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REDAÇÃO ESSENCIAL PARA CONCURSOS DESCOBRINDO OS SEGREDOS TEORIA E EXERCÍCIOS A. Oliveira Lima SER IE PROVAS E CONCURSOS Sumário Capa Folha de rosto Cadastro Copyright Epígrafe Agradecimentos O Autor Apresentação Capítulo 1. Prepare-se para a Redação 1.1. A REDAÇÃO EM UM CONCURSO Capítulo 2. As Funções da Linguagem 2.1. ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO Capítulo 3. Tipologia Textual 3.1. TIPOS DE TEXTOS Capítulo 4. A Paráfrase 4.1. PARÁFRASE Capítulo 5. O Parágrafo 5.1. O PARÁGRAFO Capítulo 6. Preparando a Dissertação 6.1. A PREPARAÇÃO DE UM PLANO Capítulo 7. A Montagem da Redação 7.1. A PREPARAÇÃO DA REDAÇÃO Capítulo 8. O Verbo na Redação 8.1. IMPORTÂNCIA DO VERBO Capítulo 9. O Nome na Redação 9.1. USO DO NOME Capítulo 10. Tira Dúvidas de Termos Usuais na Redação 10.1. TIRA DÚVIDAS ORTOGRÁFICO, GRAMATICAL E SEMÂNTICO Capítulo 11. Vamos Treinar? Gabaritos Bibliografia Cadastro Preencha a ficha de cadastro no final deste livro e receba gratuitamente informações sobre os lançamentos e as promoções da Elsevier. Consulte também nosso catálogo completo e últimos lançamentos em www.elsevier.com.br http://www.elsevier.com.br Copyright © 2011, Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei nº 9.610, de 19/2/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. Copidesque: Adriana Araújo Kramer Revisão Gráfica: Hugo de Lima Corrêa Editoração Eletrônica: SBNigri Artes e Textos Ltda. Coordenador da Série: Sylvio Motta Elsevier Editora Ltda. Conhecimento sem Fronteiras Rua Sete de Setembro, 111 – 16º andar 20050-006 – Centro – Rio de Janeiro – RJ – Brasil Rua Quintana, 753 – 8º andar 04569-011 – Brooklin – São Paulo – SP – Brasil Serviço de Atendimento ao Cliente 0800-0265340 sac@elsevier.com.br ISBN 978-85-352-5904-9 Nota: Muito zelo e técnica foram empregados na edição desta obra. No entanto, podem ocorrer erros de digitação, impressão ou dúvida conceitual. Em qualquer das hipóteses, solicitamos a comunicação ao nosso Serviço de Atendimento ao Cliente, para que possamos esclarecer ou encaminhar a questão. Nem a editora nem o autor assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas a pessoas ou bens, originados do uso desta publicação. mailto:sac@elsevier.com.br Epígrafe “Quando a sabedoria entrar no teu coração e o próprio conhecimento se tornar agradável à tua alma, guardar-te-á o próprio raciocínio, resguardar-te-á o próprio discernimento.” (Prov. 2:10,11) Só se aprende a escrever, escrevendo. E, para escrever bem, é preciso estar completamente senhor do assunto, refletir nele, ver claramente a ordem dos pensamentos e formular uma sequência, uma cadeia em que cada elo representa uma ideia ligada à anterior. Agradecimentos A Sylvio Motta, que me incentivou a transformar aulas em livros; a Ivone Goldner, Cláudio Borba e Valério Heringer, mestres de obras que me fizeram pedreiro no edifício da Redação; a meus alunos, minha lição de vida, com os quais estou sempre aprendendo no dia a dia das salas de aula; a minha esposa Rosânia, companheira de todas as horas e sem a qual eu não teria coragem de escrever uma linha sequer; a meus filhos, que não me saem da mente; a meus netos e bisnetos, com todo o carinho que eu possa ter e, principalmente, a Jeová, Deus, que me tem dado a gana de saber, o desejo de levar aos outros o que aprendi e a alegria de sempre estar em uma sala de aula, cercado de alunos. O Autor A. Oliveira Lima é bacharel e licenciado em Letras, mestre em Literatura Brasileira, além de bacharel em Jornalismo e mestre em Assessoria de Imprensa. Atua no magistério desde 1954, tendo lecionado no Rio de Janeiro até 1960, quando se transferiu para Brasília, ingressando, por concurso, na Fundação Educacional e ali permanecendo até 1971. Paralelamente, lecionou no Colégio Maçônico de Brasília e no Colégio Padre Champagnat (Marista) de Taguatinga- DF. De 1971 a 1973, lecionou no Colégio Avanço de Ensino Programado, em São Paulo, e ministrou cursos para gerentes, contadores e secretárias das Superintendências do Unibanco dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Retornando a Brasília, ingressou no Colégio Compacto, onde permaneceu por 19 anos. Ministrou cursos de Linguagem e Redação Técnico- Profissional para servidores do 1º e 2º escalões do Incra, Imprensa Nacional, Ministério do Exército, Ministério da Previdência Social e da Radiobrás. Lecionou nos cursos Alfa, Cespro, Previsão e Obcursos, em Brasília-DF e nas Faculdades de Direito, Administração e Economia da FOPLAC, em Goiás. Como jornalista profissional, exerceu a função de Redator, a partir de 1954, atuando nas rádios Nacional, Mundial e Mayrink Veiga, além do extinto jornal Diário da Noite, do Rio de Janeiro. Em Brasília, fez concurso para a “Voz do Brasil” e, a partir de 1960, foi, na Empresa Brasileira de Notícias-EBN, editor de “A Voz do Brasil”, Coordenador-Chefe de Reportagem, Editor de Política, Chefe do Escritório Regional da Paraíba, Editor da Sinopse da Presidência da República e editor das Resenhas de Rádio e TV. Com a fusão da EBN com a Radiobrás, no Governo Sarney, foi promovido a Redator Pleno e Editor da Sinopse e após, da Mídia Impressa da Presidência da República até dezembro de 1977, quando se aposentou. Atualmente é professor das equipes do CPC – Centro Preparatório para Concursos, em Porto Alegre, Santo Ângelo e Caxias-RS, do Curso Cláudio Borba, em Campos dos Goytacazes e do CEP – Centro de Evolução Profissional, em Vitória-ES. Na área de treinamento profissional, ministra cursos de Linguagem e Redação Oficial e Empresarial, em organismos públicos e empresas privadas. É autor dos livros Manual de Redação Oficial (Campus-Elsevier), Faça e Passe – 2.000 Exercícios de Português para Concursos (Campus-Elsevier), Interpretação de Textos em Provas de Concursos – Aprenda, Fazendo (Campus- Elsevier) e Gramática Simples e Fácil para Concursos (Campus-Elsevier). Apresentação É com redobrado prazer, honra e satisfação que atendo ao convite do autor, o incomparável e amigo Professor Oliveira Lima, para prefaciar esta obra. Graças à sensibilidade, compreensão e experiência do autor, tem-se um livro surpreendente, cuidadosamente produzido como fruto de incontáveis anos de magistério direcionado à preparação de candidatos aos mais variados concursos públicos. Depois de várias outras obras publicadas, nesta o autor, de maneira simples e numa linguagem excepcional, mostra os segredos da redação em provas de concursos. Os capítulos abordam vários assuntos, como: o que é uma redação; a paráfrase; o parágrafo; a tipologia textual, com menção a diversos tipos de descrição, a narração e a dissertação; a elaboração de um plano de redação; o uso do verbo na redação e a concordância e regência verbal; o uso do nome e a concordância nominal. Há, ainda, um capítulo tira-dúvidas ortográfico e semântico, além de exercícios sobre os diversos temas. O material aqui apresentado é um texto fundamental para o candidato a concursos, sendo que, sem perda de rigor ou de conteúdo, mas com substancial redução da dificuldade formal, o leitor se depara com segredos e técnicas indispensáveis, tratando-se de uma combinação muito cuidadosa de teoria e prática. Afeiçoada à árdua tarefa, há mais de 20 anos, de preparar e acompanhar candidatos a concursos públicos, testemunho a enorme dificuldade encontrada pelos alunos ao elaborarem a redação exigida nos certames, sendo que esta obra representará um significativo diferencial,dotando o candidato de substratos suficientes para o atendimento dos anseios da banca examinadora, evitando as inúmeras desclassificações em decorrência do não atingimento da nota mínima na prova de redação. Estou convicta de que esta obra irá contribuir significativamente para a desmistificação de muitos pontos quanto à elaboração de uma redação, considerados complexos ou até mesmo inatingíveis, ficando toda a comunidade de concurseiros com uma dívida enorme a ser paga ao Professor Oliveira Lima, que emprestou toda a sua larga e inigualável experiência na área de concursos públicos ao escrever este livro. Ivone Goldner Diretora Pedagógica do CEP, Preparatório para Concursos Capítulo 1 Prepare-se para a Redação Escrever é fácil: Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, você coloca ideias. Pablo Neruda – poeta chileno (1904-1973) 1.1. A REDAÇÃO EM UM CONCURSO A prova de redação é, provavelmente, o momento em que mais se evidencia o desempenho – pífio ou digno – da escolaridade do candidato. É mais do que uma provação para quem deseja ingressar em uma instituição federal. É o atestado de todo um processo de ensino. Na prática, não há garantia de que aprender uma dada quantidade de técnicas de escrita nos faça escrever melhor. Escrever é um hábito que depende de outro hábito, o de ler, e só será efetivamente qualificado se feito com prazer. É ao esculpir um texto que se percebe quanto é insuficiente decorar regras de português ou macetes rápidos de construção retórica. Um bom texto denuncia a seriedade de nosso prazer de ler e escrever. Uma dissertação ruim, por sua vez, revela os problemas de comunicação, a organização truncada de argumentos, o mau entendimento do que foi proposto, a incapacidade de demonstrar um raciocínio autônomo, personalizado. Todos esses fatores são fruto da fragilidade de um aprendizado e não condizem com a função de um Servidor Federal, muitas vezes encarregado de elaborar cartas, ofícios e até mesmo dissertar sobre um determinado assunto, durante a confecção de um relatório. Aqui não nos propomos a substituto da prática prazerosa de ler e escrever, credenciais naturais para quem deseja ser um bom redator. Aqui vamos dar, evidentemente, as coordenadas que todo texto em situação de concurso tende a exigir. Mas também há foco nos principais elementos que permitem uma reflexão crítica sobre o próprio processo de criar textos com finalidades específicas. O que se espera de um candidato a uma vaga, o que ele pode esperar à luz das técnicas e especificidades de uma redação. Lembre-se de que a redação é um processo de descobertas e que só você pode fazê-las. Um modo de articular o que se sabe para alcançar o que necessariamente não está dado desde o início. Esperamos que aqui o candidato encontre informações que o ajudem não a padronizar seu texto, mas a aflorar o melhor do seu raciocínio. 1.1.1. Um bate-papo necessário O fantasma da redação por certo causa pavor, tremores, bloqueios e frustrações em muitas pessoas. É que não aprenderam a conviver com ela, não lhe descobriram os segredos, não assimilaram as técnicas e não adquiriram o sabor gratificante e a alegria que nos traz o dizer em palavras escritas o que ocorre em nossa mente. Ouvem falar de redação, mas não procuram ter intimidade com ela. A culpa, sabemos, é do ensino atual, em geral pragmático, distanciado da cultura humanística, avesso ao gosto pelas letras. É mais fácil procurar um texto pronto em uma revista ou jornal, pesquisar e copiar da Internet, do que saborear o prazer de fazer. E as pessoas não escrevem. Quando o fazem, são rabiscos, arremedos de comunicação insipiente lançados ao papel. Lembre-se: redigir é comunicar. Comunicar é criar. É buscar o novo. É apresentar ao mundo o que pensamos dele, os nossos raciocínios, as nossas opiniões, as nossas experiências de vida, a nossa cultura e, acima de tudo, a nossa personalidade. Muito além da comunicação oral, a comunicação escrita desponta como o nosso alter ego, como o espelho de nossa mente, reflexo de nossa bagagem formativa e cultural. Você, concursando, é um maratonista. Todo concurso é uma maratona com diversas provas. Imagine se uma das provas fosse ciclismo, numa distância de dez quilômetros, com obstáculos, em um determinado período de tempo. Aqueles participantes acostumados a pedalar desde pequenos e que diariamente fazem um percurso de cinco ou mais quilômetros não se preocupariam com a prova. Têm prática e resistência. Mas aqueles que nunca andaram de bicicleta? Esses seriam obrigados a fazer um treinamento duro, cansativo, várias horas por dia, o que exigiria muita força de vontade em um aprendizado intensivo por semanas e até meses. É assim a redação. Sinta como você está e o que lhe falta para começar o treinamento, descobrindo o segredo da redação para escrever o suficiente com técnica, coerência, coesão, concisão e correção, dentro de um limite de tempo e de um número de linhas determinado. É necessário esforço, dedicação, humildade para se reconhecer fraco e consciente das próprias limitações e necessidades, mas capaz. Sim, todos nós somos capazes, repetindo aqui o slogan da campanha de Barack Obama: “Nós podemos!” Isso nos trará a autoconfiança destruidora dos bloqueios e brancos mentais que descambam para os erros infantis de uma redação de quem não teve o preparo suficiente, não lhe conhece os segredos. Lembre-se de que redigir faz parte integrante da comunicação humana. É a superação das limitações da oralidade, o meio mais adequado para a reflexão e o raciocínio. É escrevendo que se aprende a analisar, a julgar e a meditar sobre tudo o que nos cerca. Como dissemos, é o mesmo que andar de bicicleta. Monte na bicicleta, não desanime ao levar oito, dez ou mais tombos ou ralar os joelhos e os braços. Tente. Consiga o equilíbrio e ande até sem as mãos. Escreva, escreva sempre, nunca deixe de anotar ideias que lhe venham à cabeça. Desenvolva-as. E não deixe de ler. Leia tudo o que puder, principalmente os editoriais e as colunas de jornais e revistas. Além de apresentarem boa redação, trazem conhecimentos novos, com os quais você verá o mundo desde outra perspectiva, poderá discutir os mais variados assuntos e ainda com a vantagem de ter enriquecido o seu vocabulário. A fórmula é simples, você a encontra em vários livros e dita por muitos professores: EU + FORÇA DE VONTADE = TREINO, TREINO Acredite em você. Sinta-se capaz. Mostre-se confiante. Tenha disciplina. Reserve 15 minutos por dia para escrever. Faça isso diariamente e, se possível, no mesmo horário. Treine continuamente. Procure ser objetivo, claro, ligando as ideias uma às outras. Faça e refaça seus textos, pois esses são os requisitos básicos para quem deseja sair-se bem em uma redação. E nunca esqueça a grande verdade: SÓ SE APRENDE A ESCREVER ESCREVENDO. 1.1.2. Alguns lembretes iniciais O grande mestre da gramática e filólogo Mattoso Câmara afirmou pesaroso: Tantos estudantes psiquicamente normais, que falam bem, e até com exuberância e eloquência, no intercâmbio de todos os dias, são desoladores quando se lhes põe um lápis ou uma caneta na mão. E o poeta Carlos Drummond de Andrade revelou em um de seus poemas: Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Tal como os estudantes de Mattoso Câmara, tal como o poeta Drummond, poucas são as pessoas que não sentem um calafrio, ficam inibidas, com um branco paralisante ao receberem a incumbência de escrever algumas linhas, um quase nada para que outrosleiam. São tomadas por um vazio mental, uma angústia apavorante, mordem o lápis, roem as unhas, olham para o vazio, suam. Sabe o que está acontecendo com essas pessoas, algumas até desinibidas ao falar e com uma razoável cultura humanística? Simplesmente a falta de hábito. Elas não estão acostumadas a escrever e a ler. Depois, vem o bloqueio psíquico. Quando escrevemos, nos expomos, dizemos o que nos vai na alma, e o medo de se expor inibe. Desse modo, falar bem não significa escrever bem. Quando falamos, temos os recursos da entonação, da mímica, do olhar, da expressão facial e de situações configuradas, descritas por muitos autores, e somos, por vezes, repetitivos. Na redação, temos de ser objetivos, claros, não repetitivos e procurar dizer o máximo de pensamentos com o mínimo de palavras. É aí que surgem a inibição, os brancos paralisantes, os bloqueios. Daí a necessidade de muito treino e perseverança a fim de termos a autoconfiança necessária para que a redação não se torne algo penoso e inócuo. E como se evita isso? Lendo bastante, treinando, escrevendo sempre, diariamente. MAS EU NÃO TENHO TEMPO. É a maior balela de quem não quer aprender. O tempo quem faz somos nós. É uma questão de saber aproveitá-lo. Nada custa tirar dez minutos diários para uma leitura e mais quinze minutos para uma ligeira redação. Pode-se fazer isso pela manhã, antes do café ou no intervalo do almoço… Há tantos momentos no dia! É só fazer disso um hábito e viciar-se nele. ADIANTA ESCREVER SE NÃO HÁ NINGUÉM PARA CORRIGIR? Claro que sim. É no escrever todos os dias, mesmo sem que alguém corrija, que se vai desinibindo, expulsando os brancos paralisantes e os bloqueios mentais. Adquire-se jeito para a coisa. Pega-se o fio da meada. Percebem-se os erros de concordância, de regência, sanam-se dúvidas de ortografia, com a consulta ao dicionário. ESCREVER SOBRE O QUÊ? QUAL O MELHOR ASSUNTO? Não existe assunto. Comece escrevendo sobre qualquer coisa. Você está aprendendo. Escreva sobre coisas do dia a dia. Coisas que aconteceram com você. Uma notícia, um comentário, algo a que você assistiu na TV, um assunto doméstico, uma conversa com amigos. Há muito sobre o que escrever. Numa segunda etapa, passe a escrever sobre um assunto abstrato e faça paráfrases de editoriais ou colunas de jornais e revistas, reproduzindo aquilo que leu. Caso tenha alguma redação corrigida, aproveite e reescreva-a sem os erros apontados, aumentando-a com novas ideias, enriquecendo-a com detalhes que agora lhe ocorram. Releia, dias depois, e perceberá erros que antes não identificava. É assim que se começa. 1.1.3. Como começar a escrever Para que você se saia bem no ato de escrever, principalmente agora que está começando, é preciso que entenda todo o processo de criação. E não pense que ele começa no momento em que se pega o lápis ou a caneta para escrever sobre um assunto. É bem antes. O processo de criação de um texto está no conhecimento do mundo e das coisas que nos cercam, na leitura de jornais, livros e revistas, nos comentários do noticiário da TV e das emissoras de rádio, em nossas conversas com amigos, enfim, no que chamamos de textualidade. Tenha sempre em mente que a comunicação escrita é diferente da verbal, pois quando falamos procuramos apenas ser entendidos pelo nosso interlocutor, e um candidato numa conversa informal pode dizer: “Reunimos um grupo de estudo ontem. A gente tentamos, mas não deu para compreender a correlação verbal”. Podemos entender que ele se referia ao grupo, mesmo que tenha errado a concordância. Isso não atrapalha a comunicação verbal. Na comunicação escrita, porém, erros como esse são inadmissíveis. Mesmo entre os textos há aqueles que podem ser menos formais, como um bilhete para a namorada, e outros que devem ser totalmente estruturados dentro da norma padrão da língua, caso de uma redação para concurso. Você deve saber o que é a norma padrão, aquele conjunto de regras estabelecidas de comum acordo entre os países que falam uma determinada língua. Assim, o fato de a palavra bruxaria ser escrita com x e não com ch é uma regra ortográfica vigente nos oito países de língua portuguesa, faz parte da norma padrão que aprendemos desde o curso fundamental, sendo a forma prestigiada nos textos formais de comunicação. Muitos acham que falar é tão ou mais importante do que escrever e julgam não haver a necessidade de se avaliar um candidato para determinado cargo por meio de uma redação. Esquecem ser a redação o complemento da avaliação do candidato que, por meio dela, mostra o seu conhecimento da língua, do meio em que vive e o seu repertório de leitura. Desse modo, para escrever bem é preciso ler bastante, estar informado e atualizado acerca de tudo o que acontece no mundo, até mesmo do que não nos interessa de pronto. Isso é textualidade. 1.1.4. Torne-se um leitor Quem não gosta de ler jamais avançará em seus textos e terá ojeriza em redigir. No entanto, não há idade para aquirir bons hábitos de leitura, e mesmo os idosos podem fazê-lo. Não é necessário debruçar-se em obras de que não gosta para ser considerado um leitor. Deixe autores como Saramago, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa e outros que tais para mais tarde, quando estiver disposto a conhecer essas obras. O que você deve fazer é começar a ler textos curtos de assuntos que lhe interessem, como futebol, cultura, crítica de filmes e política, se gostar. Depois, vá ampliando para textos um pouco mais longos, ainda do seu interesse. Procure, então, ler livros de contos ou crônicas que trazem textos mais curtos que os romances e com desfechos por vezes surpreendentes. Isso é estimulante, chama a atenção e provoca o desejo de ler mais. Não deixe de ler os outdoors, as publicidades apresentadas nas revistas e jornais, algumas com grande criatividade e feitas por excelentes redatores. Não esqueça: quem pratica a leitura está fazendo o mesmo com a consciência, o raciocínio e a visão crítica. Se a leitura o aborrece sempre, não perca o foco. Assista a um bom filme ou, em último caso, a um programa de TV. Tente depois escrever sobre eles. Uma coisa você notará: a leitura frequente vai fazê-lo expressar-se de maneira clara e objetiva, e, quando estiver diariamente treinando a redação, observará que dia a dia desenvolve essa arte sem esforço, sem o branco aterrador. 1.1.5. Práticas de redação A prática a que nos referimos aqui é o costume diário de escrever. Não vamos entrar nas técnicas da redação, o que deixaremos para o Capítulo 6, nem falaremos de estrutura, tipos e diferenças de textos ou o que deve ser feito e o que deve ser evitado. Isso veremos adiante, em outros capítulos. O que queremos afirmar com práticas de redação é o que você precisa saber em primeiro lugar, antes de escrever. É o que você deve entender como fundamental quando vai escrever sobre qualquer assunto. 1. Reflexão. Pense primeiro. Reflita sobre o que vai escrever. Qual é o tema. O que ele significa para você. Observe o que você conhece sobre o assunto. Tenha em mente que um bom texto não nasce de uma hora para outra. É muito melhor pensar um pouco mais do que sair escrevendo o que vem à cabeça, repetindo coisas que ouviu dizer, mas que não têm nada a ver com o tema. 2. Controle. Não fique nervoso nem ansioso. Você não é e não será o primeiro a enfrentar a tarefa de escrever. Esqueça experiências passadas. Se houve ocasiões em que você não foi bem em uma redação, isso não quer dizer que se dará mal em todas. Você está aprendendo, e ninguém aprende de chofre. Há que ter calma, há que esperar. 3. Tempo. Comece a treinar redação pensando no tempo. Em um concurso, o tempoé pouco. Você não terá apenas a redação, mas também as questões das outras matérias. Treine redigir rascunhos inicialmente em 15 minutos e procure diminuir esse tempo. O importante é deixar para a redação o tempo de que você realmente precisará. Assim não irá atropelar o final. 4. Equilíbrio. Não escreva demais e também não seja excessivamente conciso. Quem escreve demais, com frases longas, períodos quilométricos, não consegue se fazer entender. A prolixidade é um erro imperdoável. Também não escreva uma série de frases curtas, picadinhas, num estilo gaguinho. É horrível para quem lê. O segredo está no equilíbrio, naquilo que diziam os nossos avós: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.” 5. Letra. É outro item para o qual você deve estar atento. A letra exigida é a cursiva, embora a letra de forma seja aceita, desde que haja diferença entre maiúsculas e minúsculas. A letra tem de ser legível, visível e compreensível para o examinador. Se a sua não o for, adquira caderno de caligrafia e treine a letra. Não perca pontos com esse item. Faça uma letra constante, sem diminuir ou aumentar ao longo do texto. 6. Margens. Assim que começar a treinar redação, fique atento para as margens direita e esquerda. Não escreva fora e nem adentre as margens. Em cada linha você começará na margem esquerda, embaixo da linha anterior e vai até a margem direita com a última letra sob a última letra da linha superior, a não ser em final de parágrafo. As alíneas paragrafais devem também estar rigorosamente uma embaixo da outra. 7. Cuidado. Após ter feito o rascunho, verifique se os parágrafos estão concatenados (veremos isso quando estudarmos parágrafo), se não há erros de acentuação, translineação e pontuação. Muito cuidado com a vírgula, que altera significados. Não saia colocando vírgulas onde não deve. 8. Leitura. Sempre que terminar um rascunho de redação, leia com calma o que escreveu para encontrar e corrigir erros primários, comuns a todas as pessoas que escrevem. Depois, faça uma segunda leitura, agora como se fosse um examinador, isto é, alguém que tem a tarefa de julgar seus conhecimentos, sua opinião sobre o tema proposto. Tente perceber se o que você escreveu está claro. Se achar que deve reler, faça-o, mas não esqueça o tempo de passar a limpo e entregar a redação. 1.1.6. Como chegar à redação nota 10 Embora muitos pensem que é difícil ou complicado chegar a uma redação nota 10, a realidade é outra. Qualquer um pode chegar lá. E a receita é a mais simples: praticar, praticar e praticar bastante. Quando você estuda Direito Civil ou Língua Portuguesa, não dedica horas de estudo e faz dezenas de exercícios para cada assunto dessas matérias? Por que, então, não separar um tempo diário para a redação? Faça isso, escreva todos os dias, escreva sempre e comece a se preparar para fazer uma boa redação em seu concurso. O certo é que de nada adianta conhecer toda a gramática, sabendo de cor e salteado todas as regras de ortografia, do uso das classes de palavras, de concordância, regência, pontuação, crase, se não souber como juntar todos esses ingredientes e fazer aquela vitamina suculenta e de paladar requintado. Não basta conhecer, não basta saber o que fazer, é preciso saber como fazer. Para tanto, repetimos mais uma vez, é preciso treinar, escrever uma redação por dia. Se não tem assunto, se não descobre um tema, peça a alguém para escolher por você. Procure temas da atualidade, assuntos publicados nos jornais. Escreva dois ou mais textos sobre o mesmo tema e um dia depois leia-os. Procure ver se a sua opinião sobre o tema está igual ou não, qual a diferença, qual o texto em que você se saiu melhor, se está evoluindo ou não. Essa prática diária é que vai fazer de você um redator que pode escrever sem inibições. A experiência nos diz que a prática é o caminho mais fácil para se chegar a uma redação nota 10. E se obtém a prática com perseverança, sem desanimar, mesmo que, de início, venha o desânimo e a vontade de parar tudo. E aqui vai um conselho: se tiver muita dificuldade, recorra ao método mais simples: a cópia, como forma de treino. Tome um editorial ou uma coluna de jornal, especialmente aquelas assinadas, e comece a copiar. Depois, tente mudar algumas palavras e frases ou procure fazer o resumo do texto com as suas palavras. Daí você pode partir para a paráfrase, como está explicitado no Capítulo 4. Outro bom exercício é a prática do diário. Lembra do tempo de nossas tias e avós, que tinham um diário no qual escreviam tudo o que se passava com elas? Começavam até com a frase: “Querido diário…” Não ria. Isso é ótimo para seu aperfeiçoamento. Colocar no papel as coisas que acontecem no dia a dia, as suas emoções, os seus sentimentos, aquilo de que você gosta vai acabar por torná-lo um técnico que escreve sobre qualquer assunto. Essa etapa (escrever diariamente) é a mais difícil e dá trabalho para se acostumar. Mas vá em frente. Não desanime. Ela vai levar à perda da ansiedade e do chamado “branco” que ocorre na hora de redigir. Se você realmente se dedicar, escrevendo diariamente, em poucas semanas estará escrevendo, mesmo que timidamente. É uma tarefa que se tornará mais prazerosa quanto mais for praticada. Não esqueça a grande verdade: para escrever bem é preciso ler bem. Ninguém consegue ser bom em qualquer arte se não observar os mestres. Quem não lê não vai aprender a escrever por milagre. Mas fuja dos textos acadêmicos que, em geral, são empolados e escritos em linguagem tortuosa. Escrever, segundo Edson Aran, escritor e diretor de redação da revista Playboy, “é a arte de utilizar palavras simples para exprimir ideias complexas” – e não o contrário. Assim, use sempre a ordem direta, pois a ordem inversa é uma questão de estilo, e o estilo só deve ser procurado por aqueles que já dominam as boas técnicas de redação. Não tenha pressa. Primeiro, o básico; depois, o floreio. A regra geral é: use frases curtas, economize vírgulas, tenha como seu amigo o ponto. Excesso de vírgulas é sinal de que você precisa de mais pontos. Seu texto será lido pelo examinador. Então, quando terminar de escrever, leia- o em voz alta. Quando bem escrita, a linguagem tem sonoridade. Se a sua frase não soa bem, reescreva-a. Saiba que a leitura em voz alta dá para perceber cacófatos como: “Ali se disputa uma vaga”, “vai chover, vou-me já que está pingando”, “aquela mulher é maravilhosa, não existe outra como ela” e tantos mais. Caso falte fôlego na leitura de um período, é sinal de que a frase está longa demais. Não esqueça: quem lê passa a pensar bem; quem pensa bem se expressa bem, e quem se expressa bem escreve bem. Então, leia. Capítulo 2 As Funções da Linguagem Uma condição necessária ao pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas. Paulo Freire – educador brasileiro autor de Pedagogia do Oprimido (1921-1997) 2.1. ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO Quando acontece um ato de fala, quer por meio da linguagem oral ou da escrita, há o desejo de alguém comunicar alguma coisa a outrem. Dependendo da intenção dessa pessoa, a comunicação adquire diferentes formas ou funções. Para um melhor entendimento das diferentes funções da linguagem, deve-se compreender como funcionam os elementos essenciais da comunicação, a partir das três pessoas do verbo. Assim, em uma comunicação oral ou escrita, é necessário, em primeiro lugar, alguém que realize o ato da fala. Esse alguém é o emissor, remetente ou codificador da mensagem, geralmente representado pela primeira pessoa do verbo: a pessoa que fala. É ele quem escolhe as palavras que vai utilizar, coloca-as em ordem, transformando pensamentos ou emoções em código. A mensagem é a informação,isto é, o discurso transmitido pelo autor do texto. Suponhamos que um redator comunique o recebimento de um prêmio por quatro personagens. Dirá o primeiro: – Hoje eu recebi um prêmio. O segundo afirmará: – Acaba de sair o meu prêmio. O terceiro dirá: – Hoje, a empresa me deu um senhor prêmio. E o quarto: – Queria tanto receber aquele prêmio! Observe que, na primeira mensagem, o autor comunica o fato dando ênfase e destaque psicológico ao pronome sujeito eu transmitindo ao receptor o orgulho de ter sido premiado. Na segunda, o que se vê é uma ênfase maior para o prêmio, destaque psicológico, sujeito da oração, caracterizado pelo pronome adjetivo meu. Na terceira mensagem, o emissor põe em primeiro plano a empresa, para a qual reserva a função de sujeito, mas comunica a conotação de emotividade com a expressão aumentativa um senhor prêmio. Na última mensagem, além de se colocar em primeiro plano (sujeito eu como destaque psicológico), o autor transmite, em sua mensagem, uma sensação de desejo e preocupação. Toda mensagem tem um destino: a segunda pessoa do verbo, isto é, a pessoa com quem se fala ou o leitor. É o receptor, destinatário ou decodificador aquele a quem a mensagem é dirigida. Ao recebê-la, ele cria uma imagem mental e transforma o código em pensamentos e emoções. É sempre representado pelos pronomes de segunda pessoa (tu, vós) e pelos pronomes de tratamento (você, o senhor, V. Exa., V. Sa., V. Maga. etc.). Assim, quando o emissor envia a mensagem ao receptor, ele o faz por meio da terceira pessoa do verbo: a pessoa de quem ou de que se fala, representada no texto pelos pronomes ele, ela ou pelos pronomes de tratamento iniciados pela palavra sua (Sua Excelência, Sua Majestade, Sua Senhoria etc.). Desse modo, o assunto da mensagem reflete as coisas e os seres do mundo a que os signos se referem e que, por isso mesmo, denominamos de referente. O referente, transportando a mensagem, chega ao receptor levado por um código que é o meio criado pelo homem para comunicar-se. É o conjunto de signos utilizados pelo emissor e aceitos pelo receptor. Tanto podem ser verbais como não verbais, como os sinais de trânsito, os códigos de barras utilizados no comércio, as notações algébricas e químicas, a mímica, as gesticulações de um maestro e tantos outros. Desse modo, codificar é transformar uma ideia ou sentimento em código; decodificar é retirar de um código uma ideia ou sensação. Quando a mensagem é enviada pelo emissor, ela vai atingir o receptor utilizando um canal de comunicação, um veículo através do qual os sinais são enviados. Para que o canal funcione, há que haver um meio físico e um constituinte psicológico. Em um telefonema, por exemplo, o sistema telefônico, com todos os seus fios, aparelhos transistores, computadores, impulsos elétricos e o ar que propaga o som, desde a boca do emissor até o fone e desde o fone até o ouvido do receptor, fazem a parte física do canal. A atenção do receptor é que vai constituir-se no elo psicológico entre ele e o emissor. Se, ao receber o telefonema, ele estiver distraído, vendo um filme ou atento a uma conversa paralela, nada vai entender, pois o ato comunicativo não se realiza pela falta da sintonia psicológica, pela desatenção. Isso significa que a sintonia psicológica entre emissor e receptor faz parte do canal. Desse modo, tem-se: Com base nos elementos da comunicação, podem-se entender as distintas funções da linguagem, haja vista que elas estão presentes em todos os tipos de textos. Assim, as funções da linguagem são seis, de acordo com os seis elementos da comunicação: 1. Função emotiva, expressiva ou de exteriorização psíquica, baseada no emissor. 2. Função referencial, informativa ou cognitiva, com base no referente. 3. Função conativa ou apelativa, centrada no receptor. 4. Função metalinguística, preocupada com o código. 5. Função fática, referindo-se ao canal. 6. Função poética ou estética, centrada na mensagem. 2.1.1. Função emotiva Conhecida também como expressiva ou de exteriorização psíquica, tem como base a primeira pessoa do verbo. A mensagem do texto não está centrada no acontecimento ou fato que está em evidência, mas nos sentimentos e nas sensações, no ponto de vista do autor. Usa e abusa de adjetivos, pois estes levam à emotividade. Pode apresentar verbos e pronomes na primeira pessoa. Todo texto emotivo pode ser contestado, visto que sua característica é a opinião do eu falante, do emissor. É o que se nota nos editoriais dos jornais, nos comentários, nas matérias dos colunistas, na linguagem dos âncoras de rádio e TV. A função emotiva encontra-se, ainda, nos diários íntimos, nos textos românticos e nas autobiografias, como se vê no exemplo a seguir: “Quando dos meus quatorze anos, como é próprio dessa idade, apaixonava-me a cada três semanas. Como um típico adolescente, era meio desengonçado, ingênuo, cheio de espinhas, e, para piorar, tímido, muito branco e não jogava bem esporte algum. Dentro desse quadro, obviamente imperava o platonismo. Pois bem, naquela época comecei a escrever poesias em cadernos que adquiria especificamente para essa atividade. Tudo o que gostaria de dizer à amada, por falta de oportunidade ou coragem, eu transpunha para o papel.” (William Douglas, Como passar em provas e Concursos, p. 556) A mensagem está centrada na primeira pessoa, expressando os sentimentos e as sensações do autor realçadas pelo uso de adjetivos, o que evidencia a função emotiva. Veja este outro exemplo: “Atualmente, a concepção de ato violento é bastante ampla, indo além da noção tradicional, que o vinculava à existência de dano físico. Somos sensíveis a novos tipos de violência, que antes não eram considerados como tal: discriminação por cor, sexo, idade, etnia, religião, escolha sexual e situações de constrangimento, exclusão ou humilhação. Trata-se, portanto, de uma definição de longo alcance, abrangente, que decorre de um processo histórico que resultou na pacificação da sociedade, na ampliação das normas e em uma maior intolerância ao que será considerado violência.” (Andréa Buoro et al. Violência urbana – dilemas e desafios. pp.10-11) A autora dá a sua própria opinião sobre a concepção de ato violento, opinião essa que poderá ser contestada por quem não comungue com ela, pois retrata apenas o ponto de vista do próprio eu falante, realçado pelo uso do verbo na primeira pessoa do plural: somos. 2.1.2. Função referencial Recebe também os nomes de função informativa ou cognitiva. Referencial porque tem como objetivo declarar algo sobre os referentes do mundo que nos cerca. Traz informações (por isso é chamada de informativa), dá conhecimento acerca de um determinado assunto. Daí que essa função é centrada na terceira pessoa do verbo (a pessoa de quem ou de que se fala), o referente, o assunto do texto. Sua característica principal é não poder ser contestada. A linguagem é denotativa (jamais terá sentido figurativo) e raramente usa adjetivos. É o caso das reportagens (apenas narram os fatos, não trazem opinião, quase nunca usam adjetivos e não podem ser contestadas, pois são fatos reais), dos textos técnicos, científicos e didáticos. 1º exemplo: “A maior parte (cerca de 60%) das 294 mil toneladas de lixo que o Brasil produz não tem destino apropriado, sendo descartada em lixões ou rios. Mesmo os rejeitos adequadamente dispostos em aterros sanitários geram problemas, já que ocupam terras que poderiam ser usadas para a agricultura, impedem o reaproveitamento de nutrientes pelo solo, contaminam águas subterrâneas, levam à proliferação de animais e insetos transmissores de doençase exigem um investimento alto. O chamado composto de lixo urbano pode ser uma alternativa para reduzir o volume de lixo e os gastos associados.” (Fred Furtado. Descartado e útil. In Ciência Hoje, maio 2003, p. 44) O autor apresenta o problema do lixo utilizando termos denotativos, numa linguagem direta com verbos na terceira pessoa. As referências do texto não podem ser contestadas, mesmo os números ali apresentados. Há informações, trazendo conhecimento do assunto, mostrando as dificuldades com o lixo no Brasil e apontando uma possível solução. Utiliza, pois, a função referencial. 2º exemplo: “Desde cerca de 300 anos a.C. e aproximadamente 500 d.C, estendeu-se a era do grego coiné ou comum, uma mistura de diferentes dialetos gregos, dos quais o ático era o mais influente. Coiné tornou-se a língua internacional. Tinha uma nítida vantagem sobre as outras línguas daquele tempo, por ser quase que universalmente conhecida. Coiné significa língua comum ou dialeto comum a todos. Quão amplo era o seu uso pode ser visto no fato de que os decretos dos governadores imperiais e do Senado Romano eram traduzidos para o coiné, a fim de serem distribuídos em todo o Império dos Césares.” (Estudo Perspicaz das Escrituras, vol. 1, p. 262) Como se pode notar, o texto é didático e explica o termo coiné dado a uma mistura de diferentes dialetos gregos por um período de cerca de 800 anos. O texto traz verbos na terceira pessoa, e o objetivo da mensagem é dar uma informação sobre os referentes da língua que, no esplendor do Império Romano, era de uso quase universal. Não há figuras de linguagem, e as informações não podem ser contestadas. Trata-se de função referencial. 2.1.3. Função conativa Também conhecida como função apelativa, está centrada na segunda pessoa do verbo (a pessoa com quem se fala), o destinatário, o receptor da mensagem. Sua finalidade é influenciar ou modificar o comportamento do receptor. Para tanto, usa verbos no imperativo, pronomes na segunda pessoa, subentendidos ou explícitos, e, como se dirige ao receptor, é comum o uso de vocativos. É a linguagem da propaganda, dos sermões, dos discursos e da política. 1º exemplo: “Quer passar no concurso? Venha para o CEP. No nosso curso, as aulas são presenciais e ministradas por corpo docente selecionado entre os melhores profissionais do país. Aqui você resolve suas dúvidas com o próprio professor que ministra a aula.” (In jornal A Gazeta, Vitória-ES, caderno “Empregos”. 30 nov. 2005, p. 7) A mensagem pretende influenciar o receptor a quem ela é dirigida. Daí o pronome você subentendido no primeiro e segundo períodos e explícito no quarto. A intenção do autor do texto é modificar o comportamento do receptor com a mensagem subliminar “não procure outro curso, procure o nosso, ele faz você passar” que está implícita no segundo período com a intensidade dada pelo imperativo Venha. 2º exemplo: “Que fazes, Jorge, a estas horas mortas? A noite está tristonha e friorenta; Vai aquecer da prostituta ao colo De libertino a fronte macilenta. Vai escaldar esta alma morta e fria Aos beijos do conhaque que incendia.”1 (Castro Alves) Nesses versos, o poeta Castro Alves procura obter uma reação do receptor (Jorge). Para tanto, utiliza pronomes na segunda pessoa (Que fazes tu, Vai tu aquecer, Vai tu escaldar), verbos no imperativo (Vai) e, como se dirige ao receptor, usa o vocativo (Que fazes, Jorge…?). Trata-se de um texto com a função conativa ou apelativa. 2.1.4. Função metalinguística Segundo os semiólogos, essa função ocorre quando há encontro do código com o próprio código, isto é, quando a mensagem se preocupa em esclarecer o código, definindo-o. O código pede uma definição e a definição explica o código e vice- versa. 1º exemplo: Em 1981, na coluna humorística que escrevia mensalmente para a revista Veja, Millor Fernandes trouxe as seguintes definições de parque: “Parque nacional – é uma espécie de reserva florestal. Parque público – é um jardim urbano Parque de diversões – é onde os petizes (e os marmanjos) se divertem. Parque industrial – é onde as multinacionais deitam e rolam.” Pelo que se observa, Millor Fernandes deu as definições preocupado em esclarecer cada um dos códigos: parque nacional, parque público, parque de diversões, parque industrial. Um exemplo típico de metalinguagem é uma aula de português. Nela o professor utiliza o código língua portuguesa para explicar o próprio código que é a língua portuguesa. O exemplo a seguir, nos versos de Fernando Pessoa, é próprio da função metalinguística, quando ele define um poeta: “O poeta é um fingidor. Finge tão constantemente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.” 2.1.5. Função fática Tem como base o canal. O objetivo da mensagem é verificar o funcionamento do canal para iniciar, continuar ou encerrar uma comunicação, vez que essas são as funções do canal. Por vezes, há interrogações e exclamações e expressões típicas, denominadas de fáticas, como: Alô! Ei! Psiu! Olá!, que servem para iniciar uma comunicação, ou: Entendeu? Viu? Compreendeu? Né? Como é que pode?, que servem para sustentar uma comunicação. Há ainda expressões como: tá bem, até logo, adeus, Deus te acompanhe e outras mais, que servem para encerrar a comunicação. Essa função encontra-se bem marcada na linguagem das crianças, dos telefonemas e das pessoas sem instrução. 1º exemplo: Phelipe, de cinco anos, na Praia de Camburi, em Vitória, puxa conversa com um pescador: – O que é que você está fazendo? – Pescando… – Pescando o quê? – Peixe. – Cadê? – Não tem… – Então, o que é que você está fazendo? Nesse diálogo, o emissor (Phelipe) quis iniciar uma comunicação e, conseguindo, tentou sustentá-la utilizando interrogações na continuidade da fala, encerrada com a última pergunta. 2º exemplo: A diarista chega esbaforida e a patroa, já pronta para o cabeleireiro, reclama: – Outra vez atrasada, Eliana? – Pois é, patroa, a senhora sabe, né? A gente mora pra lá de Cariacica e vem naquele ônibus todo apertado, viu? Não tem nem lugar pra botar o pé, entendeu? Quando chega no Terminal é um filão pra pegar outro ônibus, sabe? Depois de tudo, quando a gente consegue chegar, você diz: “outra vez atrasada?” Como é que pode, né, patroa? Na resposta da diarista, pode-se notar uma série de expressões fáticas, no intuito de sustentar a comunicação e desculpar-se do atraso: né, viu, entendeu, sabe, como é que pode. Tem-se aí a função fática da linguagem. 2.1.6. Função poética É a maneira diferente de se enviar uma mensagem, tendo a intenção de transmiti- la de forma especial e não da forma comum de se expressar. Ou melhor, não é o que se diz, mas como se diz. Somando-se às outras funções, a poética dá realce àquelas. A linguagem dessa função é conotativa (sentido figurado) e está presente nos poemas, nos trocadilhos, nos nomes incomuns de algumas casas comerciais, nos nomes formados pela fusão de outros (hipocorísticos), nas frases de parachoques de caminhões, nos provérbios e nas tiradas infantis. Exemplos: “Meu verso é sangue. Volúpia ardente… Tristeza esparsa… remorso vão… Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração.” (Manuel Bandeira) O poeta diz, de maneira diferente, como é o seu verso. Não é como todos dizem, daí se ter nesse texto a função poética ou estética. É o que se nota no trecho a seguir, do poeta Mário Quintana, em que ele utiliza as funções poética e apelativa: “Sê bom. Mas ao coração Prudência e cautela ajunta, Quem todo de mel se unta, Os vasos o lamberão.” O trocadilho é também uma forma diferente de se dizer. Por isso todo trocadilho é função poética da linguagem. Observe-se: Não confundabife à milanesa Com bife ali na mesa. As frases de parachoques, tão usadas no século passado e hoje quase em desuso, trazem a filosofia popular dos caminhoneiros, dizendo a verdade de forma diferente, como: Se casamento fosse bom, não precisava de testemunhas. Sou livre, só vou para onde me mandam. Os provérbios trazem a sabedoria popular numa maneira diferente, poética, simples e clara de se falar: Água mole em pedra dura, Tanto bate até que fura. Os ditos infantis: Raysa, mostrando o copo com a dentadura da avó: – Vovó, achei seu sorriso! Conclui-se, então, que toda a mensagem elaborada de modo não usual é função poética da linguagem. 