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PAPEL DOS NUTRIENTES NO SISTEMA IMUNOLÓGICO Como seres humanos vivendo em sociedade e em contato com o ambiente, estamos constantemente expostos à uma série de microrganismos - vírus, bactérias, fungos, alguns patogênicos e outros benéficos, e é necessário garantir que o organismo seja capaz de se proteger contra aqueles que podem causar quebra da homeostase e ameaçar a saúde e a vida do indivíduo. O sistema imune compreende o conjunto de células, tecidos, órgãos e moléculas que atuam na resistência à doença, prevenindo e erradicando infecções, ou seja, que são responsáveis pela imunidade. Além da proteção contra micróbios patogênicos e eliminação de substâncias tóxicas que podem adentrar o corpo através da pele, sistema gastrintestinal, sistema respiratório e sistema geniturinário, o sistema imune é um importante componente da defesa corporal contra tumores. Apesar da sua natureza de reação, o sistema imune deve ter a capacidade de tolerar e manter os microrganismos benéficos, chamados de “comensais”, que garantem funções ótimas de tecidos e órgãos, e evitar respostas contra componentes do próprio organismo. É por isso que uma característica central desse sistema é a de diferenciar próprio do não próprio, patógeno benéfico. Isso é feito a partir da detecção de características estruturais dos patógenos ou toxinas que os diferenciam das células do hospedeiro ou dos comensais. Esses mecanismos são essenciais para que o sistema imune não cause danos à tecidos próprios. Quando existe uma falha nesses processos, se encontra uma das bases das doenças autoimunes. Considerando a gama de ameaças à homeostase orgânica, a defesa propiciada pelo sistema imune deve estar à altura. Nesse sentido, existem 2 “tipos” de imunidade: a inata, que compreende os mecanismos codificados pela linha germinativa, ou seja, já “estão prontos” para reconhecer padrões moleculares comuns a diferentes microrganismos e fornecer proteção imediata contra a sua invasão; e a imunidade adaptativa, que demora um tempo maior para desenvolver sua resposta e atuar de maneira eficaz, porém fornece uma defesa mais especializada contra microrganismos que evoluíram para “burlar” a imunidade inata, já que os mecanismos adaptativos reconhecem uma variedade mais ampla de moléculas. O QUE É O SISTEMA IMUNE E QUAL O SEU PAPEL? 01. Figura 1. (Imagem retirada de: Imunologia básica: funções e distúrbios do sistema imunológico - ABBAS, A., et al.) Essa diferença na especificidade dos dois tipos de imunidade pode ser resumida da seguinte maneira: a imunidade inata é capaz de reconhecer apenas padrões moleculares associados à patógenos (“PAMPs”) ou associados à danos de células (“DAMPs”), enquanto a imunidade adaptativa reconhece antígenos, ou seja, detalhes estruturais de moléculas microbianas ou não. O fato de os componentes da imunidade inata reconhecerem apenas PAMPs e DAMPs, apesar de limitar o número de moléculas a que são responsivos, atua como uma maneira de limitar a resposta do sistema inato apenas à patógenos e células danificadas, não sendo responsivo à elementos próprios e saudáveis do hospedeiro (em indivíduos que não apresentam alterações nos genes que codificam os componentes inatos). Qualquer um dos tipos de imunidade começa suas respostas a partir da estimulação de receptores dos tipos celulares e, geralmente, incluem a participação de citocinas, moléculas proteicas que modulam a atuação de outras células. São exemplos de citocinas: interleucinas, quimiocinas, interferons, fatores de crescimento e fatores de necrose tumoral, para citar alguns. A imunidade inata é conhecida como nossa primeira linha de defesa, que já está pronta para atuar e é composta por barreiras físicas e químicas, diferentes tipos celulares e antibióticos naturais. Sua principal atuação é no sentido de bloquear a entrada dos microrganismos, mas caso esta ocorra, são acionados mecanismos para reconhecer e reagir contra eles, porém, de maneira limitada se comparada com a capacidade da imunidade adaptativa. As duas principais maneiras pelas quais o sistema imune inato elimina microrganismos é a partir da inflamação e de mecanismos de defesa antiviral. A resposta inflamatória aguda consiste no recrutamento de células e proteínas plasmáticas para os locais de infecção, garantindo a destruição dos microrganismos, a depuração das células danificadas e a reparação tecidual. Dessa forma, quando pontual e controlada, a inflamação fecha o ciclo de eliminar invasores e garantir que o tecido não fique danificado. Em relação aos componentes da imunidade inata, as barreiras físicas compreendem as camadas contínuas de células epiteliais, o muco secretado nos tratos respiratório, gastrintestinal e geniturinário e os cílios que auxiliam a “varrer” partículas que possam ter sido inaladas ou