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Direitos Humanos, Cidadania, Identidade, Diversidade e Multiculturalismo Aline Prado Atassio Direitos Humanos, cidadania, identidade, diversidade e multiculturalismo estão interconectados e têm uma relação importante entre si, pois nos remetem à vida em sociedade, dentro do pacto social em que vivemos, representado especialmente pela figura do Estado. Estudaremos cada um desses conceitos e seus desdobramentos na sociedade contemporânea. Teremos exemplos da história do Brasil e do mundo sobre o processo de construção desses conceitos. 2 Subtópicos Identidade cultural e diversidade ������������������� 3 Pluralidade cultural: coexistências pacíficas ���������������������������������9 Considerações finais ���������������������������������������������������������������������19 Direitos Humanos e cidadania �����������������������20 Considerações finais ���������������������������������������������������������������������24 Políticas públicas ����������������������������������������������� 25 Considerações finais ���������������������������������������������������������������������31 Integração social ����������������������������������������������� 32 Considerações finais ���������������������������������������������������������������������35 Referências Bibliográficas & Consultadas ��36 3 Identidade cultural e diversidade Para bem entendermos todos os conceitos necessá- rios aos nossos estudos, vamos partir de dois concei- tos fundamentais, que são as bases para se pensar a diversidade e o multiculturalismo: Direitos Humanos e cidadania� Começamos aqui pensando sobre os Direitos Huma- nos� Esse é um conceito que ouvimos falar em todos os locais, seja na televisão, nas redes sociais ou ainda nos livros que utilizamos para nossos estudos, mas que poucas vezes paramos para refletir sobre o que significa, como foi criado e para quê� De maneira bastante direta, podemos definir Direitos Humanos como um conjunto de direitos e liberdades considerados essenciais para a proteção da dignidade humana, da igualdade e da justiça. Dentre esses direitos, estão inclusos os direitos civis e políticos, como o direito à vida, à liberdade de expres- são, à participação política e à igualdade perante a lei; direitos econômicos, sociais e culturais, como o direito à educação, à saúde, ao trabalho e à moradia, e direitos coletivos, como o direito à autodeterminação dos povos e à proteção dos direitos das minorias� 4 Os direitos humanos são inalienáveis e universais, apli- cáveis a todas as pessoas, independentemente de sua origem, raça, sexo, religião, opinião política ou qualquer outra condição� Ou seja, todas as pessoas possuem simplesmente por serem humanas� A história dos Direitos Humanos remonta à Antiguidade, quando filósofos e líderes religiosos defenderam a ideia de que todas as pessoas têm direitos e deveres iguais perante a lei e perante Deus� No entanto, foi somente no século 20 que os Direitos Humanos se tornaram uma preocupação internacional, com a criação da Liga das Nações e, posteriormente, da Organização das Nações Unidas (ONU)� Em 1948, a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, um documento que estabeleceu os Direitos Humanos como uma preocupação global e reconheceu a sua importância para a proteção da dignidade humana e para a construção de sociedades justas e igualitárias. Desde então, os Direitos Humanos têm sido objeto de inúmeras convenções e tratados internacionais, que visam a garantir a sua proteção e promover a sua realização em todo o mundo� Se as convenções nos garantem a todas e todos, va- lores universais para a garantia da nossa condição humana, o que dizer da violação desses direitos, seja por indivíduos, grupos ou Estados, por meio de práticas discriminatórias? 5 Nenhuma legislação, convenção ou normativa é capaz de mudar imediatamente as práticas coletivas� Para que essa mudança ocorra, é preciso que toda a sociedade passe por um processo de conscientização e educação� O papel de pensadores como filósofos, antropólogos e sociólogos é fundamental para a efetivação das trans- formações socioculturais, já que eles se debruçam nos assuntos para entender e transformar a sociedade e o indivíduo� É a partir das soluções encontradas por esses profissionais que se torna possível pensar em atender o que são, de fato e de direito, justas reivindicações de grupos minoritários. Para tanto, é preciso pensar na identidade de todos os grupos que compõem a sociedade. Parece muito sim- ples definir esse conceito que usamos diariamente, não é mesmo? No entanto, para a Antropologia, a identidade é um conceito complexo e multifacetado, que envolve a construção social e cultural da pessoa, suas crenças, valores, hábitos e práticas� A identidade não é algo inato ou natural, mas sim re- sultado de um processo histórico e social que envolve a interação entre indivíduos e grupos sociais. Assim, a identidade é influenciada pela cultura, pela linguagem, pelas crenças e valores, pela história e pela política do grupo ao qual a pessoa pertence ou com que se identifica. Dessa maneira, a identidade pode ser considerada uma construção dinâmica e em constante transformação� 6 Quando pensamos em sociedade, não pensamos apenas em identidade individual� A identidade coletiva, nacio- nal, também é importante para pensarmos em como a diversidade é compreendida e integrada no grupo a ser compreendido� Segundo Stuart Hall, a identidade cultural nacional é uma construção realizada com o objetivo de unir e identificar a população por meio de representações, símbolos e signos, como o hino nacional, a bandeira, a história oficial, a