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Copyright © Viseu Copyright © Yuri Maia Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por meio de processos xerográ�cos, incluindo ainda o uso da internet, sem a permissão expressa da Editora Viseu, na pessoa de seu editor (Lei nº 9.610, de 19.2.98). editor: Thiago Domingues Regina projeto editorial: BookPro coordenação editorial: Giselle Rocha revisão: Carolina Esperança Patrocinio copidesque: Eliel Silva versão digital: Kauê Rodrigues capa: Vinícius Moura e-ISBN 978-65-254-1912-1 Todos os direitos reservados, no Brasil, por Editora Viseu Ltda. contato@editoraviseu.com www.editoraviseu.com Apresentação Este livro não tem a pretensão de ser um livro técnico, mas sim demonstrar a vivência em uma vida inteira com o TDAH. Não será mais um case em um estudo; eu serei o case, a pessoa que está trazendo a visão de quem sente na pele o que é ter o transtorno. As histórias aqui possibilitam enxergar o seu �lho através da minha visão de vida, dando a você o poder de mudar a percepção sobre o TDAH. Eu entregarei ferramentas importantíssimas para que isso aconteça, pois não haverá estatísticas e listagem de sintomas; serão exemplos práticos e explicações claras proporcionando ao seu �lho com três, seis ou doze anos de idade um futuro promissor. Assim como fazemos no programa de sucesso, o ‘Meu TDAH’, junto à minha empresa, “TDAH Descomplicado”. Prefácio “Sonhos determinam o que você quer. Ação determina o que você conquista.” Aldo Novak A importância do tema tratado neste livro é gigantesca e demonstrarei isso com um exemplo singelo e, ao mesmo tempo, extraordinário. Em meio a uma palestra, mencionei que tenho o TDAH e, por esse motivo, fui abordado por um casal cuja �lha também tem o transtorno. Eles achavam que a �lha estava condenada a uma vida menor e limitada e, ao ver alguém com meu currículo e também ter o transtorno, tiveram suas vidas impactadas. Eles pediram que eu conversasse com a �lha, o que consegui fazer no aeroporto da cidade. Foi uma conversa relativamente rápida e na qual narrei que, após aprendermos a administrar nossas di�culdades, elas se transformam em “superpoderes”. Tive a oportunidade de dizer que todo mundo tem seus desa�os pessoais e que se eu pudesse escolher um, provavelmente escolheria o que já tenho, TDAH, até porque já aprendi a lidar com ele. Aquela menina, uma pré-adolescente, sofria duplamente: um, o transtorno, e dois, pais que achavam que ela era incapaz de ter uma vida normal e plena. Aquela palestra e aquela conversa com ela e com os pais �zeram toda a diferença. Poucos anos depois, voltando ao mesmo evento anual para uma nova palestra, encontrei a jovem trabalhando no apoio, e os pais vieram me contar que ela acabara de ser aprovada no vestibular. Em resumo, uma vida que seria menor se converteu em uma vida bem-sucedida a partir do conhecimento e da con�ança de que era possível superar as di�culdades impostas pela condição que ela tinha. E a família teve uma participação muito relevante. Esse episódio mostra a importância do tema, principalmente no sentido do debate que vem sendo promovido pela causa e que pode desfazer visões equivocadas. Nesse passo, louvo o movimento feito pelo autor no sentido de dar visibilidade ao TDAH, e principalmente o estímulo à superação das di�culdades naturais aos que possuem o transtorno. A verdade é que as di�culdades inerentes ao TDAH e como superá-las é tema precioso para quem porta o transtorno e para seus amigos e familiares. Tanto o autor quanto este prefácio aprenderam, e qualquer um pode aprender, a lidar com esse desa�o. E cada um que consegue construir sua história e buscar seus sonhos e metas pode inspirar outras pessoas. É gigantesca a lista das pessoas de sucesso e felizes que são TDAH. Você ou seu amigo ou parente pode fazer parte dela. Para isso, é preciso con�ar que é possível se desenvolver a partir de informação e conhecimento. Estes, embora ainda sejam pouco conhecidos, são acessíveis através dos pro�ssionais médicos, livros, palestras, podcasts, redes sociais e pelas pessoas que portam o transtorno, cada qual dentro de seu lugar. Um livro sobre o tema é uma ferramenta poderosa para ajudar a divulgar a verdade sobre o TDAH. No entanto, escrever um livro é uma tarefa árdua. O trabalho de organizar as ideias numa sequência concatenada de pensamentos pode ser equiparada aos preparativos para se receber uma visita em casa. Antes mesmo de externar o convite, o an�trião já se programa para o encontro. Desde a recepção aos quitutes, tudo é pensado para tornar o ambiente agradável à visita. O mesmo ocorre com o autor. Com a experiência pessoal de já ter escrito algumas obras, sei do trabalho e do empenho exigidos na elaboração de uma obra. E posso a�rmar que o Yuri preparou com maestria esse encontro entre autor e leitor para o debate sobre um tema infelizmente ainda tão ignorado em nossa sociedade: o TDAH. O Transtorno do Dé�cit de Atenção e Hiperatividade atinge cerca de 5% da população mundial. No Brasil, estamos falando de mais ou menos 10,5 milhões de pessoas. Para se ter uma ideia do tamanho desse universo de pessoas, apenas 6 estados brasileiros possuem uma população total maior que esse número. São muitas pessoas lidando todos os dias com a desregulação bioquímica de seus cérebros, o que promove sintomas característicos do transtorno, sendo o principal deles a desatenção. Apesar dos altos números de TDAHs no Brasil – sendo este que vos fala mais um nesse universo –, pouco se fala sobre o assunto, sendo os debates, em sua grande maioria, restritos às comunidades formadas pelas pessoas diretamente envolvidas na causa. Mas esse cenário vem mudando. Há alguns anos, vem surgindo no cenário nacional uma �gura que se destaca como porta-voz da causa, levando conhecimento aos milhares de seguidores nas redes sociais, participando de debates públicos nas casas do povo – junto aos representados do Poder Legislativo, e com seus cursos livres – ensinando quem se disponha a aprender sobre o assunto. O trabalho que vem sendo feito pelo Yuri ganha um novo aliado: esse livro, produzido com esmero e cuidado, caracteriza sua pessoa e seu trabalho. A obra vem somar esforços a todo seu trabalho, tornando o debate sobre o TDAH – suas causas, consequências e formas de superação – cada vez mais acessível e relevante no cenário nacional. Esta obra é a sintetização de outro grande ponto sobre o trabalho do autor: o exemplo. Sendo um TDAH, tendo enfrentado todas as adversidades do transtorno e tornando-se referência tanto no assunto quanto em seus projetos pessoais, o autor mostra a todo aquele que tem TDAH não terá necessariamente uma vida limitada ou mesmo mediana. Como ele sempre ressalta em suas redes sociais, o TDAH pode ser extraordinário. Extraordinário. Este é um adjetivo que cabe muito bem ao autor e à sua obra, do qual esse livro é apenas um capítulo, mas um capítulo que, por si só, pode mudar histórias de vida. Estendo a você, Leitor, o mesmo convite que recebi para conhecer esta obra. E lhe adianto, de antemão, que você encontrará toda a hospitalidade e acolhimento que se espera da visita que se faz a um amigo. Seja bem-vindo. Dr. William Douglas, juiz federal e autor do best-seller “Como passar em provas e concursos”. Quando recebi o convite do Yuri Maia para prefaciar essa obra não imaginava o tamanho do impacto que ela causaria em mim. Não que eu questionasse a competência técnica do autor. A�nal, quem sou eu para duvidar de alguém que, assim como eu, vem dedicando boa parte da sua vida a estudar sobre o assunto e levar o conhecimento, de forma acessível, a todo aquele que se interesse e busque saber mais sobre o TDAH. O que verdadeiramente me surpreendeu foi a capacidade do Autor de transmitir conceitos por demais complexos e técnicos de uma forma tão simples e humana. Sem sombra de dúvidas, a abordagem pessoal desse livro é um diferencial, infelizmente, tão pouco visto no mercado.Mesmo tendo conhecido o Yuri há algum tempo, dividido com ele o palco em algumas palestras online, participado de seu programa de mentoria aos pais com �lhos TDAH como convidado, foi uma grata surpresa conhecer um pouco mais de toda a sua história revelada nesta obra. Cheia de aventuras desde o diagnóstico, a vida do Yuri se mostra um verdadeiro farol irradiando sabedoria e conhecimento nesse mundo de desinformação que vivemos. Além disto, revela o que já sabemos há anos: o TDAH persiste ao longo da vida e leva ao adulto problemas que começaram na sua infância e podem continuar assombrando-o. Seu livro dá oportunidade a todos de conhecer as duas faces da moeda do TDAH: o potencial da pessoa e de como ela pode ser prejudicada vertiginosamente pelo não tratamento do transtorno. Potencial virando prejuízo, promessa se tornando decepção e momentos constantes de baixa autoestima. Ele mostra que, como tudo na vida, muitos caminhos podem ser modi�cados para o bem caso se tome a decisão certa: aprender a lidar com nossas di�culdades e reduzir o impacto daquilo que muitas vezes não controlamos com medicação, orientações especializadas e meios de facilitação e inclusão transdisciplinares. Nada melhor para isto o fato dele ser um “case”, ou seja, alguém que vive o TDAH na “pele”, o que o faz conhecer todo o impacto que o transtorno gera nos sentimentos e emoções todos os dias. Não preciso anotar aqui todos os predicados do Autor. Vocês poderão conferir ao longo de toda a obra. Se vocês me pedissem um único conselho, eu diria apenas: leia este livro! Praticamente tudo que você precisa saber sobre o TDAH está a algumas páginas de distância. Boa leitura! Dr. Clay Brites Neurologista infantil, doutor em Ciências Médicas/Neurologia pela UNICAMP, cofundador do Instituto Neurosaber e autor do livro “Como lidar com mentes a mil por hora” (Gente, 2021). Introdução Eu gostaria de iniciar dizendo que sempre fui alguém que está sempre sonhando em alcançar seus objetivos e em progredir. Eu sou muito grato por tudo que tenho, porém estou insatisfeito, penso que consigo realizar sonhos maiores, voar mais alto e me considero uma pessoa ambiciosa. Desde pequeno eu sofria certa dualidade ao pensar que a vida tentava me dar provas e sinais de que eu não chegaria a lugar nenhum e, ao mesmo tempo, eu sempre sonhava que um dia iria superar todos esses desa�os quase como em um passe de “mágica”. Nos meus momentos mais difíceis, quando era criança, eu imaginava o Yuri adulto, o qual estaria independente, casado, feliz e morando em uma casa confortável, porém nunca consegui visualizar como chegaria nesse momento. A minha resiliência me mostrou com o tempo que sou capaz de lutar pelo que quero sempre mudando o meu caminho, procurando sempre o melhor para mim. Fui muito criticado pela minha inconstância, mas foi exatamente isso que me fez chegar aonde estou hoje. Então a minha insatisfação contínua e minha resiliência foram os fatores que me �zeram ser quem eu sou. Aqui falarei sobre um assunto muito importante na minha vida: o meu transtorno. Sofro do Transtorno de Dé�cit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, em que os primeiros sintomas apareceram ainda bem jovem, mas começaram a ser preocupantes na época da alfabetização. Eu contarei várias etapas da minha vida com o TDAH: o sofrimento, as dúvidas, a incompreensão e, sendo a parte mais incrível da história, a minha resiliência ao enfrentar todos esses problemas ocasionados por ele. Eu sou o resultado de tudo que vivi! A minha empresa, “TDAH Descomplicado”, é voltada para a Psicologia. Sou formado em Administração e o meu emprego atual é no Banco do Brasil, na área de tecnologia. Aprendi a programar através de cursos e livros, sozinho, aos quinze anos, pensando que seria um engenheiro no futuro, pois achava que aquilo era o que eu queria. Mas a vida deu várias voltas e hoje estou muito satisfeito com o caminho que trilhei. Então, nessa nova experiência em que me encontro, irei abordar a minha própria jornada de vida com o TDAH. Esta é uma autobiogra�a com exemplos importantes do que você deve ou não fazer, e são todos baseados na minha história com o transtorno. Aqui abordarei momentos pessoais e darei dicas para o dia a dia! Não será só mais um livro técnico, mas sim um apanhado de momentos sinceros sobre como é crescer e amadurecer com o TDAH. As melhores histórias e os melhores exemplos que tiveram mais engajamento até hoje, nesses oito anos de TDAH Descomplicado, você achará aqui. Esse é um Manual de Vida para Todo o TDAH, principalmente para os pais que desejam e querem ajudar seus �lhos a crescerem felizes, saudáveis e realizando seus sonhos. Esse Manual é um registro valioso, é uma bússola, um passo a passo, um pergaminho, uma enciclopédia para o que os pais devem fazer ou não com seus �lhos para que eles sejam vitoriosos. Vocês irão aprender de uma maneira lúdica, rica e com histórias para que saibam o que podem evitar, e muitas ferramentas para poderem construir o melhor caminho a seguir. Vamos ter uma conversa de TDAH para TDAH? O pai ou a mãe, provavelmente, identi�carão os seus �lhos em minhas histórias, mas as explicações sobre tudo que estudei e aprendi e minha experiência particular com o mundo do TDAH serão para quem cuida dos quem tem ou aos adultos que vivem com o transtorno. Podemos começar com a expectativa dos pais, pois quando os �lhos nascem, eles fazem muita festa, começam com os planos e sonham com o futuro deles: “Meu �lho vai ser o próximo Einstein ou o próximo Ayrton Senna”. Isso cria uma atmosfera, e uma expectativa até