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OS FENÔMENOS DA DESJUDICIALIZAÇÃO E DA 
DESLEGALIZAÇÃO E AS DIFICULDADES DE INTRODUÇÃO DE UM 
NOVO PARADIGMA DE JUSTIÇA NO BRASIL 
 
THE PHENOMENA OF JUDICIALIZATION AND 
DELEGALIZATION AND THE DIFFICULTIES OF INTRODUCING A 
NEW PARADIGM OF JUSTICE IN BRAZIL 
 
Rafaela de Almeida Noble 
 
Resumo 
Desde o início da década de 70, o movimento de acesso à justiça conduziu-nos à busca de novas 
formas de solução de disputas, que auxiliassem na melhoria dos relacionamentos das pessoas 
envolvidas nos conflitos, por consequência ocorre a desjudicialização das demandas 
incentivada pelo poder judiciário. Ao passo que o fenômeno da deslegalização vêm crescendo 
em razão da incapacidade do Estado tutelar ações crescentemente complexas. Nesse contexto, 
os meios autocompositivos e extrajudiciais de solução de conflitos, como a mediação e a 
Arbitragem, surgem como importantes fatores de renovação do modelo judiciário tradicional. 
Os países europeus e norte-americanos apresentam uma trajetória mais consolidada de 
autocomposição de litígios. À luz desse referencial teórico, o Brasil enfrenta dificuldades para 
a implantação de um novo modelo de justiça. Desde a implementação de legislação, que 
conduziu a um conjunto significativo de experimentações com objetivo de criar um ambiente 
não adversarial, o obstáculo conhecido como a “cultura da sentença”, conforme refere Kazuo 
Watanabe, passou a ser o maior desafio para o poder judiciário. 
 
Palavras-chave: Mediação. Arbitragem. Desjudicialização. Deslegalização. 
 
Abstract 
Since the early 1970s, the access to justice movement has led us to search for new ways to 
resolve disputes that would help improve the relationships of those involved in the conflicts, 
resulting in the disenfranchisement of demands encouraged by the judiciary. . While the 
phenomenon of delegalization has been growing due to the state's inability to protect 
increasingly complex actions. In this context, the self-composing and extrajudicial means of 
conflict resolution, such as mediation and arbitration, appear as important factors of renewal of 
the traditional judicial model. European and North American countries have a more 
consolidated path of self-dispute settlement. In light of this theoretical framework, Brazil faces 
difficulties in implementing a new model of justice. Since the implementation of legislation, 
 
 Advogada. Mediadora Judicial. Mestranda no Programa de Mestrado em Direito Negocial da Universidade 
Estadual de Londrina – PR. Pós-graduada em Direito Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do 
Norte. E-mail: rafaelanoble@gmail.com 
 
which has led to a significant body of experimentation aimed at creating a non-adversarial 
environment, the obstacle known as the “sentence culture,” as Kazuo Watanabe points out, has 
become the biggest challenge for the judiciary. 
 
