
contato@editoraviseu.com
www.editoraviseu.com
Apresentação
Este livro não tem a pretensão de ser um livro técnico, mas
sim demonstrar a vivência em uma vida inteira com o TDAH.
Não será mais um case em um estudo; eu serei o case, a pessoa
que está trazendo a visão de quem sente na pele o que é ter o
transtorno. As histórias aqui possibilitam enxergar o seu �lho
através da minha visão de vida, dando a você o poder de mudar
a percepção sobre o TDAH. Eu entregarei ferramentas
importantíssimas para que isso aconteça, pois não haverá
estatísticas e listagem de sintomas; serão exemplos práticos e
explicações claras proporcionando ao seu �lho com três, seis ou
doze anos de idade um futuro promissor. Assim como fazemos
no programa de sucesso, o ‘Meu TDAH’, junto à minha empresa,
“TDAH Descomplicado”.
Prefácio
“Sonhos determinam o que você quer. Ação determina o que você
conquista.”
Aldo Novak
A importância do tema tratado neste livro é gigantesca e
demonstrarei isso com um exemplo singelo e, ao mesmo tempo,
extraordinário. Em meio a uma palestra, mencionei que tenho o
TDAH e, por esse motivo, fui abordado por um casal cuja �lha
também tem o transtorno. Eles achavam que a �lha estava
condenada a uma vida menor e limitada e, ao ver alguém com
meu currículo e também ter o transtorno, tiveram suas vidas
impactadas. Eles pediram que eu conversasse com a �lha, o que
consegui fazer no aeroporto da cidade. Foi uma conversa
relativamente rápida e na qual narrei que, após aprendermos a
administrar nossas di�culdades, elas se transformam em
“superpoderes”. Tive a oportunidade de dizer que todo mundo
tem seus desa�os pessoais e que se eu pudesse escolher um,
provavelmente escolheria o que já tenho, TDAH, até porque já
aprendi a lidar com ele.
Aquela menina, uma pré-adolescente, sofria duplamente:
um, o transtorno, e dois, pais que achavam que ela era incapaz
de ter uma vida normal e plena. Aquela palestra e aquela
conversa com ela e com os pais �zeram toda a diferença. Poucos
anos depois, voltando ao mesmo evento anual para uma nova
palestra, encontrei a jovem trabalhando no apoio, e os pais
vieram me contar que ela acabara de ser aprovada no vestibular.
Em resumo, uma vida que seria menor se converteu em uma
vida bem-sucedida a partir do conhecimento e da con�ança de
que era possível superar as di�culdades impostas pela condição
que ela tinha. E a família teve uma participação muito
relevante.
Esse episódio mostra a importância do tema, principalmente
no sentido do debate que vem sendo promovido pela causa e que
pode desfazer visões equivocadas. Nesse passo, louvo o
movimento feito pelo autor no sentido de dar visibilidade ao
TDAH, e principalmente o estímulo à superação das
di�culdades naturais aos que possuem o transtorno.
A verdade é que as di�culdades inerentes ao TDAH e como
superá-las é tema precioso para quem porta o transtorno e para
seus amigos e familiares. Tanto o autor quanto este prefácio
aprenderam, e qualquer um pode aprender, a lidar com esse
desa�o. E cada um que consegue construir sua história e buscar
seus sonhos e metas pode inspirar outras pessoas. É gigantesca
a lista das pessoas de sucesso e felizes que são TDAH. Você ou
seu amigo ou parente pode fazer parte dela. Para isso, é preciso
con�ar que é possível se desenvolver a partir de informação e
conhecimento. Estes, embora ainda sejam pouco conhecidos,
são acessíveis através dos pro�ssionais médicos, livros,
palestras, podcasts, redes sociais e pelas pessoas que portam o
transtorno, cada qual dentro de seu lugar.
Um livro sobre o tema é uma ferramenta poderosa para
ajudar a divulgar a verdade sobre o TDAH.
No entanto, escrever um livro é uma tarefa árdua. O trabalho
de organizar as ideias numa sequência concatenada de
pensamentos pode ser equiparada aos preparativos para se
receber uma visita em casa. Antes mesmo de externar o convite,
o an�trião já se programa para o encontro. Desde a recepção aos
quitutes, tudo é pensado para tornar o ambiente agradável à
visita.
O mesmo ocorre com o autor.
Com a experiência pessoal de já ter escrito algumas obras, sei
do trabalho e do empenho exigidos na elaboração de uma obra.
E posso a�rmar que o Yuri preparou com maestria esse
encontro entre autor e leitor para o debate sobre um tema
infelizmente ainda tão ignorado em nossa sociedade: o TDAH.
O Transtorno do Dé�cit de Atenção e Hiperatividade atinge
cerca de 5% da população mundial. No Brasil, estamos falando
de mais ou menos 10,5 milhões de pessoas. Para se ter uma ideia
do tamanho desse universo de pessoas, apenas 6 estados
brasileiros possuem uma população total maior que esse
número.
São muitas pessoas lidando todos os dias com a desregulação
bioquímica de seus cérebros, o que promove sintomas
característicos do transtorno, sendo o principal deles a
desatenção. Apesar dos altos números de TDAHs no Brasil –
sendo este que vos fala mais um nesse universo –, pouco se fala
sobre o assunto, sendo os debates, em sua grande maioria,
restritos às comunidades formadas pelas pessoas diretamente
envolvidas na causa.
Mas esse cenário vem mudando.
Há alguns anos, vem surgindo no cenário nacional uma
�gura que se destaca como porta-voz da causa, levando
conhecimento aos milhares de seguidores nas redes sociais,
participando de debates públicos nas casas do povo – junto aos
representados do Poder Legislativo, e com seus cursos livres –
ensinando quem se disponha a aprender sobre o assunto. O
trabalho que vem sendo feito pelo Yuri ganha um novo aliado:
esse livro, produzido com esmero e cuidado, caracteriza sua
pessoa e seu trabalho. A obra vem somar esforços a todo seu
trabalho, tornando o debate sobre o TDAH – suas causas,
consequências e formas de superação – cada vez mais acessível e
relevante no cenário nacional.
Esta obra é a sintetização de outro grande ponto sobre o
trabalho do autor: o exemplo. Sendo um TDAH, tendo
enfrentado todas as adversidades do transtorno e tornando-se
referência tanto no assunto quanto em seus projetos pessoais, o
autor mostra a todo aquele que tem TDAH  não terá
necessariamente uma vida limitada ou mesmo mediana. Como
ele sempre ressalta em suas redes sociais, o TDAH pode ser
extraordinário.
Extraordinário. Este é um adjetivo que cabe muito bem ao
autor e à sua obra, do qual esse livro é apenas um capítulo, mas
um capítulo que, por si só, pode mudar histórias de vida.
Estendo a você, Leitor, o mesmo convite que recebi para
conhecer esta obra. E lhe adianto, de antemão, que você
encontrará toda a hospitalidade e acolhimento que se espera da
visita que se faz a um amigo.
 Seja bem-vindo.
Dr. William Douglas,
juiz federal e autor do best-seller “Como passar em provas e
concursos”.
Quando recebi o convite do Yuri Maia para prefaciar essa obra
não imaginava o tamanho do impacto que ela causaria em mim.
Não que eu questionasse a competência técnica do autor. A�nal,
quem sou eu para duvidar de alguém que, assim como eu, vem
dedicando boa parte da sua vida a estudar sobre o assunto e
levar o conhecimento, de forma acessível, a todo aquele que se
interesse e busque saber mais sobre o TDAH.
O que verdadeiramente me surpreendeu foi a capacidade do
Autor de transmitir conceitos por demais complexos e técnicos
de uma forma tão simples e humana. Sem sombra de dúvidas, a
abordagem pessoal desse livro é um diferencial, infelizmente,
tão pouco visto no mercado.Mesmo tendo conhecido o Yuri há algum tempo, dividido
com ele o palco em algumas palestras online, participado de seu
programa de mentoria aos pais com �lhos TDAH como
convidado, foi uma grata surpresa conhecer um pouco mais de
toda a sua história revelada nesta obra. Cheia de aventuras
desde o diagnóstico, a vida do Yuri se mostra um verdadeiro
farol irradiando sabedoria e conhecimento nesse mundo de
desinformação que vivemos. Além disto, revela o que já
sabemos há anos: o TDAH persiste ao longo da vida e leva ao
adulto problemas que começaram na sua infância e podem
continuar assombrando-o.
Seu livro dá oportunidade a todos de conhecer as duas faces
da moeda do TDAH: o potencial da pessoa e de como ela pode ser
prejudicada vertiginosamente pelo não tratamento do
transtorno. Potencial virando prejuízo, promessa se tornando
decepção e momentos constantes de baixa autoestima. Ele
mostra que, como tudo na vida, muitos caminhos podem ser
modi�cados para o bem caso se tome a decisão certa: aprender a
lidar com nossas di�culdades e reduzir o impacto daquilo que
muitas vezes não controlamos com medicação, orientações
especializadas e meios de facilitação e inclusão
transdisciplinares. Nada melhor para isto o fato dele ser um
“case”, ou seja, alguém que vive o TDAH na “pele”, o que o faz
conhecer todo o impacto que o transtorno gera nos sentimentos
e emoções todos os dias.
Não preciso anotar aqui todos os predicados do Autor. Vocês
poderão conferir ao longo de toda a obra. Se vocês me pedissem
um único conselho, eu diria apenas: leia este livro! Praticamente
tudo que você precisa saber sobre o TDAH está a algumas
páginas de distância.
Boa leitura!
Dr. Clay Brites
Neurologista infantil, doutor em Ciências Médicas/Neurologia pela
UNICAMP, cofundador do Instituto Neurosaber e autor do livro “Como
lidar com mentes a mil por hora” (Gente, 2021).
Introdução
Eu gostaria de iniciar dizendo que sempre fui alguém que
está sempre sonhando em alcançar seus objetivos e em
progredir. Eu sou muito grato por tudo que tenho, porém estou
insatisfeito, penso que consigo realizar sonhos maiores, voar
mais alto e me considero uma pessoa ambiciosa. Desde pequeno
eu sofria certa dualidade ao pensar que a vida tentava me dar
provas e sinais de que eu não chegaria a lugar nenhum e, ao
mesmo tempo, eu sempre sonhava que um dia iria superar
todos esses desa�os quase como em um passe de “mágica”.
Nos meus momentos mais difíceis, quando era criança, eu
imaginava o Yuri adulto, o qual estaria independente, casado,
feliz e morando em uma casa confortável, porém nunca
consegui visualizar como chegaria nesse momento. A minha
resiliência me mostrou com o tempo que sou capaz de lutar pelo
que quero sempre mudando o meu caminho, procurando
sempre o melhor para mim. Fui muito criticado pela minha
inconstância, mas foi exatamente isso que me fez chegar aonde
estou hoje. Então a minha insatisfação contínua e minha
resiliência foram os fatores que me �zeram ser quem eu sou.
Aqui falarei sobre um assunto muito importante na minha
vida: o meu transtorno. Sofro do Transtorno de Dé�cit de
Atenção e Hiperatividade, o TDAH, em que os primeiros
sintomas apareceram ainda bem jovem, mas começaram a ser
preocupantes na época da alfabetização. Eu contarei várias
etapas da minha vida com o TDAH: o sofrimento, as dúvidas, a
incompreensão e, sendo a parte mais incrível da história, a
minha resiliência ao enfrentar todos esses problemas
ocasionados por ele.
Eu sou o resultado de tudo que vivi! A minha empresa,
“TDAH Descomplicado”, é voltada para a Psicologia. Sou
formado em Administração e o meu emprego atual é no Banco
do Brasil, na área de tecnologia. Aprendi a programar através de
cursos e livros, sozinho, aos quinze anos, pensando que seria um
engenheiro no futuro, pois achava que aquilo era o que eu
queria. Mas a vida deu várias voltas e hoje estou muito satisfeito
com o caminho que trilhei.
Então, nessa nova experiência em que me encontro, irei
abordar a minha própria jornada de vida com o TDAH. Esta é
uma autobiogra�a com exemplos importantes do que você deve
ou não fazer, e são todos baseados na minha história com o
transtorno.
Aqui abordarei momentos pessoais e darei dicas para o dia a
dia! Não será só mais um livro técnico, mas sim um apanhado
de momentos sinceros sobre como é crescer e amadurecer com o
TDAH.
As melhores histórias e os melhores exemplos que tiveram
mais engajamento até hoje, nesses oito anos de TDAH
Descomplicado, você achará aqui.
Esse é um Manual de Vida para Todo o TDAH, principalmente
para os pais que desejam e querem ajudar seus �lhos a
crescerem felizes, saudáveis e realizando seus sonhos.
Esse Manual é um registro valioso, é uma bússola, um passo a
passo, um pergaminho, uma enciclopédia para o que os pais
devem fazer ou não com seus �lhos para que eles sejam
vitoriosos. Vocês irão aprender de uma maneira lúdica, rica e
com histórias para que saibam o que podem evitar, e muitas
ferramentas para poderem construir o melhor caminho a
seguir.
Vamos ter uma conversa de TDAH
para TDAH?
O pai ou a mãe, provavelmente, identi�carão os seus �lhos
em minhas histórias, mas as explicações sobre tudo que estudei
e aprendi e minha experiência particular com o mundo do
TDAH serão para quem cuida dos quem tem ou aos adultos que
vivem com o transtorno.
Podemos começar com a expectativa dos pais, pois quando os
�lhos nascem, eles fazem muita festa, começam com os planos e
sonham com o futuro deles: “Meu �lho vai ser o próximo
Einstein ou o próximo Ayrton Senna”. Isso cria uma atmosfera, e
uma expectativa até saudável em torno deles.
Só que os �lhos, recém-chegados ao mundo, vão crescendo,
geralmente muito ativos, se destacam nas brincadeiras, muito
felizes, até chegarem à fase escolar, principalmente na
alfabetização.