ingeridas. Além da defesa física, algumas células epiteliais também secretam defensinas e catelicidinas, que são peptídeos antimicrobianos naturais. Caso as barreiras física e química não sejam capazes de impedir a invasão tecidual, os tipos celulares da defesa inata entram em ação. Essas células possuem receptores (Toll like receptors - TLR, ou alguns da família NLR) que reconhecem os PAMPs ou DAMPs e iniciam as respostas celulares. Os fagócitos são células que geralmente circulam no sangue e são recrutados para atuar nos locais de infecção quando se inicia a inflamação. São conhecidos como células efetoras pois são capazes de ingerir e destruir os microrganismos além de iniciar o processo de reparação de tecidos danificados. Os dois tipos de fagócitos circulantes são os neutrófilos, dominantes na inflamação aguda pois são as primeiras células a responder à maioria das infecções, e os monócitos. Quando os monócitos são recrutados do sangue para os tecidos e sofrem ativação, passam a ser chamados de macrófagos. Assim que tomam forma de macrófagos precisam ser ativados mais uma vez para efetuar as respostas. Essas células podem passar então pela ativação clássica, que acontece quando há ligação no seu receptor e presença da citocina IFN-γ, gerando macrófagos do tipo M1, envolvidos na destruição de microrganismos e no desencadeamento de inflamação. Se a ativação ocorre pela via alternativa, induzida pelas citocinas IL-4 e IL-13, são gerados macrófagos M2, cujo papel está mais relacionado à regulação da inflamação, sendo importantes para reparação tecidual. O ideal é que haja um balanço equilibrado entre esses dois tipos de macrófagos para que a resposta ao patógeno não ocorra de forma exagerada e o tecido seja regenerado da maneira correta. As células natural killer (NK) tem como função eliminar reservatórios celulares de infecção ao reconhecer células infectadas e destruí-las a partir de mecanismos citotóxicos. Também são capazes de responder à IL-12 produzida por macrófagos que possuem microrganismos fagocitados liberando IFN-γ e ativando assim a capacidade dos macrófagos de destruir os microrganismos que estão em seu interior. Células dendríticas e mastócitos são células sentinelas nos tecidos envolvidas em mecanismos inatos e adaptativos. As primeiras são responsáveis por responder à presença de microrganismos produzindo citocinas que iniciam a inflamação, como TNF e interferons. Também são uma ponte entre as imunidades inata e adaptativa, ao estimular a resposta desta última apresentando os antígenos para os linfócitos iniciarem sua atuação, sendo por isso chamadas também de células apresentadoras de antígenos. Os mastócitos respondem a produtos microbianos ou podem ser ativados por um mecanismo dependente de anticorpos. Essas células possuem vários grânulos em seu interior, que contém aminas vasoativas como a histamina, e enzimas proteolíticas que podem matar bactérias ou inativar toxinas. Além disso, são capazes de produzir citocinas e mediadores lipídicos conhecidos como prostaglandinas, importantes no controleda inflamação, fluxo sanguíneo e cascata de coagulação. Além dos tipos celulares, várias proteínas presentes no plasma são parte da imunidade inata. Um exemplo são as proteínas do sistema complemento, importantes na defesa contra microrganismos. Esse sistema, composto principalmente por enzimas proteolíticas, atua em cascata: uma proteína vai ativando a outra, até que seja realizada uma de suas funções efetoras: inflamação, opsonização de microrganismos ou perturbação da conformação da membrana do microrganismo, que gera sua morte. A opsonização é um processo pelo qual o patógeno é revestido por algumas moléculas que atraem os fagócitos, responsáveis por ingerir e destruir o microrganismo. Apesar de poder se pensar que a imunidade inata é menos refinada que a adaptativa, deve-se ter em mente que é crítica para uma defesa efetiva. O fato de vários de seus sistemas estarem conservados entre os filos animais mostra sua versatilidade e efetividade. Além disso, os dois tipos de imunidade não agem de forma independente entre si, com as respostas imunes inatas também sendo responsáveis por ampliar as respostas imunes adaptativas, que podem ser celulares, efetuadas a partir de linfócitos, ou humorais, nas quais os mecanismos efetores são os anticorpos. ALÉM DE DIFERENTES MECANISMOS EFETORES, NA IMUNIDADE ADAPTATIVA A RESPOSTA CELULAR EXTERMINA MICRORGANISMOS LOCALIZADOS DENTRO DE OUTRAS CÉLULAS, ENQUANTO A HUMORAL NEUTRALIZA E ANIQUILA MICRORGANISMOS E TOXINAS QUE SE ENCONTRAM NO AMBIENTE EXTRACELULAR. Em relação aos linfócitos, os principais tipos celulares do braço adaptativo, os “B” são responsáveis pela produção de anticorpos, também chamados de imunoglobulinas: moléculas produzidas para neutralizar antígenos. Já os linfócitos T podem atuar ativando