cultura “nacional”� Conforme Hall (2006, p� 59), “[���] não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá- -los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma e grande família nacional”. No entanto, apesar dos esforços para a construção des- sa identidade nacional homogênea, os países são, em sua maioria, formados pela associação de diferentes povos, raças e crenças� A cultura nacional força uma cultura genérica, que busca suplantar a cultura étnica ou regional e isso nem sempre é alcançado. A cultura na- cional não atinge a todos os grupos e nem os representa na mesma medida, afinal, a diversidade está presente. A diversidade refere-se à variedade de características e experiências presentes em uma sociedade, incluindo diferenças culturais, étnicas, religiosas, linguísticas, de gênero e de orientação sexual, entre outras. O multi- culturalismo é a valorização da diversidade cultural e a 7 promoção da convivência pacífica e harmoniosa entre diferentes grupos étnicos, culturais e religiosos em uma sociedade� O multiculturalismo reconhece que todas as culturas têm valor e contribuem para a riqueza de uma sociedade� Por falar em cidadania, devemos pontuar aqui que esse é um conceito muito caro à sociologia e à antropologia, pois se refere à participação ativa dos indivíduos na vida política, social e cultural de uma comunidade, cidade ou país� Ser cidadão implica ter direitos, mas também assumir responsabilidades e deveres em relação à co- munidade em que se vive� A cidadania não se limita apenas ao direito ao voto ou à participação em eleições, mas envolve também a possibilidade de participar de maneira ativa e crítica na construção da vida social e política� Isso inclui o direito de expressar opiniões, de participar de associações e movimentos sociais, de reivindicar melhorias para a comunidade e de fiscalizar as ações dos governantes. Segundo José Murilo de Carvalho (2002), a cidadania no Brasil tem um caráter “incompleto”, uma vez que duran- te muito tempo foi limitada a uma minoria privilegiada, composta principalmente pela elite econômica e polí- tica do país. O autor destaca que, ao longo da história brasileira, a construção da cidadania foimarcada por lutas e conflitos, envolvendo diferentes grupos sociais que reivindicavam direitos e participação política� 8 Carvalho também aponta para a existência de diversas barreiras que impedem o pleno exercício da cidadania no Brasil, como a desigualdade social, a corrupção, a violência e a exclusão política de minorias e grupos marginalizados. No entanto, o autor ressalta que, apesar desses desafios, a cidadania no Brasil vem avançando ao longo dos últimos anos, especialmente com a amplia- ção dos direitos sociais e a maior participação política de setores da população que antes estavam excluídos� Quando as pessoas são ativas e engajadas na vida so- cial e política, elas podem pressionar por mudanças e avanços em direção a uma sociedade mais democrá- tica e inclusiva, por isso a cidadania é um importante elemento para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. No entanto, a cidadania também pode ser limitada ou restringida em determinadas sociedades, especialmente em regimes autoritários ou em contextos de exclusão social e política� Nesse caso, além da cidadania, os Direitos Humanos, a diversidade e o multiculturalismo estão em xeque� Por isso, destacamos a importância de se promover a participação ativa e consciente dos cidadãos, bem como de lutar contra a exclusão e a de- sigualdade social a fim de que todos possam exercer plenamente a sua cidadania� 9 Para que todos os direitos e deveres sejam cumpridos, é preciso então que haja valorização da diversidade, que haja políticas de promoção do multiculturalismo� É importante promover a preservação e a celebração da cultura de cada grupo, bem como a compreensão e o respeito pela cultura dos outros� Em resumo, a promoção dos direitos humanos implica na garantia da cidadania e do respeito à diversidade e à identidade de cada pessoa� O multiculturalismo, por sua vez, é uma resposta ao desafio de se lidar com a diversidade e promover a igualdade e o respeito às diferenças em uma sociedade cada vez mais plural e globalizada. Pluralidade cultural: coexistências pacíficas Hoje, em uma sociedade globalizada como a nossa, a pluralidade cultural é uma realidade desejável e enten- dida como parte fundamental na vida cotidiana� Essa pluralidade cultural se refere à existência de diversas culturas, tradições e modos de vida dentro de uma mesma sociedade ou região geográfica. Isso significa que diferentes grupos sociais possuem suas próprias identidades culturais, crenças, valores e costumes, que são preservados e transmitidos ao longo do tempo. 10 A pluralidade cultural é uma característica presente em diversas sociedades ao redor do mundo e é resultado da diversidade étnica, linguística, religiosa, geográfica e histórica de cada região. Essa diversidade é valoriza- da por muitos como uma riqueza cultural e um modo de enriquecimento mútuo entre os diferentes grupos sociais. Mas, para se conseguir pluralidade cultural, é necessário construir a alteridade� “Alteridade”, essa palavra difícil, para a Antropologia, é um conceito que se refere à compreensão e valorização da diferença e diversidade cultural, ou seja, a capacidade de reconhecer e respeitar a existência de outras culturas diferentes da nossa� A alteridade implica, portanto, a capacidade de se colocar no lugar do outro, entenden- do suas tradições, crenças e valores, sem julgamentos ou preconceitos� A alteridade é uma construção, tal qual a cultura; é um processo e, como todo processo, leva