Nessa fase alguns enxergam o novo desa�o com facilidade,
mas aquela criança com TDAH enfrenta di�culdades que não
existiam antes. Ela começa a lidar diariamente com aquilo que
não é tão legal quanto estava sendo antes porque, até então, ela
estava na creche, fazendo pinturas, trabalhos manuais,
aprendendo a escrever o próprio nome. Quando ela chega à
parte da alfabetização tem que lidar com tarefas, como estudar,
aprender e decorar. Em geral, a criança com o TDAH começa a
enfrentar di�culdades típicas do transtorno, pois ao se deparar
com atividades mentalmente desgastantes, repetitivas e pouco
atrativas devido à baixa produção de dopamina e serotonina
(tema abordado mais à frente), elas necessitam fazer um esforço
mental muito maior para terem o mesmo nível de engajamento
e concentração que os demais.
O senso de prioridade é prejudicado por conta do TDAH. Com
isso, a criança para de copiar o que está escrito no quadro para
�car desenhando no caderno ou não continua os deveres por
causa de um grande desgaste mental. Como o cérebro do ser
humano está programado historicamente para economizar
energia, esse desgaste atrapalha muito a vida de quem tem o
transtorno, como no exemplo a seguir: a criança com o TDAH
deixa de fazer o dever de casa no horário indicado, começando
somente no �nal da tarde quando os pais chegam em casa e
acabam se estressando por conta desse atraso na realização da
tarefa. Mas brigar com a criança não adianta; dar “chinelada” e
botar de castigo também não. Isso �ca longe de ser o mais
importante para quem tem TDAH: facilitar o processo.
A criança não precisa de uma educação rígida ou de uma
presença �rme dos pais, que reclamam, inclusive dizendo: “Isso
é falta de limites”. Quem tem TDAH não precisa de limites, pois
eles têm senso do que é certo ou errado, assim como qualquer
criança. Mesmo sendo um pouco imaturos, eles têm esse senso.
Então, quando tudo começa a dar errado e os coleguinhas
começam a tirar notas maiores do que a dos �lhos deles, os pais
ainda pensam: “Ele é tão inteligente, ele joga videogame tão
bem, corre com os amigos, é tão ativo. Eu não compreendo, por
que não está se desenvolvendo?”, e assim começam as
frustrações.
Nesse momento eu preciso lembrarque é muito importante
que as atitudes e a forma com que os pais encaram e lidam com
o TDAH tem que partir de um olhar de que não está relacionado
aos pais; a conversa é sobre os �lhos!
Há a necessidade de procurar especialistas para poder ser
feito um diagnóstico, geralmente, na fase da alfabetização, e que
será indicado, provavelmente, pela escola.
Após chegarem aos pro�ssionais, os pais encontram-se
frustrados após o diagnóstico e muitos entram em negação,
porém isso pode estar muito ligado ao ego: “Meu �lho não tem
transtorno, só precisamos ser mais rígidos com ele”. Esse
pensamento não irá ajudar. Mas nessa jornada existe
tratamento e esse livro, cujo intuito é exatamente esse, irá
auxiliar o seu �lho a trilhar um caminho para uma vida de
qualidade.
Pois bem, quanto antes os pais entenderem que não se trata
do que eles querem, esperam e desejam para os �lhos, eles
conseguirão compreender e �carão atentos e presentes a uma
conversa importante: é necessário fazer algo. Sendo assim, eles
poderão ter um tratamento adequado, além de aproximarem-se
do que os pais tanto almejaram lá atrás, quando os �lhos
nasceram e como desejavam que eles fossem.
Quanto antes os pais aceitarem que o transtorno existe, mas
que tem tratamento e condução adequada, será possível chegar
mais rápido à conclusão que a intervenção correta é necessária.
O TDAH não se trata de algo que limita a pessoa; ele existe,
mas pode ser conduzido, mais do que tratado.
A criança, então, se quiser, poderá ser o próximo Ayrton
Senna, Einstein ou o próximo Michael Phelps, pois o céu será o
limite.
TDAH na primeira infância
O TDAH apresenta um atraso em relação às crianças
neurotípicas (as que não apresentam di�culdades de
aprendizado). Muitos autores defendem que este atraso pode
chegar de três a quatro anos de diferença. Ou seja, uma criança
de oito anos tem a mentalidade de seis, talvez cinco anos. A boa
notícia é que isso tende a normalizar no início da fase adulta;
por volta de vinte e três anos o adulto equipara essa diferença. O
fato da pessoa com TDAH ser “mentalmente atrasado na sua
maturação” mostra a necessidade de que os pais estejam atentos
às más companhias na pré-adolescência, principalmente porque
se o transtorno não for conduzido corretamente, o adolescente
com o transtorno pode se rebaixar a algumas situações
simplesmente para ser aceito entre esses jovens.
A história a seguir eu escolhi, pois acho que será de grande
exemplo para muitos assuntos a serem abordados. Foi um
momento em que pude observar como o TDAH acontece, e
como pode ser visto também, em seus �lhos, mesmo ainda
pequenos:
“Quando eu ainda estava na creche, lembro que quando
brincávamos de armas de “mentirinha” e tinha só uma de plástico,
eu queria que �casse comigo e convencia a todos os colegas que
brincar imitando a arma com a mão era melhor, sempre chamando
a atenção para mim. Um dia, a diretora do lugar, por quem eu
sentia muito carinho, eu que se chamava Sarita, estava sentada no
chão do espaço coletivo das crianças; ela me chamou de lado e falou
para eu me sentar e conversar com ela. Fiquei lá por volta de quinze
minutos, até que após eu pedir muito para voltar a brincar com as
outras crianças, ela deixou. Percebi, ainda na época da creche, que
eu estava muito agitado, mas para as pessoas que trabalhavam lá
eu estava, na verdade, atrapalhando a brincadeira”.
Como podemos ver, essa situação passou-se na minha
infância. É incrível e curioso como os sinais estão sempre aí e
como é necessário esse olhar sobre os �lhos, pois uma
observação de um possível transtorno de aprendizado logo
diagnosticado pode mudar o curso da vida do seu �lho.
Tenham atenção aos sinais
Toda criança com TDAH busca fugas, principalmente,
quando é mentalmente exaustivo, que desgasta a cabeça ao
fazer. Uma criança neurotípica sente cansaço ao fazer a tarefa e
copiar do quadro em sala de aula, mas com TDAH, para manter
um nível de atenção elevado, ela faz um esforço três vezes maior
e isso cansa! Ela vai levantar-se, andar pela sala, procrastinar,
vai apontar o lápis mesmo já apontado e vai querer ir ao
banheiro e fugir.
Tenham muito cuidado como orientam seus �lhos, pois eles
vão seguir aquela referência literalmente ensinada. Então se a
mãe fala em um momento de raiva ou não pensando direito:
“Xinga sua professora, bate no seu colega, faz xixi em sala de
aula”, isso poderá ter um desfecho bem complicado. Então não
diga isso, aja como adulto, converse com seu �lho, ainda mais se
ele tiver TDAH e um atraso natural na maturidade, pois ele vai
fazer o que orientaram. É reduzida a capacidade de discernir
entre um comentário sério e uma brincadeira, assim como
trabalhar com regras sociais. Vários autores falam sobre isso e
Russel A. Barkley é um deles.
As regras sociais signi�cam não bagunçar a casa dos outros,
não pegar doces antes de cantarem parabéns nas festas, não
colocar o dedo no bolo na festa do colega, não pular na piscina
sem autorização, entre outros exemplos. São momentos em que
pessoas falam que algo é obvio, mas não é tão obvio assim. Os
�lhos com TDAH serão os que farão tudo isso sem perceber que
seria algo errado porque não chega a ser um comportamento de
uma criança com TOD (Transtorno Opositor Desa�ador), é o
nível de “noção” (percepção de certo e errado) que é reduzido
mesmo. Então a chance de ele fazer um comentário equivocado
aumenta. Repetir na frente dos amigos dos pais o “palavrão” que
aprendeu em casa pode exempli�car isso, pois para a criança é
normal o que os pais mostram, explicam ou fazem. Os pais não
avisam que falar dessa forma é errado, pois deduzem que ele
saiba disso, só que ele imita igual um papagaio, sem �ltro.
Aos pais, não somos perfeitos, mas dar explicações básicas
aos �lhos, por exemplo, quando forem na casa dos outros é
imprescindível para a comunicação. A higiene pessoal seria
outro assunto que parece ser simples, mas não é, porque
geralmente envolve alguns processos. O TDAH não se dá bem
com esses processos porque são mentalmente desgastantes.
Então existe muita di�culdade com a manutenção da higiene,
tornando uma responsabilidade dos pais mostrarem que é
importante se cuidar desde cedo. As crianças neurotípicas
conseguem com mais facilidade entender essa importância.
“Eu me recordo que em 1992 fui com o colégio para um hotel-
fazenda. Éramos quinze alunos e, ilustrando o que disse
anteriormente, eu não escovei os dentes a viagem toda. A minha
mãe não me disse que eu deveria escovar, ela só arrumou as coisas
para eu levar. Ao chegar em casa, ela desfez a mochila e percebeu
que não foi tocada a pasta de dentes”.
É necessário comunicar e cobrar que sejam feitas tarefas para
a higiene, também para começarem a entender que precisam
seguir o que os pais pedem, porque o que é obvio para os pais
não é óbvio para uma criança.
Voltando ao assunto dos sinais, na história a seguir eu
exempli�co como, mesmo sendo muito jovem, o TDAH se
manifesta, e como pode ser possível perceber seus sintomas:
“Quando comecei o Jardim Dois, eu fui para um colégio católico
de Brasília, o Marista, e era bem maior que a creche onde eu estava
antes. Eles impunham muitas regras, o que é natural quando você
começa a crescer. Então tinha momentos para lanchar, para rezar,
para praticamente tudo; foi nesse colégio que comecei a
alfabetização. Eu tive que aprender a ler e escrever e achava tudo
muito chato. Naquela época eu não entendia a importância das
obrigações e quando não gostava, me recusava a fazer e ponto. Eu
tinha di�culdade em copiar as coisas do quadro para o caderno.
Por exemplo, tinha que escrever o nome do colégio, a data, a
matéria, copiar o texto do quadro e preencher as respostas. Só que
eu não conseguia fazer isso, eu sempre parava no cabeçalho. Por
quê? Era chato, penoso, não conseguia fazer e não continuava,
�cava só conversando, tumultuando a aula. Eu também tinha
mania de contar piadas, e acho que eram piadas muito boas porque
a turma gargalhava quando contava. Em suma, eu não fazia o
necessário, tumultuava as aulas daprofessora e isso começou a me
causar problemas. Eu gostava muito dessa professora, pois ela era
muito carinhosa com os alunos, mas reclamava muito de mim por
ser muito bagunceiro e por tudo que fazia em sala de aula. Eu
nunca fui agressivo ou grosseiro com ninguém e lembro que era um
menino legal, carinhoso, mas que acabava interferindo no limite
das outras pessoas, bagunçando a aula da professora; Gisele era o
nome dela. Eu estava na turma G quando, bagunçando a aula dela,
contei uma piada que foi sensacional pela reação dos alunos. Eu
estava sentado na frente e ela olhou para mim com cara de brava
porque eu tinha atrapalhado mais uma vez a sua aula. Quando ela
saiu da sala, sem falar nada, �quei na dúvida do que tinha feito,
mas com certeza foi alguma besteira. Na sala, em um lado era a
porta de entrada e saída, e no outro era o banheiro. Eu lembro
nitidamente que corri em direção ao banheiro e me escondi. A
professora chamou a Moema, outra professora na época e que era
bem mais velha que a Gisele. Ela adentrou a sala e foi exatamente
na direção do banheiro, onde eu me escondia. A porta estava
entreaberta e eu olhava pela fresta entre a porta e a parede. Eu
pensei que talvez ela não pudesse me ver, com a minha ingenuidade
infantil. Em pé, de costas para porta, a professora Moema entrou
me virando 190 graus de forma abrupta e me sacudiu; lembro que
não me machucou, mas falava como se brigasse com um cachorro,
“gritando sem gritar”, perguntando por que eu fazia aquilo e por
que eu não me comportava. Foram palavras pesadas e ditas de
forma grosseira. Eu entrei em pânico, comecei a chorar e gritar
desesperadamente. Sinto que aquele momento foi uma violência
psicológica muito pesada e que me deixou abalado até pouco tempo
atrás, já adulto. Ao sair do banheiro, fui atrás dela, chorando
absurdamente, com a classe toda olhando para mim (todos
estavam estarrecidos), até a professora Gisele �cou pasma, e todos
�caram parados sem dizer nada. A professora que me sacudiu disse
para eu arrumar minha mochila, pegar meu caderno e meu
material e acompanhá-la para fora em direção à sala na qual ela
dava aula. Eu lutava contra as lágrimas, pois não queria ser
exposto no meio do corredor do colégio. Ao chegar na porta da nova
sala, a professora avisou a turma, sem ter me comunicado ou
falado com meus pais, que eu era o novo aluno e para darem as
boas-vindas a mim. Claro, tentei não deixar as lágrimas descerem,
que já cismavam em brotar nos meus olhos assustados, e dei aquele
sorriso amarelo na tentativa de responder às palavras amigas dos
alunos. Juro que não se passaram mais de dez minutos que isso
tudo aconteceu. Fiquei sentado no meio daquela situação estranha,
com alunos estranhos e sem entender nada, mas re�etindo,
principalmente, sobre eu ter sido capaz de causar tanta ira nas
professoras. Ao chegar em casa, obviamente não contei para
minha mãe porque eu iria ser repreendido novamente, a�nal eu
sou um criminoso mirim, e sou tão errado que fui expulso de
sala aos seis anos de idade. No dia seguinte, ao chegar ao colégio,
as crianças se sentavam em �la na frente da professora e
aguardavam para entrar nas salas. Cheguei quase atrasado,
sentei-me na �la da minha turma, a da professora Gisele,
porque na minha cabeça ingênua eu não tinha, até então,
compreendido tudo que aconteceu. Mas ao me sentar no �m da
�la, a Gisele, que estava lá na frente, fez uma cara horrível e
reclamou alto para todos ouvirem que ela não me queria mais em
sua turma. Levantei-me envergonhado e sentei-me na �la da
professora Moema. Em sala de aula, eu simplesmente queria sair
de lá, mas nem ao banheiro ela me deixava ir. Eu contei isso para
minha mãe e ela, com seu jeitão, disse: ‘Da próxima vez, faz xixi
nas calças’. No dia seguinte no �nal da aula, a Moema não havia
me deixado ir ao banheiro, então eu urinei sentado na minha
cadeira. Ninguém percebeu, nem a professora �cou sabendo que
havia uma poça embaixo de onde eu estava sentado, mas
simplesmente �z o que me foi dito”.