saudável em torno deles. Só que os �lhos, recém-chegados ao mundo, vão crescendo, geralmente muito ativos, se destacam nas brincadeiras, muito felizes, até chegarem à fase escolar, principalmente na alfabetização. Nessa fase alguns enxergam o novo desa�o com facilidade, mas aquela criança com TDAH enfrenta di�culdades que não existiam antes. Ela começa a lidar diariamente com aquilo que não é tão legal quanto estava sendo antes porque, até então, ela estava na creche, fazendo pinturas, trabalhos manuais, aprendendo a escrever o próprio nome. Quando ela chega à parte da alfabetização tem que lidar com tarefas, como estudar, aprender e decorar. Em geral, a criança com o TDAH começa a enfrentar di�culdades típicas do transtorno, pois ao se deparar com atividades mentalmente desgastantes, repetitivas e pouco atrativas devido à baixa produção de dopamina e serotonina (tema abordado mais à frente), elas necessitam fazer um esforço mental muito maior para terem o mesmo nível de engajamento e concentração que os demais. O senso de prioridade é prejudicado por conta do TDAH. Com isso, a criança para de copiar o que está escrito no quadro para �car desenhando no caderno ou não continua os deveres por causa de um grande desgaste mental. Como o cérebro do ser humano está programado historicamente para economizar energia, esse desgaste atrapalha muito a vida de quem tem o transtorno, como no exemplo a seguir: a criança com o TDAH deixa de fazer o dever de casa no horário indicado, começando somente no �nal da tarde quando os pais chegam em casa e acabam se estressando por conta desse atraso na realização da tarefa. Mas brigar com a criança não adianta; dar “chinelada” e botar de castigo também não. Isso �ca longe de ser o mais importante para quem tem TDAH: facilitar o processo. A criança não precisa de uma educação rígida ou de uma presença �rme dos pais, que reclamam, inclusive dizendo: “Isso é falta de limites”. Quem tem TDAH não precisa de limites, pois eles têm senso do que é certo ou errado, assim como qualquer criança. Mesmo sendo um pouco imaturos, eles têm esse senso. Então, quando tudo começa a dar errado e os coleguinhas começam a tirar notas maiores do que a dos �lhos deles, os pais ainda pensam: “Ele é tão inteligente, ele joga videogame tão bem, corre com os amigos, é tão ativo. Eu não compreendo, por que não está se desenvolvendo?”, e assim começam as frustrações. Nesse momento eu preciso lembrarque é muito importante que as atitudes e a forma com que os pais encaram e lidam com o TDAH tem que partir de um olhar de que não está relacionado aos pais; a conversa é sobre os �lhos! Há a necessidade de procurar especialistas para poder ser feito um diagnóstico, geralmente, na fase da alfabetização, e que será indicado, provavelmente, pela escola. Após chegarem aos pro�ssionais, os pais encontram-se frustrados após o diagnóstico e muitos entram em negação, porém isso pode estar muito ligado ao ego: “Meu �lho não tem transtorno, só precisamos ser mais rígidos com ele”. Esse pensamento não irá ajudar. Mas nessa jornada existe tratamento e esse livro, cujo intuito é exatamente esse, irá auxiliar o seu �lho a trilhar um caminho para uma vida de qualidade. Pois bem, quanto antes os pais entenderem que não se trata do que eles querem, esperam e desejam para os �lhos, eles conseguirão compreender e �carão atentos e presentes a uma conversa importante: é necessário fazer algo. Sendo assim, eles poderão ter um tratamento adequado, além de aproximarem-se do que os pais tanto almejaram lá atrás, quando os �lhos nasceram e como desejavam que eles fossem. Quanto antes os pais aceitarem que o transtorno existe, mas que tem tratamento e condução adequada, será possível chegar mais rápido à conclusão que a intervenção correta é necessária. O TDAH não se trata de algo que limita a pessoa; ele existe, mas pode ser conduzido, mais do que tratado. A criança, então, se quiser, poderá ser o próximo Ayrton Senna, Einstein ou o próximo Michael Phelps, pois o céu será o limite. TDAH na primeira infância O TDAH apresenta um atraso em relação às crianças neurotípicas (as que não apresentam di�culdades de aprendizado). Muitos autores defendem que este atraso pode chegar de três a quatro anos de diferença. Ou seja, uma criança de oito anos tem a mentalidade de seis, talvez cinco anos. A boa notícia é que isso tende a normalizar no início da fase adulta; por volta de vinte e três anos o adulto equipara essa diferença. O fato da pessoa com TDAH ser “mentalmente atrasado na sua maturação” mostra a necessidade de que os pais estejam atentos às más companhias na pré-adolescência, principalmente porque se o transtorno não for conduzido corretamente, o adolescente com o transtorno pode se rebaixar a algumas situações simplesmente para ser aceito entre esses jovens. A história a seguir eu escolhi, pois acho que será de grande exemplo para muitos assuntos a serem abordados. Foi um momento em que pude observar como o TDAH acontece, e como pode ser visto também, em seus �lhos, mesmo ainda pequenos: “Quando eu ainda estava na creche, lembro que quando brincávamos de armas de “mentirinha” e tinha só uma de plástico, eu queria que �casse comigo e convencia a todos os colegas que brincar imitando a arma com a mão era melhor, sempre chamando a atenção para mim. Um dia, a diretora do lugar, por quem eu sentia muito carinho, eu que se chamava Sarita, estava sentada no chão do espaço coletivo das crianças; ela me chamou de lado e falou para eu me sentar e conversar com ela. Fiquei lá por volta de quinze minutos, até que após eu pedir muito para voltar a brincar com as outras crianças, ela deixou. Percebi, ainda na época da creche, que eu estava muito agitado, mas para as pessoas que trabalhavam lá eu estava, na verdade, atrapalhando a brincadeira”. Como podemos ver, essa situação passou-se na minha infância. É incrível e curioso como os sinais estão sempre aí e como é necessário esse olhar sobre os �lhos, pois uma observação de um possível transtorno de aprendizado logo diagnosticado pode mudar o curso da vida do seu �lho. Tenham atenção aos sinais Toda criança com TDAH busca fugas, principalmente, quando é mentalmente exaustivo, que desgasta a cabeça ao fazer. Uma criança neurotípica sente cansaço ao fazer a tarefa e copiar do quadro em sala de aula, mas com TDAH, para manter um nível de atenção elevado, ela faz um esforço três vezes maior e isso cansa! Ela vai levantar-se, andar pela sala, procrastinar, vai apontar o lápis mesmo já apontado e vai querer ir ao banheiro e fugir. Tenham muito cuidado como orientam seus �lhos, pois eles vão seguir aquela referência literalmente ensinada. Então se a mãe fala em um momento de raiva ou não pensando direito: “Xinga sua professora, bate no seu colega, faz xixi em sala de aula”, isso poderá ter um desfecho bem complicado. Então não diga isso, aja como adulto, converse com seu �lho, ainda mais se ele tiver TDAH e um atraso natural na maturidade, pois ele vai fazer o que orientaram. É reduzida a capacidade de discernir entre um comentário sério e uma brincadeira, assim como trabalhar com regras sociais. Vários autores falam sobre isso e Russel A. Barkley é um deles. As regras sociais signi�cam não bagunçar a casa dos outros, não pegar doces antes de cantarem parabéns nas festas, não colocar o dedo no bolo na festa do colega, não pular na piscina sem autorização, entre outros exemplos. São momentos em que pessoas falam que algo é obvio, mas não é tão obvio assim. Os �lhos com TDAH serão os que farão tudo isso sem perceber que seria algo errado porque não chega a ser um comportamento de uma criança com TOD (Transtorno Opositor Desa�ador), é o nível de “noção” (percepção de certo e errado) que é reduzido mesmo. Então a chance de ele fazer um comentário equivocado aumenta. Repetir na frente dos amigos dos pais o “palavrão” que aprendeu em casa pode exempli�car isso, pois para a criança é normal o que os pais mostram, explicam ou fazem. Os pais não avisam que falar dessa forma é errado, pois deduzem que ele saiba disso, só que ele imita igual um papagaio, sem �ltro. Aos pais, não somos perfeitos, mas dar explicações básicas aos �lhos, por exemplo, quando forem na casa dos outros é imprescindível para a comunicação. A higiene pessoal seria outro assunto que parece ser simples, mas não é, porque geralmente envolve alguns processos. O TDAH não se dá bem com esses processos porque são mentalmente desgastantes. Então existe muita di�culdade com a manutenção da higiene, tornando uma responsabilidade dos pais mostrarem que é importante se cuidar desde cedo. As crianças neurotípicas conseguem com mais facilidade entender essa importância. “Eu me recordo que em 1992 fui com o colégio para um hotel- fazenda. Éramos quinze alunos e, ilustrando o que disse anteriormente, eu não escovei os dentes a viagem toda. A minha mãe não me disse que eu deveria escovar, ela só arrumou as coisas para eu levar. Ao chegar em casa, ela desfez a mochila e percebeu que não foi tocada a pasta de dentes”. É necessário comunicar e cobrar que sejam feitas tarefas para a higiene, também para começarem a entender que precisam seguir o que os pais pedem, porque o que é obvio para os pais não é óbvio para uma criança. Voltando ao assunto dos sinais, na história a seguir eu exempli�co como, mesmo sendo muito jovem, o TDAH se manifesta, e como pode ser possível perceber seus sintomas: “Quando comecei o Jardim Dois, eu fui para um colégio católico de Brasília, o Marista, e era bem maior que a creche onde eu estava antes. Eles impunham muitas regras, o que é natural quando você começa a crescer. Então tinha momentos para lanchar, para rezar, para praticamente tudo; foi nesse colégio que comecei a alfabetização. Eu tive que aprender a ler e escrever e achava tudo muito chato. Naquela época eu não entendia a importância das obrigações e quando não gostava, me recusava a fazer e ponto. Eu tinha di�culdade em copiar as coisas do quadro para o caderno. Por exemplo, tinha que escrever o nome do colégio, a data, a matéria, copiar o texto do quadro e preencher as respostas. Só que eu não conseguia fazer isso, eu sempre parava no cabeçalho. Por quê? Era chato, penoso, não conseguia fazer e não continuava, �cava só conversando, tumultuando a aula. Eu também tinha mania de contar piadas, e acho que eram piadas muito boas porque a turma gargalhava quando contava. Em suma, eu não fazia o necessário, tumultuava as aulas daprofessora e isso começou a me causar problemas. Eu gostava muito dessa professora, pois ela era muito carinhosa com os alunos, mas reclamava muito de mim por ser muito bagunceiro e por tudo que fazia em sala de aula. Eu nunca fui agressivo ou grosseiro com ninguém e lembro que era um menino legal, carinhoso, mas que acabava interferindo no limite das outras pessoas, bagunçando a aula da professora; Gisele era o nome dela. Eu estava na turma G quando, bagunçando a aula dela, contei uma piada que foi sensacional pela reação dos alunos. Eu estava sentado na frente e ela olhou para mim com cara de brava porque eu tinha atrapalhado mais uma vez a sua aula. Quando ela saiu da sala, sem falar nada, �quei na dúvida do que tinha feito, mas com certeza foi alguma besteira. Na sala, em um lado era a porta de entrada e saída, e no outro era o banheiro. Eu lembro nitidamente que corri em direção ao banheiro e me escondi. A professora chamou a Moema, outra professora na época e que era bem mais velha que a Gisele. Ela adentrou a sala e foi exatamente na direção do banheiro, onde eu me escondia. A porta estava entreaberta e eu olhava pela fresta entre a porta e a parede. Eu pensei que talvez ela não pudesse me ver, com a minha ingenuidade infantil. Em pé, de costas para porta, a professora Moema entrou me virando 190 graus de forma abrupta e me sacudiu; lembro que não me machucou, mas falava como se brigasse com um cachorro, “gritando sem gritar”, perguntando por que eu fazia aquilo e por que eu não me comportava. Foram palavras pesadas e ditas de forma grosseira. Eu entrei em pânico, comecei a chorar e gritar desesperadamente. Sinto que aquele momento foi uma violência psicológica muito pesada e que me deixou abalado até pouco tempo atrás, já adulto. Ao sair do banheiro, fui atrás dela, chorando absurdamente, com a classe toda olhando para mim (todos estavam estarrecidos), até a professora Gisele �cou pasma, e todos �caram parados sem dizer nada. A professora que me sacudiu disse para eu arrumar minha mochila, pegar meu caderno e meu material e acompanhá-la para fora em direção à sala na qual ela dava aula. Eu lutava contra as lágrimas, pois não queria ser exposto no meio do corredor do colégio. Ao chegar na porta da nova sala, a professora avisou a turma, sem ter me comunicado ou falado com meus pais, que eu era o novo aluno e para darem as boas-vindas a mim. Claro, tentei não deixar as lágrimas descerem, que já cismavam em brotar nos meus olhos assustados, e dei aquele sorriso amarelo na tentativa de responder às palavras amigas dos alunos. Juro que não se passaram mais de dez minutos que isso tudo aconteceu. Fiquei sentado no meio daquela situação estranha, com alunos estranhos e sem entender nada, mas re�etindo, principalmente, sobre eu ter sido capaz de causar tanta ira nas professoras. Ao chegar em casa, obviamente não contei para minha mãe porque eu iria ser repreendido novamente, a�nal eu sou um criminoso mirim, e sou tão errado que fui expulso de sala aos seis anos de idade. No dia seguinte, ao chegar ao colégio, as crianças se sentavam em �la na frente da professora e aguardavam para entrar nas salas. Cheguei quase atrasado, sentei-me na �la da minha turma, a da professora Gisele, porque na minha cabeça ingênua eu não tinha, até então, compreendido tudo que aconteceu. Mas ao me sentar no �m da �la, a Gisele, que estava lá na frente, fez uma cara horrível e reclamou alto para todos ouvirem que ela não me queria mais em sua turma. Levantei-me envergonhado e sentei-me na �la da professora Moema. Em sala de aula, eu simplesmente queria sair de lá, mas nem ao banheiro ela me deixava ir. Eu contei isso para minha mãe e ela, com seu jeitão, disse: ‘Da próxima vez, faz xixi nas calças’. No dia seguinte no �nal da aula, a Moema não havia me deixado ir ao banheiro, então eu urinei sentado na minha cadeira. Ninguém percebeu, nem a professora �cou sabendo que havia uma poça embaixo de onde eu estava sentado, mas simplesmente �z o que me foi dito”. Eu achei que essa fase da minha vida seria muito importante, pois podemos observar vários exemplos: como as crianças com TDAH se portam, como são tratadas na sociedade e a importância da comunicação assertiva em casa, principalmente. Os pais VS as mães falam a mesma língua? Eu tenho quase certeza de que este livro está sendo lido por uma mãe, pois, segundo meu site, estatisticamente, 86% dos seguidores são mulheres e minha mentoria online 98% são mães e 2% são pais. É triste revelar uma situação em que as mães estão preocupadas e a maioria dos pais, aparentemente, não. Recebo nas minhas redes sociais muitas reclamações dizendo que os maridos não ouvem, não entendem e não se interessam, deixando as mães arrasadas, sobrecarregadas, além da preocupação com a saúde dos �lhos e sentindo-se completamente sozinhas. Tenho um exemplo meu: meus pais são separados desde que eu era um bebê, com o passar dos anos, pela distância meu pai �cou mais ausente e alheio à minha vida escolar. Ele perguntava como eu estava e eu respondia que estava tudo bem, inclusive, em muitas ocasiões acabava por omitir meus problemas no colégio para que ele não me criticasse, por ele não estar presente, criticar o que não sabia e por não compreender as minhas limitações (que na época nem mesmo eu compreendia). Cada um com suas razões, mas a minha mãe que foi me acompanhando nessa jornada com o TDAH, e eu a agradeço muito por isso. Eu passava alguns �ns de semana com meu pai e uma vez eu tinha uma prova de história em uma segunda-feira para fazer. Levei meu material e meu pai, junto da minha madrasta, me auxiliou no estudo e, por curiosidade, foi um momento tão diferente e inusitado que fez com que eu conseguisse focar e estudar umas duas ou três horas com ele, e foi o su�ciente para eu tirar nove na prova no dia seguinte. O curioso era que: “Eu levava muito em consideração os conselhos que meu pai me dava. Por mais que eu convivesse com a minha mãe e tenha sido ela que tivesse me dado tudo, eu respeitava mais a opinião do meu pai, enxergando-o mais como uma autoridade. Foram poucos conselhos que a minha mãe me deu, do tipo fazer algo de uma forma ou me comportar de modo diferente. O inusitado é que a minha mãe é a parte TDAH da família. De forma alguma seria uma questão de amar um mais que o outro, mas talvez ela não seja a pessoa mais indicada para falar certas coisas ou lidar com certas situações. Ela fazia a parte mais difícil, tinha que disciplinar e chamar a atenção, pois era ela que lidava comigo no dia a dia. Talvez minha história teria sido diferente se meu pai tivesse tido um papel mais ativo em minha vida; a minha mãe não teria tido que ser a disciplinadora o tempo todo e eu talvez tivesse um pensamento diferente com relação ao meu pai, menos de adoração e mais realista, convivendo com ele, e ele convivendo comigo!”. Após meu relato acredito que a importância do alinhamento parental viria em momentos como: a mãe tenta orientar o �lho nos estudos e ele, de uma forma instintiva, não enxerga a mãe como uma pessoa capaz de orientar, então ele não vai acatar as ordens dadas. Se o pai dá as mesmas ordens ele acata, pois vê em seu pai uma �gura de autoridade. Isso é muito comum, mas algumas mães se desesperam alegando que os �lhos não ouvem o que elas têm a dizer e que já �zeram de tudo, mas acredito que tudo não foi feito e esse desalinho acontece por conta do descompasso entre os pais. No meu caso, senti a falta de participação do meu pai na minha vida e no meu tratamento, podendo ser comparado com 1% de participação dele e 99% da minha mãe, o que me causou diversos problemas. Eu recebi recentemente um áudio em que uma mãe do Programa Meu TDAH conta que sua �lha ameaçou, no dia anterior, tirar a própria vida em uma forma de chantagear o pai, pois ele havia con�scado seu celular. Ela tinha ganhado o aparelho há três meses e �cou mergulhada em um vício absurdo. Preciso explicar rapidamente o porquê desse comportamento: o ser humano produz, dentre outros hormônios, a dopamina,um neurotransmissor em nosso cérebro. Em determinadas situações o organismo produz mais dopamina, a quantidade que está faltando no momento. Explicarei em “litros”: quando não acontece algo estimulante na vida, a dopamina �ca por volta de “um litro”. Quando estimulado, seja jogando videogame, assistindo uma novidade na TV ou qualquer coisa excitante, a dopamina sobe para “três litros” no cérebro. Nessa mesma situação, quem tem TDAH tem apenas “trezentos ml”, produzindo naturalmente muito menos. Então em situações e momentos desinteressantes é mais difícil focar e manter a atenção sustentada. Agora, ao encontrar-se em um momento excitante, a pessoa com o TDAH consegue ter aqueles “três litros” somente por algum tempo. É como se subisse, de repente, ao cérebro essa sensação inusitada e prazerosa, pois ele está oxigenado e sendo alimentado pelo neurotransmissor, a dopamina. Signi�ca que toda e qualquer situação ou substância que cause felicidade e sensação de novidade faz com que as pessoas com o TDAH �quem focadas, atentas e antenadas por um determinado período, e isso tem maior chance de viciá-las mais do que uma pessoa neurotípica, porque o corpo carece dessas sensações. Ou seja, celular com jogos, videogames, computador, vídeos, açúcar, drogas lícitas e ilícitas, todos são altamente viciantes e ainda mais para o TDAH, tendo um risco ainda maior de tornarem-se viciados em tudo isso. Então a �lha dessa aluna retratada anteriormente ganhou esse celular, mas com um aplicativo que regula o tempo gasto no aparelho remotamente, sendo monitorado pelo celular da mãe. Quando o aparelho da mãe quebrou, a �lha �cou com acesso irrestrito e viciando-se absurdamente. Nem fazia mais os deveres de casa, pois estava realmente mergulhada naquilo. O pai, das poucas vezes que interveio, percebendo a �lha obcecada pelo celular enquanto a mãe viajava, con�scou o aparelho da menina alegando que ela não estava estudando nem fazendo mais nada. Nisso, a �lha, desesperada, entrou em contato com a mãe por um aplicativo online de mensagem. Nessa conversa a menina disse que iria se matar por conta do pai ter con�scado seu celular, começando um processo, basicamente, de abstinência. A mãe acabou conseguindo contornar a conversa com a �lha. Como a minha aluna comentou esse fato no grupo das mães do Programa Meu TDAH em uma rede social, eu dei uma sugestão, assim como a nossa psicóloga. A aluna falou com o marido e a partir dessas dicas, ele �cou muito interessado sobre o TDAH e o programa. A mãe está há cinco ou seis meses como aluna compartilhando com o marido informações do transtorno e ele começou a ver em si o comportamento da �lha. Ele começou a se interessar mais, claro que sem comparar com o comprometimento da mãe no tratamento da �lha. Ao recordar do meu passado, logo me lembrei dessa situação: “A minha mãe chamou o meu pai para uma reunião que teria no colégio sobre meu comportamento. Na reunião, as professoras do colégio me criticaram duramente e meu pai, sem saber o que realmente acontecia, como não morava conosco, acabou �cando do lado delas e também criticou meu comportamento! E ainda culpou minha mãe por isso. Foi um momento péssimo e minha mãe se arrependeu na hora de tê-lo chamado. Anos se passaram e houve um momento semelhante a esse: eu estava no começo da adolescência e fui convidado a me retirar da escola em que estudava. Foi feita uma reunião e meu pai, desatualizado sobre minha vida, falou para os responsáveis pelo colégio nessa reunião que tudo estava bem e que minha mãe disse a ele que não havia problema algum a ser tratado. Os coordenadores do colégio estavam com a minha �cha em mãos e ditaram para ele tudo que eu havia feito em detalhes. Ao �nal da reunião, ele percebeu que, realmente, tinha algo errado. Após dois dias, em outra reunião, meu pai, sem entendermos o porquê, se comprometeu que eu iria melhorar e prometeu que eu me comportaria melhor. Três ou quatro dias depois, em uma nova reunião, eu acabei me comprometendo que iria mudar meu comportamento também, sabendo que estaria prometendo algo impossível e sem saber a dimensão dessa impossibilidade. No �nal eu fui readmitido no colégio, continuando a fazer o segundo e o terceiro anos com as mesmas di�culdades de antes. O meu pai foi realmente convincente e continuou sem entender o que acontecia comigo”. Os pais separados têm que falar a mesma língua! Eles não podem culpar as crianças por suas frustrações ou pelo rompimento do casamento, e devem ser presentes no diagnóstico do �lho com TDAH, porque quanto mais cedo os pais souberem que não é falta de briga ou de botar regras, mas de dar acompanhamento ao tratamento do �lho, ele terá a oportunidade de ter uma vida melhor. Repito: com o tratamento e seu �lho sendo conduzido, ele poderá ser o que quiser! Poderá ser o próximo Ayrton Senna, Michael Phelps ou Yuri Maia! Hoje eu tenho meu próprio Programa Meu TDAH, tenho um livro publicado, que está em suas mãos nesse momento, ministro palestras sobre TDAH, tenho uma vida de qualidade, ou seja, sim, é possível! O seu �lho pode facilmente vencer na vida, mas isso tudo depende do seu entendimento em primeiro lugar. Quanto mais os pais estiverem alinhados nesse propósito, mais rápido será o desenvolvimento e a superação dos problemas. O seu �lho tem baixa tolerância à frustração? A minha autoimagem sempre foi confusa, já que gostava de ser o centro das atenções. Eu fazia piadas e acabavam me rotulando como uma pessoa esquisita. “O Yuri é para você rir, não se relacionar”. A criança com TDAH tem esse comportamento muito claro durante a juventude. É muito provável que seu �lho esteja passando por momentos difíceis, confusos e tendo problemas com a autoimagem dele. Ter a necessidade de chamar atenção e fazer piada com tudo parece ser algo normal no jovem com TDAH, mas isso faz parte de algo maior na criança e no adulto com o transtorno. Consequências causadas por tais comportamentos podem seguir pelo resto da vida se não houver um tratamento. Aqui me repito, procurando ajuda de qualidade, com médicos bons, com boas referências e tendo um diagnóstico correto �ca muito mais fácil de melhorar! O Programa Meu TDAH tem alcançado muitos pais. A resposta ao curso e ao rendimento dos �lhos e qualidade de vida para a família toda tem sido fenomenal. Ou seja, com um diagnóstico e com a vontade de melhorar a vida dos �lhos e conduzir o TDAH da forma correta, os pais conseguem perceber uma mudança para melhor! Eu falo aos pais do meu programa para serem amigos dos �lhos, especialmente os com TDAH! Perguntar como eles têm se sentido, como está a vida no colégio, o que tem acontecido, se estão fazendo os deveres com facilidade e sempre orientar. Os �lhos precisam de orientação! Porque eles podem estar tendo as mesmas reações, vivendo os mesmos dramas e di�culdades que vivi. Voltando à história do colégio em que fui destratado pela professora: “A professora Moema na época dava aulas de reforço na casa dela na Asa Sul e eu morava com minha mãe na Asa Norte; ambos são bairros em Brasília. Eu estava tendo di�culdades e minha mãe foi atrás dela: ‘Professora, o Yuri está com di�culdades para acompanhar a matéria, você acha que seria bom ele ter acompanhamento escolar?’, e ela respondeu que sim. A moça que trabalhava para nós me levava até a casa dela toda tarde. Éramos eu e mais três crianças. A Moema �cava na cabeceira da mesa e oferecia algumas coisas para beber e tudo, mas estudar, para mim, em qualquer lugar, era um saco! Eu queria ser o centro das atenções e comecei a ter comportamentos inadequados, chamando atenção dos colegas que estavam lá, o mesmo que acontecia em sala. Um dia, ela encheu quatro copos com refrigerante e serviu um balde cheio de biscoitos. Por conta da bebida, eu, sem pensar, dei um arroto altíssimo e todas as crianças começaram a rir enlouquecidamente. Quando a minha mãe chegou, a professora desceu junto conosco, e eu pensando: ‘me ferrei, vou levar bronca’. Eu entrei no carro e sentei-me no banco de trás, em silêncio. Aprofessora Moema disse: ‘Oi, Cristina, estava precisando falar com você. Eu não quero mais que o Yuri venha. Ele é disperso e hoje arrotou no meio da sala’. Eu esperei o pior, pensando na bronca que eu ia levar. Mas minha mãe, pela primeira vez, adotou outra postura. Ela �cou reticente e somente respondeu que ‘estava tudo bem’. Eu �quei sem entender, pois em outros tempos, tudo que eu fazia ela brigava comigo. Ela entrou no carro e fechou a porta do Chevette branco que tínhamos na época. Eu continuava no banco traseiro, ela na frente em silêncio e seguimos a caminho de casa. Talvez ela tenha