tempo e, na história da humanidade, nem sempre acontece por meio de um processo pacífico. A violência marca as relações entre culturas, visto que, ao invés de buscarem a pluralidade, as sociedades buscam a dominação e a exploração� O “outro” sempre foi percebido como algo que desper- ta curiosidade� No entanto, nem sempre a curiosidade gerada era saudável e o “outro” era entendido como o bizarro, o não-natural, o exótico� 11 Ao longo da história, muitos grupos humanos conquis- taram territórios, riquezas e poder político por meio de guerras, invasões, colonizações e outros modos de vio- lência� Esses processos resultaram em deslocamentos forçados de populações inteiras, escravidão e genocí- dios, entre outras maneiras de opressão e violação de direitos humanos – direitos esses que ainda nem eram entendidos como direitos de fato� A construção de espaços, a dominação de corpos e mentes são processos que, em geral, trabalham na perspectiva do “outro” como o objeto a ser aculturado, modernizado, transformado� A mudança da perspecti- va colonizadora para a alteridade marca uma mudança social muito grande. O evolucionismo foi a primeira corrente antropológica a pensar o outro� Para esses autores, o princípio básico é a ideia de que a sociedade evolui de modo unilinear, tendo todas elas que seguirem as mesmas etapas, passando pelos mesmos estágios de evolução e desenvolvimento. Henry Morgan, Edward Taylor e James Fraser são os ex- poentes dessa corrente de pensamento na Antropologia. Esses autores buscam critérios para definir a evolução das sociedades e torna-se consenso entre eles que o progresso tecnológico deve ser a medida para avaliar o grau de evolução de uma sociedade. Assim, para Morgan, por exemplo, a evolução humana teria três estágios. O primeiro estágio seria a selvageria, 12 marcado pelo uso de fogo, arco, flecha e a descoberta da cerâmica – portanto tecnologias “primitivas”. Um segundo estágio seria aquele em que os homens conseguiriam domesticar os animais e realizar a agri- cultura, além de trabalhar metais para construir arte- fatos que auxiliassem nas tarefas de agricultura. Esse segundo estágio foi chamado por Morgan de barbárie. Por fim, o terceiro estágio seria a civilização, caracteriza- do pela existência da escrita e da propriedade privada� O “eu” dos evolucionistas era o mundo europeu, branco e capitalista, em oposição aos “outros”, incivilizados e inferiores, primitivos� Como é construída a alteridade para os evolucionistas, portanto? Bem, é uma maneira muito diferente da que temos hoje em dia de enxergar o diferente. De acordo com Oliveira e Cabral (2022, p� 2): “Convém lembrar que os primeiros estudos que tentavam explicar a alteridade se davam a partir dos enfoques raciais e fisiológicos. Em o “Mito ariano”, Poliakov (1974) apresenta um con- junto de ideias utilizadas para estudar o “outro”� Segundo o autor, o estudo do “outro” tinha uma postura racial, religiosa e político-ideológica. Ain- da segundo esse autor, a maioria dos estudiosos tenta explicar a origem do homem em termos ra- ciais, culturais e linguísticos. Exemplos clássicos de estudo sobre a alteridade com características evolucionistas no Brasil são os estudos de Go- 13 bineau e de Nina Rodrigues. Estes propuseram a ideologia do branqueamento, afirmando que o índio e o negro pertenciam a escalas evolutivas diferentes e principalmente inferiores à do branco, sendo por isso preciso eliminá-los para se ter êxito social e econômico� A ideia de uma cultura ou raça superior levou a tragédias na sociedade� Podemos citar o Holocausto como um dos maiores exemplos na sociedade ocidental, porém, outros casos são conhecidos e um deles é o massacre ocorrido em Ruanda, no ano de 1994� O genocídio em Ruanda ocorreu em 1994, no contexto de tensões étnicas e políticas entre a maioria hutu e a minoria tutsi no país. Os tutsis, que haviam governado o país durante a era colonial e a primeira década da independência, foram derrubados por um golpe de es- tado liderado pelos hutus em 1973� A partir de então, os tutsis passaram a ser marginalizados e perseguidos pelo governo hutu. Em 1994, um avião que transportava o presidente hutu Juvénal Habyarimana foi derrubado, matando todos a bordo, incluindo o presidente� O incidente foi o estopim para o genocídio, que havia sido planejado pelos extre- mistas hutus� Grupos de milícias hutus começaram a atacar tutsis e hutus moderados, matandocerca de 800 mil pessoas em um período de 100 dias, transforman- do o genocídio em Ruanda em um dos mais brutais e rápidos da história moderna� 14 SAIBA MAIS No filme Hotel Ruanda, o diretor Terry George abre portas para explanações sobre o genocídio de Ruanda, ocorrido em 1994. O longa-metragem retrata fatos e tem como protagonistas um casal que, dentro de um hotel, consegue abrigar e salvar a vida de mais de mil pessoas. O filme aborda temas como corrupção política, violência e racismo� FIQUE ATENTO Apesar de semelhantes, genocídio e etnocídio são palavras com significados diferentes. Um genocídio é o assassinato em massa de um grupo étnico. Os crimes cometidos contra a etnia armênia na Primeira Guerra Mundial ou o Holocausto são exemplos de genocídio. O etnocídio, por sua vez, é a matança de um grupo e a elimina- ção de qualquer vestígio de sua cultura. Portanto, a destruição cultural, bem como de qualquer símbolo, memória e valor que remeta à cultura do povo que sofreu o etnocídio� Um exemplo de etnocídio é o processo sofrido por algumas etnias indígenas americanas durante o processo de colonização da América� Com as novas descobertas antropológicas e, principal- mente, com o surgimento de uma corrente teórica