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Estresse, imunidade e comportamento: implicações para o bem-estar dos peixes (Stress, immunity and behavior: implications to fish welfare) Leonardo José Gil Barcellos, PhD Agenda 1. Introdução 2. Fisiologia das respostas de estresse 3. O sistema imunológico dos peixes 4. Desenvolvimento da imunidade pós-vacinal 5. O estresse como redutor da eficiência da resposta imune 6. Relação entre o sistema imune e o comportamento 7. O bem-estar de peixes 8. O bem estar como o grande diferencial de mercado do futuro 9. Conclusão Relação estresse x sistema imune x comportamento x bem-estar 1. Introdução (Introduction) A busca da homeostase Comportamento Sistema imune = Saúde Bem-estar HOMEOSTASE Homeostase é a condição de relativa estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo. Estresse Respostas de Estresse Peixes em homeostase = alto desempenho = $$ 2. Fisiologia das respostas de estresse (Physiology of the stress responses) O eixo hipotálamo-hipófise-interrenal Hipotálamo Hipófise Adrenal CRH ACTH CORTISOLADRENALINA Interrenal Fonte: Leonardo Barcellos Fonte: domínio público Fontes figuras Interrenal. Wendelaar Bonga, S.E. Physiological Reviews, 77(3), 592-625 Adrenal. https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Anatomy_and_physiology_of_animals_Adrenal_glands.jpg O que é estresse? Depende do contexto... EUSTRESSE Resulta em algo positivo Ex. comportamento reprodutivo. DISTRESSE Resulta em efeitos negativos Ex. estresse por má qualidade de água! fonte do desenho da desova: Fonte: http://www2.ibb.unesp.br/Museu_Escola/Ensino_Fundamental/Origami/Documentos/Peixes.htm fonte da foto das tilápias boqueando: Fonte: www.shutterstock.com Reação do organismo à quebra da homeostase! Fonte do esquema: BARTON, B. (2002). Integrative and Comparative Biology, 42: 517-525 Síndrome de Adaptação Geral (SAG) Situação ideal, mas quase impossível na produção! Ausência de estresse Situação possível com bom manejo e bom grau de bem-estar estresse “controlado” Situação que devemos evitar sempre perda de capacidade de adaptação efeitos negativos Fonte da figura: http://bowling-bash.blogspot.com/2012/06/stress-appraisal-coping-and-physiology.html Ocorrência de estresse... Se o estresse perdura e/ou se intensifica... Efeitos terciários indivíduo e população! crescimento reprodução sistema imunológico Esse grupo de efeitos prejudica diretamente o resultado da produção! Alteração imediata de comportamento... exploração do ambiente locomoção alimentação tempo no fundo tempo no escuro tempo próximo às paredes isolamento social agressividade Alterações fisiológicas para a “retomada” da homeostase efeitos primários e secundários. 3. O sistema imunológico dos peixes (The immune system of fish) Função: defender o organismo contra patógenos como: vírus, bactérias, parasitas e fungos! A resposta imune é dividida em: Resposta imune inata (natural): • Presente mesmo na ausência de infecções; • Primeira defesa contra patógenos; • Rápida e constante. Resposta imune adquirida (específica): • Ocorre somente na presença de um patógeno; • Estimulada pela resposta imune inata; • É específica e gera memória imunológica. As células da resposta imune inata Possuem os Toll Like receptors (TLRs) + TLR + PAMP Fagocitose apresentação do antígeno ativação da resposta imune Os patógenos possuem os Pathogen-Associated Molecular Profiles (PAMPs) Fonte: domínio público As células da resposta imune inata Neutrófilo Macrófago Céls. dendríticas http://professorthiagorenno.blogspot.com/2011/07/citologia-004-fagocitose-e-pinocitose.html Rauta et al., Immunology letters, 2014 Citocinas e defensinas... - Proteínas produzidas pelas células do sistema imune em resposta à agentes agressores; - Papel primordial na regulação da resposta imune inata e adquirida; - Atuam de forma local e sistêmica: promovem a migração de leucócitos para o sítio