fagócitos para destruir microrganismos que estejam dentro destas células ou então podem eliminar diretamente células infectadas. A resposta imune adaptativa além de reconhecer diversos antígenos, gera respostas específicas para cada um deles e ideais para a defesa contra o tipo de microrganismo que está causando a infecção. Além disso, após responder a um antígeno, são ativados linfócitos de memória, que guardam a lembrança do primeiro encontro com essa molécula estranha e reforçam a resposta imune todas as vezes que houver exposição a esse mesmo antígeno. Essa capacidade de resposta reforçada também se deve à possibilidade de expansão clonal dos linfócitos, ou seja, a partir de um pequeno número de células são gerados vários linfócitos antígeno específico. E mesmo apresentando uma reação mais forte em uma resposta secundária, a presença de células reguladoras evita lesões ao hospedeiro, concentrando os mecanismos e suprimindo respostas exageradas. Existem 3 diferentes classes de linfócitos T: Os T CD4 + , ou células T auxiliares (“T helper”) dão suporte para produção de anticorpos e atuação dos fagócitos. Os linfócitos T reguladores, ou “T Reg” são importantes para limitar a resposta imune e evitar danos excessivos. Linfócitos T citotóxicos, ou T CD8 + são responsáveis pela morte de células infectadas. IMPORTÂNCIA DO FORTALECIMENTO DO SISTEMA IMUNE DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19 02. O vírus causador da COVID-19, o SARS-CoV-2 é um vírus de RNA, transmitido no contato próximo entre humanos, por gotículas respiratórias. Logo que adentra o organismo, inicia sua replicação interagindo com as células do hospedeiro principalmente a partir da sua ligação com a enzima conversora de angiotensina 2, o principal receptor para esse vírus, localizada na superfície de várias células. Essa enzima está presente no plasma e é altamente expressa em órgãos como o coração, rins e pulmões, que podem sofrer maiores danos com a progressão da infecção viral. Pessoas afetadas pela COVID-19 podem sofrer de doença respiratória grave e, dependendo do estado metabólico e fisiológico atual, evoluir com complicações que podem ser fatais. Os motivos pelos quais algumas pessoas desenvolvem os quadros mais severos e outras não ainda não foram completamente elucidados. Porém, o sistema imune do indivíduo é um fator primordial para a progressão (ou não) da doença. Dependendo do estado do sistema imune, uma resposta específica é gerada para erradicar o vírus e prevenir a sua progressão. Isso significa que, se a capacidade imune estiver baixa, a propagação e o dano causados pelo SARS-CoV-2 tendem a ser maiores. O início da propagação do vírus ocorre devido à limitada resposta inata inicial, em um momento em que ainda não existe manifestação de sintomas. Quando a atuação da imunidade inata se manifesta de maneira mais expressiva, com a liberação de citocinas, inicia-se a fase sintomática. O equilíbrio e a regulação da resposta da imunidade inata do indivíduo a partir daí tem um papel central na definição se a doença seguirá um curso mais destrutivo ou não. Como citado anteriormente, um dos mecanismos desse tipo de imunidade é a defesa antiviral, na qual algumas células do sistema imune, como células dendríticas plasmocitoides, já infectadas pelo vírus, secretam interferons do tipo 1 e outras citocinas inflamatórias. Essas citocinas inibem a replicação do vírus para outras células e induzem um estado antiviral ao destruir os genomas de vírus presentes no organismo. O início da propagação do vírus ocorre devido à limitada resposta inata inicial, em um momento em que ainda não existe manifestação de sintomas. Quando a atuação da imunidade inata se manifesta de maneira mais expressiva, com a liberação de citocinas, inicia-se a fase sintomática. O equilíbrio e a regulação da resposta da imunidade inata do indivíduo a partir daí tem um papel central na definição se a doença seguirá um curso mais destrutivo ou não. Como citado anteriormente, um dos mecanismos desse tipo de imunidade é a defesa antiviral, na qual algumas células do sistema imune, como células dendríticas plasmocitoides, já infectadas pelo vírus, secretam interferons do tipo 1 e outras citocinas inflamatórias. Essas citocinas inibem a replicação do vírus para outras células e induzem um estado antiviral ao destruir os genomas de vírus presentes no organismo. Mastócitos são outro exemplo de células ativadas pela infecção viral e atuam secretando histaminas, proteases e marcadores pró inflamatórios como IL-1, IL-6 e IL-33. A liberação desses fatores é importante no recrutamento de células da imunidade adaptativa. Linfócitos T CD4 + estimulam a síntese de anticorpos pelos linfócitos B e as CD8+ atuam eliminando células infectadas. Os “T helper” liberam citocinas e quimiocinas, recrutando neutrófilos e monócitos