Key words: Mediation. Arbitration. Dejudicialization. Delegalization. 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
A privatização da justiça e a introdução de conceitos de desjudicialização promovidas 
pelo Estado, diante da sua incapacidade para gerir demandas. E ainda, o fenômeno da 
deslegalização em vista da velocidade da produção tecnológica e da globalização, têm levado à 
perda de centralidade e exclusividade da ordem jurídica estatal. (FARIA, 2017, s.p.). 
O estimulo à introdução de métodos autocompositivos decorre da necessidade do Estado 
de desafogar o judiciário, de modo que os juízes se ocupem apenas dos processos mais 
complexos e delegue aos cidadãos a tarefa de solução dos conflitos. 
Segundo João Carlos Leal Junior e Tânia Lobo Muniz (2012), a lentidão no trâmite 
processual causa desprestígio ao Judiciário e macula o fundamento existencial da tutela 
pretendida, porquanto sua duração desarrazoada, ocasionalmente, tem o condão de permitir o 
perecimento do bem da vida pleiteado. Essa situação afronta o direito fundamental à razoável 
a duração do processo e o direito humano de acesso à justiça, o que impõe a necessidade 
premente de tomada de medidas pelo Poder Público voltadas à alteração deste quadro. 
O paradigma legislativo do crescente processo de desjudicialização ocorreu com a 
edição da Lei nº 9.307 de 23 de setembro de 1996, a Lei da Arbitragem, que permite a resolução 
de conflitos por árbitros privados e a sentença arbitral produz os meus efeitos da judicial, 
observadas determinados critérios legais e desde que trate de direitos patrimoniais disponíveis. 
Mais tarde, visando disseminar a cultura da pacificação social e estimular a prestação 
de serviços autocompositivos, o Conselho Nacional de Justiça aprovou, em novembro de 2010, 
a Resolução 125, e, recentemente, o CPC/2015 e a Lei n. 13.140/2015 (lei de Mediação) 
passaram a enfatizar os meios consensuais entre os métodos de gestão de conflitos, instituindo 
a audiência de conciliação ou mediação como etapa obrigatória do procedimento comum (art. 
334 da Lei n. 13.105/2015 e art. 27 da Lei n. 13.140/2015) 
De fato, pode-se afirmar que o poder judiciário tem empregado esforços para mudar a 
forma como se apresenta, partindo da premissa que o Estado tem papel fundamental para a 
formulação de políticas públicas de resolução de conflitos, seja por meios autocompositivos 
como heterocompositivos (processo tradicional). 
Neste artigo, primeiramente referimos a crise no modelo tradicional de justiça e a 
introdução de meios alternativos de solução de disputas diante da incapacidade do Estado de 
acompanhar o dinamismo e a complexidade das relações, sob esta perspectiva avaliamos os 
obstáculos da mudança cultural da judicialização. 
 
1. A CRISE NO MODELO TRADICIONAL DE JUSTIÇA 
 
O desenvolvimento do Estado Democrático de Direito e garantias de acesso à justiça, 
impulsionaram o deslocamento do centro de decisões do Legislativo e Executivo para o 
Judiciário. Que passou a ser visto como único recurso do cidadão para a garantia de seus direitos 
não realizados pelos outros poderes. Essa perspectiva, aliada a complexidade das relações 
humanas, desencadeou uma crise do modelo tradicional de justiça. 
Ademais, a ordem jurídica – por demais ritualizada e dogmática, fulcrada no 
convencionalismo de sua lógica individualista e de sua racionalidade formal –, não conseguiu 
acompanhar o ritmo crescente de transformações aceleradas, da criação de constantes e maiores 
necessidades, de reivindicações por que passa a sociedade, representando normalmente o 
interesse exclusivo de uma minoria burguesa. A ordem jurídica já não consegue se comunicar 
a toda população, gerando entraves ao acesso do órgão estatal jurisdicional. (CAPPELLETTI; 
BRYANT, 2002). 
Conforme prelecionam João Carlos Leal Junior e Tânia Lobo Muniz (2012), em 
decorrência de fatores de ordens diversificadas, o Poder Judiciário brasileiro, instituição do 
Estado responsável pela resolução de conflitos de interesse por meio da prestação jurisdicional, 
vivencia, há muito, crise de proporções dramáticas. Anacronismo e inoperância, em razão 
especialmente de legislação desatualizada, falta de recursos humanos e excessivo formalismo, 
têm levado a um descrédito generalizado desta instituição, que, contraditoriamente, é 
oficialmente responsável pela garantia e realização dos direitos, quando violados, ou mesmo 
ameaçados, dos indivíduos. 
Um dos fatores que contribuiu para a crise do atual modelo de justiça é a morosidade da 
prestação jurisdicional, pois, quando finalmente se obtém a sentença, ambas a partes perderam 
em tempo, dinheiro e esforços. 
[...] el colapso por el que atraviesa la administración de justicia, com 
processos que se diltan interminablemente y en los que, cuando por fin se llega a 
sentencia definitiva, siempre ambas partes pierden en gastos, tiempo y esfuerzos. 
(Juan Pedro Colerio e Jorge A. Rojas (Caleria, J. P.; Rojas, J. A. Medíación 
obligatoria y audiencia preliminar. Buenos Aires: Rubinzal-Culsoni Editores, 1998, 
p. 10.) 
 
Conformerefere Adolfo Braga Neto (2014), a questão econômica, por seu turno, avança 
sempre, quer seja de forma positiva quer de maneira negativa. “Por isso, eventuais 
descumprimentos contratuais ocorrem por força de não atenderem ao dinamismo exigido pela 
economia a que estão intrinsicamente ligados". 
 