perguntado alguma coisa no caminho, mas não brigou. Ela pode ter pensado algo do tipo ‘não vou massacrar meu �lho ainda mais’. Eu não era diagnosticado e muito menos acompanhado por uma psicóloga na época. Assim, seguimos para casa em paz, para variar um pouco meus dias. Ali foi o começo de uma estigmatização que eu criei ao meu redor que durou até a fase adulta. Eu acreditava não merecer: não mereço tirar foto, que me amem, que sorriam nas fotos que tiram comigo, ser benquisto na casa dos outros. Tudo bem, hoje eu sei como era meu comportamento, mas na época eram travessuras que não faziam de mim uma pessoa ruim. A minha leitura daquele ano foi: ‘Eu não deveria nem ter nascido. Olha o que você é capaz de fazer, o que é capaz de destruir, ambientes, humores, salas, disciplinas, eu sou um causador de problemas’”. Lidando com os desejos e as decepções A pessoa com TDAH costuma, geralmente, perder um pouco da crença em si e o otimismo na vida. Ela precisa estar atenta a isso, ser acompanhada, fazer tratamento correto e ter pais que a orientem. Muitas vezes, desde cedo, crianças com TDAH passam por situações difíceis, vexatórias, complicadas e desnecessárias, começando na infância e podendo re�etir na vida adulta. Se os pais não estiverem próximos dos seus �lhos, não perguntarem como eles se sentem, entenderem que tem potencial de ser algo traumático e não se preocuparem em ressigni�car essa situação, será um desastre. O diagnóstico junto a um tratamento bem conduzido pode ser um divisor de águas entre a criança e sua alforria, sua liberdade. A vida não vai poupar seu �lho com TDAH, mas a sua intervenção de maneira sábia em momentos críticos será primordial. Recordo-me de momentos que marcaram muito meu passado, quando não sabíamos da minha condição e simplesmente vivíamos as consequências do TDAH: “Ao lado do parquinho onde �cávamos no recreio havia um bosque, era bem bonito e com um fundo com árvores onde toda a turma tirava fotos. É aquele quadro que tem a criança em uma foto principal em tamanho original e várias fotos menores de 3x4 dos seus colegas de sala com a foto da professora. Eu lembro que pedi para a Gisele, aquela primeira professora, que quando a turma fosse descer que me avisasse, pois a turma dela era a que eu comecei e me sentia mais conectado. Quando chamaram a turma em que eu estava, da professora Moema, ‘a bruxa’, todos �zeram �la para descer e tirar as fotos. Nós seguimos juntos e começamos a descer a escadaria. Enquanto descíamos encontrei com a turma da Gisele subindo a escada! Os meus olhos e minha cabeça foram acompanhando-os, eu percebi que ela também me viu, mas desviou o olhar provavelmente lembrando do que eu tinha pedido a ela. Eu, incrédulo, continuei descendo, acompanhando-a. Resignado, tirei as fotos na turma da professora Moema. Alguns dias depois, a Gisele foi até a minha sala e disse que estavam me chamando. Quando saí ela estava com um pacotinho na mão, era como se fosse um livro, mas não me recordo exatamente o que era, e tinha um lacinho. Eu a vi e dei um sorriso. Ela disse: ‘Oi, Yuri, vem aqui, posso dar-lhe um abraço?’. Ela era doce, diferente da ‘bruxa’ com quem �quei de agosto até o �nal do ano. Eu lamento muito por ter sido ‘expulso’ da sala dela. Eu realmente atrapalhei-a ao ponto de me tornar uma pessoa a quem ela não queria mais ensinar. Veja que ela nunca teve raiva de mim, eu nunca fui ‘respondão’, pois apesar de ter TDAH, não tinha o TOD (Transtorno Opositor Desa�ador) associado, portanto, não tinha problemas com �guras de autoridade e nunca fui grosseiro com ela. Na época eu batia na cintura dela. Ela era bem mais alta que eu e foi quando ela se agachou na minha frente se equilibrando nos pés e me deu um abraço; senti um calor humano que não sentia há muito tempo. Para ser sincero me senti resgatado, o ‘resgate do soldado Yuri’. Eu tive essa exata sensação, o resgate chegou, o helicóptero veio, jogou aquela corda, segurei e fui içado daquele inferno. Finalmente retornarei para a turma que eu tanto gostava, a turma dela. Em frações de segundos, eu tive todas essas sensações e sentimentos. Era na época de �nal de ano, tanto que me lembro que as aulas acabaram alguns dias depois da formatura. Eu retribuí o abraço e respondi: ‘Tia, eu achei que você tinha se esquecido de mim’. Ela abriu um sorriso ao dizer que não havia esquecido, mas foi um pouco efêmero esse momento, pois logo depois ela se levantou e foi para a turma dela. Não era um resgate, era talvez um remorso e continuei onde eu estava, decepcionado”. Em minha percepção, se minha mãe tivesse conversado de forma assertiva comigo, eu teria tido uma qualidade de vida melhor naquela época e até o começo da minha vida adulta, pois, como comentei antes, passei por situações difíceis até meus vinte anos. Eu procurei ajuda e somente quando cheguei à fase adulta é que ressigni�quei momentos traumáticos com auxílio de psicólogos. Aos pais, não deixem acontecer momentos drásticos na vida de seus �lhos para intervir. Eles precisam de seu apoio na hora, ainda mais por seus �lhos com TDAH estarem com frequência em situações embaraçosas, tensas e que marcam para a vida toda. Se não lidarem com os sentimentos causados, isso será torturante para eles, pois não saberão lidar sozinhos e é onde entram os pais. Ao menor sinal de rejeição, exclusão e diferenciação na vida de seus �lhos, vocês tem que intervir! O destino dos seus �lhos está nisso e por mais que achem que é bobagem, que vão esquecer, eles já criaram referenciais na cabeça deles. “Eu não posso ser eu, não posso ser autêntico, pois vou ser rejeitado”. Somente após meus trinta anos fui entender na terapia que fui removido de uma sala onde eu gostava �car; cuja professora era carinhosa e a sala, apesar de eu não ter tido muitos amigos, era muito acolhedora. Fui removido subitamente para uma outra turma com uma professora totalmente sem sentimento de compaixão e que sequer avisou minha mãe sobre o que aconteceu. Assim, programei em minha mente que eu não poderia ser eu, ser sincero, ser autêntico com meus pensamentos e sentimentos se não iria perder as pessoas de que gosto. Eu me policiava quando estava em grupos de amigos, pois achava que seria removido, expulso desse grupo que tanto gostava, sendo retirado, mais uma vez, de um ambiente que gosto. Mesmo sabendo que a vida é assim, às vezes somos preteridos em certos lugares e em outros somos benquistos por todos. Talvez se eu não tivesse passado por todas essas situações, seria mais seguro, não precisaria de tantas sessões de terapia, nem ter tanto medo de falar o que penso, criando muitas di�culdades de convivência e de autopercepção. Isso tudo me enrijeceu, eu comecei a �car resistente e comecei a encarar maus tratos como algo natural, achando que eram coisas normais, sem comunicar aos meus pais e não procurava exigir respeito. Seja na infância ou adolescência, fui deixando seguir o �uxo, que, na minha visão, era trivial. “Querer muito algo para mim seria isso, querer muito ter amigos, ter relacionamentos, mas estava preso em uma gaiola mental de crenças criadas por mim desde a infância”. Quanto mais cedo conseguir lidar com esses pensamentos e sentimentos, principalmente em casa com os pais, será essencial para o desenvolvimento pessoal em todas as áreas da vida! Os pais são �guras de respeito para seus �lhos! Suas palavras de conforto e rea�rmação serão muito mais fortes do quedaquele amigo que critica ou a professora que destrata. Trabalhar essas questões em conjunto com uma boa psicóloga pode ajudar a desconstruir essa percepção de fracasso. Então os pais de �lhos com TDAH têm que ser muito amigos e muito próximos deles. E dá até para a�rmar que a vida deles depende disso. Não faça comparações entre seus �lhos É uma constância na vida do TDAH enjoar das atividades, sendo muito motivado pela novidade e por situações excitantes. Quando deixa de ser novo, o cérebro para de causar as mesmas reações químicas, caindo o interesse de maneira brusca, por conta da dopamina. Enquanto uma pessoa neurotípica �ca levemente desmotivada, no TDAH essa desmotivação aumenta tremendamente. Então desiste do karatê, da natação, da aula de artes, pois tudo parou de ser novidade. O meu pai sempre chamava a minha atenção por desistir de toda atividade que eu começava e ele me comparava muito com meu irmão mais velho. Era algo que me incomodava e me chateava muito, talvez fosse a forma dele de me incentivar, só que infelizmente eu via isso como uma forma de me sentir inferior ao meu irmão. E meu pai me criticava demais, me deixando com uma sensação de fracasso imensa. Aos pais, se compararem um jovem neurotípico com um TDAH, sinceramente, não estão ajudando em nada. A falta de engajamento do TDAH é neuroquímica e fazer essa comparação entre os dois chega a ser cruel, não ajudando em nada e causando o sentimento de inferioridade no jovem com o transtorno. Aos olhos do meu pai, talvez eu seja alguém inferior aos meus irmãos por ter TDAH. Isso prejudica muito o crescimento e desenvolvimento dos �lhos que já passam por momentos tão desa�adores por toda a vida. A falta de informação também prejudica muito esse relacionamento entre pais e �lhos. A comparação dos pais entre seus �lhos pode ser muito negativa, principalmente, na vida do �lho que tem TDAH: Quando eu tinha por volta de onze anos, fazia karatê, estava bem no começo, ainda na faixa branca e o �lho mais velho do meu pai, que era sete anos mais velho que eu, já estava na faixa marrom. Esse meu irmão era um destaque, sempre tirando as melhores notas no colégio, por exemplo. Ele era o orgulho do meu pai; ele mesmo falava isso para todo mundo e, naquela época, tudo que eu queria era ser o orgulho dele também. No exame de faixa no karatê, em um espaço aberto ao público, eu convidei o meu pai para acompanhar o exame. Os alunos tinham que executar alguns golpes e, ao �nal, tinham que apresentar o “kata”, que é uma sequência de golpes em que se diferem a cada nível. Eu estava nervoso com as pessoas em volta e meu pai por perto. Ao �nal, havia seis alunos com duas medalhas de bronze, duas de prata e duas de ouro. Estávamos em �leira. Foram chamando um por um, sendo eu o primeiro, e todos aplaudiram. O professor colocou a medalha de bronze no meu pescoço. Foram chamando e cada um ganhou sua medalha. Naquela altura eu percebi que tinha �cado em último lugar, talvez pelo nervosismo ou pelo meu pai estar na plateia com aquela cara séria, com óculos de sol e braços cruzados, me senti pressionado. Após a cerimônia, fui até ele e eu estava me sentindo muito mal por ter �cado em último. Eu �quei triste porque não fui um destaque, não brilhei naquele dia, apesar de ter passado na troca de faixa. Eu �quei cabisbaixo e meu pai �cou um tanto quanto ou mais do que eu. Ele não falou nada, mas não demonstrava felicidade, o que piorou ainda mais a minha situação, pois ele não exaltou a minha participação como fazia com meu irmão. Se eu pudesse voltar no tempo e trocar de lugar com meu pai e meu �lho estivesse passando por uma situação dessas, com certeza eu teria agido diferente. Precisamos entender que a frustração dos pais não importa perto da dos �lhos. O que eles têm que pensar é: ‘o meu �lho passou de faixa, apesar do TDAH’. Ele poderia ter errado os golpes, mas ele se esforçou o máximo que pôde. A vida é muito cruel com o �lho com TDAH em diversas situações. Eu teria o exaltado: ‘você foi corajoso, demonstrou muita con�ança, talvez se esforçando mais na próxima você consiga uma colocação melhor, mas eu já estou orgulhoso de você. Parabéns, vamos comemorar’. Hoje, eu não me importo se meu pai tem orgulho de mim ou não, sou eu que tenho orgulho de mim. Só que teria feito toda a diferença quando eu era criança, pois, provavelmente, ele deve ter me comparado com o outro �lho, que se destacava sempre. A comparação nunca é uma coisa boa! Exalte o desempenho de seu �lho, exalte seu crescimento como pessoa. Cada um tem seu ritmo e seu jeito de agir”. Não se intimide com o diagnóstico do seu �lho Um diagnóstico ruim ou incompleto pode impactar toda a infância e adolescência de um jovem. Eu descobri que tinha Disgra�a em maio de 2020, em uma LIVE que �z com a minha mãe no dia das mães. Achei, entre as minhas lembranças guardadas, o meu diagnóstico de TDAH e Disgra�a, o que eu nunca na minha vida fui tratado ou conduzido. Na época em que fui diagnosticado, em meados de 1991, fui encaminhado a procurar pro�ssionais que orientaram a minha mãe para que eu �zesse uma bateria de exames. Eu me recordo que questionava a minha mãe qual era o motivo daquilo tudo, exames intimidadores com vários �os e uma máquina barulhenta que imprimia papéis com palavras que eu não compreendia. Hoje em dia, os pais, quando sabem que seus �lhos têm o TDAH, têm a opção de procurar na internet, pesquisar detalhes sobre o transtorno, mas quando minha mãe �cou sabendo, não teve essa ajuda extra e que auxiliaria muito, pois era algo desconhecido ainda e tinha que, somente, con�ar no pro�ssional que me atendia. Também não fazia muito sentido ter o diagnóstico pois era como se fosse: “ok, ele tem TDAH, mas e agora? O que faremos?”. Foi aí que tivemos essa orientação maior da psicóloga que minha mãe havia encontrado para nos guiar. Foi ela que indicou que eu trocasse de colégio por achar que o colégio Marista não estava me fazendo bem e pediu também para que minha mãe não fosse tão dura comigo, pois eu tinha as minhas di�culdades. Nesse momento preciso alertar que tenham atenção ao escolherem os pro�ssionais para atenderem seus �lhos. Procurem médicos que tenham boas referências, que tenham casos de sucesso nos tratamentos e que tenham prestígio na área. Há médicos que não acreditam que o TDAH existe, o que é uma completa ignorância. “Yuri, moro em uma cidade pequena onde não existem casos de TDAH, o que fazer?”