que visava a compreender o outro por meio da diferença e não da dominação, a percepção dos pesquisadores sobre alteridade se transformou. Segundo as novas teorias, como o estruturalismo, o culturalismo norte-americano e a antropologia interpretativa e a pós-moderna, a diver- 15 sidade vai se apresentando de maneira não mais bizarra ou errada e sim como diferente� Em um mundo globalizado, as sociedades apresentam-se como bricolagens culturais e o outro ou os outros estão cada vez mais perto, ou, ainda, dentro do eu� Conforme afirma Clifford Geertz (2000, p. 84): “O mundo se encontra como uma espécie de colagem e para viver numa colagem é preciso que a pessoa se torne capaz de discernir seus elemen- tos, determinando quais são e como se relacionam uns com os outros na prática, ao mesmo tempo sem embotar a ideia que ela tem de sua própria localização e de sua identidade dentro desta� Dessa maneira, a Antropologia torna-se cada vez mais um estudar a própria sociedade, o próprio eu, tendo em vista que a sociedade globalizada é a fusão de diversas culturas� Ainda assim, o caminho a percorrer para que atinjamos a pluralidade cultural é enorme� Um dos movimentos mais antigos da história e que desperta, tão longamente, sentimentos negativos e reações violentas é a migração, inclusive nos dias de hoje� A mobilidade dos povos é algo intrínseco ao próprio desenvolvimento das sociedades. Foi por meio das mo- bilidades, ou migrações, que foi possível à humanidade garantir alimentação, água e segurança. 16 Com o estabelecimento de povos e o desenvolvimento da noção de pertencimento geográfico e cultural, advindos do assentamento dos povos em regiões consideradas adequadas, as mobilidades foram diminuindo� Os mo- vimentos migratórios, no entanto, jamais deixaram de existir e seus condicionantes podem ser econômicos, sociais, culturais e pessoais� Para além do imigrante, temos também os refugiados. Esses caracterizam-se pela migração forçada, por dei- xarem seus países por eventualidades que causem a perda da liberdade, da segurança e o perigo à vida. Dentre esses eventos podemos citar as guerras, os conflitos ét- nicos, as perseguições políticas e os regimes ditatoriais. A xenofobia surge nesse cenário de entrada do “estranho” em busca de emprego, segurança, saúde ou condições dignas de vida em outro país. O outro passa a ver visto como um perigo. Assim, xenofobia é o nome dado para medo, a aversão ou o ódio em relação a pessoas de ou- tras nacionalidades, culturas ou etnias� É uma forma de preconceito que se baseia na crença de que os indivíduos ou grupos estrangeiros são inferiores, ameaçadores ou perigosos. De acordo com Simões et al� (2018, p� 265): [���] A xenofobia refere-se a uma intolerância, uma atitude, um comportamento de exclusão e rejei- ção em relação àqueles que são de fora da sua comunidade ou sociedade� No âmbito da proteção internacional dos direitos humanos, as organiza- ções, como as Nações Unidas, têm se mobiliza- 17 do no sentido de criar resoluções, declarações e programas para combater esse tipo de violência que é a xenofobia� Assim, ao mesmo tempo em que existem pessoas que não querem receber mi- grantes em seu território, há aqueles que buscam ajudá-los, acomodá-los e assisti-los, apresentando o paradoxo ainda existente� Os migrantes que buscam entrar ilegalmente nos países europeus encontram ali uma longa história de xenofo- bia, que tem início muito antes da contemporaneidade� Ainda na Idade Média, a perseguição católica contra os judeus e muçulmanos marcou a história da humanida- de. Na atualidade, grupos de extrema-direita têm nos imigrantes e refugiados um dos seus maiores alvos. Segundo o jornal Liberatión, manifestações racistas e o crescimento de células nazistas em todo o mundo mostram que a xenofobia cresceu� Referindo-se aos intensos movimentos de protestos rea- lizados por movimentos xenófobos e ultranacionalistas, como o Pegida, na Alemanha, e a ascensão de políticos de extrema direita, como o ministro do Interior na Itália, Matteo Salvini, ou o primeiro-ministro da Hungria, Vik- tor Orbán, o editorial do referido jornal afirmou: “Nos últimos três dias, vimos desfile de neonazistas pelas ruas de Estocolmo (Suécia) e manifestações violentas de militantes de extrema-direita em Chemnitz, no leste da Alemanha” (DISCURSO���, 2018)� 18 A realidade é que, apesar do avanço da ciência e do co- nhecimento sobre a importância do multiculturalismo e da alteridade, em diversos países, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, há ataques e violência contra imigrantes e refugiados que tentam chegar ou se estabelecer nessas regiões. Como medida protecionista, alguns países têm adota- do políticas migratórias mais restritivas, tornando mais difícil para pessoas de outras nacionalidades ou etnias se estabelecerem nesses lugares. Muitas pessoas que conseguem atravessar as barreiras da imigração sofrem discriminação no mercado de trabalho por causa de sua origem étnica ou nacionalidade e, em alguns países, há restrições ou discriminação em relação a práticas religiosas de minorias étnicas ou culturais 19 Considerações finais 9 A valorização da alteridade é fundamental para a construção de sociedades mais justas e democráticas; 9 Com a aceitação e valorização da alteridade, há o reconhecimento da diversidade cultural e o respeito aos direitos das minorias; 9 A ausência ou negação da alteridade pode levar à discriminação, ao racismo, à xenofobia e à marginali- zação e opressão de grupos minoritários; 9 A valorização da alteridade se dá por meio do diálo- go intercultural, da promoção do multiculturalismo, da defesa dos direitos humanos e