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1U.T.I.Unidade Técnica de ImersãoCCIÊNCIASHUMANAS H © Hexag Sistema de Ensino, 2018 Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2019 Todos os direitos reservados. Autores Eduardo Antônio Dimas Tiago Rozante Alexandre Rocha Jabur Maluf Alessandra de Fatima Alves Diretor geral Herlan Fellini Coordenador geral Raphael de Souza Motta Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica Hexag Sistema de Ensino Diretor editorial Pedro Tadeu Batista Editoração eletrônica Arthur Tahan Miguel Torres Bruno Alves Oliveira Cruz Claudio Guilherme da Silva Eder Carlos Bastos de Lima Fernando Cruz Botelho de Souza Matheus Franco da Silveira Raphael de Souza Motta Raphael Campos Silva Projeto gráfico e capa Raphael Campos Silva Foto da capa pixabay (http://pixabay.com) Impressão e acabamento Meta Solutions Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o ensino. 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Este material tem o objetivo de verificar se você aprendeu os conteúdos estudados nos livros 1 e 2, oferecendo-lhe uma seleção de questões dissertativas ideais para exercitar suas memória e escrita, já que é fundamental estar sempre pronto a realizar as provas de 2ª fase dos vestibulares. Além disso, este material também traz sínteses do que você observou em sala de aula, ajudando-lhe ainda mais a compreender os itens que, eventualmente, não tenham ficado claros e a relembrar os pontos que foram esquecidos. Aproveite para aprimorar seus conhecimentos. Bons estudos! Herlan Fellini C HISTÓRIA H História Geral0 1 U.T.I. SUMÁRIO UTI - CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS HISTÓRIA História Geral 5 História do Brasil 29 ENTRE PENSAMENTOS E ENTRE SOCIEDADES GEOGRAFIA Filosofia 43 Sociologia 69 Geografia 1 87 Geografia 2 117 C HISTÓRIA H História Geral0 1 U.T.I. 7 AntiguidAdes OrientAl e ClássiCA MesOpOtâMiA Crescente fértil e Mesopotâmia Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Crescente_F%C3%A9rtil>. Acesso em: 22 dez. 2015. A palavra mesopotâmia é um termo grego e significa “terra entre rios”. Essa região localiza-se entre os rios Tigre e Eufrates, no Oriente Médio, onde atualmente é o Iraque. Muitos povos antigos habitaram essa região entre 4000 e 500 a.C., aproximadamente. Destacam-se nesse longo período: babilônios, assírios, sumérios, caldeus, amoritas e acádios. Eles eram povos politeístas, pois acreditavam em vários deuses e que cada um tinha suas funções específi- cas na natureza. Sua administração política era centralizada, na forma do governo absoluto de uma pessoa (imperador ou rei), que era também sumo sacerdote e comandante em chefe das forças militares. A economia mesopotâmica estava centrada na agricultura e no comércio nômade de caravanas. Todos os povos da antiguidade, em geral, buscavam regiões férteis, próximas a rios, para se fixarem e se desenvolverem. Nesse sentido, a região da Mesopotâmia garantia a sua população água para consumo humano e para as criações de animais, pesca e via de transporte. No entanto, o maior benefício dos rios Tigre e Eufrates aos povos mesopotâmicos foi o seu regime regular anual de cheias e vazantes, que garantiam abundante, variada e fértil agricultura. 8 suMériOs Eles criaram e realizaram um complexo sistema de controle da água dos rios. Construíram canais de irriga- ção, barragens e diques. Uma contribuição marcante dos sumérios foi a criação da escrita cuneiforme a partir de 4000 a.C.. Usavam placas de barro, onde cunhavam a escrita. Os sumérios se notabilizaram pela agricultura e construíram os zigurates (torres com formato de pirâmides que serviam como locais de armazenagem de produtos agrícolas e também como templos religiosos). Um dos zigurates mais famosos ficou conhecido como a Torre de Babel. Entre as cidades sumérias mais importantes estão Ur, Nipur, Lagash e Eridu. BABilôniOs 100 2000 Mari Echnuna Lagash Assur Nínive Ur Eridu Larsa Nipur Isin Kish Sipar Babilônia S usa E u f r a t e s T i g r e Malgium? Domínio da Mesopotâmia pelos sumérios e acádios (3500 - 2000 a.C.) Primeiro Império Babilônico em sua maior extensão no tempo de Hamurábi (1792 - 1750 a.C.) O Império Babilônico Adaprado de: <https://pt.wikipedia.org/ wiki/>. Acesso em: 25 dez. 2015. Os babilônios construíram suas cidades nas margens do rio Eufrates. Criaram e aplicaram um código de leis escritas que, até agora, temos conhecimento ser o primeiro de todos os povos. O imperador e legislador Hamurabi teria criado seu Código, por volta do século XVIII a.C. A essência de suas leis estava no chamado “conceito legal Talião”, ou “olho por olho, dente por dente”. Significa dizer que a pena aplicada ao infrator seria de igual intensidade ao delito cometido. No extremo, um as- sassino receberia pena capital. Esse código de leis escritas tinha por objetivo tornar claras, objetivas e permanentes as ordens imperiais que, assim, organizavam as relações entre a sociedade e o império, não só para os babilônios, mas especialmente para os povos estrangeiros das cidades vizinhas, que haviam sido recém-conquistadas e, agora, faziam parte do Estado babilônico. Essas leis também procuravam organizar a vida dos súditos entre eles, particularmente reforçando a rígida hierarquização social existente. Os babilônios também desenvolveram um calendário bem preciso, para principalmente conhecer mais sobre as cheias e vazantes do rio Eufrates e, assim, aproveitá-las economicamente melhor, desenvolvendo sua agricultura e a criação de animais. 9 AssíriOs O Império Assírio Mar Cáspio Golfo Pérsico Salamis Pafos Chipre Mar Vermelho Mar Negro Mar Egeu Mar Mediterrâneo Rodes Creta Esparta Corinto Atenas Tasos Bizâncio Astaco Calcedônia Cízico Abidos Mileto Trácios Macedônia Épiro Ilírios Peônios Celenas Faselis Biblos Sídon Tiro Damasco Jerusalém Sela Pelúsio Bubástis TânisSaís On Mênfis Heracleópolis Aquetaton Siut Abidos Tebas Jeb Ráfia Samaria Asquelom Amônio Cirene Arados Elteque Qarqar Tarso Tieu Sinope Trapezo Ancira Górdio Sardis Reino Lídio C i m é r i o sReino Frígio Judá C í t a sCólquida Hamate Tadmor Arpade Carquemis Samal Marqash Karum Til Barsip Guzana Harrã Nísibis Assur Nínive Arbela Calach Dur Charrukin Arrapaca Ecbátana Musasir Susa Ur Babilônia Sipar NipurBorsipa Erech Cuta Kish Anato Ópis Líbios Adumatu Reino de Urartu (antes de 712 .a.C.) Península do SinaiEgito (antes de 671 a.C.) Império Assírio - 824 a.C. Império Assírio - 671 a.C. Disponível em: <https: https://pt.wikipedia.org/wiki/Assíria>. Acesso em: 25 dez. 2015. Caracterizaram-se por uma estrita e poderosa cultura militar. A guerra era para os assírios uma fonte de aumento do poder político e de riqueza econômica. Eram extremamente cruéis e violentos com os povos que ven- ciam e conquistavam. Impunham aos vencidos castigos, crueldades e sofrimentos públicos, para assim manterem o respeito dos perdedores, por meio do terror, que, aliás, tornava-se logo conhecido por outros povos,que já os temiam antecipadamente, mesmo antes de confrontá-los. Por isso, tiveram de enfrentar muitas revoltas nas regiões e cidades por eles conquistadas. CAldeus Os caldeus, de origem semita, viveram na região chamada Baixa Mesopotâmia, no primeiro milênio antes de Cristo. Entre 612 e 539 a.C., eles formaram um império na Mesopotâmia. O auge do império caldeu ocorreu em 587 a.C., sob o governo de Nabucodonosor II, quando conquistaram o povo hebreu e tomaram a cidade de Jerusalém, submeten- do grande parte desse povo a um longo período de escravidão. Nabucodonosor II foi o responsável pela cons- trução dos famosos Jardins Suspensos da Babilônia (que fez para agradar a imperatriz) e a reconstrução e ampliação da Torre de Babel (um zigurate vertical de 90 metros de altura). Após sua morte, o império caldeu-babilônico foi conquistado pelos persas, em 539 a.C., sob o comando do rei Ciro, e os povos da região mesopotâmica nunca mais seriam verdadeiramente independentes, passando sempre a fazer parte como territórios conquistados de algum grande império da antiguidade. 10 Egito A civilização egípcia antiga existiu no nordeste afri- cano, em torno do rio Nilo, entre os anos de 3200 a 32 a.C.. Como a região é formada por um deserto (Sa- ara), o rio Nilo era de importância fundamental para a vida dos egípcios. Ele era utilizado como via de transporte de mer- cadorias e pessoas. Suas águas serviam para homens e animais beberem, preparar alimentos, pescar e, princi- palmente, fertilizar as suas margens, no seu movimen- to regular de cheias e vazantes, à semelhança dos rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, que proporcionavam uma produção agrícola fértil, abundante e variada, além de propiciar a criação de vários tipos de animais. A sociedade era dividida em vários grupos, sen- do que o faraó era o supremo líder, visto pela maioria como a encarnação da Divindade. Sua família mais próxima e os nobres de várias categorias se situavam logo abaixo de seu poder. Sacerdotes cuidavam da religião, ritos e cerimô- nias, que possuíam uma forte carga de simbolismo pe- rante todos os grupos sociais. Wadi El Natrun Pirâmides Mênfis Oásis de Bahariya Oásis de Dakhla Oásis de Kharga Wadi H ammam at Tebas Primeira Catarata Oásis de Dunqul Segunda Catarata Baixo Egito Deserto Arábico Deserto Líbio Alto Egito Quseir M ar M or to Grande Lago Amargo Golfo do Suez G ol fo d e Aq ab a Mar Mediterrâneo Mar Vermelho Delta do Nilo Lago Moe ris N E S W SESW NENW 0 100(km) 60 0(mi) R io N ilo Rio Ni lo Antigo Egito Adaptado de: <pt.wikipedia.org>. Acesso em: 3 dez. 2014. Os escribas eram responsáveis por toda a ativi- dade escrita do Império, desde simples contabilidade de negócios, passando pela administração econômica governamental, até a produção sagrada, expressando a busca de contato, relacionamento e suporte dos deuses. Por esse motivo, havia basicamente dois tipos de escrita – a escrita demótica (mais simplificada e usada para assuntos do cotidiano) e a hieroglífica (mais comple- xa e formada por desenhos e símbolos). Os militares representavam a força para a defesa do território e da vida do faraó, como também para o ata- que e conquista de novas terras e submissão à escravidão de povos estrangeiros. Havia, finalmente, os trabalhadores, que ocupavam várias funções e realizavam diversas atividades; os buro- cratas, que cuidavam da administração, contabilidade e execução das ordens governamentais; os comerciantes, comprando e vendendo produtos, dentro e fora do Egito. Os artesãos eram produtores de quase tudo, como móveis, materiais de construção e arquitetônicos, peças e máquinas hidráulicas, objetos de arte e decoração, rou- pas, calçados e todo tipo de adereços; também pratica- vam a construção civil de residências, locais de comércio, locais de diversão, túmulos, palácios, estátuas, praças e monumentos, pavimentação de ruas e construção de obras hidráulicas. Camponeses, pastores e criadores trabalhavam di- retamente na terra, no plantio, cultivo e colheita agrícola, pastoreio e criação de animais. Os escravos eram utilizados em todo tipo de traba- lho, até mesmo, por vezes, no trabalho intelectual, depen- dendo de suas qualificações, mas a maioria participava do trabalho braçal e manual em todo tipo de construções e extração de minerais preciosos nas minas. Esses escravos eram, em geral, estrangeiros cap- turados das guerras de conquista territorial empreendidas pelo Egito, mas também poderiam ser homens livres mais pobres, que, não tendo como pagar suas dívidas, torna- vam-se escravos de seus credores por tempo determinado. Esse poderoso e extenso Império era sustentado por impostos, cobrados com regularidade e que atin- giam boa parte de toda população, à exceção dos gru- pos mais privilegiados. Assim, a economia egípcia baseava-se na agri- cultura, criação de animais, comércio interno e exter- no, artesanato e construção civil, marcada por grandes obras de utilidade pública, hidráulicas, diques, represas e canais de irrigação, para o aproveitamento e irrigação 11 das águas do Nilo, ruas, estradas e portos para a circu- lação das pessoas e mercadorias e as constantes guer- ras e invasões, pilhando a riqueza de povos vizinhos e utilizando-os como mão de obra escrava. Como contribuição e herança para os tempos futuros, os egípcios se desenvolveram muito na área da medicina, química e biologia – por meio dos estudos e práticas de mumificação de cadáveres –, conhecimentos importantes na matemática e geometria, por meio das construções das grandes obras – pirâmides, palácios e templos – e de engenharia hidráulica, por meio do apro- veitamento funcional do rio Nilo e técnicas agrícolas. Hebreus DESERTO DA ARABIA EGITO Reino de Israel Reino de Judá Fenicios Tiro Jerusálem Arameus Gaza Jafa Filisteus Amalequitas Edomitas Moabitas Amonitas MAR MEDITERRÂNEO Territórios progressivamente ocupados pelas tribos de Israel ao fim do II milênio Territórios mantidos como tributários pelo rei Davi e perdidos depois por Salomão Os hebreus Adaptado de: <http://www.historianet.com.br/conteudo/ default.aspx?codigo=85>. Acesso em: 25 dez. 2015. Muito do que sabemos sobre o povo hebreu ad- vém dos textos do Antigo Testamento, a primeira parte da Bíblia. O Antigo Testamento contém a visão dos hebreus sobre a origem do mundo, da identidade do Deus Único (Iaweh) e das normas de conduta ética e moral para a vida dos indivíduos e a formação de uma sociedade mais justa aos olhos de Iaweh. Além disso, existem, nesses Li- vros, poemas, orações, profecias, interpelações e questio- namentos ao comportamento do povo em seu relaciona- mento entre si e com Deus, além de minunciosos relatos de conflitos internos, guerras e acontecimentos marcan- tes da história desse povo e descrições detalhadas de ri- tuais, cerimônias e manifestações religiosas, prescritas ao povo, para que sua fidelidade a Iaweh não fosse abalada. Segundo a tradição, Abraão, o patriarca fundador da nação hebraica, viveu na cidade de Ur – na Mesopo- tâmia – e recebeu do próprio Iaweh a revelação de Sua existência e seu desejo de ser adorado por aquele povo como Deus Único. Consequentemente a isso, Abraão deveria com sua família e tribo migrar da Mesopotâmia para Cannaã, que, depois, seria chamada Palestina – como uma Terra Prometida para aquele povo. É nessa região que se localiza atualmente o Estado de Israel. Após passarem um período vivendo em Canaã, os hebreus migraram novamente para o Egito, onde viveram entre 300 e 400 anos, e acabaram sendo transformados em escravos. A partir desse momento, os hebreus vão iniciar uma história de desenvolvimento da sua singularidade como povo, a partir de suas práticas religiosas monoteístas, diferenciando- -os assim de todos os povos vizinhos e, provavelmente, de todos os povos antigos. Além disso, em função da perda de liberdade e dispersão individual num país estrangeiro,o Egito, a percepção dessa unidade e singularidade vai aumentando. Surge o líder Moisés, judeu de origem e aciden- talmente criado e educado na corte do faraó, e que, como Abraão, recebe diretamente de seu contato e ins- piração com Iaweh a missão de retirar seu povo do Egi- to, pelo mar que hoje conhecemos por mar Vermelho, até a chamada Terra Prometida – que seria a Palestina. Após a morte de Moisés, os hebreus chegaram à Palestina e, sob a liderança de Josué – irmão de Moisés e seu natural sucessor – cruzam o rio Jordão e se esta- belecem na Palestina. O povo hebreu se dividiu em 12 tribos (“os doze filhos de Israel”), que viveram em clãs, subdivididos em famílias – compostas pelos patriarcas, seus filhos, mulheres e trabalhadores não livres. O poder e prestígio desses clãs encontravam-se diretamente ligados à figura pessoal de cada patriarca, mas as ligações entre esses clãs não eram assim tão só- lidas e permanentes. Devido a todas as dificuldades em se chegar e ocupar a Terra Prometida, surgiu a neces- sidade de poder e comando mais centralizados, ágeis e eficientes – particularmente no sentido de combater eventuais invasões e organizar as estruturas sociais e econômicas de uma forma regular e objetiva. Assim, os hebreus acabaram, por necessidade, es- colhendo para essa função de governo chefes militares de destaque e competência, que foram chamados de juízes. 12 Com a concentração do poder em suas mãos, os juízes procuraram organizar, estruturar e manter a união das doze tribos, pois ela possibilitaria a manutenção da ocupação da Palestina e a criação de uma vida social, econômica e cultural permanentes. Os principais líderes desse momento foram os juízes Sansão, Otoniel, Gideão e Samuel, e o poder de todos passava por várias situações e acontecimentos, de acordo com as crenças daquele povo – determina- dos diretamente por Iaweh, que escolhia e abençoava aqueles homens em sua difícil e complexa missão de manter aquele povo unido em um território onde todos pudessem viver com dignidade. A união das doze tribos era difícil de ser conseguida e mantida, pelas rivalidades internas e desejo de indepen- dência entre cada um dos patriarcas e suas famílias e clãs. Os juízes tinham um poder temporário e, mesmo com a unidade cultural (língua, costumes e, principalmente, religião), aquelas rivalidades e desejo de independência e autonomia permaneciam dominantes entre as tribos. A plena unidade política foi conseguida com a monarquia, quando sacerdotes e profetas de destaque por sua palavra, ou mesmo a realização de milagres, escolhiam iluminados por Iaweh os reis – governantes centrais de todo o povo hebreu. Sua economia era baseada na agricultura, pesca, criação de pequenos animais, pastoreio e comércio. A sociedade se dividia entre os laços de paren- tesco com os patriarcas, e os sacerdotes e profetas se destacavam como intérpretes da Vontade de Deus para aquele povo; essas interpretações estavam ligadas às leituras do Antigo Testamento, mas também à ilumina- ção pessoal de cada um deles. Como realizações arquitetônicas, destacam-se muitas muralhas e fortificações militares, a construção da capital Jerusalém – sede do Governo Hebreu e cen- tro religioso principal. Nessa cidade, o famoso e gran- dioso Templo de Jerusalém ou de Salomão, mandado construir pelo rei com o mesmo nome, por volta do sé- culo IX a.C., no intuito de ser um centro espiritual para o povo hebreu e que guardava a famosa Arca da Aliança, que continha, entre outros valiosos bens espirituais, as Tábuas dos Dez Mandamentos de Moisés. Na Literatura, sem dúvida alguma, o Antigo Tes- tamento, contido na Bíblia, e o Talmude foram o grande legado cultural dos hebreus, e que traduzem o seu sin- gular monoteístmo diante de sua época. gréCiA A Grécia antiga Disponível em:< https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Mapa_Grecia_Antigua.svg> Acessado em: 22 Dez.2015 A Grécia na antiguidade não formava um país com um governo centralizado, como ocorria no Egito, por exemplo. Era uma região localizada notadamente numa península a sudeste do continente europeu, hoje conhe- cida por península Balcânica, coberta por muitas ilhas entre o mar Egeu e o mar Jônico, cuja maior era a ilha de Creta e alcançava a costa litorânea ocidental do con- tinente asiático, chamada de Ásia Menor e que hoje faz parte da região por nós conhecida como Oriente Médio. Então, basicamente, a Grécia se encontrava divi- dida em três regiões: Grécia Continental Europeia, Gré- cia Insular e Grécia Asiática. 13 De uma forma geral, a topografia de toda essa região se caracterizava por ser montanhosa e com terrenos bastante irregulares, pedregosos e fragmentados – o que dificultava as práticas da agricultura e pecuária exten- sivas, com exceção de pequenas porções de terreno junto às muitas faixas litorâneas existentes em toda região, marcadamente marítima. Essa topografia dificultava também o estabelecimento e concentração de grandes contingentes popula- cionais em uma mesma área e a comunicação entre as diversas comunidades ali estabelecidas, favorecendo ao contrário sua autonomia, isolamento e independência. Apesar dessa dispersão geográfica, estes vários povos estavam unidos por uma cultura comum, com mes- mos costumes, mesmas crenças e uma mesma língua. Assim sendo, esses povos reconheciam-se como helenos, chamando de bárbaros os estrangeiros que não dividiam a mesma cultura, por considerá-los inferiores. A História da Grécia antiga divide-se em: Período Pré-homérico (2000 a 1100 a.C.) Esse é o período de formação da Grécia, chamada na língua daqueles povos de Hélade. Povos predominantemente de origem indo-europeia foram ocupando esses territórios e, particularmente, a ilha de Creta, tornou-se um centro político, econômico e cultural para toda a região, sofrendo muitas influências dos contatos comerciais com o Egito e a Mesopotâmia. Creta foi absorvendo elementos dessas duas culturas e fundindo-os com as diversas expressões culturais dos variados povos que viviam em toda Hélade. Período Homérico (1100 a 800 a.C.) Iniciou-se com uma invasão generalizada dos povos dórios, provavelmente vindos da Ásia Menor, mergu- lhando a região em um período de caos, produzido por guerras, conflitos civis e desorganização das estruturas sociopolíticas existentes. Nesse período, os helenos organizaram-se em comunidades fechadas, denominadas genos e que se carac- terizavam por serem sociedades de base tribal, clânica e familiar, onde todos os seus membros possuíam algum tipo de laço de parentesco entre si. A posse da terra era comunitária, predominando o trabalho agrícola, pastoril e artesanal e a extratificação social acontecia relacionada com a maior ou menor proximidade sanguínea com o pater, em geral uma das pessoas mais velhas da comunidade e com reconhecida sabedoria para aplicar as leis – todas baseadas nas tradições e costumes daquela comunidade. Com o intenso crescimento demográfico desses genos, as terras não eram suficientes para todos, então os mem- bros das famílias mais próximas do pater, denominados eupátridas, apropriaram-se das melhores terras e os membros mais afastados dessas famílias foram expulsos ou abandonavam o genos, forçados pelas necessidades de sobrevivência. 14 Em geral, esses indivíduos marginalizados e empobrecidos dos genos saíram da Grécia pelo mar e indo ao oeste pelo mar Mediterrâneo, ocupando as regiões mais meridionais do território europeu, atuais Itália, França e Espanha, e ocupando essas regiões, fundavam colônias gregas, que depois se tornariam parte da chamada “Magna Grécia” – um território colonial grego. Cidades como Sicília, Marselha e Barcelona se originaram desse processo de colonização. Essa população colonial se ocupava principalmente das atividades comerciais e negociavam produtos euro- peus e africanos, vindo comumente a tornarem-se ricos armadores, comerciantes e proprietários de terras. Alguns desses novos ricosretornavam a seus locais de origem e nascimento, agora ocupados por inúmeras póleis, os quais, em geral, eram discriminados política, social e culturalmente pelos eupátridas – que formavam, por sua vez, uma poderosa aristocracia, lutando por manter seus privilégios e estando à frente dos governos das cidades-Estado. Em meio a esses genos, os eupátridas iam formando territórios exclusivos para preservar seus privilégios e interesses políticos e econômicos, mantendo as camadas populares à margem dessa nova sociedade. Esses novos territórios eram as póleis ou pólis, no singular, – cidades-Estado com total autonomia política, sendo na prática pequenos países com centros urbanos que iriam se desenvolver gradativamente em meio a área rural dos antigos genos. Período Arcaico (800 a 500 a.C.) Esse período correspondeu à formação, crescimento e desenvolvimento das poléis. Foi uma época marcada por intensos e variados conflitos sociais. De um lado, lutavam entre si os eupátridas, membros das antigas aristocracias gentílicas, pelo controle das póleis, contra a nova classe de comerciantes enriquecidos, que exigiam uma posição social e política compatível com sua riqueza econômica. De outro lado, aquelas populações mais pobres, que continuaram vivendo em suas regiões, lutavam por melhores condições materiais de vida e também pela participação na administração da pólis. Muitos, de tão empo- brecidos e endividados, tornavam-se escravos, o que gerava ainda mais revolta contra os eupátridas. Desde esse momento, algumas póleis começaram a se destacar no mundo grego, fosse por sua posição geográfica privilegiada, principalmente com acesso estratégico às aguas marítimas que levavam para todos os continentes, fosse pelo seu poderio militar, ou mesmo, pelo seu tamanho e demografia, como Atenas, Esparta, Corinto, Tebas e Olímpia. Para resolver e pacificar os conflitos em Atenas, no século VII a.C., foram escolhidos legisladores, como Dracon e Sólon, que criaram e aplicaram, pela primeira vez, leis escritas, atenuando, diminuindo e reformulando as diferenças entre as várias classes e grupos sociais. Mas foi no século seguinte (VI a.C.), no governo de dois tiranos – Pisístrato e Clistenes –, que enfrentaram decisivamente e extinguiram os privilégios aristocráticos, as bases políticas, sociais e econômicas para um nova organização das póleis, que seria efetivamente criada. 15 Período Clássico (V a IV a.C.) Nesse período, a singularidade cultural grega se define perante si mesma e outros povos, pois os laços culturais entre a Grécia e suas colônias são estreitados, espalhando-se os valores da cultura grega por todo o ocidente europeu e norte da África, pelo mar Mediterrâneo e, assim, de uma forma bastante sólida, os gregos veem a si mesmos como o melhor da civilização humana e tratando os muitos povos estrangeiros com os quais mantêm contato, como bárbaros, incivilizados, incultos e inferiores aos gregos. Ao mesmo tempo que isso ocorre, em Atenas e em outras póleis, consolida-se como forma de governo e convivência cultural a democracia, tomando a própria pólis como a base da cidadania, pois o demos/povo de cada cidade é visto individualmente e em seu todo como essencialmente iguais, ou seja, parte integrante de uma cultura superior a todos os outros povos, desfazendo-se, assim, aquelas diferenças internas que marcaram os períodos aristocráticos anteriores. É nessa época também que se definem na Grécia a influência de duas cidades-Estado sobre todas as outras: Atenas e Esparta. Atenas se organiza politicamente em torno da democracia, valoriza a educação e a cultura de seus cidadãos, o embelezamento arquitetônico da cidade, desenvolve o pensamento fiosófico e científico especulativo e torna-se uma potência colonial marítima rica, influente e poderosa dentro e fora da Grécia. Esparta se caracteriza pelo domínio de uma elite militar que conforma todos os seus cidadãos aos padrões mili- tares da existência – rígida hierarquia, frugalidade, simplicidade material, rigidez no trato social e ausência de quaisquer atividade culturais ou educacionais que não sejam estritamente parte da formação militar dos indivíduos. Essa cidade torna-se, de fato, uma verdadeira potência militar terrestre com um poderoso e disciplinado exército que se impõe na região do Peloponeso como uma potência grega. Funcionamento da democracia ateniense A democracia ateniense era uma democracia direta porque todos os cidadãos participavam diretamente na aprovação das leis e nos órgãos políticos da pólis, sem o recurso a representantes. 16 Esse período marca também três tentativas de in- vasão e ocupação do Império Persa sobre a Grécia durante quase um século, nas chamadas Guerras Médicas (os per- sas eram conhecidos pelos gregos como medos), que uniu durante o período toda a Grécia sob o comando naval de Atenas e terrestre de Esparta – mantendo a independência das cidades gregas e expulsando definitivamente os persas de seu território em 479 a.C., na batalha de Plateia. Essa vitória tornou os gregos inigualáveis e superio- res aos outros povos, pois a diferença numérica de forças a favor dos persas era marcante, devendo os gregos sua vi- tória não a sua quantidade, mas a sua qualidade enquanto povo que lutava pela sua liberdade e independência. Com a destruição final do inimigo comum – a Pérsia –, Atenas e Esparta passaram a procurar exercer e disputar a hegemonia política, econômica e militar sobre toda a Grécia. Assim, foram criadas a Confederação de Delos, comandada por Atenas e com muitas outras cidades que dela faziam parte, e a Liga do Peloponeso, coman- dada por Esparta e também com um grande número de cidades que dela faziam parte. Essa disputa entre as duas pólis foi se tornando tão acirrada que desembocou em um conflito de gran- des proporções atingindo toda a Grécia, denominado Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.). No final do conflito, a Grécia se encontrava mate- rialmente arrasada, com grande diminuição de sua popula- ção masculina mais jovem e enfraquecendo-a militarmente. Período Helenístico Embora a vitória do conflito coubesse a Esparta, que conseguiu afinal se impor a toda a Grécia, ou àquilo que dela restava, esse domínio foi de curta duração, pois a própria Esparta estava profundamente enfraquecida. Após uma, igualmente breve, hegemonia da cidade de Tebas, a Grécia seria invadida pelo império dos bárbaros macedô- nios, comandados pelo rei Felipe II, vindos do norte da península e encerrando definitivamente o período de inde- pendência das póleis gregas, no ano de 336 a.C. Seu filho Alexandre Magno continuaria e estende- ria a obra do pai, criando um imenso império, que abran- geu todo o norte da África, a península Balcânica e o con- tinente asiático, desde a Ásia Menor até partes da Índia. Alexandre havia sido profundamente influencia- do pela cultura grega e em seu império ele vai levar a cultura, costumes e valores gregos a todas essas diver- sas regiões, que irão ter sua própria cultura regional se misturando a vários elementos da cultura grega – a esse processo de aculturação chamou-se helenismo. Com a morte de Alexandre Magno, em 323 a.C., seu império se fragmentou em três partes independen- tes – Macedônia (da qual a antiga Grécia fazia parte), Egito e Mesopotâmia. As diversas lutas entre essas re- giões foram-nas enfraquecendo, facilitando o domínio romano, ocorrido a partir de 146 a.C. rOMA A história de Roma se divide em três períodos principais: § Monarquia – da fundação da cidade de Roma, em 753 a.C., à implantação da República, em 509 a.C. § República – de sua implantação, em 509 a.C. a 27 a.C., quando Otávio, sobrinho de Júlio Cesar, se confere o título de “Augusto” – até então re- servado aos deuses – e acrescenta “César” como adjetivo imperial de poder. § Império – de 27 a.C., a partir do governo de César Augusto Otávio, até a destruição, saque e ocupaçãode Roma e a ocupação dos territórios ocidentais do império pelos povos germânicos, em 476 da era cristã. Roma é uma cidade que inicia sua expansão militar pela península Itálica, já a partir do século VI a.C. Essa península era ocupada, já há muitos sécu- los, por povos etruscos e latinos (dos quais faziam parte os habitantes de Roma), sabinos e samnitas, e os gregos com suas colônias ao sul. 17 A estrutura política e social da monarquia romana era semelhante àquela do início das póleis gregas: havia um rei – o pater –, o senado – uma numerosa assembleia composta por aristocratas proprietários de terras – e os patrícios. O restante da população, camponeses, artesãos e pequenos comerciantes e proprietários, era composta pelos plebeus, que mesmo sendo homens livres, não ti- nham direito à cidadania. Por fim, a camada mais baixa, que eram os escravos, comprados de outros povos, to- mados em invasões das terras vizinhas ou homens livres pobres, que eram escravizados para poderem pagar suas dívidas com os grandes senhores. Roma ocupava uma região denominada Lácio, que estava estrategicamente próxima ao mar Mediter- râneo e no entroncamento de várias rotas terrestres, que ligavam o norte ao centro e ao sul da península Itá- lica – um extenso vale cortado pelo rio Tibre e cercado por elevações e colinas. Todas essas condições geográficas permitiam uma melhor defesa da cidade, circulação de pessoas e mercadorias por toda a parte terrestre e marítima vi- zinhas, e suas terras eram extremamente favoráveis à agricultura, criação e pastoreio de animais. Isso fazia de Roma uma cidade rica, populosa e desenvolvida com relação a toda a região. Desejando mais autonomia, a classe aristocrática se coloca inicialmente contra o rei, e os plebeus, cada vez em maior número e muito enriquecidos pelos negócios, começam a exercer pressão no sentido de ser igualmente cidadãos e participarem da vida pública de Roma. Somando-se à expansão territorial, econômica e populacional, a monarquia se mostra cada vez mais inca- paz de sustentar-se e, afinal, é derrubada pelos patrícios, que instauram a República em Roma, com o senado con- trolando a elaboração, julgamento e aplicação das leis. Iniciam-se então lutas sociais declaradas entre pa- trícios e plebeus, por igualdade política e social e melhores oportunidades econômicas, gerando instabilidade em Roma, causando seu enfraquecimento diante de seus vizinhos. Afinal, o senado concorda em aplicar uma série de reformas que vão tornar os plebeus cidadãos plenos de Roma, com direitos semelhantes aos dos patrícios. Isso coincide com uma crescente expansão do território romano pela península, até no século III a.C., Roma tomá-la como um todo e iniciar seu domínio co- mercial no mar Mediterrâneo. Conquistas da plebe § Tribunos da Plebe: o tribuno da plebe não era considerado um magistrado, mas o re- presentante, dentro do governo aristocrá- tico, da classe menos favorecida. Eram es- colhidos entre os plebeus, e atuavam como líderes de sua classe, levando as reivindica- ções dos plebeus aos escalões superiores da hierarquia governamental romana. § Lei das Doze Tábuas: primeiro código es- crito de leis em Roma, evitando arbitrarie- dades dos poderosos. § Lei Canuleia: permissão de casamento en- tre patrícios e plebeus. § Lei Licínia: proibição da escravidão por dívidas. Esse domínio encontrará em Cartago, uma cida- de ao norte da África – fundada pelos antigos fenícios – uma grande concorrente, provocando entre as duas potências, Roma e Cartago, as chamadas Guerras Púni- cas (264-146 a.C.) – os romanos chamavam os cartagi- neses de “punos”, que significa fenícios. 