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PANORAMA DO NOVO TESTAMENTO 2024 PROGRAMA DE FORMAÇÃO MISSIONÁRIA PR. SIDNEI J. SILVA 1 SUMÁRIO: PARTE 1: ENTRE OS DOIS TESTAMENTOS UM PANORAMA DO NOVO TESTAMENTO ...................................................................................................... 2 PARTE 2: OS EVANGELHOS OS EVANGELHOS SINÓTICOS: MATEUS, MARCOS E LUCAS ......................................................................... 4 O EVANGELHO DE MARCOS ............................................................................................................................ 7 O EVANGELHO DE MATEUS .......................................................................................................................... 10 O EVANGELHO DE LUCAS ............................................................................................................................. 14 O EVANGELHO DE JOÃO ............................................................................................................................... 20 PARTE 3: TEOLOGIA DE ATOS E TEOLOGIA DE PAULO INTRODUÇÃO A TEOLOGIA DE ATOS DOS APÓSTOLOS ............................................................................. 25 INTRODUÇÃO A TEOLOGIA DE PAULO (1) .................................................................................................... 30 TEOLOGIA DE PAULO (2) ............................................................................................................................... 34 TEOLOGIA DE PAULO (3) ............................................................................................................................... 37 PARTE 4: TEOLOGIA DAS CARTAS GERAIS E LIVRO DO APOCALIPSE CARTA AOS HEBREUS .................................................................................................................................... 40 CARTA DE TIAGO ........................................................................................................................................... 44 CARTA DE 1 PEDRO ........................................................................................................................................ 48 CARTA DE 2 PEDRO E DE JUDAS .................................................................................................................... 52 EPÍSTOLAS DE JOÃO ....................................................................................................................................... 56 LIVRO DE APOCALIPSE ................................................................................................................................... 62 2 PARTE 1 ENTRE OS DOIS TESTAMENTOS Um Panorama do Novo Testamento Contexto da Época Um panorama do Novo Testamento apresentará várias diferenças em relação ao Antigo Testamento, começando pelo propósito do seu registro, pois ainda que seja revelação de Deus, não é mais dedicado somente ao povo de Israel, mas sim, a todos os povos da Terra. O cenário agora é muito diversificado, pois além de não se tratar mais de um único povo, os textos são assistidos por públicos influenciados por outras religiões, em outras sociedades, culturas e experiências de fé. A Palestina dos tempos de Jesus e dos apóstolos pode ser retratada como um emaranhado de nacionalidades exploradas pelo Império Romano. Há diversidade cultural e religiosa até mesmo dentro do judaísmo vigente, que se dividia em várias seitas pertencentes a diferentes leituras sobre a fé e sobre a ação futura de Deus, dentre as quais, podemos citar duas das mais importantes (frequentemente citadas nos evangelhos) que são exemplos da disputada pela liderança na sinagoga: os Saduceus1 (Grupo mais poderoso e que ocupava a maioria das cadeiras do Sinédrio) e os Fariseus2 (Tinham uma relação mais próxima com o povo). É neste universo que as mais importantes narrativas sobre a vida e ministério de Jesus foram registradas, construídas e divulgadas para indivíduos – em algumas cartas exclusivas –, mas também para grupos de fiéis e igrejas espalhadas por todo o mundo habitado da Ásia Menor. Naturalidade da Expansão As narrativas discorrem dentro de uma época sob o domínio do Império Romano que, apesar da diversidade de povos sob seu poder, está fortemente influenciado pela língua e pelo pensamento da cultura Grega, o que vai explicar o sincretismo de tantas religiões, e ao mesmo tempo a capacidade de manter o fio condutor que alinhava todas elas. Incrivelmente, vários elementos neste contexto foram na verdade aliados a propagação do Evangelho. A chamada PAX ROMANA, permitindo o livre acesso através das estradas dominadas pelo Império facilitavam as viagens e difusão das cartas. A língua grega, praticamente oficializada pelo Império como língua universal era bem compreendida nas diversas cidades e povoados 1 Os saduceus tinham um conceito mais tradicional e antropomórfico de Deus, rejeitando a influência helenística de uma essência abstrata, pura. Opunham-se aos fariseus na compreensão que uma lei oral também havia sido transmitida por Moisés. Para eles, o que estava contido apenas nas escrituras da Lei de Moisés era viável. Segundo Atos dos Apóstolos, os saduceus negavam a existência ou influência de anjos. No que concerne à salvação, apenas os rituais do Templo eram necessários. Negavam a ressurreição dos mortos. Não criam na imortalidade da alma: não havia pós-morte. 2 Para os Fariseus, o Deus de Israel era considerado o criador do universo e de toda a vida na Terra. Cria-se que ele era onipotente, onisciente, onipresente e infinitamente sábio. Quando os humanos foram criados, a eles foram dados dois impulsos: o de fazer o bem e o de fazer o mal. De acordo com esse sistema de crenças, havia livre-arbítrio para escolher. O estudo da Torah deveria ser interpretado pela racionalidade (dada aos humanos por Deus), considerando as condições de cada época desde a revelação dos mandamentos no Sinai 3 dominados, o que tornava o diálogo e a compreensão facilitada. E, a própria perseguição dos primeiros cristãos, que seguiam pelo caminho a procura de locais seguros, era um poderoso elemento de fertilização do Evangelho, pois eles divulgavam suas experiências por onde quer que fossem. Seleção de textos e preparo para fechamento do Cânon do Novo Testamento Quando analisamos o cenário como um todo, seja pela natureza da experiência dos primeiros cristãos, pela forte presença dos apóstolos, pelo poder da comunhão da nova comunidade de fé, ou pela própria perseguição que caracterizou o cristianismo, inicialmente pelos judeus e em seguida pelo Império, compreendemos melhor a forma com os dos escritos neo-testamentários foram recepcionados, distinguidos e, por fim, considerados canônicos. Os principais aspectos que motivaram o registro dos textos (e a própria canonização) foram: a defesa da fé e a necessidade de preservação dos ensinos apostólicos contra frequentes distorções promovidas por falsos mestres. E esses textos, que nunca objetivaram ser exclusivos aos judeus (apesar de conter porções cuja linguagem é de mais fácil compreensão àqueles que conheciam a Lei e os antigos costumes de Israel), constituem um notório propósito de permitir a revelação de Deus na pessoa de Jesus Cristo para as diversas comunidades de fé, de regiões e culturas múltiplas. Aí radica sua capacidade de adaptação, aplicação e proclamação da mensagem do Evangelho de forma universal. Com estes fatores em vista, foi que os cristãos dos 3 primeiros séculos se lançaram a árdua tarefa de seleção, preservação e formulação do Cânon do Novo Testamento, como já comentado. Os manuscritos de Qunram Ao longo dos séculos o aprimoramento na compreensão do Panorama Bíblico, tanto do Antigo como do Novo Testamento deve muito às pesquisas e descobertas arqueológicas, pois ainda que em alguns casos não indiquem especificamente a solução para as dúvidas sobre a construçãodos textos, sempre ajudam a desvendar contextos que aprimoram a compreensão da realidade da época, e as influências sofridas pelos autores e seus leitores. Dentro deste contexto, um dos mais preciosos achados modernos (se não o maior) são os Manuscritos do Mar Morto, que hoje estão guardados no Museu do Livro, Jerusalém. Também chamados de Manuscritos de Qunram – provável nome da comunidade que preservou os escritos – estes rolos, encontrados progressivamente ao longo dos anos de 1951-1955, são especiais por diversas razões, mas principalmente: o Antes destes documentos, os manuscritos mais antigos que existiam eram de 1000 d.C. Os rolos do Mar Morto são documentos originais que datam de 2100 anos atrás (aproximadamente 100 a.C.); 4 o A típica preservação do Profeta Isaías somada a outros documentos como regras da comunidade, rolo da guerra e rolo da graça, apontam a linha de esperança messiânica deste grupo; o 90% dos textos estão em hebraico, mostrando a fidelidade ao desenvolvimento da cultura judaica; o Os rolos foram achados ao norte do rio Jordão, bem próximos de onde João Batista pregava e por onde Jesus passava frequentemente; o Tanto a escrita e redação dos textos, quanto os assuntos em maior ênfase permitem um aprofundamento no contexto histórico, no momento espiritual-filosófico judaico, nos costumes e nos ambientes sociais de uma época bem próxima da vinda de Jesus, e da montagem dos textos do Novo Testamento. PARTE 2 OS EVANGELHOS OS EVANGELHOS SINÓTICOS: MATEUS, MARCOS E LUCAS3 1. Introdução • A primeira vez que foram chamados assim, foi pelo estudioso alemão J. J. Griesbach, no final do séc. XVIII. • O adjetivo “sinótico” vem do grego συνοπσις (synopsis), que significa “ver em conjunto”. 2. Surgimento da Crítica Moderna em fins do séc. XVIII • Surge a preocupação com a natureza dos Evangelhos e com as perguntas de ordem literária e histórica. 3. Etapas Básicas da Crítica Moderna 3.1.A Etapa de Tradições Orais: A Crítica da Forma (Formgeschichte) 3 Os Evangelhos Sinóticos; in. Carson, D. A.; Moo, Douglas J.; Morris, Leon. Introdução a Teologia do Novo Testamento, p. 19 a 43. 5 • Concentra sua atenção no processo da tradição oral, ou seja, em como os relatos narrados foram passados verbalmente entre os primeiros cristãos, através de pequenos relatos, tradições populares, e ainda com forte influência da “situação vivencial” (Sitz im Leben). 3.2.A Etapa das Fontes Escritas: Análise da Construção dos Evangelhos • Dedica-se a investigação de quais dos relatos da Tradição Oral foram escritos e possivelmente serviram de fonte para a composição dos Evangelhos. Isso é particularmente interessante pelas semelhanças contidas entre os sinóticos. 3.3.Etapa Final de Composição: A Crítica da Redação (Redaktionsgeschichite) • Analisa contribuições literárias e teológicas dos próprios autores dos Evangelhos. Além disso, a Crítica da Redação busca fazer a distinção entre a tradição (todo o escopo narrado) e a redação (processo de modificação sofrido pela tradição à medida que o evangelho era escrito). 4. Desdobrando a Etapa das Fontes Escritas – Construção dos Evangelhos • Quanto ao ‘Enigma da Correspondência-Discordância’: Ao mesmo tempo em que temos repetições exatas entre os evangelhos sinópticos, temos diferenças enigmáticas. • Como exemplo: No texto da cura de um paralítico, o texto de Mateus (Mt. 9:1-6) omite, tanto a abertura do telhado por parte dos amigos do paralítico, como a frase “eu te mando”, contrastando com as narrativas de Marcos (Mc. 2:1-11) e Lucas (Lc. 5:18-25) 5. Principais Soluções para o Problema Sinótico: 5.1.A dependência comum de um evangelho original. • Essa proposta surgiu em 1771, pelo escritor e crítico literário alemão G. E. Lessing, que sugeriu que os evangelistas poderiam estar usando, cada qual de forma independente, a mesma fonte original escrita em hebraico ou aramaico. 5.2.A dependência comum de fontes orais • Pouco depois da proposta do proto-evangelho, J. G. Herder argumentou pela dependência, por parte dos sinóticos, de um sumário oral relativamente fixo da vida de Cristo, o que explicaria as semelhanças sinóticas. 5.3.A dependência comum de um número cada vez maior de fragmentos escritos 6 • O teólogo F. Schleiermacher propôs que a igreja primitiva possuía diversos fragmentos menores da tradição evangélica e que gradualmente cresceram em volume e se incorporaram aos sinóticos. 5.4.A Interdependência • Sustenta a ideia de que dois dos evangelhos utilizaram um ou mais evangelhos para elaborara o seu. • Essa teoria é muito mais plausível do que a das ‘fontes orais em comum’, pois seria improvável um grau de correspondência tão grande com o texto grego, como sinaliza Robert Stein em Mc 13:14 = Mt. 24:15. • Também, a hipótese de um ‘proto-evangelho’ em língua semítica dificilmente pode ser sustentada quando se observa a notável semelhança do texto grego dos sinóticos. 6. Quanto as semelhanças e dessemelhanças nos paralelismos das narrativas literárias: • Mateus e Marcos com frequência são encontrados juntos em oposição a Lucas • Lucas e Marcos com frequência são encontrados juntos em oposição a Mateus • Mateus e Lucas quase nunca são encontrados juntos em oposição a Marcos 7. O Argumento da Sequência • Esse fenômeno detectado, entre semelhanças e dessemelhanças nas narrativas, parece exigir que Marcos seja o “termo médio” em qualquer esquema de relacionamento entre Marcos, Mateus e Lucas, como vemos abaixo: 8. A primazia de Marcos apoia-se principalmente nos seguintes argumentos: Lucas Marcos Mateus Mateus Marcos Lucas 7 • A tradição sustenta que ele escreveu seu evangelho com base na pregação do apóstolo Pedro • Apesar de sua aparente brevidade, mais de 97% das palavras de Marcos encontram-se em paralelo em Mateus, e mais de 88% em Lucas. • Se negarmos o argumento de que Marcos é o termo médio entre Mateus e Lucas, tendo em conta a correspondência inegável das palavras entre eles, teremos que acreditar numa composição deliberada das narrativas, o que é improvável. • A ordem dos acontecimentos descritas por Marcos não precisou se chocar com os outros evangelhos, o que indica que estes possivelmente ainda não existiam. Caso diferente de Mateus e Lucas que tiveram tempo para ajustes em suas narrativas. • As próprias irregularidades gramaticais e de estilo mais primitivo da escrita ‘marcana’ é favorável a indica-lo como sendo mais antigo, pois os outros evangelhos modificam tais irregularidades. • A teologia de Marcos é também mais primitiva, pois declarações teologicamente mais difíceis foram mantidas. (ex. Mc. 6:5 comparado com Mt. 13:58) O EVANGELHO DE MARCOS4 Autor: João Marcos, conhecido como Marcos, pertencia a uma família rica e influente de Jerusalém. Ele acompanhou Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária, mas falhou em não permanecer até o fim com eles na missão, o que o levou a ser considerado como um desertor por Paulo, que se recusou a levá-lo na segunda viagem missionária. Marcos reconquistou a confiança de Paulo enquanto esteve em missão com Barnabé. Ano: 50 – 60 d.C. Destinatários: Marcos escreveu provavelmente da própria cidade de Roma para leitores gentios em geral, mas em especial para leitores romanos. Propósito: Esse livro enfatiza mais o que JESUS fez do que o que Ele disse, sendo, portanto, um livro mais de ação do que de reflexão (Marcos passa de um episódio a outro da vida de JESUS usando a palavra “imediatamente” por mais de quarenta vezes). 1. A primazia de Marcos • A tese da primazia de Marcos sobre os dois outros sinóticos também confere à Marcos uma desvantagem. Nós conseguimos notar o que seria uma teologia característica produzida por Mateus e também por Lucas a partir das suas fontes, mas muito pouco da produzida por Marcos • Qual é omaterial próprio de Marcos? 4 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 294 a 302. CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, p. 99 a 122. 