 Conforme preleciona José Eduardo Faria: 
Diante do policentrismo que hoje caracteriza a economia globalizada, o 
direito positivo e suas instituições perdem uma parte significativa de sua jurisdição. 
Como foram concebidos para atuar dentro de limites territoriais precisos, com base 
nos instrumentos de violência monopolizados pelo Estado, seu alcance ou seu 
universo tende a diminuir na mesma proporção em que as barreiras geográficas vão 
sendo superadas pela expansão da microeletrônica, da informática, das 
telecomunicações e dos transportes. E quanto maior é a velocidade desse processo, 
mais os tribunais passam a ser atravessados pelas justiças emergentes, quer nos 
espaços infra-estatais (os locais, por exemplo) quer nos espaços supra-estatais. 
(FARIA, 1997) 
 
De acordo com Faria (2017), “o Estado deixou de tutelar determinados comportamentos 
e situações e passou a fomentar a autorresolução de litígios, por parte dos diferentes setores 
sociais, econômicos e financeiros não regulados (unregulated spaces). 
O contexto atual, de grandes e velozes mudanças, com cenários internos e externos cada 
vez mais inconstantes, onde a conflitualidade é cada vez mais presente, tem-se a 
impossibilidade do Estado abrigar as diferentes situações do intrincado cenário globalizado, 
não restando outra saída a não ser buscar por mais céleres e efetivas. 
A crise enfrentada pelo judiciário induziu ao entendimento que o Estado não é mais 
suficiente para garantir a efetivação de direitos e solução de todos conflitos. Surgiram então 
soluções e instrumentos de pacificação social como única alternativa ao Estado, que 
ironicamente, passou a fomentar a desjudicialização. 
 
2. DESJUDICIALIZAÇÃO E DESLEGALIZAÇÃO 
 
Primeiramente, deve-se compreender que a desjudicialização e a deslegalização são 
fenômenos distintos. Enquanto a desjudicialização é fomentada pelo Estado para desafogar o 
judiciário em razão da alta taxa de judicialização de conflitos. A deslegalização acontecer a par 
da vontade do Estado, dada sua dificuldade de acompanhar a velocidade e complexidade das 
relações, em grande parte acelerado pela globalização. 
A desjuridificação ou deslegalização, como mencionado por Faria (2017, s.p.), se dá 
por meio de um processo de desformalização e desconstitucionalização de direitos e de criação 
de mecanismos alternativos de resolução de conflitos, que costuma ocorrer paralelamente à 
ruptura dos monopólios estatais, à alienação de empresas públicas, à privatização de serviços 
essenciais. 
Esse processo de flexibilização, com uma progressiva redução do grau de 
imperatividade do direito positivo, acarreta uma menor interferência das instituições públicas 
nas relações privadas. 
Desregulamentação e deslegalização não significam menos direito. Significam, isto sim, 
menos direito positivo e menos mediação das instituições políticas na produção de regras, em 
benefício de uma normatividade emanada de diferentes formas de contrato e da tendência dos 
diferentes setores da vida social e econômica à autorregulação e autocomposição de conflitos. 
(FARIA, 2010). 
O Estado preferiu agir no sentido inverso, consciente dos riscos de inefetividade de 
impor “as regras do jogo” em face da crescente internacionalização da decisão econômica e da 
lenta mas progressiva erosão de sua autoridade e de seu saber técnico, optou por abrir mão de 
parte de suas responsabilidades regulatórias (STREECK, 2013). 
Mudar esse arcabouço jurídico hoje, por maior que seja a desordem dos mercados 
financeiros e seu impacto sobre a economia real e sobre a sociedade, diante da dificuldade do 
direito positivo de prover solução de todos os problemas jurídicos, absorver e regular novos 
tipos de conflitos, dar conta da emergência de novas categorias de atores econômicos, sociais e 
políticos, neutralizar expectativas adversas e conter riscos sistêmicos, é difícil – se não 
impossível – (FARIA,2017, s.p.) 
Aqui, o Estado não age com base numa “concepção universalista do justo” e não indica 
fins, também não invoca doutrinas sofisticadas sobre o consenso. Valorizando o dissenso e 
convicto de que nem tudo pode ser resolvido pelo direito, uma vez que em ambientes sociais e 
econômicos cada vez mais complexos os interesses encontrar-se-iam amplamente fragmentados 
e especializados, ele se limita a impor fórmulas de cooperação e regras de negociação. 
(FARIA,2017, s.p.). 
Já a desjudicialização propicia as partes a defesa direta dos seus interesses, isso não 
significa que o Estado não irá intervir, pois a atuação das partes não é ilimitada e deve ser 
regulada. Porém, se opõe ao modelo de justiça em que todos os conflitos, seja de ordem privada 
ou pública, individual ou coletiva, são levados exclusivamente para o judiciário, sendo o maior 
obstáculo para sua efetivação. 
Cada vez mais urgente para a justiça brasileira, conhecida por ser lenta e cara, a 
desjudicialização é uma necessidade. O relatório Justiça em números do Conselho Nacional de 
Justiça (CNJ) 1aponta que temos tramitando no Brasil cerca de 78 milhões de ações, o tempo 
médio de tramitação de um processo de conhecimento é de 3,3 anos enquanto uma execução 
pode durar até 8,6 anos. Mas não é por falta de investimento, o custo com a justiça no Brasil 
pode chegar a 110 bilhões por ano. 
 
