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W AUTISTAS NO ESCRITÓRIO Desafios e soluções para a inclusão. P. 36 MÉDIA GERÊNCIA Por que esses gestores são estratégicos. P. 44 RIR É O MELHOR EMPREGO Influenciadores que fazem humor da vida de crachá. P. 50 Projeto-piloto com empresas brasileiras tem seus primeiros resultados. Saiba quais foram os impactos no trabalho e no bem-estar das pessoas. e quais os caminhos para render mais diminuindo o tempo no batente. P. 24 S E M A N A D E 4 DIAS R $ 38 ,0 0 Clube de Revistas https://t.me/clubederevistas Clube de Revistas Clube de Revistas Clube de Revistas Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 5 Todo dia é útil M eu pai não era muito de brincar com os filhos. Saía cedo para o trabalho, após tomar seu café e uma passada de olhos no jornal do dia. Voltava no comecinho da noite, exausto. Aos finais de semana, só queria descansar. Era quando podia, enfim, ler seu jornal inteirinho, e sem pressa. Comentávamos a coluna do Paulo Francis, e ele falava para mim, o filho mais velho, e para minha mãe, sobre o único assunto que tinha: o dia a dia no escritório. Meu pai vivia para o trabalho. E não lhe parecia que isso estivesse errado. Pelo contrário. Trabalhar excessivamente, para a geração dele, dava uma im- pressão de sucesso. O velho trabalhava tanto que não tinha tempo para cuidar da própria saúde (esta- va sempre com a pressão alta, fumava compulsiva- mente…), ter uma alimentação equilibrada, cultivar amizades. Quando chamava algum conhecido em casa, coisa rara, era sempre alguém… do trabalho. Não à toa, meu pai partiu cedo, aos 59 anos. Sua história não foi tão diferente da de muita gente de sua geração, os baby boomers. Indivíduos criados com muita rigidez e disciplina, que valoriza- vam demais a conquista da estabilidade financeira e da realização por meio do trabalho. Puxei muito ao meu pai, nos traços da face e nos gostos musicais. Mas, diferentemente dele, penso que o trabalho, em toda a sua importância, tem de estar em equilíbrio com nossa vida pessoal. Não faz sentido, pelo menos para mim, que esteja à frente das brincadeiras com as minhas filhas. Nem que me custe a saúde – e, em alguns momentos da minha carreira, já chegou a esse ponto. Não vejo como sinal de sucesso estar tão cansado, todos os dias, que não possa estar com amigos ou ir a um estádio de futebol, a um cinema. As empresas que estão tentando se adaptar para uma semana de quatro dias “úteis” (como se os dias longe do batente fossem inúteis…) seguem o mesmo raciocínio. Ainda que os desafios sejam grandes – de mudança de mentalidade, principalmente, mas também de acertar os processos –, esses negócios pensam em conformidade com as novas gerações que estão chegando ao mercado. Sabem como a oferta de mais vida pessoal está ligada à retenção de talentos. De profissionais mais criativos e saudáveis; menos estressados, menos cansados… Menos parecidos com meu pai e os trabalhadores de seu tempo. carta ao leitor O jornalismo profissional de VOCÊ RH tem o apoio de ALExANDRE CARvALHO EDITOR-CHEFE Clube de Revistas SUMÁrio ED. 92 - JUNHO / JULHO 2024 fotografia da caPa: studio oz 24 | SEMANA 2.0 Projeto-piloto com empresas que estão testando o modelo de 4 dias úteis divulgou os primeiros resultados. saiba o que mudou no bem-estar e na produtividade dos colaboradores. 36 | PROFISSIONAIS AUTISTAS 85% deles estão desempregados no Brasil – e quem está no mercado sofre com a falta de suporte das empresas. 44 | GERENTES E CIA. Excluir a média gestão das decisões estratégicas é um tiro no pé. Alguns negócios já perceberam isso – e se deram bem. 50 | INFLUENCERS DE CLT Conheça quatro criadores de conteúdo que apontam, com muito humor, as idiossincrasias do mundo corporativo. 56 | ENTREVISTA Raul Aparici, diretor global de aprendizagem da the school of Life, atua para promover relações saudáveis com o trabalho. 20 | olhar do PreSidente Rodrigo Araujo, CEo da Korn Ferry Brasil. 60 | melhoreS PráticaS A maratona a distância organizada pela CPFL. 62 | na eStante Por trás das grandes companhias, há líderes de dois perfis: o visionário e o integrador. 66 | na real A demanda por conselheiros está crescendo. Veja como seguir essa carreira. MATÉRIASSEÇÕES ILUSTRAÇÃO: GUSTAVO MAGALHÃES 6 você rh jun / juL 2024 5 | carta ao leitor os dias dedicados a lazer e descanso também são úteis. 8 | notaS 82% dos profissionais de RH estão sobrecarregados. 12 | macro três fatores que podem motivar a volta ao modelo presencial. 16 | ProfiSSõeS o que faz um gerente de operações de trust & safety. 18 | deSafio do rh WeWork contrata uma startup de marmitas. apenas 27% dos gerentes, supervisores e coordenadores participam das discussões mais importantes. P. 44 Clube de Revistas ASSINATURAS vendaS corPorativaS, ProjetoS eSPeciaiS e vendaS em lote assinaturacorporativa@abril.com.br atendimento minhaabril.com.br Whatsapp: 11 3584-9200 telefones: sAC 11 3584-9200 Renovação 0800-7752112 de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30 E-mail: atendimento@abril.com.br vendaS www.assineabril.com.br Whatsapp: 11 3584-9200 telefones: sAC 11 3584-9200 de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30 Para baixar Sua reviSta digital Acesse revistasdigitaisabril.com.br CORRESPONDÊNCIA Comentários sobre o conteúdo editorial de VoCê RH, sugestões e críticas: / @revistavocerh / @revista-voce-rh ANUNCIE Anuncie em VoCê RH e fale com o público leitor mais qualificado do Brasil: publicidade@abril.com.br FA LE COM VOCÊ RH 92 (ISSN 244709500), ano 17, no 4, é uma publicação bimestral da Editora Abril. VOCÊ RH não admite publicidade redacional. REDAÇÃO E CORRESPONDÊNCIA Rua Cerro Corá, 2.175, lojas 101 a 105 (1o e 2o andar), Vila Romana, CEP 05061-450, São Paulo, SP DIRETORIA EXECUTIVA DE DESENVOLVIMENTO EDITORIAL E AUDIÊNCIA Andrea Abelleira DIRETORIA EXECUTIVA DE OPERAÇÕES Guilherme Valente DIRETORIA DE MONETIZAÇÃO E RELACIONAMENTO COM CLIENTES Erick Carvalho SERVIÇO AO ASSINANTE Autoatendimento minhaabril.com.br WhatsApp 11 3584-9200 Telefones: SAC 11 3584-9200 Renovação 0800-7752112, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30 IMPRESSA NA PLURAL INDÚSTRIA GRÁFICA LTDA: Av. Marcos Penteado de Ulhôa Rodrigues, 700, Tamboré, CEP 06543-001, Santana de Parnaíba, SP www.grupoabril.com.br VICTOR CIVITA (1907-1990) ROBERTO CIVITA (1936-2013) Fundada em 1950 Publisher: Fábio Carvalho Editor-Chefe: Alexandre Carvalho Diretora de Arte: Juliana Krauss Repórter: Luisa Costa Designer: Cristielle Luise Estagiária: Camila Leite (arte) Colaboradoras: Sofia Kercher (texto) e Bianca Albert (revisão) Clube de Revistas 8 você rh jun / juL 2024 boletiM NOTAS se você não tivesse que esperar o quinto dia útil para receber seu salário – e pudesse pedi-lo a qual- quer momento do mês? Essa é a proposta da fintech Payssego, um negó- cio B2B que adaptou um modelo francês de “salário sob demanda” para o Brasil. Quem aposta nessa novidade é o empre- sário, também francês, Antoine Fougeat e o matemático Leandro Borges, que trabalharam em companhias como De- cathlon e iFood, respectivamente. Segundo pesquisa que a dupla rea- lizou com a Qualibest, com 310 profis- sionais, quatro em cada cinco gosta- riam de ser pagos em diversas vezes ao longo do mês. Para 59% dos entre- vistados, isso ajudaria a lidar com des- pesas inesperadas; 44% acreditam que evitariam o cheque especial; 30%, que teriam mais autonomia financeira. A pesquisa também mostrou que 88% enfrentam dificuldades de grana – o que atrapalha a concentração de 78% durante o expediente. Tais números apoiaram o plano de Antoine, há 12 anos no Brasil, e ele fun- dou a Payssego – nome que junta “pay” (“pagar”, em inglês) e “sossego”, e cuja pronúncia se assemelha a “pêssego”, fruta que aparece no logotipo da fintech. Quando umaempresa contrata o ser- viço, seus funcionários ganham acesso a uma plataforma para gestão das fi- nanças pessoais, na qual podem pedir para receber o valor correspondente aos dias trabalhados até então. Dá para fazer a transação pelo app ou por What- sApp. Um pix deposita o valor na conta do funcionário – que ainda pode marcar uma consultoria financeira com espe- cialistas da Plano. Isso é vantajoso, segundo Fougeat, porque agiliza o processo de pagamento, mas também pela retenção de talentos. “Ninguém mais oferece esse serviço no Brasil. A ferramenta tem o potencial de fidelizar os funcionários.” POR lUiSa coSta 8 você rh jun / juL 2024 E fotoS: GETTY IMAGES SALÁRIO SOB DEMANDA: NOVO BENEFÍCIO NO MERCADO Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 9 Flexibilidade e oportunidades de desenvolvimen- to profissional, como treinamentos, mentoria e cursos de idioma. Esses são os maiores interesses dos estagiários e candidatos a estágio no Brasil, segundo uma pesquisa conduzida pela empresa de recrutamento Companhia de Estágios. 48% dos 6.226 entrevistados indicaram es- ses aspectos em um questionário online, entre fevereiro e março deste ano. É um ponto de atenção, segundo o CEo da Companhia, tiago Mavichian, porque os benefícios que favorecem o desenvolvimento estão somente na oitava po- sição entre os que as empresas mais oferecem aos estagiários. os mais comuns são: vale-transporte (indica- do por 72% dos entrevistados), vale-refeição ou alimentação (58%), assistência médica (48%) e academia (45%). E, por falar em vale-transporte, mais da metade dos estagiários atua em regime totalmente presencial; 37%, no híbrido (modelo desejado pela maioria); e 6% trabalham em casa todos os dias. A amostra da pesquisa é composta majorita- riamente de jovens da Região sudeste (70%), que têm entre 18 e 24 anos (64%). QUAL É O PERFIL DO ESTAGIÁRIO BRASILEIRO? 10 você rh jun / juL 2024 boletiM NOTAS uma pesquisa da consultoria LHH investigou a opinião de 2.282 execu- tivos C-level sobre a situação atual do mundo corporativo – e algumas das principais descobertas estão re- lacionadas ao burnout. 52% dos entrevistados declaram que os líderes seniores de suas em- presas sofrem com a doença ocupa- cional. 77% deles temem a demis- são, e 60% gostariam de ter mais opções de suporte disponíveis, como mentorias e coaching. o maior desafio dos executivos, tanto interna quanto externamente, seria lidar com os avanços tecno- lógicos. Essa também é a principal preocupação dos líderes de RH, se- OS MAIORES DESAFIOS E PREOCUPAÇÕES DOS EXECUTIVOS gundo a pesquisa – mas eles desta- cam as “dificuldades na cadeia de suprimentos” quando o assunto são os desafios externos. A LHH ouviu pessoas de nove paí- ses: Austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha, singapura, suíça, Reino unido e Estados unidos. Por isso, conseguiu analisar como a perspec- tiva dos C-level varia regionalmente. na América do norte, por exemplo, os desafios internos são: gerencia- mento do trabalho flexível (Canadá) e bem-estar dos funcionários (EuA). o maior desafio externo? Preocupações com o meio ambiente e a sustenta- bilidade. o tema preocupa 40% dos executivos por lá, e 28% por aqui. Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 11 nada bem: 82% dos profissionais de recursos huma- nos afirmam que estão sobrecarregados, e 65% deles tiveram algum problema de saúde mental em 2023. É o que indica a pesquisa Recarrega RH, com 924 parti- cipantes, realizada pela Flash. “Eles estão trabalhando mais horas [do que em 2023] e sofrendo mais pressão por resultados no fim do mês, o que indica uma cobrança maior para atingir metas”, afirma danilo Lima, diretor de marca na Flash. “os profissionais estão menos sobrecarregados [hou- ve uma queda de 17 pontos percentuais nesse índice], mas o número de pessoas que viram colegas da área se- rem afastados por burnout aumentou [de 53 para 58%].” Quem atua em empresas de grande porte apresenta maior incidência de quadros como depressão e ansie- dade – e critica suas lideranças com mais frequência. A pesquisa também descobriu que 45% dos entre- vistados se preocupam com o impacto da inteligência artificial (iA) em suas carreiras, seja pela questão éti- ca relacionada ao uso dessas ferramentas, seja pela chance de ficarem obsoletos por não as dominarem. danilo afirma que, para resolver essas angústias, o RH precisaria participar das discussões e decisões sobre o uso da iA – e dispor de tempo para aprender sobre ela. Para isso acontecer, a sobrecarga precisa seguir diminuindo. no último ano, o número de empreendimentos de co- working aumentou em 20% no Brasil, segundo o Cen- so Coworking 2024, pesquisa realizada pela Woba. tal crescimento se deve à economia de até 50% que eles proporcionam às empresas, em comparação ao modelo tradicional de locação. Por isso, 74% dos di- retores ou C-levels acham que os escritórios compar- tilhados são benéficos para suas empresas. A maioria desses empreendimentos é multidis- ciplinar. Mas quem foca em um segmento especí- fico costuma oferecer o espaço a profissionais de ti – disponibilizando mesas compartilhadas com monitor extra. Algumas tendências entre os coworkings são a oferta de espaços dedicados a crianças, salas de amamentação e áreas para eventos corporativos. Ar condicionado, sala de reunião e café gratuito são itens obrigatórios nesses escritórios, segundo os entrevistados. o que destaca um empreendimento no mercado é a oferta de estacionamentos conveniados e de graça; o funcionamento 24 horas e pet-friendly; e a possibilidade de atendimento em outras línguas. COMO VAI A SAÚDE DO RH? UM RAIO X DOS ESCRITÓRIOS COMPARTILHADOS Clube de Revistas FOTO: MIDJOURNEY VOLTA AO ESCRITÓRIO 3 MOTIVADORES PSICOLÓGICOS líderes de rh devem ajudar a organização a oferecer um ambiente de autonomia, capacidade e conexões. assim os colaboradores vão se sentir em casa na empresa. DESIGN CRISTIELLE LUISE 12 você rh jun / juL 2024 boletiM MACRO - Gartner* Clube de Revistas *EMPRESA DE BENCHMARKING GLOBAL DE CAPITAL HUMANO. CONTATO: VITORIO.BRETAS@GARTNER.COM jun / juL 2024 você rh 13 POR QUE NÃO QUEREM vOLTAR além da comodidade que o trabalho remoto oferece, os profissionais não encontram bons motivos para estar na empresa todo dia (ou quase todo dia). dos colaboradores acham que os custos de precisar ir ao escritório superam os benefícios.60% consideram a possibilidade de pedir demissão se voltarem ao modelo presencial.70% sentem que ir à empresa demanda mais esforço do que exigia antes da pandemia.67% dizem que é mais caro ter de se deslocar ao escritório do que trabalhar de casa.73% AUTONOMIA, CAPACIDADE E CONExÕES Fortalecendo a AUTONOMIA e a flexibilidade dos profissionais. Isso é possível fornecendo orientações claras sobre as vantagens do modelo presencial (a união