1 “Incendeia” é a forma correta, mas não rima com “fria” do verso anterior. Tem-se aí um exemplo de licença poética, usada por Castro Alves. Capítulo 3 Tipologia Textual Para escrever, o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Clarice Lispector– escritora ucraniana naturalizada brasileira. (1920-1977) 3.1. TIPOS DE TEXTOS 3.1.1. Definição Todas as formas de expressão escrita recebem o nome genérico de redação. Classificam-se em descrições, narrações e dissertações, que podem estar em formas literárias e não literárias. No estudo da redação é necessário conhecer as diferenças entre elas. • Descrição – é a redação em que o autor procura emitir imagens, como se fora uma fotografia, apontando as características que compõem uma paisagem, um ambiente, determinado objeto, um ser, como no exemplo: “Fui também recomendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipático: cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, lábios úmidos, porejando baba, meiguice viscosa de crápula antigo.” (Raul Pompeia, O Ateneu — Coleção de Clássicos Brasileiros, p. 58) • Narração – é uma forma de redação em que o autor conta um fato ocorrido em determinado lugar e tempo, envolvendo personagens humanas ou não: “Em nova assembleia dos deuses, ficou decidido, a instâncias de Atenas, o regresso de Ulisses. Hermes transmite a Calipso a ordem de Zeus, intimando-a a deixar partir o cativo. A ninfa declara a Ulisses ser necessário que ele construa uma jangada e exorta-o, mas em vão, a que permaneça junto dela.” (Homero – Odisseia. pp.72) • Dissertação – Acontece quando se apresenta ou se discute uma ideia, expondo, explicando, argumentando, a fim de comprovar o que se afirma: “Hoje, a maior parte da aprendizagem ocorre fora da sala de aula. A quantidade pura e simples de informações transmitidas pela imprensa, revistas, filmes, rádio, televisão e pela Internet excede, de longe, a quantidade de informações transmitidas pela instrução e textos escolares. Esse desafio destruiu o monopólio do livro como auxiliar de ensino e abriu brechas nas próprias paredes da aula, tão de súbito que ficamos confusos, desconcertados.” (Edmund Carpenter e Marshall McLuhan, Revolução na Comunicação, p. 28) Pelos exemplos dados, pode-se dizer que a descrição detalha, a narração conta e a dissertação argumenta. Para iniciar o seu treinamento em casa, recomendamos que comece pela descrição. Observe, a seguir, o que é a descrição, seus vários tipos e como se procede para mostrar, por escrito, o que nos cerca. Leia e entenda cada espécie desse tipo de texto e procure, primeiro, descrever o ambiente da sala de sua casa, da cozinha, do quarto, a portaria do prédio, sua rua, uma praça. Faça descrições de pessoas que você conhece, seguindo todos os passos que damos a seguir. Tenha calma e paciência que você chega lá. 3.1.2. Descrição Descrever é colocar uma fotografia na mente do leitor. É detalhar uma cena, pessoa, objeto, movimento, destacando-lhe características peculiares, de modo a passar uma imagem, a mais próxima possível daquela que mentalizamos, como se fosse uma fotografia. Por essa razão, a descrição não pode sobrepor imagens, isto é, acumular detalhes supérfluos. Ela compõe a imagem de uma ideia e a representa por meio de palavras. Assim, uma pessoa pode ser vista em seu exterior ou examinada do ponto de vista psicológico; um ambiente pode ser apresentado em sua parte física ou emotiva, e a natureza pode ser vista do lado estático ou espiritual, de forma que o leitor, por meio da linguagem de quem escreve, possa “ver” o que está sendo descrito. Ela é estática, ou seja, destituída de ação, pois o ser, o objeto ou o ambiente têm mais importância, e as frases têm como destaque o substantivo e o adjetivo. Na descrição, o substantivo representa cenas, paisagens, ambientes, seres animados ou inanimados, coisas e estados psíquicos. O adjetivo indica seus aspectos mais característicos, os pormenores que os individualizam e, por meio do registro das impressões sobre o descrito, marca a cor, sonoridade, textura, aroma ou sabor. Daí a forte incidência de adjetivos no texto. Os verbos indicativos de ação ou movimento são secundários em uma descrição, valorizando-se mais os processos verbais não significativos ou de ligação. O tempo verbal é o presente do indicativo ou o pretérito imperfeito, embora sejam mais utilizadas as formas nominais (infinitivo, gerúndio, particípio), o que dá à descrição o tom característico de imobilidade do objeto. 3.1.2.1. Espécies de descrição A descrição pode ser de paisagem, de ambiente (interno ou externo), de cenas, de seres (animais, vegetais, minerais), de objetos, de estados d’alma, técnica e científica. Exemplos: • Descrição de paisagem A descrição de paisagem é feita a partir de um plano elevado. O autor abarca com o olhar o que se espraia à sua frente, até o horizonte. Anuncia o que vê no geral e, a seguir, vem do horizonte para o local em que se encontra, observando os detalhes e, como se estivesse fotografando, joga as imagens na mente do leitor de tal modo que este poderá reproduzi-las até no desenho de uma aquarela. Portanto, a descrição de paisagem pode ter visão panorâmica, detalhes do que se vê mais longe, detalhes do que se vê em volta, movimentação de pessoas, carros, viaturas, espaço aéreo, espaço observado, território etc. Exemplo: “Perante ele estava o vale Palancar, exposto como um mapa aberto. A base das cataratas Igualda, a mais de oitocentos metros abaixo, era o ponto mais ao norte do vale. Perto das cataratas ficava Carvahall, um punhado de edificações de cor marrom. A fumaça branca subia das chaminés, desafiando a área selvagem em volta. Naquela altura, as fazendas eram pequenos retalhos quadrados, menores do que a ponta do dedo dele. A terra em volta delas era ressecada ou arenosa, onde o mato seco dançava ao vento. O rio Anora cortava a terra desde as cataratas até o lado sul de Palancar, refletindo grandes porções da luz do sol. Longe, ele corria por fora do vilarejo de Therinsford, que daquela altura parecia um punhado de casinhas de bonecas, e pela solitária montanha Utgard. Além daquilo, ele via apenas o rio virando para o norte, a caminho do mar.” (Christopher Paolini, Eragon, p. 11) Observe que, nessa descrição de paisagem, o primeiro olhar do autor abarca até o horizonte, observando o vale Palancar com detalhes do que vê mais longe (as cataratas, a cidade de Carvahall), o que vê mais perto (as fazendas, o rio Anora, o vilarejo de Therinsford e o rio que segue até o Norte). Põe essas imagens na mente do leitor, como uma fotografia tirada do alto em que ele se encontra, podendo-se até fazer uma aquarela ou um quadro dessa paisagem, como aconteceu no filme homônimo. • Descrição de ambiente externo É a descrição apenas de um local, como uma praça, um campo de futebol, um parque de diversões,o pátio de uma igreja, um cais de porto, uma rua. Não é ampla como a descrição de paisagem, mas restrita a um determinado lugar. O autor deve observar todos os detalhes, como cercas, bancos, brinquedos infantis, barracas, árvores, canteiros, alambrados, chafariz, alamedas, veículos, enfeites, prédios, lago, coreto etc. Exemplo: “Desceram a alameda da balsa, que era reta e bem cuidada, ladeada por grandes pedras caiadas. Cerca de cem metros dali, ficava a margem do rio onde havia um largo ancoradouro de madeira. Uma balsa grande e rasa estava atracada. Os tocos em que eram amarradas as embarcações, próximos à beira da água, brilhavam na luz de duas lamparinas suspensas em cercas vivas; mas a água à frente era escura, com apenas alguns chumaços de névoa que se enrolavam como vapor por entre os juncos na margem. Parecia haver menos neblina no outro lado.” (J.R.R.Tolkien, O Senhor dos Anéis, vol. 2) Compare com a descrição de paisagem e note que o autor não observa o que ocorre além do local em que se encontra. Apresenta os detalhes do lugar, de forma que o leitor “veja” a alameda da balsa com suas pedras, a margem do rio, o ancoradouro, a balsa, os tocos de amarra das embarcações, as lamparinas na cerca viva e o cais. Fica apenas nesse local, nem mesmo passa da margem do rio com chumaços de névoa entre os juncos. É a descrição de ambiente externo. • Descrição de ambiente interno É quando se faz a descrição de ambientes fechados, como um quarto de casal, o interior de uma igreja, uma sala de aula, um salão de baile etc. O autor observará todos os detalhes que se encontram no ambiente: móveis, decoração, paredes, janelas, cores, utensílios, objetos, quadros. Se houver armários ou móveis abertos, o que se vê neles. Se há mesa, o que está sobre ela; a cor e tamanho de tapetes, as cortinas, e coloca aquele ambiente na mente do leitor como se fora uma fotografia. Exemplo: “É uma sala ampla e bem cuidada. Paredes lisas, pintadas de bege e assoalho de cerâmica. A um canto, um conjunto de sofá e duas poltronas, cercando uma mesinha de centro com tampo de mármore na qual repousam dois cinzeiros de barro. O sofá e as poltronas ficam diante de um aparelho de televisão, como à espera de telespectadores. Encostada à parede do fundo, uma estante com alguns livros de literatura e de filosofia, garrafas de gim e de conhaque e umas poucas taças. No centro do chão, um tapete desbotado e na parede, acima do sofá, um quadro mostrando uma paisagem campestre.” • Descrição de ser (pessoa) É o retrato falado da pessoa. O autor pode observar todas as características físicas: peso, cor, altura, idade, voz, vestimenta, cabelos, partes do corpo. Rosto: olhos, boca, nariz, bochechas, lábios, olheiras, furinho no queixo. Pele: clara, escura, enrugada, lisa. Corpo: magro, gordo, esbelto, formato de pera, formato de maçã. Membros: normais, desproporcionais ao corpo, curtos, alongados. Pés: chatos, finos, delicados, compridos ou defeituosos. Unhas: longas, roídas, escuras, quadradas, perfeitas, pintadas, feitas, postiças, curvas, quebradiças; marcas de identificação: pinta, mancha, cicatriz, corte, queimadura, falta de dedos, calvo, cabeludo, vesgo, manco, fanhoso, e outras mais. Exemplo: “Chamava-se Rufino o velho cuja carapinha em desalinho a neve dos anos manchara de branco […] A pele preta era opaca e sem viço, própria da idade avançada. Seu nariz achatado parecia esborrachado. O lábio inferior, bem vermelho e grosso, pendia desgovernado, dificultando a fala. Os pés grandes e descalços, sempre inchados, permitiam-lhe apenas um caminhar trôpego, arrastado e cansado. Usava um velho capote de cor indefinida, em que predominava o pó da estrada, e um chapéu de feltro […] tão deformado pela falta de forro a ponto de parecer uma tigela desabada sobre os olhos. Uma camisa quadriculada rasgada aqui e ali e uma calça velha e desbotada completavam a imagem daquele arremedo de pessoa.” (Dalva Ferreira Fanchium, Piraí do Sul, sua gente e suas histórias, p. 90) Ao descrever uma pessoa, procure, no primeiro parágrafo, fazer uma abordagem de qualquer aspecto de caráter geral, ou relate sua primeira impressão sobre ela. Nos parágrafos seguintes, fale sobre as características físicas como: altura, peso, cor da pele, idade, cabelos, traços do rosto (nariz, boca, olhos, rugas, sobrancelhas), voz, vestimenta. No último parágrafo, faça uma retomada sobre qualquer outro aspecto de caráter geral. • Descrição de objeto Há que distinguir dois tipos essenciais de objetos: os que são constituídos de uma única parte, como uma garrafa, uma bola, um clipe, um giz, um cálice, um cinzeiro, um pedaço de pau, uma folha de papel etc., e aqueles constituídos de várias partes, como um telefone, um aparelho de som, uma geladeira, um aquário, um despertador, uma carteira, um violão. Ao descrever um objeto constituído de uma única parte, faça, no primeiro parágrafo, observações de caráter geral, referentes à procedência do objeto ou sua localização. Nos demais parágrafos, descreva o formato comparando-o com figuras geométricas e com objetos semelhantes e apresente as dimensões: largura, comprimento, diâmetro, raio etc., além do material de que é feito, peso, cor, brilho e textura. No último parágrafo, faça observações de caráter geral, referente à sua utilidade ou qualquer outro comentário que envolva o objeto como um todo. Observe esta descrição de um clipe: “Este pequeno objeto que agora descrevemos encontra-se sobre uma mesa de escritório e sua função é a de prender folhas de papel. Tem o formato semelhante ao de uma torre de igreja. É constituído por um único fio metálico que, dando duas voltas sobre si mesmo, assume a configuração de dois desenhos (um dentro do outro), cada um deles apresentando uma forma específica. Essa forma é composta por duas figuras geométricas: um retângulo cujo lado maior apresenta aproximadamente três centímetros e um lado menor de cerca de um centímetro e meio; um dos seus lados menores é, ao mesmo tempo, a base de um triângulo equilátero, o que acaba por torná-lo um objeto ligeiramente pontiagudo. O material metálico de que é feito confere-lhe um peso insignificante. Por ser niquelado, apresenta um brilho suave. Prendemos as folhas de papel, fazendo com que elas se encaixem no meio dele. Está presente em todos os escritórios ou locais onde se necessitam separar folhas em blocos diferenciados. Embora aparentemente insignificante, dadas as suas reduzidas dimensões, é muito útil na organização de papéis.” (Branca Granatic, Técnicas básicas de redação) Na descrição de um objeto constituído de várias partes, faça o primeiro parágrafo com observações de caráter geral referente à procedência e/ou à localização do objeto a ser descrito. Nos parágrafos centrais enumere e comente as partes que compõem o objeto, explicando como elas se agrupam a fim de formar o todo. Apresente detalhes do objeto visto externamente como um todo e o seu formato, dimensão, material, peso, textura, cor e brilho. No último parágrafo, faça observações de caráter geral referente à sua utilidade ou outro comentário que envolva o objeto em seu todo, como nesta descrição de uma caneta esferográfica: “Fabricada atualmente em larga escala, a caneta esferográfica parece ser um objeto simples; no entanto, é constituída por inúmeras partes que se agrupam. Em sua constituição, verificamos a presença dos seguintes elementos: um tubo cilíndrico, fino e comprido, de plástico, dentro do qual é colocada a tinta; uma ponta de acrílico em forma de cone que se liga a uma das extremidades do tubo. Na ponta desse cone há uma esfera minúscula através da qual a tinta sai, passando para opapel. Há também um tubo cilíndrico maior, de acrílico, que envolve o tubo de plástico, e duas tampas: uma interna e outra maior e externa em cada uma das extremidades do cilindro de acrílico. Se observarmos a caneta fechada com a tampa, veremos que ela assume a forma de um cilindro de aproximadamente quinze centímetros de comprimento e meio centímetro de diâmetro. Por ser constituída de materiais leves, como plástico e acrílico, seu peso é muito pequeno. O tubo externo é translúcido e as tampas de plástico apresentam a mesma cor da tinta dessa caneta. A tampa externa tem o formato de cone alongado e dela sai uma pequena haste. A caneta esferográfica encontra-se hoje em todos os lugares, entre os quais escolas, firmas, escritórios, consultórios. Estará presente sempre que alguém quiser escrever algo sem sujar suas mãos de tinta.” (redação de aluno, in Maria Tércia Juliana, Redação, p. 16) • Descrição científica Apresenta fatos e casos científicos, mostrando suas características, sua atuação, seu modo de apresentar-se, de forma que o leitor apreenda, de maneira simples, o que se quer informar. Exemplo: “Edemas podem ser localizados ou generalizados, ocorrendo comumente sobre a linha articular lateral, em relação à patela, na fossa poplítea e originando de músculos como o semimembranoso e o grupo da pata de ganso, se o edema for discreto. Certos edemas tornam- se mais óbvios quando o joelho está retificado, particularmente no caso de efusão e cisto poplíteo, enquanto outros são aliviados pela flexão do joelho.” (Malcolm F. Manicol. O Joelho com problema, p. 21) • Descrição de estado d’alma O autor se fixa nas características psicológicas, como personalidade, atitudes, temperamento, caráter, ações frequentes, dom, manias, preferências, inclinações, e na postura: bagunceiro, calmo, educado, inquieto, desleixado, extrovertido, introvertido etc. Veja o texto de Graciliano Ramos: “No fim da vida nasceram-lhe nos pés copiosas perebas que se estenderam e avultaram, abriram sulcos na pele, corromperam a carne, supuraram, sangraram, impossibilitando o uso do calçado (…) Era um Pé-de-molambo. O apelido pegou. E quando os moleques berravam- lhe o insulto, os olhos biliosos enchiam-se de raiva e lágrimas, o rosto enxofrado coloria-se de manchas vermelhas, a boca mole e desguarnecida espumava, o corpo alquebrado inchava como um peru, ameaçava rebentar as costuras da roupa suja e esgarçada, arrastava, bambo e trôpego, os dois chumaços escuros e sanguinolentos. Tremores agitavam aquela ruína, sacudiam as bambinelas do pescoço magro e os cabelos grisalhos que enfeitavam a pobre velhice desmoralizada.” (Graciliano Ramos. Viventes das Alagoas, p. 108/109) Observe-se, além das características físicas (perebas, sulcos na pele, olhos biliosos, rosto enxofrado, boca mole e desguarnecida, corpo alquebrado, bambo e trôpego, manchas vermelhas), as características psicológicas (raiva, lágrimas, tremores sacudindo as bambinelas do pescoço) e a postura (inchava como um peru, espumava, arrastava os dois chumaços escuros e sanguinolentos). • Descrição literária Envolve a transmissão de emoções sugeridas ou despertadas por uma determinada realidade. A atitude do autor é subjetiva, e o vocabulário assume a função poética da linguagem, fixando-se na elaboração da mensagem. Usa figuras de estilo, principalmente metáforas e comparações. Os verbos ficam no presente do indicativo, procurando dar continuidade à ação, como neste exemplo: “O torcedor fanático não se limita a ir ao estádio: ele ouve os comentários pelo rádio, lê os jornais, vê o vídeo do jogo a que assistiu. O torcedor-que-vai-ver-ganhar vai sempre munido de bandeira, faixa, camisa ou outros símbolos do clube. Incentiva o seu time vibrando, vaiando, agitando bandeiras, tocando buzina, levando charanga, empurrando os craques para o ataque, reclamando pênalti, xingando o juiz, irritando o adversário com “corinhos” e refrões, censurando agressivamente o técnico ou jogadores do seu clube que não o defendem com todo o esforço. E, no caso de o time estar vencendo, riem, choram, se abraçam, batem palmas, soltam “olé”, gritam “já ganhou”. Em final de campeonato, à plateia, à massa, ao público, à galeria não basta o estádio para nele expandir sua alegria: saem às ruas em passeata, buzinam à frente da sede do clube perdedor, fazem o “enterro” do adversário, enfim, um verdadeiro carnaval – outra festa também liberatória de tensões e vinculada ao futebol, já que ambas representam um fenômeno de histeria coletiva.” (Maria do Carmo de Oliveira Fernandez, Futebol – fenômeno linguístico I- p. 143) 3.1.2.2. Tipos de descrição A descrição pode ser analisada quanto ao que está sendo descrito e quanto ao posicionamento do autor. Quanto ao descrito, ela pode ser estática ou dinâmica. É estática quando se descreve o que está parado; é dinâmica quando se descreve o que se encontra em movimento. Quanto ao posicionamento do autor, pode ser fotográfica ou cinematográfica. Fotográfica, quando o autor está parado, como se estivesse tirando uma fotografia; cinematográfica, quando o autor acha-se em movimento, como se estivesse filmando. Assim, tem-se a descrição: • Descrição fotográfica estática Quando o autor e a coisa descrita estão parados. Exemplo: “Sinuosa, poeirenta, ora com ladeiras íngremes, ora em um plano interminável, às vezes larga, às vezes estreita, era assim a estrada que ligava Vargem de Dentro ao Engenho Vitória. Aqui e ali uma casinha de taipa isolada, coberta de sapé. Às vezes pequenina, porta e janela, um jirau nos fundos, duas ou três árvores frutíferas. Por vezes um capão de mato ou uma roça de mandioca ou, ainda, um pequeno riacho modificava a paisagem.” A descrição é de uma paisagem. O autor está posicionado em um determinado local, onde observa o que descreve, sem dar movimento a nada. É como se estivesse fotografando algo parado. Tem-se uma descrição fotográfica estática. • Descrição fotográfica dinâmica O autor está parado, e o que ele descreve está em movimento. Exemplo: “Aconteceu numa delegacia. De repente a porta abriu com estrondo e entrou um baita crioulo. Quase dois metros de altura, calças de zuarte, botinas, camisas para fora das calças, um grande revólver na cintura e andando com o gingado característico do malandro carioca. Com a mão direita trazia quase arrastada uma sarará. Cabelos cor de caju, cheia de sardas – tinha sardas até nos pés. Chinelo de dedo, num pé só. Blusa rasgada e chorando feito criança. Com a mão esquerda, trazia uma crioula e esta vinha desmaiada mesmo. Cabelos sujos de terra, um filete de sangue correndo da testa, blusa em pandarecos, saia nem existia.” O autor está parado, apenas observando a cena como se estivesse fotografando. Mas tudo o que ele descreve está em movimento. A porta que abre, o crioulo que anda, a sarará aos trancos e barrancos, e a negra desmaiada e arrastada. É descrição fotográfica dinâmica. • Descrição cinematográfica estática Ocorre quando o autor está em movimento (como se estivesse filmando) e o que ele descreve está parado. Exemplo: “É uma velha casa de fazenda colonial. Do alicerce até à metade, as paredes são em pedra e daí para cima, de barro batido. Aqui e ali o reboco caíra e, pelos buracos, veem-se mourões de madeira podre. A cor barro pardacenta revela uma pintura antiga de dezenas de anos. Do lado direito, uma velha mangueira, copada e repleta de lianas dá uma vasta sombra e suas raízes apontam pelo chão quebrado da varanda. Há musgo na parede e manchas deixadas pelas águas de muitas chuvas. Nesse mesmo lado, uma das janelas apodrecera e está pendurada das dobradiças. No lado esquerdo,onde não bate o sol, crescem avenquinhas miúdas. Nesse lado, espraia-se um terreiro com uma horta em que as verduras estão sufocadas pelo mato rasteiro. Na parte de trás da casa, um jirau com algumas panelas de barro jogadas a esmo, como à espera de alguém que há muito tempo nem lembra delas. Mato crescendo desordenadamente indica o abandono da velha casa.” O autor estava, de início, em frente à casa, depois foi ao lado direito descrevendo o que ali se encontra, seguindo depois para o lado esquerdo e para a parte de trás. Vê-se, então, que o autor está em movimento, como se estivesse filmando a casa que está parada. É uma descrição cinematográfica estática. A descrição pode ser, ainda, objetiva e subjetiva. • Descrição Objetiva Mostra a realidade concreta, ou seja, como todo mundo vê. Não tem intervenções e deve ser tal qual uma foto com os detalhes sendo apresentados como o são na realidade. Tem como características: linguagem denotativa e com função referencial; frases curtas em ordem direta; substantivos concretos; adjetivos pospostos; captação exata de imagens dimensionais; expressionismo; visão fria isenta e imparcial; perspectiva técnica, científica, geométrica e anatômica. “Apenas da igreja avistaram o cortejo, o sineiro, que já estava à espreita, pôs em obra as lições mais complicadas do seu ofício, enquanto uma girândola, entremeada de alguns foguetes soltos, anunciava às nuvens do céu que o imperador do Divino era chegado. Na igreja houve um rebuliço geral apenas se anunciou que era chegado o imperador. Um mestre-de-cerimônias ativo e desempenado ia abrindo alas, com grande dificuldade, porque o povo ansioso por ver a figura do tenente-coronel aglomerava-se desordenadamente e desfazia a obra do mestre-de- cerimônias. Afinal aconteceu o que sempre acontece nessas ocasiões; as alas foram-se abrindo por si mesmas, e ainda com algum custo, o tenente-coronel atravessou a multidão, precedido e acompanhado pela irmandade até chegar ao trono que se levantava ao lado do altar-mor. Subiu com firmeza os degraus, e sentou-se nele, tão orgulhoso como se governasse dali todos os impérios juntos do mundo.” (Machado de Assis. Histórias da meia-noite – A Parasita Azul, p. 30) O autor mostra-nos a realidade da chegada do Imperador do Divino, na festa que era realizada no interior de Goiás, no início do século passado. Ele apresenta as imagens em uma linguagem denotativa, com função referencial, captando-as numa visão isenta e imparcial, com perspectiva geométrica e anatômica. • Descrição Subjetiva Apresenta a opinião pessoal do autor com intervenção da imaginação. O mundo é o do faz de conta com invenção da realidade, sonhos, desejos, emoções e exageros. Geralmente é feita em primeira pessoa (eu/nós). Tem como características: linguagem conotativa e função poética; frases elaboradas; substantivos abstratos; adjetivos antepostos, captação imprecisa de imagens vagas, diluídas; impressionismo; visão pessoal e parcial; perspectiva literária, artística, como nesta descrição do Carnaval da terceira década do século XX, feita por Graça Aranha: “Maravilha de ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira, bumba, bumba. Falsetes azucrinam, zombeteiam. Viola chora e espinoteia. Melopeia negra, melosa, feiticeira, candomblé. Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos, saxofones, pandeiros, liras, gaitas e trombetas. Instrumentos sem nome, inventados subitamente no delírio da improvisação, do ímpeto musical. Tudo é canto. Os sons se sacodem, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro dos ventos, vaias, klaxons, aços estrepitosos. Dentro dos sons movem-se cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando sob o verde das árvores, em face do azul da baía no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores, movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos alucinantes. Tatos, sons, cores, cheiros se fundem em gostos de gengibre, de mendubim, de castanhas, de bananas, de laranjas, de bocas e de mucosas. Libertação dos sentidos envolventes das massas frenéticas, que maxixam, gritam, tresandam, deslumbram, saboreiam, de Madureira à Gávea na unidade do prazer desencadeado.” (Graça Aranha. A viagem maravilhosa. Apud Maria Antonieta Cunha, Ler e redigir, p. 65) O texto é uma descrição subjetiva do carnaval em que o autor revela um envolvimento afetivo e emocional abordando aspectos de tempo numa perspectiva de observador. Note-se, porém, que essa observação não é apenas dos olhos, pois estão envolvidos nela todos os sentidos, com a realidade sendo percebida pela audição nos nove primeiros períodos; a visão no período dez; o olfato no período onze; o tato no período doze, e o paladar no período treze. Há figuras de estilo, como a onomatopeia; a enumeração gradativa, em que cada palavra acentua ou abranda o sentido da anterior; e a sinestesia, com interpenetração de planos sensoriais numa linguagem figurada, expressando uma fusão de sensações diferentes. Depois que treinar bastante a descrição, por duas ou mais semanas, comece a treinar a narração. Leia atenciosamente as instruções a seguir e, da mesma forma que fez com a descrição, comece a redigir narrações. Faça-o diariamente, mas sem esquecer a descrição. 3.1.3. Narração É o relato de um ou mais fatos ou acontecimentos reais ou fictícios, em sequência lógica, com inclusão de personagens e desenrolando-se na linha do tempo, um após outro. Desse modo, há seis ingredientes para a criação de um ato narrativo: personagem, ação, espaço, tempo em desenvolvimento (ou em passagem), narrador e enredo (ou trama), tudo em uma atmosfera repleta de elementos circunstanciais. Enquanto a descrição é estática, a narração é dinâmica, com a predominância de verbos, pois, nela, o importante é a ação, o que aconteceu. Assim, em uma narração haverá sempre o desenrolar de um fato: é a ação; a presença de quem participa do fato: é a personagem; o lugar em que ocorre o fato: é o espaço; o momento em que acontece o fato: é o tempo em desenvolvimento ou em passagem; alguém que conta o fato: é o narrador e o fato em si: é o enredo ou trama. Quando se redige uma narração deve-se ter em mente uma série de perguntas a partir dos seguintes elementos: 1. Quem? – são as personagens, que podem ser gente, bicho, coisa, planta. 2. Quando? – é o tempo, a velocidade da ação, o momento, a época em que se passam os fatos. Divide-se em: • Tempo cronológico – sucessão de horas, dias, semanas, meses, anos. • Tempo psicológico – sucessão do tempo apenas no pensamento, como se fora uma viagem através do tempo na recordação do passado (flashback) ou em busca do futuro. O tempo passa por meio das ações das personagens. 3. O Quê? – é o fato, o assunto, o episódio que gerou o enredo: um crime passional, uma reunião, uma viagem, um encontro, a história de uma pessoa, tráfico de drogas, aliciamento de menores, causas para um divórcio, disputa entre herdeiros etc. 4. Como? – é o desenvolvimento da narrativa: a ação, o enredo, a trama da ação, o modo como se desenvolvem os fatos. 5. Onde? – é o local. Se o espaço é interno dá-se o nome de ambiente interno; se é um espaço restrito do lado de fora, dá-se o nome de ambiente externo; se trata de uma visão panorâmica, chama-se paisagem. 6. Espaço físico – é o local concreto: casas, prédios, lojas, repartições, cômodos, paredes, portas, janelas, decoração, objetos, utensílios, roupas, ruas, estradas, vias, praças, parques, rios, lagos, praias etc. 7. Espaço psicológico – é a atmosfera sugeridadurante a ação: alegria, tranquilidade, emoção, felicidade, surpresa, tristeza, terror, medo, agitação, suspense. 8. Por quê? – é a causa, a razão, o motivo de ter acontecido determinado fato. 9. Por isso – é o resultado, a consequência dos fatos. Para que a narração seja completa, não há necessidade absoluta da presença de todos esses elementos, mas sempre se deve permitir que o leitor tenha um registro da cena. Desse modo, o narrador pode colocar em evidência um fato em detrimento de outros, numa tarefa de seleção de dados. A narração tem como característica básica o consummatum est, ou seja, o fato narrado já ocorreu, já foi consumado, por isso, os verbos são usados quase sempre na forma do pretérito perfeito do indicativo. Quando se quer criar o imaginário ou dar sensação de fantasia, usa-se a forma do pretérito imperfeito do indicativo. Observe-se esta narração de Manoel Bandeira em Poema tirado de uma notícia de jornal: “João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número. Uma noite, ele chegou no Bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.” Tem-se, então: a) Quem? João Gostoso. b) Quando? Uma noite. c) O quê? Chegou no bar, bebeu, cantou, dançou, depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas. d) Por isso Morreu afogado. 3.1.3.1. Estrutura da narração Uma narração estrutura-se da seguinte forma: a) Exposição – é a apresentação do tema ou assunto. b) Complicação – é o desenrolar dos acontecimentos, as situações, o conflito entre pessoas e a ação desenvolvida pelas personagens. c) Clímax – é o suspense da narrativa, o ponto culminante da história, o auge do conflito. d) Desfecho – é um comentário ou generalização, uma apreciação, o resultado do conflito. Tudo isso se encontra presente no texto de Manoel Bandeira. a) Exposição: “João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.” b) Complicação: “Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro. Bebeu. Cantou. Dançou.” c) Clímax: “Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas.” d) Desfecho: “… e morreu afogado.” 3.1.3.2. O narrador Quando se tem uma narração, pressupõe-se alguém que conte um fato e que pode ou não participar dele. Esse alguém é o narrador. Ele poderá ter um ponto de vista interno ou externo, pode ser onisciente ou onipresente, ou será, ainda, personagem ou participante. a) narrador observador ou externo: É aquele que conta o fato utilizando a terceira pessoa (ele ela você eles elas / vocês) e mostra apenas o que conhece do ocorrido, não participa dos acontecimentos. Quando o ponto de vista é externo, tem-se a narração objetiva que se limita a contar os fatos sem deixar que os sentimentos transpareçam no decorrer da narrativa. Exemplo: “Cair, cair mesmo, Roma nunca caiu. Não culturalmente: este texto está em português, um dialeto do latim, língua que chegou à península ibérica por causa dos romanos. Mais: este é o mês da deusa Juno (junho), a rainha das divindades deles. E depois vêm os meses de Júlio César (julho) e o de seu sobrinho neto, Augusto (agosto) – imperador que roubou um dia de fevereiro para que seu mês ficasse tão longo quanto o do tio. Até o nosso dinheiro tem algo de Roma. Os primeiros planos econômicos que substituíram uma moeda desvalorizada por uma nova aconteceram lá. No ano de 312, trocaram o áureo pelo sólido. Cada 275 mil áureos viraram 1 sólido. Em 1994, cada 2.750 cruzeiros viraram 1 real.” (Superinteressante, ed. 279, junho 2010, p. 50) b) narrador onisciente ou onipresente: O ponto de vista é interno. O narrador não apenas conhece os fatos, como tem a capacidade de enxergar o que se passa na mente da personagem, em seu espaço interno, íntimo, psicológico ou sentimental. É como se ela estivesse dialogando consigo mesma. Às vezes é um suspiro, um pensamento em voz alta, uma reflexão, um xingamento. O narrador não fica apenas no que ele conhece dos fatos. Ele é onisciente ou onipresente. Um belo exemplo está no excerto de Graciliano Ramos, em Vidas Secas, quando ele penetra o pensamento da personagem no trecho “O soldado amarelo”. O narrador inicia contando o fato e, a seguir, penetra no pensamento da personagem. É como se fora um solilóquio: “(…) chegou a mão esquerda, grossa e cabeluda, à cara do polícia, que recuou e se encostou a uma catingueira. Se não fosse a catingueira, o infeliz teria caído. Fabiano pregou nele os olhos ensanguentados, meteu o facão na bainha. Podia matá-lo com as unhas. Lembrou-se da surra que levara e da noite passada na cadeia. Sim, senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo? O rosto de Fabiano contraía-se, medonho, mais feio que um focinho. Hem? Estava certo? Bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. Por quê? Sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos azuis abriam-se demais, numa interrogação dolorosa. O soldado encolhia-se, escondia-se por detrás da árvore.” (Graciliano Ramos – Vidas Secas, p. 101) O narrador enxerga o que passa na mente de Fabiano nos trechos: “Podia matá- lo com as unhas” e “Sim, senhor. Aquilo ganhava dinheiro para maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo?” E novamente penetra no pensamento de Fabiano ao dizer: “Hem? Estava certo? Bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. Por quê?” Essa forma de mostrar o pensamento da personagem é típica do narrador onisciente. c) narrador personagem: O ponto de vista é interno. O narrador participa dos fatos como uma das personagens e conta em primeira pessoa. Exemplo: “Uma coisa que sempre me comoveu (e intrigou) é a alegria da rapaziada da coleta de lixo. Dia sim, dia não, o caminhão da SLU desce a minha rua e eles fazem aquela algazarra. Quase sempre estão brincando, tirando sarro uns com os outros, sorridentes e solícitos com os moradores. Mesmo na pressa de apanhar os sacos de lixo, encontram tempo para gritar “bom- dia, patrão” ou para comentar a vitória do Galo, a derrota do Cruzeiro ou vice-versa.” (Jorge Fernandes dos Santos. Disponível em HTTP://umacoiosaeoutra.com.br/cultura/jorge.htm> Acesso em 10 dez. 2009) Quando o ponto de vista é interno (casos do narrador onisciente e do narrador personagem) tem-se a narração subjetiva em que os fatos são apresentados levando-se em conta as emoções, os sentimentos envolvidos na história. Nota-se claramente a posição sensível e emocional do narrador, ao relatar os acontecimentos. O fato não é narrado de modo frio e impessoal, mas de maneira pessoal, dando destaque aos efeitos psicológicos (alegria, agitação, ânsia, ternura, desprezo etc.) que os acontecimentos desencadeiam nas personagens. 3.1.3.3. O discurso As personagens falam, e a fala das personagens é conhecida como discurso, que pode ser direto, indireto e indireto livre. • Discurso Direto http://umacoiosaeoutra.com.br/cultura/jorge.htm É quando o narrador transcreve a fala da personagem tal qual ela falou. Tem as seguintes características: a) quase sempre apresenta verbos de elocução, também chamados verbos dicendi como falar, perguntar, dizer, indagar, replicar, argumentar, inquirir, responder, retrucar, afirmar etc. b) quando não apresenta esses verbos, tem recursos de pontuação (dois- pontos, mudança de linha, travessão, aspas). Exemplo com verbo de elocução ou dicendi: “Um mineiro estava acocorado à beira da estrada, enrolando o cigarrinho de palha, quando um sujeito parou o carro e indagou: – Escuta: esta estrada vai para Belo Horizonte? Ao que o mineiro respondeu: – Moço, se vai eu num sei, mas se fô vai fazê uma farta!…” Observe que antes das duas falashouve verbos de elocução ou dicendi (indagar e responder) que sublinhamos no trecho. Exemplo sem verbo dicendi tirado de um texto do escritor Paulo Mendes Campos: “Era uma vez um menino triste, magro, barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Por volta da soalheira do meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho, imaginando bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo: – Você aí, menino, para onde vai essa estrada? – Ela num vai não, nóis é que vamo nela. – Metido a engraçadinho, hein? Como você se chama? – Eu num me chamo não; os outros é que me chamam de Zé.” No texto, não houve verbos de elocução (ou dicendi), mas apenas os dois pontos antes da primeira fala do vigário. • Discurso Indireto Apresenta as seguintes características: a) O narrador é quem informa a “fala” da personagem. b) A “fala” é realizada em uma oração subordinada substantiva objetiva direta. c) O verbo dicendi é obrigatório (será a oração principal da subordinada substantiva). d) Geralmente a oração subordinada está na terceira pessoa. Exemplo: “Ele afirmou que se não fosse o número dois, o amor não existiria. Acrescentou que o amor surge porque há dois indivíduos e quer deles fazer um.” • Discurso Indireto livre Apresenta as seguintes características: a) O narrador é onisciente. b) Não terá verbo dicendi, dois-pontos, mudança de linha, travessão ou aspas. c) O narrador apresenta o pensamento da personagem em períodos livres, sem qualquer elo subordinativo. Exemplo (sublinhamos o discurso indireto livre): “Foi à sala, passou por baixo do punho da rede onde Fabiano roncava (…). O chocalho da vaca laranja tilintou para os lados do rio. Fabiano era capaz de se ter esquecido de curar a vaca laranja. Quis acordá-lo e perguntar, mas distraiu-se olhando os xiquexiques e os mandacarus que avultavam na campina.” (Graciliano Ramos, Vidas Secas, p. 41) 3.1.3.4. Transposição dos discursos O discurso direto pode ser transformado em discurso indireto, e o indireto, em direto. Para tanto, é necessário que se façam modificações nos verbos e nos pronomes, como se verifica a seguir: a) discurso direto: verbo no presente do indicativo: “Não gosto de romances”, disse Rosânia. discurso indireto: verbo no pretérito imperfeito do indicativo: Rosânia disse que não gostava de romances. b) discurso direto: verbo no pretérito perfeito do indicativo: Ivone afirmou: “Afastei as más lembranças.” discurso indireto: verbo no pretérito mais-que-perfeito simples ou composto: Ivone afirmou que afastara (ou tinha/havia afastado) as más lembranças. c) discurso direto: verbo no futuro do presente: Andrey indagou: “Sairemos juntos amanhã?” discurso indireto: verbo no futuro do pretérito: Andrey indagou se sairíamos juntos amanhã. d) discurso direto: verbo no imperativo, no presente do subjuntivo ou no futuro do subjuntivo: Zarli alertou: “Preparem-se, pois o concurso vem aí!” Jeane sempre repetia: “Espero que ele passe, pois estuda bastante.” Phelipe replicou: “Se eu passar será maravilhoso!”. discurso indireto: verbo no pretérito imperfeito do subjuntivo: Zarli alertou que se preparassem. Jeane sempre repetia que esperava que ele passasse. Phelipe replicou que se passasse seria maravilhoso! e) discurso direto: primeira ou segunda pessoa: Eliana reiterou: “Não quero sair hoje com o Gervinho.” discurso indireto: pronomes na terceira pessoa: Eliana reiterou que não queria sair naquele dia com o Gervinho. f) discurso direto: pronomes demonstrativos este ou esse: Elisângela pegou a laranja e disse: “Esta é a mais doce.” discurso indireto: Elisângela pegou a laranja e disse que aquela era a mais doce. g) discurso direto: forma interrogativa: Larissa abriu o estojo, contou os lápis e perguntou: Cadê o amarelo? discurso indireto: forma declarativa: Larissa abriu o estojo, contou os lápis e perguntou pelo amarelo. h) discurso direto: vocativo. Você quer café, Rosânia?, perguntou Rosemary. discurso indireto: objeto indireto na oração principal: Rosemary perguntou a Rosânia se ela queria café. RESUMINDO A narração compreende: 1) Tempo a) cronológico (tempo real) b) psicológico (tempo mental) 2) Espaço Lugar em que se desenrolam as ações: cenário. 3) Ação Sucessão de fatos. 4) Personagem(ns) define(m)-se física e psicologicamente pela descrição. 5) Foco a) de terceira pessoa: narrador onisciente (o que tudo sabe) e narrador observador (só vê) b) de primeira pessoa: narrador personagem (participa) 6) Discurso a) direto – a fala da personagem b) indireto – o narrador traduz a fala da personagem c) indireto livre – fusão da fala do narrador e da personagem Leia este texto: “A Incapacidade de Ser Verdadeiro Paulo tinha fama de ser mentiroso. Um dia, chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da Independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, Dr. Epaminondas abanou a cabeça: – Não há nada a fazer, Dona Coió. Este menino é mesmo um caso de poesia.” (Carlos Drummond de Andrade) Veja, nesse texto, os elementos que compõem a narração: a) Descrição da personagem: “Paulo tinha fama de ser mentiroso.” b) Tempo: “Um dia” (L. 1) e “…na semana seguinte…” (L.4). c) Espaço: “…em casa…” (L. 1) d) Ação: “A mãe botou-o de castigo…” (L. 4), “…ele provou e tinha gosto de queijo.” (L. 6) “Quando o menino voltou…” (L. 8) e “…a mãe decidiu levá-lo ao médico.”(L. 10) e) Discurso indireto: “…dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.”(L. 1-3); “… contando que caíra na escola um pedaço de lua todo cheio de buraquinhos feito queijo e ele provou e tinha gosto de queijo.”(L. 4-6); “…falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu…” (L. 8-10). f) Discurso direto: “Não há nada a fazer, Dona Coió. Este menino é mesmo um caso de poesia.” (L. 12-13). Agora que você entendeu a narração, faça, como sugerimos, diversas redações narrativas, da mesma forma que fez com a descrição. Enquanto isso, estude e procure entender a dissertação, matéria na qual nos demoraremos mais, tendo em vista ser esse o tipo de redação mais solicitado em provas de concursos. 3.1.4. Dissertação Dissertar é apresentar considerações com respeito a um tema abstrato, um fato doutrinário, um assunto genérico, a fim de expor, explicar, explanar ou interpretar ideias. Em resumo, é tecer ideias em torno de um assunto qualquer, esclarecendo verdades que o envolvem, discutindo sua problemática, defendendo princípios na tomada de uma posição. É o que fazemos diariamente. A todo instante procuramos justificativas sobre a alta dos preços nos supermercados, o aumento da violência urbana, a falta de transportes, o mau atendimento hospitalar, a escola das crianças. Defendemos nossos pontos de vista em relação à liberdade individual, ao futebol, à política, à religião, e nos preocupamos com os problemas decorrentes da poluição, com a maneira de educar os filhos e até mesmo com o sistema de governo. Tudo isso é dissertação. Podemos, pois, dizer que dissertação é a discussão de ideias, organização do pensamento, raciocínio, defesa de pontos de vista, descoberta de soluções. É refletir sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca com base em um plano de desenvolvimento, esclarecendo o tema, discutindo a sua problemática, defendendo princípios, tomandoposições e traçando soluções. É o que se observa no texto a seguir: “Em recente levantamento, a Prefeitura de São Paulo contou 8.334 pessoas vivendo nas ruas da cidade, número 17,26% maior do que o do ano passado e 92,45% maior do que o de 1991, quando a pesquisa foi realizada pela primeira vez. São homens, mulheres e crianças que, sem endereço fixo, sobrevivem de esmolas, do comércio do lixo ou mesmo do crime. Essa realidade, que também contribui para a sensação de insegurança que atinge todos os cidadãos, é consequência direta das injustiças de um sistema econômico que não consegue sequer dar alguma proteção aos mais desfavorecidos. O morador de rua é a vítima mais evidente de efeitos que tanto as crises como os ajustes econômicos implicam. O aumento do número de pessoas espalhadas por São Paulo, verificado nos últimos anos, período em que o país está sob os efeitos (os bons, mas também os ruins) do pouco aumento da taxa SELIC, mostra que, mesmo no caso de encaminhamentos considerados bem-sucedidos na economia, há sempre um preço a pagar. Mas, se desse custo é praticamente impossível fugir, não é necessariamente impossível diminuir seus efeitos danosos. Estabelecer um programa mais efetivo de assistência a essas pessoas não demanda vultosos recursos. Certamente o problema poderia ser resolvido em boa parte se houvesse empenho do poder público. Há custos sociais espalhados por capitais de todo o país. Amenizá-los não chega a ser uma tarefa árdua, mas necessitada de vontade política.” (Folha de São Paulo “Editorial”, 15/10/2009) O autor aborda o tema dos sem-teto da cidade de São Paulo, que vêm aumentando a cada ano. No primeiro parágrafo, ele traz o assunto, esclarecendo- o e, nos dois parágrafos centrais, discute a realidade dos sem-teto, o porquê do seu aumento e o problema causado. No último parágrafo, toma uma posição e aponta soluções que podem resolver o problema. 3.1.4.1. Tipos de dissertação • Expositiva Apresenta ou explica as ideias sem ter a preocupação de convencer o leitor. Não há intenção de debater o assunto, nem de polemizar, ou, ainda, de contestar posições diferentes das nossas, como se vê a seguir: “A demanda doméstica depende de vários fatores, e da perspectiva do seu aumento depende a produção industrial. É normal, então, dar atenção especial ao nível do emprego e à evolução da massa salarial real, sem deixar de acompanhar as receitas e despesas do governo federal. Enquanto a ligeira retomada da economia norte-americana é acompanhada por aumento do desemprego, no Brasil o quadro é diferente. Os dados de julho, nas seis principais regiões do País, mostram redução do desemprego de 8,1% para 8%, o que significa a geração de 185 mil postos de trabalho. Essa taxa de desemprego, em julho, é a menor da série desde 2002. Paralelamente, houve melhora na qualidade do emprego, e 142 mil postos foram criados com carteira de trabalho assinada.” (O Estado de S. Paulo. “Editorial”. 21/8/2009) • Argumentativa Tenta convencer o leitor de que a razão está do lado de quem escreveu o texto. O autor é o dono da razão e, para provar tal fato, lança mão de raciocínio lógico, coerente e com base em evidência de provas. Exemplo: “O sistema atual de remuneração de professores opera na direção contrária da lógica de mercado – o tal do mercado que aos poucos vai se impondo como parte da realidade, exceto aos mais radicais. A lógica que prevalece é a seguinte: o salário inicial é baixo; salário inicial baixo atrai alunos menos preparados para carreiras de magistério; alunos menos preparados têm pior desempenho; os professores recrutados dentro desse grupo ou não são submetidos ou não alcançam níveis adequados em testes que medem as competências requeridas; os estágios probatórios são meros rituais burocráticos. E, para completar, o sistema de carreira de magistério fornecido pelos governos e pressionado pelas corporações é perverso, incentiva maior remuneração para variáveis e atributos formais que não guardam qualquer relação com desempenho decente, tais como tempo de serviço e frequência a cursos adicionais. O diretor da escola pública não dispõe de instrumentos para administrar seu pessoal. Resultado: salários iniciais baixos geram um mercado de professores formados pelos alunos de pior desempenho acadêmico – um mercado de limões.” (Araujo e Oliveira. Jornal do Brasil. 