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Cíntia Gomide Tosta Suemi Hamada Morais Silva Adriana Vaz Efísio Emanuel Glaucia Eli Silva Maria Cecília Daher Mônica Corrêa Avelar Vânia Maria de Oliveira Vieira Psicologia do desenvolvimento Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central Uniube P959 Psicologia do desenvolvimento / Cíntia Gomide Tosta ... [et al.]. – Uberaba: Universidade de Uberaba, 2017. 304 p. : il. Programa de Educação a Distância – Universidade de Uberaba. Inclui bibliografia. ISBN 1. Psicologia do desenvolvimento. 2. Psicologia educacional. 3. Piaget, Jean, 1896-1980. 4. Crianças – Aprendizagem. I. Tosta, Cíntia Gomide. II. Universidade de Uberaba. Programa de Educação a Distância. CDD 155 © 2017 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor Marcelo Palmério Pró-Reitor de Educação a Distância Fernando César Marra e Silva Coordenação de Graduação a Distância Sílvia Denise dos Santos Bisinotto Editoração e Arte Produção de Materiais Didáticos-Uniube Revisão textual Stela Maria Queiroz Dias Diagramação Andrezza de Cássia Santos Projeto da capa Agência Experimental Portfólio Edição Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Cíntia Gomide Tosta Mestre em Psicologia e Especialista em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Graduada em Direito e Pedagogia. Atua com gestão escolar e como pesquisadora dos processos de aprendizagem e desenvolvimento principalmente relacionados ao grafismo infantil. Docente no curso de formação do Departamento de Formação Profissional da Secretaria Municipal de Educação de Uberaba, pedagoga e pesquisadora do Arquivo Público de Uberaba. Suemi Hamada Morais Silva Graduada em Psicologia pela Universidade de Uberaba. Especialista em Psicologia Educacional/Escolar; em Pedagogia Clínica pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp); em Ciências e Valores Humanos pela Uniube. Professora da Universidade de Uberaba do curso de Psicologia, do curso de Medicina e no curso de Pedagogia. Adriana Vaz Efísio Emanuel Pedagoga, formada pela Universidade de Uberaba (Uniube). Pós-graduada em Psicopedagogia pelo Centro de Ensino Superior de Uberaba (CESUBE). Possui curso na área da Educação Inclusiva, pela PUC- MINAS e outros de extensão e formação de professores. Gláucia Eli Silva Pós-graduada em Psicopedagogia Institucional. Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ituverava. Professora das disciplinas de Docência Universitária e Metodologia do Trabalho Científico do curso de pós‑graduação em Gestão de Agronegócio da Sobre as autoras Universidade de Uberaba. Coordenadora do curso de pós-graduação em Psicopedagogia: Atendimento Educacional Especializado da Universidade de Uberaba (Uniube). Maria Cecília Daher Graduada em Psicologia pela Universidade de Uberaba (Uniube). Atuou na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Trabalho da Prefeitura Municipal de Sacramento de 1999 a 2008. Atuou como professora convidada do Curso de Pedagogia a distância da Universidade de Uberaba, em 2008. Mônica Corrêa Avelar Puertas Zafra Graduada em Pedagogia pela Universidade de Uberaba. Especialista em psicopedagogia institucional pela Universidade Federal de Uberlândia; em Metodologia do Ensino Superior e em Supervisão Pedagógica pela Faculdade do noroeste de minas. Vânia Maria de Oliveira Vieira Doutora em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestra em Educação e Formação de Educadores pela Universidade de Uberaba (Uniube). Graduada em Pedagogia, Licenciatura Plena pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ituverava, e em Psicologia pela Universidade de Uberaba (Uniube). Sumário Apresentação .......................................................................................IX Capítulo 1 Piaget e a educação.............................................................1 1.1 Piaget e a educação: contribuições da teoria do desenvolvimento piagetiana para a prática pedagógica ....................................................................................... 3 1.2 Converse com os seus colegas a respeito deste tema. Troque ideias! .................. 4 1.2.1 A Concepção Ambientalista ........................................................................... 4 1.2.2 A Concepção Inatista ..................................................................................... 5 1.2.3 A Concepção Interacionista ........................................................................... 6 1.3 A epistemologia genética e a prática pedagógica ................................................... 9 1.3.1 A construção da lógica do pensamento mental da criança por Jean Piaget ...... 9 1.3.2 Algumas conclusões .................................................................................... 14 1.4 A educação embasada nos conceitos piagetianos ............................................... 17 1.4.1 O papel do professor .................................................................................... 19 1.5 Desafios do trabalho pedagógico baseado na Teoria do desenvolvimento piagetiano ............................................................................................................... 22 1.6 Conclusão .............................................................................................................. 24 Capítulo 2 A Epistemologia genética de Jean Piaget ..........................29 2.1 A Epistemologia genética ....................................................................................... 31 2.2 A noção de equilíbrio na teoria piagetiana............................................................. 35 2.3 Constructos básicos da teoria piagetiana.............................................................. 37 2.4 O desenvolvimento da inteligência ........................................................................ 43 2.5 Estágios do desenvolvimento cognitivo para Piaget ............................................. 44 2.5.1 Principais características do estágio sensório-motor .................................. 45 2.5.2 Principais características do estágio pré-operacional ................................. 46 2.5.3 Principais características do estágio operacional-concreto ........................ 51 2.5.4 Principais características do estágio das operações formais. ..................... 55 2.6 O julgamento moral e o processo de socialização ................................................ 58 2.7 Conclusão .............................................................................................................. 61 Capítulo 3 A aprendizagem e o desenvolvimento para Vygotsky .......67 3.1 Vygotsky e o materialismo histórico ...................................................................... 69 3.2 O papel fundamental da cultura para a constituição humana ............................... 72 3.3 O sócio‑interacionismo de Lev Semenovich Vygotsky ........................................ 74 3.4 As interações socioculturais na constituição do indivíduo .................................... 76 3.5 O papel da mediação e dos signos ....................................................................... 78 3.6 O trabalho, a linguagem e a formação das funções psicológicas superiores, tipicamente humanas ............................................................................................ 80 3.7 Funções psicológicas elementares e funções psicológicas superiores ................ 83 3.8 Os diferentes níveis de desenvolvimento humano para Vygotsky ....................... 84 3.9 O papel da escolae do professor .......................................................................... 85 3.10 Conclusão ............................................................................................................ 86 Capítulo 4 A dinâmica dos fatores presentes na aprendizagem: uma ciranda de muitas voltas ............................................93 4.1 Piaget, Vigotsky e Wallon: a ciranda do desenvolvimento .................................... 96 4.2 Para que aprender? ............................................................................................... 97 4.3 Teorias do desenvolvimento .................................................................................. 99 4.4 As teorias interacionistas e sócio-interacionistas ................................................ 100 4.5 Jean Piaget e a criança ....................................................................................... 102 4.6 O pensamento piagetiano e a aprendizagem ..................................................... 105 4.7 Vigotsky e a criança ............................................................................................. 106 4.8 Conhecendo Henri Wallon ................................................................................... 110 4.9 Wallon e a pessoa completa ................................................................................ 116 4.10 Como a criança se desenvolve ......................................................................... 118 4.11 A influência dos fatores orgânicos e sociais ..................................................... 119 4.12 Desenvolvimento: contradições e conflitos ...................................................... 120 4.13 Os cinco estágios do desenvolvimento ............................................................. 121 4.14 Afetivo e cognitivo .............................................................................................. 125 4.15 Wallon e os Domínios Funcionais ..................................................................... 126 4.16 Afetividade, emoção, sentimento e paixão: muitos turbilhões .......................... 126 4.17 Movimento: equilíbrio e harmonia ..................................................................... 129 4.18 Afetividade .......................................................................................................... 132 4.19 Wallon e a educação ......................................................................................... 134 4.20 Vamos brincar de salada mista? Fatores presentes na educação ................... 139 4.21 Conclusão ......................................................................................................... 142 Capítulo 5 O desenvolvimento infantil e seus diferentes aspectos ...147 5.1 A criança e sua relação com o mundo................................................................. 149 5.1 O desenvolvimento humano ................................................................................ 154 5.3 A hereditariedade ................................................................................................. 158 5.4 Meio...................................................................................................................... 160 5.5 Maturação e aprendizagem ................................................................................. 164 5.6 As fases do desenvolvimento infantil sob a visão de alguns teóricos................. 169 5.7 O crescimento ...................................................................................................... 172 5.7.1 As direções do desenvolvimento físico -motor ........................................... 174 5.7.2 As diferentes velocidades do desenvolvimento ........................................ 175 UNIUBE VII 5.8 O desenvolvimento global da criança: a escola e o professor ............................ 178 5.8.1 O desenvolvimento global da criança ........................................................ 182 5.9 Conclusão ............................................................................................................ 187 Capítulo 6 Teoria psicossexual de Freud e a educação ...................191 6.1 Iniciando nossa conversa .................................................................................... 193 6.2 Mas quem foi Freud? ........................................................................................... 194 6.3 Teoria psicossexual de Sigmund Freud – Fases do desenvolvimento ............... 202 6.4 Em que a psicanálise contribui com a educação? .............................................. 215 6.5 Conclusão ............................................................................................................ 217 Capítulo 7 Visões comportamentalistas da aprendizagem ...............221 7.1 Comportamento: o objeto de estudo da Teoria Comportamentalista da Aprendizagem ...................................................................................................... 222 7.2 A pesquisa de Watson ......................................................................................... 226 7.3 As contribuições de Pavlov – o condicionamento clássico ................................. 228 7.4 A teoria de Skinner – o comportamento operante ............................................... 232 7.5 A teoria comportamentalista e suas implicações para a educação .................... 239 7.6 Conclusão ............................................................................................................ 251 Capítulo 8 Contribuições da Teoria Humanista de Carl Rogers .......255 8.1 Apresentando a abordagem humanista .............................................................. 256 8.2 Características da abordagem humanista ........................................................... 263 8.3 Abordagem humanista de Carl Ranson Rogers .................................................. 269 8.4 Dos conceitos da psicoterapia para a aprendizagem ......................................... 274 8.5 Princípios da psicoterapia centrada no cliente para os princípios da aprendizagem centrada no aluno ........................................................................ 276 8.6 Conclusão ............................................................................................................ 286 Compreender o desenvolvimento humano e a infância é tarefa de fundamental importância no trabalho do pedagogo, uma vez que você ambiciona “ensinar às crianças” conhecimentos, saberes e circunspecções. Esse é um grande desafio, porque o ser humano é ímpar em sua constituição física, emocional, cognitiva, social e cultural e aprende em tempos e de formas diferentes. Felizmente, pesquisadores como Piaget, Vygotsky e tantos outros, se dispuseram a pesquisar e observar tão complexo ser, contribuindo assim, com suas descobertas, para a nossa compreensão do desenvolvimento infantil. O salmista bíblico disse: “Fui feito maravilhosamente, dum modo atemorizante” (Salmo 139:14). Essa expressão inspirada revela o quão intrincado é o ser humano e quão grande deve ser nossos esforços em aprender a “ler” nossas crianças, em nossa sala de aula. Quando aprendemos a olhar e “ver” a criança com suas especificidades, suas habilidades, suas necessidades e sentimentos, podemos planejar, propor, avaliar e orientar melhor o nosso aluno. Esse estudo da Psicologia do Desenvolvimento pretende provocar em você, um interesse, uma curiosidade, uma busca de conhecimento, bastante comprometida com a grandiosidade da responsabilidade de educar, com qualidade, as crianças em seu cotidiano escolar. O primeiro capítulo “Piaget e a educação” e o segundo capítulo “A Epistemologia genética de Jean Piaget”, apresentam uma perspectiva dialógica do trabalho de Piaget priorizando as contribuições aplicadas à educação escolar e à prática pedagógica do professor. Apresentação X UNIUBE No capítulo três, “A aprendizageme o desenvolvimento para Vygotsky” apresentaremos o trabalho de Vygotsky e de seus principais colaboradores, Luria e Leontiev. Abordaremos os mais importantes postulados da teoria histórico-cultural que defende a questão da humanização a partir de uma perspectiva complexa, pluridimensionada e dialética. O quatro, capítulo “A dinâmica dos fatores presentes na aprendizagem: uma ciranda de muitas voltas” apresentará a teoria de Henri Wallon com a tentativa de ver a criança de um modo mais integral, considerando que a escola é um lugar onde se educa, mas, principalmente, onde se deve estudar a personalidade infantil. Considerará uma retomada das ideias principais de Vygotsky e Piaget, confrontando-as com a perspectiva humanista de Henri Wallon e discutirá os aspectos convergentes dos três autores, focalizando o que, desse estudo, mais nos interessa: a criança, seu desenvolvimento e sua aprendizagem. No quinto capítulo “O desenvolvimento infantil em seus diferentes aspectos” você compreenderá como se processa o desenvolvimento global da criança, e como essa criança contribui ativamente com sua própria evolução. Você estudará como a escola e o professor precisam compreender as necessidades da criança e como devem intervir a partir desse universo infantil. O capítulo seis “Teoria psicossexual de Freud e a educação” apresenta a primeira teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico. Por meio dessa teoria, Freud procurou compreender a estrutura e o funcionamento da personalidade, por meio do estudo dos três sistemas ou instâncias psíquicas: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Estudaremos também a psicanálise, e veremos como burlamos a realidade diante de situações ruins ou que nos causam constrangimentos, “deformando a realidade”, utilizando, para tanto, os mecanismos de defesa. E, por fim, veremos quais as contribuições da psicanálise para a educação. UNIUBE XI No capítulo sete, “Visões comportamentalistas da aprendizagem”, elucidaremos as ideias centrais da abordagem comportamentalista ou behaviorista e suas implicações no campo da educação. Serão destacados aqui o pensamento de Watson, Pavlov e Skinner, com ênfase em conceitos como: condicionamento, estímulo, reforço positivo e negativo, punição, ensino programado e outros. O oitavo capítulo “Contribuições da Teoria humanista de Carl Rogers para a educação” vem tratar das reflexões sobre como essa teoria pode ser associada à prática pedagógica. Vamos associar seus pressupostos teóricos à prática do professor, identificar suas contribuições para o processo ensino-aprendizagem e analisar a importância da visão humanista para a construção das relações interpessoais nos ambientes escolares. Ao final desse estudo, esperamos que você tenha apreendido os conceitos básicos sobre o Desenvolvimento da Criança, tenha percebido a importância desses conhecimentos em sua prática pedagógica e principalmente, que você tenha aguçado o desejo de conhecer mais e melhor o ser humano com quem pretende trabalhar no dia-a-dia. Bons estudos e boas reflexões!!! Professora Ana Maria Silva Cíntia Gomide Tosta Introdução Piaget e a educaçãoCapítulo 1 Caro cursista, você já parou para pensar a respeito do processo de desenvolvimento e aprendizagem dos humanos? Já percebeu o quanto esse processo envolve uma multiplicidade de fatores, tanto internos quanto externos aos sujeitos? E, ainda, o quanto o conhecimento deste processo tão complexo é fundamental à educação, uma vez que a função primeira desta é a promoção da aprendizagem e do desenvolvimento humano? O meu objetivo, neste capítulo, é apresentar estas questões históricas a você, em uma perspectiva dialógica, priorizando as contribuições do trabalho de Jean Piaget, aplicadas à educação escolar e à prática pedagógica do professor. Neste estudo, sugiro que você se aproprie de uma postura reflexiva e investigativa, articulando essas ideias às práticas de ensino realizadas. 2 UNIUBE Ao final do estudo deste capítulo, você deverá ser capaz de: • identificar a importância da Teoria do desenvolvimento de Piaget para a educação escolar; • identificar as três grandes concepções modernas de desenvolvimento humano, inserindo Piaget em uma delas; • explicar o papel do professor em uma proposta piagetiana; • distinguir o papel do professor em cada uma das concepções de desenvolvimento humano; • explicar as principais contribuições da teoria piagetiana para a prática pedagógica. 1.1 Piaget e a educação: contribuições da Teoria do Desenvolvimento piagetiana para a prática pedagógica 1.2 Concepções de desenvolvimento humano e a Teoria piagetiana 1.2.1 A Concepção Ambientalista 1.2.2 A Concepção Inatista 1.2.3 A Concepção Interacionista 1.3 A epistemologia genética e a prática pedagógica 1.3.1 A construção da lógica do pensamento mental da criança por Jean Piaget 1.3.2 Algumas conclusões 1.4 A educação embasada nos conceitos piagetianos 1.4.1 O papel do professor 1.5 Desafios do trabalho pedagógico baseado na Teoria do desenvolvimento piagetiano 1.6 Conclusão Objetivos Esquema UNIUBE 3 1.1 Piaget e a educação: contribuições da Teoria do Desenvolvimento piagetiana para a prática pedagógica Para você, como os seres humanos constroem conhecimento? Ou ainda, como os seres humanos se desenvolvem de um nível de conhecimento mais elementar para outro mais complexo? Diversos teóricos, no transcorrer da história humana, têm procurado responder a estas questões importantíssimas para nós, educadores. Afinal, como pode a escola promover a aprendizagem e o desenvolvimento de seus alunos se não tiver um embasamento teórico sólido a respeito do processo de aprendizagem e do desenvolvimento humano? E ainda, se essa escola não tiver um embasamento que sustente e norteie a práxis pedagógica dos professores? Práxis é uma palavra de origem grega associada à concepção de articulação entre teoria e prática e ao conceito de dialética. Essa palavra pode ser utilizada em várias áreas como, por exemplo: práxis religiosa, práxis científica, práxis educativa. Caso você queira saber mais sobre práxis educativa sugiro que, inicialmente, leia os livros Paulo Freire, principalmente a obra: Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa” e o livro Pedagogia da práxis, de Moacir Gadotti. As referências completas desses livros constam nas Referências ao fim do capítulo. SAIBA MAIS Converse com os seus colegas a respeito deste tema. Troque ideias! TROCANDO IDEIAS! 4 UNIUBE 1.2 Converse com os seus colegas a respeito deste tema. Troque ideias! Para compreendermos melhor as questões relativas ao processo de desenvolvimento e aprendizagem da espécie humana, apresentarei a você três grandes concepções modernas a respeito do desenvolvimento humano, destacando o papel do professor em cada uma delas, e em qual Piaget está inserido. Em linhas gerais, os estudos e pesquisas a respeito do desenvolvimento humano estão contidos em três grandes concepções teóricas: ambientalismo, inatismo e interacionismo. Essas concepções, ao postularem diferentes noções de homem, aprendizagem e desenvolvimento, defendem diferentes posições epistemológicas em relação aos sujeitos e ao meio em que estão inseridos. 1.2.1 A Concepção Ambientalista Na Concepção Teórica Ambientalista, o desenvolvimento humano é resultado das experiências sociais do sujeito, e a criança é considerada uma tabula rasa, expressão latina que pode ser traduzida como ausência de conhecimentos. Esta Concepção defende que os seres humanos nascem sem características psicológicas determinadas e todo o conhecimento é compreendido como o resultado das experiências do indivíduo. Por isso, segundo essa Concepção, temos, no ambiente escolar, o professor como figura central do processo pedagógico e o aluno como sujeito passivo, receptor do conhecimento transmitido por este professor. Posições epistemológicas Sãoposições advindas do conhecimento científico. UNIUBE 5 Para saber mais sobre a Teoria Ambientalista, sugiro que você pesquise e leia sobre o pensamento do filósofo inglês John Locke, e do político, filósofo e ensaísta inglês Francis Bacon, os precursores desta concepção. SAIBA MAIS A Concepção de Desenvolvimento Ambientalista também é conhecida por alguns autores como “empirismo”! IMPORTANTE! 1.2.2 A Concepção Inatista Na Concepção Inatista, o desenvolvimento psicológico humano é compreendido como pré-determinado no sujeito, ou seja, ele já está inscrito no indivíduo, as ideias são inatas, nascemos com elas, cabendo- nos apenas relembrá-las quando necessário. Esta concepção enfatiza que o desenvolvimento humano está sustentado na pré-determinação genética, em que aptidões individuais e até mesmo a inteligência são características hereditárias, herdadas dos pais. Nesta concepção o “dom” e o “talento natural” são fortemente ressaltados e o desenvolvimento humano está pouco articulado com a aprendizagem e as experiências socioculturais dos sujeitos. Nesta perspectiva, cabe ao professor apenas criar oportunidades para que o saber já previamente determinado possa ser expresso pelo aluno. Aqui podemos perceber a criança como o sujeito ativo e o professor como sujeito passivo do processo de aprendizagem. Para saber mais sobre o Inatismo, sugiro que você pesquise e leia o pensamento do filósofo, físico e matemático francês René Descartes que, para alguns autores, foi o precursor do racionalismo na Idade Moderna. SAIBA MAIS 6 UNIUBE A Concepção de Desenvolvimento Inatista é citada, por vários autores, com a expressão “racionalismo”! IMPORTANTE! 1.2.3 A Concepção Interacionista Na Concepção Interacionista, o processo de desenvolvimento humano, por sua complexidade, é concebido como o resultado das interações entre fatores biológicos, ou seja, aqueles inerentes ao indivíduo, e, também, fatores ambientais, aqueles relativos ao ambiente em que este indivíduo está inscrito, mais especificamente a família, a escola e os demais grupos sociais em que convive (Figura 1). Nesta terceira Concepção, é proposto um diálogo entre aquilo que a criança traz ao nascer e as condições do meio em que se encontra. Figura 1: Concepção Interacionista. Fonte: Acervo EAD. Fatores biológicos (inerentes ao indivíduo) Fatores ambientais (relativos ao ambiente) + Interação Ao defender que o conhecimento é construído e reconstruído pela interação entre os fatores inatos e os fatores ambientais, a concepção interacionista rompe com a dicotomia entre ambos. Sendo assim, o conhecimento é percebido como o resultado de uma construção contínua, permeada pelo diálogo, pela invenção e pela descoberta. Aqui temos a figura do professor como aquele que deve ser capaz de propor à criança desafios que estimulem o seu desenvolvimento. Dicotomia Divisão em dois aspectos. No caso, a dicotomia se refere ao fator inato e ao fator ambiental. UNIUBE 7 Assim, para Piaget, que é reconhecido como um teórico interacionista, o desenvolvimento infantil é uma construção decorrente das ações e relações da criança com os outros e com os objetos. IMPORTANTE! Em outras palavras: Piaget defende que, para que a criança se desenvolva, é preciso que interaja, pois a inteligência é um processo dinâmico. Para ele, o conhecimento é construído por meio das interações contínuas do sujeito com o meio ambiente, portanto o conhecimento não é resultado nem apenas de fatores genéticos, nem apenas de fatores ambientais. Como expoentes da Concepção Interacionista, temos o médico, filósofo e político francês Henri Wallon e o sócio‑interacionista Lev Semenovich Vygotsky, psicólogo, formado em direito, estudioso e pesquisador do campo da simbologia e da aprendizagem e desenvolvimento humanos. Simbologia Ciência que estuda a origem, a interpretação e a arte de criar símbolos. Todas as sociedades humanas possuem símbolos que expressam mitos, crenças, fatos, situações ou ideias, sendo umas das formas de representação da realidade. (WIKIPEDIA, 2009ª) Epistemológico adj. Relativo à epistemologia, à teoria do conhecimento epistêmico. Vimos que há três teorias modernas que buscam explicar melhor o desenvolvimento humano, cada qual, defendendo diferentes concepções a respeito de desenvolvimento, de aprendizagem, bem como, de sujeitos epistemológicos, certo? Mas, agora, vamos enfocar o trabalho de Piaget! SINTETIZANDO... 8 UNIUBE O interacionista Piaget construiu seu trabalho sobre as bases de uma obra extensa, coerente e sistematizada. Preocupou-se não apenas com o desenvolvimento da inteligência, mas, também, com a formação do comportamento e da personalidade da criança. Seu trabalho provocou uma vasta representação de sua teoria no contexto escolar do Brasil, dos Estados Unidos e até mesmo da Europa. O Interacionismo de Piaget permite-nos valorizar o ambiente escolar, como locus privilegiado de aprendizagem, e o trabalho docente, como fator importantíssimo para o desenvolvimento do conhecimento e da inteligência, pois defende que o conhecimento não está nem no sujeito e nem no ambiente, mas nas interações contínuas do sujeito com o ambiente, interações estas permeadas por desafios cognitivos. Epistemologia s.f. 1. Reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, esp. nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento.(...). (HOUAISS, 2009, p.783-784) Locus Palavra lócus (plural loc) de origem latina, pode ser traduzida como local. (WIKIPÉDIA, 2009b) Ao defendermos que é nas e pelas interações que os homens constroem conhecimento, particularmente nas que ocorrem no âmbito escolar, estamos ressignificando o papel da escola e do professor. E, assim, valorizando‑os e tornando mais produtivo o impacto da instituição escolar na trajetória de vida dos sujeitos. Tal fato implica um investimento contínuo dos educadores em sua formação, uma investigação e análise a respeito de suas crenças relativas à aprendizagem e ao processo de desenvolvimento humano, bem como de sua práxis pedagógica, a fim de que se certifiquem de qual teoria e que teóricos subsidiam o seu trabalho. IMPORTANTE! UNIUBE 9 Qual é a sua crença a respeito de como se processa o desenvolvimento psicológico dos seres humanos? Você já parou para pensar sobre esta questão, e o quanto estas crenças a respeito do desenvolvimento psicológico humano influenciam a prática pedagógica, aprendizagem e o desenvolvimento de seus alunos? A epistemologia genética e a prática pedagógica1.3 Para Piaget (1995) A criança, como o adulto, só executa alguma ação exterior ou mesmo inteiramente interior quando impulsionada por um motivo e este se traduz sempre sobre a forma de uma necessidade (uma necessidade elementar ou um interesse, uma pergunta, etc). (PIAGET, 1995, p.14) 1.3.1 A construção da lógica do pensamento mental da criança por Jean Piaget Jean Piaget (1896-1980) nasceu em Neuchâtel, uma pequena cidade localizada na Suíça francesa. Filho de Arthur Piaget, um professor de literatura medieval da Universidade de Neuchâtel, Piaget foi uma criança precoce, observadora e interessada em questões ligadas à natureza e às ciências. Desde a infância, interessava-se em estudar o comportamento de moluscos, conchas marinhas e pássaros, publicando o seu primeiro artigo sobre uma ave albina aos 10 anos de idade em uma revista de História Natural. Aos 11 anos, trabalhou como voluntário no setor de classificação da coleção de zoologia do Museu de Ciências Naturais de Neuchâtel. Seus estudos, principalmente sobre os moluscos, associados a sua experiência no Museu, possibilitaram-lhe ,ainda muito jovem, publicar uma série de artigos voltados principalmente para a área da zoologia. 10 UNIUBE Piaget aindaadolescente se interessou também pelas áreas da Filosofia, principalmente pela obra de Bergson, Lógica e Religião. Possivelmente tais estudos despertaram o seu interesse pela epistemologia, ramo da Filosofia voltado para o estudo do conhecimento. Já adulto, Piaget formou-se em Ciências Naturais na Universidade de Neuchâtel, doutorando-se logo após, três anos mais tarde, com uma tese a respeito dos moluscos da região de Valois, Suiça. É importante ressaltar que apesar da matriz epistemológica dos trabalhos de Piaget ter uma raiz biológica, os seus estudos epistemológicos demonstram a importância dos fatores internos e externos como solução para as questões do conhecimento humano. Para isso, Piaget recorre à Psicologia, elegendo- a como base para a sua Teoria do conhecimento e estabelecendo, por meio dela, conexões entre a Biologia e a Filosofia. Deixando Neuchâtel, Piaget se instala inicialmente em Zurich, onde, durante algum tempo, estuda Psicologia com Bleuler e trabalha com psicologia experimental. Em seguida, Piaget vai para Paris estudar Filosofia na Sorbonne com Lalande e trabalhar com Binet e Simon na padronização de testes de inteligência. Neste contexto, ao aplicar o mesmo teste em inúmeras crianças, Piaget descobre que as respostas erradas dos infantes eram, frequentemente, mais interessantes à pesquisa do que as corretas. Henri Bergson Filósofo francês (1859-1941) que tem como base de sua filosofia a crítica ao determinismo e a “coisificação do homem”. A sua pesquisa filosófica é uma afirmação da liberdade humana e a sua obra é de grande atualidade e tem sido estudada em diferentes disciplinas tais como o cinema, a literatura, a neuropsicologia, a bioética. UNIUBE 11 Como observador, Piaget percebeu que as crianças da mesma idade cometiam os mesmos erros em suas respostas. Este fato possibilitou-lhe concluir que, para compreender o pensamento infantil, era necessário desviar a atenção da quantidade de respostas certas e se concentrar na qualidade da solução encontrada pela criança para responder a pergunta. Esta decisão deu origem à questão central de sua teoria que postula que a lógica do funcionamento mental da criança é qualitativamente diferente da lógica do pensamento do adulto. A partir daí, investigando por meio de quais mecanismos ou processos se dá esta transformação da lógica infantil para a lógica adulta, Piaget rejeita os testes padronizados de inteligência usados por Binet e Simon e utiliza-se do método clínico inspirado basicamente nos métodos experimental e o de interrogação clínica, amplamente utilizados pelos psiquiatras Freud e Jung. EXPLICANDO MELHOR Paul Eugen Bleuler: nasceu em 1857 e faleceu em 1939, foi um psiquiatra suíço, que trouxe importantes contribuições acerca da compreensão da esquizofrenia. Alfred Binet: nasceu em 1857 e faleceu em 1911: Inventou o primeiro teste de inteligência, a base dos testes de QI. Sigmund Freud: nasceu em 1856 e faleceu em 1939. Médico neurologista, fundador da psicanálise. Carl Gustav Jung: nasceu em 1875 e faleceu em 1961. É considerado fundador da psicologia analítica, a qual tambpém leva seu nome – psicologia junguiana. SAIBA MAIS 12 UNIUBE Lembre‑se: o pilar central do trabalho de Piaget é a descoberta de que a lógica do pensamento infantil é qualitativamente diferente da lógica do pensamento adulto. Pense e responda: que repercussões esta descoberta de Piaget traz para a prática pedagógica? AGORA É A SUA VEZ Neste processo, Piaget percebeu que a lógica não é inata! Pelo contrário: é um fenômeno que se desenvolve processualmente. IMPORTANTE! Tendo descoberto uma gênese do conhecimento, o projeto piagetiano de elaborar uma epistemologia do desenvolvimento humano foi viabilizado em 1955, com a fundação pelo próprio Piaget e sob a proteção da Fundação Rockfeller do Centro Internacional de Epistemologia Genética. Ao postular que a lógica não é inata e que há uma diferença qualitativa entre a lógica infantil e a lógica adulta, Piaget, por meio da valorização das respostas “erradas” dadas pelas crianças às perguntas por ele formuladas, investigou os caminhos pelos quais acontece a transformação da lógica da criança na lógica do adulto. E você, consegue perceber a lógica presente no pensamento dos alunos ou das crianças com as quais convive? PARADA PARA REFLEXÃO A trajetória profissional de Piaget é longa e proveitosa, ele ocupou vários cargos universitários, entre eles, destacamos o de professor titular de filosofia da Universidade de Neuchâtel, lecionando também psicologia UNIUBE 13 e sociologia. No Laboratório de Genebra, desenvolveu pesquisas sobre a lógica do pensamento infantil, e, na Universidade de Genebra, foi professor de História do Pensamento Científico e atuou como assistente e, posteriormente, co-diretor do Instituto Jean Jacques Rousseau. Em 1936, pela Universidade de Harvard, foi condecorado com o título de Doutor Honoris Causa. No período de 1939 a 1950, retornou à Universidade de Genebra para ministrar aulas de sociologia na Faculdade de Ciências Econômicas, onde foi nomeado diretor do Laboratório de Psicologia Experimental, substituindo Claparède. Piaget desempenhou ainda as funções de presidente da Sociedade Suiça de Psicologia, co-diretor da Revista Suiça de Psicologia, professor catedrático de psicologia e sociologia na Universidade de Lausane e de psicologia da criança na Sorbonne. • Aos 22 anos, Piaget já era doutor em Biologia. • Piaget se casou com uma de suas assistentes, Valentine Châtenay. • Observando seus filhos, Piaget desvendou muitos dos enigmas da inteligência infantil. • Vygotsky prefaciou a tradução russa de A Linguagem e o Pensamento da Criança, de Piaget, de 1923. • Vygotsky e Piaget não se conheceram pessoalmente. IMPORTANTE! Além de sua trajetória profissional produtiva, Piaget tem uma extensa e valiosa produção, escreveu como autor principal e em co-autoria com outros teóricos cerca de 70 livros e 300 artigos sobre as suas pesquisas e descobertas. 14 UNIUBE Valiosa produção: como principais obras destacam-se: A linguagem e o pensamento (1923), O juízo e o raciocínio da criança (1924), A representação do mundo na criança (1926), A causalidade física na criança (1927), O juízo moral na criança (1932), Todos estes trabalhos representam a preocupação de Piaget com a questão epistemológica. Já as obras: O nascimento da inteligência na criança (1936), A construção do real na criança (1937), A formação do símbolo na criança (1945) respondem solidariamente às questões sobre: a inteligência como produto de processos ativos de adaptação ao meio. Nas obras: A gênese do número na criança, em colaboração com Szeminska (1941); O desenvolvimento das quantidades físicas na criança, em colaboração com Inhelder (1941); A representação do espaço na criança, em colaboração com Inhelder (1948); A noção do tempo na criança (1946); A geometria espontânea na criança (1948) é explícita a grande novidade e particularidade do desenvolvimento dessas noções e, por outro lado, os seus processos comuns. Destacam-se ainda os trabalhos: A imagem mental na criança: estudo sobre as representações imagéticas (1966) Aprendizagem e conhecimento (1959), Memória e inteligência (1968), Os mecanismos perceptivos (1961), Estudos sociológicos (1965). Introdução à epistemologia genética (1950), Biologia e conhecimento (1967) e Lógica e conhecimento cientifico (1967). SAIBA MAIS 1.3.2 Algumas conclusões Investigando, em uma perspectiva interacionista, o processo pelo qual os homens constroem o conhecimento e tendo especificamente como pergunta de pesquisa a questão: “como as crianças constroem o conhecimento”, Piaget orientou, todo o seu trabalho, essencialmente, no sentido de compreender o processo de desenvolvimento infantil. UNIUBE 15 Sem ter uma obra pedagógica, ou ter elaborado propostas pedagógicas, sabe-se que Piaget nunca participou diretamente,nem coordenou nenhuma pesquisa com objetivos pedagógicos, segundo La Taille (Jean Piaget, Coleção Grandes Educadores, ATTA Mídia e Educação): [Piaget] escreveu apenas um texto ou outro sobre pedagogia onde apresentava aos educadores sua teoria sobre o desenvolvimento infantil, cabendo a estes fazer a tradução pedagógica dos seus estudos. Entretanto, sua obra tem grande presença e exerce uma enorme influência no campo da educação, sendo até mesmo erroneamente confundida por alguns, como teoria pedagógica. La Taille: Yves de La Taille, psicólogo especializado em desenvolvimento moral, nasceu na França, mas, desde criança, vive no Brasil. É professor de Psicologia do Desenvolvimento Moral, na USP, e co-autor dos livros Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão, indisciplina na escola (Summus Editorial) e Cinco estudos de educação moral (Casa do Psicólogo) e autor, entre outros, de Limites: três dimensões educacionais (editora Ática). SAIBA MAIS Detalharei, a seguir, em uma perspectiva interativa, algumas questões específicas, articulando o trabalho de Piaget à prática pedagógica dos professores. Desta forma, leia e reflita sobre os conceitos apresentados, articulando as questões que se seguem a práxis educativa: Qual a ligação da teoria piagetiana com a educação? IMPORTANTE! 16 UNIUBE Podemos levantar duas razões fundamentais que associam a teoria piagetiana à educação: 1ª Razão A primeira razão, também considerada como clássica, diz respeito ao fato de que os profissionais da Pedagogia, assim como de outras ciências, precisam ler e compreender as teorias que tratam de seu objeto de trabalho para melhor fundamentar sua prática. Neste sentido, a Pedagogia, por exemplo, recorre à Psicologia para definir conceitos de aprendizagem e desenvolvimento, que influenciarão diretamente a práxis pedagógica do professor. Assim, Piaget, por ter uma obra consistente e vasta, que prima pelo rigor científico, ao longo de décadas de pesquisa, não poderia ter sua teoria do desenvolvimento infantil e especificamente do desenvolvimento da inteligência da criança desarticulada da educação. 2ª Razão É a ênfase que a teoria piagetiana dá ao processo de construção de conhecimento pela criança, representando uma forte referência de Piaget na Pedagogia. Neste sentido, a teoria piagetiana, ao conceber a criança como um ser dinâmico, ativo, em constante processo de desenvolvimento por meio das contínuas interações organismo-meio, irá apresentar uma diferente concepção a respeito da infância. Até, aproximadamente, o início do século XX, o pensamento preponderante era de que as crianças eram como uma tábula rasa em que os adultos, principalmente pais e professores, depositavam o conhecimento. Tábula rasa Expressão latina que pode ser traduzida como ausência de conhecimentos. (TOSTA, 2006). UNIUBE 17 Piaget, em sua teoria, defende que: • os seres humanos passam por uma série de mudanças ordenadas; • o conhecimento não está pré-formado no sujeito e nem está totalmente pronto, acabado, determinado pelo meio exterior, independente da organização do indivíduo; • o conhecimento apresenta uma ideia de criança em suas especificidades e não como a miniatura de um adulto, e a infância como um período dinâmico da vida humana, caracterizado por complexas transformações. A concepção piagetiana da criança, como um ser ativo; e a concepção do processo de construção de conhecimento – compreendido por Piaget como criação, uma reconstrução original do sujeito – irão trazer novos conceitos a respeito de como os seres humanos aprendem e se desenvolvem. IMPORTANTE! Estes conceitos piagetianos irão embasar teoricamente vários movimentos pedagógicos como, por exemplo, a Escola Nova que, se opondo às concepções teóricas inatista e ambientalista e ao formalismo e verbalismo do ensino tradicional, defende um novo olhar sobre a relação ensino- aprendizagem e sobre a práxis pedagógica. A educação embasada nos conceitos piagetianos1.4 Como vimos até agora, ao defender que o conhecimento é construído pela atividade do sujeito/criança sobre o objeto cognoscente, o foco da teoria piagetiana não se fixa no sujeito e nem no objeto, mas na interação sujeito- objeto. Ou seja, na atuação infantil sobre o objeto e não na transmissão de conhecimentos feita pelo adulto á criança. Objeto cognoscente Objeto do conhecimento. 18 UNIUBE Esta concepção fundamental da teoria de Piaget irá ressignificar o papel do professor e sua práxis pedagógica, sinalizando as seguintes implicações do pensamento piagetiano para a aprendizagem: • A interação social favorece a aprendizagem. Aqui podemos pensar na utilização, pelo professor, de jogos, desafios, brincadeiras e atividades em pequenos grupos, em que o diálogo, as trocas cognitivas e as interações das crianças com seus pares e adultos sejam favorecidas. • A aprendizagem é um processo construído internamente pelo sujeito por meio de suas interações. Neste sentido, ela não é como apregoa a concepção ambientalista, transmitida pelo professor. Assim, estimular o fazer infantil e privilegiar o que a criança por si só pode descobrir é um dos fatores essenciais numa proposta pedagógica orientada pela teoria piagetiana. Cabe ressaltar que o conhecimento social e o conhecimento físico dos objetos como, por exemplo, cor, nome da forma (quadrado, triângulo, etc) por serem convenções socioculturais precisam ser informadas às crianças. • A aprendizagem depende do nível de desenvolvimento do sujeito e é um processo de reorganização cognitiva. A resposta da criança a um desafio intelectual precisa sempre ser respeitada como uma hipótese construída e não meramente valorada pelo adulto como “certa” ou “errada”. Os questionamentos e os conceitos infantis devem ser encaminhados gradativamente pelo professor de forma que possibilitem à criança “tomar consciência” das contradições de suas afirmações. UNIUBE 19 Lembre‑se das pesquisas realizadas por Piaget! Quando ele aplicou os testes em várias crianças, ele percebeu que as “respostas erradas” eram mais interessantes para conhecer o pensamento infantil do que as certas! IMPORTANTE! • Os conflitos cognitivos são importantes para o desenvolvimento da aprendizagem que a criança necessita para estruturar o intercâmbio de diversos pontos. Para que haja conflitos cognitivos, desencadeados por meio da troca de diferentes pontos de vista, é necessário que as atividades propostas pelo professor estejam centradas no aluno. O docente deve conhecer o nível de desenvolvimento de seu educando para lhe propor atividades que despertem o seu interesse e o desafie cognitivamente. IMPORTANTE! 1.4.1 O papel do professor Tendo compreendido a importância da Teoria do Desenvolvimento de Piaget para a educação, vamos agora, a partir das concepções piagetianas a respeito do processo de construção do conhecimento, tratar do papel do professor. O professor em uma práxis pedagógica, sustentada na teoria piagetiana, desempenha um papel fundamental. Cabe a ele a responsabilidade de criar situações mais adequadas para motivar a criança, desafiando‑a em sua inteligência. 20 UNIUBE Então, segundo essa Teoria, o professor IMPORTANTE! Se por um lado, o professor não pode assumir a direção das atividades infantis, por outro, ele não pode ficar alheio a essas atividades. É preciso que interrogue as crianças no momento oportuno para poder seguir os caminhos de seu pensamento. • transmissor do conhecimento; • sujeito passivo frente aos desafios cognitivos enfrentados pelos alunos como os docentes das concepções ambientalista e inatista. • aquele que, em uma perpectiva interacionista, propõe à criança encontrar por si mesma as melhores maneiras de resolver os problemas que elas enfrentam. Não é... É... Assim... • O professor é o promotor das atuações e das descobertas infantis. Para Piaget, para favorecer a construção da autonomiainfantil, não se deve fazer por uma criança aquilo que ela consegue fazer por si mesma, pois é por meio das próprias experiências e do processo de aprendizagem que a criança constrói conhecimentos. Nesta ótica, a prática pedagógica do professor se orienta no sentido de promover a atuação infantil. UNIUBE 21 O professor desafia a criança cognitivamente Segundo a teoria piagetiana, as situações que estimulam o desenvolvimento infantil são aquelas em que as crianças desafiadas cognitivamente têm a oportunidade de descobrir conceitos e noções por meio da exploração ativa do ambiente e dos objetos de que dispõem no espaço escolar. IMPORTANTE! • O professor insere o jogo, o faz-de-conta e a ludicidade no cotidiano de sua sala de aula. Para Piaget, a criança precisa adaptar-se constantemente ao mundo social dos adultos e a um mundo físico que ela mal compreende. Neste contínuo processo de adaptações, o infante dificilmente consegue satisfazer suas necessidades intelectuais e afetivas. Neste sentido, o jogo simbólico, com sua linguagem lúdica, por meio das brincadeiras, e do faz-de-conta, apresenta-se como um meio que a criança dispõe para satisfazer suas necessidades e, consequentemente, manter o seu equilíbrio intelectual e afetivo. • O professor é o promotor das trocas entre os pares. Os jogos, as brincadeiras e as atividades em grupo favorecem as trocas intelectuais, possibilitando a criança distinguir o ponto de vista dos outros do seu, o que a ajuda a coordenar o seu próprio ponto de vista. As atividades em grupo estimulam a criança a sair de seu pensamento egocêntrico e promovem os relacionamentos baseados na cooperação, na coordenação de diferentes pontos de vista e na reciprocidade. • O professor realiza uma avaliação inicial de seus alunos no começo do ano e outras periódicas no transcorrer do ano letivo. 