para auxiliar a lidar com a invasão. Um certo nível de estado pró inflamatório é necessário para lidar com o vírus invasor, mas caso atinja patamares muito elevados, a liberação de citocinas inflamatórias leva à tempestade de citocinas, e um aumento imediato de radicais livres. Esses eventos estão na base do desenvolvimento da Síndrome Respiratória Aguda Grave e podem levar à falência de múltiplos órgãos. O excesso da produção de citocinas parece acontecer em indivíduos com sistema imune desregulado e aqueles que convivem com um estado de inflamação crônica de baixo grau, presente no sobrepeso e obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outras condições crônicas. A importância de um sistema imune fortalecido e preparado para reconhecer e reagir adequadamente à infecção do vírus causador da COVID-19 justifica as recomendações acerca de uma nutrição adequada, prática física moderada e regular e o desenvolvimento de outros hábitos que melhoram a imunidade durante toda a pandemia. PAPEL DA MICROBIOTA NO DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA IMUNE 03. Uma das maneiras de estudar a influência dos microrganismos comensais no sistema imune do hospedeiro é a partir de estudos feitos com animais. Na ciência, não extrapola-se resultados animais para humanos, mas os resultados servem de norteadores para entendermos um poucomais sobre o nosso próprio funcionamento. É comum a retirada da microbiota de ratos ou outras espécies, originando indivíduos “germ-free”, e a comparação destes com controles que possuem microbiota para observar os papéis dos microrganismos no metabolismo desses seres. Diversos estudos nesse sentido observaram que os animais germ-free apresentam sistema imune das mucosas pouco desenvolvido, respostas menos efetivas da imunidade quando exposta à infecção, menor quantidade de linfócitos T reguladores, reduzida capacidade anti inflamatória e resposta imune inata prejudicada por desenvolvimento incorreto. Quando focamos nosso olhar sob o organismo humano, sabe-se que já durante a vida fetal, a geração de células da imunidade inata da criança depende em certo nível de compostos produzidos pela microbiota materna e que são transferidos via placenta. Por exemplo: ácidos graxos de cadeia curta são metabólitos microbianos produzidos a partir da fermentação de fibras. O contato fetal com esses compostos parece induzir maior potencial de geração de linfócitos T reg no ambiente pulmonar na vida adulta, reduzindo a incidência de alergias. Depois do nascimento, em contato com o ambiente, começa um período conhecido como “janela de oportunidade”. Esse momento vai até, aproximadamente, o momento do desmame e é quando o bebê passa a ser exposto a novos tipos celulares de microrganismos, o que induz o desenvolvimento e a maturação das células e órgãos imunes. Nessa fase, a colonização por microrganismos é bastante diversa e vai flutuando até chegar a um equilíbrio, que denota o padrão de estabilidade daquela microbiota até a vida adulta. Concomitantemente, o sistema imune passa por um processo de “educação”, para tolerar características do novo ambiente ao seu redor, bem diferente do útero materno. O tipo de microrganismos e as condições ambientais a que o indivíduo é exposto nesse momento, tais como a dieta, influenciam diretamente as próximas espécies que vão colonizar aquela microbiota, assim como a geração e atuação das células do sistema imune. A formação da microbiota, assim como a maturação do sistema imune, tem consequências diretas no longo prazo. Uma menor capacidade de regulação imunológica e um sistema inato extremamente reativo, por exemplo, geralmente resultam de uma colonização microbiana precária no início da vida. Porém, essa comunicação microbiota-imunidade se mantém ao longo de toda a existência, na medida que condições patológicas influenciam os microrganismos comensais, e estes manipulam a fisiologia do sistema imune a partir do seu próprio metabolismo. Um exemplo disso é que a microbiota tem um papel fundamental na manutenção da barreira intestinal, impedindo que patógenos cheguem até a circulação sanguínea e causem reações do sistema imune. Fatores dietéticos, como o consumo de dietas ricas em gordura, por exemplo, podem alterar essa microbiota e a função de barreira, levando a uma maior infiltração de substâncias patogênicas e ativação de células dendríticas, macrófagos e neutrófilos. Esse tipo de processo leva a um estado de inflamação crônica de baixo grau, fator de risco para o desenvolvimento de doenças metabólicas. CONDIÇÕES QUE PODEM REDUZIR A ATUAÇÃO DO SISTEMA IMUNE: envelhecimento, estresse crônico, sono ruim, exercício físico extenuante, obesidade e outras doenças inflamatórias. 