8 • Devemos ser cuidadosos com esta distinção do que é a teologia, tradição e redação “marcana” 2. A Teologia de Marcos • Podemos definir seu gênero literário a partir do uso da palavra euangelion em Mc. 1:1 • Desta forma, Marcos já anuncia o que se deve esperar de sua narrativa: uma apresentação teológica e evangelística da vida e ensinamentos de Jesus • Para Marcos, é fundamental declarar e apresentar Jesus como o ‘Messias’ e o ‘Filho de Deus’ (1:1; 2-13) • Percebemos que a Galileia (citada 13 vezes) tem importante papel (3:7; 14:28; 15:41; 16:7): o Local de revelação e resposta; o Local de esperança para o futuro; o Onde o Mestre aguarda seus discípulos após a ressurreição • Ao passo que Jerusalém é (3:22; 7:1; 10:33; 11:15; 14:55): o Local da rejeição e morte, o Por isso, condenada por sua incredulidade • Esta forma de organização e de estabelecer referências aos locais deram base para ao que pode ser chamado de ‘teologia geográfica’ (segundo E. Lohmeyer) 3. A cristologia de Marcos • ‘Filho de Deus’ é o título que melhor define a cristologia de Marcos, abrindo e fechando o evangelho (1:1; 3:11; 5:7; 15:39) • A filiação divina de Jesus é um princípio teológico fundamental para Marcos o Jesus é o Filho amado, por ocasião do batismo (1:11) o Jesus é o Filho reconhecido até pelos espíritos imundos (3:11; 5:7) o O pronunciamento batismal é repetido no episódio da transfiguração (Mc. 9:7; e Pedro reproduz em 2 Pe. 1:17) o Jesus reivindica abertamente o título cristológico de filiação (12:6) o Esse título cristológico também estabelece uma oposição à liderança (filhos) fracassada de Israel (14:61-62) o O auge do paradoxo entre Jesus (Filho) e Israel (rejeitado) está no calvário (15:39) 4. O Paradoxo Teológico em Marcos • Por um lado, Jesus é o Filho de Deus, com a autoridade e glória do próprio Deus (2:1-12; 9:2- 8), • Mas, ao mesmo tempo, Ele se apresenta em humilhação, fraqueza, sofrimento (11:12; 13:32; 15:37) • Esta é uma espécie de ‘dissimulação’ (ocultamento) característica do texto, que se desdobra ao longo de todo o conteúdo de Marcos • Chamamos de “Paradoxo da Glória e do Sofrimento”, demonstrado no segredo messiânico: 9 o Jesus é relutante em fazer reivindicações grandiosas. o Ele sabe quem é, mas se reserva e ordena o sigilo, para que a ênfase maior do seu ministério recaia na sua missão sofredora e seu propósito redentor o Jesus era o Messias – e tinha consciência –, mas isso não o impediu de compartilhar emoções e aflições humanas (3:5; 6:5; 15:34) o Tinha consciência sobrenatural (2:8; 5:30; 13:2), mas confessou humildemente a falta de conhecimento daquilo que só o Pai sabia (13:32) 5. Soluções e a importância do paradoxo • Jesus sabia que o entusiasmo com as realizações (sinais) era uma ameaça a comunidade de discípulos, pois poderiam perder o verdadeiro foco que era a missão redentora de Jesus • Havia o cuidado para evitar que o povo admitisse Jesus dentro do mero conceito/categoria helenista de “homem divino” (theios aner). • Os milagres foram “sinais” da autoridade • A própria união dos discípulos com Cristo poderia ser compreendida erroneamente, distorcendo o significado e importância da cruz para o crente (discipulado) • O próprio Reino de Deus é um paradoxo, pois se apresenta como algo que “está próximo” (èngiken) e, ao mesmo tempo, “está cumprido” • Um significativo tempo de maturidade é exigido no discipulado para conviver com ‘o devir’ deste paradoxo (1:15; 9:1) • Em síntese, o âmago do Evangelho precisa ser um paradoxo, um equilíbrio da theologia gloriae (teologia da glória) e da theologia crucis (teologia da cruz) • Deus se revela no paradoxo: o maior amor está se revelando na mais profunda dor da cruz 6. O Discipulado • Em linha com essa cristologia paradoxal, a segunda maior ênfase de Marcos é a prática do seguimento de Jesus, que pode ser chamado de ‘viver em relacionamento’, ou simplesmente, discipulado • A história do relacionamento (discipulado), por um lado, explica quem Jesus era e, por outro, explica quem os discípulos eram. • Se, tanto o mestre, quanto os discípulos, forem compreendidos adequadamente, não deve se aguardar deles algo diferente do que suportar a cruz e o auto sacrifício (8:34-38; 13:9-13) • Discipulado e o paradoxo: o Marcos coloca os discípulos muitas vezes em oposição ao ensino de Jesus para representar qual seria a verdadeira e a falsa cristologia (o tipo certo do “homem divino”). o O discipulado, portanto, é representado necessariamente como um processo desconfortável (10:31) o Por outro lado, aos discípulos é concedido uma explicação privilegiada – “em casa” – para que recebam o “mistério do Reino” (4:11; 7:17; 9:28; 10:10) 10 o Desta forma, discipulado envolve renúncia e privilégio (10:29-31), já que o fracasso é compensado pela revelação especial, mais uma vez, refletido na cristologia paradoxal 7. Palavras e proezas • Sem dúvidas, Marcos reúne narrativas de ação, um conflito dramático e não necessariamente uma teologia especulativa • Marcos está mais interessado no ‘fato’ de Jesus ensinar do que ‘no que’ Jesus ensinou, em si. – Será? 8. Fatos ou Ensinamentos? • Não é incompatível o desejo de apresentar a dinâmica do ensino de Jesus e um interesse no conteúdo dos ensinamentos como teologia – estes aspectos são complementares • Podemos concluir que Marcos contêm menos desdobramento dos ensinamentos de Jesus quando tomamos como referência Mateus e Lucas, porém, estes evangelhos não devem ser norma para Marcos, já que são posteriores • Considerado isoladamente, Marcos tem, à sua maneira, conteúdo de ensinamentos, diretrizes curtas e coletâneas, que em grande parte serão copilados nos outros sinóticos • Desta forma, concluímos que temos em Marcos uma teologia dos feitos de Jesus (cristologia), ou seja, uma teologia narrativa, extremamente precisa na descrição da nova escala de valores do Reino de Deus O EVANGELHO DE MATEUS5 Autor: Mateus, também chamado pelo seu sobrenome Levi, foi um judeu cobrador de impostos do governo romano que largou seu serviço ainda quando era jovem para seguir JESUS, se tornando discípulo e um dos doze apóstolos. Por ele trabalhar para o governo romano, era mal visto pelos seus compatriotas judeus, pois colaborava justamente com os dominadores do seu povo Ano: 60 – 70 d.C. Destinatários: Mateus escreveu para todas as pessoas, mas em especial para os judeus, e por isso apresentou JESUS como o Messias que fora prometido ao longo da Antiga Aliança, sendo o livro no Novo Testamento que mais faz citações do Antigo Testamento. Mateus frequentemente apresenta JESUS como “Filho de Davi” e como Rei (o Rei tão aguardado pelos judeus) fazendo uso de passagens do AT, da genealogia de JESUS desde Abraão passando por Davi e da sua ênfase judaica Propósito: O principal tema do evangelho escrito por Mateus é estabelecer uma ligação direta entre os dois testamentos apresentando JESUS como o Messias e Rei, enfatizando que Ele é o 5 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 285 a 294. CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, p. 67 a 97. 11 cumprimento das profecias do Antigo Testamento referente àquele que viria para reinar para os judeus. 1. Introdução • O Evangelho de Mateus trata-se de uma composição cuidadosa, razão pela qual encontramos a repetição da fórmula dos 5 grandes discursos (ou instruções), exemplo: 7:28; 11:1; 13:53, etc. • Os cinco grandes temas são: o Discipulado (cap. 5-7), o Missão (cap. 10), o Parábolas (cap. 13), o Relacionamentos (cap. 18) e o o Futuro (cap. 24-25) 2. O Drama • Em Mateus, o aspectomais dramático é aquele que revela o verdadeiro propósito da missão messiânica de Jesus, na rejeição e na morte • Desenha-se, assim, o drama de Jesus como o Messias de Israel em oposição à incredulidade de seu povo • A linha geral da narrativa é a mesma de Marcos: o Uma visão positiva da Galileia, como lugar de resposta e de esperança; e o Uma visão contrastante de Jerusalém, como local de morte e oposição 3. O Eixo teológico do ‘Cumprimento’ • A palavra-chave do evangelho é “cumprimento”. Essa é uma “citação de fórmula” que molda as estruturas das narrativas em diversos momentos (1:22; 2:15, 18, 23; 4:14; 8:17ss) • As “citações de fórmulas”, quando introduzem as orações, revelam o comentário do próprio redator • Estas citações revelam a importante conexão teológica entre o AT e a história de Jesus • Mateus é rico em citações do AT que, em resumo, são compreendidas como tipologias que (pré) anunciam Jesus nas ações de Deus no passado de Israel • A tradução das primeiras palavras do evangelho “livro de gênesis”, mostra: o A intenção de Mateus de conectar Jesus à história de Israel o Mais ainda: A intenção de colocá-lo como o ápice de toda a história da redenção • A narrativa da infância também obedece a tendência de Mateus de demonstrar o cumprimento escritural do AT na vida e obra de Jesus como Messias 4. Cristologia • Jesus, o Cristo, é o foco principal do cumprimento do qual Mateus se refere. Neste sentido, a cristologia em Mateus é mais explícita de que em Marcos (manutenção o segredo messiânico) 12 • O segredo messiânico é mantido, mas agora é mais equilibrado • Mateus prefere ‘kyries’ às outras expressões comuns nos sinópticos, como de ‘rabi’ ou ‘mestre’, no caso de Marcos. • Kyries (Senhor) é uma declaração mais aberta da sua messianidade e filiação divina. Vide a declaração de Pedro em 16:16 • Diferindo de Lucas, que coloca Jesus como um mensageiro da Sabedoria, em Mateus, Jesus é a própria Sabedoria • No grande julgamento de 25:31-46, Jesus é o Rei. Sua majestade é evidenciada pelo grande julgamento, seu trono de glória, pelos anjos que o servem, pelas sentenças às nações, mas vai além... • Mateus destaca a majestade do Filho nas expressões: o O reino do “Filho do Homem” (13:41; 16:28) o O trono da sua glória (19:28) o Autoridade investida em sua pessoa (28:18) • E, no cumprimento da majestade de Jesus, Mateus o conecta ao texto de Daniel 7:14, além de criar uma espécie de paralelo com a fórmula trinitária de Mt. 28:19 • Em Mateus, Jesus é por excelência o cumprimento das esperanças de Israel. • As tipologias que defendem isso: o O verdadeiro rei da linhagem de Davi (‘Filho de Davi’ é citado 7 vezes em Mateus) o Jesus é um novo Moisés: Formação dos capítulos 1 e 2; cena do sermão do monte de 17:1-8ss 5. Jesus e a Lei • No que diz respeito à Lei, parece que Mateus trava uma exposição em duas partes: o Contra os que achavam que Jesus tinha vindo para abolir a Lei (antinomianismo6). Jesus não veio abolir, mas cumprir o Contudo, a Lei agora deve ser entendida e aplica em relação a Jesus, tendo-o como lente (5:21-47) • A questão passa a ser: “como a Lei se posiciona em relação a Jesus Cristo, pois Jesus é aquele que conduz ao seu total cumprimento” • Nesse sentido, a aparente narrativa dúbia de Mateus em relação a Lei, na verdade, demonstra mais o seu trabalho meticuloso, já que ele transitava entre legalismo e antinomianismo. • A chave que resolve a aparência dúbia do texto está na compreensão de “cumprimento” da Lei • Jesus é a Lei e o seu cumprimento, baseado na sua relação especial com Deus 6. Israel, Jesus e a Igreja 6 Antinomianismo é a negação da lei; é o “anti lei”. O antinomiano nega a necessidade do crente em guardar a lei de Deus. Essa heresia surgiu muito cedo nas igrejas primitivas e os apóstolos tiveram que exortar que o crente deve observar a lei de Deus como expressão de nosso amor. 13 • A teologia de Mateus é de um judeu que identifica os fundamentos do AT na vida de Jesus, mas, ao mesmo tempo, extremamente anti-judaica, no sentido de denunciar a incoerente prática dos judeus dos seus dias • Este dilema perpassa todo o evangelho: o Jesus é colocado claramente em oposição a religião oficial (cap. 21 – 23) o Em síntese, Jesus é o fim da lei, ou seja, ‘fim de um sistema religioso colapsado’ o Ao mesmo tempo, a rejeição da pessoa de Jesus (pelos religiosos) é a rejeição do próprio Deus. o Nas parábolas (21:28-22:14) o que temos é a narração da ‘rejeição de Deus’ por parte daqueles que fracassaram no papel de povo escolhido o Rejeitar Jesus é o auge da rebelião de Israel, e a destruição do templo é, simbolicamente, evidência da rejeição de todo o conjunto de religiosidade israelita. o Não apenas os líderes, mas a nação de Israel sofreria as consequências de tal rejeição (21:43) • E, a missão que inicialmente foi dirigida apenas à Israel, agora veio a ser universal • Na verdade, Mateus sinaliza algo mais na mensagem do “cumprimento”: o Tipologicamente, em Jesus também se encontra representado o verdadeiro Israel, pois nele há várias partes integrantes que compõe a vida da nação, enfim, teologicamente, “Jesus é Israel” • Este é o mesmo fundamento que dá base para a citação que só encontramos em Mateus: ekklesia o A igreja de Cristo não é uma nova religião, mas o cumprimento da Nova Aliança, a nova relação com Deus através do Seu Filho, Jesus o Somos chamados por Jesus e para ser em Jesus, assim como Israel. Ele nos inclui como “ekklesia”, ou seja, estamos nele, na sua comunidade: “minha ekklesia” (16:18) • Por isso, a cristologia é a chave que dá sentido e completa a interpretação de Mateus em seu evangelho O EVANGELHO DE LUCAS7 Autor: Lucas, um provável gentio que dominava a cultura grega, era um médico de profissão e um companheiro fiel de Paulo. Curiosamente ele não foi uma testemunha ocular de JESUS. Ano: 61 - 62 d.C. 7 LADD, G. E., p. 302 a 310. CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, p. 123 a 150. 14 Destinatários: O livro é especificamente endereçado a Teófilo, mas evidentemente se inclina para todos os gentios, em particular aos gregos, por apresentar JESUS como o homem perfeito e ideal (a cultura grega valoriza o ser humano perfeitamente divino) e por ser escrito com domínio da língua grega. Propósito: O livro de Lucas apresenta JESUS como “O Filho do Homem”, um homem perfeito e divino, e que oferece a salvação para todo o mundo. 1. Lucas em estudos recentes: • É verdade que há mais espaço para trabalhar a historicidade em Lucas que nos outros sinóticos, mas sua preocupação básica não era a história, e sim a história de Deus através da vida de Jesus • Sua teologia é vasta e mostra Deus ativo na vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus e também na vida de igreja primitiva 2. ‘Heilsgeschitchte’ – A história da Salvação • Analisando a narrativa de Lucas, Hans Conzelmann a divide em 3 etapas da história da salvação: o Período de Israel (preparação até a vinda de Jesus) o Período do ministério de Jesus o Período desde a ascensão (a igreja que olha para o ministério de Jesus e olha para frente, para a parousia) • A grande importância neste esquema da história da salvação (Heilsgeschichte) está em: o Demonstrar o padrão identificado através dos três estágios que se tornaram base para entender a história o Fornecer base racional para a contínua existência da igreja e sua missão após ministério terreno de Jesus • Para Conzelmann, Lucas é demasiadamente influenciado pela demora da parousia8 (Παρουσία): “Não importa mais tanto a iminência do Fim, pois o Fim está bem distante” • De acordo com Conzelmann, devemos entender que em Lucas nós temos o deslocamento da teologia escatológica “da espera” para a teologia da “vida cristã, para a perseverança”. • Nessaperspectiva, é como se Lucas buscasse reverter o olhar futurístico dos primeiros cristãos para pensar mais num processo histórico em andamento • Este processo de deslocamento da parousia é conhecido pelo termo “desescatologização”, dentro do qual existe ‘um conceito de continuação indefinida do propósito de Deus por intermédio da igreja’ 8 Palavra que vem do grego, “presença, vinda”. Usada em sentido escatológico para expressar o retorno de Cristo no final dos tempos. No NT se utiliza a palavra em contexto de alegria, pois anuncia a vinda e a presença do Senhor consumando a história. (cf. Mt 24,3.27.37.39; 1Cor 15,23; 1Ts 2,19; 3,13; 4,15; 2Ts 2,1; 2Pd 1,16) 15 3. Desescatologização • Baseado na tese da desescatologização, ocorre a transferência de foco na missão de Jesus para a missão da igreja, numa sequência de temas teológicos que ligam os dois volumes Lucas- Atos: o A ressurreição, o O ensinamento pós-ressurreição, o A ascensão e, a seguir, o O Pentecoste. 4. Desescatologização – Dificuldades • Contudo, ainda que faça sentido, a tese de Conzelmann é considera radical para a maioria dos estudiosos, pois, Lucas não apenas registar a história, mas vê significado no processo histórico, ele é o que podemos chamar de teólogo da História da Redenção • Um dos problemas na compreensão da tese de Conzelman está em como conciliar a Desescatologização com os textos: o Proximidade do juízo proferido pelo Batista (3:9, 17) o Proximidade do Reino no ensino de Jesus (10:9, 11) o Promessa de Jesus de depressa fazer justiça (18:7-8) o Palavras de Jesus: “não passará esta geração...” (21:32) • Não obstante, a falha nessa ideia radical da desescatologização se origina no seu próprio conceito, já que desconsidera o fato de que no imaginário apocalíptico, tanto judaico como cristão, a parousia é experimentada pela combinação dos temas ‘iminência’ e ‘demora’, simultaneamente. • Desta forma, temos que buscar entender de maneira mais precisa como se articula a “escatologia em Lucas” e sua “teologia do processo histórico em andamento” 5. Catolicismo Primitivo • Aliada a desescatologização, a tese do ‘catolicismo primitivo’ defende que, inicialmente, o movimento dos crentes em Jesus-ressuscitado tornou os primeiros cristãos extremamente empolgados e que sua liberdade carismática os livrara dos entraves institucionais • O único aspecto que importava para os cristãos era a proclamação do Kerygma, já que aguardavam a parousia a qualquer momento. • Somente com o passar do tempo, e com a não realização imediata do retorno de Jesus, é que os crentes começam a se ocupar do ‘cristianismo institucional’ (catolicismo primitivo) • Lucas então é visto como um evangelista que apoia e conduz a igreja neste processo/passagem, de perda da aguçada espera do retorno do Cristo para uma outra postura de afirmação e organização da igreja como instituição • Ambos os extremos são perigosos, por isso, devem ser equilibrados e interpretados com cuidado 16 6. Objeção ao ‘catolicismo primitivo’ • A tese falha em observar a que, tanto no apocalíptico judaico, quanto no apocalíptico cristão, os temas “iminência” e “demora” são complementares, não excludentes • Lucas mantêm a expectativa escatológica em seus escritos (vide: 12:35 ss; 17:22 ss; 21:25 ss) • Para I. H. Marshall, a solução reside em considerar o aspecto histórico, mas perceber o conceito mais amplo e primeiro de salvação em Lucas. • A salvação não é originada no processo, mas na iniciativa soberana de Deus, em Cristo, no interior da história • Neste sentido, Marshall rebate diretamente o extremismo de Conzelmann e de alguns teólogos que o acompanham, que deu origem a uma tese teológica conhecida como “catolicismo primitivo” (Fruhkatholizismus) – “A salvação localizada na instituição” 7. Judeus e Gentios • Por trás da problemática da incredulidade dos judeus e a aceitação dos gentios está a grande questão do relacionamento teológico entre a Igreja e Israel • Mas, até que ponto a apologia a missão dirigida aos gentios representa uma atitude hostil ao judaísmo, num conceito de “rejeição”? (Cf.: At. 13:44-51; 28:17,18) • Nesta pista teológica, J. Jervell chega ao extremo de negar qualquer ideia de rejeição de Israel. Para ele, Israel foi dividido em dois, pela incredulidade de alguns e, sendo assim, Deus preservou intacto seu propósito naqueles judeus que creram • Sob essa perspectiva, a entrada dos gentios no povo de Deus não é fruto da incredulidade, mas do sucesso do Evangelho entre os judeus • Porém, Lucas não compreende a salvação dos gentios como uma ideia nova, mas como cumprimento, como o que foi predito no AT (Is. 61:1 e ss; Lc. 4:25-27) • Deus abençoou os gentios em detrimento dos israelitas. Temos aqui uma aproximação com a teologia paulina (Cf.: At. 13:47; 28:26 e ss; Rm. 11) 8. Jerusalém em Lucas-Atos • A importância de Jerusalém pode ser demonstrada no valor dado a cidade que, diferente de Mateus e Marcos, recebe proeminência (9:51-19:44) • Jerusalém é o palco dos seus primeiros capítulos: a. O templo é lugar natural para que Jesus receba as boas vindas das crianças e visite a “casa do seu Pai” b. A viagem à Jerusalém é mais proeminente em Lucas (9:51-19:44) c. Jerusalém é local correto para a morte de um profeta (Lc. 13:33-35) d. É também onde o ressuscitado se encontra com seus discípulos (Lc. 24:36-49) e. É ali que o Espírito vem sobre os discípulos (At. 1:8) f. A oposição oficial contra a igreja é maior em Jerusalém (At. 8:1) g. A grande conferência é feita ali (At. 15) 17 9. Objeções a tese de que não houve rejeição de Israel • Porém, a tese da manutenção da eleição (ou, de que não houve rejeição) pode se inclinar excessivamente para o lado oposto (supervalorização) • Ainda que não tenha ocorrido descontinuidade radical, a inclusão dos gentios desencadeou a maior divergência (cisma), mostrada nos debates de Atos 11 e 15 – Esse é o risco premente dos judaizantes • Ainda baseado em Atos 11 a 15, fica clara a rejeição do Evangelho pela grande maioria dos judeus • Ao contrário de Jervell, J. T. Sanders sinaliza que para Lucas, manter a Lei judaica seria sinal de zelo mal direcionado do fracassado sistema religioso do judaísmo • Ao mesmo tempo, é honesto admitir que, neste assunto, a teologia de Lucas não revela posição nítida Nos escritos de Lucas vemos um cristão gentio sensível (...) lutando com uma das questões mais difíceis para a igreja da sua época e chegando a algumas conclusões importantes. Isso inclui, no mínimo, a opinião de que o povo de Deus é, desse momento em diante, decididamente diferente do grupo nacional que até esse ponto ocupava essa posição, mas que essa mudança, que se origina da resposta tanto de judeus como de gentios a Jesus, o Messias dos judeus, representa não uma retratação da parte de Deus, mas o cumprimento de um plano do qual as escrituras judaicas dão testemunho.9 10. Boas Novas para os Pobres • A ênfase do propósito de Deus para com os gentios pode ser vista ainda na imparcialidade típica de Lucas, já que inclui todas as classes como alvo do Reino: alta ou baixa, rico ou pobre, homem ou mulher, judeu, samaritano ou gentio • Da mesma forma, a inclusão das crianças (7:12; 8:42; 9:38; etc) • Lucas 15 adverte para o risco de desprezar aquele em quem Deus se regozija e, ainda no episódio de Zaqueu, fica claro que Jesus “veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc. 19:10) • Em certos momentos, parece que Lucas atribui a Deus um tipo de “parcialidade invertida”, um Evangelho que dá prioridade para os pobres, desprezados, desfavorecidos o Lucas dá grande valor a visita de Jesus a pobre Nazaré (bem diferente de Mateus e Marcos); o Introduz de forma dramática e proeminente no sermão de Jesus as “boas novas para os pobres” (Is. 61; Lc. 4:18) o Proclama a subversão de valores do Reino no cântico de Maria (1:46-55) oCita os pastores desprezados no acolhimento ao menino Jesus (2:8) o Registra a típica oferta dos pobres oferecida pela família de Jesus (2:24) 9 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 307 18 o Descreve três seções de ensinamentos sobre riquezas e posses (12:13-34; 14:7-31; 16:1- 31) o Ainda que acompanhe o sentido do AT de “pobres” como “povo oprimido e dependente de Deus”, não resta dúvida de que a pobreza material literal é uma das suas grandes preocupações • No entanto, este formato de pregação e a teologia que surge a partir daqui devem nos dirigir ao cerne da missão de Jesus: Cumprir uma mudança de mundo, um confronto com o normal estabelecido pela injustiça e desigualdade vigente 11. O Espírito Santo (Lucas-Atos) • Mesmo sem considerar o volume de Atos, Lucas faz mais menção ao Espírito do que Mateus e Marcos • Podemos dizer que em Lucas temos referências ocultas à “promessa de meu Pai” e ao “poder do alto” • “Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai; permaneçam, pois, na cidade, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto” (Lc. 24:49) • Atos 1 é caracterizado com um tempo de espera, por dois motivos principais: o A conexão e continuidade entre Lucas-Atos o A demonstração de que a missão (ousadia e sabedoria) dos discípulos depende do poder do Espírito Santo o Sem o Espírito não há missão, nem história alguma para Lucas relatar 12. O Espírito Santo e Jesus • O Espírito é “o Espírito de Jesus” (At. 16:7) • Ele fortalece a igreja para testificar de Jesus (At. 1:8) • No batismo, em nome de Jesus, os discípulos recebem o Espírito Santo (At. 2:28; 10:43-48) • Até o dom inicial no Pentecoste é obra de Jesus (Lc. 24:49) • Foi o Senhor quem derramou o Espírito (At.2:33) • Desse modo, o dom do Espírito, para Lucas, tem a função essencial de equipar a igreja para a sua missão de testificar a respeito de Jesus. “Esse aspecto missionário é, provavelmente, o mais importante da história [do Pentecoste] na opinião de Lucas”.10 13. Espírito Santo e Desescatologização • A partir da experiência do Pentecoste, o teólogo J. D. G. Dunn criou um quadro idealizado da igreja primitiva espontaneamente “espiritual”, sem estruturas institucionais • De acordo com Dunn, a ideia é que o Espírito Santo ativo por intermédio da igreja tomou o lugar da esperança escatológica, de forma que a experiência da igreja foi considerada como a própria escatologia, percebida na “nova era do Espírito” 10 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 309 19 • Dado isso, esse seria um dos mais importantes aspectos que dá base para a tese da “desescatologização” do Evangelho de Lucas • Porém, apesar de a vinda do Espírito fazer parte do cumprimento das esperanças escatológicas do AT, não podemos resumir a escatologia a esse tema • Em seu Evangelho, Lucas inclui teologia da parousia suficiente para evitar o extremo da desescatologização • E, a teologia da redenção em Lucas é acompanhada de uma articulação: a) Uma expectativa iminente e b) Um incentivo ao discipulado efetivo • Tais temas não precisam ser excludentes: a) Por um lado, a ação do Espírito e, por outro, a meta futura de missão concluída da igreja se complementam. b) Principalmente, porque é o próprio Espírito quem testifica do glorioso retorno dAquele que aguardamos Lucas oferece uma teologia de salvação de longo alcance, que é firmemente alicerçada na experiência da igreja, à medida que cumpre sua vocação para ser o instrumento da missão continuada de Jesus para todas as nações; uma missão que desde seu início até sua consumação não se constitui em um esforço meramente humano, pois essa missão é levada a cabo pelo plano e poder do “Espírito de Jesus”.11 O EVANGELHO DE JOÃO A CRISTOLOGIA DO LOGOS NOS ESCRITOS JOANINOS12 Autor: O apóstolo João, “o discípulo a quem JESUS amava”, pertencia ao círculo íntimo de amigos de CRISTO (juntamente com Pedro e Tiago), e esteve ao lado de JESUS em várias ocasiões: na transfiguração no monte, na agonia no Getsemâni, na ceia pascal inclinando sua cabeça sobre o peito de JESUS, durante o julgamento do Messias, e aos pés da cruz na morte do SENHOR. Ano: 85 - 95 d.C. Destinatários: O livro foi escrito para a igreja em geral, por apresentar JESUS como o Filho de DEUS, com destaque para a sua preexistência, sua encarnação, e sua unidade com o Pai. É um evangelho que vai de encontro tanto para um recém convertido até um teólogo cristão. Propósito: O livro de João foi escrito para que as pessoas creiam que JESUS é o Cristo, o Filho de DEUS, e crendo Nele, tenham vida em seu nome (Jo 20:31), com profundo teor evangelístico. João 11 Idem, p. 310 12 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 356 a 372. 20 apresentou as verdades mais profundas do evangelho, como a divindade de CRISTO e do ESPÍRITO SANTO. 1. Introdução • A cristologia desenvolvida na redação do Evangelho de João permite uma excelente compreensão da pessoa de Jesus • Por isso, a Cristologia de João é muito rica e contém informações importantíssimas para a Igreja de Cristo. 2. O Logos • Jesus Cristo é chamado de Logos apenas três vezes nas Escrituras, e todas elas na literatura Joanina. (Jo 1.1; 1Jo 1.1; Ap 19.23) • João está se apropriando deliberadamente de um termo amplamente conhecido, tanto no mundo helenístico como no judaico, com a finalidade de postular a importância de Cristo, e sua autêntica cristologia • Qual a origem da ideia do LOGOS? • À época da redação de João, existiram várias compreensões (logias) a respeito do Logos, tanto helenísticas quanto judaicas: • Logos para T. W. Manson a) O ramo principal de onde surge o Logos é a palavra debar Yahweh, Palavra criadora e reveladora de Deus (contexto Vetero-Testamentário) b) Mas, fica em suspense o que Logos significaria para os primeiros leitores de João... • Logos segundo o filósofo Heráclito13 a) Todas as coisas estão em fluxo e refluxo permanente no Logos. O Logos é um princípio eterno de ordem, e ele está por trás de qualquer mudança que faz com que o mundo se torne um cosmos e um todo ordenado • Logos na Teologia Estoica14 a) O Logos como aquilo que dá base para uma vida moral e racional. Neste sentido, confrontando o dualismo grego a respeito de Deus, admitem o universo como um conjunto vivo singular, permeado em todas as partes por um único poder primitivo, um fogo que penetra todas as coisas, chamado de spermatikos logos, logos seminal, o princípio gerador do mundo • Logos para Filo de Alexandria15 13 Heráclito (540-470 a.C.) foi um filósofo pré-socrático da Ásia Menor. Escreveu com extrema complexidade a respeito da ciência, da teologia e das relações humanas. Foi considerado o precursor da dialética e um dos fundadores da metafísica. 14 A teologia estoica é conhecida como um panteísmo fatalista e naturalista: Deus nunca é totalmente transcendente, mas sempre imanente e identificado com a natureza 15 Foi um dos mais renomados filósofos do judaísmo helênico, interpretou a bíblia utilizando elementos da filosofia de Platão, para ele o Demiurgo de Platão é o Deus criador dos hebreus. 21 a) Filo une, extraordinariamente, religião judaica com filosofia helenística. Ele preserva o conceito de inspiração do AT, mas sua intepretação alegórica o faz ver conceitos filosóficos nos textos. “Deus é completamente transcendente, e o conceito do logos forma a mediação entre Ele e a criação” (Deus não pode ser o criador imediato) • Logos e a Literatura Hermética16 a) Logos como um poder criador e formativo; ele é a expressão ativa da mente de Deus (estabelecendo ordem ao caos) 2.1.Logos na concepção judaica • Na concepção judaica vemos uma ideia mais personificada do Logos, seja na compreensão de que o Logos é a “Palavra de Deus”, que cria e revela, ou apenas a “Palavra”, o que remete à ideia de sabedoria personificada, como na literatura de Salomão • Esselogos tem uma existência “semi-hipostática” (como uma palavra encarnada) • É a sabedoria encarnada/personificada • Sabedoria “semi-hipostática” (Pv. 8:22-31) • Sabedoria que “diz algo de si mesma” (Pv. 8:30) • Sabedoria que emanou de Deus para habitar em Israel (Sir. 24:8) • Capaz de dar forma e permear todas as coisas, penetrar todos espíritos, permeia as almas e as torna amigas de Deus (Sab. Salomão 7:22-9:18) • Personifica poeticamente o poder de Deus no mundo • Mas, nunca é chama de “Palavra de Deus” (Sir. 24:3) • É colocada paralela à Palavra (Sab. Salomão 9:1, 2) 2.2.O Inigualável Logos de João • Nem a ideia de logos estoico, nem da sabedoria judaica comportam o que é Logos para João • O ensino teológico (inigualável) que João quer transmitir ao identificar Cristo com o Logos pode ser divido em cinco pontos principais: a) A preexistência de Jesus, no Logos – “No princípio era o Logos”. (“No princípio” faz referência clara à Gn 1.1), conferir: Jo. 6:52; 8:58; 17:5. A ideia de pré-existência encontra sua plena expressão pós ressurreição e ascensão de Jesus. b) A divindade de Jesus Cristo – “e o Logos era Deus”. A expressão theos ēn ho logos compreende duas ideias fundamentais: o Verbo era a divindade, mas não era completamente igual à divindade. (...) “Se João tivesse usado o artigo definido também com o vocábulo theos, teria dito que tudo o que Deus é, o Logos também é: uma identidade exclusiva. Da forma como está, ele está declarando que tudo que o que o Verbo é, Deus é; porém ele implica em que Deus seja mais do que o Verbo”17 16 Se apresenta no gênero didático ou instrucional em forma de diálogo, sermão ou aretalogia. O Hermetismo influenciou tanto não cristãos quanto cristãos apologistas na Antiguidade e, subsequentemente, reverberou-se no pensamento e na produção icônico-literária na Idade Média e no Renascimento 17 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 360. 22 c) Jesus Cristo, no Logos é agente na criação. O logos não é o Criador, mas é agente sem o qual nada do que foi feito se fez. Essa teologia se acha também em Paulo: Todas as coisas procedem de (ĕĸ) Deus, por meio (δία) de Cristo (1 Co. 8:6; Cl. 1:16) d) A encarnação de Cristo, “e o Logos se fez carne”. Aqui se separam definitivamente os conceitos de Filo (completamente transcendente) e de João (imanente). Deus “habitou” ou “tabernaculou” entre nós (1:14). Ele estava presente em carne, em humilhação e) A revelação por meio da encarnação de Cristo. Cristo revela a vida (1:4), a luz (1:4-5), a graça (1:14), a verdade e a glória (1:14). Cristo revela o próprio Deus (1:18) 3. O Messias • Em João, “Cristo” não é um nome próprio, mas um título. O evangelista quer que seus leitores reconheçam Jesus como o Cristo, isto é, o Messias. • Esse é um importante contexto judaico da narrativa de João. “O Evangelho foi escrito não com a finalidade dos homens crerem em Jesus Cristo, mas para que pudessem crer que Jesus é o Cristo”.18 • João quer mostrar que Jesus é o Messias que foi prometido no Antigo Testamento; ele é o “Rei dos judeus”. • Mas, obviamente, a sua soberania messiânica é espiritual, não política. 4. O Filho do Homem • Tal como os Sinópticos, o título Filho do Homem é usado apenas pelo próprio Jesus, ou seja, colocado nas suas palavras (9:36; 12:23) • O não uso desse título, pelas demais pessoas que participam das narrativas, pode ter sido pela ignorância do seu significado ou porque para a maioria o título não possuía conotação messiânica • Filho do Homem nos Sinópticos: a) Filho do Homem ministrando na face da terra; b) A humilhação e a morte do Filho do Homem; c) A vinda do Filho do Homem em glória apocalíptica • O Filho do Homem Joanino a) Filho do Homem a partir de uma tradição independente: b) Jesus é o “levantado da terra”, ênfase na “glorificação de Jesus” (3:14; 8:28) c) Essa é a forma de atrair todos para si (12:32) d) Simultaneamente, é a sua glorificação (12:23; 13:31) e) Apesar de certa semelhança com os Sinópticos, a peculiaridade de João é enfatizar que Jesus é o único que desceu do céu e para lá torna a subir (3:13; 1:51) f) O restabelecimento da comunicação entre os céus e a terra é parte da “escatologia inaugurada” de João 18 Idem, p. 361 23 5. O Filho de Deus • Diferente dos outros Evangelhos, a identificação de Jesus com Filho de Deus é bastante explícita em João • Em João, Jesus refere-se a Deus como Pater 6 vezes • João está de fato preocupado em mostrar “o papel distinto desempenhado pela filiação de Jesus a Deus” (20:31) • Essa posição distinta fica evidenciada pelo adjetivo “unigênito” – “único da sua classe” • A ideia que João quer passar é a de que Jesus é o único de seu tipo; “outros podem tornar-se filhos de Deus, mas a filiação de Jesus permanece distinta da filiação de todos os demais filhos” • Várias reivindicações vêm como consequência dessa filiação: a) Jesus é enviado pelo Pai e é o objeto especial do amor divino (5:20; 10:17) b) Suas obras são as obras do próprio Deus (5:17-19; 10:32; 14:10), bem como as suas palavras (8:26, 40; 14:24) c) Jesus também reivindica possuir conhecimento exclusivo do Pai e receber, por parte da humanidade, a mesma honra em que é dada a Deus (6:47; 8:28,40; 10:15) d) Jesus tem consciência (e autoridade) de que todas as coisas foram entregues a ele pelo Pai (3:35; 5:23, 10:30) e) A unidade entre Jesus e o Pai é mais do que “propósitos e intentos”, pois o Pai está no Filho e o Filho no Pai (10:38; 14:10-11) 6. A Missão do Filho • Em João, Jesus tem como sua missão principal ser mediador da vida dos seres humanos • Assim como o Pai, Jesus tem o poder de dar vida, vida de natureza eterna, por meio da fé em Jesus como “Filho de Deus” (5:21, 26; 3:35; 6:40; 11:25) • Jesus é mediador não apenas da vida eterna (estática) • Jesus é revelação da pessoa de Deus (1:18) • Jesus é o caminho, a verdade e a vida (14:6-7) • Jesus é juiz e evidência de juízo (5:22-23) • A sua missão envolve a sua morte: é vida mediada pela morte (12:24) Jesus estava plenamente cônscio de que o objetivo de sua missão é sua morte. A ênfase no levantar o Filho do Homem, na sua exaltação, e na consciência de Jesus, de que sua carreira terrena estava centralizada em uma “hora” fatídica (2:4; 12:23,27; 13:1; 17:1), considerados juntamente com as declarações explícitas, mostram que a morte era parte essencial e o ápice de sua missão.19 • Não apenas a morte, mas o sofrimento em si tem um papel importante na teologia da expiação de João, pois Jesus é o Cordeiro (1:29,36) 19 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 368. 