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tempo da enunciação (a cronografia). Nem sempre é fácil identificar esses elementos, pois muitas vezes eles são estrategicamente omitidos. Examinando a questão sob outro ângulo, podemos dizer, com Maingueneau (2001), que um texto nos interpela em três planos diferentes. Vejamos como isso acontece em uma canção como a que segue. CLIQUE AQUI PARA VER A LETRA DA CANÇÃO Bilhete – (Ivan Lins - Vitor Martins) Quebrei o teu prato, Tranquei o meu quarto, Bebi teu licor. Arrumei a sala, Já fiz tua mala, Pus no corredor. Eu limpei minha vida, Te tirei do meu corpo, Te tirei das entranhas, Fiz um tipo de aborto E por fim nosso caso acabou, Está morto. Jogue a cópia da chave Por debaixo da porta Que é pra não ter motivo De pensar numa volta. Fique junto dos teus, Boa sorte, adeus. DESAFIO É importante que você assista ao vídeo em que o cantor e compositor da canção Ivan Lins a executa: Bilhete - Ivan Lins / Vitor Martins [12] Do começo ao fim, a canção nos interpela através das formas dêiticas de pessoa presentes em toda a canção: um eu se dirige a um tu encenando transmissão de um comunicado dramático e peremptório de um final de relacionamento decidido unilateralmente. Nos breves minutos em que a canção se desenrola, somos convidados a contemplar e “participar” dessa cena representada em forma de bilhete pondo-nos ora no lugar do co-enunciador (“tu”), caso apenas a ouçamos, ora no lugar do enunciador, caso a cantemos também. Trata-se aí da cenografia, estreitamente ligada a um ethos de mulher magoada e resoluta. Provisoriamente, envolvidos por essa cenografia, esquecemos que quem “fala” tudo isso é um homem, melodicamente, isto é, se utilizando cada vogal em uma frequência e uma duração específicas formando curvas entonacionais ascendentes ou descendentes e um padrão rítmico também específicos, de modo que essa especificidade torna essa “fala” repetível. O que a cenografia nos fez esquecer foi que 37