. Existem vários médicos que aderiram à prática de consultas online, talvez não para um diagnóstico completo, mas será capaz de direcionar a algum colega que more próximo, por exemplo. Mais uma dica seria procurar auxílio na própria escola, boas instituições disponibilizam listas de médicos e psicólogos para indicar. Não percam tempo para receber um diagnóstico. Hoje, um acompanhamento padrão é feito por um Neurologista bimestral ou semestralmente, um psicólogo e uma outra terapia mais especí�ca, chamada de Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC) para crianças a partir de seis anos. Para exempli�car, eu recebi informações sobre medicação aos vinte e dois anos de idade. Talvez se eu tivesse sido medicado desde novo, teria tido uma qualidade de vida melhor na juventude; me fez muita falta não ter tido um tratamento completo. É importante também passar por outros pro�ssionais na primeira etapa do diagnóstico, sendo necessária uma intervenção interdisciplinar, como ser atendido por um fonoaudiólogo, psicopedagogo e terapeuta ocupacional porque eles vão veri�car alguma falha mecânica, motora, cognitiva, além de questões de Disgra�a, Dislexia e Discalculia. Não signi�ca ter que ser acompanhado por todos esses pro�ssionais para sempre, mas se o jovem com TDAH tiver alguma comorbidade e necessite da intervenção desses especialistas, tudo isso será corrigido. “A coordenadora, que se chamava Joaninha, foi a única pessoa da escola que prestou atenção em mim e viu que eu precisava de ajuda. Ela conversou com minha mãe, comentou sobre o que ela achava e indicou uma psicólogapara começar um acompanhamento mais de perto. Comecei a fazer uma bateria de exames e chegaram à conclusão que eu tinha TDAH. Depois disso, foram tomadas decisões diferentes, começando por mudar de escola. A mesma escola, inclusive, onde vivi os melhores três anos da minha infância, ironicamente”. Essa coordenadora foi, obviamente, muito importante nessa fase da minha vida, mas eu me questionava e também a minha mãe, sobre eu ter tido o diagnóstico. Nesses exames que �z, foi indicado que eu tinha o QI maior do que a média e isso me impressionou, mas de outro modo. Eu pensava e falava para ela que eu não queria ter nascido assim, com QI acima da média, por exemplo; queria ser “normal”, ser neurotípico ou padrão para poder me encaixar melhor. Esse sentimento me acompanhou durante o �nal da infância até boa parte da minha vida adulta, sempre me vendo como alguém diferente, não pertencente, pensando que os outros conseguiam fazer tudo e eu não. A baixa autoestima sempre se fez muito presente na minha adolescência. A recompensa imediata e o hiperfoco O TDAH é um transtorno neurobiológico que atinge certas partes do cérebro. As partes especí�cas como o córtex pré- frontal são áreas que estão sendo pouco estimuladas quimicamente, como se estivesse faltando uma grande quantidade de neurotransmissores, principalmente a dopamina. A presença da dopamina nessas regiões é crucial para que você inicie e persevere numa tarefa desgastante. Tudo que é desinteressante, como estudar, fazer uma redação e ler um livro chato são atividades que necessitam de um esforço maior para executar, pois qualquer outra coisa que chame a atenção distrai. Então é uma mente que tem a constante necessidade de estar estimulada, porque perde o foco com muita facilidade. A situação de hiperfoco para o TDAH é quando naturalmente é produzida dopamina em quantidades su�cientes. O cérebro da pessoa com TDAH produz dopamina assim como de outra neurotípica, porém é necessário estar em situações que sejam prazerosas para que se consiga trabalhar da forma adequada. Um jogo de videogame tem a capacidade de prender a atenção da mente com TDAH porque, em poucos minutos, já tem várias recompensas imediatas. Aparece muita luz, cores, além de ser preciso entender a lógica do jogo e passar de fases. Então são muitas coisas que prendem a atenção, aparecendo muitos estímulos em pouco tempo. Como o cérebro �ca feliz indo em direção ao que ama, ele passa a �car muito estimulado, elevando o nível de dopamina e acaba �cando mergulhado naquela atividade. A mãe fala com o �lho e ele não escuta, pois está “hiperfocado” naquilo que está fazendo. Hiperfoco é quando o TDAH está imerso em uma atividade prazerosa e não consegue parar de jogar para estudar, tem di�culdade em lembrar que a mãe chamou da cozinha para almoçar. “Quando eu estava na primeira série houve um momento muito especí�co em que, por algum motivo, eu estava conseguindo fazer as atividades de sala de aula, mas fazia por ser uma reação de hiperfoco. Eu não estava prestando muita atenção no que a professora falava, mas estava empenhado em continuar. Lembro que um colega que se sentava ao meu lado sentiu-se surpreso por eu estar passando a matéria para o caderno e virou-se para os outros colegas, chamando atenção para o que eu fazia e, depois disso, tornou-se um assunto entre todos. Após eu conseguir copiar toda a matéria, a sala inteira parou, levantaram-se e me aplaudiram, até a própria professora aplaudiu em pé à frente da classe. Eu achei muito engraçado por ser uma situação totalmente inusitada. Mas para ser sincero, eu nunca me esqueci daqueles aplausos”. Na escola, um grande sinal para os professores prestarem atenção no TDAH presente em crianças que tenham o transtorno, seja do tipo hiperativo, combinado ou desatento é a di�culdade em copiar do quadro, pois mexe com o fato de estar focado no que o professor está passando e também por ser uma questão de velocidade. O menino que está passando pela alfabetização já demonstra lentidão por ser tudo muito novo, mas a criança com TDAH, além de ter essa lentidão, também se dispersa. Ela escreve devagar, para e desenha, faz isso continuamente, enquanto a outra criança somente escreve devagar. Então, geralmente, a professora passa algo para copiar em um ritmo acima do que a criança com TDAH consegue acompanhar, ou seja, ela começa a escrever junto dos coleguinhas, mas para na primeira página. Os pais precisam �car de olho nos sinais, pois o TDAH causa muito essa di�culdade. Se a mãe vê essa di�culdade em seu �lho, talvez ele possa ter alguma comorbidade associada, como a Disgra�a. Eu fui diagnosticado com essa comorbidade e, além da di�culdade em escrever coisas desinteressantes, a minha letra era muito ruim. A minha motricidade �na era prejudicada e eu nunca �z tratamento para isso. Ela é ruim até hoje por conta disso, pois nunca �z um tratamento efetivo para corrigir. Eu tive no laudo quando era mais novo, mas nada foi feito. Então deem atenção ao laudo, porque todas as comorbidades tem que ser tratadas. As crianças com TDAH são muito boas em provas orais, são estudiosas, mas desde que tenham alguém ao seu lado incentivando e explicando. Elas conseguem fazer essas provas até o �nal, pois têm essa desenvoltura. Os �lhos com TDAH necessitam estudar em escolas realmente acolhedoras! Não adianta colocar nas escolas grandes, as melhores escolas da cidade, as que preparam para o vestibular. Isso não vai funcionar, pois se a escola for muito rígida, cobrar muito e não dar nenhum tipo de incentivo você rasgará seu dinheiro, já que os jovens com TDAH não absorverão nada daquela escola superpotente. Geralmente essas escolas que são preparatórias, e falo por experiência própria, não são muito inclusivas, mesmo isso sendo constitucionalmente errado. O ideal seria procurar uma escola pequena com até quinze a vinte alunos por turma, onde usam a metodologia Waldorf ou o modelo construtivista. Mas, ainda assim, é claro que algumas escolas com essas metodologias foram péssimas para alunos com TDAH. Não existem regras, mas existe um padrão. Os pais, após o diagnóstico, podem instruir os professores a �carem atentos e positivamente chamar a atenção de seus �lhos com TDAH porque é um tratamento holístico e em conjunto para o melhor aproveitamento do rendimento escolar. Sofrendo bullying por ter TDAH Eu sempre tive problemas para me relacionar. A inadequação social faz com que você tenha menos amigos do que acredita ter. Os amigos não frequentavam a minha casa, não compareciam às minhas festas, e vice-versa. Os pais têm que perceber que isso não é saudável nem normal. Os seres humanos vivem em sociedade, e não ter amizades não faz parte disso. Eu gostava de ter momentos sozinho, mas estar sempre solitário não condiz com uma vida saudável. São sinais que precisam nos deixar em alerta, pois na escola, nos cursos e no esporte faz parte ter amigos, e não ter pode ser um sinal de TDAH. É comum que alguns pais, infelizmente, não se façam presentes na vida dos �lhos, causando uma grande perda, pois perguntando e se interessando com mais frequência na vida deles é possível, por exemplo, detectar se estão sofrendo algum tipo de bullying. Se os pais não criarem um laço de con�ança e sinceridade com os �lhos e se perguntarem somente de vez em quando como os �lhos estão, provavelmente, eles não irão se abrir e contar o que realmente está acontecendo, pois torna-se uma pergunta inédita para eles e não estarão preparados para esse tipo de abordagem. Agora, se perguntarem diariamente o que acontece em suas vidas, eles se sentirão mais seguros. Eu morava com minha mãe na infância, mas não me sentia confortável em con�denciar a ela sobre meu dia a dia. Ela sempre me apoiou muito, mas não tínhamos esse laço de con�ança, então algumas vezes teria sido muito proveitoso para mim e para nossa relação se ela tivesse aberto esse tipo de comunicação entre nós. Para um jovem com TDAH, é difícil admitir que está sofrendo bullying, e é mais difícil aindacontar isso para alguém. Agora, com um canal aberto junto aos pais, essa situação pode ser contornada. E com uma intervenção correta dos pais do jovem, e dos envolvidos, essa situação, o bullying, pode terminar ali e não causar problemas futuros para eles. Acrescentando outro exemplo rápido de como não agir por parte dos pais, quando chegava à minha mãe que eu estava realmente sofrendo bullying ela, infelizmente, retrucava de uma forma negativa. Como quando os meninos da minha rua gritavam comigo, ela gritava de volta sem lidar de forma adulta e assertiva com a situação. Eu tinha por volta de onze anos na época. Ela poderia ter conversado com os pais dos outros meninos e não ter entrado na confusão que tudo aquilo se tornou. Prestem atenção nos seus �lhos com TDAH, pois tem tratamento e pode causar uma grande melhora na vida de todos. “Na primeira série, a minha mãe questionou-me por que eu não levava amigos para casa, como estava a minha amizade no colégio e eu respondia que simplesmente não tinha muitos amigos. Ela chegou a questionar a professora da turma por que eu não os tinha. A professora dirigiu-se à turma fazendo uma enquete, questionando-os quem não era meu amigo. Na hora, sendo sincero, não era bem isso que eu imaginava que aconteceria. Os colegas de classe, um a um, disseram que se consideravam meus amigos e foi quando a professora falou que eu tinha amigos sim, mas não era isso que eu percebia. Em um momento, na hora do recreio, eu não costumava brincar com um grupo �xo de crianças. Sempre tive o hábito, na minha infância inteira, de brincar sozinho. Mas um dia fui incluído para jogar futebol. Eu não tinha muito jeito, mas acabei entrando no jogo; me senti um ‘café com leite’ ali no meio dos meninos. Eu percebia que o goleiro se mexia mais devagar quando eu ia chutar a bola e eu não gostava daquilo, a situação me deixava com raiva. E me deixava muito chateado porque, sejamos sinceros, ninguém gosta de ser tratado diferente, então acabei desistindo do futebol. O que percebi era que eu nunca conseguia me concentrar quando estava no meio de muitas pessoas. Sentia que conversavam entre eles enquanto eu ‘viajava’, disperso, e assim me sentia repreendido de alguma forma por não interagir”. Jovens com TDAH, principalmente os meninos, têm um comportamento mais imaturo do que os outros. Então eu realmente me sentia bem mais atrasado emocionalmente do que meus outros colegas, claro que sem ter a mínima ideia de que eu tinha um transtorno que me fazia ser daquele jeito, me sentindo como um “peixinho fora d’água”. Esse momento da minha vida, contando a minha história para tantas pessoas, me deixa muito orgulhoso. Fico imaginando como está sendo o comportamento, a postura do seu �lho diante do mundo? Os pais não podem esperar que seus �lhos amadureçam, pois isso não vai acontecer antes da hora, mas podem guiá-los e ajudá-los a contornar as di�culdades através da informação e colocá-la em prática. Aproxime-se devagar, a vida já cobra demais O TDAH é geralmente descoberto na fase da alfabetização, como visto anteriormente, no primeiro momento em que a criança é obrigada a fazer coisas que ela não gosta. Todas passam por isso e, inclusive, as neurotípicas lidam bem com essa nova fase: “Bem, é chato, mas todos estão fazendo e a professora está pedindo, então vou fazer também”. A criança com TDAH não sabe lidar com essa situação e começa a criar um devaneio: “Que saco, eu não quero fazer isso, vou �car desenhando no meu caderno”, continuando a fazer o que for mais interessante na hora. Pessoas com TDAH têm uma di�culdade muito particular de alternar entre tarefas. Exempli�cando, elas estão em uma atividade interessante, mas tem outra atividade mais importante para fazer e essa alternância de tarefas é prejudicada neuroquimicamente, sendo uma das grandes di�culdades que o TDAH traz. E, aliado a isso, vem priorizar as tarefas, ou seja, migrar o foco atencional de uma para outra. “Eu tenho três atividades para fazer agora, o que vou fazer primeiro?”