do grupo gera maior criatividade, colaboração e respeito à cultura organizacional), além de dar a eles um maior senso de controle sobre seu comportamento e decisões. Reforçando a CAPACIDADE dos funcionários ao buscar o apoio de especialistas em imóveis corporativos, de modo a criar espaços de tra- balho variados no escritório. Assim, é possível acomodar as diferentes preferências dos indivíduos, bem como tarefas distintas. Facilitando as CONEXÕES entre os colaboradores, ao estabele- cer expectativas claras sobre quando os colegas estarão no escritório e ao melhorar a segu- rança psicológica no ambiente de trabalho. Interações trans- parentes e intencionais apoiam as diferentes necessidades de diversos grupos sociais. Para tornar o escritório um lugar para onde os funcionários queiram ir, a empresa deve lhes proporcionar fatores psicológicos equivalentes aos do modeloremoto. Saiba como. 1 2 3 Clube de Revistas boletiM MACRO - Gartner* 14 você rh jun / juL 2024 como você verá na tabela abaixo, os três principais motivadores psicológicos para a volta ao trabalho presencial, na oferta das empresas, precisam evoluir muito em relação ao que eram antes da pandemia para se constituírem no escritório ideal. os fatores psicológicos que vão atrair os colaboradores para o escritório funcionarão muito melhor se a área de recursos humanos contribuir nos seguintes aspectos: O QUE O RH DEvE ESTIMULAR dar autonomia de trabalho e de vida ÍCONES: GETTY IMAGES ANTES, DURANTE E DEPOIS DO HOME OFFICE ANTES DA PANDEMIA NO MODELO REMOTO NO ESCRITÓRIO IDEAL os horários rígidos do escritório limitavam as escolhas de vida dos trabalhadores. os recursos e os colegas estavam ali do lado, mas o ambiente não estimulava a produtividade para todos. o escritório era a fonte única de conexões. As interações constantes facilitavam relacionamentos passivos. os colaboradores tinham mais controle de quando e onde trabalhar. Alguns colaboradores trabalhavam melhor com seus espaços personalizados e sem as distrações do escritório. os colaboradores precisavam interagir virtualmente, o que para muitos significava conforto e inclusão. Líderes apontam os momentos-chave para estar no escritório, mantendo a autonomia. Espaços variados atendem às diferenças entre os colaboradores e as tarefas que precisam desempenhar. Há expectativas claras sobre a presença na empresa, facilitando que existam conexões com propósitos verdadeiros. autonomia caPacidade conexõeS3 temPoS Funcionários que mudaram para o trabalho remoto desde o início da pandemia experimentaram mais autonomia do que antes, pois poderiam organizar seu dia a dia para atender melhor às suas necessidades pessoais e profissionais. Esses colaboradores podiam trabalhar em vários locais de sua casa, realizar tarefas domésticas, economizar no deslocamento… Por isso, os líderes de RH devem fazer parceria com chefes de departamento para desenvolver políticas que forneçam diretrizes, não requisitos, de modo a preservar essa autonomia. Ela não apenas reduz a fadiga dos trabalhadores em quase duas vezes mas também os torna 2,3 vezes mais propensos a per- manecer na organização. Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 15 criar eSPaçoS diferenteS no eScritório mexer noS horárioS Para eStimular aS conexõeS Muitas empresas acreditam que a colaboração é uma função crítica do escri- tório, por isso enfatizam demais os espaços compartilhados em grupo. Mas o trabalho individual é uma parte igualmente importante. o RH deve fazer parceria com os profissionais que projetam os espaços de modo a criar ambientes com características variadas que atendam a diversos estilos de trabalho, ajudando a melhorar a produtividade dos funcionários. os felizardos que tiveram o espaço adaptado às suas necessidades expandiram seu senso de domínio e o potencial para alcançar resultados desejados. seus ambientes foram configurados para aumentar sua capacidade de foco profundo. Veja a seguir um modelo de espaços diferentes no mesmo escritório, para ampliar a produtividade do colaborador. durante o auge da pandemia, o trabalho remoto forçou as empresas a repen- sar como seus funcionários poderiam se conectar entre si e com a cultura da organização, e estabeleceram fontes de conexão além da interação física no mesmo espaço. Colaboradores que se sentiam desconfortáveis no espaço físico floresceram no espaço virtual. A frequência diária de microagressões diminuiu, e os eventos de conexão tornaram-se mais constantes, pois ocorreram virtual- mente em vários horários, em vez de limitados a um local físico. os líderes de RH devem facilitar a coordenação entre os horários dos de- partamentos e das equipes para permitir a conexão mais profunda entre os funcionários, já que o tempo presencial com os colegas é o principal motivador de atração para o escritório. 67% DOS PROFISSIONAIS DIZEM QUE SÃO MAIS PROPENSOS A REALIZAR O TRABALHO QUANDO CONTROLAM SEU PRÓPRIO AMBIENTE. ESPAÇO DE CRIAÇÃO ESPAÇO DE CONCENTRAÇÃO ESPAÇO DE CONGREGAÇÃO ESPAÇO DE COMUNHÃO ESPAÇO DE CONTEMPLAÇÃO ESPAÇO DE SOCIALIZAÇÃO Local para desenvolver o pensamento criativo e o brainstorming. onde há o trabalho individual, com o rosto focado no computador. Encontros formais e informais. Concluir tarefas individuais, mas junto aos colegas, em um espaço compartilhado. Fazer uma pausa para pensar (processando uma situação estressante, por exemplo, ou uma mudança que haverá no seu trabalho). Confraternizar com os colegas. finalidadeeSPaçoS Clube de Revistas GereNte De oPeraÇÕeS De trUSt & SaFetY O QUE FAZ UM... ProFiSSÕeS Criando políticas e moderando o conteúdo das redes sociais, esse profissional trabalha para que uma plataforma digital seja um ambiente confiável, seguro para os usuários – e para a reputação da empresa. TEXTO LuisA CostA FOTO AdRiEL toRREs, FuEgo EntREtEniMEnto Clube de Revistas U ma das primeiras medidas de Elon Musk, após comprar o twitter por us$ 44 bilhões, foi dissolver seu Conselho de trust and safety: cem defensores dos direitos civis que discutiam a seguran- ça da plataforma. ocorreram, então, renúncias e demissões em massa. Resultado: não demorou para que os usuários do twitter (hoje “X”) rece- bessem toneladas de spam, assédio e desinformação em suas timelines. As pessoas perderam confiança na marca, nos meses seguintes, e os anunciantes bateram em retirada. Veja só: nós só percebemos a impor- tância de trust and safety (“Confiança e segurança”, em português) quando o trabalho não está bem feito. Mas essa é uma área fundamental, responsável por elaborar políticas que regulam o comportamento dos usuários de uma plataforma – e resolver violações dessas políticas. todos os aplicativos que você tem instalados no seu smartphone, por exemplo, só estão funcionando bem (espera-se) e não oferecem risco à sua integridade digital porque uma equipe trabalha todos os dias para isso. na América Latina, gustavo teixeira é o responsável por entender e ge- renciar incidentes que aparecem nos produtos do google Play. Ele ainda lida com as diferenças entre as demandas de cada país – comparando-as com as necessidades de segurança no resto do globo. Assim, só em 2022, o google Play bloqueou ou desativou mais de 300 mi- lhões de contas de usuários de spam e evitou us$ 2 bilhões em transações fraudulentas. Mais recentemente, em maio, adicionou uma etiqueta especial em aplicativos oficiais de governos. tudo isso ajuda a construir e manter a reputação de uma empresa dian- te dos stakeholders. segundo uma pesquisa com donos de smartphones Android na Índia, por exemplo, 91% dos usuários do google Play acredi- tam que ele garantirá a segurança dos aplicativos – uma confiança que influencia na decisão de utilizá-lo em primeiro lugar. carreira nova trust and safety ganha visibilidade conforme as empresas aumentam seus investimentos em medidas de segurança digital. Hoje, o Brasil é o país mais atingido por ataques cibernéticos na América Latina: foram mais de 357 mil no segundo semestre de 2023, segundo relatório da netscout, empresa de soluções de cibersegurança. É também uma área com car- reiras… inusitadas. gustavo, por exemplo, começou na indústria do turismo. Migrou do suporte ao cliente para a área de risco financeiro e, de- pois, para a moderação de conteúdo em plataformas digitais. trust and safety, ele afirma, conta com profissionais multidisciplinares, que tenham domínio sobre suporte ao usuário, análise de dados e riscos, políticas públicas, direito digital e comportamento humano – inclusive diversidade e inclusão, para evitar vieses inconscientes nas políticas das plataformas.“A gente trabalha em uma área cinza”, diz o executivo. “Então é bom ter o máximo de pessoas com back- grounds diferentes para conse- guirmos conversar e chegar a uma conclusão que faça sentido para a maioria das pessoas.” A REAL DO TRABALHO MÉDIA SALARIAL O salário de um especialista em Trust and Safety, no Brasil, é de R$ 3 mil a R$ 8 mil. Fonte: Glassdoor O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA Não há receita de bolo. Mas os profissionais de Trust and Safety geralmente entendem sobre análise de dados, análise de riscos, atendimento ao cliente e direito digital. QUEM CONTRATA Empresas que gerenciam plataformas digitais ou prestam serviços à indústria de tecnologia. jun / juL 2024 você rh 17 ATIVIDADES-CHAVE Criar políticas para evitar inciden- tes relacionados à segurança dos usuários em plataformas digitais e garantir a atualização dessas políticas. Prever e consertar even- tuais problemas de segurança, além de educar desenvolvedores sobre boas práticas. Clube de Revistas MarMitaS caSeiraS... e ServiDaS No eScritório boletiM DESAFIO DO RH raissa mendes, diretora de rh da WeWork. foto: divulgação Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 19 GRAçAS àS QUENTINHAS FORNECIDAS PELA EATS FOR YOU, O GASTO COM ALMOçO NOS ESPAçOS WEWORk CAIU 60%. Um dos motivos pelos quais os funcionários não querem retornar ao presencial é a grana desembolsada no almoço. Pensando em ampliar os benefícios alimentícios, a WeWork contratou os serviços da Eats for You, startup que oferece refeições com gostinho de casa a R$ 18,50. raissa mendes, diretora de RH da empresa de coworking, conta sobre a parceria. o Brasil, quem precisa al- moçar fora de casa paga R$ 46,60 por uma refeição, em média. Considerando o valor dos pratos, o vale- -refeição de um trabalhador dura minguados 12 dias (dos 22 úteis mensais). isso significa que, durante quase metade do mês, o cartão alimentício fica zerado. os dados são da ticket, levantados em 4.500 estabelecimentos de ali- mentação no país. Eles concretizam um medo (muito) válido de qualquer funcionário: ter de tirar dinheiro do pró- prio bolso para almoçar no serviço. um receio que faz sentido nessa época em que muitas empresas estão chamando seus funcionários de volta ao escritório. Claro, existem alternativas para poupar o dinheiro, como levar a própria marmita para o trabalho. Mas não é tão simples assim: toda a organização, o preparo e a logística demandam um comprometimento que nem todo mundo consegue assumir ao longo da semana. E nem todo ambiente corporativo tem uma área bacana para o colaborador comer. Com o retorno ao presencial em al- gum nível voltando a ser realidade em 72% das empresas, nasce uma sinuca de bico: comer fora ou economizar a grana? É para esse desafio que Raissa Men- des, diretora de Recursos Humanos da WeWork, empresa fornecedora de es- paços de coworking, decidiu encontrar uma solução. Raissa explica à Você N RH que a companhia opera com dois modelos: presencial a quem pertence ao core business (pessoas cujas fun- ções são obrigatoriamente cumpridas nos prédios da WeWork) e híbrido, com três dias de home office, para quem cumpre papéis mais administrativos. Pela própria natureza do negócio, que demanda a presença de seus funcionários no escritório ao menos duas vezes por semana, a executiva de recursos humanos decidiu pensar em alternativas que pudessem facilitar a vida dos colaboradores, especifica- mente na pausa do almoço. Foi nesse projeto de ampliar os benefícios ali- mentícios para além do vale-refeição e alimentação que nasceu a parceria com a Eats for You. direto da cozinha alheia A foodtech funciona como um market- place de refeições caseiras. donos e donas de casa preparam as refeições em suas próprias residências ou em cozinhas de pequeno porte. A startup, então, conecta essas marmitas a empresas como a WeWork, que conta com um freezer dedicado apenas às refeições oferecidas pela Eats. “nosso objetivo é levar comida de verdade para o colaborador, trazendo maior comodidade a um preço justo”, explica nelson Andreatta, fundador e CEo da empresa. das 30 unidades da WeWork presentes no Brasil, seis delas receberam o serviço. As marmitas custam, em média, R$ 18,50. Quando olhamos para os dados da ticket, isso significa um cus- to quase 60% menor ao trabalhador. Coisa que não passou despercebida pelos funcionários da empresa nem pelos profissionais que usufruem do coworking: desde que o serviço foi implementado, em setembro de 2023, 5 mil almoços foram vendidos em espaços WeWork. “Quando a gente coloca a Eats den- tro do escritório, a pessoa consegue se alimentar de forma saudável, conforme as restrições e preferências alimentares”, afirma Raissa Mendes. Por essa razão, a parceria acabou me- lhorando a relação dos funcionários com o modelo presencial. Ainda segundo ela, o serviço amplia as oportunidades não só dentro do es- critório mas para a vida pessoal de cada funcionário. “Com esses valores acessíveis, o colaborador ainda pode economizar o dinheiro do vale-refeição para sair de final de semana.” TEXTO soFiA KERCHER Clube de Revistas 20 você rh jun / juL 2024 Para Marcar PreSeNÇa No MercaDo Com uma trajetória na Korn Ferry que começou ainda no século passado, rodrigo araujo chega à posição de líder máximo da empresa de consultoria no Brasil. E tem a ambição de causar impactos não apenas para seus clientes, mas para os ecossistemas em que eles atuam. TEXTO ALEXAndRE CARVALHo FOTOS CELso doni esde dezembro do ano passado, a Korn Ferry Brasil tem um novo CEO. Mas ele mesmo não é novo nessa consultoria que atua, principalmente – mas não só –, em estratégia organizacional, recrutamento e desenvolvimento executivo. Rodrigo Araujo tem um caminho de 28 anos na empresa, com experiência em diversas posições de gestão. Trajetória que o ajudou a desenvolver as habilidades e abordagens que o levaram à atual cadeira. Antes, liderou as operações da Korn Ferry na Argentina a partir de 2016, e, em outubro de 2019, retornou ao Brasil para gerenciar a operação