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Enfermagem em Urgência e Emergência Incidentes de Múltiplas Vítimas e Desastres - O crescimento das cidades tem aproximado as populações das indústrias e de riscos de explosão ambiental, incêndios e incidentes com produtos perigosos; - A evidente mudança climática, com exacerbação do volume de chuvas, associada à ocupação de áreas de risco, tem determinado desastres frequentes. Introdução e definições Desastres não seguem regras. Prever hora, local e número de vítimas é impossível. Dessa forma, a estruturação de seu atendimento, seja em campo, seja no hospital, deve ser estabelecida previamente. Desenvolveu-se o atendimento pré-hospitalar, abreviando a percepção médica, selecionando as vítimas mais graves e interpondo as terapias vitais, a fim de que o maior sucesso fosse alcançado no ambiente hospitalar. A seguir, serão definidos alguns termos: Desastre: tanto natural como produzido pelo homem, pode afetar toda a comunidade. As comunidades são especialmente vulneráveis quando os sistemas locais e nacionais, principalmente os sistemas de saúde, são incapazes de fazer frente às consequências de uma crise, por conta de um aumento repentino da demanda. Os desastres podem ser naturais ou antropogênicos. Catástrofe: fenômeno ecológico, súbito e de magnitude suficiente para requerer assistência externa. Incidente: evento acidental ou deliberadamente causado. Acidente: evento indesejável e inesperado que causa danos pessoais, materiais e financeiros, de modo não intencional. Incidente de múltiplas vítimas (IMV): evento de qualquer natureza que determine um maior volume de vítimas em um pequeno lapso de tempo, de forma a comprometer os recursos habitualmente disponibilizados. Desastre de vítimas em massa: envolve um volume tão grande de vítimas que impõe níveis de racionamento de recursos e deve envolver mecanismo de evacuação ou redistribuição de vítimas para outras localidades, porque não podem ser tratadas localmente. Essa situação requer uma mudança de paradigmas na abordagem das vítimas. Em vez de fazer o melhor para cada um, propõe-se “fazer o melhor para a maioria”. Do ponto de vista operacional, o GRAU — Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências da Secretaria Estadual da Saúde (SES) desenvolveu uma classificação logístico operacional vs. área, para os eventos vivenciados pelo grupo, focando a transição APH-hospital: Desastre grau I (IMV): incidente em área de limites precisos e abordagem habitual para o sistema de APH, com a rede hospitalar a menos de 30 minutos do foco e ambulâncias suficientes para o transporte. Geralmente não necessita de Posto Médico Avançado (PMA), sendo prontamente atendido com possibilidade de adentrar o hospital dentro da “golden hour”. Ex.: incidentes com ônibus, deslizamentos pontuais etc. (incidentes em locais com agrupamento de pessoas ou de veículos coletivos). Desastre grau II (IMV): incidente em área de limites precisos, porém com tempo prolongado de chegada à rede hospitalar (> 30 minutos), determinado pela distância, insuficiência de ambulâncias ou outro (queda de barreiras, trânsito excessivo, insuficiência de transporte etc.). Nesse caso, é importante a montagem de um PMA, centralizando a observação das vítimas e iniciando terapias. À utilização de transporte aeromédico por asa rotativa tem grande valia no atendimento das vítimas vermelhas. Ex.: desastres em estradas, áreas rurais ou situações que determinem uma evacuação lenta das vítimas Desastre grau III: evento de dimensão ou disposição anormal, a ponto de determinar múltiplos incidentes críticos e não necessariamente contíguos. Impõe dispersão de equipes médicas próximas aos focos esparsos. À rede hospitalar pode ter dificuldade de acesso ou estar com a estrutura comprometida, podendo se fazer necessária a montagem de PMAs ou de pronto atendimento ou até de hospitais de campanha, devido à necessidade de um período de atuação mais prolongado junto às populações isoladas. Ex.: enchentes e deslizamentos atingindo diversos núcleos urbanos simultaneamente, gerando insuficiência de recursos gerais à população (desde alimentação e comunicação até energia). Desastre grau IV: evento de proporções catastróficas, gerando vítimas em massa e determinando comprometimento da rede hospitalar, por dano estrutural ou por demanda excessiva (não é comum no Brasil). Pode se fazer necessária a criação de hospitais de campanha e MASHs (mobile army surgical hospital), nas situações mais críticas. Ex.: terremotos de alta magnitude, tsunamis etc. Enfermagem em Urgência e Emergência Atendimento Pré-Hospitalar O atendimento