 
Os números refletem uma situação que se consolidou no Brasil e que é a de entregar ao 
Poder Judiciário a responsabilidade de decidir qualquer conflito de interesses. A consequência 
disso é que os tribunais estão sobrecarregados. Felizmente, essa é uma realidade que está 
mudando com a preocupação de promover a desjudicialização. 
Com isso, verifica-se que a deslegalização é um fenômeno que vêm ocorrendo no 
mundo, em razão do avanço da tecnologia e das relações interpessoais e comercias além das 
fronteiras. E desemboca na mesma solução adotada para a desjudicialização, ou seja, a adoção 
de práticas extrajudiciais e autocompositivas para suprir a incapacidade do Estado de legislar 
na mesma velocidade que a sociedade se transforma. 
 
 
1 Relatório Justiça em Números 2019 do Conselho Nacional de Justiça. Disponível em: 
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/justica_em_numeros20190919.pdf 
 2.1 A VANTAGEM DA ARBITRAGEM FRENTE AO PODER JUDICIÁRIO 
 
O movimento de flexibilização do direito positivo dá lugar ao uma normatividade 
proveniente de contratos privados, valorizando a autonomia da vontade, e cria um novo modelo 
de justiça privada, onde as partes negociam e as “regras do jogo” sem se submeter ao aparato 
Estatal. 
Nesse cenário, a vantagem da arbitragem frente ao Poder Judiciário substancializa-se 
em exemplos que vão além de efeitos casuísticos, como é o caso do sentimento de segurança e 
confiança gerado em influentes empresas estrangeiras do cenário global, no momento em que 
estas escolhem destinar investimentos e negociar com corporações nacionais tendo a certeza de 
que, valendo-se de cláusula - compromissória arbitral constante em contratos, poderão 
dispensar um dispendioso departamento jurídico, ou, de antemão, estarão cientes acerca da 
delimitada previsão temporal durante a qual perdurarão seus pleitos, o que facilita a percepção 
e gerenciamento de riscos diante de um cenário negocial instável, incerto e desarmônico. 
(POERSCHKE,2014) 
 Segundo afirma Vagner Poerschke (2014):''A arbitragem é um instrumento para quem 
quer negociar e para quem quer continuar negociando''. A Arbitragem é comumente utilizada 
em contratos internacionais, em razão da maior segurança jurídica que proporciona aos 
contratantes, onde é possível estipulara legislação aplicável, o julgador, o prazo para a solução 
de eventual questão, etc. 
O maior benefício, ainda que implícito, da arbitragem internacional revela-se no fato de 
que, além de pacificar eficazmente os conflitos particulares derivados de acordos e contratos 
empresariais, ao acioná-la preserva-se a diplomacia econômica e comercial entre as partes, a 
qual não seria possível depois de acirrados embates judicial de escala internacional. Esse fato 
favorável, indubitavelmente, gerará reflexos na possibilidade de negócios supervenientes e nas 
respectivas economias nacionais das quais são originárias, à medida que induz o não 
esfacelamento de parcerias frutíferas a investimentos. (POERSCHKE, 2014) 
Ainda Vagner Poerschke (2014), ao tratar da crise do capitalismo democrático, assevera 
que: “ao se aprofundar no termo diplomacia, nos deparamos com atributos embutidos em seu 
significado, tais como, cordialidade, confiabilidade, fidelidade, pacifismo, transigência etc.” 
Contudo, a eficaz decisão objetiva não extirpa resquícios de sentimentos não 
apaziguados nem o anseios imateriais que podem haver na relação entre os agentes 
empresariais, com a obtenção dos valores econômicos da demanda (POERSCHKE, 2014) 
Nesse sentido, diante da inafastável dimensão subjetiva das relações interpessoais de qualquer 
natureza, inclusive das que se desenvolvem no âmbito profissional das decisões econômicas, a 
mediação tem se mostrado mais eficaz que a sentença arbitral. 
 