de recrutamento executivo no país, além de assumir um papel de liderança no marketing e na comunicação institucional para a América do Sul. D boletiM OLHAR DO PRESIDENTE Após ver e participar da evolução da consultoria – de um negócio de um único serviço para uma empresa de múltiplas soluções –, Rodrigo agora quer impulsionar a Korn Ferry para influenciar e marcar presença nos mercados em que atua. Essa é uma estratégia, segundo ele, para que a empresa tenha sua visibilidade cada vez mais notada, já que seu trabalho provoca transformações essenciais, mas muitas vezes sutis, nas grandes companhias. Um desafio e tanto. Mas que conta com a experiência de quem conhece intimamente os degraus para chegar aos resultados e ao aumento de performance. Aprendizado que o executivo acumulou ao longo de três décadas na mesma consultoria – e que ele revela aqui, nesta entrevista. Clube de Revistas rodrigo entende que, para uma consultoria como a Korn ferry, é essencial que o cliente perceba as transformações obtidas com muita clareza. “o nosso papel vai além da conclusão dos trabalhos. inclui fazer com que vejam a nossa atuação tendo impacto.” jun / juL 2024 você rh 21 Clube de Revistas 22 você rh jun / juL 2024 você já tem uma trajetória de muitos anos dentro da Korn ferry. como foi essa estrada até o topo? tem sido uma jornada extremamente recompensadora. Primeiro porque, nesta consultoria, encontrei aderência com o que eu realmente me identifico. E também um ambiente que me permite desenvolver capacidades. naturalmente, no início eu estava mais focado em tarefas, projetos e clientes. À medida que vocêvai incorporando novas responsabilidades, acaba impactando mais as pessoas e a organização. todo esse período me deu a oportunidade de acompanhar de perto a evolução da própria Korn Ferry. não estou há tanto tempo aqui à toa. Conforme a organização se transformou, foi dando espaços novos para que nós pudéssemos nos desenvolver. como viu essa transformação da empresa? Quando eu entrei, a consultoria era basicamente monoproduto, só fazia procura de executivos. Fazia muito bem, obrigado, mas não tinha essa amplitude de soluções, mercados, geografias e contas tão bem definidas como acontece hoje. nessas três décadas, vivi muitas facetas da empresa, assim como me transformei. E acho que o mais importante para mantermos essa identificação, eu e a Korn Ferry, são as pessoas daqui. E nem estou falando só do time Brasil, mas do global também. Consultoria tem muito disso. Você acaba ampliando a sua rede interna e aprende demais no processo. Qual foi sua impressão sobre a Korn ferry quando chegou? Estamos falando de março de 1996, uma época em que havia empresas gigantes de consultoria, os programas de trainees das multinacionais, e te confesso que a nossa não tinha essa sofisticação toda. Mas, justamente um ano antes da minha chegada, um grupo de colegas que estava aqui viu essa oportunidade de crescimento. num tempo em que você não encontrava nada no campo acadêmico a respeito de recrutamento, a Korn Ferry assumiu uma vocação de escola para a formação de profissionais da nossa indústria. Eu vivi esse embrião, sou fruto da segunda turma de trainees. E esse novo direcionamento representou um avanço muito grande para a empresa, tanto financeiramente quanto de relevância no mercado. o que você destaca daquele seu começo? Aqui conheci mais o processo e entendi, profundamente, que seleção é diferente de recrutamento. Aprendi, colocando a mão na massa, como desenvolver essa capacidade de selecionar e extrair os melhores profissionais do mercado. já no ano seguinte à minha chegada, a empresa deu o passo seguinte, que foi atuar também fora do contexto de recrutamento executivo, passando para soluções de desenvolvimento de lideranças e voltadas para o eixo da organização como um todo. hoje a Korn ferry é uma consultoria de atuação múltipla. Quando lhe perguntam o que sua empresa faz, qual é a resposta? no passado, essa resposta seria diferente. Mas agora, por todas as soluções que conseguimos pavimentar, e o impacto que elas têm nos nossos clientes, costumo dizer que nós, de fato, atuamos para transformar as organizações que nos procuram e a vida de quem trabalha nelas. Quais as principais razões para que as empresas busquem os serviços da Korn ferry? Quando nossos clientes nos acionam, claramente estão ESTAMOS MUITO ASSOCIADOS A COMPANHIAS GIGANTES, QUE DETERMINAM TENDÊNCIAS. E ISSO FAz COM QUE ENTREGUEMOS ALGO QUE É MENOS TANGívEL PARA O MERCADO. boletiM OLHAR DO PRESIDENTE Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 23 enfrentando desafios na sua agenda de crescimento ou para realizar as transformações necessárias. Ajudamos de diversas maneiras, seja para que atinjam um determinado resultado, seja para ampliar as suas operações ou aprimorar sua performance. Para uma consultoria como a nossa, é fundamental que o cliente perceba essas mudanças com clareza. Então temos a consciência de que o nosso papel vai além da conclusão de um estudo sobre remuneração executiva, de um trabalho de coaching de líderes emergentes ou até mesmo da entrega de uma pesquisa de engajamento. É compreender e fazer com que vejam a nossa atuação tendo impacto nessas empresas. e qual será o próximo passo da consultoria? será interferir no ambiente onde estamos inseridos. Passa por aqui grande parte do PiB nacional. Estamos muito associados a companhias gigantes, que determinam tendências nos seus segmentos. E isso faz com que entreguemos algo que é menos tangível para o mercado, por mais que a gente dê sustentabilidade para que nossos clientes tenham sucesso em suas questões. Então eu vejo como próximo passo, além de transformar as organizações que atendemos, fazer com que o contexto no qual elas estão inseridas também seja impactado e transformado pelas nossas ações. você ocupou diversos cargos de gestão anteriormente. o que trouxe de aprendizado para a posição de ceo? Acho que cada experiência como gestor foi ajudando a sedimentar um tijolinho dessa construção que é quem eu sou hoje. Fazendo uma retrospectiva, eu destacaria uma curiosidade, coragem até, para ocupar espaços que não eram óbvios para outras pessoas. E isso tem a ver com o fato que já comentei, de a Korn Ferry dar estímulo para que você possa ousar. outro aprendizado importante foi o de lidar com percalços e suas frustrações. Algo que me ajudou a consolidar a musculatura necessária para o cargo de CEo. AQUI CONHECI MAIS O PROCESSO E ENTENDI QUE SELEçÃO É DIFERENTE DE RECRUTAMENTO. Clube de Revistas 24 você rh jun / juL 2024 FUTURO DO TRABALHO Projeto-piloto reunindo empresas brasileiras tem seus primeiros resultados. Saiba quais foram os impactos no trabalho – e no bem-estar das pessoas. E quais os caminhos para render mais diminuindo o tempo no batente. TEXTO ALEXANDRE CARVALHO DESIGN JULIANA KRAUSS FOTOS STUDIO OZ E CELSO DONI 4Semana diasde Clube de Revistas jun / juL 2024 você rh 25 Clube de Revistas Q 26 você rh jun / juL 2024 FUTURO DO TRABALHO Que tal trabalhar só três horas por dia? É o que deveríamos estar fazendo. Pelo menos, essa é a opinião de um dos economistas mais influentes de todos os tempos, o britâ- nico John Maynard Keynes (1883–1946), um dos pais da macroeconomia moderna. Em 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado “Possibilidades Econômicas para os Nossos Ne- tos”. Foi quando disse que, com a evolução das tecnologias, as pessoas do futuro (nós, a pro- pósito) precisariam de menos tempo de batente para manter a mesma produtividade de antes. Algo não muito diferente do que muitos especialistas apontam hoje, principalmente com a che- gada da Inteligência Artificial. Mas, na hora de indicar quanto cada indivíduo trabalharia, ele foi radical: 15 horas por semana. Basicamente divididas entre se- gunda e terça-feira. Ao término da tarde do segundo dia, pode- ríamos postar um “Terçou!” no Instagram e começar um longo fim de semana de cinco dias. Para o americano Richard Freeman, professor de Econo- mia em Harvard, a previsão de oS reSUltaDoS No braSil Estes são os principais insights dos três meses de projeto-piloto da 4 Day Week Brazil, com empresas que toparam testar a semana de quatro dias. Confira o que foi mais empolgante – entre os relatos. iMPacto No trabalho iMPacto No beM-eStar iMPacto Na SaúDe iMPacto No Social jun / juL 2024 você rh 27FOTO: CELSO DONI renata rivetti, diretora da reconnect: “talvez eu não precise mais mensurar se o profissional está das 8 da manhã às 6 da tarde na frente do computador”. viram melhora na execução de projetos. acharam que houve mais criatividade e inovação. enxergaram maior capacidade de cumprir prazos. apontaram para uma melhora na capacidade de angariar clientes. sentiram mais energia ao realizar tarefas. sentiram redução da ansiedade ao longo da semana. relataram redução do desgaste no fim do dia. sentiram redução do estresse no trabalho. observaram redução do cansaço frequente associado ao trabalho. tiveram redução da insônia. fizeram atividade física três vezes por semana. a mais de pessoas passaram a dormir acima de 8 horas. viram mais colaboração. sentiram mais energia para o envolvimento com família e amigos. conciliarammelhor a vida profissional com a pessoal. viram melhora na relação com seu gestor. 61,5% 58,5% 44,4% 33,3% 82,4% 67% 64,9% 62,7% 64,5% 50% 46,3% 27,1% 85,4% 78,1% 57,9% 44% Keynes subestimava o desejo humano de competir. Faz sen- tido. Se meu concorrente traba- lha só dois dias, quanto eu não produzirei a mais, e lucrarei a mais, trabalhando cinco? Mas Freeman também pode ter su- bestimado outro tipo de pensa- mento, cada vez mais presente entre os profissionais, princi- palmente os mais jovens: o de que a qualidade de vida preci- sa estar acima dessa ânsia por competir. Ou outro: o de que talvez estejamos mais criativos e produtivos justamente com um maior equilíbrio entre a vida pessoal e a de crachá. Os que riem da teoria keyne- siana talvez também rissem, no início do século 19, quando um viajante do tempo reve- lasse que, num país de tantos atrasos como o Brasil, tería- mos uma legislação trabalhista que determinaria um limite de 44 horas semanais de labuta. Naquela época de Revolução Industrial, homens, mulheres e até crianças enfrentavam jornadas de 80 a 100 horas nas fábricas. Vida pessoal? Só no domingo para os cristãos, e no sábado para os judeus, quando podiam descansar em respeito às doutrinas de suas religiões. Essa condição de escravos assalariados mudou, ironica- mente, por iniciativa de um industrial: Henry Ford (1863– 1947). O inventor da linha de montagem para a fabricação em massa de automóveis en- tendeu que, com mais tempo li- vre, as pessoas gastariam mais com lazer, e esse dinheiro iria também para a compra de seus carros. Por isso, foi o primeiro grande empresário a apoiar os movimentos que já existiam, pedindo a semana de cinco dias. Sua influência era grande na indústria, e logo as pessoas deixariam de trabalhar aos sá- bados nos Estados Unidos. Já deu para ver que as inicia- tivas em prol de uma semana de quatro dias (quatro… calma lá, Keynes) têm precedentes históricos de diminuição da jornada de trabalho. E, se elas emplacarem mesmo, vamos lembrar, daqui a muitos anos, de outro visionário: o neoze- landês Andrew Barnes. O pai da semana reduzida Foi em 2018 que a adminis- tradora de bens e testamen- tos Perpetual Guardian, de Auckland, na Nova Zelândia, veio com a novidade: seus fun- cionários passariam a trabalhar só quatro dias por semana, sem corte salarial. Seu fundador, justamente Andrew Barnes, estabeleceu a regra 100:80:100: pagamento de 100% do salário para funcionários trabalhando 80% no tempo, desde que com 100% de produtividade. rodrigo villaboim, da .be comunica: “a oferta do modelo de quatro dias foi um diferencial para atrair e reter talentos”. 28 você rh jun / juL 2024 FUTURO DO TRABALHO o ecoNoMiSta JohN MaYNarD KeYNeS PreviU, eM 1930, qUe aS PeSSoaS De hoJe Só trabalhariaM DoiS DiaS Por SeMaNa. PioNeiro Do MoDelo De qUatro DiaS, o NeozelaNDêS aNDrew barNeS teve 20% a MaiS De ProDUtiviDaDe Na SUa eMPreSa. FOTO: CELSO DONI jun / juL 2024 você rh 29 Dois anos depois, em artigo exclusivo para a Veja, Bar- nes explicou como foi a ex- periência com sua empresa: “Os resultados sempre foram excepcionais. Naquela épo- ca, eu já estava convencido de que o modelo de oito ho- ras de trabalho por dia, cin- co dias por semana, não era mais adequado à finalidade da Quarta Revolução Industrial, a era da hiperconectividade digital, em que as pessoas nunca estão realmente ‘fora do expediente’”. Após sua empresa passar cinco meses nesse modelo de trabalho, Andrew Barnes ce- lebrou os resultados da expe- riência (que manteve defini- tivamente): 20% de aumento na produtividade, redução dos níveis de estresse da equipe e aumento do engajamento dos clientes em mais de 30%. Os resultados chamaram atenção de diversas empresas mundo afora, e foi a faísca para a criação, em 2019, da 4 Day Week Global, organização liderada por Barnes e a CEO 30 você rh jun / juL 2024 Cha rlot te Lock ha r t , que realiza estudos e pesquisas a respeito da semana de quatro dias, e incentiva empresas a testar o modelo. Seu maior momento até agora foi com a divulgação de um estudo que aconteceu entre junho e dezembro de 2022, no Reino Unido. O estudo britânico Ao longo desse período, 2.900 profissionais de 61 empresas trabalharam 80% de suas ho- ras, sem redução do salário, com o objetivo de manter 100% de suas entregas. Os resulta- dos foram impressionantes. O relatório da 4 Day Week apon- tou um aumento de produtivi- dade de 55%, e 43% dos cola- boradores relataram melhora na saúde mental. Só essas duas conclusões bastariam para que as em- presas estabelecessem o modelo de forma definitiva, certo? Quem participou do experimento concorda. 