24 • Não se trata do Cordeiro Vencedor (como em Ap. 5:5-6). Nem simplesmente o “servo sofredor” (como em Is. 53). Ele é Cordeiro que airŏ, que “remove, tira, extirpa” o pecado por meio do derramar do seu sangue 7. O Filho Divino • Como filho de Deus, Jesus é mais do que um homem escolhido e consagrado, ele faz parte da divindade • A declaração mais explícita de Jesus como sendo Deus está na frase: “Eu sou”. • Podemos distinguir duas formas como essa declaração aparece: um atributo; e um modo absoluto a) Atributo: Jesus afirma ser alguma coisa, como por exemplo: “Eu sou o pão da vida” (6.35). b) Absoluto: Designando algo da sua pessoa: Antes que Abraão existisse, EU SOU (8:28) • Jesus faz clara referência à revelação de Deus a Moisés, “EU SOU O QUE SOU” (Ex 3.14); ele está se identificando com o Deus de Israel. • Ladd cita Stauffer dizendo que essa expressão é “a mais autêntica, a mais audaciosa e a mais profunda afirmação, procedente de Jesus, a respeito de quem Ele era”.20 • Não obstante, Jesus ainda é identificado com distinto do Pai • É declarada a divindade de Jesus Cristo como o Filho eterno de Deus e, ao mesmo tempo, faz-se distinção entre o Filho e o Pai, de modo mais explícito e mais enfático do que quaisquer dos outros escritores do Novo Testamento8. A Humanidade de Jesus • Jesus não é apenas visto como divino, mas também como humano. • Apesar de muitos questionarem o tema da humanidade de Jesus no Quarto Evangelho, podemos ver muitos momentos em que João deixa claro que o Filho é humano. a) Ele sente sede e cansaço (4:6-7); b) Experimenta emoções humanas, como tristeza (11:33-35); c) Passa por aflição (12:27); d) Perturbou-se em sua alma (12:27). Entre outros exemplos. • Desta forma, não podemos simplesmente afirmar que os Sinópticos apresentam um Jesus humano e “histórico”, ao passo que João apresenta um Jesus radicalmente reinterpretado, ou seja, uma descrição ‘divinizada’ • É um fato amplamente aceito que os Sinópticos descrevem Jesus como Filho de Deus, da mesma forma que, essencialmente, João o faz • Em vez de nos oferecer uma figura excêntrica, podemos concluir que João nos capacita, precisamente, a “observarmos o Cristo sinóptico de modo profundo” 20 Idem, p. 370 25 PARTE 3 TEOLOGIA DE ATOS E TEOLOGIA DE PAULO INTRODUÇÃO A ATOS DOS APÓSTOLOS21 Autor: Lucas, o médico, amigo e companheiro de Paulo. Ano: 61 d.C. Destinatários: O livro foi escrito, assim como o evangelho de Lucas, em especial para Teófilo, um cristão de uma família de classe alta, mas também foi escrito de um modo geral para toda a igreja a fim de estabelecer um elo entre a vida testemunhada de JESUS e a vida segundo o exemplo de JESUS ensinada nas demais cartas do NT, fazendo a transição entre o judaísmo (lei) e o cristianismo (graça). Propósito: O livro de Atos registra a história do estabelecimento e da expansão do cristianismo, através da ascensão de JESUS, a descida do ESPÍRITO SANTO, o dia de Pentecostes, as primeiras viagens missionárias, até a chegada de Paulo em Roma para continuar a pregação do evangelho na capital mundial. Atos é a continuação dos ensinamentos de JESUS nos evangelhos através da vida dos santos das igrejas. 1. O Kerygma Escatológico • A igreja primitiva, ao interpretar e anunciar Jesus, desenvolveu o que chamamos de um “kerygma”, todo peculiar • “Kerygma” é como chamamos estrutura muito bem elaborada da proclamação do Evangelho, formada pelas seguintes bases: • O Kerygma Escatológico pode ser resumido em 5 pontos fundamentais: a) A era do cumprimento começou b) A era messiânica acontece por meio do ministério de Jesus Cristo c) Por causa da sua ressurreição, Jesus foi exaltado à destra de Deus d) O Espírito Santo na igreja é o sinal do poder e da glória e) A era messiânica atingirá consumação no retorno do Cristo 1.1.A era do cumprimento começou a se manifestar (At. 2:16; 3:24) • Segundo o Kerygma, estamos diante do que foi predito pelo profeta Joel (At. 2:16) 21 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 469 a 483. 26 • De fato, todos os profetas, de Samuel em diante, um por um, falaram e predisseram estes dias (At. 3:24) • Os apóstolos e a igreja primitiva passam a declarar o surgimento (cumprimento) da profética era messiânica 1.2.A era messiânica acontece por meio do ministério (vida), da morte e da ressurreição de Jesus Cristo (At. 2:23) • As evidências dessa “era messiânica” são os fatos vividos, os relatos e o cumprimento do que já estava determinado “no conselho e presciência de Deus” 1.3.Por causa da sua ressurreição, Jesus foi exaltado à destra de Deus (At. 2:33-36; 3:13) • Jesus é, portanto, o cabeça messiânico do novo Israel 1.4.O Espírito Santo na igreja é o sinal do poder e da glória do crucificado-exaltado (At. 2:33,47) • O Espírito é evidência do poder do Cristo na vida da igreja 1.5.A era messiânica atingirá consumação no retorno do Cristo (At. 3:20, 21) • Enfim, o todo do kerygma está carregado de teor escatológico, mas principalmente sua ideia de consumação • Soma-se a isso, o fato de o Kerygma invariavelmente terminar com o seguinte arranjo (At. 2:38, 39): a) O apelo ao arrependimento, b) A oferta de perdão e c) A oferta do Espírito Santo 2. O Jesus Histórico • O foco principal do Kerygma está nesses dois aspectos centrais: Morte e Exaltação de Jesus • Como base no que entendemos do Kerigma, notamos que a distinção do “Jesus histórico” e do “Jesus exaltado” serve apenas para fins didáticos (modernos) pois, na realidade, a igreja primitiva proclamou o destino de um (e o mesmo) homem real 1 Manifestou- se a Era do Cumprimento 2 Cumprimento veio pelo ministério, morte e ressurreição 3 Da Ressurreição resulta a Exaltação do Cristo 4 O Espírito na igreja é sinal do poder do Cristo 27 • Desta forma, os fatos históricos não são suficientes para o conteúdo do Kerygma, apenas para o seu contexto, ainda que a humanidade de Jesus nunca seja negada 3. Os Sofrimentos de Jesus • A perspectiva da igreja primitiva a respeito do sofrimento e da morte de Jesus recebeu maior interesse no interior do Kerygma, do que propriamente a sua vida. – Mas, qual seria a razão? • Para a igreja primitiva, a morte de Jesus não é meramente um evento trágico, mas um evento marcante dentro do propósito maior e redentor de Deus (2:23; 4:28) “a este, conforme o plano determinado e a presciência de Deus, vocês mataram, crucificando-o” (2:23a) “para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (4:28) • É exatamente o paradoxo do sofrimento que conecta toda a história da salvação • Contrariando a expectativa de boa parte do judaísmo vigente, a igreja foi capaz de conectar a visão do ‘Servo sofredor’ com a missão do ‘Messias enviado’ por Deus • Por que a igreja atribui o sofrimento à missão messiânica? – A intepretação pré-cristã de Is. 53 não faz isso • Jesus não ensinou que morreria como o Messias, mas como Filho do Homem • A resposta está no título cristológico “ραίς” (o Servo) usado pela igreja primitiva em Atos, e que não é encontrado mais no NT: “Os reis da terra se levantam, e os governantes se reúnem contra o Senhor e contra o seu Ungido”. (At 4:26) • Essa ideia teológica cria a fusão dentro da função messiânica: Jesus sofre tanto como Ungido, quanto como Servo (At. 4:26) • Embora o Servo tenha sofrido a morte, Deus o glorificou (3:13,14) a) AT – Servo do Senhor (ebed Yahweh); b) NT – Servo de Deus (raîs theou) • Desta forma, a cristologia da igreja primitiva é melhor compreendida enquanto o título “Christos” ainda não havia se tornado uma espécie de nome próprio de Jesus, ou seja, enquanto “Christos” aponta para a fusão da missão de Jesus • Há teologias que divergem, argumentando que essa cristologia da exaltação seria contraria a uma teologia escatológica da igreja primitiva, ou mesmo se aquela não seria apenas uma cristologia mais antiga da igreja nascente. • Mas é crível que ambas cresceram juntas. 4. O Início da Ressurreição • Para a cristologia primitiva, a morte foi mais importante do que a vida, pois na verdade, a ressurreição abriu espaço para a vida e o evento escatológico, a ressurreição dos mortos, situando a ressurreição de Jesus no limiar de duas eras ou tempos. • A ressurreição trouxe o evento do futuro para o presente. Parte do escathon está cumprido. 28 • Estamos novamente no entrever da história da salvação, entre ‘o já e o ainda não’, ou seja, a igreja vive a tensão entre a realização e a expectação 5. O Reino de Deus em Atos • A manutenção da mensagem do Reino de Deus em Atos tem um triplo sentido: a) Continuar a instruir seus discípulos, que ainda retinham ideias teocráticas e nacionalistas acerca do Reino (At. 1:6); b) Assumir com seriedade a promessa do dom do Espírito Santo como fundamental para serem difundidos os verdadeiros valores do Reino (At. 1:7) c) Não repudiar, mas simplesmente despojar a importância política do Reino, submetendo-o e relacionando à esfera espiritual (At. 3:20) 6. A Ascenção • O registro de Lucas em Atos afirma: “Depois de ter dito isso, Jesus foi elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvemo encobriu dos seus olhos” (At. 1:9) • É improvável que Lucas tivesse ideias ou termos cosmológicos. O que temos aqui é uma declaração de “finalização representada”: ‘Ele entra nas nuvens e fica com o Pai’ • É importante afirmar: A ressureição não é um retorno a existência terrena, mas um evento escatológico – primícias da ressurreição escatológica • A ressurreição de Jesus é o ‘aparecimento da vida eterna na mortalidade’ (2 Tm. 1:10) 7. Ressurreição (Exaltação + Glorificação) • A glorificação e a exaltação são elementos escatológicos que ocorrem no interior da ressurreição (At. 2:32-33) • Analisando a estrutura do hino pré-paulino de Filipenses 2 e a associação de ideias teológicas primitivas de Atos 5:30-31, podemos considerar que: a) O momento da humilhação e morte de Jesus é seguido (conectado) por sua exaltação, sem mencionar detalhes nem da ressurreição nem da ascensão (Cf.: At. 5:30, 31) b) A ressurreição comporta, em si mesma, a glorificação e a exaltação de Jesus, ou seja, ela forma um evento único (bloco) no interior do mistério da operação de Deus (Cf.: At. 2:32, 33) • Dado isso, é importante reforçar 2 aspectos importantes: a) Admitir as aparições de Jesus aos discípulos em forma corpórea normal como “concessões do Cristo glorificado”. Testemunhando a vitória sobre a morte e, ao mesmo tempo, uma ‘declaração de finalização representada’, como já dito. b) Reconhecer que estamos diante do profundo mistério, pois a ressurreição é “intrinsecamente incompreensível”, por ser evento da ‘história’ do sobrenatural no Reino da realidade celestial 8. O Rei Messiânico 29 • É de suma importância afirmar: A exaltação não significa que apenas neste instante Jesus se tornou Messias, mas indica um novo estágio na sua missão messiânica, agora, entronizado como Rei Messiânico. • Esse é um elemento teológico chave para afirmação de fé e para evitar heresias, como por exemplo o adocionismo.22 • É dentro desta compreensão que Pedro e os demais apóstolos em suas narrativas de Atos fazem uma releitura do Antigo Testamento e da ‘Heilsgeschichte’ (História da Salvação) – Ver: At. 2:34-35 • Por isso, Jesus pode receber os títulos de SENHOR e Cristo, devido a reinvindicação re- interpretada Vetero-testamentária (Sl. 132:11; 2 Sm. 7:13, 16; Sl. 110:1) • Mas o Kerygma sinaliza que em sua completude, a entronização do Rei messiânico aguarda escatologicamente que todos os seus inimigos sejam subjugados (At. 2:35) • Eis a tensão teológica-kerygmática que se desdobrará ao longo do NT: Cumprimento- Consumação 9. O Filho do Homem • A designação preferida de Jesus nos evangelhos – Filho do Homem – praticamente desaparece no Kerygma da igreja primitiva • Não há porque duvidar que esse título continuou sendo usado e foi a base primária da cristologia primitiva, e que a igreja identificou a Jesus exaltado como o Filho do Homem. • Mesmo que não seja a explicação mais plausível, é possível que a ausência do título no Kerygma se deva ao fato de a igreja acreditar que este fosse um título mais apropriado para Jesus durante seu ministério terreno e, mais tarde, para sua parousia • No “interim da era” da igreja (Zwischenzeit), o título mais adequado é SENHOR (Kyrios) 10. Jesus como SENHOR • Poucos defendem que o uso da palavra Kyrie (vocativo) representa apenas uma espécie de tratamento de cortesia e não cristológica • O fato digno de nota é que Atos usa Kyrie, simultaneamente, para Deus e para o Jesus exaltado • Há uma sintonia textual: a) Kyrios => Adonai => Yahweh • Eis o âmago do Kerygma da igreja primitiva: A igreja reconhece a exaltação de Deus sobre Jesus, e reconhece Jesus como Deus (At. 2:34-36) • Jesus tornou-se SENHOR, ao passo que Deus continua sendo o SENHOR 22 Adocionismo é uma visão teológica não trinitária do cristianismo primitivo, que professa que Jesus nasceu humano e apenas depois tornando-se divino, por ocasião do seu batismo, ponto em que foi adotado como filho de Deus. Nega- se, assim, que o Filho foi gerado eternamente e também a sua pré-existência 30 PAULO – INTRODUÇÃO A TEOLOGIA DE PAULO (1) 23 Autor: Apóstolo Paulo Ano: 50 a 63 Propósito: Além da intervenção doutrinária do apóstolo Paulo sobre as questões internas das Igrejas para seu ensino didático e desenvolvimento, a teologia paulina mira na nova era da redenção realizada pela obra de Cristo 1. Paulo, o cristão • São 3 os fatos mais característicos da missão apostólica de Paulo: a) Proclamação do Cristo que antes ele mesmo perseguia (Paulo sempre perseguiu o Messias) b) Convicção de missão ‘particular’ (não exclusiva) de levar o Evangelho aos gentios (missão global) c) Pregação da justificação pela fé, contrastando com (e sem considerar) as obras da Lei • Os 3 relatos em Atos (9:1-9; 22:6-16; 26:12-18) não trazem os mesmos detalhes, mas concordam com a visão e com o encontro com o Cristo ressurreto • Podemos dizer que, para Paulo, a conversão é: “...a decisão de abandonar todo seu auto- entendimento anterior, que fora questionado pela mensagem cristã, e de entender sua existência de forma renovada”.24 • Importante: o novo entendimento não é conteúdo da experiência em Damasco, mas o resultado. • Os textos paulinos relacionam a aparição de Jesus para o apóstolo às aparições dos quarentas dias, mas na dele, houve algo anormal, “como a um abortivo” (ektròmati; em 1 Co. 15:8), pois aconteceu depois que Jesus parou de aparecer aos outros • A experiência em Damasco foi a mais recente e última aparição de Cristo (concessões do Cristo glorificado) • A ‘aparição’ é o elemento chave tanto para justificar a força da radical mudança de mente de Paulo, quanto para explicar sua anunciação do Messias • O tema ‘Conversão’ em Paulo deve ser compreendido como mudança de um entendimento de justiça a outro: Da sua justiça própria pelas obras à justiça de Deus pela fé (Rm. 9:30ss) • A lógica interna que domina a chamada de Paulo está na sua contida na sua conversão: “Mas, se um povo que não observa a Lei como os fariseus, era descrito como o povo do Messias, então a salvação não poderia ser encontrada por intermédio da Lei; ela teria de ser uma dádiva do Messias”.25 23 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 513 a 522. 24 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 514 25 Idem, p. 515 31 • Paulo representa o melhor da religiosidade da sua época, os mesmos que condenaram Jesus. Agora convertido, seu esforço de fazer justiça se volta para a verdadeira justiça de Deus (Rm. 10:3) • A essência da teologia de Paulo é resultado da experiência de Damasco, e pauta-se nos pilares: a) Jesus como o (verdadeiro) Messias b) O Evangelho para os gentios (missão particular) c) A justificação pela fé (inversão da justiça própria) 2. Tudo se fez novo • Um dos fatores mais importantes: A experiência de Paulo e sua conclusão a respeito de que Jesus é o Messias, o obrigam a uma revisão do seu entendimento a respeito da história da salvação (Heilsgeschichte) • Na teologia paulina, note que alguns princípios judaicos foram mantidos, mas foram completamente reconfigurados: a) A espera pelo Dia do Senhor, aparição Messiânica e Reino escatológico (1 Tss 5:2) b) O esquema judaico das duas eras e do caráter mau da era presente (Gl. 1:4) c) Poderes demoníacos que se opõem ao povo de Deus (Ef. 6:12ss) d) O povo de Deus ainda está sujeito aos males físicos, doenças (Rm. 8:35; Fp. 12:26), morte (Rm. 8:10) e) Mundo físico ainda cativo da ‘corrupção’ (Rm. 8:21) f) Espírito mundano em oposição ao Espírito de Deus e o mundo sob julgamento (1 Co. 11:32) g) Os crentes ainda vivem, fazem uso e não podem evitar a associação com demais pessoas desse mundo aqui (1 Co. 7:31) h) O Reino de Deus permanece como esperança escatológica do ponto de vista da natureza, da história e da cultura (1 Co. 4:20; 2 Tss 1:5) • Porém, o Reino já está presente pois Jesus é o Messias, eseu povo foi trazido para dentro do Reino. Isso envolve uma modificação da visão de Paulo sobre a história da redenção (Heilsgeschichte) • A compreensão da ressurreição de Jesus como evento escatológico e a presentificação do Reino indica que as duas eras se tocaram escatologicamente. • A antecipação da vida eterna (pela ressurreição de Jesus) indica a divisão da existência atual nas duas eras, e que fica definida por Paulo nos dois estágios: a) ‘Cristo’, as primícias (frutos maduros) – é o primeiro estágio da ressurreição (1 Co. 15:20, 23) b) ‘Aqueles que pertencem a segunda vinda’ – é o segundo estágio da ressurreição • A ênfase: A ressurreição de Cristo é o início da ressurreição como tal 3. A vida do Espírito também é uma realidade escatológica 32 • Segundo Paulo, nós já experimentamos aqui e agora “as primícias do Espírito” (Rm. 8:23), mas ainda aguardamos a plenitude do gozo do Espírito que será uma transformação da nossa própria natureza • Paulo também descreve o gozo do Espírito em termos de pagamento inicial. Deus nos selou com o penhor da sua promessa (Ef. 1:14; 2 Co. 1:22; 5:55). O termo aqui é arrabòn (pagamento ou garantia), mas também com ideia de realização • Há um modelo antitético comum de Paulo revelando “as duas eras”, sob 3 aspectos centrais: a) A Ressurreição é tanto histórica como escatológica (consumação) b) A Vida do Espírito é tanto experiência no presente, como esperança futura c) O Reino de Deus é tanto presente como futuro (escathon) • Nesse sentido, para os crentes, o “fim dos séculos” já chegou. – Mas o que ele realmente significa? • Temporalmente, o “fim dos séculos” pode ser entendido como a “superposição da era presente e o século futuro” • Porém teologicamente, é plausível entender que os séculos da história humana encontraram sua plenitude (aquilo que os completa – escathon) • Num conceito paulino: “...de um modo surpreendente, visível somente pela fé, o fim do antigo aeon26 e o início do novo sobrevieram à comunidade”.27 • Um ponto chave sobre o entendimento de Paulo quanto a história da redenção está em 2 Co. 5:16, 17, descrevendo que um novo tipo de existência se abriu aos homens, em Cristo: ¹⁶ Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. ¹⁷ E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2Co. 5:16,17) • O conceito de “novidade” é conceito escatológico: Novo céu e terra; Nova Jerusalém; Novo vinho; Novo nome; Novo cântico. • Eis o