Eu achei que essa fase da minha vida seria muito importante,
pois podemos observar vários exemplos: como as crianças com
TDAH se portam, como são tratadas na sociedade e a
importância da comunicação assertiva em casa,
principalmente.
Os pais VS as mães falam a mesma
língua?
Eu tenho quase certeza de que este livro está sendo lido por
uma mãe, pois, segundo meu site, estatisticamente, 86% dos
seguidores são mulheres e minha mentoria online 98% são
mães e 2% são pais. É triste revelar uma situação em que as
mães estão preocupadas e a maioria dos pais, aparentemente,
não. Recebo nas minhas redes sociais muitas reclamações
dizendo que os maridos não ouvem, não entendem e não se
interessam, deixando as mães arrasadas, sobrecarregadas, além
da preocupação com a saúde dos �lhos e sentindo-se
completamente sozinhas.
Tenho um exemplo meu: meus pais são separados desde que
eu era um bebê, com o passar dos anos, pela distância meu pai
�cou mais ausente e alheio à minha vida escolar. Ele perguntava
como eu estava e eu respondia que estava tudo bem, inclusive,
em muitas ocasiões acabava por omitir meus problemas no
colégio para que ele não me criticasse, por ele não estar
presente, criticar o que não sabia e por não compreender as
minhas limitações (que na época nem mesmo eu compreendia).
Cada um com suas razões, mas a minha mãe que foi me
acompanhando nessa jornada com o TDAH, e eu a agradeço
muito por isso.
Eu passava alguns �ns de semana com meu pai e uma vez eu
tinha uma prova de história em uma segunda-feira para fazer.
Levei meu material e meu pai, junto da minha madrasta, me
auxiliou no estudo e, por curiosidade, foi um momento tão
diferente e inusitado que fez com que eu conseguisse focar e
estudar umas duas ou três horas com ele, e foi o su�ciente para
eu tirar nove na prova no dia seguinte.
O curioso era que:
“Eu levava muito em consideração os conselhos que meu pai me
dava. Por mais que eu convivesse com a minha mãe e tenha sido ela
que tivesse me dado tudo, eu respeitava mais a opinião do meu pai,
enxergando-o mais como uma autoridade. Foram poucos conselhos
que a minha mãe me deu, do tipo fazer algo de uma forma ou me
comportar de modo diferente. O inusitado é que a minha mãe é a
parte TDAH da família. De forma alguma seria uma questão de
amar um mais que o outro, mas talvez ela não seja a pessoa mais
indicada para falar certas coisas ou lidar com certas situações. Ela
fazia a parte mais difícil, tinha que disciplinar e chamar a atenção,
pois era ela que lidava comigo no dia a dia. Talvez minha história
teria sido diferente se meu pai tivesse tido um papel mais ativo em
minha vida; a minha mãe não teria tido que ser a disciplinadora o
tempo todo e eu talvez tivesse um pensamento diferente com
relação ao meu pai, menos de adoração e mais realista, convivendo
com ele, e ele convivendo comigo!”.
Após meu relato acredito que a importância do alinhamento
parental viria em momentos como: a mãe tenta orientar o �lho
nos estudos e ele, de uma forma instintiva, não enxerga a mãe
como uma pessoa capaz de orientar, então ele não vai acatar as
ordens dadas. Se o pai dá as mesmas ordens ele acata, pois vê em
seu pai uma �gura de autoridade. Isso é muito comum, mas
algumas mães se desesperam alegando que os �lhos não ouvem
o que elas têm a dizer e que já �zeram de tudo, mas acredito que
tudo não foi feito e esse desalinho acontece por conta do
descompasso entre os pais.
No meu caso, senti a falta de participação do meu pai na
minha vida e no meu tratamento, podendo ser comparado com
1% de participação dele e 99% da minha mãe, o que me causou
diversos problemas.
Eu recebi recentemente um áudio em que uma mãe do
Programa Meu TDAH conta que sua �lha ameaçou, no dia
anterior, tirar a própria vida em uma forma de chantagear o pai,
pois ele havia con�scado seu celular. Ela tinha ganhado o
aparelho há três meses e �cou mergulhada em um vício
absurdo.
Preciso explicar rapidamente o porquê desse
comportamento: o ser humano produz, dentre outros
hormônios, a dopamina,um neurotransmissor em nosso
cérebro. Em determinadas situações o organismo produz mais
dopamina, a quantidade que está faltando no momento.
Explicarei em “litros”: quando não acontece algo estimulante
na vida, a dopamina �ca por volta de “um litro”. Quando
estimulado, seja jogando videogame, assistindo uma novidade
na TV ou qualquer coisa excitante, a dopamina sobe para “três
litros” no cérebro. Nessa mesma situação, quem tem TDAH tem
apenas “trezentos ml”, produzindo naturalmente muito menos.
Então em situações e momentos desinteressantes é mais difícil
focar e manter a atenção sustentada. Agora, ao encontrar-se em
um momento excitante, a pessoa com o TDAH consegue ter
aqueles “três litros” somente por algum tempo. É como se
subisse, de repente, ao cérebro essa sensação inusitada e
prazerosa, pois ele está oxigenado e sendo alimentado pelo
neurotransmissor, a dopamina. Signi�ca que toda e qualquer
situação ou substância que cause felicidade e sensação de
novidade faz com que as pessoas com o TDAH �quem focadas,
atentas e antenadas por um determinado período, e isso tem
maior chance de viciá-las mais do que uma pessoa neurotípica,
porque o corpo carece dessas sensações.
Ou seja, celular com jogos, videogames, computador, vídeos,
açúcar, drogas lícitas e ilícitas, todos são altamente viciantes e
ainda mais para o TDAH, tendo um risco ainda maior de
tornarem-se viciados em tudo isso.
Então a �lha dessa aluna retratada anteriormente ganhou
esse celular, mas com um aplicativo que regula o tempo gasto no
aparelho remotamente, sendo monitorado pelo celular da mãe.
Quando o aparelho da mãe quebrou, a �lha �cou com acesso
irrestrito e viciando-se absurdamente. Nem fazia mais os
deveres de casa, pois estava realmente mergulhada naquilo.
O pai, das poucas vezes que interveio, percebendo a �lha
obcecada pelo celular enquanto a mãe viajava, con�scou o
aparelho da menina alegando que ela não estava estudando
nem fazendo mais nada. Nisso, a �lha, desesperada, entrou em
contato com a mãe por um aplicativo online de mensagem.
Nessa conversa a menina disse que iria se matar por conta do
pai ter con�scado seu celular, começando um processo,
basicamente, de abstinência. A mãe acabou conseguindo
contornar a conversa com a �lha. Como a minha aluna
comentou esse fato no grupo das mães do Programa Meu TDAH
em uma rede social, eu dei uma sugestão, assim como a nossa
psicóloga. A aluna falou com o marido e a partir dessas dicas, ele
�cou muito interessado sobre o TDAH e o programa. A mãe está
há cinco ou seis meses como aluna compartilhando com o
marido informações do transtorno e ele começou a ver em si o
comportamento da �lha. Ele começou a se interessar mais, claro
que sem comparar com o comprometimento da mãe no
tratamento da �lha.
Ao recordar do meu passado, logo me lembrei dessa situação:
“A minha mãe chamou o meu pai para uma reunião que teria no
colégio sobre meu comportamento. Na reunião, as professoras do
colégio me criticaram duramente e meu pai, sem saber o que
realmente acontecia, como não morava conosco, acabou �cando do
lado delas e também criticou meu comportamento! E ainda culpou
minha mãe por isso. Foi um momento péssimo e minha mãe se
arrependeu na hora de tê-lo chamado. Anos se passaram e houve
um momento semelhante a esse: eu estava no começo da
adolescência e fui convidado a me retirar da escola em que
estudava. Foi feita uma reunião e meu pai, desatualizado sobre
minha vida, falou para os responsáveis pelo colégio nessa reunião
que tudo estava bem e que minha mãe disse a ele que não havia
problema algum a ser tratado. Os coordenadores do colégio
estavam com a minha �cha em mãos e ditaram para ele tudo que
eu havia feito em detalhes. Ao �nal da reunião, ele percebeu que,
realmente, tinha algo errado. Após dois dias, em outra reunião,
meu pai, sem entendermos o porquê, se comprometeu que eu iria
melhorar e prometeu que eu me comportaria melhor. Três ou
quatro dias depois, em uma nova reunião, eu acabei me
comprometendo que iria mudar meu comportamento também,
sabendo que estaria prometendo algo impossível e sem saber a
dimensão dessa impossibilidade. No �nal eu fui readmitido no
colégio, continuando a fazer o segundo e o terceiro anos com as
mesmas di�culdades de antes. O meu pai foi realmente convincente
e continuou sem entender o que acontecia comigo”.
Os pais separados têm que falar a mesma língua! Eles não
podem culpar as crianças por suas frustrações ou pelo
rompimento do casamento, e devem ser presentes no
diagnóstico do �lho com TDAH, porque quanto mais cedo os
pais souberem que não é falta de briga ou de botar regras, mas
de dar acompanhamento ao tratamento do �lho, ele terá a
oportunidade de ter uma vida melhor.
Repito: com o tratamento e seu �lho sendo conduzido, ele
poderá ser o que quiser! Poderá ser o próximo Ayrton Senna,
Michael Phelps ou Yuri Maia! Hoje eu tenho meu próprio
Programa Meu TDAH, tenho um livro publicado, que está em
suas mãos nesse momento, ministro palestras sobre TDAH,
tenho uma vida de qualidade, ou seja, sim, é possível!
O seu �lho pode facilmente vencer na vida, mas isso tudo
depende do seu entendimento em primeiro lugar. Quanto mais
os pais estiverem alinhados nesse propósito, mais rápido será o
desenvolvimento e a superação dos problemas.
O seu �lho tem baixa tolerância à
frustração?
A minha autoimagem sempre foi confusa, já que gostava de
ser o centro das atenções. Eu fazia piadas e acabavam me
rotulando como uma pessoa esquisita.
“O Yuri é para você rir, não se relacionar”.
A criança com TDAH tem esse comportamento muito claro
durante a juventude. É muito provável que seu �lho esteja
passando por momentos difíceis, confusos e tendo problemas
com a autoimagem dele. Ter a necessidade de chamar atenção e
fazer piada com tudo parece ser algo normal no jovem com
TDAH, mas isso faz parte de algo maior na criança e no adulto
com o transtorno. Consequências causadas por tais
comportamentos podem seguir pelo resto da vida se não houver
um tratamento.
Aqui me repito, procurando ajuda de qualidade, com médicos
bons, com boas referências e tendo um diagnóstico correto �ca
muito mais fácil de melhorar!
O Programa Meu TDAH tem alcançado muitos pais. A
resposta ao curso e ao rendimento dos �lhos e qualidade de vida
para a família toda tem sido fenomenal.
Ou seja, com um diagnóstico e com a vontade de melhorar a
vida dos �lhos e conduzir o TDAH da forma correta, os pais
conseguem perceber uma mudança para melhor!
Eu falo aos pais do meu programa para serem amigos dos
�lhos, especialmente os com TDAH! Perguntar como eles têm se
sentido, como está a vida no colégio, o que tem acontecido, se
estão fazendo os deveres com facilidade e sempre orientar. Os
�lhos precisam de orientação! Porque eles podem estar tendo as
mesmas reações, vivendo os mesmos dramas e di�culdades que
vivi.
Voltando à história do colégio em que fui destratado pela
professora:
“A professora Moema na época dava aulas de reforço na casa
dela na Asa Sul e eu morava com minha mãe na Asa Norte; ambos
são bairros em Brasília. Eu estava tendo di�culdades e minha mãe
foi atrás dela: ‘Professora, o Yuri está com di�culdades para
acompanhar a matéria, você acha que seria bom ele ter
acompanhamento escolar?’, e ela respondeu que sim. A moça que
trabalhava para nós me levava até a casa dela toda tarde. Éramos
eu e mais três crianças. A Moema �cava na cabeceira da mesa e
oferecia algumas coisas para beber e tudo, mas estudar, para mim,
em qualquer lugar, era um saco! Eu queria ser o centro das atenções
e comecei a ter comportamentos inadequados, chamando atenção
dos colegas que estavam lá, o mesmo que acontecia em sala. Um
dia, ela encheu quatro copos com refrigerante e serviu um balde
cheio de biscoitos. Por conta da bebida, eu, sem pensar, dei um
arroto altíssimo e todas as crianças começaram a rir
enlouquecidamente. Quando a minha mãe chegou, a professora
desceu junto conosco, e eu pensando: ‘me ferrei, vou levar bronca’.
Eu entrei no carro e sentei-me no banco de trás, em silêncio. Aprofessora Moema disse: ‘Oi, Cristina, estava precisando falar com
você. Eu não quero mais que o Yuri venha. Ele é disperso e hoje
arrotou no meio da sala’. Eu esperei o pior, pensando na bronca que
eu ia levar. Mas minha mãe, pela primeira vez, adotou outra
postura. Ela �cou reticente e somente respondeu que ‘estava tudo
bem’. Eu �quei sem entender, pois em outros tempos, tudo que eu
fazia ela brigava comigo. Ela entrou no carro e fechou a porta do
Chevette branco que tínhamos na época. Eu continuava no banco
traseiro, ela na frente em silêncio e seguimos a caminho de casa.