90% dos entrevistados disseram que gostariam de permanecer com a semana de quatro dias, e 15% disseram que não tem volta: não retornariam aos cin- co dias semanais nem por um salário maior. Não é coincidên- cia, então, que o turnover nas empresas participantes tenha caído 57%. O sucesso foi tamanho que a 4 Day Week começou, rapidamen- te, a fazer novos experimentos em países como EUA, Cana- dá, Austrália e Nova Zelândia. Opa, e também no Brasil, onde o braço nacional da organiza- ção, em parceria com a FGV e o Boston College, deu início a um projeto-piloto com 21 empresas, e já tem os primeiros resultados para divulgar. A experiência contou com uma fase de planejamento e reorganização da prática de trabalho. O processo envol- veu três meses de workshops, sessões de facilitação, mento- ria e apoio de Renata Rivetti, diretora da Reconnect Happi- ness at Work & Human Sus- tainability, e responsável pela iniciativa aqui. Para a diretora da Reconnect, a mudança na forma de avaliar o trabalho das pessoas é impor- tante para que a mentalidade das lideranças também mude, abrindo espaço para menores jornadas de trabalho. “Talvez eu não precise mais mensurar se o profissional está das 8 da manhã às 6 da tarde na frente do computador, e sim começar a olhar o que ele entregou, se bateu com as expectativas do líder dessa pessoa.” Por isso, a fase de prepara- ção e reorganização da prática de trabalho foi tão importante. Não dá para transformar o mo- delo de jornada do colaborador FOTO: STUDIO OZ eStUDo britâNico, De 2022: 43% DoS colaboraDoreS relataraM Melhora Na SUa SaúDe MeNtal. 30 VOCÊ RH jun / juL 2024 FUTURO DO TRABALHO jun / juL 2024 você rh 31 Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness at Work, aponta os caminhos para que a produtividade se mantenha, ou até aumente, em menos horas de batente. Para reNDer MaiS – eM Só qUatro DiaS jun / juL 2024 você rh 31 1. Incentivar os colaboradores a incluir na agenda um momento de hiperfoco, em que a concentração do profissional está toda em determinada tarefa. 2. Excluir reuniões desnecessárias. 3. Contar com tecnologias que fazem a transcrição das reuniões realmente necessárias, aposentando as atas, que alguém sempre precisava entregar. 4. Melhorar a comunicação corporativa. Para que todos saibam quais as metas e necessidades de cada tempo. 32 você rh jun / juL 202432 VOCÊ RH jun / juL 2024 FUTURO DO TRABALHO se todos continuam trabalhan- do da mesma forma. A boa notícia é que, no Brasil, esse planejamento e orientação de- ram certo. Pelo menos é o que fica claro diante dos primeiros resultados do estudo, divulga- dos em abril (haverá uma nova observação do comportamento das empresas em julho). Va- mos a eles. Os resultados brasileiros Entre as principais conclusões do relatório, vale destacar que 62,7% dos indivíduos tiveram redução de estresse no tra- balho e 64,9% não se sentem mais desgastados no fim do dia. Além disso, 56,5% não estão frustrados como antiga- mente, e quase 30% dos parti- cipantes não mudariam de em- prego para voltar a trabalhar cinco dias por salário nenhum. Além disso, o estudomos- trou o aumento de 78,1% na disposição dos colaboradores para o tempo de lazer ou estar com a família e amigos, a redu- ção de 49,3% no desgaste emo- cional e a diminuição de 64,5% nos sintomas de exaustão. “Essa informação de que a pessoa não voltaria a trabalhar cinco dias por semana, mesmo diante de um aumento de salá- rio, mostra como a adoção do modelo de quatro dias também é um fator de atração e retenção de talentos”, diz Renata Rivetti. Empresas que se deram bem com o modelo Essa também foi a impressão que teve Fabrício Oliveira, CEO da Vockan, uma empresa jun / juL 2024 você rh 33 michele Salles, da ambev: “reconhecemos que havia uma longa caminhada pela frente quanto à temática racial”. de software de gestão de pes- soas, que conta com 111 cola- boradores. “Uma empresa que proporciona mais saúde men- tal para seus colaboradores se torna muito atraente”, diz o executivo. Fabrício afirma que a em- presa adotou o modelo de quatro dias antes mesmo do projeto da 4 Day Week come- çar no Brasil. E que fez sua preparação própria para que o modelo desse certo. “Moni- toramos o que o colaborador fazia no mês e no dia a dia dele. E aí constatamos que existia uma perda gigantesca de tempo, em torno de duas a três horas diárias, com reuni- ões desnecessárias e com falta de foco, muita dispersão usan- do WhatsApp, redes sociais… Então, hoje, na Vockan, o limi- te de tempo para as reuniões é de 30 minutos. E fizemos uma reeducação dos colaboradores quanto à gestão do tempo. O resultado é que tivemos au- mento na produtividade, no engajamento e na felicidade das pessoas. O último rela- tório que eu recebi aponta que 60% dos colaboradores se dizem muito felizes aqui, e 40%, felizes.” Pequenos negócios, muita gente sorrindo Mas será que essa felicidade se estenderia a negócios pe- quenos, nos quais a falta de um único colaborador pode representar um transtorno para a empresa? Segundo Ra- fael Grimaldi, felicidade no tra- balho independe do tamanho da organização. Ele é cofundador da Inspi- ra, empresa de tecnologia que atua para o setor jurídico, e tem apenas 20 colaboradores. Gente que está sorrindo de orelha a orelha com a novi- dade dos quatro dias. “A gen- te já consegue perceber uma melhora muito significativa no humor e na sensação de bem-estar das pessoas”, diz o executivo. “Estamos receben- do feedbacks de colaboradores dizendo que agora têm mais tempo para viver. Essa frase é muito forte.” Quanto aos desafios pelo fato de a empresa ser um ne- gócio enxuto, Rafael diz que fez uma escala de reveza- mento de dias da semana. Há quem tire a folga na sexta, há quem tire na segunda. Assim, principalmente na área de suporte, o cliente nunca fica sem resposta. Outra empresa que não es- perou a 4 Day Week implantar o projeto no Brasil para testar o modelo de quatro dias é a agência de marketing e even- FOTO: CELSO DONI eStUDo braSileiro: qUaSe 30% Não MUDariaM De eMPreGo Para voltar a trabalhar ciNco DiaS Por SalÁrio NeNhUM. jun / juL 2024 você rh 33 rafael grimaldi, da inspira: “estamos recebendo feedbacks de colaboradores dizendo que agora têm mais tempo para viver. essa frase é muito forte”. 34 VOCÊ RH jun / juL 2024 tos .be comunica. “Estávamos passando por um momento de muita rotatividade entre as agências, e a oferta do modelo de quatro dias foi um diferen- cial para atrair e reter talen- tos”, diz Rodrigo Villaboim, sócio-fundador. Segundo ele, a agência vem tendo ótimos resultados com o modelo, mas nem todos da equipe já estão amadurecidos suficientemente para se adap- tarem aos prazos de entrega menores. “A maioria já conse- guiu concentrar a produção em quatro dias, e fez isso cor- tando a conversa no café, di- minuindo a ociosidade… Mas, como em toda grande mudan- ça, estamos num aprendizado constante, evoluindo gradual- mente nessa maturidade.” Cla ro, a t ra nsfor mação nunca é simples. Para algu- mas empresas, chegar lá é tão fácil quanto cancelar al- gumas reuniões e fazer me- lhor uso da tecnologia para l iberar tempo. Para outras, há necessidade de reformular fluxos de trabalho e sistemas de agendamento. Mas tanto a experiência bra- sileira quanto a do Reino Uni- do estão mostrando que, sim, é possível conjugar produti- vidade com melhora do bem- -estar das pessoas, dando a elas o que é mais importante: tempo para aproveitar a vida. Que o trabalho seja, como é de fato, parte preciosa na nossa experiência na Terra. Só não pode ser o que nos adoece e exclui tudo o que está fora do escritório. fabrício olivei- ra, da vockan: “uma empresa que proporciona mais saúde mental para seus colabora- dores se torna muito atraente”. FUTURO DO TRABALHO FOTO: DIVULGAÇÃO no desafios e soluções AUTISTAS TRABALHO: DIVERSIDADE 36 você rh jun / juL 2024 Estima-se que 85% das pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) estejam desempregadas no Brasil. Elas enfrentam o capacitismo, mas também a falta de suporte das empresas. Entenda quais são as principais dificuldades desses profissionais – e saiba como construir um ambiente corporativo mais amigável para eles. TEXTO LuisA CostA DESIGN E COLAGENS CAMiLA LEitE jun / juL 2024 você rh 37 DIVERSIDADE então, fundou a empresa aTip, dedi- cada a incluir esses profissionais no mercado de trabalho. Acontece que, após estabelecer certa proximidade com a comunida- de autista, Caio começou a ligar os pontos. Percebeu que suas dificulda- des para se relacionar com as pessoas e se integrar ao escritório eram típi- cas de indivíduos que se enquadram no TEA: o Transtorno do Espectro Autista. Ele sente, por exemplo, que tem muito menos disposição para socializar em comparação às pesso- as neurotípicas: que se enquadram no padrão dominante (e esperado) de neurofuncionamento. Ele tam- bém tem alguma dificuldade para compreender a linguagem corporal de alguém – outra característica co- mum entre os autistas. Assim veio o diagnóstico. Caio não enfrentou grandes pro- blemas, ao longo de sua vida, para conseguir um emprego. Mas, in- felizmente, ele é uma exceção. O IBGE estima que 85% dos autistas estejam desempregados no Brasil, embora eles sejam beneficiados pela Lei de Cotas, que determina uma participação mínima para pessoas com deficiência nas em- presas. (Desde 2012, pessoas au- tistas são consideradas, legalmen- te, portadoras de deficiência.) Algumas razões para o desem- prego generalizado são a ausência de suporte para esses profissio- nais e o preconceito, alimentado pela falta de conhecimento sobre o TEA. Mas há iniciativas, como a do Caio, tentando virar o jogo. Vamos lhe apresentar, leitor, as estraté- gias principais para tornar o escri- tório mais amigável para autistas. Mas, antes, você precisa entender por que se trata de um espectro. Desde pequeno, Caio Bogos ouve que é curto e grosso. Não coloca panos quentes em nada. É objeti- vo demais e flexível de menos. Ele escutou essas críticas na escola, e no mercado de trabalho não foi diferente. “Minhas avaliações de desempenho eram sempre iguais: resultados em nível técnico muito bons, comportamento insatisfa- tório.” Seria Caio um causador de intrigas, organizador de motins? Nada disso. O que ele sempre escu- tou de seus gestores foi: “Você tem de melhorar sua comunicação” ou “interagir mais com as pessoas”. Ir a um happy hour, quem sabe… Esse tipo de reclamação se tor- naria um empecilho para a carrei- ra de Caio, que não conhecia outras pessoas com dificuldades seme- lhantes. Ele se achava o problema – e se culpava por isso. Foi assim até pouco tempo atrás. Em 2020, ele criou uma platafor- ma digital para acompanhar o de- senvolvimento de crianças autistas. Era seu projeto de conclusão de cur- so (Tecnologia da Informação), que, na época, ficou entre as 30 melhores ideiasde negócio na sua faculdade (Fiap, em São Paulo). Um ano de- pois, ele decidiu trabalhar com adul- tos autistas, reformulou o projeto e, o básico sobre o tea Em duas décadas, o número de ca- sos de pessoas autistas aumentou bruscamente. Nos anos 2000, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, agência governa- mental dos Estados Unidos) consi- derava que havia um autista para cada 150 cidadãos. Hoje, um para cada 36. Especialistas afirmam que esse aumento aconteceu por uma me- lhora no diagnóstico: conforme disseminamos informações sobre o autismo, fica mais fácil detectar si- nais dele, nos outros ou em si mes- mo. Isso está relacionado, claro, ao fenômeno do diagnóstico tardio: cada vez mais adultos descobrem que têm a condição. E quais são, então, os indícios? Pessoas autistas apresentam as se- 38 você rh jun / juL 2024 As características gerais da condição variam. E muito, seja na forma ou intensidade com que se manifestam. Veja só: o autismo é resultado da interação entre fa- tores genéticos e ambientais. Mas a hereditariedade tem um peso maior: o DNA seria responsável por 70% a 90% do risco de autis- mo. E a condição não está rela- cionada a variações em um gene, como acontece em algumas sín- dromes e doenças, mas em, pelo menos, 180 genes. Isso explicaria a diversidade: há pessoas em três níveis de autismo, que precisam do suporte de uma rede de apoio em grau menor ou maior. Por isso, a edição de 2013 do Manual Diagnóstico e Estatís- tico de Transtornos Mentais, um guia publicado pela Associação Americana de Psiquiatria e reco- nhecido mundialmente, conside- rou que o autismo é um “espectro” – como um arco-íris, que essen- cialmente é uma coisa só (luz), mas também é uma gradação: for- mas diferentes (as cores, do ver- melho ao roxo) da mesma coisa. Daí vem a máxima de que “cada autista é um autista”, com uma combinação única de caracte- rísticas e necessidades. Há, por guintes características gerais: 1. di- ficuldade de comunicação, seja para começar e manter uma conversa ou para interpretar falas, gestos e ex- pressões faciais; 2. problemas para socializar, por preferirem ficar sozi- nhas, por exemplo, ou se irritarem com ocasiões sociais; e 3. padrões fixos de comportamento, como movimentos repetitivos e interes- se específico por certos assuntos ou atividades. Pessoas autistas têm essas pe- culiaridades por causa de um de- senvolvimento atípico do cérebro, com alterações que se concentram no córtex cerebral (responsável pe- las emoções, linguagem e percep- ção), mas também em áreas como o cerebelo (responsável por nossas atividades motoras). Desde 2012, pessoas autistas são legalmente consideradas PCDs, que devem ser contempladas pela Lei de Cotas. o girassol é um símbolo usado no mundo todo para identificar pessoas com deficiências ocultas, ou seja, que não podem ser percebidas à primeira vista – como o tea. o estatuto da Pessoa com deficiência reconhece esse símbolo desde julho de 2023. jun / juL 2024 você rh 39 SAÚDE MENTAL exemplo, pessoas com maior rigi- dez cognitiva, que não suportam mudanças inesperadas na rotina. Há quem tenha aversão a deter- minados sons, por conta da sen- sibilidade aguçada que o autismo proporciona. Também há gente como Caio, que hoje entende ra- zoavelmente bem o que se espera dela em algumas situações sociais – mas fica sobrecarregada com in- terações muito longas. dificuldades no trabalho Tudo isso pode transformar o es- critório em um pesadelo. Pedro Lopez, por exemplo, é autista nível 1 de suporte. Hoje, ele tem sua pró- pria empresa, onde tem liberdade para adotar políticas amigáveis para neurodivergentes. Mas afirma que já sofreu muito em empresas mais tradicionais pela dificuldade de entender conversas em grupo e pelo “cansaço absurdo” que in- terações sociais podem lhe causar. “Eu não durava em emprego ne- nhum. E, se eu durasse um pouco mais de três, quatro ou seis meses, ficava doente.” Isso é comum: as dificuldades que os autistas e outros neuro- divergentes enfrentam para se adequarem frequentemente cola- boram para o desenvolvimento de quadros como ansiedade ou de- pressão. E esses transtornos men- tais são mesmo mais comuns entre eles. Estima-se que o índice de de- pressão em autistas, por exemplo, varia de 10% a 50%. Entre neurotí- picos, o índice é de 7%. E, quando falamos sobre o autis- ta se adaptar ao ambiente, muitas vezes isso significa despender um esforço para mascarar a condição e não sofrer com o preconceito. É DIVERSIDADE Ofereça informação so- bre a neurodiversidade para que todos acolham profissionais autistas – sem pressioná-los a comparecer no happy hour ;) Crie uma rotina bem-estruturada. Evite passar muitas tarefas ao mesmo tempo, sem prioridades e prazos bem-definidos, ao funcionário autista. Guia básico para inclusão estamos falando sobre gestão de pessoas: não há manual de instruções. mas reunimos algumas medidas gerais que são importantes para atrair e reter talentos neuroatípicos. lembre-se: cada caso é um caso. o ideal é contar com a ajuda de especialistas, como os citados nesta matéria. 