3/6/2003, p.A-14) Tanto na dissertação expositiva como na dissertação argumentativa, é necessário que se tenha domínio do assunto, cultura apreciável e sobretudo domínio das estruturas sintáticas mais elaboradas e do período composto por subordinação. Um material excelente são as orações reduzidas de infinitivo, particípio e gerúndio. Quanto ao ponto de vista do autor, têm-se dois tipos de dissertação: I. Dissertação Subjetiva – o autor se deixa envolver ao expressar as suas ideias. Usa verbos na primeira pessoa, num texto em que predomina a função emotiva, mostrando as opiniões do eu falante. Exemplo: “A única conclusão a que posso chegar é que, de todos os problemas brasileiros, o que mais sobressai em importância e gravidade é o da educação. Todos os outros, até mesmo os problemas econômicos e sociais, não podem ser comparados ao problema educacional, quando se fala em qualquer hipótese de reconstrução nacional. Assim, entendo que, se o desenvolvimento do sistema cultural do país depende de suas condições econômicas, não há dúvida de que é impossível desenvolver qualquer tipo de força econômica ou de produção sem o preparo intensivo dos seus operadores.” (Senador Cristóvão Buarque / entrevista ao Correio Braziliense) II. Dissertação Objetiva – O autor usa verbos na terceira pessoa e defende conceitos de conhecimento de todos, conceitos universais ou que já foram expressos em outros textos. É o tipo de dissertação solicitado em provas de concursos. Exemplo: “A juventude de hoje vive um processo inusitado na história: tem saudades daquilo que não conheceu nem viveu, mas sabe ao certo como foi e curte. Por quê? Porque vive um quotidiano de grande mutação que a nada fixa, consolida ou solidifica. Tudo é provisório, do bem de consumo à moradia e ao casamento. Uma certa necessidade de solidez, pelo menos no que é básico da vida, é importante para o jovem. Protege-o. E aquilo que permaneceu a respeito de mudanças é algo sólido, feito de um material que aplaca no jovem o medo inconsciente ou consciente da transitoriedade e provisoriedade que o cercam.” (Artur da Távola. Disponível em <http://www.jornalhorah.com.br/coluna/artur1.htm> Acesso em 28 dez. 2004) 3.1.5. A redação bem escrita Você já sabe o que é a tipologia textual. Mas, antes de escrever, há ainda muita coisa para seu conhecimento. Uma delas: a maioria dos candidatos tem a impressão de que uma boa redação se define pela correção da linguagem. De fato, escrever com correção, sobretudo um texto dissertativo, é importante, mas não suficiente. Para comprovar isso, basta confrontar os três enunciados a seguir, igualmente corretos, com o mesmo sentido e perceber que um é francamente o melhor. 1. Todo mundo já viu pessoas que defendem certos direitos que são justos, mas que, na hora de defendê-los, não têm bons argumentos e aí mais prejudicam do que ajudam. Exemplo disso são os ecologistas. 2. Há pessoas comprometidas com causas justas, mas, por não saberem defendê- las, causam mais prejuízo do que benefício. É o que ocorre com o problema da Ecologia. 3. Nada pior para uma boa causa do que maus defensores: é o que acontece com a Ecologia. Fica evidente que o terceiro texto é muito mais bem redigido e merece melhor nota do que os dois anteriores. O primeiro é o pior deles; o segundo,menos ruim, e o terceiro é melhor. Por quê? Os três são corretos gramaticalmente, os três falam do mesmo assunto, mas o terceiro supera os outros em precisão, clareza e simplicidade. É isso que o examinador vai olhar inicialmente. E não adianta pedir recurso. Bom texto é o que atinge o resultado programado. Com base nisso é mais funcional trocar o conceito de “correção” pelo de “direcionalidade”. Desse modo, pode-se afirmar que bom escritor não é o que escreve correto, mas o que sabe escolher para o seu texto a direcionalidade que pode ser chamada de http://www.jornalhorah.com.br/coluna/artur1.htm orientação argumentativa. É a competência de controlar o texto e orientá-lo para o rumo que se quer dar a ele. Mais do que a simples posse do conhecimento, uma redação de concurso procura avaliar se o candidato está envolvido com os problemas do mundo em que vive, se tem sensibilidade social, preocupação ética, hábito de reflexão, capacidade de usar os conhecimentos adquiridos em favor da coletividade, se sabe usar a linguagem para fazer-se entender e para ouvir as razões do outro. O candidato deve preocupar-se em revelar essas qualidades por meio de uma redação bem escrita. 3.1.6. Exercícios 1. Exercício de descrição: Agora que você obteve uma visão geral de descrição, narração e dissertação, procure, inicialmente, treinar a descrição. Faça isso diariamente durante, pelo menos, uma semana. Por exemplo: 1. Faça a descrição da sala de sua casa. 2. Descreva uma pessoa amiga. 3. Procure descrever uma praça ou uma rua. 4. Conte como é o fogão de sua casa ou a geladeira. 5. Descreva uma paisagem da qual não esqueceu. 6. Conte como é o jardim que você gostaria de ter. Essas são apenas sugestões. Faça, de qualquer modo, uma descrição por dia e, depois, apresente-a a uma pessoa amiga ou, se tiver oportunidade, a um professor de redação e peça opinião. Procure saber se você conseguiu fotografar, colocar na mente do leitor, a sala, a pessoa, a praça, o fogão, a paisagem, o jardim. Em seu treinamento, você escreverá várias descrições, uma por dia. Releia no dia seguinte o que escreveu e corrija os erros notados. Não esqueça: só se aprende a escrever escrevendo. Procure reescrever suas descrições. Lembre-se de que é necessário ter disciplina e força de vontade. Não desanime. Vá em frente, mesmo que os primeiros trabalhos não pareçam bons. É assim que se começa. 2. Exercício de narração: Observe o texto de Ziraldo: O Cacique estava indo de trem para a cidade para assinar um Tratado de Paz com o branco. Ia ele e o ajudante de ordens do lado. De repente, o Cacique vira-se para o ajudante de ordens e diz: – Ajudante Pomba Roxa, Cacique Touro Sentado tem sede. Buscar água. Pomba Roxa pegou o copo, foi ao toalete do vagão, voltou com o copo cheio d’água. Cacique Bebeu. Mais meia hora, olha o Cacique de novo: – Ter sede. Pomba Roxa levanta, vai ao reservado, volta com o copo cheio. Meia hora depois, mais sede. Pomba Roxa vai lá, volta com água. Lá pela sétima vez, Pomba Roxa volta do toalete com o copo vazio. – Que aconteceu? – perguntou Touro Sentado. – Água acabou? – Não – respondeu Pomba Roxa – tem branco sentado no poço! Agora responda (gabarito comentado no final do livro): 1. O que faz deste um texto narrativo? 2. Retire expressões que indiquem noções de espaço. 3. Aponte as expressões que indicam tempo. 4. Reescreva os verbos de elocução (ou verbos dicendi) que aparecem no texto. 5. Passe os discursos diretos para discursos indiretos. a) “– Ajudante Pomba Roxa, Cacique Touro Sentado tem sede. Buscar água”. b) “– Que aconteceu? – perguntou Touro Sentado. – Água acabou?” c) “– Não – respondeu Pomba Roxa – tem branco sentado no poço.” Gabarito comentado no final do livro. Se você já fez as descrições solicitadas e procurou aprimorá-las, passe para a narração. Será mais uma semana de trabalho diário. 1 – Conte um encontro que teve com um(a) amigo(a). 2 – Narre sua ida para o trabalho ou para o curso. 3 – Diga o que aconteceu com você hoje pela manhã. 4 – Procure contar um acidente ou um fato que você viu na TV. 5 – Ponha a imaginação para funcionar e conte uma história qualquer. Da mesma forma que fez com a descrição, procure escrever várias narrações, uma por dia, mostre-as para outras pessoas e peça opinião. Dependendo do que lhe disserem, procure reescrevê-las e aperfeiçoá-las. Se houver oportunidade, mostre-as a um professor de redação. Mas não fique preso às sugestões aqui apresentadas para descrição e narração. Solte a sua mente. Aproveite a sua criatividade. Procure outros assuntos e aprimore-se nesses dois tipos de textos. Seria agora a vez da dissertação que, como afirmamos anteriormente, é o tipo de redação mais exigido em provas de concurso. Porém, antes de estudarmos como se redige uma dissertação, vamos, passo a passo, descobrir seus segredos, começando pela paráfrase. Capítulo 4 A Paráfrase Deve-se pensar antes de escrever, pois tudo o que concebemos bem enunciamos com clareza e, assim, as palavras chegam facilmente. Nicolas Boileau, escritor francês (1636-1711) 4.1. PARÁFRASE No capítulo anterior, vimos o que é uma dissertação e tivemos alguns exemplos desse tipo de redação. Agora vejamos o que é a paráfrase, uma maneira simples e fácil de se começar a escrever dissertações. Depois, nos próximos capítulos, detalharemos a dissertação, começando pelo parágrafo, os diversos tipos de parágrafos, o planejamento de uma dissertação e a redação propriamente dita, e mostraremos a técnica do planejamento de um texto, para, depois de vários e vários exercícios, aplicar no dia do concurso. A paráfrase é a forma de reprodução de um texto em que se pretende mostrar o sentido captado, recontando-o com palavras diferentes das usadas pelo autor. Ou seja: lê-se um texto e tenta-se reescrevê-lo. Assim, faz-se uma paráfrase quando se diz, de maneira clara, em um novo texto, o que está implícito em um primeiro texto, mas sem comentários marginais, sem nada a acrescentar e sem nada a omitir do que seja essencial, usando torneios de frase, com outras palavras, numa nova versão sucinta e fiel, em que haja pleno entendimento do texto original. Exemplo: “Foi um amigável acerto de contas, graças ao qual o Brasil talvez não precise mais caminhar para o século XXI empunhando como novidade as ideias de uma geração biologicamente concebida meio século atrás.” (Texto adaptado de “A Sucessão”, Revista Veja 25 anos) Paráfrase desse texto: “O jovem moderno talvez não tenha a necessidade de, em pleno século XXI, olhar o futuro considerando como novidade as ideias de uma geração biologicamente concebida meio século antes, graças a um amigável acerto de contas.” Assim, essa paráfrase recria o contexto com base na estrutura frásica do texto anterior da revista Veja, tendo como apoio os seus referentes sintáticos na construção de um novo período. Outro exemplo, citado por vários autores, encontra-se no soneto de José Bonifácio, o Moço, escrito no século XVIII e denominado “Saudades”, e a sua paráfrase, escrita no século XIX por Luís Guimarães Jr., sob o título Visita à Casa Paterna. Observe o texto de José Bonifácio, o Moço: SAUDADES Deserta a casa está. Entrei chorando, De quarto em quarto, em busca de ilusões! Por toda a parte as pálidas visões! Por toda a parte as lágrimas falando! Vejo meu pai, na sala caminhando, Da luz da tarde aos pálidos clarões; De minha mãe escuto as orações Na alcova onde ajoelhei, rezando. Brincam minhas irmãs (doce lembrança!) Na sala de jantar. Ai! Mocidade, És tão veloz, e o tempo não descansa! Ó sonhos, sonhos meus de claridade! Como é tardia a última esperança! Meu Deus! Como é tamanha esta saudade!E agora, veja o texto de Luís Guimarães Jr: VISITA À CASA PATERNA Como a ave que volta ao ninho antigo, Depois de longo e tenebroso inverno, Eu quis também rever o lar paterno, O meu primeiro e derradeiro abrigo. Entrei. Um gênio carinhoso e amigo, O fantasma, talvez, do amor materno, Tomou-me as mãos, olhou-me, grave e terno, E passo a passo, caminhou comigo. Era esta a sala… (Oh! Se me lembro e quanto!) Em que, da luz noturna à claridade, Minhas irmãs e minha mãe… O pranto Jorrou-me em ondas… Resistir quem há-de? Uma ilusão gemia em cada canto, Chorava em cada canto uma saudade. O tema dos dois sonetos é o mesmo: a volta saudosa à casa paterna. Ambos, no primeiro quarteto, falam da chegada ao antigo lar; no segundo, vem a lembrança dos pais. No primeiro terceto, surge o vulto querido das irmãs e, no segundo, aparece o sentimento de ilusão e de saudade do ambiente familiar que o tempo levou para nunca mais. Um é a reescritura do outro, mas com uma nova criatividade. Não há desvio nenhum do tema ou o desvio é mínimo. Trata-se de paráfrase. Procure fazer paráfrases de editoriais, colunas de jornais, textos dissertativos. Treine para aprender como os autores escrevem e como relacionam as ideias. Depois, passe a fazer a paráfrase estilizada, como veremos a seguir. 4.1.1. Estilização É um tipo de paráfrase que se distancia um pouco mais do texto original. Há uma nova construção, um remake como no caso de uma peça teatral, novela, filme ou minissérie extraídos de um romance como “Mad Maria”, “A Casa das Sete Mulheres”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” ou “Sinhá Moça”. Mantém-se a ideia fundamental, porém dando um novo tratamento à história, com variações estilísticas. Um exemplo clássico está no texto bíblico da história de Jacó e Raquel em Gênesis, Capítulo 29, versos 16 a 30 e sua famosa estilização feita pelo poeta Luís Vaz de Camões em um de seus mais belos sonetos. Diz o texto bíblico: “Aconteceu que Labão tinha duas filhas. O nome da mais velha era Lia, e o nome da mais moça, Raquel. Mas os olhos de Lia não tinham brilho, ao passo que Raquel se tinha tornado bela de figura e bela de semblante. E Jacó amava Raquel. De modo que ele disse: ‚Estou disposto a servir-te sete anos por Raquel, tua filha mais moça.’ A isso Labão disse: ‚É melhor para mim dá-la a ti do que dá-la a outro homem. Fica morando comigo.’ E Jacó passou a servir sete anos por Raquel, mas eles se mostraram aos seus olhos como apenas alguns dias, por causa do seu amor por ela. Jacó disse então a Labão: ‚Entrega-me a minha esposa, porque terminaram os meus dias e tenha eu relações com ela.’ Em vista disso, Labão ajuntou todos os homens do lugar e deu um banquete. Deu-se, porém que durante a noitinha recorreu a tomar Lia, sua filha, e a trazê-la a ele, para que tivesse relações com ela. Além disso, Labão deu a ela Zilpa, sua serva, sim a Lia, sua filha, como serva. Ora, sucedeu que, de manhã, eis que era Lia! Por conseguinte, ele disse a Labão: ‚Que é isso que me fizeste? Não foi por Raquel que te servi? Assim, por que me lograste?’ Labão disse a isso: ‚Não é costumeiro fazer assim no nosso lugar, dar a mais jovem antes da primogênita. Celebra plenamente a semana desta mulher. Depois se há de dar a ti também esta outra mulher, pelo serviço que podes prestar-me por mais sete anos.’ Concordemente, Jacó fez assim e celebrou plenamente a semana desta mulher, após o que lhe deu Raquel, sua filha por esposa. Além disso, Labão deu Bila, sua serva, a Raquel, sua filha, como serva dela. Daí teve também relações com Raquel e expressou também mais amor por Raquel do que por Lia, e foi servir-lhe mais sete anos.” (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, Ed. Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, S. Paulo) A estilização dessa história bíblica de amor foi feita pelo poeta Luís Vaz de Camões em um soneto em que ele relata de forma bem lírica e estilizada o mesmo episódio: Sete anos de Pastor Jacó servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela Que a ela só por prêmio pretendia. Os dias na esperança de um só dia Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel, lhe deu a Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Assim lhe era negada a sua pastora Como se não a tivera merecida Começou a servir outros sete anos Dizendo: – “Mais servira, se não fora Para tão longo amor, tão curta a vida.” Como se pode verificar, o texto de Camões desvia-se da história bíblica, dizendo ser Raquel uma “serrana bela” no segundo verso do primeiro quarteto e, no último terceto, no discurso direto de Jacó: “Mais servira, se não fora para tão longo amor, tão curta a vida”, descaracterizando, assim, a paráfrase. Além disso, percebe-se a estilização tendo em vista que a função poética da linguagem, usada pelo autor, tem como finalidade valorizar a forma da mensagem, recontando o fato de maneira diferente. Houve uma nova construção da história de Jacó e Raquel. 4.1.2. Paródia Após fazer paráfrases, procure treinar fazendo paródia. É uma forma em que há um distanciamento completo do texto original, quer na sua estrutura quer no sentido. A mesma história bíblica de Jacó e Raquel, que vimos estilizada por Camões, foi retomada pelo poeta Bastos Tigre, numa paródia do soneto camoniano, dando-lhe um desvio mais acentuado: “Sete anos de pastor Jacó servia Labão, pai de Raquel”, gentil criatura, Porém, servindo ao pai, Jacó queria A filha desposar, conta a Escritura… Quando, entretanto, chegando o dia De, no contrato, apor a assinatura, Mestre Labão quis impingir-lhe a Lia, Que era feia, zarolha e já madura. Porém Jacó, que percebera o logro, Gritou ao pai Labão: – “Não vou no embrulho!” E ao demônio mandou a Lia e o sogro. E ante os pastores escandalizados, Jacó raptou Raquel e, em doce arrulho, Foram viver os dois… “como casados”. Nessa paródia, o poeta Bastos Tigre se desvia do texto bíblico, utiliza termos como “apor a assinatura no contrato” e, aproveitando que o texto original informa ser Lia mais velha e que “seus olhos não tinham brilho”, conclui que ela “era feia, zarolha e já madura”. Também não diz que Jacó esperou mais sete anos, mas afirma que “raptou Raquel” e foi viver com ela como se fossem casados. A paródia pode também ser construída de forma inteiramente caricata, o que é comum na poesia popular. Essa mesma história bíblica de Jacó e Raquel foi recontada numa paródia caricata do poema de Camões feita pelo poeta Alexandre Marcondes Machado, mais conhecido como “Juó Bananére”. Em seus poemas, nos anos 1920 a 1930 do século passado, ele procurava imitar o português estropiado dos italianos recém-chegados a São Paulo e que iam residir no bairro do Braz. Observe-se como ele reconta a história: Sette anno di pastore, Giacó servia Labó, Padre da Raffaella, serrana bella, Ma non servia o pai, che illo no era troxa nó! Servia a Raffaella pra si gazá co’ella. I os dias, na esperanza de um dia só, Apassava spiáno na gianella; Ma o paio, fugino da gumbinaçó, Deu a Lia inveiz da Raffaella. Quano o Giacó adiscobri o ingano, E que tigna gaído na sparrella, Ficó c’un brutto d’un garó di arara. I incominció di servi otros sette anno Dizeno: – “Si o Labó non fossi o pai della Io pígava elli e li quibrava a gara”. Como se vê, a paródia tem bastante criatividade no intertexto. Há, pois, uma recriação do texto original, mas com um distanciamento bem maior e que até mesmo pode-se dizer contrário a ele. 4.1.3. Exercícios Para treinar, a fim de entender bem a paráfrase, procure resolver, agora, algumas questões de provas de concursos em que o comando feito pelo examinador solicita ao candidato indicar esse tipo de texto. Tente respondê-las. 1. (Esaf/AssessorFiscal da Receita Federal) Assinale a opção em que o segundo texto representa uma paráfrase textual e gramaticalmente correta do primeiro. a) 1. Cumpre associar o indivíduo no processo de autoridade, isto é, o trabalhador no poder industrial. A exclusão de alguém de uma parceria do poder é, forçosamente, a exclusão daquele, dos benefícios deste. 2. Cumpre associar o indivíduo ao poder industrial, ou seja, o trabalhador ao processo de autoridade. Inobstante excluir alguém de uma parcela do poder é forçosamente excluí-lo dos benefícios deste poder. b) 1. Todos deviam e devem, portanto, ter direito a uma parte dos resultados da vida social. E as diferenças devem existir somente quando necessárias ao bem comum. 2. Portanto, todos deviam e devem ter direito a uma parte dos resultados da vida social por que, somente quanto necessário, deve haver diferenças no bem comum. c) 1. Impõe-se, pois, uma igualdade econômica maior, porque os benefícios que um homem pode obter do processo social estão aproximadamente em função de seu poder de consumo, o que resulta de seu poder de propriedade. Assim os privilégios econômicos são contrários à verdadeira sociedade democrática. 2. Os privilégios econômicos são contrários à verdadeira sociedade democrática conquanto os benefícios que um homem pode obter do processo social, em função de seu poder de consumo – o que é resultado de seu poder de propriedade. d) 1. O próprio conceito de liberdade redefine-se através dos séculos, de acordo com as circunstâncias históricas e o desenvolvimento das forças econômicas. E a liberdade, no mundo atual, só existirá de fato quando assentada na segurança e em função da igualdade. 2. De acordo com as circunstâncias históricas, o próprio conceito de liberdade redefine-se através dos séculos, segundo o desenvolvimento das forças econômicas, e aquela só existirá quando baseada na segurança e na igualdade. e) 1. Para que a liberdade realmente exista, é preciso que a sociedade se estruture sobre cooperação e não sobre a exploração. E assim os homens serão livres. 2. É necessário que a sociedade se organize não sobre a exploração, mas sobre a cooperação, a fim de que a liberdade exista de fato e os homens sejam, realmente, livres. 2. (Esaf/Assessor Fiscal da Receita Federal) Analise as paráfrases propostas para o período a seguir e assinale aquela em que se preservam as relações semânticas. “Não denunciamos com eficiência o desemprego e o desleixo com que tratamos metade da população urbana brasileira que vive em condições subumanas.” (SAYAD, João. “Crime e Castigo”. Revista Classe, nº 87, 2002 – com adaptações) a) Não denunciamos com eficiência o desemprego e o desleixo que metade da população urbana é, por nós, tratada e que vive em condições subumanas. b) Tratamos com o desemprego e o desleixo metade da população urbana brasileira vivendo em condições subumanas, não a denunciamos com eficácia. c) Não somos eficazes em denunciar nem o desemprego nem o desleixo com que tratamos metade da população urbana brasileira que vive em condições subumanas. d) Metade da população urbana brasileira que vive em condições subumanas não é denunciada com eficácia quanto ao desemprego e o desleixo com que a tratamos. e) Não denunciamos metade da população urbana brasileira – que vive em condições subumanas – devido à nossa ineficácia e o desleixo que tratamos o desemprego. 3. (Esaf/Assessor Fiscal da Receita Federal) Marque a opção que não constitui paráfrase do segmento: “O abolicionismo que logrou pôr fim à escravidão nas Antilhas Britânicas teve peso ponderável na política antinegreira dos governos britânicos durante a primeira metade do século passado. Mas tiveram peso também os interesses capitalistas, comerciais e industriais, que desejavam expandir o mercado ultramarino de produtos industriais e viam na inevitável miséria do trabalhador escravo um obstáculo para esse desiderato.” (Paul Singer. A formação da classe operária. São Paulo, Atual, 1988, p. 44) a) Na primeira metade do século passado, a despeito da forte pressão do mercado ultramarino em criar consumidores potenciais para seus produtos industriais, foi o movimento abolicionista o motor que pôs cobro à miséria do trabalhador escravo. b) A política antinegreira da Grã-Bretanha na primeira metade do século passado foi fortemente influenciada não só pelo ideário abolicionista como também pela pressão das necessidades comerciais e industriais emergentes. c) Os interesses capitalistas que buscavam ampliar o mercado para seus produtos industriais tiveram peso considerável na formulação da política antinegreira inglesa; mas teve-o também a consciência liberal antiescravista. d) Teve peso considerável na política antinegreira britânica o abolicionismo. Mas as forças de mercado tiveram também peso, pois precisavam dispor de consumidores para seus produtos. e) Ocorreu uma combinação de idealismo e de interesses materiais, na primeira metade do século XIX, na formulação da política britânica de oposição à escravidão negra. 4. (Esaf/Assessor Fiscal da Receita Federal) Marque o item que constitui paráfrase do trecho sublinhado a seguir: “Dizem-me que mais da metade da humanidade se dedica à prática da arte de não fazer nada; mas eu discordo dessa afirmativa, visto que não existe tal quantidade de gente inativa. O que acontece é estar essa gente interessada em atividades exclusivamente pessoais sem consequências úteis para o mundo.” (Cecília Meireles – com adaptações) a) mas eu questiono essa afirmativa, uma vez que existe muita gente inativa. O fato é que essa gente demonstra interesse por atividades impessoais com repercussões imediatas para o mundo; b) mas eu duvido dessa afirmativa, já que não existe tanta gente laborista. O fato é que essa gente decide desenvolver atividades imparciais sem consequências vantajosas para o mundo; c) mas eu interrogo essa afirmação, posto que existe muita gente sem fazer nada. O que acontece é que esta gente está interessada em atividades bilaterais sem consequências vãs para o mundo; d) mas eu discordo dessa afirmativa, porque existe muita gente inativa. O que acontece é que esta gente fica desinteressada em atividades exclusivistas com repercussões positivas para o mundo; e) mas eu não concordo com essa afirmação, porque não existe tanta gente sem fazer nada. O fato é que essa gente prefere desenvolver atividades individualistas sem repercussões positivas para o mundo. 5. (FAURGS/TRT/RS) Observe o texto: “A mídia precisa ter consciência de seu compromisso social, não podendo deixar de assumir como verdadeira a missão de ser uma um veículo de resgate da cidadania.” Nos itens a seguir, foram feitas reescrituras desse texto. Observe-as. I. A mídia necessita ter consciência de seu comprometimento social; portanto, deve assumir como verdadeira a missão de ser um veículo de resgate da cidadania. II. A mídia precisa conscientizar-se de seu efetivo compromisso social, e não pode deixar de assumir como verdadeira missão a de ser um veículo de remição da cidadania. III. A mídia nem precisa ter consciência de seu compromisso social, nem pode deixar de assumir como verdadeira missão ser um veículo de resgate da cidadania. Qual delas é a paráfrase do texto original? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e II. e) I, II e III. Gabarito no final do livro. Agora que você já sabe o que é e como se faz uma paráfrase, tente parafrasear os textos a seguir. Faça uma paráfrase de cada um deles, com calma, procurando captar as ideias, reproduzindo oque diz o autor de maneira sucinta e com pleno entendimento do texto original: Texto 1 No início deste ano, o Newsweek divulgou um estudo da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, que comprovou que o ciúme é capaz de “cegar” as mulheres. Para provar isso, foram feitos testes com casais que, separados, deviam avaliar fotografias exibidas em computadores. Quando eram apresentadas fotos femininas aos parceiros, as mulheres sentiam ciúmes e começavam a se confundir nas imagens do seu próprio computador. Quanto mais ciumentas, mais distraídas elas ficavam, levando ao erro de tarefas simples. (Priscila Thompson, jornal A Gazeta, 6/6/2010, p. 8) Texto 2 A paz começa com ações individuais simples. A paz se irradia com as atitudes de cada um de nós nos relacionamentos, em casa, no trabalho, na igreja, na comunidade e no lazer. Homens, mulheres, adultos e crianças são responsáveis por essa bênção. Precisamos respeitar a vida, rejeitar a violência, valorizar os direitos humanos e praticar a solidariedade. Só assim poderemos ter a tão desejada paz. (Walmir da Hora, Opinião do Leitor, A Gazeta, 5/6/2010, p. 2) Texto 3 Viver só pode ser uma simples questão de opção. Nesse caso a solidão é quase sempre uma boa aliada. Experimentar esses momentos funciona como um importante recurso para o autoconhecimento e a reflexão. Mas agora a ciência descobriu que em algumas pessoas o sentimento de isolamento pode ser um detonador de sérios problemas de saúde. Nesses indivíduos, os efeitos negativos da solidão parecem estar determinados já no DNA, o material genético de cada um. (Isto É, 26/9/2007) Texto 4 Está na última moda dizer que algo ou alguém que se destaque da multidão por suas qualidades extraordinárias é diferenciado. De repente todo mundo quer ser diferenciado, embora, curiosamente, ninguém queira ser diferente. Diferenciar, diferente e diferenciado tornou-se uma habilidade social básica, que a maioria de nós exerce de forma intuitiva, sem pensar. Se formos refletir, porém, vamos descobrir que a diferença entre diferente e diferenciado pressupõe valores que boa parte de nós teria vergonha de assumir. (Sérgio Rodrigues. “A Diferença”. Jornal do Brasil, 19 ago. 2001.) Texto 5 O filósofo F. Hegel, em sua Fenomenologia do Espírito, analisou detalhadamente a dialética do senhor e do servo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o servo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais o seu estado de servo. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor, em sua clássica obra Pedagogia do oprimido. Com humor comentou Frei Betto: “Em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor.” Quer dizer, o oprimido hospeda em si o opressor e é exatamente isso que o faz oprimido. A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e aí começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor, mas o cidadão livre. (Leonardo Boff. “Opinião – A saudade do servo”, A Gazeta, 7 jun. 2010) Texto 6 O Brasil é um país grande que olha muito pouco para fora. Temos como característica estar sempre tentando reinventar a roda. Alguns analistas teorizam dizendo até que o país não deveria valer-se de soluções originadas em outros países. Segundo esse tipo de análise, temos o dever de buscar soluções “nossas”, “criativas” e “originais”. Ora, nossos fracassos se deveram no passado justamente a essa recusa em aceitar as lições de sucesso de experiências comprovadamente eficazes obtidas em outros países. Isso faz com que, no Brasil, uma prioridade óbvia para todo mundo, como combate à inflação, seja discutida e rediscutida várias vezes. Isso não é ser criativo e original. É ser míope. (Henrique Meireles. Entrevista. Veja, São Paulo, 19 jan. 2005, p.11-14) Texto 7 A ordem global em formação tem algumas vantagens e muitos riscos, parte deles criada pelo desmoronamento das instituições multilaterais. A principal vantagem é a integração pelas comunicações. Hoje, atrocidades como as que aconteciam sob a censura e o véu da impunidade hegemônica no século passado se tornam conhecidas, em tempo real, pela opinião pública mundial. É o primeiro passo para o estabelecimento de limites e sanções à violação em larga escala dos direitos da humanidade. Mas aí está Kosovo para provar que a humanidade ainda é impotente diante desses eventos. O horror instantâneo, porém, já não nos pode ser sonegado. Nós nos horrorizamos em tempo real. A rede global de comunicações dá novos recursos aos movimentos coletivos de defesa dos direitos e da paz e compromete governantes. Há falhas, claro. O reconhecimento, tardio, da censura e da pressão à imprensa nos EUA e na Inglaterra durante o ataque ao Iraque, por exemplo. (Sérgio Abranches. Em foco. Veja, 24 set. 2003) Texto 8 Não somos livres como acreditamos ser. Quando se entende isso, fica evidente que a maior parte de nossos atos e pensamentos não é tão livre de condicionamentos como gostamos de acreditar. Nossa certeza de sermos livres, de fazermos tudo aquilo que queremos, e quando queremos, é quase sempre uma ilusão. Quase todos, na verdade, carregamos condicionamentos mais ou menos ocultos que, com frequência, tornam difícil a manifestação de uma honestidade genuína, uma criatividade livre, uma intimidade simples e pura. É preciso sublinhar o fato de que todas as posições existenciais necessitam de pelo menos duas pessoas cujos papéis combinem entre si. O algoz, por exemplo, não pode continuar a sê-lo sem ao menos uma vítima. A vítima procurará seu salvador, e este último, uma vítima para salvar. O condicionamento para o desempenho de um dos papéis é bastante sorrateiro e trabalha de forma invisível. (Planeta, set. 2007) Texto 9 É voz corrente que a humanidade está vivendo um momento de crise. A excessiva exaltação dos objetivos econômicos, com a eleição dos índices de crescimento como padrão de sucesso ou fracasso dos governos, estimulou a valorização exagerada da busca de bens materiais. Isso foi agravado pela utilização dos avanços tecnológicos para estimular o consumismo e apresentar maliciosamente a posse de bens materiais supérfluos como padrão de sucesso individual. A consequência última desse processo foi a implantação do materialismo e do egoísmo na convivência humana, sufocando-se os valores espirituais, a ética e a solidariedade. Dalmo Dallari. Internet: <dhnet.org.br/direitos/SOS/dsiscrim/preconceito/policiais.html> http://dhnet.org.br/direitos/SOS/dsiscrim/preconceito/policiais.html Capítulo 5 O Parágrafo Para escrever bem é necessário conhecer plenamente o assunto; é necessário refletir bastante para perceber claramente a ordem dos pensamentos. Buffon – escritor francês, em Discours sur le style. (1707-1788) 5.1. O PARÁGRAFO Já vimos que redigir é apresentar ideias que se sucedem umas às outras, dentro de determinado assunto. Essas ideias são expostas por meio de orações que formam períodos, os quais, por sua vez, constituirão o parágrafo, base de todo e qualquer texto. Desse modo, o parágrafo é uma unidade de composição textual que apresenta uma ideia básica, central ou nuclear, à qual se juntam ideias secundárias relacionadas pelo sentido. Nele, os vocábulos são estruturados em frases unidas em combinações semântico-sintáticas, de forma coerente, constituindo um todo estrutural. Pode-se dizer que o parágrafo é um minitexto. Segundo Francis Trainor e Brian McLaughlin (“An Inductive Method of Teaching Composition”, The English Journal, vol 3, nº 6, set. 1963, p. 422) o parágrafo resulta de “uma unidade de composição suficientemente ampla para conterum processo completo de raciocínio e curta o bastante para nos permitir a análise dos comportamentos desse processo, na medida em que contribuem para a comunicação”. Um parágrafo não deve expor um tema, o que é feito pelo conjunto paragrafal. Ele gira em torno de uma ideia, também conhecida como ideia-núcleo, ideia principal. Desse modo, cada parágrafo apresenta apenas uma ideia básica, um aspecto novo a respeito do tema, desenvolvendo e formatando o texto. Essa ideia básica é conhecida como ideia central ou tópico frasal. Assim, o parágrafo consta de um ou mais períodos em que se apresenta uma determinada ideia central, à qual se juntam outras secundárias decorrentes dela. Em uma composição, o que indica o parágrafo é um afastamento de cerca de 2 a 4 cm da margem esquerda do texto (4,5 a 6,5 cm da borda esquerda do papel), cuja finalidade é mostrar que as frases ali englobadas mantêm maior relação entre si do que com o restante da redação. Ele isola e dá unidade às ideias principais, facilitando a quem redige a tarefa de separar e ajustar convenientemente os pensamentos, permitindo ao leitor acompanhar o desenvolvimento de um determinado assunto. Esse afastamento da margem esquerda do texto é conhecido como branco paragráfico ou alínea paragrafal e não existia nos códices antigos. O que se usava era um sinal à margem, separando os textos, composto de dois “ss”, abreviatura da expressão signum sectionis ou sinal de separação. Com o correr do tempo, os dois “ss” foram superpostos formando o sinal de parágrafo (§) tal como é conhecido e usado atualmente em documentos da correspondência oficial e nas leis. Nos demais tipos de redação, o parágrafo será indicado por aquele afastamento de cerca de 2 a 4 cm da margem esquerda, ou alínea paragrafal. Assim, sempre que observamos um texto, vemos que ele é composto de parágrafos, uns maiores e outros menores. E vêm as perguntas: há um critério para isso? Como se divide um texto em parágrafos? A mudança de parágrafo implica um novo aspecto da abordagem do assunto ou cada parágrafo exige mudança de assunto? Afinal, o que é um parágrafo? 5.1.1. Extensão do parágrafo A divisão de um texto em parágrafos exige que as ideias estejam organizadas para que se possa acompanhar o desenvolvimento da abordagem dada ao tema. As ideias, ou melhor, os tópicos frasais têm de ser concatenados, isto é, uma ideia deve puxar a outra, pois se não estiverem bem ordenados o texto ficará sem unidade e coerência. Assim, pode-se desenvolver o parágrafo em uma frase, em uma oração ou em vários períodos, e sua extensão depende da ideia principal a ser desenvolvida. Mas cada um só pode ter uma ideia. Enquanto se estiver naquela ideia, não se pode mudar de parágrafo. Como exemplo, veja este texto de Marcelo Gleiser: “A ciência precisa de Deus?” “Desde o final do século XX a ciência tem condições de enfrentar, usando seus próprios métodos, questões que anteriormente eram província exclusiva da religião, como a origem do Universo ou a origem da vida. É aqui, na fronteira entre o conhecido e o desconhecido, que vários cientistas encontraram Deus. Há exemplos de cientistas que “desistiram” de tentar entender todas as questões de forma científica, preferindo optar por uma solução religiosa. E há exemplos de outros que veem a manifestação de Deus em suas pesquisas ou na organização do mundo natural. Tais casos podem sugerir que a ciência moderna precisa de Deus. Será que essa tendência é assim tão nova? Absolutamente não! Ao longo de toda a história da ciência encontramos vários cientistas que justificam sua devoção à pesquisa de maneira religiosa, ou que encontram uma inspiração espiritual em seu trabalho. Desde Platão, a ideia de que a surpreendente ordem na Natureza é obra de um Arquiteto Universal tem sido usada como metáfora para descrever o mundo. O estudo da Natureza, a descoberta de suas leis, é, para esses cientistas, um veículo que os coloca mais próximos de Deus ou da natureza divina do mundo. Kepler, Newton, Einstein e muitas outras mentes responsáveis pelo desenvolvimento da ciência usaram metáforas semelhantes às ideias platônicas ao justificarem sua devoção ao trabalho científico. Não existe nenhum conflito em uma justificativa religiosa ou espiritual para o trabalho científico, contanto que o produto desse trabalho satisfaça as regras impostas pela comunidade científica. A inspiração para se fazer ciência é completamente subjetiva e varia de cientista para cientista. Mas o produto de suas pesquisas tem um valor universal, fato que separa claramente a ciência da religião.” (Marcelo Gleiser. Retalhos cósmicos. São Paulo. Companhia das Letras. 1999) 5.1.1.1. Aplicação ao texto Note que os quatro tópicos frasais estão concatenados, fazendo um resumo do texto: 1. A ciência tem condições de enfrentar questões que eram província exclusiva da religião. 2. Há exemplos de cientistas que “desistiram” de tentar entender as questões de forma científica, preferindo optar por uma solução religiosa. 3. Será que essa tendência é assim tão nova? 4. Não existe conflito em uma justificativa religiosa ou espiritual para o trabalho científico, contanto que satisfaça as regras impostas pela comunidade científica. De posse dos quatro tópicos frasais, o autor desenvolveu cada um com ideias secundárias. E assim: No primeiro parágrafo do texto, ele parte da declaração do tópico frasal, afirmando que “a ciência tem condições de enfrentar questões que eram província exclusiva da religião”, desenvolve essa ideia, concluindo que nessa “fronteira entre o conhecido e o desconhecido os cientistas encontraram Deus”. Não há mais nada a dizer com respeito a essa ideia. Aí termina o parágrafo que não ficou tão longo. No segundo parágrafo, o autor justifica o que disse no primeiro, apresentando exemplos de cientistas que “desistiram” de entender as questões de forma científica, preferindo uma solução religiosa, e desenvolve a ideia acrescentando existirem outros que “veem a manifestação de Deus em suas pesquisas”, sugerindo que a ciência precisa de Deus. Não há nada mais a dizer quanto a essa justificativa, e ele parte para uma outra ideia, ou seja, o terceiro parágrafo. Aqui o autor faz um questionamento sobre essa tendência dos cientistas, indagando, no tópico frasal, se ela é nova. E desenvolve essa ideia respondendo à questão. Mostra que Platão já ligava a Natureza ao Arquiteto Universal, cita outros cientistas, como Kepler, Newton e Einstein, concluindo que eles usaram as mesmas metáforas platônicas ao justificarem o seu trabalho científico, concluindo, assim, o questionamento inicial do parágrafo. Por isso ele se alonga e o parágrafo fica bem maior que os outros. No último parágrafo, o tópico frasal afirma que não existe conflito em uma justificativa religiosa para o trabalho científico, mas faz uma ressalva: desde que satisfaça as regras impostas pela comunidade científica. O autor desenvolve essa ideia concluindo que a inspiração para fazer ciência é subjetiva e varia de cientista para cientista, tendo um valor universal, o que separa a ciência da religião. Assim, encerra o pensamento de forma mais sucinta, tornando o parágrafo menor do que o anterior. Conforme acabamos de ver, a extensão do parágrafo depende da divisão do assunto e das ideias do próprio autor. 5.1.2. A organização do parágrafo A organização dos elementos estruturais do parágrafo (apresentação de ideias em frases, orações e períodos) depende do tipo de raciocínio desenvolvido por quem escreve, podendo ser dedutivo ou indutivo.5.1.2.1. Raciocínio dedutivo Faz-se um parágrafo por raciocínio dedutivo quando se parte do geral para o particular. A ideia principal (tópico frasal) é uma generalização, constituindo-se de um ou mais períodos, logo no início do parágrafo. O desenvolvimento, com as ideias secundárias, são as especificações, como neste exemplo: “A Agência Nacional de Águas (ANA) mostrou que é possível abastecer o Nordeste sem precisar da transposição do rio São Francisco. O Ibama que deu o aval forneceu, sem querer, argumentos contra o projeto. Reconhece que 70% da água seriam para irrigação e 26% para o abastecimento de cidades; que a maior parte da água transposta iria para açudes onde se perdem até 75% por evaporação; que 20% dos solos que se pretende irrigar “têm limitações para uso agrícola” e 62% dos solos precisam de controle, por causa da forte tendência à erosão.” (Leonardo Boff. “Transposição e Maldição”. A Gazeta. 12/03/2007. p. 3. Cad.1) O tópico frasal é o período “A Agência Nacional de Águas (ANA) mostrou que é possível abastecer o Nordeste sem precisar da transposição do rio São Francisco”. É uma generalização, à qual seguiram-se as ideias secundárias especificando e explicando a ideia principal. O raciocínio é dedutivo. 5.1.2.2. Raciocínio indutivo Neste tipo de parágrafo, parte-se do particular para o geral. O tópico frasal (ideia principal) estará no final do parágrafo, constituindo o último período. Faz-se primeiro o desenvolvimento (especificações), expondo as ideias secundárias, encerrando com a principal: Exemplo: “O caminho de cada um se faz ao caminhar. Ou seja, a maneira como eu percorro o meu caminho é que vai determinar como ele irá se delinear. O ponto de chegada é a meta de que eu necessito para a evolução da minha consciência, do meu ser interior. Aquilo que eu devo aprender. A conclusão a que eu devo chegar. Não existem caminhos predeterminados.” (Eneida Lima. Jornal do Brasil. “Revista Vida”. Rio de Janeiro, 28/08/2004. Ano 1. n. 38 p. 20) A autora partiu das especificações (períodos que expõem as ideias secundárias relacionadas com o tópico frasal) para concluir o parágrafo com a ideia principal: “Não existem caminhos predeterminados.” Se você colocar essa ideia no início do texto, verá que ela é a generalização e as outras são as especificações. 5.1.2.3. Parágrafo com conclusão O parágrafo, por ser um minitexto, pode também, ser estruturado com tópico frasal, desenvolvimento e conclusão, como no exemplo a seguir (colocamos em negrito o tópico frasal e a conclusão): “Destruir a natureza é a forma mais fácil de o homem se aniquilar da face da terra. Dizimando certas espécies de animais, por exemplo, interfere nas teias alimentares, causando desequilíbrios ecológicos que poderão levar muitas espécies à extinção. Produzindo e espalhando diariamente toneladas e toneladas de produtos químicos poluentes, causa a destruição da fauna e da flora ambiental. Se não começar a refletir profundamente nas consequências de seus atos, o homem logo será, assim como os dinossauros, uma espécie em extinção.” (Hermínio G. Sargentim. Redação para o 2º grau) Nesse parágrafo, além da abertura em um tópico frasal por raciocínio dedutivo (“Destruir a natureza é a forma mais fácil de o homem se aniquilar da face da terra”), uma generalização, há o desenvolvimento (as especificações) e uma conclusão, retomando o tópico frasal (“Se não começar a refletir profundamente nas consequências de seus atos, o homem logo será, assim como os dinossauros, uma espécie em extinção”), como se fora um minitexto. 5.1.2.4. Qualidades do parágrafo Apontadas como essenciais ao estilo literário, as qualidades do parágrafo são: unidade, coerência, clareza, concisão, harmonia, originalidade, vigor e correção. Unidade – O parágrafo caracteriza-se pelo conjunto da ideia principal e das ideias secundárias que desenvolvem aquela. É necessário que haja uma só linha de raciocínio englobando as ideias em torno do tópico frasal, com o objetivo de esclarecê-lo e com todas as frases concorrendo para esse fim. Consequência dessa noção de conjunto é a unidade do parágrafo. Se o texto não tem unidade, é porque o candidato não leu a proposta feita no enunciado da prova. Para um tema como a “Lei da Palmada” que altera o art. 