. Geralmente, a criança, o adolescente e o adulto com TDAH são grandes procrastinadores porque no hall de tarefas que elas podem fazer naquele momento, por conta do “cérebro TDAH” tendo que liberar um esforço muito maior para manter-se focado, engajado e deliberar tarefas desinteressantes, como uma máquina humana de economizar energia, o próprio instinto de sobrevivência faz com que demos preferência a atividades que nos consome menos energia e sejam menos mentalmente desgastantes e, na imensa maioria das vezes, escolhem atividades como provas, trabalhos ou estudos, pois é tudo que o TDAH não quer mesmo fazer. Há um grande dé�cit de entender a importância das tarefas porque a mente do TDAH foge de qualquer maneira de situações mentalmente desgastantes. Existem muitas crianças que não terminam as provas no colégio. Os alunos têm duas ou três horas para terminarem as avaliações, mas por que os que têm TDAH necessitam de tempo adicional? Simplesmente por eles enrolarem para iniciar, �cam apontando o lápis eternamente, olhando para a parede ou quando alguém passa correndo do lado de fora, eles acabam perdendo um tempo olhando pela porta para saber o que aconteceu, a�nal, fazer isso é confortável e mais fácil do que começar a prova. Eles perdem o foco atencional e até precisam de mais tempo do que já é disposto por ter procrastinado 60% e sobrado 40%, não dando tempo de terminar a avaliação. Ou eles podem até ter conhecimento da matéria, os pais ajudaram a se prepararem na véspera, fazem a prova com atenção, mas �cam tão empolgados com as questões certas que pensam: “Nossa, essa eu acertei! Eu sabia que era essa a resposta!”, ou seja, começam a “viajar” imaginando o momento em que vão contar a boa notícia para os pais, que eles estão sabendo tudo. Só que eles �cam tão distraídos que perdem o foco e na hora de entregar esquecem de ter preenchido o verso da prova. “A vida de quem tem o TDAH requer esforço diário e posso provar usando a minha própria vida como exemplo. Eu tenho uma rotina bem atribulada, pois sou “um TDAH” bastante ativo e para elaborar os capítulos e todas essas palavras do livro, tomei uma decisão e a executei, tirando as ideias da mente e colocando em ação. Sabendo como é desgastante elaborar um livro, tive que me esforçar e agir. Muitas vezes tive que estar em um ambiente diferente que não fosse a minha casa e escolher um dia muito tranquilo. Tive que mudar meu cenário externo para que conseguisse tirar uma força interior maior para continuar com o livro. Essa estratégia funciona para colocar os pensamentos em ordem, ter novas ideias e fazer novos planos”. Como irá fazer com que as tarefas funcionem quando falta o processo de se organizar? Criando um alarme para cada nova tarefa. Um smartphone bem con�gurado e com as agendas bem sincronizadas é um grande aliado para o funcionamento do “cérebro TDAH”, independentemente da idade! Sincronize os alarmes dos �lhos com os dos pais. “Tem que estudar às 14 horas. O alarme tem que tocar no celular dos �lhos, mas tem que tocar no dos pais também, podendo, assim, enviar uma mensagem de texto lembrando-os dos estudos”. A vida com o transtorno pode ser muito complicada, mas me recordei de várias histórias ao elaborar esse livro, como essa a seguir. Hoje sei que é possível contornar essas situações que ocorrem em vários momentos da vida. Fico muito feliz que agora posso ajudar pais e jovens a terem uma vida de qualidade usando o TDAH a favor deles. “Uma vez, em uma prova da primeira série, tirei uma péssima nota. Os colegas de classe começaram a comentar, questionando como eu tinha tirado uma nota tão baixa. Eu sabia que se tivesse feito tudo certo, prestado atenção na aula e estudado, teria tirado uma nota maior. Mas isso mudou a partir do ano seguinte, quando eu fui para a segunda série e comecei a fazer um acompanhamento bem próximo com a psicóloga. As intervenções começaram a ser feitas pela minha mãe por conta deste auxílio que �nalmente chegou. Eu fui transferido para um colégiomenor onde tinha apenas vinte alunos na turma, e foi quando a minha vida começou a mudar. No começo do primeiro mês de aula, eu fazia um esforço para concluir os deveres; eu sabia que seria um problema para mim, mas nas primeiras três semanas consegui. Lembro que a professora dessa escola nova achava que eu era um menino aplicado e então começaram a vir alguns elogios nesse sentido. Mas ela estava me conhecendo e eu pensava que era muito legal estar acontecendo aquilo. Por conta de represálias que eu havia sofrido no passado, tentei o meu máximo continuar aquele esforço para ser visto como um aluno ‘normal’, mas não durou muito tempo. Eu passei a me dispersar durante as tarefas, olhando pela janela e quando percebia a professora já tinha apagado o conteúdo do quadro. Mas nesse momento veio a diferença entre como fui tratado por pessoas que estão interessadas no problema e outras que não estão. Eu nunca fui repreendido nesse novo colégio como fui no colégio anterior. ‘Eu entendo que deveria ter me empenhado nas tarefas e era até o que tinha tentado. Agora minha mãe compreende a di�culdade que eu apresentava’. A partir do segundo mês parei de passar a matéria para o caderno, de prestar atenção e fazia o dever de casa ao meu modo. Eu conseguia ter um rendimento melhor porque o clima não era tão pesado, a professora me cobrava, mas era de outra maneira. Ela tentava nos ensinar de forma didática sem depender tanto do quadro, o que foi muito positivo, pois eu conseguia aprender e entender as tarefas sem ser muito maçante. A professora acabou tendo que sair do colégio e em seu lugar entrou uma senhora, estilo vovó mesmo, bem carinhosa. Mas o jeito que ela passava a tarefa em aula eu não conseguia mais seguir como antes, fazia um esforço, mas cheguei a um limite. Eu recordo que ela, após perceber que eu não conseguia mais passar a matéria para o caderno, com muita calma sentou-se na carteira ao lado e disse: ‘Yuri, por que você não está conseguindo copiar o exercício que está no quadro?’, na hora veio uma angústia, me repreendi pensando que a qualquer momento isso iria acontecer e me traria problema novamente. Mas ela não brigou comigo nem disse que eu estava atrapalhando, apenas con�denciou: ‘A outra professora me disse que você é o aluno mais aplicado da sala’. Eu olhei para ela, sem palavras, pensando que não era possível, que ela era louca e que aquilo não era verdade. Mas parecia já estar acontecendo algo nos ‘bastidores’. Deve ter tido uma conversa por parte da minha mãe e da psicóloga, gerando algumas mudanças na minha vida. Tanto que depois eu comecei a compreender a matéria, tinha as mesmas correções nas provas e passava com boas notas. Também teve um concurso de desenho na sala. Esse colégio era muito legal porque sempre tinham várias feiras, concursos e gincanas, não era só sentar e estudar, o que foi uma das coisas que me �zeram me apaixonar pela escola. O concurso era fazer um desenho temático do ECO١٩٩٢, então eu desenhei o Cristo Redentor e coloquei uma frase sobre o tema e �cou bem bacana. O meu desenho foi escolhido o mais bonito! Mas eu não conseguia acreditar que entre vinte trabalhos o meu seria o melhor. Eu cheguei a achar que seria o ‘café com leite’ novamente. Eu não me lembro dos outros desenhos, mas ninguém contestou o resultado, inclusive muitos dos alunos concordaram e disseram que eu estava mais criativo. Com mais entendimento das minhas limitações e o carinho recebido na nova escola, ainda era muito complicado eu aceitar isso tudo por conta do meu passado escolar. Eu recebi muitas represálias por parte dos adultos, mas foi tão bom para mim essa nova fase que voltei a ter a autenticidade que eu havia perdido. É impressionante como um ambiente escolar acolhedor pode reforçar positivamente a vida da criança” Após essa lembrança, posso acrescentar aqui que toda criança vai para a escola socializar, quem espera que elas estudem são os pais. Como crianças com TDAH são muito ansiosas, elas têm a necessidade de aproximação e de serem aceitas, e quando isso não acontece existe uma quebra de sentido. Por isso que quando existe um problema de estudo, ocorre um problema social por trás, se tornando mais importante ainda os pais estarem sempre atentos. Percebam que quando temos um problema, em tese, pode estar havendo uma falta de inclusão, de integração e de socialização na vida dos seus �lhos. Uma criança em dia com sua vida social, ao chegar do colégio para sua jornada de deveres à tarde, estará menos ansiosa, mais ativa e com mais aproveitamento desse momento, pois saberá que no dia seguinte terá risadas no colégio, estará em paz consigo e com o mundo, porque quando ela está em situação de exclusão isso não acontece. Os pais e professores tem que ter esse olhar mais sensível e atento a esse tipo de problema, trazendo a família e a escola mais próxima do jovem passando por essa situação. A falta de amigos e a depressão na adolescência O primeiro ano no ensino médio foi um ano complicado, pois sofria bullying e estava em uma turma chata, não me encaixava e não tinha amizades. No dia do meu aniversário de dezesseis anos eu não chamei nenhum amigo para comemorar comigo, somente minha família mesmo. Estávamos em um restaurante de fast food e eu não conseguia terminar meu sanduíche de tão triste que me sentia. A minha mãe tomava conta dos meus irmãos e reclamava por eu não estar comendo direito. Foi um momento muito complicado para mim, pela falta de ter amigos esse dia foi terrível. “Nesse ano eu tive a minha primeira crise de depressão”. “Quando �z dezesseis anos eu estava no primeiro ano do ensino médio. Eu havia sido mudado de turmas três vezes no ano anterior, pois esse colégio em que estudava fazia o que posso chamar de ‘ciranda’ com os alunos que não seguiam o padrão, o esperado, então se eles conversavam muito, por exemplo, eles sempre mexiam, tiravam de lugar e mudavam de turmas e por isso acredito ter sido o motivo de ter sido trocado de turmas várias vezes. Eu estava no primeiro ano D quando completava meus dezesseis anos e foi uma época muito solitária para mim, pois tinha poucos amigos próximos, e os que tinha eram amigos de quando eu era pequeno, vizinhos em um prédio que morei vários anos atrás. Na comemoração do meu aniversário a minha mãe tirou o dia para fazer algo comigo. Naquele tempo a minha família era eu, minha mãe e minhas irmãs, que eram crianças, e meu padrasto. Nós decidimos ir ao McDonald’s. Esse aniversário foi muito triste para mim, pois sentia que não havia nada de bom para comemorar. Sentia que estava tudo esquisito, quando era mais novo pelo menos tinha os amigos com que eu brincava, tinha uma festinha e comemorávamos. Eu passei meu aniversário me sentindo solitário pela falta de amigos, pessoas próximas que se importassem comigo também. Foi a data que mais pesou a falta dessas pessoas. A minha mãe chegou a perguntar se eu queria uma festa, e eu até gostava de comemorar, mas para que fazer a festa se ninguém iria? Eu me recordo de estar comendo no McDonald’s calado, quieto na minha e senti pela primeira vez um sentimento real de depressão. A minha mãe, ao perceber que eu estava olhando para o horizonte com um olhar �xo e o pensamento longe, brigou comigo chateada por eu não estar gostando da comemoração em família. Mas muitos pais fazem isso, não seria uma prerrogativa da minha mãe, claro, mas na hora eu não soube o que responder, pois só reforçava em mim os pensamentos derrotistas, o quanto eu não era querido”. Com essa história, vocês podem ver como funciona, pois muitas crianças com TDAH podem passar por uma espécie de transformação entre uma criança alegre e feliz para um adolescente mais triste e melancólico. Provavelmente, ele pode estar passando por uma questão social, o que seria importante aos pais se atentarem e olharem com cuidado e empatia para os �lhos em momentos como esses. Não tiveram comigo a sensibilidade de perguntar: “�lho, estamos percebendo que você está aqui comemorando em família, mas você está triste, estáacontecendo alguma coisa?”