novo significado da nova vida que Paulo tenta expressar após sua conversão, através do kata sarka (segundo a carne) • Para Paulo, o ponto de vista, valores, intepretação a partir da perspectiva humano-carnal... foram todos substituídos. • Do contrário, se considerasse o Cristo kata sarka, Paulo estaria considerando-o a partir de uma visão contaminada e o próprio Cristo seria alguém debaixo da Lei • Jesus seria, no fundo, apenas mais um pretendente messiânico, cuja morte e sacrifício na verdade foram merecidos 4. Âmago da Teologia Paulina 26 Aeon, também conhecido por éon, eão ou eon, é um termo utilizado para designar “o que é para sempre”, um período longo de tempo ou a eternidade. Esta palavra se originou a partir do grego αἰών (aión), que pode ser traduzido como “tempo de vida”, “força vital”, “geração” ou “eterno” 27 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 519 33 • Ao longo da história, o fio condutor e, ao mesmo tempo, unificador da teologia paulina, tem sido considerado o tema da justificação pela fé e a experiência mística do “estar em Cristo”. • Estudos recentes propõe uma nova reflexão: a) Wrede – a justificação é assunto que pode ser reservado apenas quando da discussão sobre a Lei b) Schweitzer – a prioridade está na escatologia paulina, e a justificação é questão secundária c) Andrews e Sabatier – a justificação como uma “noção judicial inferior” d) Stewart – o eixo da teologia paulina está união com Cristo e não na justificação e) Davies – justificação apenas como polêmica contra os judaizantes, a verdade central é a consciência da vinda dos poderes da nova era • Sintetizando, podemos confirmar que o núcleo teológico de Paulo é: A realização da Nova Era de Redenção por meio da Obra de Cristo, na qual a Justificação é parte integrante essencial • Ter a justificação como doutrina central pode privar a mensagem (kerygma) de sua “dinâmica histórica redentora”, pois este é, definitivamente, o centro unificador do corpus paulino • O tema central do kerygma do Novo Testamento é o cumprimento da redenção histórica, por meio de Cristo, e Paulo expõe o que chamamos de novos fatos redentivos. Esse é o aspecto que unifica as ideias teológicas de Paulo • Entender adequadamente a nova era em Cristo permite solucionar possível tensão entre justificação e o “misticismo” ou a vida em Cristo • A justificação é dádiva escatológica, da mesma forma que vida do Espírito, vida do Reino de Cristo e promessa de ressurreição. • A justificação pertence, escatologicamente, ao século futuro, mas já está sendo experimentada aqui e agora, pois já é uma declaração (dádiva) do Justo Juiz, pela obra do Cristo • Desta forma, como desdobramento da experiência de Damasco, Paulo compreende que toda a história dos primeiros cristãos era verdadeira, e assim, ele “... encontrou uma nova compreensão da revelação; ou melhor, recuperou o entendimento profético da revelação como eventos redentores divinos, interpretados pela palavra profética: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Co. 5:19).28 TEOLOGIA DE PAULO (2) 29 1. Revelação • Em linhas gerais, para Paulo a Revelação é: a) A totalidade de eventos históricos de Jesus, somados... 28 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 522 29 Idem, p. 538 a 546 34 b) A interpretação apostólica do significado divino do evento, em que, c) A própria interpretação é parte do evento 2. Revelação e Tradição • A ideia de que os apóstolos são meio de interpretação da revelação abriu margem para entender que a revelação só tem a ver com o significado desses eventos e não com os eventos em si • Assim, o Evangelho não é um recital de acontecimentos passados; é um evento presente, na proclamação • De fato, a teologia paulina sustenta esta hipótese, já que na proclamação do kerygma e do euangelion, Paulo parece igualar evangelho à revelação do mistério (16:25-26; Ef. 6:19) • Porém, devemos perceber que o Evangelho não presta apenas testemunho acerca da história da salvação, ele é poder dinâmico (δυναμις); ele é a história da salvação alcançando a humanidade (Rm. 1:16) • Qual o problema aqui: Limitar o Kerygma e o Evangelho ao ato (momento) da pregação. Sim, o Evangelho tem o seu grande valor no significado e o seu significado é a redenção, mas ele ocorre dentro da história. • O Evangelho não se limita a ação proclamadora, mas ao conteúdo que carrega a sua mensagem • Seu conteúdo é o Cristo crucificado, evento histórico, absurdo e loucura apenas para os que perecem (1 Co 1:21-23) • A proclamação está no interior destes fatos, e é resultante deles a) Os fatos: a morte, a ressurreição e aparições aos discípulos, sem os quais a proclamação se esvazia de significado (1 Co 15:3 e ss) • E qual é o significado do Kerygma? – O significado é Deus agindo dentro da história: Existe uma unidade dinâmica entre o evento e a proclamação do evento. • O passado vive no presente por meio da proclamação – desta articulação emerge o conceito de “tradição” na teologia paulina • Um aparente dilema quanto a “tradição”: a) Jesus contrasta as tradições judaicas com a palavra de Deus, proibindo até a imitação da tradição (Mt. 15:6; 23:8-10) b) Já Paulo, elogia os coríntios pela manutenção da tradição que lhes transmitiram (1 Co.11:2), e aos tessalonicenses, orienta a manter a tradição (2 Tss. 2:15; 3:6) • Qual a diferença entre o ensino de Jesus e de Paulo? a) Em Jesus, estamos diante de um remanejamento da cultura da tradição rabínica judaica para a tradição cristã. Os termos usados são os mesmos (categorias de expressões). O conceito de “tradição” incorporou o Kerygma apostólico 35 b) Já em Paulo, manter a tradição significa manter oralmente o que foi transmitido pelos apóstolos: as boas novas da salvação e uma parte da tradição da vida de Jesus. ‘Receber a tradição’ significa receber (parelabete) Cristo Jesus como Senhor (Cl 2:6). Na voz da tradição, a voz de Deus é ouvida. • A tradição é tanto tradição histórica quanto tradição Kerigmática-pneumática. • A unidade de ambas as partes, na forma de uma tradição histórica kerygmática-pneumática, permite compreender que a Palavra de Deus é tanto: O relato sobre o evento da redenção, como também é o próprio evento. • Tanto o significado redentor do que Deus fez na Cruz e na ressurreição, quanto a revelação do que Deus ainda fará na consumação (1 Co. 3:10) são revelados: a) No kerygma, b) No evangelho, e c) Na palavra de Deus • Juntos, o Kerygma, o Evangelho e a palavra de Deus dão forma a uma tradição histórica- kerygmática-pneumática. 3. A Tradição, histórica-kerygmática-pneumática • Segundo a teologia paulina, a tradição histórica-kerygmática-pneumática é um complexo de correntes (tradições), que contém: a) Tradições da vida de Jesus (1Co. 11:23) ²³ “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão” b) Um resumo da mensagem cristã expressa como uma forma de fé, os fatos unificadores da vida de Jesus e sua interpretação teológica (1 Co. 15:3,4) ³ “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, ⁴ e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” c) E, também, regulamentos ou regras para o comportamento prático cristão (1 Co. 11:1,2; 2 Ts. 3:6) ¹ “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo. ² De fato, eu vos louvo porque, em tudo, vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei” • Aparente contradição a respeito da tradição na qual Paulo se apoiou: Gálatas 1:10-12 versus 1 Coríntios 11:23; 15:1-3: ¹⁰ Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo. ¹¹ Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, ¹² porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo. (Gl. 1:10-12) 36 • Possível solução: “diferentes propósitos”. – Em 1 Coríntios 1 Co. 11:23 e 15:1-3, trata de aspectos relacionados à essência do Evangelho: Ceia, a morte salvadora, ressurreição e aparições. Os fatos aqui recebidos são indiscutíveis • Já em Gálatas 1:10-12, Paulo lida com a questão da autoridade apostólica e o aspecto da messianidade de Jesus, ambos dos quais recebeu diretamente do Senhor 4. Paulo e o Antigo Testamento • A forma como o Antigo Testamento surge como fonte de Paulo: o Citações específicas ou alusões ao AT o Fundamentação para ideias teológicas 4.1.Citações específicas ou alusões ao AT: • Escrituras são sagradas e são oráculos de Deus (Rm 1:2; 4:3) • Ela é inspirada, respira o Espírito (2 Tm 3:16) • Paulo cita o AT 93 vezes • Há vínculos que permitem compreender que a justificação pela fé é ensinada no AT e que o Evangelho é o seu cumprimento (Cf.: Rm 1:17; 4:3, 7, 8; Gl 3:6, 11; e Rm 4:17-18; Gl 4:27, 30) • A intenção não é uma comparação exata de profecias, mas uma concordância-encaixe dos eventos preditos na totalidade da nova era da redenção por meio da obra de Cristo 4.2.Fundamentação para ideias teológicas • Aqui não desdobraremos o tema, mas vale ressaltar que é o profundo conhecimento teológico de Paulo do AT que o permite tratar do entendimento dos temas: o De Deus, da antropologia, da expiação, da promessa, da Lei e da escatologia TEOLOGIA DE PAULO (3) 30 1. A Importância da Doutrina da Justificação • O termo mais importante de Paulo para demonstrar a obra de Cristo é “justificação” o A palavra vem do verbo: dikaioό o A raiz de justo: dikaios o A palavra Justiça: dikaiόsynέ o “dikaioό” (verbo) expressa a ideia/ação de “declarar” justo, e não “tornar” 30 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 601 a 611. 37 • Alguns teólogos acreditam que, pelo fato de Paulo utilizar a expressão/verbo “justificação” basicamente em Romanos e Gálatas (66 vezes) e apenas 2 vezes fora (1 Co. 6:11 e Tt. 3:7), não se trata de uma doutrina central na teologia paulina, mas apenas uma polêmica. • Algumas opiniões a respeito do tema: o Albert Schweitzer – retomada da importância da escatologia paulina a partir da justificação pela fé, mas ainda como algo periférico; o Andrews e Sabatier – “justificação” dentro de uma noção judicial e inferior, não tão refinada teologicamente o Stewart – A pista para o entendimento paulino referente a união com Cristo o Davies segue Wrede e Schweitzer – justificação como polêmica conveniente contra os judaizantes o A Tradição Reformada – a justificação é o eixo central do pensamento de Paulo. o Em síntese: “A justificação é uma maneira de descrever a obra objetiva de Cristo a nosso favor. A vida em Cristo é o lado subjetivo ou experimental dessa obra redentora, e ambas são essencialmente bênçãos escatológicas”31 2. O Embasamento da Justificação • “Justificação” vem de um pano de fundo do Antigo Testamento. Diferentemente do pensamento grego, no AT, “justiça” é doutrina da esfera religiosa. • Assim, “justificar” (sadaq) é uma expressão que significa viver em “conformidade com uma norma”, ou mais especificamente, “estar de acordo com Deus” • Ao ampliarmos a noção de justiça do AT, entendemos que não se trata apenas de uma forma ética, mas de “um viver em acordo”, um viver que é ‘declarado como justo’: o Só assim, Tamar (que se prostituiu) pôde ser considerada mais justa que Judá (Gn. 38:26) o Davi, foi justo por não quebrar seu pacto e assassinar Saul (1 Sm. 24:17; 26:23) • “Justiça” é um conceito cujas exigências mudam de acordo com as normas esperadas no relacionamento. Por isso, não significa meramente caráter ético, mas a fidelidade a um relacionamento • “Justiça” é o padrão de Deus no relacionamento. Ele a normatiza, interage, julga, porque Ele é Justiça (Gn. 18:25) • Ao mesmo tempo, o sentido forense primário de justiça é devidamente aplicado a justiça de Deus, e sua ampla definição é (foi) construída em conformidade com a Torah, como exemplificado pela tradição oral dos escribas. (Ex. 23:7; Dt. 25:1) • Infelizmente, ao longo dos séculos, o tradicionalismo religioso judaico deturpou o conceito de justiça, transformando-o num processo meritório, cujo maior exemplo (consequência) é a equivocada compreensão da eleição nacional de Israel • Por isso, um dos maiores conflitos na teologia de Paulo com os judeus é a declaração de que Deus justifica exclusivamente mediante a fé, separado da Lei. (Rm. 3:26; Gl. 2:16; 3:11) 31 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 603. 38 3. A Justificação é Escatológica • Grosso modo, podemos dizer que a chave da compreensão da teologia de Paulo é escatológica, pois: a) ‘Justiça’ é resultado de julgamento; b) Julgamento ocorrerá no ‘juízo final’; c) Deus é ‘Legislador e Juiz’; d) Justificação, então, é uma ‘declaração de absolvição’ pelo Justo Juiz • A orientação temporal das palavras dá o tom do entrever da história (“já” e “ainda não”), conforme Rm. 5:19: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” • E, em Gl. 5:5: “Porque nós pelo Espíritoda fé aguardamos a esperança da justiça” • Nesse sentido, a teologia paulina se alinha para em seguida superar radicalmente a tradição vetero-testamentária, quanto o significado de justiça. Para Paulo “a justificação já aconteceu”! (Rm. 5:1, 9; 1 Co. 6:11) • Nestes 3 exemplos acima os verbos são usados no ‘aoristo’, indicando ação desempenhada. • O juízo final não está no futuro, mas tornou-se um veredito na concretude histórica humana (Rm. 8:1) • Mais central do que ‘a vinda dos poderes da nova era na antiga’, a justificação, por seu caráter escatológico, abarca e tem papel central na teologia paulina • Segundo Ladd: (...) o Reino escatológico de Deus está presente na história, e, de acordo com João, a vida eterna escatológica está presente em Cristo, assim como, conforme Atos (e também no ministério de Paulo), a ressurreição escatológica já começou na ressurreição de Jesus, considerando-se que o Espírito escatológico foi dado à Igreja, o juízo escatológico, em princípio, já ocorreu em Cristo, e Deus absolveu seu povo.32 4. A Justificação é Forense • Será que o termo forense delimita demais a ideia da justificação teológica? o Sanday e Headlam – se a justificação é forense, é ficção; o crente é apenas tratado como se fosse justo o Vicent Taylor – é uma justiça concedida realmente, não meramente imputada, como “a bravura a um covarde”. No sentido respeitável do termo, não porque outro foi justo em seu lugar o Vicent Taylor – O que isso significa: ele é realmente justo, em mente e em propósito, mas ainda não em obras. Pela fé em Cristo, ele adquire uma mente justa o Norman Snaith – não é justiça imputada. “Justificação” não tem a ver com “Justiça”, pois justiça não é condição para a salvação, mas resultado. Se a justiça for uma condição, Deus se torna subserviente a uma necessidade exterior a si mesmo. (...) 32 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 607 39 Justificação é uma palavra da salvação. Repete-se apenas o que Paulo condenou na esfera de uma “justiça ética”, quer seja “real”, “imputada” ou “concedida” 5. Respostas Teológicas: • Não se pode perder de vista a soberania de Deus: Ele é, ao mesmo tempo, o Legislador, o Justo Juiz e, se na visão bíblica coubesse a ideia de um o júri, seria Deus • Em nenhum cenário, Deus se torna subserviente da necessidade de justiça, pois a justiça não é um elemento fora de Deus. Deus é totalmente amor e totalmente justiça • Por intermédio de Cristo, a justiça trás o homem para um novo relacionamento com Deus e é de fato (real) justo, porém, a justiça ética, a mente e a vontade justas pertencem à categoria da regeneração • A justiça é real, pois o relacionamento é real. E, ‘justificação é salvação’, pois está em oposição à condenação (Rm. 8:33, 34) • A pecaminosidade forense resultou numa culpa e condenação forense. Da mesma forma, o pecado que Jesus toma sobre si não é da subjetividade ética, mas é da antítese da relação do homem para com Deus. • Em síntese, segundo Ladd: “A doutrina da justificação significa que Deus pronunciou o veredito escatológico de absolvição sobre o homem de fé no presente, antecipando-se ao juízo final”.33 PARTE 4 TEOLOGIA DAS CARTAS GERAIS E LIVRO DE APOCALIPSE CARTA AOS HEBREUS34 Autor: Desconhecido (uns citam como autor Paulo, outros Barnabé, ou Apolo, ou Silas, ou Priscila ou Áquila). Ano: 63 - 65 d.C. Destinatários: A carta foi essencialmente escrita para os judeus convertidos que conheciam o Antigo testamento e estavam sendo tentados a retornar ao judaísmo ou então judaizar o evangelho. Propósito: A carta é uma apologia a superioridade de CRISTO e do cristianismo sobre o judaísmo (sacerdócio e sacrifício). A carta revela a supremacia e a suficiência de JESUS como o revelador e mediador da Nova Aliança e da graça de DEUS. 33 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 610 34 Idem, p. 762 a 772. 