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente, um dos parágrafos poderia ser: “No Brasil, o castigo físico de teor pedagógico foi introduzido pelos jesuítas no início da colonização. Para surpresa deles, os índios não tinham o costume de bater nos filhos. Não existia nenhuma preocupação em estudar as particularidades das crianças, seja na psicologia, seja na medicina. Foi só com a divulgação de conceitos psicológicos que a família, a partir do século XX, passou a compreender a criança, conferindo-lhe mais liberdade para manifestar seus sentimentos e contrariedades.” Nota-se que, nesse parágrafo, não há uma linha de raciocínio englobando as ideias. O terceiro período não é uma progressão do que foi dito nos dois primeiros. Falta unidade. Seria mais bem redigido se apresentasse ampliação das informações básicas, estendendo as considerações, fazendo uma ligação entre o início da colonização e o século XX, numa correta progressão de ideias, como na reescrita a seguir: No Brasil, o castigo físico de teor pedagógico foi introduzido pelos jesuítas no início da colonização. Para surpresa deles, os índios não tinham o costume de bater nos filhos. Apanhar, para a criança do Brasil colônia, era trivial, e o castigo físico, como método pedagógico, tanto nos lares como nas escolas, com o uso da palmatória, era totalmente aceito na sociedade brasileira até a chegada do século XX. Não existia nenhuma preocupação em estudar as particularidades das crianças, seja na psicologia, seja na medicina. Foi só com a divulgação de conceitos psicológicos que a família passou a compreender a criança, conferindo-lhe mais liberdade para manifestar seus sentimentos e contrariedades. Agora o texto segue uma linha de raciocínio e estende considerações para possíveis causas da extinção dos castigos físicos. E veja como se fez progressão das ideias entre o terceiro e os dois primeiros períodos, trazendo o castigo físico infantil do Brasil colônia ao século XX, o que deu unidade ao texto. Coerência – É decorrência da unidade. Pode ser conseguida a partir do tópico frasal, mas a coerência depende de uma ordem adequada das ideias, de maneira clara e lógica, com os períodos interdependentes, ligados entre si com subordinação e relacionamento de sentido entre as ideias secundárias e a principal. “Uma imagem vale mais que dezenas de palavras. Mas nem sempre as imagens falam tudo o que queremos. Às vezes vão além do imaginado por quem as produz.” Esse parágrafo é incoerente. Se as imagens vão além do imaginado, elas falam tudo o que queremos e mais ainda. Não há logicidade nem clareza nesse texto, que poderia ser assim redigido: “Uma imagem vale mais que dezenas de palavras. Para serem compreendidas, as imagens dependem de quem as produz e de quem as lê.” Coesão – Relaciona-se com a coerência. Esse relacionamento é obtido pela coesão lexical, ou seja, pelas relações de sinônimos ou quase sinônimos, hiperônimos, hipônimos, nomes genéricos e formas elididas. É de importância também a coesão gramatical, conseguida a partir do emprego conveniente de expressões ou elementos de coesão, isto é, advérbios e locuções adverbiais, adjetivos, pronomes substantivos e adjetivos, pronomes pessoais de terceira pessoa e palavras denotativas, elipse e numerais. São expressões que “arredondam” o discursoe tornam as frases, as orações e os períodos mais agradáveis e compreensíveis. Mas de suma importância para a coesão são as conjunções coordenativas, subordinativas e as locuções conjuntivas e as prepositivas que, ao unir orações, criam relações entre elas. São chamados de elementos relacionais. Assim, podem ser estabelecidas diferentes relações entre duas ou mais orações, dependendo do uso desses elementos. A atenção do autor deve estar voltada para os encontros que se dão no final de um período ou de um parágrafo e início do outro. Um bom encadeamento gera coesão textual ou textualidade e evita que a redação tenha palavras “soltas” com uma parte do texto não relacionando com a outra. Veja um exemplo sem coesão: Uma pesquisa inédita do Ibope feita com médicos associados à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revelou que em 2009 foram realizadas 443.143 cirurgias estéticas no país – quase uma por minuto. Só nos Estados Unidos se faz mais do que isso. Entretanto os homens representam 18% desse total. O calcanhar de aquiles masculino parecem ser as pálpebras caídas, embora a intervenção para levantá-las seja a mais procurada entre os homens. Há falta de coesão no texto pelo mau uso das conjunções. Observe que a conjunção entretanto, iniciando o terceiro período, é adversativa e indica oposição. E não há oposição entre serem realizadas aquelas cirurgias estéticas e os homens serem 18% desse total. No período seguinte, há a conjunção embora, concessiva, que indica uma ideia contrária à anterior, sem, no entanto, impedir ou modificar a sua realização, o que não é o caso da segunda oração do último período. Ambas as conjunções são dispensáveis nesse texto, pois o tornam sem coesão e incoerente. Clareza – é a maneira simples e clara de dizer o pensamento, a ponto de fazer-se entendido por todos. As ideias têm de ser arranjadas numa certa ordem, com um elo de subordinação entre elas, para que nosso pensamento não se dilua na obscuridade e num acúmulo de ideias desconexas, de compreensão difícil e quase impenetrável. A clareza depende muito da escolha das palavras adequadas ao contexto, tornando o parágrafo uma leitura agradável e de fácil compreensão. Para tanto: • Evite frases ambíguas, mal construídas, muito longas, carregadas de ideias incidentes que distorcem o sentido e afetam a clareza. Exemplo: O camponês nordestino vive num regime no qual ele é altamente explorado e sua produção agrícola é mínima, devido a isto urge uma modernização na estrutura agrária que só poderá ser feita através da Reforma Agrária na qual deverá haver distribuição de terras a camponeses e condições de fixá-los ao campo e deste produzirem adequadamente. Não há clareza nesse texto, muito longo, com um único período e quase sem nexo. Poderia ser reestruturado em dois períodos: O camponês nordestino vive num regime de exploração e sua produção agrícola é mínima. É necessária, pois, a modernização dessa estrutura, com a Reforma Agrária distribuindo terras e dando condições de fixação ao homem no campo, para que ele produza adequadamente. • Tenha simplicidade. Quanto mais simples se escrever, melhor. Evitem-se termos arcaicos, rebuscados como: Ele era o heréu de toda a fortuna, embora fosse de uma nugacidade extrema. (heréu = herdeiro; nugacidade = futilidade) • Evite o uso de palavras cujo significado não se adapte ao texto: A audiência começou com esplendor e orgia, pois os juízes são cabíveis de erro. (orgia é libertinagem e cabível é o que tem cabimento) • Evite o pleonasmo vicioso (tautologia): O réu não passa de um parasita que vive à custa dos outros. (todo parasita vive à custa dos outros) • Evite as anfibologias ou duplo sentido: Matou-se por causa do ciúme da mulher. (do ciúme que ele tinha da mulher ou do ciúme que a mulher tinha dele?) • Evite o acumulamento que consiste na abusiva intercalação ou entrecruzamento de fatos e explicações dentro de um mesmo período. Revela a incapacidade de quem escreve em disciplinar o pensamento às exigências da clareza, em ordenar e concatenar as sequências ideativas num arranjo de fácil compreensão para o leitor: Veja: O problema do lixo, que aliás ocorre em todos os bairros e que merece inúmeros comentários em toda a cidade em que ele existe desde o século passado, eu o destaco agora nessa situação. Note a diferença no mesmo trecho escrito sem acumulamentos: Destaco agora o problema do lixo, objeto de inúmeros comentários em vários bairros da cidade. Ele não surgiu nos últimos anos, mas vem desde o século passado. Concisão – é a fuga da prolixidade. Deve-se mencionar apenas o que é estritamente indispensável, exprimindo o maior número de ideias no mínimo possível de palavras, mas sem detrimento da clareza. Para melhor concisão, deve-se eliminar: • o uso excessivo dos indefinidos um e uma: O acordo coletivo que prevê um regime de compensação de jornada não deve ser invalidado pelo fato de haver um labor extraordinário. É imprescindível valorizar uma negociação coletiva, como forma de um incentivo à autocomposição dos conflitos pelos próprios interessados. Corrija-se para: O acordo coletivo que prevê o regime de compensação de jornada não deve ser invalidado pelo fato de haver labor extraordinário. É imprescindível valorizar a negociação coletiva, como forma de incentivo à autocomposição dos conflitos pelos próprios interessados. • os pormenores desnecessários: O alcoolismo, que é o uso continuado de bebidas alcoólicas, é uma figura típica e característica de falta grave do empregado de uma firma ou empresa, ensejadora e causadora da demissão por justa causa para que seja feita a rescisão do contrato de trabalho. Corrija-se para: O alcoolismo é uma figura típica de falta grave do empregado ensejadora da justa causa para a rescisão do contrato de trabalho. • o supérfluo, o redundante: Ao contrário disso, pensamos diferente, pois o alcoolismo é um problema da alçada do Estado que tem de enfrentá-lo de frente, assumindo o cidadão doente. Corrija-se para: Pensamos diferente, pois o alcoolismo é um problema da alçada do Estado, que deve assumir o cidadão doente. Observe o texto abaixo em que fizemos adaptações para torná-lo inteiramente prolixo e inconciso: Uma promulgação tem por finalidade e objeto determinado a atestação e reconhecimento oficial, pelas autoridades públicas, da existência de uma lei, com a ordem para que ela seja executada por todas as pessoas e a publicação é a condição única e primordial dessa execução que foi ordenada na promulgação: a divulgação de uma lei em toda a parte onde ela tenha de ser cumprida, por todos que dela tomarem conhecimento. Uma condição é, portanto, o complemento da outra premissa; sem a promulgação que atesta oficialmente a existência de uma lei, a publicação é apenas e unicamente uma informação e não uma ordem; sem a publicação de uma lei, a promulgação é uma ordem inexequível que não pode ser cumprida porque não é transmitida e não sendo transmitida não chega ao conhecimento de todos aqueles que têm de cumpri-la. Vê-se que, reescrito, o texto está repleto de pormenores desnecessários, com palavras e expressões dispensáveis. Nem se compara à forma clara, sucinta e concisa com que o redigiu o seu autor, o ilustre jurista Paulino de Souza Netto, em Cadernos do Direito Civil, como se observa a seguir: “A promulgação tem por objeto a atestação oficial da existência da lei com a ordem para que ela seja executada. A publicação é a condição primordial dessa execução ordenada: a divulgação da lei em toda a parte em que ela tenha de ser cumprida. Uma é condição e complemento da outra. Sem a promulgação, a publicação é apenas umainformação e não uma ordem. Sem a publicação, a promulgação é apenas uma ordem inexequível, porque não é transmitida e não chega ao conhecimento de quem tem de cumpri-la.” (Paulino de Souza Netto, in Cadernos de Direito Civil, Vol. I, p. 125) Harmonia – é a boa disposição dos elementos da frase e dos arranjos fraseológicos do período, procurando o melhor ritmo e ajustamento fônico agradável, sem utilizar expressões chulas e plebeias. Originalidade – é a ausência do trivial, evitando-se o queísmo (uso abusivo do “que”), chapas e repetições de palavras. Corrige-se o uso abusivo da palavra que fazendo a substituição com orações reduzidas ou períodos simples: Exemplo: Entende-se por greve política, em sentido amplo, a que é dirigida contra os poderes públicos para que se consigam determinadas reivindicações que não são suscetíveis de negociação coletiva. Corrija-se para: Entende-se por greve política, em sentido amplo, a dirigida contra os poderes públicos para conseguir determinadas reivindicações não suscetíveis de negociação coletiva. Vigor – é o emprego do termo próprio e adequado à integral expressão do pensamento. Correção – é a observação das regras de gramática, de acordo com a tradição clássica da língua. O vício que contraria essa qualidade chama-se impureza da língua. Um texto correto apresenta-se inteiramente livre dos solecismos (erros de sintaxe), das cacografias (erros de grafia), das deformações (alterações nas formas das palavras) e dos cruzamerntos léxicos (emprego equivocado de parônimos). • Solecismos: Para evitá-los é necessário conhecer os princípios e as regras da sintaxe de concordância, de regência, de construção e de colocação dos termos na frase. Eis um exemplo repleto de solecismos: Era um bom professor e haviam muitos candidatos que vinham lhe procurar. Encontram-se na frase três solecismos: de concordância (o verbo haver, impessoal, não se flexiona no plural); de colocação (o pronome pessoal átono, em oração subordinada desenvolvida, antepõe-se ao verbo ou prende-se por hífen ao infinitivo da expressão verbal): de regência (o verbo procurar é transitivo direto, e seu objeto pronominal não pode ser representado por lhe, mas por o, a, os, as). Assim, será correto: Era um bom professor e havia muitos candidatos que o vinham procurar. Era um bom professor e havia muitos candidatos que vinham procurá-lo. • Cacografias: Evitam-se as cacografias com o estudo acurado das regras ortográficas sobre o emprego das vogais, das consoantes, do hífen e dos acentos. Aqui está uma relação das cacografias mais comuns em redações de concursos com a correção ao lado, em itálico. amisade – amizade / ância – ânsia / apezar – apesar / atravéz – através / atraz – atrás / candieiro – candeeiro / carangueijo – caranguejo / conciência – consciência / concurrência – concorrência / dansar – dançar /delapidar – dilapidar / despêndio – dispêndio / despeza – despesa / discreção – discrição / dispender – despender / estensão – extensão / estensivo – extensivo / excacês – escassez / excecivo – excessivo / explêndido – esplêndido / expontâneo – espontâneo / extender – estender / extranho – estranho / frontespício – frontispício / geito – jeito / hombro – ombro / hontem – ontem húmido – úmido lage – laje / limpesa – limpeza / mez – mês / magestoso – majestoso / mixto – misto / praso – prazo / pretenção – pretensão / previlégio – privilégio / recindir – rescindir / requesito – requisito / suscinto – sucinto. • Deformações: são as deturpações mórficas de uma palavra. Essas modificações na estrutura do vocábulo são criadas por pessoas de educação idiomática deficiente. Seguem alguns exemplos, com a correção entre parênteses: adevogado (por advogado); contigente (por contingente); desiguinar (por designar); excepicional (por excepcional); esteje (por esteja); falávamos (por falávamos); frustado (por frustrado); fôsteis (por fostes); idenização (por indenização); indentidade (por identidade); opito (por opto); opróbio (por opróbrio); perfazeria (por perfaria); pertubação (por perturbação); pespectiva (por perspectiva); pespicaz (por perspicaz); própio (por próprio); prostado (por prostrado); quiz (por quis); reinterar (por reiterar); seje (por seja); solussão (por solução); sube (por soube); vemos-nos (por vemo-nos). • Cruzamentos: são equívocos no uso de parônimos, ou seja, palavras semelhantes na forma e na pronúncia, mas de significação diferente. Esse emprego de uma palavra por outra chama-se cruzamento léxico, como se pode ver nos exemplos a seguir: abjeção (degradação) e objeção (argumento contrário); absolver (perdoar, inocentar), absorver (sorver, aspirar); acurado (feito com cuidado), apurado (refinado, fino); afear (tornar feio), afiar (amolar); aprender (instruir-se), apreender (assimilar); área (superfície), ária (melodia, cantiga); arrear (pôr arreios), arriar (descer); assoar (limpar o nariz), assuar (vaiar); avocar (chamar a si), evocar (trazer à lembrança); cavaleiro (que cavalga), cavalheiro (homem cortês); comprimento (extensão, medida), cumprimento (saudação); costear (passar junto à costa, navegar), custear (pagar as custas, financiar); deferimento (anuição, aprovação), diferimento (adiamento, procrastinação); delatar (denunciar), deletar (apagar), deleitar (causar prazer); dilatar (distender, aumentar), diletar (agradar); descrição (ato de descrever), discrição (relativo a discreto); descriminar (tirar a culpa), discriminar (distinguir); despensa (lugar onde se guardam mantimentos), dispensa (ato de dispensar); despercebido (não notado), desapercebido (desprevenido); destratar (ofender), distratar (romper o trato); elidir (suprimir), ilidir (refutar, anular); emenda (correção), ementa (resumo); emigrar (deixar um país), imigrar (entrar num país); eminente (elevado), iminente (prestes a ocorrer); emissão (ato de emitir), imissão (investimento na posse de um bem); estada (permanência de pessoa), estadia (permanência de veículos); esbaforido (ofegante, apressado), espavorido (apavorado); extreme (puro, não contaminado), extremo (afastado, último); flagrante (evidente), fragrante (perfumado); fluir (correr em estado líquido), fruir (desfrutar); imergir (afundar), emergir (vir à tona); imitir (investir em), emitir (mandar para fora); incontinenti (sem demora), incontinente (falta de moderação); indefeso (desarmado, sem defesa), indefesso (incansável, laborioso); inflação (alta de preço), infração (violação); infligir (aplicar pena), infringir (violar, desrespeitar); intemerato (puro), intimorato (corajoso); lide (demanda), lida (trabalho); lustre (luminária), lustro (cinco anos); mandado (ordem judicial), mandato (procuração); peão (operário), pião (brinquedo); preito (homenagem), pleito (disputa, eleição); prescrever (ordenar), proscrever (banir); prescrito (ordenado, vencido), proscrito (desterrado); prover (abastecer), provir (vir de); ratificar (confirmar), retificar (corrigir); recrear (divertir, alegrar), recriar (criar novamente); soar (ecoar, tocar), suar (transpirar); sortir (abastecer), surtir (produzir efeito); tráfego (trânsito), tráfico (comércio ilegal); vadear (atravessar a vau), vadiar (andar ociosamente); vultoso (volumoso), vultuoso (atacado de congestão na face). 5.1.3. Como desenvolver um parágrafo O desenvolvimento de um parágrafo não tem normas fixas. Depende do tipo de composição, da natureza do assunto. Assim, pode-se iniciar um parágrafo de várias formas, para que o texto não fique monótono. Quando fizer dissertações, procure sempre variar o desenvolvimento dos parágrafos, a fim de os tópicos frasaisnão serem sempre os mesmos, tornando o seu trabalho algo desagradável e sem beleza. Para seu treinamento, seguem algumas formas de como iniciar um parágrafo. 5.1.3.1. Declaração inicial Afirma-se ou nega-se alguma coisa no tópico frasal e, a seguir, desdobra-se essa afirmação ou negação nas ideias secundárias. A justificação ou a fundamentação do que foi afirmado ou negado é o restante do parágrafo, como se observa neste exemplo: “O Brasil sofre no paradoxo das drogas legalizadas. Maconha é crime, mas cigarros podem ser facilmente comprados no supermercado. Tranquilizantes precisam de receita médica, embora qualquer um possa relaxar com o álcool na festinha de batizado. Álcool e fumo são vendidos e consumidos no Brasil com facilidades banidas nos países desenvolvidos. O efeito dessa liberalidade é devastador. As drogas legais viciam, causam doenças, separam famílias e constituem graves problemas sociais e de saúde pública.” (In Superinteressante, outubro 1998) O autor partiu de uma afirmação: “O Brasil sofre no paradoxo das drogas legalizadas.” A seguir, desenvolveu essa afirmação, demonstrando que o cigarro e as bebidas, apesar de drogas, são legalizados e consumidos no Brasil, tendo um efeito devastador, com problemas sociais e de saúde pública. Desenvolveu a afirmação (tópico frasal), podendo, agora, concatenar uma nova ideia em um novo parágrafo. 5.1.3.2. Causa e consequência É outra maneira de se redigir um parágrafo. Faz-se uma correlação de ideias, em que uma pressupõe a outra. Em um parágrafo assim estruturado, o que vale é o encadeamento lógico do raciocínio. Pode ser de forma explícita, quando aparecem termos como ora, porque, porquanto, uma vez que (para causa), portanto, pois, logo, de sorte que, de forma que (para consequência). Será de forma implícita se não aparecerem tais termos, como a seguir: “As transformações na legalização do imposto de renda, aplicável às empresas, provocam alívio nos dois extremos do seu universo. As micro e pequenas empresas são hoje privilegiadas por tratamento especial, que gradativamente vai correspondendo às suas peculiaridades, dando-lhes tributação mitigada. Na outra ponta, as grandes empresas, poderosíssimas na nossa economia, multinacionais e instituições financeiras, têm um regime de tributação único no mundo, pagando o imposto de renda optativamente, não sobre o lucro, mas sobre os juros do capital próprio.” (Osíris Lopes Filho. A Gazeta. 14/03/2007. p. 3. Opinião) Há, pois, no texto, uma correlação de ideias a partir de uma causa: “as transformações no imposto de renda provocam alívio nos dois extremos de seu universo”. A consequência é o tratamento especial para as micro e pequenas empresas e o regime diferenciado das grandes empresas. 5.1.3.3. Divisão Para redigir um parágrafo por divisão, faz-se uma discriminação de ideias no tópico frasal. O restante do parágrafo é explicar essa discriminação, como no texto a seguir: “A proposta de redução da maioridade penal esconde dois problemas. O primeiro é que o Estatuto da Criança e do Adolescente ainda não foi efetivamente implementado e, por enquanto, direitos de crianças e adolescentes estão apenas no papel. O segundo é a não existência de políticas públicas para lhes assegurar uma vida digna. Mudanças estruturais que ataquem os verdadeiros males do país são necessárias e não ‚tapar goteiras’ com leis de fácil aprovação, porém sem resultados práticos e que só irão decepcionar.” O autor anunciou dois problemas (fez a discriminação) e, em seguida, desenvolveu o parágrafo informando quais eram (explicou a discriminação) e indicou uma solução para eles, encerrando o parágrafo. 5.1.3.4. Interrogação Outra maneira de se redigir o parágrafo é por interrogação. A proposta do autor é chamar a atenção, despertar a curiosidade logo no tópico frasal. Faz-se a pergunta, e o restante do parágrafo é a resposta ou explicação a essa pergunta, conforme se pode ver no exemplo a seguir: “Tempero do relacionamento? Prova de amor? Afinal, o que é o ciúme, e por que ele provoca tantas reações – positivas e negativas – no nosso organismo? Dificilmente controlável, ele pode ser, sim, saudável e até ajudar a melhorar o relacionamento. Mas, quando a “dosagem” recomendada do tempero não é seguida à risca, a receita tende, mesmo, a desandar. Basta uma “pitadinha” a mais para fazer aquele namoro gostoso deixar de ser saudável, explica a psicóloga e terapeuta familiar Adriana Müller.” (Priscilla Thompson. A Gazeta. 6/6/2010. p. 8 Caderno3) Segundo Óthon M. Garcia, “a interrogação camufla um tópico frasal por declaração ou por definição”. Observe que a interrogação poderia ser substituída por uma declaração inicial. A autora poderia dizer que “o ciúme é tempero do relacionamento, prova de amor e provoca reações positivas e negativas em nosso organismo” e partir para as especificações. Mas, se ela tivesse iniciado o seu texto com essa afirmação, não atrairia tanto a atenção para o assunto, como o fez com a interrogação. 5.1.3.5. Contraste Neste tipo de parágrafo, o autor procura estabelecer comparações, apresentar paralelos, apontar diferenças, evidenciar contrastes, como neste exemplo: “Não se pode imaginar contraste mais violento do que o existente entre o litoral e o sertão nordestino. De um lado, a terra escura, pegajosa, úmida, cavada de sulcos ou embebida de água, com árvores frutíferas, mangueiras, laranjeiras, canaviais, rios limosos. De outro lado, um caos de pedras cinzentas cravadas em desordem no chão de argila seca, rachado pelo sol, e vastas extensões de areia ardente. No litoral, a riqueza da vegetação exuberante, de um verde quase negro, com raízes mergulhadas nos pântanos e o cimo muitas vezes coroado de brumas matinais – plantas que arrebentam de seiva, de mel, de perfumes. No sertão, a caatinga, como lhe chamavam os índios, com uma vegetação de cactos, de moitas espinhosas, de ervas raquíticas, amarelas, calcinadas, de árvores esqueléticas com folhas raivosamente eriçadas, transformadas em espinhos ou arestas, de árvores ventrudas que são como odres para reter sob a casca rugosa a maior quantidade possível da mesquinha água da chuva. À paisagem voluptuosa da cana-de-açúcar, em que tudo é tentação de vadiar, de dormir, de sonhar, de amar, opõe-se esta paisagem dura, angulosa, trágica.” (Roger Bastide, Brasil-Terra de Contrastes, p. 251) O objetivo do autor, no parágrafo, é contrastar as diferenças existentes entre o litoral e a região sertaneja, o que se observa em um e o que existe no outro. O tópico frasal (“Não se pode imaginar contraste mais violento do que o existente entre o litoral e o sertão nordestino”) indica esse objetivo e anuncia que as ideias serão desenvolvidas por contraste. 5.1.3.6. Alusão histórica É um recurso muito utilizado, principalmente por cronistas e oradores. Neste tipo de parágrafo apresentam-se fatos, tradições, lendas, anedotas, acontecimentos históricos e alusões ao passado para chamar a atenção do leitor, como no exemplo a seguir: “Os antigos egípcios fabricavam e consumiam cerveja. O vinho vem desde a época do dilúvio. Beber pode ser agradável se não prejudicar a saúde. O primeiro efeito é o bem-estar. Um drinque entorna alegria, desinibição, segurança. Mas o álcool é uma substância que ultrapassa facilmente as membranas celulares e em minutos encharca todos os órgãos e tecidos. Mesmo o cérebro protegido por filtros bioquímicos é imediatamente invadido.” O autor procurou despertar a atenção do leitor com a alusão aos antigos egípcios e ao dilúvio. Sua intenção não é falar da origem da cerveja ou do vinho, mas apontar que o abusodo álcool é prejudicial à saúde, por ser uma droga que afeta principalmente o cérebro e, para chamar a atenção do leitor, utilizou aqueles dados históricos. 5.1.3.7. Omissão de dados identificadores É outra forma prática de se iniciar e desenvolver um parágrafo. Utilizado principalmente nas narrações, procura prender o leitor criando uma expectativa em relação ao que será dito, com a omissão de dados que possam identificar uma personagem ou um fato e, com isso, criar um suspense. Veja este texto: “Como diziam os amigos, vivia no mundo da lua. Não prestava atenção às conversas, por mais banais que fossem. Esquecia de abotoar o colarinho quando punha a gravata. Muitas vezes estava no ponto de ônibus e pegava o primeiro que parasse, para só depois lembrar que não era aquele que o levaria aonde queria. Já perdera dois empregos por causa de sua displicência e até quebrara uma perna por andar distraído e não perceber o buraco que havia na calçada. Agora afirma que vai mudar de vida, que nunca mais estará “fora de órbita”, deixará de ser nefelibata. Pretende olhar o mundo como ele é, arranjar uma namorada, casar e ser feliz.” Pela leitura do parágrafo, nota-se que o autor não forneceu um só detalhe para informar quem é a personagem, criando um suspense e mantendo o leitor na expectativa. 5.1.3.8. Explicitação Pode-se começar um parágrafo por explicitação, esclarecendo um conceito, justificando uma afirmativa. No tópico frasal explica-se o que é, em que consiste, qual é o significado da expressão, explicitando-se o conceito por meio de sua definição, como no exemplo: “O processo mediante o qual os seres humanos podem arbitrariamente fazer com que certas coisas representem outras pode-se chamar de processo simbólico. Quando quer que dois ou mais seres humanos possam comunicar-se entre si, eles poderão, mediante acordo, fazer qualquer coisa representar qualquer outra coisa, isto é, criar símbolos. Não é só isso, mas ainda podemos ir mais longe, criando símbolos que representem outros símbolos. Essa liberdade para criar símbolos de qualquer valor determinado e criar símbolos que representem símbolos é essencial àquilo que denominamos processo simbólico.” O tópico frasal traz um conceito e o define como “processo simbólico”. O restante do parágrafo explica por que é um processo simbólico, levando o leitor a uma conclusão. A partir de agora, em suas redações, procure fazer com que os seus parágrafos não sejam todos iguais, como uma ladainha. Escreva parágrafos por definição, causa e consequência, alusão histórica, interrogação, contraste, explicitação, divisão. Resumindo Os parágrafos são fundamentais à redação, pois constituem o visual prático da estrutura do texto, apontando as três partes obrigatórias: a introdução, o desenvolvimento e a conclusão, e facilitando isolar e unir as ideias contidas nos tópicos frasais. Como vimos anteriormente, na folha de redação, o parágrafo é indicado por um ligeiro afastamento da margem esquerda, mais ou menos dois a três centímetros, com a alínea paragrafal iniciando-se todas à mesma altura. Não esqueça: um parágrafo não pode adentrar a linha mais do que outro, porque assim não haverá harmonia no visual. O número de parágrafos é variável, conforme a extensão exigida para a redação. Em um concurso, o mínimo exigido é de três parágrafos (aconselha-se quatro para melhor expor as ideias e os argumentos), e o máximo depende da quantidade de linhas solicitadas pelos examinadores. Treine para escrever parágrafos com uma média de cinco a oito linhas, que é o mais aconselhável em um concurso, permitindo a você ficar dentro do número solicitado no edital, geralmente de 30 linhas. Não esqueça que um parágrafo só pode conter uma ideia núcleo e que as ideias secundárias devem se relacionar intimamente com a principal (coesão). Toda vez que mudar o fio do raciocínio, mude de parágrafo. Em uma redação de concurso, somente o primeiro parágrafo pode ser constituído de apenas um período (no máximo três). Nele faz-se a apresentação do assunto. Os parágrafos do desenvolvimento devem ter vários períodos (nunca um) observando-se a quantidade de linhas prevista. O último parágrafo terá, no mínimo, três períodos. No primeiro, retoma-se o tema; no segundo, faz-se uma síntese do desenvolvimento, e, no terceiro, traçam-se soluções com vistas ao futuro. 5.1.4. Exercícios Observe as frases a seguir e faça a correção: 1. Quando o candidato chegou, haviam muitos eleitores que vinham lhe felicitar. 2. Fizemos tudo o que foi pedido, mas a carta de cuja nos referimos não pôde seguir anexo. 3. Segue incluso a petição inicial em cujo o texto estão as provas do delito. 4. Toda comunidade cujas as aspirações e necessidades devem vincular-se os temas da pesquisa científica, possui uma cultura própria de que precisa ser preservada. 5. Se lhe disserem que não entregamos o relatório, enganam-lhe por que essa falsa informação é um dos problemas de que aludimos em nossa última carta que a enviamos. Nas próximas questões é proibido usar “que”. Assim reescreva os períodos a seguir sem usar uma única vez a palavra “que” e sem substituí-la por outro pronome relativo. 6. Os torcedores que tinham chegado um pouco antes ao estádio levantaram-se quando o time entrou em campo, pois sabiam que ele era o melhor. 7. O contínuo que me trouxe a portaria que você citou falou que, depois que a comentarmos, todos se convencerão da utilidade que tem a referida portaria. 8. Os temas dados nas últimas redações se tornaram tão difíceis, face à situação que vivemos, que até os melhores candidatos que têm os concursos não conseguiram o êxito que estão acostumados a ter. 9. O escritor Rubem Braga, que nasceu em Cachoeiro do Itapemirim e que é um dos melhores cronistas que nasceram no Brasil, apresenta uma temática que vai desde o sentimento mais lírico que o ser humano pode ter até a consciência mais profunda que o homem contemporâneo tem da realidade sociopolítica em que vive. 10. Os questionários que vocês solicitaram que fossem feitos, logo que o bimestre iniciasse, foram preparados. Espero que vocês respondam para que possa tirar as dúvidas que foram suscitadas pelos assuntos que discutimos na reunião que passou. 11. Você afirmou que o problema que a empresa estava tendo foi resolvido pelo auditor, o que fez com que os trabalhadores mudassem o comportamento que tinham assumido ultimamente. 12. É bom que revisemos todos os itens que foram inseridos na última unidade do balanço da firma e que, pelo regimento que tem a Empresa, é certo que serão temas da Portaria que será feita no fim do mês. Reescreva os períodos a seguir de modo que a redação tenha clareza, coerência, coesão, concisão e correção. 13. Cabe-nos levar ao conhecimento dessa Gerência Financeira que todos os nossos esforços foram baldados no sentido de localizarmos diferenças ainda existentes nos saldos financeiros das contas de estoques, as quais não nos foi possível localizar, embora tivéssemos pesquisado, com profundidade, os saldos de todas as contas que compõem o grupo de estoques. (Texto extraído de relatório de uma repartição pública.) 14. Os países subdesenvolvidos por se basearem numa economia praticamente agrária e sendo eles o palco da fome, uma reforma agrária seria imprescindível para diminuir a fome nesses países. (Texto extraído de uma redação de concurso.) 15. Os homens modernos nessa situação de incerteza gerada pela inflação, salários sem o devido reajuste e uma indefinição política. Faz com que gere nas pessoas uma certa angústia e insegurança. (Texto extraído de uma redação feita em concurso público.) 16. O camponêsnordestino vive num regime no qual ele é altamente explorado e sua produção agrícola é mínima, devido a isto urge uma modernização na estrutura agrária. Que só poderá ser feito através da Reforma Agrária. Na qual deverá haver distribuição de terras a camponeses e condições de fixar o homem ao campo e destes produzirem adequadamente. (Texto extraído de trabalho universitário.) A seguir você encontra dez tópicos frasais. Leia cada um deles com atenção e procure desenvolver parágrafos a partir da ideia que eles apresentam. Lembre-se de que para aprender a redigir é necessário persistência, disciplina e exercitar-se diariamente. 1. Falar em criminalidade traz à lembrança os jogos, as drogas e o tráfico. 2. Dinheiro é a maior invenção dos últimos 700 anos. 3. O panorama da sociedade contemporânea sugere incontáveis abordagens da ética. 4. Ao reiterar apavoradamente, que apenas Deus pode criar a vida, as religiões se posicionam contra a ciência genética, em vias de criar vida, artificialmente, em laboratório. 5. Os milhares de pessoas que cometeram delitos, após cumprirem suas penas, ficam quites com a sociedade. 6. Pesquisas realizadas pelo IBGE mostram que a pobreza e a violência atingem especialmente os mais jovens. 7. Será que a homofobia é um crime igual à discriminação racial? 8. Uma das causas da criminalidade, nas grandes cidades, é o êxodo rural. 9. Não somos livres como acreditamos ser. 10. Ninguém discordará, em sã consciência, da necessidade de o Brasil passar por mudanças significativas em sua legislação penal, tendo em vista adquirir um melhor instrumental jurídico para combater algumas das nossas mais notórias chagas sociais. Capítulo 6 Preparando a Dissertação Experiência não é o que acontece com você, mas o que você fez com o que lhe aconteceu. Aldous Huxley – escritor inglês (1894-1963) 6.1. A PREPARAÇÃO DE UM PLANO Pelo que foi visto até agora, a dissertação exige reflexão, seleção de ideias e a montagem de um plano de desenvolvimento. O escritor e filósofo francês Buffon foi enfático ao afirmar: “É pela ausência de plano, é por não ter refletido bastante sobre o assunto, que um homem de talento se sente embaraçado, não sabendo por onde começar a escrever. Entrevê, ao mesmo tempo, grande número de ideias e, como não as comparou, nem subordinou, nada o obriga a preferir umas às outras; fica, pois, perplexo. Mas quando tiver esboçado um plano, quando tiver reunido e posto em ordem todos os pensamentos essenciais ao seu assunto, sentirá o ponto de maturação da produção do espírito, apressar-se-á a fazê-lo desabrochar e terá prazer em escrever.” Assim, para escrever bem é preciso estar completamente senhor do assunto, refletir bem nele, ver claramente a ordem dos pensamentos e formular uma sequência, uma cadeia em que cada elo representa uma ideia ligada à anterior. Ter um plano, enfim. Antes de começar a escrever, você tem de delimitar o tema, traçar o objetivo de sua redação, selecionar ideias, organizá-las e desenvolvê-las. Nunca comece a escrever sem traçar esse plano. 6.1.1. O plano Começa com o tema. Ele pode ser uma frase, uma oração, um período. O examinador pode, além do tema, dar algum texto para apoio do candidato. Observe bem o tema. Não o confunda com o título. Esqueça essa história de título. Prenda-se ao tema, pois você não pode afastar-se dele. Imaginemos que seja dado o tema: “A vida humana tem um valor, o qual deve ser protegido por leis que tutelem a integridade física e moral do cidadão e estabeleçam formas mais fraternas de convivência. É um direito de todos porque a vida está acima de todas as normas.” Não comece a escrever de imediato. Examine o tema, procure entendê-lo, relacioná-lo a alguma situação que você conheça, pois, segundo Aristóteles, ninguém escreve sobre o que não conhece. É hora de esboçar o plano. Prepare o rascunho e parta, então, para a primeira fase da sua redação: a delimitação do tema. 6.1.1.1. Delimitação do tema Delimitar um tema é procurar entendê-lo, procurar descobrir o que você conhece do assunto, porque assim irá escrever sobre o que sabe, de acordo com os seus conhecimentos, com o que você leu sobre ele, conversou a respeito, ouviu falar. Encontrado o fio da meada, faça, agora, uma frase nominal (sem verbo) dizendo o que pretende discutir ou explanar sobre esse assunto. Para esse tema, sobre o valor da vida humana e seu direito de ser protegido por leis, digamos que já tenhamos lido a respeito e até comentado sobre reportagens ou questões de Direito Civil ou Constitucional que trataram desse assunto, entendendo que esse direito é inalienável e que a vida tem um valor jurídico. Rascunharemos, então, uma frase nominal (nesta altura não se pode usar verbo algum, pois irá “trancar” nossas ideias). A nossa frase nominal pode ser: “A vida humana como valor jurídico.” É o que deduzimos do tema com base em nossas conversas, em nossas leituras. Assim, delimitar é determinar para que se vai escrever, com que finalidade, quais os objetivos. É uma etapa indispensável no planejamento, mas não é a mais importante. A delimitação por si só não garante uma direção para quem vai escrever. Quem escreve sobre um determinado assunto, mesmo que delimitado, pode desenvolvê-lo segundo diferentes linhas de pensamento e acaba fugindo à unidade e coerência. Daí a necessidade de se traçar um objetivo para a redação. 6.1.1.2. Objetivo É o nosso segundo passo. Agora vamos usar um verbo no infinitivo. Esse verbo é que vai abrir a nossa mente e trazer as ideias que constituirão os tópicos frasais de nossa redação, o que pretendemos fazer: caracterizar, descrever, mostrar, comparar, provar, apontar, indicar, contrastar, citar ou outro verbo, de acordo com o que se pretende escrever. Observe que sua redação será de acordo com o verbo que você escolher. Digamos que o verbo escolhido seja caracterizar. O nosso objetivo, então, será: caracterizar que a vida humana tem um valor jurídico e deve ser protegida de acordo com as necessidades de sobrevivência de cada um. Vê-se que, delimitado o tema, torna-se fácil fixar o objetivo que irá facilitar a aquisição de ideias e argumentos favoráveis ou contrários sobre o tema e sua ordenação. O objetivo é a orientação sobre o que se vai escrever em um assunto delimitado, dentro de uma linha de pensamento que estará presente em todo o texto e dada por aquele verbo no infinitivo. É um controle do pensamento que deve manter-se dentro dos limites indicados pelo verbo, dando unidade ao texto. Traçado o objetivo, passamos agora à terceira etapa, que é a seleção de ideias. 6.1.1.3. Seleção de ideias Selecionar ideias é utilizar o verbo que escolhemos no infinitivo e, a partir dele, anotar tudo o que vier à mente com que se possa caracterizar que a vida humana tem um valor jurídico e deve ser protegida de acordo com as necessidades de sobrevivência de cada um. Você fará assim: • Caracterizo dizendo… • Caracterizo dizendo… • Caracterizo dizendo… Anote todas as ideias, fatos, opiniões, informações, tudo. Mesmo que essas ideias sejam desordenadas e bem simplistas. Muitas vezes a ideia menos interessante será a principal. Esta fase é de muita importância para desdobrar a dissertação. Muitas ideias anotadas talvez nem sejam utilizadas depois, outras poderão surgir no decorrer do rascunho do texto, uma ideia pode completar outra. O importante é que sejam todas anotadas. 6.1.1.4. Organização de ideias Selecionadas as ideias a próxima fase é a sua organização. Mas antes temos de saber quantos parágrafos terá a nossa redação. Normalmente os examinadores de concursos pedem que se disserte em 25 ou 30 linhas no máximo, pelo que sugerimos quatro parágrafos com uma média de sete a oito linhas,pois assim não precisará ficar contando linhas. Digamos que ao selecionar as ideias tivemos as seguintes: • Sedimenta-se a ideia de que a vida de todo ser humano é ornada de especial dignidade, o que deve ser colocado em defesa da proteção das necessidades e da sobrevivência de cada um. • A consciência atual começa a encontrar a mais lógica de suas normas: a tutela da vida. • Os políticos devem elaborar leis que defendam a vida humana. • A Constituição do Brasil protege a vida, e tudo o que for diferente é contrário ao Direito. • Os direitos da pessoa humana devem ser bem respeitados. • A Constituição orienta o Estado no sentido da dignidade da pessoa humana. • Não proteger a pessoa humana é um crime de lesa-humanidade. • Todos devem viver sob a proteção da Lei. • O valor jurídico da pessoa humana é inestimável. • Devem-se criar mais leis para proteção das pessoas. Temos dez ideias anotadas. Mas a nossa redação terá apenas quatro parágrafos. Então, vamos organizar essas ideias, procurando dentre elas quatro que se interliguem. Elas serão os tópicos frasais de nossos quatro parágrafos. Para o primeiro, escolheremos a ideia que contenha o tema e que poderá ser: • A Constituição orienta o Estado no sentido da dignidade da pessoa humana (sexta ideia selecionada). A ideia que se interliga a esta é: • A Constituição do Brasil protege a vida, e tudo o que for diferente é contrário ao Direito (quarta ideia). As outras que se concatenam são: • A consciência atual começa a encontrar a mais lógica de suas normas: a tutela da vida (segunda ideia). • Sedimenta-se a ideia de que a vida de todo ser humano é ornada de especial dignidade, o que deve ser colocado em defesa da proteção das necessidades e da sobrevivência de cada um (primeira ideia). Observe que as ideias selecionadas formam uma espécie de resumo do texto que iremos escrever. Cada uma delas será o tópico frasal de nossos quatro parágrafos. Só nos resta desenvolver cada um desses tópicos frasais, e estará pronta a nossa redação. Para sua observação, sublinhamos as ideias dos tópicos frasais ao desenvolvê-los: “Vivemos sob a égide de uma Constituição que orienta o Estado no sentido da dignidade da pessoa humana, tendo como normas a promoção do bem comum, a garantia da integridade física e moral do cidadão e a proteção incondicional do direito à vida. Essa proteção é de tal forma solene que o atentado a essa integridade eleva-se à condição de ato de lesa-humanidade: um atentado contra todos os homens. Afirma-se que a Constituição do Brasil protege a vida e que tudo aquilo que soa diferente é contrário ao Direito e por isso não pode realizar-se. Todavia, dizer que a vida depende da proteção da Carta Maior é superfetação porque a vida está acima das normas e compõe todos os artigos, parágrafos, incisos e alíneas de todas as constituintes. A cada dia, a consciência atual, despertada e aturdida pela insensibilidade e pela indiferença do mundo tecnicista, começa a reencontrar a mais lógica de suas normas: a tutela da vida. Essa consciência de que a vida humana necessita de uma imperiosa proteção vai criando uma série de regras que se ajustam mais e mais com a agressão sofrida, não apenas no sentido de se criar dispositivos legais, mas como maneira de estabelecer formas mais fraternas de convivência. Este, sim, seria o melhor caminho. Tudo isso vai sedimentando a ideia de que a vida de todo ser humano é ornada de especial dignidade, o que deve ser colocado de forma clara em defesa da proteção das necessidades e da sobrevivência de cada um. Esses direitos fundamentais e irrecusáveis da pessoa humana devem ser definidos por um conjunto de normas que possibilitem que cada um tenha condições de desenvolver suas aptidões e suas possibilidades.” 6.1.2. A estrutura da dissertação Toda dissertação será estruturada em três partes: introdução (prólogo ou apresentação), desenvolvimento (explanação ou análise) e conclusão (fecho). Logo, a organização das ideias deverá ser feita com esse foco. 1. Introdução – contém a ideia núcleo e situa o leitor dentro do assunto a ser questionado. 2. Desenvolvimento – trata o assunto de forma completa, com apresentação de fatos, ideias e argumentos exigidos. 3. Fecho – é a síntese e encerramento do texto, com a reafirmação da ideia central, tomando-se uma posição relativamente ao assunto. Deve-se usar um vocabulário adequado, linguagem simples, clara, objetiva, além de ter o maior cuidado com a ordem e a clareza na exposição das ideias, dando destaque aos argumentos de maior peso. 6.1.2.1. A introdução Introduzir significa levar para dentro. É, pois, na introdução que nos conduzimos para dentro do tema, do assunto. Ela deve conter a ideia núcleo que será discutida, nada lhe acrescentando. A introdução é de suma importância, sendo o contato inicial do leitor com o texto. Deve atrair, despertar o interesse. É como se fosse a vitrina de uma loja. Tem de chamar o freguês. Desse modo, deve ser objetiva, simpática e, sobretudo, não pode ser longa. Dois períodos já são suficientes. Faça-a com, no máximo, três períodos. Não esqueça que o importante na introdução é abordar o tema da redação, mesmo que tenhamos de usar as palavras dele ou parte delas. E tem mais: a redação começa na primeira linha, com a primeira palavra e não no tema ou no título (esqueça o título), não havendo, pois, repetição. O tópico frasal (ideia principal da introdução) pode-se apresentar de várias formas: raciocínio dedutivo (tese), roteiro, interrogação, com exemplos, razões e consequências etc. Suponhamos que o tema da redação seja “Células-tronco”. Podem ser feitos vários tipos de introdução, de acordo com as ideias do redator, como nos exemplos a seguir: 6.1.2.2. Introdução tese Nesse tipo de introdução menciona-se, de pronto, no tópico frasal, a tese que se pretende discutir. Naturalmente a tese será retomada na conclusão, que vai funcionar como uma confirmação do que foi apresentado na tese, com o apoio do desenvolvimento. É preciso ter bem claro o conteúdo do texto, isto é, o tema deve ser, de fato, comprovado no desenvolvimento. Exemplo: As células-tronco provenientes de embriões humanos armazenados em clínicas de infertilidade são pluripotentes, podendo dar origem a qualquer outra célula do corpo, exceto as necessárias para criar outro embrião. 6.1.2.3. Introdução roteiro O tópico frasal refere-se ao tema a ser discutido e à forma como o texto será organizado. Para o tema células-tronco, pode-se fazer a seguinte introdução roteiro: Células-tronco provenientes de embriões humanos armazenados em clínicas de infertilidade são pluripotentes e podem dar origem a outras células do corpo. Vejamos o porquê. Outro exemplo de tópico frasal para introdução roteiro: Uma discussão muito em voga no momento é o poder que têm as células-tronco de se reproduzirem em outras células do corpo humano. Isso traz à tona inúmeros questionamentos, a começar pela ética médica. 6.1.2.4. Introdução com interrogação O tópico frasal apresenta questões relacionadas ao tema. A resposta será dada no desenvolvimento do parágrafo: Exemplo: As células-tronco podem dar origem a qualquer outra célula do corpo? São elas pluripotentes? Ou então: É possível uma célula tronco dar origem a quaisquer outras, mesmo às necessárias para criar embriões? 6.1.2.5. Introdução com exemplos É a que traz, no tópico frasal, um exemplo de como a situação ocorre, dando ao leitor a dimensão do problema. O exemplo pode ser real ou fictício, feito por meio de uma pequena narração que introduz o assunto, em um tópico frasal por alusão histórica: Um fato ocorreu na Inglaterra,foi noticiado na Europa e, em seguida, em todo o mundo. Glorificado pela mídia marcou uma nova revolução nas ciências médicas: um paciente de 70 anos teve a válvula mitral recuperada com um transplante de células-tronco provenientes de um embrião humano. O paciente foi salvo, mas foi criada uma polêmica mundial sobre ética médica e células-tronco. Outro exemplo: O transplante de células-tronco, tanto de embriões como da medula, vem sendo testado na Europa e nos Estados Unidos, com sucesso relativo na cura de várias doenças, como o diabetes e males renais. Na Inglaterra já foi caracterizada uma cura de doença pulmonar. Mas será válido o uso de células-tronco de embriões? 