18 Essas duras guerras, além de servirem de verda- deiro preparo, desenvolvimento e aperfeiçoamento das forças militares romanas, preparando-as para as futuras conquistas, foram vencidas por Roma, que além de li- teralmente arrasar a cidade rival – passou a dominar absolutamente todo o mar Mediterrâneo, o que aumen- tou vertiginosamente as riquezas, poder e influência de Roma, que logo inicia suas conquistas no norte da Áfri- ca e atravessando o Mediterrâneo em direção ao norte –, inicia suas conquistas ao sul daquele continente, que mais tarde vai ser conhecido por Europa. Com essa expansão, a vida urbana em Roma e em outras cidades, que vão sendo fundadas nos terri- tórios ocupados, vai se desenvolver, a riqueza vai au- mentar e os contatos culturais com povos diversos vão provocar intensas trocas de conhecimentos. Essa ampliação de mercados vai também criar um desenvolvimento do artesanato e da manufatura, mas também uma entrada em Roma de um grande número de escravos vindos das conquistas, o que vai depreciar a mão de obra principalmente rural, provocando um êxodo urbano, aumentando a população da cidade e de plebeus empobrecidos e politicamente descontentes. As lutas sociais nesse período serão intensas, desestruturando o poder do senado e enfraquecendo a República, que vai criar a instituição Tribunato da Plebe, um espaço representativo para, politicamente, os ple- beus encaminharem suas solicitações. Os irmãos Tibério e Caio Graco vão, respectiva- mente, ocupar esse cargo, tentando realmente pressio- nar o senado a produzir reformas eficazes para atender aos reclamos dos plebeus. Ambos serão mortos nesse confronto – com o senado, aumentando a insatisfação da plebe e fortale- cendo o exército cada vez mais necessário para garantir a ordem na cidade e em torno dela. Com isso, um de seus generais, Júlio Cesar, aca- ba assumindo uma certa liderança paralela entre seus homens e com a própria plebe sublevada. Utilizando seu carisma e posição, César tenta impor sua autoridade ao senado, quando é assassinado, provocando grande comoção na população e em seus aliados, que promovem então um conflito aberto com o senado e seus aliados aristocratas. O resultado final desse confronto é a instalação do Império na figura de Otávio, sobrinho de César, que toma o nome de seu tio como título (que a partir de en- tão será utilizado por todos os imperadores), acrescen- tando Augusto – semelhante a divino, tornando a figura do imperador verdadeiramente sagrada e centralizadora – passando este a comandar os ritos religiosos oficiais, chefiar o exército, o poder executivo e influenciar o judi- ciário e o legislativo. A expansão do poder de Roma alcançou então com o Império toda a Ásia Menor, o norte da África e centro-sul ocidental do continente europeu. Com essa expansão, aliada ao surgimento do cristianismo e algumas seitas orientais que não aceita- vam a divindade do imperador, às revoltas dos escravos e ao aumento de impostos, cria-se uma crise no império enfraquecendo sua economia, a autoridade política do imperador e do senado e as forças militares. Assim, os povos germânicos ao norte do conti- nente europeu acabaram pressionando as fronteiras, in- vadindo e se fixando nas províncias ocidentais, chegan- do a saquear, destruir e ocupar Roma no ano de 476, colocando um fim na parte ocidental do Império, que se preservou no Oriente com o nome da cidade em que Constantinopla, agora capital, foi construída: a antiga Bizâncio daria o nome ao antigo império romano orien- tal, a partir do século V, denominado Império Bizantino. 19 iMpériO BizAntinO e CivilizAçãO MuçulMAnA iMpériO BizAntinO O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano na Idade Média. Sua capital foi Constantino- pla (moderna Istambul), originalmente conhecida como Bizâncio. Inicialmente, parte oriental do Império Romano (frequentemente chamada de Império Romano do Oriente) sobreviveu à fragmentação e às invasões do Império Romano do Ocidente e, no século V, continuou a prosperar, existindo por mais de mil anos até seu fim, diante da expansão dos turcos otomanos, em 1453. As fronteiras do Império mudaram muito ao longo de suaexistência, que passou por vários ciclos de declínio e recuperação. Durante o reinado de Justiniano (527-565), alcançou sua maior extensão, após reconquistar muito dos territórios mediterrâneos, antes pertencentes à porção ocidental do Império Romano, incluindo o norte da África. Com as invasões muçulmanas do século VII, muitas partes do Império foram incorporadas pelos califados muçulmanos. Os bizantinos receberam um golpe fatal em 1204, durante a Quarta Cruzada, quando foram dissolvidos e divididos em reinos latinos e gregos concorrentes. Apesar de Constantinopla ter sido reconquistada e o Império restabelecido em 1261, o Império teve que enfrentar diversos estados vizinhos rivais por mais 200 anos para sobreviver. As muitas guerras civis no século XIV minaram ainda mais a força do já enfraquecido Império, e mais terri- tórios foram perdidos nas guerras contra os turcos otomanos, que acabaram conquistando os territórios remanes- centes, pondo fim ao Império Bizantino, no século XV. Os imperadores bizantinos exerciam o cesaropapismo, isto é, governavam politica e religiosamente – Igreja e Estado eram uma coisa só. O Cisma do Oriente (1054) ocorreu nesse contexto – disputas teológicas entre a sede da Igreja Oriental com o patriarca em Constantinopla e a Igreja Ocidental com sede em Roma. Uma das desavenças determinantes para o cisma foi a Questão Iconoclasta – os orientais, de rito grego em uma cultura mais abstrata e especulativa, não aceitavam a representação de figuras sagradas em forma tridimen- sional, pois diziam ser adoração a ídolos; já no Ocidente, a Igreja teve que se recriar com os valores germânicos mais ligados à natureza concreta das coisas, inseridos em seus ritos, não viam mal algum na representação tridimensional. A partir dessa questão, os orientais passaram a se chamar católicos ortodoxos e os ocidentais, católicos romanos, seguindo cada grupo o seu respectivo chefe espiritual. 20 Foi a crença na exclusividade da representação bidimensional, especialmente os afrescos, que desenvolveu muito a arte iconográfica bizantina, desenvolvendo-se até a criação dos mosaicos, figuras compostas pela junção de inúmeras pedras de variadas cores. O Império desenvolveu uma estrutura burocrática e militar, baseada administrativamente no direito romano e utilizava predominantemente a língua grega, deixando-se influenciar diretamente por essa cultura, em sua moral, costumes crenças e valores. Sua sociedade era profundamente hierarquizada, com uma noção do “Corpus Christi” na Sociedade, onde cada indivíduo ocupava uma função designada por Deus em sua própria natureza. Assim, o imperador, a família real, a nobreza, os burocratas, os militares, comerciantes, camponeses, cons- trutores, artesãos e artistas desempenhavam suas funções como parte dos Desígnios Divinos, formando na Terra o Corpo do qual Jesus Cristo no Céu era a Cabeça. O islAMisMO e suA expAnsãO O islamismo teve início quando Maomé, um comerciante da cidade de Meca, na península Arábica, se retirou para uma caverna nos arredores da cidade para meditar, no ano 610. Na caverna, situada no monte Hira, Maomé recebeu a visita do anjo Gabriel, que lhe mandou recitar versos que lhe teriam sido enviados por Deus e lhe comunicou que ele, Maomé, fora escolhido para ser o último profeta enviado por Deus à humanidade. Os versos foram posteriormente redigidos, formando o Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Maomé começou, então, a pregar, em sua cidade, os ensinamentos que recebera na caverna. As pessoas que aceitaram esses ensinamentos passaram a ser conhecidos como “muçulmanos”, ou seja, “aqueles que se sub- metem à vontade de Deus, aqueles que estão em paz, aqueles que são puros, aqueles que obedecem à vontade de Deus”, a partir da raiz etimológica árabe salam, que significa “paz, pureza, submissão, obediência”. Esta mesma raiz etimológica originou o nome da comunidade de seguidores de Maomé, o islã. Porém, os adeptos da nova re- ligião foram hostilizados pela população e Maomé teve de fugir para a cidade próxima de Iatribe, a atual Medina, no ano 622. Essa fuga recebeu o nome de Hégira (Hijra) e deu início ao atual calendário muçulmano. Em Medina, a pregação de Maomé foi melhor recebida. Formou-se uma comunidade muçulmana na cidade sob a liderança de Maomé. Medina começou então a ser atacada por Meca, que temia o crescimento da nova religião fundada por Maomé, a qual condenava o politeísmo praticado em Meca e que gerava grandes lucros para a elite local. Os confrontos se intensificaram até a vitória final de Medina. 21 Em Meca, Maomé destruiu os ídolos que ficavam no templo da Caaba, preservando somente a Pedra Negra, um meteorito negro de 50 centímetros de diâmetro. Maomé decretou que a Caaba, daí em diante, seria o centro da nova religião. Os muçulmanos não se deram satisfeitos com a conquista de Meca e continuaram sua expansão conquistando militarmente toda a península Arábica, o Oriente Médio, o norte da África e a Pérsia. Em 632, morreu Maomé, desencadeando uma disputa pela sua sucessão como líder dos muçulmanos, ou califa. Abu Bakr foi declarado oficialmente como seu sucessor, porém muitos muçulmanos preferiram apoiar Ali ibn Abu Talib, primo e genro de Maomé. Os que apoiaram Ali passaram a ser chamados de “xiitas”, de shiat Ali (“Par- tido de Ali”). Os demais muçulmanos passaram a ser conhecidos como “sunitas”, de suna (“caminho trilhado”), pois eles seguem apenas aquilo que Maomé determinou ao longo de sua vida. Em 680, morreu Hussein, filho de Ali, em Carbala, transformando esta atual cidade iraquiana em centro de peregrinação para os xiitas, durante a festa chamada axura. Com o apoio dos berberes do norte da África, o islamismo alcançou a península Ibérica no século VIII. No mesmo século, surgiu uma dissidência dos xiitas: o ismaelismo. Os comerciantes árabes propagaram a religião muçulmana pela África Ocidental, África Oriental e os atuais territórios da Indonésia e Malásia, a partir do século II. Nesse século, surgiu uma dissidência do ismaelismo: os chamados drusos. Em 1058, nasceu Al-Ghazali, na Pérsia. Al-Ghazali viria a desenvolver uma interpretação mais mística do islamismo, chamada sufismo, que dava mais valor à postura interior do que aos rituais exteriores da religião. Em 1207, nasceu, na então província persa de Balkh, atualmente no Tadjiquistão, o poeta Rumi, que também viria a se destacar dentro do sufismo. Após sua morte, seus seguidores fundaram, na cidade de Konya, na atual Turquia, a ordem sufi Mevlevi, conhecida pela prática de uma dança peculiar em que os seus praticantes, os dervixes, giram em torno de si com a finalidade de obter o êxtase e a comunhão com Deus. Os mongóis afegãos conquistaram a Índia e disseminaram o islamismo nesse país e em toda a Ásia Central no século XIII. Sob a liderança dos turcos otomanos, o islamismo destruiu o Império Bizantino e invadiu a atual Tur- quia, a Grécia e todo o sudeste da Europa, no século XV. Em 1517, o imperador otomano passou a deter também o título de califa. 22 idAde MédiA Com o tempo e a desagregação do Império Romano do Ocidente, essas ocupações iniciais dariam início a reinos independentes. No interior deles, estariam presentes tanto costumes romanos quanto dos povos invasores. Formado na Gália (atual França), o reino Franco foi o mais duradouro desses reinos. Ao estudá-lo, poderemos perceber esse processo de formação da sociedade feudal, assim como a consolidação ao longo dos séculos VI ao IX. Os francos tiveram de enfrentar diversas batalhas para se estabelecer na Gália. Eles lutavam com lanças e combates corpo a corpo, utilizando espadas de lâminas largas. Por um longo período, a região dominada pelos romanos ficou protegida contra invasões. Entretanto, no princípio do século V, um povo de origem germânica atravessou o rio Reno e entrou na Gália: eram os francos. Eles conquistaram grande parte do território, estabelecendo-se no norte e, sobretudo, nonordeste. Os primeiros reis francos descendiam de Meroveu. Por isso, os reis dessa dinastia chamam-se merovíngios. Meroveu, na metade do século V, lutou ao lado dos romanos contra os invasores hunos. Clóvis, neto de Meroveu, venceu os alamanos, os burgúndios e os visigodos, ampliando fronteiras do reino. Com isso, no final do século V, os francos já dominavam grande parte da Europa central. A importância de Clóvis aumentou quando ele se converteu ao cristianismo, em 496, depois de derrotar os alamanos. Com a conversão, conquistou total apoio de condes cristãos e bispos da Gália. Com a morte de Clóvis, em 511, o reino Franco foi dividido entre seus quatro filhos, ocasionando rivalidades e disputas entre eles. Por fim, em 628, Dagoberto subiu ao trono e estabeleceu que, daí por diante, os reis francos teriam um único sucessor. Após o reinado de Dagoberto, vieram os reis indolentes, assim chamados por não cumprirem as funções ad- ministrativas. O prefeito do palácio, uma espécie de primeiro-ministro, era quem efetivamente administrava o reino. Um desses prefeitos, Pepino de Heristal, tornou o cargo hereditário e passou-o a seu filho Carlos Martel. Carlos Martel notabilizou-se por vencer os árabes, em 732, na batalha de Poitiers, detendo a invasão muçulma- na na região central da Europa. Em 743, foi coroado o último rei merovíngio, Childerico III. 23 O filho de Carlos Martel, Pepino, o Breve, incentivado pelo papa Zacarias, depôs Childerico III, assumiu o trono e fez-se aclamar rei. Com isso, iniciou-se uma nova dinastia, a dos carolíngios, nome derivado de Carolus (Carlos, em latim). O sucessor de Pepino, o Breve, foi seu filho Carlos Magno. A obra levada a cabo pelos carolíngios, durante o império iniciado por Pepino, o Breve, quando eliminou os merovíngios, em 751, e foi eleito rei pelos francos. Esse momento ficou conhecido como “Renascimento Carolín- gio”, sendo este período caracterizado pela confluência do purismo anglo-saxão, da tradição romana e das técnicas bizantinas. Seria Carlos Magno o obreiro da união de todo o Ocidente cristão, tendo sido sagrado imperador no ano 800. O império duraria até 843, quando aplicaram as disposições do tratado de Verdun, que o divide em três partes. A organização do império, tanto por Pepino, o Breve, como por Carlos Magno, teve como consequência um enorme desenvolvimento artístico, cujos aspetos mais interessantes se encontram na arquitetura e na pintura, por meio de afrescos e de iluminuras. As artes suntuárias e a escultura em marfim atingem a máxima expressão. As balizas cronológicas apontadas para esta renovação cultural vão de 780 até as invasões dos normandos, em 887. No entanto, o seu reflexo vai muito além daquela data, manifestando-se ainda nas reformas monásticas do século X. Notou-se, então, uma verdadeira preocupação em elevar o nível intelectual e moral dos francos. Naturalmente que o clero teve um grande peso na construção da nova face cultural, com a criação de novas escolas catedralícias, monásticas e presbiteriais nas áreas rurais. Apesar de vocacionadas para a formação do clero, estas escolas eram igualmente abertas aos laicos que as quisessem frequentar. As escolas elementares dedicaram-se ao ensino das artes liberais, etapa funda- mental de preparação para estudos mais aprofundados. Para atender às necessidades impostas pela reforma do ensino, Carlos Magno promoveu a vinda de professores estrangeiros, que passaram a fazer parte daquilo a que se chamou “a academia do palácio”, composta por italianos, irlandeses e anglo-saxões. 24 A cultura palaciana atingia o seu auge e as suas figuras mais representativas, para além de Alcuíno, fo- ram Eginhard (conselheiro de Carlos Magno) com a sua obra Vida de Carlos Magno, e Rábano Mauro, discípulo de Alcuíno. Este, juntamente com Paulo Diacro (ou Di- ácono), impulsionaria a gramática e a métrica, dando origem a um tipo de literatura enfática. Naturalmente, as querelas dogmáticas recrudesceram, com destaque para as posições de Jean Scott (ou Scott Erígena) acer- ca da questão dos conceitos, colocando o problema da religião face à fé. Foi principalmente na arquitetura que se mani- festaram os objetivos mais elevados dos protagonistas da organização do império, ilustrando bem as transfor- mações ocorridas no âmbito da religiosidade, nomeada- mente em relação à liturgia. Aproveitam-se influências de Bizâncio, em Aix e Germigny. Constituiu, de fato, uma síntese das diferentes correntes artísticas do Ocidente, que se concatenam durante o reinado de Carlos Magno: influências da antiguidade trazidas via Itália e Bizâncio e influências provenientes da Inglaterra e da Irlanda. sisteMA feudAl O feudalismo era a estrutura econômica social, política e cultural baseada na posse da terra, predomi- nou na Europa ocidental durante a Idade Média. Foi marcado pelo predomínio da vida rural e pela ausência ou redução do comércio no continente europeu. A sociedade feudal baseava-se na existência de dois grupos sociais – senhores e servos. O trabalho na sociedade feudal estava fundado na servidão, nela os trabalhadores viviam presos à terra e subordinados a uma série de obrigações em impostos e serviços. Obrigações dos servos § Corveia: trabalho sem remuneração para o senhor feudal, seja na agricultura ou em construções. § Banalidades: imposto cobrado pelo uso da infraestrutura do feudo (moinhos, fornos etc.). § Talha: porcentagem da produção agrícola destinada ao senhor. § Mão-morta: na eventualidade da morte de um servo, a família deveria pagar um im- posto ao senhor para que continuasse usu- fruindo da posse da terra. § Capitação: imposto anual pago por membro da família. O feudalismo variou de região para região e de época para época, ao longo da Idade Média. A influência da religião em todos os aspectos da vida medieval era imensa, a fé inspirava e determinava os mínimos atos da vida cotidiana. O homem medieval foi condicionado a crer que a Igreja era a intermediária entre o indivíduo e Deus, e que a graça divina só seria alcançada através dos sa- cramentos. A vida monástica e as ordens religiosas come- çaram a surgir na Europa a partir de 529, quando São Bento de Núrcia fundou o mosteiro no monte Cassino, na Itália, e criou a ordem dos beneditinos. O sistema feudal estava completo nos séculos IX e X, com a invasão dos árabes no sul da Europa, dos vikings (normandos) no norte e dos húngaros no leste. A partir do século XI, quando se iniciaram di- versas mudanças significativas na economia feudal, é que as atividades baseadas no comércio e na vida em cidades, pouco a pouco, ganhavam impulso. 25 BAixA idAde MédiA A crise do sistema feudal deu origem a um processo de marginalização social, quer pela fuga dos servos, quer pelos deserdamentos ocorridos na camada senhorial. Essa marginalização trouxe como consequência o aumento da belicosidade, assaltos e sequestros de ricos cavaleiros. A Igreja católica, na tentativa de conter a crise, criou uma série de medidas para proteger os cultivadores, viajantes e mulheres; além disso, limitou os períodos de guerras para o máximo de noventa dias. Porém, essa intervenção da Igreja não foi capaz de conter a crise do período. A saída encontrada pela Igreja foram as Cruzadas. Diante do controle material e espiritual que possuía sobre seus fiéis, propôs resgatar o Santo Sepulcro (Jerusalém) e combater os infiéis (muçulmanos). Em 1095, no concílio de Clermont, Urbano II convoca a cristandade para uma guerra santa contra o islã. Ao todo, realizaram-se oito cruzadas, entre 1095 e 1270. Contudo, apesar de toda a mobilização, as Cruzadas são consideradas um fracasso. As razões desse insu- cesso se devem em primeiro lugar ao caráter superficial da ocupação. A presença cristã no Oriente Médio não criou raízes entre as populações locais. Outra razão foi a anarquia feudal, que enfraquecia colônias militaresinstaladas em território inimigo. Em resumo, as Cruzadas fracassaram em razão das rivalidades nacionais entre as potências ocidentais e da falta de capacidade da Igreja em organizar uma força que soubesse superar essas dissensões. Por outro lado, as Cruzadas trouxerem transformações sociais e econômicas em seu bojo. A vitória das cidades italianas sobre os muçulmanos no norte da África lançou sementes do comércio. As relações entre Ocidente e Oriente foram redinamizadas depois de séculos de bloqueio, e as mercadorias orientais se espalhavam para a Europa. Nesse contexto, Veneza e Gênova, através da rota de Champagne, abasteciam o mercado europeu, promo- vendo a interligação entre três centros de comércio: Constantinopla, cidades italianas e Flandres. Esta, possuidora de importante feira, constituía ponto estratégico de comércio na Europa. Dentro dela e de tantas outras, desen- volveram-se técnicas de comércio exterior, como troca de moedas e letras de câmbio. Há, assim, uma mudança na composição econômica e social europeia, denominada de Renascimento Urbano e Comercial. 26 U.T.I. - Sala 1. O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) definiu a cidadania em Atenas da seguinte forma: A cidadania não resulta do fato de alguém ter o domicílio em certo lugar, pois os es- trangeiros residentes e os escravos também são domiciliados nesse lugar e não são cida- dãos. Nem são cidadãos todos aqueles que participam de um mesmo sistema judiciário. Um cidadão integral pode ser definido pelo direito de administrar justiça e exercer fun- ções públicas. Adaptado de Aristóteles, Política. Brasília: Editora UnB, 1985, p. 77-78. Relacionando aquilo que você aprendeu sobre o tema com o texto acima, quais as duas prin- cipais condições para que um ateniense fosse considerado cidadão na Grécia clássica? 2. Num antigo documento egípcio, um pai dá o seguinte conselho ao filho: Decide-te pela escrita, e estarás protegido do trabalho árduo de qualquer tipo; poderás ser um magistrado de elevada reputação. O es- criba está livre dos trabalhos manuais [...] é ele quem dá ordens [...]. Não tens na mão a palheta do escriba? É ela que estabelece a diferença entre o que és e o homem que segura o remo. Apud Luiz Koshiba. História – origens, estrutura e processos. Lendo o texto e lembrando o que você apren- deu sobre o tema, argumente sobre a seguin- te afirmação: Nas Civilizações do Antigo Oriente, a Escrita é um dos fundamentos da própria ideia de “Civilização”. 3. Alguns povos da Antiguidade foram merca- dores e praticavam intensamente o comércio marítimo. a) Qual a relação entre a localização geográfica da Fenícia e as características econômicas de seu povo? b) Cite o nome de suas três principais cidades. c) Cite e comente um legado importante que os fenícios deixaram na História. 4. Vivemos numa forma de governo que não se baseia nas instituições de nossos vizinhos; ao contrário, servimos de modelo a alguns, ao invés de imitar outros. [...] Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para a so- lução de suas divergências privadas, quando se trata de escolher (se é preciso distinguir em algum setor), não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, a pobre- za não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços à cidade, seja impedido de fazê-lo pela obscuridade de sua condição. Conduzimo-nos liberalmente em nossa vida pública, e não observamos com uma curiosi- dade suspicaz [desconfiada] a vida privada de nossos concidadãos, pois não nos ressen- timos com nosso vizinho se ele age como lhe apraz, nem o olhamos com ares de reprovação que, embora inócuos, lhe causariam desgos- to. Ao mesmo tempo que evitamos ofender os outros em nosso convívio privado, em nossa vida pública nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa de um temor reve- rente, pois somos submissos às autoridades e às leis, especialmente àquelas promulgadas para socorrer os oprimidos e às que, embora não escritas, trazem aos agressores uma de- sonra visível a todos. Oração fúnebre de Péricles, 430 a.C. In: Tucídides. História da Guerra do Peloponeso. Brasília: Editora UnB, 2001, p. 109. Adaptado. a) Quais as principais características do regime político de Atenas? b) Qual a cidade que foi a principal adversária de Atenas na Guerra do Peloponeso? c) Cite e comente as principais diferenças en- tre elas. 5. Cite o nome e a principal característica de cada um dos três Períodos da História de Roma. 6. O historiador grego Heródoto (484-420 a.C.) viajou muito e deixou vivas descrições com reflexões sobre os povos e as terras que co- nheceu. Deve-se a ele a seguinte afirmação: “o Egito, para onde se dirigem os navios gre- gos, é uma dádiva do rio Nilo“. “No Antigo Egito, existia uma profunda li- gação entre o meio natural e a vida daquele povo.” Explique a afirmação acima, relacionando seus conhecimentos sobre o tema com o texto. 7. “Com relação ao ornamento, Roma não cor- respondia, absolutamente, à majestade do Império e, além disso, estava exposta às inundações, como também aos incêndios. Porém, Augusto fez dela uma cidade tão bela que pode se envaidecer, principalmente por ter deixado uma cidade de mármore no lugar onde encontrara uma de tijolos”. Adaptado de: Suetônio. A vida dos doze Césares. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 91. 27 Considerando o texto e o período de Otávio Augusto no governo de Roma, responda: a) Qual a relação da reurbanização de Roma durante o Governo de Otávio Augusto, com aquilo que sim- bolizava a PAX ROMANA? b) Identifique uma medida social e uma medida política estabelecidas por Augusto para adaptar as tra- dições romanas àquele momento histórico. U.T.I. - E.O. Nascida nos quadros do Império Romano, a Igreja ia aos poucos preenchendo os va- zios deixados por ele até, em fins do século IV, identificar-se com o Estado, quando o cristianismo foi reconhecido como religião oficial. (...) Estreitavam-se, portanto, as re- lações Estado-Igreja. (...) No Império Caro- língio, a aliança entre os reis e a Igreja foi fundamental para a consolidação de ambos os poderes e, por vezes, a Igreja assumia funções que hoje consideramos ser do Esta- do e este por sua vez interferia nos assun- tos religiosos. FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média. Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001. p. 67 e 71. Sobre as relações entre Estado e Igreja, no período medieval, responda: a) Qual o papel administrativo desempenhado pela Igreja católica durante o Período Me- dieval? b) Como o Poder Real dos francos – merovíngios e carolíngios – contribuiu para a expansão do cristianismo na Europa ocidental? 6. Qual a importância do ponto de vista geopo- lítico daquele período, o surgimento, esta- belecimento e expansão do Islão a partir do século VII? 1. A palavra árabe iman significa ‘ter certeza’ e designa fé, no sentido da certeza. A fé, por conseguinte, não contradiz o conhecimento nem a compreensão. Pelo contrário, o dese- jo de saber é uma obrigação religiosa, e os tempos pré-islâmicos (século VI) na Arábia são chamados pelos islâmicos de jahiliya, ignorância. Adaptado de: Burkhard Scherer (Org.). As grandes religiões: temas centrais comparados. Petrópolis: Vozes, 2005, p. 77. Como a fé e o conhecimento científico esta- vam relacionados entre si no mundo islâmi- co na Alta Idade Média? 2. “O desenvolvimento da arte bizantina da produção de ícones em mosaicos não con- tradiz as razões que originaram o Cisma do Oriente, em 1054.” Explique essa afirmação justificando-a. 3. A famosa “Batalha de Poitiers”, ocorrida no ano de 732, teve em Carlos Martel, líder dos francos e avô de Carlos Magno uma figura central. a) Do ponto de vista religioso e cultural, qual o significado dessa batalha para as regiões ocidentais do continente europeu? b) Qual a nova força militar que desempenhou um papel fundamental nessa batalha e que depois setornaria durante todo o período medieval uma das instituições de sustento ao feudalismo? 4. Qual o significado simultaneamente políti- co e religioso da coroação de Carlos Magno, ocorrida no Natal do ano 800? 5. Observe a ilustração e leia a citação a seguir. Em seguida, responda ao que se pede. 28 7. O Imperador Justiniano (527-565) entre outras realizações, consolidou o conceito e as práticas do Cesaropapismo, que iriam ter muitas consequências ao longo do tempo na- quela região, particularmente no Leste euro- peu e na Rússia. O que é Cesaropapismo? 8. “O aparecimento da polis constitui, na histó- ria do pensamento grego, um acontecimen- to decisivo (...). O que implica o sistema da polis é primeiramente uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os ou- tros instrumentos do poder. Torna-se o ins- trumento político por excelência, a chave de toda a autoridade no Estado, o meio de co- mando e de domínio sobre outrem (...). Uma segunda característica da polis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social. Pode-se mesmo dizer que a polis existe apenas na medida em que se distinguiu um domínio público, nos dois sentidos diferentes mas solidários do termo: um setor de interesse comum, opondo-se aos assuntos privados; práticas abertas, estabelecidas em pleno dia, opondo-se a processos secretos. Essa exigên- cia de publicidade leva a apreender progres- sivamente em proveito do grupo e a colocar sob o olhar de todos o conjunto de condutas, dos processos, dos conhecimentos que cons- tituíam na origem o privilégio exclusivo.” (Jean-Pierre Vernant. As origens do pensamento grego. 1984.) a) O que era a polis? b) Por que a PALAVRA é tão importante nesse contexto ao qual o autor se refere? 9. O que significa o termo “Mesopotâmia” e qual a relação entre esse significado e as ci- vilizações que surgiram nas várias cidades- -Estado daquela região? 10. As perseguições aos cristãos no Império Ro- mano estavam ligadas especialmente a uma atitude dos cristãos com relação à figura do Imperador e que era ao mesmo tempo políti- ca e religiosa. a) Qual era essa questão? b) Por que ela era simultaneamente política e religiosa? C HISTÓRIA H História do Brasil0 1 U.T.I. 31 Período Pré-colonial (1500-1530) A chegada dos portugueses ao Brasil ocorreu em 22 de abril de 1500 e se insere no contexto mercantil ibé- rico e europeu dos séculos XV e XVI, quando os portugueses e os espanhóis procuravam encontrar rotas marítimas alternativas ao mar Mediterrâneo (fechado aos europeus pelos árabes) e continuar o valioso comércio asiático de produtos de luxo como seda, especiarias, caros objetos decorativos, e particularmente, o mais rentável de todos: o açúcar. Nessa busca, os espanhóis se depararam com o continente americano em 1492, na atual região do mar do Caribe – América Central – e no seu rastro, bem mais ao sul, os portugueses, em 1500. Entretanto, para o governo português, essas novas terras (naquele momento desconhecidas em toda sua imensidão) foram tratados como uma posse de reserva, para se manterem em condições de competição econômica com a rival Espanha, que já iniciava, nos inícios do século XVI, o reconhecimento geográfico e a exploração econô- mica de suas descobertas. Portugal – que havia precocemente descoberto, percorrido e explorado a rota africana para a Ásia e, por enquanto, dominava com quase exclusividade essa rota – estava totalmente focado no muito rentável comércio com as Índias, como se denominava entre os europeus, genericamente, o continente asiático. Assim sendo, o Brasil, nesse período, permaneceu para Portugal uma fonte econômica secundária, fornecen- do, a partir de seu vasto litoral (progressivamente conhecido pelos portugueses), o valioso pau-brasil – mediante escambo com os nativos da terra, montando, ao longo do litoral, as feitorias, pequenas fortalezas litorâneas que serviam de base de apoio aos navios e depósito para o pau-brasil, o qual era oportunamente levado a Portugal pela próxima expedição que viesse. Além disso, essas estratégicas fortalezas serviam também como marco da presença portuguesa e locais de defesa e vigilância do litoral contra eventuais estrangeiros que viessem por aqui. Esse produto era comercializado também pelos espanhóis, franceses, ingleses e holandeses, que o vinham buscar regularmente, em pequenas expedições clandestinas, particulares ou financiadas pelos seus governos; por esse motivo, Portugal organizava regularmente as chamadas expedições guarda-costas – para reconhecer, patru- lhar e manter a posse do litoral brasileiro, tentando coibir o comércio do pau-brasil feito por outros. Nesse momento, também, o Brasil servia como local de envio dos chamados “degredados”, criminosos ou marginais sociais dos quais Portugal queria se livrar. Esses indivíduos eram periodicamente lançados dos navios em grupos na costa brasileira, tendo que nadar um longo percurso até as praias, muitos morriam afogados ou devorados por tubarões, mas outros, entretanto, que chegavam vivos em terra firme,foram estabelecendo contato e convívio com os nativos, sendo que alguns deles, anos mais tarde, bem estabelecidos na terra, vieram a prestar valiosa ajuda aos primeiros colonizadores portugueses. 