2.2 A MEDIAÇÃO COMO ALTERNATIVA PARA A SENTENÇA 
 
 Além da utilização da arbitragem como forma de solução de conflitos de maneira célere 
e eficaz, a mediação traz a opção de negociação dos eventuais impasses que surgem de relações 
pessoais e comercial, com maior protagonismo das partes envolvidas. 
Desta forma, Fisher, Kopelman e Schneider (1996, p. 21) asseveram: (...) abandona-
se o foco em soluções estáticas e parte-se “em direção a uma atitude que põe ênfase no poder 
do desenvolvimento”. Nela, as diferenças são reconhecidas, aceitas e entendidas como 
necessárias, não para se imporem umas às outras, mas para construírem a diversidade saudável 
que produz, aperfeiçoa e traz a paz. 
Estudos demonstram que a solução criada pelas partes envolvidas no conflito traz maior 
percepção do justo, ou seja, quando as partes que constroem em conjunto os termos da decisão, 
elevam-se os índices de cumprimento do acordo. 
A mediação aplica-se a substancial parte dos conflitos (familiares, trabalhistas, 
societários, religiosos, étnicos, político-partidários, ambientais, etc.) porque, em essência, eles 
constituem conflitos de longa duração, entre pessoas que deverão manter algum tipo de 
relacionamento futuro; pode ser utilizada em um ambiente formal para dirimir querelas 
multimilionárias, ou [...] para solucionar um problema com os vizinhos. (ACLAND, 1993, p. 
18). 
Com base na atual legislação sobre Mediação ( Lei 13.14015) e no Código de Processo 
Civil, a mediação tem um raio de abrangência maior que a arbitragem, pois até mesmo os 
direitos indisponíveis são passiveis de mediação, basta que o acordo seja homologado 
judicialmente. 
De acordo com Rozane Cachapuz, “a mediação encontra respaldo em determinados 
princípios formadores de suas diretrizes básicas, entre os quais merecem enfoque, o da 
imparcialidade, credibilidade, competência, confidencialidade e diligência”, como instituto 
baseado em um acordo de vontades e no reconhecimento dos direitos humanos. 
O instituto da mediação “constitui um processo de transformar antagonismos em 
convergências, não obrigatoriamente em concordâncias, por meio da intervenção de um 
terceiro escolhido pelas partes.” (FIORELLI; FIORELLI; MALHADAS JUNIOR, 2008, p. 
58). 
Pode-se afirmar, portanto, que o nosso ordenamento jurídico atual é composto por vários 
procedimentos distintos. Buscou-se complementar o sistema processual, que era composto 
principalmente de processo heterocompositivo judicial, com processos autocompositivos mais 
eficientes. 
 