6.1.2.6. Introdução com causa e consequência É das mais comuns. Nesse tipo de introdução os motivos, as justificativas, as razões confundem-se, muitas vezes, com detalhes ou exemplos: Tanto do ponto de vista científico quanto da medicina, as células-tronco vão revolucionar a ciência da saúde, tendo em vista suas possibilidades de reprodução e de substituição de outras células. Haverá, pois, muitas alterações no tratamento de doenças, algumas tidas como incuráveis e agora com perspectivas de cura. Como foi dito, não são apenas essas, mas há outras maneiras de se fazer introduções, dependendo da versatilidade do redator. 6.1.3. O desenvolvimento É a parte principal, o corpo da redação. É nesta parte que se apresentam as ideias, os argumentos, a originalidade. A introdução apresenta a tese, e o desenvolvimento é o debate da tese. É a parte mais longa compreendendo os parágrafos mediais. O desenvolvimento apresenta cada um dos argumentos ordenadamente, analisando detidamente as ideias e exemplificando de maneira clara e suficiente o pensamento, sendo a parte mais longa da redação, mas não necessariamente a mais confusa, complicada e ininteligível. Isso só ocorrerá se você não tiver selecionado e organizado as ideias. Daí observe o que dizem os mestres da redação: Só comece a escrever depois de selecionar e organizar as ideias, quando você já escolheu os tópicos frasais que vai utilizar, sabendo, com certeza, aquilo que e sobre o que vai escrever. Não há necessidade de muitas ideias (o espaço dado é pequeno: 30 a 40 linhas no máximo). O importante é que, mesmo sendo poucas as ideias, sejam correta e objetivamente expostas, unidas por termos correlacionais (coesivos), a fim de não cansar o leitor (examinador) com ideias superpostas e períodos longos e maçantes. Lembre-se: para desenvolver um tema é preciso cultivar o hábito de entranhar-se em diversos assuntos, a fim de observar as relações entre as áreas de conhecimento, ou seja, é preciso ler, acostumar-se a ler e ler bastante. Dominar o assunto implica observar e fazer uma seleção das ideias que vão ao encontro do seu ponto de vista para o desenvolvimento do texto. Descobrir os limites temáticos (o que você faz na delimitação do tema) é imprescindível, já que os textos serão desconsiderados e não corrigidos se não desenvolverem a proposta solicitada. Aqueles que tangenciarem o assunto ou apresentarem baixo nível de informações também não terão retorno positivo: texto fraco, nota fraca. É no desenvolvimento que se faz a argumentação. Argumentar é apresentar evidências que confirmem a posição assumida, expor os detalhes que justifiquem a tese para convencer o leitor (examinador) de que a defesa que se faz é a melhor possível. O objetivo é convencer, mas não a qualquer preço, e sim com argumentos sustentáveis e éticos. Defenda na sua redação a opinião para a qual você tenha os melhores argumentos a fim de articular com competência. E surge a pergunta: como imaginar argumentos? Uma forma simples é pensar no modo como raciocina alguém de quem você discorda. O que ele diria sobre o assunto? Enumere os argumentos em oposição a ele. Outra forma é utilizar paradoxos, ou seja, fugir da opinião comum. Afastar-se do senso comum, pensar na ideia que vai contra a corrente e verificar se há pertinência com o tema proposto para a redação. Utilize dois ou, no máximo, três parágrafos no desenvolvimento. 6.1.4. A conclusão É o acabamento da redação. Da mesma forma que não se pode iniciar abruptamente, também não se pode terminar de chofre. Você caminha por etapas. Fez a delimitação do tema, traçou o objetivo, selecionou e organizou as ideias, redigiu a introdução e o desenvolvimento. Agora é o momento de elaborar o fecho, a conclusão. O último parágrafo da redação é aquele que vai “amarrar” as ideias desenvolvidas, ou melhor, vai sintetizar, reforçar a tese provada. Não deve ser longo e, a exemplo da introdução, ocupará apenas um parágrafo. A conclusão pode e deve ser maior do que a introdução, mas sempre menor do que o desenvolvimento. Deve ter exatidão, clareza e coerência em função da análise feita no desenvolvimento. Aconselha-se que tenha um mínimo de três períodos. Dessa forma você pode concluir seu texto: 1. fazendo uma síntese das ideias expostas; 2. explicando um posicionamento e/ou questionamento, desde que coerente com o desenvolvimento; 3. extraindo uma dedução ou demonstrando uma consequência dos argumentos expostos; 4. fazendo uma proposta, isto é, apontando soluções, procurando saída, buscando medidas que possam ser tomadas; 5. levantando uma hipótese ou fazendo uma sugestão que seja coerente com as afirmações feitas no desenvolvimento. Essas formas de conclusão não são exclusivas. Você pode concluir um texto deduzindo algo do que foi exposto, mas expressando tal dedução como seu posicionamento face ao problema analisado. Vejamos dois tipos de conclusão: 6.1.4.1. Conclusão proposta Este tipo de conclusão aponta soluções, procura saída, busca medidas que possam ser tomadas. Para um texto que fale sobre o aumento da criminalidade e cujo parágrafo de abertura diga que “entre as causas do aumento da criminalidade estão o êxodo rural, ocasionado pelo abandono em que vive o homem do campo, os meninos de rua e os adultos sem-teto” uma conclusão proposta poderia ser: Como se nota pela dimensão do problema, algumas medidas têm de ser tomadas com urgência. É necessário investir no homem do campo, para localizá-lo na terra, a fim de produzir e auferir ganhos para sua subsistência; desenvolver projetos educativos para tirar as crianças das ruas e educá-las no sentido de transformá-las em mão de obra qualificada e cidadãos honestos. Além disso, deve-se promover campanhas educativas para a população, com ampla fiscalização das autoridades responsáveis. Não esqueça que o encerramento deve ser maior do que o parágrafo de abertura do texto, tendo em vista retomar o tema, sintetizar as ideias expostas no desenvolvimento e procurar apontar soluções. 6.1.4.2. Conclusão resumo É um outro tipo de conclusão fácil de se redigir. Faz-se um resumo dos aspectos abordados no desenvolvimento e apresenta-se (ou reforça-se) a tese contida no primeiro parágrafo. Para a hipótese do texto de que falamos no item anterior, poder-se-á fazer a seguinte conclusão resumo: Pelo que acabamos de verificar, o problema do aumento da criminalidade não é tão simples como parece. É amplo e abrange do êxodo rural às crianças abandonadas e aos sem-teto. Afeta-nos diretamente e torna necessária uma ação conjunta governo-sociedade na busca de uma solução urgente e definitiva, com o apoio de todos e, principalmente, com o empenho das autoridades responsáveis. 6.1.5. Leia e entenda É importante que você treine o planejamento. Mas, antes, para entendê-lo melhor, leia o texto a seguir, afim de compreender bem os itens introdução, desenvolvimento e conclusão. Ao término do texto, faremos um comentário exemplificando esses itens que você sempre deverá ter em mente ao escrever. Há ideologias que pressupõem o homem como um ser naturalmente inclinado à guerra, essencialmente agressivo. São ideias fundamentadas na teoria da evolução, nos conceitos da luta pela existência, em que o mais forte ocupa as altas posições econômicas e políticas. No entanto, essas concepções são completamente contrárias à tendência evolucionária humana, que retrocede não só até a evolução em nível animal, mas também ao mais baixo nível de luta animal. Nem mesmo os carnívoros se alimentam uns dos outros, como o homem competitivo devora os rivais. Nenhum futuro evolucionário espera o homem que segue este caminho. A luta competitiva não deixará sobreviventes. Mesmo que se limite a uma guerra econômica, só pode acabar em contenda social, em crises de desemprego, em apuros financeiros e num fracasso quanto à utilização dos recursos do mundo da maneira mais completa e eficiente. Fora de uma atitude mútua de colaboração social e da produção voltada e planejada para o consumo, não há solução para tais dificuldades. Enquanto se mantiverem as condições atuais, o homem sentir-se-á agressivo, estará preparado para assegurar seu próprio bem-estar à custa do próximo. Esta, contudo, não é a natureza do homem, e sim a natureza do homem em nível subumano. Se o colocarmos em condições de trabalho realmente humanas, tendo em vista o bem comum, sua natureza tornar-se-á mais humana, mais cooperativa e seu futuro estará assegurado. Se fracassarmos nesse propósito, seu futuro será a guerra e a destruição. Como você observou na leitura, o tema desse texto é: “o homem é um animal naturalmente agressivo, o que se tem provado por inúmeras ideologias e até pela teoria da evolução. Prova disso é a luta competitiva que ele trava todos os dias, procurando sobressair no trabalho, na sociedade e em todos os momentos de sua vida.” Dado o tema, o autor fez a delimitação, em uma frase nominal: “A agressividade do homem frente à própria natureza.” A seguir, traçou o seu objetivo, usando, agora, um verbo no infinitivo: “Mostrar que a agressividade do homem não é a natureza normal do ser humano.” A partir do verbo no infinitivo (mostrar) ele selecionou várias ideias que organizou depois em cinco, já que sua redação foi prevista para cinco parágrafos. Cada uma das cinco ideias que organizou (de tal modo que uma puxasse a outra) tornou-se o tópico frasal dos cinco parágrafos. Então, ele objetiva “mostrar que a agressividade do homem não é a natureza normal do ser humano”, dizendo que: 1. Há ideologias que pressupõem o homem como um ser naturalmente inclinado à guerra, essencialmente agressivo. 2. Essas concepções são completamente contrárias à tendência evolucionária humana. 3. Nenhum futuro evolucionário espera o homem que segue este caminho. 4. Fora de uma atitude mútua de colaboração social e da produção voltada e planejada para o consumo, não há solução para tais dificuldades. 5. Esta não é a natureza do homem, e sim a natureza do homem em nível subumano. Vê-se que a organização de ideias fez um resumo do texto e com unidade e coerência. Partiu, então, o autor, para o desenvolvimento das ideias, ou seja, cada ideia tornou-se o tópico frasal de um parágrafo a ser redigido. A introdução foi feita a partir da primeira ideia selecionada. É o parágrafo inicial. Nele, o autor fez a abordagem do tema (contém o tema) com base em uma tese: “Há ideologias que pressupõem o homem como um ser naturalmente inclinado à guerra, essencialmente agressivo.” Terminada essa ideia, o autor iniciou o desenvolvimento, usando a segunda ideia, segundo parágrafo. Nela, discorda da que foi apresentada na introdução, de acordo com o objetivo traçado. De acordo com esse segundo parágrafo, no desenvolvimento, ele confirmou e justificou os princípios expostos em sua tese (ideia núcleo do segundo parágrafo), utilizando recursos de exemplos (quatro últimas linhas do terceiro parágrafo) que reforçam a ideia assumida no decorrer de sua argumentação, e apresentou soluções aos impasses que denuncia (quatro primeiras linhas do quarto parágrafo). Na conclusão (parágrafo final), o autor retomou a ideia núcleo desenvolvida no decorrer da dissertação, sintetizando-a e encerrando o assunto de forma taxativa e enfática. 6.1.6. Exercícios A seguir há dez assuntos de dissertação. Você vai fazer uma introdução para cada um deles, de acordo com o que aprendeu neste capítulo. 1. A Lei Seca não está sendo cumprida e precisa de uma “boa sacudida”. 2. Aumenta consideravelmente o número de idosos no Brasil. Em 1980 havia 16 idosos para 100 crianças; em 2000, 30 para 100 e, para 2050 a previsão é de 175 idosos para cada 100 crianças. 3. De todos os problemas brasileiros o que mais sobressai em importância e gravidade é o da educação. 4. Segurança e saúde são imprescindíveis quando o propósito é manter um ambiente de trabalho hígido e produtivo. 5. Já está provado que quanto mais pobre é uma comunidade, mais ela depende do meio ambiente. 6. Na atualidade, avanços da biologia molecular e genética começam a viabilizar procedimentos médicos que afetam as fronteiras do universo ético. 7. O processo de globalização foi muito mais rápido no âmbito das finanças e do comércio do que no plano político e institucional. 8. Reduzir a idade penal é a solução. 9. Os direitos humanos, a grande conquista moderna, procedem da ideia de que o governo está a serviço dos cidadãos, e não o contrário. 10. O sistema de saúde pública está falido. Continuando a treinar redação, faça um encerramento para cada um dos textos a seguir: 1. Ser miserável significa viver de forma absolutamente insalubre. No Recife, favelas enormes são erguidas em cima de mangues ou rios sem qualquer condição de segurança ou higiene. Quando a maré sobe, o lixo invade os barracos, espalhando dejetos por toda a vizinhança. A falta de saneamento é responsável pela proliferação de doenças. 2. O Brasil gasta 21% do produto interno bruto na área social, mas os pobres ficam com a menor fatia desse dinheiro. Os 10% mais ricos recebem quase a metade dos recursos distribuídos entre aposentados. Cerca de 60% do gasto com educação financiam as universidades do governo, onde estudam os integrantes do topo da pirâmide. Só 2% das despesas sociais são destinados a investimento em saneamento básico. 3. Metade dos miseráveis brasileiros vive no Nordeste, geralmente na zona rural de cidades muito pequenas. Nesses bolsões de pobreza, assolados pela seca, falta comida, e não há trabalho para todo mundo. Em muitos casos, a única fonte de rendimento das famílias provém da venda de ossos aos comerciantes, que usam o “produto” como matéria-prima de ração de animais. (Textos retirados da revista Veja, edição 1,735) 4. Costumamos olhar pouco para fora do Brasil quando tentamos compreender o que estamos vivendo. Faz muito que a distância entre os países desapareceu, no plano objetivo. Continuamos, porém, vivendo “isolados do mundo”, como diz uma canção, ainda que apenas na subjetividade. Se pensarmos no que está à nossa volta, na América do Sul, então, mais ainda. Mesmo quando é bem informado, o brasileiro típico se mostra mais capaz de dar notícia do que ocorre na Europa e nos Estados Unidos da América do que em qualquer outro de nossos vizinhos. (Marcos Coimbra. “Olhando à nossa volta” in Correio Braziliense, 23/9/2007) 5. Cidadania é o direito de ter uma ideia e poder expressá-la. É poder votar em quem quiser sem constrangimento.É processar um médico que cometa um erro. É devolver um produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o direito de ser negro sem ser discriminado, de praticar uma religião sem ser perseguido. Há detalhes que parecem insignificantes, mas revelam estágios de cidadania: respeitar-se o sinal vermelho no trânsito, não jogar papel na rua, não destruir telefones públicos. Por trás desse comportamento está o respeito à coisa pública. 6. A reserva de cotas, como não podia deixar de ser, proporciona um problema social. Não há como concordar com a reserva de cotas nas universidades nem para negros, nem para índios, nem para minorias. O caminho não é por aí. Isso seria simplesmente estímulo ao problema racial que já está em estágio bastante avançado no país. (Opinião. A Gazeta. Natanael Leal – Vitória, 27/6/2010) 7. A morosidade do Judiciário, que está diretamente associada ao sentimento de impunidade, se reaviva sempre que algum caso de corrupção é denunciado ou o autor de um homicídio bárbaro é solto, apesar de o senso comum apontar para a grave ameaça que este representa à sociedade. É um tema recorrente que desafia os magistrados a identificar causas e buscar soluções. (…) Os juízes federais estão empenhados em mudar essa situação. A reforma do Processo Penal é uma das iniciativas mais importantes para pôr fim ao sentimento de impunidade. 8. O Brasil rural está vencendo seus desafios com mais rapidez. A universalização da educação e o acesso progressivo a comodidades do mundo moderno, como energia elétrica e telecomunicações, além da importância crescente do agronegócio na economia, tendem a reduzir fluxos migratórios para as cidades e ainda a diminuir as diferenças entre os indicadores do campo e dos centros urbanos (as taxas de fecundidade, por exemplo, já se aproximam). (Editorial O Globo, 21/11/2007) 9. Volta-se a falar em reforma política, mas todos os que a pregam dentro da tradição brasileira querem-na porque não a querem, pretendem fazê-la de tal forma que o poder permaneça com as oligarquias. O sistema eleitoral terá de ser de tal ordem que o poder de fato não saia das mãos dos descendentes daquelas famílias que, acompanhando D. João VI, aqui se instalaram em nova e mais efetiva colonização política do Brasil. O argumento reacionário das elites é sempre o mesmo: o povo não está preparado para o poder. (Mário Santayana. “A pirâmide e o trapézio”. In Correio Braziliense, 4/10/2008) 10. A magnitude e a velocidade das mudanças em todo o mundo têm trazido um impacto dramático sobre as pessoas e seus locais de trabalho nos últimos tempos. O ritmo das mudanças é muito rápido. E o futuro nos acena com uma aceleração ainda maior em termos de inovação, tecnologia e globalização. Leia os textos a seguir e considere-os como sendo um parágrafo de abertura. Faça, então, dois parágrafos de desenvolvimento e um de encerramento para cada um deles. 1. Várias pesquisas revelam que, no Brasil, os jovens são mais vítimas que algozes da violência. De um lado, o número de infratores supera em pouco a casa dos 40 mil, o que representa 2% da população total da faixa etária dos 12 aos 17 anos. Esses adolescentes respondem por 20% das infrações praticadas no território brasileiro. De outro lado, os assassinatos representam hoje 50,15% dos óbitos verificados entre os adolescentes em decorrência de causas não naturais. 2. Antes de falar em cota, o que o governo deve fazer é privatizar todas as universidades públicas. A quantia absurda de dinheiro que vai ganhar com a privatização e o que vai deixar de gastar com o ensino superior dará para conceder bolsas de estudo para que todos – independente de cor ou raça – façam cursos preparatórios e o ensino superior em faculdades particulares, e, ainda, ficará em caixa muito dinheiro. Cota para negro é racismo, é querer afirmar que o negro é menos inteligente que o branco. 3. O problema da droga é econômico e ideológico. Com a transnacionalização da economia, materializam-se novas formas de controle. Foi criado um sistema jurídico-penal com o fim de criminalizar e penalizar determinadas drogas. É curioso observar que se penaliza sobretudo aquelas vindas das economias periféricas (maconha, crack e cocaína produzidas na América Latina) enquanto se permitem as ligadas à grande indústria (álcool e anfetaminas). (Cadernos do Terceiro Mundo, nº 176-Ed. Terceiro Mundo) 4. Nesta “aldeia global” de nosso tempo, em que os meios de comunicação exibem a cada instante as vantagens do bem-estar material, da cultura e do poder, não se pode pedir a nosso povo que continue vivendo na pobreza. Mas é fato, dramático, que quase a metade da população vive na pobreza e que o Brasil exibe assombrosas desigualdades na distribuição de renda. 5. “Os estudos encomendados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para avaliação da viabilidade de concessão à iniciativa privada da gestão dos aeroportos trouxe novamente à baila da discussão sobre o módulo de administração dos terminais aéreos brasileiros. Junte-se a isso a necessidade urgente de investimentos na ampliação e modernização da infraestrutura existente, além da construção de novas estações aeroviárias.” (Jornal A Gazeta, 19/01/2011, Editorial) 6. “Quando você manda embora uma empregada não tem de pagar 13º salário, férias, folgas? Por que a esposa que faz o mesmo tem de ficar só com a pensão quando o marido a larga?”, rebela- se uma dona de casa que jamais comungou com o feminismo. Intuitivamente ela tocou num ponto nevrálgico da organização econômica das sociedades. Trabalho, por definição técnica é um investimento de energia física na execução de alguma tarefa. O que varia são as modalidades. 7. A economia liberal é a força motriz do desenvolvimento do mercado de drogas legais e ilegais. O consumo delas é regulado pela lei da oferta e da demanda. Mas, além disso, há uma carga ideológica e emocional em torno do assunto, que criou o mito da droga, disseminado pela mídia e acolhido pelo imaginário social, a partir de uma estratégia dos países capitalistas, responsáveis pela demanda por drogas no mercado internacional. 8. O Brasil volta ao banco dos réus por permitir que milhares de pessoas trabalhem em regime escravagista. Há denúncias de escravidão por dívidas em trabalho nas carvoarias de Minas Gerais, nas usinas de açúcar do Nordeste e do Sudeste, nas fazendas do Centro-Oeste e nos seringais e garimpos da Amazônia. Trata-se de uma denúncia que certamente compromete um pouco mais a imagem do Brasil. Você aprendeu como preparar o plano de sua redação, como fazer a introdução, o desenvolvimento e o encerramento. Treine, agora, escrevendo redações (mas só depois de preparar o plano, ou seja, delimitar o tema com uma frase nominal, traçar o objetivo com um verbo no infinitivo, selecionar ideias, organizá-las e desenvolver os tópicos frasais). E não esqueça de que um tópico frasal deve ser ligado ao outro, as ideias bases formando um resumo do texto e as ideias secundárias coesas (intimamente ligadas à ideia principal e entre si). Procure fazer esse treinamento não uma ou dez vezes, mas o máximo que puder até acostumar-se e conseguir fazer redações nota dez. Capítulo 7 A Montagem da Redação É claro que somos livres para falar ou escrever como quisermos, como soubermos, como pudermos. Mas é também evidente que a adequação assinalada contribui efetivamente para a maior eficiência comunicativa. Domício Proença Filho – Filólogo brasileiro In: Por Dentro das Palavras (Record, 2003) 7.1. A PREPARAÇÃO DA REDAÇÃO Chegou a vez de passar a limpo a sua redação.Você fez o rascunho, começando por delimitar o tema, traçar o objetivo, selecionar ideias, organizá-las e desenvolver os parágrafos. Preste atenção, agora, no que você deve fazer para uma redação nota dez. Uma das coisas que o examinador não deixa de verificar é o visual. O impacto (bom ou mau) é muito importante. Não esqueça de que o belo é algo instintivo e não há beleza se não houver ordem e limpeza. Dentre os elementos que compõem a estética da redação e concorrem para um melhor visual e correção, pode-se destacar: 7.1.1. Título Normalmente não se coloca título na redação, a não ser se houver o comando: “Dê título à sua redação.” Neste caso, faça a redação normalmente, sem colocar título e, só depois que a passar a limpo, faça uma releitura e, dessa releitura, retire um título. Nesse caso, observe as especificações seguintes: 1. Coloca-se o título apenas nas folhas de redação em que houver um local específico para ele ou nas folhas de redação que não estejam previamente numeradas. A linha do título e as duas ou três linhas que se deixam em branco antes do primeiro parágrafo não devem ser contadas. A redação começa na linha um e na primeira palavra do primeiro parágrafo. 2. Todas as iniciais do título, menos das palavras de pouca extensão, como preposições, artigos, conjunções etc., com exceção da primeira, devem ser maiúsculas: Exemplos: A Linguagem no Pensamento e na Ação Um Olhar sobre a Criminalidade Ou maiúscula inicial apenas na primeira palavra, seja ela de qualquer classe gramatical: Exemplos: A linguagem no pensamento e na ação Um olhar sobre a criminalidade. Ou, ainda, todas as palavras em maiúsculas (letra de forma): Exemplos: A LINGUAGEM NO PENSAMENTO E NA AÇÃO UM OLHAR SOBRE A CRIMINALIDADE. 3. Use ponto final nos títulos apenas se forem uma frase ou citação. Os títulos normais não levam ponto final. 4. Entre o título e o contexto deixe uma, duas ou três linhas ou espaço equivalente. 7.1.2. Parágrafos Já vimos que são fundamentais à redação, pois constituem o visual prático da estrutura do texto, apontando as três partes obrigatórias de uma dissertação: a introdução, o desenvolvimento e a conclusão, facilitando isolar e unir as ideias contidas nos tópicos frasais. 1. Na folha de redação, o parágrafo é indicado por um ligeiro afastamento da margem esquerda, mais ou menos dois a três centímetros, com a alínea paragrafal iniciando-se todas à mesma altura. Não esqueça: um parágrafo não pode adentrar a linha mais do que outro, pois não haveria harmonia no visual. 2. Não deixe espaços vazios nas laterais das linhas nem avance nas margens, pois isso pode acarretar perda de pontos. 3. O número de parágrafos é variável, conforme a extensão exigida para a redação. Em um concurso, nas redações dissertativas, o mínimo exigido é de três parágrafos (aconselha-se quatro para melhor expor as ideias e argumentos), e o máximo depende da quantidade de linhas solicitadas pelos examinadores. 4. Comece parágrafos, períodos e nomes próprios com letra maiúscula. A menos que o tema o exija, não faça citações de pessoas conhecidas ou de empresas, nem para enaltecer nem para criticar. Exemplificando: se o tema for sobre corrupção, não use frases como “o senador Fulano de Tal usou a Tribuna para mostrar a indignação popular…”; “o jornal O Estado de São Paulo trouxe mais provas de corrupção…” É melhor que sua redação fique impessoal afirmando: um senador usou a Tribuna para…; um dos mais respeitados jornais trouxe mais provas etc. 5. Treine para escrever parágrafos com uma média de cinco a oito linhas que é o mais aconselhável em um concurso, permitindo a você ficar dentro do número geralmente pedido (25 a 35 linhas). 6. Não esqueça que um parágrafo só pode conter uma ideia núcleo e que as ideias secundárias devem se relacionar intimamente com a principal. Toda vez que mudar o fio do raciocínio mude de parágrafo. 7. Somente o primeiro parágrafo pode ser constituído de apenas um período (aconselha-se no máximo três), cuja finalidade é introduzir o assunto. Os parágrafos do desenvolvimento devem ter vários períodos, nunca um só. O último deve ter no mínimo três: o primeiro retoma o assunto, o segundo faz a síntese do desenvolvimento e o terceiro traça soluções com vista ao futuro. Nesse parágrafo seja incisivo, categórico a fim de superar possíveis deficiências dos parágrafos anteriores. 8. Tente não rasurar seu texto, pois não se admitem rasuras em uma prova de concurso. Uma redação suja e borrada dá ao examinador a primeira impressão negativa que dificilmente será apagada, mesmo que o conteúdo do seu texto seja excepcional e a correção esteja irrepreensível. Passe a limpo o rascunho com bastante cuidado. Se a tensão da prova e o nervosismo fizerem você cometer algum erro ao passar a limpo, utilize o recurso de empregar uma palavra como “digo”, entre vírgulas, seguindo-se a palavra escrita corretamente. Não coloque a palavra errada entre parênteses, mas com um traço sobre ela. 9. Não faça carinhas, corações, bolinhas, lacinhos ou qualquer outro sinal ou desenho na folha de redação. 7.1.3. Letra É um item de suma importância, não só pelo visual simpático de uma caligrafia legível, mas pela impressão de ordem e limpeza que ela nos passa. A legibilidade é sempre solicitada em todos os concursos de forma específica e alguns chegam até a exigir o uso da letra cursiva. Atualmente, os órgãos examinadores aceitam, também, a letra de forma, desde que haja diferenciação entre as maiúsculas e minúsculas, e palavras acentuadas e não acentuadas. A escrita ilegível é item anulatório da redação. Ela nem será corrigida. Letra feia em redação, que necessite adivinhar o que está escrito, é pecado capital e merece fuzilamento. Não adianta escrever bem estilística e semanticamente, com letra que o examinador não entenda ou que necessite de releitura ou adivinhação. Ele não vai fazer isso. Se a sua letra não for legível, o único remédio é treinar a caligrafia ou a letra de forma. Um lembrete: caderno de caligrafia não é coisa para criança, mas para quem tem letra feia. Todas as provas de concurso que pedem redação oferecem uma ou mais folhas de rascunho. Desse modo, a rasura ao passar a limpo não é perdoada e nem há explicação para ela. Ou o candidato não fez rascunho (e isso é imperdoável) ou ainda não aprendeu o trabalho elementar da cópia. Você deveria ter rasurado no rascunho, antes de passar a limpo e copiar sem erros. 7.1.4. Qualidades da redação Formam as qualidades básicas de uma boa redação: coerência, coesão, concisão, clareza, elegância, originalidade, expressão, propriedade e correção. Redigir é aliar a correção e adequação da linguagem à criatividade e análise de um assunto, expressando as ideias com acerto e propriedade. Há que apresentar uma linguagem escrita correta, adequada e harmoniosa, o que se consegue com a leitura, vocabulário, conhecimento dos tipos de composição e interpretação de textos e dos fatos gramaticais que ordenam, disciplinam e sistematizam a língua. 7.1.4.1. Coerência A coerência trata da logicidade do texto, numa subordinação e relacionamento de sentido entre a ideia principal e as ideias secundárias, compondo um todo em que devem estar delimitados o princípio, o desenvolvimento e o final. Para que um texto seja coerente e possa ser compreendido, não basta que trate apenas de um assunto. É preciso também que os seus parágrafos estejam relacionados e não apresentem contradições, devendo oferecer ao leitor uma mensagem completa. Cada parágrafo concentrará e desenvolverá uma determinada ideia acercado tema, e a sequência paragrafal determinará o desenvolvimento das ideias para que o leitor adquira a noção do que o texto transmite. Assim, tem-se: • Coerência global – o texto deve estar de acordo com a visão do mundo – é o princípio da realidade. • Coerência local – o texto deve estar de acordo com as ideias veiculadas anteriormente pelo próprio texto (não deve fugir do tema) – é o princípio da consistência. • Coerência temática – o texto deve ter apenas um assunto, a fim de não prejudicar a veiculação da ideia principal – é o princípio da parcimônia. • Coerência formal – o texto deve ater-se a um mesmo nível de linguagem. A mistura do culto, coloquial, popular e regional confunde e prejudica a comunicação. Um texto é coerente quando as ideias e situações que ele apresenta estão encadeadas de maneira lógica. Quando não há coerência, o texto fica sem sentido e não há como se tirar dele uma conclusão, como neste exemplo: O Polo Sul é gelado e o verão é quente. O homem é mortal e a tartaruga vive 300 anos, está em fase de extinção e recebe cuidados do Projeto Tamar. O que tem a ver o Polo Sul ser gelado e o verão quente? E que lógica existe em o homem ser mortal e a tartaruga viver 300 anos? E o que o projeto Tamar tem a ver com isso? É um texto sem coerência. 7.1.4.2. Coesão O adjetivo coeso significa lógico, coerente, intimamente conexo. Duas ideias são coesas quando há uma ligação lógica, coerente, entre elas. A coesão está relacionada com o microtexto e possui palavras que estabelecem relações de ideias. Ela é importante para a coerência, embora esta não dependa exclusivamente daquela. Um texto é coeso quando as suas partes se relacionam entre si de modo claro e adequado, criando um todo com sentido, com o uso dos instrumentos da língua (uso correto de artigos e pronomes, correlação verbal lógica, uso correto das conjunções e palavras denotativas). Deve haver relações de sentido entre as frases que, unidas, possam transmitir, de modo claro, uma mensagem, uma opinião, uma informação. • Coesão sequencial – é feita por conectores, também conhecidos como operadores do discurso. São palavras ou expressões criadoras de relações semânticas de causa, consequência, condição, concessão, qualidade e outras, tais como: mas, dessa forma, no entanto, por conseguinte, então, visto que, embora, em virtude de, por isso etc. Exemplo: Ele falou bonito durante a conferência, no entanto recebeu poucos aplausos. Vê-se que a expressão no entanto não faz referência a nenhum outro vocábulo do texto, servindo apenas para ligar (conectar) uma ideia a outra, transmitindo uma compensação, numa coesão sequencial. • Coesão referencial – manifesta-se nas estruturas anafórica (de anáfora, palavra grega com o sentido de levar para trás, ou seja, referência a uma palavra dita anteriormente) e catafórica (do grego catáfora, com o sentido de levar para frente, ou seja, referência a uma expressão que será dita), bem como nas chamadas referências endofórica (expressão grega com o sentido de levar para dentro, ou seja, referência ao que está no texto) e exofórica (com o sentido de levar para fora, ou seja, referência ao que não está escrito no texto, mas se depreende). 1. Referência anafórica – é a forma mais usual de coesão. O elemento pressuposto está explícito no texto e prevê o item coesivo que será usado depois dele para evitar a sua repetição. Exemplo: A Filosofia teve origem na tentativa humana de escapar para um mundo em que nada mudasse. Platão, fundador dessa área da cultura, supunha que a diferença entre o passado e o futuro seria mínima e que essa ciência não teria evolução. Veja as expressões essa área da cultura e essa ciência. Elas referem-se à palavra Filosofia, evitando a sua repetição. São nominados termos coesivos anafóricos, porque se referem a uma expressão dita anteriormente (que ficou para trás). 2. Referência catafórica – É quando o item coeso aparece antes do termo pressuposto, como no seguinte período: Os deputados poderiam fazer uma coisa: renunciar à imunidade. A expressão uma coisa só pode ser recuperada como identificação da oração apositiva renunciar à imunidade. Logo, uma coisa é o termo coesivo catafórico, pois faz referência a uma expressão dita depois dela. • Coesão recorrencial – consiste na repetição de palavras ou de estruturas frasais semelhantes em um texto. Normalmente é usada para dar ênfase. Exemplo: 1. Vendo o palhaço, as crianças riam, riam, riam. 2. No pequeno palco improvisado, a marionete parece que anda, parece que pula, parece que dança, parece que tropeça. No primeiro exemplo, houve a repetição do vocábulo “riam” e no segundo, repetiu-se uma estrutura frasal (oração subordinada objetiva direta) “que anda”, “que pula”, “que dança”, “que tropeça”. 7.1.4.3. Concisão É a fuga da prolixidade. Deve-se mencionar apenas o estritamente indispensável, exprimindo o maior número de ideias com o mínimo possível de palavras. Em um texto, o que não é indispensável constitui prolixidade. Mas há de ter o cuidado de não pretender alcançar a concisão em detrimento da clareza. Mais uma vez surge a necessidade do rascunho. Deve-se escrever de acordo com o fluxo das ideias que vêm à mente, sem grandes preocupações com a concisão. Depois de pronto o rascunho, faz-se uma releitura minuciosa, cortando tudo o que não faça falta ao texto nem lhe imprima vigor. Não esqueça, porém, que o excesso de concisão tornará o texto obscuro e sem harmonia. Logo, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Leia o rascunho de texto a seguir: A promulgação tem por finalidade e objeto determinado a atestação e reconhecimento oficial, pelas autoridades públicas, da existência da lei, com a ordem para que ela seja executada por todas as pessoas. Já a publicação é a condição única e primordial dessa execução que foi ordenada na promulgação: a divulgação da lei em toda a parte onde ela tenha de ser cumprida, por todos que dela tomarem conhecimento. Uma condição é, portanto, o complemento da outra premissa; sem a promulgação que atesta oficialmente a existência da lei, a publicação é apenas e unicamente uma informação e não uma ordem; sem a publicação da lei, a promulgação é uma ordem inexequível que não pode ser cumprida porque não é transmitida e não sendo transmitida não chega ao conhecimento de todos aqueles que têm de cumpri-la. O rascunho foi elaborado de acordo com o fluxo das ideias e sem se preocupar com a concisão. Faz-se, agora, uma releitura a fim de retirar as palavras e expressões dispensáveis. Para que fique conciso, basta deixar o estritamente necessário, o que lhe dará concisão e vigor. Observe: A promulgação tem por objeto a atestação oficial da existência da lei, com ordem para que ela seja executada. A publicação é a condição primordial dessa execução ordenada: a divulgação da lei em toda parte em que ela tenha de ser cumprida. Uma são condição e complemento da outra. Sem a promulgação, a publicação é apenas uma informação e não uma ordem. Sem a publicação, a promulgação é apenas uma ordem inexequível, porque não é transmitida e não chega ao conhecimento de quem tem de cumpri-la. Agora o texto está conciso, com o que o autor queria dizer e sem palavras e expressões dispensáveis. 7.1.4.4. Clareza É resultante da coerência e da concisão. Não se pode abordar um tema tangencialmente ou por fragmentos, porque ele ficará indefinido e o leitor não o entenderá. Assim, a clareza é a forma mais simples de dizer o pensamento, pondo cada ideia no seu lugar natural e exprimindo-a nitidamente. A clareza depende muito da escolha das palavras adequadas ao contexto e que devem ser conhecidas do leitor.Evite frases ambíguas e mal construídas, muito longas, carregadas de ideias incidentes que distorcem o sentido e afetam a clareza. Assim, para obter-se clareza é necessário: • Meditar sobre o tema, reunir as ideias, colocá-las de modo coerente e só começar a escrever depois de saber o que vai escrever, o que se faz com um esquema (plano) e depois com o rascunho. • Utilizar frases curtas. Períodos longos geralmente tornam-se confusos e ininteligíveis. Exemplo: Em todo o país, renomados escritórios de advocacia têm-se manifestado contrários ao conceito de terrenos de marinha, e todavia nem é necessário ser expert em leis para entender claramente que a figura de terreno de marinha é arcaica e imprecisa, o que é comprovado historicamente, pois a origem da referida denominação vem do período do Império quando o terreno de marinha foi criado pela Lei nº 601 de 18/9/1850, assinada pelo imperador Dom Pedro II, delimitando uma faixa de terra com 33 metros de largura contados a partir da linha da preamar média de 1823, adjacente ao mar e rios. Esse período bem que poderia ser refeito, em períodos menores: Em todo o país, renomados escritórios de advocacia têm-se manifestado contrários ao conceito de terreno de marinha. Todavia, nem é necessário ser especializado em leis para entender claramente que a figura de terreno de marinha é arcaica e imprecisa. Isso é comprovado historicamente, pois a origem da referida denominação vem do período do Império. Ela foi criada pela Lei nº 601 de 18/9/1850, assinada pelo imperador D. Pedro II, como a faixa de terra com 33 metros de largura, contados a partir da linha da preamar média de 1831, adjacente ao mar e rios. Dividido em quatro períodos, o texto ficou mais claro e inteligível. • Empregar palavras precisas, de significado que você conhece e evitar palavras de sentido vago, viciosas ou valorativas, como: É um cara legal O Direito é um negócio sério Os juízes são cabíveis de erro. • Ter simplicidade. Evite termos arcaicos e rebuscados, como: Era uma jovem de uma nugacidade extrema. (Em lugar de nugacidade, seria melhor futilidade.) • Evitar o pleonasmo vicioso, como na frase: Aquilo é um parasita que vive às custas dos outros. (Ao que se sabe, todo parasita vive às custas dos outros.) • Evitar as anfibologias ou ambiguidades: Matou-se por causa do ciúme da mulher. (Não dá para entender: do ciúme que ele tinha da mulher ou do ciúme que a mulher tinha dele?) 7.1.4.5. Elegância É o cuidado com o visual da redação. Observar a alínea paragrafal, a margem direita, a translineação, não rasurar. Isso é elegância em uma redação de concurso e é cobrada pelos examinadores na nota de conteúdo. Lembre-se de que a alínea paragrafal tem de ficar na mesma direção vertical, não adentrando à direita nem saindo à esquerda, devendo-se fazer o mesmo com as margens, tanto a esquerda quanto a direita. Quando fizer a translineação (separação de palavras em final de linha) não esqueça: a) No final da linha deve-se colocar apenas o sinal de translineação (-) após a última letra ou embaixo dela. CORRETO …………… e com estas pala- vras… …………… e com estas pala vras… ERRADO: …………… e com estas pala-/ vras… …………… e com estas pala…/ vras… ………… e com estas pala-/ vras… b) Tanto no início como no final da linha deve-se evitar o registro de apenas uma vogal. CORRETO: …………… democra- cia… …………… orienta- cão… ERRADO: …………… democraci- a… …………… o- rientação… c) Evitar a separação de hiatos, ditongos e tritongos. CORRETO: …………… é preciso compreen- der…. …………… o gua- raná… …………… .trouxe um guaia- mun… ERRADO: ………… é preciso compre- ender… …………… o gu- araná… …………… trouxe um gua- iamun… d) Não separar sílabas de vocábulos que constituam nova palavra com sentido completo e, quase sempre, inadequado à redação. e) Não esquecer o traço de união na linha seguinte, quando separar palavras unidas por hífen. f) Não translinear palavras de língua estrangeira e números. Em caso de cifra, coloca-se o cifrão no final da linha e o número logo no início da linha seguinte. 7.1.4.6. Originalidade É a criatividade, a apresentação dos aspectos, fatos ou opiniões de modo pessoal, sem imitação de processos ou particularidades de outros escritores. A originalidade pode apresentar-se tanto nas ideias como nas expressões. Para isso deve-se escrever diferente da maneira que se fala a fim de não cometer uma série de erros. Para conseguir originalidade você deve evitar: • Os clichês estilísticos: Clichê é o nome da matriz para impressão tipográfica que pode ser reproduzida indefinidamente. Daí esse nome para frases ou expressões originariamente enfáticas e que se tornaram formas de dizer de quem não encontra recursos próprios e servem tão somente para desvalorizar um texto, como nestes exemplos: Agente da lei – a ferro e fogo – à moda da casa – a nível de – ao mesmo tempo – a olhos vistos – a torto e a direito – abraçar causas – abrir o jogo – acenar com possibilidades – apagar incêndios – arregaçar as mangas – baixar a guarda – beco sem saída – borracha no passado – botar para quebrar – cair por terra – campo minado – cantar vitória – carregar nas cores – carro-chefe – caso de polícia – chumbo grosso – correr por fora – curto e grosso – curvar-se ante – deixar a desejar – dar lua verde – de importância vital – digno de nota – elo perdido – emitir sinais – empreender esforços – estaca zero – estar a par – encerrar com chave de ouro – esmagadora maioria – exame de consciência – faca de dois gumes – fechar o cerco – fazer o que se pode – ficar às moscas – fomentar greves – fundo do poço – frente de batalha – ganhar corpo – gatos pingados – guerra de nervos – hora H – hora da verdade – inserido no contexto – jogar pá de cal – lançar mão – leão da receita – levar a cabo – limpar o nome – linha de frente – meias verdades – por outro lado – página virada – pano de fundo – páreo duro – passar em branco – peça-chave – pedra sobre pedra – peso morto – pisar em falso – poder de fogo – precisão cirúrgica – pôr ordem na casa – por sua vez – pura realidade – rachar ao meio – renovar esperanças – romper barreiras – saltar à vista – seguir à risca – suar a camisa – sumir do mapa – tábua de salvação – tempo hábil – tomar nota – trata-se de mera coincidência – trazer à tona – trocar em miúdos – única e exclusivamente – via de regra – verdade nua e crua etc. Antes de passar sua redação a limpo, releia com cuidado e, se encontrar algum clichê, tente eliminá-lo. Pergunte-se: o que eu quero realmente dizer com isso? Então procure palavras outras que sejam adequadas ao que você quer exprimir, sem usar o clichê. • O uso de chapas, chavões e lugares-comuns: Vamos levantar a cabeça e partir para outra. Desde tempos imemoriais. Chegar a um denominador comum. A inflação é um tigre devorador. São Paulo é a locomotiva que conduz o Brasil. Para ter originalidade é necessário fugir do lugar-comum, das fórmulas prontas e das frases feitas como as que mostramos. São expressões desgastadas conhecidas como chavões e só denotam falta de reflexão por parte de quem escreve. Somente a leitura, diversificada e frequente, pode livrá-lo dasarmadilhas dos chapas ou chavões. Quem lê bastante conta com inúmeros recursos linguísticos para traduzir com precisão ideias e opiniões, valorizando o que escreve. Ao ler o seu rascunho, se encontrar algum chavão, tente eliminá-lo antes de passar o texto a limpo. Veja alguns exemplos: O efeito estufa nada mais é do que a vingança da mãe natureza. Nesse exemplo, além do chavão, há um conceito errado acerca da natureza. O autor poderia ser mais explícito informando: O efeito estufa ocorre por causa da concentração de gases, na atmosfera, que retêm a radiação solar na superfície da Terra, gerando o que chamamos de aquecimento global. Outro exemplo: Mesmo com tanta corrupção, ainda há uma luz no fim do túnel. Acreditemos nela. Essa é uma afirmação ampla e vaga. E se a luz for a de um trem que entrou no túnel? Aí piora a situação. Num contexto assim você poderá eliminar o chavão escrevendo: Apesar de tudo o que vem acontecendo, o quadro de corrupção que assola o País pode ser revertido. Para tanto, é necessário atenção maior não só da população, como também, e mais ainda, do Ministério Público, Tribunal de Contas e outros órgãos fiscalizadores. • O uso abusivo da palavra que (queísmo). Naquele momento deixou que uma frase escapasse. Consta que os deputados suspenderam dois debates que tratavam da criminalidade e que não vão modificar o Código Penal. Corrija para: Naquele momento deixou uma frase escapar. Consta a suspensão de dois debates dos deputados sobre a criminalidade e a não modificação do Código Penal. No item criatividade é elegante a substituição de pronomes possessivos pelos pronomes pessoais oblíquos correspondentes: Cassaram a tua palavra (Cassaram-te a palavra). Evitaram a sua prisão (Evitaram-lhe a prisão). 7.1.4.7. Expressão Por expressão entende-se o domínio do vocabulário e das estruturas da língua. Só se consegue expressão com a leitura. Ler editoriais de jornais, colunas, revistas e consultar o dicionário. É na expressão que se denota criatividade, propriedade, concisão e correção. Veja o exemplo: Fala-se muito, atualmente – e de forma apaixonada –, sobre a diminuição da maioridade no nosso código penal. É um tema polêmico, por ser multidisciplinar. Dessa decisão querem participar diversos segmentos pedagógicos, psicológicos, filosóficos, religiosos, políticos, sociológicos e outros mais. Argumenta-se, a favor da diminuição da idade penal: se um adolescente de 16 anos já pode trabalhar, votar e ter relações sexuais, por que não poderia ser responsabilizado se cometesse um crime? Um adolescente com até 17 anos de idade não pode, por exemplo, ter habilitação para dirigir, ter porte de armas, comprar cigarro ou bebida alcoólica. Isso por não ser ainda penalmente imputável, isto é, por não ter condições de responder judicialmente por seus próprios atos. Diminuir a menoridade penal para 16, 15, 14 anos significaria também autorizar pessoas tão jovens a tudo isso. Esse texto tem expressividade, denota leitura e conhecimento do assunto, apresentando criatividade, propriedade na progressão de ideias, concisão e correção. 