da luta contra a discri- minação e o preconceito; 9 A Antropologia fornece as ferramentas teóricas e metodológicas necessárias à compreensão e valorização da diversidade cultural, da alteridade e da coexistência� 20 Direitos Humanos e cidadania Os Direitos Humanos e a cidadania são conceitos fun- damentais para a construção de sociedades justas e igualitárias. Eles estabelecem a base para a garantia da dignidade, liberdade e igualdade de todos os seres humanos, independentemente de sua origem, raça, gê- nero, religião ou qualquer outra característica pessoal. Os Direitos Humanos são direitos inerentes a todos os indivíduos, reconhecidos internacionalmente, e estão fundamentados na ideia de que todos os seres humanos são iguais em dignidade e merecem respeito e prote- ção� Esses direitos são universais, interdependentes e indivisíveis, englobando direitos civis, políticos, econô- micos e sociais� Um dos marcos fundamentais na história dos Direitos Humanos é a Declaração de Direitos do Homem e doCidadão, proclamada durante a Revolução Francesa, em 1789� Essa declaração estabeleceu princípios univer- sais de liberdade, igualdade e fraternidade, tornando-se uma referência importante para a proteção dos direitos individuais� Outro evento significativo foi a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948� A DUDH foi elabo- rada em resposta aos horrores presenciados durante 21 a Segunda Guerra Mundial e proclamou que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, sem distinção de raça, cor, religião e sexo, entre outros� A DUDH estabeleceu os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais que todos os países são chamados a respeitar e proteger. Ao longo do século 20, vários tratados internacionais de Direitos Humanos foram desenvolvidos para ampliar e aprofundar a proteção desses direitos� Dentre eles, destaca-se o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), ambos ado- tados em 1966� Além dos tratados internacionais, movimentos sociais e lutas por direitos específicos também contribuíram para o avanço dos Direitos Humanos� O movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, liderado por figuras como Martin Luther King Jr., lutou contra a segregação racial e a discriminação, promovendo a igualdade e a justiça para a comunidade afrodescendente� No campo das mulheres, o movimento feminista de- sempenhou um papel crucial na luta pela igualdade de gênero, pela autonomia e pelos direitos reprodutivos. A Conferência Mundial sobre os Direitos da Mulher, realizada em Pequim, em 1995, foi um marco para a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres� 22 A cidadania, por sua vez, está intrinsecamente ligada aos direitos e deveres dos cidadãos em uma determinada sociedade. Ser cidadão significa não apenas ter direitos, mas também assumir responsabilidades em relação ao bem-estar coletivo e ao exercício da democracia� É a participação ativa na vida política, social e cultural da comunidade, com base em princípios de igualdade, justiça e solidariedade� Conforme Hannah Arendt (2000), a cidadania é a ca- pacidade dos indivíduos de agir e participar na esfera pública, exercendo sua liberdade e promovendo a plura- lidade de ideias� Sua obra A condição humana, publicada em 1958, explora a relação entre cidadania, liberdade e ação política� Um dos conceitos fundamentais abordados por Arendt (2000) é a distinção entre a esfera pública e a esfera privada. Ela argumenta que a ação política e a parti- cipação na vida pública são essenciais para a plena realização do ser humano como ser político� Para ela, a esfera pública é o espaço onde os indivíduos exercem sua liberdade e agem em conjunto, discutindo questões comuns e tomando decisões� A cidadania, no Brasil, passou por um processo de cons- trução gradual e complexo, marcado por desigualdades e exclusões. Segundo José Murilo de Carvalho (2001), durante o período colonial, a cidadania estava restrita a uma pequena elite de brancos proprietários de terra, 23 enquanto a maioria da população, incluindo indígenas, negros escravizados e mulheres, estava excluída dos direitos políticos e sociais� Ao longo do século 19, com a independência e o fim da escravidão, ocorreram mudanças significativas na con- cepção de cidadania no Brasil. Carvalho argumenta que o país adotou um modelo de cidadania restritiva, onde direitos políticos e sociais eram concedidos apenas a uma parcela limitada da população, como os homens livres e proprietários de terras� No entanto, no século 20, houve avanços na ampliação da cidadania no Brasil� A Constituição de 1934, por exemplo, foi um marco importante ao garantir direitos trabalhistas e sociais� Carvalho também destaca a Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, que estabeleceu uma série de direitos e garan- tias fundamentais para todos os cidadãos brasileiros� A ausência de direitos humanos e cidadania cria um ambiente propício para a violência, abusos e arbitrarie- dades por parte das autoridades e de outros indivíduos� Sem a proteção dos direitos fundamentais, as pessoas ficam vulneráveis à opressão, discriminação, tortura e tratamento desumano. Viver sem direitos humanos e cidadania impede o pleno desenvolvimento humano� 24 Considerações finais 9 A cidadania no Brasil ainda enfrenta desafios e de- sigualdades persistentes que limitam o pleno exercício da cidadania por parte de muitos brasileiros; 9 É importante a participação cívica e política na cons- trução de uma cidadania efetiva, enfatizando a necessi- dade de uma sociedade civil engajada e de instituições democráticas fortes; 9 A defesa dos Direitos Humanos é um processo con- tínuo de evolução e enfrentamento de desafios, uma vez que persistem violações e injustiças em diferentes partes do mundo� 9 Direitos Humanos nos lembra a importância de se defender e promover a dignidade e os direitos de todas as pessoas, independentemente de sua origem, raça, religião, gênero ou orientação sexual. 