3 6 40 você rh jun / juL 2024 Converse com o profissional para entender as necessidades específicas dele – e esteja disposto a descobri-las com ele, ao longo do tempo. Acompanhe a adaptação do colaborador, principalmente nos primeiros meses após a contratação. Uma boa ideia é escolher uma pessoa para se concentrar nisso. Evite testes comportamentais com perguntas sobre situações hipotéticas e respostas que envolvem gradação (“pouco provável”, “neutro”, “muito provável”). Adapte as avaliações de desempenho. Elas podem prejudicar autistas, porque costumam valorizar habilidades comportamentais, em detrimento dos resultados técnicos. 2 8 5 4 Respeite a sensibilidade. Oferecer salas de descompressão, normalizar o uso de abafadores de ouvido e liberar dias de home office são algumas opções para isso. 7 No processo seletivo, faça descrições claras de vagas e entrevistas com perguntas objetivas. Os recrutadores devem entender sobre neurodi- versidade. 1 jun / juL 2024 você rh 41 fissionais) da Universidade do Es- tado da Geórgia, em 1978, cunha- ram o termo “fenômeno do impos- tor”. Trata-se dessa incerteza que uma pessoa tem sobre seus talentos e habilidades, a dificuldade de in- ternalizar um sucesso, e uma dúvi- da sobre a própria competência. Um sentimento de inferioridade que se mantém, não importa quantos elo- gios o profissional receba, quanto conhecimento acumule e quantas conquistas alcance. “É importante destacar que to- dos nós temos momentos em que não nos sentimos confiantes. Isso não significa que tenhamos a sín- drome do impostor.” Quem explica a diferença é Luciana Lima, neuro- psicóloga e professora do Insper, que afirma conhecer excelentes profissionais que compartilham desse sentimento. “Quem tem a sín- drome se sente dessa forma quase o tempo todo. Trata-se de um sofri- mento que faz parte do dia a dia.” não é uma doença Luciana diz “síndrome” – e nós também, no título e no decorrer desta matéria – porque esse se tornou o nome popular do proble- ma. Mas a sensação crônica de ser uma fraude no trabalho ou no meio acadêmico não é uma síndrome. Ela não consta na Classificação In- ternacional de Doenças (CID) da OMS, por exemplo, ou no Manual Diagnóstico e Estatístico de Trans- tornos Mentais (DSM). O nome que aparece em estudos científicos so- bre o tema é mesmo “fenômeno do impostor”, porque o problema não é um distúrbio mental. Ele também não é apenas um pro- blema individual, sem relação com o contexto de vida do indivíduo. SAÚDE MENTAL o caso de Thales Farias, que des- cobriu o TEA já adulto. “Euhesitei por muito tempo quanto a falar ou não falar sobre o autismo, simples- mente por medo de rejeição e capa- citismo”, ele afirma. No caso de Thales, um dos grandes desafios é a sensibilida- de à luz e ao barulho, que volta e meia obriga que ele saia de um ambiente e se isole. “Antes de compreender completamente mi- nhas limitações, crises sensoriais interrompiam meu expediente, deixando-me acuado e incapaz de funcionar plenamente.” Outra profissional autista, Gabrielle Ramos, viralizou no LinkedIn com um vídeo de uma dessas crises, causada pelo ex- cesso de barulho e interações no escritório. Era uma crise do tipo meltdown, em que o autista per- de o controle sobre seus impulsos e emoções, podendo gritar, chorar ou até se tornar agressivo por con- ta da sobrecarga sensorial. (Exis- tem também as crises shutdown, mais silenciosas e discretas, em que o autista parece se desligar ou se dissociar do ambiente.) Na legenda do vídeo, comparti- lhado em 2021, Gabrielle conta que seu chefe a tranquilizou durante a crise, permanecendo ao seu lado e dizendo que ela poderia “voltar” em seu próprio tempo. Em seguida, substituiu a profissional na reu- nião em que ela iria comparecer pouco depois. Ter uma atitude acolhedora como essa é fundamental para tor- nar um escritório mais amigável para profissionais que se enqua- dram no TEA. Não há receita de bolo, um manual para o ambiente perfeito, justamente por essa ser DIVERSIDADE 42 você rh jun / juL 2024 Agradecimentos: Andressa Destido dos Santos, coordenadora de inclusão profissional na Specialisterne Brasil; Fabiana Montes, gerente de recrutamento da EY; Guilherme Leite, ana- lista de Data, Digital, & Technology da Takeda; Jéssica Borges, consultora na Talento Incluir; uma condição muito heterogênea. Mas existe uma série de boas práti- cas defendidas por especialistas no assunto – e aplicadas por empre- sas e consultorias especializadas. Vamos a elas. boas práticas no escritório Uma pesquisa da consultoria Maya em parceria com a Universidade Corporativa Korú, com 12 mil en- trevistados, mostrou que 86,4% dos profissionais nunca participa- ram de treinamentos ou programas relacionados à neurodiversidade. E o primeiro passo para construir um mercado de trabalho mais inclusivo é, justamente, investir em informação. Todos os especialistas entrevis- tados pela Você RH defendem que ela é uma ferramenta importante no combate ao capacitismo, que rejeita e adoece os profissionais autistas. Por isso, além de conectá- -los a empresas interessadas em neurodiversidade, consultorias como a Specialisterne e a Talento Incluir oferecem serviços focados em oferecer informação para os funcionários e lideranças – o que prepara o terreno para programas específicos de inclusão. A farmacêutica Takeda passou por um treinamento com a Specia- listerne há dois anos para entender como acolher profissionais autistas e começou um projeto-piloto com a consultoria, preparando alguns se- tores para receber quatro pessoas. A companhia acabou efetivando os profissionais, segundo a executiva de RH Eliane Pereira, que deve o sucesso do programa ao letramen- to e ao engajamento da alta lide- rança. “Sem isso, nada se sustenta. Teríamos um piloto bonito, mas que não teria continuidade.” A companhia tem salas de des- compressão, espaços reservados e silenciosos para quem precisa se iso- lar por alguns momentos. Também determinou, ao início do programa, um “buddy” para cada neurodiver- gente – um funcionário responsável por acompanhá-los de perto e dar o suporte necessário. Especialistas defendem que um acompanhamen- to como esse, ou similar, é impor- tante porque o autista pode perce- ber necessidades de adaptação com o passar do tempo. Outra boa prática é manter uma rotina bem-estruturada. Profissio- nais autistas costumam mostrar melhor seu potencial quando não recebem um monte de tarefas ao mesmo tempo, por causa da “dis- função executiva” característica do TEA: um déficit relacionado a habilidades de planejamento e organização. Manter um fluxo or- ganizado; combinar prazos e equi- pes para os projetos de antemão; e estabelecer horários de entrada e saída bem-definidos podem ser práticas importantes. Na aTip, também há uma atenção especial com as reuniões. Há sem- pre um encontro no começo e outro no final da semana que funcionam como checkpoints e ajudam a dri- blar a disfunção executiva, porque discutem prioridades e recapitu- lam o que já está feito. E nenhuma reunião tem mais de uma hora. Na mesma linha, o home office pode ser um ótimo aliado. Pedro Lopez, por exemplo, instituiu o modelo remoto em sua empresa sem pen- sar duas vezes. Mas, como dissemos, não há re- ceita de bolo. As práticas a serem adotadas podem ser muito simples, e dependem de cada caso. “Por mais que a empresa se organize para receber autistas, o diagnósti- co de uma pessoa diz pouco sobre ela, porque cada autista é único”, afirma Fábio Coelho, psicólogo e sócio-diretor da Academia do Au- tismo, instituição de ensino dedi- cada à condição. “A empresa preci- sa entender quais são as demandas daquela pessoa, tentar flexibilizar processos para melhorar sua adap- tação, fazer um bom treinamento no começo... Essas práticas indi- vidualizadas garantem a inclusão efetiva desse colaborador.” Esse movimento pode, inclusive, melhorar a vida de outros funcio- nários, que podem se descobrir au- tistas ou sentir abertura para com- partilhar seu diagnóstico de TEA. Garantir a inclusão, em suma, é bom para todo mundo. Não só por- que uma comunicação mais obje- tiva e demandas mais organizadas são inegavelmente melhores no trabalho, e para a equipe toda, mas também pelo fato de que investir em diversidade, de ma- neira consistente, significa con- seguir equipes mais inovadoras e produtivas, capazes de atender a uma sociedade de múltiplas faces – e capacidades. Cada autista é único, por isso as empresas precisam entender suas necessidades individuais para garantir sua inclusão. jun / juL 2024 você rh 43 Katya Hemelrijk, CEO da Talento Incluir; Marcus Labigalini, locutor do programa de rádio Apenas Acontece, sobre parentalidade neuroatípica; Mônica Carvalho, executiva de RH especialista na inclusão de autistas no mercado de trabalho; Wolf Kos, presidente do instituto Olga Kos de Inclusão Cultural. 44 você rh jun / juL 202444 você rh jun / juL 2024 LIDERANÇA jun / juL 2024 você rh 45jun / juL 2024 você rh 45 MéDia GeStão IMPORTÂNCIA daA no meio do sanduíche entre a alta liderança e a linha de frente, os gestores não têm sido incluídos nas decisões estratégicas das empresas. um erro que sabota tanto a comunicação quanto a inovação. saiba por que gerentes, supervisores e coordenadores são essenciais para as transformações nas companhias – e conheça negócios que já despertaram para esse gap organizacional. texto MICHELE LOUREIRO deSign JULIANA KRAUSS iluStração GUSTAVO MAGALHÃES nhece essa prática. Em contrapartida, só metade da alta liderança dá a mesma resposta. Ou seja, gestores de médio patamar e líderes têm visões distintas e dife- renças expressivas no senso de pertencimento. Em um artigo recente publicado na Harvard Business Review, Zahira Jaser, professora da Escola de Negócios da Universidade de Sussex, explica que “há uma tendên- cia de educar os gerentes sobre como ‘evoluir’ e se tor- nar líderes”, como se essas pessoas não desempenhas- sem também um papel de liderança, e tivessem uma função menos importante. Para a especialista, contudo, a média gestão é “o motor do negócio, as engrenagens que fazem as coisas funcionarem, a cola que mantém a empresa unida”. Ou pelo menos deveria ser assim. Para o consultor Manoel Lins, com experiência de 25 anos em planejamentoestratégico e sócio da Auddas, empresa especializada em média gestão, essa faixa de profissionais ainda é ignorada em grande parte das corporações. “Em mais de 80% das companhias com as quais lidamos no cotidiano, a média gerência não está envolvida nas discussões estratégicas. Ao analisar negócios com esse perfil, cada vez mais observamos que o afastamento entre a média gerência e a alta lide- rança dificulta o cumprimento de metas e a eficiência operacional”, diz. Nos últimos dois anos, Manoel entrevistou cerca de 1.500 gestores de 80 empresas e constatou que as prin- cipais dores são a falta de comunicação, de confiança e N o final da década de 1970, Abraham Zale- znik, importante estudioso e professor de Harvard no campo da dinâmica organizacio- nal e da liderança nas empresas, escreveu um artigo sobre a diferença entre gestores e líderes. Segundo ele, aos gestores cabe- ria apaziguar conflitos e assegurar o cumprimento das atividades diárias. Já os líderes são aqueles que adotam atitudes pessoais em relação a seus objeti- vos, buscam oportunidades e estimulam o processo criativo nas empresas. Por décadas, o conceito de menor importância pesou sobre gestores de médio patamar – gerentes, supervisores e coordenadores. Mas muitas companhias já estão notando que esses profissionais são, sim, capazes de promover transfor- mações mais profundas em uma organização. Afinal, será que chegou a hora de a média gestão brilhar? Precisamos assumir que, ao menos por enquanto, ainda há muito caminho pela frente. De acordo com um estudo realizado pela Cia de Talentos, apenas 27% das pessoas que ocupam cargo de média gestão sentem que podem expressar sua identidade e opini- ões sem receio dentro da empresa em que trabalham. Para ter uma ideia, esse índice é de 45% entre a alta liderança. Quando questionados sobre autonomia, apenas 23% afirmam que têm liberdade de ação, ante 45% dos líderes. Sobre comunicação aberta e honesta, 70% da média gestão afirma que não reco- 46 você rh jun / juL 2024 LIDERANÇA EM MAIS DE DAS EMPRESAS, A MÉDIA GERÊNCIA NÃO ESTÁ ENVOLVIDA NAS DISCUSSÕES ESTRATÉGICAS. 80% jun / juL 2024 você rh 47 Como a média gestão se vê nas companhias considera que tem ideias valorizadas ProfiSSionaiS da baSe média geStão alta liderança tem liberdade e autonomia de ação Sente que há comunicação aberta e honesta crê que suas tarefas impactam pessoas e o negócio Fonte: Cia de Talentos de feedbacks constantes. “Há um modelo mental que pro- move isso, um pensamento ultrapassado de que as estra- tégias devem ser pensadas de cima para baixo, sem levar em conta as dores e ideias de quem está na frente de ação. O modelo precisa evoluir para um formato mais horizon- talizado, com foco na autonomia desses gestores”, diz. Ainda em sua pesquisa, o consultor questionou o principal motivo por trás de as empresas não atingirem suas estratégias: 55% dos entrevistados indicaram que o principal limitante é alinhar a comunicação interna com as áreas envolvidas e ter definições claras de quem pode tomar as decisões e tem autonomia para executar os projetos. Na maioria das empresas, as discussões que envol- vem o planejamento estratégico costumam ficar restri- tas aos sócios e aos integrantes do conselho ou da alta diretoria. Um grande erro. O fato é que a média gestão é o elo que ajuda uma companhia a caminhar entre o ponto A e o ponto B. “É a partir desses profissionais que é possível obter um diagnóstico da corporação, e é junto com eles que se cria um plano de ação para che- gar ao ponto B. Não tem lógica tirá-los do processo”, defende Manoel. A empresa é o primeiro chefe que vemos Além de ser fundamental na construção dos indicado- res do planejamento estratégico, a média gestão tem um papel importante em representar a marca empre- gadora. Isso porque são esses gestores que recebem os profissionais das equipes e estão com eles no dia a dia das atividades. São, portanto, os modelos de referência dos comportamentos a serem seguidos – especialmente nas grandes companhias, em que o contato com a alta liderança costuma ser bastante restrito. “Por isso, eles atraem, ou repelem, talentos. São também os tradutores oficiais das mensagens do topo para a base e vice-versa. Então, como deixá-los de fora da estratégia?”, diz a con- sultora Carolina Marcon, autora do livro O Poder dos Times AAA: Como Times Executivos Geram Cresci- mento Sustentável Por Meio de Pessoas. Para Bell Gama, sócia da Air, consultoria especializa- da em Marca Empregadora, a média gestão é “a vida de uma marca”. “Existem as pesquisas de clima, as news- letters, as reuniões gerais e as ações para clima e enga- jamento. Mas o ponto de contato mais importante é essa pessoa que está todo dia dando exemplo e falando sobre a marca, sobre a cultura da empresa e sobre as metas.” 