. Palavras como essas teriam me ajudado muito. Então para os pais de crianças com TDAH existe a necessidade de ter essa sensibilidade, de ter mais cuidado com momentos assim. E não é só no dia do aniversário que tem que prestar atenção no que está acontecendo de errado, é no dia a dia. Isso deve ser constante: o cuidado, a atenção, a empatia, o acolhimento. Tem que perguntar, interagir, pois �lhos com onze, doze anos socializam, vão na casa de amigos ou recebem visitas em casa, mas se seu �lho não faz isso, tem algo de errado e ele vai sentir e sofrer com isso. Investigue o que está acontecendo, mas sem o olhar crítico de recriminá-lo por estar calado e triste, obviamente. Não con�e na autonomia do jovem com TDAH “Em meados dos meus treze anos, comecei a frequentar um curso de inglês que �cava no meu bairro, em Brasília. Eu tinha duas aulas por semana e na primeira semana eu estava empolgado e, assim como todo TDAH, a novidade que gera dopamina me deixava muito animado e querendo fazer todos os deveres e comparecer a todas as aulas que começavam. Após algumas semanas as aulas não eram mais tão atraentes e muitos menos o livro com os deveres. Por �m, eu não havia feito as tarefas e com isso não tinha estudado para as provas �nais de semestre. Na última prova escrita eu falhei miseravelmente, acho que consegui por volta de cinco pontos, o que não foi de todo ruim. Mas quando cheguei para a última prova oral, aquela que entram dois alunos e a professora faz algumas perguntas com a matéria toda, eu entrei com um colega de classe, e assim começou o teste. Ela fez as questões para cada um de nós por vez; eu e meu colega respondíamos uma diferente. Ele visivelmente sabendo a matéria e eu não sabendo praticamente nada. No �nal das perguntas ela dava um feedback e passava a nota, mas na frente um do outro. Claro que o colega tirou uma nota melhor do que a minha e, ao ditar quanto tirei, a professora nem olhava nos meus olhos, mas para dizer a verdade, nem eu conseguia olhar para ela. Eu saí do curso e dei alguns passos em direção a uma parte menos visível da rua, perto de um contêiner. Eu não aguentei nesse momento, encostei nele e chorei muito, quase desesperadamente. Eu vi um amigo da minha rua e que também estudava nesse curso de inglês passar; ele me viu de longe, mas não parou, provavelmente me viu chorar. Eu chorei engolindo minhas lágrimas assim como meu fracasso”. Qual a lição que eu tiro dessa história? Não con�em nos seus �lhos com TDAH, mesmo eles já tendo treze, quatorze anos. Eles têm a maturidade cerebral mais atrasada, o resultado natural do TDAH é se privar da percepção de futuro, de causa e consequência. Não está estudando? “O trem está vindo pelo trilho, ele vai te acertar”, mas o jovem com TDAH vê esse trem chegando somente quando bate no nariz. Ao matricularem os �lhos no curso de inglês, os acompanhem. “Yuri, sou muito ocupado, não consigo!”. Faça semanalmente, separe um �nal de domingo para verem juntos os deveres. Não con�em quando perguntarem como está o curso e eles responderem que está indo bem, não acreditem. Não estou dizendo para não con�arem em seus �lhos, claro, mas con�arem no que os seus olhos podem ver. Ao pedir que eles mostrem o caderno de deveres não quer dizer que não con�am neles, somente que querem ver se está tudo em ordem. O seu �lho mostrando o caderno todo cheio, com as respostas, os pais que têm noção de inglês podem corrigir alguma coisa na hora, se a conjugação está certa e vendo que está tudo bem. Mas ao ver que as perguntas não estão respondidas podem questionar logo o que está acontecendo, até onde deveria estar preenchido. Outro momento importante, os pais têm que ir na escola de inglês e pedir, se possível, aulas de reforço. Esse reforço é necessário, porque o seu �lho precisa. Nos Estados Unidos, pediatras a�rmam que crianças e adolescentes com TDAH necessitam, pela sua qualidade de vida, educacional e de aprendizado, de acompanhamento pós-aula, serem acompanhados pelos pais, mas se não puderem, que seja por um tutor ou por um professor. Se não tiverem condições �nanceiras para todas as matérias, perceba aquela que o seu �lho esteja com pior rendimento e invista em pelo menos uma vez na semana de acompanhamento, se não houver gratuitamente na escola. O medo da rejeição A rejeição sempre foi muito presente na minha vida escolar, e isso acabou respingando na minha vida pessoal também. Com isso, eu faço terapia há muitos anos e a psicóloga observou o fato de que eu sempre fui escolhido, eu nunca escolhi e isso fazia parte das minhas frustrações do passado, principalmente pela época da infância, histórias já contadas por aqui. Quando eu estava em alguma festa não me aproximava das mulheres. Elas que me olhavam quebrando o gelo, começávamos a nos relacionar e virava um namoro. Em toda a minha vida, eu tive sete namoradas, e um fato bem curioso foi que aconteceu com todas! E também elas que terminavam comigo. Por eu sempre ser escolhido e nunca escolher, fez muita falta para mim na questão de identidade, não saber o que eu queria me causou muito sofrimento e me senti muito confuso em relação a isso tudo. A terapia foi importantíssima para resolver essa questão. “Quando tinha dez para onze anos eu era amigo de duas meninas, a Juliana e a Daniela, uma mais velha e outra mais nova do que eu. Só mais tarde �quei sabendo, mas elas duas �zeram uma aposta que uma teria que me beijar naquela noite. Eu e meus amigos havíamos marcado de ir para o cinema assistir um �lme. Após o cinema, fui deixar a Juliana na casa dela e entrei para tomar água, ou algo assim. Quando eu voltei era como se fosse uma pequena armadilha, fomos para o lado de fora onde tinham algumas árvores. Ela encostou-se na árvore e a beijei rápido e levemente. A Juliana me escolheu para ser seu namorado e foi a primeira vez que fui escolhido por uma namorada. Eu gostaria de me envolver mais com ela, mas como eu fui muito podado por �guras femininas, não tinha coragem e tinha medo, na verdade. Naquela época eu não convivia com meu irmão mais velho, nem com meu pai, então não tinha uma �gura masculina para me dar conselhos e dicas. Talvez se eles soubessem que eu estava namorando poderiam me ajudar nesse sentido. No ano seguinte, havia terminado meu primeiro namoro, passei para outro ano no colégio e os problemas de socialização continuaram. Só que, nessa escola, havia uma menina que também se chamava Juliana, eu havia gostado dela e alguém foi contar isso. Ela era do estilo que �cava no fundo da sala fazendo bagunça, então ela chegou e me disse que estava apaixonada por mim, mas percebi que eram falsas as palavras, só para os colegas rirem de mim. Para ser sincero, ela pode ter até tido um certo interesse, mas vi dessa forma e me apavorei, repetindo para mim mesmo que eu precisava me esconder, pois estavam me sacaneando. Eu tomei aquela ação como bullying e me afastei dela. Passaram-se os anos, quatro anos para ser exato, eu via meus amigos indo para festas, namorando e socializando com as meninas. Uma vez eu vi no mural da escola um convite para uma festa na casa de um dos meninos, ele era rico e toda a turma foi convidada a ir. Eu não fui por não me comportar bem em festas e também pensava: ‘como assim o Yuri vai em festas?’, iam rir de mim. Como se eu só servisse para ir às aulas, fazer os outros rirem e ser motivo de piadas. Poucas vezes fui convidado, mas pensava que se eu não fosse convidado para quase nenhuma festa não deveria ser ‘benquisto’ em lugar nenhum, eu não vou me atrever a ir nesse lugar e acabar �cando com medo”. O medo da rejeição sempre foi algo muito presente e sempre me impediu de dar o primeiro passo por muitos anos da minha vida, tanto que o meu primeiro beijo de verdade ocorreu quando eu tinha dezesseis anos. “Eu estava viajando para a casa dos meus avós em São Luiz do Maranhão. O voo fez uma escala em Belém e nisso entrou uma menina no avião, a Ludmila. Eu estava sentado no meio; ela entrou e sentou-se na poltrona da janela.Eu, de imediato, a achei linda, ela olhava pela janela e eu estava tentando ler a minha revista sobre videogame. Eu não sei o que me deu na hora, mas consegui puxar conversa com ela, que me contou um pouco de sua vida, que estava indo até Salvador. Falei um pouco de mim, mas já estava louco de vontade de beijá-la, sem saber como iniciar. Quando o avião pousou na outra escala, a que eu desceria, eu não aguentei e pedi um beijo para ela. Foi o primeiro beijo de verdade que dei e iniciei uma coisa que nunca havia feito antes. Depois disso criei coragem pensando que eu já sabia como fazer e tudo mais, só que no ano 2000 o medo e a insegurança voltaram, não conseguia dar o segundo passo de novo, tanto que consegui beijar alguém novamente no �nal de 2001! Quando alguém olhava para mim em festas eu desviava o olhar pelo pavor da rejeição”. A resiliência e o TDAH Um dos colégios em que estudei em Brasília era bem tradicional, chamado Leonardo da Vinci. Eu me formei no ensino médio em 2001, mas terminei o terceiro ano com dependência em português. Para que eu não tivesse problema para terminar os estudos e prestar o vestibular, �z um supletivo nas férias e passei na matéria que faltava. Eu me recordo que naquela época já gostava de programar, de computação e, sinceramente, não estava pensando em fazer curso superior. Eu havia tentado fazer o vestibular no meio e no �nal do mesmo ano, mas não passei, assim como no PAS (Programa de Avaliação Seriada). Me faltou orientação parental em todo meu ensino médio. Por exemplo, a minha mãe me inscreveu com muito sacrifício no PAS, sendo o programa de avaliação que o aluno faz no primeiro, segundo e terceiro anos de ensino médio e dependendo da somatória de pontos, o aluno tem acesso direto ao curso escolhido na faculdade. Eu não tive paciência para essa avaliação, até sem compreender sua importância e completei somente metade da prova no meu primeiro ano. Logo na primeira prova eu comecei mal com as minhas chances. A falta de consciência acadêmica, o não pensar no futuro, o estar preso ao presente, no “qual jogo vou jogar depois desse?”. E como o estudo sempre foi um problema para mim, eu não me interessava pelo vestibular e não tinha preocupação com meu futuro acadêmico. Muitos jovens com TDAH podem ter um sentimento semelhante, pois vivem uma situação de ódio com os estudos. Se os pais não souberem conduzir desde a infância: “�lho, se você tem di�culdade não precisa sentir esse sofrimento, vamos abordar de uma forma diferente, eu vou te ajudar, vamos ‘gami�car’ (explicar de uma forma descontraída, como em um jogo)”. Ou seja, se os pais não ajudarem, a criança �ca traumatizada e não cria um senso de responsabilidade para com os estudos, tornando-se somente um momento de perturbar e causar transtornos nas aulas. Posso exempli�car: “Em 2002 eu estava na casa do meu pai tomando um banho de piscina. Então serviram o almoço e enquanto todos comiam meu pai me perguntou sobre o vestibular, eu respondi que estava planejando fazer um curso técnico de programação e que queria mexer com tecnologia, mas meu pai achou um absurdo. O meu irmão também estava nesse dia, e como já falei em outras etapas desse livro, ele sempre foi uma referência, pois havia passado em primeiro no vestibular na época dele. Ele e meu pai �caram indignados com a minha resposta e foi nesse dia, nessa conversa que eles disseram que eu precisava ter ensino superior e ter um bom emprego ou ser dono da sua própria empresa, mas que eu não poderia ter só o ensino médio. Meu irmão também insistiu muito que eu deveria passar na UnB”. Todo o estímulo e garra que eu deveria ter tido dos meus pais, principalmente da minha mãe, por morar com ela no meu período escolar, tive em uma tarde de domingo. Ficou a impressão de que falaram em uma tarde tudo que eu precisava ouvir nos três anos de ensino médio. Após essa conversa eu saí decidido que iria fazer o vestibular. Muitos dos meus amigos já estavam na faculdade e resolvi que entraria também. Então começou o inferno, iniciei o curso pré-vestibular, mas estava gostando daquele ambiente de cursinho. Encontrei alguns dos meus colegas de turma e pensei que seria uma continuação do ensino médio, curtição e bagunça novamente, com a minha imaturidade da “cabeça TDAH”, que é de dois a três anos para baixo, eu tinha dezoito com cabeça de dezesseis anos de idade. Não que dezoito anos seja muito maduro, pois não é, mas eu não tive a consciência que meu colega teve, de entrar no cursinho, estudar por seis meses e passar na faculdade. Eu me recordo que uma tarde, como as turmas tinham por volta de cem alunos, esse colega disse que estava muito barulhento e resolveu trocar para turma do andar de cima, que havia cinquenta alunos. Ele resolveu que seria melhor e foi. Ele decidiu que iria passar e fez. Eu não tinha o menor senso disso, assistia às aulas, fazia mais ou menos os deveres de casa, a minha mãe não mandava mais em mim, ia me virar, pois sabia o que era preciso para mim, o que era mentira, claro, não sabia nada, mas fui levando. Ao fazer os cursinhos de modo muito malfeito, não passar no vestibular e ter que refazer todo o processo com a promessa de que iria ser diferente, passou-se muito tempo. Foram quase três anos, então começou a di�cultar, todos os meus amigos estavam ou em faculdade privada ou na UnB e eu perseverando no cursinho. A paciência do meu pai estava acabando, pois ele pagava a pensão para mim. Em 2002, quando �z dezoito anos, saiu uma portaria que passou a pensão para os �lhos homens de vinte um para dezoito anos, exceto se eu estivesse fazendo um curso superior. Se eu estivesse estudando em qualquer faculdade privada meu pai seria obrigado a pagar pensão. Mas como eu não havia passado, ele não teve que pagar mais, e não pagou. Com muito sacrifício a minha mãe aguentou e pagou mais um semestre de cursinho, mas também não passei nesse semestre nem no seguinte. Mas eu consegui ser �scal de prova em um curso pré-vestibular melhor do que o anterior e iria ganhar uma bolsa de 50%. Então fui até o meu pai e conversei, expliquei que precisaria dessa quantia que faltava e ele disse que pagaria. Eu levei um pouco mais a sério os estudos, entrei em um grupo para estudar melhor a matéria e passei na UnB. Eu passei para administração na Universidade de Brasília. O curso de Engenharia que eu sempre quis, inclusive o meu pai queria eu �zesse, não aconteceu. Não sei se é uma coisa do Yuri ou do TDAH, mas você no fundo sabe da sua capacidade e sabe que é inteligente, porém não consegue fazer aquilo que a sua inteligência necessita que você faça. Estudar, perseverar, ter rotina de estudo. A minha mãe via a minha