04. O envelhecimento é acompanhado pela senescência de todos os órgãos e sistemas do corpo humano. Ou seja, é fisiológico que as estruturas corporais sofram alterações e isso não necessariamente implica na ocorrência de doenças. Porém, no caso do sistema imune, essas alterações estruturais e funcionais podem debilitar a capacidade de lidar com infecções, diminuir a resposta à vacinação, aumentar a incidência de câncer e condições autoimunes e perpetuar um estado de inflamação crônica de baixo grau conhecido como “inflammaging”. Não é muito claro quais mudanças estão efetivamente relacionadas ao envelhecimento e quais são adaptativas, consequências de exposições imunes ao longo da vida. Além disso, as alterações que ocorrem em outros sistemas como o endócrino, nervoso, digestivo, cardiovascular e músculo-esquelético influenciam diretamente o funcionamento imune em idades mais avançadas. Em idosos, os dois braços da imunidade, inato e adaptativo, sofrem com alterações na composição e função celular. Há uma diminuição nas transduções de sinais entre as células, algumas têm redução no número de receptores (importantes para reconhecimento de patógenos e substâncias tóxicas e consequente ativação celular), a estimulação e produção de citocinas fica prejudicada e vários mecanismos compensatórios se desenvolvem, prejudicando ainda mais o funcionamento dessas células. É notória principalmente a diminuição de Linfócitos T naive (que não foram apresentados a nenhum antígeno), o que reduz também a capacidade de lidar com novos antígenos, assim como o repertório de anticorpos diminui. O acúmulo de células senescentes nos diferentes tecidos aumenta a secreção de mediadores inflamatórios e essa é uma das principais bases do estado de inflammaging, que por sua vez é fator de risco para uma série de doenças crônicas. O estresse crônico, assim como o envelhecimento, enfraquece o sistema imune: aumenta a susceptibilidade à infecção por patógenos, influencia a severidade do curso da doença, diminui a resposta imune às vacinas, pode reativar herpes vírus latentes e lentificar o processo de recuperação de feridas e doenças. Além disso, eventos estressores aumentam a produção de citocinas pró inflamatórias e a desregulação imune causada pelo estresse é fator de risco para uma série de prejuízos à saúde. Muitas células do sistema imune têm receptores para os “hormônios do estresse”, como o cortisol e as catecolaminas, por exemplo. A ligação excessiva desses hormônios altera a produção de citocinas e a resposta dessas células, que podem ser ativadas mesmo em situações em que não há ameaça imunológica. O sono adequado é um fator de proteção do sistema imune. Dormir bem afeta positivamente vários parâmetros imunes e associa-se à menor risco de infecções e melhores respostas caso aconteçam, além de ser benéfico para a reação do corpo à vacinação. Toda a constelação hormonal envolvida no processo de sono adequado parece ser um dos fatores por trás dos efeitos de suporte ao sistema imune. Além disso, um sono de qualidade auxilia no equilíbrio inflamatório do organismo. Dormir mal pode levar a secreção exagerada de marcadores inflamatórios e promover um estado de inflamação crônica de baixo grau que, como supracitado, é fator de risco para uma série de condições como diabetes, aterosclerose e neurodegeneração, por exemplo A comunicação entre sono e imunidade é bidirecional, ou seja, além do sono afetar (positiva ou negativamente) o funcionamento do sistema imune, infecções e doenças inflamatórias podem gerar distúrbios na qualidade do sono. Inclusive, uma das maneiras de induzir maior tempo e qualidade do tempo dormindo é bloqueando a atuação de algumas citocinas inflamatórias. O papel dos estressores no declínio da função imune envolve a relação entre os sistemas nervoso, endócrino e imune. É considerado um estressor tudo aquilo que estimula a ativação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal para auxiliar o organismo a lidar com uma situação percebida pelo organismo como uma ameaça. Essa resposta é um mecanismo evolutivo que permitiu a sobrevivência do ser humano frente a situações de ameaça real. Porém, sempre que o indivíduo se vê em uma situação que não consegue lidar, o que ocorre com frequência no contexto da sociedade atual, a estimulação crônica da resposta ao estresse pode fazer com que diversas funções corporais fiquem comprometidas. No hall de fatores que prejudicam a imunidade também está presente o exercício físico extenuante. Práticas com mais de 1 hora e meia de duração, com intensidadeelevada, podem causar diminuição da função imunológica, aumentando a propensão a ficar doente. No processo de recuperação de exercícios físicos muito intensos, ocorrem alterações já muito bem estabelecidas nas funções das células NK, neutrófilos, linfócitos T e B e macrófagos. Isso porque o exercício extenuante é percebido como um estressor para o organismo, e por isso causa ativação imune. Como