40 1. O dualismo de Hebreus • O dualismo de Hebreus atravessa a carta, descrevendo contraste do poder superior e do inferior; do verdadeiro mundo celestial e o transitório mundo terreno • Em síntese, o que vemos na carta é o dualismo escatológico do século presente e do século futuro • Para Filon de Alexandria, baseado num tipo de estrutura filosófica e cosmológica (influência platônica), o que temos aqui são os dois sucessivos aeons (helenismo) que são substituídos por dois planos superpostos e coexistentes, o mundo ‘supra-sensível’ e o mundo ‘fenomenal’. • Outros estudiosos acreditam que o assunto de maior peso de Hebreus é a escatologia, mas o texto não parece ser capaz de desenvolver duas teologias completamente diferentes, mas formula duas apresentações lado a lado • Porém, os dois mundos também aparecem nas representações dos rituais e instituições do AT, do cap. 8 e 9. As representações, contudo, servem de exemplo, são sombras das coisas celestiais (8:5) o Sacrifícios de animais apontam para sacrifícios melhores e definitivos (9:23) o Cristo adentrou ao verdadeiro santuário celestial (9:24) o A Lei é uma sombra da verdadeira forma das realidades celestiais (10:1) o A fé é o meio para acessar o mundo invisível da realidade celestial (11:1) • Apesar da semelhança com o dualismo de Filon, da sinalização da transitoriedade do mundo fenomenal, que força uma substituição da esperança judaica futura pela esperança grega de mundo invisível (voo da alma), Hebreus não se destituiu da escatologia: o Podemos dizer que o objetivo do trato de Deus com o homem é o mundo futuro (2:5) o Este mundo futuro está sujeito à Cristo (2:8) o A escatologia inaugurada está evidenciada pelo fato de Cristo já estar a destra de Deus, mas aguardar que seus inimigos sejam finalmente colocados aos seus pés, no Dia do Senhor (1:11; 10:3; 10:25; 9:28) o O cumprimento da promessa da salvação é inconfundível (10:36) o Recebimento do repouso, herança, terra prometida, pátria melhor (4:9; 9:15; 11:14; 11:16) o “Epourania” representa o que é verdadeiramente real, escatologicamente, o Reino invisível, mas que já existe no céu (11:16) o É no dualismo característico de Hebreus quanto a sua perspectiva escatológica que se desdobra a ênfase da sua esperança (3:6; 10:23; 6:11, 18) • Filon estabelece o dualismo em termos de irreal (invisível) e efêmero (terrenos), o que não se aplica ao dualismo de Hebreus, que se utiliza do exemplo do tabernáculo como demonstração dualista 2. Jesus e o tabernáculo 41 • Os dois mundos de Hebreus baseiam-se no AT. O tabernáculo e o que o compõe são sombras do celestial • O real veio aos homens por meio da vida e morte histórica de Jesus (isso não é efêmero ou transitório) • O evento Jesus Cristo é “ephapax” – ‘de uma vez por todas’ (7:27; 9:12; 10:10) • A humanidade de Jesus e a sua familiaridade com os homens, portanto é enfatizada e descrita: o Seus sentidos humanos (2:17) o Sofrimento e tentação reais (2:18; 4:15; 5:7) o Aprendizado do significado da obediência (5:8) • Contudo há uma óbvia limitação na descrição de Hebreus já que busca descrever aspectos celestiais em linguagem humana • Ladd analisa da seguinte forma: “O que Cristo fez na cruz, embora fosse um evento no tempo e no espaço, foi, em si mesmo, um evento no mundo espiritual. A eternidade, nesse ponto, torna-se uma intercessão no tempo; o celestial se incorpora no terreno; o transcendental ocorre no histórico”.35 • Há conexão entre a expressão que diz que Cristo veio “na consumação do tempo” (9:26) com a expressão paulina de “os fins dos tempos” (1 Co. 10:11) – é a ideia de “era do cumprimento da esperança do AT”. • É o tempo da plenitude que começou, mas ainda aguarda sua consumação • O “já” e “ainda não” da escatologia inaugurada reflete a articulação entre a “plenitude” e a “consumação” e estão descritos nas expressões: 3. Plenitude e consumação • Esse aspecto pode ser descrito na forma: “Resta um repouso” (4:9, 11) o Entraram nodescanso (4:3) o Dom celestial / poderes do século futuro / vocação celestial (6:4-5; 3:1) o Cidade de Deus (12:22) o Entrada no santuário pela carne (10:19-20) • O tabernáculo celestial diferencia do idealismo platônico, já que é o tempo escatológico- apocalíptico. • A soma destes aspectos, junto a realidade de que Cristo já aparece como Sumo Sacerdote, tornam o assunto da obra expiatória de Cristo o eixo central de Hebreus • Por fim, Hebreus descreve uma tensão tripla: a) as formas do AT; b) a realização do NT e c) a verdadeira realidade celestial (10:1). 35 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 765 42 • A resposta desta equação está na demonstração da evolução, que é apresentada no seguinte esquema: a) O AT forneceu sombra dos bens futuros, não imagem exata; b) O NT está fornecendo mais, fornece a “forma verdadeira” da realidade (eikōn), uma réplica exata; c) Apenas na consumação escatológica teremos acesso a completa realidade celestial 4. A cristologia • Hebreus apresenta a preexistência de Jesus Cristo de maneira explícita, como participante por meio do qual o mundo foi criado, sustentador do Universo, reflexo da glória de Deus e imagem exata do Seu Ser (1:2-3) • Seu título preferido revela a divindade de “Filho de Deus” (1:1, 5; 4:14; 5:5; 6:6; 7:3), herdeiro de todas as coisas, partícipe da divindade e da adoração recebida pelos anjos, ao ponto de Hebreus chama-lo literalmente de Deus (1:2, 6, 8; 2:3; 7:14) • A ascensão de Jesus está na mente do autor ao descrevê-lo penetrando nos céus, sendo coroado e assentando à direita de Deus (4:14; 2:9; 1:3, 13; 12:2) • A ênfase sobre a divindade de Cristo não diminui a importância da sua humanidade, já que, quando falamos do dualismo da carta, a ênfase da sua história real não é uma efemeridade, e ao mesmo tempo, Hebreus cita o nome de Jesus 13 vezes e seu nome messiânico 14 vezes • Jesus é aquele se identificou literalmente (exceto pelo pecado) com aqueles a quem veio salvar (4:15) 5. O Sumo Sacerdote • Este tema é central não apenas para enfatizar a obra expiatória de Jesus, mas para demonstrar cabalmente a falência do sistema religioso primitivo na tratativa para com o pecado • O ritualismo do sacerdócio araônico sinalizava uma purificação cerimonial externa, mas em nada alterava o principal problema da humanidade, o pecado, a purificação da consciência (9:9, 13; 10:4). A própria repetição dos sacrifícios é a maior evidência deste fato • Os sacrifícios não podem trazer a perfeição ao que sacrifica (9:9; 7:11, 19; 10:1). • A ideia da perfeição (teleioō) como meta é o objetivo da vida cristã • No caso de Jesus, ele deveria alcançar a teleiotes pelo sofrimento e obediência (2:10-11; 6:1; 10:14), mas como não tinha pecado, a ideia de “aperfeiçoamento” deve ser compreendida como “maturidade”, que veio pelo sofrimento e obediência inerente à missão aceita • Completando sua perfeita obra, Jesus pode, diferente do limitado sacerdócio da linhagem da Arão, oferecer o caminho da perfeição aos homens 5.1.O sacerdócio de Cristo: o Foi escolhido por Deus (5:5) o Trouxe completa humanidade sobre si (2:17) o Sofreu tentações e familiarizou-se com dores dos pecadores que veio salvar (4:15) o Em tudo era como homem, menos no pecado (4:15) 43 o Não carecia de oferecer sacrifícios por si mesmo (7:27) o Aprendeu perfeição mediante o que sofreu – dedicação e confiança completa em Deus (2:10; 5:9; 7:28) o Diferente dos demais sacerdotes, Ele vive para sempre (7:23) o É santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, feito mais sublime que os céus (7:26) 5.2.A dupla ação sacerdotal: • O modelo sacerdotal do AT tem dois pontos de vistas: histórico e celestial. E, Jesus também atende esta expectativa: o Ele é tanto o Sumo Sacerdote, como Ele é o sacrifício, que se “oferece a si mesmo a Deus” (9:14; 7:27) o A morte histórica é de grande importância para o escritor de Hebreus, ele é enfático em afirmar que “sem derramamento de sangue não há remissão de pecados” (9:22) • A evidência da ação histórica atrelada a ação celestial de adentrar ao santuário celestial mostra que Jesus combinou sua obra expiatória e purificadora da cruz com a obra celestial de mediação, que abre caminho para salvação de toda humanidade (6:20; 8:1; 10:12; 12:2) • Agindo a favor dos homens, Jesus: o Efetuou a nossa purificação; o Nossa santificação; o Nosso aperfeiçoamento o Exatamente tudo aquilo que o AT não era capaz de realizar TEOLOGIA DAS CARTAS GERAIS CARTA DE TIAGO36 Autor: Tiago, provavelmente o meio irmão de JESUS e líder do Concílio de Jerusalém. Foi um homem muito conhecido, mas ao mesmo tempo modesto visto não mencionar seu grau de parentesco com JESUS. Não se trata do apóstolo Tiago que morreu cedo para ter escrito a carta (44 d.C.). Tiago foi muito importante na igreja, sendo considerado por Paulo como uma “coluna da igreja”. Ano: 45 - 48 d.C. Destinatários: A carta foi escrita para cristãos judeus das doze tribos dispersos entre as nações e por ser possivelmente o primeiro livro escrito no NT, se faz valer de um tom nitidamente judaico. Propósito: Como líder da Igreja em Jerusalém, Tiago escreveu como um pastor que ensinava e encorajava seu povo disperso. As mensagens da carta são: a necessidade de se controlar a língua; o 36 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 782 a 787. 44 perigo de bajular os ricos; e necessidade de demonstrar a fé através das obras e pelo modo de vida, além de uma importante lição de que uma vida sem obras é sinal de uma vida sem fé. 1. Introdução • As Cartas católicas (ou cartas gerais) são assim chamadas por serem dirigidas a igreja de forma universal/geral. • Possivelmente, essa carta foi realmente escrita por Tiago, a partir de Jerusalém, no início de 60 d.C. 2. Ênfase e Praticidade • Tiago possui uma teologia de teor muito prático que encoraja judeus cristãos possivelmente sob perseguição • Pode-se identificar uma cristologia básica pelos títulos referidos à Jesus: o “Senhor Jesus Cristo” (1:1) e o “Senhor da Glória” (2:1) • Há elementos escatológicos na carta, pela referência a esperança viva do retorno iminente do Senhor, na parousia (5:7-8), cujo juiz está a porta (5:9) • Fazem parte da sua escatologia a esperança do recebimento da coroa da vida (1:12), a salvação da alma da morte (5:20) e a herança do reino de Deus (2:5) 3. A Igreja • Elementos da epístola enfatizam a importância da igreja para o autor que usa o termo judaico sinagoga (2:2) • Nas reuniões da ecclesia, figuras de lideranças chamadas de anciãos devem pastorear e ministrar óleo para curar os doentes (5:14-16) • Pela sequência textual, pode ser que essa “cura” aqui citada tivesse a ver com o arrependimento do erro que, se alcançado, salvaria uma alma da morte (5:20) • A repetida ênfase do cuidado/atenção com os mestres (posição que não deveria ser invejada, 3:1) contêm uma advertência quanto ao ‘pecado da forma de falar’ (3:2), e indica o interesse do autor neste grupo especifico 4. A Tentação • O assunto da tentação parece sugerir uma teologia antropológica, ou seja, que descreve a natureza humana • A tentação não é engendrada por Deus, mas cada pessoa é atraída e engodada por seu próprio complexo de apetites (1:14) 45 • A melhor tradução para o vocábulo grego epithymia não é concupiscência (tradução mais comum) e sim, “desejo”, que semanticamente não é necessariamente má • Por exemplo, Paulo usa epithymia para indicar o desejo de estar com Cristo (Fp. 1:23) • Provavelmente, a intenção da palavra no contexto é “impulso humano”, que quando voltados para uma satisfação egóica e contrária a vontade de Deus, torna-se pecado 5. A Vida Cristã • A entrada na vida cristã se dá quando somos “gerados pela palavra da verdade”, tornando- nos primícias das suas criaturas (1:18) • Palavra aqui tem a ver com proclamaçãodo Evangelho • Há um paralelo na utilização da palavra apekyēsen (conceber / dar à luz) que é usada tanta para a concepção do pecado (1:15), quanto agora, para a salvação (1:21) • Outras analogias para apekyēsen podem ser encontradas em: o “receber o Reino como criança” (Mc. 10:15); o “nascer de novo” (Jo. 3:3); o “ser sepultado com Cristo” (Rm. 6:4); o “tornar-se nova criatura” (2 Co. 5:17) • Em síntese, estas expressões, assim como Tiago, carregam a ideia de que na realidade Deus tem um direito justo sobre seu povo redimido, que representam “primícias da nova criação” • Além da natureza interior humana como gestora de pecado, satanás também é fonte de tentação, e a ele devemos “resistir” (4:7) • “Resistir” tem o mesmo significado em Ef. 6:13, quando a armadura é indicada para resistir ao dia mau, mas aqui é adicionado a resistência à tentação para o pecar • Não há uma referência objetiva e clara de “como” a tentação vem do homem interior ou provém do diabo • A vida cristã se estabelece na tensão do “já” e “ainda não” da escatologia inaugurada: já nascemos de novo, mas estamos sujeitos à várias tentações, que tentam nos desviar da fé (1:18, 21; 5:19) • Nada disso elimina a esperança da parousia e da herança do Reino de Deus (1:12; 2:5) 6. Essência das palavras de Jesus • Apesar de não fugir de uma identificação objetiva como “irmão de Jesus” ou transcrever ideias dos Evangelhos, Tiago tem claramente a essência das palavras de Jesus, como se nota: o Tiago se expressa no idioma judaico, mas insere um conteúdo distintamente cristão o Ele indica a importância do cumprimento da Lei real (2:7-8) o Essência das palavras de Jesus o Para Tiago, a obediência a ‘Lei real’, do Rei Universal redunda em liberdade (1:25) o Afirma que no dia do juízo, Deus julgará segundo a lei da Liberdade (2:12) o A lei do Antigo Testamento está na mente de Tiago quando é tratado o peso do pecado (2:9-11) 46 o Ele confronta ao pecado da acepção de pessoas (2:1, 8) 7. A Relação com a Justificação pela Fé como expressa por Paulo • É inevitável admitir que existe uma contradição verbal... o (...) Para Paulo a justificação é pela fé, sem as obras de lei (Rm. 3:20) o Porém, Tiago comenta: “Porventura, a fé pode salvá-lo? ... Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (2:14-18) • O aparente cenário então é este: • A aparente contradição se desfaz quando entendemos que apesar das palavras serem semelhantes os significados/conceitos, porém, são diferentes • Se Tiago está refutando algo em termos de justificação, só poderia estar refutando a perversão da teologia paulina 7.1.O que é a FÉ, em Paulo e em Tiago? o Fé em Paulo = aceitação do Evangelho e compromisso pessoal o Fé em Tiago = “Crer que há um só Deus” (o que até os demônios fazem), ou seja, mera afirmação monoteísta da tradição rabínica. Resumidamente: opinião ortodoxa 7.2.O que são OBRAS, em Paulo e em Tiago? o Obras em Paulo = São feitos judaicos de obediência formal a lei, e ostentação de realizações pessoais o Obras em Tiago = São atos baseados no amor cristão, atos que cumprem a “lei real”. Em síntese: a pura religião (1:27; 2:15) • Nesse sentido, o cenário correto do contexto então passa a ser: 47 • Ou seja, não há contradição: enquanto Paulo está lidando com a auto-justiça da piedade legal judaica, Tiago lida com a ortodoxia morta da Lei TEOLOGIA DAS CARTAS GERAIS CARTA DE 1 PEDRO37 Autor: Apóstolo Pedro Ano: 60 - 68 d.C. Destinatários: A carta foi escrita aos cristãos dispersos pelo mundo que “nadavam contra a maré” e viviam debaixo de sofrimento, perseguição e provação. Propósito: Os leitores são encorajados a se alegrarem nas provações e viverem acima delas, estando debaixo da graça de DEUS. Pedro ensina as ovelhas a como lidar com a perseguição de fora da igreja, mas sem se esquecer de exortá-los também. A primeira carta de Pedro é, além de inspirada pelo ESPÌRITO SANTO, também é resultado das experiências de vida do autor. 1. Introdução • Autoria provável é do próprio Pedro, denominado “um presbítero” (ou ancião) que foi testemunha das aflições de Cristo, e que estava junto com seu companheiro, Marcos (1:1; 5:1; 13) • Escrita de Roma (60-68), usando uma linguagem que identifica a cidade como “Babilônia”, antes da perseguição de Nero; a carta encoraja os cristãos perseguidos (5:13; 4:12, 15) • Sua teologia pode ser considerada como relativamente primitiva, com paralelos com sermões de Atos e com a tradição evangélica • Sua teologia prática a constitui uma “epístola doutrinária”, porque a “vida cristã está baseada na verdade cristã” 2. O Dualismo Temporal 37 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 789 a 798. 48 • O dualismo da visão de mundo de Pedro e os sermões em Atos reside quase que principalmente na tensão escatológica entre o presente e o futuro, não meramente cronológico, mas soteriológico • A morte do Cristo é promessa de salvação escatológica, mas é em si profecia messiânica • A glória escatológica está relacionada aos sofrimentos do Cristo (1:11) • A morte é mais que evento histórico, é cumprimento predestinado antes da fundação do mundo, pois sua morte é inauguração dos “últimos tempos” (1:20) 3. A Ressurreição de Cristo • A ressurreição aponta para a escatologia, pois o ressuscitado está “à direita de Deus... havendo-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” (3:22) • Há um paralelo com a teologia paulina em relação a vitória da ressurreição, onde o Cristo “já” reina, mas “ainda não” completamente (Ef. 1:22; 1 Co. 15:25) • A salvação é uma herança escatológica inaugurada, que será revelada plenamente no último tempo, na aparição histórica de Jesus (1:5; 20) • Pedro considera “vida cristã” como o poder transformador de Cristo em nosso interior • A noção de uma era maligna está presente no texto, já que o diabo “anda como leão querendo tragar” (5:8) • A salvação também é uma questão de esperança, pois Cristo “nos gerou para uma viva esperança” (1:3) • Há uma conotação de “duas obras”. Ambas fortemente conectadas pela ‘esperança’ o A primeira: o novo nascimento (em si) o A última, é uma herança no céu (1:4-5) 4. Escatologia • Em 1 Pedro, a escatologia tem um importante papel, pois, apesar de Pedro não usar a palavra “parousia”, ele fala várias vezes da “revelação (apokalipsis) de Cristo” (1:7, 13; 4:13; 5:4) • A glória messiânica é revelada no apocalipse. Isso confere a epístola sua linguagem de encorajamento aos aflitos em meio ao sofrimento • Elementos constantes da revelação do Cristo: o Os cristãos afligidos compartilharão da glória messiânica (5:1, 10) o A benção escatológica é a herança (1:4) o A salvação e a revelação estão prestes a acontecer (1:5) o Essa é a salvação da alma (1:9) o Salvação como meta do ensinamento (1:10) o É prometida uma coroa de glória (5:4) o Ao mesmo tempo, será o Dia da visitação e de julgamento (2:12; 4:17) • A teologia de Pedro é mais rudimentar e por isso se ocupa mais precisamente dos temas acima, mas não se refere a temas desdobrados em outros locais do NT, como: 49 o Ressurreição dos cristãos o Natureza do Reino Escatológico 5. O Contraste entre o Mundo Maligno e o Céu • Há 2 referências ao mundo (kosmos), significando criação (1:20) ou mundo habitado (5:9) • Na base está a ideia da hostilidade e maldade deste mundo (sociedade degradada) • Por isso, os cristãos devem ser como peregrinos/forasteiros, não em relação ao mundo em si, mas em relação ao ambiente/sociedade pecaminosa • A santidade, como evidência de uma separação e dedicação é enfatizada: o Identidade de santos (1:15) o Modelo de sacerdócio santo (2:5) o Geração, nação, povo santo (2:9) o A santidade é diferenciadora do modus operandi das demais nações (por isso a citação de Lv. 11:44-45, “sede santos” (1:16) 6. Deus • De forma muito prática,seu conceito de Deus é matéria prima para uma teologia trinitária • As referências estão presentes: O Pai, o Espírito Santo e Jesus Cristo (1:2) • A adesão da fé na soberania de Deus não é tanto fruto da escolha humana, porque: a) Foram escolhidos e predestinadas