22 UNIUBE Essa prática irá orientar a realização de um planejamento flexível, que possibilite ao docente, realizar atividades centradas na criança, respeitando seu nível de desenvolvimento cognitivo ao lhe apresentar novos desafios. 1.5 Desafios do trabalho pedagógico baseado na Teoria do Desenvolvimento piagetiano O “sujeito epistemológico” ocupa um papel central na teoria piagetiana e o processo de desenvolvimento deste sujeito para Piaget é explicado não de forma inata ou tampouco externa ao organismo, mas fundamentalmente construída na interação homem-objeto, o que pressupõe a existência de relações de interação, entre o sujeito conhecedor e o objeto a conhecer. Nessa perspectiva, Cool (1992, p. 172) ressalta que, apesar das tentativas de aplicação de teoria piagetiana na aprendizagem serem variadas e numerosas, elas não têm tido resultados práticos muito frutíferos. Segundo o autor, isso se deve principalmente, devido algumas dificuldades de ordem técnica, metodológica e teórica no que diz respeito • ao uso de provas operatórias diagnósticas; • à clareza com relação à intervenção por parte do professor e • à predominância no “como ensinar, colocando o objetivo do “o que” ensinar em segundo plano. Por outro lado, podemos ressaltar como contribuições fundamentais da teoria piagetiana para a educação: • a possibilidade de se estabelecer objetivos educacionais, uma vez que a teoria fornece parâmetros importantes sobre o processo do pensamento da criança, relacionado aos estágios de seu desenvolvimento; UNIUBE 23 • um olhar diferenciado sobre o erro que passa a ser entendido como estratégia utilizada pelos alunos em seu processo de construção de novos conhecimentos; • a possibilidade de se pensar que podem coexistir diferentes estilos individuais de aprendizagem. Diante de todas essas questões de ordem epistemológica, metodológica e conceitual, a aplicação exitosa da teoria piagetiana à educação escolar, encontra-se articulada, fundamentalmente, a cinco questões: 1) à descoberta piagetiana de que a lógica não é inata, mas, processual, construída pelo sujeito por meio de suas interações com os outros e com os objetos; 2) à valorização das respostas infantis sobre as questões existenciais e intencionais, ressignificando o papel do erro principalmente no contexto escolar; 3) à necessidade do professor e demais profissionais da equipe escolar conhecerem os fundamentos psicológicos que orientam esta teoria, articulando estes conhecimentos à concepção interacionista de desenvolvimento humano, posto que o trabalho de Piaget encontra- se estruturado nesta perspectiva; 4) à organização da escola como um local desafiador e promotor do desenvolvimento da inteligência infantil, em que as interações entre crianças e seus pares, crianças e adultos e crianças e objetos são incentivadas e priorizadas; 5) à compreensão da criança, como sujeito ativo, quando adequadamente desafiada, e, assim, capaz de construir conhecimentos, evoluindo de um nível de pensamento lógico mais elementar para outro mais complexo. 24 UNIUBE Conclusão1.6 Finalmente, por compreender que a formação humana/profissional não se dá apenas pela leitura de diferentes textos e autores, mas pela práxis, invista em diferentes experiências, frequente diversos ambientes, dialogue com distintos sujeitos e linguagens, enfim, identifique‑se com a sua opção profissional pois as questões relativas ao conhecimento e à aprendizagem humanas são inconclusas, necessitando continuamente de novos estudiosos e pesquisadores. Resumo Como você deve ter percebido, para compreender a complexidade e riqueza da teoria construída por Jean Piaget, é necessário conhecer as bases filosóficas e científicas de seu pensamento, as personalidades e teorias que mais o influenciaram, bem como a sua trajetória profissional, inscrevendo-as em um contexto sociocultural mais amplo. Esse contexto deve ser relacionado às questões humanas históricas da busca de compreensão de como os homens se desenvolvem, partindo de um nível de desenvolvimento elementar para outro mais complexo. Neste sentido, eu trouxe a você uma breve biografia comentada deste autor, articulando as suas descobertas científicas às descobertas e invenções de outros pensadores e teóricos, procurando articular estas descobertas com a rica experiência profissional de Piaget, em um legítimo exercício interativo. Nesta mesma lógica, ao discutir e fundamentar a importância da teoria piagetiana para a educação escolar e a prática pedagógica do professor, procurei, inserir estas questões em um cenário mais abrangente onde confirmo que as questões relativas à aprendizagem humana estão intrinsecamente articuladas à concepção de como os seres humanos se desenvolvem; assim, nesta perspectiva é pouco provável à escola e ao UNIUBE 25 professor promoverem a aprendizagem e o desenvolvimento de seus alunos se não tiverem um embasamento teórico sólido a respeito do processo de aprendizagem e desenvolvimento humano que sustente e norteie a práxis educativa. Desta forma, procurei, em uma perspectiva dialógica, detalhar o papel do(a) professor(a) em uma práxis pedagógica, embasada na teoria piagetiana articulando esta questão aos principais postulados da teoria de Piaget. Acredito que o processo de formação do professor deve ser contínuo, posto que o conhecimento, nossa principal ferramenta de trabalho, não cessa de ser construído e reconstruído. Nesse sentido, sugiro que você caro cursista, além de ler a leitura obrigatória indicada, invista em sua formação lendo diferentes autores de outras áreas visto que a educação, pela complexidade de seus propósitos, necessita dialogar com várias áreas, dentre elas a Filosofia, a Sociologia, as Artes, a Antropologia, a Neuropsicologia e tantas outras, mas que eleja uma matriz conceitual para nortear a sua práxis educativa. Leituras Caro aluno, nos capítulos “O papel da brincadeira no desenvolvimento da criança” e “A brincadeira na vida e na escola do livro”, do livro Psicologia e trabalho pedagógico, as autoras Roseli Fontana eMaria Nazaré Cruz mostram a importância do brincar da criança, articulado ao desenvolvimento infantil, na perspectiva de autores como Piaget, Vygotsky e Leontiev, por meio de uma linguagem bastante acessível, em um texto permeado por citações, imagens e atividades. As autoras tratarão ainda das transformações por que passam as brincadeiras da criança, desde os primeiros jogos, na mais tenra infância, até aqueles com regras. 26 UNIUBE Será abordado também, nestas páginas, o lugar da brincadeira infantil no ambiente escolar em uma interlocução com o pensamento de Piaget, Vygotsky, Leontiev. Finalmente as autoras apresentarão a você algumas sugestões de atividades e de leituras. Referências ARANHA, M. L. A. História da educação e da pedagogia, geral e Brasil. 3. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2007. ASSIS, O. Z. M. Uma nova metodologia de educação pré-escolar. 6. ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora,1989. Atual Editora, 1997. COOL, C. As contribuições da psicologia para a educação: Teoria Genética e aprendizagem escolar. In LEITE, L. B. (Org.) Piaget e a Escola de Genebra. São Paulo: Editora Cortez, 1992. p. 164-197. FONTANA, Roseli. CRUZ. Maria Nazaré. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. 2007. GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. São Paulo: Cortez, 2004. HORTA, Regis (Roteirista e diretor) Apresentação de Yves de la Taille. Jean Piaget. São Paulo: Atta Midia e Educação! (60min), (200?), 1 videocassete, VHS, son., color.. (Coleção Grandes Educadores). HOUAISS, Antônio. VILLAR, Mauro de Sales. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. LA TAILLE, Y. O nascimento da inteligência na criança. Trad. por Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970. ______; OLIVEIRA, M. K.; DANTAS, H. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. 13. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1992. UNIUBE 27 MINIAURÉLIO. 7.ed. Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Editora Positivo, 2008. PALANGANA, I. C. Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vygotsky, a relevância do social. 3 ed. São Paulo: Summus editorial, 2001. PIAGET, J. & INHELDER, B. A psicologia da criança. São Paulo: Difel, 1985. PIAGET, J. O nascimento da inteligência na criança. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970. ______ Psicologia da inteligência. Trad. Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. ______ Seis estudos de psicologia. Tradução: Maria Alice Magalhães D’amorim e Paulo Sergio Lima Silva. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. PILLAR, A. D. Desenho e construção de conhecimento na criança. Porto Alegre: Artes Médicas,1996. SEBER, M. G. Construção da inteligência pela criança. Atividades do período pré-operatório. 2. ed. São Paulo, Editora Scipione, 1991. SOARES AMORA. 6. ed. Dicionário da língua portuguesa.São Paulo: Saraiva, 1999. TOSTA, C. G. Autoscopia e desenho: a mediação em uma sala de educação infantil. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Universidade Federal de Uberlândia, MG. WIKIPEDIA. Locus. Disponível em: <www.wikipédia.org> Acesso em: 23 fev 2010. WIKIPEDIA. Simbologia. Disponível em: <www.wikipédia.org/wiki/Simbologia>. Acesso em: 28 dez. 2009a. Cíntia Gomide Tosta Introdução A Epistemologia genética de Jean Piaget Capítulo 2 Caro estudante, no capítulo “Piaget e a Educação”, você teve contato com alguns pressupostos da teoria piagetiana, aplicados à educação escolar. Neste capítulo, irei apresentar-lhe os princípios e argumentos centrais da Teoria de Desenvolvimento Humano construída pelo biólogo e, essencialmente epistemólogo, Jean Piaget. Podemos considerar Piaget essencialmente como epistemólogo porque, durante todo o seu percurso como estudioso e pesquisador, ele procurou compreender e explicar a origem e os processos de desenvolvimento do conhecimento humano, principalmente do desenvolvimento infantil. Sustentado nas questões de pesquisa: “Como os conhecimentos se formam? Como se ampliam? E como passam de um estado de menor conhecimento para outro maior?”, Piaget construiu as bases de sua teoria. É fundamental lembrar que os pressupostos da teoria piagetiana a respeito do conhecimento humano estão sustentados em uma perspectiva interacionista. Sendo assim, o conhecimento, para este teórico, não se encontra predeterminado nas estruturas internas do indivíduo nem nas características externas dos objetos, 30 UNIUBE mas sim em uma construção efetiva e contínua proveniente das trocas dialéticas provindas da relação indivíduo/meio ambiente. Aqui, vale ressaltar que o meio ambiente deve ser entendido como meio de conhecimento, ou seja, local ou situação em que a inteligência pode vir a ser desafiada. Interacionismo O interacionismo é uma concepção a respeito do processo de desenvolvimento humano que defende que o conhecimento é concebido como o resultado das interações entre fatores biológicos, ou seja, aqueles inerentes ao indivíduo e fatores ambientais, aqueles relativos ao ambiente em que este indivíduo está inscrito, mais especificamente a família, a escola e os demais grupos sociais em que convive. Nesta concepção, é proposto um diálogo entre aquilo que a criança traz ao nascer e as condições do meio em que se encontra. Por romper com a dicotomia entre fatores inatos e fatores ambientais e defender que o conhecimento é construído e reconstruído pela interação entre ambos, para a concepção interacionista, o conhecimento é percebido como o resultado de uma construção contínua, permeada pelo diálogo, pelos desafios cognitivos e pela descoberta. SAIBA MAIS Para uma melhor compreensão e aplicação dos conteúdos do texto à sua prática pedagógica, oriento que você se aproprie de uma postura reflexiva e investigativa, articulando as ideias à sua práxis educativa. Boa leitura! UNIUBE 31 Ao final do estudo deste capítulo, você deverá ser capaz de: • explicar a Teoria Cognitiva piagetiana e seus principais conceitos; • identificar que o desenvolvimento cognitivo se dá por meio da relação da criança com o mundo; • analisar a importância do professor criar conflitos cognitivos em sua prática pedagógica para que os alunos construam novos conhecimentos. Objetivos 2.1 A epistemologia genética 2.2 A noção de equilíbrio na teoria piagetiana 2.3 Constructos básicos da teoria piagetiana 2.4 O desenvolvimento da inteligência 2.5 Estágios do desenvolvimento cognitivo para Piaget 2.5.1 Principais características do estágio sensório-motor 2.5.2 Principais características do estágio pré-operacional 2.5.3 Principais características do estágio operacional-concreto 2.5.4 Principais características do estágio das operações formais. 2.6 O julgamento moral e o processo de socialização 2.7 Conclusão Esquema A epistemologia genética2.1 Piaget utiliza-se de três recursos metodológicos originais para explicar a epistemologia genética: 1) os estudos psicogenéticos, ou seja, estudos que tratam da origem da formação do conhecimento nos sujeitos; 32 UNIUBE 2) os estudos sociogênicos, ou seja, estudos que tratam da origem da formação do conhecimento na sociedade; 3) a interdisciplinariedade: que consiste na colaboração de vários especialistas na epistemologia da ciência do conhecimento. Os primeiros trabalhos de Jean Piaget sobre a epistemologia genética foram publicados em 1950; entretanto, o termo construtivismo, referência de seus trabalhos, só foi usado por Piaget em 1970. IMPORTANTE! Utilizando-se do termo construtivismo, este estudioso busca revelar e caracterizar os processos presentes na construção das estruturas cognitivas, especialmente da equilibração majorante, em oposição às explicações sobre o desenvolvimento postuladas principalmente pela concepção empirista. Veja a explicação desses termos, a seguir, para você entender melhor Estruturascognitivas são padrões de ação mental e correspondem a estágios do desenvolvimento humano. De acordo com Piaget, existem quatro estruturas cognitivas primárias, ou seja, estágios de desenvolvimento que são: sensório-motor, pré-operacional, operacional concreto e operações formais. No estágio sensorial-motor (0-2 anos), a inteligência assume a forma de ações motoras. A inteligência no período pré-operação (3-7 anos) é de natureza intuitiva. A estrutura cognitiva durante o estágio de operações concretas (8-11 anos) é lógica, mas depende de referências concretas. No estágio final de operações formais (12‑15 anos), o pensamento, já envolve abstrações, ou seja, não está mais preso ao concreto. EXPLICANDO MELHOR UNIUBE 33 Em linhas gerais, a equilibração majorante pode ser entendida como os processos ativos do indivíduo de busca de equilíbrio diante de um desafio que inicialmente o desequilibra. A Concepção empirista, também conhecida como ambientalista, postula que o desenvolvimento humano é resultado das experiências sociais do sujeito, e a criança é considerada uma tabula rasa, expressão latina que pode ser traduzida como ausência de conhecimentos. Esta concepção defende que os seres humanos nascem sem características psicológicas determinadas e todo o conhecimento é compreendido como o resultado das experiências do indivíduo. Piaget aborda o desenvolvimento cognitivo, ou seja, da inteligência como um sistema de transformações contínuas de caráter histórico e evolutivo em que, a cada estágio, as interações das funções psicológicas com o meio são diferentes. Assim, para Piaget, uma criança de 01 (um) ano, pelo seu desenvolvimento, interage com o meio de forma diferente de uma criança de 05 (cinco) anos que já possui outra estrutura psicológica. Para Piaget, este processo genético de desenvolvimento tem como ponto de partida uma estrutura já constituída. Assim, um elemento não continua idêntico ao que é em uma determinada estrutura, quando passa dessa estrutura para outra. A atividade “andar”, como atividade motora, não permanece a mesma quando transformado em “correr”. Isto porque “ao correr” não há uma simples transferência de competência, mas sim uma nova relação de elementos que interagem para possibilitar uma nova atividade. IMPORTANTE! 34 UNIUBE A palavra “meio”, para Piaget, não se limita a designar os objetos que nos rodeiam. Piaget compreende o meio em uma perspectiva abrangente, pois abarca tudo: a natureza, os objetos construídos pelos homens, as ideias, os valores, as relações humanas, em suma – a história e a cultura. Pense nas seguintes questões: • Como se forma o conhecimento? • Como evolui o conhecimento? A abordagem genética de Piaget, ao responder questões como: • “como se forma o conhecimento?” e • “como evolui o conhecimento?”, permite-nos, em uma base construtivista, compreender o processo de aprendizagem como uma construção em que não há um conhecimento pré-formado, inato, e também que o conhecimento não é produto exclusivo do acúmulo de experiências, mas sim um processo dinâmico de interações entre sujeito e objeto. Em outras palavras: Piaget (1973), ao afirmar “que a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função de interações sociais”, está postulando a importância da articulação destes dois fatores: estruturas genéticas e meio para o desenvolvimento humano. Alguns autores criticam Piaget por negligenciar o papel dos fatores sociais no desenvolvimento humano. Entretanto, La Taille afirma que, embora esse pesquisador não tenha se detido longamente sobre esta questão, tendo apenas situado as influências da interação social sobre o desenvolvimento da inteligência, para ele, a questão é de suma importância uma vez que exerce papel determinante em sua teoria. La Taille: Yves de La Taille, psicólogo e estudioso da obra piagetiana. UNIUBE 35 E você, caro(a) cursista, qual é a sua visão a respeito do papel dos fatores sociais para o desenvolvimento da inteligência na teoria de Piaget? Registre a sua visão, justificando‑a. AGORA É A SUA VEZ A noção de equilíbrio na teoria Piagetiana2.2 Na Figura 1, percebemos a importância da interação das crianças com o ambiente, nas brincadeiras infantis. Uma das principais formulações do construtivismo piagetiano diz respeito à noção de equilíbrio. Segundo Piaget, a teoria da equilibração é o mecanismo dinâmico de equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, assim, é considerada como um mecanismo autorregulador, necessário para assegurar à criança uma interação eficiente dela com o meio ambiente. Figura 1: Crianças brincando de esconde‑esconde em uma floresta. Pintura do século XIX, assinada por Meyerheim. Fonte: Wikipedia, 2009a. Para Piaget, o indivíduo constitui com o meio um conjunto em equilíbrio dinâmico, portanto constantemente em movimento. 36 UNIUBE Piaget afirma que o organismo humano tende sempre a buscar o equilíbrio, porém, em suas interações com o meio frequentemente é colocado em situação de desequilíbrio. Um exemplo, quando tem que enfrentar um desafio de ordem cognitiva. Nestas situações ele, o organismo, recorre a readaptações que geram novas construções à medida que o elemento perturbador é integrado a um novo sistema, perdendo a sua característica perturbadora e estabelecendo então um novo equilíbrio. Suponhamos um indivíduo acostumado a escrever com lápis e que se depara com o desafio de escrever com a caneta. Inicialmente, ele ficará em desequilíbrio, processualmente, utilizando-se dos esquemas já construídos para usar o lápis, o indivíduo construirá novas estruturas que permitirão a ele a adaptação do organismo ao novo objeto: a caneta. Desta forma, a caneta que inicialmente era um instrumento perturbador passa a ser integrado às novas estruturas constituídas pelo organismo em um processo de equilibração. EXPLICANDO MELHOR São características essenciais ao equilíbrio em uma perspectiva piagetiana: 1) Estabilidade: diferentemente da noção de imobilidade, o equilíbrio para Piaget é móvel, isto é, dinâmico. 2) Compensatividade: são as ações desenvolvidas pelo indivíduo buscando compensar as perturbações sofridas. 3) Atividade: é a própria essência do equilíbrio, estar em constante atividade. É por meio da atividade que o organismo constrói o equilíbrio. UNIUBE 37 Para facilitar a sua compreensão a respeito da noção de equilíbrio, conceito fundamental para os processos de desenvolvimento e aprendizagem na teoria piagetiana, estudaremos agora os constructos básicos desta teoria. É importante saber que estes constructos encontram-se indissociados em um processo de interações contínuas. Constructos básicos da teoria piagetiana2.3 Para explicar o desenvolvimento intelectual, Piaget partiu da ideia de que os atos biológicos são atos de adaptação ao meio físico. Segundo ele, os indivíduos desde os seres unicelulares até o homem dispõem de invariantes funcionais, e que por meio de seu funcionamento geram estruturas cognitivas. Esses invariantes funcionais – o processo de adaptação – é caracterizado pelos processos de organização, assimilação e adaptação. A adaptação é processo que se refere ao estabelecimento de equilíbrio do organismo. Ela é composta pelos processos distintos e indissociáveis de assimilação e acomodação. A assimilação cognitiva pode ser compreendida como a incorporação pelo sujeito de elementos do mundo exterior às estruturas do conhecimento já construídas. Nesse processo ocorre a ação do sujeito sobre o objeto que o circunda, por meio da utilização de esquemas já constituídos ou previamente formados. O processo de acomodação representa o momento em que as novas informações contidas no objeto passam a agir sobre os esquemas do sujeito, impondo‑lhe modificações uma vez que as informações que possui não são suficientes para atender às novas demandas do meio. Invariantes funcionais Processos que não variam, são comuns a todosos indivíduos, determinados hereditariamente e estão presentes durante toda a vida. 38 UNIUBE Assim, quando uma criança tem experiências diferentes de seu repertório habitual, vê ou ouve coisas novas, ela procura adaptar esses novos estímulos às estruturas cognitivas que já possui. Por exemplo, imaginemos que uma criança está aprendendo a reconhecer animais, e, até o momento, o único animal que ela conhece e tem organizado esquematicamente é o cachorro. Assim, a criança possui, em sua estrutura cognitiva, um esquema de cachorro. Quando esta criança é apresentada a outro animal que possua alguma semelhança com o cachorro, como um gato, por exemplo, ela pensará nele também como um cachorro, com pelos, quadrúpede, com rabo, com pescoço, com orelhas, etc. O que ocorre, neste caso, é um processo de assimilação, ou seja, a semelhança entre o gato e o cachorro, apesar das diferenças entre ambos, faz com que um gato passe por um cachorro em função da similaridade dos estímulos e da exígua variedade e qualidade dos esquemas acumulados pela criança até o momento. A diferenciação do gato para o cachorro ocorrerá por um processo de acomodação. Assim, quando a criança, apontar para o gato e disser “cachorro”, e neste momento, um outro sujeito intervir e corrigi-la dizendo “não, não é um cachorro, é um gato”, após corrigida, definindo que se trata de um gato, e não de um cachorro, a criança, então, acomodará aquele estímulo a uma nova estrutura cognitiva, construindo assim um novo esquema. Esta criança terá construído um esquema para o conceito de cachorro e outro esquema para o conceito de gato. UNIUBE 39 Desta forma, a mudança no processo de assimilação, ou seja, no modo de como o sujeito é capaz de agir em um contexto, se dá pela ação dos objetos sobre o sujeito com a intervenção de outros indivíduos, exigindo a superação dos esquemas já constituídos. Você já viveu uma experiência semelhante a esta? Qual foi a sua intervenção como educador? PARADA PARA REFLEXÃO Organização: Condição fundamental para que ocorra todo o processo de construção de conhecimento. Toda ação adaptativa pressupõe uma organização. A organização do pensamento, expressa pelas estruturas cognitivas, construídas por meio do processo de adaptação, é que permite que o indivíduo organize a realidade para compreendê-la. Esquemas: são estruturas mentais, ou cognitivas, pelas quais os indivíduos intelectualmente se adaptam e organizam o meio. Desta forma, os esquemas, não são objetos reais, mas, conjuntos de processos dentro do sistema nervoso. Estando presentes nos seres humanos desde o seu nascimento, os esquemas são condições para as trocas que se efetuam entre o indivíduo e o meio. Os esquemas formados são ponte de partida para as novas interações entre o indivíduo e o meio. Porém eles se reorganizam constantemente em função das exigências do meio, formando legítimos sistemas de esquemas. Por exemplo: imagine uma criança que já é capaz de fazer riscos no papel com giz de cera. Suponhamos que seja oferecido, para ela, um lápis com a proposta de que faça círculos. Ela aplicará a sua capacidade de apreensão, segurando o lápis (assimilação), porém, muito provavelmente mesmo 40 UNIUBE tendo sido solicitada a realizar os círculos no papel, não conseguirá realizá-los. Para tanto, ela terá que incorporar ao esquema anterior de apreensão e coordenação motora de fazer riscos, ou seja, surgindo assim um novo esquema. Uma criança, quando nasce, apresenta poucos esquemas, sendo de natureza reflexa, e, à medida que se desenvolve, seus esquemas tornam‑ se generalizados, mais diferenciados e mais numerosos. 1) Experiência física e experiência lógico-matemática: como para Piaget o conhecimento tem origem nas ações do sujeito sobre o objeto, o fator essencial na constituição do esquema é a ação, tanto do sujeito sobre o objeto do conhecimento, quanto deste sobre o sujeito. O termo objeto do conhecimento aqui deve ser entendido aqui como todo o meio que rodeia o sujeito e o desafia, incluindo as pessoas, os animais. Desta forma, a ação, para Piaget, é representada por dois tipos de experiências indissociáveis entre si, mas distintas, que são: o conhecimento físico e o conhecimento lógico-matemático. O conhecimento físico diz respeito à ação do sujeito sobre o objeto, de forma que possa abstrair deste objeto as suas características físicas próprias como: a cor, a forma. Os objetos do mundo exterior constituem a fonte do conhecimento físico. Agindo sobre eles e observando como reagem às suas ações, as crianças ficam conhecendo as propriedades desses objetos. É desta forma, por exemplo, que percebem que pedaços de ferro não podem ser dobrados, papéis podem ser rasgados, plásticos duros podem ser quebrados. Por meio destas ações, a criança descobre as diferentes propriedades dos objetos e que eles reagem de maneira diferente à mesma ação. UNIUBE 41 Com o objetivo de estimular e desafiar os alunos a construírem o conhecimento físico, o professor deve oferecer-lhes materiais diversos e atraentes; criar oportunidades para que a criança descreva os objetos que manipula e fazer perguntas tais como: Você consegue quebrar isto? (Em relação a objetos de metal e de plástico duro.) O que acontece se você colocar este pedaço de gelo sobre a mesa? E esta pedra? IMPORTANTE! No conhecimento físico, a informação ou o conhecimento é extraído do objeto por um processo de abstração empírica. Esse processo consiste em dissociar uma propriedade recentemente descoberta de outras e desprezar estas últimas, assim, por exemplo, para descobrir a cor do objeto a criança despreza outras características que ele possui como: o tamanho, a forma, a textura. A abstração empírica está associada aos aspectos figurativos dos objetos, de suas características físicas. A abstração empírica deve ser entendida como abstração por meio da ação: ação de ver, ação de tocar, ação de pegar. O conhecimento lógico-matemático: este conhecimento, diferentemente do conhecimento físico consiste na ação sobre os objetos de forma a extrair o conhecimento da própria ação que é exercida sobre o objeto. Este tipo de ação confere aos objetos atributos que eles não possuem por si mesmos. Por exemplo: quando perguntamos para uma criança quantas flores existe num ramalhete que contém rosas e orquídeas, ela é capaz de compreender que uma classe B das flores é igual à soma de duas subclasses, das rosas e das orquídeas, pois ambas são flores. Figurativo Todos os aspectos relacionados às configurações, tendo como base a percepção, por exemplo, da cor e da forma dos objetos. O aspecto operativo diz respeito às operações mentais. 42 UNIUBE Ainda, nesta mesma perspectiva, uma criança inicialmente brinca com um conjunto de tampinhas, contando-as ao mesmo tempo, que as organiza em círculo, e depois, com as mesmas tampinhas faz uma fileira. Ao contar as tampinhas da direita para a esquerda e vice-versa percebe que obtém o mesmo número de tampinhas em todas as situações. Nesta experiência a criança descobre por meio da abstração reflexiva que a soma das tampinhas se mantém inalterada, independe dos arranjos feitos. Porém, nem a ordem e nem a soma estavam presentes nas tampinhas antes da criança reuni-las em um conjunto e enumerá-las. Este é um conhecimento lógico-matemático, pois, a criança descobriu não uma propriedade física das tampinhas, mas sim uma relação advinda de uma abstração reflexiva. A abstração reflexiva está associada aos aspectos operativos, ou seja, envolve a construção de relações entre os objetos. É importante saber que apesar da distinção entre abstração empírica e abstração reflexiva ou lógico‑matemática, ambas são processos que atuam de forma indissociável. É impossível ao indivíduo construir uma relação lógico-matemática de cor sem o suporte físico da cor e vice-versa. A abstração reflexiva ou lógico‑matemática diz respeito às operaçõesmentais de classificar, comparar, seriar, incluir. Para estimular a aquisição do conceito lógico-matemático o(a) professor(a) deve encorajar a criança a agir sobre os objetos e depois refletir sobre as ações realizadas. O(a) professor(a) deve estar atento à atividade da criança para oportunamente intervir com uma pergunta, um comentário, sempre no sentido de promover a reflexão sobre a ação. IMPORTANTE! UNIUBE 43 Apesar do conhecimento implicar ação da criança sobre o objeto, essa ação nunca é puramente cognitiva; nela, a afetividade, os interesses e os valores existem em graus distintos. No ato de conhecer e em todo o comportamento humano, a afetividade e a inteligência estão sempre presentes. Para Piaget, afetividade e inteligência são dois aspectos indissociáveis de uma mesma ação. Piaget afirma que há uma estreita relação entre o desenvolvimento da afetividade e o das funções intelectuais. Desta forma, as situações que estimulam a inteligência repercutem também na afetividade e na qualidade das relações sociais. As ações, a motivação e a cooperação social estão, para esse teórico, intimamente ligadas às funções intelectuais, o que permite dizer que o progresso intelectual traz consigo modificações ao nível da afetividade e das relações sociais. O desenvolvimento da inteligência2.4 Segundo Piaget, a inteligência é uma das formas utilizadas pelos homens para adaptarem-se ao mundo. Esta adaptação se dá de forma constante, progressiva, e resulta da equilibração de estruturas que vão se construindo ao longo do desenvolvimento humano. Esse processo de equilibração, chamado por Piaget de equilibração majorante, pode ser representado pela forma de uma espiral na qual uma estrutura é sempre a base de outra que a sucederá. O processo de equilibração majorante é o resultado da ação dos seguintes fatores: 44 UNIUBE 1) Maturação: é um processo interno que constitui a base biológica do comportamento. É representada pelo amadurecimento das estruturas biológicas diante das interações com o meio. 2) Experiência: é a ação do indivíduo sobre os objetos no sentido de extrair deles as suas características, o que ocorre no conhecimento físico, ou no sentido de extrair propriedades, não dos objetos mas da ação sobre esses objetos, conhecimento lógico-matemático. 3) Transmissão social: só é possível na espécie humana; refere-se às experiências histórico-culturais e está vinculada às estruturas cognitivas. Ou seja, ao estágio de desenvolvimento do indivíduo. Desta forma, não é possível transmitir a uma criança de seis meses o nome de uma cor achando que ela irá repeti-lo. 4) Equilibração: a equilibração se refere às trocas do sujeito com o mundo em busca de um melhor equilíbrio. Para Piaget, de todos os fatores apontados para o desenvolvimento da inteligência, este é fundamental porque é o que consolida o processo de estruturação da inteligência. Estágios do desenvolvimento cognitivo para Piaget2.5 A noção de estágios é um tema central na abordagem piagetiana. Para Piaget, o desenvolvimento intelectual é o processo pelo qual as estruturas da inteligência se constroem progressivamente por meio da dinâmica e contínua interação entre o sujeito e o meio. Os estágios possuem um caráter integrativo, ou seja, as estruturas de um nível encontram-se integradas ao nível posterior. São quatro o número de estágios do desenvolvimento para Piaget: UNIUBE 45 1. sensório-motor (0 a 2 anos); 2. pré-operacional ( 2 a 6/7 anos); 3. operacional concreto ( 7 a 11/12 anos); 4. operações formais (12 anos para frente). 2.5.1 Principais características do estágio sensório-motor A inteligência sensório-motora pode ser compreendida, basicamente, como uma adaptação prática ao mundo. Ela é construída progressivamente a partir dos reflexos inatos logo após o nascimento da criança. Neste estágio, o bebê inicialmente não diferencia o seu eu do mundo exterior. O eu e o mundo constituem um mesmo bloco indiferenciado, e não existe a consciência de si mesmo e nem dos objetos. Nesta fase, podemos dizer que há uma indiferenciação adualística. Entretanto, progressivamente, a consciência do bebê começará a ser estruturada a partir das experiências sensório-motoras da criança com o meio. Utilizando-se inicialmente dos esquemas de sugar, olhar, pegar, a criança sensório-motora irá adaptar-se ao mundo por meio dos processos já estudados por você da assimilação e da acomodação. O período sensório-motor pode ser subdividido em seis subestágios, sendo o primeiro por volta de um mês de vida da criança em que os processos de assimilação e acomodação, encontram-se indissociáveis e ainda são confundidos. 46 UNIUBE Os esquemas presentes no nascimento são os reflexos, que de um lado indicam imaturidade do sistema nervoso, e de outro apontam o primeiro sinal de atividade psíquica como, por exemplo, o reflexo da sucção, e os reflexos patelares e pupilares. Desde a mais tenra idade, a criança está usando os seus esquemas, inicialmente, os reflexos, para interagir com o mundo e formar as novas estruturas mentais, por isso, desde bebês, os seres humanos devem e precisam ser estimulados e desafiados. Nesta fase, é necessária a apresentação à criança de diferentes estímulos táteis, sensoriais, visuais e sonoros e verbais. IMPORTANTE! No final do estágio sensório‑motor, a criança que inicialmente interagia com o mundo apenas pelos esquemas reflexos, se adequadamente estimulada e desafiada, será capaz de representar os objetos e as ações por meio de mecanismos mentais. Por exemplo, se escondemos um objeto da criança atrás de uma almofada, na ausência do objeto a criança o procura onde o colocamos. Nessa ação, é possível observar uma representação mental. 2.5.2 Principais características do estágio pré-operacional As estruturas sensório-motoras construídas no estágio anterior formaram as bases para a gênese de uma nova estrutura, a pré-operacional ou pré-operatório. A passagem do estágio sensório-motor para o estágio pré-operacional é caracterizada pela interiorização dos esquemas mentais formados no período anterior. Como exemplo, pensamos na capacidade da criança de formular uma imagem mental (ou seja, mesmo não vendo o objeto, ela o UNIUBE 47 procura onde foi colocado) e o aparecimento da função simbólica que se refere à capacidade da criança de representar objetos e acontecimentos ausentes por meio de símbolos e signos diferenciados. Neste período de desenvolvimento infantil a criança apresenta o que Piaget chama de pensamento egocêntrico. O pensamento egocêntrico ou o egocentrismo, também chamado de egocentrismo deformante, é a manifestação de um pensamento centrado na perspectiva do sujeito, em que não há indiferenciação entre o ponto de vista da criança e o dos outros. Nesta fase, a criança atribui aos objetos características de seu próprio eu, dotando-os de qualidades subjetivas, como por exemplo, quando diz que a lua a segue, ou que o sol vai dormir. Isto acontece porque há um predomínio do processo de assimilação sobre o processo de acomodação. Ao contrário de realizar uma adaptação à realidade exterior, a criança transforma a realidade em função de seus desejos em uma perspectiva arbitrária em que considera a sua percepção imediata como absoluta. O egocentrismo enquanto traço intelectual está presente no pensamento infantil na representação do mundo, nas tentativas de explicações dos fenômenos naturais, na linguagem e no raciocínio e nos comportamentos sociais. O egocentrismo caracteriza-se em um conjunto de atitudes pré-críticas, pré-lógicas, e pré-conceituais, com relação aos outros, à natureza, ou a si mesma. 48 UNIUBE Para que a criança supere a perspectiva do egocentrismo, é preciso que ela seja desafiada a considerar os diferentes aspectos dos objetos e das situações, bem como a observar suas atitudes e os fenômenos por vários ângulos. IMPORTANTE! 2.5.2.1 Manifestações do egocentrismo infantilSão manifestações do egocentrismo infantil: 1) Animismo: tendência infantil de conceber todos os objetos como vivos e possuidores de sentimentos e intenções. Para a criança tudo que exerce alguma atividade está vivo e tem consciência. Desta forma, as estrelas a seguem a noite e vão dormir quando amanhece o dia, ou a lua se move para levar a chuva a diversos lugares. 2) Finalismo: crença de que tudo que existe, existe para servir ao homem, e em especial às crianças. Por não perceber a lógica de uma pergunta, a criança responde de acordo com a finalidade funcional dos objetos. Em vez de responder o que é, responde para que é. Por exemplo, quando perguntada sobre o que é uma cadeira, ela responde que é para sentar. 3) Artificialismo: concepção de que todas as coisas foram construídas pelo homem ou por uma entidade divina. Por exemplo, que as montanhas e os lagos são construções humanas. 4) Interpretação mágico – fenomenista do mundo: qualquer coisa pode ser produzida por qualquer coisa, exemplificando: a criança afirma que o dia clareia quando ela acorda. 5) Pensamento intuitivo: é o conhecimento fundado na percepção imediata, sem considerar as várias dimensões de um fenômeno ou de uma experiência. A criança leva em conta apenas a aparência dos objetos. UNIUBE 49 O pensamento intuitivo tem como características a justaposição, a transdução, o sincretismo, a irreversibilidade e a centralização. A justaposição diz respeito à dificuldade da criança pré‑operacional de fazer inclusões, portanto sínteses ou formular um conceito. Por exemplo, quando perguntada se em sua sala de aula há mais meninos do que crianças, ela não saberá ao certo como responder. Transdução: diz respeito à dificuldade infantil de generalizar ou chegar às leis gerais. Exemplificando: apenas por meio de suas observações é pouco provável que a criança compreenda que todas as pessoas morrem, ou que todos os animais se reproduzem. Sincretismo: generalizações estruturadas sem uma relação lógica. Por exemplo, quando se diz a uma criança que ela não deve comer uma banana por estar verde e a criança mais tarde recusa-se a comer uma pêra porque é verde, há uma generalização indevida entre fruta verde e fruta de cor verde. Irreversibilidade: é a dificuldade infantil de percorrer cognitivamente um caminho inverso ao já realizado, ou seja, de inverter mentalmente a direção, voltando a um ponto de partida não modificado. Por exemplo, em uma operação matemática compreender que a subtração é o inverso da adição. Centralização: pensamento rígido e inflexível que não considera os vários aspectos de uma questão. Por exemplo, ao apresentar à criança dois copos sendo um mais alto e estreito e o outro mais baixo e largo, porém, ambos comportando a mesma quantidade de líquido. Nessa situação, a criança dirá que há mais água no copo longo e fino porque por ser mais alto nele o nível da água fica acima do nível do copo mais largo e baixo. 50 UNIUBE Nessa ocasião, a criança considera apenas a altura do nível da água desprezando os outros aspectos. Caro(a) cursista, como você deve ter percebido, o egocentrismo infantil está presente em todas as formas de interação da criança com o mundo, inclusive nas relações sociais de cooperação em que não há trocas sociais baseadas na reciprocidade, pois nesta fase como já foi dito, a criança não distingue o ponto de vista dos outros do seu, por lhe faltar a capacidade de coordenar os seus próprios pontos de vista. Normalmente nesta fase, quando as crianças estão agrupadas e a professora coloca sobre a mesinha peças de um jogo para que brinquem juntas, a primeira atitude dos alunos é puxar para si mesmos a maior quantidade possível de peças, numa demonstração clara de sua dificuldade de cooperar, expressão do pensamento egocêntrico. Auxiliar a criança a superar este pensamento é condição fundamental para que ela passe para outro estágio de desenvolvimento, o das operações concretas, pois é somente quando as estruturas operatórias são construídas é que é possível acontecer as trocas intelectuais baseadas na cooperação. EXPLICANDO MELHOR A seguir, algumas sugestões para que você desafie os seus alunos a superarem o egocentrismo e estabelecerem relações baseadas na reciprocidade e na coordenação de pontos de vista: você, enquanto professor(a), pode organizar jogos e atividades que devem ser realizados em pequenos grupos. Antes de iniciar as atividades, a professora e os alunos devem estabelecer, juntos, as normas de como realizá-las de modo que todos participem. Estas normas devem ser primeiro verbais e depois registradas por escrito com a “assinatura” dos participantes. UNIUBE 51 Pode, ainda, atribuir a duas ou mais crianças a responsabilidade pela organização da sala de aula no final do dia, em um sistema de rodízio, promovendo a cooperação. Como a criança pré-operatória está ainda na fase do respeito unilateral, o que a faz considerar como obrigatórias as normas recebidas dos adultos, é preciso que ela compreenda as razões e os significados destas normas, mesmo as mais simples como, por exemplo, o horário de ir ao banheiro. Assim sempre que for necessário estabelecer uma regra, ela deve ser estabelecida conjuntamente e ser cumprida. 2.5.3 Principais características do estágio operacional-concreto Neste estágio, o pensamento infantil evoluirá da ausência de organização lógica do estágio anterior para um pensamento mais lógico na perspectiva da lógica adulta. Assim, para Piaget, a partir dos 7 (sete) anos, a criança já será capaz de realizar algumas operações concretas, graças aos resultados das operações mentais interiorizadas e reversíveis. Entretanto, no início deste estágio, a lógica infantil ainda estará muito dependente destas operações, vinculadas à manipulação dos objetos. E, só, aos poucos, que a criança será capaz de utilizar símbolos como a linguagem. Conhecidas também como operações lógico-matemáticas e infralógicas, por serem constitutivas do objeto, as operações desta fase se referem às noções de: • conservações físicas; • de quantidade; • de peso e de volume; 52 UNIUBE • a noção de espaço, envolvendo os conceitos de comprimento, de superfície e de perímetro entre outras; e • o conceito de tempo e de movimento, envolvendo a articulação entre tempo e velocidade. Para que estas noções sejam construídas pelas crianças, devem ser organizadas pela professora atividades e situações, em que, quando desafiados, os alunos tenham condição de perceber que o todo se conserva independente do arranjo de suas partes. Só assim poderão construir o conceito fundamental de reversibilidade, tornando o seu pensamento reversível. Sugestão de atividades de conservação: • Primeira sugestão A professora deverá colocar sobre a mesa, dez objetos iguais e enfileirados, (por exemplo, botões). Em seguida, deve distribuir uma caixa de palitos e solicitar ao aluno que coloque um palito para cada botão. Depois, a professora juntará os palitos colocados pela criança em um montinho e deverá perguntar ao educando se ainda há a mesma quantidade de palitos e botões, por qual motivo, e como a criança sabe. Esta atividade pode ser realizada, utilizando-se de vários objetos como cartões, tampas de refrigerante e outros. • Segunda sugestão Agora, a professora irá apresentar ao aluno, duas bolas de massinha do mesmo peso e lhe perguntar se ambas têm o mesmo peso. Após a criança admitir a equivalência de peso, a professora colocará as duas bolas sobre a mesa e transformará uma delas em bastão. Em seguida, perguntará ao aluno qual dos dois objetos é o mais pesado: a bola ou o bastão. O aluno deverá responder a questão sem pegar os objetos. UNIUBE 53 • Terceira sugestão Para trabalhar o conceito de velocidade, a professora deverá apresentar ao aluno duas tiras de papel de tamanho diferentes, dizendo que representam duas estradas que serão percorridas por dois veículos idênticos. Em seguida,perguntará ao aluno: se os dois veículos partirem ao mesmo tempo, no início de cada estrada e desenvolverem a mesma velocidade, qual deles chegará primeiro? Por quê? Como você sabe? A classificação consiste na capacidade de estabelecer relações entre os objetos e reuni-los em classes. Para que a criança adquira esta estrutura mental também é fundamental que a professora crie várias situações de desafios cognitivos em que o aluno é solicitado a formar classes e subclasses. Sugestão de atividades de classificação: • Primeira sugestão Logo no início do ano, o aluno deverá ser estimulado a fazer uma coleção de objetos do seu agrado. Colecionando objetos, a criança tem a oportunidade de formar classes. Ao guardar os objetos escolares no armário da sala de aula, os alunos devem ser orientados a guardá-los de acordo com o material que são confeccionados, por exemplo, os materiais de madeira devem ser guardados separados dos de plástico. • Segunda sugestão A professora deverá apresentar aos alunos uma coleção, por exemplo, de animais de plástico contendo seis gatos e três cachorros. Em seguida, ela deverá perguntar ao aluno se há mais gatos do que animais, por qual motivo e como ele sabe. 54 UNIUBE Como o subconjunto de gatos é maior comparado ao subconjunto de cachorros, e como subconjunto do conjunto de animais é menor, entender esta lógica é pouco provável para uma criança que ainda não tem estruturas cognitivas para operar simultaneamente com duas dimensões distintas da realidade. É aproximadamente por volta dos 8 (oito) anos que a criança já possui estruturas mentais capazes de operar dominando o conceito de inclusão de classe, que é a condição de compreender que um subconjunto, mesmo quando considerado isoladamente, continua sendo parte de um todo maior. Como é o caso dos gatos. A seriação é a capacidade de ordenar objetos, segundo a sua grandeza, crescente ou decrescente. Aqui vale considerar além da grandeza de tamanho, outras grandezas tais como: tonalidade, espessura, textura. O professor deve criar situações em que a criança pode manipular grande diversidade de objetos de diversas grandezas. Sugestão de atividades de seriação: • Primeira sugestão A professora pode solicitar aos alunos que formem uma fila em ordem para saírem da sala de aula. Esta ordem não precisa ficar restrita ao tamanho dos alunos, ela pode usar como critérios o tom dos cabelos, da pele, o peso. • Segunda sugestão A professora apresenta ao aluno uma caixa contendo diversos materiais do mesmo tamanho, porém com diferentes cores e textura e desafia este aluno a formar com esses objetos uma fila organizada. Depois questiona ao aluno sobre como formou a fila, ou seja, que critério utilizou. UNIUBE 55 • Terceira sugestão Ainda: a professora apresenta ao aluno um conjunto com 10 bastonetes de diferentes tamanhos e solicita que ele os ordene. Após a organização feita pelo aluno, a professora pega um dos bastonetes do meio retira-o da fileira e pede ao aluno novamente que o encaixe no lugar correto. Em seguida questiona porque o bastonete foi colocado naquela posição. A formação do conceito de número é indissociável das operações lógicas de classificação e seriação. O fato da criança ter aprendido a contar verbalmente, não significa que ela tenha construído o domínio do conceito de número. O número é uma abstração, portanto não expressa uma coisa, mas sim um lugar em uma série, ou em uma escala. Os números operativos só são compreendidos pela criança quando ela já tem claro que a conservação dos conjuntos independe das configurações espaciais. 