está associado à fadiga, acaba por diminuir a capacidade de atuação de algumas funções efetoras do sistema imune. Biomarcadores importantes da imunidade como a liberação de imunoglobulinas, resposta das mucosas e reações do sistema imune inato sofrem diminuições, alterando a proteção imune e induzindo processos inflamatórios, principalmente nas vias aéreas. A alta incidência de infecções do trato respiratório em atletas de elite demonstra claramente a vulnerabilização da capacidade imunológica decorrente de prática física excessiva, principalmente quando ocorre de maneira constante. A obesidade e uma série de outras condições, como a diabetes, hipertensão e as doenças cardiovasculares, compartilham entre si um componente inflamatório crônico. A inflamação é uma resposta biológica para limitar a invasão de patógenos e reparar o dano causado por moléculas endógenas ou exógenas. Porém só é benéfica para o organismo quando ocorre de forma aguda e transiente. Quando persiste, está relacionada à disfunção tecidual e processos patológicos. A elevada circulação de marcadores pró inflamatórios, como a proteína C reativa, IL-10 e TNF-α resulta de um link entre o tecido adiposo e o sistema imune. Esse tecido é ativado em condições de desordem metabólica e tem a produção de algumas adipocinas desregulada: acontece uma tendência de aumento de secreção de leptina e diminuição de adiponectina. A atuação da leptina está relacionada à indução de produção de citocinas pró inflamatórias, enquanto aquelas produzidas a partir da atuação da adiponectina, como a IL-10, modulam a atividade imune em um caminho mais anti-inflamatório. No tecido adiposo de indivíduos com obesidade também é marcante a presença de agregação de macrófagos, com alteração do perfil desse tipo celular principalmente para a linhagem M1. Todo esse caráter mais inflamatório está relacionado com uma amplificação da infecção por patógenos, maior estresse oxidativo e menor eficiência da função endotelial, que é extremamente importante para o transporte adequado de células e outros componentes do sistema imune em direção aos locais de infecção. HÁBITOS QUE MELHORAM A IMUNIDADE 05. Sabendo que existe uma série de fatores que causam diminuição da função imune, podemos também pensar em hábitos que vão na direção contrária, aumentando a capacidade imunológica do organismo. Estados de má nutrição, seja por excessos como no caso da obesidade, ou por falta de energia e nutrientes, como no caso da desnutrição, levam à função imune defeituosa, com prejudicada imunocompetência. Dessa forma, uma dieta adequada em energia e suficiente em vitaminas e minerais é essencial para cultivar um sistema imune eficiente. Existem alguns nutrientes considerados “chave” para a saúde imune por terem papéis específicos que dão maior suporte para a atividade celular, a serem discutidos a seguir. Mas é preciso ter em mente que cada macro e micronutriente tem importância singular nas diferentes funções corporais e a manutenção constante de um padrão alimentar saudável, com predominância de alimentos vegetais e integrais, apresenta superioridade em relação a qualquer estratégia alimentar pontual. No passo que o exercício físico extenuante é um fator de risco para comprometimento da função imune, a prática física moderada exerce o papel oposto: melhora a imunovigilância e imunocompetência. Isso significa que os tipos celulares reconhecem melhor as ameaças e conseguem atuar de forma mais eficiente para combatê-las. No longo prazo, a prática física favorece um estado mais anti inflamatório do sistema imune, com aumento de IL-6 e IL-10 e supressão da produção de TNF. A maior produção de hormônios com função imunomoduladora como o GH, prolactina, cortisol e adrenalina (os dois últimos de maneira aguda e equilibrada), a perda de tecido adiposo, o aumento da produção de miocinas anti inflamatórias e a diminuição controlada de TLRs são alguns dos mecanismos por trás dos benefícios obtidos com a prática física constante e moderada: melhora da resposta imunológica, aumento da capacidade antioxidante do corpo, redução do estresse oxidativo e potencialização da eficiência de produção de energia. O tempo de sono é valioso para restauração e manutenção da homeostase do organismo. Nesse momento, acontece uma diminuição da atividade de eixos do estresse e aumento de mediadores de proliferação e diferenciação celular, possibilitando processos de reparação importantes. A principal atuação do sistema imune durante o sono é a do braço adaptativo, com maior suporte para formação de memória imunológica, visto que ocorre maior proliferação e migração de linfócitos T. A produção de citocinas enquanto dormimos segue um caminho mais pró inflamatório, porém com o objetivo de reparação, para lidar com “sinais de perigo” produzidos exaustivamente durante o dia, como, por