da infecção e modulam o comportamento. - Principais citocinas pró-inflamatórias: IL-1β, TNF-α, IL-6, IL-12. Citocinas Defensinas - Pequenos peptídeos com propriedades antivirais, antibacterianas e antifúngicas; - Importante papel na resposta imune inata de peixes: presentes no muco. Fonte: domínio público Resposta imune inata É a principal forma de defesa em peixes! Fagócito Patógeno Fagocitose Citocinas - Produção de EROS (radicais livres); - Destruição do patógeno; - Ativação das células imunes e produção de citocinas pró-inflamatórias - Ativação da resposta imune adaptativa TLR - IL-1β, TNF-α, IL-6: - Resposta inflamatória - Alterações comportamentais Fonte: o autor Principais células da resposta imune adaptativa - linfócitos Linfócitos B - Células produtoras imunoglobulinas ou anticorpos. - Imunoglobulinas presentes em peixes: IgD, IgM, IgT/IgZ. - Menor variabilidade de imunoglobulinas comparados a mamíferos. Linfócitos T - Linfócitos timo dependentes com marcadores CD4 (linfócitos T helper) e CD8 (linfócitos T citotóxicos) e CD28 (receptor co-estimulatório). Responsável pela “memória” imunológica que é a base para o funcionamento das vacinas! Fonte: domínio público Ativação da resposta imune adaptativa Macrófago + antígeno “apresenta” se liga aos Linfócitos T helper1 Os linfócitos T helper expressam o receptor CD40L e secretam citocinas2 Ao mesmo tempo os linfócitos B reconhecem o mesmo antígeno, o processam e o expressam em seus receptores de superfície 3 Os linfócitos B e T se encontram nos órgãos linfoides e conectam seus receptores ativados pelos mesmos antígenos; 4 Os linfócitos T helper secretam citocinas, provocando a ativação completa dos linfócitos B 5 Os linfócitos B ativados se multiplicam e secretam as imunoglobulinas.6 https://ticanicolecao.wordpress.com/2016/08/16/imunologia-celula-apresentadora-de-antigeno/ Sharma et al. Nature Reviews Cancer, 2011 https://courses.lumenlearning.com/microbiology/chapter/b-lymphocytes-and-humoral-immunity/ 4. Desenvolvimento da resposta imune pós-vacinal (Development of post vaccinal immune response) Linfócitos B se diferenciam em plasmócitos e produzem imunoglobulinas = anticorpos Antígeno vacinal vírus ou bactérias inativados ou atenuados + adjuvantes Inoculação geralmente na cavidade celomática Essa é a base para o funcionamento das vacinas! Fontes: idem slide 18 Estresse celular! 5. O estresse como redutor da resposta imune (Impairment of immune response by stress) Se liga a receptores de células imunes Células imunes Cortisol Receptor Ações imunossupressoras: - Redução da expressão de diversas citocinas pró-inflamatórias; - Redução da diferenciação de linfócitos diminuição de anticorpos; - Redução da resposta imune vacinal! Hipotálamo Hipófise CRH ACTH CORTISOLInterrenal O estresse agudo e crônico tem efeitos distintos sobre a resposta imune... Effects of stress on immune function: the good, the bad, and the beautiful. Dhabhar, 2014 Estresse agudo e crônico causa redução do número de linfócitos circulantes Efeitos do cortisol sobre o sistema imune 6. Relação entre o sistema imune e o comportamento (Behavior and immune system relationship) Em recente artigo de nosso grupo de pesquisa descrevemos pela primeira vez a forte relação entre o sistema imunológico e o comportamento dos peixes! Peixes que tem aversão ao novo (neofóbicos, HRN) apresentam um perfil pró-inflamatório alta IL-1β. Peixes com menor comportamento social apresentaram MENOR expressão do INF-λ. É o sistema imune que modula o comportamento ou o comportamento que modula o sistema imune? Para responder isso testamos peixes vacinados – sistema imune ativado Após a vacina os peixes apresentaram atividade locomotora reduzida, redução do comportamento social e da atividadeexploratória Essa modulação / alteração do comportamento ocorre por alteração da expressão de genes chave do sistema imune, especialmente das citocinas próinflamatorias IL-1β, IL-6 e TNF-α! É a ativação do sistema imune que altera o comportamento! Resumindo... • O estresse, especialmente o crônico, afeta o sistema imunológico; • O estresse afeta a eficiência vacinal; • O processo de vacinação é estressante; • A própria vacinação altera comportamento... O adequado manejo pré- e pós- vacinal e a busca de melhores graus de bem-estar (redução de estresse) são vitais para a produção intensiva de tilápias! 