2.5.4 Principais características do estágio das operações formais. A partir mais ou menos dos 12 (doze) anos de idade inicia-se o pensamento lógico-formal. Neste estágio, o pensamento afasta-se do nível concreto ou figurativo, tornando‑se competente para refletir sobre as suas próprias operações. Agora o foco do pensamento não é mais o objeto concreto, mas sim o logicamente possível. Veja, a seguir, um quadro de Sophie Gengembre Anderson, em que ela retrata uma jovem adolescente (Figura 2). 56 UNIUBE Figura 2: Retrato de uma jovem adolescente, quadro de Sophie Gengembre Anderson (1823-1903). Fonte: Wikipedia. Volte agora à sua adolescência! Você consegue se lembrar de como era? E o seu comportamento? Quais eram suas aspirações? AGORA É A SUA VEZ As operações mentais, nessa etapa, contemplam hipóteses e não mais apenas os objetos. Como as hipóteses são proposições e não objetos, as operações formais são operações interproposições, ou seja, envolvendo, articulando várias proposições. Neste estágio de desenvolvimento do pensamento, o raciocínio hipotético dedutivo torna-se possível. Na adolescência, é possível observar os seguintes progressos intelectuais: 1) desenvolvimento de pensamento combinatório, ou seja: o adolescente é competente para utilizar-se das variáveis da lógica formal para conseguir as informações que deseja; 2) capacidade para compreender as relações lógicas entre as diversas classes. Esta característica permite‑lhe lidar com o método científico de investigação, sendo competente para observar e compreender as variáveis e possibilidades de um fenômeno. UNIUBE 57 As operações mentais envolvendo conservação, classificação, seriação e número, construídas, no período anterior, avançarão para o nível hipotético-dedutivo. Dessa forma, o pensamento formal passa a considerar não mais o concreto, mas especialmente as abstrações, que são as proposições. Essa substituição dos objetos por enunciados verbais só é possível graças à lógica das proposições. 2.5.4.1 O egocentrismo na adolescência O adolescente inicialmente relaciona-se com o mundo por meio da assimilação egocêntrica, que é a assimilação sem a acomodação. Dessa forma, a princípio, apesar de já operar mentalmente por meio da lógica formal, ele apresenta um grande egoísmo intelectual que o leva a acreditar em uma perspectiva onipotente que o mundo deve se submeter à reflexão e não à realidade. Como é competente para pensar de modo hipotético-dedutivo, no adolescente a reflexão ultrapassa o real e o presente e ele se volta em todas as situações e oportunidades para a construção de “teorias” e “sistemas”. Essas “teorias” e “sistemas” são a expressão de um processo permanente de autorreflexão. Para Piaget, gradativamente o egoísmo inicial do adolescente vai cedendo lugar a comportamentos mais adaptados ao real, graças principalmente ao intercâmbio social de sentimentos, ideias, ações e atitudes. Nesta fase, o diálogo, as discussões, as trocas de ponto de vista são importantíssimas para ajudá-lo a superar a fragilidade de seus pontos de vista. Proposições São expressões verbais de um juízo ou conceito. É uma asserção. (FERREIRA, 2008). 58 UNIUBE O julgamento moral e o processo de socialização2.6 Ao contrário desta imagem da criação de Adão por uma figura divina, obra do pintor renascentista italiano Michelangelo (Figura 3), para Piaget a moral é uma construção social, e não uma característica inata dos indivíduos. Figura 3: A criação de Adão – Afresco da Capela Sistina, pintado por Michelangelo. Fonte: Michelangelo (2009). No início de sua carreira como epistemólogo e psicólogo, em 1932, Piaget publicou um livro chamado: Le jugement moral chez l’enfant, em português O Julgamento Moral na Criança, que se tornou um clássico da literatura psicológica contemporânea, referência fundamental para estudiosos e pesquisadores da moral, da ética e das interações sociais. Neste livro sobre a construção do juízo moral, Piaget sugere uma relação entre afetividade e cognição. Piaget inicia sua pesquisa sobre a moralidade escolhendo o jogo de regras como campo de investigação. A escolha de Piaget pelos jogos de regras se deve pelo menos a três razões. UNIUBE 59 1) Os jogos coletivos de regras representam uma atividade interindividual, ou seja, uma atividade que envolvevários indivíduos, regulada por normas ou regras que, embora sejam pré‑definidas, podem ser modificadas pelos jogadores; 2) embora as regras não tenham em si um caráter moral, por envolver questões de justiça e de honestidade, respeitá-las é moral; finalmente, 3) como os acordos estabelecidos envolvem a totalidade dos jogadores e não uma aceitação de normas impostas por autoridades distantes da atividade do jogo, é possível pensá-los como uma interpretação da moralidade humana. Assim para estudar a construção da moral nos meninos, este pesquisador escolheu o jogo de gude e, nas meninas, a amarelinha. No transcorrer da atividade, Piaget percebeu três etapas na evolução da consciência das regras, a saber: anomia, heteronomia, autonomia. Na anomia, etapa característica das crianças de até 5 (cinco) e 6 (seis) anos, os infantes não seguem regras coletivas. Interessam-se pelo jogo para satisfazer interesses motores ou simbólicos. Nesta fase, são incapazes de julgar as suas ações e as ações alheias, desconhecendo na maioria das vezes as consequências de seus atos. Heteronomia: nesta etapa, as crianças se interessam por participar de atividades coletivas e com regras, entretanto, não concebem a possibilidade de modificação das regras, pois, acreditam que foram elaboradas por “senhores” ou até mesmo por Deus. 60 UNIUBE As ordens e regras devem ser obedecidas sempre e o adulto é o detentor absoluto da autoridade. Nesta fase, a responsabilidade pelos atos é avaliada pelas crianças de acordo com as suas consequências e não pelas intenções. Assim, o castigo deve sempre ser proporcional às consequências da ação. Por exemplo: se uma criança acidentalmente deixa quebrar 2 (dois) copos e outra intencionalmente quebra 1 (um), a que quebrou o maior número de copos deve receber o castigo mais severo. Autonomia: nesta etapa, as crianças já são capazes de jogar, respeitando as regras do jogo e realizando acordos mútuos percebendo- se e percebendo os demais jogadores como “legisladores”, ou seja, capazes de criar regras que serão submetidas à apreciação e à aceitação de todos. Nesta etapa, a responsabilidade pelos atos é julgada pela intenção e não pelas suas consequências; aqui ganha prioridade as interpretações subjetivas e a sinceridade em contraposição à falsidade torna-se requisito para a empatia. A questão da construção da autonomia do sujeito é fundamental para Piaget, pois o indivíduo, concebido por ele, utilizando-se da razão, é capaz de estabelecer as suas certezas, e libertar-se de tradições autoritárias que o fazem refém de imposições e dogmas. Desta forma, o homem piagetiano é aquele capaz de dizer consequentemente “sim” e “não”, quando o resto da sociedade diz apenas um “sim” heterônomo. Entretanto, o processo de construção desse indivíduo está sustentado nas oportunidades de usufruir de relações sociais de cooperação, e trocas intelectuais, morais e afetivas. UNIUBE 61 Nesta perspectiva, o diálogo e o respeito precisam ser um contraponto ao autoritarismo e às relações de coerção que inibem o desenvolvimento, impedindo a criança e o adulto de se emanciparem moral, intelectual e afetivamente. Assim, é fundamental para quem trabalha, sustentado na abordagem teórica piagetiana, a construção de um clima afetivo em que as trocas, as cooperações e as interações sociais são privilegiadas e o pensamento é desafiado. Conclusão2.7 Este capítulo tratou dos principais pressupostos da teoria piagetiana, iniciando pela questão da epistemologia genética até chegar à construção da moral. Sendo assim, espero, caro(a) leitor(a), que você tenha se envolvido com o texto e, principalmente se interessado pelos estudos, pesquisas e concepções de Piaget. A teoria piagetiana em hipótese alguma se esgota neste capítulo. O conhecimento do pensamento piagetiano é, a meu ver, indispensável a todos que trabalham ou se interessam pelos temas da educação e da Psicologia. Compreender a obra piagetiana é um trabalho processual que demanda estudos, leituras e experimentações. A obra de Piaget é vasta, complexa e, assim como a de Vygotsky, contemporânea. Sugiro que você coloque em prática as atividades deste capítulo e crie novas atividades, exercitando e desafiando o seu pensamento e o de seus alunos. Bom trabalho! 62 UNIUBE Resumo Neste estudo, por já termos tido contato com a biografia de Piaget no capítulo: “A criança e o desenvolvimento segundo Piaget”, iniciei os trabalhos tratando da questão fundante da obra piagetiana, que é a postulação da epistemologia genética. Logo após apresentei o conceito de equilibração para Piaget sem o qual é improvável compreender a teoria piagetiana da construção de conhecimentos, passando de uma estrutura mental mais elementar para outra mais complexa. Em seguida, vimos os principais constructos da teoria piagetiana, dando destaque por meio de exemplos aos papeis da assimilação, da acomodação e da equilibração. Nesta lógica chegamos ao processo de desenvolvimento da inteligência, e aos estágios do desenvolvimento cognitivo, sugerindo atividades pedagógicas práticas para se trabalhar as noções de conservação, seriação e classificação sem as quais a criança não evolui o seu pensamento do nível concreto para o nível das abstrações. No estágio do pensamento pré-operacional, destaquei o egocentrismo infantil com as suas características específicas e a importância do papel do professor como desafiador da inteligência infantil e promotor de vivências de cooperação. Ao apresentar o estágio das operações formais, já na adolescência, dei destaque ao pensamento egocêntrico desta fase, considerando a importância das interações sociais, do diálogo e das trocas de ponto de vista como importantíssimas para possibilitar aos adolescentes superarem a fragilidade de seus pontos de vista. UNIUBE 63 Finalmente, tratei da questão importantíssima da construção da moralidade na obra piagetiana, tema que, a meu ver, merece mais destaque, inclusive um estudo específico, visto a sua importância para o conceito do “homem piagetiano”. Referências ANDERSON, Sophie Gengembre. Retrato de uma jovem adolescente. Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anderson_Sophie_Portrait_Of_Young_ Girl.jpg. Acesso em: 27 nov. 2009. ARANHA, M. L. A. História da educação e da pedagogia, geral e Brasil.3. Ed. São Paulo: Editora Moderna, 2007. ASSIS, O. Z. M. Uma nova metodologia de educação pré-escolar. 6. ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora,1989. CARMICHAEL. 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Desenvolvimento do juízo moral e afetividade na teoria de Jean Piaget, em La Taille, Y., Dantas, H Oliveira, M.K. _____ Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. 13. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1992. ______., OLIVEIRA, M. K. , DANTAS, H. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. 13. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1992. MICHELANGELO. A criação de Adão. Disponivel em <http://pt.wikipedia. org/ wiki/Capela_Sistina>. Acesso em: 30 dez. 2009. PALANGANA, I. C. Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vygotsky, a relevância do social.3 ed. São Paulo: Summus Editorial, 2001. PIAGET, J.; INHELDER. B. A psicologia da criança. Trad. Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. PIAGET, J. Biologia e conhecimento: ensaio sobre as relações entre as regulações orgânicas e os processos cognoscitivos. Petropólis: Vozes, 1973. ________ Coleção Grandes Educadores. 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Crianças brincando de esconde-esconde em pintura do século XIX.. Disponível em: <http//pt.wikipedia.org/wiki/esconde-esconde>. Acesso em: 27 nov. 2009a. Cíntia Gomide Tosta Introdução A aprendizagem e o desenvolvimento para Vygotsky Capítulo 3 Caro leitor, a história do processo de desenvolvimento humano remonta à pré-história de nossa espécie. Na Grécia Antiga, cerca de 400 a 300 a.C., vários filósofos como Platão, Socrátes e Aristóteles já se perguntavam sobre a origem do homem e elaboravam teorias para compreender o seu complexo processo de desenvolvimento. Diferentes visões e explicações de como os seres humanos se desenvolvem e aprendem coexistem na contemporaneidade. Dentre as teorias construtivistas do século XX, temos o sócio-interacionismo de Vygotsky (Figura 1) como uma obra original e brilhante a respeito do processo de humanização do homem. Figura 1: Lev S. Vygotsky. Fonte: Wikipédia (2009d). 68 UNIUBE Diante da morte prematura de Vygotsky, não se pode falar de uma teoria vygotskyana a respeito do desenvolvimento humano. Neste capítulo, apresentarei a você o trabalho deste pensador e seus principais colaboradores, Luria e Leontiev e alguns dos mais importantes postulados da Teoria Histórico-cultural que defende a questão da humanização a partir de uma perspectiva complexa, pluridimensionada e dialética, em que as bases biológicas encontram-se indissociadas de aspectos socioculturais na formação do desenvolvimento psicológico do indivíduo, o que dá, às interações culturais, um papel determinante na constituição humana. Apresentar estas questões à você em uma perspectiva interativa, priorizando as contribuições do trabalho de Vygotsky aplicadas à educação escolar e à prática pedagógica do professor é o meu objetivo neste capítulo. Para tanto, inicialmente, apresentarei os objetivos do capítulo. Para tanto, inicialmente lhe apresentarei os objetivos do capítulo, seguidos de uma bibliografia de Vygotsky, após o texto permeado com os principais postulados deste pensador e da Teoria Histórico-cultural. Em seguida apresentarei as conclusões e o resumo do trabalho, finalmente, as leituras obrigatórias e complementares e as atividades. Sugiro que, para uma melhor compreensão e aplicação dos conteúdos deste texto à sua prática pedagógica, você se aproprie de uma postura reflexiva e investigativa, articulando as ideias à sua práxis educativa. Boa leitura! Postulado Princípio ou argumento de uma teoria. Pluridimensionada Que possui duas ou mais dimensões. UNIUBE 69 Ao final do estudo deste capítulo, você deverá ser capaz de: • conhecer a importância do outro social para Vygotsky e para a Teoria Histórico-cultural; • conhecer os principais postulados do trabalho de Vygotsky e da Teoria Histórico-cultural; • identificar a relação entre aprendizagem e desenvolvimento para Vygotsky; • relacionar o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal e o papel da escola. 3.1 Vygotsky e o materialismo histórico 3.2 O papel fundamental da cultura para a constituição humana 3.3 O socio‑interacionismo de Lev Semenovich Vygotsky 3.4 As interações socioculturais na constituição do indivíduo 3.5 O papel da mediação e dos signos 3.6 O trabalho, a linguagem e a formação das funções psicológicas superiores, tipicamente humanas 3.7 Funções psicológicas elementares e funções psicológicas superiores 3.8 Os diferentes níveis de desenvolvimento humano para Vygotsky 3.9 O papel da escola e do professor 3.10 Conclusão Objetivos Esquema Vygotsky e o materialismo histórico3.1 Lev Semenovich Vygotsky nasceu em 5 de novembro de 1896 em Orsha, Bielorrússia e faleceu prematuramente em 1934, vítima de tuberculose. 70 UNIUBE Era filho de uma família judia possuidora de uma excelente condição econômica e cultural: o pai de Vygotsky era chefe do Banco Central e sua mãe, além de falar vários idiomas, tinha grande predileção pela poesia. Vygotsky foi um estudioso multidisciplinar. Seus estudos foram voltados para a psicologia da arte e, erudito como era, tinha amigos como o celebrado cineasta Sergei Eisenstein, notavel por seus filmes mudos, entre eles O encouraçado Potemkin e Outubro: dez dias que abalaram o mundo. Em suas Proposições para a análise da obra de arte, Vygotsky faz um contraponto com a teoria psicanilítica com estudos da mitologia, linguística e poética. No estudo moderno da arte literária, foi pioneiro. O governo stalinista restringiu suas obras, possivelmente devido à censura da psicanálise na Rússia, a exemplo da perseguição e fechamento da “Creche branca” de Sabina Spielrein, membro da Sociedade de Psicanálise de Viena e uma das primeiras mulheres psicanalistas do mundo. Concluindo os seus estudos em Direito e Filosofia na Universidade de Moscou em 1917, Vygotsky posteriormente iniciou estudos em Medicina na área de neurologia, não concluindo o curso em função do agravamento de sua doença o que resultou em seu falecimento em 11 de junho de 1934, vítima da tuberculose. Profissionalmente, Vygotsky teve uma vida proveitosa e intensa: lecionou Literatura e Psicologia em Gomel. Em Moscou trabalhou de início no Instituto de Psicologia, e, mais tarde, no Instituto de Defectologia, por ele fundado. Dirigiu também um Departamento de Educação para deficientes físicos e mentais. De 1925 a 1934 lecionou Psicologia e Pedagogia em Moscou e Leningrado. Nesta época, iniciou estudos sobre a crise da Psicologia buscando uma alternativa dentro do materialismo dialético para o conflito entre as concepções idealista e mecanicista. Erudito Instrução vasta e variada. UNIUBE 71 No início de 1924, participou do mais importante fórum para os cientistas que trabalhavam na área de psicologia geral: O II Congresso de Psiconeurologia em Leningrado em que conheceu Lúria e Leontiev e foi convidado a integrar o corpo de assistentes do Instituto de Psicologia de Moscou. Seus estudos o levaram, junto com um grupo de pesquisadores dentre eles Luria e Leontiev, a elaborar propostas teóricas inovadoras sobre: o pensamento e a linguagem, o processo de desenvolvimento da criança e o papel da aprendizagem no desenvolvimento humano. Tendo vivido a Revolução Russa de 1917, e estudado as obras de Karl Marx e Friedrich Engels, principalmente o materialismo histórico, introduziu na Psicologia, fundamentalmente em seu trabalho, a dialética materialista, segundo a qual as mudanças históricas na natureza, na sociedade e na vida material produzem modificações na “natureza humana”. Estudando a origem das funções psicológicas superiores, aquelastipicamente humanas, Vygotsky torna-se pioneiro na defesa de que a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa principalmente por meio da linguagem. Sua morte prematura interrompeu o seu trabalho, porém as suas ideias não morreram graças às pesquisas e aos estudos de seus colaboradores principalmente, Luria e Leontiev. Fundador da doutrina comunista moderna, Marx foi um intelectual revolucionário alemão. Nasceu em 1818 em Tréveris e faleceu em Londres em 1838. Suas ideias influenciaram várias áreas do conhecimento, como: a Filosofia, a Antropologia, a Psicologia e a Política. Considerado um grande pensador, sua obra mais conhecida é O capital. SAIBA MAIS 72 UNIUBE 3.2 O papel fundamental da cultura para a constituição humana Caro cursista, antes de ler este texto, você muito provavelmente já tinha ouvido falar de Lev Semenovich Vygotsky, um dos maiores nomes da psicologia soviética e de seus estudos e pesquisas a respeito do desenvolvimento das funções psicológicas superiores e do processo de aprendizagem e desenvolvimento humano. Certamente, em alguns momentos neste curso, você teve contato com o pensamento de Vygotsky e o de seus colaboradores, principalmente Leontiev e Luria, bem como com alguns dos pressupostos da Teoria Histórico-cultural. Alexander Luria: psicólogo, dono de um trabalho erudito, Luria nasceu em Kazan, região central localizada a leste de Moscou. Destacou-se como um dos colaboradores de Vygotsky e um dos fundadores da Psicologia Histórico- cultural em que se inclui o estudo das funções psicológicas humanas e o pensamento lógico-conceitual. Com a morte de Vygotsky em 1934, Lúria, por continuar as suas pesquisas, tornou‑se um dos mais renomados neuropsicólogos mundiais, publicando mais de 30 livros. Nasceu em julho de 1902 e faleceu em agosto de 1977. Alexei Nikolaevich Leontiev: psicólogo russo, cujo campo de pesquisa compreendeu a Psicologia, a Pedagogia e a cultura. A partir de 1924, Leontiev passou a trabalhar com Lev Vygotsky, com relevante participação na proposição de construção de uma Psicologia Histórico-cultural. Decano da Faculdade de Psicologia da Universidade de Moscou, foi também o seu criador. SAIBA MAIS UNIUBE 73 Teoria Histórico-cultural: Sistematização de postulados a respeito do processo de aprendizagem e desenvolvimento humano, baseado nos estudos e pesquisas de Vygotsky sustentado na afirmação de que todo conhecimento é construído socialmente no âmbito das relações humanas. Neste sentido, tem por base o desenvolvimento do indivíduo como resultado de um processo sócio-histórico, enfatizando o papel da cultura, da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento. Alexander Luria e Alexei Leontiev foram os responsáveis pela disseminação dos textos de Vygostky, muitos deles destruídos com a ascensão de Stálin ao Kremlin. Os trabalhos de Vygotsky só ganharam relevância há pouco tempo. No periodo de 1936 a 1956, as suas obras foram impedidas de publicação na União Soviética. No ocidente, seu livro Pensamento e linguagem foi lançado nos Estados Unidos apenas em 1962. No Brasil, a primeira obra de Vygotsky publicada foi A formação social da mente. Agora iremos aprofundar um pouco mais os seus conhecimentos sobre este estudioso, tratando mais detalhadamente de suas principais contribuições para a compreensão do complexo processo de desenvolvimento do psiquismo humano. Como toda instituição educacional deve estar organizada com a finalidade precípua de promover a aprendizagem e o desenvolvimento humano, a educação, principalmente a escolar, precisa recorrer a outras áreas do conhecimento, entre elas: a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, para dar conta da complexidade de sua tarefa. Precípua Mais importante, principal, essencial. (HOUAISS, 2011, p.2281). 74 UNIUBE As funções psicológicas superiores são aquelas que envolvem processos mentais mais complexos e sofisticados, típicos dos seres humanos. Como exemplo, temos a capacidade de pensar em objetos ausentes, planejar uma atividade, imaginar uma situação não vivida. O sócio-interacionismo de Lev Semenovich Vygotsky 3.3 No capítulo “Piaget e a educação”, você conheceu as três concepções modernas a respeito do desenvolvimento humano – ambientalismo, inatismo e interacionismo, cada qual postulando diferentes noções de desenvolvimento e aprendizagem humanas. Vygotsky tem seus estudos e pesquisas sustentado em uma base interacionista, ou seja, em uma concepção que defende que o processo de desenvolvimento humano por sua complexidade é concebido como o resultado das interações entre fatores biológicos, ou seja, aqueles inerentes ao indivíduo, e fatores ambientais, aqueles relativos ao ambiente em que este indivíduo está inscrito. Entretanto, por dar enorme ênfase aos aspectos socioculturais na formação humana, para Vygotsky falar de desenvolvimento humano é falar da dimensão sociocultural em que os indivíduos se encontram inseridos. Este estudioso defende que é, principalmente, por meio das interações com os outros impulsionados pela linguagem que os homens se desenvolvem; Por isso os postulados de Vygotsky têm um caráter sócio-interacionista. Em outras palavras, para Vygotsky, a criança, a partir do seu nascimento, imersa em um contexto histórico e cultural o que a difere acentuadamente dos animais, constitui o seu comportamento e psiquismo sob a mediação de um mundo constituído pela e na história de sua cultura: ou seja, usa roupas, assiste à TV, brinca com carrinhos e boneco utiliza-se de lápis, papel e computador. Assim, por meio da apropriação da experiência historicossocial de gerações, a maioria das habilidades e conhecimentos de que dispõe os seres humanos só se aprende socialmente. UNIUBE 75 Vygotsky enfatiza que a maioria das habilidades e conhecimentos de que dispõem os seres humanos, como: usar talheres, dirigir carros, usar o computador, só se aprende socialmente, por meio da apropriação da experiência sociocultural de gerações. Este caráter sócio-interacionista do trabalho de Vygotsky, valorizador das experiências socioculturais dos sujeitos e da mediação dos adultos e pares mais experientes: é por meio destas interações que os seres humanos se humanizam, irá redimensionar o papel da educação, principalmente a educação escolar. Você já pensou em uma sala de aula, de Educação Infantil e Ensino Fundamental, em que o professor é o sujeito mais experiente e capaz? Portanto, em uma perspectiva sócio-interacionista o professor é o mediador privilegiado do processo de desenvolvimento infantil. PARADA PARA REFLEXÃO A mediação, em termos genéricos, é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento. Estando numa posição mediadora entre o indivíduo e o mundo real, a mediação consiste em uma espécie de filtro por meio do qual o homem será capaz de ver o mundo e operar sobre ele. Quando um indivíduo vê, por exemplo, um avião, ele é capaz de interpretar este objeto como um avião e não como um amontoado de informações perceptuais. O conceito de avião construído socialmente, consiste numa representação mental que faz a mediação entre o indivíduo e o objeto real que está no mundo. (OLIVEIRA, 2004, p. 36). Por isso a mediação é tão importante para os seres humanos e fundamental na educação. 76 UNIUBE As interações socioculturais na constituição do indivíduo3.4 Assim, como vimos, falar de desenvolvimento na perspectiva de Vygotsky é falar da dimensão sociocultural em que os seres humanos se encontram inseridos. Tendo pesquisado fundamentalmente as funções psicológicas superiores, aquelas tipicamente humanas, referentes ao funcionamento cognitivo complexo como a abstração e a simbolização, o desenvolvimento para este intelectual é compreendido como um empreendimento conjunto social e não individual: produto da maturação do organismo. Em meados da décadade 1920, Vygotsky e seus colaboradores Luria e Leontiev, introduzindo na ciência psicológica o pensamento de Engels e o método marxista, principalmente os princípios do materialismo histórico e da dialética, irão opor-se às concepções pavlovianas a respeito das bases mecanicistas do psiquismo humano, em que os processos psicológicos humanos estão estruturados em localizações anatômicas fixas no cérebro. Diferentes dessas concepções, para Vygotsky e seus colaboradores, os processos psicológicos superiores são sistemas funcionais, dinâmicos e historicamente constituídos mediados principalmente pela linguagem humana. Friedrich Engels – Filósofo alemão, um dos fundadores do marxismo. Após a morte de Marx, colaborou para a publicação dos dois últimos volumes de O Capital. Escreveu, em parceria com Marx, o Manifesto Comunista”. Ivan Petrovich Pavlov – Fisiólogo russo, em 1904 premiado com o Nobel de Fisiologia. Ivan Pavlov ficou conhecido por sua pesquisa a respeito do papel do condicionamento na Psicologia. Materialismo histórico – Uma das teorias centrais e sustentáculo do socialismo marxista. SAIBA MAIS UNIUBE 77 De acordo com a tese do materialismo histórico, defende-se que a evolução histórica, desde as sociedades mais remotas até a atual, se dá pelos confrontos entre diferentes classes sociais decorrentes da “exploração do homem pelo homem”. A teoria serve também como forma essencial para explicar as relações entre sujeitos. Assim, como exemplos apontados por Marx, temos durante o feudalismo servos que teriam sido oprimidos pelos senhores, enquanto que no capitalismo seria a classe operária pela burguesia. (WIKIPEDIA, 2009e). Abordagem dialética – “A abordagem dialética, admitindo a influência da natureza sobre o homem, afirma que o homem, por sua vez, age sobre a natureza e cria através das mudanças provocadas por ele na natureza, novas condições naturais para sua existência” (VYGOTSKY, 2002, p. 80). Caro(a) cursista, apesar do termo dialética ter suas origens no pensamento grego dos filósofos Aristóteles e Platão, o método dialético possui várias definições, tal como a hegeliana, a marxista entre outras. Método dialético. Para alguns, ela consiste em um modo esquemático de explicação da realidade que se baseia em oposições e em choques entre situações diversas ou opostas. Diferentemente do método causal, no qual se estabelecem relações de causa e efeito entre os fatos (ex: a radiação solar provoca a evaporação da água, esta contribui para a formação de nuvens, que, por sua vez, causa as chuvas), o modo dialético busca elementos conflitantes entre dois ou mais fatos para explicar uma nova situação decorrente desse conflito. Desta forma, compreender o significado de dialética é muito importante para quem atua com a educação contemporânea e indispensável para aqueles educadores que se identificam com o pensamento de Vygotsky e da teoria histórico-cultural. (WIKIPEDIA, 2009f). SAIBA MAIS 78 UNIUBE O papel da mediação e dos signos3.5 Desde o início de seus trabalhos e pesquisas, Vygotsky postula a questão do desenvolvimento humano a partir de uma perspectiva complexa, pluridimensionada e dialética onde bases biológicas encontram- se indissociadas de aspectos socioculturais no desenvolvimento psicológico do indivíduo o que dá às interações culturais um papel determinante na constituição da condição humana. (TOSTA, 2006) Sendo assim, para Vygotsky, a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas sim mediada por instrumentos e por signos que foram inventadas graças às necessidades da complexidade do convívio social. Os signos são elementos que representam ou expressam outros objetos, eventos situações. A palavra “mesa”, por exemplo, é um signo que representa o objeto mesa; o símbolo 3 é um signo para a quantidade três, o desenho de uma cartola à porta de um sanitário é um signo que indica: “Aqui é o sanitário masculino”. (OLIVEIRA, 2004, p. 30). EXPLICANDO MELHOR Assim, para a teoria histórico-cultural e para Vygotsky, os instrumentos que podem ser tanto de ordem material, como uma caneta, quanto de ordem simbólica como um signo, estão presentes desde a formação da espécie humana e são elementos mediadores, interpostos entre o homem e o mundo. Nesta lógica, por exemplo, para um homem primitivo, as ferramentas de “pedra lascada” e as ferramentas de “pedra polida” eram preciosos instrumentos materiais transformadores da natureza e criadores de cultura, à medida que modificavam o ambiente e a vida humana. UNIUBE 79 Desta forma, podemos inferir que o computador é um dos instrumentos materiais da contemporaneidade criado pela sofisticação da evolução tecnológica, transformadora das relações do homem no mundo e com o mundo e os desenhos, as pinturas, a escultura, a literatura, a fotografia, o cinema, a música, a dança, o teatro e toda a gama de atividades das artes são instrumentos simbólicos. Você sabia que os signos surgiram lá nos tempos da pré-história da humanidade? Eles surgiram da necessidade dos homens de solucionarem problemas tanto de ordem natural, aqueles relativos à sobrevivência da espécie como alimentação, moradia, proteção contra as intempéries e os animais, como para solucionar problemas de ordem psicológica, como lembrar, comunicar, comparar, relatar, expressar, quantificar. CURIOSIDADE Nesta perspectiva, podemos pensar em nosso sistema de linguagem verbal, pictórica e de escrita como signos culturais. Veja: Sistema de escrita = Signo Cultural Linguagem verbal = Signo Cultural Artes = Signo Cultural. Ao observanrmos, em nossa cultura, a utilização de instrumentos cada vez mais complexos e sofisticados e o domínio do uso dos signos nas atividades mais cotidianas e rotineiras, é possível perceber o quanto a produção cultural e a cultura em sua diversidade são fundamentais para o nosso desenvolvimento e inserção no mundo humano. 80 UNIUBE Oliveira, em seu livro Vygotsky – aprendizagem e desenvolvimento – um processo sócio-histórico, explica em termos genéricos o papel dos signos, instrumentos mediadores da relação humana com o mundo: [...] o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento. Quando um indivíduo aproxima a sua mão da chama de uma vela e a retira rapidamente ao sentir a dor, está estabelecida uma relação direta entre o calor da chama e a retirada da mão. Se, no entanto, o indivíduo retirar a mão quando apenas sentir o calor e lembrar-se da dor sentida em outra ocasião, a relação entre a chama da vela e a retirada da mão estará mediada pela lembrança da experiência anterior. Se, em outro caso, o indivíduo retirar a mão quando alguém lhe disser que pode se queimar, a relação estará mediada pela intervenção dessa outra pessoa. (OLIVEIRA, 2004, p.26) Nesse sentido, Vygotsky enfatiza que a maioria das habilidades e conhecimentos de que dispõem os seres humanos, inclusive a habilidade para se apropriar e usar dos signos, só são aprendidas socialmente por meio da apropriação da experiência histórico-social de gerações. 3.6 O trabalho, a linguagem e a formação das funções psicológicas superiores, tipicamente humanas Caro(a) aluno(a), agora que já tratamos de algumas questões centrais do trabalho de Vygotsky como: • a questão do sócio-interacionismo, trazendo a concepção do papel fundamental da cultura para a constituição dos indivíduos; • a questão da mediação, ou seja, a concepção de que o homem não se relaciona diretamente com o mundo, mas é mediado por vários elementos; • a questão dos instrumentos que podem tanto ser de ordem material quanto simbólica e a importância dos símbolos como fatores fundamentais para a própria humanização do homem, Vygotsky defende que o desenvolvimento do pensamento é definido pelo uso que os homens fazem dos instrumentos simbólicos, UNIUBE 81 Veremos um pouco mais detalhadamentea importância do trabalho e da linguagem para o desenvolvimento humano, culminando com o desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Luria (1991), como já vimos, um dos importantes colaboradores de Vygotsky descreve a importância do trabalho e da linguagem desde a pré-história como elementos fundamentais à transição da história natural dos animais à história social dos homens. Ele afirma que o homem primitivo, “ao produzir” diferentes instrumentos e organizar a sua confecção de acordo com a função a que se prestavam” (TOSTA, 2006), por exemplo: instrumentos de caça, instrumentos de corte, tinha o seu comportamento distinto radicalmente do comportamento animal, pois o trabalho desenvolvido na preparação do instrumento já não era determinado por um motivo biológico imediato, a necessidade do alimento. Para Tosta, a necessidade, nesse caso, a confecção do instrumento, separa-se de uma ação que é dirigida imediatamente por um motivo biológico imediato, isto é, a necessidade de sanar a fome, e só adquire sentido no emprego posterior de seus resultados (TOSTA, 2006, p. 33). Assim, a preparação de instrumentos de trabalho, que exige diferentes procedimentos e modos, por exemplo: friccionar dois pedaços de madeira para a obtenção do fogo, desbastar uma pedra com outra para afiar o corte (TOSTA, 2006, p. 34). Tais instrumentos demandam a criação de diferentes categorias de trabalho, o que implica que, para que a atividade seja bem-sucedida, é necessário a organização e o planejamento da ação, processos psicológicos mais sofisticados que ultrapassam a esfera biológica. Já o surgimento da linguagem, inicialmente acompanhada de gestos e entonações expressivas, segundo Luria (1991), também ocorreu na pré-história humana, nas relações sociais de trabalho, no processo de trabalho conjunto. 82 UNIUBE A atividade prática coletiva como a confecção dos diferentes instrumentos, a caça, o preparo dos alimentos, forçosamente faz surgir nos homens a necessidade de transmitir de uma forma mais precisa certas informações aos outros. A linguagem promoveu na atividade consciente humana três mudanças essenciais: 1) a condição de lidar com os objetos do mundo exterior, inclusive em sua ausência, ou seja, pela palavra, que é um símbolo, o homem torna presente o ausente; 2) a criação dos processos de abstração e generalização por meio da criação dos nomes para os objetos. Nomes que, além de identificarem o objeto, criam funções para eles; assim, uma cadeira independente do material que é confeccionada, pedra, madeira, aço, couro, tem a mesma função; 3) e, finalmente, por possibilitar aos homens o trabalho de análise e classificação dos objetos, a linguagem, mais do que meio de comunicação, insere o homem na possibilidade da abstração. A Teoria Histórico-cultural tem como uma de suas principais postulações a compreensão de que as funções psicológicas superiores não são propriedades ou faculdades do psiquismo existentes primitivamente, ou seja, já previamente determinadas, mas sim o resultado de uma longa constituição social que deixa marcas nas estruturas dos processos psíquicos, ou seja, na mente humana, o que enfatiza o papel da cultura na constituição dos sujeitos. Para essa abordagem, é por meio das complexas e múltiplas possibilidades de interação e mediação de caráter dialético que a humanidade e o sujeito, em uma perspectiva filogênica e ontogênica, experienciam durante toda a UNIUBE 83 sua história e, no que diz respeito ao indivíduo, principalmente durante toda a sua infância, é que se processa o desenvolvimento das funções psicológicas superiores como a memória, a atenção, a abstração, a capacidade de operar com símbolos e signos. Filogênese: ramo da ciência que estuda a história evolucionária das espécies. (FERREIRA, 1986, p.779). Ontogênese: estudo do próprio indivíduo em seu processo histórico do desenvolvimento, da fertilização à morte. Para alguns autores como Vygotsky, a ontogênese repete a filogênese, isto é, o desenvolvimento da humanidade é repetido por cada ser humano. SAIBA MAIS 3.7 Funções psicológicas elementares e funções psicológicas superiores Para Tosta, Vygotsky defende para os seres humanos a existência de dois tipos de funções psicológicas: as elementares, de dimensão biológica, marcadas pelo imediatismo que pressupõe uma reação direta ou imediata frente a uma situação – problema defrontado pelo organismo (TOSTA, 2006, p.35). Como, por exemplo, comer quando se está com fome. As funções psicológicas elementares têm como característica fundamental serem total e diretamente definidas pela percepção. E as funções psicológicas superiores, caracterizadas pela presença mediadora do signo. Segundo Tosta, Ilustrando o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, Vygotsky, usa como exemplo o desenvolvimento do gesto de apontar. Para ele, inicialmente este gesto é uma tentativa malsucedida da criança de pegar alguma coisa. A postura gestual da criança, mãos estendidas em direção ao objeto, na tentativa de pegá-lo, aparentemente lembram o gesto de apontar. (TOSTA, 2006, p.36). 84 UNIUBE Quando o adulto aproxima-se em auxílio a criança e nota que o seu movimento indica alguma coisa, a situação muda fundamentalmente. O apontar torna-se um gesto para outros. A tentativa malsucedida da criança engendra uma reação, não do objeto que ela procura, mas de outra pessoa” (VYGOTSKY, 2002, p. 74). Dessa forma, o movimento que antes era inicialmente orientado pelo objeto, torna-se um movimento dirigido para uma outra pessoa, um meio de estabelecer relações. 3.8 Os diferentes níveis de desenvolvimento humano para Vygotsky Segundo Vygotsky, há pelo menos dois níveis de desenvolvimento humano: Real e Potencial Vygotsky trata detalhadamente da relação aprendizagem – desenvolvimento no conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, que se refere à distância existente entre os dois níveis de desenvolvimento defendidos pelo autor que são: 1) Primeiro Nível: chamado Nível de Desenvolvimento Real ou Efetivo. 2) Segundo Nível: chamado de Desenvolvimento Potencial. Desenvolvimento Real ou Efetivo: É o conjunto de informações que a criança já tem em seu poder, ou seja, aquelas funções que ela já é capaz de desempenhar sozinha, sem o auxílio dos adultos ou de outros mais capazes de sua cultura. UNIUBE 85 Desenvolvimento Potencial: É caracterizado pela capacidade da criança de resolver problemas, por meio da mediação dos adultos ou de parceiros mais capazes, por exemplo, na elaboração de uma sequência crescente, a criança é orientada a colocar primeiro as peças menores e depois as maiores. Nesse sentido a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) constitui- se pelas funções que ainda não estão maduras, mas em processo de desenvolvimento e que poderão efetivar-se graças ao auxílio do outro mais experiente e capaz. Vygotsky afirma que “o que a criança pode fazer hoje com o auxílio dos adultos poderá fazê-lo amanhã por si só”. (VYGOTSKY, 2002, p. 113). O papel da escola e do professor3.9 Vygotsky postula que a aprendizagem humana cria a Zona de Desenvolvimento Proximal, ou seja, ativa os processos de desenvolvimento por meio das interações da criança com adultos ou outros mais capazes de sua cultura. Sustentados nesse raciocínio de Vygotsky, o papel da escola e o do professor ganham relevância, tornando-se essenciais para a constituição do ser psicológico adulto que vive em sociedades escolarizadas. O professor deve conhecer o nível de desenvolvimento das crianças e ter em vista os objetivos pedagógicos almejados para a turma, por meio do direcionamento de sua atuação para os estágios de desenvolvimento ainda não incorporados por elas, mas que estão em processo de apropriação, pois se assim o fizer, estará efetivamente, contribuindo para o desenvolvimento intelectual de seus alunos. 86 UNIUBE Conclusão3.10 O pensamento a seguir, fundamenta a concepção sócio-interacionistana aprendizagem e desenvolvimento humano, que hoje é tão relevante: o desenvolvimento humano se constitui por meio das interações da criança com outras pessoas, principalmente as mais experientes e capazes de sua cultura. Para Vygotsky, bem como para a Teoria Histórico-cultural, esta interação entre os diferentes indivíduos é fundamental para o processo de desenvolvimento humano, pois eles são membros de uma cultura e herdeiros de um patrimônio material e simbólico e para apropriarem de suas conquistas, tanto psicológicas, quanto materiais, necessitam da mediação do outro mais experiente e capaz. Vygotsky postula que o nosso cérebro não é um sistema hermético, de funções imutáveis, mas sim, um sistema aberto, plástico, cuja estrutura e funcionamento podem ser constituídos ao longo da história da espécie humana e do desenvolvimento individual pelas interações culturais, Sendo assim, entendemos que o homem não é apenas um ser biológico, mas também, essencialmente, um ser sócio-histórico, num processo em que a cultura torna-se parte essencial da natureza humana. Este pensamento de Vygotsky valoriza o ambiente sociocultural em que nos encontramos inseridos e situa a aprendizagem nas interrelações – família, escola, amigos –, concebendo-a como impulsionadora do desenvolvimento. Hermético Inteiramente fechado, de compreensão muito difícil. Plástico Maleável flexível, mutável, passível de mudança e de adquirir diferentes configurações. UNIUBE 87 Para Vygotski, a aprendizagem e o desenvolvimento humano se dão por meio das interações do indivíduo com os sujeitos mais experientes e capazes de sua família, escola, grupo de amigos. PONTO-CHAVE Para a Teoria Histórico-cultural, a aprendizagem está presente desde o início da vida da criança; é a aprendizagem que possibilita o processo de desenvolvimento e, principalmente, o das funções psicológicas superiores como a atenção voluntária e a memória lógica. É por meio das interações estabelecidas com o outro mais capaz e/ou experiente da espécie que o ser humano pode se desenvolver plenamente. RELEMBRANDO Esta afirmativa, além de ressignificar o valor dos indivíduos mais experientes e capazes de nossa cultura, incentiva as interações entre as diferentes gerações por entendê-las ricas de possibilidades de aprendizagens. Caro leitor; distinto de Piaget, Vygotsky defende que a aprendizagem humana é anterior ao seu desenvolvimento, ou seja, a aprendizagem é impulsionadora do desenvolvimento, em outras palavras, para Vygotsky é por meio das aprendizagens que os seres humanos se desenvolvem. PARADA PARA REFLEXÃO Resumo Nestas páginas, você estudou a respeito dos postulados centrais formulados por Lev Semenovich Vygotsky, seus principais colaboradores, Luria e Leontiev; e também sobre a Teoria Histórico‑cultural acerca da 88 UNIUBE importância fundamental da cultura para a própria humanização do homem. Sendo assim, espero que você passe a valorizar cada vez mais a qualidade de suas relações culturais, investindo na aquisição de novas experiências, linguagens e informações que possam ampliar o seu universo cultural e conceitual. A descoberta de Vygotsky de que o nosso cérebro não é um sistema hermético, de funções imutáveis, mas sim, um sistema aberto, plástico, cuja estrutura e funcionamento podem ser constituídos ao longo da história da espécie humana e do desenvolvimento individual pelas interações culturais, numa perspectiva filogênica/ontogênica, abre campo para valorizarmos os indivíduos mais capazes e experientes de nossa cultura ressignificando o próprio papel do professor. Neste sentido, a educação escolar ganha ainda mais importância, pois, além de promover a aprendizagem, ela contribui para a própria formação do indivíduo no que diz respeito a seus processos psicológicos superiores. Diante da complexidade e abrangência deste estudo, seria impossível esgotá-lo neste capítulo. Desta forma, se você se interessou por esta temática tão contemporânea e importante principalmente para a educação, sugiro, que invista em leituras e estudos para melhor compreender os conceitos aqui apresentados. À guisa de informação, penso ser interessante que você saiba que, por ser tão recente a divulgação dos estudos e trabalhos de Vygotsky e seus colaboradores no Brasil e pela complexidade de seus conceitos, muito ainda há que se estudar e aprender para se construir uma metodologia pedagógica sustentada nos postulados defendidos por Vygotsky e pela Teoria Histórico-cultural. UNIUBE 89 Desta forma, por acreditar que o professor precisa apropriar-se de seu papel de intelectual, e que o principal instrumento de trabalho do professor é o conhecimento, defendo para este profissional uma formação sólida e contínua não apenas na área da educação, mas, nas diversas áreas do conhecimento humano. Proponho ainda para o professor e todos os profissionais da educação a aquisição de uma postura investigativa, crítica, reflexiva e criativa frente às situações‑problema e aos desafios cognitivos que nos são apresentados. Posto isto, desejo-lhe, caro(a) aluno(a) que, além de ler a leitura obrigatória, invista em sua formação, lendo diferentes autores de outras áreas além da Psicologia, visto que a educação, pela complexidade de seus propósitos, necessita dialogar com várias áreas do conhecimento humano. Leituras Solicitamos a leitura dos capítulos 5, “Abordagem histórico-cultural; 10, “O papel da brincadeira no desenvolvimento da criança”; 11 “A brincadeira na vida e na escola”, do livro Psicologia e trabalho pedagógico. (FONTANA; CRUZ, 1997). Caro(a) aluno(a); com uma linguagem bastante acessível, em um texto permeado por citações, imagens e atividades, Roseli Fontana e Maria Nazaré Cruz, no Capítulo 5 do livro; Psicologia e trabalho pedagógico, irão discorrer sobre a abordagem histórico-cultural, trazendo uma breve biografia de Vygotsky e conteúdos acerca do papel da escola nesta perspectiva. Em seguida, as autoras apresentam algumas sugestões de atividades, leituras e filmes. 