32 início da colonização Logo após o descobrimento, o Brasil permane- ceu relativamente abandonado pelos portugueses, que continuavam a buscar as riquezas do comércio com as Índias. Para Portugal, um Estado, acima de tudo, voltado para o máximo desenvolvimento mercantilista, o Brasil nada ou quase nada poderia oferecer de imediato, em confronto com o rico mercado de especiarias. Assim foi que, por não atender aos interesses imediatos do Esta- do nem da classe mercantil portuguesa, de acordo com as exigências de sua prática mercantilista, conduzida ainda apenas no setor de distribuição de mercadorias, o Brasil permaneceu ligado à sua metrópole por umas poucas expedições ocasionais, que aqui chegavam com o objetivo de reconhecer mais amplamente o litoral ou de explorar o pau-brasil, madeira com possibilidade de comercialização, ou ainda, de afugentar os franceses, atraídos pela mesma mercadoria e contestadores da di- visão da América entre Portugal e Espanha (Tratado de Tordesilhas,1494). Gaspar Lemos, em 1501, e Gonçalo Coelho, em 1503, comandaram, respectivamente, as primeiras ex- pedições de reconhecimento e exploração. Desta últi- ma, organizada pelo comerciante Fernão de Noronha, a quem o rei arrendara a “colônia” para a exploração do pau-brasil em troca da defesa da costa, participou Amé- rico Vespúcio. O crescimento da presença de franceses, principalmente junto ao litoral, exigiu um esquema de policiamento mais ostensivo. Para isso, foram enviadas duas expedições guarda-costas comandadas por Cris- tóvão Jacques, em 1516 e 1526, para combater os cor- sários franceses. Entretanto, esse recurso não chegou a bons resultados. O litoral continuou ameaçado, o que exigiu muito mais esforço para garantir a segurança. Por fim, exigiu a ocupação do litoral, sua colonização, o que mudou radicalmente a política oficial do Estado portu- guês, bem como o montante de investimentos por parte da burguesia lusitana. a exPloração do Pau-brasil O único produto brasileiro com algum valor co- mercial, embora inferior às mercadorias orientais, era o vegetal do qual se extraía uma tinta muito usada em tinturaria: o pau-brasil. A extração dessa madeira ocorria no litoral da colônia, em uma área que ia do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro. Os portugueses foram os primeiros a explorá-la. Depois de algumas via- gens, os espanhóis afastaram-se em respeito ao Tratado de Tordesilhas. Os franceses, sem compromisso com o tratado e sem poder comercializar diretamente com o Oriente, lançaram-se ao contrabando. No ano de 1530, o rei de Portugal organizou a primeira expedição com objetivos de colonização, co- mandada por Martin Afonsode Souza. Seus objetivos eram povoar o território brasileiro, expulsar os invasores e iniciar o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil. Como já sabemos, açúcar era um produto larga- mente consumido na Europa por nobres e burgueses, como um alimento de luxo, e seu comércio produzia grandes margens de lucro. Após as experiências positi- vas de cultivo no Nordeste, já que a cana-de-açúcar se adaptou bem ao clima e ao solo nordestino, começou o plantio em larga escala. O povoamento do território brasileiro estava en- tão vinculado diretamente à produção do açúcar, plan- tado em larga escala em grandes extensões territoriais, trabalhado em todo seu processo – plantio, colheita, beneficiamento, produção, embalamento, armazena- mento e transporte – executado por mão de obra es- crava – inicialmente nativa e, em seguida, dos africanos, trazidos de seu continente nativo ao Brasil, cada vez em maiores quantidades, através de uma atividade especí- fica e muito rentável em si mesma: o comércio negreiro. Inicialmente, o rei de Portugal D. João III, em 1534, dividiu administrativamente o território, nas cha- madas Capitanias Hereditárias, procurando se utilizar de um modelo feudal de ocupação, povoamento e ad- ministração territorial baseada na iniciativa privada de alguns nobres enriquecidos que teriam larga autonomia sobre seus territórios, arcando, no entanto, com todos os custos relativos a essa ocupação. Esse sistema fracassou pelo quase absoluto de- sinteresse de todos os eventuais “donatários”, à exce- ção de Duarte Coelho, em Pernambuco, e de Martim Afonso de Sousa, em São Vicente. Então, em 1548, o rei criou o sistema de governo- -geral, enviando ao Brasil uma espécie de vice-rei, que centralizaria todas as principais funções administrativas das capitanias – dividindo-as em sesmarias e auxiliando seus proprietários em sua ocupação, desenvolvimento e manutenção. 33 Também existiam as câmaras municipais, que eram órgãos políticos compostos pelos “homens-bons”: ricos proprietários que definiam os rumos políticos das vilas e cidades. Foi construída a cidade de Salvador, uma vez que a região Nordeste tornou-se o centro econômico da colô- nia, em virtude da produção açucareira. A cidade serviria de base para o controle administrativo, bem como porto para o envio do açúcar para Portugal e Europa. o açúcar A produção açucareira ocorria no sistema de plantation, ou seja, eram grandes extensões de terra desen- volvendo a monocultura extensiva através do trabalho escravo utilizado em larga escala com o objetivo de realizar a exportação do produto. O pacto colonial imposto por Portugal estabelecia que o Brasil só podia fazer comércio com a metrópole portuguesa, no sistema de “exclusivo colonial”. senhores e escravos A sociedade no período do açúcar era marcada pela nítida diferenciação social. No alto da sociedade, com poderes políticos e econômicos quase absolutos, limitados apenas pelo governador-geral, estavam os senhores de en- genho. Abaixo, aparecia uma camada média formada por trabalhadores livres – artesãos, construtores, pequenos pro- prietários de terra e funcionários públicos. E na base da sociedade, estavam os escravos de origem indígena e africana. Era uma sociedade patriarcal, pois o senhor de engenho exercia um grande poder social. As mulheres ti- nham poucos ou quase nenhum direito e nenhuma participação política, viviam em função de seus pais ou maridos. A casa-grande era a residência da família do senhor de engenho. Nela moravam, além da família, alguns agregados. O conforto da casa-grande contrastava com a miséria e péssimas condições de higiene das senzalas (habitações dos escravos). Principais rotas do tráfico 34 Jesuítas Paralelamente a essa estruturação de modelo colonial, a Companhia de Jesus – uma ordem religiosa recém-fundada na Espanha e com muita penetração em Portugal – envia, juntamente com os burocratas portu- gueses e colonos civis, padres jesuítas em grupos para levarem a cabo um projeto de colonização alternativo e que vão procurar catequizar e converter os nativos, tanto nas colônias espanholas como no Brasil, ao cato- licismo romano. Assim, fundam colégios, que originam vilas, como no caso de São Paulo (1554) , mas agem, principalmente, criando as Missões – aldeamentos de indígenas convertidos administrados pelos padres, que vão procurar preservar alguns elementos da cultura na- tiva e fundi-los com a cultura europeia cristã, tornando o indígena um igual aos brancos em sua educação, co- nhecimentos e cultura. Esse projeto de colonização irá permanentemen- te se chocar com o projeto oficial governamental e dos colonos, que veem no indígena somente um instrumen- to de trabalho escravo, motivando invasões constantes dessas missões, principalmente pelos bandeirantes, e o confronto, muitas vezes armados, com os índios missio- nados e com os próprios jesuítas. união ibérica A partir de 1580, ocorreu a chamada União Ibé- rica, pois o rei de Portugal D. Sebastião, morto em uma batalha na África, não deixou descendentes portugue- ses diretos, sendo seu parente mais próximo o próprio Felipe II, rei de Espanha, e pelas leis e costumes absolu- tistas possuía, a partir de então, plenos direitos políticos sobre Portugal e suas colônias, incluindo o Brasil. Dessa forma, Portugal, Espanha, Brasil, partes da Índia e África tornaram-se um único reino. os holandeses no brasil Justamente em função dessa união entre Espanha e Portugal, os holandeses, que antes eram contratados pelo governo português para transportar o açúcar brasi- leiro à Europa e vendiam-lhe escravos, foram afastados dessas lucrativas atividades pelo governo da Espanha, visto que a Holanda era historicamente possessão espa- nhola e, posteriormente, tornou-se sua rival econômica. Os holandeses responderam a esse ato invadin- do formalmente parte do território nordestino – primei- ro a Bahia, entre 1624 e 1625, e depois Pernambuco, entre 1630 e 1654, procurando, nessas regiões, esta- belecerem colônias, administrando seu território e con- trolando todo o processo produtivo do açúcar – de seu plantio ao transporte final. Um destaque importante dessas ocupações foi o governo do conde Maurício de Nassau, em Pernambu- co, entre 1637 e 1644. Nassau procedeu a pacificação da região, estabeleceu boas relações com os senhores de engenho e moradores em geral, através da conces- são de crédito bancário, estabelecimento da tolerância religiosa e desenvolvimento de importantes obras urba- nas, além de fomentar a cultura e a educação, trazendo da Holanda cientistas e artistas. Com o fim da União Ibérica e o restabelecimento da independência de Portugal e suas colônias, o governo português se organiza militarmente com parte dos colo- nos para promover a expulsão dos holandeses do territó- rio brasileiro, que ocorre definitivamente em 1645. Entretanto, os holandeses, ao deixarem o Brasil, levaram grande quantidade de mudas de cana-de-açú- car, know-how tecnológico de sua produção, muitos co- merciantes especializados no produto, particularmente judeus e até alguns escravos e brancos construtores das máquinas do engenho açucareiro. Esses holandeses acabaram por se estabelecer ao norte da América do Sul e em algumas regiões da América Central, particularmente nas ilhas do mar do Caribe, chegando até a costa leste do atual EUA. Em alguns desses locais, iniciaram a produção do açúcar, reduzindo e racionalizando os custos, melho- rando a sua qualidade e reduzindo os preços no merca- do internacional. O resultado para o Brasil e Portugal foi a pro- gressiva perda de mercados consumidores e a conse- quente diminuição do comércio e dos lucros do açúcar, provocando um lento, mas profundo, declínio econômi- co de toda a região Nordeste do Brasil como um todo. 35 bandeirantes As expedições militares particulares de apresa- mento indígena, busca de metais e pedras preciosas e reconhecimento territorialque partiam sistematicamen- te da Vila de São Paulo tiveram, durante a União Ibérica, grande expansão, pois, agora, os paulistas tinham plena liberdade de se aventurar por largas faixas do território colonial, antes controladas exclusivamente pelos espa- nhóis, e, assim, o território brasileiro, propriamente dito, foi sendo expandido para muito além da linha imaginá- ria das Tordesilhas (antigo tratado de divisão do mundo recém-descoberto entre espanhóis e portugueses e san- cionado pelo papa), integrando com a abertura de ca- minhos e rotas fluviais, percorridas e mapeadas grande parte do cada vez mais imenso território colonial. Como já sabemos, foram os bandeirantes os res- ponsáveis pela ampliação do território brasileiro, além do Tratado de Tordesilhas. Os bandeirantes penetraram no território brasileiro, procurando índios para aprisio- nar e jazidas de ouro e diamantes. E, assim, eles acaba- ram encontrando as primeiras minas de ouro, diamantes e pedras preciosas, nas regiões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Após a descoberta dessas primeiras minas de ouro, o rei de Portugal tratou de organizar sua extração e comercialização. Interessado nesta nova fonte de lu- cros, pois o comércio de açúcar estava em franco declí- nio, ele começou a cobrar o quinto. O quinto era um imposto cobrado pela coroa portuguesa e correspondia a 20% de todo ouro en- contrado por todos mineradores. O imposto era cobra- do nas Casas de Fundição, que transformavam todo o ouro coletado em lingotes padronizados e identificados com o selo real. O quinto de cada quantidade de ouro fundido era transformado em lingotes e separados para serem enviados ao Tesouro Real. Somente esses lingotes poderiam depois serem legalmente comercializados por seus proprietários, pois já haviam sido “quintados”. Qualquer outra forma de ouro – pó, pepitas e mesmo lingotes não oficialmente selados –, se comercializados e descobertos pelas au- toridades coloniais, eram tratados como contrabando, confiscados e os envolvidos presos, processados, multa- dos e até mesmo encarcerados ou executados, depen- dendo de quem fosse e das circunstâncias do contra- bando ou mesmo da quantidade envolvida. Essa descoberta de ouro, pedras preciosas e dia- mantes e o início de sua exploração nas regiões aurífe- ras e diamantinas (Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás) provocou uma verdadeira “corrida do ouro” para estas regiões. Procurando trabalho na região, desempregados de várias regiões da colônia e de Portugal partiram em busca do sonho de riqueza. O trabalho dos tropeiros foi de fundamental im- portância neste período, pois eram eles que buscavam, nas regiões mais ao sul das Minas Gerais, os animais de carga, carne seca e outros alimentos e provisões, que não eram produzidos nas regiões mineradoras. 36 Seu trabalho possibilitou o reconhecimento, me- lhoria e desenvolvimento das estradas e comunicações entre as regiões da colônia envolvidas nesse processo, particularmente as atuais regiões Sul e Sudeste. Cidades começaram a surgir e o desenvolvimen- to urbano e cultural aumentou muito nestas regiões. Muitos novos trabalhos complementares à mine- ração surgiram nestas regiões, diversificando o mercado de trabalho na região. Igrejas foram erguidas em cidades como Vila Rica (atual Ouro Preto), Diamantina e Mariana, casas suntuosas, locais de administração pública, as vilas cresceram e foram urbanizadas com ruas pavimentadas, iluminação noturna, locais de diversão e difusão cultural. Assim, a arte da pintura e da escultura, assim como a literatura, a música e a poesia, encontrou es- paço de criação, difusão e consumo, diferenciando em muito essa região do restante da colônia. Para acompanhar administrativamente todo esse crescimento e desenvolvimento na região, a capital da colônia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, no ano de 1763. MoviMentos nativistas e seParatistas Em função da crise açucareira no Nordeste, algu- mas profundas desavenças regionais entre os próprios colonos, disputas territoriais sobre as minas e regiões auríferas ou aumento significativo do controle, vigilân- cia e exploração econômica da metrópole ocorreram de fins do século XVII e durante todo o século XVIII, cau- sando rebeliões, revoltas e conflitos nativistas. § Revolta de Beckman – Maranhão (1684): ori- ginou-se da divergência entre os colonos locais, representados pelos irmãos Manuel e Tomás Be- ckman, e a Companhia Geral de Comércio do Es- tado do Maranhão, que detinha o monopólio do comércio e da introdução de escravos africanos. A rebelião ocorreu contra os abusos da Compa- nhia de Comércio, que não cumpriu os acordos feitos com os colonos, e contra a Companhia de Jesus, que se opunha à escravidão indígena. § Guerra dos Emboabas – Minas Gerais (1708- 1709): conflito entre paulistas e “emboabas” forasteiros, principalmente portugueses, que detinham privilégios do governo colonial para o comércio de diversas mercadorias. § Guerra dos Mascates – Olinda e Recife (1710- 1711): conflito causado pela rivalidade entre os senhores de engenho de Olinda e os comercian- tes portugueses do Recife, apelidados de “mas- cates”. O conflito eclodiu quando Recife foi ele- vado à categoria de vila, o que favorecia o grupo português. Ao terminar o movimento, em 1712, Recife passava a ser capital de Pernambuco, o que acentuou ainda mais a rivalidade da aristocracia pernambucana contra os portugueses. § Revolta de Felipe dos Santos – Minas Gerais (1720): rebelião contra os abusos do fiscalismo português nas minas, caracterizado pela eleva- ção dos impostos decretada pelo governador de Assumar. A revolta dos mineradores reivindicava a redução dos impostos, a abolição dos monopó- lios exercidos pelos portugueses e a extinção das casas de fundição. E na crescente crise mercantil entre metrópole e colônia, causando a progressiva falência econômica de Portugal e sua crescente dependência da Inglaterra, as tensões na colônia, particularmente nas regiões aurífe- ras e diamantinas foram aumentando, no progressivo desinteresse da manutenção do pacto colonial por par- te dos grupos coloniais participantes do poder político local e das riquezas e na sensação por parte das popu- lações brancas, mestiças e de libertos – trabalhadores braçais ou intelectuais em algumas áreas mais urbani- zadas – da exploração econômica e da submissão polí- tica exercida por Portugal. Nesse contexto, surgem dois movimentos de ca- ráter nitidamente separatista: § Inconfidência Mineira – Vila Rica, Rio de Janeiro e arredores (1789): inspirados pela in- dependência dos Estados Unidos e pelos ideais iluministas, os conjurados evidenciavam-se com propostas republicanas e separatistas, embora não desejassem o fim da escravidão. Seus líderes pertenciam aos letrados da sociedade, aos pa- dres e aos militares. Maria I, rainha de Portugal, ordenou pena capital aos inconfidentes, sendo, no entanto, Tiradentes o único para qual a sen- tença foi mantida. 37 § Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaia- tes – Salvador e arredores (1798): encabeçada por intelectuais da Loja Maçônica, como Cipria- no Barata e Francisco Muniz Barreto, contou com ampla participação popular, algo então inédito no Brasil. Propunham a igualdade racial e a constitui- ção de uma república popular. Contudo, em 1799, os populares foram brutalmente enforcados, en- quanto a camada intelectual manteve-se ilesa. Esses movimentos foram duramente reprimidos e seus participantes punidos de acordo com o grupo social ao qual pertenciam, além da iniciativa governamental de impedir quaisquer tipos de pretensões de autonomia eco- nômica da colônia, proibindo o surgimento e destruindo todas as manufaturas existentes naquele momento. a vinda da faMília real A crise econômica mercantil e a falência de Por- tugal ocorrem juntamente com a Independência dos EUA (primeira colônia americana a se libertar de sua metrópole), com aascensão política da França (por meio da Revolução Francesa) e, finalmente, com a as- censão econômica da Inglaterra através da Revolução Industrial, que recriou os princípios de riqueza econô- mica, anteriormente baseados no comercio mercantil, partindo então para a produção industrial. Dessa forma, o rei de Portugal D. João VI, em 1807, pressionado conjuntamente por suas dívidas com a Inglaterra e com a iminente invasão das tropas de Na- poleão Bonaparte, herdeiro político direto da Revolução Francesa, e conduzido por seus temores quanto a sua própria segurança pessoal e de sua família, abandona Portugal e se refugia em sua colônia, Brasil, especifica- mente na capital Rio de Janeiro, onde vai permanecer de 1808 a 1821, procedendo inúmeras reformas econô- micas e administrativas liberalizantes, o que vai aproxi- mar cada vez mais o Brasil da ruptura política definitiva com Portugal, em 1822. Processo de indePendência Em 1820, a burguesia lusa deu início à Revolu- ção Liberal do Porto e convocou as cortes constituintes de Lisboa para a elaboração da primeira Constituição de Portugal. Exigiram o regresso do soberano à Metrópole, seu juramento à futura constituição e a recolonização do Brasil em favor dos interesses maiores do comércio português. O caráter recolonizador das cortes gerou a reação anticolonialista dos brasileiros. Crescia o sentimento eman- cipacionista. A presença da corte de D. João VI no Brasil havia solapado os alicerces do sistema colonial, já inade- quado à nova realidade econômica e política da Europa e da América do Norte. Os grupos anticolonialistas haviam se fortalecido e seus ideais propagados e popularizados. Os novos agrupamentos políticos: § Partido Português: defensores da política re- colonizadora das cortes. § Partido Brasileiro: força mais importante no processo de independência e caracterizava-se pelo conservadorismo. Seus componentes te- miam que a luta pela independência se fizesse acompanhar por mudanças na estrutura econô- mico-social do país. § Radicais Liberais: defendiam que a indepen- dência fosse acompanhada por reformas – abo- lição da escravatura, estabelecimento de um sufrágio amplo e mais autonomia das províncias. A decisão de D. Pedro de permanecer no Brasil (Dia do Fico), atendendo às pressões do Partido Brasi- leiro e dos Liberais Radicais, teve reflexos internos e ex- ternos. As cortes acirraram os decretos recolonizadores e as tropas metropolitanas sediadas no Brasil movimen- taram-se contra o regente D. Pedro. A crise institucional chegava a um limite que apontava para a separação final. No dia 7 de setembro de 1822, às margens plácidas do riacho do Ipiranga, D. Pedro proclamou a Independência do Brasil. O projeto político da independência do Brasil foi resultado, em primeiro lugar, dessa situação particular e das contradições entre os interesses da elite agrária brasileira e do projeto português de recolonização do Brasil, expresso na Revolução Liberal do Porto. A independência brasileira foi sui generis no contexto americano. O Brasil foi o único país a adotar a monarquia ao longo do século XIX como forma de governo. O processo de rompimento com a metrópole, além de ter sido liderado por quem era herdeiro dos do- minadores coloniais, foi liderado por um representante das elites dominantes; portanto, por um defensor dos seus interesses e os de outros países, como os da Ingla- terra, que não precisava nem desejava o apoio popular. 38 U.T.I. - Sala 1. O triunfo holandês seria coroado com a chegada do conde Maurício de Nassau-Siegen, que de- sembarcou como governador em janeiro de 1637. Transformado em mito de nossa história seis- centista, Nassau ficaria também celebrizado pela missão de pintores e naturalistas que financiou no seu governo. Frans Post (1612-1680) foi o mais renomado componente da missão nassoviana, dedicando-se à pintura de paisagens, retratando a natureza tropical e as construções humanas. Adaptado de: VAINFAS, R. “Tempo dos Flamengos: a experiência colonial holandesa”. In: FRAGOSO, J.L.R.; GOUVEA, M. de F. (Org.). O Brasil colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. a) Quais as principais realizações do Governo Maurício de Nassau? b) Do ponto de vista colonial, quais as principais diferenças entre a administração holandesa e a admi- nistração portuguesa no Brasil? 2. No Brasil, costumam dizer que para o escravo são necessários PPP, a saber, pau, pão e pano. E, posto que comecem mal, principiando pelo castigo que é o pau, contudo, prouvera a Deus que tão abundante fosse o comer e o vestir como muitas vezes é o castigo, dado por qualquer causa pouco provada, ou levantada; e com instrumentos de muito rigor, ainda quando os crimes são certos, de que se não usa nem com os brutos animais... Adaptado de: ANTONIL, A.J. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1982. p. 89. Coleção Reconquista do Brasil. Disponível em: <www. dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000026.pdf>. Acesso em: 1 ago. 2012. De acordo com o texto, como o padre Antonil se posiciona perante a questão da escravidão? 3. Durante o processo de independência do Brasil, não haviam ideias claras sobre o federalismo. Empregava-se “federação” como sinônimo de “república” e de “democracia. Mas a historiografia oficial da independência procurou ocultar a existência do projeto federalista, encarando-o apenas como resultado de impulsos anárquicos e de ambições personalistas e antipatrióticas. a) Identifique no texto os dois significados opostos para o federalismo. b) Qual o projeto político que dominou a conclusão do nossa independência? 4. “A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente poderá dar-se conta do número das pes- soas que atualmente lá estão.“ (ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas.) De acordo com o texto, quais as principais consequências da corrida do ouro no Brasil? 5. No início do século XIX, iniciaram-se as revoltas coloniais na América hispânica, acompanhando os movimentos separatistas ocorridos no Brasil. Qual a principal característica do processo de independência das colônias hispânicas e as diferen- ças marcantes entre sua emancipação política e a emancipação ocorrida no Brasil? 39 6. As expedições destinadas ao apresamento dos nativos, como se pode observar no mapa abaixo,eram a principal atividade econômica dos bandeirantes paulistas entre os séculos XVI e XVIII. a) Qual a relação existente entre as expedições de apresamento e as atividades econômicas realizadas pelos moradores da Capitania de São Vicente? b) Cite um efeito dessas expedições para a colônia portuguesa na América nesse período. 7. a) Identifique e analise dois elementos representados na imagem, ligados ao contexto histórico de Por- tugal na segunda metade do século XVIII. b) Cite e explique duas medidas tomadas pelo governo português com relação ao Brasil, nesse período. 8. A transformação do Rio de Janeiro em corte real começou apenas dois meses antes da chegada do príncipe regente, quando notícias do exílio real – tão “agradáveis” quanto “chocantes”, cheias de “sustos e alegrias” – foram recebidas. Entretanto, como descobriram os residentes da cidade, os preparativos iniciais para acomodar Dom João e os exilados marcaram apenas o começo da trans- formação do Rio de Janeiro em corte real, pois o projeto de construir uma “nova cidade” e capital imperial perdurou por todo o reinado brasileiro do príncipe regente. Construir uma corte real significava construir uma cidade ideal; uma cidade na qual tanto a arquitetura mundana como a monumental, juntamente com as práticas sociais e culturais dos seus residentes, projetassem uma imagem inequivocamente poderosa e virtuosa da autoridade e do governo reais. Adaptado de: Kirsten Schultz. Versalhes tropical. 2008. a)Qual o principal motivo que trouxe a corte portuguesa para o Brasil? b) Cite duas transformações ocorridas na cidade do Rio de Janeiro com a chegada e presença da corte portuguesa. 40 U.T.I. - E.O. 1. Frans Post chegou ao Brasil em 1637 e fazia parte do grupo de artistas ligados ao governo holandês sob o comando de Maurício de Nassau. Paisagens, cenas cotidianas e personagens foram os temas principais representados por Post durante essa época. Observe atentamente a imagem abaixo, de sua autoria, e depois responda às questões. Identifique na pintura: a instalação representada; a força motriz utilizada; a mão de obra predo- minante e o produto processado. 2. “Por mais de um século, o Brasil foi o principal exportador mundial de açúcar. De 1600 a 1650, o açúcar respondia por 90% a 95% dos ganhos brasileiros com exportações. Mesmo no período em torno de 1700, quando o setor açucareiro declinou, ele continuava a representar 15% dos ganhos do Brasil com exportações.” SKIDMORE, Thomas E. Uma história do Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 36. Qual o principal acontecimento, ocorrido ainda no século XVII, que iniciou esse vertiginoso declínio? 3. “A primeira coisa que os moradores desta costa do Brasil pretendem são índios escravizados para trabalharem nas suas fazendas, pois sem eles não se podem sustentar na terra”. Adaptado de: GANDAVO, Pero Magalhães. Tratado descritivo da terra do Brasil. São Paulo: Itatiaia e Edusp, 1982, p. 42 [1576] Nesse trecho, percebe-se que o autor compactua com sua afirmação sobre o Brasil do final do século XVI. Com base no texto e considerando que Portugal era governado por uma hierarquia social aris- tocrática e católica, explique por que, quando desembarcavam na América portuguesa da época, os colonos imediatamente procuravam se utilizar da mão de obra escrava. 4. “O ser senhor de engenho, diz o cronista, é título a que muitos aspiram porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos.” ANTONIL, A.J. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas Relacionando esse texto acima com seus conhecimentos sobre o período colonial no Brasil, faça um comentário a respeito. 5. No Brasil, em finais do século XVIII, havia grande descontentamento e revolta contra o governo metropolitano e isso deu origem a rebeliões que questionavam o domínio político português. As rebeliões, que tiveram caráter claramente separatistas, foram as Conjurações Mineira (1789) e Baiana (1798). “Aviso ao Povo Bahiense Ó vós, Povo, que nascestes para ser livres e para gozar dos bons efeitos da Liberdade, ó vós, Povos, que viveis flagelados com o pleno poder do indigno coroado, esse mesmo rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar. Homens, o tempo é chegado para a vossa ressurreição, sim, para vós ressuscitardes do abismo da 41 escravidão, para levantardes a sagrada Bandeira da Liberdade. As nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para todos. O dia da nossa revolução, da nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar. Animai-vos que sereis felizes.” Trecho do panfleto revolucionário afixado nas ruas de Salvador na manhã de 12 de agosto de 1798. Adaptado de PRIORE, M. del e outros. Documentos de história do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Scipione, 1997. a) Qual a diferença essencial entre as duas conjurações? b) Relacione cada uma delas com os respectivos movimentos que as inspiraram. 6. Analise a imagem a seguir. Pintada em 1822, esta obra era uma alegoria do Estado brasileiro na época da independência. Com ela se construiu uma imagem positiva do Império e da figura política do monarca, chamado de “Defensor Perpétuo do Brasil”. Mas durante o Primeiro Reinado, entretanto, a imagem de D. Pedro foi se modificando. Diante disso e analisando a pintura, cite e explique: a) uma característica do projeto político monárquico do Primeiro Reinado; b) um dos motivos que levaram à mudança da imagem de D. Pedro I durante seu governo. 7. Os historiadores são quase unânimes em reconhecer que a atividade mineradora do século XVIII resultou numa forma específica de colonização que a diferenciava do resto do Brasil. FARIA, Sheila de Castro. Dicionário do Brasil colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 397. Considere o contexto histórico da América portuguesa, no que se refere à sociedade e à economia colonial do século XVIII, e diferencie esta forma de colonização daquela realizada no Nordeste açucareiro, dos séculos XVI e XVII. 8. Alguns historiadores afirmam que a história econômica do Brasil se divide em ciclos econômicos desde o período colonial até a época atual. Defina no contexto histórico brasileiro o conceito de “ciclo econômico”. 9. A solução dada à questão dinástica portuguesa, após o desaparecimento do rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578), teve consequências na Europa e nas colônias. No contexto da produção açucareira no Brasil, qual foi a consequência imediata? 10. Os tratados de 1810 trouxeram consequências econômicas para o Brasil bastante prejudiciais. Quais foram elas? C HISTÓRIA H Filosofia0 1 U.T.I. 45 Período Pré-socrático ou cosmológico Os principais filósofos pré-socráticos foram filósofos da Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mile- to, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso; filósofos da Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Árquitas de Tarento; filósofos da Escola Eleata: Parmênides de Eleia e Zenão de Eleia; filósofos da Escola da Plu- ralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera. A cosmologia é uma explicação racional e sistemática sobre a origem, a ordem e a transformação da Natu- reza da qual os seres humanos fazem parte. Ela tem como objetivo, ao explicar a Natureza, refletir sobre a origem e as mudanças da vida humana. Afirma que não existe criação do mundo, isto é, nega que o mundo tenha surgido de um vazio, de um nada. Por isso, diz: “Nada vem do nada e nada volta ao nada”. Contudo, mesmo que a physis seja não perecível, ela dá origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo; seres que, ao contrário do princípio gerador, são perecíveis ou mortais. É evidente que diferentes filósofos escolheram diferentes noções de physis, isto é, cada filósofo encontrou motivos e razões para dizer qual era o princípio eterno e imutável que está na origem da Natureza e de suas trans- formações. Assim, Tales dizia que o princípio era a água ou o úmido; Anaximandro considerava que era o ilimitado sem qualidades definidas; Anaxímenes, que era o ar ou o frio; Heráclito afirmou que era o fogo; Leucipo e Demó- crito disseram que eram os átomos. Parmênides de eleia (530–460 a.C.) Efígie de Parmênides Nascido na cidade de Eleia, ao sul da Magna Grécia, o filósofo Parmênides é considerado o grande pensador do imobilismo universal. O filósofo eleata se preocupou em entender a questão da transformação. Ele dizia que tudo aquilo que existe sempre existiu e continuará a existir. Partindo dessa ideia, Parmênides afirma que nada pode surgir do nada. Da mesma maneira, dizia que tudo aquilo que já existe não pode simplesmente se transformar em nada. O filósofo desenvolve ainda mais seu raciocí- nio: para ele, nenhuma transformação substancial pode realmente ocorrer na natureza. Para Parmênides, o ser, ou a via da verdade, era uno, indivisível, pleno e eterno (imutável, portanto). Não há espaço para o não ser. Este não ser, ou aquilo que não é, não pode nunca existir, nem mesmo ser dito ou pensado. Para haver algo como o não ser, dizia o filósofo, ele teria que se originar do nada, ou de algo que já é – o que reafirmaria sua crença de que tudo que existe, necessariamente sempre existiu. Parmênides acreditava que nossos sentidos têm a propriedade de distorcer a realidade, impedindo-nos de alcançar a verdade. Para o filósofo, qualquerpercepção sensorial não passava de ilusão – e somente a razão hu- mana poderia ser uma fonte satisfatória de conhecimento sobre o universo. 