exemplo, os radicais livres. Muitas ativações imunes ocorrem durante a noite pois utilizam grande quantidade de energia e mudanças endócrinas ocorridas durante esse período permitem disponibilizar glicose para ser utilizada diretamente para fins imunes. Considerando que a deficiência de vitamina D está relacionada à maior incidência de doenças autoimunes e infecções e que praticamente todas as células imunológicas possuem receptores para essa vitamina, além da capacidade de metabolizá-la, tomar sol adequadamente para garantir que seus níveis estejam adequados é outro hábito a ser inserido na rotina pensando em melhora das funções imunológicas. As funções efetoras dos macrófagos e a produção de peptídeos microbianos são potencializados em organismos com níveis adequados de vitamina D. Além disso, essa molécula com atuação hormonal, é capaz de modificar os fenótipos de algumas células, como as dendríticas, no sentido de um perfil mais tolerogênico, o que é extremamente relevante no cenário de condições autoimunes. Práticas que reduzem o estresse cotidiano são fundamentais para um estado fisiológico e mental saudáveis. Apesar de ser subjetivo o que causa o relaxamento em cada indivíduo, alguns estudos já se debruçam no uso da meditação do tipo mindfulness como um adjuvante no fortalecimento do sistema imune. A prática parece causar redução de marcadores inflamatórios, como a proteína C-Reativa, reforço da imunidade celular, com sugestivo aumento na contagem de linfócitos T CD4+, além de ser aliada da diminuição de velocidade do envelhecimento celular. Os resultados ainda são preliminares, mas os benefícios de meditar são fortemente defendidos por aqueles que experimentam a meditação no seu cotidiano. O funcionamento adequado de qualquer sistema corporal depende da presença, em níveis suficientes, de vitaminas, minerais, proteínas, lipídios e energia. E com o sistema imune, tal premissa não é diferente. A condição nutricional do indivíduo é crucial na proteção do organismo, e uma maior susceptibilidade a infecções geralmente é resultado de deficiências de vários nutrientes. Alguns minerais e nutrientes específicos têm papéis muito bem estabelecidos no fortalecimento da função imune, devido às funções centrais em processos necessários para uma adequada resposta imunológica. O zinco é um mineral presente principalmente em carnes, peixes, sementes e oleaginosas, que tem um papel vital no desenvolvimento e manutenção de mecanismos tanto da imunidade inata quanto da adaptativa. A atuação desse nutriente no sistema imune é tão marcante que sua deficiência resulta em diferentes disfunções imunológicas, aumentando a vulnerabilidade às doenças e infecções. Ainda, em situaçõesde níveis inadequados de zinco, acontece uma produção exacerbada de citocinas pró inflamatórias, que podem causar efeito deletério em vários órgãos e tecidos. O zinco ocupa posição de destaque no fortalecimento imune devido à sua capacidade antioxidante, que protege o organismo contra o estresse oxidativo. A importância de controlar a quantidade de espécies reativas de oxigênio, os “radicais livres”, se deve ao fato dessas moléculas reduzirem a capacidade de atuação de várias células, inclusive daquelas que compõem o quadro celular do sistema imune. Níveis adequados de zinco estão relacionados à maior proliferação de células do sistema imune, além de auxiliar na manutenção de membranas, mantendo a integridade celular, importante para que as células possam desempenhar suas funções de maneira adequada. Ao auxiliar na conservação da conformação das membranas, o zinco também fortalece a função de barreiras, como a observada no intestino, que protege o organismo da entrada indesejada de possíveis microrganismos patogênicos que possam entrar em contato com a mucosa intestinal. NUTRIENTES QUE ATUAM NO FORTALECIMENTO DO SISTEMA IMUNE: zinco, selênio, carboidrato complexo (energia), beta glucana 06. Figura 2. Mechanism of action of microntrients against CoVs. NK = natural killer; ACE-2= angiotesin-converting enzyme 2. Figura 3. Zn-signal axes in immune system. Each Zn-signal axis targets a specific molecule and controls a variety of cellular activities such as proliferation, differentiation, survival, migration, and function via a distinct signaling pathway to control immune homeostasis and functions. ZnD (red) impairs these Zn-signal axes and leads to disease if there is no redundant machinery. Outro mineral com papel importante para o funcionamento adequado do sistema imune é o selênio, que é requerido pelo organismo em quantidades menores que alguns outros micronutrientes, sendo por isso considerado um elemento traço. O principal efeito biológico do selênio está relacionado a sua incorporação em selenoproteínas. Quando os níveis desse mineral se encontram baixos, a expressão dessas proteínas também diminui