33% 28% 47% 40% 30% 50% 23% 23% 45% 49% 50% 67% 48 você rh jun / juL 2024 OS PRINCIPAIS PROBLEMAS DAS COMPANHIAS QUE NÃO INCLUEM GERENTES, SUPERVISORES E COORDENADORES NAS DECISÕES SÃO A FALTA DE COMUNICAÇÃO, DE CONFIANÇA E DE FEEDBACKS CONSTANTES. LIDERANÇA É hora de começar a virar o jogo Na lista de negócios que já perceberam a relevância do tema está o Grupo Leonora, empresa catarinense que é a maior importadora e distribuidora de mate- rial escolar do Brasil. Depois da intervenção da con- sultoria Auddas, que realizou workshop e trabalho de diagnóstico com o conselho, diretores, CEO, gerentes e coordenadores seniores, a história começou a mu- dar. Edson Cardoso Teixeira, diretor-executivo da companhia, disse que houve uma virada de chave ao incluir ainda mais a média gestão na estratégia. “Isso enriqueceu o plano com insights valiosos, além de for- talecer o comprometimento de todos, facilitando uma implementação mais suave e realista, com maior pro- babilidade de sucesso”, explica. A expectativa é que o novo modelo colabore para a companhia atingir a meta de alta de 25% no faturamento em 2024 e ficar na casa dos R$ 500 milhões. Tulio Santiago da Rocha, gerente de E-commerce da Leonora, foi um dos impactados com o movimento de transformação na empresa. Com sete pessoas na equi- pe, ele afirma que houve aumento do senso de perten- cimento e da confiança. “Ano passado, eu e meu time tivemos a iniciativa de prospectar uma nova modalida- de de comércio com concessão de crédito para clientes que compravam à vista, e houve vendas incrementais de R$ 1 milhão. Esse trabalho foi tão bem aceito que a modalidade virou recorrente. Acredito que fazer parte da estratégia vai além de executar, mas ter espaço e autonomia para colaborar”, diz. Inovação na linha de frente Entre os benefícios – e urgências de incluir a média gestão na estratégia – está a questão da inovação. Ma- noel Lins aponta um dado alarmante: 80% das corpo- rações que a consultoria atende, todas com faturamen- to acima de R$ 100 milhões, não sabem o que é uma estruturação de inovação, e simplesmente não pensam nessa questão. “Os gerentes de nível médio têm um papel primordial quanto a modificar a rotina atual, o que geralmente resulta em inovações. É por isso que conceber a gerência intermediária apenas em termos operacionais significa negligenciar o potencial estraté- gico desses interlocutores.” Para Luiz Afonso Wan-Dall Júnior, CEO da Color- maq, fabricante de eletrodomésticos, incluir as médias lideranças no plano estratégico é uma das apostas jun / juL 2024 você rh 49 para inovar e ampliar os resultados da companhia. Ele conta que os planejamentos anuais da empresa sem- pre eram realizados nos modelos tradicionais, no for- mato top-down, mas que a mudança de mindset tem provocado transformações. “A verdade é que o plane- jamento era comunicado na base do telefone sem fio. Ao incluir os gestores na reflexão, isso muda de escopoe conseguimos desdobramentos conectados com o ob- jetivo. Além disso, notamos um ambiente mais favorá- vel à inovação”, diz. Tanto é assim que Victoria Brito Campos, coordena- dora de Controladoria da empresa, diz que a inclusão nas decisões a fez sentir-se mais considerada. “Tam- bém noto que as metas estão mais coerentes, e fica mais fácil cascatear para minha equipe”, diz. Além de se apoiar em inovação e desbravar novas possibilidades, o crescimento sustentável de uma empresa, no médio e longo prazo, depende de alguns fatores. Essa lista inclui: planejamento assertivo, pre- visão adequada de custo operacional, baixo impacto na operação, eficiência operacional e um plano de ex- pansão exequível. A média gerência é um denomina- dor comum em todos eles. Então pode ser a hora de convidar seus gerentes para um café com uma pitada de planejamento estratégico, não é mesmo? Os gestores podem contribuir incentivando os co- laboradores a se manifestarem quando se sentirem sobrecarregados e a descansar de verdade aos finais de semana e feriados, não permitindo trocas de e- -mails e mensagens sobre trabalho durante as folgas, por exemplo. Construir cronogramas realistas também é importante. 50 você rh jun / juL 2024 AMBIENTE CORPORATIVO É O MELHOR EMPREGO jessica, henrique, Karina e fernanda ganham a vida apontando com muito humor, na internet, as idiossincrasias do mundo corporativo. mas eles não estão, nem de longe, fazendo um desserviço a esse universo. conheça a história dos quatro cltfluencers – e entenda como o trabalho deles ajuda a sedimentar um ambiente empresarial mais saudável. TEXTO SOFIA KERCHER DESIGN CRISTIELLE LUISE Abbadhia Vieira, empreendedora e humorista: “Não há nada que indique que você ser mal-humorado te levará mais longe profissionalmente”. @ a b b a D h i a jun / juL 2024 você rh 51 Brasil é o segundo país com mais influenciadores no mundo. Perdemos só para os Estados Unidos. Por lá, 13,5 milhões de pessoas ocupam seus dias criando conteúdo na internet. Por aqui, eles formam um con- tingente mais modesto, de 500 mil pessoas (contando aqueles que têm mais do que 10k seguidores). É seguro dizer que, num mercado desse tamanho, você encontrará de tudo um pouco. Há comunidades das mais diver- sas, ora abordando assuntos mais tradicionais – bem-estar, moda, finanças & cia. –, ora tópicos mais excêntricos, vide quiropatas de pets e sommeliers de privada. Quem nunca se perdeu em um nicho maluco da internet que atire a primeira pedra... Claro, o mundo corporativo não poderia ficar de fora da brincadei- ra. Mas não é sua presença institucional que tem chamado atenção e angariado milhões de seguidores redes afora. Os CLTfluencers de sucesso ganharam visibilidade, bom... satirizando o ambiente empresarial. Por meio de personagens caricatos e esquetes hilárias, esses criadores de conteúdo ilustram situações absurdas vividas por eles ou relatadas por seguidores durante seu tempo de escritório. um clt e um influenciador entram num bar… É o caso de Karina Minoda (@karinaminoda). Formada em moda, o sonho dela nunca tinha sido criar conteúdo, e sim encontrar um trabalho em sua área de formação. Sabe o filme O Diabo Veste Prada, de 2006? Andrea Sachs (in- terpretada por Anne Hathaway) precisa se desdobrar em oito para atender aos caprichos de sua cruel editora (Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep), e sofre todo tipo de abuso moral e psicológico. A história, os personagens e a revista são fictícios. Mas, segundo Karina, a realidade do mundo da moda não destoa muito do clássico das telinhas. Depois de uma dé- cada trabalhando em escritórios à la Miranda, Karina se viu com um quadro severo de burnout, que a impedia até de dirigir. “Percebi que todas as empresas eram iguais, só mudava o en- dereço. Desenvolvi ansiedade e depressão, chorava muito quan- do tinha que trabalhar, foi um período complicado”, desabafa a influenciadora. Mas, tal qual a protagonista do filme, a história dela também tem final feliz: Karina decidiu largar de vez a CLT e começou a postar vídeos humorísticos iro- nizando algumas vivências que teve durante esses dez anos. Dos limões, uma limonada: ela acumula 159 mil seguidores no Instagram e 103 mil no Tiktok. Jessica Diniz (@jedinizm) se- guiu um caminho similar. Sua carreira toda se deu no mundo de eventos, trabalhando como autônoma, em que seus contra- tos duravam de um a dois dias. Apesar de nunca ter tido expo- sição prolongada a um escritó- rio (“Tentei trabalhar como CLT duas vezes e vi que, para mim, seria horrível!”), a natureza de seu emprego permitiu que ela entrasse em contato com todo tipo de profissional. Isso a levou a criar a perso- nagem “Ameinda” (paulistanês para “Amanda”), uma workaho- lic cabecinha de vento que ser- viu de receptáculo para satiri- zar episódios que ela, amigos e, posteriormente, seguidores @ K a r i N a M i N o D a Karina Minoda: do burnout e da depressão aos vídeos humorísticos sobre os bastidores do mundo da moda. viveram. Ela possui 2,2 milhões de seguidores no Instagram e 2,8 mi no Tiktok. Mas não pense que é preciso largar da CLT para se tornar CLTfluencer. É o caso de Fernanda Mattos (@homeofficesemfiltro), que ficou conhecida pelos seus vídeos decifrando o “corporativês” – dando dicas para seus seguidores de como educadamente lidar com colegas de trabalho sem noção. “Quero deixar muito claro que eu não estou exemplificando o meu local de trabalho!”, reitera Fernanda, rindo. Ela teve a ideia da página durante a pandemia, quando trabalhava 100% home office. O canal foi ganhando visibilidade – hoje, com 173 mil seguidores no Instagram e 131 mil no TikTok –, mas ela decidiu não deixar a empresa, onde trabalha até hoje. Segundo Fernanda, eles não viram problemas de ela seguir postando esse tipo de conteúdo (que tem uma pegada um pouco mais light do que de seus con- gêneres, vale dizer). Em primeiro momento, pode parecer que o propósito do conte- údo das meninas seja apenas alívio cômico. Mas esse nicho tem algumas funções adicionais im- portantíssimas – e, de quebra, nos ajuda a ilustrar a importân- cia de ter senso de humor das 9h às 18h. Para entender do que estamos falando, precisamos voltar um pouco na evolução humana, e entender a função biológica da risadinha. Vamos lá. Quantos cientistas são neces- sários para explicar o riso? Ao que tudo indica, muitos: não há consenso de por que essa fer- ramenta foi mantida na evolução humana. Uma das teses mais no- vas, contudo, vem de um livro de 2011, escrito por Matthew M. Hurley e mais dois colegas e pu- blicado pelo MIT Press. Hurley é pesquisador da Universidade de Bloomington, localizada no es- tado americano de Indiana. O interesse dele era, primor- dialmente, na ligação entre o humor e o erro. Pense que o Faustão fez carreira com base nisso: durante 33 anos, as Vide- ocassetadas do Domingão con- sistiam única e exclusivamente de pessoas tropeçando, caindo, fazendo algum tipo de confusão. Cometendo erros. E mais: essas pessoas não eram entes queridos dos telespectadores, e sim coita- dinhos aleatórios. O prazer em rir da desgraça alheia sedimen- tou o quadro como um sucesso de audiência durante décadas. “Cada trocadilho, piada ou in- AMBIENTE CORPORATIVO Jessica Diniz, influenciadora: “Consegui expressar algumas coisas que pensava durante meu tempo de trabalho e não tinha coragem de falar para ninguém”. 9 1 % D O S E X E C U T I V O S A C R E D I TA M Q U E O S e N S o D e h U M o r É IMP O R TA N T E P A R A O AVA N Ç O N A C A R R E IR A . @ J e D i N i z M cidente cômico parece conter algum tipo de bobagem – o ‘alvo’ da piada”, explica o livro. E esse alvo – preferencialmente um inimigo, concorrente ou estranho seu – precisa cometer algum erro para que aquilo te traga prazer. A conclusão do pesquisador foi que as pessoas não gostam de cometer erros, esim de identificá-los. O humor teria evoluído desse processo cognitivo: identificar essa quebra de expectativa, entendê- -la e, consequentemente, haha! Rir. Isso culmina, sobretudo, em uma questão de status. O riso é um sinal (bem) público da nossa capacidade de reconhecer esses er- ros. Isso mostra uma bagagem de conhecimento, reforça laços (com quem também achou graça, claro), reafirma a sensação de perten- cimento e, de brinde, nos torna mais atraentes para parceiros re- produtivos. Matthew explica em uma entrevista de 2013: “Não é só identificar o que faz as pessoas rirem. É também explicar o valor cognitivo e o papel do humor na sobrevivência”. nenhuma experiência humana é individual (ainda bem) Ok. E como essa história toda se conecta com seu trampo – e com o trampo dos influencia- dores? Digamos que você está scrol lando pelo seu feed do Instagram. Depara-se com um vídeo da Jessica, da Karina ou da Fernanda, interpretando uma situação que você já viveu. Um chefe de voz mansa pedin- do hora extra não remunerada, uma mensagem passivo-agres- siva do TI perguntando se você “já tentou reiniciar a máquina”, um colega de trabalho cujo mo- dus operandi é passar a perna nos membros da equipe. Você identifica o erro, vê o absurdo da situação, e você ri. Como bem posto por Matthew Hurley. “Se você v iu e você r iu, então você entendeu”, resume bem Henrique Vasconcel los (@ocoala01). Henrique, que acumulou 445 mil seguidores jun / juL 2024 você rh 53 “ N ã o é P o S S í v e l q U e S ó e U t e N h a P a S S a D o P o r i S S o ! ” A VO CÊ R H O U V I U E S S E C O ME N TÁ R I O S O B R E S I T U A Ç Õ E S IN A C E I TÁV E I S D O S Q U AT R O E N T R E V I S TA D O S . @ h o M e o F F i c e S e M F i lt r o no Instagram e 1,2 milhão no TikTok, tem vários quadros de humor nas suas plataformas – mas os de mundo corporativo, segundo ele, são os que fazem mais sucesso. “O entretenimento passa a ter a função de denúncia: tanto porque você já passou por uma situação parecida e pode reafirmar que aquilo é absurdo, ou porque você mesmo teve esse comportamento em alguma ocasião. Não é só causar por causar: eu faço esses vídeos para causar com propósito”, diz ele. A maior prova disso é que, ressalvando a Fernanda (que ain- da tem um ambiente de trabalho saudável), todos os criadores já largaram a CLT faz tempo. Mas eles continuam alimentando as pá- ginas por meio de relatos de seguidores – que aproveitam a falta de vínculo empregatício dos entrevistados para dividir, por meio deles, suas histórias de horror. Mais ainda, para buscar amparo com outros que passaram pelo mesmo. Mais um ponto para a teoria de Hurley: a criação de laços é inegável. O resultado disso é mais do que um número faraônico de se- guidores. Os CLTfluencers cons- truíram comunidades positivas, de pessoas que estiveram ou es- tão no ambiente empresarial, e que compartilham anedotas trá- gicas e encontram conforto dos