90 UNIUBE Os capítulos 10 e 11 irão apresentar a você uma introdução sobre a importância do brincar da criança, articulado ao desenvolvimento infantil, na perspectiva de autores como Piaget, Vygotsky e Leontiev As autoras tratarão ainda das transformações por que passam as brincadeiras da criança, desde os primeiros jogos, na mais tenra infância, até aqueles com regras. Será abordado também nestas páginas, o lugar da brincadeira infantil no ambiente escolar em uma interlocução com o pensamento de Piaget, Vygotsky, Leontiev. Finalmente as autoras apresentarão a você algumas sugestões de atividades e de leituras. Referências ARANHA, M. L. A. História da Educação e da Pedagogia, Geral e Brasil. 3. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2007. ASSIS, O. Z. M. Uma nova metodologia de educação pré-escolar. 6. ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora,1989. COOL, C. As contribuições da psicologia para a Educação: teoria genética e aprendizagem escolar. In: LEITE, L. B. (Org.) Piaget e a Escola de Genebra. São Paulo: Editora Cortez, 1992. p. 164-197. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio Dicionário da Língua Portuguesa. 7.ed. Curitiba: Editora Positivo, 2008. FONTANA, Roseli. CRUZ. Maria Nazaré. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual Editora, 1997. HOUAISS, A.; VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. UNIUBE 91 LURIA, A. R. Curso de psicologia geral. Introdução evolucionista à psicologia. Tradução: Paulo Bezerra. Rio de JNEIRO: Civilização Brasileira, 1991. MINIAURÉLIO. 7.ed. Dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Editora Positivo, 2008. OLIVEIRA, M. K. Vygotsky –Aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico.São Paulo: Editora Scipione, 2004. _______Vygotsky e o processo de formação de conceitos, em La Taille, Y. , Dantas, H., Oliveira, M. K. In: Piaget, Vygotsky eWallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus Editorial, 2002. PALANGANA, I. C. Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vygotsky, a relevância do social. 3 ed. São Paulo: Summus editorial, 2001. PENIN, S. I. S. A aula: espaço de conhecimento, lugar de cultura. Campinas: Papirus, 2003. PIMENTA, S.G.; GHEDIN, E. (Org). Professor reflexo no Brasil – gênese e crítica de um conceito. São Paulo: Cortez, 2002. SOARES AMORA. 6. ed. Dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1999. TOSTA, C. G. Autoscopia e Desenho: a mediação em uma sala de educação infantil. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia), Universidade Federal de Uberlândia, MG. VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2002. ______; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 8. Ed. São Paulo: Editora Ícone, 2003. WIKIPEDIA. Alexander Luria. Disponível em:<http//www.wikipédia.org.>. Acesso em: 28 dez. 2009a. WIKIPEDIA. Engels. Disponível em:<http//www.wikipédia.org>. Acesso em: 28 dez. 2009b. WIKIPEDIA. Karl Heinrich Marx. Disponível em: <http//www.wikipédia.org>. Acesso em: 28 dez. 2009c. 92 UNIUBE WIKIPEDIA. Lev Vygostsky. Disponível em: <http//www.wikipédia.org/wiki/Vigostski>. Acesso em: 28 dez. 2009d. WIKIPEDIA. Materialismo. Disponível em: <http//www.wikipédia.org/wiki/ Vigostski>. Acesso em: 27 dez. 2009e. WIKIPEDIA. Método dialético. Disponível em: <http//www.wikipédia.org/ wiki/ M%C3%A9todo_dial%C3%A9tico>. Acesso em: 27 dez. 2009f. Adriana Vaz Efísio Emanuel Introdução A dinâmica dos fatores presentes na aprendizagem: uma ciranda de muitas voltas Capítulo 4 Conhecer as teorias do desenvolvimento é bastante importante para a prática pedagógica de todos os professores, especialmente daqueles que trabalham com as crianças da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nosso estudo buscará, em Henry Wallon, importantes conceitos sobre o desenvolvimento infantil e, principalmente, sobre a importância da afetividade no desenvolvimento da criança. Wallon é um teórico que carrega ideias, argumentos, dialoga e se relaciona com outros teóricos; sendo assim, traremos para nosso discurso algumas ideias de Piaget e Vygotsky, buscando compreender como os fatores estudados por eles se entrelaçam e estão presentes na aprendizagem dos alunos. Para subsidiar nossa conversa, usamos como aporte o pesquisador Yves De La Taille, professor doutor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e um dos mais respeitados estudiosos da teoria de Jean Piaget; Marta Kohl de Oliveira, professora doutora em Psicologia Educacional e estudiosa do pensamento vigotiskyano; Heloysa Dantas professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e especialista na obra de Wallon e Izabel Galvão, pedagoga formada pela USP, onde 94 UNIUBE também cursou mestrado (com dissertação sobre aspectos da teoria de Henri Wallon) e doutorado, atualmente trabalha na área de formação de professores. Outros autores também deram sua contribuição, seja na tessitura do texto, seja ilustrando ideias. Optamos por desenvolver este capítulo retomando pressupostos básicos das abordagens do desenvolvimento de Piaget e Vygotsky, revendo, com você, suas ideias principais que já foram estudadas anteriormente. Entretanto, aprofundaremos mais na teoria de Henri Wallon, pela importante contribuição de seus estudos para a Educação e porque ele ainda não foi estudado no seu percurso acadêmico. Sendo assim, você, certamente, já pode constatar o quanto são ricos os pressupostos teóricos de Piaget e Vigotsky e agora, vai conhecer o francês humanista Wallon. Uma das originalidades da teoria de Wallon é sua tentativa de ver a criança de um modo mais integral, considerando que a escola é um lugar onde se educa, mas, principalmente, onde se deve estudar a personalidade infantil. Com foco na criança, Wallon busca compreender o desenvolvimento de forma integrada, levando em conta os domínios cognitivo, afetivo e motor. A perspectiva teórica de Wallon traz ainda uma preocupação bastante atual: como construir uma educação para todos, independente da condição social, da origem ou raça do sujeito, e, ao mesmo tempo, uma educação para cada um, que contemple a complexidade do indivíduo em todas as suas dimensões. Na sequência, vamos discutir os aspectos convergentes dos três autores, focalizando o que deste estudo mais nos interessa: a criança, seu desenvolvimento e sua aprendizagem. UNIUBE 95 No percurso, vamos discutindo aspectos práticos que você certamente já vivenciou em diferentes momentos da sua vida e poderá, por meio das experiências já vividas, se identificar nestes contextos, percebendo as teorias que discutiremos a partir de agora. Bons e proveitosos estudos. 4.1 Piaget, Vigotsky e Wallon: a ciranda do desenvolvimento 4.2 Para que aprender? 4.3 Teorias do desenvolvimento 4.4 As teorias interacionistas e sócio-interacionistas 4.5 Jean Piaget e a criança Objetivos Esquema Ao concluir as atividades de estudos propostas a partir desta unidade didática, esperamos que você se sinta capaz de: • explicar as teorias do desenvolvimento a partir da perspectiva dos teóricos: Piaget, Vygotsky e Wallon; • identificar os pressupostos básicos de Wallon, relacionados ao desenvolvimento humano e à aprendizagem; • relacionar as contribuições da teoria de Wallon no campo da educação escolar; • analisar os pressupostos básicos das teorias de Piaget, Vygotsky e Wallon, relacionados ao desenvolvimento humano e à aprendizagem; • associar os fatores do desenvolvimento humano que à luz das teorias interacionistas e sócio-interacionistas estão presentes no processo de aprendizagem dos alunos em sala de aula. 96 UNIUBE 4.6 O pensamento piagetiano e a aprendizagem 4.7 Vigostky e a criança 4.8 Conhecendo Henri Wallon 4.9 Wallon e a pessoa completa 4.10 Como a criança se desenvolve 4.11 A influência dos fatores orgânicos e sociais 4.12 Desenvolvimento: contradições e conflitos 4.13 Os cinco estágios do desenvolvimento 4.14 Afetivo e cognitivo 4.15 Wallon e os Domínios Funcionais 4.16 Afetividade, Emoção, Sentimento e Paixão: muitos turbilhões 4.17 Movimento: equilíbrio e harmonia 4.18 Afetividade 4.19 Wallon e a Educação 4.20 Vamos brincar de salada mista? Fatores presentes na educação 4.21 Conclusão Piaget, Vigotsky e Wallon: a ciranda do desenvolvimento4.1 As cirandas tão presentes nas brincadeiras de criança, com suas rodas alegres e barulhentas, remetem-nos à infância. Veja a ciranda Terezinha de Jesus: Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão acudiram três cavalheiros Todos de chapéu na mão O primeiro foi seu pai O segundo seu irmão O terceiro foi aquele Que a Tereza deu a mão(...) Da laranja, quero um gomo Do limão, quero um pedaço Da morena mais bonita, Quero um beijo e um abraço. (Cantiga popular) UNIUBE 97 Inusitadamente, essa ciranda invadiu nossos pensamentos, agora, ao refletirmos sobre o desenvolvimento humano, delineando‑se como metáfora para apresentarmos os seus principais estudiosos. Nessa ciranda, a roda nos reporta à imagem espiralada do desenvolvimento maturacional, de Piaget; às mãos dadas entre os pares nos remetem à Vigotsky e a afetividade transmitida no encontro com o outro, nos leva ao humanismo de Wallon. Convidamos você para nos dar as mãos e fazer parte dessa ciranda. Para que aprender?4.2 Quais razões você atribui para que as pessoas queiram aprender? A necessidade de conhecer, compreender, descobrir é inata ao ser humano. O homem difere dos demais animais justamente por sua capacidade de pensar, por ser racional, por mudar seu ambiente – por isso evoluiu através dos tempos. Além disso, vivemos um momento em que a sociedade experimenta mudanças rápidas e complexas. As salas de aula estão compostas pela diversidade de alunos. Estamos inseridos em um mundo plural, colorido, cibernético, bombardeadospor múltiplas informações, sobre os mais diferentes assuntos. E esta é a escola que encontramos. Não podemos mais ignorar que as crianças, desde pequenas, estão acostumadas a aprender por meios de imagens, filmes, de músicas e sons, da televisão, do computador e de tudo o mais que as rodeia. Portanto, aprender é lidar com o desconhecido, com o conflito, com o inusitado, com o erro, com a dificuldade, transformar informação em conhecimento, ser seletivo e buscar, na pesquisa, as alternativas para resolver os problemas que surgem são tarefas que farão parte do cotidiano das pessoas. 98 UNIUBE Todas, absolutamente todas as pessoas aprendem, em tempos e espaços diferentes, com culturas e conhecimentos diversos e também, com finalidades muitas. E nós, professores, sabemos que não basta mais ter informações a respeito de um assunto, mas é preciso também selecioná-las, analisar possibilidades para a resolução de problemas, lançar mão de criatividade e posicionar-se frente às escolhas que precisamos fazer. E nós, cuja função é ensinar, precisamos nos apropriar cada vez mais das possibilidades de conhecimento para garantirmos aos nossos alunos uma aprendizagem efetiva, que lhes permita transitar por todos os saberes. Mas, e sobre aprendizagem, quais referenciais teóricos lhe guiam para a prática profissional? Lembre‑se: referências teóricas são princípios básicos e elementares utilizados como referência de uma arte ou ciência. Certamente você concluiu, respaldado em estudos anteriores, que as Teorias Interacionistas e Sócio-interacionistas explicam o conhecimento mediante a participação tanto do sujeito quanto dos objetos do conhecimento, o que resulta não só na organização do real como também na construção das estruturas do sujeito. É fundamental refletir sobre as ações pedagógicas no que diz respeito a conhecer e reconhecer a importância do sujeito da aprendizagem, a entender o que pode facilitar ou impedir que se aprenda. Necessário se faz também, percebermos que utilizamos diferentes concepções para aprendermos, pois somos pessoas diferentes. Nossos processos cognitivos e nossa história de vida também são diferentes e cada fator influencia diretamente na construção da nossa aprendizagem. AGORA É A SUA VEZ UNIUBE 99 Teorias do desenvolvimento4.3 A multiplicidade de variáveis que envolvem as situações de ensino- aprendizagem dificulta a previsão segura e estável do que ocorrerá no decorrer das situações de ensino. As teorias servem como marco que guia, mas não determina a ação, pois o conjunto de decisões que serão adotadas no decorrer do processo é de responsabilidade do professor. Então, para que servem as teorias? Você já pensou sobre esse assunto no seu percurso acadêmico? Teoria. É o conhecimento especulativo, puramente racional. O substantivo theoría significa ação de contemplar, olhar, examinar, especular (WIKIPEDIA, 2009). Também pode ser entendido como forma de pensar e entender algum fenômeno a partir da observação. Na Grécia antiga teoria significava “festa solene, procissão ou embaixada que as cidades helênicas enviavam para representá-las nos jogos olímpicos ou para consultar os oráculos”. O termo é aplicado a diversas áreas do conhecimento, sendo que em cada área possui uma definição específica. EXPLICANDO MELHOR Sugerimos que você procure por livros em bibliotecas ou acesse sites como Scielo (http://scielo.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid= S1414-69752005000100002) e Domínio Público (www.dominiopublico.gov. br), buscando o conceito de teorias. PESQUISANDO É preciso que os professores se apropriem das teorias como forma de sustentação de uma prática pedagógica competente, colhendo pistas para entenderem melhor o seu trabalho. Adotar um único posicionamento teórico ao elaborar uma metodologia de trabalho pode ser um grande equívoco, reduzindo suas possibilidades de análise e ação. 100 UNIUBE Nessa perspectiva, podemos entender o caso de uma professora que não vê como compatibilizar, em seu dia a dia, pressupostos evidenciados por Piaget ou Vygotsky ou, ainda, por Wallon. Acontece, porém, que nenhuma teoria é suficientemente abrangente a ponto de dar conta, sozinha, de todas as questões que emergem no interior da escola. E o que se tem constatado é a adoção de referenciais teóricos que privilegiam o aspecto intelectual, da cognição, ignorando-se a relevância das emoções, dos sentimentos, dos desejos, das fantasias, do imaginário social no ato educativo. IMPORTANTE! Em Pedagogia, é preciso que o educador entenda de forma profunda duas abordagens fundamentais. Compreendê-las é imprescindível para quem, como você, vai atuar diretamente com o aluno e as suas diferentes maneiras de aprender, em diferentes espaços e tempos, de desenvolvimento e cronológicos: As teorias interacionistas e sócio-interacionistas4.4 Os estudos realizados em uma perspectiva genética partem do pressuposto que só se pode compreender a natureza de um comportamento se levarmos em conta sua história, sua gênese. Na concepção interacionista, o conhecimento é entendido como uma relação de interdependência entre o sujeito e seu meio. Tem um sentido de organização, estruturação e explicação a partir do experenciado. Nessa perspectiva, entende-se que o conhecimento é construído a partir da ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento, interagindo com ele, sendo as trocas sociais condições necessárias para o desenvolvimento do pensamento. UNIUBE 101 A abordagem sócio-interacionista considera que o desenvolvimento humano se dá nas relações de trocas entre parceiros sociais, por meio de processos de interação e mediação. Processos de interação são processos em que o indivíduo interage com a sua cultura. Abordagem interacionista Abordagem sócio-interacionista Há a ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento. Há relações de trocas entre parceiros sociais, por meio de processos de interação e mediação sobre o objeto de conhecimento. RELEMBRANDO A mediação é o processo que ocorre entre os membros de uma comunidade, em suas trocas comunicativas, através dos bens materiais e simbólicos criados pelos seus membros, termos presentes na obra de Lev Vygotsky. Para esse autor, a compreensão desse tipo de mediação é altamente relevante para a Educação. No entanto, existem vários autores interacionistas e sócio-interacionistas, que partem desta concepção, porém nosso estudo estará pautado nos três representantes mais importantes do desenvolvimento humano: Piaget, Wallon e Vygotsky. Piaget busca em seu empreendimento a gênese do conhecimento e parte da ação como manifestação inicial da inteligência. Sendo assim, sua criança é epistêmica, ou seja, sujeito do ato de conhecer. As crianças são capazes, desde muito pequenas, de buscar e dar respostas inusitadas e criativas a perguntas e situações que não conheciam anteriormente. 102 UNIUBE Vygotsky define a criança como sujeito social, que conhece significando e passa por transformações advindas dos valores culturais do seu ambiente. Esse ambiente é também por ela transformado, isso a torna um ser criador e, ao mesmo tempo, recriador de cultura. Perguntadas sobre o que vão ser quando crescer, as crianças tendem a responder que terão a mesma profissão que seus pais ou de outras pessoas que admiram, como por exemplo, a professora. EXEMPLIFICANDO! Para Wallon, a criança nasce num contexto social, e, inicialmente, dele dependente para sobreviver, é geneticamente social. Na concepção walloniana, a criança sente prazer na repetição, e isto é relevante, indispensável para sua aprendizagem. Ela manifesta satisfação pelo lúdico e pela investigação, inerente ao seu ser, tudo isso por “assimilação”. Você já deve ter percebido que as crianças ouvem a mesma história e assistem a um desenho animado inúmeras vezes, sempre com o mesmo interesse e satisfação que apresentaram da primeira vez. EXEMPLIFICANDO! Jean Piaget e a criança4.5Como você já estudou anteriormente, Jean Piaget contribuiu com uma das mais importantes teorias sobre o desenvolvimento humano: a Teoria Psicogenética. Pela compreensão de como a criança se comporta em cada fase da vida, sua teoria traz contribuições práticas para a educação, por isso, vamos revisitar essa abordagem. UNIUBE 103 E você, consegue lembrar por que a teoria Psicogenética traz contribuições práticas para a Educação? AGORA É A SUA VEZ Isso mesmo: ela contribui para subsidiar a prática pedagógica, pois assim o professor planeja o que e como ensinar de acordo com o desenvolvimento da criança. As crianças de 4 anos, de acordo com os estágios de desenvolvimento de Piaget, são pré-operatórias. Sabemos que neste período há o aparecimento da linguagem, que irá repercutir em maior interação com o meio social, acelerando também o desenvolvimento do pensamento. Sendo assim, os professores de crianças desta faixa etária devem propiciar atividades que promovam a oralidade e as possibilidades de comunicação lúdica, com utilização de material concreto. Além disso, é importante possibilitar a utilização do jogo simbólico como referencial para compreender o mundo real e, também, oportunizar a percepção e conhecimento do corpo e do espaço que as rodeia. EXEMPLIFICANDO! É possível pensar a criança numa perspectiva piagetiana, como um ser que amplia seus esquemas, conforme vivencia situações interativas com o objeto de conhecimento. E ainda, é pertinente dizer que, os novos esquemas se formam a partir de outros, anteriormente adquiridos. Segundo Piaget (1975), o conjunto de noções adquiridas e as disposições afetivas são aspectos integrantes de um equilíbrio cognitivo progressivo. É o processo de equilíbrio e desequilíbrio, desencadeado pela necessidade. Esse é um ponto forte da teoria piagetiana, para se compreender o desenvolvimento intelectual da criança (Figura 1). 104 UNIUBE PIAGET Ponto central: estrutura cognitiva do sujeito. As estruturas cognitivas mudam pelos processos de adaptação: assimilação e acomodação. A assimilação envolve a interpretação de eventos em termos de estruturas cognitivas existentes, enquanto que a acomodação se refere à mudança da estrutura cognitiva para compreender o meio. Níveis diferentes de desenvolvimento cognitivo. Nesse sentido, cabe descrever a criança como um sujeito que por meio de sucessivas assimilações e acomodações, vai avançando de acordo com o seu nível de interações. Primeiro interage no plano da ação e depois no plano psicológico, inicialmente está em desacordo com o nível intelectual do adulto. Mas, é um sujeito epistêmico, que interage com o meio, num constante processo de assimilação e acomodação em busca de satisfação de suas necessidades. Ressaltamos que esse processo não é exclusivo da infância, uma vez que ele ocorre durante toda nossa vida. Thomas Edson, inventor da lâmpada elétrica, fez 1.430 experiências antes de chegar à forma correta de sua descoberta. Sobre isso, podemos entender que este inventor teve 1.430 desequilíbrios e equilíbrios majorantes, bem como assimilações e acomodações, promovidas por sua necessidade de criar a lâmpada. Com essas tentativas, ele, possivelmente, foi chegando a resultados que lhe apontaram o que não fazer. Sabendo o que não fazer, novas hipóteses iam sendo elaboradas, até chegar, de fato, àquela necessária para a criação. CURIOSIDADE Figura 1: Resumindo Piaget. UNIUBE 105 Por isso mesmo, quanto mais o ser humano ouve e vê, mais quer ouvir e ver, pois as informações enviadas ao cérebro geram sempre conexões novas que o mantém sempre ativo. É tão significativa essa relação que, no prazo de dois anos, a criança aprende milhares de informações, e até uma língua complexa, apenas por ouvi-la. Piaget (1975) lançou seu olhar para a gênese do conhecimento e afirma que conhecer não está nem no sujeito, nem no objeto, mas na interação sujeito-objeto. O pensamento piagetiano e a aprendizagem4.6 • Os objetivos pedagógicos: – precisam estar centrados no aluno, partir das atividades do aluno. • Os conteúdos: – não são concebidos como fins em si mesmos, mas como instrumentos que servem ao desenvolvimento evolutivo natural. • Método de ensino: – privilegiar um que leve ao descobrimento por parte do aluno em vez de receber passivamente do professor. • A aprendizagem: – é um processo construído internamente e depende do nível de desenvolvimento do sujeito, pois é um processo de reorganização cognitiva. • Os conflitos cognitivos: – são importantes para o desenvolvimento da aprendizagem. 106 UNIUBE • As experiências de aprendizagem: – necessitam estruturar-se de modo a privilegiarem a colaboração, a cooperação e intercâmbio de pontos de vista na busca conjunta do conhecimento. • Jean Piaget esteve no Brasil em duas ocasiões. A primeira visita foi em 1945, como “pedagogo” (o que ele nunca foi), a convite da UNESCO. A segunda visita foi em 1949 como professor conferencista, recebendo o título de “Doutor Honoris Causa” da Universidade do Brasil, atualmente UFRJ, no Rio de Janeiro. • Piaget criou em 1956, na Faculdade de Ciências de Genebra, o Centro Internacional de Epistemologia Genética, onde passou a investigar sistematicamente, com o apoio de uma grande equipe, o desenvolvimento do pensamento da criança nos modos de pensar moral, abstrato, lógico e concreto. CURIOSIDADE Ampliando a discussão de como se conhece numa visão interacionista, discutiremos a abordagem de Vygotsky, e partir desse aporte teórico, procuraremos compreender a importância da internalização, princípio chave na Teoria Sócio-histórica, considerada elemento essencial na constituição do pensamento. Vigotsky e a criança4.7 Vygotsky construiu propostas teóricas inovadoras sobre temas como relação pensamento e linguagem, natureza do processo de desenvolvimento da criança e o papel da Educação no desenvolvimento. Para ele, a aprendizagem sempre inclui relações entre as pessoas, e a relação do indivíduo com o mundo é sempre mediada pelo outro. UNIUBE 107 O desenvolvimento não é pensado como algo natural, nem mesmo como produto exclusivo da maturação do organismo, mas como um processo em que se encontram presentes a maturação do organismo, o contato com a cultura produzida pela humanidade e pelas relações sociais que permitem a aprendizagem. Assim, o “outro” é fundamental, pois é quem nos orienta no processo de apropriação da cultura. Portanto o potencial da criança para organização do conhecimento do seu mundo se dá na interação com o outro mais experiente, mediador; este é um aspecto fundamental na constituição do sujeito que aprende. Vamos ver se você entendeu o que falamos até aqui? Procure se lembrar: 1. Quem o/a ensinou a dar os primeiros passos, ou a andar de bicicleta? 2. Com quem você aprendeu a assobiar e a pular corda? 3. Quem influenciou seu gosto e preferências musicais? RELEMBRANDO Certamente suas respostas às questões formuladas estão diretamente vinculadas às pessoas que fizeram e fazem parte do seu círculo social: familiares, amigos, colegas de escola e trabalho. Podemos então nos certificar de que, a todo o momento, estamos aprendendo – aprendendo com o “outro” em situações de convívio social, porque internalizamos ideias e comportamentos. Você se lembra da cantiga “Peixe vivo”, de Roberto Carlos? “Como pode um peixe vivo/ viver fora da água fria.” Essa cantiga é um exemplo lúdico que nos permite contextualizar a importância do outro na formação social do indivíduo, pois traz também os seguintes versos: “Como poderei viver/ sem a tua/ sem a tua companhia.” 108 UNIUBE É a partir dos contextos de vivência e características psíquicas próprias que cada um vai significando o seu cotidiano e se constituindo enquanto sujeito. Internalizar é tornar próprio, é converter práticas sociais em conhecimentos individuais, é nesse percurso ao longo da vida que o indivíduo seapropria de bens culturais. Essa forma de apropriação, não acontece do mesmo jeito com todos os seres humanos. Para Vygotsky, criança e objeto de conhecimento transitam um pelo outro, através de outra pessoa. Assim, são as interações sociais que permitem as significações, estas vão sendo construídas num contexto cultural, historicamente constituído. Em seus estudos, Vygotsky descreve a criança em oposição a macacos – animais que foram utilizados para experimentos. Ele diz que a criança tem capacidade de incluir estímulos que não estão no campo visual imediato, e que ela exerce operações práticas menos impulsivas e espontâneas, pois através da fala, planeja e executa uma atividade visível agindo através de processo psicológico complexo. E assim, demarca a utilização do signo como uma atividade humana, afirmando que a criança é alguém com capacidade de abstração, que manipula a fala e outros instrumentos culturais, canalizando‑os para o processo de conhecer, significar. A literatura que trata desses aspectos esclarece que: Nesse processo de elaboração interpessoal, a criança faz tentativas de imitar a análise intelectual, mesmo sem compreendê-la completamente. E, por utilizar-se dela (ainda que imitativamente) começa a elaborá-la, transformando (desenvolvendo sua atividade cognitiva) (GALVÃO, 1995, p. 47). Dessa forma, a criança coloca seu pensamento em um quadro de relações já consolidadas, apropriadas em experiências anteriores, e consegue ampliar seus conhecimentos. O desenvolvimento nessa perspectiva é visto como de natureza cultural. UNIUBE 109 A criança, concebida através da abordagem sócio-histórica é integrante de um processo de personalização do que estava socialmente dado em sua cultura. Sua aprendizagem acontece de acordo com o seu acesso aos instrumentos sociais e formas de internalização por ela elaborada. Por isso, as aprendizagens não se dão da mesma forma e na mesma escala cronológica. Pela da mediação da linguagem, as funções mentais passam a ser reguladas por um sistema de signos e não mais pela maturação orgânica, que é responsável pelas funções elementares (sono, respiração, sucção). A linguagem passa a organizar o pensamento e o comportamento da criança, promovendo o desenvolvimento das funções psicológicas superiores (atenção concentrada, memória seletiva, pensamento abstrato, vivência emocional e pensamento combinatório). Vygotsky (1991) exemplifica que na criança, em um primeiro momento, a fala acompanha a ação. Ao mesmo tempo em que está brincando de carrinho, por exemplo, ela vai narrando: ... estou indo pela BR e, aqui tem uma curva... Em um segundo momento a fala se antecipa à ação (regula a ação): ... e tem uma ponte quebrada na frente, vou ter que frear... E, em um terceiro momento ela se interioriza, transformando-se em fala interior ou pensamento, o qual continua a regular a atividade, ou seja, a criança brinca de carrinho sem ter necessidade de exteriorizar seu pensamento. Com relação à Educação, a teoria de Vygotsky enfatiza o papel da aprendizagem no desenvolvimento humano, valorizando a escola, o professor e a intervenção pedagógica. 110 UNIUBE VYGOTSKY Ponto central: o homem é um ser ativo, que age sobre o mundo; o desenvolvimento cognitivo é potencializado na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZPD); a aprendizagem ocorre no relacionamento do aluno com o professor e com outros alunos. Figura 2: Resumindo Vygotsky. Sugiro que assista ao documentário “Pro dia nascer feliz”. Direção de João Jardim, 2007, Brasil. Duração de 88 min, de Copacabana Filmes e Produções. O documentário retrata parte do cotidiano de alunos de escolas da periferia de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco e também de dois colégios particulares. É uma oportunidade para refletir sobre a escola brasileira e a atuação dos professores nessas instituições, que não se preocupam em criar Zonas de Desenvolvimento Proximal (ZDPs) para assim intervir afetivamente na vida do alunato, pelo contrário, eles reforçam a questão de um currículo escolar que procura deixar os alunos conformados com as suas realidades. DICAS Conhecendo Henri Wallon4.8 Aos conhecimentos que você já consolidou sobre Piaget e Vigotsky em momentos anteriores de estudo, vamos somar outro teórico não menos importante: Henry Wallon. UNIUBE 111 Wallon propõe, em sua teoria, ver a criança de um modo mais integral e busca compreender o seu desenvolvimento de forma integrada, considerando os domínios cognitivo, afetivo e motor procurando mostrar quais são, nas diferentes etapas, os vínculos entre cada campo e suas implicações com o todo representado pela personalidade. Para ele, a escola é um lugar onde se educa, mas, principalmente, onde se deve estudar a personalidade da criança. Vamos primeiramente conhecer um pouco sobre a vida e a trajetória desse importante pesquisador, para compreendermos as ideias que o influenciaram e os aspectos que contribuem para a educação. Henri Wallon nasceu na França, em 1879 e viveu um período marcado por instabilidade social e turbulência política, que perpassou as duas grandes guerras mundiais e a revolução socialista, cujas ideias influenciaram sua maneira de pensar e ver o mundo. Morreu em Paris, onde sempre morou, em 1962. Tornou‑se conhecido por seu trabalho científico sobre Psicologia do Desenvolvimento, especialmente sobre a infância, assumindo uma postura interacionista, e por sua atuação política e posicionamento marxista. Ocupou os postos mais altos no mundo universitário francês e liderou uma intensa atividade de pesquisa. O percurso acadêmico iniciou com a graduação em medicina, psicologia e filosofia. Atuou como médico na Primeira Guerra Mundial (1914‑1918), ajudando a cuidar de pessoas com distúrbios psiquiátricos. Em 1925, criou um laboratório de psicologia biológica da criança e quatro anos mais tarde, assumiu a cadeira de professor da Universidade Sorbonne e vice-presidente do Grupo Francês de Educação Nova – instituição que ajudou a revolucionar o sistema de ensino daquele país e da qual foi presidente de 1946 até sua morte em 1962. 112 UNIUBE Dedicou-se a conhecer a infância e os caminhos da inteligência nas crianças, aproximando-se progressivamente da Educação. Militante de esquerda participou das forças de resistência contra Adolf Hitler e foi perseguido pela Gestapo (a polícia política nazista) durante a Segunda Guerra (1939-1945). Em 1947, propôs mudanças estruturais no sistema educacional francês. Coordenou o projeto Reforma do Ensino, conhecido como Langevin-Wallon – conjunto de propostas equivalente à nossa Lei de Diretrizes e Bases. Nele, por exemplo, está escrito que nenhum aluno deve ser reprovado numa avaliação escolar. Em 1948, lançou a revista Enfance – plataforma de novas ideias no mundo da educação – e que se transformou em importante fonte de consulta para pesquisadores e professores. A reforma proposta por Wallon, que não chegou a ser implantada, deveria adequar o sistema às necessidades de uma sociedade democrática e às possibilidades e características psicológicas do indivíduo, favorecendo o máximo desenvolvimento das aptidões individuais e a formação do cidadão. O Projeto Langevin‑Wallon resultou do trabalho de três anos (1945 a 1947), de uma Comissão de vinte membros, nomeados pelo Ministério da Educação Nacional da França, com a incumbência de reformar o sistema de ensino francês após a Segunda Guerra. Inicialmente, o físico Paul Langevin foi designado presidente da Comissão, e, após sua morte, a presidência ficou a cargo de Wallon. A diretriz norteadora do Projeto foi construir uma educação mais justa para uma sociedade mais justa. As ações propostas repousam sobre quatro princípios: justiça, dignidade, orientação e cultura geral. SAIBA MAIS UNIUBE 113 Serviu durante meses como médico no Exército francês, na frente de combate. O contato com as lesões cerebrais sofridas por ex-combatentes fez comque revisse postulados neurológicos que havia desenvolvido no atendimento a crianças com deficiência. Escreveu diversos artigos sobre temas ligados à Educação, como orientação profissional, formação do professor, interação entre alunos, adaptação escolar, participando do Grupo Francês de Educação Nova. Humanista, Wallon defende a ideia de que a cultura é aquela que proporciona ao homem o contato com tudo aquilo que não é ele mesmo e o transcende. Fundamentais são as relações e interações humanas: saber se colocar no lugar do outro, perceber suas necessidades e pontos de vista, cooperar no trabalho comum. Sonhador ou realista, Wallon desejava a comunhão entre a teoria e a prática, direcionando seus estudos para educadores e pedagogos. Henri Wallon, além de elaborar uma teoria sobre o desenvolvimento humano, em virtude de sua preocupação com a Educação, escreveu também sobre suas ideias pedagógicas apontando bases que a Psicologia pode oferecer à atuação pedagógica e o uso que a Pedagogia pode fazer dessas bases, além de se nutrir da experiência pedagógica. Os estudos wallonianos apontam primordialmente o papel das emoções e do movimento na vida da criança, possibilitando compreender a estreita relação entre afetividade/inteligência nas relações humanas. (Figura 3). Henri Wallon olha a criança, este ser em potencial, com respeito e simpatia, procurando compreender como se transforma em adulto, analisando-a como uma unidade total, afetiva, intelectual, motora e social, suas condições internas: orgânicas, especialmente nervosas, e condições externas: o meio físico e humano, condições primordiais para o desenvolvimento de suas potencialidades. Embora admita poder 114 UNIUBE estudar isoladamente os fatores fisiológicos, ressalta a importância de não separar o componente biológico do social, porque ambos são fatores decisivos e complementares para o desenvolvimento do homem. WALLON Ponto central: processo de desenvolvimento e a integração organismo-meio, pois o meio é indispensável ao ser vivo e é integração afetiva-cognitiva-motora, que destaca o conjunto afetivo (emoção, sentimento e paixão); conjunto motor (deslocamento, equilíbrio e apoio tônico), conjunto cognitivo (aquisição e manutenção do conhecimento) Figura 3: Resumindo Wallon. Ao contrário das antigas teorias clássicas, Wallon percebe que o tônus muscular não reflete apenas o movimento propriamente dito, mas, também, uma circunstância da emotividade. A contenção do movimento ou o seu excesso podem sinalizar a presença da emoção. As crianças expressam pelo movimento as suas emoções e sentimentos. Quando estão tristes, geralmente permanecem quietas a um canto. Quando estão alegres, pulam festivamente. Quando as mantemos sentadas por um longo espaço de tempo, tornam-se inquietas. Esse comportamento é bastante comum nas salas de aulas, quando os alunos precisam manter-se sentados em seus lugares por todo o horário de aulas. EXEMPLIFICANDO! UNIUBE 115 As emoções têm função positiva na vida dos homens. O recém-nascido lança mão do choro, do grito, sorriso, ou seja, de manifestações emocionais para expressar seus estados de indisposição, necessidade ou bem-estar. Todas as suas ações se direcionam para as pessoas do seu meio próximo. Incapaz de efetuar algo por si própria, a criança, afirma Wallon, dispõe da emoção para suscitar no outro a participação e a colaboração na satisfação de suas necessidades básicas, como comer, dormir, escapar a uma posição incômoda. As emoções não só revelam um conjunto de expressões e comunicação, como também comungam a criança com seu meio. É o prelúdio do desenvolvimento social da criança. As emoções exercem papel fundamental no desenvolvimento da inteligência e ajudam ou não, a criança a pensar e a estabelecer relações lógicas. Nessa fase, a criança é mais emoção que inteligência, a emoção predomina sobre a reflexão, o que vai, paulatinamente, modificando‑se, ao longo do seu desenvolvimento. Podemos antever o quanto a contribuição de Wallon é importante para a educação, professores e pedagogos. Sua teoria de desenvolvimento é um instrumento que pode ampliar a compreensão sobre as possibilidades do aluno no processo ensino-aprendizagem e fornecer elementos para uma reflexão de como o ensino pode criar intencionalmente condições para favorecer esse processo, proporcionando a aprendizagem de novos comportamentos, novas ideias, novos valores. SINTETIZANDO... Na medida em que a teoria de desenvolvimento descreve características de cada estágio, está também oferecendo elementos para uma reflexão para tornar o processo ensino-aprendizagem mais produtivo, propiciando 116 UNIUBE ao professor pontos de referência para orientar e testar atividades adequadas aos alunos concretos que tem em sua sala de aula. A identificação das características de cada estágio pelo professor permitirá planejar atividades que promovam um entrosamento mais produtivo entre essas características, conforme se apresentem em seus alunos concretos e as atividades de ensino. A obra de Henri Wallon é perpassada pela ideia de que o processo de aprendizagem é dialético: não é adequado postular verdades absolutas, mas, sim, revitalizar direções e possibilidades. Dialético A arte de discutir. Argumentação dialogada. Na Grécia Antiga tinha-se, a arte do diálogo, da contraposição e contradição de ideias que levava a outras ideias. Aos poucos, passou a ser a arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão; é o modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendemos a realidade como essencialmente contraditória, em permanente transformação. SAIBA MAIS Wallon e a pessoa completa4.9 Wallon propõe o estudo da pessoa completa, tanto em relação a seu caráter cognitivo quanto ao caráter afetivo e motor, pois para ele, a cognição é importante, mas não mais importante que a afetividade ou a motricidade. UNIUBE 117 Caráter cognitivo Caráter motor Caráter afetivo Figura 4: Caráteres propostos por Wallon. O fator orgânico é a primeira condição para o desenvolvimento do pensamento, ressaltando a importância das influências do meio. O homem, para Wallon, seria o resultado de influências sociais e fisiológicas, de modo que o estudo do psiquismo não pode desconsiderar nem um nem outro aspecto do desenvolvimento humano. Por outro lado, as potencialidades psicológicas dependem especialmente do contexto sociocultural. O desenvolvimento do sistema nervoso, então, não seria suficiente para o pleno desenvolvimento das habilidades cognitivas. Reconhecer a criança enquanto sujeito que conhece, é vê-la num processo descontínuo, marcado por contradições e conflitos. Assim como Piaget, o autor fala de estágios e os caracteriza como sendo momentos marcados por características específicas, mas que não são demarcadas nitidamente, podendo passar por sobreposição, mistura, confusão. No entanto, dentro de uma ordem que ele considera necessária, pois (...) o ritmo descontínuo que Wallon assinala ao processo de desenvolvimento infantil, assemelha-se ao movimento de um pêndulo que, oscilando entre polos opostos, imprime características próprias a cada etapa do desenvolvimento. (GALVÃO, 2005, p. 47). 118 UNIUBE As experiências da infância vão se sobrepondo para edificar o adulto. Mas, é o meio um fator indispensável para a manifestação desse crescimento. O processo de continuidade de edificação da pessoa passa também pela linguagem que exerce um papel preponderante na constituição do sujeito. Sobre a linguagem, vejamos sua posição: Sem ela, não há nenhuma possibilidade de representar a ordem mais insignificante, de efetuar uma sequência. Dela depende também o poder de ordenar as sucessivas partes do discurso. (...) Ela não é, verdade se diga, a causa do pensamento, mas é o instrumento e o suporte indispensáveis aosseus progressos. (WALLON, 1981, p.186). E assim, o teórico confirma a importância da linguagem para o desenvolvimento infantil, pois por meio dela acontece a substituição do objeto perceptível, a representação e, através dessa realidade simbólica a criança opera sobre o ausente. Desse modo, insere-se no mundo dos signos, um referencial para o seu pensamento, que se traduz numa forma de “(...) unir o que estava desunido, separar o que tinha sido simultâneo”. (WALLON, 1981, p.187). Mas, esse jeito de refletir está permeado pela dificuldade, pelo conflito que repercute nas crises pelas quais o ser vai se autoafirmando como pessoa, vencendo oposições. No caminho que traça para a explicação da gênese da pessoa, Wallon entrelaça o biológico e o social. Nessa visão, a puberdade finaliza um período da vida, a infância. Este momento é considerado de ruptura e de aproximação da vida adulta. Como a criança se desenvolve4.10 Em cada etapa do desenvolvimento humano, é possível identificar características distintas: necessidades e interesses que lhe garantem coerência e unidade. A cada idade estabelece-se um tipo de interação UNIUBE 119 entre a criança e o meio. Conforme as características da idade, a criança interage mais com um ou outro fator (ambiente físico, pessoas próximas, linguagem, conhecimentos culturais). O meio não é estático, mas transforma-se juntamente com a criança. Wallon propõe que se estude o desenvolvimento infantil tomando a própria criança como ponto de partida, buscando compreender cada uma de suas manifestações no conjunto de suas possibilidades, sem a prévia censura da lógica adulta. A influência dos fatores orgânicos e sociais 4.11 Para Wallon, o fator orgânico é a primeira condição para o desenvolvimento do pensamento; ressalta, porém, a importância das influências do meio. O homem seria o resultado de influências sociais e fisiológicas, de modo que o estudo do psiquismo não pode desconsiderar nem um nem outro aspecto do desenvolvimento humano. Por outro lado, para ele as potencialidades psicológicas dependem especialmente do contexto sociocultural. O desenvolvimento do sistema nervoso, então, não seria suficiente para o pleno desenvolvimento das habilidades cognitivas. Os fatores orgânicos são os responsáveis pela sequência fixa entre os estágios de desenvolvimento, no entanto, a duração de cada estágio sofre influência das circunstâncias sociais em que se insere o sujeito. O biológico é mais determinante no início da vida da criança, mas aos poucos vai dando lugar à influência do meio social. A influência do social vai tornando-se mais marcante para o desenvolvimento, como também para a inteligência simbólica. 120 UNIUBE Desenvolvimento: contradições e conflitos 4.12 A gênese ou origem da inteligência para Wallon é genética e organicamente social. Isso então significa que “o ser humano é organicamente social e sua estrutura orgânica supõe a intervenção da cultura para se atualizar” (DANTAS, 1992). Então, o Desenvolvimento Cognitivo de Wallon é centrado na psicogênese da pessoa completa ou total e assim, o desenvolvimento da criança aparece descontínuo, marcado por contradições e conflitos, resultado da maturação e das condições ambientais, provocando alterações qualitativas no seu comportamento em geral. Wallon realiza um estudo que é centrado na criança contextualizada, isto é, posta no ambiente imediato, social e histórico. Nesse contexto onde a criança é estudada, considera-se o ritmo no qual se sucedem as etapas do desenvolvimento, etapas essas que são descontínuas. Elas trazem em si mesmas as marcas dos conflitos, dos movimentos dialéticos, das rupturas ou cortes vivenciados, retrocessos e reviravoltas etc. Esses “conflitos” – pertencentes ao próprio crescimento humano – provocam em cada etapa, profundas mudanças nas anteriores. A passagem dos estágios de desenvolvimento não se dá linearmente, por ampliação. Ela ocorre por reformulação, instalando-se no momento da passagem de uma etapa a outra, crises que afetam a conduta da criança. Por isso, conflitos se instalam nesse processo e são de origem ambiental – de fora para dentro – quando resultantes dos desencontros entre as ações da criança e o ambiente exterior e são propulsores ou estimuladores do desenvolvimento / aprendizagem humanos. UNIUBE 121 Os cinco estágios do desenvolvimento4.13 Os versos da canção infantil Eu era assim apontam uma maneira interessante da cultura popular para a compreensão dos estágios do desenvolvimento humano, justamente pelo reconhecimento das diferenças que ocorrem em cada período da vida humana. Eu Era Assim Quando eu era neném, neném, neném, Eu era assim... Eu era assim... Quando eu era menina, menina, menina, Eu era assim... Eu era assim... (...) Eu era assim... Eu era assim... Quando eu era vovó, vovó, vovó, Eu era assim... Eu era assim... Quando eu era caduca, caduca, caduca, Eu era assim... Eu era assim... Quando eu era caveira, caveira, caveira, Eu era assim... Eu era assim... (Cantiga popular) Esta canção foi gravada pela arte‑educadora Bia Bedran, confira no site <http://www.biabedran.com.br/>. PESQUISANDO NA WEB Os versos desta canção infantil apontam uma maneira interessante da cultura popular para a compreensão dos estágios do desenvolvimento humano, justamente pelo reconhecimento das diferenças que ocorrem em cada período da vida humana. 122 UNIUBE Esse certamente é um conhecimento de extrema importância para o trabalho pedagógico, pois cada um dos estágios aponta para as necessidades de aprendizagem. Os cinco estágios enunciados e descritos em Galvão (1995) mostram como Wallon apreendia o desenvolvimento humano. Privilegiamos a terminologia utilizada por Isabel Galvão por tratar-se do nosso aporte teórico, mas autores diversos têm outras apresentações, pois como sabemos, Wallon publicou as etapas do Desenvolvimento Humano em textos diferenciados, cabendo aos seus estudiosos compilarem o material. Galvão (1995) afirma que os estágios se sucedem em fases com predominância afetiva e cognitiva e utiliza a seguinte terminologia acerca das etapas do Desenvolvimento Humano segundo Wallon: 1) Impulsivo-emocional; 2) Sensório-motor e projetivo; 3) Personalismo; 4) Categorial; 5) Predominância funcional. 1) Impulsivo-emocional – ocorre no primeiro ano de vida. A predominância da afetividade orienta as primeiras reações do bebê às pessoas, às quais intermedeiam sua relação com o mundo físico. A emoção é o instrumento dominante na interação da criança com o mundo. A afetividade se nutre pelo olhar, contato físico, posturas, gestos. Você consegue relacionar quais as necessidades básicas do bebê neste período? É bem verdade que os bebês demonstram suas emoções e necessidades por meio do choro e também, sentem-se reconfortados com o colo, o alimento e o sono repousante. UNIUBE 123 2) Sensório-motor e projetivo – vai até os três anos. A aquisição da marcha e da apreensão, dão à criança maior autonomia na manipulação de objetos e na exploração dos espaços e o interesse se volta para a exploração sensório-motora do mundo físico. Também, nesse estágio, ocorre o desenvolvimento da função simbólica e da linguagem. O termo projetivo refere-se ao fato da ação do pensamento precisar dos gestos para se exteriorizar. O ato mental “projeta-se” em atos motores. Como diz Dantas (1992), para Wallon, o ato mental se desenvolve a partir do ato motor. Nesta faixa etária, podemos observar como as crianças precisam tocar e experimentar como forma de conhecer o mundo que as rodeia; os questionamentos são frequentes e por vezes, até embaraçosos para pais e educadores. 