46 HeráClito de Éfeso (535–475 a.C.) Efígie de Heráclito de Éfeso Radicalmente oposta à ideia do imobilismo uni- versal de Parmênides estava a filosofia de Heráclito. Para o filósofo, tudo na natureza se encontra em cons- tante movimento, e nada poderia ser para sempre. Se nos banhamos em um rio, dizia, não podemos fazê-lo duas vezes; “quando me banho pela segunda vez“, as águas do rio já não são as mesmas, assim como nós também não somos”. Tudo está em permanente mudança ou transfor- mação, afirmava Heráclito. Sua frase mais emblemática é “tudo flui”. Em sua visão, o mundo era um fluxo cons- tante, onde nada permanece idêntico, e tudo é mutá- vel. A este incessante processo de mudança, Heráclito deu o nome de devir. E é neste devir, o qual Heráclito entendia como uma eterna batalha entre os contrários, que o mundo encontra sua unidade harmoniosa. A essa unidade Heráclito dá o nome de logos. emPÉdoCles (490–430 a.C.) Efígie de Empédocles Para Empédocles, tanto Parmênides quanto He- ráclito possuíam seus méritos, e estavam certos em ao menos um dos seus argumentos. O filósofo dizia que a culpa da enorme divergência entre seus colegas residia nas premissas de que partiam – a crença na existência de uma única substância fundamental, que comporia tudo o que conhecemos no universo. Empédocles dizia que, se fosse verdade que tudo aquilo que conhecemos é composto por apenas uma substância elementar, jamais poderíamos conciliar aqui- lo que nos diz a razão (que algo não pode simplesmen- te se transformar em outra coisa) com aquilo que nos dizem nossos sentidos (todos os processos observados na natureza). O filósofo pensava que, de fato, uma subs- tância pura jamais poderia simplesmente se transformar em outra substância pura. A água não se transforma em pedra, por exemplo. Isso era o que lhe dizia sua razão. Por meio de seus sentidos, porém, Empédocles podia perceber a natureza em um processo de constante mu- dança. Assim, o filósofo formula que a natureza deveria ter mais substâncias primordiais (e não apenas uma) que, combinadas, dariam origem a tudo que conhece- mos. Quais seriam, então, estas substâncias que, com- binadas de diferentes maneiras, dariam origem a tudo aquilo que conhecemos – e que, de quebra, colocariam fim no impasse de Parmênides e Heráclito? 47 Para Empédocles, esses elementos seriam qua- tro: o fogo, a água, o ar e a terra. Combinados em dife- rentes proporções, eles originariam tudo o que conhe- cemos, dos seres vivos aos objetos. As transformações observadas na natureza seriam decorrentes da mistura ou da separação destes elementos. Ocorridos os pro- cessos, os elementos permaneceriam intocados. Assim, nada se transforma de fato – os elementos permane- cem os mesmos, inalterados, apenas combinados de maneira diferente. Mesmo considerando os quatro elementos fun- damentais que permeiam todas as transformações, para Empédocles uma dúvida permanecia: por qual motivo estes processos aconteciam? Para o filósofo, as transformações eram motivadas por duas forças que atuavam nos processos da natureza: o Amor e o Ódio. Estas duas forças seriam a verdadeira causa do movimento de reunião e separação das subs- tâncias. A diferenciação entre forças e elementos proposta por Empédocles, vale notar, é utilizada pela ciência até os dias atuais. A ciência moderna acredita que todos os fe- nômenos naturais podem ser explicados como um equi- líbrio entre forças naturais e substâncias fundamentais. demóCrito (460–370 a.C.) Efígie de Demócrito Para Demócrito, todos os processos naturais se davam de acordo com as leis da natureza. Essas leis, di- zia, eram inquebrantáveis. Não havia nenhuma intenção por trás dos átomos – apenas a ação mecânica regida por leis naturais. Não há, na visão deste pensador, um espí- rito ou força sobrenatural que rege os processos ou seu comportamento. Por isso, diz-se deste filósofo que é um filósofo materialista, isto é, que atribui todos os processos a causas materiais. Quando se trata da consciência humana, porém, qualquer explicação não pode ser de origem material. O filósofo diz, então, que quando se trata do assunto, há um tipo especial de átomo – o átomo da alma. Assim, quando um ser humano morre, seus átomos se dividem novamente e ficam livres para dar origem a um novo homem. Podemos afirmar, portanto, que para Demócrito o ser humano não possuiria uma alma imortal. sócrates Se reunirmos o que Platão escreveu sobre os so- fistas e sobre Sócrates, além da exposição de suas pró- prias ideias, poderemos apresentar como características gerais do período socrático: § A Filosofia se volta para as questões humanas no plano da ação, dos comportamentos, das ideias, das crenças, dos valores e, portanto, se preocupa com as questões morais e políticas. § O ponto de partida da Filosofia é a confiança no pensamento ou no homem como um ser racio- nal, capaz de conhecer a si mesmo e, portanto, capaz de reflexão. Reflexão é a volta que o pen- samento faz sobre si mesmo para conhecer-se; é a consciência conhecendo a si mesma como capacidade de conhecer as coisas, alcançando o conceito ou a essência delas. § Como se trata de conhecer a capacidade de co- nhecimento do homem, a preocupação se volta para o estabelecimento de procedimentos que nos garantam que encontramos a verdade, isto é, o pensamento deve oferecer a si mesmo cami- nhos próprios, critérios próprios e meios próprios para saber o que é o verdadeiro e como alcançá- -lo em tudo o que investiguemos. § A Filosofia está voltada para a definição das vir- tudes morais e das virtudes políticas, tendo como objeto central de suas investigações a moral e a política, isto é, as ideias e práticas que norteiam os comportamentos dos seres humanos tanto como indivíduos quanto como cidadãos. 48 Cabe à Filosofia, portanto, encontrar a definição, o conceito ou a essência dessas virtudes, para além da variedade das opiniões, para além da multiplicidade das opiniões contrárias e diferentes. As perguntas filosóficas se referem, assim, a valores como a justiça, a coragem, a amizade, a piedade, o amor, a beleza, a temperança, a prudência etc., que constituem os ideais do sábio e do verdadeiro cidadão. É feita, pela primeira vez, uma separação radical entre, de um lado, a opinião e as imagens das coisas, trazidas pelos nossos órgãos dos sentidos, nossos hábi- tos, pelas tradições, pelos interesses, e, de outro lado, as ideias. As ideias se referem à essência íntima, invisível, verdadeira das coisas, e só podem ser alcançadas pelo pensamento puro, que afasta os dados sensoriais, os hábitos recebidos, os preconceitos, as opiniões. A reflexão e o trabalho do pensamento são to- mados como uma purificação intelectual, que permite ao espírito humano conhecer a verdade invisível, imutá- vel, universal e necessária. A opinião, as percepções e imagens sensoriais são consideradas falsas, mentirosas, mutáveis, inconsisten- tes, contraditórias, devendo ser abandonadas para que o pensamento siga seu caminho próprio no conhecimento verdadeiro. A diferença entre os sofistas, de um lado, e a filosofia socrática e platônica, de outro, é dada pelo fato de que os sofistas aceitam a validade das opiniões e das percepções sensoriais e trabalham com elas para produzir argumentos de persuasão, enquanto Sócrates e Platão consideram as opiniões e as percepções senso- riais, ou imagens das coisas, como fonte de erro, menti- ra e falsidade, formas imperfeitas do conhecimento que nunca alcançam a verdade plena da realidade. Platão o mito da Caverna “Este famoso mito, extraído do livro VII de "A República", exprime o dualismo fundamental no pen- samento de Platão. As sombras projetadas na parede da caverna representamnossa experiência sensível, o mundo das aparências e do vir-a-ser. Os objetos ver- dadeiros, situados no exterior da caverna e iluminados pelo sol, simbolizam o mundo das verdades eternas, isto é, o mundo das ideias governadas pelo sol que é a ideia do bem. O prisioneiro, libertado da caverna e trazido para a luz do sol, representa a dialética ascendente. Note-se que ao retornar à caverna, ofuscado pelo sol, seus antigos camaradas o consideram cego. É o filósofo confundido no mundo da vida cotidiana ou o Albatroz de Baudelaire, caído no convés do navio: “Suas asas de gigante impedem-no de andar”. VERGEZ, A.;HUISMAN, D. História dos Filósofos ilustrada pe los textos. 6. ed. Rio de Janeiro: Freiitas Bastos, 1984. 49 Como se pode perceber com o mito da caverna, Platão afirma que os moradores da caverna são como nós, na vida cotidiana. Tomando as sombras como se fossem os próprios objetos, são incapazes de distinguir entre mera projeção de luz e aquilo que é real. Quando um dos moradores se convence da necessidade da bus- ca pelo conhecimento e inicia o processo de libertação, chegando finalmente ao exterior da caverna, é ofuscado pelo sol (o conhecimento). Com o tempo, ele se acostu- ma à claridade e pode compreender a verdade que esta proporciona. Quando retorna, porém, é tido como louco e passa a ser odiado – afinal de contas, ele dizia aos demais que tudo aquilo que conheciam (seus valores, crenças e verdades) não passava de mera reprodução de algo muito superior. a teoria das ideias Platão parte do entendimento de que o homem, anteriormente à vida na Terra, viveu em um mundo es- piritual (o mundo ideal) e que seu corpo material é algo como uma prisão deste espírito. O ato de refletir, de pensar, é uma reprodução daquilo que experienciamos antes da vida, uma herança deste mundo espiritual. Estátua de Platão, em Atenas. Quando olhamos para um objeto ou um ser vivo, por exemplo, na verdade estamos reconhecendo a ideia do objeto ou ser em questão. Esta ideia já estava gravada em nossa mente. Assim, Platão afirma que há ideias inatas. Já nascemos sabendo que um cachorro é um cachorro, pois tivemos contato com o “cachorro ideal”, perfeito e não degenerado no mundo espiritual. Quando vemos um cachorro neste plano, colocamos o animal nesta categoria, pois o reconhecemos como tal – ainda que o cachorro visto aqui seja muito inferior ao cachorro ideal, pois é mera representação. Para Platão, as ideias não são formas abstratas do pensamento; são realidades objetivas, modelos eter- nos dos objetos e seres que podemos enxergar – e que não passam de meras cópias imperfeitas destes mode- los. As ideias são como as formas de um biscoito, e o que vemos neste mundo são os biscoitos já assados. Os biscoitos prontos podem estar quebrados ou quei- mados, e, posteriormente, podem ser comidos, deixando de existir – mas a forma está perfeita e intacta, eterna e imutável. o mÉtodo Como se pode inferir do mito da caverna, no entendimento de Platão, todo homem deve buscar o conhecimento (no mito, sair do mundo das ideias – a caverna – e alcançar o mundo ideal, exterior). Essa busca pelo desconhecido seria, na visão do filósofo, um processo, um caminho que deve ser percorrido com o auxílio de descobertas até o momento em que se esti- vesse preparado para compreender a verdade, aproxi- mando-se do mundo ideal. Este processo, afirma Platão, seria dado pelo diálogo – sendo, portanto, um método dialético. a PolítiCa A visão que Platão tem da política de sua época tem estreita relação com sua posição filosófica. Por entender que o homem deve buscar a verda- de ao longo da vida, Platão também afirma que o ho- mem deve buscar a educação política e da alma, e que o filósofo, por estar próximo da verdade, deve participar ativamente da vida política da pólis. Em sua obra, Platão nota que há diferentes for- mas de regimes políticos, categorizando-as. São elas a aristocracia, ou o governo dos melhores; a monarquia, que Platão entende como o governo de um só; e a de- mocracia, ou governo cujo poder emana do povo. Pla- tão afirma que, para cada uma destas formas de go- verno, há uma forma degenerada. Deve-se lembrar que, para Platão, tudo aquilo presente no mundo sensível já é degenerado por si só. Assim sendo, a degeneração dos sistemas políticos seria igualmente inevitável. 50 A aristocracia tende à oligarquia, um governo em que a elite governa de acordo com os próprios inte- resses. A monarquia se corromperia até se transformar em uma tirania. A democracia, por sua vez, tenderia à anarquia. Perceba que em todos os casos, o que define a forma degenerada é o fato de que aqueles que go- vernam o fazem em causa própria – e não em prol da coletividade, como Platão julga ideal. Em sua obra, Platão divide o povo em classes sociais. Para o filósofo, há a classe econômica, forma- da por agricultores, comerciantes e outros profissionais liberais; a classe militar, formada pelos guerreiros; e a classe legislativa. Cada classe tem interesses e atribui- ções muito próprias, segundo ele. É quando os interes- ses de uma classe se sobrepõem aos de outra que a injustiça se origina, afirma Platão. O filósofo defende ainda que a classe legislativa deve, necessariamente, ser composta por homens que tenham alcançado a ciência política por meio do saber filosófico (sempre a partir da ideia de processo do conhecimento desenvolvida no mito da caverna). Somente assim a política seria enten- dida como uma atividade que visa o bem coletivo, e não a busca por poder. Em seu pensamento político, Platão defende que a escravidão é um mal. Coloca-se ainda a favor da igualdade política entre homens e mulheres – um pen- samento bastante avançado para a época. aristóteles Partindo como Platão, do mesmo problema acer- ca do valor objetivo dos conceitos, mas abandonando a solução do mestre, Aristóteles constrói um sistema in- teiramente original. Os caracteres desta grande síntese são: 1. Observação fiel da natureza – Platão, ide- alista, rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. Aristóteles, mais positivo, toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias, buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações me- tafísicas. 2. Rigor no método – Depois de estudar as leis do pensamento, o processo dedutivo e indutivo, Aristóteles os aplica, com rara habilidade, em todas as suas obras, substituindo a linguagem imaginosa e figurada de Platão, em estilo primo- roso e conciso, e criando uma terminologia filo- sófica de precisão admirável. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia cien- tíficas. Geralmente, no estudo de uma questão, Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto; b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas; c) propõe depois as dúvidas; d) indica, em seguida, a própria solução; e refu- ta, por último, as sentenças contrárias. 3. Unidade do conjunto – Sua vasta obra filo- sófica constitui um verdadeiro sistema, uma ver- dadeira síntese. Todas as partes se compõem, se correspondem, se confirmam. “Mestre dos que sabem”, assim Dante se refere a ele na Divina comédia. Com Platão, Aristóte- les criou o núcleo inspirador de toda a filosofia posterior. Mais realista do que o seu professor, Aristóteles percorre todos os caminhos do saber: da biologia à metafísica, da psicologia à retórica, da lógica à política, da ética à poesia. Impossível resumir a fecundidade do seu pensamento em todas as áreas. A obra aristotélica só se integra na cultura filosófica europeia da Idade Média, através dos árabes, no século XIII, quando é co- nhecida a versão (orientalizada) de Averróis, o seu mais importante comentarista. Depois, São Tomás de Aquino vai incorporar muitos passos das suas teses no pensamento cristão, a teoria das causas. O conhecimento é o conhecimento das causas: 1. Causa material (aquilode que uma coisa é feita); 2. Causa formal (aquilo que faz com que uma coisa seja o que é); 3. Causa eficiente (a que transforma a matéria); 4. Causa final (o objetivo com que a coisa é fei- ta). Todas pressupõem uma causa primeira, uma causa sem causa, o motor imóvel do cosmos, a divinda- de que é a realidade suprema, a substância plena que determina o movimento e a unidade do universo. Mas para Aristóteles a divindade não tem a faculdade da criação do mundo, este existe desde sempre. É a filoso- 51 fia cristã que vai dar à divindade o poder da Criação. Aristóteles opõe-se, frequentemente, a Platão e a sua teoria das ideias. Para o estagirita, não é possível pensar uma coisa sem lhe atribuir uma substância, uma quantidade, uma qualidade, uma atividade, uma passividade, uma posição no tempo e no espaço, etc. Há duas espécies de ser: os verdadeiros, que subsistem por si, e os acidentes. Quando se morre, a matéria fica; a forma, o que caracteriza as qualidades particulares das coisas, desaparece. Os objetos sensíveis são constituídos pelo princípio da perfeição (o ato), são enquanto são e pelo princípio da imperfeição (a potência), através do qual lhes permite a aquisição de novas perfeições. O ato explica a unidade do ser, a potência, a multiplicidade e a mudança. a ÉtiCa No campo da ética, segundo Aristóteles, todos nós queremos ser felizes no sentido mais pleno dessa pa- lavra. Para obter a felicidade, devemos desenvolver e exercer nossas capacidades no interior do convívio social. Aristóteles acredita que a autoindulgência e a autoconfiança exageradas criam conflitos com os outros e prejudi- cam nosso caráter. Contudo, inibir esses sentimentos também seria prejudicial. Vem daí sua célebre doutrina do justo meio, pela qual a virtude é um ponto intermediário entre dois extremos, os quais, por sua vez, constituem vícios ou defeitos de caráter. Por exemplo, a generosidade é uma virtude que se situa entre o esbanjamento e a mesquinharia. A coragem fica entre a imprudência e a covardia; o amor-próprio, entre a vaidade e a falta de auto- estima; o desprezo, por si mesmo. Nesse sentido, a ética aristotélica é uma ética do comedimento, da moderação, do afastamento de todo e qualquer excesso. Em outras palavras: “[A ética] é uma disposição interior constante que pertence ao gêne- ro das ações voluntárias feitas por escolha deliberada sobre os meios possí- veis para alcançar um fim que está ao alcance ou no poder do agente e que é um bem para ele. Sua causa material é o ethos do agente, sua causa for- mal, a natureza racional do agente, sua causa final, o bem do agente, sua causa eficiente, a educação do desejo do agente. É a disposição voluntária e refletida para a ação excelente, tal como praticada pelo homem prudente.” CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia, vol. I - Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 455. a PolítiCa Aristóteles estudou centenas de constituições políticas de seu tempo. Concluiu que havia tantas formas de go- verno quanto tipos de cidadão. Aquele cidadão da democracia, por exemplo, não é o mesmo da oligarquia. Após longa reflexão, definiu cidadania como a possibilidade de direito de voto nas assembleias e de participação no exercício do poder público. A extensão da cidadania estaria circunscrita a cada forma de governo, sendo alguns mais abertos à participação do que outros. Quanto às formas de governo, haveria dois critérios distintivos: número e justiça. O governo pode ser exer- cido por uma, poucas ou muitas pessoas; pode governar para si ou para o bem comum. A tabela abaixo resume a sistematização das formas de governo feita por Aristóteles. Formas de governo para Aristóteles BONS REGIMES POLÍTICOS REGIMES POLÍTICOS DEGENERADOS Monarquia Governo de um só, que considera o bem comum Tirania Governo de um, que só considera o bem do go-vernante Aristocracia Governo de alguns, que considera o bem comum Oligarquia Governo de alguns, que só considera o bem dos ricos Politeia Governo de muitos, que considera o bem comum Democracia Governo de muitos, que só considera o bem dos pobres (Disponível em: <http://pt.slideshare.net/edivaldopinheironegrao/o-que-poltica-em-aristteles>, Acessado em: 25/01/2017) 52 o início da filosofia Patrística as CaraCterístiCas filosófiCas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã, assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna, pois, no pensamento cristão, o máximo valor, o interesse central não é a filosofia, e sim a religião. Entretanto, se o Cristianismo não se apresenta, de fato, como uma filosofia, uma doutrina, mas como uma religião, uma sabedoria, pressupõe-se uma específica concepção do mundo e da vida, uma precisa solução do problema filosófico. É o teísmo e o Cristianismo. O Cristianismo fornece ainda uma impres- cindível integração à filosofia, no tocante à solução do problema do mal, mediante os dogmas do pecado origi- nal e da redenção pela cruz. E, enfim, além de uma justi- ficação histórica e doutrinal da revelação judaico-cristã em geral, o Cristianismo implica uma determinação, elucidação, sistematização racional do próprio conteú- do sobrenatural da Revelação, mediante uma disciplina específica, que será a teologia dogmática. No que diz respeito ao teísmo, salientamos que o Cristianismo o deve, historicamente, a Israel. Mas, entre os hebreus, o teísmo não tem uma justificação, uma de- monstração racional, como, em Aristóteles, de sorte que, em definitivo, o pensamento cristão tomará, na grande tradição especulativa grega, esta justificação e a filosofia em geral. Isso realiza-se á graças, especialmente, à Esco- lástica e, sobretudo, a Tomás de Aquino. No que se refere à solução do problema do mal, solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo que sentiu profundamente, drama- ticamente, esse problema sem o poder solucionar, frisa- mos que esta representa a grande originalidade teórica e prática, filosófica e moral, do Cristianismo. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dog- mas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. Finalmente, a justificação da Revelação, em geral, e a determinação, dilucidação, sistematização racional do conteúdo da mesma têm uma importância indireta com respeito à filosofia, porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. Foi esta, especialmente, a obra da Patrística e, sobretudo, de Agostinho. Essa parte, dedicada à história do pensamento cristão, será, portan- to, dividida do seguinte modo: o Cristianismo, isto é, o pensamento do Novo Testamento, enquanto soluciona o problema filosófico do mal; a Patrística, a saber, o pen- samento cristão, desde o século II ao VIII, a que é devida, particularmente, a construção da teologia, da dogmática católica; e a Escolástica, a saber, o pensamento cristão, desde o século IX ao XV, criadora da filosofia cristã, ver- dadeira e própria. Características gerais do pensamento cristão "Foi conquistada a cidade que conquistou o universo". Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. Era a invasão de Roma pelos germanos e a consequentemente queda do Impé- rio Romano. A avalanche dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política, econômica e social do Ocidente, agora transfor- mado num mosaico de reinos bárbaros. Depois, vieram as guerras, a fome e as grandes epidemias. O cristia- nismo propaga-se por diversos povos. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. 53 O período medieval não foi, porém, a "Idade das Trevas", como se acreditava. A filosofia clássica sobrevi- veu, confinada nos mosteiros religiosos. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino,fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. No Ocidente, fundam-se as primeiras universidades, ocorre a fusão de elementos culturais greco-romanos, cristãos e germânicos e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. Sob a influência da Igreja, as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas, tentando conciliar a fé e a razão. E é nesse esforço que Santo Agos- tinho e São Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fun- damentais para a história do pensamento cristão. a filosofia medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d.C., o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bár- baros. Do confronto desses povos invasores com a ci- vilização romana decadente, desenvolveu-se uma nova estruturação europeia de vida social, política e econô- mica, que corresponde ao período medieval. Em meio ao esfacelamento do Império Romano, decorrente, em grande parte, das invasões germânicas, a Igreja Católica conseguiu manter-se como instituição social mais orga- nizada. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o Cristianismo entre os povos bárbaros, preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. Apoiada em sua crescente influência religiosa, a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. Desempenhou, por exemplo, a fun- ção de órgão supranacional, conciliador das elites do- minantes, contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. Conquistou, também, vasta riqueza material: tornou-se dona de, aproximadamente, um terço das áreas cultivá- veis da Europa ocidental, numa época em que a terra era a principal base de riqueza. Assim, pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões europeias. Conflitos e conciliação entre a fé e o saber No plano cultural, a Igreja exerceu amplo do- mínio, trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. Mas em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens, verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpreta- das, segundo a autoridade da Igreja. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encader- nações." De acordo com a doutrina católica, a fé repre- sentava a fonte mais elevada das verdades reveladas especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. Nesse sentido, afirmava Santo Ambrósio (340-397, aproximadamen- te): "Toda verdade, dita por quem quer que seja, é do Espírito Santo". Assim, toda investigação filosófica ou científica não poderia, de modo algum, contrariar as verdades es- tabelecidas pela fé católica. Segundo essa orientação, os filósofos não precisavam se dedicar à busca da ver- dade, pois ela já havia sido revelada por Deus aos ho- mens. Restava-lhes, apenas, demonstrar racionalmente as verdades da fé. Não foram poucos, porém, aqueles que dispen- saram até mesmo essa comprovação racional da fé. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega, sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensa- mento uma porta aberta para o pecado, a dúvida, o des- caminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja, em termos de fé). Por outro lado, surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega, na medida que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do Cristianismo. Conciliado com a fé cristã, o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. O objetivo era convencer os descrentes, tanto quanto possível, pela razão, para, depois, fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos, somente acessíveis pela fé. Entre 54 os grandes nomes da filosofia católica medieval, des- tacam-se Agostinho e Tomás de Aquino, responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristó- teles, respectivamente. "Tomai cuidado para que nin- guém vos escravize por vãs e enga- nadoras especulações da 'filosofia', segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo." (São Paulo) Patrística "A fé é a busca de argumen- tos racionais a partir de uma matriz platônica." Desde que surgiu o cristianismo, tornou-se neces- sário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã, a Igreja Católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente, mediante um trabalho de conquista espiritual. Foi assim que os primeiros padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística, por terem sido escritos, prin- cipalmente, pelos grandes padres da Igreja. Uma das principais correntes da filosofia patrísti- ca, inspirada na filosofia greco-romana, tentou munir a fé de argumentos racionais. Esse projeto de conciliação entre o Cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o padre Agostinho. "Compreender para crer, crer para compreender." (Santo Agostinho) Escolástica "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus." No século VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. A cultura greco-romana, guar- dada nos mosteiros até então, voltou a ser divulgada, passando a ter uma influência mais marcante nas refle- xões da época. Era a renascença carolíngia. Tendo a educação romana como modelo, come- çaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática, retórica e dialética (o trivium); e geometria, aritmética, astronomia e música (o quadrivium). Todas elas esta- vam, no entanto, submetidas à teologia. A fundação dessas escolas e das primeiras uni- versidades do século XI fez surgir uma produção filosó- fico-teológica denominada escolástica (de escola). A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando-o definitivamente. Isso se deve-se à descoberta de muitas obras de Aristóteles, desconhecidas até então, e à tradu- ção para o latim de algumas delas, diretamente do grego. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se, no entanto, como problema básico de especulação filosófica. Nesse sentido, o período es- colástico pode ser dividido em três fases: § Primeira fase (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. § Segunda fase (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos, merecendo desta- que nas obras de Tomás de Aquino. Nesta fase, considera-se que a harmonização entre fé e ra- zão pôde ser parcialmente obtida. § Terceira fase (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica, caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. A questão dos universais: O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação, segundo o historiador francês Jacques Le Goff, privilegiava o es- tudo da linguagem (o trivium) para, depois, passar para o exame das coisas (o quadrivium). Desse modo, surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa, por exemplo, é o nome de uma flor. Quando a flor morre, a palavra rosa continua existindo. Nesse caso, a palavra fala de uma coisa inexistente, de uma ideia geral. Mas como isso acontece? O grande ins- 55 pirador da questão foi o neoplatônico Porfírio, em sua obra Isagoge: "Não tentarei enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência, nem, no caso de subsistirem, se são corpóreosou incor- póreos, nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos, formando parte dos mesmos". Esse problema filosófico gerou muitas disputas. Era a grande discussão sobre a existência ou não das ideias gerais, isto é, os chamados "universais de Aristóteles". Características gerais Com o nome de Patrística, entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotesta- mentária, e chega até o começo da Escolástica, isto é, os séculos II-VIII da era vulgar. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística, porquanto repre- senta o pensamento dos padres da Igreja, que são os construtores da teologia católica, guias, mestres da dou- trina cristã. Portanto, se a Patrística interessa sumamente à história do dogma, interessa assaz menos à história, em que terá importância fundamental a Escolástica. A Patrística é contemporânea do último perío- do do pensamento grego, o período religioso, com o qual tem fecundo contato. Entretanto, diferenciando profundamente, sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. E é também contemporânea do Império Romano, com o qual também polemiza, e que termi- nará por se cristianizar depois de Constantino. Dada a culminante grandeza de Agostinho, a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho, período em que, filosoficamente, interessam, especialmente, os chamados apologistas e os padres alexandrinos; Agos- tinho, que merece um desenvolvimento à parte, visto ser o maior dos padres; e depois de Agostinho, vem o período que, logo após a sistematização, representa a decadência da Patrística. santo agostinho e são tomás de aquino filosofia medieval Na Filosofia Medieval discute-se a relação entre a fé cristã e a filosofia grega, a partir da concepção da patrística e da escolástica, com ênfase nas propostas de Agostinho de Hipona e de Tomás de Aquino. Assim, é abordado o papel da filosofia grega como instrumento da teologia (fé cristã), apresentando sempre a ideia central da superioridade da fé sobre a razão. Santo Agostinho Patrística é a filosofia dos primeiros padres da Igreja, da qual, Santo Agostinho é um dos principais represen- tantes. Santo Agostinho é influenciado pela corrente dos chamados “neoplatônicos”, que era uma escola filosófica que utilizava a doutrina platônica na defesa da religião como forma de revelação da verdade. 