às vítimas de desastres se divide em duas etapas: pré-hospitalar e hospitalar. Por tratar-se de evento imprevisível, todo o trâmite de montagem e organização é realizado instantaneamente. Compõe os seguintes eventos: organização, central de regulação, triagem no local, evacuação do local, posto médico avançado (PMA) e transporte para o hospital. Organização Quanto maior a grandeza do evento, mais robusto deverá ser o suporte do atendimento. Coordenação do Desastre: Defesa Civil lidera, integrando todos os setores envolvidos para desenvolver uma logística eficiente e coordenada. Segurança: Inclui policiamento e recursos técnicos (CETESB, Eletropaulo, IPT). Operações: Coordenadas pelo Corpo de Bombeiros, incluem bombeiros, médicos, enfermeiros, socorristas e operadores de maquinário especializado conforme necessário. Planejamento: Planeja ações, coleta dados e ajusta estratégias. Logística: Gerencia recursos, equipes, transporte e apoio às famílias. Finanças e Administração: Administra contabilidade e recursos financeiros. Central de Regulação Pode ser integrada à coordenação do desastre (como SICOE) ou regulada por uma central fixa (como SAMU, bombeiros). Sua finalidade é alertar, definir e comunicar os hospitais de destino dos pacientes e atender às demandas de recursos solicitadas pelo PMA ou pela equipe médica. Triagem no Local Objetiva selecionar rapidamente as vítimas para priorizar os mais graves, usando o método START (Simple Triage and Rapid Treatment) com classificação por cores. Realizada preferencialmente por bombeiros com EPI/EPR adequados em áreas instáveis. Profissionais de saúde só entram em locais perigosos se necessário e com EPI adequado. Falhas na triagem podem ocorrer devido a visibilidade comprometida, uso de EPI/EPR, estresse do avaliador e estado emocional das vítimas. Apesar disso, é um método eficaz para identificar casos graves primariamente. TERMO DESASTRE GRAU I DESASTRE GRAU II (IMV) DESASTRE GRAU III DESASTRE GRAU IV DESCRIÇÃO Incidente em área de limites precisos e abordagem habitual para o sistema de APH. Não necessita de Posto Médico Avançado (PMA). Incidente em área de limites precisos, porém com tempo prolongado de chegada à rede hospitalar. Necessita de montagem de PMA. Evento de dimensão ou disposição anormal, com múltiplos incidentes críticos não necessariamente contíguos. Necessita de estruturação de PMAs ou hospitais de campanha. Evento de proporções catastróficas, gerando vítimas em massa e comprometendo a rede hospitalar. Necessita de criação de hospitais de campanha ou MASHs. TEMPO DE CHEGADA À REDE HOSPITALAR Menos de 30 minutos Mais de 30 minutos Dificuldade de acesso ou estrutura comprometida Comprometimento da rede hospitalar EXEMPLOS DE EVENTOS Incidentes com ônibus, deslizamentos pontuais Desastres em estradas, áreas rurais Enchentes e deslizamentos atingindo diversos núcleos urbanos simultaneamente Terremotos de alta magnitude, tsunamis RECURSOS NECESSÁRIOS Ambulâncias suficientes, possibilidade de adentrar o hospital dentro da "golden hour" Posto Médico Avançado, transporte aeromédicopor asa rotativa Montagem de PMAs, hospitais de campanha Criação de hospitais de campanha, MASHs Enfermagem em Urgência e Emergência Classificação I (originalmente, vermelho): apresentam comprometimento respiratório (qualquer nível), avaliado como taquipneia ou bradipneia, ou comprometimento hemodinâmico, avaliado pela lentificação da perfusão tecidual e alteração do nível de consciência. Necessitam de suporte de vida imediata e rápido transporte para o hospital, respeitando a “golden hour”! Devem ingressar no hospital em menos de 1 hora após o incidente. II (originalmente, amarelo): vítimas sem critérios para vermelha, porém não deambulam o apresentam queimaduras menores, fraturas ou lesões que podem aguardar atendimento. Pessoas com esse nível de gravidade podem aguardar a transferência ao hospital por mais que 1 hora. IV (originalmente, verde): são vítimas que não apresentam lesões ou apresentam lesões leves, que permitem a mobilidade por meios próprios ou normais. III (originalmente, cinza): vítimas inviáveis (mortas). Evacuação do Local A evacuação é realizada preferencialmente utilizando pranchas e imobilização adequada, garantindo a retirada rápida de um grande número de vítimas em um curto período de tempo. Em situações onde pranchas ou tempo para imobilização são limitados, especialmente em ambientes com riscos locais, os protocolos de imobilização serão aplicados após a evacuação. Posto Médico Avançado Operação com radiocomunicação em faixa exclusiva, montado em situações de grande volume de vítimas ou previsível