3) Personalismo – ocorre dos três aos seis anos. Nesse estágio, desenvolve-se a construção da consciência de si mediante as interações sociais, reorientando o interesse das crianças pelas pessoas; a formação da personalidade é a característica central. Ocorre a predominânciadas relações afetivas. A afetividade aqui está ligada ao simbólico (linguagem), se exprime por palavras e ideias. A troca afetiva pode se dar a distância (linguagem) deixando de ser indispensável a presença das pessoas. Neste momento, a criança já é capaz de estabelecer novas relações com o mundo e é bastante comum observamos que pais e mães ficam desesperados ao deixarem seus filhos, no primeiro dia, na escola, enquanto as crianças tranquilamente vão explorar o novo mundo que se lhes descortina. 4) Categorial – a partir dos 6 anos. Os progressos intelectuais dirigem o interesse da criança para as coisas, os processos intelectuais dirigem a atenção da criança para as coisas, para o conhecimento e conquista 124 UNIUBE do mundo exterior. Neste período, suas interações com o meio têm o predomínio cognitivo. A afetividade torna-se mais racionalizada, os sentimentos são elaborados mentalmente. As crianças teorizam sobre suas relações afetivas. As experiências vivenciadas com as crianças dessa idade são muito ricas e interessantes e, podemos percebê-las no convívio com os nossos filhos, sobrinhos, filhos dos amigos, alunos, enfim, em muitas situações sociais. E você já vivenciou quais situações/experiências com crianças dessa idade? 5) Predominância funcional – aqui ocorre nova definição dos contornos da personalidade, desestruturados devido às modificações corporais resultantes da ação hormonal. Questões pessoais, morais e existenciais são trazidas à tona. Podemos observar que é um momento único da vida do indivíduo, questionando os valores sociais, buscando maneiras de encontrar-se e posicionar-se diante dos outros. E quanto a você, quais fatores foram mais marcantes no seu período de adolescência? Relembre esse período e registre, procurando enfatizar os aspectos que foram mais marcantes em sua vida. Procure se lembrar também de músicas, poesias e leituras que fizeram parte desse período tão especial de sua vida. Sempre ouvimos relatos de pais e professores sobre seus filhos e alunos, pois se sentem impotentes diante das mudanças que se processam tão rapidamente, por isso mesmo, saber compreender esse período de UNIUBE 125 turbulência é fundamental para que esses indivíduos caminhem com maior tranquilidade e compreensão para a vida adulta e, para as escolhas que precisarão fazer de agora em diante. Na sucessão de estágios há uma alternância entre as formas de atividades e de interesses da criança, denominada de “alternância funcional”, em que cada fase predominante (de dominância, afetividade, cognição), incorpora as conquistas realizadas pela outra fase, construindo-se reciprocamente, num permanente processo de integração e diferenciação. IMPORTANTE! Afetivo e cognitivo4.14 Wallon observou que, no desenvolvimento, aparecem períodos mais voltados ao afetivo e outros ao cognitivo. Os períodos com predominância afetiva (subjetivos e com acúmulo de energia) são quando a criança se volta à construção do eu e os períodos com predominância cognitiva (objetivos e com dispêndio de energia) são quando a criança se volta à construção do real e conhecimento do mundo físico. Essa predominância ora do afetivo ora do cognitivo Wallon denominou predominância funcional (Figura 5). Figura 5: Predominância funcional determinada por Wallon. Predominância afetiva A criança volta-se à construção do eu. Interesse por questões que dizem respeito a si própria. A criança volta-se à construção do real. Interesse por questões de conhecimento do mundo físico. Predominância cognitiva 126 UNIUBE Em cada estágio a criança tem orientada a sua interação mais para a afetividade ou para a cognição. Embora ocorra essa alternância, a criança incorpora as conquistas de cada função (cognitiva ou afetiva) e incorpora ao estágio seguinte com as regulações necessárias. Wallon e os Domínios Funcionais4.15 Henry Wallon identifica como Domínios Funcionais, as etapas percorridas pela criança (Figura 6): afetividade, ato motor, conhecimento (ou cognição) e da pessoa. CONJUNTO PESSOA integração de todas funções e possibilidades O conjunto afetivo são funções responsáveis pelas emoções, sentimentos e paixão. O conjunto cognitivo são funções voltadas para a conquista e manutenção do conhecimento, por meio de imagens, noções, ideias e representações. É o que permite registrar e rever o passado, avaliar e situar o presente e projetar o futuro. O conjunto ato motor refere-se à possibilidade de deslocamento do corpo no tempo e no espaço, as reações posturais seu equilíbrio corporal. Figura 6: Etapas percorridas pela criança. Afetividade, emoção, sentimento e paixão: muitos turbilhões4.16 A teoria da afetividade aponta para três momentos: emoção, sentimento e paixão (Figura 7). Na emoção, predomina a ativação fisiológica; no sentimento, a ativação representativa e na paixão, a ativação do autocontrole. UNIUBE 127 Galvão (1995 p.51) ressalta que “A afetividade se refere à capacidade, à disposição do ser humano de ser afetado pelo mundo externo/interno por sensações ligadas a tonalidades agradáveis e desagradáveis”, o que difere da interpretação de senso comum, quando interpretamos afetividade como simplesmente afetuosidade ou carinho. Figura 7: Esquema da expressão corporal das emoções. A expressão corporal das emoções é o destaque da análise walloniana, ao sugerir que todas as emoções podem ter uma vinculação recíproca entre o tônus, o movimento e a função postural: a cólera vincula-se ao estado de hipertonia, no qual há excesso de excitação sobre as possibilidades de escoamento. Entretanto, a alegria é um estado de equilíbrio e de ação recíproca entre o tônus e o movimento, é uma emoção eutônica. As situações afetivas são prazerosas porque o fluxo tônico se eleva e se escoa imediatamente com movimentos expressivos. Sendo assim, um estado de desequilíbrio ou crise emocional tem impacto direto sobre as ações. Sob o efeito de emoções descontroladas também se perde o comando das ações. Hipertonia Tonicidade excessiva em um músculo ou em outros tecidos orgânicos. Eutonia Tensão em equilíbrio; tônus harmonioso (do grego “eu”: bom, harmonioso e do latim “tônus”: tensão). Hipotonia Baixa tonicidade muscular, flacidez; escassa tensão muscular. Atitude de timidez Hesitação dos movimentos incerteza de postura Hipotonia EutoniaMovimentos expressivos Situação prazerosa: a criança vai a uma festa de aniversário 128 UNIUBE Mas a tendência “é que os efeitos da emoção se desvaneçam caso não haja reações por parte do meio, ou seja, na ausência de uma ‘plateia’ as crises emocionais tendem a perder sua força, como uma criança que pára de chorar quando percebe que está sozinha.” (GALVÃO, 1995 p. 60) É bastante comum vermos crianças dando tremendas “birras” em locais públicos, como supermercados, por exemplo. Observando atentamente, é possível notar que se o adulto que o acompanha continua sua marcha, sem valorizar a crise, o choro passa quase que instantaneamente. Isso ocorre também nas salas de Educação Infantil, quando a criança é levada pela mãe nos primeiros dias de aula e é bastante comum a professora tomar as rédeas da situação, dizendo que logo, logo passará. Pura verdade. Para Wallon as emoções têm um poder de contágio nas interações sociais, evidenciando o seu caráter coletivo, facilmente identificado nos jogos, danças, rituais, onde há simetria de gestos e atitudes, movimentos rítmicos, comunhão de sensibilidade, uma sintonia afetiva que mergulha todos na mesma emoção. Quando estamos em uma festa e todos os convidados estão dançando e cantando é muito fácil juntar-nos a eles, por mais tímidos que sejamos. À medida que a criança avança em idade, também aumentam seus progressos. Assim, Wallon descreve o que ele chama de revoluções de idade. Em seu lastro teórico, o choro, o sorriso, o movimento, o jogo e outras manifestações peculiares ao períodoinicial da vida vão sendo relatadas como aspectos que dão passagens para outros comportamentos e novas aprendizagens. A emoção é a primeira linguagem da criança, sua primeira forma de sociabilidade, através da qual são significadas as diversas situações (choros, espasmos,...), transformando assim, os atos que eram puramente impulsivos e motores em atos relacionais de comunicação. UNIUBE 129 Ao articular significados historicossociais, mediados pela relação com agentes de cultura (pai, mãe, irmão, etc), a emoção do recém-nascido, de involuntária, inconsciente e regulada pelo tônus, torna-se manifestação psíquica, já havendo elaboração mental. A emoção promove o desenvolvimento da inteligência, que passa a determinar a ação humana. Tanto para Wallon como para Vygotsky, entre emoção e inteligência existe elaboração recíproca: as conquistas afetivas contribuem para o desenvolvimento cognitivo e vice-versa (DANTAS, 1992). No período dos três aos cinco anos (personalismo), ocorre incremento da emoção, objetivando a aquisição da identidade. A criança se expressa em oposição ao outro, dizendo não a tudo e aprende a delimitar o que é ela e o que é o outro, iniciando o uso dos pronomes (eu, meu, teu). Ao mesmo tempo em que deseja diferenciar-se dos demais, percebe a profunda dependência que tem em relação a sua família. Momentos de oposição alternam-se com momentos de sedução, nos quais a criança procura ser aceita e amada. A relação da criança com seu mundo familiar se diferencia, segundo o lugar que ocupa e o papel que lhe é conferido. Neste período, ela se sente estritamente solidária com sua família e ao mesmo tempo desejosa de autonomia, o que lhe causa repetidos conflitos. Percebe‑se que passa a ser extremamente exclusiva, vaidosa e ciumenta. Movimento: equilíbrio e harmonia4.17 O movimento é a primeira manifestação na vida do ser humano, pois desde a vida intra-uterina realizamos movimentos com o nosso corpo, no qual vão se estruturando e exercendo enormes influências no comportamento. Daí a importância de assegurar à criança o desenvolvimento funcional, pois os movimentos expressam nossos sentimentos, nossos pensamentos e atitudes. 130 UNIUBE Para Galvão (1995), são muitas as significações que Wallon atribui ao ato motor. “Além do seu papel na relação com o mundo físico (motricidade de realização), o movimento tem um papel fundamental na afetividade e também na cognição” (GALVÃO, 1995, p.69). Antes de agir diretamente sobre o meio físico, o movimento atua sobre o meio humano, mobilizando as pessoas pelas emoções. Na criança o movimento é tudo o que pode dar testemunho da vida psíquica e traduzi-la completamente, pelo menos até o momento em que aparece a palavra. Para Wallon, o próprio movimento, pela sua natureza, contém as diferentes direções que poderá tomar a atividade psíquica e apresenta três formas, que resultam da atividade muscular, sendo importantes nos processos evolutivos da criança (Figura 8): 1) movimento de equilíbrio: passivo e exógeno, sob a dependência de forças exteriores, acontece desde a vida intrauterina, permitindo a adaptação ao mundo; 2) movimento de apreensão e locomoção: permite a exploração do espaço e dos objetos; 3) movimento de reações posturais: deslocamento do corpo ou de suas partes, traduzindo-se em atitudes expressivas e mímicas. Figura 8: Formas resultantes da atividade muscular. O andar em ziguezague e tombos sucessivos, típicos dos bebês, deixam bem evidente a construção do movimento, que necessita da regulação do equilíbrio. A imitação é uma forma de atividade que revela as origens motoras do ato mental. Os gestos precedem a palavra. O ato mental projeta-se em atos motores. A dimensão cognitiva do movimento aumenta a autonomia da criança no agir sobre a realidade exterior, diminuindo sua dependência do adulto, que antes intermediava sua ação sobre o mundo físico. UNIUBE 131 A criança passa a conduzir-se como sujeito distinto dos outros, pela imitação e a representação, ao tomar consciência do objeto. Este processo de interiorização e exteriorização se dá sob a forma de uma exuberância de gestos e de movimentos corporais, manifestados pela criança em explorações que parecem infatigáveis, resultando num período em que os jogos vão ocupar um espaço preponderante nas atividades infantis ao longo do Estágio do Personalismo, tais como: os jogos de imitação, de ficção e de fabricação. No Estágio Categorial, em razão do desenvolvimento cerebral, há maior coordenação motora o que possibilita uma seleção dos gestos úteis e o seu ajustamento às finalidades. O movimento, segundo Wallon (1981, apud GALVÃO, 1995), é a expressão da emoção, além de permitir a apropriação do objeto enquanto representação simbólica e abstrata. É comum ouvirmos falar sobre a importância do movimento, entretanto, como veremos na entrevista de Levin, na prática pedagógica, muitos profissionais ainda trabalham como se não houvesse uma importante ligação entre movimento e cognição. Vejamos então um pequeno trecho dessa entrevista concedida à Revista Nova Escola: ESCOLA: A escola costuma considerar o corpo no processo de aprendizagem? LEVIN: Durante a Educação Infantil, a necessidade de movimentar-se é mais respeitada pela escola: o corpo é usado em brincadeiras, em atividades de arte, de música etc. A criança pode correr, pular, espreguiçar-se sem censura alguma. O problema é na passagem para a 1ª série. Geralmente, os professores exigem uma postura totalmente diferente da que era permitida até então. Com 7 anos, os alunos são colocados em carteiras, precisam ficar quietos, supostamente prestando atenção no mestre – forma pela qual estaria incorporando os conteúdos. Ele chega ao absurdo de, muitas vezes, pedir que eles desenhem a si mesmos dançando ou subindo em árvores! Ele deveria, antes disso, deixá-los experimentar essas atividades. Os momentos de usar o corpo ficam restritos à hora do recreio e EXEMPLIFICANDO! 132 UNIUBE às aulas de Educação Física. É como se a escola dissesse ao aluno: na pré-escola, você brinca; na 1a série, começa a estudar. Mas o estudo deveria estar totalmente ligado ao movimento corporal. ESCOLA: O que pode acontecer a uma criança que é obrigada a ficar sentada muito tempo? LEVIN: A obrigação de deixar o corpo estático, sem movimento, pode ser uma das causas da hiperatividade – um dos distúrbios de aprendizagem mais comuns hoje em dia –, de manias e de comportamentos repetitivos sem significado. Pode ser também um dos componentes de quadros de anorexia, de bulimia e de depressão infantil. Isso sem falar das dores corporais que a falta de atividade às vezes traz. (NOVA ESCOLA, 2009). Afetividade4.18 A afetividade deve ser distinguida de suas manifestações, diferenciando- se do sentimento, da paixão, da emoção, pois a afetividade é o termo utilizado para identificar um domínio funcional abrangente e, nesse domínio funcional, aparecem diferentes manifestações: desde as primeiras, basicamente orgânicas, até as diferenciadas como as emoções, os sentimentos e as paixões. Para Wallon, o desenvolvimento da afetividade depende da ação de dois fatores: o orgânico e o social. Entre esses dois fatores existe uma relação estreita tanto que as condições medíocres de um podem ser superadas pelas condições mais favoráveis do outro. Essa relação recíproca impede qualquer tipo de determinismo no desenvolvimento humano, tanto que “a constituição biológica da criança ao nascer não será a lei única do seu futuro destino”. Os seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias sociais da sua existência, em que a escolha individual não está ausente. UNIUBE 133 Ao longo do desenvolvimento do indivíduo, esses fatores em suas interações recíprocas modificam tanto as fontes de onde procedem as manifestações afetivas, quanto as suas formas de expressão. A afetividade que inicialmenteé determinada basicamente pelo fator orgânico passa a ser fortemente influenciada pela ação do meio social. Tanto que Wallon defende uma evolução progressiva da afetividade, cujas manifestações vão se distanciando da base orgânica, tornando-se cada vez mais relacionadas ao social. Na obra walloniana, a afetividade constitui um domínio funcional tão importante quanto o da inteligência. Afetividade e inteligência constituem um par inseparável na evolução psíquica, pois, embora tenham funções bem definidas e diferenciadas entre si, são interdependentes em seu desenvolvimento, permitindo à criança atingir níveis de evolução cada vez mais elevados. É no processo ensino-aprendizagem que o professor encontra recursos para compreender os caminhos tortuosos da aprendizagem, e o papel da afetividade é um elemento importante no sentido de garantir o êxito nesse empreendimento: ensinar. Os educadores devem ter clareza destes aspectos (Figura 9): Confiar na capacidade do aluno é fundamental para que ele aprenda. Ao ensinar, o professor está promovendo o desenvolvimento do aluno e o seu próprio. Ao desempenhar as tarefas no cotidiano escolar, revela diferentes saberes (conhecimento específico, habilidades de relacionamento interpessoal, conteúdos da cultura), saberes que são construídos no tempo, na socialização familiar, escolar, profissional, numa integração cognitiva-afetiva (conhecimentos, As emoções e os sentimentos podem variar de instensidade, em fundos dos contextos, mas estão presentes em todos os momentos da vida, interferindo de alguma maneira em nossas atividades. Figura 9: Aspectos a serem observados no processo ensino-aprendizagem. 134 UNIUBE Wallon e a educação4.19 O homem completo, de acordo com Wallon, só é concebido em sua forma universal atribuindo-lhe o poder de compreender, ponderar e escolher e, para ele, uma educação humanista deve considerar todas as disposições que constituem o homem completo, mesmo estando desigualmente repartidas entre os indivíduos, pois qualquer indivíduo potencialmente pode se desenvolver em qualquer direção, a depender de seu aparato biológico e das condições em que vive. Assim sendo, o acesso à cultura é função primordial da educação formal, pois ela é a expressão do florescimento das criações e das aptidões do homem genérico, universal, sejam manuais, corporais, estéticas, intelectuais ou morais. A escola é parte das condições de existência na qual a pessoa se desenvolve e constitui, devendo intervir neste processo de maneira a promover o desenvolvimento de tantas aptidões quantas for possível. Partindo desse pressuposto, as propostas educacionais deveriam ser conduzidas de maneira que toda aptidão pudesse ser orientada, cultivada segundo sua natureza, de forma que o ensino recebido fosse uma preparação suficiente para o exercício de qualquer função que poderia oferecer-se mais tarde. Isto posto, vale ressaltar que Wallon acreditava serem as aptidões cultivadas, desenvolvidas em contato com a cultura, e não inatas, embora elas dependam também de condições orgânicas. Por isso atribuiu à escola, como função primordial, dar acesso à cultura visando o cultivo das aptidões, pois só podem exercer as disposições que constituem o homem completo – compreender, ponderar e escolher – aqueles aos quais for dado a conhecer a cultura de seu tempo. UNIUBE 135 Três aos onze anos, as aptidões parecem não contribuir de maneira eficiente. Por este motivo, o momento seria propício, segundo Wallon, para orientar e cultivar todas elas, cada uma de acordo com sua natureza: manual, corporal, estética, intelectual e moral. Onze e quinze anos, sobre um fundo de aquisições comuns, emergem aptidões mais particulares, mais pessoais, mais originais, que devem encontrar tarefas que ajudem no desenvolvimento. A oferta de alternativas deveria ser ampla o suficiente para permitir à criança, ao exercitar e desenvolver novas funções, reconhecer suas preferências e suas dificuldades. À universidade caberia a formação profissional, a investigação científica e a difusão da cultura associando uma cultura geral superior a uma especialização muito avançada. Figura 20: Estágio de desenvolvimento da criança. Wallon afirma que o meio e a cultura condicionam os valores morais e sociais que a criança incorporará, e que devem ser cultivados os valores de solidariedade e justiça. Insiste na importância de o professor conhecer as condições de existência de seu aluno, para saber quais os valores que nelas estão sendo cultivados, nos outros meios em que está imerso, e saber como cultivar aqueles que são seu objetivo. A partir de sete anos, a criança vive, ao mesmo tempo, sentimentos e situações de cooperação, exclusão e rivalidade. Caberia ao professor intervir, propondo atividades que privilegiem trabalhos em grupo e atitudes de cooperação, em relação aos trabalhos individuais, uma vez que, nessa época, podem acirrar-se rivalidades em detrimento da solidariedade. Além disso, o momento é propício para preparar a criança para a etapa seguinte que é a adolescência. 136 UNIUBE Diante do adolescente, compreendendo as características de seu estágio de desenvolvimento, o professor pode atuar no sentido de ajudá-lo a distinguir valores sociais e morais, uma vez que a responsabilidade é um dos sentimentos que o educador deve buscar promover no adolescente, pois que ela tem ingredientes capazes de mobilizar essa faixa etária graças às suas características específicas, pois responsabilidade representa, segundo Wallon (1981): Tomar a seu cargo o êxito de uma ação que é executada em colaboração com outros ou em proveito de uma coletividade. A responsabilidade confere um direito de domínio, por uma causa, mas também um dever de sacrifício, o que significa que o adolescente responsável é aquele que deve se sacrificar mais, por tarefas sociais que contribuem para o crescimento e desenvolvimento da coletividade e do grupo. (p. 222) O professor pode, desta forma, auxiliar o adolescente em suas indecisões e angústias, propondo atividades que propiciem o reconhecimento de suas tendências e o cultivo de aptidões e orientando a proposição de metas e objetivos futuros. Para Wallon, o educador é, antes de tudo, um observador que cria oportunidades e situações para que a criança se desenvolva intelectual, afetiva, física e socialmente, como podemos observar no Quadro 1. UNIUBE 137 Q ua dr o 1: F un çã o do p ro fe ss or n a re la çã o co m o a lu no , s eg un do W al lo n O s al un os e a a pr en di za ge m W al lo n di sc ut e, e m a lg un s ar tig os , o c as o de a lu no s qu e ap re se nt am p er tu rb aç õe s da c on du ta . A po nt a di ve rs as c au sa s po ss ív ei s pa ra e ss e tip o de s itu aç ão e a dv er te p ar a o fa to d e qu e nã o se p od e ex pl ic ar ne nh um a co nd ut a is ol an do -a d o m ei o em q ue s e m an ife st a. S ão n ec es sá ria s, p or u m la do , i nf or m aç õe s so br e o m ei o fa m ilia r e o s eg m en to s oc ia l d a cr ia nç a e, p or o ut ro , i nf or m aç õe s so br e a in te ra çã o da cr ia nç a na s di ve rs as s itu aç õe s es co la re s, o bt id as p or m ei o de o bs er va çã o do e du ca do r. Q ua nt o à úl tim a, a o rig em p od e es ta r n a di nâ m ic a da in te ra çã o da c ria nç a co m o g ru po o u co m o pr of es so r, di nâ m ic a qu e, c om fr eq uê nc ia , a lim en ta a s at itu de s "in ad eq ua da s" e c on so lid a al gu ns a lu no s no p ap el d e "in di sc ip lin ad os ". Po de e st ar , t am bé m , n um d es aj us te (d e na tu re za c og ni tiv a oup sic om ot or a) da s si tu aç õe s e ex ig ên ci as e sc ol ar es à s po ss ib ilid ad es d a cr ia nç a, h ip ót es e qu e ob rig a a um a re fle xã o pe rm an en te s ob re a p rá tic a pe da gó gi ca . O tr ab al ho c ol et iv o W al lo n in di ca a o pr of es so r o rg an iz ar a c la ss e em c ol et iv o, d es en vo lv en do o e sp íri to d e co op er aç ão e co m pr ee nd e co m o at itu de n eg at iv a an ul ar o e sp íri to c ol et iv o, e st im ul an do a c om pe tiç ão e nt re o s in di ví du os , c om o se o g ru po a rti cu la do re pr es en ta ss e um a am ea ça a o po de r d o pr of es so r; ar gu m en ta qu e, a o co nt rá rio d o qu e m ui to s ac re di ta m , o s gr up os n ão s ão fo rç os am en te h os tis a o qu e é di st in to d el es ; ad ve rte q ue n ão b as ta d ef en de r o tr ab al ho e m e qu ip e, já q ue e st e po de , c on fo rm e a or ie nt aç ão q ue s e dê , e st im ul ar a ri va lid ad e e a co m pe tiç ão - o tra ba lh o em e qu ip e de ve s er , p or ta nt o, o rie nt ad o pa ra a so lid ar ie da de e nt re s eu s m em br os . 138 UNIUBE O p ap el d o pr of es so r C om o el em en to d ife re nc ia do , é o re sp on sá ve l p el a un id ad e do g ru po , p od en do re ce be r a s m an ife st aç õe s da s cr is es in fa nt is c om o d is ta nc ia m en to n ec es sá rio p ar a nã o as c om pr im ir ne m s e su bm et er a e la s. U m a da s m ai s re co rre nt es c ar ac te rís tic as d as c ris es q ue p on tu am o d es en vo lv im en to d a cr ia nç a é a op os iç ão . Se ja p el a ne ce ss id ad e de fa ze r u m p rim ei ro re co rte d a pe rs on al id ad e qu e at é ap ro xi m ad am en te tr ês a no s se a ch a in di fe re nc ia da d o m ei o so ci al , s ej a pa ra a c on st ru çã o da id en tid ad e no a do le sc en te , a o po si çã o tra du z um a au to no m ia a in da fr ág il, re cé m -c on qu ist ad a. C om pr ee nd id as d es ta fo rm a, a s cr ise s de o po siç ão po de m s er s up er ad as s em c ol oc ar em ri sc o à un id ad e do g ru po e a b oa re la çã o do g ru po c om o p ro fe ss or . O p ro fe ss or e a c ria nç a W al lo n afi rm a qu e o pr of es so r é v al or iz ad o ta m bé m d o po nt o de v is ta d o co nt eú do . N ão s e de ve c ol oc ar co m o ex cl us iv o de te nt or d o sa be r e ú ni co re sp on sá ve l p el a su a tra ns m is sã o, m as ta m po uc o ab di ca r d es te pa pe l, su bm et en do -s e in di sc rim in ad am en te à e sp on ta ne id ad e in fa nt il. Pa ra W al lo n, re sp ei ta r a c ria nç a nã o sig ni fic a po up á‑ la d as in te rv en çõ es e xt er na s, a o co nt rá rio , a in te rv en çã o do p ro fe ss or é u m fa to r f un da m en ta l p ar a o pr oc es so d e de se nv ol vi m en to e a pr en di za ge m , q ue d ep en de da in co rp or aç ão d o pa tri m ôn io c ul tu ra l a du lto , i st o é, d e co nt eú do . A fo rm aç ão d o pr of es so r W al lo n m an ife st ou m ui to in te re ss e so br e es sa q ue st ão e d ef en de u a ex ig ên ci a de fo rm aç ão s up er io r p ar a os p ro fe ss or es d e qu ai sq ue r n ív ei s, n um a te nt at iv a de e xt in gu ir a di sc rim in aç ão n a va lo riz aç ão d es se s pr ofi ss io na is . A lé m d e cu ltu ra g er al s ól id a, a fo rm aç ão d o pr of es so r d ev er ia p re ve r c on he ci m en to s so br e o pr oc es so d e de se nv ol vi m en to d a cr ia nç a. E ng aj ad o, o p ro fe ss or d ev e to m ar p ar tid o do s as su nt os d e su a ép oc a e le va r e m c on sid er aç ão a s re la çõ es q ue u m a so cie da de c ad a ve z m ai s ig ua litá ria e xig e da s cr ia nç as . O p ro fe ss or d es en ha do p el a vi sã o w al lo ni an a de ve a in da te r a ut on om ia n a co nd uç ão d o se u tra ba lh o e in ic ia tiv a pa ra in ve st ig ar , s ob re tu do p or m ei o da o bs er va çã o, a o rig em d e at itu de s e co nd ut as p ar tic ul ar es , as si m c om o de c on fli to s ve rifi ca do s no g ru po . UNIUBE 139 Nas discussões que circulam atualmente nos meios educacionais quais aspectos estão presentes na perspectiva walloniana sobre a educação? AGORA É A SUA VEZ A psicogenética walloniana oferece subsídios para aprofundar a reflexão sobre a prática pedagógica, motivando a investigação educacional. Ao mesmo tempo, impõe exigências sobre esta prática, cobrando da Escola o atendimento do indivíduo na integridade dos domínios que o constituem Vamos brincar de salada mista? Fatores presentes na educação4.20 Você já brincou de salada mista? — É esse? — Não!!! — É esse? — Não!!! — É esse? — É!!! — Pêra, uva, maçã, salada mista — Diz o que você quer — Sem eu dar nenhuma pista (Brincadeira popular) Diferentemente da brincadeira “salada mista” não precisamos escolher entre essa ou aquela abordagem do desenvolvimento, muito pelo contrário, as contribuições de cada uma delas é que irá sustentar a prática pedagógica com segurança. Na perspectiva construtivista de Piaget, o começo do conhecimento é a ação do sujeito sobre o objeto, ou seja, o conhecimento humano se constrói na interação homem-meio, sujeito-objeto. Conhecer consiste em operar sobre o real e transformá‑lo a fim de compreendê‑lo, é algo que se dá a partir da ação do sujeito sobre o objeto de conhecimento. 140 UNIUBE Para ele, há duas formas de aprendizagem. A primeira, mais ampla, equivale ao próprio desenvolvimento da inteligência. Este desenvolvimento é um processo espontâneo e contínuo que inclui maturação, experiência, transmissão social e desenvolvimento do equilíbrio. A segunda forma de aprendizagem é limitada à aquisição de novas respostas a situações específicas ou à aquisição de novas estruturas para algumas operações mentais específicas. O processo de aprendizagem envolve a assimilação e a acomodação. Na medida em que participamos ativamente dos acontecimentos, assimilamos mentalmente as informações sobre o ambiente físico e social e transformamos o conhecimento adquirido em formas de agir sobre o meio. O conhecimento assimilado passa a constituir a bagagem de experiências que nos permite enfrentar as novas situações, assimilar outras experiências e formular novas ideias e conceitos. As novas aprendizagens baseiam-se nas anteriores assim, a inteligência humana desenvolve-se: aprendizagens simples servem de base a outras aprendizagens mais complexas. Quando transformamos o conhecimento assimilado em uma nova forma de ação, realizamos uma acomodação entre o nosso organismo nos aspectos físico e mental e o ambiente no qual vivemos. Pelas assimilações e acomodações constantes e contínuas, cada indivíduo organiza sua noção da realidade, seu próprio conhecimento. A aprendizagem é sempre provocada por situações externas ao sujeito, supondo a atuação do sujeito sobre o meio, mediante experiências. A aprendizagem será a aquisição que ocorre em função da experiência e que terá caráter imediato. Ela poderá ser: experiência física - comporta ações diferentes em função dos objetos e consiste no desenvolvimento de ações sobre esses objetos paradescobrir as propriedades que são abstraídas deles próprios, é o produto das ações do sujeito sobre o objeto; e experiência lógico-matemática o sujeito age sobre os objetos de modo UNIUBE 141 a descobrir propriedades e relações que são abstraídas de suas próprias ações, ou seja, resulta da coordenação das ações que o sujeito exerce sobre os objetos e da tomada de consciência dessa coordenação. Essas duas experiências estão inter-relacionadas, uma é condição para o surgimento da outra. Para Piaget, o desenvolvimento mental dá-se espontaneamente a partir de suas potencialidades e da sua interação com o meio. Para Vygotsky (1991), a criança nasce inserida num meio social, que é a família, e é nela que estabelece as primeiras relações com a linguagem na interação com os outros. Nas interações cotidianas, a mediação (necessária intervenção de outro entre duas coisas para que uma relação se estabeleça) com o adulto acontece espontaneamente no processo de utilização da linguagem, no contexto das situações imediatas. Essa teoria apóia-se na concepção de um sujeito interativo que elabora seus conhecimentos sobre os objetos, em um processo mediado pelo outro. O conhecimento tem gênese nas relações sociais, sendo produzido na intersubjetividade e marcado por condições culturais, sociais e históricas. Segundo Vygotsky (1991), a aprendizagem tem um papel fundamental para o desenvolvimento do saber, do conhecimento. Todo e qualquer processo de aprendizagem é ensino-aprendizagem, incluindo aquele que aprende, aquele que ensina e a relação entre eles. Ele explica esta conexão entre desenvolvimento e aprendizagem através da zona de desenvolvimento proximal (distância entre os níveis de desenvolvimento potencial e nível de desenvolvimento real), um “espaço dinâmico” entre os problemas que uma criança pode resolver sozinha (nível de desenvolvimento real) e os que deverá resolver com a ajuda de outro sujeito mais capaz no momento, para em seguida, chegar a dominá-los por si mesma (nível de desenvolvimento potencial). Em suas ideias pedagógicas, Wallon propõe que a escola reflita acerca de suas dimensões sócio-políticas e aproprie-se de seu papel no movimento de transformações da sociedade. Propõe uma escola 142 UNIUBE engajada, inserida na sociedade e na cultura, e, ao mesmo tempo, uma escola comprometida com o desenvolvimento dos indivíduos, numa prática que integre a dimensão social e a individual. Destacando o papel do meio social no desenvolvimento infantil, concebe a escola como meio promotor de desenvolvimento, indicando direções para a organização do ambiente escolar. Vygotsky e Wallon construíram suas teorias sobre o desenvolvimento infantil partindo da mesma concepção de ser humano e de realidade. Ambos conceberam o sujeito a partir do materialismo histórico e dialético, entendendo que sua relação com a realidade se dá através de mediações que permitem que ele seja transformado pela natureza, que por sua vez é transformada por ele. Assim, a mediação se processa através da utilização de instrumentos e signos que possibilitam, pela interação social, a transformação do meio e dos sujeitos. Tanto para Wallon como para Vygotsky, entre emoção e inteligência existe elaboração recíproca: as conquistas afetivas contribuem para o desenvolvimento cognitivo e vice-versa (DANTAS, 1992). Conclusão4.21 Fechando nossa ciranda Concluindo nossos estudos sobre a aprendizagem nesse capítulo, acreditamos que você tenha refletido sobre aspectos bastante importantes dessa nossa conversa: desde a capacidade humana de interação com os objetos que o rodeiam, os diferentes olhares sobre o desenvolvimento até a relevância e subjetividade da afetividade nas relações que se dão socialmente. UNIUBE 143 Ficamos com a certeza que nossa discussão será um importante aporte para a continuidade de seus estudos e de sua prática pedagógica e ainda mais, que o seu conhecimento não se encerra nessas páginas, ao contrário, deverá ser o seu passaporte para pesquisar e estudar acerca do desenvolvimento humano e suas implicações em sala de aula, para a aprendizagem significativa, respeitando‑se a diversidade, os conhecimentos prévios dos alunos e suas diferentes maneiras de ver o mundo e a vida. Como contribuições das teorias interacionistas e sócio-interacionistas podemos relacionar ao final desse nosso estudo: • a compreensão de que o processo cognitivo não acontece por justaposição, mas por reorganização do conhecimento, que é “provisório”, uma vez que não é possível chegar de imediato ao conhecimento desejado, mas somente por aproximações sucessivas que permitem sua reconstrução; • que a função socializadora remete a dois aspectos: o desenvolvimento individual e o contexto social e cultural. É nessa dupla determinação que os indivíduos se constroem como pessoas iguais, mas, ao mesmo tempo, diferentes de todas as outras. Iguais por compartilhar com outras pessoas um conjunto de saberes e formas de conhecimento que, por sua vez, só é possível graças ao que individualmente se puder incorporar. Não há desenvolvimento individual possível à margem da sociedade, da cultura. • a possibilidade de estabelecer objetivos educacionais uma vez que a teoria fornece parâmetros importantes sobre o “processo de pensamento da criança” relacionados aos estádios do desenvolvimento; • nessa perspectiva, os erros são entendidos como estratégias usadas pelo aluno na sua tentativa de aprendizagem de novos conhecimentos, portanto, inerente ao processo de aprendizagem, como também a intervenção pedagógica para ajudar a superá-lo. A superação do erro é resultado do processo de incorporação de novas ideias e de transformação das anteriores, de maneira a dar conta das contradições que se apresentarem ao sujeito para, assim, alcançar níveis superiores de conhecimento; 144 UNIUBE • lança luz à questão dos diferentes estilos individuais de aprendizagem; • reforça a importância do “outro” na aprendizagem como fator decisivo nas experiências do indivíduo; • que por mais que o professor, os companheiros de sala e os materiais didático-pedagógicos possam contribuir para que a aprendizagem se realize, nada pode substituir a atuação do próprio aluno na tarefa de construir significados sobre os conteúdos da aprendizagem. É ele quem modifica, enriquece e, portanto, constrói novos e mais potentes instrumentos de ação e interpretação. Com o olhar aguçado pelos estudos teóricos e conscientes da importância da nossa atuação pedagógica, construiremos cada vez mais escolas que encorajam todos os seus alunos a alçar grandiosos vôos, pois escolas que não são gaiolas, que são asas para os seus alunos, possibilitam que por meio dessas asas, eles possam alçar grandes voos em direção ao conhecimento, à luz, aos sonhos: “Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.” (ALVES, 2003) Podemos construir escolas-“asas”, você não acha? Leituras Caro(a) aluno(a), leia o Capitulo 6, “As abordagens sobre o desenvolvimento e aprendizagem e a prática pedagógica”, da obra Psicologia e trabalho pedagógico. Nele as autoras discutem os diferentes modos de olhar a educação a partir das diferentes abordagens sobre desenvolvimento e aprendizagem. UNIUBE 145 FONTANA, Roseli. CRUZ, Maria Nazaré. Capítulo 6. As abordagens sobre desenvolvimento e aprendizagem e a prática pedagógica. In: Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo:Atual, 1997. Referências ALVES, Rubem. Conversas sobre educação. São Paulo: Campinas, 2003. BOCK, A. M. B. ; FURTADO, O. E ; TEIXEIRA, M. L. T. A Psicologia do desenvolvimento. In: Psicologias: uma introdução aos estudos de Psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MECSEF, 1998. CAMPOS, D.M.S. O desenvolvimento do ser humano. In: Psicologia e desenvolvimento humano. Petrópolis. RJ: Vozes,1997. COUTINHO, M.T.C., MOREIRA, M. Teorias Interacionistas.(Base Dialética) In: Psicologia da educação: um estudo dos processos psicológicos de desenvolvimento e aprendizagem humanos, voltado para a educação. Belo Horizonte. Ed. Lê,1992. DANTAS, Heloysa; LA TAILLE, Yves; OLIVEIRA, Marta Kohl. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. FONTANA, Roseli. CRUZ, Maria Nazaré.Capítulo 6. As abordagens sobre desenvolvimento e aprendizagem e a prática pedagógica. In: Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997. GALVÃO, Izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis, RJ ; Vozes, 1995. HAMDAN, A.C. A Teoria de Wallon, Piaget e Vygotsky. In: Introdução à psicologia do desenvolvimento. Campo Grande: Solivros. 1998. LA TAILLE, Yves de et. allii. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992 146 UNIUBE NOVA ESCOLA. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/educacao‑fisica/ pratica-pedagogica/esteban-levin-corpo-ajuda-aluno-aprender-423993.shtml>. Acesso em: 30 dez. 2009. PIAGET, Jean. A equilibração das estruturas cognitivas. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. VYGOTSKY, Lev Semenovick. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Tradução: José Cipolla Neto, Luiz Silveira Nenna Barreto, Solange Castro Afeche. São Paulo: Martins Fontes, 1991. WALLON, H. A evolução psicológica da criança. Lisboa, Edições 70: 1981 WIKIPEDIA. Teoria. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria>. Acesso em: 22 dez. 2009. Glaucia Eli Silva Maria Cecília Daher Introdução O desenvolvimento infantil e seus diferentes aspectos Capítulo 5 A partir deste momento, você começará uma trajetória em seus estudos que lhe permitirá compreender como se processa o desenvolvimento global da criança e como essa criança contribui ativamente com sua própria evolução. Você estudará como se dá a passagem de estados menos desenvolvidos de conhecimento para os mais desenvolvidos e o papel do educador nesse processo. Com isso, estes estudos estarão contribuindo para que você, aluno do curso de Pedagogia, possa construir conhecimentos que sejam capazes de contribuir com a construção do seu perfil profissional, no sentido de promover o desenvolvimento infantil e favorecê -lo em todas as ocasiões que se apresentem. Além disso, é importante ressaltar que se espera que o pedagogo egresso do curso de Pedagogia da Uniube seja capaz de agir como mediador dos conhecimentos a serem construídos pela criança, pelo adolescente, pelo jovem e/ou por eles apropriados. Dessa forma, é imprescindível que se conheça de fato a criança, que se saiba promover a articulação entre a proposta contida nos Referenciais Curriculares para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental, com a realidade vivenciada por cada aluno em seus diferentes momentos de desenvolvimento, já que a criança, e por sua vez o aluno, é o nosso objeto de trabalho enquanto pedagogos. 148 UNIUBE Após o estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • associar cada fase de desenvolvimento ao processo evolutivo; • descrever as diferentes fases do desenvolvimento humano, especialmente as fases da vida infantil; • distinguir o significado dos termos “maturação”, “crescimento” e “desenvolvimento”; • identificar o papel do educador no desenvolvimento global da criança. Para que você possa construir os conhecimentos propostos acima, os conteúdos serão apresentados de acordo com a seguinte organização: 5.1 A criança e sua relação com o mundo 5.2 O desenvolvimento humano 5.3 A hereditariedade 5.4 Meio 5.5 Maturação e aprendizagem 5.6 As fases do desenvolvimento infantil sob a visão de alguns teóricos 5.7 O crescimento 5.8 O desenvolvimento global da criança: a escola e o professor 5.9 Conclusão Objetivos Esquema UNIUBE 149 A criança e sua relação com o mundo5.1 Iniciando a nossa conversa, vamos refletir um pouco: o que um brinquedo representa para uma criança? Pode significar muitas coisas. É importante saber que a criança, ao brincar, estabelece uma relação entre os objetos do mundo que a cerca e o seu universo subjetivo. Com isso, transforma um papel em brinquedo, atribui diferentes sentidos e significados a esses objetos. Isso nos instiga à reflexão em torno de algumas ideias importantes sobre o universo infantil e suas diferentes formas de ver e compreender o mundo ao seu redor. O sentido que uma criança atribui às ações, às brincadeiras pode ser bem diferente daquele que você atribui a essas mesmas ações ou brincadeiras? PARADA PARA REFLEXÃO Uma criança, mesmo estando na mesma faixa etária de outra, pode dar sentidos e significados diferentes ao mundo que a cerca e isso pode estar relacionado com o seu desenvolvimento, que não pode ser confundido com o seu crescimento. Nesse sentido, importa-nos enfatizar que o crescimento diz respeito ao lado biológico, genético, hereditário do ser humano e que nesse aspecto pouco podemos interferir como educadores. Entretanto, o desenvolvimento envolve várias situações que são resultantes de aprendizagens constituídas por meio de experiências ou estimulações do meio, e, nesse caso, há um campo de possibilidades considerável para a atuação pedagógica. Sendo assim, a partir desta etapa, você começará a fazer uma viagem por diferentes abordagens teóricas em busca da compreensão do desenvolvimento infantil. Nesse percurso, verá que o caminho é longo e 150 UNIUBE complexo, afinal estamos em busca do conhecimento sobre os diferentes aspectos que constituem o desenvolvimento do ser humano. E quando se trata do ser humano, é impossível não se considerar a sua complexidade como bem dizem Coutinho e Moreira (2006, p. 34): A complexidade do homem enquanto objeto de estudo é evidente: simultaneamente é um ser biológico e não biológico; possui um cérebro que é um órgão morfológico e um espírito ou uma consciência que é psíquica; possui um pensamento que é racional, empírico e técnico e ao mesmo tempo simbólico, mítico e mágico; possui um código genético que estabelece possibilidades e limitações, mas interage efetivamente com uma enorme diversidade de meios físico ‑geográficos e socioculturais. Como se pode perceber, o desafio é grande e ao mesmo tempo convidativo. Compreender a complexidade da natureza humana é exatamente o que nos dá possibilidade de desvendá -la. Sendo assim, é possível afirmar que o estudo do desenvolvimento infantil contribui muito para que os educadores possam conhecer a criança, suas conquistas psicológicas e sociais como fatores fundamentais para trabalhar com ela. Ajuda -nos ainda a entender que, para se desenvolver, a criança precisa de espaço que a ajude a processar as suas mudanças internas e externas. Um espaço relativo ao tempo que dê conta de interiorizar todas as mudanças de natureza psicológica, fisiológica e afetiva que acontecem no universo infantil. Mas também que há a necessidade de inserir nesse espaço de tempo a compreensão sobre a realidade objetiva na qual ela está inserida. Ou seja, quando a criança nasce, ela é totalmente dependente do outro e, com o tempo, as vivências, as suas relações com o meio e as diferentes experiências que vivencia, ela vai conquistando sua independência. Vai se transformando por fora e por dentro.UNIUBE 151 Para isso, é importante buscar a reflexão em torno dos aspectos que exercem influência no desenvolvimento humano, tais como: o aspecto ambiental e biológico, o interacional, o psicossocial, o sociocultural e psicossexual. Conhecer esses aspectos e a sua importância para o processo de aprendizagem exige-nos mergulhar nos conhecimentos sobre a psicologia do desenvolvimento; saber um pouco sobre as fases em que se processa esse desenvolvimento; refletir sobre os termos maturação, crescimento e desenvolvimento; conhecer as diferentes teorias que trataram desse assunto e seus posicionamentos a respeito; e, por fim, entender o papel do educador no desenvolvimento global da criança. Para compreender melhor tudo isso, é importante que você saiba um pouco sobre a origem da Psicologia do Desenvolvimento, ou Psicologia Evolutiva, e de que maneira ela contribui para a compreensão do desenvolvimento humano. PARADA PARA REFLEXÃO A esta altura você já deve estar se perguntando por que você, um(a) aluno(a) de graduação em Pedagogia, precisa estudar Psicologia? Pois bem, se você acha que é importante compreender o desenvolvimento humano e que a Psicologia tem contribuições relevantes nesse sentido, acertou!!! Saiba que essa ciência é responsável pelo estudo de todas as transformações psicológicas que acontecem com o ser humano. Vejamos a seguir o que Handam (1988, p. 15) nos diz sobre isso: A psicologia do desenvolvimento estuda o processo de transformações psicológicas que acontecem no indivíduo da concepção à morte. Estas transformações 152 UNIUBE se manifestam em mudanças no comportamento, na cognição, na afetividade, na personalidade e nas relações interpessoais. O conjunto destas transformações caracteriza diferentes níveis de comportamento e da atividade mental do indivíduo, pois, em cada etapa do seu desenvolvimento, o indivíduo estabelece diferentes padrões de comportamento e de atividade mental. Viu como é fundamental você conhecer essa ciência? Afinal, você professor, precisa conhecer a criança e saber como se processa o desenvolvimento de sua atividade mental para contribuir com a sua aprendizagem. Na verdade, o homem sempre procurou entender o mundo e a si mesmo. Dessa forma, a Psicologia tem sua origem nos conhecimentos filosóficos e caminhou desde o princípio dos tempos junto com outras ciências – inclusive a Pedagogia – para buscar essas respostas. Foi a partir do século XX que ela se constituiu como ciência independente. Sendo assim, as diferentes concepções filosóficas que serviram de base para a Psicologia acabaram por dar origem às diferentes teorias psicológicas do desenvolvimento e da aprendizagem. É bom lembrar que os estudos sobre o desenvolvimento psicológico da criança são recentes. Ao voltarmos nossa atenção para a trajetória histórica sobre a criança, veremos que até bem próximo ao século XX a criança era considerada um adulto em miniatura. Importa -nos saber que, a partir do século XX, a criança começou a ser vista como criança, com suas características próprias. A partir de então, a Psicologia do Desenvolvimento passou a preocupar -se em compreender o seu processo de desenvolvimento. UNIUBE 153 Até o século XVII A criança era vista como adulto em miniatura. Aprendia os valores, o trabalho e os jogos dos adultos. Participava da vida noturna dos adultos e era muitas vezes a atração. A criança passa a ser vista como diferente do adulto não apenas fisicamente. Ela passa a ser considerada como não preparada para a vida. Os adultos precisam assumir a criança e cuidar da sua educação moral e religiosa. Iniciaram-se os estudos científicos sobre o comportamento da criança em sua especificidade. A partir do século XVII até o século XX Figura 1: Evolução histórica do conceito de criança. Inicialmente os estudos realizados focavam suas pesquisas no comportamento da criança e o resultado desses estudos era organizado em escalas que possibilitavam sua compreensão. Daí a origem das fases do desenvolvimento humano. Dessa forma, essa ciência chamada Psicologia do Desenvolvimento vem dedicando-se, por meio de pesquisas, a contribuir para a compreensão do desenvolvimento psicológico humano em seus diferentes momentos, ou seja, da sua concepção até a velhice. Para isso ela considera, além de fatores internos, os fatores externos, como: os tempos históricos, as diferentes culturas e o contexto social que o indivíduo está inserido. Contribui, assim, para que possamos entender as diferentes possibilidades e limitações apresentadas pela criança em cada faixa etária, chamada por ela de fases ou estágios do desenvolvimento. 