Talvez ela tenha perguntado alguma coisa no caminho, mas não
brigou. Ela pode ter pensado algo do tipo ‘não vou massacrar meu
�lho ainda mais’. Eu não era diagnosticado e muito menos
acompanhado por uma psicóloga na época. Assim, seguimos
para casa em paz, para variar um pouco meus dias. Ali foi o
começo de uma estigmatização que eu criei ao meu redor que
durou até a fase adulta. Eu acreditava não merecer: não mereço
tirar foto, que me amem, que sorriam nas fotos que tiram comigo,
ser benquisto na casa dos outros. Tudo bem, hoje eu sei como era
meu comportamento, mas na época eram travessuras que não
faziam de mim uma pessoa ruim. A minha leitura daquele ano foi:
‘Eu não deveria nem ter nascido. Olha o que você é capaz de fazer, o
que é capaz de destruir, ambientes, humores, salas, disciplinas, eu
sou um causador de problemas’”.
Lidando com os desejos e as
decepções
A pessoa com TDAH costuma, geralmente, perder um pouco
da crença em si e o otimismo na vida. Ela precisa estar atenta a
isso, ser acompanhada, fazer tratamento correto e ter pais que a
orientem.
Muitas vezes, desde cedo, crianças com TDAH passam por
situações difíceis, vexatórias, complicadas e desnecessárias,
começando na infância e podendo re�etir na vida adulta.
Se os pais não estiverem próximos dos seus �lhos, não
perguntarem como eles se sentem, entenderem que tem
potencial de ser algo traumático e não se preocuparem em
ressigni�car essa situação, será um desastre.
O diagnóstico junto a um tratamento bem conduzido pode
ser um divisor de águas entre a criança e sua alforria, sua
liberdade.
A vida não vai poupar seu �lho com TDAH, mas a sua
intervenção de maneira sábia em momentos críticos será
primordial.
Recordo-me de momentos que marcaram muito meu
passado, quando não sabíamos da minha condição e
simplesmente vivíamos as consequências do TDAH:
“Ao lado do parquinho onde �cávamos no recreio havia um
bosque, era bem bonito e com um fundo com árvores onde toda a
turma tirava fotos. É aquele quadro que tem a criança em uma foto
principal em tamanho original e várias fotos menores de 3x4 dos
seus colegas de sala com a foto da professora. Eu lembro que pedi
para a Gisele, aquela primeira professora, que quando a turma
fosse descer que me avisasse, pois a turma dela era a que eu comecei
e me sentia mais conectado. Quando chamaram a turma em que eu
estava, da professora Moema, ‘a bruxa’, todos �zeram �la para
descer e tirar as fotos. Nós seguimos juntos e começamos a descer a
escadaria. Enquanto descíamos encontrei com a turma da Gisele
subindo a escada! Os meus olhos e minha cabeça foram
acompanhando-os, eu percebi que ela também me viu, mas desviou
o olhar provavelmente lembrando do que eu tinha pedido a ela. Eu,
incrédulo, continuei descendo, acompanhando-a. Resignado, tirei
as fotos na turma da professora Moema. Alguns dias depois, a
Gisele foi até a minha sala e disse que estavam me chamando.
Quando saí ela estava com um pacotinho na mão, era como se fosse
um livro, mas não me recordo exatamente o que era, e tinha um
lacinho. Eu a vi e dei um sorriso. Ela disse: ‘Oi, Yuri, vem aqui,
posso dar-lhe um abraço?’. Ela era doce, diferente da ‘bruxa’ com
quem �quei de agosto até o �nal do ano. Eu lamento muito por ter
sido ‘expulso’ da sala dela. Eu realmente atrapalhei-a ao ponto de
me tornar uma pessoa a quem ela não queria mais ensinar. Veja
que ela nunca teve raiva de mim, eu nunca fui ‘respondão’, pois
apesar de ter TDAH, não tinha o TOD (Transtorno Opositor
Desa�ador) associado, portanto, não tinha problemas com
�guras de autoridade e nunca fui grosseiro com ela. Na época eu
batia na cintura dela. Ela era bem mais alta que eu e foi quando
ela se agachou na minha frente se equilibrando nos pés e me deu
um abraço; senti um calor humano que não sentia há muito tempo.
Para ser sincero me senti resgatado, o ‘resgate do soldado Yuri’. Eu
tive essa exata sensação, o resgate chegou, o helicóptero veio, jogou
aquela corda, segurei e fui içado daquele inferno. Finalmente
retornarei para a turma que eu tanto gostava, a turma dela. Em
frações de segundos, eu tive todas essas sensações e sentimentos.
Era na época de �nal de ano, tanto que me lembro que as aulas
acabaram alguns dias depois da formatura. Eu retribuí o abraço e
respondi: ‘Tia, eu achei que você tinha se esquecido de mim’. Ela
abriu um sorriso ao dizer que não havia esquecido, mas foi um
pouco efêmero esse momento, pois logo depois ela se levantou e foi
para a turma dela. Não era um resgate, era talvez um remorso e
continuei onde eu estava, decepcionado”.
Em minha percepção, se minha mãe tivesse conversado de
forma assertiva comigo, eu teria tido uma qualidade de vida
melhor naquela época e até o começo da minha vida adulta,
pois, como comentei antes, passei por situações difíceis até
meus vinte anos. Eu procurei ajuda e somente quando cheguei à
fase adulta é que ressigni�quei momentos traumáticos com
auxílio de psicólogos.
Aos pais, não deixem acontecer momentos drásticos na vida
de seus �lhos para intervir. Eles precisam de seu apoio na hora,
ainda mais por seus �lhos com TDAH estarem com frequência
em situações embaraçosas, tensas e que marcam para a vida
toda. Se não lidarem com os sentimentos causados, isso será
torturante para eles, pois não saberão lidar sozinhos e é onde
entram os pais.
Ao menor sinal de rejeição, exclusão e diferenciação na vida
de seus �lhos, vocês tem que intervir! O destino dos seus �lhos
está nisso e por mais que achem que é bobagem, que vão
esquecer, eles já criaram referenciais na cabeça deles. “Eu não
posso ser eu, não posso ser autêntico, pois vou ser rejeitado”.
Somente após meus trinta anos fui entender na terapia que
fui removido de uma sala onde eu gostava �car; cuja professora
era carinhosa e a sala, apesar de eu não ter tido muitos amigos,
era muito acolhedora. Fui removido subitamente para uma
outra turma com uma professora totalmente sem sentimento
de compaixão e que sequer avisou minha mãe sobre o que
aconteceu.
Assim, programei em minha mente que eu não poderia ser
eu, ser sincero, ser autêntico com meus pensamentos e
sentimentos se não iria perder as pessoas de que gosto.
Eu me policiava quando estava em grupos de amigos, pois
achava que seria removido, expulso desse grupo que tanto
gostava, sendo retirado, mais uma vez, de um ambiente que
gosto. Mesmo sabendo que a vida é assim, às vezes somos
preteridos em certos lugares e em outros somos benquistos por
todos.
Talvez se eu não tivesse passado por todas essas situações,
seria mais seguro, não precisaria de tantas sessões de terapia,
nem ter tanto medo de falar o que penso, criando muitas
di�culdades de convivência e de autopercepção.
Isso tudo me enrijeceu, eu comecei a �car resistente e
comecei a encarar maus tratos como algo natural, achando que
eram coisas normais, sem comunicar aos meus pais e não
procurava exigir respeito. Seja na infância ou adolescência, fui
deixando seguir o �uxo, que, na minha visão, era trivial.
“Querer muito algo para mim seria isso, querer muito ter
amigos, ter relacionamentos, mas estava preso em uma gaiola
mental de crenças criadas por mim desde a infância”.
Quanto mais cedo conseguir lidar com esses pensamentos e
sentimentos, principalmente em casa com os pais, será
essencial para o desenvolvimento pessoal em todas as áreas da
vida! Os pais são �guras de respeito para seus �lhos! Suas
palavras de conforto e rea�rmação serão muito mais fortes do
quedaquele amigo que critica ou a professora que destrata.
Trabalhar essas questões em conjunto com uma boa psicóloga
pode ajudar a desconstruir essa percepção de fracasso.
Então os pais de �lhos com TDAH têm que ser muito amigos
e muito próximos deles. E dá até para a�rmar que a vida deles
depende disso.
Não faça comparações entre
seus �lhos
É uma constância na vida do TDAH enjoar das atividades,
sendo muito motivado pela novidade e por situações excitantes.
Quando deixa de ser novo, o cérebro para de causar as mesmas
reações químicas, caindo o interesse de maneira brusca, por
conta da dopamina.
Enquanto uma pessoa neurotípica �ca levemente
desmotivada, no TDAH essa desmotivação aumenta
tremendamente. Então desiste do karatê, da natação, da aula de
artes, pois tudo parou de ser novidade.
O meu pai sempre chamava a minha atenção por desistir de
toda atividade que eu começava e ele me comparava muito com
meu irmão mais velho. Era algo que me incomodava e me
chateava muito, talvez fosse a forma dele de me incentivar, só
que infelizmente eu via isso como uma forma de me sentir
inferior ao meu irmão. E meu pai me criticava demais, me
deixando com uma sensação de fracasso imensa.
Aos pais, se compararem um jovem neurotípico com um
TDAH, sinceramente, não estão ajudando em nada. A falta de
engajamento do TDAH é neuroquímica e fazer essa comparação
entre os dois chega a ser cruel, não ajudando em nada e
causando o sentimento de inferioridade no jovem com o
transtorno.
Aos olhos do meu pai, talvez eu seja alguém inferior aos meus
irmãos por ter TDAH. Isso prejudica muito o crescimento e
desenvolvimento dos �lhos que já passam por momentos tão
desa�adores por toda a vida. A falta de informação também
prejudica muito esse relacionamento entre pais e �lhos.
A comparação dos pais entre seus �lhos pode ser muito
negativa, principalmente, na vida do �lho que tem TDAH:
Quando eu tinha por volta de onze anos, fazia karatê, estava
bem no começo, ainda na faixa branca e o �lho mais velho do meu
pai, que era sete anos mais velho que eu, já estava na faixa
marrom. Esse meu irmão era um destaque, sempre tirando as
melhores notas no colégio, por exemplo. Ele era o orgulho do meu
pai; ele mesmo falava isso para todo mundo e, naquela época, tudo
que eu queria era ser o orgulho dele também. No exame de faixa no
karatê, em um espaço aberto ao público, eu convidei o meu pai para
acompanhar o exame. Os alunos tinham que executar alguns
golpes e, ao �nal, tinham que apresentar o “kata”, que é uma
sequência de golpes em que se diferem a cada nível. Eu estava
nervoso com as pessoas em volta e meu pai por perto. Ao �nal,
havia seis alunos com duas medalhas de bronze, duas de prata e
duas de ouro. Estávamos em �leira. Foram chamando um por um,
sendo eu o primeiro, e todos aplaudiram. O professor colocou a
medalha de bronze no meu pescoço. Foram chamando e cada um
ganhou sua medalha. Naquela altura eu percebi que tinha �cado
em último lugar, talvez pelo nervosismo ou pelo meu pai estar na
plateia com aquela cara séria, com óculos de sol e braços cruzados,
me senti pressionado. Após a cerimônia, fui até ele e eu estava me
sentindo muito mal por ter �cado em último. Eu �quei triste
porque não fui um destaque, não brilhei naquele dia, apesar de ter
passado na troca de faixa. Eu �quei cabisbaixo e meu pai �cou um
tanto quanto ou mais do que eu. Ele não falou nada, mas não
demonstrava felicidade, o que piorou ainda mais a minha
situação, pois ele não exaltou a minha participação como fazia
com meu irmão. Se eu pudesse voltar no tempo e trocar de lugar
com meu pai e meu �lho estivesse passando por uma situação
dessas, com certeza eu teria agido diferente. Precisamos entender
que a frustração dos pais não importa perto da dos �lhos. O que
eles têm que pensar é: ‘o meu �lho passou de faixa, apesar do
TDAH’. Ele poderia ter errado os golpes, mas ele se esforçou o
máximo que pôde. A vida é muito cruel com o �lho com TDAH em
diversas situações. Eu teria o exaltado: ‘você foi corajoso,
demonstrou muita con�ança, talvez se esforçando mais na
próxima você consiga uma colocação melhor, mas eu já estou
orgulhoso de você. Parabéns, vamos comemorar’. Hoje, eu não me
importo se meu pai tem orgulho de mim ou não, sou eu que tenho
orgulho de mim. Só que teria feito toda a diferença quando eu era
criança, pois, provavelmente, ele deve ter me comparado com o
outro �lho, que se destacava sempre. A comparação nunca é uma
coisa boa! Exalte o desempenho de seu �lho, exalte seu crescimento
como pessoa. Cada um tem seu ritmo e seu jeito de agir”.
Não se intimide com o diagnóstico
do seu �lho
Um diagnóstico ruim ou incompleto pode impactar toda a
infância e adolescência de um jovem. Eu descobri que tinha
Disgra�a em maio de 2020, em uma LIVE que �z com a minha
mãe no dia das mães. Achei, entre as minhas lembranças
guardadas, o meu diagnóstico de TDAH e Disgra�a, o que eu
nunca na minha vida fui tratado ou conduzido.
Na época em que fui diagnosticado, em meados de 1991, fui
encaminhado a procurar pro�ssionais que orientaram a minha
mãe para que eu �zesse uma bateria de exames. Eu me recordo
que questionava a minha mãe qual era o motivo daquilo tudo,
exames intimidadores com vários �os e uma máquina
barulhenta que imprimia papéis com palavras que eu não
compreendia.
Hoje em dia, os pais, quando sabem que seus �lhos têm o
TDAH, têm a opção de procurar na internet, pesquisar detalhes
sobre o transtorno, mas quando minha mãe �cou sabendo, não
teve essa ajuda extra e que auxiliaria muito, pois era algo
desconhecido ainda e tinha que, somente, con�ar no
pro�ssional que me atendia. Também não fazia muito sentido
ter o diagnóstico pois era como se fosse: “ok, ele tem TDAH, mas e
agora? O que faremos?”. Foi aí que tivemos essa orientação maior
da psicóloga que minha mãe havia encontrado para nos guiar.