seus pares. “Eu gostei muito de fazer esse humor corporativo porque con- segui expressar algumas coisas que pensava durante meu tempo de trabalho e não tinha coragem de falar para ninguém”, comple- menta Jessica. muito riso, muito juízo Mas, afinal, por que nesse for- mato? Há inúmeras maneiras de criar comunidades e denunciar comportamentos abusivos. Uma palestra, um podcast, um texto informativo no LinkedIn… Por que a risada entra no jogo? 54 você rh jun / juL 2024 AMBIENTE CORPORATIVO Fernanda Mattos, influenciadora: “Quando eu faço esse trabalho de forma bem-humorada, eu chego em mais gente, sem dúvida”. Henrique Vasconcellos, influenciador: “Se você viu e você riu, então você entendeu”. @ o c o a l a 0 1 “Quando eu faço esse trabalho de forma bem-humorada, eu che- go em mais gente, sem dúvida”, argumenta Fernanda. “As pessoas estão cansadas de receber dicas e guias o tempo todo, permeados de produtividade tóxica.” O aspecto evolutivo pode ainda estar para debate, mas os be- nefícios do humor com certeza não. Inúmeros estudos mostram a capacidade do riso de aliviar estresse e tédio, estimular a criativi- dade, produtividade, melhorar a memória e permitir que fixemos conceitos com maior facilidade. Uma pesquisa da Robert Half de 2017, inclusive, descobriu que 91% dos executivos acreditam que o senso de humor é importante para o avanço na carreira. Isso mostra que, na internet ou fora dela, influenciador ou influen- ciado: todos nós podemos nos beneficiar de uma abordagem mais bem-humorada aos nossos ambientes de trabalho. E não pense que só há espaço para isso na informalidade das redes sociais. A empreendedora e humorista Abbadhia Vieira tem uma companhia de teatro empresarial que trabalha justamente nessa interseção, trazendo informações aos colaboradores de uma forma descontraída, por meio de peças, dinâmicas interativas, jogos e conteúdos audiovisuais. Em um dos (muitos) causos compartilhados pela profissio- nal, ela conta a história de uma empresa que estava tendo muita rotatividade em sua área de TI. Em suas pesquisas, Abbadhia descobriu que o problema era a quantidade grande de jargões – não só da área de tecnologia, mas da empresa em si. A solu- ção foi um vídeo humorístico em que um personagem dividia as frustrações com a webcam sobre esses termos complica- dos e, de quebra, já ajudava a explicá-los para quem estava entrando na empresa. “Ninguém mais aguenta tomar lição de moral, ninguém quer sentar duas horas e ouvir uma palestra de boas práticas. Os co- laboradores querem se informar, mas eles também querem se di- vertir!”, explica a especialista. “Não há nada que indique que você ser mal-humorado te levará mais longe profissionalmente”, brinca Abbadhia. E, como muito bem complementado por Karina no finalzinho da nossa entrevista, “de pesado já tem a vida, né?”. 56 você rh jun / juL 2024 ProFeSSor De FeliciDaDe Diretor global de aprendizagem da The School of Life, o espanhol raul aparici atua para que os profissionais reflitam criticamente sobre si mesmos, saibam fazer boas conexões e se sintam bem com seu emprego e empresa. TEXTO ALEXAndRE CARVALHo FOTOS CELso doni ma pesquisa da The School of Life em parceria com a Robert Half mapeou que 28,18% dos funcionários e 21,95% dos líderes entrevistados não estão felizes com seu emprego atual. Além disso, 94,73% dos colaboradores e 95,62% dos gestores acreditam que as empresas são responsáveis pela felicidade dos profissionais. A The School of Life atua para melhorar esses índices e também para a compreensão de que a felicidade com o trabalho é um U sentimento a ser desenvolvido em colaboração, entre líderes e liderados. “Os negócios estão mudando e, embora abordagens rígidas de comando e controle tenham provado ser bem-sucedidas no passado, o bem-estar mental, a atenção ao propósito, uma carreira gratificante e o sucesso empresarial não são mutuamente exclusivos. E todos são responsáveis por essas conquistas.” Quem afirma é o espanhol, radicado em Londres, Raul Aparici, diretor global de aprendizagem da The School of Life. Ele é o profissional que atua mais proximamente ao fundador da escola, o filósofo Alain de Botton. Consultor e palestrante, pós-graduado em coaching pela University of London, Raul esteve em São Paulo no início de maio, quando ministrou um curso imersivo sobre autoconhecimento e inteligência emocional no trabalho. Falou sobre resiliência, calma, a importância dos relacionamentos e como conduzir uma mudança de carreira. Foi também quando atendeu a nossa reportagem para a entrevista a seguir. eNtreviSta jun / juL 2024 você rh 57 TENTE SE ENvOLvER NOvAMENTE COM O QUE vOCÊ AMA NO SEU TRAbALHO: CONECTE SEU DIA A DIA A UM PROPÓSITO MAIOR. jun / juL 2024 você rh 57 58 você rh jun / juL 2024 Quais são os objetivos de quem trabalha em uma escola dedicada a ensinaras pessoas sobre a vida? Queremos ajudar as pessoas a aprender, curar e crescer em sua vida pessoal, e a prosperar e desfrutar de seu trabalho nas organizações. E fazemos isso com algumas das grandes ideias da psicologia, da psicoterapia e das artes. Encorajamos os profissionais a pensar sobre como as nossas ferramentas e ideias repercutem na sua experiência individual. todos os nossos livros, produtos e sessões são concebidos para fazer perguntas sobre nós e aqueles que nos rodeiam. Cada curso, na minha formação como coach e como psicoterapeuta. É muito importante para mim ser consistente na minha vida, por isso estou sempre questionando e me envolvendo com as minhas próprias experiências com uma atitude curiosa. Posso ser professor na escola, mas sou sempre e para sempre também um aprendiz da vida. Acreditamos que a troca de ideias com outras pessoas tem o poder de nos ajudar a expandir, corrigir e confirmar pensamentos. um ambiente para felicidade no trabalho é uma construção coletiva? depende mais de líderes ou de funcionários? workshop, palestra, experiência ou livro produzido pela the school of Life tem um objetivo central: aumentar o nível de autoconhecimento e inteligência emocional de cada pessoa e, consequentemente, do mundo. o que você mais ensina e aprende no seu dia a dia? trabalho na the school of Life, em Londres, há quase dez anos e dou aulas para o público, como o curso de cinco dias que acabamos de realizar em são Paulo, além de trabalhar em organizações globais. Baseio-me na minha experiência de vida e de trabalho, bem como eNtreviSta jun / juL 2024 você rh 59 SE CONSEGUIRMOS CAUSAR IMPACTO NUMA PESSOA E TRATÁ-LA COM BONDADE, COMPREENSÃO E AUTONOMIA, AQUELES QUE A RODEIAM SERÃO BENEFICIADOS, CRIANDO UM EFEITO CASCATA. depende. testemunhei algumas culturas de trabalho tóxicas em que, com as melhores intenções dos colaboradores, a gestão não apoia (ou não está interessada) na abertura e na segurança psicológica, o que tem um efeito negativo na felicidade das equipes. no entanto, isso não significa que os funcionários não possam envolver-se nas suas tarefas de forma diferente. Acredito que essa é uma responsabilidade compartilhada: a empresa oferece um ambiente de trabalho saudável e o profissional coloca em prática o autocuidado. se um funcionário não está bem emocionalmente por motivos pessoais, por exemplo, pouco ou nada que a empresa faça o deixará mais feliz. como os gestores podem lidar com as emoções negativas dos seus colaboradores? o meu primeiro passo seria olhar para dentro: quem sou eu como líder, ou o que estamos fazendo como organização que permite, apoia e perpetua emoções e comportamentos que não ajudam em nada. A parte dois seria ter conversas abertas com os funcionários, a partir de uma posição de questionamento humilde. A terceira parte seria implementar estratégias que tenham sido criadas coletivamente para o benefício da empresa e dos colaboradores. como manter a sanidade num ambiente de trabalho tóxico ou com um chefe tóxico? isso é complicado. Eu diria para encontrar outro emprego! Mas a possível em seu trabalho. Mas, em última análise, se houver bullying ou qualquer outro comportamento inaceitável, fale com o RH e considere medidas mais sérias. como você vê o futuro do trabalho à medida que as novas gerações exigem mais direitos e comodidades, enquanto muitos líderes continuam com um estilo de gestão baseado em comando e controle rígidos? uma pesquisa recente mostra que, para 2/3 da geração z, é muito importante que seu empregador compartilhe seus valores, com 92% classificando a autenticidade como extremamente ou muito importante, e surpreendentes 74% afirmando que deixariam o emprego se não sentissem progresso. Podemos aprender muito com as novas gerações, e muitas vezes me pergunto se o fato de julgarmos suas exigências como inacessíveis ou ingênuas se baseia no nosso ciúme por elas se atreverem a perguntar o que sempre quisemos, mas nunca fizemos. Qual o seu propósito na vida profissional? Para mim é simples: ajudar os outros a pensar criticamente e a se conectarem consigo mesmos e uns com os outros. Acredito fundamentalmente que, se conseguirmos causar impacto numa pessoa no trabalho e tratá-la com bondade, compreensão e autonomia, aqueles que a rodeiam serão beneficiados, criando um efeito cascata, em que todos ganham. realidade da economia e as nossas circunstâncias pessoais podem tornar isso impossível. Primeiro encontre a comunidade: fale com outros funcionários, apoiem-se mutuamente. tente se envolver novamente com o que você ama no seu trabalho: conecte seu dia a dia a um propósito maior para que, mesmo que o ambiente seja difícil, você possa contribuir de forma significativa. também pense no que você pode fazer para melhorar seu relacionamento com seu chefe: tenha uma discussão aberta sobre a melhor forma de discordar e tente obter o máximo de clareza A CPFL organiza um evento anual de corrida desde 2014 para incentivar seus colaboradores a se movimentarem. Agora isso acontece a distância, com a ajuda de um app corporativo. E tem sido um sucesso para o clima organizacional, segundo o diretor de RH Renato Povia. MaratoNaS coM a FirMa MelhoreS PrÁticaS TEXTO LUISA COSTA FOTO CPFL ENERGIA jun / juL 2024 você rh 61 três voltas ao mundo em dez dias.” não é uma releitura do clássico de júlio Verne: é o úl- timo resultado de um programa de incentivo ao exercício físico, realizado pela companhia de energia elétrica CPFL. os funcionários que participaram do “desafio Agita” tinham a meta de correr ou caminhar, em conjunto, quilômetros equivalentes ao comprimento da Muralha da China (21 mil) no mês de setembro. Mas a empolgação os fez bater a meta em sete vezes – o suficiente para também ultrapassar a viagem mais famosa da ficção francesa. o desafio existe desde 2014 e acontece anualmente (o de 2024 não acabou ofi- cialmente até o fechamento desta edição). É uma forma de incentivar funcionários como Clauber Pazin, gerente de operação de campo que trabalha na empresa há 30 anos, a abandonar o sedentarismo. “Eu sempre tive uma propensão ao so- brepeso e alcancei a obesidade durante a pandemia”, ele conta em entrevista. “o desafio foi o pontapé inicial para eu me dedicar a uma rotina de exercícios. Eu não conseguia correr 300 metros, no começo. Mas me inspirei em alguns colegas [que participaram do programa], e isso me motivou a melhorar.” o gerente tem uma disciplina de fazer inveja: são cinco dias de corrida por se- mana. Ele conta, orgulhoso, que perdeu 21 quilos em pouco mais de um ano por causa do desafio – e alcançou os 51 anos de idade na melhor condição física de sua vida. Às vezes, é isso que falta para as pessoas adotarem um estilo de vida mais saudável: incentivo. já defende- mos, aqui na revista, que deixar de ser sedentário não é questão de força de vontade, porque uma série de aspectos pode complicar a mudança: violência urbana, falta de acesso a áreas de la- zer, renda insuficiente… e uma rotina de trabalho exaustiva. Por isso, é fundamental que as empre- sas deem uma mãozinha. Colaboradores concordam: segundo uma pesquisa de 2022 com clientes do gympass, 67% deles gostariam que suas companhias os aju- dassem a se exercitar. Mas só 34% delas fazem isso de forma contínua. não basta, claro, uma iniciativa anual como o desafio. Ele incentiva muita gente: a edição de 2024 contou com mais de 4,4 mil pessoas inscritas. Mas a empresa precisa investir em saúde o ano todo – coisa que a CPFL faz, segundo o diretor de RH Renato Povia. “sempre que temos oportunidade, fa- lamos sobre saúde de maneira ampla. Em algunsmomentos, discutimos mais sobre saúde mental; em outros, sobre alimentação. Aí entra, por exemplo, o nutrir: nosso programa que disponibi- liza acompanhamento com nutricionista para os colaboradores.” exercício a distância o desafio Agita se transformou em seus dez anos de existência. Lá atrás, a CPFL organizava corridas e caminhadas em algumas das 700 cidades brasileiras nas quais está presente. Mas era impossível incluir todas as unidades, principalmente aquelas que se localizam em municípios pequenos. Veio a pandemia e, com ela, um hiato no programa. Então, em 2023, a equipe de benefícios teve uma ideia para matar dois coelhos com uma cajadada só. o RH havia lançado um aplicativo para centralizar a comu- nicação interna, mas a adesão estava longe do ideal. A solução: transformar o desafio, um programa já bem estabe- lecido e amado por muita gente, em uma atividade para ser feita a distância – com a ajuda do app. Ele passou a incluir um contador de passos. os funcionários puderam se or- ganizar em grupos e compartilhar suas andanças nesse ambiente digital. tudo para atingir uma meta preestabelecida. Em 2023, o objetivo coletivo era uma Muralha da China. Em 2024, a CPFL desafiou cada participante a percorrer 42 km. o ritmo e a frequência ficaram a gosto do freguês. Em 30 anos, Clauber trabalhou ora em grandes centros urbanos, ora em cidades pequenas. Por isso, nem sempre pôde participar. “Esse novo formato deu opor- tunidade para todos”, ele afirma. “Hoje eu resido em Campinas, mas montei uma equipe com colegas de Ribeirão Preto e Bauru [cidades do interior paulista]. isso acaba integrando as equipes também.” Ao final do desafio, a CPFL faz um evento de encerramento com palestras e premiação. Mas a competitividade é posi- tiva, defendem os organizadores. Porque, acima de qualquer muralha, maratona ou viagem ao redor do mundo, está o objetivo de incentivar o exercício físico – e as amizades no escritório, por que não? “Você percebe que tudo isso contribui muito para o clima organizacional: as pessoas ficam mais dispostas para traba- lhar e parecem ter orgulho de pertencer à empresa”, afirma Renato. “A gente vê que o desafio acabou transformando muitas vidas com a mudança de hábitos.” “a GeNte vê qUe o DeSaFio acaboU traNSForMaNDo MUitaS viDaS coM a MUDaNÇa De hÁbitoS.” 