154 UNIUBE O desenvolvimento humano5.1 A partir daqui vamos tentar compreender o significado da expressão desenvolvimento. Coutinho e Moreira (2006, p. 38) definem o desenvolvimento como “um conjunto de competências manifestas num determinado momento da vida do indivíduo”. Ou seja, as capacidades psicológicas ou mentais demonstradas pelo indivíduo para a realização de diferentes ações durante toda sua existência, caracterizam o seu desenvolvimento. É importante lembrar que esse desenvolvimento se processa de forma contínua e ininterrupta. A espécie humana, com toda sua complexidade, passa por diferentes transformações ao longo da existência, e essas transformações são divididas em fases, ou como alguns teóricos preferem nominar, por diferentes estágios, que por sua vez acenam para o processo de desenvolvimento psicológico do indivíduo. Essas transformações são determinadas por diferentes agentes, tanto biológicos quanto socioculturais. Isso significa dizer que as mudanças biológicas por si sós não conseguem dar significado ao processo de desenvolvimento psicológico do homem, é preciso considerar também suas características individuais e o meio social em que ele está inserido, ou seja, todos os fatores que de certa forma afetam o indivíduo. Com isso é necessário compreender o desenvolvimento psicológico a partir das transformações de natureza biológica, comportamentais e das relações sociais estabelecidas pelo indivíduo. Para nos ajudar a entender melhor, vejamos. UNIUBE 155 Na relação entre mãe e filho, no momento de amamentação, existe o ato de sugar, que é uma ação biológica própria do ser humano como resposta ao mundo assim que o bebê nasce e está ligada ao seu instinto de sobrevivência. Ou seja, é um ato reflexo que faz parte do impulso de vida do indivíduo. Por outro lado, o ato de amamentar é um ato de doação da mãe ao bebê desejando que ele viva. É um processo de aprendizagem, de relação para a mãe e para o bebê. A mãe não o faz só por impulso, bem como o bebê também não mama só por uma questão de instinto. Acontece aí uma ação que ultrapassa um momento de maturação biológica representada pela condição aprendida pelo bebê de sugar e pela mãe de amamentar, cria -se um vínculo materno dando origem ao primeiro ato social do ser. EXEMPLIFICANDO! Assim como no exemplo, acontecem situações que possibilitam o desenvolvimento humano em outros momentos de sua existência, como na adolescência, quando o jovem se junta a um determinado grupo com o qual se identifica e cria o que chamamos atualmente de “sua galera” ou “sua turma”. Isso acontece também na fase adulta e na velhice. Na verdade o que se estabelece é uma relação social de pertencimento que contribui para o desenvolvimento psicológico do indivíduo na sua busca por constituir -se como ser individual. É preciso lembrar de fatores influenciadores, como o momento histórico e a cultura em que cada um desses indivíduos está inserido, que são importantes mediadores no processo de desenvolvimento humano. Para elucidar melhor essa questão, vejamos a seguir alguns posicionamentos históricos sobre o processo de desenvolvimento e aprendizagem. 156 UNIUBE Aristóteles (384-322 a.C.). Acreditava que o ser humano nascia com uma predeterminaçãopara o desenvolvimento. Era uma ideia inatista, que concebia o desenvolvimento da inteligência, da capacidade de aprendizagem e de outros comportamentos como algo que já estava determinado no indivíduo ao nascer. Com base nessa concepção, foi possível conviver por muitos anos com a ideia de que algumas pessoas eram inferiores e outras superiores, que algumas pessoas possuíam “um dom“ para aprender e outras não. Inclusive a capacidade de gerenciar e adquirir autonomia sobre sua condição humana era algo que já nascia com o indivíduo ou não.Nessa lógica entendia -se que o negro, por exemplo, era alguém que havia nascido com uma determinação para ser inferior ao branco, por isso, era natural que ele se tornasse um escravo a serviço do homem branco que possuía condições de determinar melhor o que ele poderia saber e/ou fazer. Também tem fundamento nessa perspectiva a ideia, que prevaleceu por muito tempo em nossas escolas, de que alguns alunos tinham o dom para aprender e outros, não. Com base nisso, a escola pouco podia contribuir e muitos alunos foram considerados inaptos para frequentá-la, abandonando os estudos e seguindo o caminho do trabalho, muitas vezes na zona rural. A partir da interferência do judaísmo e do cristianismo, ou seja, em outro momento histórico da humanidade, surgiram as primeiras ideias de que os homens eram todos iguais. Aristóteles Filósofo grego. Aristóteles nasceu em 384 a.C. e morreu em 322 a.C. Seus pensamentos filosóficos e suas ideias sobre a humanidade têm influências significativas na educação e no pensamento ocidental contemporâneo. Aristóteles é considerado o criador do pensamento lógico. Disponível em: <http://www. suapesquisa.com/ biografias/john_ locke.htm>. Acesso em: 2 nov. 2009. UNIUBE 157 John Locke (1632‑1704), foi um filósofo empirista. Apresentou a “teoria da tábula rasa”, que consistia na ideia de que os homens nascem como uma página em branco e que a partir das experiências vivenciadas vão se constituindo as suas aprendizagens, os seus conhecimentos. A partir desse ponto, surgiram importantes discussões que possibilitaram a reflexão sobre o desenvolvimento humano. De um lado, existiam aqueles que acreditavam que o comportamento, indicador do desenvolvimento psicológico do indivíduo, era inato, predeterminado. E, de outro, aqueles estudiosos que acreditavam que fatores sociais e de aprendizagens educacionais eram determinantes na construção do desenvolvimento do homem. Foi a partir daí que surgiu uma terceira ideia, a de que era possível por meio de uma dialética entre diferentes aspectos, de forma interativa, a concepção de uma nova abordagem em torno do desenvolvimento do indivíduo. Com isso passou -se a considerar a importância dos aspectos hereditários, maturacionais e ambientais como fatores que possibilitam a interação do indivíduo com os objetos e, com isso, explicar o seu comportamento. A preocupação em mostrar como interagem o meio ambiente e os fatores ligados à hereditariedade, já vem desde o século XX, tomando força no início do século XXI. Vejamos agora a influência de cada um desses aspectos para o desenvolvimento do ser humano. John Locke Foi um importante filósofo inglês. É considerado um dos líderes da doutrina filosófica conhecida como empirismo e um dos ideólogos do liberalismo e do iluminismo. Nasceu em 29 de agosto de 1632 na cidade inglesa de Wrington. Locke faleceu em 28 de outubro de 1704, no condado de Essex (Inglaterra). Disponível em: <http://www. suapesquisa.com/ biografias/john_ locke.htm>. Acesso em: 2 nov. 2009. 158 UNIUBE A hereditariedade5.3 Antes de iniciarmos nossos estudos sobre esse assunto, vamos refletir um pouco: 1) O que você acha da expressão popular “filho de peixe, peixinho é”? 2) Será que a inteligência é algo que se transmite de pai para filho? 3) Você acredita que a personalidade de um indivíduo possa ser herdada de seus pais? Registre a resposta em seu caderno. PARADA PARA REFLEXÃO Após pesquisar e responder às questões propostas, você perceberá que o melhor caminho para saber mais sobre as ideias apresentadas e a sua relação com os fatores hereditários é buscar compreender não apenas o conceito de hereditariedade, mas a relação entre esse aspecto e o processo de desenvolvimento e aprendizagem do ser humano. Todas as espécies de seres vivos têm características que as diferem umas das outras, mas também têm características individuais que distinguem um ser vivo de outro dentro de uma mesma espécie, e que são passadas de uma geração a outra. Essas características são chamadas de genéticas e representam o conjunto de qualidades que já nascem com a criança. Por exemplo, a cor dos olhos, a cor da pele, a altura. Esses são aspectos que cada indivíduo recebe como herança genética de seus pais e que chamamos de fatores hereditários. UNIUBE 159 Porém, existem outros fatores que precisam ser considerados, como nossas características que não são biológicas, nossos valores, nossa inteligência, nossas emoções e atitudes que são diferentes dos nossos pais e antepassados. Para entendermos melhor, vamos pensar nos conhecimentos básicos que temos sobre a Biologia. Se o organismo humano inicia seu desenvolvimento no ato da fecundação cabe -nos assim começar desse ponto. Após a fecundação do óvulo pelo espermatozoide, surge um novo ser que começa a se desenvolver. Nesse processo, destacamos a importância dos cromossomos, portadores dos genes, por serem os responsáveis pela transmissão da hereditariedade. Os genes carregam o código genético humano, chamado de genótipo. É aí que entram as características da espécie, ou seja, aquelas que determinam que o homem se movimenta sobre duas pernas, tem um cérebro, dois olhos e que vive por um determinado período de tempo. Além daquelas características individuais que citamos acima que dizem respeito à cor de olhos, da pele, lembra -se? Mas, além dessas características, existem aquelas comportamentais apresentadas por cada indivíduo e que são determinadas pelo fenótipo. Nesse sentido, o fenótipo do homem é o responsável por transmitir a influência sócio ‑histórica, além das influências do meio ambiente. O resultado dessa influência é na verdade o centro da discussão em torno da afirmativa de que as características psicológicas podem ser transmitidas hereditariamente. Coutinho e Moreira (2006, p. 41) nos afirmam que: Ao que parece, de acordo com as várias pesquisas realizadas, não são as características psicológicas em si que são herdadas, mas um conjunto de programações para o seu desenvolvimento ou sua construção. 160 UNIUBE Diante disso, é importante destacarmos que muito ainda se precisa avançar nos estudos sobre o genoma humano para que possamos chegar ao final dessa polêmica. Mas a verdade é que todos os estudiosos até então admitem que, em parte, existam traços psicológicos passíveis de serem transmitidos. Porém, afirmam que eles não podem ser analisados de forma isolada de outro aspecto, ou seja, das influências do meio. Meio5.4 Para começarmos as reflexões acerca do meio, vamos recordar alguns conceitos: Para os teóricos racionalistas, o ser humano se desenvolve em um processo de atualização de estruturas pré -formadas, onde o indivíduo é ativo, e o meio passivo, ou seja, essas estruturas é que vão definir a organização e reorganização das percepções do indivíduo acerca do meio. De acordo com a teoria empirista, o meio é o maior responsável pelo desenvolvimento, minimizando, assim, a participação da hereditariedade como coadjuvante nesse processo. Genoma humano O genoma humano é formado pelo conjunto de todas as sequências de DNA que nos caracterizam do ponto de vista biológico. O término do sequenciamento do genoma humano levou à identificação de cerca de 25.000 genes. Disponível em: <http://genoma. ib.usp.br/pesquisas/ oquepesquisamos. php>.Acesso em: 2 nov. 2009. Racionalista ou Inatista Defende a ideia de que os indivíduos, ao nascerem, trazem consigo a pré -formação do conhecimento, ou seja, o conhecimento é algo inato. Nessa abordagem, a maturação é fundamental. O sujeito é ativo e o meio passivo, pois é o sujeito quem determina a reorganização do meio. UNIUBE 161 Com o passar do tempo, e acompanhando historicamente o desenvolvimento humano, os teóricos perceberam que tanto as estruturas hereditárias e pré -formadas do indivíduo quanto a influência do meio em seu desenvolvimento não poderiam ser tratadas como menos importantes em todo o processo. A partir daí surgiram as teorias interacionistas. Na verdade, não se trata de dar maior relevância ao meio em detrimento dos fatores hereditários, mas é necessário reconhecer que as estimulações ambientais são essenciais ao processo de desenvolvimento, tendo em vista que somente as questões hereditárias não são capazes de responder aos questionamentos em torno do desenvolvimento de cada indivíduo. É importante ressaltar que como meio se deve entender todas as naturezas de estímulos com os quais a criança interage e não somente o meio ambiente. As teorias interacionistas do desenvolvimento propõem a ideia de interação entre o sujeito e o meio. O conhecimento é adquirido através de um processo de construção contínuo onde o indivíduo está sempre em relação com o meio, ou seja, com as diferentes estimulações. Sujeito e ambiente (no sentido de objeto) interagem proporcionando, assim, uma ação recíproca. Portanto, toda nova construção depende da relação estabelecida entre o sujeito e o meio em que se encontra em cada situação de aprendizagem. Nesse sentido, vamos considerar que desde a concepção do indivíduo existe a influência de diferentes estímulos do meio, a começar do meio intracelular que exerce importante influência sobre as células que irão Empirista Abordagem que defende a ideia de que os homens eram iguais ao nascer e se diferenciavam a partir das estimulações do meio e dos processos educacionais. Teorias interacionistas Representadas por teóricos que explicam o conhecimento a partir da interação tanto dos sujeitos quanto dos objetos, resultando na organização e formação de novas estruturas de conhecimento. 162 UNIUBE compor o embrião. Segundo Coutinho e Moreira (2006, p. 41), “o meio intercelular atuará, assim, sobre a forma de estimulação de pressão, de provisão de oxigênio e de eletricidade sobre as células que comporão o organismo futuro”, resultando na formação dos diferentes órgãos. Além do meio intracelular existem os meios físico ‑geográfico e sócio ‑histórico, sobre os quais já nos referimos anteriormente. No que diz respeito ao meio físico ‑geográfico, lembramos as pesquisas realizadas com gêmeos idênticos criados em ambientes separados. O resultado dessas pesquisas indica que os diferentes meios geográficos em que os gêmeos idênticos foram criados provoca um distanciamento entre as características que comumente são muito próximas entre gêmeos dessa natureza criados no mesmo ambiente. Assim, estendemos nossos olhares sobre os estudos de Coll, Marchesi e Palácios (2004, p. 43), que nos apresentam três diferentes tipos de manifestações oriundas da relação hereditariedade/meio, que consideramos importantes para nossas reflexões. Relações passivas: os pais transmitem ao bebê certas características (por exemplo, tendência à inibição), e parte, através de possíveis influências genéticas, mas em parte também através da forma como se organizam com ele etc. (relações escassas e muito dominantes, por exemplo). Relações evocativas ou reativas: determinadas características de uma criança que podem ter certo componente hereditário (hiperatividade, por exemplo) tornam maior a probabilidade de que ela seja estimulada mais em uma direção do que em outra (certo tipo de atividade, de brincadeiras etc.). Relações ativas ou de seleção de contextos: em função de nossas disposições com algum componente genético, buscamos ainda mais alguns contextos do que outros, damos mais preferência a algumas atividades do que a outras etc. (uma criança inibida preferirá companheiros de brincadeira bem diferentes dos das crianças hiperativas, por exemplo). UNIUBE 163 Sobre as diferentes relações apresentadas acima, há de se considerar a fase evolutiva em que está o indivíduo, pois esse momento é um fator que influenciará diretamente sobre o tipo de relação a ser estabelecida por ele. Por exemplo, uma criança de três anos tende a imitar com maior facilidade o comportamento tímido ou extrovertido dos pais; a desejar seguir a profissão da mãe ou do pai; já um adolescente tende a demonstrar que sabe fazer suas próprias escolhas. Dessa forma, pode -se entender que quanto mais jovem for a criança mais suscetível estará às influências da convivência com os comportamentos e hábitos de seus familiares. Diante do que vimos até aqui sobre a polêmica hereditariedade/meio, é importante recorrer a Coutinho e Moreira (2006, p. 45) para enfatizar que: não existem, no indivíduo, propriedades biologicamente herdadas que determinam, por si só, o seu comportamento ou suas aptidões psíquicas. Isso porque nenhum traço de conduta existe a priori no cérebro. O que existe é uma aptidão da espécie para formação de várias aptidões resultantes da relação indivíduo -meio. Dessa forma, devemos considerar que as autoras chamam de “aptidão da espécie” os aspectos ontogênicos, responsáveis pelas características da espécie humana que cada ser traz consigo, relativos ao meio sócio -histórico. Resulta-se assim na conclusão de que realmente não existem características biológicas herdadas de pais para filhos, que isoladamente, possam ser responsáveis pelo comportamento do indivíduo. Na verdade trata -se da soma dos fatores hereditários à cultura em que o indivíduo está inserido, numa relação com o meio, que impulsionam o desenvolvimento das estruturas psicológicas do ser humano em cada fase. 164 UNIUBE Maturação e aprendizagem5.5 Podemos afirmar que os aspetos maturação e aprendizagem agem em reciprocidade. Por essa razão, faremos a abordagem em torno desses dois aspectos de forma mais dialética, buscando estabelecer relação entre ambos para facilitar o entendimento (ver Figura 2). Nesse sentido é importante refletir inicialmente sobre uma das questões centrais da psicologia evolutiva que é a idade. Mas não a idade cronológica, ou seja, referiremos às diferentes fases ou períodos que essa ciência considera para a compreensão do desenvolvimento do indivíduo. Não é por acaso que essa organização acontece –, pois ao classificar os períodos de desenvolvimento em: de zero a dois anos, de dois a seis anos, de seis a doze anos, da adolescência até a maturidade, da maturidade até a velhice –, existe uma sequência de mudanças psicológicas, neurológicas e físicas mais ou menos previsíveis para cada fase. Por que será que isso acontece? Pois é, parte dessa resposta está na maturação. Vejamos a seguir na Figura 2 o que nos dizem Coll, Marchesi e Palacios (2004, p. 14): APRENDIZAGEMMATURAÇÃO Figura 2: Relação maturação e aprendizagem. Quando nascemos, nosso cérebro, nosso sistema nervoso e nossos músculos têm certo nível de desenvolvimento, mas se encontram em um estado evolutivo muito incipiente, pois uma das características típicas dos seres humanos é nascer com um alto grau de imaturidade que, de maneira muito lenta e gradual, levará à maturidade. UNIUBE 165 Ou seja, a espécie humana ao nascer ainda não possui maturidade neurológica, psicológica e física que permita sua autonomia como acontece com outras espécies. Daí a razão pela qual uma criança é tão dependente do adulto, precisa sempre de alguém que cuide dela. O mesmo não acontece com os animais, como com os cães, por exemplo. No processo maturacional, cada indivíduo tem sua especificidade,de acordo com suas características genéticas, levando em conta o meio em que está inserido como mobilizador desse processo. Essa especificidade é o que chamamos de padrão de diferenciação quanto à maturação do indivíduo. É o que possibilita as mudanças muitas vezes ordenadas, sequenciais e às vezes previsíveis do desenvolvimento, por isso afirmamos que essa mudança acontece de acordo com suas características genéticas. Já a consideração do meio como mobilizador desse processo diz respeito à aprendizagem do sujeito, ou seja, as relações estabelecidas com os diferentes estímulos do meio fazem com que cada pessoa se aproprie de um conjunto de conhecimentos que, somados às mudanças genéticas previstas para a espécie em cada fase de desenvolvimento, resultam na aprendizagem. Podemos dizer, então, que cada indivíduo se difere do outro em seu processo maturacional, o que caracteriza qualitativamente o processo de desenvolvimento do ser humano. Para exemplificar, apresentamos a seguinte situação: Duas crianças, ambas com 5 ou 6 meses de idade; uma consegue se manter sentada, enquanto que a outra ainda não possui essa capacidade desenvolvida. 166 UNIUBE Como podemos encaixar essa situação dentro do conceito de maturação? Registre a resposta em seu caderno. AGORA É A SUA VEZ Para contribuir com sua resposta, podemos afirmar que provavelmente, além das diferenças hereditárias inerentes a cada indivíduo, as duas crianças foram estimuladas pelo meio de forma diferenciada, cada uma inserida no seu próprio ambiente familiar e social. Assim como acontece com os bebês, também podemos observar casos assim em todas as fases do desenvolvimento humano. Cada indivíduo, nas diferentes fases, tem características no processo maturacional herdadas de seus antepassados e que são desenvolvidas de acordo com o meio sociocultural no qual está inserido. Mas como estamos tratando da compreensão do processo de desenvolvimento humano a partir de certa complexidade, não podemos deixar de mencionar que, entre as diferentes abordagens que tratam do comportamento humano, não existe um consenso sobre a relação maturação e aprendizagem. Apresentamos a seguir uma organização dessas diferentes posições, de acordo com Coutinho e Moreira (2006, p. 46): Maturação como alicerce indispensável e pré -requisito para a aprendizagem. A maturação nessa perspectiva seria determinada pelo código genético. Maturação preparando e tornando possível a aprendizagem, que, por sua vez, estimula e empurra para frente o processo maturacional. A maturação nessa perspectiva seria também influenciada pelos fatores ambientais. UNIUBE 167 Como podemos analisar, na primeira concepção há uma crença de que o fator maturacional é fundamental para que a aprendizagem aconteça. Nesse sentido, encontramos ainda educadores que não abrem mão dessa verdade e que continuam afirmando que é inútil tentar alfabetizar uma criança que não esteja com suas estruturas físicas e mentais devidamente “maduras” para assimilar esse conhecimento. E que os problemas de aprendizagem são, em muito, resultado desse processo considerado antes do tempo maturacional da criança. Por outro lado, na segunda concepção é possível perceber que existe uma preocupação com o fator maturacional, mas não de forma isolada e restrita. Considera -se também que as aprendizagens que acontecem a partir de bases maturacionais impulsionam essa maturação e ampliam as possibilidades para a conquista de outras aprendizagens. Podendo assim, a maturação ser impulsionada por estimulações do meio e da cultura aos quais o indivíduo está vinculado. Dessa forma, não há que se falar em opção entre uma e outra concepção, mas sim de buscar contextualizar esses conhecimentos a cada realidade. A maturação é, sim, um fator muito importante a ser considerado enquanto determinante de certas capacidades fundamentais, atreladas às fases do comportamento que criam condições para o estabelecimento de possibilidades de ação e interação com o meio. Por exemplo, não podemos ignorar que a organização do ensino obrigatório a partir de seis anos leva em consideração que é nessa fase que as crianças encontram -se em condições maturativas que possibilitam as aprendizagens previstas para essa faixa etária. Outra coisa que não podemos desconsiderar é que o fato de existir uma possibilidade maturacional de desenvolvimento prevista para aquela idade não significa que ela ocorrerá de forma igual para todas as crianças, mesmo estando estas inseridas no mesmo ambiente. 168 UNIUBE Vejamos a seguir o que Coll, Marchesi e Palácios (2004, p. 41) nos dizem sobre isso: [...] o que o calendário maturativo faz em relação aos conteúdos psicológicos é colocar -nos sobre “plataformas de lançamento” tipicamente humanas, sem predeterminar qual será a trajetória a partir daí, nem quais serão os conteúdos que preencherão essa trajetória. Isso acontece, por exemplo, com a capacidade para o vínculo emocional e com certo calendário maturativo que regula os inícios desta capacidade; com a capacidade para ser inteligentes e com certo calendário maturativo para o acesso da inteligência prática à do tipo simbólico; com a capacidade para aprender a falar e com certo calendário que determina a sequência de aquisição da linguagem. Naturalmente, as relações emocionais concretas desenvolvidas por uma criança com aqueles que a rodeiam, a inteligência concreta de cada um ou suas capacidades linguísticas pessoais não estão no código genético nem no calendário maturativo, mas nas relações concretas de cada sujeito com seu entorno. Dessa forma podemos concluir que a maturação refere -se ao desenvolvimento do sistema neurológico, às conquistas quanto ao aperfeiçoamento das células que determinam as coordenações mais complexas da atividade mental. E que tudo isso obedece a um calendário ligado ao tempo cronológico do indivíduo, mas não necessariamente determina que cada conquista por ele realizada esteja predeterminada. Há ainda um contexto externo a ser considerado. IMPORTANTE! A forma como o indivíduo se desenvolve, sua evolução maturacional, acompanhada do desenvolvimento emocional e social caracteriza o seu desenvolvimento psicossocial e é fundamental para se definir a qualidade da aprendizagem que se estabelecerá ao longo da sua vida. Contudo é necessário que compreendamos cada ser humano na sua totalidade, nas características inerentes a sua espécie, na sua cultura, no momento histórico em que se encontra, nos traços genéticos que traz consigo e ainda nas relações que ele estabelece com tudo que o envolve. UNIUBE 169 Contudo é necessário que compreendamos cada ser humano na sua totalidade, nas características inerentes a sua espécie, na sua cultura, no momento histórico em que se encontra, nos traços genéticos que traz consigo e ainda nas relações que ele estabelece com tudo que o envolve. Em suma, podemos afirmar que o desenvolvimento psicológico de um indivíduo está repleto de influências que resultam dos diferentes aspectos que o envolvem. Veja a seguir, na Figura 3, uma demonstração sintética dessas múltiplas influências que incidem sobre o desenvolvimento humano, com base nos estudos de Coll, Marchesi e Palácios. Figura 3: O desenvolvimento psicológico como resultado de múltiplas influências. 5.6 As fases do desenvolvimento infantil sob a visão de alguns teóricos Como dissemos anteriormente, as pesquisas e estudos em torno do desenvolvimento psicológico do homem não são de agora. Há um consenso no que diz respeito à divisão desse desenvolvimento em Características da espécie DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO Traços e características do indivíduoCaracterísticas da cultura Características do momento histórico Características do grupo social 170 UNIUBE fases para facilitar a sua compreensão, entendendo que essas fases compreendem certos períodos da existência humana e não exatamente a idade cronológicado sujeito. Faremos agora uma apresentação das variadas formas do pensar e de organizar o desenvolvimento infantil em diferentes tempos históricos. Com base nos estudos de Coutinho e Moreira (2006, p. 46 -47), os estudos mais remotos que temos sobre isso são os de Sólon (594 a.C.), conforme apresentamos a seguir: Sólon Governador de Atenas, nascido nessa cidade, histórico como legislador e como fundador da democracia e considerado um dos sete sábios da Grécia. Viveu entre 650 e 570 a.C. Já Freud (1856 -1939) descreveu o desenvolvimento psicossexual do indivíduo em fases, como mostra a Figura 5. Gesell Pesquisador norte -americano que viveu entre 1880 e 1961. Principal expoente das teorias do desenvolvimento que dão maior ênfase ao papel da maturação, defendia a prioridade dos fatores maturacionais sobre os fatores de aprendizagem. É considerado o primeiro psicólogo escolar norte- -americano. 1o período – do nascimento até a queda da 1a dentição. 2o período – do final do 1o período até a puberdade. 3o período – do período anterior até o aparecimento de barba. 4o período – do período anterior até o término do crescimento dos membros. 5o período – do período anterior até o amadurecimento sexual. 6o período – fase em que o espírito se volta para as coisas da vida prática. 7o período – o homem se torna contemplativo, es- perando a morte. 1a fase – Oral – 1 a 1 e ½ ano 2a fase – Anal – 1 a 3 anos 3a fase – Fálica – 3 a 7 anos 4a fase – Latência – 7 a 12 anos 5a fase – Genital – a partir de 12 anos Figura 5: Fases do desenvolvimento, de acordo com Freud. UNIUBE 171 Figura 6: Fases do desenvolvimento, de acordo com Gesell. 3o estágio: a partir de 12 anos-inteligência operatório-formal 2o estágio: 2 a 11 anos-inteligência operatório-concreta1o estágio: 0 a 2 anos-inteligência sensório-motora Figura 7: Os estágios do desenvolvimento, de acordo com Piaget. 1o Embrião (0 a 8 semanas) 2o Feto (8 a 10 semanas) 6o Adolescência (12 a 20/24 anos) 5o Meninice (de 5 a 12 anos) 4o Idade pré-escolar (de 2 a 5 anos) 7o Adulto 3o Infância (do nascimento aos 2 anos) Na década de 1960, tivemos a importante contribuição do americano A. Gesell (1890 -1961), que a partir de observações do comportamento evolutivo criou a classificação mostrada na Figura 6. A partir de pesquisas sobre as estruturas cognitivas, Piaget (1896- 1980) apresentou seus estudos na forma dos estágios apresentados na Figura 7. 172 UNIUBE Após analisar os estudos acima, é possível concluir que, embora haja um consenso entre as diversas abordagens no sentido de compreenderem o desenvolvimento psicológico do indivíduo em fases, existem diferentes formas de exposição delas. Além disso, é necessário compreender que o desenvolvimento do indivíduo acontece de forma global. Ou seja, quando se afirma que o desenvolvimento psicológico acontece por fases, não se pretende dizer com isso que ele se dá de maneira estanque, isolada e igual para todas as pessoas. A divisão em fases, considerando os diferentes aspectos do indivíduo, tais como o aspecto motor, social, psicossexual, emocional e intelectual nos ajuda a entender o todo. Sendo assim, é importante nos posicionarmos sobre outra questão fundamental para a compreensão dessas fases, que é o crescimento. Ou seja, se as diferentes fases de desenvolvimento estão de certa forma relacionadas à idade cronológica do indivíduo, há que se pensar sobre esse aspecto. O crescimento5.7 Em relação ao crescimento, devemos nos lembrar que o ser humano em sua complexidade não apenas se desenvolve psicológica e neurologicamente sobre influências do meio e de outros fatores externos, mas também acompanha certo calendário maturativo que, de certa forma, determina o seu crescimento físico, conforme nos referimos anteriormente. Dessa forma, o crescimento físico do indivíduo segue uma ordem cronológica com a previsão de certas atitudes mais ou menos predeterminadas pelos fatores biológicos. Coll, Marchesi e Palácios (2004, p. 55) nos dizem que: UNIUBE 173 Desde o próprio momento da concepção, e como ocorre com o de qualquer outro ser vivo, o organismo humano tem uma “lógica biológica”, uma organização e um calendário maturativo. Já que, por outro lado, nosso organismo biológico é a infraestrutura em que se assentam nossos processos psíquicos, a psicologia evolutiva não pode prescindir da consideração do desenvolvimento físico, pois tal desenvolvimento abre, constantemente, possibilidades evolutivas e impõe limitações à mudança possível em cada momento. Sendo assim, vamos tentar acompanhar esse crescimento contínuo e sequencial e as transformações possíveis de se perceber no desenvolvimento do indivíduo a partir de alguns fatores biológicos e maturacionais. Você já dever ter observado que, desde o momento da geração, o bebê possui um tamanho de cabeça muito desproporcional ao seu corpo. Vejamos a Figura 8 a seguir. Figura 8: O bebê no útero. Fonte: Acervo EAD-Uniube. 174 UNIUBE 5.7.1 As direções do desenvolvimento físico -motor O desenvolvimento físico -motor segue duas direções: O desenvolvimento céfalo -caudal e o desenvolvimento próximo-distal. O desenvolvimento céfalo -caudal representa a sequência no crescimento dos membros do indivíduo que acontece primeiramente nos órgãos próximos ao cérebro e, posteriormente, se estende por todo o corpo, até que se atinja um grau de proporcionalidade no tamanho com relação ao restante do corpo. O mesmo se dá com relação aos movimentos motores da criança, ou seja, com quatro semanas de vida, o bebê é capaz de movimentar os olhos para, só depois, conseguir movimentar toda a cabeça. Antes que a criança consiga movimentar o tronco e sentar -se sozinha ela já é capaz de pegar pequenos objetos e segurar com as mãos. O momento de marcha que permite que ela fique de pé e ande só é possível após 52 semanas de vida. Já o surgimento do movimento de dentro para fora, podemos chamar de desenvolvimento próximo ‑distal. Significa, assim, que os órgãos centrais do corpo amadurecem primeiro. Esse momento é possível de se observar com crianças de três anos, por exemplo, quando realizam atividades de desenho. Enquanto ela desenha, possivelmente movimentará não somente os dedos e as mãos como se espera, mas fará também um esforço com o tronco e ombros. Não resta dúvida de que o crescimento físico não acontece ao acaso e que, ao contrário, é altamente organizado. Nesse sentido, o desenvolvimento dos movimentos da criança acontece ainda das atividades gerais para as específicas. Por essa razão, a criança, em seus primeiros meses de vida, costuma responder aos estímulos com todo o corpo. À medida que acontece a maturação de sua organização nervosa, ela se torna capaz de responder de forma específica às estimulações. UNIUBE 175 5.7.2 As diferentes velocidades do desenvolvimento Importa -nos dizer ainda que, além de apresentar uma continuidade no crescimento, não existem saltos que permitam que uma criança possa passar de uma fase a outra repentinamente. Todo esse processo de crescimento é permeado por uma série sucessiva de reestruturações físicas, psicológicas e neurológicas que obedecem a um calendário maturativo. É lógico que precisamos considerar os fatores externos como as estimulações do meio, a alimentação saudável e ainda a cultura em que está inserido esse sujeito. Por isso a puberdade e a velhice, por exemplo, não acontecem de repente, elas vêm antecedidas de um processo. Destacamos ainda que há uma aceleração maior dos níveis de crescimento quanto mais próxima a criança está do princípio desse processo. O que significa dizer que a criança cresce mais rápido quando está em desenvolvimento na vida uterina e nos primeiros anos do que nos demais que se seguem. Sobre esse assunto Coutinho e Moreira (2006, p. 2) nos explicam que: Logo após o nascimento até aproximadamenteos dois anos de idade, vemos que a cabeça cresce muito, depois seu ritmo diminui. O tronco cresce significativamente até o primeiro ano de vida; as pernas e braços, por volta dos dois anos, iniciam um crescimento acelerado, conservando essa aceleração até a adolescência. Em se tratando de características comportamentais, a mesma descontinuidade se faz presente. Na Figura 9 observe como acontece o crescimento do indivíduo em diferentes momentos, ou seja, desde o feto até a fase adulta. 176 UNIUBE Figura 9: Saúde da criança – acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Fonte: Brasil, Ministério da Saúde (2002). Bem, a partir daqui é necessário voltarmos ao que afirmamos anteriormente, ou seja, existe uma concordância entre os diferentes estudiosos sobre a compreensão do desenvolvimento do indivíduo em forma de fases. Ainda concordam que há uma influência do meio, dos fatores hereditários e maturacionais sobre o desenvolvimento e as aprendizagens da criança. Porém, a grande dificuldade consiste na explicação de cada um sobre a influência desses aspectos para o desenvolvimento e a aprendizagem do indivíduo. SINTETIZANDO... Nesse sentido, lembramos que, ao dizer que existem diferentes formas de abordar o processo de desenvolvimento e aprendizagem do indivíduo, não significa que umas estejam certas e outras erradas. Apenas indicam que existem referenciais teóricos diferentes que fazem uma análise a partir de sua concepção. Como pedagogos, é importante que tenhamos clareza de que as diferentes fases do desenvolvimento existem como elemento facilitador da compreensão sobre a forma de aprendizagem da criança. Não há que se falar em estágios ou fases como estereótipos que sejam determinantes de diferentes aprendizagens. Ou seja, essa divisão não acontece de 2 meses fetal 5 meses fetal Recém-nascido 2 anos 6 anos 12 anos 25 anos UNIUBE 177 maneira estanque e fechada, pois a criança se desenvolve globalmente, em seu todo: no seu aspecto físico, psicológico, cognitivo, psicossocial e psicossexual; e para isso vivencia uma série de mudanças internas e externas. Importa ainda a clareza sobre os conceitos de crescimento, maturação e desenvolvimento. Quando falamos em crescimento, estamos nos referindo ao aumento do tamanho corporal da criança, da sua altura e peso, que pode ser aferido em centímetros e volume. Ao falar em maturação, estamos tratando do seu processo de crescimento no sentido neurológico, do desenvolvimento das células que determinam o aperfeiçoamento do sistema nervoso que se responsabiliza pelas coordenações mentais mais complexas. Já o desenvolvimento diz respeito à transformação complexa do indivíduo; ela inclui o crescimento, a maturação, os aspectos psíquicos, sociais e as diferentes aprendizagens construídas durante toda a vida do indivíduo. Ou seja, ela é contínua, progressiva e ininterrupta. Devemos considerar ainda que, dentro do que compreendemos sobre o desenvolvimento, ainda devemos considerar o aspecto psicossocial. É a partir dele que a criança interage com o outro social com o qual convive e com o meio, tornando -se um ser ativo e transformador. PONTO-CHAVE O professor, enquanto elemento mediador das aprendizagens, deve ter conhecimento e estar atento a todos estes aspectos para contribuir significativamente com o desenvolvimento e a aprendizagem do aluno. 178 UNIUBE Além de ter conhecimento sobre a criança, existem ainda outros saberes que permeiam a prática docente e que são muito importantes. Nesse sentido, veremos a seguir um pouco sobre a escola, o professor e o desenvolvimento global da criança. O desenvolvimento global da criança: a escola e o professor5.8 Como foi dito no início, conhecer a criança é um dos caminhos mais importantes para contribuir com o seu desenvolvimento enquanto educador. Mas não basta conhecê -la, é preciso conhecer também o ambiente educativo do qual ela é o centro, ou seja, a escola Para que serve a escola? Que sentido ela tem para a criança em suas diferentes etapas do desenvolvimento? Pois é, esse espaço pode ter sentidos e significados diferentes. Pensemos sobre esses sentidos e significados a partir da realidade de cada um de vocês. Você se lembra de como era a sua primeira escola? E a professora? Você se lembra dela? É importante que você volte ao seu passado responda a essas questões. Comente com seus colegas de turma e tente perceber se há diferenças consideráveis nas respostas apresentadas por eles e por você. Registre as respostas em seu caderno. AGORA É A SUA VEZ UNIUBE 179 Com certeza você irá perceber que tanto você como cada um de seus colegas leva consigo mais do que gostaria de levar sobre a sua primeira professora. Sobre a organização da sua sala de aula na infância. É natural que isso aconteça, pois é na escola que a criança vivencia grande parte dos momentos mais significativos do seu desenvolvimento, que ela começa a construir a sua identidade. Nesse complexo ambiente é que a criança vai se revelando para o professor e exigindo que ele tenha o conhecimento necessário para intervir no momento certo, com o conteúdo e a metodologia adequados ao seu momento de desenvolvimento. Cada passo dado nesse espaço é igualmente constituidor de aprendizagens, desde a organização do espaço da sala de aula, do planejamento da aula à avaliação da aprendizagem, há uma intenção educativa e uma aprendizagem se desenvolvendo. E o professor? Quem é esse sujeito? Converse com seus colegas sobre isso. Troque ideias! TROCANDO IDEIAS! Com certeza, ao trocar ideias com seus colegas, vocês chegaram a várias conclusões. Porém, antes de emitir um conceito que possa definir quem realmente é esse sujeito ao qual chamamos de professor, é bom refletir sobre as diferentes concepções pelas quais já passamos sobre esse polêmico assunto. Nesse sentido, é importante voltarmos um pouco no passado, na história da profissão de professor. Você deve ter notícias de que o professor, em um determinado período, era muito mais respeitado. 180 UNIUBE Na verdade, no início da profissão de professor, atribuía ‑se a ele a função de transmitir o conhecimento socialmente construído e com isso acreditava -se que ele contribuía para a manutenção e o desenvolvimento da sociedade. A partir dessa realidade, ele era, de fato, detentor de um espaço tão respeitado quanto o destinado aos médicos, por exemplo. Por outro lado, a função da escola sempre foi meio compreendida como uma extensão da casa, e o professor como alguém que substituía a família, principalmente a mãe. Sendo assim, durante muito tempo o curso destinado à formação de professores era o curso Normal, de curta duração, como se fosse complemento ao primeiro grau e a maioria dos professores das séries iniciais eram mulheres. Nas entrelinhas, entendia -se que pouco se precisava acrescentar aos seus conhecimentos elementares, pois as mulheres já possuíam uma “vocação maternal” que era suficiente para o exercício da profissão. Com isso, até por volta da década de 1960, o maior desejo dos pais era de que suas filhas fizessem o curso Normal e se tornassem professoras. Com isso, elas teriam um diploma, poderiam se casar e ter uma profissão que pudesse ser conciliada com os afazeres domésticos. Resumindo, fazer o curso para professora era uma boa maneira de esperar um casamento. Com o passar do tempo, esse quadro foi se modificando e a forma de encarar a profissão de professor também sofreu muitas alterações. Em que pese as diferentes concepções em torno do papel do professor nos diferentes momentos históricos, é importante considerar que o respeito profissional e o reconhecimento social do professor passam por um momento de crise. Para superar essa fase é inevitável reconhecer a importância do processo de formação que de fato contribua para a ressignificação do fazer pedagógico. UNIUBE 181 Hoje, não resta dúvida de que o papel do professor éum dos pontos mais importantes do processo escolar. Onde não se consegue estimular o professor na busca pela sua formação aprofundada e constante dificilmente teremos um ambiente estimulador ao desenvolvimento e à aprendizagem do aluno. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, em seu Art. 62, regulamentou essa realidade dizendo que: Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far -se -á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. Com isso, voltamos à nossa reflexão para a importância de trabalhar não só a graduação como condição inicial do ofício de professor, conforme preconiza a LDB, mas, além disso, promover uma formação continuada que seja capaz de partir da sua realidade concreta, do chão da sala de aula, e de encontrar novos sentidos ao exercício docente e às diferentes formas de fazer a sua prática pedagógica. Na Revista Criança n. 39, 2005, p. 5, a professora Miranda nos apresenta a seguinte indagação: “Como um professor que não se torna leitor pode ser capaz de fazer com que a criança produza a sua palavra, tenha gosto pela leitura e vontade de escrever?”. O despertar do professor para o gosto pela leitura, pela arte, pelas diferentes expressões da cultura são caminhos fundamentais para sua constituição enquanto sujeito que está a serviço do ato educativo. Sua intenção pedagógica por si só não basta, é preciso alimentar o seu interesse pela pesquisa, pelas novas tecnologias e consequentemente pelas novas formas de ensinar e de aprender. 182 UNIUBE O nosso aluno parece ser o mesmo de todos os tempos, ou seja, a criança. A escola parece ser a mesma de todos os tempos. O que mudou na verdade é o contexto sociocultural da criança e da escola fazendo com que o professor precise saber cada vez mais sobre os conceitos fundamentais dessa nova sociedade e sobre a própria natureza da criança para poder contribuir efetivamente com o seu desenvolvimento. É necessário compreender as necessidades da criança e intervir a partir do seu universo. Com isso, mais uma vez surge a necessidade de que o professor conheça a criança, saiba entender o que ela é e o que ela consegue fazer; e a partir daí realizar suas intervenções pedagógicas. Se você se interessar por esse assunto e quiser saber mais, acesse <http:// portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/rev_crian_39.pdf> e confira o texto “Criança e educação: uma trajetória cultural e institucional”, da professora Fátima Camargo. PESQUISANDO NA WEB No site recomendado acima, você poderá completar seus estudos e conhecer um pouco mais sobre o universo da criança e a relação estreita que deverá ser estabelecida entre o professor e ela, com vistas ao seu desenvolvimento. 5.8.1 O desenvolvimento global da criança Como já vimos anteriormente, a criança, ao nascer, ao contrário de outras espécies, é completamente dependente do adulto para sobreviver. Sua dependência vai além da dependência física que exige cuidados, alimentação e proteção. Ela precisa sentir no outro, no caso a mãe ou a pessoa mais próxima a ela, que sua existência é importante para que possa desenvolver -se de forma saudável. UNIUBE 183 O que se tem atualmente é a chegada dessa criança cada vez mais cedo às escolas. E você, pedagogo, precisa estar cada vez mais atento àquilo que se entende por necessidades da criança a partir da sua realidade. Nesse sentido, vejamos o que os Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil nos dizem: Muitas vezes vista apenas como um ser que ainda não é adulto, ou é um adulto em miniatura, a criança é um ser humano único, completo e, ao mesmo tempo, em crescimento e em desenvolvimento. É um ser humano completo porque tem características necessárias para ser considerado como tal: constituição física, formas de agir, pensar e sentir. É um ser em crescimento porque seu corpo está continuamente aumentando em peso e altura. É um ser em desenvolvimento porque essas características estão em permanente transformação. As mudanças que vão acontecendo são qualitativas e quantitativas – o recém -nascido é diferente do bebê que engatinha, que é diferente daquele que já anda, já fala, já tirou as fraldas. O crescimento e o desenvolvimento da criança pequena ocorrem tanto no plano físico quanto no psicológico, pois um depende do outro. O comentário acima clareia em muito de qual criança estamos falando, de como ela cresce e se desenvolve e como devemos nos posicionar sobre a prática pedagógica que contribua realmente com o seu desenvolvimento. E é para ela que estabelece um trabalho pautado no cuidar e no educar com qualidade. Dessa forma, reconhece-se que, apesar de ser totalmente dependente do adulto, a criança é um ser único, individual, cidadão de direitos, produto e produtor de uma cultura, é um sujeito histórico que faz parte da natureza e precisa se desenvolver como um todo. Lembramos ainda que, ao reconhecer a educação infantil como parte da educação básica, a LDB definiu qual deveria ser a sua finalidade: promover o “desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade”. (BRASIL, 1996). 