pelo Pai b) Santificados (separados) pelo Espírito Santo c) Para uma vida de obediência a Jesus Cristo, por quem foram santificados pela aspersão 7. O Sofrimento Humano • Deus é providência em meio ao sofrimento. Mas a distinção é feita quanto a natureza do sofrimento: são sofrimentos inerentes ao “ser cristãos” • O ‘padecimento fazendo o bem’ (vontade de Deus) é melhor do que fazendo o mal (3:17) • O sofrimento evoca em nós perseverança, e a crença de que podemos confiar nossas almas ao fiel Criador (4:19) • Sofrimentos nos familiarizam como a vida em Cristo (4:13; 2:21) • A perseverança no sofrimento é como uma validação da realidade da fé cristã • A diferença do pessimismo estoico para a vida resultada da fé de 1 Pedro é que em sua teologia ele ensina que está operando no interior dos cristãos um processo de santificação e mudança de mundo 8. Cristologia • Ao colocar Cristo em posição de igualdade divina com o Pai, está subentendido a filiação divina de Jesus: Cristo é Senhor (1:3, 13; 3:15) 50 • Este é o ponto central da cristologia prática: o relacionamento dos crentes com Cristo como “Senhor” • Se Jesus é Senhor, referências do AT a Deus, o Pai, se aplicam também a ele (2:3) 9. Expiação • Sua ênfase não está no desenvolvimento de uma teologia da expiação, mas nas afirmações que remetem ao sacrifício: o Sangue de Cristo, que efetua a santificação (1:2) o O precioso sangue de Cristo como meio de resgatar os homens (1:19) o Cristo levou em seu corpo os nossos pecados (2:24) o Por causa da morte de Cristo, nós passamos a estar “mortos para o pecado” o Morrer aqui é apoginomai (estar quites), é não ter parte com algo (2:24) o Cristo padeceu para nos levar a Deus (3:18) o Cristo padeceu “uma vez”, indica um evento concreto na história, realizado por Deus para nossa expiação 10. A Igreja • A Igreja é o verdadeiro Israel. • O antigo Israel tropeçou na “pedra angular” (2:8) • Referências da construção de identidade da igreja: o Geração eleita (2:9) o Pedras espirituais, casa espiritual (2:5) o Sacerdócio santo (2:9) o Capazes de oferecer “sacrifícios agradáveis” (2:5) o Pertencimento e identidade (2:10) 11. A Descida ao Hades • Uma ocorrência de caráter mais teológico, mas ao mesmo tempo, mais complexa é quanto ao texto de 3:18-20: “Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água” • Dois aspectos centrais: a) Mortificado na carne, mas vivificado pelo Espírito. Aqui, ‘carne’ e ‘espírito’ não são como 2 partes de Cristo, mas como se referindo a “2 modos diferentes de encarar o Cristo como um todo” o A carne, como esfera humana de existência 51 o O Espírito é Cristo, em sua esfera celestial de existência o Quanto a ressurreição, pode se incluir ao corpo-corporal, mas a referência é ao corpo glorificado pelo Espírito Santo b) “Pregou aos espíritos em prisão” – três hipóteses: o Patrística: No estado intermediário, Cristo, no Espírito, pregou para os mortos (isso abriria margem para a conversão dos mortos??) o Tese mantida por Agostinho e alguns reformadores: Cristo, antes de vir ao mundo, pregou o evangelho por intermédio de Noé o Visão mais aceita hoje: No estado intermediário, Cristo proclamou a vitória do Evangelho a anjos decaídos, aprisionados no Hades 12. A Vida Cristã • Duas ênfases principais: a) Firmeza em meio ao sofrimento. Sofrimento deve ser suportado, pacientemente e até com regozijo, como um elemento de aperfeiçoamento do caráter da fé b) O bom comportamento. O verbo agathopoieō ocorre 4 vezes, e não tem a ver com obras da lei, mas conduta justa, um testemunho através do qual podemos ganhar outros para Cristo • Como “fazer o bem”: o Submetendo-se as autoridades (2:13-15) o Nos relacionamentos familiares (3:1-6) o Na relação escravos-senhores (2:18) o Expressando o amor cristão, em mansidão e humildade (1:22; 3:8; 5:6) TEOLOGIA DAS CARTAS GERAIS CARTAS DE 2 PEDRO E DE JUDAS38 Autor: Apóstolo Pedro Ano: 66 - 67 d.C. Destinatários: A carta foi escrita para todos os irmãos que carregam a mesma fé em CRISTO. Propósito: Nessa carta, Pedro ensina as ovelhas a como lidar com falsos mestres e pessoas de caráter mau que entram na igreja, recomendando aos seus leitores que combinem fé com prática cristãs, através do crescimento espiritual, do combate aos falsos ensinos e do encorajamento a uma vida de vigilância até a vinda de JESUS. 38 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 801 a 808. 52 1. Introdução • Assim como 1 Pedro, 2 Pedro e Judas acrescentam pouca novidade ao conteúdo geral da teologia do Novo Testamento • É questionável se 2 Pedro é de autoria do apóstolo Pedro, mas vem sendo aceita assim • A principal diferença entre a duas cartas é que, enquanto 1 Pedro encoraja cristãos perseguidos, 2 Pedro focaliza a prevenção contra falsos mestres, de dentro da igreja (2:1-2, 21) 2. Dualismo: Gnóstico ou Apocalíptico? • A teologia de 2 Pedro reflete mais um cristianismo do segundo século do que a forma apostólica comum no início da era cristã39 • O teólogo Ernst Käsemann critica fortemente a teologia da carta, dizendo que o autor tende para uma visão de mundo que funciona como um dualismo helenístico, ao invés da tensão escatológica cristã • Imagem do dualismo: escapar da corrupção que está no mundo e compartilhar da natureza divina (1:4) • Käsemann também critica a “forma de apresentar a fé” (1:1, 5), que aprece indicar muito mais uma aceitação da tradição ortodoxa do que um comprometimento pessoal com Cristo • Refutações ao pensamento de Käsemann: o A aceitação da tradição ortodoxa (1:1-4) é improvável pelo conjunto da obra; o A ideia do dualismo helenístico não resiste a fundamentação do conteúdo escatológico apocalíptico de 3:10ss o O acesso ao Reino de Deus (1:1) não é apoteose da alma na morte, mas a entrada no novo céu e nova terra (cf.: Is. 65:17; 66:20) o A ênfase no papel dos apóstolos como divulgadores da verdade (3:2; 1:12) é uma refutação à declaração dos gnósticos de que estes tinham novo acesso a verdade o A fé caminha paralela ao conhecimento, que por sua vez, consiste no conhecimento de Deus e de Jesus, Senhor (1:2). É um conhecimento da relação • Quanto a outras ideias teológicas: o O “compartilhar a natureza divina”, tem origem na categoria gnóstica helenística, mas se sobrepõe a ela (conhecida como apoteose) o A ideia é “entrar para a vida cristã” e não apenas ter como meta a “vida cristã após a morte” o Fugir da corrupção do mundo e participar da natureza divina são, na verdade, dois lados da experiência cristã o Pedro se utiliza do vocábulo gnóstico, para transpassar e refutar as suas pretensões 39 A teologia de 2 Pedro é criticada por alguns estudiosos como contendo uma cristologia degenerada e uma escatologia sub-cristã. A principal suspeita recai sobre o fato de que o autor considera o “maligno” como o aprisionamento ao mundo dos sentidos 53 • Desta forma, “vida” cristã, em paralelo com a divindade (1:3), remete a mesma ideia teológica de Paulo no tema da união com Cristo • Não há porque confundir “concupiscência que há no mundo” (1:4) com “aprisionamento no mundo dos sentidos”. • Enquanto para os gnósticos a gnōsis é o destino pós morte, o corpo aqui não tem valor, e se élivre para saciar apetites diversos, Pedro defende que foi desta corrupção imoral que o cristão “gnóstico” foi liberto • É demonstrado também aqui o princípio da escatologia inaugurada, o “já” e “ainda não” da esperança futura 3. A Inspiração das Escrituras • Para Pedro, a verdade é “mandamento do Senhor”, entregue à igreja pelos apóstolos (3:2) • É a mesma ideia de Paulo, quando coloca a doutrina/autoridade dos apóstolos como veículo da verdade divina (Rm. 6:26; Ef. 3:5) • Em 1:20-21, encontramos: a) Primeiro, a primazia da verdade apostólica em contraste com a heresia dos gnósticos que alegavam ter uma nova palavra de Deus b) Segundo, Pedro está comparando a Palavra de Deus com as “fábulas” e neste sentido ele recorre a uma aproximação entre “inspiração” e “interpretação”, respectivamente, profetas e apóstolos • A interpretação é consequência lógica da inspiração, porém é aqui mais do que isso: “interpretação é autenticação da inspiração” – por isso a Palavra é única fonte da verdade divina • A “palavra profética” é luz, mas luz parcial que atende sua tarefa de conduzir até que “a estrela da alva apareça em vosso coração” (1:19), ou seja, até a parousia 4. Anjos • 2 Pedro e Judas 6 são um dos únicos textos canônicos que tema dos anjos; assunto bem presente nos apócrifos • Pedro usa a expressão que eles “pecaram” (2:4), enquanto Judas diz que eles “deixaram sua habitação” (Jd. 6). Por isso, foram lançados no Seol e ficaram lá até o Dia do Juízo • Este ensino dá base para compreender que os maus espíritos são anjos decaídos 5. A Demora da Parousia • A escatologia de 2 Pedro se dedica a refutação da negação da escatologia típica dos gnósticos, que negavam a doutrina do retorno de Cristo (3:4) • O tom da escatologia demonstra que a carta é do final da era apostólica, quando a demora da parousia já era sentida como um problema 54 • A resposta: a contagem do tempo para Deus é diferente. A demora para nós é, na verdade, apenas um ponto de vista imperfeito • Dois elementos caracterizam a parousia: o A conduta cristã e a proclamação do evangelho aceleram a parousia o O Dia de Deus não é um tempo de terror para os cristãos, mas de expectativa 5.1.O Dia de Deus • Desdobramento da ideia teológica do Dia de Deus: o O Juízo – é o tema central do cap. 2. O juízo é a instância final capaz de lidar com os mestres apóstatas. Com a certeza de que Deus puniu os anjos que pecaram, o mundo antigo, Sodoma e Gomorra, fica certo que não poupará os corruptos no juízo (2:4-10) o Vinda de uma nova ordem justa – Aqui existem ideias sinônimas: Dia do Senhor (3:10) e dia do juízo (2:9), que será uma transformação da era decadente • Distingue-se da ideia estoica de conflagração mundial, porque: o Estoicos (ekpyrosis) – assim como a essência de todas as coisas era o fogo, tudo estava destinado a ser dissolvido pelo “fogo primal” (um ciclo, fogo-mundo-fogo) o 2 Pedro fala de um fogo como agente de juízo divino final. Em outras passagens bíblicas a mesma ideia aparece: Pelo fogo a maldição será removida (Am 9) Descontinuidade e em seguida, uma ordem redimida (Is 65:17; 66:22) Fogo como um zelo, destruindo a velha ordem (Sf. 1:18) • 2 Pedro enfatiza um elemento de descontinuidade do mais alto grau, sem descrever todos os detalhes da nova ordem, do novo céu e da nova terra CARTA DE JUDAS Autor: Judas, irmão de Tiago e meio irmão de JESUS, e assim como Tiago, não se faz valer de seu parentesco com o SENHOR mostrando a sua humildade. Ano: 67 - 80 d.C. Destinatários: A carta foi escrita de uma maneira genérica, podendo ser aplicada a cristãos judeus ou a cristão gentios, ou ainda a ambos, para que não caíssem em apostasia. Propósito: A carta tem como mensagem principal o combate a falsos ensinos (imoralidade, cobiça, orgulho, rebeldia e facção). Em geral se aceita que esses ensinos eram gnósticos, mas podem também se referirem a falsos ensinos de quem acreditava que já que estavam sendo salvos pela graça, lhe imputava o direito de pecar livremente. 55 • A teologia de Judas é muito parecida com a de 2 Pedro, quanto ao confronto com os gnósticos libertinos e ao encorajamento na fé ortodoxa (v. 3) • Uma breve cristologia se expressa na compreensão de Jesus como Senhor e “dominador”, contrastando, mais uma vez, com o antinomianismo gnóstico e sua insubmissão (v. 4, 18) • Aqui, não há citação de que os gnósticos escarneiam da ideia da parousia, mas eles reivindicam uma iluminação especial do Espírito, do qual não são portadores (v. 19) • Fica demonstrado que os falsos mestres pecam também pela libertinagem sexual (v. 4 e 12) • No juízo escatológico há o tom do juízo sobre os apóstatas (v. 14) • Dois tópicos de interesse teológico são: o A referência que faz aos anjos, no v. 6: “E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia” o O uso da literatura apócrifa, citando verbalmente no v. 14: “Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades” • Possíveis Respostas: o Judas tem Enoque (ou 1 Enoque) como alto valor, como outros do seu tempo, mais não o chama de Escritura (graphē) o Judas poderia ter usado até mesmo outro livro apócrifo em v. 9, a Assunção de Moisés, mas a razão poderia ser explicada da mesma forma anterior TEOLOGIA DAS CARTAS GERAIS EPÍSTOLAS DE JOÃO40 Autor: O mesmo João, apóstolo e autor de um dos evangelhos, das outras duas cartas com seu nome e do Apocalipse. João era filho de Zebedeu e talvez fosse primo em primeiro grau de JESUS. Foi um pescador que fazia parte do círculo de amigos mais íntimos de JESUS, era “o discípulo a quem JESUS amava”. Ano: 85 - 90 d.C. Destinatários: Os leitores alvos eram os crentes, mas sem especificá-los de qual região. Isso faz com que a carta tivesse o objetivo de circular por todas as partes. Propósito: A carta foi escrita para combater uma das seitas heréticas mais perigosas dos dois primeiros séculos da igreja, o gnosticismo (do grego “gnosis” que significa conhecimento). O gnosticismo começava a penetrar nas igrejas. Basicamente, a doutrina central do gnosticismo era que o espírito era inteiramente bom e a matéria era inteiramente má. 40 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 812 a 820. 56 1. Introdução • A maioria concorda que a autoria é a mesma do Evangelho de João 2. Os Erros dos Oponentes • A primeira epístola é claramente enviada para combater heresias dos falsos mestres (4:1) • A heresia era a reinvindicação de uma iluminação especial dada pelo Espírito, que lhes concedia a verdadeira gnosis theo (conhecimento de Deus) (2:19-20, 27) • João combate a heresia defendendo que o conhecimento de Deus vem apenas por intermédio da tradição cristã • O erro ético destes hereges era diferente do combatido por 2 Pedro, já que em Pedro eles se entregavam abertamente à imoralidade • Aqui, o erro ético é um orgulho espiritual e arrogância • O principal erro herético era cristológico, pois negavam a encarnação (2:22; 4:1). Provavelmente eram gnósticos docéticos41 • Para eles o típico contraste grego entre espírito e carne, que define a matéria como ipso facto má, não permitia crer que Deus tinha entrado em contato com a matéria, e Cristo era no máximo uma “aparência” (dokeo) • Com isso, muitos deles negavam até mesmo a realidade do sofrimento de Jesus, e a paixão como parte da obra messiânica da salvação, como podemos verificar: “Jesus veio por água, mas não por sangue” – uma heresia combatida por João (1 Jo. 5:6) • A refutação de João dá base teológica para a ressurreição: o É o sangue que purifica (1:8-9) o Jesus deu a sua vida por nós (3:16) o Sua morte é a propiciação pelos nossos pecados (2:2) o Sua propiciação é provado amor de Deus (4:10) 3. Preparados para provar as heresias • Segundo o autor, a tradição da verdadeira encarnação deve servir para provar “se os espíritos são de Deus” (4:1) • Como podemos compreender corretamente a expressão “vós tendes a unção do Santo e sabeis tudo” (1 Jo. 2:20)? • Pode ser interpretado como: Não seguir movimentos separatistas que oferecem “verdadeiro conhecimento de Deus” – o dom é a unção que capacita o crente • Contudo, isto não significa “iluminação direta”, sem intermediação do Espírito. É, antes, uma obra interior do próprio Espírito, que capacita a receber a verdade da tradição cristã 41 O docetismo, do grego δοκέω (para parecer), é uma doutrina cristã herética do século II. Acreditavam que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão e que sua crucificação teria sido apenas aparente. 