Foi ela que indicou que eu trocasse de colégio por achar que o
colégio Marista não estava me fazendo bem e pediu também
para que minha mãe não fosse tão dura comigo, pois eu tinha as
minhas di�culdades.
Nesse momento preciso alertar que tenham atenção ao
escolherem os pro�ssionais para atenderem seus �lhos.
Procurem médicos que tenham boas referências, que tenham
casos de sucesso nos tratamentos e que tenham prestígio na
área. Há médicos que não acreditam que o TDAH existe, o que é
uma completa ignorância.
“Yuri, moro em uma cidade pequena onde não existem casos
de TDAH, o que fazer?”. Existem vários médicos que aderiram à
prática de consultas online, talvez não para um diagnóstico
completo, mas será capaz de direcionar a algum colega que
more próximo, por exemplo. Mais uma dica seria procurar
auxílio na própria escola, boas instituições disponibilizam listas
de médicos e psicólogos para indicar. Não percam tempo para
receber um diagnóstico. Hoje, um acompanhamento padrão é
feito por um Neurologista bimestral ou semestralmente, um
psicólogo e uma outra terapia mais especí�ca, chamada de
Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC) para crianças a partir
de seis anos.
Para exempli�car, eu recebi informações sobre medicação aos
vinte e dois anos de idade. Talvez se eu tivesse sido medicado
desde novo, teria tido uma qualidade de vida melhor na
juventude; me fez muita falta não ter tido um tratamento
completo.
É importante também passar por outros pro�ssionais na
primeira etapa do diagnóstico, sendo necessária uma
intervenção interdisciplinar, como ser atendido por um
fonoaudiólogo, psicopedagogo e terapeuta ocupacional porque
eles vão veri�car alguma falha mecânica, motora, cognitiva,
além de questões de Disgra�a, Dislexia e Discalculia. Não
signi�ca ter que ser acompanhado por todos esses pro�ssionais
para sempre, mas se o jovem com TDAH tiver alguma
comorbidade e necessite da intervenção desses especialistas,
tudo isso será corrigido.
“A coordenadora, que se chamava Joaninha, foi a única pessoa
da escola que prestou atenção em mim e viu que eu precisava de
ajuda. Ela conversou com minha mãe, comentou sobre o que ela
achava e indicou uma psicólogapara começar um
acompanhamento mais de perto. Comecei a fazer uma bateria de
exames e chegaram à conclusão que eu tinha TDAH. Depois disso,
foram tomadas decisões diferentes, começando por mudar de
escola. A mesma escola, inclusive, onde vivi os melhores três anos
da minha infância, ironicamente”.
Essa coordenadora foi, obviamente, muito importante nessa
fase da minha vida, mas eu me questionava e também a minha
mãe, sobre eu ter tido o diagnóstico. Nesses exames que �z, foi
indicado que eu tinha o QI maior do que a média e isso me
impressionou, mas de outro modo. Eu pensava e falava para ela
que eu não queria ter nascido assim, com QI acima da média,
por exemplo; queria ser “normal”, ser neurotípico ou padrão
para poder me encaixar melhor.
Esse sentimento me acompanhou durante o �nal da infância
até boa parte da minha vida adulta, sempre me vendo como
alguém diferente, não pertencente, pensando que os outros
conseguiam fazer tudo e eu não. A baixa autoestima sempre se
fez muito presente na minha adolescência.
A recompensa imediata e o hiperfoco
O TDAH é um transtorno neurobiológico que atinge certas
partes do cérebro. As partes especí�cas como o córtex pré-
frontal são áreas que estão sendo pouco estimuladas
quimicamente, como se estivesse faltando uma grande
quantidade de neurotransmissores, principalmente a
dopamina. A presença da dopamina nessas regiões é crucial
para que você inicie e persevere numa tarefa desgastante. Tudo
que é desinteressante, como estudar, fazer uma redação e ler um
livro chato são atividades que necessitam de um esforço maior
para executar, pois qualquer outra coisa que chame a atenção
distrai. Então é uma mente que tem a constante necessidade de
estar estimulada, porque perde o foco com muita facilidade.
A situação de hiperfoco para o TDAH é quando naturalmente
é produzida dopamina em quantidades su�cientes. O cérebro da
pessoa com TDAH produz dopamina assim como de outra
neurotípica, porém é necessário estar em situações que sejam
prazerosas para que se consiga trabalhar da forma adequada.
Um jogo de videogame tem a capacidade de prender a
atenção da mente com TDAH porque, em poucos minutos, já
tem várias recompensas imediatas. Aparece muita luz, cores,
além de ser preciso entender a lógica do jogo e passar de fases.
Então são muitas coisas que prendem a atenção, aparecendo
muitos estímulos em pouco tempo. Como o cérebro �ca feliz
indo em direção ao que ama, ele passa a �car muito estimulado,
elevando o nível de dopamina e acaba �cando mergulhado
naquela atividade. A mãe fala com o �lho e ele não escuta, pois
está “hiperfocado” naquilo que está fazendo.
Hiperfoco é quando o TDAH está imerso em uma atividade
prazerosa e não consegue parar de jogar para estudar, tem
di�culdade em lembrar que a mãe chamou da cozinha para
almoçar.
“Quando eu estava na primeira série houve um momento muito
especí�co em que, por algum motivo, eu estava conseguindo fazer
as atividades de sala de aula, mas fazia por ser uma reação de
hiperfoco. Eu não estava prestando muita atenção no que a
professora falava, mas estava empenhado em continuar. Lembro
que um colega que se sentava ao meu lado sentiu-se surpreso por eu
estar passando a matéria para o caderno e virou-se para os outros
colegas, chamando atenção para o que eu fazia e, depois disso,
tornou-se um assunto entre todos. Após eu conseguir copiar toda a
matéria, a sala inteira parou, levantaram-se e me aplaudiram, até
a própria professora aplaudiu em pé à frente da classe. Eu achei
muito engraçado por ser uma situação totalmente inusitada. Mas
para ser sincero, eu nunca me esqueci daqueles aplausos”.
Na escola, um grande sinal para os professores prestarem
atenção no TDAH presente em crianças que tenham o
transtorno, seja do tipo hiperativo, combinado ou desatento é a
di�culdade em copiar do quadro, pois mexe com o fato de estar
focado no que o professor está passando e também por ser uma
questão de velocidade.
O menino que está passando pela alfabetização já demonstra
lentidão por ser tudo muito novo, mas a criança com TDAH,
além de ter essa lentidão, também se dispersa. Ela escreve
devagar, para e desenha, faz isso continuamente, enquanto a
outra criança somente escreve devagar. Então, geralmente, a
professora passa algo para copiar em um ritmo acima do que a
criança com TDAH consegue acompanhar, ou seja, ela começa a
escrever junto dos coleguinhas, mas para na primeira página.
Os pais precisam �car de olho nos sinais, pois o TDAH causa
muito essa di�culdade. Se a mãe vê essa di�culdade em seu
�lho, talvez ele possa ter alguma comorbidade associada, como
a Disgra�a. Eu fui diagnosticado com essa comorbidade e, além
da di�culdade em escrever coisas desinteressantes, a minha
letra era muito ruim. A minha motricidade �na era prejudicada
e eu nunca �z tratamento para isso. Ela é ruim até hoje por
conta disso, pois nunca �z um tratamento efetivo para corrigir.
Eu tive no laudo quando era mais novo, mas nada foi feito.
Então deem atenção ao laudo, porque todas as comorbidades
tem que ser tratadas.
As crianças com TDAH são muito boas em provas orais, são
estudiosas, mas desde que tenham alguém ao seu lado
incentivando e explicando. Elas conseguem fazer essas provas
até o �nal, pois têm essa desenvoltura.
Os �lhos com TDAH necessitam estudar em escolas
realmente acolhedoras!
Não adianta colocar nas escolas grandes, as melhores escolas
da cidade, as que preparam para o vestibular. Isso não vai
funcionar, pois se a escola for muito rígida, cobrar muito e não
dar nenhum tipo de incentivo você rasgará seu dinheiro, já que
os jovens com TDAH não absorverão nada daquela escola
superpotente. Geralmente essas escolas que são preparatórias, e
falo por experiência própria, não são muito inclusivas, mesmo
isso sendo constitucionalmente errado.
O ideal seria procurar uma escola pequena com até quinze a
vinte alunos por turma, onde usam a metodologia Waldorf ou o
modelo construtivista. Mas, ainda assim, é claro que algumas
escolas com essas metodologias foram péssimas para alunos
com TDAH. Não existem regras, mas existe um padrão.
Os pais, após o diagnóstico, podem instruir os professores a
�carem atentos e positivamente chamar a atenção de seus �lhos
com TDAH porque é um tratamento holístico e em conjunto
para o melhor aproveitamento do rendimento escolar.
Sofrendo bullying por ter TDAH
Eu sempre tive problemas para me relacionar. A inadequação
social faz com que você tenha menos amigos do que acredita ter.
Os amigos não frequentavam a minha casa, não compareciam
às minhas festas, e vice-versa.
Os pais têm que perceber que isso não é saudável nem
normal. Os seres humanos vivem em sociedade, e não ter
amizades não faz parte disso.
Eu gostava de ter momentos sozinho, mas estar sempre
solitário não condiz com uma vida saudável. São sinais que
precisam nos deixar em alerta, pois na escola, nos cursos e no
esporte faz parte ter amigos, e não ter pode ser um sinal de
TDAH.
É comum que alguns pais, infelizmente, não se façam
presentes na vida dos �lhos, causando uma grande perda, pois
perguntando e se interessando com mais frequência na vida
deles é possível, por exemplo, detectar se estão sofrendo algum
tipo de bullying.
Se os pais não criarem um laço de con�ança e sinceridade
com os �lhos e se perguntarem somente de vez em quando
como os �lhos estão, provavelmente, eles não irão se abrir e
contar o que realmente está acontecendo, pois torna-se uma
pergunta inédita para eles e não estarão preparados para esse
tipo de abordagem. Agora, se perguntarem diariamente o que
acontece em suas vidas, eles se sentirão mais seguros.
Eu morava com minha mãe na infância, mas não me sentia
confortável em con�denciar a ela sobre meu dia a dia. Ela
sempre me apoiou muito, mas não tínhamos esse laço de
con�ança, então algumas vezes teria sido muito proveitoso para
mim e para nossa relação se ela tivesse aberto esse tipo de
comunicação entre nós.
Para um jovem com TDAH, é difícil admitir que está sofrendo
bullying, e é mais difícil aindacontar isso para alguém. Agora,
com um canal aberto junto aos pais, essa situação pode ser
contornada. E com uma intervenção correta dos pais do jovem, e
dos envolvidos, essa situação, o bullying, pode terminar ali e
não causar problemas futuros para eles.
Acrescentando outro exemplo rápido de como não agir por
parte dos pais, quando chegava à minha mãe que eu estava
realmente sofrendo bullying ela, infelizmente, retrucava de
uma forma negativa. Como quando os meninos da minha rua
gritavam comigo, ela gritava de volta sem lidar de forma adulta
e assertiva com a situação. Eu tinha por volta de onze anos na
época. Ela poderia ter conversado com os pais dos outros
meninos e não ter entrado na confusão que tudo aquilo se
tornou.
Prestem atenção nos seus �lhos com TDAH, pois tem
tratamento e pode causar uma grande melhora na vida de todos.
“Na primeira série, a minha mãe questionou-me por que eu não
levava amigos para casa, como estava a minha amizade no colégio
e eu respondia que simplesmente não tinha muitos amigos. Ela
chegou a questionar a professora da turma por que eu não os tinha.
A professora dirigiu-se à turma fazendo uma enquete,
questionando-os quem não era meu amigo. Na hora, sendo sincero,
não era bem isso que eu imaginava que aconteceria. Os colegas de
classe, um a um, disseram que se consideravam meus amigos e foi
quando a professora falou que eu tinha amigos sim, mas não era
isso que eu percebia. Em um momento, na hora do recreio, eu não
costumava brincar com um grupo �xo de crianças. Sempre tive o
hábito, na minha infância inteira, de brincar sozinho. Mas um dia
fui incluído para jogar futebol. Eu não tinha muito jeito, mas
acabei entrando no jogo; me senti um ‘café com leite’ ali no meio
dos meninos. Eu percebia que o goleiro se mexia mais devagar
quando eu ia chutar a bola e eu não gostava daquilo, a situação me
deixava com raiva. E me deixava muito chateado porque, sejamos
sinceros, ninguém gosta de ser tratado diferente, então acabei
desistindo do futebol. O que percebi era que eu nunca conseguia me
concentrar quando estava no meio de muitas pessoas. Sentia que
conversavam entre eles enquanto eu ‘viajava’, disperso, e assim me
sentia repreendido de alguma forma por não interagir”.
Jovens com TDAH, principalmente os meninos, têm um
comportamento mais imaturo do que os outros. Então eu
realmente me sentia bem mais atrasado emocionalmente do
que meus outros colegas, claro que sem ter a mínima ideia de
que eu tinha um transtorno que me fazia ser daquele jeito, me
sentindo como um “peixinho fora d’água”.
Esse momento da minha vida, contando a minha história
para tantas pessoas, me deixa muito orgulhoso. Fico
imaginando como está sendo o comportamento, a postura do
seu �lho diante do mundo? Os pais não podem esperar que seus
�lhos amadureçam, pois isso não vai acontecer antes da hora,
mas podem guiá-los e ajudá-los a contornar as di�culdades
através da informação e colocá-la em prática.
Aproxime-se devagar, a vida já cobra
demais
O TDAH é geralmente descoberto na fase da alfabetização,
como visto anteriormente, no primeiro momento em que a
criança é obrigada a fazer coisas que ela não gosta. Todas
passam por isso e, inclusive, as neurotípicas lidam bem com
essa nova fase: “Bem, é chato, mas todos estão fazendo e a
professora está pedindo, então vou fazer também”. A criança com
TDAH não sabe lidar com essa situação e começa a criar um
devaneio: “Que saco, eu não quero fazer isso, vou �car desenhando
no meu caderno”, continuando a fazer o que for mais
interessante na hora.