 3. O DESAFIO DA MUDANÇA DE PARADIGMA 
 
 Em realidade, apesar da mudança legislativa e do esforço do poder judiciário para 
implementar as práticas autocompositivas, no Brasil ainda temos uma cultura da judicialização 
dos conflitos, a falsa percepção que a decisão imposta por um terceiro, alheio ao problema, seria 
a mais acertada. 
 Há ainda grande resistência por parte dos advogados em aceitar essa nova proposta de 
justiça. Acostumados ao ajuizamento da causa desde logo, sem ao menos um contato prévio 
para tentativa de composição amigável. 
Alessandra Gomes do Nascimento Silva, autora do livro Técnicas de Negociação para 
Advogados, aponta: 
É bastante árduo defrontar-se com um colega advogado que não tem a mínima noção 
do que vem a ser negociar. Chega a ser irritante ouvir alardeando todas as medidas 
judiciais que poderá intentar, fazendo do encontro uma oportunidade para unicamente 
enfatizar o poder de sua tese jurídica. Isso sem falar nos ataques pessoais, a você e seu 
cliente. [...] Nunca ignore que a negociação é um processo que envolve seres humanos. 
Ainda que esteja em jogo uma transação empresarial, são pessoas que estão ali 
sentadas em volta da mesa tentando chegar a um acordo. (Silva, 2002, pg. 22 e 23). 
 
Infelizmente, nossos cursos jurídicos estão formatados para ensinar a litigar, são 
deixados de lado o estudo de técnicas de negociação e utilização de meios consensuais. O que 
se traduz no aumento desenfreado do número de demandas, a grande maioria de baixa 
complexidade. 
Nesse contexto, menciona-se a crítica elaborada por Cláudio Lemes Fonteles: 
 
“De plano impõe-se a atenção à formação universitária do advogado. As faculdades 
de direito deixam muito a desejar. 20.Em sua maioria entregues a “empresários do 
ensino”, fornecem - fornecem mesmo? - reduzidíssima aptidão profissional.[...]. Os 
bons propósitos, todavia, conturbam-se com o excessivo número de alunos em sala de 
aula: 70; 80; 90; 100; e mais de 100 alunos numa única classe!!![...]. Hoje, o fraco 
ensino, teórico e personalista, desvirtua claramente o fundamental papel reservado a 
esses profissionais, como operadores de transformação social na linha de formação de 
sociedade autenticamente democrática”. (Fonteles, 1996, p. 262-263) 
 
A esse respeito do tema, Jorge Rojas, Professor da Faculdade de Direito da Universidade 
de Buenos Aires, citado por Ivan Aparecido Ruiz, afirma que os advogados não estão 
acostumados à mediação por ser diferente do processo judicial. Na mediação as partes são as 
protagonistas, porém, o advogado enciumado protetor de seus clientes, acaba frustrando a 
espontaneidade destes e a busca pelos seus verdadeiros interesses. Confira-se: 
 
La outra cuestión a tener en cuenta, es ia predisposición de los abogados que 
asisten ai requirente y al requerido en la etapa prejudicial de mediación. La formación 
del abogado en nuestras universidades está prevista, en general, para el litigio. Él es 
el experto que en el processo judicial, de neto corte adversarial, mejor elabora la 
estrategia procesal para defender el derecho de su cliente frente al contrario. Y como 
la mediación es outra cosa, los protagonistas son los propios interessados y se trabaja 
sobre sus intereses, muchas veces sucede que el abogado, celoso protector de su 
cliente, pretende in voce frente ai mediador, explicar los hechos como si se tratara de 
una demanda, frustrando así ia espontaneidad del cliente y la búsqueda de sus 
verdaderos intereses. 
 
 
 Na atual configuração do modelo de justiça, o êxito da demanda depende muito 
mais da colaboração e integração do que do que na escolha de determinada estratégia ou 
procedimento que será imposto. 
 
(...) en general, los abogados están adiestrados para desarrollar uma defensa 
en relación con determinada solución o posición, y es posible que clasifiquen las 
alternativas de solución en términos deacertadas o equivocadas, o que formulen 
opciones en las cuales puede responderse por sí o por no. El éxito de la negociación 
depende, en cambio, de las decisiones basadas en la cooperación y la integración, más 
que em la alternativas que imponen rígidamente una elección en determinado sentido. 
 
 
Pode-se afirmar que o advogado deve se adaptar a esse novo modelo de justiça onde 
poderá encontrar muitas possibilidades de realização, e deve começar com a formação dos 
bacharéis para o assessoramento das partes nos processos autocompositivos. 
 