em todos os tecidos, podendo comprometer funções importantes, como as do sistema imune. As selenoproteínas são, em sua maioria, enzimas que participam de reações antioxidantes. A deficiência de selênio aumenta o estresse oxidativo, a síntese de citocinas pró inflamatórias e diminui a imunocompetência. Pessoas com níveis inadequados desse mineral se beneficiam da suplementação, com resultados imunoestimuladores, observados pelo aumento da proliferação de linfócitos T, atividade adequada de células NK e melhora da função de tipos celulares da imunidade inata. As principais fontes alimentares de selênio são grãos integrais, vegetais, peixes, carnes, laticínios e castanhas, especialmente a castanha do Pará. Além de minerais, a ingestão adequada - nem exagerada, nem insuficiente - de carboidratos complexos também deve ser um ponto de atenção ao pensarmos em potencialização da função imune. As células que efetuam as funções imunológicas apresentam elevada necessidade de energia quando estão ativadas. Linfócitos T e B, principalmente, apresentam um uso elevado de glicose, advinda de carboidratos, visto que sua principal forma de produzir energia é a partir da glicólise. Qualquer carboidrato oferta glicose para o corpo, porém quando esta é ingerida a partir de fontes complexas do macronutriente, a entrega para as células é mais controlada, visto que a glicemia não se eleva de maneira exagerada, nem muito rápido. Carboidratos complexos são encontrados em tubérculos, grãos e cereais integrais, o que faz com que seu consumo seja acompanhado também de uma série de vitaminas e minerais. As beta glucanas são polissacarídeos, moléculas grandes formadas por várias unidades de glicose, que não são digeríveis e podem ser fermentadas por componentes da microbiota. Existem vários tipos de beta glucanas e elas podem ser encontradas na parede celular de vários microrganismos, como bactérias, fungos e leveduras, assim como em cereais como a aveia e a cevada. Começaram a ser estudadas como agentes imunoestimulantes visto que parecem aumentar a defesa imune do hospedeiro ao ativar o sistema complemento, melhorar a função de macrófagos e células NK e por serem possíveis agentes protetores contra a oncogênese. O principal mecanismo de ação das beta glucanas é a partir da estimulação de um receptor das células imunes, que reconhecem a estrutura desse composto como a de um patógeno e são então ativadas. Esse estímulo faz com que funções celulares fiquem mais eficientes, além de possivelmente propiciar um equilíbrio nos níveis de diferentes subclasses dos linfócitos T, garantindo homeostase imunológica. Além disso, o metabólito de sua fermentação pela microbiota do intestino, os ácidos graxos de cadeia curta, também possuem efeitos imunomodulatórios e de prevenção da obesidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS O sistema imune compreende uma estrutura fisiológica labiríntica e processos complexos, diretamente interligados a vários outros sistemas corporais. Sua atuação tem forte influência na homeostase do organismo, assim como é vulnerável à exposições ambientais ao longo de toda a vida. Diversos são os fatores que podem comprometer sua máxima eficiência, mas também existe uma série de hábitos que podem ser adotados para garantir uma imunocompetência satisfatória. Seus componentes celulares e humorais estão em constante processo de renovação, o que possibilita que, em condições favoráveis, a função imune possa ser potencializada e garanta maior proteção ao indivíduo. Porém, cada vez mais, a ciência mostra que as bases em que foi estabelecida no início da infância tem um impacto forte na sua conformação do longo prazo, podendo ser fator de risco para condições patológicas que vão desde alergias até doenças com forte componente inflamatório. A alimentação, exercício físico, o consumo estratégico de suplementos alimentares e outros fatores de estilo de vida como sono, manejo de estresse e exposição solar são importantes pilares a serem manipulados quando se busca fortalecer as defesas e, consequentemente, propiciar maior qualidade de vida. 07. Yatim, K. M., & Lakkis, F. G. (2015). A Brief Journey through the Immune System. Clinical Journal of the American Society of Nephrology, 10(7), 1274–1281. doi:10.2215/cjn.10031014 Imunologia básica : funções e distúrbios do sistema imunológico / Abul K. Abbas, Andrew H. Lichtman, Shiv Pillai ; [tradução Patricia Dias Fernandes]. - 5. ed. - [Reimpr.]. - Rio de Janeiro : GEN | Grupo Editorial Nacional. Publicado pelo selo Editora Guanabara Koogan Ltda., 2021. Chaplin, D. D. (2010). Overview of the immune response. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 125(2), S3–S23. doi:10.1016/j. jaci.2009.12.980 Junaid, K., Ejaz, H., Abdalla, A. E., Abosalif, K. O. A., Ullah, M. 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