62 você rh jun / juL 2024 No livro O Visionário e o Integrador, Gino Wickman e Mark C. Winters defendem que organizações de sucesso – como Disney, McDonald’s e Ford – se apoiaram em dois tipos divergentes de liderança que, juntos, funcionam muito bem, obrigado. Entenda no que consiste essa dinâmica, que seria o segredo para o sucesso. OS OPOSTOS… CONSTROEM GRANDES EMPRESAS Na eStaNte jun / juL 2024 você rh 63 perfis profissionais, claro, mas também mostrar como eles geralmente se encontram – e fornecer um passo a passo de como aproveitar o potencial da combinação, sem sucumbir aos conflitos que surgirão entre essas personalidades opostas. O que é, então, um visionário? Essencialmente, um sonhador. Uma pessoa criativa que gosta mais de ex- plorar do que analisar. Alguém que pensa estrategica- mente, e é muito bom gerando soluções para grandes problemas, mas não para pequenas questões práticas. Geralmente, é o fundador da empresa. Um integrador, por sua vez, faz as coisas acontecerem. É uma pessoa realista e focada, que gerencia e executa muito bem os planos grandiosos de outro (o visionário). Essa é nossa explicação resumida. Você pode en- tender melhor essa dupla, conferir exemplos dessa dinâmica e ter um gostinho do livro no trecho abaixo. ocê há de concordar: existem combi- nações infalíveis. Queijo e goiabada. “Neném e chupeta, Romeu e Julieta”, acrescentariam Claudinho & Buchecha – ou a Adriana Calcanhoto – no hit da década passada Fico Assim Sem Você. Os empresários Gino Wickman e Mark C. Winters prometem uma combinação nessa linha. Mas um tanto inusitada. Para eles, um par tão certeiro quanto queijo e goiabada é um visionário e um integrador. Uma dupla com tais perfis seria capaz de abalar o mundo corporativo – e faria um trabalho digno de disco de ouro. Essa combinação infalível teria levado ao sucesso da Disney, do McDonald’s e da Ford, afirmam Gino e Mark, autores do livro O Visionário e o Integra- dor, que a editora Sextante lançou recentemente. O propósito da obra? Explicar no que consistem esses TR EC HO D O L Iv RO tas, as forças criam – a interação dá à luz. Elas transformam uma à outra por complementação. Uma corda com dois fios torcidos é muito mais forte do que apenas um fio com o dobro da força. O visionário e o integrador an- dam juntos da mesma forma. É a combinação perfeita que impulsio- na as empresas à grandeza. A Ernst & Young, multinacio- nal de serviços profissionais de auditoria, promove uma competi- ção chamada Visionário do Ano. David Kohl, diretor da Roach Ho- ward Smith & Barton, de Dallas, participa ativamente do processo de indicação. Nessa função, inte- rage com diversos líderes empre- sariais em um amplo espectro de YIN ENCONTRA O YANG. O antigo conceito chinês de yin e yang descreve como duas forças aparentemente opostas são, na verdade, interconectadas e interdependentes – potenciali- zando-se mutuamente à medida que interagem. São forças com- plementares, opostas e iguais, que se unem para formar um sistema dinâmico em que o todo é maior do que as partes. Ambas estão sempre presentes, embora uma possa surgir com mais força em determinado momento. Uma estaria condenada sem a outra, assim como a humanidade não poderia sobreviver apenas com homens ou só com mulheres. Jun- o relacionamento Capítulo 4 V O Por trÁS De toDo líDer qUe coNSeGUiU alGo SiGNiFicativo, exiSte UMa PeSSoa qUe SoUbe coMo traNSForMar UMa iDeia eM realiDaDe. 64 você rh jun / juL 2024 intangível e construir a infraestru- tura que lhe dará vida. Essa infra- estrutura é o que realmente torna possível qualquer mudança ou su- cesso mensurável”. Prossegue: “Em todos os casos de um grande líder carismático que conseguiu algo sig- nificativo, sempre havia nas sombras uma pessoa ou um pequeno grupo que soube COMO transformar a ideia em realidade”. Sinek explica um pouco mais: “Os tipos PORQUÊ são os visioná- rios, aqueles com imaginação hi- perativa. Tendem a ser otimistas e acreditam que todas as suas ideias podem ser realizadas. Os tipos COMO vivem mais no aqui e ago- ra. São os realistas, têm um senso mais claro dos aspectos práticos. Os tipos PORQUÊ estão focados no que a maioria das pessoas não vê, como o futuro. Os tipos COMO concentram-se no que a maioria pode ver e tendem a ser melhores na construção de estruturas e pro- cessos, bem como na realização de tarefas. Um não é melhor do que o outro, apenas enxergam o mundo de modo diferente”. O autor afirma ainda que os ti- pos COMO têm um ego forte para admitir que não são visionários. No entanto, são inspirados pelas ideias do líder visionário e sabem dar vida a elas. Acrescenta: “Os melhores tipos COMO, em geral, não querem estar na linha de frente... preferem trabalhar nos bastidores... para transformar as ideias em realida- de”. Ele continua dizendo que “é preciso uma combinação do talento e do esforço de ambos para atingir grandes resultados”. No livro, ele cita as combinações históricas de setores. Em nossa conversa, fez uma observação muito interessan- te sobre as 65 empresas estuda- das para uma premiação recente. Segundo ele, todas tinham o que chamou de “uma dupla de líderes”, aos quais atribuiu em grande parte seu sucesso. Após conhecer os termos visio- nário e integrador, ele concordou que essa interação parecia oferecer uma explicação lógica para o de- sempenho superior das organiza- çõesanalisadas. [...] casamento perfeito Nos Estados Unidos, uma gíria do golfe diz que, quando dois parcei- ros jogam bem juntos, “combinam como presunto e ovos”. Quando um deles dá uma tacada ruim, o outro dá uma boa. Assim eles cobrem um ao outro. Isso é exatamente o que ocorre com uma ótima dupla V/I [visionário e integrador]: combinam como presunto e ovos! Não há como negar que existe uma química real quando dá cer- to. O resultado é uma poderosa expansão de força. Quando essa força está devidamente direciona- da, é capaz de colocar a empresa em órbita. Em seu livro Comece pelo Porquê: Como Grandes Líderes Inspiram Pessoas e Equipes a Agir, Simon Sinek valida o poderoso impacto da combinação V/I nos negócios. Ele descreve os dois papéis como pes- soas PORQUÊ e pessoas COMO. O visionário é do tipo PORQUÊ e o in- tegrador é do tipo COMO. Explica: “Para cada grande líder, cada tipo PORQUÊ, existe um inspirado tipo COMO... que pode pegar uma ideia Na eStaNte Bill Gates e Paul Allen na Micro- soft, de Herb Kelleher e Rollin King na Southwest Airlines, e de Steve Jobs e Steve Wozniak na Apple. “As pessoas PORQUÊ, apesar de toda a sua visão e imaginação, mui- tas vezes ficam a ver navios. Sem alguém inspirado por suas ideias e conhecimento capaz de torná-las realidade, muitos tipos PORQUÊ acabam como visionários famintos, indivíduos com todas as respostas, mas que nunca realizam muito so- zinhos”, escreve Sinek. [...] Um dos empresários mais fa- mosos da história americana, John D. Rockefeller, conhecia muito bem essa verdade. Embora hoje esteja quase esquecido, ele formou uma dupla V/I de grande sucesso com Henry Flagler. Rockefeller tra- balhava como corretor de grãos quando conheceu Flagler, corretor da Harkness Grain Company. Em 1867, Rockefeller deixou o negócio de grãos e abriu uma refinaria de viSionárioS integradoreS resolvem problemas gran- des e complexos identificam e articulam os problemas têm 20 ideias novas por semana transformam as melhores ideias em realidade São grandes líderes São grandes gestores São otimistas São realistas São “pessoas de fora” São “pessoas de dentro” criam o projeto executam o projeto comParação de v/i jun / juL 2024 você rh 65 o viSioNÁrio e o iNteGraDor: oS DoiS tiPoS De líDer De qUe aS eMPreSaS PreciSaM Para SereM altaMeNte beM-SUceDiDaS autores: Gino Wickman e Mark C. Winters editora: Sextante Páginas: 176 Preço: R$ 49,90 sete anos. Michael contratou John há cinco anos. Um visionário puro em todos os sentidos, Michael é a cara do escritório, uma verdadei- ra celebridade no mercado, tem ideias sensacionais, uma noção incrível da cultura da empresa e inspira o time. John não poderia ser mais diferente. Prefere ficar nos bastidores. É ótimo executando as ideias de Michael. Adora números – previsões, orçamentos e plane- jamentos financeiros – e domina cada aspecto da empresa. É a cola que mantém coeso o escritório de advocacia, que já conta com mais de cem colaboradores. Michael e John são opostos. As responsabilidades e paixões de John são “analisar dados, identifi- car e explicar os principais gerado- res de receita e de custos, gerenciar pessoas para resolver problemas, impulsionar o aperfeiçoamento constante, equilibrar a carga de trabalho, ensinar os gestores a se basearem em números e liberar o visionário para permanecer em sua área ideal”. Ao ouvir a lista de funções de John, Michael fez uma expressão de desgosto. Reconhe- ce a necessidade dessas funções, mas está muito feliz por não caber a ele executá-las. As paixões e responsabilidades de Michael são ter novas ideias de marketing e de crescimento, inspi- rar a equipe, assumir os casos mais importantes e impactantes, filmar comerciais e fazer seu programa de televisão. A extrema diferença entre as ap- tidões desses dois indivíduos gera uma carga elétrica que continua impulsionando a empresa. petróleo. Em busca de capital para a expansão do empreendimento, procurou Flagler e lhe ofereceu sociedade em troca de 100 mil dó- lares, obtidos com o primo da mu- lher de Flagler, Stephen Harkness, um dos homens mais ricos de Ohio. A parceria se tornaria a Standard Oil Company. Rockefeller proporcionou a cen- telha que deu início ao negócio. Flagler, um grande integrador, criou um sistema de descontos para fortalecer sua posição diante dos concorrentes e dos transporta- dores. Esses descontos colocaram a Standard Oil em condições de competir com outras refinarias de petróleo e, em 1872, quase todas as empresas de refino de Cleveland já tinham se fundido com a Standard Oil; em 1880, a empresa controlava o refino de 90% do petróleo produ- zido nos Estados Unidos. De acordo com Edwin Lefevre em “Flagler and Florida” (Flagler e a Flórida), um artigo publicado na Everybody’s Magazine em 1910: “Quando per- guntaram a John D. Rockefeller se a Standard Oil Company era fruto de seu pensamento, ele respondeu: ‘Não, senhor. Eu gostaria de ter cé- rebro para pensar nisso. A ideia foi de Henry M. Flagler’”. Em décadas de trabalho conjun- to, Rockefeller e Flagler construí- ram o maior império da indústria do petróleo que os Estados Unidos já viram. Uma equipe V/I com indivíduos extremamente contrastantes é a de Michael Morse e John Nacha- zel, do bem-sucedido escritório de advocacia de Mike Morse, que cresceu 50% ao ano nos últimos 66 você rh jun / juL 2024 NA REAL POR iSiS borGe Os caminhos da carreira de conselheiro FOTO: DI V U L GAÇÃO ISIS bORGE É executive director Talenses e managing partner Talenses Group existe uma demanda forte no mercado por conse- lheiros independentes, seja para conselhos admi- nistrativos ou consultivos. E há vários fatores por trás disso. Algumas empresas, por exemplo, estão se profissionalizando e entendendo as vantagens de ter conselheiros independentes em vez de membros da famí- lia dona do negócio – que costumam também ser acionistas ou diretores da própria companhia. Há, ainda, incentivos do mercado, como um regulamento da B3. no artigo 15 da norma, temos a seguinte recomendação: “A companhia deve prever, em seu estatuto social, que seu conselho de administração seja composto de, no mínimo, dois conselheiros independentes – ou 20%, o que for maior”. É importante destacar que os conselhos sempre estiveram abertos para receber executivos aposentados – ou que estejam próximos de se aposentar – interessados em continuar ativos no mundo corporativo, mas agora com a missão de orientar, apoiar e sugerir iniciativas da diretoria. Porém, principalmente diante do avanço acelerado da tecnologia, tenho notado cada vez mais espaço nesse board para profissionais mais jovens, com experi- ência em empresas tech e startups. todos os dias sou sondada por altos executivos sobre como fazer essa migração para conselhos. inclusive, acho importante destacar que é muito positivo quando esse movimento acontece paralelamente à jornada executiva. desde que não haja conflito entre as empresas para as quais o profissional presta serviço, claro. nas cadeiras mais altas, o dia a dia costuma ser solitário, e participar de conselhos de outras empresas pode ser muito po- sitivo. É uma forma de obter novos aprendizados, desenvolver habilidades, ampliar o networking e aprimorar reflexões. Existem ótimos pontos de partida para quem quer entender mais dessa jornada. gosto bastante da abordagem do iBgC, que, além de fornecer o curso formal de conselheiros, permite que os membros participem dos comitês e possam ampliar o networking. instituições de ensino, como a Fundação dom Cabral, também estão firmes nessa missão. Há cursos bem atentos à diversidade nos conselhos, como o da Já saint Paul’s, focado em formar conselheiras mulheres. Algo bem- -vindoem um momento no qual muitas empresas são signatárias do “30% Club”, que defende que pelo menos 30% das cadeiras do conselho de uma empresa sejam ocupadas por mulheres. Precisa entender de finanças Vale destacar que ter conhecimentos financeiros é importante para qualquer conselheiro. Mesmo que esse profissional participe do grupo sob a ótica de pessoas, é preciso investir em cursos de finanças, de leitura de resultados e demonstrativos. A carreira em conselho pode ser vista como a nova aposenta- doria de muitos bons executivos, que buscam uma longevidade na vida profissional, com jornadas bem mais flexíveis e um ganho salarial, muitas vezes, equiparado ou até maior ao que se tinha no mundo corporativo tradicional – a depender do número de conselhos e do porte das empresas envolvidas. Migrar para uma posição de conselheiro, porém, não é algo simples. Ainda que a pessoa tenha construído uma carreira incrível em organizações renomadas e tenha boa visão do mer- cado, a transição precisa ser entendida como uma mudança de carreira: demanda tempo e boas indicações até que o executivo conquiste credibilidade no novo cargo. Mas é uma espera que vale a pena. Após as primeiras expe- riências bem-sucedidas como conselheiro, seja considerando o número de conselhos ou a relevância das empresas, a tendência é que, pouco a pouco, a carreira se desenrole, oportunidades sur- jam naturalmente e o executivo se estabeleça na nova profissão. https://t.me/clubederevistas