 
La necesidad del cambio de las pautas culturales en realidad, se trata de una 
cuestión cultural y de educación, que debe comenzar en las universidades preparando 
al futuro abogado en técnicas no adversariales, para que limite su papel em la 
mediación al asesoramiento, cuando éste le es requerido, ai control de la neutralidad 
del mediador y a que la solución a la que se arribe contemple adecuadamente los 
derechos e intereses de su cliente, conforme con Ia ley aplicable aI caso (Caleria, J. 
P.; Rojas, 1998, p. 13-14.63.) 
 
Por sorte, a mediação e arbitragem agora são disciplinas obrigatórias em todo o país, de 
acordo com a resolução CNE/CES 5/18, oriunda do parecer 635/18, homologado pela portaria 
1.351/18 do MEC, mas o caminho para a mudança cultural pode ser longo. 
 
Kazuo Watanabe, jurista responsável pela elaboração de ao menos cinco marcos legais, 
entre eles a Lei da Ação Civil Pública, a Lei dos Juizados Especiais e Pequenas Causas, parte 
substanciosa do Código de Defesa do Consumidor e a Resolução 125, do Conselho Nacional 
de Justiça, esperançoso com a breve substituição da cultura de sentença pela cultura da paz, já 
visualiza uma transformação no poder judiciário. 
 
Nota‑se “uma transformação revolucionária no Poder Judiciário em termos 
de natureza, qualidade e quantidade dos serviços judiciários, com o estabelecimento 
de filtro importante da litigiosidade, com o atendimento mais facilitado dos 
jurisdicionados [...] com o maior índice de pacificação das partes em conflito [...] E 
assistiremos, com toda certeza, à profunda transformação do nosso país que substituirá 
a ‘cultura da sentença’ pela ‘cultura da pacificação’(WATANABE, 2011). 
 
 
CONCLUSÃO 
Através do estudo realizado notou-se que a crise do modelo tradicional de justiça e a 
incapacidade Estatal de regular a maior complexidade das relações sociais e comerciais, 
culminou no movimento de deslegalização e desjudicialização, na medida em que propõe a 
solução extrajudicial dos conflitos, uma normatividade contratual em detrimento do direito 
positivo. 
Muito conhecidas e aplicadas em diversos países pelo mundo, a primeira iniciativa 
legislativa no Brasil para desjudicialização foi com a Lei de Arbitragem ( Lei 9.307/96- alterada 
pela Lei 13.129/15) que se depara com a barreira cultural da judicialização. Somente em 2010, 
com Resolução n.º 125 do Conselho Nacional de Justiça, e mais tarde, com o advento do Código 
de Processo Civil de 2015 e da Lei de Mediação n.º 13.140/2015, foi implementada uma 
“Política Judiciária Nacional de tratamento adequado nos conflitos de interesses no âmbito do 
Poder Judiciário”. 
Pela recente política pública de tratamento adequado de conflitos o Estado vem 
estimulando a aplicação dos institutos da mediação e, dando maior efetividade a Lei de 
Arbitragem. Contudo, ainda existe grande resistência sobre sua aplicação, provocada pela 
dificuldade de mudança do paradigma de justiça, não só das partes envolvidas no conflito, mas 
grande parte dos operadores do direito ainda resistem a essa mudança. 
Vale salientar, no entanto, acima de qualquer controvérsia, que é imprescindível seja 
demonstrada e destacada a importância dos métodos autocompositivos não só como alternativa 
ao Judiciário, mas sim como meio mais eficaz e adequado para solução dos conflitos e, ainda 
mais, com a globalização e grau de mutabilidade das relações modernas, visando a alteração da 
intrínseca ideia de que somente com a sentença é que são solucionados os conflitos. 
 
 
REFERÊNCIAS 
AZEVEDO, André Gomma de. Manual de Mediação Judicial. 6. ed. Brasília: Conselho 
Nacional de Justiça, 2016. 
BACELLAR, Roberto Portugal. Mediação e arbitragem. Coleção saberes do Direito. São 
Paulo: Saraiva, 2012. 
CACHAPUZ, Rozane da Rocha. Mediação nos conflitos & Direito de Família. 3ªed. Curitiba: 
Juruá, 2005. 
CACHAPUZ, Rozane da Rosa; SUTER, José Ricardo. A mediação e o Novo Código de 
Processo Civil. In: Formas Consensuais de solução de conflito. Org. 
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