7.1.4.8. Propriedade É o uso de expressões e palavras adequadas ao assunto sobre o qual se escreve. Deve-se evitar impropriedades vocabulares como: Jorge Amado era um escritor que sentia ganância de escrever. A expressão ganância não está sendo usada corretamente, pois significa ambição de ganho, ganho ilícito e não cabe no texto. O que o escritor poderia sentir era vontade ou desejo de escrever. 7.1.4.9. Ênfase É o emprego do termo próprio e adequado à integral expressão do pensamento. Em um texto, a ênfase deve ser dada no tópico frasal do parágrafo, tanto pela posição dos termos nas orações, como pela expressividade dada à ideia núcleo, aparecendo sob diversas formas: • Ordem inversa É quando os termos da oração são colocados fora de sua posição normal ou habitual, com o objetivo de dar à frase mais realce ou relevo: Em um texto que cite a função da polícia, pode-se fazer a ordem direta com ênfase na função da polícia: A função da polícia é garantir a segurança da população, e por isso ela não pode atuar com base no medo, mas sim no respeito. Ou a ordem inversa com ênfase na segurança: A segurança da população é a função da polícia, por isso ela não pode atuar com base no medo, mas sim no respeito. Ou ainda a ordem inversa com ênfase na atuação: A polícia não pode atuar com base no medo, mas sim no respeito, pois sua função é garantir a segurança da população. • Repetições Intencionais Representadas pelas figuras de construção, como a anadiplose, em que a última palavra de um período inicia o período seguinte: A única coisa que se pede é Justiça. Justiça, base e razão do Direito. Observe este excerto de Rui Barbosa, destacado por Óthon M. Garcia no livro Comunicação em Prosa Moderna (p. 285): Mentira de tudo, em tudo e por tudo (…) Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações, nos blocos. Nesse texto, o autor usou de vários recursos para dar ênfase às suas ideias: frases nominais de sentido entrecortado; a repetição intencional da palavra mentira (anadiplose); o uso de figuras como a aliteração (repetição de um mesmo som) em protestos, promessas, programas, projetos, progressos e gradação em clímax na enumeração dos adjuntos dos três últimos períodos. • Gradação Recurso estilístico para ênfase e coerência, consiste em dispor as ideias em ordem crescente (clímax) ou decrescente (anticlímax) de importância, como se pode notar no texto a seguir: Falar de direitos humanos no Brasil é falar de lutas sociais que se desenrolam, em uma sociedade que carrega marcas históricas de desigualdades, desmandos, violências, arbitrariedades e injustiças. Os resultados não poderiam ser outros senão o quadro de violações aos direitos humanos que permeiam as relações sociais em praticamente toda a sociedade brasileira e que atingem com maior brutalidade as populações empobrecidas e socialmente excluídas. A gradação no primeiro período (desigualdades, desmandos, violências arbitrariedades e injustiças) e o não deslocamento do adjunto adverbial com maior brutalidade, no segundo período, dão ênfase ao texto e maior expressividade às ideias do autor. • Voz Ativa e Passiva Realçam a ação do sujeito: O agente estatal, quando atua, não o faz para realizar sua vontade pessoal, mas para dar cumprimento a algum dever, que lhe é imposto pelo Direito. A voz passiva em que lhe é imposto realça o sujeito agente estatal. 7.1.4.10. Correção É o uso de formas adequadas de acordo com a Gramática Normativa. Alguns pecados contra a Gramática pesam mais na correção de uma redação. Os maiores erros são: • De concordância – Sujeito e verbo não podem discordar. Cuidado. Procure a correspondência entre o sujeito e seu verbo (veja o Capítulo 8). E fique atento se usar a partícula se e verbos impessoais como haver, fazer e ir. Lembre-se de que a melhor maneira de errar a concordância é escrever períodos longos e utilizar a ordem inversa. Use ideias simples em períodos simples, portanto curtos, e ordem direta. • De regência – Se usar verbos de cuja regência tenha dúvida, como assistir, constar, custar, implicar, troque por um sinônimo. Tenha cuidado com o problema mais frequente de um iniciante que é o uso das formas oblíquas “o” e “lhe”. Atenção: “o” só com verbo transitivo direto (para objeto direto) e “lhe” só para verbo transitivo indireto (para objeto indireto) e com o valorde possessivo (substituindo um pronome possessivo, como vimos no item originalidade). Assim, nada de: eu a quero muito bem, ele assistiu o jogo, deve-se obedecer os preceitos da lei, mas sim: eu lhe quero muito bem, ele assistiu ao jogo, deve-se obedecer aos preceitos da lei (Veja o Capítulo 8). • De colocação – Observe bem as regras de próclise, ênclise e mesóclise. Lembre-se: a) Nunca inicie uma oração com pronome oblíquo e não esqueça: as palavras que, porque, quando, não, nunca, para que, enquanto, se exigem o pronome oblíquo antes do verbo. b) Jamais use o pronome oblíquo depois de particípio e depois dos futuros do presente e do pretérito. c) Depois de vírgula ou qualquer outra pontuação, não use pronome oblíquo, a não ser que sejam vírgulas indicando intercalação. • De grafia – Erro ortográfico em redação de concurso não se admite. Coisas como ecepicional, quiz, solussão, desiguino, nogento são simplesmente inaceitáveis. Se você não sabe como se escreve uma palavra, use um sinônimo e do qual você tem a certeza da grafia. Na sua redação manda você, mas nos seus erros… aí o problema é do examinador e ele cobra caro. 7.1.5. O que não fazer Há transgressões que você não pode cometer, ao redigir, sob pena de sofrer as consequências, sem dó nem piedade e ter de esperar por outro concurso. As principais são: • Evitar definições – É comum o candidato ao desenvolver um tema, como por exemplo “A criminalidade”, sair definindo em todos os parágrafos: A criminalidade é… A criminalidade é… A criminalidade é… numa ladainha que não acaba mais, mostrando uma pobreza de espírito que nenhum leitor aguenta, muito menos o examinador. Não faça parágrafos apenas com definições. Mostre causas e consequências, faça interrogações, crie uma alusão histórica, uma declaração inicial, uma divisão, um contraste, uma enumeração em que apareça o tema, mas não fique só na definição. Há muitas maneiras de se iniciar um paráfrago, como vimos na Seção 5.3. • Esnobar – É um dos maiores pecados. É o escrever difícil, o querer complicar. Faça a sua redação sem se preocupar em demonstrar cultura e conhecimento excessivos. Tudo o que tem valor e agrada é simples. Os grandes escritores foram simples. Os melhores textos são os de redação simples. Nada de querer mostrar conhecimentos linguísticos e de criar neologismos. Deixe isso para os mestres. Use palavras comuns que todos entendam, sem cair no lugar-comum. Se tiver de recorrer a uma palavra menos conhecida, faça-o, mas só se ela se ajustar melhor ao texto do que um termo de uso comum. Veja este trecho de uma redação de concursando: “A partir disso, é possível concluir que uma imagem comum pode representar algo completamente diferente a uma pessoa do que representa a outra, e ainda assim não representarem a idiossincrasia da realidade em sua essência. Em um mundo cheio com as mais variegadas imagens e concepções de realidade, a visão unilateral do ser humano pode acarretar discriminações e hierarquização ao passo que cria imagens sobre pessoas.” O texto está obscuro, além de o autor tentar mostrar conhecimentos linguísticos ao usar os termos idiossincrasia (maneira de ver, de sentir, de reagir peculiar a cada pessoa) e variegadas (de cores diversas, matizadas), que não apresentam coerência, e por não usar uma linguagem objetiva, capaz de delimitar com clareza o recorte temático. O melhor seria ter mais simplicidade e escrever algo como: Portanto, uma única imagem pode representar realidades diferentes, e ainda assim não conseguir expressar a realidade em sua essência. A multiplicidade de imagens e concepções de realidade podem gerar segregações e hierarquizações quando encontram a visão limitada do homem. • Usar palavras chulas – Estas e palavrões, nem pensar. • Usar clichês – Observe o que foi dito na Seção 7.4.6 em clichês estilísticos. • Escrever cacofonia – É a junção de sílabas formando uma palavra com sentido chulo, obsceno ou ridículo: Isto é para ser feito por cada servidor… É na favela que se disputa sempre um lugar… • Ortografia – Não deixar de pôr os pingos nos is e nos jotas, cortar o t, colocar a cedilha no c (ç) e o ponto final. A falta desses sinais denota desleixo e brada contra você. É erro! E tem mais: coloque pingo e não bolinha nos is e nos jotas. • Cuidar da Letra – Atenção: não use palavras de cuja grafia não esteja certo; não faça n parecido com r; não faça s parecido com j; não faça t com forma de f; não use y com forma de g: não use h com jeito de m maiúsculo; não faça m com jeito de n; não faça x com jeito de sc e vice-versa; • Fugir do tema – Mudar o assunto da redação reprova o candidato em qualquer concurso. Deve-se delimitar o tema, mas nunca fugir dele. Fugir ao tema é escrever sobre o que não foi pedido. Indica falta de entendimento da proposta ou tentativa de utilização de texto previamente preparado e memorizado. • Esquecer a maiúscula – Ela deve estar presente no início dos períodos, nos títulos e nos nomes próprios. • Usar palavras estrangeiras – O uso de palavras que não pertençam à língua portuguesa só é permitido se não houver uma correspondente em nosso idioma. Um termo técnico pode ser usado, desde que entre aspas ou grifado. • Utilizar gíria – Só se for em um diálogo e como transcrição de linguagem popular. Do contrário, não. Para o examinador, é pobreza vocabular. • Abreviar palavras – De modo nenhum. Escreva todas por extenso, a não ser as siglas (mas depois de ter feito a alusão por extenso com a indicação entre parênteses ou duplo travessão) e as abreviaturas consagradas, como o “etc.” e o “v.g.”. • Repetir palavras – Só use para enfatizar, do contrário, é erro. Use sinônimos. Fora a ênfase intencional, a repetição de palavras revela pobreza vocabular. • Escrever demais – Se o examinador não especificar o número de linhas, não vá além de 25. Também não escreva de menos. Treine para um limite mínimo de vinte. Se o examinador der um limite mínimo de 25, não pare nessa linha. Vá adiante uma ou duas linhas pelo menos. De resto, faça o que o examinador pedir. • “Encher linguiça” – Se não tiver ideias, não fique divagando ou repetindo a mesma coisa com palavras diferentes. Você vai cair na prolixidade e na redundância. É erro grave. É preferível escrever apenas o mínimo exigido e bem do que escrever muito e mal. • Aumentar o tamanho da letra – Há candidatos que não têm ideias e para dizer que escreveram bastante aumentam o tamanho da letra. Isso indispõe o examinador. Também a letra estilo “cobrinha”, tão pequena que mal se distingue, é desconsiderada. O examinador não vai usar lupa para corrigir a sua redação. • Ser negativista – A maioria dos temas dados em concursos versa sobre problemas sociais, problemas do momento. É preciso dizer o seu pensamento a respeito com clareza e coerência. Procure olhar o lado positivo. Sugira métodos e maneiras para solucionar as dificuldades, aponte alternativas e saídas. Diga o que pensa e o que acha a respeito. • Eco – Consiste na repetição de palavras terminadas pelo mesmo som, o que torna a leitura desagradável, como na frase: Já foi dado o consentimento para o casamento do Chico Bento com Maria do Livramento na igreja de São Bento. Horrível, não? 7.1.6. Fique atento Para fazer uma boa redação, você deve ficar atento observando: • Texto base – O examinador pode dar um texto base como apoio ao candidato e até mais de um texto ou excertos e depois dar um tema. Quase sempre o tema está no texto base, que você deve ler com atenção, a fim de retirar o tema (ideia principal) para, em seguida, delimitá-lo. Use as ideias (e somente as ideias) contidas nesse texto para a feitura de sua redação. • Tema – Nãoé título. O tema é o assunto da redação. Muitas vezes em lugar de um texto base o examinador dá apenas o tema para o candidato elaborar o trabalho. Leia o tema com atenção, procure saber o que você conhece sobre o assunto, delimite, trace o objetivo, selecione ideias, organize-as e inicie o seu rascunho. • Título – Como já dissemos anteriormente, só se o examinador solicitar ou se vier a linha própria ou as linhas não contiverem numeração. Lembre-se: quando há linhas numeradas, a redação começa na linha de número 1 e somente nela. Título não faz parte da redação. Dê título quando pedido e só depois de passado a limpo todo o trabalho. Se tiver de colocar título e não houver uma linha para tal, coloque-o na primeira linha (não numerada), deixe uma ou duas linhas em branco e então inicie o seu primeiro parágrafo. A linha do título e as linhas em branco não são contadas entre aquelas solicitadas pelo examinador. • Tempo – Se a prova não estipular um tempo só para a redação, significa que ela está inserida dentro do tempo total concedido para a prova (em geral quatro horas). Aconselha-se, então, iniciar a prova pela redação. Se quiser, pode fazer apenas o rascunho, deixando para passar a limpo depois. Mas inicie pela redação. • Estilo – Toda redação de concurso deve ser feita em prosa. Alguns órgãos examinadores fazem até essa ressalva. Logo, não se deve fazer poemas mesmo sem rima ou sem métrica, nem simples versos. • Tipologia – O tipo de texto que mais se adapta a uma prova de concurso é a dissertação. Só faça narração ou descrição se forem solicitadas. Treine a dissertação, aprenda a discutir o assunto, expor os seus pontos de vista, analisar os vários aspectos relacionados com o tema, estabeleça causas, consequências, procure uma solução e finalize com uma síntese do que você explanou. • Problemas de opinião – Não transforme todas as questões apresentadas nos temas como atuais. Assim, não comece sua redação com expressões como: hoje em dia, atualmente, nos dias que vivemos, significando que há uma polêmica sobre o assunto. Se foi pedida uma dissertação é porque há uma polêmica. Também não use o encerramento para propor soluções a todas as questões existentes. O examinador não quer que você solucione os problemas do mundo, mas que discuta, acrescente ideias, dê uma opinião, sem tentar solucionar algo que não tenha resposta. • Receita – Tenha sempre em mente que não existem receitas para se fazer redação. Nem fórmulas de se aprender a escrever em curto prazo. Há tantas maneiras de se escrever que não se pode dizer que alguém conheça todas e as passe a outrem. O aprendizado da escrita é o resultado de um processo contínuo e ininterrupto (por isso você deve escrever diariamente) sempre aperfeiçoando o texto por toda a vida. 7.1.7. Exercícios Observe as frases a seguir e faça a correção: 1. A economia mundial ainda não está totalmente recuperada e vez por outra entra em recessão, onde as bolsas de valores sofrem grandes quedas. 2. Para a festa de casamento, dois mil reais são poucos, sendo preciso uns cinco mil. 3. Ela fez tudo por mim, mesmo nos momentos de incerteza, e, por isso, estimo- a como uma mãe. 4. As inscrições dos candidatos cujas as fichas não estiverem corretamente preenchidas, o órgão examinador não aceitá-las-á. 5. É bom que estejam aqui à noite, às 20 horas, quando a coordenadora fala da reunião da comissão do concurso na Reitoria da Universidade. Agora vamos exagerar um pouco, reescrevendo os períodos a seguir sem usar, uma única vez o que (é proibido usar “que”). 6. Se você se esquece de nomes e acha que esses lapsos de memória indicam que sua mente está ficando seriamente debilitada, lembre-se de que pessoas de todas as idades se esquecem das coisas e que as alterações mentais que podem surgir em uma pessoa idosa geralmente não estão relacionadas com a demência. 7. A polícia do Iêmen informou que a terrorista que enviou uma bomba aos Estados Unidos foi descoberta pela CIA que a identificou graças a um chipe que estava no celular que foi encontrado junto à bomba. 8. O vulcão Merapi que entrou novamente em erupção, na Indonésia, lançou nuvens de fumo e vapor que alcançaram mais de 12 quilômetros de altura, fazendo com que os moradores das aldeias próximas ao vulcão fugissem em pânico. 9. Dilma Roussef, que é a primeira mulher na presidência do Brasil, é filha de um búlgaro que emigrou por causa das dificuldades que tinha de viver naquele país europeu. Foi em Belo Horizonte que ele se tornou próspero e que constituiu família com mulher e três filhos. 10. Segundo o jornalista Hélio Gaspari, não se pode afirmar que foi o senador Romeu Tuma que teve um papel decisivo na descoberta do paradeiro do criminoso nazista Joseph Mengele, que foi o médico de Auschwitz. 11. É bom que revisemos todos os destaques que foram inseridos na última aula de Direito Previdenciário, e que, pelas cláusulas que tem o edital do concurso, é certo que serão temas da prova que faremos em três meses. 12. Uma pesquisa constatou que “meninas de até cinco anos não estão satisfeitas com seu corpo e que gostariam de ser mais magras”, noticia o jornal The Sydney Morning Herald. A reportagem que cita um estudo que envolve meninas australianas de cinco a oito anos, diz que quase metade delas queria ser mais magra e que um número similar disse que “faria regime se engordasse”. Reestruture os períodos a seguir para que possam ter uma redação clara e correta, eliminando os problemas de coesão e coerência: 13. Os pais devem estar atentos às amizades de seus filhos porque eles são os alvos preferidos de traficantes e da crescente violência urbana que os leva à prostituição, ao crime e até mesmo à morte. 14. O técnico acha que o time será campeão, porém não está em perfeita forma. Já os diretores dizem que se o técnico deixar de ser teimoso como o Dunga, convocar os jogadores certos, manter o esquema tático e prever os resultados dos jogos poderá alcançar o título desejado. Torne conciso o texto a seguir, eliminando tudo o que for supérfluo: 15. “À vista de todas essas considerações, sobre problemas da Polícia Militar, útil corporação deste Estado, este Comando, subordinado a esse Governo, tem a honra de, encaminhando a Vossa Excelência esta exposição, assinada pelo Comandante desta grande corporação que é a Polícia Militar, submeter à apreciação de Vossa Excelência, que é o chefe inconteste da Polícia Militar, o projeto de decreto que tornará extensivo às praças o útil e necessário vale- refeição. Transforme os períodos compostos em períodos simples: 16. Consta que suspenderam dois funcionários. 17. Os amigos que ouvem este programa estão lembrados do que lhes recomendamos ultimamente. 18. É fora de dúvida que a apelante prestou prova e que sua prova foi homologada pelo chefe do DRH. 19. O que foi programado para que se façam os debates, sem que prejudique nosso trabalho, será apresentado logo que o Conselho se reúna pela primeira vez em Brasília. 20. Assinale o item em que o período foi reescrito com total concisão, conservando a ideia do texto original: a) Para nos adaptarmos à sociedade em que vivemos, é essencial uma elevada formação física e cultural. b) Para nos adaptarmos à sociedade é essencial uma aprimorada formação física e cultural. c) Para adaptação à nossa sociedade é essencial elevada formação física e cultural. d) Para possuirmos uma adaptação adequada à sociedade em que vivemos, é essencial uma elevada formação física e cultural. e) Para possuirmos uma boa adaptação à sociedade em que vivemos, é essencial uma elevada formação física e cultural. Gabarito nofinal do livro. Capítulo 8 O Verbo na Redação A redação avalia se a pessoa conhece os problemas do mundo, se tem preocupação ética, hábito de reflexão e se usa a linguagem para fazer-se entender e ouvir o outro. Francisco Platão Savioli – coordenador de Português do Sistema Anglo de Ensino. 8.1. IMPORTÂNCIA DO VERBO Em todas as situações em uma redação, o verbo é imprescindível. É sabido que se pode construir uma oração sem sujeito, mas nunca uma oração sem verbo. Ele aparece em todos os processos da vida, expressa ações, estados ou qualidades, dá atributos a condutas e está sempre presente, pois é ele quem estabelece as relações do usuário de uma língua com as realidades apresentadas. De acordo com o verbo formatam-se os vários tipos de frases. Se ele exprime um estado e denota a definição de algum ser, mostrando o seu atributo, diz-se que a frase é nominal. Quando exprime um fato ou simboliza o agir, a frase é verbal. Mas há também a frase mista, quando o verbo simboliza o agir e encerra a definição de um ser. Nesse caso, diz-se que a frase é verbo-nominal. 8.1.1. A frase Em O fator psicológico na evolução sintática o linguista Cândido Jucá Filho classifica as frases de acordo com o valor psicológico da representação do pensamento e afirma que a frase verbal pode ser dramática, afetiva ou absoluta; a frase nominal pode ser durativa, transitória ou incoativa, e a frase mista divide-se em afetiva e dramática. a) A frase dramática é a que ocorre com a sentença verbal, quando as personagens do enunciado desempenham o drama indicado pelo núcleo verbal: Os promotores indiciaram o chefe do crime organizado. b) A frase afetiva afasta o drama frásico e indica que o fato interessa a determinados seres: Aquele jurista tem muita competência. c) A frase absoluta, também conhecida como factiva, não tem quase emprego porque abarca construções com verbos que indicam fenômenos meteorológicos, como: trovejou, venta, relampeja, choveu etc., conforme se observa na frase: Choveu muito no Nordeste, durante o inverno passado. A frase nominal é centrada nos verbos que indicam estado (verbos de ligação). Pode dar ideia de um estado permanente ou transitório: O concurso está confirmado para esta semana. O candidato ficou indeciso quanto ao local da prova. Ou dar ideia incoativa, quando exprime mudança de estado: O promotor anda feliz com o resultado do júri. d) A frase mista caracteriza-se por ter um verbo que exprime um fato e pela definição de um ser: O advogado saiu contente da audiência. Observe que há um fato afetivo (o advogado saiu da audiência) e um fato nominal (estava contente). 8.1.2. A concordância verbal Para bem redigir um texto necessário se faz conhecer a concordância verbal. A regra geral é: O verbo concorda com o núcleo do sujeito em número e pessoa: Preste atenção! Mesmo que o núcleo do sujeito venha depois do verbo, a concordância será feita entre eles: 8.1.2.1. Sujeito simples Segue a regra geral: As provas são fáceis, mas a redação atemoriza. Aos concurseiros só interessa a aprovação. 8.1.2.2. Sujeito composto anteposto ao verbo A forma verbal faz a concordância no plural: • Se os núcleos forem de pessoas gramaticais diferentes: Havendo primeira pessoa, verbo na primeira pessoa do plural (nós): • Havendo segunda e terceira pessoas, verbo na segunda pessoa do plural (vós). Observação: Na linguagem moderna, costuma-se trocar o tratamento vós por vocês (uma espécie de silepse de pessoa): • Se os núcleos forem sinônimos, verbo no plural ou concorda com o núcleo mais próximo: O amor e a paixão deixam-no feliz. O amor e a paixão deixa-o feliz. • Se os núcleos estiverem em gradação, o verbo também pode ir para o plural ou concordar com o mais próximo: Um som roufenho, uma palavra áspera, uma frase indignada mostraram o seu desagrado. Um som roufenho, uma palavra áspera, uma frase indignada mostrou o seu desagrado. 8.1.2.3. Sujeito composto posposto O verbo vai para o plural: Saíram pela manhã o diretor e seus assistentes. Bebiam no mesmo bar o gerente e o funcionário. Pode também concordar com o núcleo mais próximo: Saiu pela manhã o diretor e seus assistentes. Bebia no mesmo bar o gerente e o funcionário. 8.1.2.4. Sujeito com núcleos ligados por “ou” e por “nem”: a) havendo exclusão – verbo no singular: Pedro ou Paulo casará com Maria. Nem Bruno nem Zeca será eleito diretor. Com núcleos de pessoas gramaticais diferentes, o verbo concorda com o mais próximo: O professor ou eu resolverei a questão. Eu ou o professor resolverá a questão. Nem Lea nem os irmãos terão chances. Nem os irmãos nem Lea terá chances. b) não havendo exclusão – o verbo vai para o plural na pessoa gramatical predominante: A enxurrada ou o granizo causam prejuízos. Tu ou tua tia sereis sempre bem-vindos. Eu ou teu irmão estaremos atentos. Nem João nem Zeca sabem o que fazer. c) havendo retificação – o verbo concorda com o mais próximo: O grafiteiro ou os grafiteiros picharam o monumento. Os grafiteiros ou o grafiteiro pichou o monumento. d) havendo sinonímia – verbo no singular: A alegria ou o prazer leva a exageros. e) havendo antonímia – verbo no plural: O riso ou a tristeza marcam os sentimentos. 8.1.2.5. Sujeito com núcleo formado de verbos no infinitivo O verbo fica no singular: Trabalhar e estudar faz dele um homem. • Se os núcleos verbais forem determinados por artigo ou se forem antônimos, verbo no plural: O trabalhar e o estudar fazem dele um homem. Amar e odiar se alternam nas sociedades. 8.1.2.6. Sujeito com núcleos ligados pela preposição “com” a) verbo no plural se a partícula com une os sujeitos como se fosse a conjunção e: b) Se o núcleo preposicionado vier separado por vírgulas, o verbo concorda com o primeiro nome (sujeito simples) e o núcleo preposicionado fica reduzido à condição de um adjunto adverbial de companhia deslocado: 8.1.2.7. Sujeito com núcleo ligado por conjunção comparativa O verbo fica no plural: • Se separarmos o segundo núcleo por vírgulas, verbo fica no singular e o núcleo precedido da conjunção comparativa passa a ser uma oração subordinada adverbial comparativa: • Igualmente o verbo fica no singular ou no plural com sujeitos ligados pela série aditiva enfática não só… mas (senão ou como) também: Não só o pai mas também a mãe saíram. Não só o pai, mas também a mãe, saiu. 8.1.2.8. Sujeito composto resumido pelo aposto O verbo concorda com o aposto resumitivo: 8.1.2.9. Outros casos de concordância verbal a) Sujeito cada um, cada qual – o verbo fica no singular: Cada um de nós se inscreverá no concurso amanhã. Cada qual de vocês terá sua vez na prova do TRT. b) Sujeito mais de um – verbo no singular: Mais de um candidato errou a questão. • Plural se a locução estiver repetida: Mais de uma TV, mais de uma geladeira, mais de um DVD queimaram no incêndio. • Se houver reciprocidade, verbo no plural: Mais de um torcedor se agrediram ao final do último jogo. c) Sujeito que na locução um dos que – verbo no singular ou no plural: Luís é um dos técnicos que entende / entendem de informática. d) Sujeito locução pronominal com pronome pessoal preposicionado – verbo no singular se o pronome inicial estiver no singular. Algum de nós ficará na sala. Qual de vós saiu cedo? • Verbo na terceira pessoa do plural ou concordando com o pronome pessoal se o pronome inicial estiver no plural: Alguns de nós ficarão / ficaremos na sala. Quais de vós saístes / saíram cedo? e) Sujeito coletivo e sujeito percentual – o verbo concorda com o núcleo do sujeito ou com o determinante, se houver: A multidão aplaudiu a jogada de Robinho. A multidão de torcedores aplaudiu / aplaudiram a jogada de Neymar. Dez por cento vivem mal. Dez por cento do povo vivem / vive mal. • Se o percentual vier determinado por artigoou pronome, o verbo concordará apenas com o numeral: Os dez por cento do povo vivem mal. Aquele um por cento dos testes caiu. f) Sujeito: nomes pluralícios – com artigo, verbo no plural; sem artigo, verbo no singular: Os Estados Unidos lutam contra o terror. Andes forma a maior cadeia de montanhas da América do Sul. • Com título de obra seguido do verbo ser e predicativo, singular ou plural: Os Maias é / são a saga de uma família. g) Haja vista – é uma expressão invariável. Esta é a solução, haja vista o / ao processo. Esta é a solução, haja vista os / aos processos. • O verbo pode flexionar-se (hajam vista), caso se refira a nome no plural, sem que haja preposição. Esta é a solução, hajam vista os processos. h) Verbo parecer seguido de infinitivo – flexiona-se o verbo parecer ou o outro verbo, nunca os dois: Estas meninas parecem sorrir. Estas meninas parece sorrirem. i) Pronome de tratamento – o verbo vai para a terceira pessoa. V. Sa. sabe que o seu processo foi arquivado. j) Pronome “que” – o verbo concorda com o antecedente em número e pessoa: Fomos nós que preparamos as questões. Fui eu que resolvi tudo. k) Pronome “quem” – o verbo fica na terceira pessoa do singular (quem é pronome indefinido): Fui eu quem resolveu a questão. • O pronome quem pode também concordar com o sujeito da oração anterior (a concordância é enfática, e quem é pronome relativo – é a construção preferida da linguagem popular): Fui eu quem resolvi a questão. l) Sujeito oracional – verbo na terceira pessoa do singular: Faltava procurar seis relatórios. Supõe-se que os candidatos estejam preparados. m) Verbos impessoais – ficam na terceira pessoa do singular e são: • os que indicam tempo cronológico ou meteorológico: haver, fazer, ir. Chegou do Nordeste há dois meses. Faz noites frias e chuvosas em Brasília. Hoje faz dez anos que saí do Sul. Vai para dez dias que ele chegou. • os que indicam fenômenos da natureza (chover, ventar, trovejar, nevar, gear etc.) quando denotativos: Sábado trovejou, mas não choveu. • o verbo Haver significando existir, ocorrer, acontecer: Na viagem houve muitos problemas. Dizem que há muitos acidentes daquela rua. Observação: Nas locuções verbais (formadas com esses verbos) o verbo auxiliar fica na terceira pessoa do singular: Pode fazer dois meses que ele viajou. Desde ontem começou a haver lutas. • Verbos dar, soar e bater. Esses verbos têm como sujeito a(s) hora(s) indicada(s): 8.1.2.10. A concordância do verbo ser De suma importância na redação é a concordância do verbo ser. Ele concorda ora com o sujeito, ora com o predicativo. I. Concordância com o Sujeito Como ocorre com a relação sintática de qualquer verbo e o sujeito da oração, o normal é que o sujeito e o verbo ser concordem em número: Os dias passados são lembrados com saudade. A menina era as alegrias da casa. Nós somos os torcedores. Camões é muitos poetas e todos excelentes. II. Concordância com o Predicativo O verbo ser se acomoda à flexão do predicativo nos seguintes casos: 1. Sempre que o predicativo indicar pessoa (seja substantivo ou pronome pessoal): Sua alegria eram as crianças. O professor sou eu. 2. Quando o predicativo indicar horas, distância e datas: Eram quatro horas de um dia ensolarado. Daqui até a praia são dez quilômetros a pé. Hoje são cinco de maio. Obs.: Se o predicativo estiver precedido da expressão perto de pode-se usar o singular ou o plural: Era perto de oito horas. Eram perto de oito horas. 3. Com datas o verbo ser pode: a) Concordar com o numeral: Hoje são cinco de maio. b) Concordar com a palavra “dia”: Hoje é dia cinco de maio. Hoje é cinco de maio (concordando com a palavra “dia” que está subentendida) 4. Quando o predicativo indica quantidade (muito, pouco, menos, mais, bastante, suficiente,) o verbo ser concorda com tal expressão: Cem metros émuito para as bandeiras. Duzentos reais é pouco para as passagens. Dez quilos de acém é suficiente para o assado. 5. Quando o sujeito é um dos pronomes interrogativos que, o que ou quem, a concordância se faz com o predicativo. Que são células? O que são circunstâncias? Quem são as meninas? 6. Se o sujeito for uma expressão de sentido coletivo (o resto, o mais) ou com sentido partitivo (a maioria, a maior parte, grande parte), a concordância é com o predicativo: A maioria eram garotas. Grande parte são detalhes. O resto são atributos sem importância. 7. Quando o verbo ser tem o sentido de: “ser constituído por”: O livro eram umas poucas figuras. A provisão eram alguns quilos de carne seca. 8. Quando o predicativo representa partes do corpo da pessoa nomeada como sujeito: Creusodete eram dois olhos trocados, duas orelhas grandes e dois caninos à flor da boca, qual um vampiro. 9. O predicativo singular prevalece sobre sujeito plural não antecedido de artigo ou pronome demonstrativo: Comentários falsos é veneno. Panelas vazias é sinal de fome. Contrabandos é caso de polícia. III. Concordância Facultativa 1. Quando o sujeito são os pronomes tudo, isto, isso, aquilo e o (= aquilo) Na mocidade tudo é / são maravilhas. Isto é / são sintomas da dengue. O que não é lágrimas são flores. (C. Castelo Branco) Aquilo era / eram sintomas de histeria. 2. Sujeito e predicativo indicando coisas: A vida é / são ilusões. Sua saia era / eram rasgões. Nas frases em que ocorre a locução expletiva (invariável) é que o verbo ser concorda com o substantivo ou pronome que antecede a locução, pois eles são o verdadeiro sujeito do verbo: Tu é que precisas fazer a lição. (sujeito: tu; é que = expressão de realce) Não confundir a expressão de realce é que com o encontro da forma verbal é com a conjunção integrante que em frases do tipo: O certo é que ela ficou aqui. (= Que ela ficou aqui é o certo) Bom é que não haja mais problemas. (= É bom que não haja mais problemas). As orações que ela ficou aqui e que não haja mais problemas são subordinadas substantivas subjetivas introduzidas pela conjunção integrante que. 8.1.3. Regência verbal Regência é o mecanismo que comanda as relações entre um verbo ou um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) e seu complemento. Daí a sua importância para a redação, pois é por meio da regência que uma palavra tem sob sua dependência outra ou outras que lhe completam o sentido, transmitindo o pensamento do autor. O termo da oração que exige complemento denomina-se regente ou subordinante, e o termo que funciona como complemento chamamos de regido ou subordinado. Assim pode-se afirmar que as preposições têm sob sua dependência (subordinam) palavras e as conjunções subordinativas regem, subordinam orações. Em uma frase, o sujeito é o elemento principal. Normalmente vem anteposto ao verbo, é o causador da ação verbal e não pode estar preposicionado, isto é, não pode depender de nenhum termo da oração. Ele pode ter complemento, mas não pode ser complementado. Assim, a frase “É hora da prova começar” – não está correta, pois subordina o sujeito do verbo começar ao substantivo hora, como se dissesse: “É hora da prova”, quando se pretende dizer: “É hora de começar a prova”. A preposição rege, na verdade, o infinitivo começar e não o sujeito desse infinitivo que é a prova. 8.1.3.1. A regência verbal na redação É comum em redação erro de regência, pois, muitas vezes, o candidato não sabe se o verbo pede ou não preposição e se a preposição que liga o verbo ao objeto é de ou por, com, a, para, em etc. É fácil resolver. Basta colocar após o verbo as expressões alguém ou alguma coisa. Assim: “Procurou o livro” – sem preposição, porque quem procura, procura alguém, procura alguma coisa. Mas: “Gostei do livro” – com a preposição de, porque quem gosta, gosta de alguém, de alguma coisa. É bom que saiba que regência verbal diz respeitoa verbos de predicação incompleta, pois os intransitivos, sendo completos, não regem palavra alguma. Verbos como correr, cantar, fugir, morrer são intransitivos e não exigem um complemento sequer depois deles: o tempo corre, o canário canta, o animal fugiu, o elefante morreu – são orações organizadas com apenas dois termos, sujeito e verbo, sem necessidade de outro termo para que tenham sentido. Já os verbos de predicação incompleta exigem depois de si um termo que lhes complete o sentido. Quando se escreve: “O candidato pediu” – vemos que se há de completar o pensamento, pois quem pede, pede alguma coisa. Não há necessidade de nenhuma preposição entre o verbo e o complemento. Trata-se de um verbo transitivo direto, e o complemento é o objeto direto. Mas se você escrever “Isso depende” – vê que há necessidade de completar o pensamento e, usando um nome antecedido da preposição de, porque quem depende depende de alguém, de alguma coisa: “Isso depende de aprovação. O verbo é transitivo indireto, e o complemento é o objeto indireto regido pela preposição de. Cuidado! Quando se tem período formado por verbo transitivo direto e verbo transitivo indireto, não se pode dar um mesmo complemento para os dois. Assim não se pode escrever: “Aprovou e necessitou da lei Maria da Penha” – porque o verbo aprovar rege objeto direto (aprovar alguma coisa) e necessitar rege objeto indireto (necessitar de alguma coisa) e não podem ter um complemento comum. O correto será: “Aprovou a Lei Maria da Penha e dela necessitou”, ou seja, cada verbo com seu complemento. Se o complemento for um pronome oblíquo comum aos dois verbos, você poderá usá-lo anteposto ao primeiro verbo: “Escolheu o êxodo rural para o estudar e comparar com a criminalidade” ou posposto ao segundo: “Escolheu o êxodo rural para estudar e compará-lo com a criminalidade”. Não há necessidade de o pronome ser repetido: “São projetos que se assemelham e equiparam em despesas”. Resumindo: Regência verbal é o relacionamento do verbo com os seus complementos. O termo (regido) que completa o sentido de um verbo (regente) recebe o nome de objeto. Ele pode ligar-se: a) diretamente ao verbo sem preposição intermédia e, neste caso, o complemento chama-se objeto direto. Assim: verbo transitivo direto = objeto direto (vtd – od); b) indiretamente, quando se emprega após o verbo uma das preposições essenciais, e, neste caso, tem-se como complemento o objeto indireto. Desse modo: verbo transitivo indireto = objeto indireto (vti – oi). Observação: Os pronomes oblíquos átonos o, a, os, as são empregados como complementos de verbos transitivos diretos, e os pronomes oblíquos lhe, lhes, como complementos de verbos transitivos indiretos. 8.1.3.2. Verbos com mais de uma regência Alguns verbos admitem mais de uma regência, e essa diversidade corresponde quase sempre a uma variação do significado que o verbo assume na frase. Assim: a) Aconselhar Pode ser usado com objeto direto e com objeto indireto. Pode-se dizer: O professor não lhe aconselha pedir recurso. O professor não o aconselha pedir recurso. b) Admirar • é vtd no sentido de ter admiração: Todos admiram a sua maneira de ser. • no sentido de causar admiração é vi: Não admira que tal aconteça. c) Adjudicar • é vtdi no sentido de conceder, atribuir, entregar por autoridade judicial: Como o objeto da pendência é indivísivel e os consortes não a querem adjudicar a um só, será vendida e repartido o preço. • é vtd no sentido de declarar judicialmente que certa coisa fica pertencendo a determinada pessoa: As sentenças que adjudicarem bens de raiz devem ser transcritas. d) Aduzir • no sentido de apresentar, oferecer, expor razões, provas é vtd: O promotor teve apenas 20 minutos para aduzir sua defesa. • no sentido de introduzir, acrescentar é vtdi: O Ministério Público aduziu fatos novos ao processo e) Agradar • é vtd no sentido de fazer agrados, acariciar, mimar, afagar: Ele agrada o sobrinho com docinhos. Ele o agrada com docinhos. • é vti no sentido de ser agradável, parecer bem, satisfazer e rege a preposição a (objeto indireto): O projeto agradou aos servidores. O projeto lhes agradou. f) Aspirar • é vtd no sentido de cheirar, sorver, respirar: Como é bom aspirar o perfume de uma rosa! Como é bom aspirá-lo. A servente aspirou o pó do tapete. Eliana aspirou o ar da montanha. • é vti no sentido de almejar, pretender e pede complemento com a preposição a (objeto indireto): Aspiras a um emprego público? Sim, aspiro a ele. O verbo aspirar pede objeto indireto de coisa e rejeita o pronome lhe, que só é usado quando o objeto indireto é pessoa. Sendo coisa, usa-se o pronome ele(a) antecedido da preposição a. g) Assistir • no sentido de ver, olhar, presenciar, é vti e rege a preposição a (objeto indireto): Assistiu ao discurso do presidente na primeira fila. Assistiu a ele na primeira fila. • no sentido de prestar assistência, dar ajuda, é normalmente empregado com complemento sem preposição (objeto direto): O governo assiste os flagelados da enchente. Quatro estagiários assistem os pesquisadores. • no sentido de caber, pertencer, é vti e pede complemento com a preposição a (objeto indireto): Recurso é um direito que assiste a todo candidato. É um direito que lhes assiste. • no sentido de morar, residir, habitar, é locativo e rege a preposição em, introduzindo um termo que indica lugar (adjunto adverbial): • no sentido de permanecer, é locativo com a preposição em: Os deputados assistem em Brasília das terças às quintas… h) Atender • é vtd no sentido de deferir um pedido, conceder: O chefe atenderá sua solicitação. O chefe a atenderá. • no sentido de dar atenção, é vtd ou vti com a preposição a se o complemento refere-se a pessoa (objeto direto ou indireto): A comissária atende os passageiros ou atende aos passageiros. A comissária atende-os ou lhes atende. Obs.: Quando o complemento indicando pessoa é um pronome oblíquo, a preferência de alguns gramáticos é pelo pronome “o” em vez de “lhe”. • se, com o sentido de dar atenção, o complemento refere-se a coisa, é apenas vti com a preposição a (objeto indireto): João, atenda ao telefone. O telefone está tocando, João. Atenda a ele. i) Chamar • no sentido de convidar, convocar, atrair é vtd sem preposição (objeto direto): Chamou todos os candidatos para a prova. Chamei- os todos para a prova. Aquele barulho chamou a atenção geral. • no sentido de invocar, mandar vir é vti com a preposição por (objeto indireto): Passou a noite chamando por você. • no sentido de repreender, é vtdi com o complemento indireto regido da preposição a: O fiscal chamou o candidato à atenção. • no sentido de cognominar, dar nome, apelidar, pode ser transitivo direto ou indireto com a preposição a, seguindo-se um predicativo do objeto introduzido ou não pela preposição de. Têm-se então as quatro seguintes construções: j) Comparecer • é vti quando o complemento indica atividades e rege a preposição a: A maioria da turma não compareceu ao provão. • é verbo intransitivo locativo quando o complemento indica lugar e é empregado com as preposições a ou em: A turma compareceu ao ou no local combinado. k) Constar • no sentido de ser composto ou constituído é vti e rege a preposição de (objeto indireto): Este processo consta de seis volumes. • no sentido de estar registrado, estar escrito é verbo intransitivo e deve ser empregado com a preposição em, que introduz termo que indica lugar: Seu aparte consta na ata. Consta nos autos que o réu não tem habilitação. • no sentido de dizer-se, passar por certo, é verbo intransitivo: Consta que Ana será a coordenadora geral. l) Custar • no sentido de acarretar, é vtdi com o complemento indireto regido da preposiçãoa: A preparação para o concurso custou dedicação ao candidato. • quando tem o sentido de ser custoso, ser difícil, só se emprega na terceira pessoa, é vti com objeto indireto de pessoa introduzido pela preposição a e sujeito representado por uma oração com verbo no infinitivo: m) Deparar • no sentido de encontrar, pode ser vtd ou vti com objeto regido pela preposição com: Olhando sua redação deparei (com) três erros. • no sentido de fazer aparecer, apresentar, é vtdi com o complemento indireto regido da preposição a: Nem a técnica deparava solução ao crime. • no sentido de apresentar-se, surgir, é vti e rege a preposição a: Uma solução deparou-se ao candidato. n) Haver • é impessoal e transitivo direto apenas quando significa existir, ocorrer, acontecer ou indicando tempo decorrido, com o sentido de fazer: Não havia problemas com aquela redação. Na ponte da Varginha houve dois acidentes. Havia muitos anos que o procurávamos. • no sentido de ter, possuir, conjuga-se normalmente e rege objeto direto: Os filhos houveram somente parte da herança. • no sentido de obter é vtdi, com objeto direto e coisa e indireto de pessoa, com as preposições de, contra ou sobre: O Botafogo houve do Vasco uma honrosa vitória (contra ou sobre o Vasco). • significando considerar, julgar é vtd com predicativo e a preposição por: Todos naquele grupo o haviam por mestre. • seguido da preposição com significa lutar, altercar: Eles se haverão com meus pais. Nessa acepção, não confundir o verbo haver com avir-se, que significa arranjar- se, acomodar-se, harmonizar-se. • no sentido de portar-se é verbo pronominal: Todos se houveram muito bem na prova. • seguido da preposição de e um infinitivo torna-se auxiliar das formas do futuro do presente e do pretérito enfáticas: Hei de vencer; haveria de vencer. • ao lado do substantivo vista forma o conglomerado invariável haja vista: O derretimento dos polos é uma realidade, haja vista a queda de icebergs. • com o sentido de é preciso, é necessário, usa-se a expressão há que: Num país democrático e liberal há que respeitar as crenças de cada um. o) Implicar • com o sentido de ter implicância é vti e rege a preposição com: A sogra sempre implica com o genro. Quando se implica com as leis de trânsito… • no sentido de envolver é vtdi e tem o objeto indireto regido pela preposição em: Implicaram o rapaz no crime. • com o sentido de envolver-se é vti com o complemento regido pela preposição em: O jogador implicou-se em drogas. • com o sentido de acarretar é vtd: Mais de cinco erros implica desclassificação. Dirigir embriagado implica multa pesada. p) Lembrar • acompanhado de pronome oblíquo átono é vtd tem o sentido de não esquecer e pede complemento sem preposição (objeto direto): Lembrei o tempo bom que vivemos juntos. • acompanhado de pronome oblíquo átono é vti tem o sentido de recordar e pede complemento regido da preposição de (objeto indireto): Cafu, ao erguer a taça, comemorando o penta, lembrou-se da mulher. • com o sentido de trazer à lembrança é vti e rege a preposição a: Lembrou a todos o tempo de menino. Observações: 1. Os verbos esquecer, admirar e recordar apresentam a mesma regência de lembrar. 2. Há ainda uma construção em que a coisa lembrada, admirada, esquecida ou recordada passa a funcionar como sujeito, ficando o verbo na terceira pessoa do singular, sofrendo alteração de sentido: Isso lembrou-me o nosso namoro (= o nosso namoro me veio à memória). Esqueceram-me os desenganos (= os desenganos caíram-me no esquecimento). q) Precisar • é vtd com o sentido de marcar, indicar com precisão: O relojoeiro precisou o defeito do cronômetro. O relojoeiro o precisou. • com o sentido de carecer, ter necessidade, é vti e rege a preposição de: Acho que ela precisa de carinho. r) Proceder • com o sentido de comportar-se, provir, ter fundamento, é vi: Há pessoas que não procedem bem. Os candangos procediam do Nordeste. Sua solicitação não procede. • com o sentido de realizar, executar, levar a efeito, é vti e rege a preposição a: Procederemos à leitura da ata. A Polícia Federal procederá a uma varredura eletrônica. • no sentido de originar-se, é vti e rege a preposição de: Em um concurso, muitos erros procedem da desatenção do candidato. s) Querer • é vtd com o sentido de desejar, ter vontade de: Quero um pedaço deste bolo. • com o sentido de ter afeto, estimar, querer bem, é vti e rege a preposição a: Quero muito a esta mulher. Quero-lhe muito. t) Responder • com o sentido de exprimir a resposta, é vtd (objeto direto): O turista respondeu alguma coisa em inglês. • significando dizer em resposta, pode ser vti e vtdi com a preposição a: Todas as testemunhas responderam ao juiz. Ele respondeu ao pai que não tinha saído. u) Visar • com o sentido de apor visto, mirar, apontar para, pede complemento sem preposição (objeto direto): O fiscal visou as provas. Ele visou o alvo, mas não atirou. Ele o visou, mas não atirou. • no sentido de almejar, ter em vista, pretender, é transitivo indireto com complemento regido pela preposição a: O candidato visa a um bom cargo público. O candidato visa a ele. Observação: Se o verbo visar estiver seguido de infinitivo, a preposição pode ficar subentendida: Raquel visava conseguir amizades. 