Pessoas com TDAH têm uma di�culdade muito particular de
alternar entre tarefas. Exempli�cando, elas estão em uma
atividade interessante, mas tem outra atividade mais
importante para fazer e essa alternância de tarefas é prejudicada
neuroquimicamente, sendo uma das grandes di�culdades que o
TDAH traz. E, aliado a isso, vem priorizar as tarefas, ou seja,
migrar o foco atencional de uma para outra. “Eu tenho três
atividades para fazer agora, o que vou fazer primeiro?”.
Geralmente, a criança, o adolescente e o adulto com TDAH são
grandes procrastinadores porque no hall de tarefas que elas
podem fazer naquele momento, por conta do “cérebro TDAH”
tendo que liberar um esforço muito maior para manter-se
focado, engajado e deliberar tarefas desinteressantes, como uma
máquina humana de economizar energia, o próprio instinto de
sobrevivência faz com que demos preferência a atividades que
nos consome menos energia e sejam menos mentalmente
desgastantes e, na imensa maioria das vezes, escolhem
atividades como provas, trabalhos ou estudos, pois é tudo que o
TDAH não quer mesmo fazer. Há um grande dé�cit de entender
a importância das tarefas porque a mente do TDAH foge de
qualquer maneira de situações mentalmente desgastantes.
Existem muitas crianças que não terminam as provas no
colégio. Os alunos têm duas ou três horas para terminarem as
avaliações, mas por que os que têm TDAH necessitam de tempo
adicional? Simplesmente por eles enrolarem para iniciar, �cam
apontando o lápis eternamente, olhando para a parede ou
quando alguém passa correndo do lado de fora, eles acabam
perdendo um tempo olhando pela porta para saber o que
aconteceu, a�nal, fazer isso é confortável e mais fácil do que
começar a prova. Eles perdem o foco atencional e até precisam
de mais tempo do que já é disposto por ter procrastinado 60% e
sobrado 40%, não dando tempo de terminar a avaliação. Ou eles
podem até ter conhecimento da matéria, os pais ajudaram a se
prepararem na véspera, fazem a prova com atenção, mas �cam
tão empolgados com as questões certas que pensam: “Nossa,
essa eu acertei! Eu sabia que era essa a resposta!”, ou seja,
começam a “viajar” imaginando o momento em que vão contar
a boa notícia para os pais, que eles estão sabendo tudo. Só que
eles �cam tão distraídos que perdem o foco e na hora de
entregar esquecem de ter preenchido o verso da prova.
“A vida de quem tem o TDAH requer esforço diário e posso
provar usando a minha própria vida como exemplo. Eu tenho uma
rotina bem atribulada, pois sou “um TDAH” bastante ativo e para
elaborar os capítulos e todas essas palavras do livro, tomei uma
decisão e a executei, tirando as ideias da mente e colocando em
ação. Sabendo como é desgastante elaborar um livro, tive que me
esforçar e agir. Muitas vezes tive que estar em um ambiente
diferente que não fosse a minha casa e escolher um dia muito
tranquilo. Tive que mudar meu cenário externo para que
conseguisse tirar uma força interior maior para continuar com o
livro. Essa estratégia funciona para colocar os pensamentos em
ordem, ter novas ideias e fazer novos planos”.
Como irá fazer com que as tarefas funcionem quando falta o
processo de se organizar? Criando um alarme para cada nova
tarefa. Um smartphone bem con�gurado e com as agendas bem
sincronizadas é um grande aliado para o funcionamento do
“cérebro TDAH”, independentemente da idade! Sincronize os
alarmes dos �lhos com os dos pais. “Tem que estudar às 14 horas.
O alarme tem que tocar no celular dos �lhos, mas tem que tocar no
dos pais também, podendo, assim, enviar uma mensagem de texto
lembrando-os dos estudos”.
A vida com o transtorno pode ser muito complicada, mas me
recordei de várias histórias ao elaborar esse livro, como essa a
seguir. Hoje sei que é possível contornar essas situações que
ocorrem em vários momentos da vida. Fico muito feliz que
agora posso ajudar pais e jovens a terem uma vida de qualidade
usando o TDAH a favor deles.
“Uma vez, em uma prova da primeira série, tirei uma péssima
nota. Os colegas de classe começaram a comentar, questionando
como eu tinha tirado uma nota tão baixa. Eu sabia que se tivesse
feito tudo certo, prestado atenção na aula e estudado, teria tirado
uma nota maior. Mas isso mudou a partir do ano seguinte, quando
eu fui para a segunda série e comecei a fazer um acompanhamento
bem próximo com a psicóloga. As intervenções começaram a ser
feitas pela minha mãe por conta deste auxílio que �nalmente
chegou. Eu fui transferido para um colégiomenor onde tinha
apenas vinte alunos na turma, e foi quando a minha vida começou
a mudar. No começo do primeiro mês de aula, eu fazia um esforço
para concluir os deveres; eu sabia que seria um problema para
mim, mas nas primeiras três semanas consegui. Lembro que a
professora dessa escola nova achava que eu era um menino
aplicado e então começaram a vir alguns elogios nesse sentido. Mas
ela estava me conhecendo e eu pensava que era muito legal estar
acontecendo aquilo. Por conta de represálias que eu havia sofrido
no passado, tentei o meu máximo continuar aquele esforço para ser
visto como um aluno ‘normal’, mas não durou muito tempo. Eu
passei a me dispersar durante as tarefas, olhando pela janela e
quando percebia a professora já tinha apagado o conteúdo do
quadro. Mas nesse momento veio a diferença entre como fui
tratado por pessoas que estão interessadas no problema e outras
que não estão. Eu nunca fui repreendido nesse novo colégio como
fui no colégio anterior. ‘Eu entendo que deveria ter me empenhado
nas tarefas e era até o que tinha tentado. Agora minha mãe
compreende a di�culdade que eu apresentava’. A partir do segundo
mês parei de passar a matéria para o caderno, de prestar atenção e
fazia o dever de casa ao meu modo. Eu conseguia ter um
rendimento melhor porque o clima não era tão pesado, a professora
me cobrava, mas era de outra maneira. Ela tentava nos ensinar de
forma didática sem depender tanto do quadro, o que foi muito
positivo, pois eu conseguia aprender e entender as tarefas sem ser
muito maçante. A professora acabou tendo que sair do colégio e em
seu lugar entrou uma senhora, estilo vovó mesmo, bem carinhosa.
Mas o jeito que ela passava a tarefa em aula eu não conseguia mais
seguir como antes, fazia um esforço, mas cheguei a um limite. Eu
recordo que ela, após perceber que eu não conseguia mais passar a
matéria para o caderno, com muita calma sentou-se na carteira ao
lado e disse: ‘Yuri, por que você não está conseguindo copiar o
exercício que está no quadro?’, na hora veio uma angústia, me
repreendi pensando que a qualquer momento isso iria acontecer e
me traria problema novamente. Mas ela não brigou comigo nem
disse que eu estava atrapalhando, apenas con�denciou: ‘A outra
professora me disse que você é o aluno mais aplicado da sala’. Eu
olhei para ela, sem palavras, pensando que não era possível, que ela
era louca e que aquilo não era verdade. Mas parecia já estar
acontecendo algo nos ‘bastidores’. Deve ter tido uma conversa
por parte da minha mãe e da psicóloga, gerando algumas
mudanças na minha vida. Tanto que depois eu comecei a
compreender a matéria, tinha as mesmas correções nas provas e
passava com boas notas. Também teve um concurso de desenho
na sala. Esse colégio era muito legal porque sempre tinham
várias feiras, concursos e gincanas, não era só sentar e estudar, o
que foi uma das coisas que me �zeram me apaixonar pela
escola. O concurso era fazer um desenho temático do ECO١٩٩٢,
então eu desenhei o Cristo Redentor e coloquei uma frase sobre
o tema e �cou bem bacana. O meu desenho foi escolhido o mais
bonito! Mas eu não conseguia acreditar que entre vinte
trabalhos o meu seria o melhor. Eu cheguei a achar que seria o
‘café com leite’ novamente. Eu não me lembro dos outros
desenhos, mas ninguém contestou o resultado, inclusive muitos
dos alunos concordaram e disseram que eu estava mais criativo.
Com mais entendimento das minhas limitações e o carinho
recebido na nova escola, ainda era muito complicado eu aceitar
isso tudo por conta do meu passado escolar. Eu recebi muitas
represálias por parte dos adultos, mas foi tão bom para mim
essa nova fase que voltei a ter a autenticidade que eu havia
perdido. É impressionante como um ambiente escolar
acolhedor pode reforçar positivamente a vida da criança”
Após essa lembrança, posso acrescentar aqui que toda criança
vai para a escola socializar, quem espera que elas estudem são os
pais. Como crianças com TDAH são muito ansiosas, elas têm a
necessidade de aproximação e de serem aceitas, e quando isso
não acontece existe uma quebra de sentido. Por isso que quando
existe um problema de estudo, ocorre um problema social por
trás, se tornando mais importante ainda os pais estarem sempre
atentos.
Percebam que quando temos um problema, em tese, pode
estar havendo uma falta de inclusão, de integração e de
socialização na vida dos seus �lhos.
Uma criança em dia com sua vida social, ao chegar do colégio
para sua jornada de deveres à tarde, estará menos ansiosa, mais
ativa e com mais aproveitamento desse momento, pois saberá
que no dia seguinte terá risadas no colégio, estará em paz
consigo e com o mundo, porque quando ela está em situação de
exclusão isso não acontece.
Os pais e professores tem que ter esse olhar mais sensível e
atento a esse tipo de problema, trazendo a família e a escola
mais próxima do jovem passando por essa situação.
A falta de amigos e a depressão na
adolescência
O primeiro ano no ensino médio foi um ano complicado, pois
sofria bullying e estava em uma turma chata, não me encaixava
e não tinha amizades. No dia do meu aniversário de dezesseis
anos eu não chamei nenhum amigo para comemorar comigo,
somente minha família mesmo. Estávamos em um restaurante
de fast food e eu não conseguia terminar meu sanduíche de tão
triste que me sentia. A minha mãe tomava conta dos meus
irmãos e reclamava por eu não estar comendo direito. Foi um
momento muito complicado para mim, pela falta de ter amigos
esse dia foi terrível. “Nesse ano eu tive a minha primeira crise de
depressão”.
“Quando �z dezesseis anos eu estava no primeiro ano do ensino
médio. Eu havia sido mudado de turmas três vezes no ano anterior,
pois esse colégio em que estudava fazia o que posso chamar de
‘ciranda’ com os alunos que não seguiam o padrão, o esperado,
então se eles conversavam muito, por exemplo, eles sempre
mexiam, tiravam de lugar e mudavam de turmas e por isso
acredito ter sido o motivo de ter sido trocado de turmas várias
vezes. Eu estava no primeiro ano D quando completava meus
dezesseis anos e foi uma época muito solitária para mim, pois
tinha poucos amigos próximos, e os que tinha eram amigos de
quando eu era pequeno, vizinhos em um prédio que morei vários
anos atrás. Na comemoração do meu aniversário a minha mãe
tirou o dia para fazer algo comigo. Naquele tempo a minha família
era eu, minha mãe e minhas irmãs, que eram crianças, e meu
padrasto. Nós decidimos ir ao McDonald’s. Esse aniversário foi
muito triste para mim, pois sentia que não havia nada de bom
para comemorar. Sentia que estava tudo esquisito, quando era
mais novo pelo menos tinha os amigos com que eu brincava, tinha
uma festinha e comemorávamos. Eu passei meu aniversário me
sentindo solitário pela falta de amigos, pessoas próximas que se
importassem comigo também. Foi a data que mais pesou a falta
dessas pessoas. A minha mãe chegou a perguntar se eu queria uma
festa, e eu até gostava de comemorar, mas para que fazer a festa se
ninguém iria? Eu me recordo de estar comendo no McDonald’s
calado, quieto na minha e senti pela primeira vez um sentimento
real de depressão. A minha mãe, ao perceber que eu estava olhando
para o horizonte com um olhar �xo e o pensamento longe, brigou
comigo chateada por eu não estar gostando da comemoração em
família. Mas muitos pais fazem isso, não seria uma prerrogativa
da minha mãe, claro, mas na hora eu não soube o que responder,
pois só reforçava em mim os pensamentos derrotistas, o quanto eu
não era querido”.
Com essa história, vocês podem ver como funciona, pois
muitas crianças com TDAH podem passar por uma espécie de
transformação entre uma criança alegre e feliz para um
adolescente mais triste e melancólico. Provavelmente, ele pode
estar passando por uma questão social, o que seria importante
aos pais se atentarem e olharem com cuidado e empatia para os
�lhos em momentos como esses. Não tiveram comigo a
sensibilidade de perguntar: “�lho, estamos percebendo que você
está aqui comemorando em família, mas você está triste, estáacontecendo alguma coisa?”. Palavras como essas teriam me
ajudado muito.
Então para os pais de crianças com TDAH existe a
necessidade de ter essa sensibilidade, de ter mais cuidado com
momentos assim. E não é só no dia do aniversário que tem que
prestar atenção no que está acontecendo de errado, é no dia a
dia. Isso deve ser constante: o cuidado, a atenção, a empatia, o
acolhimento. Tem que perguntar, interagir, pois �lhos com
onze, doze anos socializam, vão na casa de amigos ou recebem
visitas em casa, mas se seu �lho não faz isso, tem algo de errado
e ele vai sentir e sofrer com isso. Investigue o que está
acontecendo, mas sem o olhar crítico de recriminá-lo por estar
calado e triste, obviamente.
Não con�e na autonomia do jovem
com TDAH
“Em meados dos meus treze anos, comecei a frequentar um curso
de inglês que �cava no meu bairro, em Brasília. Eu tinha duas
aulas por semana e na primeira semana eu estava empolgado e,
assim como todo TDAH, a novidade que gera dopamina me deixava
muito animado e querendo fazer todos os deveres e comparecer a
todas as aulas que começavam. Após algumas semanas as aulas
não eram mais tão atraentes e muitos menos o livro com os deveres.
Por �m, eu não havia feito as tarefas e com isso não tinha estudado
para as provas �nais de semestre.