56 Ele foi influenciado por Platão, mas não concor- dou em todos os pontos com sua filosofia. Agostinho propõe a conciliação entre fé e razão. Assim, o filósofo considera a filosofia grega um instrumento útil para a fé cristã, pois a primeira ajuda a compreender melhor as verdades da fé. Para ter acesso às verdades eternas, é necessário que o indivíduo tenha fé. As verdades eternas encon- tram-se no interior do homem, em sua alma. Deus está na alma de cada um de nós, e o conhecimento está na mente de Deus, que habita o interior do homem. “Creio em tudo o que entendo, mas nem tudo que creio tam- bém entendo”, ou seja, existem alguns mistérios da fé que não são acessíveis aos homens, mas eles devem acreditar, pois são verdades de Deus, e, assim, a fé ilu- mina os caminhos da razão. Para o filósofo, a fé revela verdades ao homem de forma direta e intuitiva, vem de- pois a razão esclarecendo aquilo que a fé já antecipou. Para Agostinho, as verdades eternas e imutáveis têm sua sede em Deus. Assim sendo, as mesmas só po- dem ser alcançadas pela iluminação divina: Deus, que é uma realidade exterior, habita o interior do homem, revelando o conhecimento verdadeiro. A teoria agostiniana A teoria agostiniana estabelece que todo conhecimento verdadeiro é o resultado de um processo de ilumi- nação divina, que possibilita ao homem contemplar as ideias, arquétipos eternos de toda realidade. Assim, pode ser compreendida a principal diferença entre a teoria de Agostinho e a teoria de Platão. Nenhum conhecimento verdadeiro pode ser in- troduzido na mente das pessoas vindo de fora, por meio do ensino. O saber se encontra na alma, porque ela se origina da substância divina. Com isso, Agostinho de- monstra que a verdade não pode ser ensinada pelos homens, mas somente pelo mestre interior (o mestre interior é Deus, que habita o interior do homem). Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eternos, que são as ideias divinas. Essas ideias ou ra- zões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas na própria mente ou sabedoria divina, con- forme o testemunho da Bíblia. Agostinho entende a percepção do inteligível na alma como irradiação divina no presente. Assim como os objetos exteriores só podem ser vistos quando ilu- minados pela luz do sol, também as verdades da sabe- doria precisam ser iluminadas pela luz divina, para se tornarem conhecidas pelo intelecto. Deus não substitui o intelecto quando o homem pensa o verdadeiro, a iluminação teria apenas a função de tornar o intelecto capaz de pensar corretamente em virtude de uma ordem natural estabelecida por Deus. Assim, tem-se a influência e participação de uma cente- lha do intelecto divino que se irradia na mente humana. 57 A luz divina, segundo Agostinho, torna inteligí- vel a verdade eterna na mente falível. Agostinho rejeita a teoria da reminiscência de Platão e cria a chamada Teoria da Iluminação Divina. Assim, o conhecimento não vem da recordação de uma passagem anterior pelo mundo das ideias, mas sim da iluminação divina, no momento presente, em que Deus ilumina o indivíduo para ter acesso às verdades. Deus se espelha na alma. E "alma" e "Deus" são os pilares da "filosofia cristã" agostiniana. Não é indagando o mundo, mas escavando a alma que se en- contra Deus. Para o filósofo, o homem que trilha a via do pe- cado só consegue retomar aos caminhos de Deus e da salvação mediante a combinação de seu esforço pesso- al de vontade e a concessão, imprescindível, da graça divina. Sem a graça de Deus, o homem nada pode con- seguir. E nem todas as pessoas são dignas de receber essa graça, mas, somente, alguns eleitos, predestinados à salvação. Segundo Agostinho, o mal seria a perversão da vontade desviada da substância suprema. Assim, para o filósofo, “ama e faze o que quiseres” diz respeito a: se o homem ama verdadeiramente, isto é, como Deus ama, com gratuidade fazendo o bem aos outros, sua vontade será guiada corretamente; por isso, ser e agir conforme a própria vontade, iluminada pelo amor de Deus, é a garantia de que a liberdade de ação será justa, ou seja, ética. Desse modo, para Agostinho, a liberdade huma- na é própria da vontade, e não da razão. E é nisso que reside a fonte do pecado. O indivíduo peca porque usa de sua vontade para satisfazer a sua própria vontade, mesmo sabendo que tal atitude é pecaminosa. São Tomás de Aquino Tomás de Aquino, ao formular sua doutrina, foi influenciado pela teoria de Aristóteles. O filósofo é con- siderado um dos principais representantes da filosofia escolástica: filosofia nas escolas medievais, surgimento do debate da conciliação entre fé e razão. O conhecimento é resultado da conciliação entre fé e razão. Desse modo, o trabalho da razão humana é compatível com a crença nos dogmas de fé: filosofia e teologia são ciências distintas, porém, não excluden- tes. Assim, fé e razão não se contradizem. A fé, portanto, melhora a razão, assim como a teologia melhora a filo- sofia. Fé e razão são conciliáveis, estando em um mesmo patamar. Em alguns casos, a fé pode ultrapassar a razão, pois Tomás de Aquino trabalha para conciliar a filosofia de Aristóteles com a religião cristã, embora mantenha a supremacia da fé em relação à razão. O conhecimento está na experiência, mas a razão recebe os dados da ex- periência e registra-os. Assim, nota-se o caráter abstrativo do conhe- cimento tomista, que consiste em abstrair do objeto a espécie inteligível: abstrair o universal do particular, a espécieinteligível das imagens singulares. Nota-se a in- fluência da teoria da abstração aristotélica na doutrina de Tomás de Aquino: a razão tem como ponto de partida a realidade sensível, pois cada ente (substância individu- al) traz a sua forma inteligível, que é a forma da espécie. Desse modo, o conhecimento começa pela experiência sensível até a apreensão de formas abstratas pelo intelecto. O conhecimento humano parte sempre dos sen- tidos, que revelam objetos concretos e singulares: mas, através da abstração, é capaz de finalmente forjar con- ceitos universais. Exemplo: deste gato concreto e singu- lar que inicio conhecendo pelos sentidos, sou capaz de abstrair e forjar o seu conceito universal: felino. 58 Intelecto agente é a faculdade que anima o conhecimento sensível para captar a essência que está no objeto (abstração). Intelecto passivo recebe esse conhecimento e o apreende pelos conceitos, fixa o conhecimento ativado pela intelecção ativa que entende a essência, e o faz pelo raciocínio, pelo julgamento, pela elaboração do saber fi- losófico. Tomás de Aquino formula as chamadas “provas” da existência de Deus, partindo dos dados sensíveis e procurando ultrapassá-los pelo esforço de abstração, culminando na metafísica. As cinco provas da existência de Deus § Pelo movimento/Primeiro Motor Imóvel: tudo aquilo que se move é movido por outro ser. Por sua vez, este outro ser necessita também que seja movido por outro ser, e assim, sucessi- vamente. Se não houvesse um primeiro ser mo- vente, cairíamos num processo indefinido. Assim, é necessário chegar a um primeiro ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus. § Causa eficiente: todas as coisas existentes no mundo não possuem em si próprias as causas eficientes de sua existência. Assim, é necessá- rio admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão dos efeitos. Essa causa primeira é Deus. § Ser necessário, ser contingente: todo ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir (nós, humanos). É preciso admi- tir um ser que sempre existiu e sempre irá existir, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa de sua existência, mas ao con- trário, seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. O ser necessário é Deus, que é onisciente, onipotente e onipresente. § Graus de Perfeição: em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar a existência de graus diversos de perfeição. De- vemos, então, admitir que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de ver- dade, sendo, portanto, um ser máximo e pleno. Esse ser é Deus. § Finalidade do ser/Pela finalidade, pela or- dem e governo do mundo: todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, semelhante à flecha di- rigida pelo arqueiro. Devemos admitir então que existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu obje- tivo. Esse ser é Deus. Segundo Aquino, Deus cria e regula a ordem do mundo. Essa ordem divina é chamada de providência, e todas as coisas e seres estão sujeitos a ela. Deus, ao estabelecer essa ordem, encaminha todas as coisas a si, o bem supremo. Assim, em virtude da providência, o homem é encaminhado para a beatitude, porém, escolhe seus próprios caminhos. A faculdade de escolha é o livre ar- bítrio, e os homens dele se utilizam para as decisões que tomam em suas vidas. nicolau maquiavel Maquiavel é um marco na história da filosofia política moderna, por desvincular o Estado dos imperativos da religião (propõe assim um Estado laico) e também dos imperativos da metafísica. Assim, a filosofia de Ma- quiavel é considerada amoral no sentido de que não se vincula à ideia de moral posta pela Igreja, visto que o príncipe não está vinculado à ideia de bem ou mal. Isso não significa que não possa haver uma moral própria da ação política. Maquiavel é um teórico da política, sendo sua obra mais importante O Príncipe, de 1513. 59 O Príncipe, enquanto obra, tinha uma motivação evidente para o florentino: unir a região que hoje co- nhecemos como Itália e, por meio disso, garantir a paz. Paz esta constantemente arruinada por pequenos prin- cipados e repúblicas, que conflitavam incessantemente em busca de autoafirmação. Maquiavel, funcionário pú- blico por quase toda sua vida e ávido leitor da teoria política greco-romana, viu-se na necessidade de redigir um manual para com o qual Lourenzo de Médici pudes- se executar a unificação política italiana. Maquiavel não possuíra outros recursos para pen- sar a política senão sua experiência empírica, além dos livros de história de teoria política clássica e medieval: Platão, Aristóteles, Ciro, Santo Agostinho e Tomás de Aquino. A influência destes autores é patente em sua obra e jamais deve ser ignorada. Embebido destas te- orias, tinha em mente que a ciência política é a ciência dos grandes, a ciência que busca compreender a arte de governar. Maquiavel expõe claramente que suas prescrições advinham do “... conhecimento das ações das grandes personalidades, que conheci de longa ex- periência das coisas modernas e da leitura contínua dos antigos.” Assim, o filósofo se preocupa em saber como os governantes governam de fato, quais os limites do uso da força e da violência para conquistar e conservar o poder, como se ter um governo estável. Assim, para Ma- quiavel, o que importa para o príncipe é manter-se no governo. Um aspecto inovador na política de Maquiavel é que ele ressalta o aspecto agonístico (luta, conflito) da realidade. Para o filósofo, o conflito é inerente à ativida- de humana. Assim, trata-se do reconhecimento de que a política se faz com base em interesses divergentes, em contínuo movimento. Daí a necessidade de ordem, única condição capaz de trazer o bem comum. O príncipe deve ter ao mesmo tempo o amor e o temor de seus súditos, pois, para o filósofo, é importante ser amado e temido. Porém, se tiver que escolher en- tre um dos dois, “é melhor ser temido do que amado”, visto que o temor faz com que o príncipe tenha ações imprevisíveis, garantindo respeito. Já se for amado, seus súditos conhecerão seus pontos fracos e poderão retirá- -lo do poder. Para que o príncipe se mantenha no go- verno, ele deve saber se adaptar às situações, ou seja, à realidade concreta. Assim, ele não precisa ser bom sempre, mas os súditos devem devotar-lhe confiança. A virtù do príncipe não deve ser a mesma do Cristianismo, a qual prega a resignação, a humildade, o perdão aos inimigos. Porém, o príncipe deve parecer ter tais virtu- des, mas de modo algum, deve, de fato, empregá-las. Desse modo, o que Maquiavel defende não é um go- verno ideal, ou ainda governantes ideais, mas sim um governo que saiba se adequar à realidade concreta, um governo real, sem qualquer concepção idealizada de política, como propunham a religião e a política, os teóricos políticos clássicos. Assim, a política tem como objetivo a manutenção do poder por meio do bom trato das contingências. 60 O governante deve lutar com todas as armas para manter-se no poder. A qualidade exigida do príncipe que deseja se manter no poder é sobretudo a sabedoria de agir conforme as circunstâncias. Sendo capaz de aparentar possuir as qualidades valorizadas pelos governados. Assim, a ação política boa consistirá naquela que consiga atingir, não importa como, os resultados almejados na busca do bem comum. “De modo geral, os homens julgam mais com os olhos do que com o tato: todos podem ver, mas poucos são capazes de sentir. Todos veem nossa aparência, poucos sentem o que realmente somos, e estes poucos não ousarão opor-se à maioria que tenha a majestade do Estado a defendê-la. Na con- duta dos homens, especialmente dos príncipes, em que não existe tribunalde apelação, espera-se o êxito final.” Virtú e Fortuna Virtù significa virtude, na expressão grega de força, valor, qualidade de lutador e guerreiro viril. Vale lembrar que não se refere ao príncipe bom e justo no sentido empregado pelos cristãos. Os homens de virtù são aqueles que têm a capacidade de perceber o jogo de forças que lhe impõe a política e agir com energia para conquis- tar e manter o poder. Assim, a virtude maquiavélica se mostrará contundente e revela a prudência do observador atento. Para o pensamento antigo clássico, a fortuna é uma deusa mulher. Como se trata de uma deusa e mulher, para atrair suas graças era necessário mostrar-se “vil”, um homem de verdadeira virilidade, inquestionável coragem. Assim o príncipe deve sempre estar atento ao curso da história, aguardando a ocasião propícia e aproveitando o acaso ou as circunstâncias. Maquiavel procurará demonstrar a possibilidade da virtù para conquistar a fortuna. O príncipe de virtude é aquele que aproveita a ocasião que a fortuna lhe põe ao alcance, mas que sabe esperar quando a situação lhe é desfavorável, ou ainda converte a situação desfavorável ao seu favor para manter o seu poder. Cuidado: a fortuna é chamada de sorte, mas é necessário que o príncipe saiba quando agir, não se deixando levar pelo mero oportunismo. Assim, a virtù não deve existir sem a fortuna para aquele príncipe que visa manter-se no poder. Por isso, o mais importante para o príncipe é que ele saiba se adaptar às condições impostas pela fortuna. 61 “Sendo a fortuna inconstante, e estando os homens obstinados em seus modos, serão felizes quando a fortuna e os modos estiverem de acor- do; e, quando discordarem, serão infelizes. Não obstante, a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, será preciso bater nela e contrariá-la” Desse modo, o governante deve fazer o que for mais conveniente para que se mantenha no poder, a cada momento em que seja importante para que ele o mantenha. O príncipe é um homem de virtù que deve voltar seu ânimo para a direção que a fortuna o impelir, mesmo que a conquista e a conservação do poder impliquem ações más. Assim, não se tem uma decisão moral, mas sim decisões que atendem a lógica do poder. thomas hobbes (1588-1679) “Nem artes; nem letras; nem sociedade; mas o que é de pior: medo contínuo e perigo de morte vio- lenta; e para o homem, resta uma vida solitária, pobre, desagradável, brutal e curta” (Hobbes) Thomas Hobbes era um pensador jusnaturalista, ou seja, comungava com outros pensadores a hipóte- se de que a sociabilidade é artificial, uma criação humana por meio de um contrato. Para ele, anteriormente à constituição das comunidades políticas, existiria uma vida sem Estado e sem leis. Em tal Estado de Natureza, os seres humanos seriam naturalmente iguais em suas faculdades corporais e mentais (mais nas mentais do que nas corporais). A partir de seus predicados, herdados da Natureza, os indivíduos são capazes de emitir juízo sobre suas realidades, além de se relacionarem apaixonadamente com quaisquer fins que lhes aprouverem. Daí emerge um traço empirista em seu pensamento, ancorado no fato de que as concepções morais – sobre o que é o bem ou o mal, certo ou errado – estão circunscritas à subjetividade. Portanto, valores e ações humanas não teriam um senti- do comum, compartilhado por todos. Nesse cenário, o homem é opaco aos olhos de seu semelhante – ele não sabe o que o outro deseja, e por isso tem que fazer uma suposição de qual será a sua atitude mais prudente, mais razoável. Como o outro também não sabe o que ele quer, também é forçado a supor o que fará. Dessa suposição recíproca, o mais razoável para ambos é atacar o outro, o quanto antes, para vencê-lo. Significar dizer que, se não há um Estado controlando ou reprimindo, a atitude mais racional a se adotar é fazer a guerra: instaura-se uma “guerra de todos contra todos”. Assim, de modo geral, haveria três causas principais de discórdia na natureza dos homens: a competição, a desconfiança e a glória. Nas palavras de Hobbes, “A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; a terceira, a reputação. Os primeiros usam a violên- cia para se tornarem senhores das pessoas, mulhe- res, filhos e rebanhos de outros homens; os segun- dos, para defendê-los; e o terceiro por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a seus parentes, seus amigos, sua nação sua profissão ou seu nome. 62 Com isto se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se cha- ma de guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens” (Hobbes, O Leviatã) Onde residiria então a vantagem do Estado de Natureza? Somente nele o homem gozaria de seu direito natural (jus naturale), isto é: a liberdade que cada um possui de usar seu próprio poder, da maneira que quiser, para a preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua vida; e, consequentemente, “de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios adequados a esse fim”. É evidente que tal liberdade é volátil. O ser humano é movido por desejos e sempre tentará impô-los aos demais. A tragédia da ausência de Estado é a guerra generalizada. Um pacto para a Paz “Cedo e transfiro o direito de governar a mim mesmo, desde que você também o faça, dando o direito ao governante, em nome da paz e da segu- rança.” A superação da guerra, da incerteza e do caos somente será atingida, paradoxalmente, por uma perda. A fórmula da pacificação, para Hobbes, consiste na abdicação da liberdade natural de cada um para um ou poucos homens que definirão as leis e a aplicação de pena de morte aos cidadãos. Como bem aponta o filósofo Althusser: “A morte é a verdade-limite de todo temor: o temor da morte funda o contrato social”. Portanto, a lex na- turalis (Lei Natural) de preservação da vida e busca da paz deve ser racionalmente contratada pelos agentes, que deverão aliená-la ao Soberano. (Capa do livro “O Leviatã”, de 1651) Segue-se que a adesão ao contrato deve ser unânime. Se um indivíduo se opusesse, abriria margem a que outros também o fizesse. E o soberano designado pelos indivíduos seria o único a conservar todas as suas liberda- des naturais e, portanto, agir livremente em busca da paz e do bem comum. Somente ele teria o Direito e o Dever de impor a violência sobre os demais. Hobbes conclui, também, que não seria racional os indivíduos se rebelarem con- tra o Soberano, posto que a soberania foi pelo povo conferida. O soberano, assim sendo, não deve ser destronado. 63 Por outro lado, a manutenção do poder deve ser feita por legislação sábia, mas o filósofo deixa claro que “Sem a espada, os pactos não são senão palavras e carecem de força para garantir plenamente a segurança do homem". Contudo, nesse estado de dominação quase que absoluta, donde subsistiria a liberdade do súdito? A resposta está no momento em que o soberano se volta contra o povo, gerando novamente estado de guerra e medo. Nesse caso em específico, desapareceria a razão que leva o súdito a obedecer. O plano de Hobbes ambicionava afirmar o Estado Absolutista – visto por ele como a única forma de governo capaz de gerir conflitos e garantir a paz dentro contexto belicoso no qual o império inglês se inseria. (Rei Luís XIV, exemplo clássico de monarca absoluto) 64 u.t.i. - sala 1. (UEL) Leia o diálogo a seguir. Glauco: — Que queres dizer com isso? Sócrates: — O seguinte: que me parece que há muito estamos a falar e a ouvir falar so- bre o assunto, sem nos apercebermos de que era da justiça que de algum modo estávamos a tratar. Glauco: — Longo proémio – exclamou ele – para quem deseja escutar! Sócrates: — Mas escuta, a ver se eu digobem. O princípio que de entrada estabele- cemos que devia observar-se em todas as circunstâncias, quando fundamos a cidade, esse princípio é, segundo me parece, ou ele ou uma das suas formas, a justiça. PLATÃO. A República. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993. p. 185-186. Com base nesse fragmento, que aponta para o debate em torno do conceito de justiça na obra A República, de Platão, explique como Platão compreende esse conceito. Leia o texto a seguir para responder às ques- tões 2 e 3. “... não é fácil determinar de que maneira, e com quem e por que motivos, e por quanto tempo devemos encolerizar-nos; às vezes nós mesmos louvamos as pessoas que cedem e as chamamos de amáveis, mas às vezes louvamos aquelas que se encolerizam e as chamamos de viris. Entretanto, as pessoas que se desviam um pouco da excelência não são censuradas, quer o façam no sentido do mais, quer o fa- çam no sentido do menos; censuramos apenas as pessoas que se desviam consideravelmen- te, pois estas não passarão despercebidas. Mas não é fácil determinar racionalmente até onde e em que medida uma pessoa pode desviar-se antes de tornar-se censurável (de fato, nada que é percebido pelos sentidos é fácil de de- finir); tais coisas dependem de circunstâncias específicas, e a decisão depende da percepção. Isto é bastante para determinar que a situa- ção intermediária deve ser louvada em todas as circunstâncias, mas que às vezes devemos inclinar-nos no sentido do excesso, e às vezes no sentido da falta, pois assim atingiremos mais facilmente o meio-termo e o que é certo.” ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro II. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 150 (Col. Os Pensadores). 2. (UFPR) Agir de modo virtuoso é, segundo Aristóteles, agir sempre do mesmo modo? Por quê? 3. (UFPR) Uma vez que Aristóteles antes define as virtudes como disposições de caráter e, na passagem acima, acrescenta que as virtudes situam-se num “meio-termo”, de que modo devem ser definidos os vícios? Por quê? 4. (UFU) Os fragmentos abaixo representam três temas fundamentais que configuram o pensamento de Heráclito de Éfeso. “O deus é dia noite, inverno verão, guerra paz, saciedade fome; mas se alterna como fogo, quando se mistura a incensos, e se de- nomina segundo o gosto de cada.” (Fr. 67) “Por fogo se trocam todas (as coisas) e fogo por todas, tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro.” (Fr. 90) Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 85 e 87. Col. Os pensadores. A partir das citações acima: a) explicite quais são esses temas. b) comente cada um deles de modo a caracteri- zar a Filosofia de Heráclito. 5. (UFU) Há um abismo imenso que separa esta escala de valores que Sócrates proclama com tanta evidência e a escala popular vigente entre os gregos e expressa na famosa canção báquica antiga: O bem supremo do mortal é a saúde; O segundo, a formosura do corpo; O terceiro, uma fortuna adquirida sem má- cula; O quarto, desfrutar entre amigos o esplendor da juventude. JAEGER, W. Paideia. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 528-529. a) O que é o homem para Sócrates? b) Qual é a relação entre o que define o homem e a máxima délfica “Conhece-te a ti mesmo”? 6. (UFU) A respeito da fortuna, Maquiavel es- creveu: [...] penso poder ser verdade que a fortu- na seja árbitra de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. MAQUIAVEL, N. O príncipe. Tradução de: Lívio Xavier. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Coleção “Os Pensadores”. p. 103. Com base na citação, responda: a) O que é a fortuna para Maquiavel? b) Como deve agir o príncipe em relação à fortuna? 65 7. (Unesp) TEXTO 1 Para santo Tomás de Aquino, o poder políti- co, por ser uma instituição divina, além dos fins temporais que justificam a ação política, visa outros fins superiores, de natureza es- piritual. O Estado deve dar condições para a realização eterna e sobrenatural do homem. Ao discutir a relação Estado-Igreja, admite a supremacia desta sobre aquele. Considera a Monarquia a melhor forma de governo, por ser o governo de um só, escolhido pela sua virtude, desde que seja bloqueado o caminho da tirania. TEXTO 2 Maquiavel rejeita a política normativa dos gregos, a qual, ao explicar “como o homem deve agir”, cria sistemas utópicos. A nova po- lítica, ao contrário, deve procurar a verdade efetiva, ou seja, “como o homem age de fato”. O método de Maquiavel estipula a observação dos fatos, o que denota uma tendência co- mum aos pensadores do Renascimento, pre- ocupados em superar, através da experiência, os esquemas meramente dedutivos da Idade Média. Seus estudos levam à constatação de que os homens sempre agiram pelas formas da corrupção e da violência. Adaptado de: ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS, Maria Helena. Filosofando. 1986. Explique as diferentes concepções de políti- ca expressadas nos dois textos. 8. (UFU) Leia a afirmação a seguir e responda. A função que Hobbes atribui ao pacto de união é a de fazer passar a humanidade do estado de guerra para o estado de paz, insti- tuindo o poder soberano. BOBBIO, Norberto. Thomas Hobbes. Rio de Janeiro: Campus, 1991. p. 43. a) Por que, sem o pacto, não há paz entre os homens? b) Por que a instituição do poder soberano é resultado de uma passagem? 9. (UFU) Segundo Agostinho de Hipona (354- 430), as ideias ou formas originárias de todas as coisas, razões estáveis e imutáveis das coisas de nosso mundo, estão contidas na mente divi- na e não nascem nem morrem, e tudo o que, em nosso mundo, nasce e morre é formado a partir delas. Essas ideias eternas não são criaturas, antes, participam da Sabedoria eterna, median- te a qual Deus criou todas as coisas e são idênti- cas a Ele. Assim, conhecemos verdadeiramente quando nos voltamos para tais ideias; sendo o fundamento da natureza das coisas são tam- bém o fundamento para o conhecimento dessas mesmas coisas; assim, por meio delas podemos formar juízos verdadeiros sobre elas. INÁCIO, Inês. C.; LUCA, Tânia R. de. O pensamento medieval. São Paulo: Ática, 1988, p. 26. Levando em consideração o texto acima e a teoria da iluminação de Agostinho, responda: a) O que são as ideias eternas? b) Qual o seu papel ou função em nosso conheci- mento do mundo? 10. (UEL) Leia o texto e o quadrinho a seguir. Aqueles que somente por fortuna se tornam príncipes pouco trabalho têm para isso, é claro, mas se mantêm muito penosamente. Não têm nenhuma dificuldade em alcançar o posto, porque por aí voam; surge, porém, toda sorte de dificuldades depois da chegada. Tais príncipes estão na de- pendência exclusiva da vontade e boa fortuna de quem lhes concedeu o Estado, isto é, duas coisas extremamente volúveis e instáveis. Adaptado de: MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 55. a) Desenvolva os conceitos de fortuna e de virtù, em conformidade com Maquiavel. b) O que diferencia o pensamento político de Maquiavel daquele concebido pela tradição cristã? 66 u.t.i. - e.o. 1. O que significa dizermos que os primeiros filósofos tinham uma “preocupação cosmo- lógica”? 2. Platão considera as opiniões e as percepções sensoriais, ou conhecimento das imagens das coisas, como fonte de erro, pois nunca alcançam a verdade plena. 3. Em 399 a.C., o filósofo Sócrates é acusado de graves crimes por alguns cidadãos ate- nienses. (...) Em seu julgamento, segundo as práticas da época, diante de um júri de 501 cidadãos, o filósofo apresenta um longo discurso, sua apologia ou defesa, em que, no entanto, longe de se defender objetivamente das acusações, ironiza seus acusadores, assu- me as acusações, dizendo-se coerente com o que ensinava, e recusa a declarar-se inocen- te ou pedir uma pena. Com isso, ao júri, ten- do que optar pela acusação ou pela defesa, só restou como alternativa a condenação do filósofo à morte. (Danilo Marcondes). Com base no texto apresentado, explique quais foramos motivos da condenação de Sócrates à morte. 4. (UFPR) Se há, então, para as ações que pra- ticamos, alguma finalidade que desejamos por si mesma, sendo tudo mais desejado por causa dela, e se não escolhemos tudo por causa de algo mais (se fosse assim, o processo prosseguiria até o infinito, de tal forma que nosso desejo seria vazio e vão), evidentemente tal finalidade deve ser o bem e o melhor dos bens. Não terá então uma grande influência sobre a vida o conheci- mento deste bem? Não deveremos, como ar- queiros que visam a um alvo, ter maiores probabilidades de atingir assim o que nos é mais conveniente? Sendo assim, cumpre- -nos tentar determinar, mesmo sumaria- mente, o que é este bem, e de que ciências ou atividades ele é o objeto. Aparentemente ele é o objeto da ciência mais imperativa e predominante sobre tudo. Parece que ela é a ciência política. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, 1094a, p. 18-28. Que razões Aristóteles alega para justificar a afirmação de que a ciência mais imperativa e predominante sobre tudo parece ser a ci- ência política? 5. (UFMG) Na Ética a Nicômaco, Aristóteles pro- põe uma compreensão da amizade em que a semelhança entre os homens é importante, embora não a caracterize completamente, como se comprova neste trecho: A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins na virtude, pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora, os que dese- jam bem aos seus amigos por eles mesmos são os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem em razão da sua própria natureza e não acidentalmente. Por isso sua amizade dura enquanto são bons – e a bondade é uma coisa muito durável. E cada um é bom em si mesmo e para o seu amigo, pois os bons são bons em absoluto e úteis um ao outro. […] Uma tal amizade é, como seria de esperar, permanente, já que eles encontram um no outro todas as qualidades que os amigos de- vem possuir. Com efeito, toda a amizade tem em vista o bem ou o prazer – bem ou prazer, quer em abstrato, quer tais que possam ser desfru- tados por aquele que sente a amizade –, e baseia-se numa certa semelhança. E à ami- zade entre homens bons pertencem todas as qualidades que mencionamos, devido à natureza dos próprios amigos, pois numa amizade desta espécie as outras qualidades também são semelhantes em ambos; e o que é irrestritamente bom também é agradável no sentido absoluto do termo, e essas são as qualidades mais estimáveis que existem. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de: VALLANDRO, L.; BORNHEIM, G. In: Os pensadores. São Paulo: Abril, 1979, VIII, 3, 1156b. Com base na leitura desse trecho e em outras informações presentes na obra em referên- cia, explique por que não é toda e qualquer semelhança entre os homens que motiva uma amizade verdadeira. 6. (Unesp) “O homem é o lobo do homem” é uma das frases mais repetidas por aque- les que se referem a Hobbes. Essa máxima aparece coroada por uma outra, menos ci- tada, mas igualmente importante: “guerra de todos contra todos”. Ambas são funda- mentais como síntese do que Hobbes pensa a respeito do estado natural em que vivem os homens. O estado de natureza é o modo de ser que caracterizaria o homem antes de seu ingresso no estado social. O altruísmo não seria, portanto, natural. No estado de 67 natureza o recurso à violência generaliza- -se, cada qual elaborando novos meios de destruição do próximo, com o que a vida se torna “solitária, pobre, sórdida, embrute- cida e curta, na qual cada um é lobo para o outro, em guerra de todos contra todos”. Os homens não vivem em cooperação natu- ral, como fazem as abelhas e as formigas. O acordo entre elas é natural; entre os ho- mens, só pode ser artificial. Nesse sentido, os homens são levados a estabelecer con- tratos entre si. Para o autor do Leviatã, o contrato é estabelecido unicamente entre os membros do grupo, que, entre si, concor- dam em renunciar a seu direito a tudo para entregá-lo a um soberano capaz de promo- ver a paz. Não submetido a nenhuma lei, o soberano absoluto é a própria fonte legisla- dora. A obediência a ele deve ser total. João Paulo Monteiro. Os pensadores. 2000. Caracterize a diferença entre estado de na- tureza e vida social, segundo o texto, e explique por que a é atribuída a Hobbes a concepção política de um “absolutismo sem teologia”. 7. (UFMG) Leia este trecho: Ouvi dizer a um homem instruído que o tem- po não é mais que o movimento do sol, da lua e dos astros. Não concordei. Por que não seria antes o movimento de todos os cor- pos? Se os astros parassem e continuasse a mover-se a roda do oleiro, deixaria de haver tempo para medirmos suas voltas? [...] Ou, ao dizermos isto, não falamos nós no tempo, e não há nas nossas palavras sílabas longas e sílabas breves, assim chamadas, porque umas ressoam durante mais tempo e outras durante menos tempo? SANTO AGOSTINHO. Confissões (Livro XI: o Homem e o Tempo). Tradução de: SANTOS, J. Oliveira; PINA, Ambrósio de. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 286. Nesse trecho, o autor argumenta contra a identificação do tempo ao movimento dos astros. Apresente o argumento proposto por Santo Agostinho. 