184 UNIUBE Espera -se que sejam dispensados a ela cuidados no sentido de assegurar -lhe atenção em suas necessidades físicas e psicológicas, o auxílio nas atividades que ainda não consiga realizar sozinha e toda a atenção por parte do adulto em seus momentos peculiares de infância. A partir disso, é necessário pensar uma proposta pedagógica que contemple ações capazes de propiciar à criança condições de usufruir de suas possibilidades de apropriação e produção de significados do mundo que a cerca, ou seja, de desenvolver -se. Esse mesmo referencial sugere que a criança seja apoiada em suas iniciativas próprias e a ela seja oportunizado: Brincar; movimentar -se em espaços amplos e ao ar livre; expressar sentimentos e pensamentos; desenvolver a imaginação, a curiosidade e a capacidade de expressão; ampliar permanentemente conhecimentos a respeito do mundo da natureza e da cultura apoiadas por estratégias pedagógicas apropriadas; diversificar atividades, escolhas e companheiros de interação em creches, pré -escolas e centros de educação infantil. (BRASIL, 2006, p. 19) A partir do que está posto, encontramos as possibilidades de atuação pedagógica que sejam capazes de assegurar o desenvolvimento global da criança. É exatamente esse conhecimento que direciona e dá condição para que o professor possa intervir no desenvolvimento da criança e potencializá ‑lo com uma prática docente crítica, reflexiva, criativa e contextualizada. Interessou -se pelo assunto? Então visite o site da Revista Nova Escola e assista ao vídeo “Ateliês de entrada”. Disponível em: <http://revistaescola. abril.com.br/educacao -infantil/4 -a -6 -anos/atelies -entrada -431336.shtml>. Acesso em: 4 maio 2010. PESQUISANDO NA WEB UNIUBE 185 Após ver o vídeo sugerido, você perceberá que existe um contexto que está posto na legislação, mas que é necessário somar a ele um exercício diário no sentido de repensar as práticas exercidas no interior de nossas escolas. Construir uma proposta pedagógica para a educação infantil implica a opção por uma organização curricular que seja capaz de mediar a realidade vivenciada pelo aluno com as concepções e valores presentes na realidade social dela. Ou seja, representa considerar a criança e, a partir de suas necessidades, concretizar uma proposta direcionada a ela, dedicando -se realmente ao exercício de contribuir efetivamente para o seu desenvolvimento global. É necessário para isso ouvir os profissionais envolvidos e saber quaisas concepções que eles possuem sobre a educação infantil. Assim, é possível evitar as contradições oriundas de influências sofridas por eles ao longo de sua ação docente ou mesmo de sua formação. Com isso, será mais fácil contar com o envolvimento de todos no processo. Em visita ao Rio de Janeiro, o professor da Universidade de Sevilha, Espanha, Jesús Palácios, concedeu uma entrevista à professora Vera M. R. de Vasconcellos, da Revista Criança, falando sobre a importância da educação infantil e, consequentemente, do papel do professor para a sua garantia. Destacamos o trecho a seguir para ilustrar nossa conversa. Como o senhor nos definiria a educação infantil a partir do ponto de vista pedagógico? Como um processo educativo que atua em uma etapa transcendental no desenvolvimento psicológico e formativo. Como um contexto para o estímulo do desenvolvimento a partir de uma visão o mais global possível, sem a fragmentação em direção ao cognitivo, AMPLIANDO O CONHECIMENTO 186 UNIUBE que é quase inevitável na escola primária. Como um espaço privilegiado para a compensação das limitações ligadas à origem sociocultural. Como uma oportunidade para envolver as famílias, especialmente aquelas mais distanciadas da cultura escolar. Portanto, como um compromisso da sociedade com o desenvolvimento das crianças e como uma esperança no futuro. Fonte: Revista Criança, n. 40, 2005, p. 5. Como se pode perceber, há de se ter uma responsabilidade pedagógica com a construção de uma proposta construída nessa perspectiva, que aponte para o respeito da criança em sua natureza. Para a possibilidade de mostrar a elas uma escola sem muros e que reconheça o que as famílias dessas crianças sabem e esperam da escola. Com isso será possível contribuir de forma responsável com o seu desenvolvimento integral. Aliás, é o que se espera de um professor. Você estudou que a criança, ao brincar, estabelece uma relação entre os objetos do mundo que a cerca e o seu universo subjetivo. Com isso, transforma um papel em brinquedo e atribui diferentes sentidos e significados a esses objetos. Se quiser saber mais sobre isso, sugerimos que confira no site: <http://revistaescola.abril.com.br/crianca ‑e ‑adolescente/ desenvolvimento -e -aprendizagem/pensamento -infantil -fenomenos- -naturais -474923.shtml>. Acesso em: 4 maio 2010. PESQUISANDO NA WEB Assim, ficou fácil de perceber que a criança tem uma forma especial de entender e explicar o mundo a sua volta e que isso não está restrito somente ao brincar, mas inclui todas as aprendizagens a ela propostas. UNIUBE 187 Conclusão5.9 Acho que podemos parar por aqui. Não que já tenhamos chegado a um final, pois você continuará estudando sobre esse assunto em vários momentos do curso, só que de outras formas, sob outras visões. Nossa proposta inicial era percorrer um caminho, nos diferentes conhecimentos construídos cientificamente, que permitisse a você compreender o desenvolvimento humano a partir de sua complexidade. Entender que o indivíduo se desenvolve como um todo, e que, mesmo sendo alguém que cresce obedecendo a um certo calendário maturativo e se desenvolve a partir de fases evolutivas, tudo isso pertence a um processo que leva o sujeito ao desenvolvimento global. Foi possível conhecer um pouco sobre as fases do desenvolvimento humano, principalmente no que diz respeito à vida infantil. Resumo Descobrimos que a criança tem um modo todo especial de compreender o mundo, de dar significados a ele, de explicá ‑lo. E que, a partir disso, ela contribui significativamente para o seu próprio desenvolvimento, tornando -se parte importante do mundo que a cerca e produtora de cultura. Descortinamos alguns mitos e conhecemos os conceitos de “maturação”, “crescimento” e “desenvolvimento”. Descobrimos que são coisas distintas e interligadas, e que às vezes possuem aspectos tão imbricados um no outro que produzem confusão nos seus conceitos. Ressiginificamos assim nossas formas de pensar, ou seja, “o filho de peixe nem sempre peixinho é”. As crianças não necessariamente conseguem realizar as mesmas coisas, embora estejam na mesma idade cronológica, por isso não aprendem tudo que se ensina a elas ao mesmo tempo. 188 UNIUBE E, finalmente, apontamos caminhos para que você construa seu perfil de pedagogo e saiba atuar como mediador das aprendizagens a serem construídas pelas crianças em todas as ocasiões que se apresentem. Com isso, esperamos que se constitua realmente como um profissional capaz de contribuir para desenvolvimento global da criança. Há muito mais para se aprender sobre a criança e seu desenvolvimento, por isso, a partir de agora, convidamos você para mergulhar nas leituras sugeridas e nas atividades propostas a seguir. Desejamos a você um ótimo aproveitamento dos seus estudos! Leituras Caso você queira saber mais sobre esse tema, sugerimos a seguinte leitura: FONTANA, Roseli; CRUZ, Maria Nazaré da. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997. Referências BRASIL. Ministério da Educação Básica. Secretaria de Educação. Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil. 2006. Disponível em: <http://portal. mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfparqualvol1.pdf>. Acesso em: 13 maio 2010. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil/Brasília: Ministério da Saúde, 2002. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lex: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/ arquivo/pdf/ldb.pdf>. Acesso em: 7 maio de 2010. UNIUBE 189 CAMPOS, Dinah Martins de Souza. Psicologia e desenvolvimento humano. Petrópolis: Vozes, 1997. COLL, César; MARCHESI, Álvaro; PALÁCIOS, Jesús (Orgs.). Desenvolvimento psicológico e educação. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2004. 3 v. COUTINHO, Maria Tereza da Cunha; MOREIRA, Mércia. Psicologia da educação: um estudo dos processos psicológicos de desenvolvimento e aprendizagem, voltado para a educação. Ênfase nas abordagens interacionistas do psiquismo humano. 10. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Formato, 2006. FONTANA, Roseli; CRUZ, Maria Nazaré da. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997. FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO. Professor da pré -escola. 2. ed. São Paulo: Globo, 1992. HANDAM, Amer Cavalheiro. Introdução à psicologia do desenvolvimento. Campo Grande: Solivros, 1998. OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2002. VASCONCELLOS, Vera M. R. A educação infantil como esperança no futuro. Revista Criança, n. 40, p. 5. 2005. Suemi Hamada Morais Silva Introdução Teoria psicossexual de Freud e a educação Capítulo 6 Caro aluno(a), trago até você, neste capítulo, os estudos sobre a Teoria Psicossexual de Freud, também conhecida como Teoria Freudiana ou Teoria Psicanalítica de Freud. Inicio apresentando -lhe a primeira teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico, na qual Freud procurou compreender a estrutura e o funcionamento da personalidade, por meio do estudo dos três sistemas ou instâncias psíquicas: o consciente, o pré -consciente e o inconsciente. Em seguida, estudaremos a segunda teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico, denominada também de Psicanálise, na qual Freud propõe como método clínico três técnicas denominadas, Associação Livre, Análise ou Interpretação dos Sonhos e Análise dos Atos Falhos. Para Freud, os cinco primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da personalidade, que se dá pelas fases oral, anal, fálica, de latência e genital. Veremos também como burlamos a realidade diante de situações desprazerosas ou que nos causam constrangimentos, 192 UNIUBE “deformando a realidade”, utilizando para tanto, os mecanismos de defesa. E, por fim, veremos quais as contribuições da Psicanálise para a Educação. Convido -o entãopara iniciarmos os nossos estudos. Veja logo abaixo os objetivos deste capítulo. E, em seguida, inicie a sua viagem nesse tema interessantíssimo que é a Psicanálise! Após o estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • construir os conceitos psicanalíticos; • identificar nos ambientes de aprendizagem os conceitos psicanalíticos; • aplicar os conceitos psicanalíticos nos ambientes de aprendizagem; • criar possibilidades de intervenção pedagógica de acordo com os conceitos psicanalíticos; • associar as etapas do desenvolvimento humano e a aprendizagem com os conceitos psicanalíticos; • relacionar a função do professor/educador com os fundamentos psicanalíticos. 6.1 Iniciando nossa conversa 6.2 Mas quem foi Freud? 6.3 Teoria Psicossexual de Sigmund Freud – Fases do desenvolvimento 6.4 Em que a Psicanálise contribui com a Educação? 6.5 Conclusão Objetivos Esquema UNIUBE 193 Iniciando nossa conversa6.1 Você já deve ter escutado falar sobre Freud, mesmo que seja em tons de brincadeira, não é mesmo? Já ouviu alguém diante de situações de conflitos ou de situações com difícil solução utilizar o seguinte jargão: nem Freud explica? Lembrou ‑se de algumas situações? Penso que você também já deve ter assistido, em filmes ou na vida real, a situações em que pessoas procuraram um psicanalista. Possivelmente, na cena do filme, esse profissional recebeu a pessoa com um “certo ar de mistério”, e a encaminhou para uma sala pouco iluminada, na qual existe um enorme divã. Certamente, na cena, o paciente foi convidado a se deitar no divã, sentindo -se constrangido por isso e também por saber que seria analisado pelo psicanalista! Bem, se você já tiver essas e muitas outras informações sobre os psicanalistas e sobre a psicanálise, peço -lhe que, no momento, guarde- as. Vamos ter a oportunidade de conhecer um pouco mais os estudos freudianos. Tenho certeza que muitos dos mitos que você já conhece por aí, cairão por terra! Não há como compreendermos Freud e sua Teoria Psicossexual sem falarmos do desenvolvimento humano e seu processo de aprendizagem. Desenvolver é crescer, amadurecer, tornar -se cada vez mais independente, é aprender coisas novas a cada dia. Assim pensando, Divã É um sofá sem encosto em que os pacientes se deitam para que os psicanalistas desenvolvam suas atividades. Mito História que tem como base tradições e lendas, elaborada para explicar coisas como o universo e a criação do mundo, entre outras, que explicações simples não conseguem explicar. 194 UNIUBE podemos afirmar que desenvolver e aprender, ou vice ‑versa, são compreendidos por vários estudiosos como sendo processos longos, graduais, contínuos, pessoais, que caracterizam o ser humano, nos quais cada pessoa tem o seu ritmo, o seu jeito de dar significados as suas diversas experiências. Em relação à Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, para melhor compreendê -las, temos que estudá -las sob as seguintes perspectivas: • a primeira defende o desenvolvimento como reação ou consequência da predisposição genética (sistema pronto); • a segunda ressalta o processo de condicionamento ou processo de aprendizagem social (influência do ambiente externo); • a terceira perspectiva realça a semelhança dos comportamentos dos sujeitos em relação à mesma idade (faixa etária). A partir desses estudos, foram identificados os estágios ou etapas que se diferenciam pelo comportamento cognitivo, afetivo, social, entre outros. Assim, sob as três perspectivas dos estudos do desenvolvimento e da aprendizagem, é nesta última que Freud é reconhecido: como sendo o primeiro teórico a introduzir o conceito de estágios na literatura psicológica. Mas quem foi Freud?6.2 Sigmund Freud nasceu em Freiberg, na cidade de Morávia, na então Áustria, no ano de 1856. Era descendente de família judia. Formou -se em medicina, em 1881, na Universidade de Viena. Especializou -se em psiquiatria. Trabalhou em um laboratório de Fisiologia, ministrou aulas de Neuropatologia (BOCK, 2002). UNIUBE 195 Por necessidades financeiras, Freud começou a clinicar cedo; atendia pessoas que na época eram identificadas como portadoras de “doenças nervosas”. Ao final de sua residência médica, por mérito, recebeu uma bolsa de estudos em Paris. Em Paris, Freud estudou Neurologia e trabalhou com Dr. J. Charcot, psiquiatra francês que tratava das histerias com a técnica da hipnose, do qual recebeu muitas influências em sua formação. Freud retornou a Viena, em 1886, voltou a clinicar e utilizava a hipnose no atendimento clínico, para a eliminação dos sintomas das “doenças nervosas”. Conheceu o Dr. Josef Breuer, médico e pesquisador que tratava das doenças mentais com o método hipnótico. Para Freud, foi muito importante esse contato com Breuer. Teve a oportunidade de acompanhar o caso de Ana O., uma paciente de muitos anos de atendimento do Dr. Breuer, que muito contribuiu para os estudos de Freud sobre histeria, identificada até então, como dissemos acima, como “doença nervosa” (BOCK, 2002). Nessa época, Breuer utilizava o método catártico, ou seja, um método que permite ao paciente a liberação dos afetos e emoções que estão diretamente ligados aos acontecimentos traumáticos. Utiliza, para tanto, a verbalização, ou a “fala”, das coisas que não puderam ser expressas na ocasião da vivência desagradável ou dolorosa Hipnose É um estado psicológico especial induzido por meio de um pêndulo, do movimento do dedo ou da voz. Ela vem sendo cada vez mais utilizada como instrumento no tratamento de diferentes diagnósticos. É muito usada hoje para combater fobias, depressão, diminuir sofrimentos de pacientes terminais, problemas de amnésia, correção de vícios, preparação mental para os vestibulandos, tratamento de obesidade, práticas esportivas (ajudar jogadores a terem práticas positivas nos esportes, ou seja, não praticar coisas antidesportivas como violência, xingamentos etc.), procedimentos cirúrgicos, insônia, envolvimentos pessoais e várias outras utilizações. Fonte: Wikipédia 196 UNIUBE (BOCK, 2002, p. 72). A hipnose libera os afetos que foram remidos e então o sujeito consegue eliminar os sintomas até então apresentados. Freud inicialmente utilizava o método de hipnose de Breuer, porém ao longo de sua prática médica foi fazendo modificações, abandonando ‑a por perceber que nem todos os pacientes se sujeitavam a essa prática (BOCK, 2002). Desenvolveu a partir daí uma técnica, na qual a busca das lembranças era estimulada por meio da “conversação” normal. O sujeito em tratamento tinha a possibilidade de falar livremente sobre aquilo que porventura se lembrava, sem o limite do tempo cronológico. Poderia caminhar livremente pelas lembranças atuais e pelas lembranças do passado e ir até as expectativas do futuro. Passou estimular a fala “livre” do paciente e a confiar nessa fala “desordenada”, desorganizada, como instrumento de coleta de dados sobre os sintomas manifestos. Em 1900, Freud apresentou a primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento da personalidade, editada no livro A interpretação dos sonhos. Remidos Liberados, desobrigados. Caso queira conhecer um pouco mais sobre a vida de Freud, assista ao filme Freud além da alma, direção John Huston, EUA, 1962. Esse filme é muito interessante porque mostra os primeiros trabalhos de Freud em Viena, em relação à psicanálise. CURIOSIDADE Segundo Bock (2002), essa teoria referiu -se a três sistemas ou instâncias psíquicas, como mostra o esquema da Figura 1. UNIUBE 197 Inconsciente – compõe -se de conteúdos reprimidos, logo, diante da ação da censura não conseguem ter acesso ao pré -consciente e, tão pouco ao consciente. O seu funcionamento caracteriza -se por ter regras próprias e por ser atemporal. Os conteúdos instalados nessa instância já podem ter sido conscientes, porém, por alguma razão foram censuradose “enclausurados” no inconsciente. Por exemplo, são sentimentos que se manifestam por meio dos comportamentos, que não conseguimos explicar. Pré -consciente – nele se instalam os conteúdos que têm uma facilidade de passar e se instalar no consciente, ou seja, em um momento se instalam no pré -consciente, já no próximo poderão estar no consciente. É caracterizado por uma troca dinâmica e rápida, de uma instância a outra. Exemplificamos os comportamentos pré ‑conscientes, como sendo aqueles que nos trazem certos constrangimentos e ansiedade, mas que, ora sim, ora não, conseguimos emiti -los. Consciente – é nessa instância que ocorre a recepção tanto dos estímulos internos quanto dos estímulos do ambiente externo ao sujeito. É nele que irá ocorrer a seleção (atenção) e a percepção dos estímulos Figura 1: Primeira teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico. Fonte: Acervo EAD-Uniube. Consciente Inconsciente Pré-consciente 198 UNIUBE que serão recebidos ou não. É aqui que se dá a reflexão sobre os estímulos recebidos (raciocínio). Exemplo: os nossos comportamentos diários, que estão submissos à aceitação ou não das regras sociais, valores e princípios. Segundo Bock (2002), entre 1920 e 1923, Freud criou a segunda Teoria do Aparelho Psíquico, remodelou a teoria anterior e introduziu os conceitos de: Id – Representa o nosso lado instintivo, que não mede as consequências dos atos para se satisfazer. É inconsciente e governado pelo princípio do prazer, concebe nossas paixões e a fuga dos desprazeres. É imediatista, atemporal, por isso não possui lógica, razão, moral ou ética. É egoísta, cego, impulsivo, irracional. É gerado pelos impulsos instintivos e inatos. Busca a satisfação de desejos e fantasias. Podemos dizer que compõe a estrutura original da personalidade, seus conteúdos são quase em maioria inconscientes. É o reservatório de energia da personalidade. Ego – é o que permite a pessoa pensar em uma sequência lógica. É controlado pelo princípio da realidade. Sua função consiste em estar tanto a serviço do Id quanto da realidade. Aprende a controlar as necessidades impulsivas do Id, protegendo -o. Mas é do Id que retira as energias necessárias para manter -se saudável. Representa a razão e a reflexão. É a parte do Id modificada pelo ambiente. Autopreserva ‑se, e, ao controlar o imediatismo dos instintos, torna possível à pessoa refletir e buscar, entre tantas, a solução mais viável, aquela que irá despender menos sofrimento. Funciona sob o princípio da realidade. Superego – Constrói -se a partir do Ego, representa a consciência moral da pessoa. Sua função é a de exercer uma ação controladora do Ego. É o reservatório e o responsável pela internalização das normas, valores, padrões e costumes valorizados social e culturalmente. UNIUBE 199 A Psicanálise é compreendida como uma teoria, método de investigação e prática profissional. Teoria – Freud publicou uma extensa obra, durante toda a sua vida, relatando suas descobertas e formulando leis gerais, sobre a estrutura e o funcionamento de psique humana. Método de investigação – método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto por meio de ações e palavras ou pelas produções imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres, os atos falhos. Prática profissional – análise (busca o autoconhecimento ou a cura pelo autoconhecimento). Atualmente a Psicanálise é utilizada como base para as psicoterapias, aconselhamento psicológico, orientação com aplicação individual, em grupo ou às instituições. AMPLIANDO O CONHECIMENTO Freud criou, assim, seu próprio método, que nominou de Psicanálise (ou Análise da Mente). Esse método compôs -se de três técnicas: • Associação Livre • Análise ou Interpretação dos Sonhos • Análise dos Atos Falhos Vamos então conhecer um pouco mais sobre essas técnicas. A Associação Livre permite que a pessoa possa falar livremente daquilo que vai se lembrando sem a preocupação de organização ou de estabelecer uma ordem cronológica. A Análise dos Sonhos diz respeito aos estudos dos sonhos que a pessoa teve e que se lembra. Ao trazer os sonhos para as sessões de análise também faz associações livres com os conteúdos dos sonhos. Freud afirma que expressamos os nossos mais íntimos desejos por meio dos sonhos, por isso eles são importantes. Quanto ao Ato Falho, de acordo com a censura que estabelecemos ao longo de 200 UNIUBE nossa vida, nos adequamos às normas e regras sociais, o que na maioria das vezes faz com que os nossos desejos também sejam reprimidos. Então, por meio dos atos falhos, muitas vezes o nosso inconsciente burla a censura e acaba por expressar aquilo que realmente pensamos ou sentimos, o que pode aparecer por meio da linguagem verbal, corporal ou através dos nossos sentimentos (BOCK, 2002). Associação Livre – Vamos supor que o paciente está andando em um determinado local e vê uma situação: uma criança de uniforme junto com a mãe andando na rua. Então ele pensa “essa cena me faz lembrar de quando estudava e tinha mais ou menos a idade da criança que estava vendo e quando eu chegava na escola a minha mãe, antes de me deixar entrar, ainda conferia mais uma vez se eu tinha levado todos os materiais e também a lancheira [...]”. Análise dos sonhos – para que possa ocorrer é preciso que a pessoa esteja em processo de atendimento psicológico, assim a partir de seus sonhos, de suas associações livres e de “sua história de vida”, o terapeuta irá interpretar o que esse sonho está representando naquele momento. Ato falho – para nos adaptarmos melhor às pessoas com as quais relacionamos, temos várias regras sociais, hábitos, boas maneiras, ética, enfim, temos que ter “jogo de cintura”. Nem tudo o que o outro gosta ou pensa é o que gostamos ou pensamos. Assim, existem algumas situações que temos que nos censurar para não desagradar o outro, por exemplo, o chefe, a mãe, o pai, o(a) filho(a), namorado(a). Vamos pensar em um chefe que chega contando que comprou uma coleção inteira de calças “xadrez” para viajar de férias em um cruzeiro internacional. Ele, todo feliz, vem lhe contar essas aquisições. Entretanto, você sabe que tem que agradá -lo, ou pelo menos, que tem que ser cuidadoso(a) para não ser indelicado(a) e expressar o que, realmente, está pensando, mas, sem querer, você diz: Credo, que coisa feia! Pronto! Você já deixou “escapar” a sua opinião, e quanto mais tentar se desculpar, pior tende a ficar... Na verdade, você não queria dizer exatamente isso, para não magoá -lo! EXEMPLIFICANDO! UNIUBE 201 Vamos fazer uma pequena brincadeira? Faça uma lista de comportamentos, pelo menos três, que atualmente tem observado em você e que de certa forma, têm lhe incomodado. Registre as anotações em seu caderno. Agora, busque em suas lembranças, vá o mais longe que conseguir e faça uma lista sobre as lembranças da sua infância, da sua adolescência e anote. Em seguida, procure associar os comportamentos da infância e da adolescência aos comportamentos que você tem hoje. AGORA É A SUA VEZ Você viu como os comportamentos atuais têm uma ligação direta com o nosso passado? Vejamos alguns exemplos. • Situação 1 Atualmente, você, por exemplo, pode não gostar de ficar sozinho(a) em casa e nem no trabalho. Talvez, esse comportamento esteja relacionado a uma situação, vivenciada por você na infância, em que dormiu e quando acordou não encontrou ninguém em casa. Então, na ocasião, teve muito medo, chorou e gritou muito; teve medo de todo mundo ter ido embora, saiu andando pela casa, mas, de repente, quando ouviu risadas, percebeu que todos estavam sentados no quintal. Entretanto, até hoje, quando fica sozinho(a), você tem essas lembranças que lhe trazem a mesma sensação que teve naquela situação. • Situação 2 Você pode não gostar de ir a velórios, por se lembrar de uma situação vivida na infância. Essa circunstância pode fazê -lo(a) se lembrar do velório de uma vizinha.Na ocasião em que foi velada, a casa dela ficou cheia de gente, as pessoas iam chegando e choravam muito... alguns gritavam e falavam coisa estranhas para você que, como era criança, não entendia tanta confusão por achar que a vizinha estava dormindo. 202 UNIUBE • Situação 3 Um menino pode não gostar que as outras pessoas falem alto. Isso pode estar desencadeando um comportamento de medo. Supostamente, esse medo pode ser proveniente de uma lembrança de quando o pai do menino chegava da rua falando alto e ameaçando bater na mãe e em todos os filhos. Enfim, poderíamos listar inúmeras situações atuais que, na maioria das vezes, nem sabemos ao certo o que a originou. Segundo Freud, nós reprimimos o que não gostamos ou o que nos incomoda; mas, tudo o que fazemos tem uma causa, uma intenção consciente ou, muitas vezes, inconsciente e que está associada ao fato que a antecedeu. Após muitos anos de trabalho ouvindo os relatos de seus pacientes, Freud elaborou a Teoria da Sexualidade Infantil. Ele não teve, inicialmente, apoio de seus colegas, porém insistiu em seus estudos, foi persistente, e, antes de sua morte em 1939, teve a oportunidade de perceber que seus trabalhos estavam sendo reconhecidos já nos quatro continentes. O livro Três ensaios sobre sexualidade foi editado em 1905 e descreveu a sequência básica do que Freud chamou de impulso sexual e anunciou as fases do desenvolvimento psicossexual. CURIOSIDADE 6.3 Teoria Psicossexual de Sigmund Freud – Fases do desenvolvimento Freud, ao pesquisar sobre as causas da neurose dos adultos, utilizou para tal, a associação livre juntamente aos pacientes. Os resultados obtidos foram confirmando a importância das vivências infantis. Confirmaram também que ele só poderia compreender as manifestações UNIUBE 203 e comportamentos dos adultos analisando e compreendendo as experiências e relacionamentos que a pessoa tivera nos primeiros seis anos de vida. Assim, Freud usou uma frase famosa em que diz, “A criança é o pai do homem” (BARROS, 2002, p. 87). Ou seja, na vivência dos cinco primeiro anos se originam as causas da maioria dos nossos conflitos. Passaremos então, aos estudos das fases do desenvolvimento psicossexual: Fase oral – de zero a um ano e meio. É considerado o estágio mais primitivo do desenvolvimento psicossexual. Nele predomina o Id, que, como falamos, é imediatista, atemporal e impulsivo. A boca é a estrutura sensorial do bebê que inicia os contatos com o mundo. Na fase oral, a energia afetiva (libido) que mobiliza o bebê está em volta da boca, é por meio dela que ele terá seus primeiros contatos com o mundo, como o seio da mãe (ver Figura 2). Seus prazeres e satisfações ocorrerão acerca do que Freud denominou de zona oral. Os lábios, a boca e a língua são seus principais órgãos de prazer. Figura 2: Bebê mamando. Fonte: Acervo EAD – Uniube. Podemos observar as crianças nessa idade e constataremos a necessidade que elas apresentam, por exemplo, de colocar a mão e os objetos na boca; assim como de sugar (chupetas/mamadeiras) e de morder (já que é um período caracterizado pelo nascimento dos dentes de leite, que causam desconforto e dor; o comportamento de morder dá sensação de alívio). 204 UNIUBE Para Freud, essa fase é parte do desenvolvimento evolutivo da criança, que uma vez bem vivida irá satisfazer às necessidades orais, o que proporcionará uma vivência psicológica saudável. Porém, se as frustrações superarem o prazer, nessa fase, poderá ocorrer o que Freud denominou de “fixação da libido” na zona oral. Isso poderá acarretar alguns comportamentos não agradáveis em fases posteriores, que demonstram uma incapacidade do ego em superar os desejos orais que foram frustrados. Alguns desses comportamentos são: o alcoolismo; a insaciabilidade (a pessoa come demais ou belisca muito), chupa bala e chiclete compulsivamente; é fumante; rói as unhas. Fase anal – ocorre mais ou menos, dos dezoito meses aos três anos. A fase anal coincide com a tentativa de controle fisiológico das fezes e da urina, ou seja, a região anal passa a ser o centro das atenções, tanto as prazerosas (satisfação, compensação, reforços etc.), quanto frustrantes, dolorosas, desprazerosas. Essa fase coincide com a tentativa de inserir, na vida diária da criança, o já famoso “troninho” (Figura 3) que, ao longo das gerações, só muda o seu modelo, o seu formato, mas a intenção dos pais é a de se ver “livre” das fezes e da urina nas fraldas, nas calças, o mais rápido possível! Pode ser que, nessa fase, os pais se utilizem da recompensa e da punição para agilizar a libertação da criança das “fraldas”, logo o prazer e o desprazer acabam sendo associados a reter e a expulsar as fezes, e aos mecanismos inatos de funcionamento fisiológico do sistema excretor. A criança desloca a atenção agora para esse processo fisiológico, e as fezes passam a ser um objeto de intenso prazer. Figura 3: Usando o “troninho”. Fonte: Acervo EAD – Uniube. UNIUBE 205 Quantas histórias escutamos sobre mamães que, desesperadas, já encontraram seus bebês “atolados” nas fezes da cabeça aos pés, quando na verdade elas imaginavam que eles estavam dormindo um soninho profundo!!! Enquanto para a mãe essa é uma situação “enlouquecedora”, para o bebê é uma vivência de extremo prazer. Em primeiro lugar, porque ele produziu algo de grande valor – as fezes, que lhe deu a oportunidade de sentir -se aliviado ao eliminá -las, e, depois, de sentir seu cheiro, sua textura, aconchegar -se em seu calor. Além disso, ele ainda tem a atenção concentrada da mamãe só para ele, pois, simbolicamente, ele produziu algo de valor para quem ama, que também lhe retribui, limpando -o, cuidando dele, dando -lhe muito amor. Muito bem, isso é incrível, não é? Se na fase anal as frustrações superarem os prazeres e satisfações, o ego poderá entrar em conflito, impedindo o seu pleno desenvolvimento. Esse caso pode acontecer, por exemplo, quando a mãe é muito exigente no treino do controle dos esfíncters. Estudos psicanalíticos comprovam que podem ocorrer comportamentos fixados nessa fase, tais como avareza ou sovinice, pessoas que sentem prazer em acumular, guardar ou reter bens, dinheiro, joias, fazer coleções de diversos objetos, sendo assim, esses comportamentos estariam ligados ao prazer experimentado na infância, ao ato de reter as fezes. Assim também são compreendidas as pessoas que têm intestinos presos ou constipação. Freud denominou de personalidade anal, esses traços de personalidade. Esfíncter Do grego sphigktér – éros, é o mesmo que ligadura, músculo que aperta; nome genérico dos músculos circulares que fecham as cavidades a que correspondem (ex.: esfíncter da bexiga, da boca, da vagina, do ânus). 206 UNIUBE Para os psicanalistas, os comportamentos excessivos das pessoas em relação à limpeza da casa, do corpo ou partes dele e, também, com a organização estão associados às exigências excessivas de limpeza de seus pais em relação à criança na fase anal. Fase fálica – ocorre por volta dos três aos seis/sete anos. Os órgãos genitais começam a assumir o papel sexual principal, sendo cada vez mais focalizado quanto mais se aproxima da idade adulta. Nessa fase, o pênis (falo) é o principal objeto de interesse da criança, tanto do sexo feminino quanto do sexo masculino. Gradativamente, a libido passa para os órgãos genitais, que passa a ser percebida pela criança como fonte de prazer desencadeada pelo toque e manipulação. A criança descobre, assim, a masturbação. Junto a essas descobertas e ao deslocamento da libido para os órgãos genitais e, em especial para o pênis, a criança passa a ter um grande interesse pelas diferenças anatômicas entre os sexos. Nessa época, passam a ocorrer as várias brincadeiras infantis, nas quais as crianças desejam ver os genitais umas das outras. Ocorrem comportamentos de exibicionismo de algumas delas. Temos que compreender que, mesmo queesses comportamentos possam parecer muito com o comportamento dos adultos, os comportamentos infantis ainda são desprovidos de erotismo, ou seja, não têm a intenção de seduzir os parceiros ou de fazer sexo, como ocorrem com os adultos. Essa curiosidade em conhecer o corpo do outro ocorre também voltada para as outras partes do corpo e não apenas para a zona genital. Surge nessa etapa a curiosidade em relação aos bebês, ou seja, como nascem, quem os colocou na barriga da mãe. Surge o interesse em saber o que é UNIUBE 207 que o papai faz com a mamãe, por que dormem juntos, por exemplo. As crianças prestam mais atenção aos comportamentos dos pais, invadem o quarto dos pais no meio da noite. É nessa fase que ocorre também o que Freud chamou de Complexo de Édipo e de Complexo de Castração. Freud foi buscar na mitologia grega uma forma de ilustrar o que ocorre simbolicamente nessa etapa. Você já ouviu falar sobre o mito do Édipo? Édipo foi um príncipe que assassinou seu pai e casou -se com a mãe. Veja o que Speller nos explica sobre isso: Tragédia grega, escrita por Sófocles, Édipo rei que se apaixona pela mãe e com ela se casa, vindo um dia, a matar seu pai. Rei incestuoso, daí toda a tragédia: ligou -se à mãe, em vez de ligar -se a qualquer outra mulher. (SPELLER, 2004, p. 26) SAIBA MAIS Freud, em seus estudos, articula o Complexo de Édipo com o medo da castração, ou seja, segundo Speller (2004), é essa articulação que irá possibilitar a interiorização da proibição do incesto materno e do assassinato do pai (lembre -se da mitologia). O medo da castração nos possibilita a vivência da diferença, se não temos, então desejamos ter, se pararmos para pensar a respeito dos nossos desejos, compreenderemos que passamos a vida inteira em busca de “algo”. Por exemplo, no mundo capitalista é comum desejarmos dinheiro, o carro do ano, roupa nova, estudar para vencer na profissão. Desejamos, também, um parceiro para constituirmos uma família, filhos para enchermos de alegria o nosso lar, mas sabemos que nada que temos ou poderemos ter no futuro nos satisfará totalmente. Essa insatisfação nos impulsiona sempre em busca de algo, ou seja, estamos sempre desejando alguma coisa. 208 UNIUBE Segundo os psicanalistas, a criança ama seu progenitor do sexo oposto, porém, já tem a clara percepção de que este tem suas atenções voltadas para o progenitor que tem o mesmo sexo que o seu (criança). Sendo assim, por exemplo, a menina ama o pai, porém tem a clara percepção que seu pai tem suas atenções voltadas para sua mãe. Por outro lado, o menino ama a mãe, porém percebe que sua mãe volta -se para seu pai. Logo, no seu processo de identificação, o que a criança faz? Ela se aproxima do progenitor do mesmo sexo, na intenção de tornar -se o mais “semelhante” possível a ele, para então partir em conquista do progenitor do sexo oposto. Esse é o mecanismo de identificação. Por exemplo, no caso da menina, ela se aproximará da mãe tentando se tornar mais semelhante a ela, para conquistar o pai. Mas o que acontecerá se essa criança não tiver um ou os dois progenitores? Provavelmente, o que ocorrerá nessas situações é que no ambiente familiar, ou até mesmo institucional, a criança elegerá, entre os adultos com os quais convive, alguém para projetar seus desejos e fantasias. Mas, se por ventura, os parceiros do mesmo sexo forem depreciados, desvalorizados por seus pais do sexo oposto, poderão ocorrer alguns transtornos, ou seja, a identificação pode não ser com o genitor do mesmo sexo, mas com o genitor do sexo oposto! Essa é uma das vertentes para explicar a homossexualidade! Freud compreendeu que é na fase fálica que assumimos a nossa identidade sexual, e que esta irá perdurar para a vida toda. Progenitores São as pessoas que deram origem, descendência, a outras. UNIUBE 209 A menina nessa etapa, ao perceber que seu pai gosta muito de sua mãe, mesmo estando em uma fase de “brigas e implicações” eternas para com a mãe, passa a fazer algumas coisas muito parecidas com ela: pede sua blusa emprestada, seus sapatos, usa o seu perfume, lembra -se do brinco da mãe que combina com a roupa que está vestindo, ou seja, sem que perceba, ela está imitando a sua mãe. E simbolicamente o alvo da conquista é o seu pai. Conforme vai elaborando essa etapa, a menina parte em busca de um parceiro, de um namorado. O menino também procura imitar seu pai, para merecer o amor da mãe. Tenderá a tornar -se bem masculino. Geralmente observa o pai, e passa a ter “gostos”, “modos” semelhantes aos dele. Pode, por exemplo, passar a gostar de futebol e até torcer para o mesmo time; usar roupas do pai, sapatos, pode passar a ter hábitos semelhantes aos dele, por exemplo, fumar, beber... às vezes escolhe até a mesma profissão que o pai. No Édipo, o menino reprime os desejos pela mãe, e passa a vivenciar o medo da castração. Quando esse momento é bem vivido, o menino também parte em busca de uma parceira, de uma namorada. Freud afirma que no complexo de Édipo é reprimido e convertido em angústia de castração (SPELLER, 2004). EXEMPLIFICANDO! Dessa forma, por medo da castração, desenvolvemos nessa fase a nossa consciência moral, compreendida pelos psicanalistas como superego (censura). Adquirimos, nesse processo de identificação com os nossos pais, os seus padrões de princípios e valores. [...] o complexo de Édipo, regulador da civilização ao estruturar a sexualidade humana, organizando o devir humano em torno da diferença dos sexos e da diferença das gerações, refere -se ao conjunto das relações que a criança estabelece com as figuras parentais formando uma rede em grande parte inconsciente, de representações e de afetos. (SPELLER, 2004, p. 27) 210 UNIUBE Assim, os pais passam a ser modelos também em relação ao que aprovam e ao que não aprovam, ou seja, estabelecemos padrões de regras e normas sociais morais. Ou seja, muitas vezes mesmo na ausência de nossos pais, não praticamos certos comportamentos, porque “algo” nos segura, nos condena, e mesmo na ausência deles, sentimos medo de perder o amor e a confiança que eles depositam em nós! A personalidade adulta é grandemente afetada pelas experiências emocionais da infância ou, em outras palavras, pela qualidade da interação entre a criança e os adultos significativos para ela. (BARROS, 2002, p. 85) Fase de latência – ocorre entre os seis/sete anos até mais ou menos os doze anos. Esse período caracteriza -se por uma “certa paz, tranquilidade”, nos quais os impulsos estão, de certa forma, censurados. A criança tem uma ampla manifestação de vergonha, repugnância, e a sua “voz interior”, agora mais forte, desencadeia -lhe algumas crises de moralidade. Seus hormônios já começam a manifestar mudanças físicas acentuadas, porém a libido é direcionada para atividades culturais (leitura, escrita, atividades esportivas, dedicação à aprendizagem de língua estrangeira ou de instrumentos musicais). Há nesse momento uma diminuição das atividades sexuais. Meninos e meninas se “afastam” nessa fase, podendo até mesmo se tornar grandes rivais, por exemplo, na sala de aula, na vizinhança, nas redes sociais, entre primos, irmãos, enfim, em situações em que possam se encontrar. Ao final dessa fase, a puberdade é alcançada, essas diferenças tornam‑ se “interesse”, ou seja, percebe -se nitidamente uma aproximação dos grupos de meninas e meninos. Esse interesse, atualmente, tem desencadeado cada vez mais cedo um tipo de relacionamento sem grandes compromissos denominado “ficar”. UNIUBE 211 As meninas e meninos, antes rivais, agora se encontram e são “ficantes”. Sendo assim, a competição agora é outra, pode -se perceber que ambos os sexos passam a disputar o número de “ficantes”, ou seja, a popularidade do pré -adolescente é computada pelo número de parceiros com quem já “ficou”! É uma fase de grande conflito e insegurança na relação entre pais e filhos. Percebemos que, quanto menosresolvido o complexo de Édipo, maiores serão os problemas entre os pais e filhos nessa etapa. Fase genital – ocorre a partir da adolescência, direcionando -se para a vida adulta. Nessa etapa, o objeto de erotização ou de desejo não está mais no seu corpo, mas está no “outro”. Espera -se que ao atingir essa fase a pessoa já tenha atingido a sua maturidade no sentido das escolhas que a sociedade agora exige. Por exemplo, em relação a sua profissão, às amizades, ao tipo de trabalho, às questões financeiras, políticas, religiosas, amorosas, entre outras. Dizemos que a pessoa, agora adulta, já tem desenvolvidos sua intelectualidade e seu emocional. Está “pronta” para enfrentar as facilidades e também as dificuldades que a vida pode lhe reservar. Poderíamos dizer que é amadurecida o suficiente para tomar decisões no que diz respeito às questões amorosas, familiares, financeiras, morais e éticas, e está adaptada à família, à sociedade que a cerca e ao mundo de maneira geral. Vamos ver se você compreendeu o que estávamos estudando até aqui. Você seria capaz de, após estudar as etapas do desenvolvimento psicossexual de Freud, exemplificar cada etapa (oral, anal, fálica, latência e genital), com lembranças de suas vivências? Vamos ver se você consegue justificar os exemplos, de acordo com as características de cada etapa apontada por Freud. AGORA É A SUA VEZ 212 UNIUBE Já vimos que muitas vezes reprimimos comportamentos, pensamentos e sentimentos que nos causam desprazer, está lembrado(a)? Pois bem, Freud vai nos mostrar que usamos Mecanismos de Defesa, compreendidos como processos utilizados pelo ego, para burlar a realidade. Podemos dizer que inconscientemente, “deformamos a realidade”. Por ser, inconsciente, mesmo que possamos nos esforçar para explicar a razão de termos feito isso ou aquilo, sempre deixamos essa explicação confusa para o outro, por não termos a clareza das razões que nos levaram a esses comportamentos. Você já observou como fazemos diante de situações constrangedoras ou desagradáveis? Buscamos rapidamente uma forma de nos justificar, de explicar da melhor forma possível que o fizemos, bem, não tínhamos a intenção de... Ou seja, dessa forma, estamos tentando redimir o nosso “mico”. É assim que falam os adolescentes, não é mesmo? PARADA PARA REFLEXÃO Os mecanismos de defesa, ao excluírem da consciência os conteúdos desprazerosos, protegem o aparelho psíquico. Vejamos, a seguir, os mecanismos de defesa. Segundo a Psicanálise (SPELLER, 2004), são estes os mecanismos de defesa que utilizamos: • Repressão – ou “recalque”, por meio desse mecanismo, simplesmente “não vemos ou não conseguimos perceber” os acontecimentos e fatos. Deformamos a realidade e, ao fazê -lo, deformamos o sentido do “todo”, que se torna algo menos doloroso. UNIUBE 213 Por exemplo, vejamos o caso de uma moça cujo namorado sai com outras mulheres. Ela, então, briga com ele, mas acaba por acreditar na justificativa que ele dá de que “as outras” mulheres é que não o deixam em paz! • Regressão – por meio desse mecanismo, uma pessoa de qualquer idade, diante de uma situação muito desprazerosa e dolorosa para ela, retorna a etapas psicossexuais anteriores à atual. Por exemplo, consideremos um profissional exemplar, competente, com ideias consistentes, que tem o poder de ajudar outras pessoas. Supomos que diante de uma situação em que ele tenha que ficar no escuro, ele entra em pânico, paralisa-se e tem uma crise incontrolável de choro, independente da situação em que esteja (em família ou no trabalho). O fato de ele ficar chorando mostra que houve uma regressão até um estado infantil. • Formação reativa – o que mais se deseja é o que lhe provoca mais repulsão e afastamento. O que provoca sofrimento, desprazer acaba recebendo uma reação contrária. Por exemplo, consideremos a situação de uma mãe que superprotege o filho e diz viver somente para ele. No caso da formação reativa, na verdade ela tem um desejo enorme de desprezá -lo, por atribuir a ele perdas diversas, entre elas, é comum, a perda do corpo de “solteira”, magro, curvilíneo, sedutor. • Negação – o sujeito não focaliza os aspectos que podem lhe trazer perigo ou desconforto. Por exemplo, suponhamos que alguém tenha passado por uma situação de constrangimento diante de muitas pessoas. Entretanto, anos depois, uma daquelas pessoas relembra o fato e ela não consegue lembrar -se da situação. É muito comum ocorrer, também, a negação diante de um traço de personalidade, considerado patológico ou doentio, de um filho ou de alguém que amamos. • Projeção – criticamos nas outras pessoas aquilo que não podemos perceber em nós, usamos do mecanismo de negação, junto com a projeção. Por exemplo, uma pessoa tem um traço forte de obsessão por limpeza e organização, e fica o tempo todo criticando a sua mãe, seu chefe como sendo extremamente, maníacos por limpeza. 