Na última prova escrita eu falhei miseravelmente, acho que
consegui por volta de cinco pontos, o que não foi de todo ruim. Mas
quando cheguei para a última prova oral, aquela que entram dois
alunos e a professora faz algumas perguntas com a matéria toda,
eu entrei com um colega de classe, e assim começou o teste. Ela fez
as questões para cada um de nós por vez; eu e meu colega
respondíamos uma diferente. Ele visivelmente sabendo a matéria e
eu não sabendo praticamente nada. No �nal das perguntas ela
dava um feedback e passava a nota, mas na frente um do outro.
Claro que o colega tirou uma nota melhor do que a minha e, ao
ditar quanto tirei, a professora nem olhava nos meus olhos, mas
para dizer a verdade, nem eu conseguia olhar para ela. Eu saí do
curso e dei alguns passos em direção a uma parte menos visível da
rua, perto de um contêiner. Eu não aguentei nesse momento,
encostei nele e chorei muito, quase desesperadamente. Eu vi um
amigo da minha rua e que também estudava nesse curso de inglês
passar; ele me viu de longe, mas não parou, provavelmente me viu
chorar. Eu chorei engolindo minhas lágrimas assim como meu
fracasso”.
Qual a lição que eu tiro dessa história? Não con�em nos seus
�lhos com TDAH, mesmo eles já tendo treze, quatorze anos. Eles
têm a maturidade cerebral mais atrasada, o resultado natural do
TDAH é se privar da percepção de futuro, de causa e
consequência. Não está estudando? “O trem está vindo pelo
trilho, ele vai te acertar”, mas o jovem com TDAH vê esse trem
chegando somente quando bate no nariz.
Ao matricularem os �lhos no curso de inglês, os
acompanhem. “Yuri, sou muito ocupado, não consigo!”. Faça
semanalmente, separe um �nal de domingo para verem juntos
os deveres. Não con�em quando perguntarem como está o curso
e eles responderem que está indo bem, não acreditem. Não estou
dizendo para não con�arem em seus �lhos, claro, mas
con�arem no que os seus olhos podem ver. Ao pedir que eles
mostrem o caderno de deveres não quer dizer que não con�am
neles, somente que querem ver se está tudo em ordem.
O seu �lho mostrando o caderno todo cheio, com as
respostas, os pais que têm noção de inglês podem corrigir
alguma coisa na hora, se a conjugação está certa e vendo que
está tudo bem. Mas ao ver que as perguntas não estão
respondidas podem questionar logo o que está acontecendo, até
onde deveria estar preenchido. Outro momento importante, os
pais têm que ir na escola de inglês e pedir, se possível, aulas de
reforço. Esse reforço é necessário, porque o seu �lho precisa.
Nos Estados Unidos, pediatras a�rmam que crianças e
adolescentes com TDAH necessitam, pela sua qualidade de vida,
educacional e de aprendizado, de acompanhamento pós-aula,
serem acompanhados pelos pais, mas se não puderem, que seja
por um tutor ou por um professor. Se não tiverem condições
�nanceiras para todas as matérias, perceba aquela que o seu
�lho esteja com pior rendimento e invista em pelo menos uma
vez na semana de acompanhamento, se não houver
gratuitamente na escola.
O medo da rejeição
A rejeição sempre foi muito presente na minha vida escolar, e
isso acabou respingando na minha vida pessoal também. Com
isso, eu faço terapia há muitos anos e a psicóloga observou o
fato de que eu sempre fui escolhido, eu nunca escolhi e isso fazia
parte das minhas frustrações do passado, principalmente pela
época da infância, histórias já contadas por aqui.
Quando eu estava em alguma festa não me aproximava das
mulheres. Elas que me olhavam quebrando o gelo,
começávamos a nos relacionar e virava um namoro. Em toda a
minha vida, eu tive sete namoradas, e um fato bem curioso foi
que aconteceu com todas! E também elas que terminavam
comigo.
Por eu sempre ser escolhido e nunca escolher, fez muita falta
para mim na questão de identidade, não saber o que eu queria
me causou muito sofrimento e me senti muito confuso em
relação a isso tudo. A terapia foi importantíssima para resolver
essa questão.
“Quando tinha dez para onze anos eu era amigo de duas
meninas, a Juliana e a Daniela, uma mais velha e outra mais nova
do que eu. Só mais tarde �quei sabendo, mas elas duas �zeram uma
aposta que uma teria que me beijar naquela noite. Eu e meus
amigos havíamos marcado de ir para o cinema assistir um �lme.
Após o cinema, fui deixar a Juliana na casa dela e entrei para
tomar água, ou algo assim. Quando eu voltei era como se fosse uma
pequena armadilha, fomos para o lado de fora onde tinham
algumas árvores. Ela encostou-se na árvore e a beijei rápido e
levemente. A Juliana me escolheu para ser seu namorado e foi a
primeira vez que fui escolhido por uma namorada. Eu gostaria de
me envolver mais com ela, mas como eu fui muito podado por
�guras femininas, não tinha coragem e tinha medo, na verdade.
Naquela época eu não convivia com meu irmão mais velho, nem
com meu pai, então não tinha uma �gura masculina para me
dar conselhos e dicas. Talvez se eles soubessem que eu estava
namorando poderiam me ajudar nesse sentido. No ano
seguinte, havia terminado meu primeiro namoro, passei para
outro ano no colégio e os problemas de socialização
continuaram. Só que, nessa escola, havia uma menina que
também se chamava Juliana, eu havia gostado dela e alguém foi
contar isso. Ela era do estilo que �cava no fundo da sala fazendo
bagunça, então ela chegou e me disse que estava apaixonada por
mim, mas percebi que eram falsas as palavras, só para os colegas
rirem de mim. Para ser sincero, ela pode ter até tido um certo
interesse, mas vi dessa forma e me apavorei, repetindo para mim
mesmo que eu precisava me esconder, pois estavam me sacaneando.
Eu tomei aquela ação como bullying e me afastei dela. Passaram-se
os anos, quatro anos para ser exato, eu via meus amigos indo para
festas, namorando e socializando com as meninas. Uma vez eu vi
no mural da escola um convite para uma festa na casa de um dos
meninos, ele era rico e toda a turma foi convidada a ir. Eu não fui
por não me comportar bem em festas e também pensava: ‘como
assim o Yuri vai em festas?’, iam rir de mim. Como se eu só servisse
para ir às aulas, fazer os outros rirem e ser motivo de piadas.
Poucas vezes fui convidado, mas pensava que se eu não fosse
convidado para quase nenhuma festa não deveria ser ‘benquisto’
em lugar nenhum, eu não vou me atrever a ir nesse lugar e acabar
�cando com medo”.
O medo da rejeição sempre foi algo muito presente e sempre
me impediu de dar o primeiro passo por muitos anos da minha
vida, tanto que o meu primeiro beijo de verdade ocorreu quando
eu tinha dezesseis anos.
“Eu estava viajando para a casa dos meus avós em São Luiz do
Maranhão. O voo fez uma escala em Belém e nisso entrou uma
menina no avião, a Ludmila. Eu estava sentado no meio; ela entrou
e sentou-se na poltrona da janela.Eu, de imediato, a achei linda,
ela olhava pela janela e eu estava tentando ler a minha revista
sobre videogame. Eu não sei o que me deu na hora, mas consegui
puxar conversa com ela, que me contou um pouco de sua vida, que
estava indo até Salvador. Falei um pouco de mim, mas já estava
louco de vontade de beijá-la, sem saber como iniciar. Quando o
avião pousou na outra escala, a que eu desceria, eu não aguentei e
pedi um beijo para ela. Foi o primeiro beijo de verdade que dei e
iniciei uma coisa que nunca havia feito antes. Depois disso criei
coragem pensando que eu já sabia como fazer e tudo mais, só que
no ano 2000 o medo e a insegurança voltaram, não conseguia dar
o segundo passo de novo, tanto que consegui beijar alguém
novamente no �nal de 2001! Quando alguém olhava para mim em
festas eu desviava o olhar pelo pavor da rejeição”.
A resiliência e o TDAH
Um dos colégios em que estudei em Brasília era bem
tradicional, chamado Leonardo da Vinci. Eu me formei no
ensino médio em 2001, mas terminei o terceiro ano com
dependência em português. Para que eu não tivesse problema
para terminar os estudos e prestar o vestibular, �z um supletivo
nas férias e passei na matéria que faltava.
Eu me recordo que naquela época já gostava de programar, de
computação e, sinceramente, não estava pensando em fazer
curso superior. Eu havia tentado fazer o vestibular no meio e no
�nal do mesmo ano, mas não passei, assim como no PAS
(Programa de Avaliação Seriada).
Me faltou orientação parental em todo meu ensino médio. Por
exemplo, a minha mãe me inscreveu com muito sacrifício no
PAS, sendo o programa de avaliação que o aluno faz no primeiro,
segundo e terceiro anos de ensino médio e dependendo da
somatória de pontos, o aluno tem acesso direto ao curso
escolhido na faculdade. Eu não tive paciência para essa
avaliação, até sem compreender sua importância e completei
somente metade da prova no meu primeiro ano. Logo na
primeira prova eu comecei mal com as minhas chances.
A falta de consciência acadêmica, o não pensar no futuro, o
estar preso ao presente, no “qual jogo vou jogar depois desse?”. E
como o estudo sempre foi um problema para mim, eu não me
interessava pelo vestibular e não tinha preocupação com meu
futuro acadêmico.
Muitos jovens com TDAH podem ter um sentimento
semelhante, pois vivem uma situação de ódio com os estudos.
Se os pais não souberem conduzir desde a infância: “�lho, se você
tem di�culdade não precisa sentir esse sofrimento, vamos abordar
de uma forma diferente, eu vou te ajudar, vamos ‘gami�car’
(explicar de uma forma descontraída, como em um jogo)”. Ou seja,
se os pais não ajudarem, a criança �ca traumatizada e não cria
um senso de responsabilidade para com os estudos, tornando-se
somente um momento de perturbar e causar transtornos nas
aulas.
Posso exempli�car:
“Em 2002 eu estava na casa do meu pai tomando um banho de
piscina. Então serviram o almoço e enquanto todos comiam meu
pai me perguntou sobre o vestibular, eu respondi que estava
planejando fazer um curso técnico de programação e que queria
mexer com tecnologia, mas meu pai achou um absurdo. O meu
irmão também estava nesse dia, e como já falei em outras etapas
desse livro, ele sempre foi uma referência, pois havia passado em
primeiro no vestibular na época dele. Ele e meu pai �caram
indignados com a minha resposta e foi nesse dia, nessa conversa
que eles disseram que eu precisava ter ensino superior e ter um bom
emprego ou ser dono da sua própria empresa, mas que eu não
poderia ter só o ensino médio. Meu irmão também insistiu muito
que eu deveria passar na UnB”.
Todo o estímulo e garra que eu deveria ter tido dos meus pais,
principalmente da minha mãe, por morar com ela no meu
período escolar, tive em uma tarde de domingo. Ficou a
impressão de que falaram em uma tarde tudo que eu precisava
ouvir nos três anos de ensino médio.
Após essa conversa eu saí decidido que iria fazer o vestibular.
Muitos dos meus amigos já estavam na faculdade e resolvi que
entraria também.
Então começou o inferno, iniciei o curso pré-vestibular, mas
estava gostando daquele ambiente de cursinho. Encontrei
alguns dos meus colegas de turma e pensei que seria uma
continuação do ensino médio, curtição e bagunça novamente,
com a minha imaturidade da “cabeça TDAH”, que é de dois a três
anos para baixo, eu tinha dezoito com cabeça de dezesseis anos
de idade. Não que dezoito anos seja muito maduro, pois não é,
mas eu não tive a consciência que meu colega teve, de entrar no
cursinho, estudar por seis meses e passar na faculdade. Eu me
recordo que uma tarde, como as turmas tinham por volta de
cem alunos, esse colega disse que estava muito barulhento e
resolveu trocar para turma do andar de cima, que havia
cinquenta alunos. Ele resolveu que seria melhor e foi.
Ele decidiu que iria passar e fez. Eu não tinha o menor senso
disso, assistia às aulas, fazia mais ou menos os deveres de casa, a
minha mãe não mandava mais em mim, ia me virar, pois sabia o
que era preciso para mim, o que era mentira, claro, não sabia
nada, mas fui levando.
Ao fazer os cursinhos de modo muito malfeito, não passar no
vestibular e ter que refazer todo o processo com a promessa de
que iria ser diferente, passou-se muito tempo. Foram quase três
anos, então começou a di�cultar, todos os meus amigos
estavam ou em faculdade privada ou na UnB e eu perseverando
no cursinho. A paciência do meu pai estava acabando, pois ele
pagava a pensão para mim. Em 2002, quando �z dezoito anos,
saiu uma portaria que passou a pensão para os �lhos homens de
vinte um para dezoito anos, exceto se eu estivesse fazendo um
curso superior. Se eu estivesse estudando em qualquer
faculdade privada meu pai seria obrigado a pagar pensão. Mas
como eu não havia passado, ele não teve que pagar mais, e não
pagou. Com muito sacrifício a minha mãe aguentou e pagou
mais um semestre de cursinho, mas também não passei nesse
semestre nem no seguinte. Mas eu consegui ser �scal de prova
em um curso pré-vestibular melhor do que o anterior e iria
ganhar uma bolsa de 50%. Então fui até o meu pai e conversei,
expliquei que precisaria dessa quantia que faltava e ele disse que
pagaria. Eu levei um pouco mais a sério os estudos, entrei em
um grupo para estudar melhor a matéria e passei na UnB.
Eu passei para administração na Universidade de Brasília. O
curso de Engenharia que eu sempre quis, inclusive o meu pai
queria eu �zesse, não aconteceu. Não sei se é uma coisa do Yuri
ou do TDAH, mas você no fundo sabe da sua capacidade e sabe
que é inteligente, porém não consegue fazer aquilo que a sua
inteligência necessita que você faça. Estudar, perseverar, ter
rotina de estudo. A minha mãe via a minha desorganização, mas
ela não sabia como interferir, ajudar, me cobrar. Ela não fazia as
intervenções que hoje eu ensino no meu Programa Meu TDAH,
na minha empresa TDAH Descomplicado.