57 • A repetição da ideia: “... a sua unção vos ensina todas as coisas” (2:27), é o confronto de João quanto a ideia de que os gnósticos pneumáticos detinham o conhecimento exclusivo • João esclarece que a negação da encarnação também é a negação de que Jesus é o Filho de Deus. Para eles, Cristo não seria o Filho no sentido do entendimento cristão • Ao negar a encarnação, a cristologia gnóstica herética sinaliza que: o Em contexto judaico – Jesus pode ter sido um profeta, mas não o messias profetizado do AT o Em contexto helenístico – o “Cristo” tem um conceito distinto no ponto de vista dualístico do universo, pois não há uma real união do Cristo celestial e o Jesus humano. Eles se conectaram apenas temporária e externamente • João está refutando ambos os riscos heréticos, posto que Jesus e o Cristo são um só e o mesmo (1 Jo. 2:22) 4. A resposta de João às heresias • A resposta de João é não apenas ‘polêmica’ (contra os hereges), mas pastoral, preocupada com a vida cristã sadia • João usa a linguagem gnóstica para combatê-los: “Deus é luz...” (1:5) • Enquanto para o gnóstico o caminho da salvação é “obter a gnosis”, para o verdadeiro cristão a “verdadeira luz já o alumia” (2:8) • Para João, as trevas não são o mundo físico (fenomenal), mas uma questão ética (2:8-9, 11) • João joga com as palavras e desenvolve uma breve escatologia inaugurada, pois “com a vinda de Cristo uma nova era já alvoreceu”. • A luz é de fato o mundo de Deus, enquanto as trevas caracterizam o mundo, não criação, mas seres humanos vistos em rebelião, mergulhado na “concupiscência da carne” (4:17; 5:19; 2:16) • O contraste entre o que há no mundo e a nova ordem inaugurada por Cristo: o O que há no mundo não vem de Deus (2:16) o Os falsos profetas são ouvidos porque são do mundo (4:5) o O mundo não entende os crentes mais do que entendeu a Cristo (3:1) o O mundo odeia os cristãos (3:13) o O cristão não deve amar o mundo (2:16) 5. Mundo e mundo? • ‘Não amar ao mundo’ não significa não amar as pessoas que o compõe, pois Cristo ama e veio para ser salvador de todos os homens (4:14) • A conquista do mundo se dá pela via da proclamação do Evangelho, pois o “mundo maligno” é uma situação transitória e não permanente (5:4; 2:17) • Por outro lado, o dualismo das palavras de João não torna seu pensamento dualista, a não ser no dualismo do passado e do presente, do “já” e do “ainda não” escatológico 58 • João enfatiza a verdade histórica objetiva da encarnação fazendo uso mais uma vez da teologia do Logos • O eixo central do evangelho cristão é algo que a igreja possui como dado “desde o princípio” (2:7) • Este que era desde o princípio, manifestou-se realmente na história (1:1-3) 6. A Vida Eterna • O logos é a aparição em carne de uma vida que antes não podia ser vista, tocada nem ouvida. É essa vida que traz vida a experiência presente de vida eterna à humanidade • A vida eterna é mencionada pelo menos 10 vezes, sempre com ênfase no presente (3:14; 5:13) • Aquele que tem o Filho tem a vida (5:11-12); daqui se depreende que: o “Ter o Filho”, no sentido amplo da ideia de encarnação como entendida pela tradição e não como os gnósticos o “Ter o Filho” já é, por si só, mais do que quaisquer outras coisas que se possa desejar obter através da gnosis • O que a experiência presente da vida eterna reflete para o futuro: o O que faz a vontade de Deus permanece para sempre (2:17) o A realização de tudo que Cristo significa na parousia escatológica (2:28) o Embora nascidos de novo, ainda não somos como Cristo (2:29) o Seremos semelhantes a ele; como Ele é, o veremos (3:2) o A esperança nele nos purifica (3:3) o A expectativa da parousia é iminente (2:18) 7. O Anticristo • Para o autor, a “última hora” será caracterizada pelo fenômeno do anticristo • Apesar da ideia aparecer em outros locais no NT, só as epístolas joaninas trazem esta expressão antichristos (2:18, 22; 4:3; 2 Jo. 7) • O anticristo é um adversário do Messias, que vem para opor-se ao messias e tentar substituí- lo • O anticristo vem na esteira dos movimentos dos falsos mestres, a exemplo da mensagem de Jesus em Mt. 24:24, sempre negando a integridade de Jesus ser o Messias (2:22) 8. O Pecado • João combate fortemente o pecado e a tentação, contrapondo a heresia gnóstica de que estes aspectos não alcançam aquele que foi espiritualmente iluminado pela perfeição 59 • A heresia da iluminação é o primeiro passo para outra heresia, a do antinomianismo42 (ausência de referência de liderança/autoridade) e consequentemente, da insubmissão à Cristo • João afirma: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos...” (1:8, 10) • A perfeição do cristão não será alcançada nesta vida aqui, mas apenas quando tornamos para o Senhor, na parousia (3:2) • Além disso, Deus providenciou a tratativa para os pecados humanos: a confissão e o perdão pelo sangue de Jesus (1:7, 9) • Por outro lado, combater a ideia de perfeição e isenção de pecados não pode ser compreendido como uma forma de “condescendência” (2:1, 2) • O parakletos será o ajudador dos discípulos de Jesus em sua luta contra o pecado. Jesus é o parakletos no céu (2:2) • O tempo verbal (presente do indicativo) revela que a salvação no presente está baseada tanto na propiciação de Jesus quanto em sua condição de exaltação diante de Deus 9. Uma aparente contradição: • Há de fato uma “contradição verbal” entre 1Jo. 1:8 e 2:1: o “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos...” o “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” • Em contraste com 3:8, 9; 5:18: o “Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio...” o “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” o “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” • Possíveis soluções: o Todos os verbos estão no presente do indicativo. A indicação é de que o novo princípio de vida em Cristo exige uma mudança de conduta no presente, um rompimento com o passado. Outros textos do NT reforçam a ideia (Mt. 7:18; Rm. 6:7, 12) o Em 2:1 o tempo está no aoristo, indicando meta definida a partir da entrada na vida cristã o Agostinho sugeriu que a ideia está no contexto de “permanecer Nele” (3:6), ou seja, “contanto que permaneça Nele” 42 Antinomianismo é a negação da lei; é o “anti lei”. O antinomiano nega a necessidade do crente em guardar a lei de Deus. Essa heresia surgiu muito cedo nas igrejas primitivas e os apóstolos tiveram que exortar que o crente deve observar a lei de Deus como expressão de nosso amor. 60 10. A Vida Cristã • Metaforicamente, João usa linguagem familiar gnóstica para expressar a vida cristã. • Enquanto no evangelho ele fala sobre “receber o Filho” (Jo. 1:11, 12),na epístola ele fala em “ter o Filho” (5:12) • O novo nascimento nos coloca diante de um novo relacionamento, o de filhos de Deus (3:1- 2, 10; 5:2). Mas, não apenas isso • Trata-se de uma nova dinâmica e poder dentro da realidade humana. Poderíamos pensar numa nova orientação da vontade humana: “fazer a vontade de Deus, amá-lo e servi-lo, romper com o pecado e seguir a justiça”43 11. A aparente mística de João: • A mística joanina não pode ser confundida com a mística gnóstica, pois é antes a manifestação na experiência cristã, a manifestação do amor, é permanecer na verdadeira tradição cristã (1 Jo. 2:6, 10): o Deus está (permanece) nos crentes (1 Jo. 4:16) o Cristo está neles (3:24) o A palavra de Deus está neles (2:14) o A vida está neles (3:15) o O amor, a verdade, a unção [do Espírito] estão neles (3:17; 2 Jo. 2; 2:27) o Os crentes estão ou permanecem em Deus e em Cristo (2:24; 2:5, 6, 24, 27) o Os crentes estão na luz e na sã doutrina (2:10; 2 Jo. 9) • A ética de João, assim como no seu evangelho, é pautada no amor como um mandamento • A totalidade da ética cristã reside em não amar ao mundo (2:15) e em amar a Deus (4:21) 12. A Segunda e a Terceira Epístola de João A segunda carta foi escrita para a senhora eleita a e seus filhos, podendo ser uma alusão à igreja e aos santos, ou literalmente a uma senhora e sua família, ou ainda ambos os casos. Essa carta deixa um alerta para que nem a igreja e nem as famílias acolhessem falsos mestres itinerantes em suas casas, para não contribuírem com a propagação de heresias. O evangelho era propagado em um lugar e outro através de evangelistas e mestres missionários que dependiam do acolhimento das famílias e do suprimento para as próximas viagens. Da mesma forma o gnosticismo era propagado via “missões”. Por isso João escreve para que os cristãos acolham os missionários de DEUS e rejeitem os hereges. A terceira carta foi endereçada a Gaio. 43 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 819 61 Os evangelistas e mestres itinerantes enviados por João em suas missões para uma das igrejas foram rejeitados por um líder ditatorial de nome Diótrefes, que inclusive expulsava membros de sua igreja que manifestassem hospitalidade aos enviados de João. Nessa carta, João elogia Gaio pela sua hospitalidade e sustendo aos missionários, ao mesmo tempo em que repreende e exorta Diótrefes. • A segunda epístola manifesta a orientação sincera de João à uma igreja para que ela, diferente do costume da época, não ofereça hospitalidade à supostos mestres cristãos itinerantes que não proclamam a sã doutrina (v. 8-11) • A terceira epístola aconselha Gaio como lidar com Diótrefes, um cismático, possivelmente por questões particulares, não muito claras no teor da carta LIVRO DE APOCALIPSE44 Autor: Apóstolo João Ano: 96 d.C. Destinatários: Apocalipse é uma revelação dada por JESUS, por intermédio de João, aos cristãos perseguidos, visto que na época em que fora escrito, as autoridades romanas impunham aos cristãos o culto de adoração ao César do momento (imperador). Propósito: Por ordem do próprio JESUS, João escreveu o Apocalipse ou Revelação, para encorajar os fiéis a resistirem às perseguições, enfatizando a existência de uma batalha decisiva entre DEUS e o diabo. Porém mais do que isso, Apocalipse fala do desfecho final da história desse mundo, incentivando os santos a permanecerem fiéis a DEUS e alertando os incrédulos sobre a terrível consequência de se rejeitar e negar o SENHOR JESUS CRISTO. 1. Introdução • Uma teologia basicamente apocalíptica, das “coisas que brevemente devem acontecer” (1:2- 3; 7) • O livro possui distintas intepretações ao longo da história o que o torna um desafio pela variedade de abordagens. • A abordagem a seguir: se familiarizar com vários métodos de interpretação e aprender a articular 2. O Conteúdo do Apocalipse 44 LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento, p. 825 a 839. 62 • O livro deve ser interpretado como um todo estruturado, ainda que possua partes com objetivos mais específicos. O alvo principal é a demonstração da adoração a Deus • Esboço da estrutura literária: a) A primeira visão – O Cristo exaltado (1:9 – 3:22) o Demonstra a exaltação do crucificado, sua supremacia e uma sequência de expedientes que registra a mensagem de Cristo para as igrejas da Ásia Menor. o Estas igrejas acabam sendo representações de todas as demais existentes. b) A segunda visão – O Cordeiro vencedor (4:1 – 16:21) o A substituição da imagem do cordeiro expiatório (amnos) pelo Cordeiro vencedor (arnion). o A competência da salvação do Cristo. O conflito entre Deus e Satanás. A Besta e o Falso Profeta perseguem a Igreja e têm permissão para forçar sua lei sobre todos os homens. c) A terceira visão – A Babilônia como prostituta (17:1 – 21:8) o A Babilônia tem domínio sobre os reis da terra, seu julgamento e destruição é anunciado, e a vitória final de Deus sobre o mal. o Um importante paralelo se estabelece entre a “prostituta” e a “verdadeira noiva” de Cristo (19:11-16). d) Quarta e última visão – Jerusalém celestial (cf. 21:9 – 22:5) o A nova Jerusalém celestial é retratada como a noiva do Senhor 3. Métodos de interpretação • Como já citamos, muitos sistemas de interpretação do Apocalipse forma elaborados, levando a distintas abordagens. • George E. Ladd usa o método predominante da erudição crítica, situando o livro no gênero literário apocalíptico. • Quais as características deste gênero literário: a) A Interpretação Preterista ou Passadista Sustenta que o Apocalipse foi destinado aos cristãos do primeiro século e que as profecias nele contidas se cumpriram, basicamente, também naquele período. o Quando comparados, vejamos as diferenças entre os demais apocalipses e o apocalipse de João: Orientações para tempos difíceis, males incomuns, perseguições; São textos de encorajamento, fortalecimento da fé em Deus que governa a história, mesmo que isto não pareça evidente; São mensagens dirigidas à uma audiência muito específica, dentro de um contexto peculiar, e cujas alusões de personagens e eventos não devem ser considerados proféticos ao pé da letra o E quanto ao Apocalipse de João? Provavelmente produzido (reunido) por uma igreja em tempos de perseguição 63 Acusação contra Roma, Imperador e poderes terrenos de quem brevemente Cristo se livrará, irrompendo com Seu Reino; Encontra total convergência para uma audiência peculiar do contexto joanino, com alusões pitorescas e alegóricas, porém, a conexão profética inusitada quando comparada aos demais apocalipses judaicos: o Distinção: O Apocalipse de João carrega a consciência profética de estar transcorrendo dentro da própria história da redenção (“Heilsgeschichte”) b) O Método Histórico • O Apocalipse é visto como um paralelo da História, uma profecia da história da igreja, procurando ligar a cada uma de suas profecias um determinado fato ocorrido no tempo. • Este foi o método mais aceito pelos Reformadores, a dificuldade é o consenso quanto ao verdadeiro delineamento na história prevista: milenarista, pós-milenarista ou não- milenarista. c) O Método Simbólico ou Idealista • Vê no Apocalipse símbolos dos poderes espirituais atuando no mundo. Como uma luta cósmica entre o bem e o mal atuando no mundo, eliminando a necessidade da interpretação das predições como eventos concretos. • Tamanha alegorização afasta o apocalipse de João do seu próprio gênero literário comum, e até mesmo de um senso de legitimidade. d) A Interpretação Futurista Extrema • Nesta interpretação os fenômenos a partir do capítulo 4 ainda não aconteceram. • É o método chamado “Dispensacionalista”, parte da premissa de que existem dois planos divinos diferentes: um para Israel e outro para a igreja. • A opinião é de que as 7 igrejas representam 7 períodos (dispensações)da história da igreja. Mas esta interpretação tem perdido força ultimamente. e) O Ponto de Vista Futurista Moderado • Enfatiza o duplo tema central do livro como: o julgamento do mal e a vinda do Reino. O Apocalipse é a consumação redentora de Deus! É o Escathon do juízo e da salvação. • Desta forma, este método entende as sete cartas como endereçadas as sete igrejas históricas, que representam a Igreja inteira. Os selos são as forças pelas quais Deus elabora seus propósitos de redenção e julgamento na história, conduzindo ao fim. Os eventos a partir do capítulo 7 estão o futuro. 4. Mensagem central em 3 partes 64 a) O problema do mal o O Apocalipse prevê um curto período de terrível mal na história no fim dos tempos; o O homem terá que escolher entre negar Cristo ou morrer; o O moderno medo evangélico do sofrimento na grande tribulação esqueceu a doutrina bíblica de que a Igreja, em seu caráter fundamental, é sempre uma igreja mártir (cf. At. 14.22b “É necessário que passemos por muitas tribulações para entrarmos no Reino de Deus".). b) A Visitação da ira o O Apocalipse retrata que o tempo da grande tribulação será um tempo em que Deus lançará juízos antecipatórios sobre os homens; o Três fatos devem ser apontados: Primeiro, as dores serão dirigidas aos homens com o sinal da Besta e que adoram sua imagem, os homens terão que escolher de que lado ficarão. Segundo, as pragas serão destinadas a fazer os homens se ajoelharem em arrependimento, antes que seja tarde demais. E, terceiro, um grupo selado estará protegido destas pragas e não sofrerão a ira de Deus, são os 12 mil de cada tribo de Israel. Dois fatos sugerem que este grupo de 144 mil não é o Israel literal. Na lista deliberadamente irregular, Judá é mencionado em primeiro lugar, a ordem do AT é ignorada; a tribo de Dã é omitida e José mencionado, em vez de Efraim. João considera haver um Israel espiritual. o O povo de Deus será completo e preservado em segurança, durante esta terrível época de ira. c) A vinda do Reino o A vinda do Reino de Deus é mostrada por 2 aspectos principais: a destruição do mal e a bênção da vida eterna. o Estágios da destruição do mal: Primeiro Cristo conquista a Besta, o Falso Profeta e seus seguidores. Esperaríamos que o Dragão fosse lançado no lago de fogo, mas esta sentença é retardada. O Dragão é subjugado e trancado, num “abismo sem fundo”, por mil anos. No fim dos mil anos, quando ele é libertado e novamente capaz de incitar os homens a se rebelarem contra Cristo e os santos, é que finalmente é destruído e lançado no lago de fogo. o A vinda do Reino também ocorre em estágios. Primeiro há um reino temporário, de mil anos, quando os santos reinaram com Cristo. No reino milenar acontece a primeira ressureição (20:4), este grupo é de todos os santos de Deus, que são agora exaltados e participam do reino de Cristo. 65 No fim do milênio acontece a “segunda ressureição” (20:11), quando todo o restante dos mortos é ressuscitado para o juízo final. 5. A questão do Milênio • Uma das questões mais debatidas, na interpretação conservadora do Apocalipse, é a do milênio. • Existem quatro interpretações mais conhecidas em relação ao milênio, que são: o Pré-milenismo Histórico, o Pré-milenismo Dispensacionalista, o Amilenismo e o Pós-milenismo. a) Pré-milenismo Histórico o É o conceito dado para a interpretação segunda a qual a segunda vinda de Jesus virá antes do milênio, na verdade, inaugurará o milênio. Alguns adeptos consideram os mil anos literais, porém outros julgam ser um termo simbólico para um período extenso. A realidade do milênio não acontecerá de forma gradativa, mas será inaugurado de maneira surpreendente e cataclísmica, imediatamente precedida por uma grande tribulação. b) O Pré-milenismo (Dispensacionalista) o Diz ser absolutamente certo aquele reino pessoal de Cristo na terra, e que ele durará exatos mil anos. Para os dispensacionalistas a segunda vinda de Cristo será em dois turnos: a vinda secreta para a igreja (o arrebatamento) e a vinda visível com a igreja, a segunda vinda. c) Amilenismo o É o conceito dado para a interpretação segunda a qual na segunda vinda de Jesus não haverá um reino terreno de Cristo de mil anos de duração, Em sua maioria, os amilenistas tende a estabelecer a distinção de seu pensamento com a pré-milenismo, e, com isso, demonstrado considerável empatia para o pós-milenismo. d) Pós-milenismo o Pós-milenismo é o conceito dado para a interpretação segunda a qual a segunda vinda de Jesus virá depois do milênio. O reinado milenar de Cristo em Ap. 20.1-6 representa um período, quando, por meio da pregação do evangelho, a maior parte do mundo se submeterá a Cristo, ou seja, Jesus reinaria na terra, no futuro, após sua segunda vinda. O milênio não é necessariamente encarado como um período de mil anos corridos, mas como um período de paz, onde o evangelho alcança “todas as pessoas”. 6. Conclusão 66 • Segundo Ladd, exegeticamente, o Pré-milenismo Histórico é que mais concorda com os registros do NT: • A questão está no campo da teologia, não da exegese; • O Apocalipse não expõe detalhes da teologia do reino milenar; • O livro adapta a ideia do duplo conceito judaico dos “dias do Messias” e do “século futuro” • O mais próximo que podemos considerar uma correlação desta ideia no NT é 1 Co. 5:24 e ss, mas é tema que pode ser compreendido dentro da ideia teológica do reino do Filho, já mencionado antes (Cl. 1:13) • O século vindouro não será o reino do Cristo, pois Ele já reina! O século vindouro será da glória do Pai. 67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. LADD, Georg Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR GUNDRY, R. H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. HALE, Broadus David. Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP. CULLMANN, Oscar. A formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal. MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento: diversos testemunhos, um só evangelho. São Paulo: Vida Nova. HASEL, Gerhard F. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP. MIRANDA, Valtair A. Fundamentos da Teologia Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão. STOTT, John. Homens com uma mensagem. Campinas: Editora Cristã Unida. ZUCK, Roy. Teologia do Novo Testamento. CPAD.