demora no transporte. Posicionamento na Zona Fria: − O PMA deve ser posicionado estrategicamente na zona fria, que é a área segura e controlada, próxima às ambulâncias e à rota de fuga. − Evita-se qualquer travessia de veículos entre a cena do incidente e o PMA para garantir um fluxo seguro e eficiente. − Além disso, o PMA deve estar localizado onde seja de fácil acesso para as vítimas provenientes do local do incidente. − A orientação do PMA deve ser tal que o sentido do vento sopre da direção do PMA para a zona quente, ajudando a evitar a exposição das vítimas a gases e fumaça. Os postos vermelho e amarelo são colocados próximos um do outro para facilitar reclassificação, enquanto o posto verde é posicionado mais distante para minimizar o estresse das vítimas. Identificação visual dos postos e equipe do PMA é essencial para organização, geralmente feita com coletes. O coordenador do PMA desempenha várias funções, incluindo destinar ambulâncias a hospitais específicos, liberar vítimas para o transporte e distribuir recursos médicos conforme necessário. Transporte para o Local O transporte para o hospital é crucial para a recuperação dos pacientes. O tempo necessário para evacuar as vítimas para receber tratamento definitivo depende de vários fatores, como a distância até o hospital, o tráfego, obstáculos no caminho, o tempo de retorno e a quantidade de vítimas em relação à disponibilidade de veículos. As vítimas graves devem ser transportadas com prioridade, e sempre que possível, acompanhadas por um médico na ambulância UTI. No entanto, se houver muitas vítimas e poucas ambulâncias UTI disponíveis, duas vítimas podem precisar ser transportadas em um veículo. Quando médicos são escassos, o PMA deve preparar as vítimas para o transporte, garantindo uma via aérea segura ou tratando um pneumotórax, por exemplo. Helicópteros médicos são úteis para vítimas graves, reduzindo o tempo até o hospital e possibilitando o transporte para hospitais mais distantes, aliviando a sobrecarga nos hospitais locais. Vítimas com estado moderado são transportadas preferencialmente em ambulâncias simples e aos pares, quando possível, para otimizar os recursos. Todos os detalhes do paciente, ambulância e hospital de destino devem ser registrados antes da saída do veículo. Vítimas com estado leve podem ser transportadas em qualquer tipo de veículo coletivo, como furgões, e seu transporte não é prioritário, a menos que haja uma grande quantidade delas e seja difícil controlá-las no local do desastre. É importante distribuir as vítimas entre vários hospitais para evitar a saturação dos hospitais próximos, pois cerca de 50% das vítimas chegam ao hospital dentro da primeira hora após o desastre. Incidente com Produtos Perigosos (PP) Refere-se como produto perigoso (PP) toda substância (sólida, líquida ou gasosa) que, quando fora de seu recipiente, Enfermagem em Urgência e Emergência pode causar riscos à saúde, ao meio ambiente ou ao patrimônio. A Resolução n. 420/2004 da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) relaciona cerca de 3.500 produtos perigosos. Diante de um provável incidente com carga, deve-se sempre suspeitar da existência de PP. É necessário atentar, com distância mínima de 50 metros, para ruídos de escapes gasosos, pessoas fugindo ou desorientadas, animais mortos ou em fuga e vegetação descolorida. Esses vestígios podem ser indícios de presença de tóxicos sistêmicos, irritantes e asfixiantes. Diante da suspeita de PP, deve-se tentar identificar o produto. Os caminhões portam uma placa com a identificação e dentro da cabine levam nota e descritivo do material. Em seguida, deve-se passar para a central a situação que for identificada, incêndio, vazamento, número de vítimas etc. Diferentemente do desastre sem PP, nesse caso o trabalho no local é executado por equipe devidamente treinada e trajada com EPI especial e EPR. Primeiro, a vítima é retirada da zona quente e despida. Na zona morna (em torno de 50 metros da zona quente, com vento contrário), inicia-se um processo de descontaminação com lavagem com água abundante, passando por várias estações e conforme o produto e os sintomas. À equipe médica poderá receber essas vítimas que saem da zona morna, pós-descontaminação ou excepcionalmente, se necessário for, atuando na zona morna, aplicando antídotos e realizando intervenções. Cabe lembrar que o pessoal que trabalha nas ambulâncias e no hospital deve inutilizar as roupas, bem como produto, e em seguida proceder à descontaminação dos locais. Atendimento Hospitalar Todos os hospitais devem ter um plano para situações de incidentes com múltiplas vítimas e