25 Políticas públicas As políticas públicas desempenham um papel crucial no apoio ao multiculturalismo, pois são responsáveis por criar condições para que as diversas culturas sejam reconhecidas, valorizadas e respeitadas em um deter- minado país ou região. Você saberia definir políticas públicas? É um consenso entre os pesquisadores que as políticas públicas são o “Estado em ação”� De acordo com Hofling (2001, p. 30), política pública: [...] é o Estado implantando um projeto de governo, através de programas, de ações voltadas para se- tores específicos da sociedade. Estado não pode ser reduzido à burocracia pública, aos organismos estatais que conceberiam e implementariam as políticas públicas� As políticas públicas são aqui compreendidas como as de responsabilidade do Estado – quanto à implementação e manutenção a partir de um processo de tomada de decisões que envolve órgãos públicos e diferentes orga- nismos e agentes da sociedade relacionados à política implementada� Aqui, é importante pensarmos na relação do Estado com as políticas públicas� Não podemos pensar que política pública é apenas política estatal� No século 19, com os movimentos populares, foi pleiteada a ação estatal, em conjunto com órgãos da sociedade indus- trial, para se pensar o atendimento aos trabalhadores e 26 seus familiares� Esses movimentos pediam o que hoje entendemos como direitos dos cidadãos e até mesmo deveres da cidadania� A educação pública é um exemplo de política pública de recorte social, de responsabilidade do Estado e pensada em coletividade com a sociedade, tendo em vista que, ao se pensar todo o processo educativo, especialistas na área de educação são ouvidos e participam da ela- boração da política pública� As políticas públicas para a promoção da valorização da identidade cultural, do multiculturalismo e da alteridade são várias e devem ser estimuladas em qualquer socie- dade que se pretenda democrática� Uma lei, por exemplo, é uma política pública regulatória. Elas criam, aprimoram e fiscalizam os direitos e deveres dos cidadãos. Um exemplo de política pública para a valorização do passado, da história do país e do multiculturalismo é a Lei nº 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africa- na nas escolas do país� Ela foi criada com o objetivo de combater o racismo, promover a igualdade racial e valorizar a contribuição dos povos negros na formação da sociedade brasileira� A importância dessa lei é múltipla e abrangente. Ela busca corrigir uma lacuna histórica no currículo escolar brasileiro, que muitas vezes negligenciou a história e a cultura dos povos afrodescendentes� Ao incluir o estudo 27 da história e cultura afro-brasileira e africana, a lei busca promovera valorização da diversidade étnico-racial e combater o preconceito e a discriminação racial� Além disso, a Lei nº 10�639/2003 contribui para a cons- trução de uma identidade nacional mais inclusiva e plural, ao reconhecer e valorizar a influência dos povos africanos na formação da cultura brasileira� Ela promo- ve o respeito à diversidade cultural, estimula o diálogo intercultural e fortalece o sentimento de pertencimen- to de estudantes afrodescendentes, que muitas vezes não se viam representados nos currículos escolares tradicionais� A implementação dessa lei também tem impactos so- ciais importantes. Ao educar as novas gerações sobre a história e cultura afro-brasileira e africana, a lei con- tribui para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, onde o racismo e a discriminação sejam combatidos de maneira efetiva� Ela promove a cons- ciência crítica, o respeito às diferenças e a construção de relações mais igualitárias entre as pessoas. É válido destacar que a Lei nº 10�639/2003 não se limita apenas ao ambiente escolar, mas também influencia ou- tras esferas da sociedade, como a produção cultural, a mídia e as políticas públicas� Ela serve como um marco legal que orienta e estimula a promoção da igualdade racial em diversas áreas� 28 Assim, percebemos que o papel das políticas públi- cas na promoção do multiculturalismo não é pequeno� Essas políticas públicas podem ser usadas para re- conhecimento e valorização, como a lei citada acima, que busca a inclusão e igualdade de oportunidades. Mas também pode haver outros modos de atuação, como a realização de eventos culturais ou a promoção de intercâmbios entre culturas, através do incentivo à educação multicultural� O fomento ao diálogo intercultural é uma maneira de incentivar o diálogo entre as culturas, por meio de pro- gramas que promovam a interação entre grupos de diferentes culturas e a promoção do respeito mútuo� Outro papel das políticas públicas é o da promoção da igualdade de oportunidades nas várias dimensões de nossas vidas, como emprego, acesso à saúde e mora- dia, entre outros� Assim, as políticas públicas desempenham um papel crucial no apoio ao multiculturalismo, pois elas são responsáveis por criar condições para que as diversas culturas sejam reconhecidas, valorizadas e respeitadas em um determinado país ou região. As ações para a promoção do multiculturalismo não de- vem estar restritas aos ambientes escolares� Em todos os espaços é possível trabalhar a diversidade� Podemos citar os grafites nos muros que colorem a cidade como um espaço para o multiculturalismo� 29 Figura 1: Os cinco retratados no mural “Imigrantes”, em Nova York. Fonte: https://viagemeturismo.abril.com.br/materias/conheca- os-mais-incriveis-murais-de-eduardo-kobra-pelo-mundo/� A diversidade e o multiculturalismo são sentidos em todas as grandes cidades: “Em meio a hippies oferecendo pulseiras e brincos na Praça da República, no centro de São Paulo, senegaleses vendem miniaturas de escultu- ras de rinocerontes, hipopótamos e girafas. “Não tem baobá, mas tem ébano”, explica um deles, com um acentuado sotaque francês, para um cliente� A poucos metros, outro homem vende itens seme- lhantes, mas é queniano� Na Liberdade, tradicional reduto oriental, os tecidos africanos se misturam, no fim de semana, às barracas de temaki, pastel e tempurá. (OS TRAÇOS..., 2014). https://viagemeturismo.abril.com.br/materias/conheca-os-mais-incriveis-murais-de-eduardo-kobra-pelo-mundo/ https://viagemeturismo.abril.com.br/materias/conheca-os-mais-incriveis-murais-de-eduardo-kobra-pelo-mundo/ 30 Porém, a convivência aparentemente pacífica pode es- conder graves problemas sociais. Atualmente, segundo dados da organização não-governamental Safernet, os crimes de xenofobia foram os que mais cresceram em denúncias no ano de 2022, mas os crimes de ódio, que envolvem apologia ao nazismo, racismo, misoginia, LGBTfobia e ainda intolerância religiosa também sofre- ram aumento, conforme demonstrado na tabela abaixo: Tabela 1: O crescimento das denúncias de crimes de ódio no Brasil, entre 2017 e 2022� Centro Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos� Crime de ódio 2017 2018 Crescimento em 2018 (%) 2019 2020 Crescimento em 2020 (5) 2021 2022 Crescimento em 2022 (%) Apologia e crimes con- tra a vida 10611 27713 161,17% 8182 11852 44,85% 7390 10384 40,50% LGBTFobia 2592 4244 63,73% 2752 5293 92,30% 5347 8136 52,16% Misoginia 961 16717 1639,50% 7112 12698 78,50% 8174 28679 250,85% Neonazismo 1172 4244 262,10% 1071 9004 740,70% 14476 2661 -81,60% Racismo 6166 8336 35,10% 4310 10684 147,80% 6888 9259 34,60% Xenofobia 1395 9703 595,50% 978 2066 111,20% 1097 10686 874,10% Intolerância religiosa 1459 1084 -25,70 1413 1321 - 6,51% 759 4220 455,99% Total de denúncias: 24356 72041 195,78% 25818 52918 104,96% 44131 74025 67,70% Fonte: www.safernet.org.br� Esses dados nos mostram a necessidade do aumento incisivo de políticas públicas de combate à discrimina- ção de todo e qualquer tipo, por meio da criação de leis e da implementação de programas educacionais e so- ciais que visem à eliminação dessas práticas� No caso de leis já criadas, a fiscalização do seu cumprimento é imprescindível para a sua eficácia. https://www.safernet.org.br 31 Considerações finais 9 As políticas públicas e o multiculturalismo estão interligados de várias maneiras; 9 O multiculturalismo reconhece e valoriza a diversidade cultural em uma determinada sociedade, promovendo a coexistência de diferentes grupos étnicos, religiosos, linguísticos e culturais; 9 As políticas públicas são instrumentos utilizados pelos governos para lidar com questões sociais, econô- micas e culturais, buscando atender às necessidades e demandas da população; 9 A Lei nº 10�639/2003 representa um marco impor- tante no reconhecimento da diversidade étnico-racial do Brasil e na busca por uma educação mais inclusiva e antirracista; 9 A Lei nº 10�639/2003 contribui para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, que valoriza todas as suas raízes e histórias; 9 A discriminação prejudica a igualdade de oportuni- dades e o acesso a direitos básicos; 9 O Estado tem a responsabilidade de garantir que todas as pessoas sejam tratadas de forma igualitária, independentemente de sua origem étnica, gênero, orien- tação sexual, religião ou qualquer outra característica pessoal� 32 Integração social Iremos recorrer, neste ponto, a um dos principais teó- ricos a trabalhar o conceito de cultura, de identidade e diversidade: Stuart Hall (1932-2014)� Esse autor é co- nhecido por suas contribuições para os estudos cultu- rais e a compreensão do multiculturalismo� A partir das teorias de Hall, é possível pensar a integração social. Hall abordou o multiculturalismo como uma resposta aos desafios trazidos pela diversidade cultural em so- ciedades complexas e globalizadas. Ele argumentou que as identidades culturais são formadas por meio de processos sociais e históricos, e não são fixas ou essenciais. Segundo Hall, a identidade não é uma ca- racterística intrínseca, mas uma construção social e discursiva que se desenvolve em interação com o am- biente social e cultural� Hall enfatizou a importância de se reconhecer e valo- rizar a multiplicidade de identidades culturais e subje- tividades presentes nas sociedades contemporâneas� Ele defendeu uma abordagem que reconhecesse a complexidade e a fluidez das identidades, evitando generalizações simplistas ou estereótipos culturais. Para ele, o multiculturalismo não se tratava apenas de tolerância ou coexistência, mas sim de valorizar e pro- mover a diversidade como uma fonte de enriquecimento cultural e social� 33 Uma das principais contribuições de Hall foi a ideia de “identidade híbrida” ou “identidade mestiça”. Ele argu- mentou que a identidade não é singular ou fixa, mas é formada a partir de diferentes influências culturais e experiências. Hall chamoua atenção para a fluidez e a negociação constante das identidades, destacando a importância de reconhecer as múltiplas dimensões e as interseções das identidades individuais e coletivas� No contexto do multiculturalismo, Hall também abor- dou as questões de poder, desigualdade e exclusão. Ele criticou a ideia de que o multiculturalismo deveria simplesmente celebrar as diferenças culturais sem le- var