8. (Unesp) “Três maneiras há de preservar a posse de Estados acostumados a serem go- vernados por leis próprias; primeiro, de- vastá-los; segundo, morar neles; terceiro, permitir que vivam com suas leis, arrancan- do um tributo e formando um governo de poucas pessoas, que permaneçam amigas. Sucede que, na verdade, a garantia mais se- gura da posse é a ruína. Os que se tornam senhores de cidades livres por tradição, e não as destroem, serão destruídos por elas. Essas cidades costumam ter por bandeira, em suas rebeliões, tanto a liberdade quan- to suas antigas leis, jamais esquecidas, nem com o passar do tempo, nem por influência dos favores que receberam. Por mais que se faça, e sejam quais forem os cuidados, sem promover desavença e de- sagregação entre os habitantes, continuarão eles a recordar aqueles princípios e a estes irão recorrer em quaisquer oportunidades e situações”. Adaptado de: Nicolau Maquiavel. Publicado originalmente em 1513. Partindo de uma definição de moralidade como conjunto de regras de conduta hu- mana que se pretendem válidas em termos absolutos, responda se o pensamento de Maquiavel é compatível com a moralidade cristã. Justifique sua resposta, comentando o teor prático ou pragmático do pensamen- to desse filósofo. 9. (UFU) Ser vítima de bala perdida é o maior medo atual dos cariocas e moradores da re- gião metropolitana do Rio. Foi o que res- ponderam 57% dos 4500 entrevistados em levantamento do ISP (Instituto de Segu- rança Pública), órgão ligado à Secretaria de Segurança do Rio, divulgado na tarde desta terça-feira. [...] um quinto dos entrevista- dos (21,7%) foi vítima de um dos 21 tipos de crimes elencados na pesquisa (agressão, furto...). BELCHIOR, L. Mais da metade dos moradores do RJ não confia na PM. In: Folha Online, 19/08/2008. Estatísticas como essas retratam a situação de medo e de insegurança geral vivenciada nas metrópoles brasileiras e conferem atu- alidade a teorias como a do filósofo Tho- mas Hobbes. Para ele, a função do Estado e do corpo político é a de garantir a paz e o direito de cada um à vida, impedindo o de- sencadeamento natural da guerra de todos contra todos. A partir da leitura das informações acima, responda às seguintes perguntas. a) De acordo com Hobbes, os seres humanos são naturalmente sociáveis? Justifique sua resposta. b) Quais seriam, para esse filósofo, as princi- pais características do homem em estado de natureza? c) Tendo em vista o fragmento da reportagem publicada pelo jornal Folha Online, é correto dizer que o Estado, hoje, do ponto de vista hobbesiano, cumpre sua obrigação em rela- ção aos cidadãos? 68 10. (UFU) Leia com atenção o texto abaixo em que o autor comenta e cita Santo Agostinho, e, em seguida, responda as questões apre- sentadas.“Deus cria as coisas a partir de modelos imu- táveis e eternos, que são as ideias divinas. Essas ideias ou razões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas na própria mente ou sabedoria divina, con- forme o testemunho da Bíblia.” “Que a mesma sabedoria divina, por quem foram criadas todas as coisas, conhecia aque- las primeiras, divinas, imutáveis e eternas razões de todas as coisas antes de serem cria- das, a Sagrada Escritura dá este testemunho: No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas pelo Verbo e sem Ele nada foi feito. Quem seria tão néscio a ponto de afirmar que Deus criou as coisas sem conhe- cê-las? E se as conheceu, onde as conheceu senão em si mesmo, junto a quem estava o Verbo pelo qual tudo foi feito?" (Santo Agostinho, Sobre o Gênese, V, 29). COSTA, José Silveira da. A Filosofia Cristã. In: RESENDE, Antônio. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/SEAF, 1986, p. 78, capítulo 4. a) Explique a relação, sugerida neste texto, en- tre a teoria das Ideias de Platão e o pensa- mento de Agostinho. b) Explique como Agostinho usa essa teoria para explicar o conhecimento humano, na sua co- nhecida Doutrina da Iluminação Divina. C HISTÓRIA H Sociologia0 1 U.T.I. 71 Auguste Comte (1798-1857) Para dar uma resposta à revolução científica, política e industrial de seu tempo, Comte ofereceu uma reor- ganização intelectual, moral e política da ordem social. Adotar uma atitude científica era a chave, assim pensou, de qualquer reconstrução da sociedade. Afirmava que pelo estudo empírico dos processos históricos – em especial do progresso das diversas ciências e formas de explicação da realidade – seria possível perceber uma lei histórica, que ele denominou de “os três estágios”. O pensador analisou tais três estágios em sua volumosa obra Curso de Filosofia Positiva, escrita entre 1830 e 1842. Dizia que dada a natureza da mente humana, cada uma das ciências ou ramificações do saber deveria passar necessariamente por estes três estágios teóricos distintos: teológico (ou estado fictício), metafísico (ou estado abstrato) e positivo (ou estado científico). Auguste Comte Para Comte, fundador da Sociologia, o espírito positivo teria de fundar uma ordem social. A constituição de um saber positivo – leia-se científico – é fundamental para apagar, ou pelo menos subjugar, todas as outras formas de pensamento. O positivismo de Comte, com isso, tem um caráter essencialmente histórico, pois visa a ser um fator organizador da política e da sociedade. Diante disso, a educação foi um dos temas sobre o qual Comte se debruçou, pois ela carregaria esse papel transformador. Após anos de estudos, viu que as sociedades eram regidas por leis que, quando descobertas, poderiam ser manipuladas pelos agentes políticos. Concluiu que havia dois princípios vitais na sociedade: o princípio dinâmico, representante das formas mais complexas da existência de uma estrutura social (urbanização e industrialização), e o princípio estático, correspondente às formas elementares de organização (religião, família, propriedade, linguagem). Para Comte, esses dois princípios comple- tam-se, devendo ser dado privilégio ao estático como garantia de preservação da ordem e do bom funcionamento de uma sociedade. Assim, para o pensador, justifica-se a intervenção em uma estrutura social desajustada e desequi- librada por conflitos e revoltas, se a intenção for a de dar-lhe equilíbrio e bom funcionamento. Com a resolução dos embates, a harmonia passaria a vigorar na área de intervenção – por meio do incentivo à coesão e ao bem-estar –, possibilitando condições para a sua evolução. Por fim, a influência do positivismo no desenvolvimento da Sociologia é inegável. É possível afirmar que ela nasceu com Comte, criador do nome da disciplina. Os sociólogos, estejam contra ou a favor, consideram que o pensamento científico foi disseminado a partir de suas ideias. Graças a ele, sem dúvida, a ciência ganhou o estatuto de fonte de conhecimento mais segura à população, embora outras formas de conhecimento ainda subsistam. 72 Émile Durkheim (1858–1917) O fatO sOcial Os fatos sociais são maneiras de pensar, agir e sentir que existem independentemente das manifestações in- dividuais, ou seja, são exteriores ao indivíduo e são generalizados na sociedade. Ademais, são dotados de uma força imperativa e coercitiva sobre os indivíduos. Esses fenômenos nascem no seio da sociedade e nela residem, a despeito do arbítrio de um sujeito isolado. Nas Regras do Método Sociológico, Durkheim estabelece as diferenças entre os fatos que pertencem à psico- logia, que são internos ao homem, e os que são estudados pela sociologia, que são externos e coercitivos. Os fatos sociais são impostos por meio de normas oriundas da consciência coletiva e das regras do direito, isto é, estão tanto nos costumes como nas leis escritas. Funcionam, portanto, como reguladoras de conduta, dentro, é claro, dos limites da moralidade. Quando dissemos que os fatos sociais existem a despeito das consciências individuais, afirmamos que existe uma cronologia subjacente: os fatos sociais antecedem a existência de um indivíduo isolado. Significa dizer que já nascemos em uma sociedade organizada, com regras e valores preestabelecidos. Tais normas nos são impostas tanto pela educação escolar como pelo hábito coletivo, fazendo com que o indivíduo socializado as considere como naturais. Embebidos nesses valores, os sujeitos não percebem que os fatos sociais provêm deles mesmos. As instituições são criadas pelos indivíduos, mas com o passar do tempo, elas se consolidam e ganham certa autonomia. Assim, para Durkheim, se forma a consciência coletiva, que estaria longe de ser a soma das consciências individuais, mas algo exterior a cada um. A consciência coletiva seria a síntese de crenças e sentimentos comuns a uma sociedade. Sabemos que a força imperativa da consciência coletiva é sempre presente, uma vez que o indivíduo que resistir a ela é quase sempre coagido pela sociedade. Quem foge das crenças e sentimentos comuns é moralmente ou legalmente penali- zado. Assim, desde cedo, aprende-se a respeitar o conjunto de normas da sociedade. FATO SOCIAL (características) composta de regras, leis, costumes, rituais realidade do indivíduo força que os fatos exercem sobre os indivíduos sob formas de SANÇÕES regras e leis sociais adotamos um idioma ou uma forma de família generalidade exterioridadecoerção social é exterior ao indivíduo tudo aquilo que é repetido em todos os indivíduos como seria caracteriza-se por ou seja ou seja assim como manifesta-se quando apresenta-se Durkheim defende que os fatos sociais devem ser vistos como coisas, uma vez que são realidades concretas e com grau de existência exterior ao homem. Todo objeto científico seria uma coisa. Para ele, devemos observar os fatos sociais como um físico observa a natureza. A sociologia, portanto, é uma ciência empírica e pouco introspec- tiva. O oposto da matemática, portanto. É necessário ao sociólogo suprimir seus juízos e valores pessoais para não chegar a conclusões precipitadas. O maior erro do pesquisador seria o de conduzir suas pré-concepções sobre o fato social durante a pesquisa. Por 73 isso, o pesquisador deve ser neutro ao objeto analisado. Trata-se de uma concepção científica chamada de neu- tralidade axiológica, na qual o pesquisador prescinde de suas paixões e trata o objeto de pesquisa rigorosamente como coisa. É evidente a afinidade de Durkheim com o po- sitivismo. Ele herdou toda a base empirista de Comte e, como tal, defendeu que a Sociologia deveria realizar um retrato fiel da realidade, baseando-se nos fatos que a compõem. Tal seria a condição necessária para se criar um conhecimento objetivo e plausível sobre as relações sociais. Por conta dessa preocupação formal e tendo como base tais premissas, a Sociologiase consolidou como disciplina autônoma. kArl mArx (1818-1883) Para Hegel, a evolução do processo histórico seria decorrente da tensão entre pares de pensamen- tos opostos (tese e antítese), que posteriormente seria solucionada por uma terceira tese, a síntese. Segundo o filósofo, haveria uma força que movimenta o curso da história. A essa força, Hegel dá o nome de “espírito do mundo” – uma espécie de somatório de todas as manifestações humanas que está em constante marcha rumo a uma autoconsciência e a um autodesenvolvi- mento cada vez maiores. Para Marx, entretanto, Hegel estaria equivocado: além de criticar o caráter transcendental da filosofia he- geliana, Marx afirmou que não seriam a cultura ou os pensamentos humanos – os pressupostos espirituais de Hegel – os responsáveis por criar condições suficientes para uma transformação nas condições materiais de uma determinada sociedade. Para ele, essa relação se daria de maneira contrária: são fundamentalmente as transformações de natureza material que possibilitam o surgimento de novos pressupostos espirituais. Em úl- tima instância, são as forças econômicas os principais determinantes do avanço da história; são as relações e as condições materiais que apontam seus rumos. Cada etapa histórica, afirma Marx, é marcada por um modo de produção e suas peculiaridades. Às relações materiais de uma sociedade, Marx de- nomina infraestrutura. As instituições políticas, religiosas e morais, a reflexão filosófica e até a produção artística de uma sociedade, Marx chama de superestrutura. Na análise social marxista, a infraestrutura, isto é, as relações mate- riais, são como os pilares fundamentais de todas as ideias e pensamentos existentes em uma sociedade. A superes- trutura não passa, portanto, de mero reflexo de sua base (a infraestrutura). Marx escreve que a infraestrutura é composta por três níveis distintos: § As condições de produção, isto é, as matérias- -primas ou recursos naturais disponíveis em uma sociedade – que por si só já seriam res- ponsáveis por determinar o tipo de produção empregada por um país. Um país com terras férteis pode produzir itens agrícolas que um país sem essas condições teria dificuldades para produzir, por exemplo. § As forças produtivas, ou seja, os tipos de fer- ramentas e máquinas disponíveis em uma so- ciedade (ou, em outras palavras, a tecnologia disponível). Como exemplo, podemos pensar que sociedades que dispõem de energia elétri- ca para sua produção tendem a ser bem dife- rentes de sociedades que ainda não a desco- briram. § Por fim, as relações de produção, isto é, quem detêm os meios de produção (máquinas, fábri- cas etc.) de uma sociedade e como o trabalho é dividido na mesma. Uma sociedade feudal, em que o senhor detinha todo o capital produtivo, por exemplo, tem características diferentes de uma sociedade capitalista moderna. Como vimos, Marx afirma que é o modo de produção de uma sociedade (a combinação entre suas condições de produção, forças produtivas e relações de produção) que determina as suas relações ideoló- gicas e políticas. A moral e os costumes de uma deter- minada sociedade são produtos da infraestrutura; por este motivo, é inconcebível, por exemplo, que hoje um pai determine com quem sua filha irá se casar – como se fazia na Idade Média, marcada pelo modo de pro- dução feudal. 74 a luta de classes A afirmação de que toda a infraestrutura de uma sociedade é determinada por sua classe domi- nante evidencia outro importante elemento da análise social marxista: a luta de classes. Para Marx, toda a história da humanidade pode ser contada pela pers- pectiva da luta de classes, isto é, pelas tensões e rela- ções conflituosas entre classes dominantes e classes dominadas. Somente mudanças na infraestrutura so- cial poderiam girar a roda da história; e estas mudan- ças, afirma, foram sempre conquistadas pelo choque entre estas duas classes. No feudalismo, por exemplo, a luta de classes teria se dado entre nobreza e campesinato. O cho- que decorrente daí teria possibilitado a superação do modo de produção feudal. Na sociedade capitalista, contexto em que se insere Marx, ela se daria entre burgueses (ou capitalistas) e proletariado. Em suma, é essa a visão marxista da história humana: trata-se do choque e da relação conflituosa entre os detentores dos meios de produção e aqueles que não os detêm. a alienaçãO dO trabalhadOr Pela maneira desigual que se dão suas relações de produção (dadas as vantagens dos capitalistas em relação ao proletariado, pelo fato de deterem os meios de produção), Marx analisa que o capitalismo teria uma terrível consequência: a alienação do trabalhador. Seguindo a tradição hegeliana, Marx identifica o trabalho como uma atividade extremamente positiva, a origem da condição humana. Ele alerta, entretanto, de que no modo de produção capitalista o trabalhador não trabalha para si mesmo; trabalha, sim, para o capitalista – o detentor dos meios de produção. Assim, o trabalho, tão intimamente ligado à condição humana, torna-se externo ao trabalhador. Ao alienar-se em relação ao seu próprio trabalho, o trabalhador aliena-se também em relação à sua própria humanidade. explOraçãO e mais-valia A partir do conceito de alienação do trabalhador, fica claro que, na visão de Marx, o modo de produção capitalista se apresenta como um grande inimigo da condição humana. Mas a alienação traria ainda mais consequências, segundo o autor. Uma vez alienado – e, portanto, incapaz de perce- ber sua condição humana –, o trabalhador perde a capa- cidade de se enxergar como parte essencial da produção capitalista (veremos, mais à frente, que na visão marxista é o trabalho o grande responsável por qualquer geração de valor). Sem essa consciência, a percepção do papel fundamental que desempenha no processo produtivo, o trabalhador se torna ainda mais vulnerável à exploração pela classe detentora dos meios de produção. Marx chama esta exploração de mais-valia – a diferença entre o valor gerado pelo trabalhador e a re- muneração que este recebe por seu trabalho. Em outras palavras, a mais-valia nada mais é do que o lucro aufe- rido pelo detentor dos meios de produção. É, também, a confirmação da exploração sofrida pela classe trabalha- dora; a consumação de um processo destrutivo causado pelo modo de produção capitalista. A reificação e o fetichismo da mercadoria de Marx Marx considerava que o valor real de uma mercado- ria poderia ser expresso pela quantidade de trabalho social despendido em sua produção. O modo de produção capi- talista, contudo, possuiria a terrível tendência a degenerar a relação identitária entre trabalho social e valor; ao alienar o trabalhador, roubando-lhe a própria condição humana, o capitalismo reduziria todas as formas de sociabilidade a meras relações de troca comercial, provocando a reificação (“coisificação”) das relações humanas. Se no capitalismo as relações sociais entre pes- soas se transformam em relações sociais entre merca- dorias (desumanizando-se, em uma economia de mer- cado o homem se relaciona apenas por meio de trocas comerciais), o papel que estas assumem na sociedade passa a ser de destaque. Já não se observa mais o valor de uso das mesmas, mas tão somente o valor de troca; é o triunfo do valor de troca sobre o valor de uso, con- sequência do modo de produção preconizada por Marx em sua obra. 75 Com esta inversão, o trabalho despendido na produção destas mercadorias fica em segundo plano, obscurecido pelos preços de mercado a que se sujeita o processo de troca comercial. Elimina-se a percepção do esforço social que se faz necessário para produzir um bem, e assume-se que este esforço se resume ao valor monetário pelo qual é trocado. De tal forma que as mercadorias, antes percebidas como mera produção hu- mana, são agora objetos com existência própria, inde- pendentes de qualquer esforçohumano. Personificam- -se, assumindo posteriormente caráter divino. Passam, em última instância, a determinar as relações sociais. Este é o conceito marxista de fetichismo da mercadoria, consequência final do capitalismo. A relação entre os conceitos de alienação, ex- ploração e mais-valia, reificação das relações sociais e fetichismo da mercadoria é intrínseca e fundamental para se entender a obra marxista. De ma- neira geral, pode-se dizer que a forma como o autor enxerga as relações sociais no sistema produtivo capi- talista é explicada, em grade parte, pela maneira como estes conceitos se relacionam entre si e os demais ele- mentos presentes em sua obra. mAx Weber (1864-1920) Como observador estudioso das sociedades, Weber analisa não as particularidades individuais, mas as estruturas de uma sociedade, utilizando para isso o método compreensivo. Assim o faz, por exemplo, quan- do procura nas transformações da sociedade romana as bases para a edificação da sociedade feudal ocidental europeia, em um esforço interpretativo do passado para o entendimento das mudanças posteriores. Sempre de- fendeu, sobremaneira, a utilização de uma visão parti- cularista do cientista social sobre a formação de uma sociedade, não deixando de lado os elementos mais gerais de tal formação, mas respeitando a história do processo. Max Weber Para Weber, a Sociologia é uma ciência que pretende entender a ação social. Esta é aquela que se realiza em um sentido pensado pelos indivíduos e que se refere à conduta de outros. Toda ação social tem cer- tos requisitos: I) o ator lhe dá um sentido; II) tal sentido se remete a outro. A inação também deve ser considera- da uma ação social, mesmo quando o indivíduo não es- teja dando-lhe sentido consciente. Mesmo diante dessa situação, o sociólogo pode interpretá-la. A realidade social, tomada em sua totalidade, para o sociólogo alemão, é incognoscível. Isso porque o investigador nunca consegue apreendê-la completa- mente, recorrendo a tipos ideais ao analisar um pro- cesso e compará-lo a outros. Os tipos ideais localizam o objeto de estudo e são meios de pensamento com o objetivo de dominá-lo teoricamente e empiricamente. Significa dizer que um conceito nunca pode refletir exa- tamente a realidade, sendo concebível apenas represen- tá-la a partir de alguns pontos de vista. A ação social pode tipificar-se em quatro tipos ideais: § ação afetiva: determinada por sentimentos, sendo essencialmente irracional; § ação tradicional: determinada por costumes arraigados que se reproduzem irracionalmente pelo hábito; § ação racional com relação a valores: a ação está determinada por um valor e se realiza pelo mesmo, independentemente de seus resultados; § ação racional com relação a fins: determi- nada pelos fins que perseguem, sendo predomi- nante na vida econômica. Para Weber, uma explicação que só detenha cau- sas materiais de seu surgimento é tão insuficiente e uni- lateral como uma que só aponte para as causas ideais. A realidade é multicausal e complexa. Nela, as diferentes ações sociais, por exemplo, encontram-se misturadas e não muito bem definidas. 76 A questão da dominação O autor define as dominações legítimas em três tipos ideais: § Dominação tradicional Devota-se a um patriarca ou senhor, que é colocado no governo segundo um costume ou tradição da população. É o caso, por exemplo, de monarquias hereditárias. Por ser pautada pelos costumes, a domi- nação tradicional tende a ser altamente estável. § Dominação carismática Apoia-se no caráter supostamente extraordinário do governante, sendo seu carisma o fundamento da legitimidade da dominação. Governantes carismáticos tendem a promover muitas inovações sociais políticas, mas contêm um caráter instável e provisório. Em caso de vacância ou morte do líder, esse tipo de dominação tende a ruir. § Dominação legal-racional É um fenômeno essencialmente da modernidade e se baseia em normas e regras racionalmente defini- das. Os direitos e deveres dos que mandam e obedecem estão sistematizados em leis escritas. Tendem a ser muito estáveis, mas pouco flexíveis diante de situações extraordinárias. É o caso das democracias modernas, por exemplo. Weber e a religião No livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber investiga sobre as “origens” do capitalismo, verifica qual a influência da religião na origem do moderno sistema econômico capitalista-industrial e mostra como se dá o progresso da racionalização no Ocidente, visando responder essas questões numa pers- pectiva específica da ética protestante. No capítulo III, “A concepção de vocação de Lutero”, Weber inicia discorrendo sobre como essa concep- ção se desenvolveu em Lutero; o mesmo vai afirmar que para se obter a salvação, não era necessário se retirar do mundo para rezar, mas o contrário, o indivíduo deveria permanecer na sua posição social, valorizando o cum- primento do dever dentro de sua profissão, pois era a única maneira de se agradar a Deus. É com Lutero que se difusa a ideia de que quanto mais as pessoas aceitassem as suas tarefas profissionais, mais aptas estariam para serem salvas, é nisso que se baseia a sua vocação. O conceito de vocação permaneceu em seu caráter tradiciona- lista, onde era aceito como uma ordem divina, em que cada um deveria se adaptar. É com as seitas protestantes que esse processo irá mais longe; são organizadas no capítulo IV, “Fundamen- to religioso do ascetismo laico”, onde Weber destaca quatro doutrinas como as mais importantes, sendo elas: calvinismo, pietismo, metodismo e as seitas batistas. 77 Segundo Max Weber “o calvinismo foi a fé em torno da qual giraram os países capitalisticamente desenvol- vidos – Países Baixos, Inglaterra e França –, onde moveram-se lutas políticas e culturais dos séculos XVI e XVII [...]” (p. 67). O dogma mais característico do calvinismo é a doutrina da predestinação: somente Deus, na sua sabedoria e bondade eterna, sabe e escolhe quem será salvo ou não. Nada do que o homem fizer por esforço próprio faz diferença: tudo depende de Deus. João Calvino A ética do trabalho influenciada pela religião acabou dando suporte nas origens do capitalismo. Com o passar do tempo, a busca inconstante pelo lucro se desligou da religião e se tornou independente. O problema da racionalização foi outra questão apontada por Weber, pois além do protestantismo ascético favorecer a origem do capitalismo, também favoreceu na racionalização da vida, em que as pessoas passaram a ser guiadas pelo sistema econômico. Os puritanos levaram mais adiante a racionalização do mundo do que os católicos, eles queriam tornar-se um profissional e todos tiveram que segui-lo. O ascetismo foi levado para fora dos mosteiros e transferido para a vida profissional, o que contribuiu fortemente para a formação da moderna ordem econômica, que determina de maneira violenta o estilo de vida de todo indivíduo nascido sob esse sistema. O ser humano, no puritanismo, é apenas guardador dos bens que lhe foram emprestados pela graça divina. Nesse caso, o indivíduo não pode se conformar com a pobreza, pois quanto maior a posse, maior é a manifestação da Glória de Deus; isso vem a demonstrar a racionalização no acúmulo de capital. Um dos componentes fundamentais do espírito do moderno capitalismo está na conduta racional baseada na ideia da vocação. Desde que o ascetismo começou a remodelar o mundo, os bens materiais assumiram uma enorme força sobre os homens, como nunca antes na História. “Hoje em dia – ou definitivamente, quem sabe – seu espírito religioso safou-se da prisão.” (WEBER, 2000, p. 131) Ao fim de sua obra, Weber destaca que ninguém sabe a quem caberá no futuro viver essa prisão de ferro capitalista. Da mesma forma, lança a pergunta se surgirão novos profetas para anunciar tais desenvolvimentos análogos entre religião e economia. Disponível em: <http://www.webartigos.com/artigos/resenha-a-etica-protestante-e-o-espirito-do-capitalismo/140191/> 78 theoDor ADorno (1903-1969) e mAx horkheimer (1895-1973) Max Horkheimer, Felix Weil e Friedrich Pollock foram os fundadores, junto à Universidade de Frankfurt, do Institut für Sozialforschung. Horkheimer assumiu a direção do Instituto de Pesquisa Social em 1930[1] [...] instalando-a na Filosofia e dando-lhe o nome de “Filosofia Social”. Propôs um ambicioso programa de pesquisa inter- disciplinar que tinha como referência teórica funda- mental a obra de Marx e o marxismo, inaugurando, assim, a vertente intelectual da “Teoria Crítica” NOBRE, Marcos. A Teoria Crítica. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. Quando assumiu a direção do Instituto, Horkheimer propôs um programa de trabalho que enfatizasse, so- bretudo, a interdisciplinaridade e por isso reuniu em torno de si, no Instituto de Pesquisas Sociais, especialistas das mais diversas áreas, como a psicanálise, representado na primeira geração por Erich Fromm; em filosofia, além de Horkheimer, Herbert Marcuse; havia também especialistas em artes: os dois principais foram Leo Lowenthal, que escreveu sobre cultura popular, cultura erudita e sobre a relação entre elas e Theodor Adorno; havia também espe- cialistas em Ciência Política e direito, teóricos como Franz Neumann e Otto Kirchheimer; e em Economia, teóricos como Henryk Grossmann e Friedrich Pollock, sendo a maior parte da concepção econômica da Escola de Frankfurt desenvolvida por este último. No campo intelectual, a sua maior contribuição foi ao estudo do Capitalismo de Estado, decorrente em parte de seus trabalhos sobre a Economia da URSS. É o que podemos chamar de materialismo interdisciplinar da Escola de Frankfurt: pesquisadores trabalhan- do em diferentes áreas do conhecimento (economistas, filósofos, cientistas políticas, psicólogos etc), tendo como horizonte comum a teoria marxista. Em seu texto “Teoria tradicional e teoria críti- ca”, provavelmente um dos mais importantes de todo o período da década de 1930, Horkheimer apresenta uma alternativa para se pensar criticamente a relação entre teoria e prática (Horkheimer, 1975). Essa alterna- tiva ficou conhecida como o materialismo interdiscipli- nar, um trabalho exercido em conjunto por diferentes perspectivas teóricas – filosofia, sociologia, psicanáli- se, economia, direito etc. – que se voltavam para as investigações sobre a sociedade, adotando aquela ati- tude da teoria com interesses práticos [...] MELO, Rúrion. Teoria Crítica e os sentidos da emancipação. Caderno CRH, Salvador, v. 24, n. 62, p. 249-262, maio/ago., 2011. Acessado em: 02/10/2015. O primeiro objetivo do Instituto e da Teoria Crítica foi, portanto, reunir pesquisadores de diferentes especialidades de forma interdisciplinar, tendo como referência comum o marxismo. Vale lembrar que com a toma- da do poder na Rússia com Lenin e Trotski à frente, foi fundada a União Soviética e esses acontecimentos demanda- vam uma explicação: a Guerra e a Revolução só podiam ser explicadas por essa teoria. Para compreender o mundo, Horkheimer julgava que se deveria partir do marxismo, mas, eis aí a novidade, refundindo-o com a incorporação de outros saberes. 79 Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer A questão do Capitalismo veio à tona com bas- tante ênfase, justificando a necessidade, para além dos aspectos econômicos, de compreender os demais fato- res atuantes na permanência de um regime que bene- ficia apenas uma minoria. E o marxismo é certamente a crítica mais contundente da sociedade capitalista. É preciso considerar que muitos desses teóricos perce- beram que a tradicional teoria marxista não poderia explicar adequadamente o turbulento e inesperado de- senvolvimento de sociedades capitalistas no século XX, colocando, por exemplo, em questão, a capacidade das classes trabalhadoras em levar a cabo transformações sociais importantes. Esta desconfiança os afasta pro- gressivamente do marxismo operário. Ao fazer a análise da Teoria Tradicional e for- mulando um novo modelo de Teoria Crítica orientada para a emancipação social, Horkheimer critica a teoria positivista e cientificista. Baseando-se em Max Weber, Horkheimer argumentou que as ciências sociais são di- ferentes das ciências naturais e, portanto, é necessário levar em consideração alguns aspectos para um melhor entendimento da realidade social, como por exemplo, o fato de que o pesquisador faz parte de um contex- to histórico cujas ideologias moldam o pensamento, fazendo com que uma teoria esteja muito mais em conformidade com as ideias na mente do pesquisador do que na própria realidade. Por isso, para Horkheimer, diferentemente do positivismo, as abordagens para o entendimento nas ciências sociais não podem simples- mente imitar aquelas das ciências naturais e a resposta apropriada para este dilema se daria a partir do desen- volvimento de uma “Teoria Crítica”. Na obra Dialética do Esclarecimento, Horkheimer e Adorno pretenderam lograr a realização de um diag- nóstico possível da sociedade contemporânea embora não se trate de um tratado filosófico, mas de reflexões em torno de algumas ideias estruturantes da sociedade industrial. Uma investigação que foi desenvolvida ex- plorando a relação dialética entre Mito e Razão, Na- tureza e Cultura, Civilização e Barbárie, que estrutura a dialética entre esclarecimento e obscurantismo. Vale ressaltar que a Dialética do Esclarecimento inicia com a questão do por que a humanidade “em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está afundan- do em uma nova espécie de barbárie”. (HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1983.). Theodor Adorno Nesta obra, os autores denunciam as estrutu- ras ideológicas da dominação política – referindo-se à crise da democracia e à ascensão dos regimes totalitá- rios na Europa, à corrida armamentista, o desenvolvi- mento da indústria bélica, além das injustiças sociais geradas pelo desenvolvimento do capitalismo. Todos esses problemas são interpretados como resultado da “crise da razão” e dos princípios Iluministas. Conforme registram os autores, o Iluminismo inaugurou a moder- nidade, ao colocar a razão e a ciência como elementos potencializadores do desenvolvimento e do progresso social; e, por conseguinte, da emancipação humana. 80 Ambos os filósofos, como o restante dos inte- lectuais frankfurtianos, não renegam o projeto da mo- dernidade – cujo núcleo é formado pela racionalidade e pela crença nos princípios do progresso científico –, mas argumentam que tanto a racionalidade quanto a ciência se transformaram em instrumentos de domina- ção política e econômica. A crítica da razão instrumental (Ação Racional com Relação a fins, nas palavras de We- ber) é justamente a crítica dirigida aos obstáculos e os impedimentos à concretização do projeto emancipador do homem, preconizados séculos atrás pelos filósofos iluministas. Além disso, notam os autores que, no mundo moderno, o avanço da ciência e da técnica é um pro- cesso inexorável. O progresso científico representou o domínio do homem sobre a natureza, mas se desvirtuou por completo ao ser utilizado para ampliar a dominação do homem pelo próprio homem. Theodor Adorno também é autor de importante estudo sobre a chamada Indústria Cultural a partir da análise crítica da obra de Walter Benjamin. Partindo da utilização da técnica (ciência e tecnologia) na produ- ção e reprodução das artes, em particular aquelas asso- ciadas à comunicação social (cinema, rádio, televisão, etc.), Adorno demonstrou que na sociedade industrial capitalista, a produção da arte é explorada como um “bem cultural”. A mercantilização da cultura, transformada em um empreendimento empresarial, tolhe a consciência dos indivíduos e ostransforma em meros consumidores de bens culturais. As consequências são muitas, dentre elas a homogeneização ou massificação dos gostos a partir da imposição de um estilo de consumo. Nesse as- pecto, não existe cultura de massa, pois é a indústria cultural que determina e impõe à sociedade o consumo de bens culturais. Como um empreendimento capitalista que per- segue o lucro, a indústria cultural também cria necessi- dades de consumo de bens culturais. Assim, o suposto potencial revolucionário ou emancipador de algumas artes, como o cinema, é flagrantemente criticado nos estudos de Adorno. Estes são alguns dos temas mais importantes da chamada primeira geração da Escola. A partir da década de 1960, com a morte de Adorno, inicia o que alguns chamam de segunda geração da Escola de Frankfurt, tendo como principal articulador o antes assistente de Adorno e, depois, seu crítico mais ferrenho: Jürgen Ha- bermas, com a sua teoria do agir comunicativo. 