7. Bem-estar de peixes (Fish welfare) Mas o que é bem-estar em peixes? •As considerações de bem-estar em peixes são recentes e ainda controversas. •Provavelmente pela tardia comprovação da senciência e da dor em peixes; •Se compararmos aos outros animais de produção como bovinos, aves e suínos as considerações acerca do bem-estar em peixes são incipientes; A ausência de estresse não indica bem-estar, mas a presença pode indicar as piores situações pontos críticos de bem-estar. Bem-estar é muito mais do que não sofrer estresse ! Mas a mitigação do estresse é um “1º passo” vital para aumentarmos o grau de bem-estar dos nossos peixes, especialmente em produções intensivas! SENCIÊNCIA, é capacidade de: • De ter consciência de sensações. • De possuir sentimentos subjetivos. • De sentir dor, fome, conforto e desconforto. • De diferenciar entre bom e ruim. • De sentir medo. • De apresentar quadros de ansiedade. • De sofrer estresse psicológico. • De apresentar um perfil de personalidade. Uma boa definição de bem-estar para peixes é... É o estado interno de um peixe quando esse permanece sob condições que foram livremente escolhidas por ele. Mas isso é possível em condições de produção intensiva? NÃO Por isso a importância das 5 liberdades como meta e indicador de bem-estar! VOLPATO et al., 2007. Insight into the concept of fish welfare. Diseases of Aquatic Organisms, 75: 165-171. As Cinco Liberdades compõem um instrumento reconhecido para o diagnóstico de bem-estar animal. As 5 liberdades aplicadas para os peixes: (1)Liberdade Nutricional nutrição (ração) e alimentação (manejo) adequadas (2)Liberdade Sanitária manejo sanitário adequado, livre de doenças (3)Liberdade Ambiental ambiente o mais próximo das preferencias da espécie, qualidade de água! (4)Liberdade Comportamental peixes podendo expressar seu comportamento o mais próximo ao natural da espécie! (5)Liberdade Psicológica peixes livres de medo e de estresse e ampliando para livre de sentimentos negativos como ansiedade e medo. Adaptado de “REPENSANDO AS CINCO LIBERDADES” de Carla Molento Bem-estar como diferencial de mercado As Cinco Liberdades compõem um instrumento reconhecido para o diagnóstico de bem-estar animal São a base para os sistemas de certificação de bem-estar animal Propriedade adota medidas de melhoria das condições de bem-estar animal certificação selo de bem-estar diferencial valor agregado ao produto ($$)! E como está a certificação de bem-estar em peixes no mundo? Não está... Dificuldade ou oportunidade? Fonte: logomarcas extraídas das páginas WEB das certificadoras. E no Brasil? Frangos de corte, perus, suínos, bovinos de corte, bovinos de leite, bovinos leiteiros jovens para carne, bisontes, ovelhas e cabras E os peixes? Fonte: logomarcas extraídas das páginas WEB das certificadoras. Produtos com selo de garantia de bem- estar valor agregado Ovos certificados Frangos certificados Alimentos processados certificados Fonte: logomarcas extraídas das páginas WEB das certificadoras. Porque não “tilápia certificada”? Happy tilapia! Produced in good welfare conditions! Concluindo... O bem-estar compensa! Bem-estar Certificação Possível diferencial de mercado Estresse Efeitos negativos na resposta imune Eficiência vacinal Sobrevivência e desempenho zootécnico Efeitos comportamentais da vacinação $ Muito obrigado pela atenção! Foi um prazer conversar com vocês! Prof. Dr. Leonardo José Gil Barcellos lbarcellos@upf.br mailto:lbarcellos@upf.br