8.1.3.3. Verbos pronominais Há dois grupos: a) Os que não existem sem pronome oblíquo, como: arrepender-se, pentear-se, precaver-se, referir-se, suicidar-se, vestir-se etc. b) Os que mudam o significado ou a regência quando conjugados com pronome oblíquo, como: debater = discutir, debater-se = agitar-se; / deparar = encontrar, deparar-se = apresentar-se; / esquecer = deixar em algum lugar, esquecer-se = não trazer etc. 8.1.3.4. Verbos cuja regência mais se erra a) CHEGAR É verbo intransitivo e deve ser empregado com as preposições a ou de, que introduzem termo indicando lugar: Amanhã deves chegar cedo ao curso. Eles chegaram de Santos e foram a Cubatão. Não erre mais! Embora comum na linguagem coloquial, não se deve empregar a preposição em com o verbo chegar. Assim, na linguagem formal: Quando cheguei a casa. (correto) Quando cheguei em casa. (errado) b) IR É verbo intransitivo que exige as preposições a (indicando ida e retorno) ou para (indicando ida e permanência): Amanhã vou a Belém (vou e volto) Amanhã vou para Belém (vou e fico). Não erre mais! Na linguagem coloquial, o comum é usar o verbo ir com a preposição em: Amanhã vou em casa (errado) Amanhã vou a ou para casa. (certo) c) NAMORAR Quando usado com complemento, é verbo transitivo direto e, por isso, o complemento (objeto direto) não deve vir introduzido por preposição. Eliana namorava Teobaldo, que namorava Sofia. Rosânia vivia namorando aquele vestido de rendas. Não erre mais! É comum na linguagem coloquial o uso do verbo namorar acompanhado da preposição com, o que não é recomendado pelas gramáticas normativas. Evite esse erro. Rose namorava com o bicheiro. (errado) Rose namorava o bicheiro. (correto) d) OBEDECER / DESOBEDECER São verbos transitivos indiretos tendo o complemento regido pela preposição a: Deves obedecer aos preceitos da lei. Não desobedeças a teus pais. Não erre mais! O erro, na linguagem coloquial, é usar esses verbos como transitivos diretos: Deves obedecer os sinais de trânsito. (errado) Deves obedecê-los. (errado) Deves obedecer aos sinais de trânsito. (correto) Deves obedecer a eles. (correto) Fique ligado! Os verbos obedecer e desobedecer, apesar de transitivos indiretos, admitem voz passiva, podendo-se, pois, dizer: Ali os pais eram obedecidos pelos filhos. As regras foram desobedecidas pelo juiz e seus auxiliares. Naquele educandário sempre se obedeceram as leis. Nunca se desobedeceu o regulamento do Tribunal. e) PAGAR / PERDOAR São verbos transitivos diretos e indiretos, com objeto direto indicandocoisa e objeto indireto indicando pessoa: Perdoamos aos amigos as ofensas de ontem. Já pagaste a entrada ao corretor? Não erre mais! As gramáticas normativas não registram o emprego dos verbos pagar e perdoar com complemento de pessoa sem preposição (objeto direto), cada vez mais frequente na linguagem coloquial. Evite, pois: Amanhã pagaremos os empregados. (errado) Amanhã pagaremos aos empregados. (correto) O Chefe perdoou os faltosos. (errado) O Chefe perdoou aos faltosos. (correto) f) PREFERIR Esse verbo é transitivo direto e indireto e deve ser empregado com dois complementos: um objeto direto sem preposição e um objeto indireto com preposição (preferir uma coisa a outra). Prefiro um inimigo a um amigo falso. Não erre mais! Com o verbo preferir não são aceitas construções reforçadas por termos intensivos como antes, mais, mil vezes, muito mais etc. e pelos comparativos que ou do que. Prefiro mais café do que leite. (errado) Prefiro café a leite. (correto) Prefiro mil vezes cinema do que romances. (errado) Prefiro cinema a romances. (correto) g) RESIDIR É verbo intransitivo locativo e deve ser empregado com a preposição em: Ela reside na rua Duque de Caxias. Têm a mesma regência os verbos morar, situar-se, estabelecer-se e as palavras deles derivadas, como: residente, morador, sito, estabelecido. Luís, morador na rua Barão do Rio Branco… O abaixo-assinado, residente na rua Castro Alves… Aquele comerciante estabelecido na praça do Carmo… Não erre mais! Na linguagem culta não é aceito o uso desses verbos e seus derivados com a preposição a: O abaixo-assinado, residente à rua do Sol (errado) O abaixo-assinado, residente na rua do Sol (correto) h) SIMPATIZAR / ANTIPATIZAR Esses verbos são transitivos indiretos e pedem complemento com a preposição com: Simpatizo bastante com teu jeito de ser. Nós antipatizamos com essa ideia. Não erre mais! Esses dois verbos não são pronominais e, por isso, não devem ser acompanhados de pronome oblíquo átono. Eu me simpatizo com teu jeito. (errado) Eu simpatizo com teu jeito. (correto) Evaristo se antipatiza com o novo treinador. (errado) Evaristo antipatiza com o novo treinador. (correto) 8.1.3.5. Verbos com objeto direito (OD) de coisa e objeto indireto (OI) de pessoa e vice-versa Alguns verbos admitem objeto direto de coisa e objeto indireto de pessoa com a preposição a ou, ainda, objeto direto de pessoa e objeto indireto de coisa com a preposição de ou sobre: aconselhar, autorizar, avisar, certificar, cientificar, comunicar, dissuadir, ensinar, incumbir, informar, impedir, lembrar, notificar, participar, prevenir, proibir, recordar etc. Aconselhei o concurso ao candidato. Aconselhei o candidato sobre o concurso. Avisei a falta de material ao chefe. Avisei o chefe da (ou sobre a) falta de material. Cientificamos a inscrição do candidato. Cientificamos o candidato da sua inscrição. Ensinamos o problema ao concurseiro. Ensinamos o concurseiro sobre o problema. Informei a data da prova ao candidato. Informei o candidato da (ou sobre a) data da prova. Impedi a entrada ao ladrão. Impedi o ladrão de entrar. Notifiquei o pagamento aos servidores. Notifiquei os servidores sobre o pagamento. Não erre mais! Erro comum é usar esses verbos com dois objetos diretos ou com dois objetos indiretos: Avisei o chefe a falta de material. (dois o.d.) Avisei ao chefe da (ou sobre a) falta de material. (dois o.i.) 8.1.4. Uso do futuro do subjuntivo Ao fazer o rascunho de sua redação, tome cuidado com o uso do futuro do subjuntivo. Sempre que tiver dúvida, verifique a terceira pessoa do plural do pretérito perfeito que termina com a desinência ram. Retire o am da desinência e terá o futuro do subjuntivo. Atenção! Se confrontarmos o futuro do subjuntivo com o infinito pessoal, veremos que, em grande número de verbos, há igualdade dessas formas, não ocorrendo o mesmo para outros. Verifique o verbo amar. A terceira pessoa do plural do pretérito perfeito é amaram. Retirando da desinência a parte final am, tem-se o futuro do subjuntivo amar que se conjuga tal qual o infinitivo (amar, amares, amar, amarmos, amardes, amarem). Veja, agora, o verbo ver. A terceira pessoa do plural do pretérito perfeito é viram. Retirando o am, tem-se o futuro do subjuntivo vir que se conjuga: vir, vires, vir, virmos virdes, virem; já o infinitivo pessoal é: ver, veres, ver, vermos verdes, verem. Muitos candidatos erram na redação com esse e outros verbos no futuro do subjuntivo. Escrevem: “Quando se vê um crime sem denunciar…”; “Se eles verem o significado da palavra…” Esse é um erro que não merece desculpas. O correto é: Quando se vir um crime sem denunciar…; Se eles virem o significado da palavra… Não há como confundir o verbo ver no futuro do subjuntivo com o verbo vir (chegar). Este, no infinitivo pessoal, será também: vir, vires, vir, virmos, virdes, virem, mas no futuro do subjuntivo se conjugará: vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem, forma derivada da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito (vieram), retirando-se a parte am da desinência: Quando você vier, se vir Luís, diga-lhe para vir cedo, para ver o livro. O primeiro verbo é futuro do subjuntivo de vir, o segundo é futuro do subjuntivo de ver, o terceiro e quarto são, respectivamente, infinitivos de vir e de ver. Não erre mais quando for usar o futuro do subjuntivo. 8.1.5. Problemas com alguns verbos 1. ABULO / ABOLO Nenhuma das duas formas. O verbo abolir não possui a primeira pessoa do presente do indicativo e, por isso, não tem o presente do subjuntivo nem o imperativo negativo; do imperativo afirmativo, só tem as segundas pessoas. A solução é usar a expressão estou abolindo. Igual a abolir conjugam-se aturdir, banir, bramir, brandir, carpir, colorir, comedir, delir, descomedir-se, delinquir, demolir, eclodir, emergir, emolir, erodir, esculpir, espargir, exaurir, explodir, extorquir, feder, fremer (ou fremir), fulgir, haurir, impingir, implodir, jungir, retorquir, ruir, soer, urgir e viger. Observação: Esses verbos são tradicionalmente defectivos. Entretanto, com o verbo explodir, as formas do presente do subjuntivo vêm sendo usadas até mesmo na linguagem escrita. 2. ACORDAR Na linguagem jurídica, é costume usar esse verbo na acepção de determinar, resolver de comum acordo, ajustar, concordar. A forma arcaica acórdão (que era a terceira pessoa do plural do presente do indicativo de acordar) tornou-se substantivo com o sentido de aresto, resolução ou decisão tomada coletivamente pelos tribunais de Justiça. 3. ADÉQUO / ADEQUO Nenhuma das duas formas. O verbo adequar só tem a primeira e segunda pessoas do plural do presente do indicativo (adequamos, adequais) e, assim, não tem o presente do subjuntivo, o imperativo negativo e do imperativo afirmativo só tem a segunda pessoa do plural. Observação: Alguns gramáticos já aceitam a conjugação do verbo adequar em todas as suas formas, inclusive naquelas em que o u é tônico, seguindo a conjugação de averiguar: adequo, adequas, adequam, adeque, adeques, adequem (pronuncia-se: adeqúo, adeqúas, adeqúam, adeqúe, adeqúes, adeqúem). 4. ADIRO / ADERO O correto é adiro. O verbo aderir troca o e em i na primeira pessoa do presente do indicativo, em todo o presente do subjuntivo, no imperativo negativo e nas terceiras pessoas do singular e do plural e primeira pessoa do plural do imperativo afirmativo. Como ele se conjugam: advertir, aderir, aferir, aspergir, assentir, auferir, cerzir, compelir, competir, conferir, concernir, conseguir, consentir, convergir, deferir, desferir, despir, diferir, digerir, discernir, dissentir, divergir, divertir-se, expelir, ferir, gerir, impelir, inferir, ingerir,inserir, interferir, investir, mentir, perseguir, preferir, preterir, proferir, propelir, referir, refletir, revestir, repetir, repelir, seguir, sentir, servir, sugerir, transferir, vestir. 5. ADULTERAR Conjuga-se regularmente. É termo polissêmico com o significado de: modificar, introduzir alteração em, produzir falsificação em, defraudar, corromper, cometer adultério. Entre os seus cognatos estão os verbetes: adultério, adúltero e adulterino, que especificamente se referem à violação da fidelidade conjugal. Logo, não se pode dizer adultério do vinho, da moeda, do peso, da lei. 6. ALUGAR É verbo regular, mas assume dois sentidos: no ativo, o dono do imóvel aluga-o a um inquilino, e, no sentido passivo, o inquilino aluga o imóvel, paga pelo imóvel. Há vários verbos que apresentam esses dois aspectos: arrendar (= dar de arrendamento, tomar de arrendamento); esmolar (= dar esmola, receber esmola); emprestar (= fazer empréstimo, receber empréstimo); herdar (= dar herança, receber herança); hospedar (= agasalhar, receber e alojar-se). 7. APAZÍGUO / APAZIGUO O correto é apaziguo (pronuncie: apazigúo). Os verbos apaziguar, arguir e obliquar apresentam a vogal u tônica nas formas rizotônicas (primeira, segunda e terceira pessoas do singular e terceira pessoa do plural dos presentes do indicativo e do subjuntivo e na segunda e terceira pessoas do singular e terceira do plural dos imperativos afirmativo e negativo). Não se usa acento nessas formas. 8. APIEDO / APIADO O verbo apiedar-se deriva da palavra piedade, cuja vogal e transforma-se em a todas as vezes em que o acento recai no tema do verbo, ou seja, nas formas rizotônicas. Assim: eu me apiado, tu te apiadas, ele se apiada, nós nos apiedamos, vós vos apiedais, eles se apiadam. O mesmo vai ocorrer nas formas rizotônicas do presente do subjuntivo e dos imperativos afirmativo e negativo. Não existe em nossa língua a forma apiedo. Observação: O verbo apiedar-se, que significa ter piedade, pode construir-se de três maneiras: a) com a preposição a: “Apiedou-se à fraqueza da lei.” b) com a preposição com: “O governo se apiedava com os pobres…” c) com a preposição de: “Apiedai-vos da cegueira dessa gente.” 9. APRAZI / APROUVE O correto é aprouve. O verbo aprazer faz o presente do indicativo da seguinte forma: aprazo, aprazes, apraz, aprazemos, aprazeis, aprazem. O pretérito perfeito é aprouve, aprouveste, aprouve, aprouvemos, aprouvestes, aprouveram; assim, seus derivados: aprouvera (pretérito mais-que-perfeito), aprouver (futuro do subjuntivo) e aprouvesse (imperfeito do subjuntivo). 10. ARRAZOAR Tem o sentido de argumentar. Como todos os verbos em OAR, não é acentuado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo (arrazoo, perdoo, enjoo, voo). 11. ARREIO / ARRIO Ambas as formas estão certas. Arreio é do verbo arrear que significa pôr arreios e a forma arrio é do verbo arriar que significa descer, abaixar, desabar. Atenção: a) Os verbos em ear como afear, alhear, arrear, atear, basear, cear, cercear, falsear, frear, nomear, nortear, passear, pelear, pentear, recear, refrear trocam o e por ei nas formas rizotônicas do presente do indicativo e de seus derivados (presente do subjuntivo e imperativos afirmativo e negativo): afeio, ateias, baseia, ceie, falseies. Esses verbos não devem ser grafados com i no infinitivo nem em nenhuma das formas em que o acento cai na desinência (formas arrizotônicas); não existe no português atual verbo terminado em eiar: ou termina em ear ou em iar. b) Os verbos em iar, como abreviar, adiar, alumiar, anunciar, apreciar, arriar, associar, caluniar, comerciar, copiar, distanciar, evidenciar, extasiar, filiar, iniciar, licenciar, miar, premiar, principiar, providenciar, variar, são normalmente regulares (copio, adias, alumia, anuncie, premio, vario, extasio). Há, no entanto, cinco verbos: ansiar, incendiar, mediar, odiar, remediar e seus derivados que trocam a vogal i por ei nas formas rizotônicas do presente do indicativo e de seus derivados: anseio, anseias, anseiam, anseie, anseiem, medeio, medeias, medeiem, odeio, odeias, odeia, odeies, remedeias, remedeies. c) Não vá, em sua redação, fazer confusão entre afear (tornar feio) e afiar (dar fio); cear (fazer a ceia) e ciar (remar para trás); estrear (inaugurar, iniciar) e estriar (riscar); mear (dividir ao meio, partir em dois) e miar (emitir miados). São verbos parônimos, um em ear e o outro em iar. 12. AUTUAR Tem o sentido de ordenar peças de processo, lavrar auto de infração. Como todos os verbos terminados em UAR conjuga-se regularmente. Tem como cognatos auto, autuação, autuante e autuado. 13. CAIBO / CABO A primeira pessoa do singular do presente do indicativo de caber é caibo. Assim, o presente do subjuntivo, derivado da primeira pessoa do presente do indicativo, será caiba, caibas, caiba, caibais… permanecendo essa irregularidade no imperativo negativo e nas terceiras pessoas do singular e do plural e na terceira pessoa do plural do imperativo afirmativo. Esse verbo tem outra irregularidade no pretérito perfeito, que é coube, coubeste… couberam. Assim, os derivados do perfeito terão essa irregularidade (pretérito mais-que- perfeito = coubera; futuro do subjuntivo = couber; imperfeito do subjuntivo: coubesse). Observações: Dada a significação, o verbo caber não tem imperativo. O derivado descaber conjuga-se tal qual o verbo caber, porém só é usado no particípio: descabido. Quando for usar o verbo caber no futuro do subjuntivo, tenha sempre em mente o que foi dito na Seção 8.4. sobre o uso desse tempo verbal. A terceira pessoa do plural do pretérito perfeito de caber é couberam e, assim, o futuro do subjuntivo é couber. 14. COLORO (ó) / COLORO (ô) Nenhuma das duas formas. O verbo colorir não tem a primeira pessoa do singular do presente do indicativo nem o presente do subjuntivo e imperativo negativo e do imperativo afirmativo, só tem as segundas pessoas do singular e do plural. A solução é “eu dou cor” ou “estou colorindo”. 15. COMPRAZI-ME / COMPROUVE-ME Ambas as formas estão corretas. O verbo comprazer-se conjuga-se, no presente do indicativo, da mesma forma que os verbos aprazer e desprazer ou desaprazer que têm conjugação completa. No pretérito perfeito, porém, pode ter as formas: comprazi-me, comprazeste-te, comprazeu-se, comprazemo-nos, comprazestes-vos, comprazeram-se, ao lado das formas: comprouve-me, comprouveste-te, comprouve-se, comprouvemo-nos, comprouvestes-vos, comprouveram-se. O mesmo ocorre com os tempos derivados do pretérito perfeito: mais-que-perfeito do indicativo (comprouvera), futuro do subjuntivo (comprouver) e imperfeito do subjuntivo (comprouvesse). 16. COMPUTO COMPUTAS COMPUTA Nenhuma dessas formas. No presente do indicativo o verbo computar só tem as formas do plural e, desse modo, não tem o presente do subjuntivo nem o imperativo negativo, só a segunda pessoa do plural do imperativo afirmativo. Alguns gramáticos divergem a respeito e propõem para o presente do indicativo cômputo, cômputas, cômputa, computamos, computais, cômputam, formas que são rejeitadas pela maioria. 17. DESPENDER / DISPENDER É verbo regular proveniente do latim dispendere, mas que na passagem para o português sofreu alteração fonética, trocando o i em e (despender). A forma verbal dispender não existe. O que há é o substantivo dispêndio e o adjetivo dispendioso. São formas da linguagem erudita, que conservaram o i da ortografia primitiva do latim dispendium e dispendiosus. 18. DETERAM / DETIVERAM O correto é detiveram, pois o verbo deter conjuga-se tal qual o verbo ter do qual é derivado.Como ele serão conjugados abster, ater, conter, deter, entreter, manter, obter, reobter, reter, suster. Esses verbos recebem acento agudo na terceira pessoa do singular (abstém, atém, mantém, sustém) e acento circunflexo na terceira pessoa do plural do presente do indicativo (abstêm, atêm, mantêm). Atenção para as formas do futuro do subjuntivo desses verbos (ativer, detiver, obtiver, sustiver etc.) que são diferentes das formas do infinitivo flexionado (ater, deter, obter, suster etc.). Veja o que foi dito na Seção 8.4. 19. ESTEJA / ESTEJE O correto é esteja. Normalmente os verbos fazem o presente do subjuntivo a partir da primeira pessoa do presente do indicativo, trocando-se a desinência o pela desinência e, nos verbos da primeira conjugação (amo < ame) e pela desinência a nos verbos da segunda conjugação e da terceira (bebo < beba, parto < parta); mas os seguintes verbos têm outra formação: haver = hei < haja, ser = sou < seja, estar = estou < esteja, dar = dou < dê, ir = vou < vá, querer = quero < queira e saber = sou < saiba. 20. EXPORAM / EXPUSERAM O correto é expuseram. O verbo expor segue a conjugação do verbo pôr, e será conjugado tal qual, assim como os demais derivados: antepor, apor, compor, contrapor, decompor, depor, descompor, desimpor, dispor, entrepor, expor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobrepor, sotopor, supor, transpor. 21. FALO / ESTOU FALINDO Use a expressão estou falindo ou estou indo à falência. O verbo falir e os verbos adir, combalir, espavorir, florir, remir, ressarcir, ressequir, vagir só têm a segunda e terceira pessoas do plural do presente do indicativo e, assim, não têm o presente do subjuntivo nem o imperativo negativo e do imperativo afirmativo, apenas a segunda pessoa do plural. 22. FIZEREM / FAZEREM A forma fizerem é futuro do subjuntivo, derivada da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito, fizeram: fizer, fizeres, fizer, fizermos, fizerdes, fizerem. Só poderão sair se fizerem todo o trabalho. A forma fazerem é terceira pessoa do plural do infinitivo flexionado: fazer, fazeres, fazer, fazermos, fazerdes, fazerem. O chefe pediu para eles fazerem o trabalho. 23. FAZ TU / FAZE TU A segunda pessoa do singular do imperativo presente de fazer é faze. No entanto há a forma faz, irregularidade justificada pelo latim fac, sem e final. A mesma irregularidade ocorre com os verbos dizer (dize ou diz) e conduzir (conduze ou conduz). Essa irregularidade ocorre com os compostos: afazer, contrafazer, desfazer, liquefazer, perfazer, rarefazer, refazer, satisfazer derivados de fazer e bendizer, condizer, desdizer, entredizer, interdizer, maldizer, predizer, redizer e tresdizer, derivados de dizer. Observações: a) Se tiver de usar o pronome oblíquo o às formas do imperativo presente de fazer, dizer e seus derivados, será: dize-o, faze-o, conduze-o, desfaze-o, maldize-o ou então: di-lo, fá-lo, condu-lo, desfá-lo, maldi-lo. b) O verbo fazer pode ser usado em uma redação para substituir verbos de frases ligadas, quando se não os queira repetir em períodos como: Obedecia cegamente a todas as normas do Direito, como ainda hoje faz (= obedece). Em frases assim, o verbo fazer recebe o nome de verbo vicário (= que faz as vezes de outro) fato que pode acontecer também com o verbo ser, substituindo verbo anteriormente empregado no período: A Copa de 2010 realizou-se, mas não foi (= não se realizou) como esperavam os brasileiros. 24. FOLHEEI / FOLHEI Quando, num verbo em ear (caso de folhear), a desinência de uma forma arrizotônica começa por e, a forma verbal passa a ter dois ee, pois o primeiro pertence ao radical do verbo: folheei, folheemos, folheeis. A forma folhei é do verbo folhar, cujo sentido é prover de folhas, ornar com folhagens. 25. GEAR / GEIAR O verbo gear é cognato de geada e como tal se escreve. É um verbo em ear (vide observação a do item 10) e deve, para conjugação, seguir a regra dos verbos assim terminados. Quanto a geiar, lembre-se de que não existe em nossa língua verbo terminado em eiar. 26. INFORMAR O / DE / SOBRE O verbo informar no sentido de dar informação, dar parecer admite duas construções: com a preposição a e com as preposições de e sobre: Informei ao diretor o conteúdo do processo. Informei o diretor do (ou sobre o) conteúdo do processo. Essas mesmas regências são válidas para os verbos avisar, notificar e prevenir. Informar com o sentido de pôr-se a par é verbo pronominal (informar-se) e exige a preposição de. Ele informou-se do caso ontem à tarde. 27. INTERVIU / INTERVEIO O correto é interveio. É verbo derivado de vir e, como ele se conjuga. Os verbos derivados de vir como advir, avir-se, convir, desavir-se, intervir, provir, revir, sobrevir recebem acento agudo na terceira pessoa do singular do presente do indicativo (advém, convém, provém, sobrevém) e acento circunflexo na terceira pessoa do plural (advêm, convêm, provêm, sobrevêm). O particípio de vir é vindo e, assim, os seus derivados: advindo, provindo, convindo, intervindo, sobrevindo (é o único caso em que o particípio e o gerúndio se igualam morfologicamente). 28. LEIAMOS / LEAMOS A primeira pessoa do singular do presente do indicativo é leio, logo, para formar o subjuntivo, troca-se o o em a e tem-se a forma leia. O correto, pois, é leiamos. 29. MANTESSE / MANTIVESSE O correto é mantivesse. O verbo manter é derivado de ter e como ele se conjuga. Veja o item 18. 30. ME MOSCO / ME MUSCO No verbo moscar-se (sumir-se, desaparecer da presença de alguém), a vogal o do radical transforma-se em u nas formas rizotônicas e, assim, tem-se no presente do indicativo: eu me musco, tu te muscas, ele se musca, nós nos moscamos, vós vos moscais, eles se muscam; e no presente do subjuntivo: que eu me musque, te musques, se musque, nos mosquemos, vos mosqueis, se musquem. 31. OPTO / OPITO O correto é opto. O verbo optar não tem a vogal i entre o p e o t. O presente do indicativo é: opto, optas, opta, optamos, optais, optam e o presente do subjuntivo: opte, optes, opte, optemos etc. 32. PERCA / PERDA O verbo perder na primeira pessoa do singular do presente do indicativo tem a forma perco. Assim, para se fazer o presente do subjuntivo, troca-se a desinência o pela desinência a, obtendo-se a forma perca. Espero que ele não perca a hora. Perda é substantivo. Com o incêndio, houve uma perda irreparável. 33. PÔDE / POUDE Pôde é pretérito perfeito do indicativo. Recebe acento diferencial em contraposição à forma pode, que é presente do indicativo. Não existe poude. 34. POLO / PULO O verbo polir muda o o da raiz em u nas formas rizotônicas do presente do indicativo (pulo, pules, pule, polimos, polis, pulem), em todas as formas do presente do subjuntivo (pula, pulas, pula, pulamos, pulais, pulam) e do imperativo negativo (não pulas, não pula, não pulamos, não pulais, não pulam). No imperativo afirmativo, apenas a segunda pessoa do plural não muda o o em u (pule tu, pula você, pulamos nós, poli vós, pulam vocês). Nessas formas, há homonímia com o verbo pular. 35. POR / PÔR Por é preposição e pôr é verbo. O presente do indicativo é ponho, pões, põe, pomos, pondes, põem. O pretérito imperfeito do indicativo é punha, punhas, punha, púnhamos, púnheis, punham. O pretérito perfeito do indicativo é pus, puseste, pôs, pusemos, pusestes, puseram. Como ele se conjugam todos os seus derivados, como vimos no item 23. 36. PRAZI / PROUVE O correto é prouve. O verbo prazer faz no pretérito perfeito prouve e não prazi. Esse verbo só é usado na terceira pessoa dosingular e no gerúndio, em nenhuma outra forma. Assim, sua conjugação é: praz, prazia, prouve, prouvera, prazerá, prazeria, praza, prouvesse, prouver, prazer, prazendo. O verbo prazer é transitivo indireto e significa agradar, aprazer: “Praz-lhe dissertar sobre criminalidade;” “Praza aos céus que a miséria seja erradicada.” 37. PRECAVEJO / PRECAVENHO Nenhuma das duas formas. O verbo precaver-se só tem a segunda e a terceira pessoas do plural do presente do indicativo (precavemos e precaveis) e, assim, não tem o presente do subjuntivo nem o imperativo negativo e do imperativo afirmativo, só tem a segunda pessoa do plural. É um verbo regular e não se conjuga pelo verbo ver. 38. PROVEU / PROVIU O correto é proveu. Embora derivado do verbo ver, este verbo é regular no pretérito perfeito do indicativo e seus derivados e faz: provi, proveste, proveu, provemos, provestes, proveram; e assim: provera, prover, provesse. Na primeira pessoa do singular do presente do indicativo faz provejo. Não confundir com provenho e proveio, que são formas do verbo provir, derivado de vir. 39. RATIFICAR Tem o sentido de confirmar. Sua conjugação é normal. É vinculado à raiz do verbo depoente latino reor-reris-ratus sum-reri, passando pelo latim tardio ratificare. Nos “Digesta” aparece ratihabitio (ratificação). É bom lembrar que ao verbo reor ligam-se as expressões caução “De Rato” e pro rata. O antônimo de ratus é irritus: in+ratus > irritus, que deu a palavra írrito, com assimilação do n e apofonia do a. Írrito é nulo, sem efeito, ou seja, o que é feito contra o que estabelece o Direito, não produz efeito jurídico algum e é passível de anulação. É corrente o emprego pleonástico da expressão írrito e nulo. 40. REAVI / REOUVE O correto é reouve. O verbo reaver conjuga-se tal qual o verbo haver, de que é derivado, mas só nas pessoas em que na conjugação do verbo haver ocorre a letra v. Assim, no presente do indicativo só tem a primeira e a segunda pessoas do plural; não tem o presente do subjuntivo nem o imperativo negativo, e do imperativo afirmativo só tem a segunda pessoa do plural. Nas formas faltosas usa-se o sinônimo recuperar. 41. REQUIS / REQUEREU O correto é requereu. Este verbo faz a primeira pessoa do presente do indicativo requeiro, logo o presente do subjuntivo será requeira. No pretérito perfeito do indicativo faz requeri, requereste, requereu… requereram e, assim, os derivados do perfeito fazem: requerera, requerer, requeresse. 42. RESFOLEGO / RESFOLGO O correto é resfolgo. O verbo resfolegar, que significa tomar fôlego, deriva desse substantivo (fôlego), que é proparoxítono. Mas o verbo não pode ter esse acento nas formas rizotônicas, daí sua irregularidade com a perda do e na sílaba le dessas formas. Conjuga-se no presente do indicativo: resfolgo, resfolgas, resfolga, resfolegamos, resfolegais, resfolgam. No presente do subjuntivo deriva do presente do indicativo: resfolgue, resfolgues, resfolgue, resfoleguemos, resfolegueis, resfolguem. 43. RESSARCIR Tem o sentido de pagar, resgatar. Para a maioria é um verbo defectivo, seguindo a conjugação do verbo falir. Alguns gramáticos, no entanto, consideram-no completo: ressarço, ressarces, ressarce, ressarcimos, ressarcis, ressarcem; ressarça, ressarças, ressarça, ressarçarmos, ressarçais, ressarçam, ressarcia; ressarcirei, ressarciria, ressarcisse, ressarcido etc. 44. ROUBE / ROBE O correto é roube. O verbo roubar conserva sempre a semivogal u em todas as suas formas. Do mesmo modo os verbos inteirar e pernoitar conservam a semivogal i: inteiro, inteirava, inteirasse, pernoito, pernoitava, pernoitasse. 45. SABER / SOUBER Saber é infinitivo (saber, saberes, saber, sabermos, saberdes, saberem): Observe bem a correspondência da repartição para saber mais. Souber é futuro do subjuntivo, derivado de souberam, terceira pessoa do plural do pretérito perfeito (souber, souberes, souber, soubermos, souberdes, souberem): Se você souber onde está a correspondência, avise-me. 46. SACIAR Pertence aos verbos do grupo IAR, cuja conjugação é regular: sacio, sacias, sacia, saciem, sacie, sacies, sacie, saciem. Não esqueça que cinco verbos desse grupo (mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar), cujas iniciais formam a palavra mnemônica Mário, recebem um e eufônico nas formas rizotônicas do presente do indicativo e de seus derivados (presente do subjuntivo e imperativo): medeio, medeias, medeia, medeiem, medeie, medeies, medeie, medeiem. 47. SAAIS / SAIAIS A segunda pessoa do plural do presente do subjuntivo é saiais. O verbo sair, como todos os verbos em air, recebe um i na primeira pessoa do singular do presente do indicativo e em todas as formas dele derivadas. Assim: saio, saia, saias, saia, saiamos, saiais, saiam. Do mesmo modo grafam-se os verbos atrair, abstrair, cair, contrair, decair, descair, detrair, distrair, esvair-se, extrair, recair, retrair, retrotrair, sobressair, subtrair, trair. 48. SANEAR Na linguagem jurídica esse verbo é de uso corrente. Ele prende-se ao adjetivo latino sanus (são) e tem como cognatos saneamento e saneador (despacho saneador). Pertence aos verbos do grupo EAR, que se conjugam com a intercalação de um i eufônico nas formas rizotônicas do presente do indicativo e seus derivados (presente do subjuntivo e imperativos): saneio, saneias, saneia, saneiam, saneie, saneies, saneie, saneiem. 49. SOER Esse verbo é vinculado ao verbo depoente latino soleo-soles-solitus sum-solere com o sentido de costumar, ter por hábito. Atualmente quase não se usa. Aparece em um ou outro jurista a forma sói na expressão “como sói acontecer”. No entanto, são de uso comum dois compostos do adjetivo sólito: insólito (fora do comum, do habitual – atividade insólita) e insolente, com alteração semântica. 50. TRANSGREDO / TRANSGRIDO O verbo transgredir muda o e da raiz em i nas formas rizotônicas (transgrido, transgrides, transgride, mas transgredimos, transgredis). Como ele se conjugam: agredir, prevenir, progredir e regredir. Observação: Para alguns gramáticos, o verbo cerzir deve ser conjugado como transgredir, mas a maioria coloca aquele verbo no grupo de aderir. 51. TROUXE TROUCE TRUXE O correto é trouxe. O pretérito perfeito do indicativo de trazer é trouxe, trouxeste, trouxe, trouxemos, trouxestes, trouxeram. As formas trouce e truxe não existem. O infinitivo é trazer, e o futuro do subjuntivo é trouxer. 52. VALO / VALHO O correto é valho, primeira pessoa do singular do presente do indicativo e, assim, o presente do subjuntivo (valha, valhas, valha, valhamos, valhais, valham) e o imperativo negativo (não valha, não valhas etc.) porque deriva dessa pessoa, sendo essa a única irregularidade desse verbo. Como valer conjugam-se os derivados desvaler e equivaler. 53. VIGENDO / VIGINDO O verbo viger não se emprega na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, não tendo, pois, o presente do subjuntivo e o imperativo afirmativo. Do imperativo afirmativo tem apenas as segundas pessoas: vige tu e vigi vós. O gerúndio é, pois, vigendo, já que é verbo da segunda conjugação. A forma vigindo, embora muito usada por alguns advogados, não existe na língua portuguesa. 54. VIMOS / VIEMOS A forma vimos pode ser a primeira pessoa do plural do presente do indicativo de ver ou a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo de vir. Já a forma viemos é a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito de vir. 8.1.6. Verbos abundantes Em sua dissertação você deve ficar atento aos verbos abundantes. São verbos que apresentam mais de uma forma com um único valor, como haveis ou heis, constróis ou construis. A abundância se revela mais no particípio, havendo uma forma regular,terminando com a desinência do e outra forma irregular, com as desinências to ou so. Para consulta e pesquisa observe os principais verbos abundantes das três conjugações: a) Primeira Conjugação 1. Aceitar – aceitado e aceito (a forma participial aceite substantivou-se e como substantivo é usado no Direito Comercial. A forma aceitado é usada na voz ativa e na passiva). 2. Afetar – afetado e afeto (embora condenado por alguns, esse verbo é reconhecido por Adalberto Kaspary que cita passagens do Código Civil com a forma afectado). 3. Anexar – anexado e anexo (o particípio anexo é usado como adjetivo e substantivo). 4. Assentar – assentado e assento (a forma assento é mais usada como substantivo). 5. Benquistar – benquistado e benquisto. 6. Cativar – cativado e cativo (a forma cativo é usada como substantivo e como adjetivo). 7. Circuncidar – circuncidado e circunciso (a forma circunciso é mais usada como substantivo). 8. Completar – completado e completo. 9. Confessar – confessado e confesso (confesso é muito usado, em Direito, na expressão “réu confesso”). 10. Concretar – concretado e concreto (a forma concreto é usada como substantivo e como adjetivo). 11. Contraditar – contraditado e contradito (na linguagem jurídica é comum o substantivo contradita no sentido de contestação, impugnação, refutação). 12. Crucificar – crucificado e crucifixo (a forma crucifixo é mais usada como substantivo). 13. Cultivar – cultivado e culto (não confundir a forma culto, que significa ilustrado, civilizado, com a forma curto, que é minguado, pequeno: memória culta – memória curta). 14. Curvar – curvado e curvo. 15. Descalçar – descalçado e descalço. 16. Despertar – despertado e desperto. 17. Dispersar – dispersado e disperso. 18. Entregar – entregado e entregue (a forma participial entregado pode ser usada na voz ativa e na passiva). 19. Enxugar – enxugado e enxuto. 20. Escusar – escusado e escuso. 21. Estreitar – estreitado e estreito (a forma estreito é usada como substantivo e como adjetivo). 22. Estremar – estremado e estremo ou estreme (a forma estremo é usada como substantivo e adjetivo, e a forma estreme apenas como adjetivo). 23. Excetuar – excetuado e exceto (a forma exceto é usada somente como preposição). 24. Exentar – exentado e exento (a forma exento é também particípio irregular de eximir. Existem ainda as formas divergentes isentar, isentado e isento). 25. Expressar – expressado e expresso. 26. Expulsar – expulsado e expulso (a forma participial expulsado pode ser usada na voz passiva e na voz ativa). 27. Falhar – falhado e falho. 28. Faltar – faltado e falto. 29. Fartar – fartado e farto (não confundir farto com falto. Diz-se: farto de provisões (cheio de provisões) e falto de provisões (desprovido de provisões). 30. Findar – findado e findo. 31. Fixar – fixado e fixo (a forma fixado pode também ser usada com os verbos ser e estar). 32. Fritar – fritado e frito. 33. Ganhar – ganhado e ganho (vide as Observações a seguir). 34. Gastar – gastado e gasto (vide as Observações). 35. Infeccionar – infeccionado e infecto. 36. Infestar – infestado e infesto. 37. Inquietar – inquietado e inquieto. 38. Interditar – interditado e interdito (a forma interdito é usada como substantivo e como adjetivo, principalmente na linguagem jurídica). 39. Isentar – isentado e isento. 40. Juntar – juntado e junto. 41. Libertar – libertado e liberto (a forma liberto é usada como substantivo e como adjetivo). 42. Limpar – limpado e limpo. 43. Livrar – livrado e livre. 44. Malquistar – malquistado e malquisto. 45. Manifestar – manifestado e manifesto (a forma manifesto pode ser usada como substantivo e como adjetivo). 46. Matar – matado e morto (morto é particípio irregular de matar e morrer. Com os verbos de ligação, usa-se morto para ambos os verbos, mas com os verbos ter e haver usa-se matado e morrido). 47. Misturar – misturado e misto. 48. Molestar – molestado e molesto. 49. Murchar – murchado e murcho. 50. Ocultar – ocultado e oculto (a forma ocultado é também empregada na voz passiva). 51. Pagar – pagado e pago (vide Observações a seguir). 52. Professar – professado e professo (o termo professo é usado como substantivo e como adjetivo). 53. Quedar – quedado e quedo. 54. Quitar – quitado e quite (a forma adjetivada quite tem singular e plural: “Estou quite e vocês estão quites.”). 55. Raptar – raptado e rapto (a forma rapto é usada como substantivo). 56. Salvar – salvado e salvo (ambas as formas participiais podem ser usadas na voz ativa e na voz passiva). 57. Secar – secado e seco. 58. Segurar – segurado e seguro. 59. Sepultar – sepultado e sepulto. 60. Situar – situado e sito (é comum encontrar-se a expressão “sito à rua…” quando o correto é “sito na rua…”. Os verbos situar, morar, residir, bem como os substantivos e adjetivos deles derivados não aceitam a preposição a. São verbos de fixação e não de movimento. Devem ser construídos com a preposição em: sito na rua…, morador na rua…, residente na rua…) 61. Soltar – soltado e solto. 62. Sujeitar – sujeitado e sujeito. 63. Suspeitar – suspeitado e suspeito. 64. Vagar – vagado e vago. b) Segunda Conjugação 1. Absolver – absolvido e absolto ou absoluto (a forma absoluto é usada como substantivo e como adjetivo). 2. Absorver – absorvido e absorto (não confundir esse verbo em que entra r – absorver – com o de cima, absolver). 3. Acender – acendido e aceso (a forma acendido pode ser usada na voz ativa e na voz passiva. Não se confunda acender, que tem o sentido de atear fogo, com o seu homônimo ascender, que significa subir). 4. Atender – atendido e atento. 5. Benquerer – benquerido e benquisto. 6. Benzer – benzido e bento. 7. Conhecer – conhecido e cógnito (cógnito desapareceu, mas restaram as formas com o prefixo de negação in: incógnito (andar incógnito) e incógnita (termo matemático). 8. Convencer – convencido e convicto. 9. Corromper – corrompido e corrupto. 10. Cozer – cozido e coito (coito é usado no Direito como substantivo e também em formas compostas como em biscoito = cozido duas vezes). 11. Defender – defendido e defeso (o termo defeso só é usado no sentido de proibir: “A pesca do camarão foi defesa por três meses.” No sentido de proteger usa-se o particípio regular: “A OAB tem defendido a Amazônia.”). 12. Desenvolver – desenvolvido e desenvolto. 13. Devolver – devolvido e devoluto (devoluto é usado como adjetivo em expressões como terras devolutas). 14. Dissolver – dissolvido e dissoluto. 15. Eleger – elegido e eleito (a forma eleito é usada também com os verbos ter e haver). 16. Envolver – envolvido e envolto (a forma envolvido é também usada na voz passiva: “Os ministros do TSE foram envolvidos em milhares de e- mails.”). 17. Esconder – escondido e esconso (a forma esconso é usada como substantivo e significa compartimento aproveitado nos desvãos inclinados do teto do telhado. Como adjetivo não é usado, mas aparece na locução adverbial à esconsa, que significa ocultamente). 18. Escorrer – escorrido e escorreito (usa-se em expressões como: linguagem escorreita, estilo escorreito). 19. Estender – estendido e extenso. 20. Incorrer – incorrido – incurso (na linguagem forense, incurso tem o sentido de passível de. Na linguagem financeira e na Contabilidade aparece a forma incorrida). 21. Interromper – interrompido e interrupto. 22. Morrer – morrido e morto (vide observação no verbo matar). 23. Nascer – nascido, nato e nado (nado é forma arcaica e poética). 24. Pender – pendido e penso. 25. Perverter – pervertido e perverso. 26. Prender – prendido e preso (a forma prendido pode ser usada na voz ativa e na voz passiva). 27. Propender – propendido e propenso. 28. Querer – querido e quisto (a forma irregularquisto é usada só nos compostos benquisto e malquisto). 29. Remover – removido e remoto. 30. Repreender – repreendido e repreenso. 31. Resolver – resolvido e resoluto. 32. Retorcer – retorcido e retorto. 33. Revolver – revolvido e revolto. 34. Romper – rompido e roto (roto usa-se como substantivo e adjetivo). 35. Solver – solvido e soluto. 36. Submeter – submetido e submisso. 37. Subtender – subtendido e subtenso (não confundir o verbo subtender, que é estender por baixo de, com o verbo subentender, que tem o sentido de admitir, supor mentalmente). 38. Surpreender – surpreendido e surpreso. 39. Suspender – suspendido e suspenso (a forma suspendido pode ser usada na voz passiva e na voz ativa). 40. Tender – tendido e tenso (usa-se o termo tendido em expressões como “bandeiras tendidas”, isto é, desfraldadas ou “ver a olhos tendidos”, ou seja, esforçar a vista, como os míopes para ver objetos distantes). 41. Torcer – torcido e torto. c) Terceira Conjugação 1. Abstrair – abstraído e abstrato. 2. Adstringir – adstringido (forma não usada) e adstrito. 3. Afligir – afligido e aflito (a forma aflito é usada como substantivo e adjetivo). 4. Aspergir – aspergido e asperso. 5. Assumir – assumido e assunto (a forma assunto pode ser substantivo ou adjetivo). 6. Cingir – cingido e cinto (a forma cinto é usada como substantivo). 7. Coagir – coagido e coacto. 8. Coligir – coligido e coleto. 9. Compelir – compelido e compulso. 10. Comprimir – comprimido e compresso. 11. Concluir – concluído e concluso (na linguagem jurídica, concluso é usado com referência aos autos que sobem para o despacho do juiz). 12. Confundir – confundido e confuso. 13. Constringir – constringido e constrito. 14. Contrair – contraído e contrato (essa forma é usada como substantivo e como adjetivo). 15. Contundir – contundido e contuso. 16. Convelir – convelido e convulso. 17. Corrigir – corrigido e correto (correto não conservou a significação de corrigir. Significa sem defeito. Uma prova pode estar correta e não ter sido ainda corrigida e pode estar corrigida e não estar correta). 18. Difundir – difundido e difuso. 19. Distinguir – distinguido e distinto (distinto usa-se como substantivo e como adjetivo. Com o verbo distinguir o u não é pronunciado. Muitas pessoas costumam pronunciá-lo erroneamente. O mesmo acontece com os verbos adquirir e extinguir). 20. Dividir – dividido e diviso (diviso, que significa que se dividiu, é forma pouco usada). 21. Emergir – emergido e emerso. 22. Erigir – erigido e ereto. 23. Espargir – espargido e esparso. 24. Exaurir – exaurido e exausto. 25. Excluir – excluído e excluso. 26. Expelir – expelido e expulso (essa forma é também particípio irregular de expulsar). 27. Exprimir – exprimido e expresso (não se confunda exprimido, do verbo exprimir com espremido, de espremer, verbo que não possui particípio irregular). 28. Extinguir – extinguido e extinto (extinto usa-se como substantivo com o sentido de morto, falecido. A forma extinguido pode ser usada na voz ativa e na voz passiva). 29. Extrair – extraído e extrato (extrato é usado como substantivo). 30. Frigir – frigido e frito (essa forma é particípio irregular de frigir e fritar) 31. Haurir – haurido e hausto (a forma hausto é usada como substantivo). 32. Iludir – iludido e iluso. 33. Imergir – imergido e imerso. 34. Imprimir – imprimido e impresso (ambas as formas podem ser usadas na voz ativa e na voz passiva). 35. Incluir – incluído e incluso. 36. Infundir – infundido e infuso. 37. Inserir – inserido e inserto (ambas as formas participiais podem ser usadas na voz ativa e na voz passiva. Não confundir inserto, verbo, com incerto, adjetivo. O substantivo cognato de inserir é inserção). 38. Insurgir – insurgido e insurreto. 39. Obtundir – obtundido e obtuso. 40. Omitir – omitido e omisso (omisso assumiu a função de adjetivo: casos omissos em lei). 41. Oprimir – oprimido e opresso. 42. Possuir – possuído e possesso (a forma possesso pode ser usada como substantivo e como adjetivo). 43. Recluir – recluído e recluso. 44. Remitir – remitido e remisso. 45. Repelir – repelido e repulso. 46. Restringir – restringido e restrito. 47. Ressurgir – ressurgido e ressurecto. 48. Submergir – submergido e submerso. 49. Suprimir – suprimido e supresso. 50. Surgir – surgido e surto. 51. Tingir – tingido e tinto. Observações: a) As formas regulares são empregadas na voz ativa com os verbos ter ou haver, formando tempos compostos, e as formas abundantes são usadas na voz passiva com os verbos ser ou estar: O caso foi inserido no processo. O caso está inserto no processo. b) Oito verbos não têm particípio regular: abrir, cobrir, dizer, escrever, fazer, ver, vir e pôr. Seus particípios são: aberto, coberto, dito, escrito, feito, visto, vindo e posto. c) Não se usam na língua culta os particípios regulares de ganhar, gastar e pagar, mas sim os abundantes ganho, gasto e pago: Ele tinha ganho na loteria, pago todas as dívidas e gasto todo o dinheiro. A forma ganhado existe apenas em algumas locuções como: viver do ganhado. d) Embora de uso comum, na linguagem coloquial, não se deve usar o particípio pego. Emprega-se pegado com qualquer auxiliar: tinha pegado, foi pegado, havia pegado, estava pegado etc. e) Não existem as formas de particípio trago e chego, mas sim, trazido e chegado. 8.1.7. Variações gráficas dos verbos Quando estiver fazendo a sua redação, observe as variações gráficas de alguns verbos, pois, muitas vezes, altera-se na escrita a representação da última consoante do radical, a fim de conservar o mesmo fonema e, assim: • os verbos terminados em -car mudam o c em qu, e os terminados em - gar mudam o g em gu, quando essas consoantes são seguidas de e: ficar = fico, fiques; carregar = carrego, carregues; secar = seco, sequeis. • os verbos terminados em -çar perdem a cedilha antes da vogal e: endereçar = endereço, endereceis; tropeçar = tropeçais, tropece • Os verbos terminados em - cer ou - cir têm c cedilhado antes de a ou de o: estabelecer = estabeleça, estabeleces, estabeleço; ressarcir = ressarço, ressarçam • os verbos terminados em ger ou gir mudam o g em j antes de a ou de o: proteger = protejo, proteges, protejas; reagir = reajo, reagimos, reajamos • Os verbos terminados em -guer ou -guir perdem o u antes de a ou de o: erguer = ergo, ergueis ergam; perseguir = persigo, persegue, persigamos. Essas acomodações gráficas não constituem irregularidades de conjugação e, por isso, não há, em nossa língua, verbos irregulares gráficos. 