81 u.t.i. - sAlA 1. (UFU) Segundo Aron, para Marx, “o tempo de trabalho necessário para o operário pro- duzir um valor igual ao que recebe sob forma de salário é inferior à duração efetiva do seu salário”. ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 148. Com base no trecho, faça o que se pede. a) A proposição apresentada por Aron está li- gada a qual conceito dentro da teoria mar- xista? Explique esse conceito. b) Como este conceito, dentro da teoria mar- xista, pode ser desdobrado como absoluto e relativo? Explique esses desdobramentos, caracterizando-os e definindo-os. 2. (UFPR) O fragmento abaixo foi retirado do livro O que é Sociologia? e refere-se ao pen- samento do sociólogo Max Weber. A Sociologia por ele [Max Weber] desenvol- vida considerava o indivíduo e a sua ação como ponto-chave da investigação. Com isso, ele queria salientar que o verdadeiro ponto de partida da Sociologia era a compreensão da ação dos indivíduos e não a análise das “instituições sociais” ou do “grupo social”, tão enfatizadas pelo pensamento conserva- dor. Com essa posição, não tinha a intenção de negar a existência ou a importância dos fenômenos sociais, como o Estado, a empre- sa capitalista, a sociedade anônima, mas tão somente a de ressaltar a necessidade de com- preender as intenções e motivações dos indi- víduos que vivenciam estas situações sociais. A sua insistência em compreender as moti- vações das ações humanas levou-o a rejeitar a proposta do positivismo de transferir para a Sociologia a metodologia de investigação utilizada pelas ciências naturais. Não havia, para ele, fundamento para essa proposta, uma vez que o sociólogo não trabalha sobre uma matéria inerte, como acontece com os cientistas naturais [...]. Vivendo em uma na- ção retardatária quanto ao desenvolvimento capitalista, Weber procurou conhecer a fundo a essência do capitalismo moderno. Ao con- trário de Marx, não considerava o capitalismo um sistema injusto, irracional e anárquico. Para ele, as instituições produzidas pelo capi- talismo, como a grande empresa, constituíam clara demonstração de uma organização ra- cional que desenvolvia suas atividades dentro de um padrão de precisão e eficiência. (MARTINS, Carlos Benedito. O que é Sociologia? São Paulo: Brasiliense, 2011, p. 69 e 72. Coleção Primeiros Passos.) Com base nos conhecimentos sociológicos, caracterize a Sociologia na perspectiva we- beriana, discorrendo sobre os aspectos re- levantes dessa perspectiva apontados no texto-base. 3. (Uema) Émile Durkheim (1858-1917) é considerado um dos teóricos fundadores da Sociologia e definiu como objeto de estudo dessa nova ciência os fatos sociais, compre- endidos como “coisa”. O texto adaptado re- trata as características dos fatos sociais. Não somos obrigados a falar a língua do nos- so país, usar a moeda vigente ou adaptar- -nos à tecnologia moderna; mas se assim não o fizermos, nossas vidas serão um fracasso, portanto, não temos escolha, todos nós so- mos coagidos a acatá-las. Estas decisões não são determinadas individualmente, são exte- riores à nossa vontade, elas já estão prontas na sociedade. BOELTER, C.; PLUMER, E. Sobre o pensamento de Durkheim e Weber. In: TESKE, Ottmar (Coord.). Sociologia: textos e contextos. Canoas: Ed. Ulbra, 1999, p. 41. Adaptado. Explique as características dos fatos sociais, na visão de Émile Durkheim, contidas no texto acima. 4. (UEL) Leia o texto a seguir. O homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsci- ência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ou voltou a se perder. Mas o homem não é um ser abstrato, acoco- rado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. MARX, Karl. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005. p. 145. Na teoria do pensador Karl Marx, há um con- ceito que explica essa inversão da realida- de (por conseguinte, da consciência) e, em razão dela, da relação do sujeito (seres hu- manos) com aquilo que, objetiva e subjetiva- mente, ele produz. Com referência às ideias de Marx, responda aos itens a seguir. a) Qual é esse conceito? b) O que significa inverter a relação sujeito- -objeto? Explique como isso se manifesta na religião. 82 5. (UEL 2017) Max Weber é considerado pio- neiro em definir o Estado por duas caracte- rísticas fundamentais. A primeira é o mo- nopólio legítimo do uso da força física. A segunda reside no fato de que tal monopólio é restrito a determinado território. O contro- le das fronteiras, incluindo a permissão de quem pode adentrar e permanecer em seu território segundo aquelas características, seria prerrogativa do Estado. É necessário lembrar, entretanto, que o conceito de Esta- do elaborado por Weber é um tipo ideal. Com base nessas informações e nos aconte- cimentos da recente “crise migratória na Eu- ropa”, cujo fluxo de refugiados exemplifica alterações significativas dos papéis atribuí- dos ao Estado moderno, cite e explique um fato que se afasta do tipo ideal de Estado definido por Weber, apontando para algumas configurações recentes das ações ou reações dos Estados nacionais. 6. (UEL) Émile Durkheim considera o fato so- cial o objeto de estudo da Sociologia e pro- põe regras para explicá-lo. Duas dessas re- gras são formuladas da seguinte maneira: I. A causa determinante de um fato social deve ser buscada entre os fatos sociais anteriores, e não entre os estados de consciência individual. II. A função de um fato social deve ser sem- pre buscada na relação que mantém com algum fim social. DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. 5. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1968. p. 102. Com base nas regras I e II e nos conhecimen- tos sobre o fato social, explique como se dá a relação entre indivíduo e sociedade para Durkheim. Exemplifique essa relação. 7. Cada um desses estágios do desenvolvimento da burguesia se fez acompanhar do correspon- dente progresso político. Estamento oprimido sob a dominação dos senhores feudais, asso- ciação armada e autogovernante na comuna, ora república municipal independente, ora terceiro estamento tributável da monarquia; depois, à época da manufatura, contrapeso para a nobreza na monarquia estamental ou na absoluta, fundamento central de todas as grandes monarquias – a burguesia por fim conquistou para si, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, a exclusiva dominação política no moderno Estado representativo. O moderno poder esta- tal é apenas uma comissão que administra os negócios comuns de toda a classe burguesa. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Penguin Classics/ Companhia das Letras, 2012, p. 46. A partir do texto, responda: Para Marx, qual a relação entre sistema político e sistemaeconômico? 8. (UEL) Considere os trechos a seguir. A classe operária não pode apossar-se sim- plesmente da maquinaria de Estado já pron- ta e fazê-la funcionar para os seus próprios objetivos. MARX, Karl. A revolução antes da revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 399. Também do ponto de vista histórico, contudo, o “progresso” a caminho do Estado regido e administrado segundo um direito burocrático e racional e regras pensadas racionalmente, atualmente, está intimamente ligado ao mo- derno desenvolvimento capitalista. WEBER, Max. Parlamento e governo na Alemanha reordenada: crítica política do funcionalismo e da natureza dos partidos. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 43. Com base nos trechos, compare as concep- ções clássicas de Estado formuladas nas obras de Karl Marx e Max Weber. 9. (UFPR) Descreva dois dos principais aconte- cimentos históricos que favoreceram o surgi- mento da sociologia na Europa do século XIX. 10. (Unesp) Leia os textos. TEXTO 1 Ora, a propriedade privada atual, a proprie- dade burguesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apro- priação baseado nos antagonismos de clas- ses, na exploração de uns pelos outros. Neste sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: a abolição da propriedade privada. (…) A ação comum do proletariado, pelo menos nos países civilizados, é uma das primeiras condições para sua emancipação. Suprimi a exploração do homem pelo homem e tereis suprimido a exploração de uma nação por outra. Quando os antagonismos de classes, no interior das nações, tiverem desapareci- do, desaparecerá a hostilidade entre as pró- prias nações. Marx e Engels. Manifesto comunista. 1848. Texto 2 Os comunistas acreditam ter descoberto o ca- minho para nos livrar de nossos males. Se- gundo eles, o homem é inteiramente bom e bem disposto para com seu próximo, mas a instituição da propriedade privada corrom- peu-lhe a natureza. (…) Se a propriedade privada fosse abolida, possuída em comum toda a riqueza e permitida a todos a partilha 83 de sua fruição, a má vontade e a hostilidade desapareceriam entre os homens. (…) Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável. (…) A agressividade não foi criada pela propriedade. (…) Certamente (…) existirá uma objeção muito óbvia a ser feita: a de que a natureza, por dotar os indivíduos com atributos físicos e capaci- dades mentais extremamente desiguais, introduziu injustiças contra as quais não há remédio. Sigmund Freud. Mal-estar na civilização. 1930. Adaptado. Qual a diferença que os dois textos estabelecem sobre a relação entre a propriedade privada e as tendências de hostilidade e agressividade entre os homens e as nações? Explicite, também, a diferença entre os métodos ou pontos de vista empregados pelos autores dos textos para analisar a realidade. u.t.i. - e.o. 1. Em seu estudo sobre o suicídio, Émile Durkheim procurou chamar a atenção para a dimensão sociológica deste fato. Assim, “con- siderando que o suicídio é um ato da pessoa e que só a ela atinge, tudo indica que deva de- pender exclusivamente de fatores individuais e que sua explicação, por conseguinte, caiba tão somente à psicologia. De fato, não é pelo temperamento do suicida, por seu caráter, por seus antecedentes, pelos fatores de sua história privada que em geral se explica a sua decisão.[...]”. E complementa: “o suicídio va- ria na razão inversa do grau de integração dos grupos sociais de que faz parte o indivíduo.” O suicídio. Estudo de Sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. a) Explique os tipos de suicídio definidos por Durkheim. b) Discorra a respeito da relação estabelecida por Durkheim entre os tipos de suicídio e os tipos de solidariedade por ele definidos. 2. Qual o princípio da lei dos três Estados na teoria de Auguste Comte? 3. Segundo Augusto Comte, a sociedade huma- na deve passar por três estados: o teológico, o metafísico e, por último, o positivo. É nes- se último estado que, para Comte, a Sociolo- gia se torna tão importante. a) Qual a razão dessa importância? b) Esse tipo de argumento continua sendo vá- lido? 4. Explique qual a importância do conceito de coerção segundo Émile Durkheim e o concei- to de fato social. 5. (UEL) A análise do tema modernidade, por pensadores clássicos da Sociologia, está pre- sente também em autores contemporâneos, atentos às condições da sociedade atual. No século XIX, Karl Marx, em seu livro O mani- festo comunista, de 1848, refere-se à socie- dade burguesa de seu tempo como formação social em que tudo o que era sólido desman- cha no ar, tudo que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a enca- rar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas. MARX, K.; ENGELS, F. O Manifesto Comunista. In: COUTINHO, C.N. et al. O Manifesto Comunista: 150 anos depois. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998. p. 11. Zigmunt Bauman, em Confiança e medo na cidade, afirma que se, entre as condições da modernidade sólida, a desventura mais te- mida era a incapacidade de se conformar, agora – depois da reviravolta da moderni- dade “líquida” – o espectro mais assustador é o da inadequação. Temor bem justificado quando consideramos a enorme despropor- ção entre a quantidade e a qualidade de re- cursos exigidos por uma produção efetiva de segurança do tipo “faça você mesmo”. Adaptado de: BAUMAN, Z. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. p. 21-22. Com base nesses trechos e nos conhecimen- tos sobre modernidade, apresente: a) uma característica particular para Marx e uma para Bauman; b) duas características comuns para ambos os autores. 6. (UFU) Para Weber, a Sociologia é uma ciên- cia que procura compreender a ação social; a compreensão implica a percepção do sentido que o ator atribui à sua conduta. ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 465. 84 Em vista do exposto, faça o que se pede. a) Defina o que é ação social para Weber. b) Caracterize os quatro tipos puros de ação so- cial para Weber. 7. (UFF) Escrito em 1880, o livro de Friederich Engels, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, buscou discutir os limites do cha- mado Socialismo Utópico. Os filósofos do So- cialismo Utópico acreditavam que a partir da compreensão e da boa vontade da burguesia se poderia transformar a sociedade capita- lista, eliminando o individualismo, a com- petição, a propriedade individual e os lucros excessivos, todos responsáveis pela miséria dos trabalhadores. Como alternativa àquela corrente, Engels e Marx propunham o Socia- lismo Científico. Com base nessa informação: a) caracterize a alternativa proposta por Engels e Marx – o Socialismo Científico – em relação ao papel dos trabalhadores na transformação da sociedade. b) mencione uma proposta levada a efeito pe- los socialistas utópicos. 8. (Unesp) TEXTO 1 O positivismo representa amplo movimento de pensamento que dominou grande parte da cultura europeia, no período de 1840 até às vésperas da Primeira Guerra Mun- dial. Nesse contexto, a Europa consumou sua transformação industrial, e os efeitos dessa revolução sobre a vida social foram maciços: o emprego das descobertas científicas trans- formou todo o modo de produção. Em pou- cas palavras, a Revolução Industrial mudou radicalmente o modo de vida na Europa. E os entusiasmos se cristalizaram em torno da ideia de progresso humano e social irrefre- ável, já que, de agora em diante, possuíam- -se os instrumentos para a solução de todos os problemas. A ciência pelos positivistas apresentava-se como a garantia absoluta do destino progressista da humanidade. Giovanni Reale; Dario Antiseri. História da filosofia. 1991. Adaptado. TEXTO 2 O “progresso” não é nem necessário nem con- tínuo. A humanidade em progresso nunca se assemelha a uma pessoa que sobe uma esca- da, acrescentandopara cada um dos seus mo- vimentos um novo degrau a todos aqueles já anteriormente conquistados. Nenhuma fração da humanidade dispõe de fórmulas aplicáveis ao conjunto. Uma humanidade confundida num gênero de vida único é inconcebível, pois seria uma humanidade petrificada. Claude Lévi-Strauss. A noção de estrutura em etnologia. 1985. Adaptado. a) Considerando o texto 1, explique o que sig- nifica “eurocentrismo” e por que o conceito de progresso pressuposto pelo positivismo é eurocêntrico. b) Por que o método empregado pelo autor do texto 2 é considerado relativista? Como sua concepção de progresso se opõe ao conceito de progresso positivista? 9. (UFPR) Leia com atenção o fragmento abaixo. Segundo a citação de Maia e Pereira (2009, p. 7-8), retirada do livro Pensando com a Sociologia, “em seu famoso livro sobre as formas de fazer sociologia, Wright Mills uti- lizou a expressão ‘imaginação sociológica’. [...] essa imaginação poderia ser aprendida e exercida por qualquer pessoa educada que se mostrasse curiosa a respeito das relações entre biografia e história. Ou seja, a sociolo- gia não seria simplesmente uma disciplina acadêmica ou uma ciência ultrassofisticada, mas uma forma de argumento público capaz de revelar as conexões entre as transforma- ções na vida cotidiana e os processos mais amplos de mudança histórica”. Nas palavras de Wright Mills: “A ‘imaginação sociológica’ é um ato que permite ir além das experiên- cias e das observações pessoais para compre- ender temas públicos de maior amplitude. O divórcio, por exemplo, é um fato pessoal inquestionavelmente difícil para o marido e para a esposa que se separam, bem como para os filhos. Entretanto, o uso da ‘imagi- nação sociológica’ permite compreender o divórcio não apenas como problema pessoal individual, mas também como uma preocu- pação social. O aumento da taxa de divórcio redefine uma instituição fundamental – a família”. Cabe salientar que a ‘imaginação sociológica’ não consistiria simplesmente em aumentar o grau de informação das pes- soas, mas numa “[...] qualidade de espíri- to que lhes ajude a usar a informação e a desenvolver a razão, a fim de perceber, com lucidez, o que está ocorrendo no mundo e o que pode estar acontecendo dentro deles mesmos” (MILLS, 1969, p. 11). A imagina- ção sociológica é uma forma crítica de pen- sar em sociologia, que nos permite conectar a nossa experiência vivida (e a experiência vivida dos outros) no contexto mais amplo das instituições sociológicas em que ocor- re. A utilização da ‘imaginação sociológica’ se fundamenta na necessidade de conhecer o sentido social e histórico do indivíduo na sociedade e no período no qual sua situação e seu ser se manifestam. Mills também su- gere que “por meio da ‘imaginação socioló- gica’ os homens podem perceber o que está acontecendo no mundo e compreender o que 85 acontece com eles, como minúsculos pontos de cruzamento da biografia e da história, na sociedade” (MILLS, 1969, p. 14). MAIA, João Marcelo Ehlert; PEREIRA, Luís Fernando Almeida. Pensando com a Sociologia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. No fragmento de texto acima, o autor usa o divórcio para exemplificar de que forma as experiências individuais se conectam com as transformações sociais mais amplas. Com base nos conhecimentos sociológicos, carac- terize a “imaginação sociológica”, discorren- do sobre os aspectos relevantes dessa pers- pectiva apontados no texto-base, e mencione e explique outro fato social para exemplifi- car o raciocínio da “imaginação sociológica”. 10. (UFU) Considere a seguinte citação. É evidente que, tecnicamente, o grande Es- tado moderno é absolutamente dependente de uma base burocrática. Quanto maior é o Estado e principalmente quanto mais é, ou tende a ser, uma grande potência, tanto mais incondicionalmente isso ocorre. WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1982, p. 246. a) De acordo com a Sociologia de Max Weber, ex- plique a diferença entre poder e dominação. b) Cite os três tipos puros de dominação legíti- ma e explique cada um deles. C GEOGRAFIA H Geografia 10 1 U.T.I. MoviMentos da terra e coordenadas geográficas MoviMentos do Planeta Rotação Rotação é o movimento em que a Terra gira em torno de seu próprio eixo. Esse movimento acontece no sentido anti-horário e dura exatamente 23 horas 56 minutos 4 segundos, para ser concluído, sendo o responsável pelos dia e noites, pelas correntes marinhas e pela circulação atmosférica. Sem o movimento da rotação não haveria vida na Terra, já que este movimento desempenha um papel fundamental no equilíbrio de temperatura e composição química da atmosfera. O movimento de rotação da Terra ocorre de oeste para leste, ou seja, a porção Leste vê o nascer do sol primeiro que o Oeste. Como exemplo podemos citar o Brasil e o Japão, entre esses países a diferença de fusos horários é exatamente 12 horas. Translação O movimento de translação é aquele que o planeta Terra realiza ao redor do Sol junto com os outros plane- tas. O tempo necessário para completar uma volta ao redor do Sol é de 365 dias, 5 horas e cerca de 48 minutos e ocorre numa velocidade média de 107.000 km por hora. O tempo que a planeta leva para dar uma volta completa ao redor do Sol é chamado "ano". O ano civil, aceito por convenção, tem 365 dias. Como o ano sideral, ou o tempo concreto do movimento de translação, é de 365 dias e 6 horas, a cada quatro anos temos um ano de 366 dias, dia este que é acrescido ao nosso calendário no mês de fevereiro e que recebe o nome de ano bissexto. O movimento de translação é o responsável pelas quatro estações do ano: verão, outono, inverno e prima- vera, que ocorrem em razão das diferentes localizações da Terra no espaço. Afélio e periélio § Afélio: momento em que a Terra está mais afastada do sol. § Periélio: momento em que a Terra está mais perto do sol. influência das estações do ano 1. Solstício: período do ano em que os raios solares incidem perpendicularmente nos trópicos. Desenvolve as estações de verão e inverno, quando ocorre maior diferença em relação à duração da luminosidade do dia e da noite. 2. Equinócio: período em que os raios do Sol incidem perpendicularmente sobre o Equador. Nessa fase, podemos ter as estações intermediárias, outono e inverno, nas quais o dia e a noite apresen- tam a mesma duração. 89 coordenadas geográficas Linhas imaginárias (paralelos e meridianos) que dividem o Planeta com o objetivo de melhor precisar a localização. 1. Meridianos: linhas verticais que ligam o norte e o sul do Planeta. O meridiano principal chama-se Greenwich, que divide a Terra em leste e oeste. Com o espaço do meridiano principal, em relação a outro qualquer, temos a longitude. 2. Paralelos: linhas horizontais que circundam o Planeta. O paralelo principal se chama Equador, que divide a Terra em norte e sul. © C és ar da M ata /S ch äff er Ed ito ria l Equador Latitudes norte Latitudes sul Polo norte 90º N 0º G re en w ic h 180º Longitudes oeste Longitudes leste antimeridiano de Greenwich 0º MERIDIANOS PARALELOS Zonas de iluminação Para regionalizar as áreas similares quanto ao recebimento de luz solar, o globo terrestre foi classificado em três principais zonas de iluminação: zona tropical ou intertropical, zona temperada, dividido em norte-sul e zona polar, também com divisão Norte -Sul. § Zonas Polares: os raios solares atingem a superfície terrestre de maneira bastante inclinada, portanto, as temperaturas são as mais baixas da Terra. § Zonas temperadas: os raios incidem à superfície de forma relativamente inclinada em relação à zona intertropical, desse modo as temperaturas são mais amenas. § Zona tropical: áreas que recebem luz solar de forma praticamente vertical em sua superfície, o fato produz regiões com temperaturas elevadas, conhecida como zona tórrida do planeta. 0º 23º27' 4. Zona polar do Norte 5. Zonapolar do Sul 3. Zona temperada do Sul Círculo polar Ártico Círculo polar Antártico Trópico de Câncer Trópico de Capricórnio Equador 2. Zona temperada do Norte 1. Zona tropical 23º27' 66º33' 66º33' © C és ar da M ata /S ch äff er Ed ito ria l 90 fuso horário e noções de cartografia fuso horário Os fusos horários geralmente estão centrados nos meridianos das longitudes que são múltiplos de 15°; no entanto, as formas dos fusos horários podem ser bastante irregulares devido às fronteiras nacionais dos vários países ou devido à questões políticas (caso da China, que poderia abranger algo como 4 fusos horários, mas obriga todo o país a utilizar o horário de Pequim com evidentes distorções no oeste chinês, onde quando não é inverno o sol nasce por volta das nove horas da manhã). Todos os fusos horários são definidos em relação ao Tempo Universal Coordenado (UTC), o fuso horário que contém Londres quando esta cidade não está no horário de verão, onde se localiza o meridiano de Greenwich, o qual divide o fuso horário. PROJEÇÃO DE ROBINSON 70 140km0 0-1 +1 +2 +3 +4 +5 +6 +7 +8 +9 +10 +11 +12-2-3-4-5-6-7-8-9-10-11-12 0° 60° °021°06120° 180°180° 0°0° 30° 30° 30° 30° 60° 60° 60° 60° 90°90° 90° M er id ia no d e G re en w ic h (G M T) Equador Trópico de Câncer Trópico de Capricórnio Círculo Polar Antártico Círculo Polar Ártico Brasília Buenos Aires Cidade do México Lima Washington Los Angeles Ottawa Paris Madrid Londres Trípole Moscou Argel Reykjavik Adis Abeba Riad Cairo Luanda Nairóbi Niamei Cidade do Cabo Maputo Dacar Melbourne Jacarta Teerã Manila Bucareste Astana Nova Délhi Vancouver Bogotá Georgetown Seul Tóquio BeijingNova Iorque Sydney Hong Kong Berlim Cabo Verde Açores Is. Madeira Is. Canárias Is.Maldivas Is.Aleutas Is.Tonga Is. Malvinas Is.Havaí Is.Galápagos Is.Pitcairn Is.Fiji atad ed lanoicanretni ahniLodanoicarf oirároH Fonte: Atlas Geográfico. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1986. Adaptado. Fuso horário no Brasil § Primeiro fuso (UTC−2): Atol das Rocas, Fernando de Noronha, São Pedro e São Paulo, Trindade e Martim Vaz. § Segundo fuso – horário de Brasília (UTC−3): regiões Sul, Sudeste e Nordeste; estados de Goiás, To- cantins, Pará e Amapá; e o Distrito Federal. § Terceiro fuso (UTC−4): estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima, e a parte do Amazonas que fica a leste da linha que interliga Tabatinga e Porto Acre. § Quarto fuso (UTC−5): estado do Acre e a porção do Amazonas que fica a oeste da linha. 91 Brasil: fuso horário O CE AN O AT L NT IC O OCEANO ATLÂNTICO O C E A N O PA C ÍF IC O - 4:30 horas 30° O 30° O 40° O 40° O 50° O 50° O 60° O 60° O 70° O 70° O Linha do Equador 0° 10° S 10° S 20° S 20° S 30° S 30° S Trópico de C apricórnio PERU BOLIVIA ARGENTINA CHILE PARAGUAI VENEZUELA COLÔMBIA URUGUAI GUIANA FRANCESA SURINAME GUIANA PAAM BAMT GO PI MG AC PR RO MA TO RR CE SP AP MS RS PE PB SC AL ES RJ SE RN DF N S LO 0200 mk 004004 Escala 1:40 000 000 Projeção Policônica - 4 horas saroh 2-saroh 3 -saroh 5 - Fonte : IBGE. Disponível em: <http://mapas.ibge.gov.br/politico-administrativo>. Acesso em: Nov. 2014 cartografia Ciência que tem por objetivo a representação gráfica da superfície terrestre, confeccionando um mapa. 1. Definições de mapas e cartas Cadastrais: de 1:5.000 a 1:10.000; Topográficos: de 1:25.000 a 1:250.000; Geográficos: de 1:500.000 a 1:1.000.000. 2. Ferramentas importantes: Orientação e rosa dos ventos; Legenda: interpretação de símbolos. 3. Sensoriamento remoto: a técnica que se realiza através da separação física do sensor (câmera ou saté- lite) e a área de estudo, com objetivo de mapeá-lo posteriormente. 92 Projeções Arte ou efeito de representar as formas esféricas da Terra em um plano. 1. Projeção cilíndrica: paralelos e meridianos retos, formando ângulos de 90°. © Pearson Prentice Hall, Inc. Projeção cilíndrica de Mercator: conformante – mantém a forma dos continentes, mas distorce a área. © C és ar da M ata /S ch äff er Ed ito ria l Projeção cilíndrica de Peters: equivalente – mantém a área, porém modifica a forma. © Cé sar da M ata /Sc häf fer Ed ito ria l 93 2. Projeção cônica: paralelos círculos concêntricos; os meridianos são retas convergentes. © César da Mata/Schäffer Editorial 3. Projeção azimutal (plana ou polar): plano tangente sobre qualquer plano da esfera terrestre; se locali- zada em um dos polos, os meridianos serão retas convergentes no centro e os meridianos círculos concên- tricos. Equador Equador © Cé sa r d a M ata /S ch äff er Ed ito ria l Escalas Relação do tamanho real de uma área e sua diminuição para que possa ser representada em um plano. § Escala gráfica: é uma linha reta graduada, na qual se indica a relação da distância real com as distâncias representadas no mapa. Por exemplo: 1 cm = 100 km. § Escala numérica: representada por uma fração, na qual o numerador indica a distância no mapa, e o denominador indica a distância na superfície real. Uma escala 1:100 000 (um por cem mil) significa que a superfície representada foi reduzida 100 mil vezes. Nesse caso, 1 cm no mapa = 100 000 cm = 1 000 m = 1 km na realidade. 94 eleMentos do cliMa e fatores cliMáticos Diferença entre clima e tempo § Tempo: é o estado da atmosfera em determinado momento e lugar; § Clima: é a sucessão habitual de estados de tempos. atMosfera A atmosfera é formada por camadas gasosas sobrepostas com, aproximadamente, 1000 km de altitude. Aquecimento terrestre Apenas 51% do total dos raios solares emitidos chegam à superfície terrestre, o restante é absorvido pela atmosfera ou refletido pelas nuvens. 95 eleMentos do cliMa Radiação solar É a energia radiante emitida pelo Sol, em particular aquela que é transmitida sob a forma de radiação eletromagnética. Temperatura A temperatura atmosférica da Terra é resultado das ondas electromagnéticas que vêm do Sol. A variação de temperatura dependem de vários fatores, como o vento, a umidade do ar, a latitude, o ângulo de incidência do raio solar na superfície terrestre, etc. A temperatura revelada em registros meteorológicos é medida por termômetros que não estão expostos diretamente aos raios solares. Essa é conhecida como temperatura na sombra. Umidade É a presença de vapor d’água existente no ar (umidade absoluta). Umidade relativa é a relação entre a quantidade de vapor d’água presente no ar e a quantidade máxima que poderia haver numa mesma temperatura (saturação). Pressão atmosférica É a força exercida pelo ar em um determinado ponto da superfície. Está intimamente ligada à umidade do ar, temperatura, altitude e latitude. Velocidade e direção do vento Consiste na circulação atmosférica. Precipitação Fenômeno relacionado à queda de água do céu, em forma de chuva, neve ou granizo. Tipos de chuva § Chuvas convectivas Fonte: Jean-François Beaux. L'environnement; repêres pratiques. Paris. Nathan, 1998 96 § Chuvas frontais § Chuvas orográficas Fonte: Jean-François Beaux. L'environnement; repêres pratiques. Paris. Nathan, 1998 fatores cliMáticos § Latitude § Continentalidade/Maritimidade § Relevo § Vegetação § Correntes marítimas § Altitudes Massas de ar São partes da atmosfera (grandes bolsões de ar) que se formam em regiões de relativa homogeneidade e estão em constante movimento, carregando as características de temperatura e umidade de sua região de origem. Deslocam-se de regiões de alta pressão para regiões de baixa pressão. § Frentes frias: encontro de duas massas de ar, ambas frias, ou uma fria e uma quente. § Frentes quentes: encontro de duas massas de ar, ambas quentes, ou uma quente e outra fria. 97 Ventos alísios É o resultado da ascensão de massas de ar que con- vergem de zonas de alta pressão (anticiclônicas), nos trópicos, para zonas de baixa pressão (ciclônicas),no Equador, a chamada ZCIT (Zona de Convergência Inter- tropical), formando um ciclo. Fenômenos atmosféricos devastadores § Ciclones São fortes ventos carregados de umidade, com velocidade superior a 200 km/h. Ciclones tropi- cais ocorrem em regiões de baixa latitude e ci- clones extratropicais formam-se em regiões de elevadas latitudes. Quando acontece no oceano Pacífico ou no Índico, recebe o nome de tufão; quando se formam no oceano Atlântico, recebem o nome de furacão. § Tornados Provocados pelo forte deslocamento de vento em forma circular, com velocidade superior a 500 km/h. El Niño É o aquecimento superficial das águas do ocea- no Pacífico, como consequência do enfraqueci- mentos dos ventos alísios. La Niña É o resfriamento maior que o normal das águas do Pacífico, ocorre ao fim do fenômeno El Niño. Climas do Planeta § Clima equatorial § Clima tropical 98 § Clima desértico § Clima mediterrâneo § Clima temperado continental § Clima temperado oceânico § Clima subpolar § Clima polar 99 cliMas do Brasil Massas de ar que atuaM no Brasil Fonte: educação.globo.com/geografia Atuação das massas de ar no Brasil – Inverno e verão § Massa Equatorial Continental (mEc): quente e úmida; § Massa Equatorial Atlântica (mEa): quente e úmida; § Massa Tropical Continental (mTc): quente e seca; § Massa Tropical Atlântica (mTa): quente e úmida; § Massa Polar Atlântica (mPa): fria e úmida. cliMas Brasileiros Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/ mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado) Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/ mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado) 100 Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/ mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado) Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/ mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado) Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/mapas-Brasil-cli- ma.html>. (Adaptado) Fonte: <profwladimir.blogspot.com.br/2012/09/ mapas-Brasil-clima.html>. (Adaptado) 101 geoMorfologia do Brasil As variadas formas de relevo encontradas na superfície resultam da ação de forças endógenas (internas), como o vulcanismo, o tectonismo e os abalos sísmicos, responsáveis pela gênese do relevo, e/ou de forças exóge- nas (externas), como a ação da temperatura, chuva, vento, águas correntes, geleiras, seres vivos e antropogênicas, responsáveis pela esculturação do relevo. Classificações do Relevo § Aroldo de Azevedo: critério altimétrico § Aziz Ab'Saber: critério altimétrico e geomorfológico (erosão/sedimentação) 102 § Jurandyr Ross: critério altimétrico, geológico e estrutural Planaltos em: Bacias sedimentares 1 - Planalto da Amazônia Oriental 2 - Planaltos e Chapadas da Bacia do Parnaíba 3 - Planaltos e Chapadas da Bacia do Paraná Intrusões e coberturas residuais de plataforma 4 - Planalto e Chapada dos Perecis 5 - Planaltos Residuais Norte-Amazônicos 6 - Planaltos Residuais Sul-Amazônicos Cinturões orogênicos 7 - Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste 8 - Planaltos e Serras de Goiás-Minas 9 - Planaltos residuais do Alto Paraguai Núcleos cristalinos arqueados 10 - Planalto da Borborema 11 - Planalto Sul-Rio-Grandense Depressões 12 - Depressão da Amazônia Ocidental 13 - Depressão Marginal Norte-Amazônia 14 - Depressão Marginal Sul-Amazônia 15 - Depressão do Araguaia 16 - Depressão Cuiabana 17 - Depressão do Alto Paraguai-Guaporé 18 - Depressão do Miranda 19 - Depressão Sertaneja e do São Francisco 20 - Depressão do Tocantins 21 - Depressão Periférica da Borda Leste da Bacia do Paraná 22 - Depressão Periférica Sul-Rio-Grandense Planícies 23 - Planície do Rio Amazonas 24 - Planície do Rio Araguaia 25 - Planície e Pantanal do Rio Guaporé 26 - Planície e Pantanal Mato-Grossense 27 - Planície da Lagoa dos Patos e Mirim 28 - Planícies e Tabuleiros Litorâneos OCEANO ATLÂNTICO OCEANO ATLÂNTICO 0 N 450 km Formas de relevo Planaltos Relevo acima de 300 metros, onde o processo erosivo é predominante. Subdividem-se em: 1. Planaltos em bacias sedimentares 2. Planaltos em intrusões e coberturas residuais de plataformas 3. Planaltos em núcleos cristalinos arqueados 4. Planaltos em cinturões orogênicos Planícies Relevos abaixo de 100 metros, onde o processo sedimentar é predominante. Algumas delas: 1. Planície litorânea 2. Planície fluvial 3. Planície lacustre Depressões Superfície mais plana que os planaltos e mais baixas do que as áreas do entorno, onde o processo erosivo é predominante. Essas formas de relevo se apresentam no território brasileiro da seguinte forma: 1. Depressão periférica 2. Depressão marginal 3. Depressão interplanáltica Todas as depressões no Brasil são relativas (acima do nível do mar) 103 hidrologia e Bacias hidrográficas ciclo hidrológico § evaporação; § precipitação; § infiltração; § escoamento. Percolação Evaporação Precipitação Transpiração Fluxo subterrâneo Evaporação Precipitação Vapor transportado para terra �rme Oceano Rio Terra Lago Mares e oceanos § 71% do planeta é composto por águas oceânicas; § Oceano Pacífico, Atlântico, Índico e Glacial Ártico; § Oceanos regulam o mecanismo climático; § Mares abertos: ligados diretamente aos oceanos; § Mares continentais ou interiores: ligados restritamente; § Mares fechados: sem ligação com o oceano. 