A resiliência pode vir do medo de não fracassar. Era como se
eu pensasse: “poxa, a minha vida inteira eu fracassei, fui uma
negação com relação aos estudos, não posso permitir que isso
aconteça! Eu tenho que me esforçar e vencer! Vencer é o meu
destino, não tenho outra escolha”.
Para o TDAH, chega um momento na vida em que ninguém
acredita mais em você. Isso é verdade, talvez nem seus pais
acreditem, mas você tem que provar para si mesmo que
consegue. No fundo, você acredita na sua inteligência, que é
capaz! Mesmo que os outros não acreditem, acredite em si!
A resiliência no TDAH tem muito a ver com como você encara
a sua história, principalmente a sua história de fracassos, pois,
geralmente, o TDAH coleciona fracassos. Isso não é algo para ler
e �car com raiva de mim, é algo que você tem que constatar,
entender, engolir seco e dizer: “beleza, o que eu faço para mudar
isso? Por exemplo, ler este livro”. Para os pais que estão lendo este
livro, estão se preparando, a�ando as melhores armas para
evitar que os �lhos passem por esse sofrimento. Eu precisei
passar por isso com uma mãe que tinha boa vontade, mas não
tinha nenhum tipo de técnica ou vivência paraque eu
desenvolvesse a minha técnica e história para que, assim, eu
pudesse passar o mapa da mina para que os �lhos com TDAH
não sofram.
Então, se eu tivesse que dar uma moral da história para isso
seria: “não permita que seu �lho �que nessa roleta-russa, pois
ele, por mais que tenha dezoito, dezenove anos, está em
cursinhos pré-vestibular, então não é adulto, mas sim imaturo e
precisa de orientação. Os pais têm que cobrar sim! Pergunta para
o �lho se já fez a lição e vai para o quarto dormir? Não! Vai lá,
checa se está feito, abre a apostila junto com ele, vê qual foi a
matéria dada no dia, questione o seu �lho o que ele aprendeu
dessa matéria, o que os professores ensinaram no dia, ‘vamos
lembrar e exercitar a memória’. Tem que ter a participação ativa
dos pais, pois isso não acaba aos dezoito anos. E não se preocupe
em ter que �car ‘no pé’ dos �lhos, pois tem que �car sim. Você
está lidando com alguém com o cérebro um pouco imaturo, e ele
vai precisar dessa ajuda. Mas não se preocupe, ele vai sobreviver.
Mesmo sem ter tido todo esse tipo de apoio eu sobrevivi e hoje
estou casado, moro só, pago minhas contas, tenho uma
empresa, tenho dois empregos (um como concursado e outro
com uma empresa) e vivo a minha vida, mas o meu TDAH, o
meu tratamento, poderia ter sido conduzido de uma melhor
forma, isso é fato”.
A resiliência é o maior trunfo que eu tenho e qualquer pessoa
com TDAH pode ter. A gente pode demorar um pouco mais para
fazer as tarefas. Podemos levar um até três anos, mas com
resiliência isso vai acontecer.
“Foram quatro anos de estudo para o vestibular. Vi meus amigos
passando e se formando na faculdade, enquanto eu seguia com
meu sonho de entrar na UnB. Eu não admitia não entrar na
Universidade de Brasília. Por volta do terceiro ano de tentativas,
meu pai me abordou falando que era para eu desistir e arrumar um
emprego e foi desesperador, �quei arrasado porque ele, o cara que
eu amava, não estava mais acreditando em mim e achava que eu
deveria abrir mão do meu sonho. Mas em 2006 passei na UnB para
o curso de Administração, �z várias tentativas para engenharia,
mas na última mudei de ideia, pois julguei ser um curso que seria
mais fácil passar, e passei. Ao contar para o meu pai, ele perguntou
se eu continuaria tentando para Engenharia, o que me
decepcionou. Logo no primeiro semestre comecei um estágio. Então
tive problemas na faculdade e no trabalho. Quase fui demitido no
primeiro estágio e no outro me demitiram de verdade. Sem estudar,
passei no concurso do Banco do Brasil em 2008, de onde quase fui
demitido também. A monogra�a de �nal de curso foi difícil de
concluir e com isso não passei duas vezes. Tive um problema com
meu orientador, ele jogou a toalha e depois nem apareceu mais.
Tive que correr atrás de outro para me auxiliar; achei uma ótima
professora e �nalmente consegui passar, me formando depois de
oito anos de estudo.”
Entrar em ação apesar da frustração
Preciso começar esse capítulo sobre resiliência e perseverança
comentando sobre uma fase que eu estava passando nos meus
vinte e nove anos. Eu não estava passando por um bom
momento, não me sentia atraente, meu salário não era o
su�ciente, mas comecei a namorar uma mulher muito bonita.
Só que eu associava o fato dela ser bonita com o querer que
desse certo a relação, sempre colocando sobre meus ombros a
responsabilidade sobre isso, porém o namoro durou poucos
meses. Eu �z de tudo para agradá-la, me endividei muito nesse
relacionamento. Por �m, ela terminou comigo e poucos dias
depois namorou outro, que era rico. Na mesma hora já associei
que eu não tinha dinheiro o su�ciente, que era incapaz, que esse
era o problema.
Eu cogitei abrir uma �lial de uma empresa de dedetização em
Goiânia, e me mudar para lá, enquanto minha mãe vendia um
apartamento pequeno para me ajudar. Acabou que ela não
conseguiu comprador e eu �z uma prova interna para passar
para a área de tecnologia do Banco do Brasil, e lá comecei a
ganhar mais. Deus age certo por linhas tortas, não é mesmo?
“Após ter passado na prova interna eu tinha três meses para ser
efetivado na tecnologia, todos os meus colegas que entraram
comigo já haviam sido, mas para mim demorou mais. Eu não
queria voltar para a área anterior, para aquele ambiente que eu
detestava. Eu cheguei para o meu chefe e expliquei que eu não
estava fazendo corpo mole, pois tinha um transtorno chamado
TDAH, que eu precisava de ferramentas para me ajudar a lembrar e
decorar informações. Tudo que ele falava eu anotava em um
aplicativo chamado OneNote. Eu levava meu notebook para o
trabalho por conta dessas anotações, pois era mais fácil anotar
nesse aplicativo e procurar depois por palavras-chaves do que �car
procurando folha por folha em um caderninho. Mas me olhavam
torto por levar o notebook achando que eu iria jogar jogos ou algo
do tipo, só que não, mal sabiam eles que eu estava tentando me
proteger para decorar as funções. Após duas semanas fui efetivado,
me senti muito bem, foi um grande alívio”.
Como o capítulo diz: ter TDAH é entrar em ação apesar da
frustração. Muitos colegas com o transtorno desenvolvem
depressão não por genética ou algo do tipo, mas porque têm
frustrações e não conseguem superar, então começam a desistir.
Isso não pode acontecer, tem que perseverar e tentar o máximo
sempre. É preciso pesquisar e estudar sobre o transtorno para
poder seguir em frente com uma vida de qualidade, mesmo com
o TDAH.
Entendendo o TDAH
Desde os meus trinta anos eu faço terapia com a mesma
psicóloga. No começo nós fazíamos muitas sessões de EMDR
(Dessensibilização e Reprocessamento Através do Movimento
dos Olhos), mas também fazíamos algumas regressões em que
houve uma reprogramação acerca de momentos difíceis da
minha vida e somente um ano depois, em terapia com ela,
percebi que o TDAH somava em vários momentos em que eu
vivi. Antes eu tinha uma pequena noção do que era o
transtorno, mas não era algo que eu vivia e respirava como faço
hoje.
Ao aprofundarmos nas sessões entendi que muitos dos
traumas que tive em toda minha vida o TDAH fez grande parte
disso.
Um dia, no �nal de uma das nossas sessões, eu virei para
minha terapeuta e disse que gostaria de criar um canal no
YouTube para falar sobre o TDAH. Ela encostou em meu ombro
e disse que achava uma ótima ideia e que, inclusive, faria mais
sucesso que o meu canal anterior (eu havia feito antes um canal
sobre carros, pois gosto muito do assunto), e não é que ela estava
certa? O meu canal TDAH Descomplicado não para de crescer
até hoje.
Nesse canal, lá no começo, eu abri a câmera e comecei a falar
da minha vida e mais nada. Muitas mães começaram a assistir
os vídeos, pois eu abordava muitos temas como as di�culdades e
o sofrimento na infância e traumas que perduraram por muitos
anos. Então elas se interessaram muito sobre tudo o que eu
dividia. Com isso, meu canal foi crescendo muito rápido e eu fui
junto do �uxo, comecei a estudar diariamente sobre o TDAH, o
que ajudou muito, não só para as mães, mas para mim também.
Desde o início os pais começaram a encher a minha caixa de
mensagens com perguntas e esperando dicas, principalmente,
sobre o estudo. Quando os pais me procuram com a intenção
dos �lhos começarem a gostar de ler e de estudar, já pode
esquecer. Esse não é o caminho! Seria como se um cavalo criasse
asas e começasse a voar, pois o estudo é desinteressante, mas ele
pode futuramente passar a gostar porque a matéria mudou,
caso surjam novos conteúdos que ele se interesse realmente, aí
sim é possível. Mas os pais têm que sair desse foco de querer que
os �lhos gostem! O �lho tem que entender que para ter acesso
àquilo que ele ama, ao seu jogo ou atividade que gosta,
primeiramente tem que fazer as atividades para que �que livre e
tenha acesso a tudo aquilo, ou seja, a sua recompensa.
Agora, incentivar o TDAH não é fazê-lo gostar, é entender que
isso é necessário. Fazer um jogo com ele, fazer uma
“gami�cação”: “Vamos fazer suas tarefas hoje, que você terá uma
recompensa no �nal”, ou explicar um sistemade pontos falando
para seu �lho cumprir o que foi combinado e, ao �nal, ele recebe
o que foi pedido ao elaborarem esse sistema.
Encerramento
Chegamos ao �nal desse livro, que é muito importante para
mim, pois eu gostaria que lessem com um olhar de empatia, não
como pena ou algo assim. ‘Meu �lho passa por di�culdades
acima da média, mas isso não o torna uma pessoa imune a
passar pelas di�culdades da vida’. Não é para trancar o seu �lho
em uma redoma; pelo contrário, os �lhos têm que viver
experiências e mais do que os outros, mas experiências com
muita orientação! Isso vai levá-lo ao nível de maturidade e
independência, clareza de resoluções sociais e acadêmicas que
os pais desejam tanto. Não é um livro para ler e guardar na
estante, é para colocar em prática!
Para escrever esse livro, se fosse depender da minha força de
vontade, do meu querer e de fazer tudo sozinho eu jamais tiraria
do papel, mas tenho pessoas certas que podem me auxiliar. Por
exemplo, nesse momento, quem está digitando essas linhas é a
minha Ghost Writer, a Manoela Serra, que esteve ao meu lado a
todo tempo, não apenas recebendo áudios, mas enviando áudios
lendo o meu livro integralmente para mim. Quem tem TDAH é
assim, tem que encontrar a forma certa de fazer acontecer, pois
eu tenho di�culdade em conseguir me concentrar para escrever
e para ler também. Eu tenho a Manoela, mas os �lhos têm os
pais, ou tutores treinados com olhar atento ao TDAH. Mas o que
realmente importa é o resultado �nal. Parem de se importar
com o como, mas sim para onde seu �lho está indo. Não pensem
que se colocarem as dicas desse livro em prática seu �lho �cará
preguiçoso e vai depender de vocês para o resto da vida. Nunca
que isso aconteceria! Todas as dicas que estou dando para os
pais nesse livro eu vivi na minha infância, e sou um adulto
independente. Sou formado na UNB em Brasília, sou
concursado, sou casado, tenho imóvel próprio. Uma das dicas
principais é: repetição, treino e orientação! Orientar e não fazer
pelos seus �lhos é o segredo.
Agradecimentos
A partir daqui eu gostaria de agradecer aos meus pais por
terem hora me apoiado e hora mostrado que a vida é um jogo
duro que precisa ser jogado, à minha amada esposa Carolina e à
minha família pelo apoio. Agradecer também ao MOVIN –
Movimento para Inclusão, em especial à Vanessa, que são
minhas parceiras nessa empreitada com o TDAH e a Manoela
Serra pela compreensão e empenho junto a mim para que essa
minha nova vitória – este livro - se concretizasse.
Sumário
Apresentação
Prefácio
Introdução
Vamos ter uma conversa de TDAH para TDAH?
TDAH na primeira infância
Tenham atenção aos sinais
Os pais VS as mães falam a mesma língua?
O seu �lho tem baixa tolerância à frustração?
Lidando com os desejos e as decepções
Não faça comparações entre seus �lhos
Não se intimide com o diagnóstico do seu �lho
A recompensa imediata e o hiperfoco
Sofrendo bullying por ter TDAH
Aproxime-se devagar, a vida já cobra demais
A falta de amigos e a depressão na adolescência
Não con�e na autonomia do jovem com TDAH
O medo da rejeição
A resiliência e o TDAH
Entrar em ação apesar da frustração
Entendendo o TDAH
Encerramento
Agradecimentos
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	Apresentação
	Prefácio
	Introdução
	Vamos ter uma conversa de TDAH para TDAH?
	TDAH na primeira infância
	Tenham atenção aos sinais
	Os pais VS as mães falam a mesma língua?
	O seu filho tem baixa tolerância à frustração?
	Lidando com os desejos e as decepções
	Não faça comparações entre seus filhos
	Não se intimide com o diagnóstico do seu filho
	A recompensa imediata e o hiperfoco
	Sofrendo bullying por ter TDAH
	Aproxime-se devagar, a vida já cobra demais
	A falta de amigos e a depressão na adolescência
	Não confie na autonomia do jovem com TDAH
	O medo da rejeição
	A resiliência e o TDAH
	Entrar em ação apesar da frustração
	Entendendo o TDAH
	Encerramento
	Agradecimentos
	Sumário
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