214 UNIUBE • Racionalização – diante de fatos e situações que nos causam desconforto, justificamo ‑nos, de forma lógica e coerente; pelo raciocínio lógico não deixamos os nossos sentimento aparecerem. Observamos tais fatos, por exemplo, em situações que nos causam medo, ansiedade, insegurança e, então, usamos os nossos conhecimentos para tentar disfarçar o nosso medo. • Identificação – quando valorizamos e gostamos de algumas pessoas, tendemos a imitá -las naquilo que as admiramos. É observável nos filhos quando estes possuem um bom relacionamento afetivo com os pais. Os filhos, ao longo dos anos, vão “se tornando” muito parecidos com os pais. • Sublimação – usamos para “canalizar” nossos desejos e afetos, para outras atividades menos desgastantes para a realidade. Geralmente esse mecanismo de defesa será usado por pessoas mais amadurecidas emocionalmente. Não é o conformismo apenas, mas uma forma de sentir o mesmo prazer sem grandes sofrimentos ou dificuldades. Não há desgaste de energia. Por exemplo, suponhamos que o maior desejo de uma pessoa é fazer Medicina. Mas, por várias razões, a pessoa percebe que este desejo irá lhe exigir muito. Então, ela escolhe protelar esse objetivo, escolhendo um curso afim que possa aproximá ‑la da Medicina por um tempo e, se for possível, mais tarde, tentará atingir seu objetivo principal. Além desses mecanismos de defesa citados acima ainda existem outros, mas que agora não iremos apresentar. O que é importante compreendermos é que os mecanismos de defesa são formas saudáveis que utilizamos para evitar desprazeres e sofrimentos do Ego diante de situações do cotidiano. Podem tornar -se preocupantes e sintomáticos, anunciando patologias, a partir do momento que distorcem ou deformam a situação real a ponto de não conseguirmos vê -la da forma como se apresenta, mas da forma com que “suportamos” ou imaginamos que seja. Nessas situações, teremos que buscar ajuda especializada. UNIUBE 215 Em que a Psicanálise contribui com a Educação?6.4 Freud não teve a intenção de aplicar os conceitos da Psicanálise à Educação. Mas podemos perceber que essa é uma vertente possível. Por meio da aplicação dos conceitos psicanalíticos, podemos contextualizar as situações acadêmicas, compreendendo as razões psicológicas que dificultam a aprendizagem. Quando, por exemplo, identificamos e compreendemos as características das etapas do desenvolvimento psicossexual nos comportamentos das crianças, na sala de aula, temos a possibilidade de refletir sobre alguns fatores que envolvem as fases oral, anal, fálica, de latência e genital que podem, de alguma forma, impedir a aprendizagem e o desenvolvimento do educando. Kupfer (apud FRANCISCO FILHO, 2005, p. 41) estudou as relações entre a Educação escolar e as teorias de Freud, concluindo que ele foi um grande pensador da Educação e que os educadores deveriam utilizar a Teoria Psicanalítica para entenderem melhor as fases de desenvolvimento dos alunos, as suas características e também as limitações. Dianteda atualidade, o que percebemos em relação à aprendizagem é como nos afirma Mrech (apud SPELLER, 2004, p. 79): “há uma grande descrença na possibilidade de ensinar e aprender, não havendo uma real implicação de alunos e professores no processo educativo”. Para a autora, ensinar é estabelecer referências, é remeter à cultura, já que o conhecimento não é do sujeito, mas da cultura. Para que isso aconteça, é necessário que haja transferência de trabalho, ou seja, como dizem no senso comum, é preciso que o professor e o aluno “vistam a camisa”, é preciso acreditar, envolver-se com o que estão fazendo. A relação acadêmica supera as expectativas do conteúdo e da técnica. Só pode tornar -se um processo se houver troca, diálogo, no qual cada um sabe qual é o seu papel na relação e quais são os objetivos que se almeja alcançar. 216 UNIUBE A visão clínica da Psicanálise (de atendimento em consultório) é um dos mais fortes impedimentos da sua aplicação no processo educacional. Assim como também a visão tradicional da Educação que ainda perdura na maioria das escolas. Então, nem a Psicanálise e nem a Educação se colocam prontas para algum tipo de relação, ou de modificação na sua visão e prática. Dessa forma, perdem os dois. A Psicanálise poderia trazer modificações no olhar e na escuta do professor, em relação à voz que o aluno emite e às “outras linguagens” que ele usa, além da palavra. A comunicação do aluno pode ser explicitada em forma de uma dificuldade, por exemplo, de desenvolver a leitura, a escrita, o raciocínio matemático. E, ainda, pela expressão de notas baixas, por comportamentos inadequados para a sala de aula, entre tantos outros comportamentos que, ingenuamente, pode ser compreendidos pelo professor como desinteresse, deficiência intelectual, ou até mesmo, problemas relacionados à falta de limite ou de estímulo para aprender. Para os psicanalistas, o ser humano é um ser trágico, pela sua dualidade, pela sua fragilidade, pelo seu desamparo. Se compreendermos essa carência do homem e a projetarmos para as relações de aprendizagem, passaremos a ter outra visão da relação professor -aluno. O aluno que nos chega é carente, precisa ser acolhido no processo de aprendizagem, incentivado e, principalmente, identificado e reconhecido enquanto ser humano único, individual. Esse é o papel de responsabilidade do professor. Assim, segundo Speller (2004), temos que educar, possibilitando ao aluno questionar sobre o seu desejo que anima a sua responsabilidade na Educação, comprometendo -se assim, com as mudanças e com a ética que ela possibilita. UNIUBE 217 Essa ética respeita o desejo individual em harmonia com a ética social. Dessa forma, surge uma nova perspectiva educacional, na qual o individual não perde a sua identidade, mas contribui na formação da ética social. Todos participam e são corresponsáveis pela sua aprendizagem. Para Speller (2004, p. 90 -91): A psicanálise tem muito a dizer ao professor. Este pode inspirar ‑se na figura do analista, ocupando o lugar e exercendo a função não como mestre da verdade, mas como produtor de marcas e bordas nas quais a criança possa se introduzir no tecido social. A educação deve produzir um efeito organizador ajudando a criança a construir um simbólico onde possa viver. Segundo Kupfer (apud SPELLER, 2004), a escola com todos os seus problemas atuais, continua sendo uma instituição com grande poder, pois ela continua a oferecer ao sujeito o sentimento de identidade, pertença, inserção social. Temos vários e diversificados projetos sendo implantados nas escolas para atender às necessidades de inclusão. Esses projetos respeitam a diferença, mas não a nega, prepara -se para enfrentá -la, não no isolamento, mas como vimos anteriormente, na execução da ética pedagógica, no exercício da cidadania, do respeito e da dignidade. Conclusão6.5 Para concluir, podemos dizer que é importante que o professor em sua vida acadêmica, conheça várias teorias filosóficas, psicológicas, entre outras, para ampliar e dar consistência à sua prática pedagógica. É fundamental que saiba o momento certo para aplicá -las, não pensando que estejam prontas e acabadas, mas que estão fazendo as necessárias adequações, úteis para o desenvolvimento de um trabalho diferenciado. 218 UNIUBE Resumo Os estudos realizados neste capítulo iniciaram -se contextualizando a Teoria Psicossexual de Freud e localizando -a enquanto teoria que fundamenta o processo de desenvolvimento e de aprendizagem. Vimos então: • quem foi Freud; • a primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento da personalidade, representada pelos conceitos de consciente (Cs), pré -consciente (Pré-Cs) e inconsciente (Ics), denominada, por Freud, como a Primeira Teoria sobre a Estrutura do Aparelho Psíquico; • a Segunda Teoria do Aparelho Psíquico (Id, Ego e Superego); • as três técnicas da Psicanálise – Associação Livre, Análise dos Sonhos e a Análise dos Atos Falhos; • a Teoria Psicossexual de Freud e suas fases de desenvolvimento: fase oral, anal, fálica, latência e a genital; • os mecanismos de defesa; • as contribuições da Psicanálise para a Educação. Referências ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. 9. ed. Campinas: Papirus, 2006. BARROS, Célia Silva Guimarães. Pontos de psicologia do desenvolvimento. 12. ed. São Paulo: Ática, 2002. BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias – uma introdução ao estudo de psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. UNIUBE 219 FRANCISCO FILHO, Geraldo. A psicologia no contexto educacional. 2. ed. Campinas: Átomo, 2005. RIBEIRO, Thiago. Hipnose. In: Wikipédia. Disponível em: <http://www.brasilescola. com/psicologia/hipnose.htm>. Acesso em: 16 dez. 2009. SPELLER, Maria Augusta Rondas. Psicanálise e educação – caminhos cruzáveis. Brasília: Plano, 2004. Mônica Corrêa Avelar Vânia Maria de Oliveira Vieira Introdução Visões comportamentalistas da aprendizagem Capítulo 7 Prezado(a) aluno(a), é um enorme prazer estarmos juntos para dialogar e ampliar nossos conhecimentos sobre algumas correntes psicológicas e suas contribuições para a educação. Para tanto, elucidaremos as ideias centrais da abordagem comportamentalista ou behaviorista e suas implicações no campo educacional. Destacaremos aqui o pensamento de Watson, Pavlov e Skinner, com ênfase em alguns conceitos como: condicionamento, estímulo, reforço positivo e negativo, punição, ensino programado e outros. Após o estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • explicar os pressupostos básicos da Teoria Comportamentalista; • definir os tipos de condicionamento operante, clássico, reforço positivo, reforço negativo e punição; • identificar as implicações pedagógicas da abordagem comportamental de Skinner para a educação. Objetivos 222 UNIUBE 7.1 Comportamento: o objeto de estudo da Teoria Comportamentalista da Aprendizagem 7.2 A pesquisa de Watson 7.3 As contribuições de Pavlov – o condicionamento clássico 7.4 A teoria de Skinner – o comportamento operante 7.5 A Teoria Comportamentalista e suas implicações para a educação 7.6 Conclusão Esquema 7.1 Comportamento: o objeto de estudo da Teoria Comportamentalista da Aprendizagem Você, com certeza, já ouviu falar ou até mesmo já assistiu aos shows de golfinhos e baleias, não é mesmo? Eles fazem coisas lindas, dão um verdadeiro show! Veja, a Figura 1: Figura 1: Golfinhos pulando. Fonte: Acervo EAD-Uniube. UNIUBE 223 Veja, agora, uma outra cena comum nos espetáculos, conforme mostra a Figura 2: Mas, será que podemos dizer que esses animais aprenderam a realizar as manobras? Esses e outros serão assuntos importantes que abordaremos neste capítulo. “A educação é aquilo que permanece depois que tudo o que aprendemos foi esquecido.” (Burrhus Frederic Skinner) PARADA PARA REFLEXÃO Segundo alguns teóricos e seguidores da Teoria Comportamentalista daAprendizagem, podemos dizer que sim, eles aprenderam! Porque, para essa teoria, há uma mudança de comportamento a partir de estímulos fornecidos pelo ambiente; repetições e respostas a esses estímulos são aprendizado. Vamos entender um pouco melhor essa Teoria? Figura 2: Tratando dos golfinhos. Fonte: Acervo EAD-Uniube. 224 UNIUBE Mas, para começarmos a abordar o tema, gostaria que refletíssemos em primeiro lugar sobre comportamento; você já pensou em definir comportamento? Bem, comportamento é “maneira de se comportar, atitude, procedimento, conduta” (SACCONI, 2009, p. 308). São as reações que os seres apresentam em relação às interações e realimentações possibilitadas pelo meio em que estão. Essas reações fazem parte de um sistema dinâmico. Temos como exemplos o comportamento humano, social, animal, atmosférico, entre outros. Você conhece a canção Comportamento geral de Gonzaguinha? Ressaltamos os versos “Você deve aprender a baixar a cabeça / E dizer sempre ‘muito obrigado’ / [...] Pra ganhar um Fuscão no juízo final / E diploma de bem‑comportado”. Esses versos evidenciam um comportamento controlado socialmente por meio de recompensa e de estímulo. Se quiser ler a letra dessa música na íntegra, acesse o site: <http:// gonzaguinha.musicas.mus.br/letras/330922/>. Acesso em: 4 maio 2010. PESQUISANDO NA WEB Será que aprendemos a nos comportar? Será que nossas condutas/comportamentos e ações são controlados e manipulados? Você, certamente, conhece e até assiste aos reality shows, como Big Brother Brasil e A Fazenda, apresentados pelas redes de TV brasileiras. Reality shows Podemos dizer que é um programa de televisão que se baseia na vida real. Sendo assim, seus personagens são pessoas reais e o enredo não é fictício, mas constitui -se na história vivida por essas pessoas no programa. UNIUBE 225 Qual sua opinião sobre o comportamento dos participantes? É natural? Apreendido? Controlado? Manipulado? Pense a respeito! Converse com seus colegas sobre isso. Troque ideias! TROCANDO IDEIAS! Fazendo a leitura das definições e da letra da música de Gonzaguinha, podemos concluir que comportamento é procedimento e conduta, constitui -se em ações e reações físicas, motoras, psicológicas, mentais por meio das quais interagimos com o ambiente e as pessoas. Mas, por que estamos preocupados em entender o termo comportamento? Porque o comportamento é o objeto de estudo da Teoria Comportamentalista de aprendizagem, que é o tema central de estudo deste capítulo. Em inglês, comportamento é “behavior” e, por isso, a teoria é também conhecida como Behaviorismo, termo que surgiu no ano de 1913 em um artigo publicado por John Watson. Para denominar essa tendência, usamos tanto o termo Behaviorismo como Comportamentalismo e também os termos: Teoria Comportamental, Análise Experimental do Comportamento, Análise do Comportamento e Teoria do Condicionamento. Podemos dizer que, para essa teoria, o comportamento é administrado pelas consequências, ou seja, o Behaviorismo presume que o comportamento inclui respostas que podem ser observadas e relacionadas com eventos que antecedem (estímulos) e aqueles que sucedem (consequências) que podem ser bons, ruins ou neutros. 226 UNIUBE John Broadus Watson nasceu em 9 de janeiro de 1878 na cidade de Greenville, nos Estados Unidos. Considerado fundador do Comportamentalismo ou Behaviorismo, doutorou -se em neuropsicologia com uma tese sobre o comportamento dos ratos brancos e o sistema nervoso central. Para esse psicólogo, a Psicologia não deveria se preocupar com questões introspectivas, filosóficas ou motivacionais, e sim com os comportamentos objetivos, concretos e observáveis. Faleceu em Nova York, em 25 de setembro de 1958. SAIBA MAIS Fonte: Acervo EAD-Uniube. O ponto de maior realce nesse estudo se refere aos comportamentos observáveis e mensuráveis do sujeito após receberem estímulos externos e, principalmente, suas respostas. IMPORTANTE! A pesquisa de Watson7.2 O teórico utilizou em seus experimentos animais e crianças, mas abordaremos aqui a pesquisa do condicionamento das emoções de bebês que tinha como objetivo provar que pode -se ensinar a criança a ter medo e não ter medo por meio de condicionamentos: o medo pode ser ensinado tão facilmente quanto ler e escrever, construir com blocos ou desenhar. Ele pode ser ensinado adequadamente ou inadequadamente. Quando ensinada cientificamente a vida emocional está então sob “controle”. (WATSON, J. B., 1928, p. 68) Vejamos algumas de suas experiências: UNIUBE 227 Foi proporcionado a bebês diferentes ESTÍMULOS, como sons fortes, obstáculos ao movimento corporal, carícias e cócegas e as RESPOSTAS foram medo, ira e amor. Veja o esquema: ESTÍMULOS RESPOSTAS Sons fortes medo Obstáculos ao movimento ira Cócegas e carícias amor Watson mostrou a uma criança um rato branco e a criança não mostrou nenhuma reação de medo. Mas, em um segundo momento, toda vez que ele mostrava o rato à criança ele colocava um barulho forte, repetiu essa ação por sete vezes, conseguindo, assim, fazer com que a criança passasse a sentir medo do animal. Ele comprovou que quase todo comportamento humano é aprendido, enfatizando, assim, as ações das pessoas, seus fazeres, seus comportamentos e não seus pensamentos. O artigo escrito por Watson configurava ‑se como um movimento em contraposição à chamada psicologia da mente. No início do século XIX, os psicólogos consideravam relevante o estudo da mente e com isso se valiam do método da introspecção. Porém, na metade desse século, surgiram inúmeras críticas ao método introspectivo, iniciando o fortalecimento de uma tendência em considerar a própria Psicologia como “ciência do comportamento” em oposição à então chamada ciência da mente. 228 UNIUBE A introspecção, no sentido restrito da palavra, propõe o conhecimento das emoções através da observação interna e reflexão por parte do próprio sujeito. O indivíduo é ao mesmo tempo sujeito do conhecimento e objeto de estudo em um processo de auto -observação. SAIBA MAIS Watson buscou a estruturação de uma Psicologia sem conceitos mentalistas que eram embasados por métodos subjetivos. Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 45): [...] Watson, postulando o comportamento como objeto da psicologia, dava a esta ciência a consistência que os psicólogos da época vinham buscando – um objeto observável, mensurável, cujos experimentos poderiam reproduzidos em diferentes condições e sujeitos. Sendo assim, Watson acreditava em uma Psicologia sem mente e sem alma, acreditava em uma Psicologia que poderia ser palpável com condições de ser prevista e controlada. Os estudos de Watson foram muito importantes para a época, pois contribuíram para que a Psicologia adquirisse status de ciência, deixando de ser um membro da Filosofia. A Psicologia passa, então, a ocupar ‑se mais com O QUE as pessoas fazem e não com o que as pessoas sentem e pensam. Watson, ao realizar suas experiências, seja com seres humanos ou animais, enfatizava que toda aprendizagem era um condicionamento clássico. IMPORTANTE! As contribuições de Pavlov – o condicionamento clássico7.3 Mas o que é condicionamento clássico? UNIUBE 229 É a teoria dos “reflexos condicionados”, elaborada pelo fisiologista russo Pavlov (1884 -1936). E quem foi esse teórico? É importante conhecermos um pouco de sua vida e contribuições para a Psicologia da aprendizagem. Faça uma pesquisa em livros de Psicologia da aprendizagem sobre a biografia deste teórico e registre a resposta em seu caderno. AGORA É A SUA VEZ No final do século XIX e no início do século XX, um fisiologista russo, chamado Ivan Pavlov (1849 -1936), ao estudar a Fisiologia do sistema gastrintestinal, fez uma das grandes descobertas científicas de então: o reflexo condicionado. Foi uma das primeiras abordagens realmente objetivas e científicas ao estudo da aprendizagem, principalmenteporque forneceu um modelo que podia ser verificado e explorado de inúmeras maneiras, usando a metodologia da Fisiologia. Pavlov inaugurava, assim, a Psicologia científica, acoplando ‑a à Neurofisiologia. Por seus trabalhos, recebeu o prêmio Nobel concedido na área de Medicina e Fisiologia em 1904. Sua experiência foi realizada com um cão. Pavlov realizou uma operação no canal excretor da glândula salivar do animal com o objetivo de desviar a saída da saliva para um recipiente, para que ela fosse medida, e apresentou ao cão um pedaço de carne que provocou salivação no animal. A Figura 3 ilustra o experimento com o cão. Figura 3: Experimento de Pavlov com o cão. Fonte: Acervo EAD – Uniube. 230 UNIUBE Depois, começou a mostrar a carne ao animal, mas antes tocava uma campainha. Repetiu essa ação várias vezes e, depois de um tempo, o simples tocar da campainha provocava a salivação do animal. A campainha torna -se um sinal do que virá depois. Todo o organismo do animal reage como se a carne já estivesse presente, com salivação, secreção digestiva, motricidade digestiva etc. Um estímulo que nada tem a ver com a alimentação, meramente sonoro, passa a ser capaz de provocar modificações digestivas. Veja, esquematicamente, o experimento na Figura 4. 1. Antes do condicionamento Resposta Sino Salivação Comida Estímulo não condicionado Resposta não condicionada Estímulo neutro Resposta Sem avaliação Resposta não condicionada 2. Durante o condicionamento 3. Após o condicionamento Resposta Resposta SalivaçãoSino Estímulo condicionado Resposta condicionada Resposta não condicionada SalivaçãoSino Comida Figura 4: O condicionamento. Fonte: Acervo EAD-Uniube. UNIUBE 231 Creio que você conseguiu entender o que é reflexo condicionado, mas vou mostrar -lhe mais alguns exemplos: Se ficarmos expostos ao sol ou a uma luz forte, nossas pupilas se contraem; ao pensarmos em uma fruta azeda, nossa boca enche de saliva; se o tempo esfria, sentimos arrepios. Esses são comportamentos reflexos, comportamentos respondentes e involuntários. Ou seja, são comportamentos que independem de aprendizagem para acontecerem, e precedem somente um estímulo e uma resposta (ambiente -sujeito). Agora, tente se imaginar em uma sala aquecida, colocando o pé esquerdo mergulhado em uma bacia de água gelada. O que acontecerá? Com certeza a temperatura de seu pé cairá devido à constrição dos vasos sanguíneos. A esse procedimento dá -se o nome de comportamento respondente, pois é uma reação natural de seu organismo, ou melhor, o comportamento em questão não sofreu influências do ambiente. Mas, se antes de colocarmos o pé na água, tocarmos uma música e repetirmos essa ação várias vezes, em intervalos de dez minutos, com certeza, lá pela vigésima segunda vez, você não precisará colocar seu pé na água para a temperatura dele cair, pois só de escutar a música a temperatura irá cair. A essa ação, damos o nome de reflexo condicionado, o mesmo que Pavlov realizou com o cão. Esquematizando o exposto anteriormente, temos Mão na água fria = queda da temperatura da mão = resposta incondicionada = comportamento respondente. Mão na água fria + som = queda da temperatura = resposta condicionada = comportamento aprendido = condicionamento clássico. SINTETIZANDO... 232 UNIUBE Sendo assim, o condicionamento clássico é um processo que descreve a gênese e a modificação de alguns comportamentos com base nos efeitos do binômio estímulo -resposta sobre o sistema nervoso central dos seres vivos. Se quiser enriquecer seus estudos sobres esses assuntos, acesse o site: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Condicionamento_cl%C3%A1ssico>. Acesso em: 4 maio 2010. PESQUISANDO NA WEB Compreendemos, então, que, para Watson, aprendizagem é condicionamento clássico na qual estímulo e resposta caminham juntos e essa ocorrência simultânea, por si só, já é suficiente para aprender. Para ele, fatores como reforço e consequências são subjetivos e, portanto, não podem fazer parte da sua teoria objetiva do comportamento. Para muitos, sua teoria deixou a desejar por falta de aspectos mais claros e consistentes, mas sua proposta tem grande mérito por fazer parte do começo da história das teorias psicológicas sobre o comportamento humano. A teoria de Skinner – o comportamento operante7.4 O mais importante dos behavioristas que sucedeu Watson foi com certeza Burrhus Frederic Skinner. O ponto de partida dos estudos de Skinner foi a teoria dos “reflexos condicionados”, elaborada pelo fisiologista russo Pavlov (1884-1936) – citado anteriormente. UNIUBE 233 B. F. Skinner nasceu em 1904, nos Estados Unidos, e foi um eminente psicólogo contemporâneo. Lecionou nas Universidades de Harvard, Indiana e Minnesota. Faleceu em 18 de agosto de 1990, de leucemia, depois de transformar -se no psicólogo mais famoso desde Sigmund Freud. SAIBA MAIS Fonte: Acervo EAD-Uniube. Davis e Oliveira (1994) ressaltam que, na Psicologia, o grande defensor da posição ambientalista é, sem dúvida, Skinner. Para essas autoras, na época em que Skinner elaborou sua teoria, não havia recurso para medir certos aspectos da conduta humana. Basicamente sua proposta era: Explicar os comportamentos observáveis do sujeito, desprezando a análise de outros aspectos da conduta humana como o seu raciocínio, os seus desejos e fantasias, os seus sentimentos. Partindo de uma concepção de ciência que defende a necessidade de medir, comparar, experimentar, prever e controlar eventos de modo a explicar o objeto de investigação, Skinner se propõe a construir uma ciência do comportamento. (DAVIS; OLIVEIRA 1994, p. 31) Nesse sentido, podemos entender que, na concepção de comportamento defendida por Skinner e seus seguidores, o papel do ambiente é muito mais importante do que a maturação biológica. Portanto, é correto afirmar que são os estímulos presentes numa dada situação que induzem o surgimento de um determinado comportamento. O ponto de partida dos estudos de Skinner foi a teoria dos “reflexos condicionados”, elaborada por Pavlov – o condicionamento clássico, já visto por você, anteriormente. Essa teoria atraiu Skinner para a Psicologia que, inspirado nos princípios de Pavlov, criou aquele que seria seu conceito principal: o “condicionamento operante” ou “comportamento operante”. 234 UNIUBE Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 48) dizem que o comportamento operante abrange um leque amplo da atividade humana – dos comportamentos do bebê de balbuciar, de agarrar objetos e de olhar os enfeites do berço aos mais sofisticados, apresentados pelo adulto. Seja direta ou indiretamente, esse comportamento “opera” sobre o mundo. Operar sobre o mundo seria “agir”. Vamos supor que você tenha vontade de aprender a tocar violão. O que você faria para aprender a tocar? Procuraria uma escola de música ou um professor particular? Compraria uma revista de música e tentaria aprender sozinho(a)? Para todas essas ações, você teve que ter, em primeiro lugar, vontade e, depois, agir. Sendo assim, tocar um instrumento é um exemplo de um comportamento operante que tem efeito sobre o mundo. Em sua experiência, Skinner criou uma caixa chamada de “a caixa de Skinner”. Veja a Figura 5: Figura 5: Caixa de Skinner. Fonte: Acervo EAD-Uniube. Copo para comida Alto-falante Pedal Luzes sinalizadoras Armazenador de grãos Tubo do armazenador Grade eletrificada Fio até o gerador de choques UNIUBE 235 Como nos mostra a imagem, esse é um aparelho adequado para estudo animal. Um rato é colocado dentro de uma caixa fechada que contém apenas uma alavanca e um fornecedor de alimento. Quando o rato aperta a alavanca sob as condições estabelecidas pelo experimentador, uma bolinha de alimento cai na tigela de comida, recompensando, assim, o rato. Entretanto, é importante considerar que o rato, na primeira vez, apertou a alavanca por acaso, ou seja, acidentalmente. Após o rato ter fornecido essa resposta,o experimentador pode colocar o comportamento do rato sob o controle de uma variedade de condições de estímulo. Além disso, o comportamento pode ser gradualmente modificado ou modelado até aparecerem novas repostas que, ordinariamente, não fazem parte do repertório comportamental do rato. O êxito nesses esforços levou Skinner a acreditar que as leis de aprendizagem se aplicam a todos os organismos. Surge, então, a partir desse experimento, o termo operante que destaca o papel ativo do sujeito. PONTO-CHAVE Para Skinner, enquanto o rato não operasse a alavanca e não agisse, ele não receberia comida. E o cão de Pavlov? Você se lembra? Ele “agiu” para receber a comida? Não, ele recebia a comida sem ter de fazer nada para isso, apenas esperava que a reação reflexa ocorresse (salivação perante a carne ou a um estímulo a ela associado). Você consegue diferenciar o condicionamento clássico do condicionamento operante? Acredito que você conseguiu diferenciá -los, mas o quadro seguinte mostra as diferenças entre condicionamento clássico de Pavlov e condicionamento operante de Skinner, veja: 236 UNIUBE Condicionamento clássico (Pavlov) Condicionamento operante (Skinner) • Papel passivo do sujeito. • Papel ativo do sujeito. • Envolve reações provocadas por estímulos. • Envolve ações desempenhadas em situações apropriadas e recebimento de recompensa. • Ocorre com reações emocionais (sentir). • Ocorre em ações motoras (fazer). SINTETIZANDO... Skinner também nomeia o estímulo reforçador por reforço. Ele classificou os reforços presentes na relação do indivíduo com as estimulações do meio em vários tipos, dentre eles estímulo positivo e negativo. Para compreender melhor esses conceitos, vamos pensar na caixa de Skinner novamente. Dessa vez, o ratinho é colocado na caixa e sente choques vindos do assoalho da caixa. Ele fica desorientado e, de repente, encosta na alavanca que, pressionada acidentalmente, faz com que os choques parem. Essa ação faz com que o ratinho pressione a alavanca com mais frequência. R Resposta: Pressionar a alavanca S Estímulo reforçador: Alimento O comportamento operante, realizado pelo rato, pode ser representado assim: UNIUBE 237 Quando o ratinho tocava a alavanca e ganhava comida, esse comportamento oferecia algo ao organismo e o reforço era positivo. Quando o ratinho tocava a alavanca para cessar os choques, que era algo que gerava desconforto, o reforço é negativo, pois essa ação ou esse comportamento retirou um estímulo que causava desprazer. IMPORTANTE! Reforço positivo: Para Skinner, reforço positivo é o fortalecimento de comportamento pela apresentação de um estímulo desejado após esse comportamento. Portanto, refere -se a todo estímulo que, quando segue a uma resposta, aumenta a força dessa, ou seja, aumenta a probabilidade de sua ocorrência. Em outras palavras, o reforço positivo é aquele que aumenta a força da contingência (conexão) resposta -estímulo. Vamos ver como isso acontece no cotidiano, pelo exemplo dado pelas autoras Coutinho e Moreira (1992, p. 61): Quando atendemos aos desejos de uma criança que faz birra, estamos fortalecendo o seu comportamento de fazer birra, pelas consequências que ele gera. No caso, a birra gera o atendimento da criança. Logo ela usará desse comportamento na manipulação do adulto para conseguir seus objetivos. EXPLICANDO MELHOR Reforço negativo: Para Skinner, reforço negativo é o fortalecimento de comportamento pela remoção de um estímulo aversivo. Isto é, refere -se a todo estímulo aversivo que, quando retirado, aumenta a probabilidade de ocorrência de uma resposta. É quando a consequência que fortalece um comportamento é o desaparecimento de um estímulo. Uma forma de enfraquecer um comportamento consiste na aplicação de estímulos 238 UNIUBE aversivos (estímulos irritantes ou desagradáveis), imediatamente após o comportamento indesejável. Um exemplo é quando estamos ouvindo uma música ruim no rádio, que nos chateia, e mudamos de estação, assim como tiramos uma roupa quando esta nos aperta ou quando estudamos para não sermos reprovados. Woolfolk dá um exemplo, do nosso cotidiano, desse tipo de estímulo: Alunos que continuamente “ficam doentes” justamente antes de uma prova e são mandados para a sala médica. O comportamento permite que os alunos fujam de situações aversivas – as provas –, portanto, o ficar “doente” está sendo mantido, em parte, por meio de reforço negativo. Ele é negativo porque o estímulo (a prova) desaparece; ele é reforço porque o comportamento que fez o estímulo desaparecer (ficar doente) aumenta ou se repete. (WOOLFOLK, 2000, p. 190) EXPLICANDO MELHOR Podemos perceber que a preocupação de Skinner reside principalmente na ligação entre a resposta do sujeito e o estímulo que a segue. Isso porque no condicionamento operante não se trata de resposta provocada biologicamente por algum estímulo anterior, como nas situações de condicionamento clássico, mas de resposta “espontânea”, emitida pelo sujeito. Woolfolk (2000, p. 187 ‑188) define comportamentos operantes como sendo “comportamentos voluntários (e geralmente dirigidos ao objetivo) emitidos por uma pessoa ou animal”. Essa autora acrescenta ainda a essa definição o fato de que nem toda aprendizagem humana é tão automática e involuntária. A maioria dos comportamentos não é evocada por estímulos, mas emitida ou voluntariamente desempenhada. As pessoas agem sobre seus ambientes para produzir diferentes tipos de implicações. De acordo com Skinner, essas ações deliberadas UNIUBE 239 são chamadas de operantes. Portanto, o processo de aprendizagem envolvido no comportamento operante é chamado condicionamento operante, porque aprendemos a nos comportar de certas maneiras à medida que atuamos sobre o ambiente. Assim, segundo a teoria de Skinner, o princípio que explica o condicionamento operante reside no fato de que os indivíduos aprendem com as consequências de suas ações. Com isso, as pessoas tendem a repetir o comportamento satisfatório e a evitar aqueles que não trazem satisfação. 7.5 A Teoria Comportamentalista e suas implicações para a Educação Após os estudos realizados até agora acerca da Teoria Comportamentalista da aprendizagem, você consegue estabelecer uma relação entre a Teoria, seus princípios, conceitos e a Educação? Skinner afirma que a maior parte das atividades humanas é operante e não reflexa. Como a palavra operante indica, o indivíduo opera no seu meio, o que significa que ele age produzindo estímulos consequentes, posteriores à sua ação e não apenas responde automaticamente ao seu meio, como acontece na relação respondente. EXPLICANDO MELHOR Um filme interessante que apresenta uma temática que estabelece relações entre a Teoria Comportamentalista da Aprendizagem e a Educação é O show da Truman – O show da vida, EUA, 1998. Se você puder, assita-o! AMPLIANDO O CONHECIMENTO 240 UNIUBE O professor pergunta ao aluno quanto são 5 x 3, e, somente quando ele disser 15, é que o professor confirmará a resposta. E R Er 5x3 15 parabéns! EXEMPLIFICANDO! Uma resposta produz uma consequência, e quando um Estímulo-Resposta (E -R) é reforçado (Er – recompensado), o indivíduo é condicionado a reagir. Nesse caso, a pergunta e a resposta certa devem ser repetidas várias vezes com o objetivo de fortalecer a aprendizagem. Essa é uma ação comum nas salas de aula, não é mesmo? Vamos ver, agora, por meio do esquema, a seguir, outros exemplos comuns no cotidiano escolar. Destacaremos o R (Reforço) e o Er (Estímulo reforçador): R Er Aluno estudar Tirar notas boas Ganhar uma viagem Ganhar um computador EXEMPLIFICANDO! Para os comportamentalistas, a aprendizagem seria basicamente uma mudança de comportamento. A ideia é de que o aprendizado é um comportamento observável. Portanto, as mudanças de comportamento são resultados de estímulos que ocorrem no meio. UNIUBE 241 De acordo com a visãocomportamentalista, as consequências determinam, em grande parte, se uma pessoa repetirá o comportamento que levou à consequência. O tipo de consequência pode fortalecer ou enfraquecer comportamentos. Ora, então o reforço é a peça -chave na Teoria de Estímulo e Resposta (E -R) de Skinner. Nessa perspectiva, um simples “Parabéns!” escrito no canto de um caderno, de um aluno, uma estrela ganha por bom comportamento em sala podem constituir -se em incentivos poderosos para a continuidade dos estudos. Um reforçador é qualquer coisa que fortaleça a resposta desejada. Pode ser um elogio verbal, uma boa nota ou um sentimento de realização ou satisfação crescente. IMPORTANTE! Skinner afirmava que o reforço é sempre mais eficiente do que a punição. Veja o que Falcão (1996, p. 62) nos explica: Aprimorar o comportamento do sujeito é algo que se consegue melhor quando se reforçam os comportamentos ao ocorrerem do que quando se punem comportamentos indesejáveis. O aluno aprende melhor que “2 + 2 = 4” quando é reforçado por dizer “4” do que quando é punido por dar qualquer outra resposta. De acordo com Falcão, a forma ativa de punição, por meio de estímulo aversivo, não é aconselhável nem eficiente. O sujeito pode deixar de apresentar o comportamento punido apenas temporariamente, ou somente na presença do seu punidor, além de desenvolver estados emocionais indesejáveis de agressividade ou inferioridade. Com isso, Skinner propõe uma forma de punição que ele considera passiva, que é a simples ausência de reforço, sem nenhum estímulo aversivo especial. Isto é, a criança pode extinguir um comportamento indesejável se o 242 UNIUBE adulto simplesmente deixar de lhe dar atenção nessas ocasiões. Porém, Falcão adverte, baseado em Skinner, que o melhor mesmo é, sempre que possível, impedir que a criança erre, e criar condições tais que ela venha a apresentar comportamentos adequados e, então, reforçá -los. Woolfolk (2000, p. 190) define punição como sendo “um processo que enfraquece ou suprime comportamento”. Para essa autora, de acordo com Skinner, o reforço negativo é constantemente confundido com punição. O processo de reforço, seja ele positivo ou negativo, sempre envolve fortalecimento de comportamento. A punição, por outro lado, envolve diminuição ou desaparecimento de comportamento. Assim, um comportamento seguido por uma punição tem menos possibilidade de ser repetido em situações semelhantes no futuro. Convém lembrar aqui que diferentes pessoas têm diferentes percepções do que é punitivo. O que pode ser punição para um, pode não ser para outro. Zanotto, Moroz e Gióia (2000, p. 228) também fazem referência a essa questão afirmando que tanto a punição quanto o reforçamento negativo causam efeitos que devem ser considerados com mais cuidados, já que a utilização desses dois processos produz outros comportamentos não necessariamente relacionados ao ensinar e ao aprender e tendem a tornar a escola um ambiente hostil. Do ponto de vista de Skinner, um dos grandes problemas do ensino é o uso do controle aversivo. Embora a punição física seja expressamente proibida nas escolas, ainda persistem algumas medidas como a ridicularização, a repreensão, o sarcasmo, a crítica destrutiva, o trabalho forçado, e a retirada de privilégios (ou até de direitos, como o recreio, por exemplo). Muitas vezes, os exames são usados como ameaça e são realizados, principalmente, para classificar, excluir ou punir o estudante. UNIUBE 243 O aluno passa grande parte do seu dia fazendo coisas que não deseja fazer e para as quais não há reforços positivos. Em consequência, ele trabalha para fugir de estimulação aversiva. Faz o que tem a fazer, porque o professor detém o poder e autoridade, mas, com o tempo, o estudante descobre outros meios de fugir. Ele chega atrasado ou falta, não presta atenção à aula, esquece rápido o que aprendeu, e pode tornar -se agressivo e recusar-se a obedecer. Conforme apontado por Davis e Oliveira (1994), quando um comportamento é totalmente inadequado e se deseja eliminá -lo inteiramente do repertório de comportamentos de certo indivíduo, usa -se o procedimento de extinção. Nele, o objetivo é anular o elo que se estabeleceu entre o comportamento tido como indesejável e determinadas consequências que o mantêm. Para compreender melhor, Davis e Oliveira exemplificam essa afirmação lembrando que: [...] quando uma criança faz bagunça em sala de aula para chamar a atenção da professora, mas esta não dá mostras de que notou o comportamento da criança, é provável que a criança pare de fazer bagunça. Este comportamento foi extinto porque deixou de promover o aparecimento de determinadas consequências (atenção da professora). (DAVIS; OLIVEIRA, 1994, p. 32) EXEMPLIFICANDO! Woolfolk (2000, p. 187) define o termo extinção como sendo “o desaparecimento gradual de uma resposta aprendida”. Para essa autora, a extinção ocorre quando um estímulo condicionado é apresentado repetidamente, mas não é acompanhado pelo estímulo não-condicionado. A resposta condicionada desaparece de maneira gradual e, finalmente, é “extinta”, desaparece completamente. 244 UNIUBE A mais conhecida aplicação educacional do trabalho de Skinner é, sem dúvida, a máquina de ensinar. Essa máquina originou -se com base nos princípios do condicionamento operante e funciona em muitos lugares como alternativa para a aula tradicional. Existem várias espécies de máquinas de ensinar. Embora seu custo e sua complexibilidade variem consideravelmente, a maioria das máquinas executa função semelhante. A máquina de ensinar é um aparelho que vai transmitindo a informação em pequenos tópicos encadeados. Cada tópico possui uma lacuna que deve ser preenchida pelo aluno a partir de informações adquiridas anteriormente. Escrita a resposta, o aluno aciona a máquina, que logo lhe fornece o resultado certo para conferência. Se ele errou, deve corrigir imediatamente e prosseguir. SAIBA MAIS Skinner acreditava que as máquinas de ensinar apresentam várias vantagens sobre outros métodos. Para ele, deixar o aluno descobrir não é satisfatório para que a aprendizagem aconteça, ele enfatiza que o que falta na sala de aula são os reforços positivos, em sua visão os alunos aprendem porque são reforçados a lembrar conteúdos que ouviram ou viram. Estudantes podem compor a própria resposta em lugar de escolhê -la em um conjunto de alternativas. Exige -se que lembrem mais, e não apenas que reconheçam – que deem respostas e que também vejam quais são as corretas. A máquina assegura que esses passos sejam dados em uma ordem cuidadosamente prescrita. Embora a máquina propriamente dita não ensine, ela coloca estudantes em contato com o professor ou a pessoa que escreve o programa. Em muitos aspectos, diz Skinner, é como um professor particular, no sentido de haver constante intercâmbio entre o programa e o estudante. A máquina mantém o estudante ativo e alerta. UNIUBE 245 Veja, na Figura 6, um modelo de máquina de ensinar, que foi demonstrada na Universidade de Pittsburgh, em março de 1954. Figura 6: Máquina de ensinar, de Skinner. Fonte: Acervo EAD-Uniube. No Blog da Psicologia da Educação, temos uma descrição de uma das primeiras máquinas de ensinar aritmética: No material didático, uma equação a ser completada, por exemplo, aparece na abertura quadrada da parte superior, impressa em uma fita de papel. Na fita, estão perfurados orifícios correspondentes ao que falta na equação. O menino, movendo cursores, faz com que apareçam nos orifícios os números desejados. Uma vez que os cursores tenham sido manejados corretamente, a equação (ou outra equação) ficou completa. Então, o menino gira um botão na frente da máquina. A máquina “lê” a resposta, e se estiver certa, o botão gira livremente e uma nova questão aparece sob a abertura. Se o ajuste dos cursores não tiver sido feito de modo a completar corretamente a equação, o botão não girae o aluno precisa corrigir a posição dos cursores. Pode -se colocar também um contador para marcar respostas erradas. (Essa máquina foi demonstrada na Universidade de Pittsburgh, em março de 1954). Caso queira saber mais, sugerimos a leitura no site: <http://www6.ufrgs.br/psicoeduc/behaviorismo/maquina -de -ensinar -de- -skinner -1/>. Acesso em: 4 maio 2010. SAIBA MAIS 246 UNIUBE Semelhantes às máquinas de ensinar, existem os livros de “Instrução Programada”. Aqui, os textos são impressos e o aluno escreve a resposta no próprio livro, que, adiante, lhe provê meios para conferir. Vamos realizar agora um exercício de instrução programada? Para tal, você deverá preencher as lacunas a seguir, vamos lá? Skinner afirma que a maior parte das atividades humanas é operante. O termo operante destaca o papel ativo do sujeito. Quando o sujeito tem um papel ativo, dizemos que ele tem um comportamento ________________________. Estímulo reforçador é qualquer coisa que fortaleça a resposta desejada. Para que um aluno diga uma resposta desejada, o professor deve utilizar um estímulo reforçador. Quando um professor diz a um aluno “você consegue!” ou “você é capaz!” Ou diz “se você acertar vai ganhar nota 10”, ele está utilizando um __________. AGORA É A SUA VEZ Falcão (1996, p. 159), em seu livro, também nos mostra um exemplo de instrução programada da disciplina História do Brasil com o conteúdo “descobrimento”. Para realizar a atividade, é preciso que o aluno tampe a resposta, deixando à vista somente o enunciado de cada questão. O aluno deve preencher a lápis a lacuna e, então, conferir. Caso ele tenha errado, deve corrigir imediatamente, para, depois, prosseguir. Veja, a seguir, algumas questões: UNIUBE 247 No século XV, Portugal e Espanha estavam entre os países de mais destacada atuação no mundo. Tendo o Brasil sido colonizado pelos portugueses, é importante saber isso sobre Portugal para melhor entender a História do ________________. R: Brasil. A riqueza de __________e__________ provinha principalmente do comércio. Estes países vendiam para toda a Europa produtos muito procurados, obtendo, assim, altos lucros. R: Portugal e Espanha. IMPORTANTE! Creio que, a partir desses exemplos de instrução programada, você conseguiu compreender qual é o objetivo da atividade, não é mesmo? Segundo Falcão (1996, p. 160), “a instrução programada é uma forma diferente de apresentar a explicação da matéria”. Você concorda com ele? Você sabia que um bom exemplo para compreendermos esse tipo de aprendizagem é o famoso “Jogo do milhão”? Nele, encontramos as instruções programadas e uma série de reforços garantindo a continuidade da atividade. Você deverá criar um jogo, como o jogo do milhão, do apresentador Silvio Santos. Deve, ainda, utilizar um dos capítulos vistos por você, até agora, durante o curso. Você poderá apresentar o jogo ao seu preceptor e à turma em um encontro. Seria melhor se este fosse realizado em grupos, portanto, nesse caso, entre em contato com colegas de classe. AGORA É A SUA VEZ 248 UNIUBE Seja criativo e boa sorte! Caso você não conheça o jogo do milhão, sugerimos que acesse o site: <http://64.233.163.132/search?q=cache:S9pt -oeuE00J:pt.wikipedia.org/ wiki/Show_do_Milh%C3%A3o+Jogo+do+Milh%C3%A3o&cd=7&hl=pt- -BR&ct=clnk&gl=br>. Acesso em: 4 maio 2010. Bom, a essa altura, depois de compreender os pressupostos básicos do pensamento de Skinner, você deve estar se perguntando: quais as implicações positivas e negativas da Teoria Comportamentalista para o processo ensino -aprendizagem? Com certeza, essas ideias têm gerado alguns pressupostos para a Educação; entre eles podemos enfatizar: • o ambiente é o fator primordial na aprendizagem e no desenvolvimento humano, o determinismo ambiental; • o comportamento humano é mensurável, portanto, é possível medir e avaliar fenômenos comportamentais; • a aprendizagem decorre da relação estímulo -resposta e das consequências de ações praticadas, tendo como objetivo a aquisição de novos comportamentos ou a modificação dos já existentes; • o ensino resulta do arranjo e planejamento de reforços pelos quais o aluno é levado a adquirir ou modificar um comportamento. Nesse ponto de vista, ganham ênfase os elogios, as notas, os prêmios; • o papel da avaliação na aprendizagem está no contexto de uma concepção que supervaloriza o acerto (a incidência de erro deve ser igual a zero). UNIUBE 249 A esse respeito, Coutinho e Moreira (1992, p. 68) afirmam que: [...] as teorias que explicam a aprendizagem, por meio do condicionamento refletem uma concepção empirista do desenvolvimento e aprendizagem humanos, uma vez que seu pressuposto básico é o de que forças externas ao indivíduo são os determinantes principais de seu comportamento. Dentro de tal visão, o indivíduo é sempre paciente de um processo que ocorre, na maioria das vezes, à revelia de sua vontade. Já na interpretação de Davis e Oliveira (1994, p. 33), a introdução dessas teorias na sala de aula teve o mérito de chamar a atenção dos educadores para a importância do planejamento de ensino. Para essas autoras: A organização das condições para que a aprendizagem ocorra exige clareza a respeito dos objetivos que se quer alcançar (objetivos instrucionais ou operacionais), a estipulação da sequência de atividades que levarão ao objetivo proposto e especificação dos reforçadores que serão utilizados. Ressaltam também que, por outro lado, as teorias ambientalistas, de certa forma, tiveram efeitos nocivos na prática pedagógica de nossas escolas, pois a Educação foi sendo entendida como tecnologia, ficando de lado a reflexão filosófica sobre a sua prática. Mencionam, ainda, que a principal crítica que se faz ao ambientalismo [...] é quanto à própria visão de homem adotada: a de seres humanos como criaturas passivas face ao ambiente, que podem ser manipuladas e controladas pela simples alteração das situações em que se encontram. (DAVIS; OLIVEIRA, 1994, p. 33) Contradizendo as referidas autoras, a teoria pode ser válida em alguns casos. Será que você consegue descobrir em qual situação esta metodologia, baseada em reforços positivos, poderia ter sucesso? Algumas crianças com deficiências conseguem aprender somente através dessa metodologia de ensino, como é o caso de Helen Keller, apresentado a seguir. 250 UNIUBE Veja a história de Helen Keller. Helen Keller era uma menina cega -surda e sua professora, Anne Sullivan, usou a teoria skinneriana, para ensinar a garota a se comunicar. O fragmento, a seguir, foi extraído do texto “Contribuições do cinema para a ação docente: Educação inclusiva – O milagre de Anne Sullivan, da professora Ms. Joana Maria R. Di Santo, baseado no filme O milagre de Anne Sullivan (Direção de Arthur Penn, EUA, 1962). [...] Anne Sullivan e a mãe de Helen decidiram educar a menina. Assim, a professora dá continuidade a seu trabalho, pesquisando sobre disciplina nos livros que trouxe e escrevendo com auxílio de uma caneta e um tinteiro cheio de tinta escura, que Helen derruba. A situação é aproveitada para ensinar à menina, levando -a a perceber que fez algo errado. Também procura ensiná -la a bordar, passando linha numa agulha, em um pano no bastidor, mas a aluna se fura na agulha e “explode”. A professora decide trabalhar a temperança e faz expressão de brava, pega a mão da menina, passando- a por seu rosto, para que perceba a expressão, fazendo com a cabeça sinal negativo. Depois mostra -lhe a expressão de alegria, relacionando -a a algo positivo e ao sinal de sim. Diz “boa menina” e sorri, para que ela aprenda a sorrir, associando o riso à alegria e a algo certo, bem feito. Assim, usa as expressões do rosto para reforçar comportamentos desejáveis da aluna e afastar os indesejáveis: para uma atitude correta um rosto feliz e para uma atitude incorreta um rosto bravo. Mas Helen testa a professora: quebra um vaso e ri, colocando a mão no rosto da professora,