104 ondas e Marés § Ondas são movimentos de massas de água provocados pelo vento; § Maré é o movimento diário das águas que avançam e recuam, resultado de forças gravitacionais que o Sol e a Lua exercem sobre a Terra. LUA NOVA maré lunar maré solar LUA Maré Viva Lua em sigízia (Sol e Lua em conjunção) SO L QUARTO CRESCENTE LUA maré lunar maré sonar Maré Morta Lua em quadratura LUA CHEIA LUA maré sonar maré lunar Maré Viva Lua em sigízia (Sol e Lua em oposição) QUARTO MINGUANTE SO L SO L SO L maré lunar maré solar Maré Morta Lua em quadratura LUA correntes MarítiMas § Massas menores de água que se deslocam em várias direções, mantendo suas características de cor, salini- dade e temperatura; § Proveniente dos ventos e do movimento de rotação da Terra; § HN: seguem no sentido horário; § HS: seguem no sentido anti-horário. Correntes marítimas – temperatura e direção 105 degradação e Poluição Marinha Causas § Poluição dos rios; § Esgotos domésticos e industriais; § Deposição de resíduos radioativos; § Vazamento de óleo (maré negra); § Descarga de lama de drenagem. Prejuízos § Desequilíbrio ecológico que causa a mortandade de organismos e animais marinhos; § Contaminação de peixes e outros animais que serão consumidos por pessoas; § Morte de pássaros que se alimentam de peixes; § Litorais impróprios para o banho; § Degradação de regiões de mangues. águas continentais Origem dos rios § Pluvial; § Glacial; § Lacustre; Tipos de Foz 1. estuário 2. delta 3. mista Foz em estuário e foz em delta Lugares referenciais de um rio § Jusante: para onde a água corre (dependendo do ponto de referência); § Montante: de onde a água vem (dependendo do ponto de referência); Diferencia entra rede e bacia hidrofitográfica § Rede hidrográfica: é o conjunto formado por um rio principal e seus afluentes e subafluentes, mas não abrangem a área territorial por onde os rios correm; § Bacia hidrográfica ou de drenagem :corresponde à rede hidrográfica e sua área de capitação de água. Tipos de drenagem § Exorreica; § Endorreica; § Arreica; § Criptorreica; Modelagem do relevo § Ciclo de erosão fluvial: erosão, transporte e se- dimentação. Lagos § Formados por depressões ou falhas preenchidas por água de origem glacial. Poluição das águas § Expansão das atividades industriais; § Crescimento das cidades; § Diminuição das fontes de água potável; § Atividades mineradoras. 106 Bacias hidrográficas Brasileiras Bacia aMazônica § O rio principal nasce nos Andes (terrenos cristalinos); § 20 mil km de rios navegáveis, propícios ao desenvolvimento do transporte hidroviário,como o rio Madeira, Xingu, Tapajós, Negro, Trombetas e Jari; § A hidrovia rio Madeira opera de Porto Velho a Itacoatiara e transporta a maior parte da produção de grãos e de minérios da região; § Principais hidrelétricas: Belo Monte, Jirau e Santo Antonio. Bacia do são francisco § Nasce na Serra da Canastra (MG), corta o Sertão da Bahia e deságua no Oceano Atlântico; § Plenamente navegável até Petrolina; § Usinas hidrelétricas de grande porte: Paulo Afonso, Sobradinho, e Itaparica; § Transposição do São Francisco. Bacia do tocantins-araguaia § O rio Tocantins nasce em Goiás e desemboca na foz do rio Amazonas. Seu potencial hidrelétrico é aprovei- tado pela usina de Tucuruí (PA); § O rio Araguaia nasce na Serra das Araras (MT) e desemboca no rio Tocantins; § A construção da hidrovia Tocantins-Araguaia foi bastante questionada em razão dos impactos ambientais. Bacia do Prata § O rio do Prata é formado pelas bacias dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai. 1. Bacia do Paraná: maior potencial hidrelétrico instalado do país, que garante o abastecimento de ener- gia para a região Sudeste; 2. Bacia do Paraguai: amplamente navegável; 3. Bacia do Uruguai: pouco aproveitada para navegação e geração de energia pois exige muitos acordos internacionais para a realização de projetos. 107 Bacias secundárias § Paranaíba; § Paraíba do Sul; § Atlântico Sul; § Atlântico Leste. As 12 Regiões Hidrográ�cas Brasileiras Amazonas Tocantins-Araguaia Atlântico NE Ocidental Parnaíba Atlântico NE Oriental São Francisco Atlântico Leste Atlântico Sudeste Paraná Paraguai Uruguai Atlântico Sul Fonte: ANA - Agência Nacional das Águas, 2005 Bacias hidrográficas do Mundo Rios da África § Rio Nilo; § Rio Congo. Rios da Europa § Rio Reno; § Rio Pó; § Rio Volga; § Rio Ródano. Rios da América do Norte § Rio São Lourenço; § Rio Colorado; § Rio Mackenzie; § Rio Yukon; § Rio Mississipi; § Rio Missouri. doMínios MorfocliMáticos forMações florestais 1. Domínio das terras baixas florestadas da Amazônia (Floresta Amazônica) § clima quente e úmido; § relevo com predomínio de planícies; § floresta latifoliada (folhas largas); § ombrófila; § higrófila; § perene (sempre verde); § densa (de difícil penetração); § heterogênea; § biodiversa; § solos pouco férteis (pouco húmus e muito lixi- viado); § acelerado processo de devastação; § políticas de integração intensificaram os fluxos migratórios. 108 2. Domínio dos mares de morros florestados § clima quente e úmido; § relevo com predomínio de planaltos; § floresta latifoliada (folhas largas); § ombrófila; § higrófila; § perene (sempre verde); § densa (de difícil penetração); § heterogênea; § biodiversa; § ficou reduzida a menos de 7% da cobertura original. 3. Domínio do planalto das araucárias § clima frio e úmido; § relevo planáltico; § floresta subtropical aciculifoliada; § aberta (de fácil penetração); § homogênea; § restam apenas pouco mais de 10% da mata original; § solos férteis (terra roxa). forMações arBustivas 1. Domínio das depressões interplanálticas do semi-árido do nordeste § clima quente e seco; § relevo com predomínio de depressões; § vegetação xerófila e caducifólia; § solos ricos em sais minerais e pobre em húmus; § ocorrência de brejos em regiões mais úmidas; § produção de frutas; § rios intermitentes em sua maioria. 2. Domínio dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por mata galeria § clima tropical (chuvas no verão e estiagem no inverno); § relevo planáltico com chapadas; § solos com baixa fertilidade (alta concentração de alumínio); § 45% devastado em função da expansão agropecuária; § nascentes de rios importantes como o São Francisco. 109 forMação herBácea Domínio das Pradarias mistas do Rio Grande do Sul § clima frio e úmido; § terras baixas com colinas (cochilias) § vegetação de gramíneas; § imensa pastagem (favoreceu a pecuária de corte); § rizicultura. Formações complexas § Pantanal. § Mata dos Cocais. § Manguezais. Brasil: domínios morfoclimáticos Amazônico Cerrado Mares de Morros Caatinga Araucárias Pradarias Faixas de transição OCEANO ATLÂNTICO 0 280 km Fo nt e: cu rsi nh op re en em .co m .b r/g eo gr af ia 110 BioMas Formações florestais: vegetação com árvores de grande porte. § Floresta Amazônica. § Mata Atlântica. § Floresta de araucárias. Formações arbustivas e herbáceas: constituída por arbustos dispersos e isolados por vegetação rasteira § Cerrado. § Caatinga. § Campos. Formações complexas: ocorrem em áreas de tran- sição entre formações e apresentam características de duas ou mais dessas formações § Mata dos cocais. § Pantanal. § Mangue. Áreas protegidas no Brasil Unidades de conservação São espaços destinados à conservação de paisagens naturais. Existem unidades de uso indireto, onde os re- cursos não podem ser explorados. São elas: estação ecológica, monumento natural, parque nacional, refúgio de vida silvestre e reserva biológica. Outra categoria é a unidade de uso sustentá- vel (como a reservas extrativista), onde é permitido o uso racional dos recursos naturais. São elas: área de proteção ambiental, área de relevante interesse ecológico, floresta nacional, reserva de desen- volvimento sustentável, reserva de fauna, reser- va extrativista e reserva particular do patrimô- nio natural. ProBleMas aMBientais no Brasil ProBleMas urBanos § Poluição atmosférica; § Efeito estufa; § Inversão térmica; § Chuva ácida; § Ilha de calor; § Carência de áreas verdes; § Problemas no abastecimento de água e poluição dos rios. ProBleMas no esPaço agrário § Agrotóxicos; § Poluição do solo; § Perda de nutrientes; § Desertificação 111 u.t.i. – sala 1. Defina solstício e equinócio? Como esses fenômenos relacionam-se na dinâmica climática? 2. Compare as projeções cilíndricas de Mercator e de Peters com o contexto histórico que foram cria- das e destaque as suas respectivas distorções. 3. Explique qual a diferença entre tempo e clima e quais são os principais fatores modificadores do clima. 4. Defina o que são domínios morfoclimáticos e bioma. Cite três domínios existentes no Brasil, bem como suas particularidades, definindo também as áreas de transição entra um domínio e outro. 5. Explique como se dá a origem dos rios e como acontece o trabalho de modelagem do relevo à partir deles. 6. (UFRJ) As “ilhas de calor” As imagens de satélite constituem hoje um instrumento essencial ao conhecimento das mudanças ambientais que ocorrem na superfície da Terra. As figuras a seguir são da cidade de Atlanta (EUA) e foram feitas pela NASA em 2000. A partir da observação das figuras, aponte dois fatores responsáveis pela formação de “ilhas de calor” em áreas urbanas. 7. (UEG) Historicamente, os rios tiveram um papel importante na formação de centros urbanos, tanto pelo abastecimento de água como por ser um meio de transporte que favorecia as trocas de merca- dorias, sobretudo de produtos agrícolas. Entretanto, ao longo do tempo, os rios passaram a ser utilizados como rede de esgoto. Discorra sobre dois problemas socioambientais decorrentes do uso inadequado dos recursos hídricos em áreas urbanas no Brasil. 112 8. Cerca de 95% do mercado nacional de gesso é abastecido pelos depósitos de gipsita existentes na bacia do Araripe, no sertão nordestino. No Brasil, o processo de produção de gesso consome grande quantidade de energia proveniente da queima da lenha e do carvão vegetal, extraído do bioma caatinga. a) Apresente uma característica da caatinga que a diferencia das demais formações vegetais brasileiras. b) Aponte uma consequência ambiental do desmatamento da caatinga. 9. Diferencia as 3 principais classificações do relevo brasileiro e quais foram os critérios utilizados por cada autor. 10. Explique as formas de relevos brasileiros, suas definições com enfase na hipsometria e nos proces-so exógenos predominantes. 113 u.t.i. – e.o 1. Mapa de fuso horário Fonte: <www.estudopratico.com.br/wp-content/uploads/2013/01/fuso-horario-mapa-conceito-em-geografia.jpg> Um fotógrafo sai do Rio de Janeiro às 18:00 hs do dia 1º (sábado), em direção à Hong Kong. A duração do voo foi de 12 horas. Que horas será no Rio de Janeiro quando essa pessoa chegar no seu destino? 2. Os climogramas abaixo representam dois tipos climáticos que ocorrem no Brasil. Observe-os e responda: a) Quais são os tipos de clima nas localidades A e B? b) Discorra sobre as características dos dois climas e quais são as massas de ar que atuam nessas loca- lidades. 3. O sabiá no sertão Quando canta me comove Passa três meses cantando E sem cantar passa nove Porque tem a obrigação de só cantar quando chove “Chover, ou invocação para um dia líquido” Mas o povo que sente na pele os efeitos diretos desse calor – extensivos à economia regional, pela ausência de perenidade dos rios e de água nos solos – não tem dúvida em designá-lo simbolicamen- te por “verão”. Em contrapartida, chama o verão chuvoso de “inverno”. Tudo porque os conceitos tradicionais para as quatro estações somente são válidos para as regiões que vão dos subtrópicos até a faixa dos climas temperados, tendo validade muito pequena ou quase nenhuma para as regi- ões equatoriais, subequatoriais e tropicais. AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003, p. 85. 114 Como bem exemplificou o professor Aziz Ab’Saber, os sertanejos costumam chamar o verão de in- verno porque, irregularmente, a Massa Equatorial Continental traz chuvas esporádicas à região. A partir do texto e da música do grupo “Cordel do Fogo Encantado“, explique a origem da mancha se- miárida no Nordeste brasileiro e o por quê desse deficit hídrico, já que a mEc é uma massa úmida. 4. Os homens que vivem ao longo dos igarapés foram fadados a conviver com as sombras e a solidão. Trabalharam ou trabalham para alguém que mal conhecem. Na qualidade de serem gregários, para garantir um tributo básico da condição humana, transformaram os igarapés em caminhos vicinais. O “caminho da canoa” do índio tornou-se a via vicinal dos amazônides, oriundos de muitas pro- cedências étnicas e subculturas em contato. Ninguém melhor do que Euclides da Cunha conseguiu fixar o drama dos habitantes da beira dos igarapés, tal como está gravado em seus escritos, como o Judas Asverus, de “A Margem da História”. AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003, p. 73. Com base no texto, responda: A qual domínio morfoclimático o texto se refere? Explique suas principais características, levando em consideração os três patamares de vegetação existentes. 5. A partir do perfil topográfico e geológico abaixo e de seus conhecimentos, responda: a) Quais compartimentos regionais de relevos são indicados pelos números 1 e 2? b) Explique a formação desses compartimentos. 6. Observe a figura que mostra o esquema de circulação geral da atmosfera e responda: a) O que são ventos alísios e contra alísios? b) Qual é a relação dos ventos alísios com o fenômeno El Niño? 7. Dentre as estratégias de aproveitamento dos recursos hídricos superficiais do Nordeste Brasileiro, admite-se a transposição de águas entre bacias hidrográficas. Sobre este tema, resolva os itens a seguir. a) Indique dois possíveis projetos de transposição de águas entre bacias hidrográficas, que são discutidos na mídia. b) Descreva dois prováveis impactos ambientais negativos resultantes desses projetos. 115 8. (Unesp) No mapa estão indicadas as principais correntes marítimas. Explique a influência da corrente do golfo no Atlântico Norte sobre a Europa ocidental, e desta- que os motivos das cidades de Londres e Paris terem invernos mais amenos do que Montreal e Nova Iorque. 9. (UFPR) A bacia hidrográfica como unidade de análise ambiental tem ganhado destaque, o que pode ser exemplificado com o caso do Brasil, onde, nas últimas décadas, ela tem sido considerada um importante recorte espacial para o planejamento e para diagnósticos ambientais. Explique o que é uma bacia hidrográfica, apresentando os elementos que a compõem, e justifique por que ela é utilizada como recorte espacial para diagnósticos ambientais. 10. (Uerj) O potencial de produção de energia hidrelétrica está relacionado a um grupo de fatores na- turais que interferem na construção de barragens em bacias hidrográficas. Observe no mapa abaixo a localização das dez principais bacias hidrográficas brasileiras: Considerando as características socioambientais da bacia I, cite duas consequências negativas oca- sionadas pela construção de hidrelétricas nessa área. Indique, ainda, dois fatores que favorecem a geração de energia elétrica nas usinas instaladas na bacia V. 116 C GEOGRAFIA H Geografia 20 1 U.T.I. Correntes do pensamento geográfiCo CiênCia e geografia Espaço como objeto de estudo. PrinCíPios da geografia 1. Princípio da extensão: refere-se a uma área em que se estuda o fato geográfico (importância da carto- grafia); 2. Princípio da analogia: comparação de uma área com outras (buscando semelhanças ou diferenças); 3. Princípio da conexão ou interação: relação dos fatos físicos e humanos; 4. Princípio da atividade: dinamismo da paisagem. esPaço geográfiCo 1. Relação da sociedade com a natureza. 2. Importância do Estado e a conjuntura técnico-científico-informacional na configuração do espaço contem- porâneo. Correntes de pensamento da Geografia 1. Determinismo geográfico (final do século XIX) O homem é visto como resultado da ação do meio. 2. Possibilismo geográfico (começo do século XX) Influência recíproca entre o homem e o meio habitado; 3. Método regional (1940) Diferenciação de áreas. 4. Nova geografia/ geografia quantitativa (1950) Análise por meio de métodos matemáticos e análises estatísticas. 5. Geografia crítica (1960-1970) Orientação marxista e oriunda do processo de descolonização da África e da Ásia. Conceitos geográficos § Paisagem § Lugar § Território § Região § Espaço 119 geologia as Camadas da estrutura interna da terra Quanto à composição química: § Crosta § Manto superior § Núcleo externo § Núcleo interno Quanto à rigidez dos materiais: § Litosfera ou crosta terrestre § Astenosfera § Manto inferior § Endosfera A estrutura interna da Terra é representada em modelos baseados em dois critérios Litosfera Camada sólida da Terra, formada por minerais e rochas. É dividida em: § Crosta oceânica ou inferior SIMA (silicato de magnésio) de 30 a 70 km de espessura § Crosta continental ou superior SIAL (silicato de alumínio) de 4 a 8 km de espessura 120 Rochas São agregados naturais de minerais e formam a parte essencial da crosta terrestre. De acordo com sua origem, podem ser classificadas em: § Rochas ígneas ou magmáticas São formadas pela solidificação do magma. Exemplos: granito (plutônica ou intrusiva), que se solidificou lentamente, e o basalto (vulcânica ou extru- siva), que se solidificou rapidamente. § Rochas sedimentares São formadas pela deposição de sedimentos de origem mineral e orgânico. Exemplos: arenito, calcário e varvito. § Rochas metamórficas São formadas pela transformação de rochas preexistentes em consequência de alterações de pressão e temperatura, que reajustam a composição química e a textura das rochas. Exemplo: Calcário P+T Mármore (rocha sedimentar) → (rocha metamórfica) geologia do Brasil e exploração mineral Províncias geológicas São macroestruturas definidas pela idade geológica e pelos diferentes tipos de rocha, segundo seu processo de formação. São elas: § Escudo cristalino ou blocos cratônicos Formaram-se na Era Pré-cambriana, portanto, são antigos e bastante desgastados pela erosão. § Bacia sedimentar Inicialmente, formaram-se a partir da Era Paleozoica. § Dobramento modernoDatam da Era Cenozoica do período Terciário e sua origem se relaciona com movimentos tectônicos. São os terrenos de maiores altitudes do Planeta. 121 As macroestruturas no território brasileiro Escudos cristalinos § São formados por rochas cristalinas (magmáticas e metamórficas) muito resistentes à erosão; § Correspondem a 36% do território brasileiro; § Possuem importantes jazidas minerais, como ferro, ouro, manganês, alumínio, zinco e estanho, distribuídos pelos estados do Pará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Amapá e Rondônia. Exemplos: Serra dos Carajás (PA), Quadrilátero Ferrífero (MG), Maciço de Urucum (MS). Bacias sedimentares § São formadas por rochas sedimentares, que são menos resistentes à erosão do que as cristalinas; § Correspondem a 64% do território brasileiro; § Encontram-se importantes combustíveis fósseis, como petróleo, carvão mineral e gás natural. geomorfologia: forças estruturais e esCulturais Teorias que explicam os movimentos da Terra § Deriva continental § Tectônica de placas 122 dinâmiCa do relevo Os agentes modificadores do relevo são: Agentes estruturais (internos) § Tectonismo (orogênese e epirogênese) § Vulcanismo § Abalo sísmico Agentes esculturais (externos) § Intemperismo (desgaste) § Erosão (transporte) Tipos de intemperismo § Químico § Físico § Biologico Tipos de Erosão § Eólica § Pluvial § Fluvial § Glacial § Marinha § Erosão antrópica formas de relevo § Planície Todo relevo abaixo de 200 metros onde o pro- cesso sedimentar é predominante. § Planalto Todo relevo acima de 300 metros onde o proces- so erosivo é predominante. § Depressão Relevo mais plano que os planaltos e mais baixo do que as áreas do entrono. relevo marinho § Plataforma continental § Talude continental § Região pelágica § Região abissal solos Solo ou rigolito é a parte mais externa e não consolidada da litosfera, que recobre as formas de rele- vo e as estruturas geológicas. Sua origem está ligada ao processo de intemperização das rochas pelos agentes climáticos e biológicos e ao transporte desses fragmen- tos pela ação da gravidade. 123 solos e seus horizontes HORIZONTES DO SOLOS São as camadas paralelas à superfície do solo. O Camada de restos de plantas e animais na superfície do solo A Primeiro horizonte mineral do solo, mais escuro, por conter mais húmus que os horizontes B e C. B Horizonte formado por partes bastante desagregadas da rocha-mãe, estando abaixo do horizonte A. C Horizonte formado por partes pouco desagregadas da rocha-mãe, com presença de materiais que ainda estão se transformando em solo. R Rocha-mãe que, submetida ao intemperismo, se desagraga e se decompõe, dando origem ao solo. Fonte: slideplayer.com.br gruPos de solo § Latossolos § Litossolos § Podzólicos § Aluviões solos do Brasil § Terra roxa § Massapê § Salmorão § Solos aluviais Problemas no uso dos solos § Lixiviação § Laterização § Compactação § Salinização § Erosão proBlemas amBientais mundiais osCilação deCadal do PaCífiCo § É um fenômeno cíclico que consiste na variação de temperatura das águas do oceano Pacífico, sendo um dos fatores mais decisivos na dinâmi- ca climática em várias partes do mundo. Oscilação decadal do pacífico e linha de temperatura ciclo da ODP: 50 a 60 anos 124 El Niño § É um fenômeno climático que tem como consequência o aquecimento anormal das águas do oceano Pa- cífico tropical, que influencia a distribuição da temperatura da superfície da água e, consequentemente, o clima de várias regiões do mundo. El Niño La Niña § Provoca o resfriamento irregular das águas do Pacífico em virtude do aumento da força dos ventos alísios. 125 aqueCimento gloBal É o processo de aumento da temperatura mé- dia dos oceanos e da atmosfera da Terra causados por massivas emissões de gases que intensificam o efeito estufa, originados da ação antrópica. No meio científico, debate-se muito a respeito da existência e das possíveis causas do aquecimento global. grandes Biomas do mundo floresta troPiCal § Desenvolvem-se em baixas latitudes e próximas ao Equador; § Cobre 6% da Terra e abriga mais da metade das espécies de plantas e animais; § A grande produtividade biológica é resultado da alta radiação solar, temperaturas entre 18 e 30ºC e alto índice pluviométrico; § Dossel; § Estratificação; § Presença de sombra. Savanas § Regiões quentes da Austrália, América do Sul e África; § Chuvas mal distribuídas durante o ano; § Vegetação arbustiva, herbácea e espaçadas en- tre si. Floresta temperada § É encontrada entre os polos e os trópicos; § Floresta decídua caducifoliada; § Clima temperado com médias anuais moderadas e estações bem definidas; § O índice pluviométrico é bem uniforme durante o ano; § Solos abundantes em matéria orgânica; § Animais migratórios. 126 Campos § Ocorrem em todos os continentes, como as pradarias na América do Norte e os Pampas na América do Sul; § Vegetação herbácea; § É o bioma mais utilizado e transformado pelas ações antrópicas. Desertos § Reduzida precipitação em decorrência da loca- lização: a) áreas de alta pressão atmosféricas; b) atrás de altas cadeias de montanhas; c) região de influência de correntes marítimas frias; § Clima quente; § Grande amplitude térmica; § Vegetação rara e espaçada, com plantas que ar- mazenam água, como as cactáceas. Tundra § Localiza-se no Círculo Polar Ártico; § Inverno longo e rigoroso e verões curtos com temperaturas amenas; § Permafrost; § Vegetação gramínea, plantas lenhosas e liquens. Taiga § Constitui-se como um cinturão abaixo do Circulo Polar Ártico, que limita o domínio da tundra; § Possui duas estações bem distintas, com predo- mínio do inverno sobre o verão; § Floresta de coníferas; § Homogênea; § Alelopática. Chaparral § Distribuem-se em regiões com clima temperado ameno, como a Califórnia, México, litoral do mar Mediterrâneo, Chile e costa meridional da Aus- trália; § Vegetação arbustiva e árvores de pequeno e mé- dio porte, com folhas duras e grossas; § Micorrizas: associação entre fungos e raízes, que aumenta a chance de sobrevivência em condi- ções adversas; § Ocorrência de fogo. 127 Caatinga § Encontram-se na América do Sul, no sudeste africano e em algumas partes do sudoeste asiático; § Condições de umidade intermediária entre o deserto e a savana; § Vegetação herbácea e cactácea. Hotspots ambientais § São pontos ou manchas de extrema biodiversidade. § Dois fatores são críticos na escolha de um hotspot: 1. a existência de espécies endêmicas; 2. grandes taxas de destruição do habitat; 3. grande biodiversidade. Hotspots globais 128 antiga ordem mundial reordenação geoPolítiCa mundial 1. Fim da Segunda Guerra Mundial (1945) 2. Guerra Fria: Comunismo – União Soviética e China; Capitalismo – EUA, Europa ocidental e Japão; 3. Organizações militares: OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte: fundada em 1949 pelos países capitalistas; Pacto de Varsóvia: formado pela URSS, em 1955. 4. Momentos de tensão na Guerra Fria: Divisão da Alemanha; Construção do muro de Berlim – 1961; Espionagem: CIA e KGB; Crise dos mísseis em Cuba – 1961; Guerra da Coreia; Revolução Sandinista; Corrida espacial; Corrida armamentista. 5. Fim da Guerra Fria: Crise econômica e política na URSS; Revoltas em repúblicas socialistas (Ex.: Hungria e Polônia); Queda do muro de Berlim; Capitalismo mundializado; Crescimento da influência da ONU como poder mundial. O mundo bipolar: 1948-1991 129 nova ordem mundial A expansão do capitalismo gerou duas concepções do poder: § Ordem unipolar: poder centralizado nos EUA, devido, principalmente, a seu grande poder bélico; § Ordem multipolar: poder dos EUA estaria sendo dividido com a Europa (sobretudo a Alemanha) e o Japão. Nova Ordem Mundial tripolar PROJEÇÃO DE ROBINSON 70 140km0 0-1 +1 +2 +3 +4 +5+6 +7 +8 +9 +10 +11 +12-2-3-4-5-6-7-8-9-10-11-12 0° 60° °021°06120° 180°180° 0°0° 30° 30° 30° 30° 60° 60° 60° 60° 90°90° 90° M er id ia no d e G re en w ic h (G M T) Equador Trópico de Câncer Trópico de Capricórnio Círculo Polar Antártico Círculo Polar Ártico Brasília Buenos Aires Cidade do México Lima Washington Los Angeles Ottawa Paris Madrid Londres Trípole Moscou Argel Reykjavik Adis Abeba Riad Cairo Luanda Nairóbi Niamei Cidade do Cabo Maputo Dacar Melbourne Jacarta Teerã Manila Bucareste Astana Nova Délhi Vancouver Bogotá Georgetown Seul Tóquio BeijingNova Iorque Sydney Hong Kong Berlim Cabo Verde Açores Is. Madeira Is. Canárias Is.Maldivas Is.Aleutas Is.Tonga Is. Malvinas Is.Havaí Is.Galápagos Is.Pitcairn Is.Fiji atad ed lanoicanretni ahniLodanoicarf oirároH Fonte: Atlas Geográfico. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1986. Adaptado. Descolonização da Ásia e da África: Divisão norte-sul – desenvolvidos e subdesenvolvidos. 1. Países Centrais: países que concentram as sedes de grandes empresas globais, indústrias e bancos; Exemplos: EUA, grande parte dos países da Europa e Japão. 2. Países periféricos: baseados em economia agroexportadora / latifúndio; concentração de renda. Exemplos: parte dos países africanos, da América latina e Ásia. 3. Países semiperiféricos: possuem grandes concentrações de renda, mas em menor proporção, compara- dos aos países periféricos; patamar intermediário de bem-estar; conseguiram constituir uma densidade de industrialização significativa. Exemplos: Brasil, México, Argentina, Chile e Tigres Asiáticos. Índice de desenvolvimento humano (IDH): índice proposto pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). § Função – comparação da qualidade de vida entre os países. § Três dimensões: 1. Riqueza (ou renda per capita); 2. Educação; 3. Esperança média de vida (ou saúde). 130 u.t.i. – sala 1. Diferencie os processos geradores das for- mas de relevo (endógenos e exógenos). 2. Explique sucintamente como se dá o proces- so de formação dos três tipos de rocha exis- tentes, citando pelo menos um exemplo para cada uma delas. 3. Sobre a dinâmica interna da Terra, explique: a) Como se deu o processo de dobramento do Himalaia e quais as placas tectônicas envol- vidas? b) Quais são os tipos de placas existentes na litosfera? Explique-as. 4. Explique os processos exógenos na escultu- ração das seguintes feições de planaltos: a) Chapadas b) Cuestas c) Inselbergues 5. Cite e explique três problemas no manejo dos solos. 6. Disserte sobre a crise dos mísseis de Cuba, no contexto da Guerra Fria. 7. Sobre os eventos El Niño e La Niña, indique a área de ocorrência desses eventos, as carac- terísticas que os diferenciam e seus impac- tos sobre as regiões Nordeste e Sul do Brasil. 8. Descreva a principal área de ocorrência, as características climáticas, as características fisionômicas da vegetação e o tipo de explo- ração que se faz do bioma taiga. u.t.i. – e.o. 1. EROSÃO TRANSPORTE DEPOSIÇÃO SEDIMENTAÇÃO COMPACTAÇÃO ROCHA SEDIMENTAR O esquema acima é chamado de diagênese, que descreve o processo de formação das rochas sedimentares. Discorra sobre esse processo. 2. As bacias sedimentares se formaram a par- tir da era Paleozoica, entrando também pela Mesozoica e pela Cenozoica. Nesses terrenos, encontramos recursos combustíveis fósseis, como o petróleo, o gás natural e o carvão mineral. A partir dos seus conhecimentos, explique a formação do petróleo em áreas oceânicas. 3. A chuva é um dos agentes erosivos mais ati- vos, pois provoca enchentes e enxurradas. Dependendo do grau de intensidade das chuvas, ocorre erosão pluvial do tipo super- ficial, laminar, de sulcos e de ravinamento. A figura anterior representa um processo de erosão. Defina esse processo e explique por que ele ocorre. 132 4. Analise a charge e responda à questão a se- guir. Fonte: <http://3.bp.blogspot.com/- uMjY1GOwDic/TwM9u81ySLI/AAAAAAAADUE/ BxkMN-hoCYc/s400/image040.gif> O cartunista satiriza a ordem mundial do pós-Guerra Fria, cuja principal característica é a hegemonia do capitalismo mundializado. Descreva as diferenças dos países centrais e periféricos. 5. (UFU) Terceiro El Niño mais intenso da histó- ria vai durar até 2016 O fenômeno climático El Niño, que reapa- receu em março, deve durar até o segundo trimestre de 2016 e pode ser um dos mais intensos da história, segundo as projeções anunciadas nesta quinta-feira pelo Centro de Previsão do Clima (CPC) dos Estados Unidos. Disponível em: <www.correiodoestado.com.br/ciencia- e-saude/terceiro-el-nino-mais-intenso-da-historia- vai-ate-2016/257442/>. Acesso em: 20 fev. 2016. A partir do texto e de seus conhecimentos sobre o assunto, responda: a) Explique o fenômeno climático exposto e sua relação com os ventos alísios. b) Durante sua atuação, quais são as principais consequências ambientais e econômicas que o fenômeno apresentado desencadeia nas re- giões Nordeste e Sul do Brasil? 6. (Unesp) Analise o gráfico. Considerando as relações existentes entre condições climáticas, dinâmica hidrológica e distribuição dos biomas no planeta, faça uma comparação do nível médio dos ocea- nos e da distribuição das florestas tropicais e equatoriais nos momentos em que a tempe- ratura média do planeta alcançou um ponto de mínimo e de máximo no período destaca- do pelo gráfico. 133