desastres, previamente estabelecido e amplamente divulgado. O hospital precisa definir em que circunstâncias o plano será ativado, incluindo sua capacidade estimada de atendimento, número de leitos (incluindo os de terapia intensiva), número de salas cirúrgicas, número de respiradores, capacidade de funcionamento dos geradores em horas, capacidade do serviço radiológico, do laboratório, etc. A definição da capacidade de atendimento é uma das etapas mais complexas. Existem várias fórmulas propostas, utilizando-se o cálculo de salas cirúrgicas vs. número de respiradores vs. número de equipes cirúrgicas, entre outras variáveis. atendimento intacto: baixa demanda, quando o pronto- socorro não excede sua capacidade de atendimento; atendimento comprometido: alta demanda, quando o pronto-socorro excede sua capacidade de atendimento, necessitando de recursos adicionais, assim como outros locais para realizá-lo. A definição de capacidade do hospital depende mais de quão rápido as vítimas chegam, não apenas do número total de vítimas. Por exemplo, se muitas vítimas chegarem muito rapidamente (em poucos minutos ou horas), o hospital pode ficar sobrecarregado mais rápido. Se as vítimas chegarem aos poucos, o hospital pode tratar algumas e liberar espaço para novas vítimas. Há várias etapas para o correto funcionamento de um atendimento intacto: Plano de Incidentes e Desastres: Todos os hospitais devem ter um plano para incidentes com múltiplas vítimas e desastres, detalhando a capacidade de atendimento,número de leitos, respiradores, salas cirúrgicas, e outros recursos críticos. Centro Integrado de Comando Intra-Hospitalar: Este centro é ativado em situações críticas e gerencia a comunicação e coordenação entre as equipes de atendimento. Suas responsabilidades incluem o controle de atividades internas, acionamento de equipes, gerenciamento de capacidade de atendimento e interface com outras entidades. deve ser instalado na proximidade do local onde ocorrerá o atendimento inicial das vítimas e deve ser de estrutura piramidal. Cabe a essa central também a decisão de suspender cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais. Escala de Acionamento de Profissionais: Profissionais adicionais são acionados em cascata para garantir a disponibilidade de pessoal necessário. Equipes a serem Acionadas: Incluem equipes cirúrgicas, clínicas, de enfermagem, radiologia, banco de sangue, segurança, limpeza, farmácia, entre outras. Cada equipe tem um plano específico integrado ao plano geral do hospital. Banco de Sangue: Deve prover sangue e derivados conforme necessário, com mecanismos para acionar voluntários e aumentar as doações. Setor de Patologia Clínica e de Imagem: Realiza exames necessários e deve ter insumos de reserva para situações de desastre. A capacidade de realização de exames deve ser determinada. Administração: Responsável pelo funcionamento do prédio e suporte técnico, incluindo setores elétrico, mecânico e de engenharia. Equipes Médicas: Dividem-se em equipes cirúrgicas e de triagem hospitalar, garantindo que os recursos mais complexos sejam destinados aos pacientes mais graves. Assessoria de Imprensa: Gere o contato com a imprensa e coordena a comunicação externa. Registro: Anota e identifica as vítimas que chegam ao hospital, incluindo fotografias e descrição física, facilitando o reconhecimento e acompanhamento. Assistente Social: Acolhe as famílias e facilita o reconhecimento das vítimas. Insumos: Providenciar respiradores, materiais para cirurgias neurocirúrgicas, ortopédicas e tratamento de queimados conforme necessário. Heliponto: Hospitais com heliponto devem ter registro ativo na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), com coordenadas geográficas e características de construção prontamente disponíveis. Companhia de Engenharia de Tráfego (CET): grande movimentação de pessoas e automóveis no entorno do hospital no dia a dia, em incidentes de grandes proporções, torna-se necessário o acionamento da CET, para controlar o tráfego de acesso às cercanias do hospital. Todo hospital deve ter também plano de contingência para eventos dentro do próprio hospital, como incêndio, vazamento de produtos perigosos no laboratório, etc., e também de abandono (seguir regras do Corpo de Bombeiros). Enfermagem em Urgência e Emergência Pacientes em unidades de terapia intensiva, com ventilação mecânica e uso de drogas vasoativas, precisam de plano próprio para retirada. As diversas equipes devem conhecer rotas de fuga, que por sua vez devem estar claramente sinalizadas. É importante que os registros médicos sejam transferidos juntamente aos pacientes,