em conta as estruturas de poder e as relações de dominação que podem existir na sociedade� Stuart Hall ainda destacou a importância de considerar questões de classe, raça, gênero e sexualidade ao lidar com a di- versidade cultural, para garantir uma abordagem mais justa e igualitária, por meio da interseccionalidade des- ses indicadores� Contemporâneo de Hall, Charles Taylor (1931- atual) ela- borou perguntas que norteiam os estudos sobre o tema: “O que significa para os cidadãos com dife- rentes identidades culturais, muitas vezes baseadas em etnia, raça, gênero ou religião, reconhecer-nos como iguais na maneira como somos tratados na política? Na maneira como nossos filhos são educados em escolas públicas? No currículo e 34 na política social das faculdades e universidades liberais? (TAYLOR et al�, 1994, p� 3)� Sendo assim, para se garantir que haja um processo de integração social, é preciso conhecer e reconhecer as diversas identidades em questão� O reconhecimento do outro como igual não é simples, afinal a interação prevê a conexão entre pessoas de diferentes origens, culturas, grupos sociais ou econômicos, permitindo que elas sejam membros plenos e contribuintes da comu- nidade em que vivem� A integração social é caracterizada pela aceitação mú- tua, respeito, igualdade de oportunidades e participação ativa na vida social, econômica, política e cultural� Ela busca superar barreiras, como preconceitos, estigmas, discriminação e exclusão social, promovendo a coe- são social e a construção de sociedades mais justas e inclusivas� Por meio da integração social, os indivíduos têm aces- so a serviços básicos, direitos e oportunidades, como educação, saúde, emprego, participação política e en- gajamento comunitário. Isso contribui para o fortaleci- mento do tecido social, o desenvolvimento humano e o bem-estar geral da sociedade como um todo. 35 Considerações finais 9 Para Stuart Hall, o multiculturalismo e a integração são conceitos inter-relacionados, mas que possuem abordagens distintas; 9 Hall defende que o multiculturalismo não deve ser entendido como uma mera coexistência passiva de diferentes culturas; 9 O multiculturalismo, para Hall, é um processo di- nâmico que valoriza a diversidade cultural e busca a equidade entre os diferentes grupos presentes em uma sociedade; 9 Taylor destaca a importância de uma política de re- conhecimento, em que as identidades culturais sejam valorizadas e respeitadas; 9 Isso implica em dar voz e visibilidade às minorias culturais, garantindo que suas perspectivas e necessi- dades sejam levadas em consideração nas decisões políticas e sociais; 9 Taylor argumenta que a integração social também requer a construção de laços de solidariedade entre os diferentes grupos; 9 Isso implica em uma participação ativa e equitativa na esfera pública, promovendo a igualdade de oportu- nidades, a justiça social e o respeito aos direitos de todos os cidadãos; 9 Integração social não pode ser confundida com as- similação forçada� 36 Referências Bibliográficas & Consultadas CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Geertz, C� Os usos da diversidade� In: Geertz, C� Nova luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000. DISCURSO xenófobo volta às ruas sem censura em vários países da Europa� G1, 28 ago. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/08/28/ discurso-xenofobo-volta-as-ruas-sem-censura-em-varios- -paises-da-europa.ghtml � Acesso em: 08 mai� 2023� HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade� 11� ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006� OLIVEIRA, M. da G.; CABRAL, B. E. da S. L. Alteridade cultural: reflexões teóricas sobre suas transformações decorrentes do processo de globalização. INIC: Ciências Básicas e Desenvolvimento Sustentável, v� 26, n� 26, p� 2-16, ago. 2022. Disponível em: https://www.inicepg.uni- vap.br/cd/INIC_2003/trabalhos/epg/7cienciashumanas/ EC7-2�pdf� Acesso em: 13 mai� 2023� SIMÕES, B. B. de O.; RUDNICKI, D.; COSTANZA, G. S.; MARTINI, S. R. 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BRASIL� Lei nº 10�639, de 9 de janeiro de 2003� Altera a Lei nº 9�394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatorieda- de da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências� Diário Oficial da União, Brasília, 10 jan� 2003� Disponível em: https://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/leis/2003/l10�639�htm� Acesso em: 10 mai� 2023� CENTRO NACIONAL de Denúncias de Crimes Cibernéti- cos� Disponível em: https://www.safernet.org.br� Acesso em: 10 mai� 2023� OS TRAÇOS multiculturais de São Paulo. 2014� Disponí- vel em: https://oestrangeiro.org/2014/01/09/os-novos- -tracos-de-sao-paulo/� Acesso em: 10 mai� 2023� https://revista.univem.edu.br/emtempo/article/view/2616 https://revista.univem.edu.br/emtempo/article/view/2616 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm https://www.safernet.org.br https://oestrangeiro.org/2014/01/09/os-novos-tracos-de-sao-paulo/ https://oestrangeiro.org/2014/01/09/os-novos-tracos-de-sao-paulo/ 38 HOFLING, H. M. Estado e Políticas (Públicas) Sociais. Cadernos Cedes, a� 21, n� 55, nov� 2001� TAYLOR, C; APPIAH, K. A.; ROCKFELLER, S. C.; WALZER, M.; WOLF, S. Multiculturalism: examining the politics of recognition. New Jersey: Princeton University Press, 1994. _heading=h.30j0zll _heading=h.1fob9te _Hlk138150675 _heading=h.3znysh7 Identidade cultural e diversidade Pluralidade cultural: coexistências pacíficas Considerações finais Direitos Humanos e cidadania Considerações finais Políticas públicas Considerações finais Integração social Considerações finais Referências Bibliográficas & Consultadas