8.1.8. Uso dos modos e tempos verbais 1. Modo Indica a relação entre o emissor e o fato expresso pelo verbo. Subdivide-se em: • Modo Indicativo – normalmente aparece nas orações independentes e nas dependentes que encerram um fato real ou tido como tal: Paulo faz o trabalho e deixa tudo como se pede. • Modo subjuntivo – ocorre nas orações optativas, nas imperativas negativas e afirmativas (nestas, menos a segunda pessoa do singular e do plural), nas dubitativas com o advérbio talvez e nas subordinadas em que o fato é considerado como incerto, duvidoso ou impossível de se realizar. Se fosse eu, faria e aconteceria. Não procures o mal, que ele cairá sobre ti. Busquemos a Deus e seremos atendidos. Talvez tenhamos de fazer nova prova. Julgava que você fizesse todos os exercícios. • Modo Imperativo – é uma ordem, um pedido, um convite, uma proibição: Façam exercícios! Não abram a porta da esquerda. 2. Tempo Posiciona o fato no presente, passado e futuro em relação ao momento efetivo da comunicação. Assim: a) No modo Indicativo: i. Usa-se o presente: • Para indicar um fato que acontece no momento da fala: Atualmente ele trabalha com informática. • Para indicar um fato habitual: Todas as terças corro no calçadão de Ipanema. • Para exprimir fatos ou estados permanentes consideradoscomo verdades: Por um ponto passam inúmeras retas. • Usa-se o presente em lugar do pretérito para dar atualidade a fatos passados: Em 22 de abril de 1500, Cabral chega ao Brasil, com suas caravelas. • Em lugar do futuro o presente para indicar enfaticamente uma decisão ou para indicar um fato futuro próximo considerado como certo: Amanhã eu compro passagens para Brasília. Segundo a meteorologia, sábado próximo chove o dia inteiro. • O presente ainda pode ser usado em lugar do futuro do subjuntivo em frases como: Se queres amor, procura a compreensão. ii. Usa-se o pretérito perfeito simples: • Para indicar um fato totalmente concluído: O marceneiro montou o guarda-roupa. iii. Usa-se o pretérito perfeito composto: • Para indicar um fato iniciado e ainda em andamento ou um fato consumado: O marceneiro tem feito o trabalho. (fato iniciado e ainda em andamento) Tenho dito. (fato consumado) iv. Usa-se o pretérito imperfeito: • Para indicar um fato iniciado, mas não concluído: O marceneiro procurava o martelo. • Para indicar um fato presente em tempo passado: Há dois anos, Cleuton chefiava o Departamento de Pessoal. • Para indicar um fato passado em processo, simultâneo a um outro fato passado súbito ou em processo: Cleuton chefiava o Departamento de Pessoal, e a mulher trabalhava na recepção. Marina estava no caixa quando o bandido chegou. v. Usa-se o pretérito mais-que-perfeito simples ou composto: • Para indicar um fato concluído e anterior a outro fato também concluído: O guarda prendeu o ladrão que fugira da delegacia. • Para indicar um fato concluído em um passado distante: Quando meu avô nasceu, Einstein já concluíra a teoria da relatividade. vi. Usa-se o futuro do presente simples: • Para indicar um fato que irá realizar-se: Os alunos receberão novas apostilas. • O futuro do presente é usado no lugar do presente do indicativo para indicar uma ideia aproximada, e no lugar do imperativo nas prescrições e recomendações morais: Aquela jovem terá seus vinte anos. (ideia aproximada) A Bíblia diz: Não furtarás. (recomendação moral) Agora todos respeitarão os direitos alheios, de acordo com a lei (prescrição). vii. Usa-se o futuro do presente composto para indicar um fato futuro que irá realizar-se antes de outro fato também futuro: Até o meio-dia, os alunos terão concluído o teste. viii. Usa-se o futuro do pretérito simples para indicar um fato que ia se realizar, mas não se realizou ou para indicar incerteza: O professor leria aquele livro se tivesse tempo. Disseram que haveria umas dez pessoas na reunião. Para exprimir um pedido de forma cortês, substituindo o presente do indicativo e o imperativo: Você procuraria o livro para mim? ix. Usa-se o futuro do pretérito composto para indicar um fato que poderia ter ocorrido depois de um fato passado: Se tivéssemos feito todos os exercícios, teríamos passado. 2. No Modo Subjuntivo: a) Usa-se o presente para indicar um fato que pode ocorrer no momento da fala, porém duvidoso e incerto: Fique calmo, talvez ele chegue no próximo ônibus. Para indicar um fato futuro, como vontade, desejo, promessa: Louvemos a Deus e sejamos felizes. b) Usa-se o pretérito perfeito composto para indicar um fato totalmente terminado em um momento passado, porém duvidoso e incerto: Que ele tenha recebido o diploma, ninguém duvida. c) Usa-se o pretérito imperfeito para expressar uma condição, uma hipótese: Ficaríamos felizes se a chuva diminuísse. d) Usa-se o pretérito mais-que-perfeito composto para indicar um fato anterior a outro fato passado ou uma ação irreal: Se ela tivesse voltado, a vida seria melhor. e) Usa-se o futuro simples para indicar um fato eventual, hipotético que pode ocorrer num momento futuro: Não faças exercícios apenas quando tiveres tempo. f) Usa-se o futuro composto para indicar um fato hipotético futuro, mas já terminado antes de outro fato futuro: Faremos um churrasco se eles forem nomeados. 3. No Modo Imperativo a) Usa-se o imperativo afirmativo para expressar a tentativa do emissor para que o receptor realize a ação verbal. Estuda, faze exercícios, e a prova será facílima. Para exprimir uma ordem, um convite, uma solicitação ou súplica: Aqui é um hospital. Fale baixo. Traga-me notícias e deixe-me só. Minha senhora, sente-se, por favor. b) Usa-se o imperativo negativo para expressar proibições: Não deixes de fazer exercícios, pois só assim passarás em qualquer concurso. Não faças a outrem o que não queres que te façam. VÁ NESTA! O imperativo pode ser substituído pelo infinitivo em uma ordem: Não pisar na grama! Calar, pois vamos começar a reunião! E pode-se usar o imperativo do verbo querer seguido de infinitivo para suavizar uma ordem: Queira informar a todos que eu cheguei. Quer sair agora ou daqui a instantes? 8.1.9. Correlação verbal Normalmente a correlação é feita entre o verbo da oração principal, que fica em uma das formas do modo indicativo, e o da oração subordinada, que vai para uma das formas do modo subjuntivo. Assim: • o verbo da oração subordinada fica no presente do subjuntivo se o verbo da oração principal estiver: no presente do indicativo: Espero que faças todos os exercícios. no imperativo: Exija tudo a que tenha direito. no futuro do presente do indicativo: Providenciarei para que tudo termine bem. • o verbo da oração subordinada fica no pretérito perfeito composto do subjuntivo se o verbo da oração principal estiver: no presente do indicativo: Todos esperam que tudo tenha terminado bem. • o verbo da oração subordinada fica no pretérito imperfeito do subjuntivo se o verbo da oração principal estiver: no pretérito imperfeito do indicativo: Desejávamos que tudo terminasse bem. no pretérito perfeito do indicativo: Esperei desde as três horas que você saísse. no pretérito mais-que-perfeito do indicativo: Tinha esperado que você levantasse. no futuro do pretérito do indicativo: Aguardaria que todos fizessem a prova. • o verbo da oração subordinada fica no pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo se o verbo da oração principal estiver: no pretérito imperfeito do indicativo: Esperava que ela tivesse voltado atrás. no futuro do pretérito do indicativo: Ficaria feliz se ela tivesse voltado atrás. • o verbo da oração subordinada fica no futuro simples do subjuntivo se o verbo da oração principal estiver: no presente do indicativo: Faço os exercícios se quiser. no futuro do presente do indicativo: Farei os exercícios se quiser. • o verbo da oração subordinada fica no futuro composto do subjuntivo se o verbo da oração principal estiver: no futuro do presente do indicativo: Nós o procuraremos quando ele tiver saído. 8.1.10. Uso do infinitivo Um dos erros mais comuns em redação é o mau uso do infinitivo. Não esqueça de que ele pode ter flexão de pessoa, por isso classifica-se em infinitivo impessoal (o que não admite flexão) e infinitivo pessoal (o que admite flexão). Oinfinitivo pessoal é usado nas seguintes situações: • quando tem sujeito expresso ou implícito: Estes livros são para os candidatos lerem com atenção. É de suma importância conhecermos todos os detalhes do processo. • quando o sujeito o antecede, separando-o de seu auxiliar: Deixe os alunos saírem cinco minutos antes do sinal. • quando indica a indeterminação do sujeito, na terceira pessoa do plural: Na passeata, vi anotarem as placas dos carros, mas não sabia o porquê. O infinitivo impessoal é usado quando: • não fizer referência a um sujeito: Todos sabem que poupar água é olhar o futuro. • fizer parte de uma locução verbal: Os candidatos procuraram saber a matéria da prova. Eliana queria estudar medicina. • vier ligado a um verbo causativo (deixar, fazer, mandar) ou sensitivo (ouvir, sentir, ver): Deixai vir a mim as criancinhas. Mande-os entrar na sala ao lado. Naquela manhã,ouvi-a falar de amor. • exercer a função de complemento nominal: Phelipe estava acostumado a fazer essas coisas. Estava apto para revisar o balancete. • vier precedido das expressões fácil de, difícil de etc.: Todas essas questões são fáceis de resolver. Coisas assim são difíceis de executar. Era capaz de fazer tudo por amor. • substituir o imperativo: Olhar para frente e marchar cadenciados! Não pisar a grama nem pular a mureta! Se o verbo auxiliar com infinitivo impessoal deixar de ser expresso depois, o outro infinitivo será flexionado: Procuras ser o melhor, fazeres tudo corretamente? É um bom sinal. 8.1.11. Exercícios Para seu treinamento, apresentamos aqui algumas questões de coesão e de concordância verbal, a fim de que observando-as você não caia nesses erros quando de sua redação. 1. (FCAA/SSP/ES) Leia o texto a seguir: Em primeiro lugar, é necessário fazer o seguro. Igualmente o seguro deve cobrir todos os danos. Também o contrato deve ser respeitado e, consequentemente, todos ficarão satisfeitos. Os termos em destaque podem ser substituídos, respectivamente, por: a) primeiramente, ademais, além disso, portanto; b) antes de mais nada, da mesma forma, por outro lado, por conseguinte; c) acima de tudo, também, analogamente, finalmente; d) primordialmente, similarmente, segundo, em suma; e) sem dúvida, intencionalmente, pelo contrário, com efeito. 2. (Esesp/Assembleia) Na frase “O mar ainda produzirá energia elétrica…”, o advérbio ainda tem o mesmo sentido que em: a) sei que ainda serás um grande mestre; b) há ainda outros candidatos que não fizeram a prova; c) ainda trabalhando não conseguirá o que quer; d) ainda há meia hora ela estava aqui; e) um dia ele voltará e ela estará ainda à sua espera. 3. (FEC/Fiscal) ________ ela aparente ser uma pessoa dócil, não a provoque, ________ a ovelhinha não se transforme numa tigresa. A frase ganha sentido completo e lógico preenchendo-se suas lacunas, respectivamente, com as expressões: a) desde que / a fim de que; b) muito embora / desde que; c) dado que / muito embora; d) ainda que / para que; e) mesmo que / em vista do que. 4. (FCC/TJ/SP) A região-alvo da expansão das empresas, _____, das redes de franquias, é a Sudeste, _____ as demais regiões também serão contempladas em diferentes proporções; haverá, _____, planos diversificados de acordo com as possibilidades de investimento dos possíveis franqueados. A alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas e relaciona com coerência e coesão as ideias do texto é: a) digo – portanto – mas; b) como – pois – mas; c) ou seja – embora – pois; d) ou seja, mas, portanto; e) isto é, mas, como. 5. (Fuvest) Entre as frases “Cazuza mordeu a vida com todos os dentes” e “A doença e a morte parecem ter-se vingado de sua paixão exagerada de viver” estabelece-se um vínculo de coesão que pode ser corretamente explicitado com o emprego de: a) desde que; b) tanto assim que; c) uma vez que; d) à medida que; e) apesar de que. 6. (FCC/TRT/19ª Região) A seguinte frase está plenamente de acordo com as normas da concordância verbal. a) Nesse poema de Drummond parece repetir-se alguns termos nas várias estrofes. b) O autor e uma colega sua incumbiu-se de enviar uma carta aos amigos do Rio. c) Na passeata dos estudantes manifestavam-se protestos contra o governo. d) Eram de se esperar que houvessem deturpações dos fatos no noticiário oficial. e) Depois de ser feito várias cópias, enviei-as aos amigos do Rio. 7. (FEC/TRT/1ª Região) A frase em que se infringe a concordância nominal prescrita na língua culta é: a) O tempo livre era gasto com asseio e alimentação necessárias; b) Os trabalhadores assistiam semanalmente a práticas e rituais religiosos; c) Os trabalhadores não tinham direito a descanso e férias remuneradas; d) Viviam no lazer a nobreza e a burguesia ociosas; e) As leis não protegiam o artesão e o camponês sofridos. 8. (FEC/PM/Niterói) Na oração “mais de 5% vêm do setor público”, a concordância verbal foi feita de acordo com a norma recomendada para o português escrito culto. Nas frases apresentadas a seguir, constata-se também a correção quanto à concordância. Exceto em: a) Ainda falta corrigir as provas e divulgar os resultados para os alunos; b) Com a contenção de despesas determinada pelo governo, ainda não se liberaram as verbas para a educação; c) Em muitos pontos a política educacional brasileira imita os Estados Unidos da América, que também convive com inúmeros problemas educacionais; d) Mais de um ministro da área já tentou obter mais recursos para a educação; e) 15% da população brasileira é de jovens em idade escolar, entre 7 e 14 anos. 9. (Officium/TJ/RS) Em “Alguém tira uma conclusão errada do que vê ou escuta, confunde um gesto ou uma frase e faz brotar uma inverdade que pode envenenar a reputação de inocentes”. Substituindo-se a palavra “Alguém” por “As pessoas”, quantas outras palavras do período deveriam sofrer ajuste obrigatório para fins de concordância? a) Duas; b) Três; c) Quatro; d) Cinco; e) Seis. 10. (FEC/TRF/2ª Região) Das frases a seguir a que está incorreta do ponto de vista da concordância é: a) As colonizações por si sós já definem certos tipos humanos que implementam a vida no novo mundo; b) O tipo trabalhador considera inevitável no longo processo de colonização os laços com a terra conquistada; c) Distúrbios e alterações de personalidade são comuns nos tipos trabalhador e aventureiro; d) Um e outro tipo podem deixar marcas profundas de sua personalidade nos locais por onde passam; e) Decerto que o aventureiro é dos que mais se esforça por fazer da vida uma eterna busca de novos prazeres. 11. (FCC/TRT/20ª Região) A concordância está feita corretamente em: a) Os trabalhadores que perdem o emprego pode ser admitido em novos postos, dependendo do nível de escolaridade; b) O número de postos de trabalho geralmente aumentam quando as empresas elevam a produtividade; c) Os poucos anos de escolaridade do trabalhador são insuficientes para um bom uso das inovações tecnológicas; d) Existe vários efeitos que é resultante da aplicação da tecnologia, capazes de gerar novos empregos; e) A recuperação de novos postos de trabalho nas empresas são possíveis para candidatos com formação adequada a eles. Gabarito no final do livro. Capítulo 9 O Nome na Redação A clareza está na simplicidade. É expressar-se da melhor forma possível, de modo a deixar-se compreender pelo leitor, sem perturbar a interpretação que o autor pretende para o texto. Célia Passoni – professora de Redação do curso Etapa – São Paulo 9.1. USO DO NOME Em uma redação, o nome é tão importante quanto o verbo. Está intimamente ligado a este e designa genericamente o substantivo, o adjetivo e o advérbio. O substantivo representa, na frase, o sujeito, os objetos direto e indireto, o complemento nominal, o aposto e o predicativo. O adjetivo representa o adjunto adnominal, e o advérbio é o adjunto adverbial. 9.1.1. Particularidades do substantivo Ao redigir, lembre-se de que há substantivos que sofrem modificações gráficas, prosódicas ou de significação. Assim, alguns são usados somente no singular, outros apenas no plural, há os que alteram o significado quando mudam o gênero, os que vieram do latim sem alteração gráfica e aqueles estrangeiros adaptados à nossa língua. 9.1.1.1. Substantivos usados apenas no singular a) Os que, em lugar de designarem indivíduos, designam massa: o ferro, o níquel, a prata, o fósforo, o oxigênio etc. Tais palavras são usadas no plural quando empregadas em conotação (sentido figurado) ou quando designam partes, divisões, espécies de massa. É muito pobre, não tem níqueis nem pratas (moedas). E agora? Acabaram-se todos os fósforos (palitosde fósforo). Ao chegar ao porto, o navio lançou ferros (âncoras). b) Os que designam produtos vegetais e animais: o vinho, o café, a manga, a laranja, a tinta, o leite etc. Quando se trata de suas qualidades ou espécies e não do todo da substância do produto, ou quando esses substantivos são empregados em conotação, admite-se o plural: Os vinhos chilenos são de primeira qualidade. Há cafés em várias esquinas do Rio (lugares que vendem café). Os capixabas produzem cafés finos (tipos de café). Veja a diferença entre chupei manga, derramei tinta e chupei mangas e derramei tintas. No primeiro caso, indicamos o gênero (a fruta, a tinta) e no segundo a espécie (mangas de vários tipos, tintas várias). c) Os que expressam noções abstratas, virtudes e vícios: a leviandade, a confiança, a liberdade, a graça etc. Se essas palavras passam a indicar a prática, os atos de vício ou da virtude, são usadas no plural e, às vezes, assumem sentido pejorativo, como nestes exemplos: caridade (amor, benefício, bondade) caridades (atos de caridade) confiança (amizade, intimidade) confianças (liberdades) fraqueza (fragilidade) fraquezas (misérias, baixezas) franqueza (sinceridade) franquezas (atrevimento) graça (favor, dádiva, mercê) graças (pilhérias de mau gosto) liberdade (independência) liberdades (atrevimento) Palavras há que, sem designar virtudes nem vícios, assumem outra significação quando usadas no plural: o bem (o que é bom) os bens (as propriedades) a honra (a estima) as honras (cargos, dignidades) o zelo (o esmero) os zelos (os ciúmes) d) Os que designam artes, ciências, sistemas religiosos, filosóficos ou políticos: a filosofia, a gramática, a democracia, a economia etc. Em sentido conotativo, podem ir para o plural: Hoje, na livraria adquiri várias gramáticas e direitos. Esses plurais têm o sentido de livros de vários autores, sobre Gramática e Direito. e) Se em sua redação você substantivar uma palavra pertencente a qualquer outra classe, flexione normalmente: Quanto ao meio ambiente, são esses os prós e os contras. Os quatros ou cincos que estavam marcados, sorriam. Após as perguntas, ouviam-se sins e nãos ao mesmo tempo. Os numerais dois, três, seis e dez, quando substantivados, não admitem flexão de plural. 9.1.1.2. Substantivos usados no plural Há um grupo de substantivos que são usados apenas no plural (pluralia tantum): os afazeres, os alforjes, as algemas, os Alpes, as alvíssaras, os anais, os Andes, as Antilhas, os Apalaches, os Apeninos, os apetrechos, os arredores, as Astúrias, os avós (antepassados), os Bálcãs, os bastidores, as belas-artes, as bodas, os bofes, as calendas, as Canárias, as cãs, as ceroulas, as cócegas, as condolências, os confins, as costas, as custas, as efemérides, as entranhas, os escombros, os esponsais, os Estados Unidos, as exéquias, os fastos (anais), as fauces, as férias, as Filipinas, as finanças, as fezes, as hemorróidas, os idos, as letras (belas- letras), as luvas, as matinas (hora canônica), as nonas (hora canônica), as núpcias, os óculos, as olheiras, os pampas, as pantalonas, os parabéns, os pêsames, os picles, os Pirineus, os pósteros, as primícias, os quefazeres, as reticências, as suíças (costeletas), os suspensórios, as têmporas, as vísceras, os víveres, os xortes. 9.1.1.3. Plural dos nomes próprios Em regra, os nomes próprios não deveriam flexionar-se; no entanto, aplicados como simples nomes comuns para designar pessoas da mesma família ou homens de qualidades semelhantes, perdem o caráter de nomes próprios e flexionam-se no plural: Os Barbosas, os Platões, os Andradas, os Oliveiras, os Prados. Quando aplicados como nomes comuns e houver a preposição de, passam a ser considerados substantivos compostos e só o primeiro vai para o plural: Os Andradas de Oliveira, os Vieiras da Rocha. Sem a preposição de, são considerados uma só palavra e só o segundo elemento vai para o plural: Os Andrada Oliveiras, os Almeida Prados, os Vieira Rochas. 9.1.1.4. Plural de palavras estrangeiras As palavras estrangeiras já aportuguesadas seguem as regras de formação do plural das palavras portuguesas: os abajures, os bifes, os cicerones, os diletantes, os líderes, os iates. Dos estrangeirismos graficamente inadaptáveis ao português, alguns vão para o plural com o simples acréscimo de s, e outros seguem as leis da língua a que pertencem: o deficit, os déficits; o habitat, os habitats; o meeting, os meetings. o lied, os lieder; a blitz, as blitzen; o kibutz, os kibutzin; a lady, as ladies. 9.1.2. Concordância nominal a) Os determinantes (artigos, adjetivos, pronomes, numerais) concordam em gênero e número com o substantivo a que se referem: b) O predicativo concorda com o sujeito ou com o objeto: 9.1.2.1. Uso do adjetivo Ao redigir, fique atento para certos aspectos do adjetivo, principalmente quanto ao sentido dado aos substantivos. a) Posição do adjetivo. A colocação do adjetivo antes ou depois de um substantivo pode provocar mudança de sentido: uma grande mulher = uma mulher que se destaca. uma mulher grande = uma mulher forte, gorda. um alto funcionário = um funcionário que exerce cargo elevado. um funcionário alto = um funcionário de estatura elevada. b) Substantivação do adjetivo. Alguns adjetivos são empregados como substantivos, prescindindo do substantivo que o pode acompanhar, quando tomado em sentido geral e indeterminado. Nesse caso, fica no masculino: O engraçado da tua história é que ninguém a entendeu. O alegre da notícia é que ninguém se acidentou. O bom de tudo isso passou despercebido a vocês. c) Adjetivos uniformes. Apresentam uma só forma para acompanhar substantivos masculinos e femininos. Geralmente terminam em -a, -e, -l, -m, -r, -s, -z: conto lusíad a – história lusíad a; moça inteligent e – rapaz inteligent e; cavalheiro genti l – dama genti l; sapato ruim escova rui m; trabalho simple s – cantiga simple s; homem auda z – mulher audaz. Não são uniformes os seguintes adjetivos terminados em z, m e l: andaluz andaluza; bom boa; chim china; espanhol espanhola. d) Adjetivos biformes: • com flexão de gênero, seguem as mesmas regras dos substantivos: • os que terminam em -o trocam o -o em -a: afoito(a), aplicado(a); estudioso(a); sincero(a); bondoso(a). • os terminados em -ês, -or e -u acrescentam no feminino um -a: francês / frances a; conservador / conservador a; nu / nu a. Embora terminem em -ês, -or e -u – cortês, descortês, montês, pedrês, incolor, multicor, sensabor, maior, menor, pior, melhor e hindu – são uniformes; o adjetivo mau, embora termine em -u, faz o feminino má. homem cortês, mulher cortês; cabra montês, cabrito montês; desenho multicor, folhagem multicor; bolo sensabor, comida sensabor; raio menor, risca menor; marajá hindu, rani hindu; sonho mau, escrita má. • os terminados em -eu fazem o feminino em -eia: ateu / ateia; europeu europeia; hebreu hebreia. Não esqueça: judeu judia; sandeu sandia; tabaréu tabaroa; réu ré e) Locuções Adjetivas: Cuidado no uso de locuções adjetivas, isto é, aquelas expressões formadas de preposição seguida de substantivo com valor de um adjetivo, como: Ontem foi um dia de chuva (= chuvoso); Regina tem rosto de anjo (= angelical); Agora temos uma nova seleção do Brasil (= brasileira); Ruy é um homem de coragem (= corajoso); A gramática está sem capa (= desencapada). Lembre-se de que para a maioria das locuções adjetivas há um adjetivo equivalente, quase sempre na forma erudita e que você poderá usar: O agricultor utilizou veneno de rato = veneno murino. Para consulta e pesquisa observe esta série de locuções adjetivas seguidas de seus correspondentes adjetivos eruditos: do abdômen = abdominal;de abelha = apícola; de abóbora = cucurbitáceo; de absolvição = absolutória; de açúcar = sacarino; de abutre = vulturino; de acampamento militar = castrense; semelhante a agulha = acicular; de águia = aquilino; da alma = anímico; de aluno = discente; semelhante a ameixa = pruniforme; de amor = erótico; das amídalas = tonsilar; de andorinha = hirundino; de anel = anular; de anjo = angelical; de aranha= aracnídeo; de asno = asinino; de astro = sideral; de audição = ótico; de ave de rapina = acipitrino; do baço = esplênico; do baixo ventre = alvino; da bexiga = vesical; de bílis = biliar; de bispo = episcopal; da boca = bucal ou oral; de bode = hircino; de boi = bovino; de borboleta = papilionácea; do braço = braquial; de brejo = palustre; de bronze = brônzeo ou êneo; da cabeça = cefálico ou capital; de cabelo = capilar; de cabra = caprino; de caça = venatório; de caça com cães = cinegético; semelhante a cacho = racemiforme; do campo = rural ou agreste; de cana = arundináceo; de cão = canino; semelhante a capuz = cuculiforme; de carneiro = arietino; de cavalo = equino, equestre, cavalar ou hípico; de cegonha = ciconídeo; do céu = celeste; da cor do céu = cerúleo; em chamas = flamejante; de chumbo = plúmbeo; da chuva = pluvial ou chuvoso; da cidade = citadino ou urbano; de cinza = cinéreo; de cobra = colubrino ou ofídico; de cobre = cúprico; de coelho = cunicular; de cogumelo = fungiforme; de coração = cardíaco ou cordial; de coruja = estrigídeo; fundado nos costumes = consuetudinário; do crânio = craniano; de criança = pueril ou infantil; de dança = coreográfico; do dedo = digital; de diamante = adamantino; de dinheiro = pecuniário; do Direito = jurídico; do eixo = axial; de embriaguez = ébrio; de enxofre = sulfúrico ou sulfuroso; de erva = herbáceo; de muitos espinhos = poliacanta; de esposa = uxoriana; de esposo = esponsal; de esquilo = ciurídeo; do estômago = estomacal ou gástrico; de estrela = estelar; de fábrica = fabril; da face = facial ou genal; sem fé = incrédulo ou descrente; de fantasma = espectral ou lemural; de farelo = furfúreo; de farinha = farináceo; de feijão = faseolar; do fêmur = femoral; de ferro = férreo; de fezes = fecal; do fígado = hepático; de fogo = ígneo; de gado = pecuário; de gafanhoto = acrídeo; de gaivota = larídeo; de galinha = galináceo; de galo = alectório; de ganso = anserino; da garganta = gutural ou jugular; de gato = felino ou felídeo; de gelo = glacial; de gesso = gípseo; de guerra = bélico; do homem = humano ou viril; da idade = etário; de ilha = insular; do inverno = hibernal; do intestino = celíaco ou intestinal; de irmão = fraternal ou fraterno; do joelho = genicular; do lago = lacustre; de leão = leonino; de lebre = leporino; de leite = lácteo; de lesma = limacídea; de lobo = lupino; de macaco = simiesco; de macho = másculo; de madeira = lígneo; de mãe = materno ou maternal; de madrasta = novercal; da manhã = matutino ou matinal; de marfim = ebúrneo; de memória = mnemônico; de mestre = magistral; da moeda = numismático ou monetário; de monge = monacal; de morte = letal ou mortal; das nádegas = glúteo; do nariz = nasal; de neve = níveo; da noite = noturno; do norte = setentrional ou boreal; do olho = óptico ou ocular; da orelha = auricular; do osso = ósseo; de ouro = áureo; do ouvido = auditivo; de ovelha = ovino; de pai = paterno ou paternal; de paixão = passional; de pedra = pétreo; de peixe = písceo; da pele = epidérmico ou cutâneo; do pescoço = cervical; de pombo = columbino; de porco = suíno; de prata = argênteo ou argentino; de professor = docente; de prosa = prosaico; do pulmão = pulmonar; do pulso = cárpico; de pus = purulento; de queijo = caseoso; de raio ou de relâmpago = fulgural; de raposa = vulpino; de rato = murino; de rim = renal; de rio = fluvial; de rocha = rupestre; de sabão = saponáceo; de selo = filatélico; da selva = silvestre; do solo = telúrico; de som = fonético; de sonho = onírico; do sul = meridional ou austral; da tarde = vespertino; da terra = terrestre, telúrico ou terreno; de terremoto = sísmico; de tio ou tia = avuncular;. de touro = taurino; de trigo = tritíceo ou tritícola; de umbigo = umbilical; da unha = ungueal; de vaca = vacum; de vaso sanguíneo = vascular; de veado = cervino ou elafiano; da veia = venoso; de vespa = vespídeo; de víbora = viperino; de vidro = vítreo; de vinagre = acético; de visão = óptico; da virilha = inguinal; de vontade = volitivo; da voz = fônico ou vocal. Atenção: Muitas vezes não se encontra um adjetivo da mesma família de palavras e de significação idêntica à de uma locução adjetiva, como nos exemplos: camponês sem terra; companheiro de turma. f) Plural dos Adjetivos Simples e Compostos: Seguem as mesmas regras do plural dos substantivos, mas os substantivos usados como adjetivos ficam invariáveis. Veja: Aquela é uma empresa laranja. / Aquelas são empresas laranja; Hoje fui a um comício monstro. / Não mais teremos comícios monstro. A casa navio fica em Boa Viagem. / As casas navio ficam em Boa Viagem. Lia usa saia cinza e blusa abacate. / Lia usa saias cinza e blusas abacate. Com os adjetivos compostos, só o último elemento flexiona-se em gênero e número: salas médico-cirúrgicas; causas socioeconômicas; sociedades cardiovasculares; grupos infanto-juvenis; cartas luso-brasileiras. CUIDADO! • Cores indicadas com o auxílio de substantivos ficam invariáveis: sapatos cinza; blusas abacate; olhos verde-safira; camisas azul-turquesa. • São invariáveis os seguintes adjetivos: furta-cor, azul-marinho, azul-celeste, ultravioleta e locuções adjetivas formadas pela expressão cor + de: blusas cor de rosa; saias cor de açafrão. • Variam nos dois elementos os adjetivos surdo-mudo e claro-escuro que fazem: surdo-mudo/surda-muda, surdos-mudos/surdas-mudas e claros/escuros. • Os adjetivos pátrios podem fazer referência a mais de uma nacionalidade ou região, assumindo uma forma composta. Nesse caso, os primeiros elementos são reduzidos numa forma erudita, enquanto o último aparece em sua forma normal: O Itamaraty divulgou uma parceria entre o Japão e o Brasil = uma parceria nipo-brasileira. Fez-se um acordo entre China, Bélgica e França = acordo sino-belgo-francês. Para consulta e pesquisa, veja esta relação de formas reduzidas e eruditas de adjetivos pátrios de alguns países e regiões. 9.1.2.2. Concordância do adjetivo É necessário, ao corrigir a sua redação, antes de passar a limpo, ficar atento para a concordância do adjetivo. Verifique as regras de concordância nominal: I. Um adjetivo e mais de um substantivo a) Adjetivo anteposto. A concordância será feita de acordo com a função sintática do adjetivo. 1. Sendo adjunto adnominal, concorda com o mais próximo (concordância atrativa): 2. Sendo predicativo vai, de preferência, para o plural, no gênero predominante. ou concorda com o mais próximo: b) Adjetivo posposto. A concordância depende do gênero e do número dos substantivos. 1. Se os substantivos forem do mesmo gênero no singular ou plural, o adjetivo concorda com o mais próximo ou pode ir para o plural: A coordenadora estava com uma blusa e uma bolsa clara. A coordenadora estava com uma blusa e uma bolsa claras. A coordenadora mostrou dois livros e um dicionário grossos. A coordenadora mostrou dois livros e um dicionário grosso. 2. Se os substantivos forem de gêneros diferentes no singular ou plural, o adjetivo pode concordar com o mais próximo ou ir para o masculino plural: A coordenadora estava com um casaco e uma blusa clara. A coordenadora estava com um casaco e uma blusa claros. A coordenadora mostrou dois dicionários e duas enciclopédias grossas. A coordenadora mostrou dois dicionários e duas enciclopédias grossos. II. Um substantivo e maisde um adjetivo 1. Dois ou mais adjetivos aplicados a um substantivo ficam no singular: 2. Dois ou mais adjetivos não aplicados simultaneamente, como na frase: A bandeira é alemã ou francesa? Vê-se que os adjetivos referem-se a bandeiras diferentes. Neste caso, o substantivo irá para o plural e os adjetivos ficam no singular: Igualmente o substantivo pode ficar no singular, usando-se artigos a partir do segundo adjetivo: Hastearam a bandeira alemã e a francesa. 9.1.2.3. Outros casos de concordância nominal 1. Agradecido, obrigado, grato, extra, e quite Concordam com o nome a que se referem: Estou quite com o IR e eles também estão quites. A empresa paga hora extra a todos os funcionários. Os jornais publicaram edições extras. A jovem ficou grata quando ele disse obrigado. As candidatas estavam agradecidas por terem passado. 2. Anexo, incluso, apenso e separado Concordam com o nome a que se referem: Seguem anexos os documentos. A fotografia estava inclusa na reportagem. Enviou apensos os autos do inquérito. Seguem, separadas, as cópias do documento. Observação: A expressão em anexo em frases como “segue em anexo o relatório”, é rejeitada pela maioria dos gramáticos e deve ser evitada. 3. Bastante, barato, longe Concordam com o nome a que se referem: Havia bastantes razões para ele zangar-se. Comprei camisas baratas naquela feira. Andou longes terras antes de chegar aqui. Ficam invariáveis quando se referem a verbos, adjetivos ou advérbios: Aquelas secretárias falam bastante. As três garotas são bastante simpáticas. Chegaram bastante cedo para a feijoada. Comprei barato as camisas. Os carros estavam longe do parque. 4. Cassete, esporte, recorde, monstro Usadas como adjetivo, ficam no singular: Não se usam mais fitas cassete. Tinha uma bela coleção de carros esporte. Esse livro alcançou tiragens recorde. A UNE costumava fazer passeatas monstro. 5. É bom, é necessário, é proibido, é talhado, é vedado, é gostoso Expressões desse tipo ficam invariáveis quando o substantivo a que se referem não estiver determinado por substantivo ou pronome: Cerveja é bom para os rins. Entrada é proibido a estranhos. Mulher é talhado para companheira. Água mineral é gostoso de tomar. Vida livre é necessário à saúde. Bebida alcoólica é vedado a menores. Com determinantes, a concordância é obrigatória. Aquela cerveja é boa para os rins. A entrada é proibida a estranhos. Esta mulher é talhada para companheira. A água mineral é gostosa de tomar. Uma vida livre é necessária à saúde. Toda bebida alcoólica é vedada a menores. 6. Meio Indicando fração, isto é, metade, concorda com o substantivo a que se refere. Não sou homem de meias palavras. A mim basta meia porção. Fica invariável quando se refere a adjetivos e tem o sentido de quase: As jovens ficaram meio tristes com o fato (quase tristes). 7. Menos, alerta, pseudo, salvo, obstante São palavras invariáveis. Jovens fazem passeata e os policiais estão alerta. Salvo os carecas, todos usam gel. Ela é uma pseudomédica e ele um pseudoguia. É necessário menos “maracutaia”. Iremos, não obstante as ordens em contrário. 8. Mesmo e Próprio Concordam com o nome a que se referem. As candidatas procuram os mesmos direitos e as mesmas obrigações. A própria coordenadora supervisionou a sala. Mesmo fica invariável quando se refere a verbos ou denota inclusão. Os garis exigiram mesmo seus direitos. Mesmo as domésticas têm seus direitos. 9. Possível Concorda com o nome a que se refere. Fez todas as tentativas possíveis para um acordo. Com as expressões superlativas o mais, o menos, o melhor, o pior, fica no singular: Quero um carro o mais barato possível. Vai para o plural com as expressões no plural: Eles têm os melhoresmétodos possíveis. A expressão (o) quanto possível fica invariável: Quero caldos tão quentes quanto possível. 10. Só Significando sozinho é adjetivo e concorda com o nome a que se refere. Significando somente é advérbio e fica invariável: Os meninos sós pensam só em aventuras. A locução a sós é invariável: Quero uma conversa a sós com você. As meninas a sós procuravam o que fazer. 11. Um e outro, um ou outro, nem um nem outro Com essas expressões o substantivo fica no singular e o adjetivo vai para o plural: 9.1.2.4. Concordância ideológica Ocorre quando se faz a concordância com a ideia, com o sentido contido na frase e não segundo as regras gramaticais. Recebe o nome de silepse e é de três tipos: a) Silepse de Gênero • Quando a concordância é feita com o gênero gramatical subentendido: Gostei da bonita Rio de Janeiro (concordando com a palavra cidade). • Com os artigos o e um com atributivos de nomes femininos que se referem a pessoas do sexo masculino: O besta do Joaquim caiu na esparrela. Firmino continua um banana. • Quando o pronome concorda não com o gênero da palavra expressa, mas com o sexo da pessoa a que a palavra se refere: Umas quatro crianças de oito e dez anos, participando no tráfico, o que é lástima vê-los. (concordando com a ideia de crianças do sexo masculino) b) Silepse de Número • Quando se faz a concordância com o número gramatical subentendido: A multidão dispersou e saíram a gritar (concordando com a ideia de pessoas, contida na palavra multidão). c) Silepse de Pessoa • Quando a concordância se faz com a pessoa gramatical subentendida: Os cariocas somos gentis (concordando com o pronome nós). 9.1.3. Regência nominal É a relação de subordinação entre o nome e seus complementos estabelecida por preposições. Tal qual no verbo, o termo que exige complemento é o regente, e o termo que funciona como complemento é o regido. O termo regido de preposição obrigatória que completa o sentido de um nome denomina-se complemento nominal. Para consulta e pesquisa seguem alguns nomes que exigem complemento nominal e cuja regência pode suscitar dúvidas: 9.1.3.1. Substantivos Alienado de – Alienado da vida, só pensa em si e no trabalho. Alusão a – Em seu discurso de despedida fez alusão a todos os amigos. Amante de – É um grande amante do trabalho e da família. Amizade a, por, com – Tem uma terna amizade à pela com a sogra. Amor a ou por – É digno de louvor o amor à /pela pátria. Analogia com, entre – Não há analogia com / entre os fatos. Aversão a, para, por – Sentia uma tremenda aversão a / por jogos. Capacidade de, para – Era elogiosa sua capacidade de / para estudar. Devoção a, para com, por – Sua devoção a por para com ela dizia tudo. Dúvida acerca de em sobre – Tinha dúvida acerca de em sobre pescaria. Estímulo para – Seu trabalho representa um estímulo para os amigos. Horror a – Suava frio, pois tinha horror a animais domésticos. Incitamento a – Seu discurso foi um incitamento à violência. Inclinação a, por, para – Mostrava inclinação a / por/ para esportes. Medo a, de – Não foi à excursão apenas por medo a / de precipícios. Necessidade de – Sua necessidade de encontrar o amor era patente. Obediência a – Ali pedia-se obediência a todas as ordens recebidas. Ojeriza a, por – Demonstrava grande ojeriza a / por legumes e carne vermelha. Respeito a, com, para com – Sempre teve respeito a com para com seus amigos. Vontade de – Sentia uma grande vontade de comer goiaba. 9.1.3.2. Adjetivos Acessível a – É uma pessoa acessível a todos. Acostumado a, com – Estou acostumado a / com essas coisas. Adequado a, com, para – O professor pediu um trabalho adequado à matéria. Adaptado a – Ela está adaptada a esse ritmo de trabalho. Afável a, com, para com – Mostra-se afável a com para com estranhos. Afeiçoado a, por – Sempre foi afeiçoado à / pela vizinha. Aflito com, por – Aflito com o caso / por não saber do caso, saiu às pressas. Agradável a – É uma garota agradável a todos. Alheio a – É um nefelibata. Vive alheio a tudo. Análogo a – Este trabalho é análogo a outro que vi ontem. Ansioso de, por, para – Ansioso de por para contaro caso, saiu correndo. Apaixonado de, por – Era apaixonado das / pelas mulheres. Apto a, para – Estava apto a / para fazer o balancete. Ávido de, por – Aquela era uma garota ávidade / por novidades. Benéfico a – É um remédio benéfico a crianças. Capaz de, para – Era capaz de tudo por ambição. Certo de – Estava certo de sua capacidade intelectual. Compatível com – Esta alimentação é compatível com sua dieta. Compreensível a – Era um texto compreensível a todos. Comum a, de – Tem-se aí um substantivo comum a / de dois. Constituído de, por – A turma é constituída de / por advogados. Contemporâneo a, de – Um modelo contemporâneo ao / do Romantismo. Contíguo a – Seu barraco era contíguo à mansão dos Sousa. Contrário a – Sempre fora contrário a piqueniques. Cuidadoso com – Marina, cuidadosa com tudo que é seu, serve de exemplo. Curioso a, de, por – É a coisa mais curiosa a / de / por ser vista. Desatento a – Sempre estava desatendo à explicação do professor. Descontente com – Descontente com o trabalho, pediu demissão. Desejoso de – Sempre fora um homem desejoso de poder. Desfavorável a – Foi o único desfavorável ao proposto. Diferente de – Trouxe um projeto diferente de todos os apresentados. Difícil de – Sua história foi difícil de entender. Digno de – Digno de honra é Jesus, o filho de Deus. Entendido em – Aquele professor é entendido em artes marciais. Equivalente a – A quantidade de suco é equivalente a um litro. Essencial para – O que ele sabe é essencial para o seu trabalho. Falho de, em – Falho de / em dinheiro, não foi com ela ao motel. Fanático por – Nunca vi menina tão fanática por cachorro-quente. Firme em – Firme em sua fé, acredita que logo será curada. Generoso com – Sempre generoso com os amigos, é querido de todos. Imbuído de, em – Vivia imbuído de / em pensamentos lúdicos. Incompatível com – O sonho é incompatível com a realidade. Necessário a – Água mineral é necessário à vida. Nocivo a – Aquele trabalho é nocivo à saúde. Passível de – Todo texto é passível de correções. Propenso a, para – Estou propenso a / para estudar novamente. Relacionado com – Seu projeto foi relacionado com o da outra turma. Rico de, em – Esse vocabulário é rico de / em verbetes médicos. Satisfeito com – Todos os candidatos ficaram satisfeitos com o resultado. Seguro de, em – Seguro de / em sua fama, vivia orgulhoso. Semelhante a – Semelhante a um bicho, devorava a comida catada no lixão. Sensível a – Sempre foi sensível a solicitações de crianças. Suspeito de – O vereador, suspeito de corrupção, foi preso. Trespassado de – O valente legionário Sebastião morreu trespassado de flechas Transido de – O garoto tiritava transido de frio. Útil a, para – Este instrumento é útil a / para nossa experiência. Vazio de – Este saco está vazio de todo. Versado em – Xavier é versado em letras clássicas. Visível a – O horizonte está visível a toda observação Vizinho a, de – Minha casa é vizinha à / da sua. Zangado com – Sempre estava zangado com o irmão 9.1.3.3. Advérbios Ao lado de – Era feliz ao lado da mulher amada. À direita de – Sentou-se à direita da irmã. Debaixo de – Os cachorrinhos ficaram debaixo da mesa. Em cima de – A garrafa de vinho ficou em cima da mesa. Em frente de – O carro estacionou em frente da casa. Longe de – Sentia imensa saudade longe de todos os parentes e amigos. Perto de – Ficou nervoso perto de tanta gente desconhecida. Relativamente a – Relativamente ao concurso, tudo foi publicado. Os advérbios terminados em –mente seguem a regência dos adjetivos de que se originam: análogo a = analogamente a compatível com = compativelmente com constante em = constantemente em contrário a = contrariamente a diferente de = diferentemente de essencial para = essencialmente para favorável a = favoravelmente a generoso com = generosamente com idêntico a = identicamente a impróprio para = impropriamente para independente de = independentemente de indiferente a = indiferentemente a paralelo a = paralelamente a posterior a = posteriormente a relacionado com = relacionadamente com relativo a = relativamente a 9.1.4. Exercícios Faça os exercícios a seguir e, enquanto aprende um pouco mais sobre a regência verbal, verifique a quantas anda o seu conhecimento sobre a língua portuguesa, essencial para quem escreve. 1. (FCC/TRT/17ª Região) Atentando para as normas de regência verbal ou nominal verifica-se que está correta somente a frase. a) Os argumentos de que ele utilizou na defesa de seu cliente mostraram total desconhecimento ao que seja uma boa estratégia. b) O ar de preocupação com que ele saiu indicava a gravidade da situação em que se metera e da qual não parecia saber sair. c) O romance que ele fez tanta propaganda não me entusiasmou tanto quanto aquele que ele dissera que não gostava. d) São frequentes as vezes que nos deparamos com problemas que não somos capazes de encontrar uma solução. e) A forma que ele respondeu a minha pergunta deu-me a certeza que ele estava mentindo. 2. (Cespe/Sesi/SP) As opções a seguir apresentam trechos que constituem um texto adaptado do jornal Zero Hora (RS) de 3/2/2008. Assinale a opção em que há erro de regência. a) Não são apenas os trabalhadores que ganham quando são contratados de acordo com a lei. b) Até mesmo o governo se beneficia, pois, quando o número de contribuintes se amplia, há diminuição no déficit da previdência e no do setor público de maneira geral. c) Quanto maior a quantidade para trabalhadores formais, melhor será a imagem do país, até agora muito associada a precariedade na área trabalhista. d) Ainda assim, os avanços na área trabalhista não dependem apenas de crescimento econômico. O país precisa também de menos regulação e de menos custos nas contratações. 3. (FDRH/Escrivão) Assinale a alternativa em que o significado do verbo apontado entre parênteses não corresponde à sua regência. a) Com sua postura séria, o diretor assistia todos os servidores da repartição (ajudar). b) No grande auditório os policiais assistiram à conferência do delegado (ver). c) Esta é uma medida que assiste aos delegados e investigadores (caber). d) Investigadores gaúchos assistem no Rio, durante seis meses (observar). e) Uma equipe desta delegacia vai assistir os meninos de rua (dar assistência). 4. (Esag/TRE/PR) Assinale a alternativa que apresenta ERRO de regência, segundo a norma culta padrão da língua. a) A tragédia na Ásia, que assisti pela televisão, implicou em numerosas mortes de turistas e nativos. b) Jamais poderemos nos esquecer do tsunami, o cataclismo que deslocou ilhas inteiras e engoliu outras, para sempre. c) Prefiro viajar pelo Brasil a aventurar-me por terras desconhecidas, sujeitas a intempéries. d) Moro em Curitiba, na rua Salomão Guellmann, longe de furacões e terremotos. e) A televisão informou o mundo inteiro sobre a passagem do tsunami. 5. (Sintec/Escrivão/PCSC) Assinale a alternativa que apresenta um desvio em relação à regência verbal. a) Simpatizei com toda a diretoria e com as novas orientações. b) Há alguns dos nossos diretores com os quais não simpatizamos. c) Somente o tesoureiro antipatizou com a nova diretoria. d) Eles ficaram a sós porque antipatizaram com o chefe. e) A firma toda não se simpatizou com a atitude deles. 6. (FAURGS/MPE/RS) Assinale a alternativa em que está incorreta a regência verbal. a) Vimos convidá-lo para a solenidade de posse. b) Pergunte se quer que o auxiliemos no estudo. c) Vamos proceder a um profundo estudo sobre o tema. d) Não o quero enganar, senhor, mas ele será condenado. e) Não aprovo assistir a cenas de violência na televisão. 7. (Ipad/Magistério) Indique a alternativa incorreta quanto à regência nominal. a) Acompanhada da diretora, a professora de inglês entrou para atuar na sexta série. b) Ela viu-se forçada a pedir mais tempo para