desorganização, mas ela não sabia como interferir, ajudar, me cobrar. Ela não fazia as intervenções que hoje eu ensino no meu Programa Meu TDAH, na minha empresa TDAH Descomplicado. A resiliência pode vir do medo de não fracassar. Era como se eu pensasse: “poxa, a minha vida inteira eu fracassei, fui uma negação com relação aos estudos, não posso permitir que isso aconteça! Eu tenho que me esforçar e vencer! Vencer é o meu destino, não tenho outra escolha”. Para o TDAH, chega um momento na vida em que ninguém acredita mais em você. Isso é verdade, talvez nem seus pais acreditem, mas você tem que provar para si mesmo que consegue. No fundo, você acredita na sua inteligência, que é capaz! Mesmo que os outros não acreditem, acredite em si! A resiliência no TDAH tem muito a ver com como você encara a sua história, principalmente a sua história de fracassos, pois, geralmente, o TDAH coleciona fracassos. Isso não é algo para ler e �car com raiva de mim, é algo que você tem que constatar, entender, engolir seco e dizer: “beleza, o que eu faço para mudar isso? Por exemplo, ler este livro”. Para os pais que estão lendo este livro, estão se preparando, a�ando as melhores armas para evitar que os �lhos passem por esse sofrimento. Eu precisei passar por isso com uma mãe que tinha boa vontade, mas não tinha nenhum tipo de técnica ou vivência paraque eu desenvolvesse a minha técnica e história para que, assim, eu pudesse passar o mapa da mina para que os �lhos com TDAH não sofram. Então, se eu tivesse que dar uma moral da história para isso seria: “não permita que seu �lho �que nessa roleta-russa, pois ele, por mais que tenha dezoito, dezenove anos, está em cursinhos pré-vestibular, então não é adulto, mas sim imaturo e precisa de orientação. Os pais têm que cobrar sim! Pergunta para o �lho se já fez a lição e vai para o quarto dormir? Não! Vai lá, checa se está feito, abre a apostila junto com ele, vê qual foi a matéria dada no dia, questione o seu �lho o que ele aprendeu dessa matéria, o que os professores ensinaram no dia, ‘vamos lembrar e exercitar a memória’. Tem que ter a participação ativa dos pais, pois isso não acaba aos dezoito anos. E não se preocupe em ter que �car ‘no pé’ dos �lhos, pois tem que �car sim. Você está lidando com alguém com o cérebro um pouco imaturo, e ele vai precisar dessa ajuda. Mas não se preocupe, ele vai sobreviver. Mesmo sem ter tido todo esse tipo de apoio eu sobrevivi e hoje estou casado, moro só, pago minhas contas, tenho uma empresa, tenho dois empregos (um como concursado e outro com uma empresa) e vivo a minha vida, mas o meu TDAH, o meu tratamento, poderia ter sido conduzido de uma melhor forma, isso é fato”. A resiliência é o maior trunfo que eu tenho e qualquer pessoa com TDAH pode ter. A gente pode demorar um pouco mais para fazer as tarefas. Podemos levar um até três anos, mas com resiliência isso vai acontecer. “Foram quatro anos de estudo para o vestibular. Vi meus amigos passando e se formando na faculdade, enquanto eu seguia com meu sonho de entrar na UnB. Eu não admitia não entrar na Universidade de Brasília. Por volta do terceiro ano de tentativas, meu pai me abordou falando que era para eu desistir e arrumar um emprego e foi desesperador, �quei arrasado porque ele, o cara que eu amava, não estava mais acreditando em mim e achava que eu deveria abrir mão do meu sonho. Mas em 2006 passei na UnB para o curso de Administração, �z várias tentativas para engenharia, mas na última mudei de ideia, pois julguei ser um curso que seria mais fácil passar, e passei. Ao contar para o meu pai, ele perguntou se eu continuaria tentando para Engenharia, o que me decepcionou. Logo no primeiro semestre comecei um estágio. Então tive problemas na faculdade e no trabalho. Quase fui demitido no primeiro estágio e no outro me demitiram de verdade. Sem estudar, passei no concurso do Banco do Brasil em 2008, de onde quase fui demitido também. A monogra�a de �nal de curso foi difícil de concluir e com isso não passei duas vezes. Tive um problema com meu orientador, ele jogou a toalha e depois nem apareceu mais. Tive que correr atrás de outro para me auxiliar; achei uma ótima professora e �nalmente consegui passar, me formando depois de oito anos de estudo.” Entrar em ação apesar da frustração Preciso começar esse capítulo sobre resiliência e perseverança comentando sobre uma fase que eu estava passando nos meus vinte e nove anos. Eu não estava passando por um bom momento, não me sentia atraente, meu salário não era o su�ciente, mas comecei a namorar uma mulher muito bonita. Só que eu associava o fato dela ser bonita com o querer que desse certo a relação, sempre colocando sobre meus ombros a responsabilidade sobre isso, porém o namoro durou poucos meses. Eu �z de tudo para agradá-la, me endividei muito nesse relacionamento. Por �m, ela terminou comigo e poucos dias depois namorou outro, que era rico. Na mesma hora já associei que eu não tinha dinheiro o su�ciente, que era incapaz, que esse era o problema. Eu cogitei abrir uma �lial de uma empresa de dedetização em Goiânia, e me mudar para lá, enquanto minha mãe vendia um apartamento pequeno para me ajudar. Acabou que ela não conseguiu comprador e eu �z uma prova interna para passar para a área de tecnologia do Banco do Brasil, e lá comecei a ganhar mais. Deus age certo por linhas tortas, não é mesmo? “Após ter passado na prova interna eu tinha três meses para ser efetivado na tecnologia, todos os meus colegas que entraram comigo já haviam sido, mas para mim demorou mais. Eu não queria voltar para a área anterior, para aquele ambiente que eu detestava. Eu cheguei para o meu chefe e expliquei que eu não estava fazendo corpo mole, pois tinha um transtorno chamado TDAH, que eu precisava de ferramentas para me ajudar a lembrar e decorar informações. Tudo que ele falava eu anotava em um aplicativo chamado OneNote. Eu levava meu notebook para o trabalho por conta dessas anotações, pois era mais fácil anotar nesse aplicativo e procurar depois por palavras-chaves do que �car procurando folha por folha em um caderninho. Mas me olhavam torto por levar o notebook achando que eu iria jogar jogos ou algo do tipo, só que não, mal sabiam eles que eu estava tentando me proteger para decorar as funções. Após duas semanas fui efetivado, me senti muito bem, foi um grande alívio”. Como o capítulo diz: ter TDAH é entrar em ação apesar da frustração. Muitos colegas com o transtorno desenvolvem depressão não por genética ou algo do tipo, mas porque têm frustrações e não conseguem superar, então começam a desistir. Isso não pode acontecer, tem que perseverar e tentar o máximo sempre. É preciso pesquisar e estudar sobre o transtorno para poder seguir em frente com uma vida de qualidade, mesmo com o TDAH. Entendendo o TDAH Desde os meus trinta anos eu faço terapia com a mesma psicóloga. No começo nós fazíamos muitas sessões de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento Através do Movimento dos Olhos), mas também fazíamos algumas regressões em que houve uma reprogramação acerca de momentos difíceis da minha vida e somente um ano depois, em terapia com ela, percebi que o TDAH somava em vários momentos em que eu vivi. Antes eu tinha uma pequena noção do que era o transtorno, mas não era algo que eu vivia e respirava como faço hoje. Ao aprofundarmos nas sessões entendi que muitos dos traumas que tive em toda minha vida o TDAH fez grande parte disso. Um dia, no �nal de uma das nossas sessões, eu virei para minha terapeuta e disse que gostaria de criar um canal no YouTube para falar sobre o TDAH. Ela encostou em meu ombro e disse que achava uma ótima ideia e que, inclusive, faria mais sucesso que o meu canal anterior (eu havia feito antes um canal sobre carros, pois gosto muito do assunto), e não é que ela estava certa? O meu canal TDAH Descomplicado não para de crescer até hoje. Nesse canal, lá no começo, eu abri a câmera e comecei a falar da minha vida e mais nada. Muitas mães começaram a assistir os vídeos, pois eu abordava muitos temas como as di�culdades e o sofrimento na infância e traumas que perduraram por muitos anos. Então elas se interessaram muito sobre tudo o que eu dividia. Com isso, meu canal foi crescendo muito rápido e eu fui junto do �uxo, comecei a estudar diariamente sobre o TDAH, o que ajudou muito, não só para as mães, mas para mim também. Desde o início os pais começaram a encher a minha caixa de mensagens com perguntas e esperando dicas, principalmente, sobre o estudo. Quando os pais me procuram com a intenção dos �lhos começarem a gostar de ler e de estudar, já pode esquecer. Esse não é o caminho! Seria como se um cavalo criasse asas e começasse a voar, pois o estudo é desinteressante, mas ele pode futuramente passar a gostar porque a matéria mudou, caso surjam novos conteúdos que ele se interesse realmente, aí sim é possível. Mas os pais têm que sair desse foco de querer que os �lhos gostem! O �lho tem que entender que para ter acesso àquilo que ele ama, ao seu jogo ou atividade que gosta, primeiramente tem que fazer as atividades para que �que livre e tenha acesso a tudo aquilo, ou seja, a sua recompensa. Agora, incentivar o TDAH não é fazê-lo gostar, é entender que isso é necessário. Fazer um jogo com ele, fazer uma “gami�cação”: “Vamos fazer suas tarefas hoje, que você terá uma recompensa no �nal”, ou explicar um sistemade pontos falando para seu �lho cumprir o que foi combinado e, ao �nal, ele recebe o que foi pedido ao elaborarem esse sistema. Encerramento Chegamos ao �nal desse livro, que é muito importante para mim, pois eu gostaria que lessem com um olhar de empatia, não como pena ou algo assim. ‘Meu �lho passa por di�culdades acima da média, mas isso não o torna uma pessoa imune a passar pelas di�culdades da vida’. Não é para trancar o seu �lho em uma redoma; pelo contrário, os �lhos têm que viver experiências e mais do que os outros, mas experiências com muita orientação! Isso vai levá-lo ao nível de maturidade e independência, clareza de resoluções sociais e acadêmicas que os pais desejam tanto. Não é um livro para ler e guardar na estante, é para colocar em prática! Para escrever esse livro, se fosse depender da minha força de vontade, do meu querer e de fazer tudo sozinho eu jamais tiraria do papel, mas tenho pessoas certas que podem me auxiliar. Por exemplo, nesse momento, quem está digitando essas linhas é a minha Ghost Writer, a Manoela Serra, que esteve ao meu lado a todo tempo, não apenas recebendo áudios, mas enviando áudios lendo o meu livro integralmente para mim. Quem tem TDAH é assim, tem que encontrar a forma certa de fazer acontecer, pois eu tenho di�culdade em conseguir me concentrar para escrever e para ler também. Eu tenho a Manoela, mas os �lhos têm os pais, ou tutores treinados com olhar atento ao TDAH. Mas o que realmente importa é o resultado �nal. Parem de se importar com o como, mas sim para onde seu �lho está indo. Não pensem que se colocarem as dicas desse livro em prática seu �lho �cará preguiçoso e vai depender de vocês para o resto da vida. Nunca que isso aconteceria! Todas as dicas que estou dando para os pais nesse livro eu vivi na minha infância, e sou um adulto independente. Sou formado na UNB em Brasília, sou concursado, sou casado, tenho imóvel próprio. Uma das dicas principais é: repetição, treino e orientação! Orientar e não fazer pelos seus �lhos é o segredo. Agradecimentos A partir daqui eu gostaria de agradecer aos meus pais por terem hora me apoiado e hora mostrado que a vida é um jogo duro que precisa ser jogado, à minha amada esposa Carolina e à minha família pelo apoio. Agradecer também ao MOVIN – Movimento para Inclusão, em especial à Vanessa, que são minhas parceiras nessa empreitada com o TDAH e a Manoela Serra pela compreensão e empenho junto a mim para que essa minha nova vitória – este livro - se concretizasse. Sumário Apresentação Prefácio Introdução Vamos ter uma conversa de TDAH para TDAH? TDAH na primeira infância Tenham atenção aos sinais Os pais VS as mães falam a mesma língua? O seu �lho tem baixa tolerância à frustração? Lidando com os desejos e as decepções Não faça comparações entre seus �lhos Não se intimide com o diagnóstico do seu �lho A recompensa imediata e o hiperfoco Sofrendo bullying por ter TDAH Aproxime-se devagar, a vida já cobra demais A falta de amigos e a depressão na adolescência Não con�e na autonomia do jovem com TDAH O medo da rejeição A resiliência e o TDAH Entrar em ação apesar da frustração Entendendo o TDAH Encerramento Agradecimentos Sobre a Viseu Sobre a Viseu Essa e outras obras em: eviseu.com Saiba mais em: Contatos: contato@editoraviseu.com Quer enviar sua obra para nossa avaliação? originais@editoraviseu.com http://eviseu.com/ http://instagram.com/editoraviseu http://facebook.com/editoraviseu http://twitter.com/editoraviseu http://eviseu.com/ Apresentação Prefácio Introdução Vamos ter uma conversa de TDAH para TDAH? TDAH na primeira infância Tenham atenção aos sinais Os pais VS as mães falam a mesma língua? O seu filho tem baixa tolerância à frustração? Lidando com os desejos e as decepções Não faça comparações entre seus filhos Não se intimide com o diagnóstico do seu filho A recompensa imediata e o hiperfoco Sofrendo bullying por ter TDAH Aproxime-se devagar, a vida já cobra demais A falta de amigos e a depressão na adolescência Não confie na autonomia do jovem com TDAH O medo da rejeição A resiliência e o TDAH Entrar em ação apesar da frustração Entendendo o TDAH Encerramento Agradecimentos Sumário Sobre a Viseu