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DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA Prof.a Nathália Delgado B. da Silva DIDÁTICA Marília/SP 2022 “A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma ação integrada de suas atividades educacionais, visando à geração, sistematização e disseminação do conhecimento, para formar profissionais empreendedores que promovam a transformação e o desenvolvimento social, econômico e cultural da comunidade em que está inserida. Missão da Faculdade Católica Paulista Av. Cristo Rei, 305 - Banzato, CEP 17515-200 Marília - São Paulo. www.uca.edu.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. Todos os gráficos, tabelas e elementos são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência, sendo de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Diretor Geral | Valdir Carrenho Junior DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 5 SUMÁRIO CAPÍTULO 01 CAPÍTULO 02 CAPÍTULO 03 CAPÍTULO 04 CAPÍTULO 05 CAPÍTULO 06 CAPÍTULO 07 CAPÍTULO 08 CAPÍTULO 09 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 08 21 31 38 47 55 63 75 82 92 100 110 119 A DIDÁTICA E SUAS ORIGENS: CONTEXTO GERAL A DIDÁTICA E SUAS ORIGENS: CONTEXTO BRASILEIRO DIDÁTICA: CONCEITOS E CONCEPÇÕES ATUAIS A DIDÁTICA E O PAPEL DO PROFESSOR TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS NO BRASIL E SEUS REFLEXOS NA DIDÁTICA: PARTE I TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS NO BRASIL E SEUS REFLEXOS NA DIDÁTICA: PARTE II A DIDÁTICA E SEUS PRESSUPOSTOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL EXPERIÊNCIAS PRÁTICAS DE DIDÁTICA E EDUCAÇÃO INFANTIL A DIDÁTICA E SEUS PRESSUPOSTOS NO ENSINO FUNDAMENTAL SALA DE AULA E DIDÁTICA PRÁTICAS DIDÁTICAS PRÁTICAS DIDÁTICAS ESTRATÉGIAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO REMOTO DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 6 SUMÁRIO CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 129 138 PORQUE A DIDÁTICA ESTÁ AQUI? FINALIZANDO DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 7 INTRODUÇÃO Olá querido aluno! Eu sou a professora Nathália e irei te acompanhar na presente disciplina! Te garanto desde já que ela é muito importante para a sua formação profissional e também pessoal! Nós vamos refletir bastante, ok? Problematizar, criticar, apontar, pois o meu intuito é que você tenha contato com os conteúdos formais, porém, que saiba articulá-los com a sua prática, experiências pessoais e conhecimentos prévios! Com toda a certeza você já ouviu a palavra didática por aí…ela está bem presente na nossa realidade como um todo, ultrapassando os limites da educação. Isso é interessante e o melhor ainda é que você verá, no decorrer da disciplina, que tem muito a aprender, pois esse campo de estudos está muito além de sua concepção no senso comum. A didática é ampla e complexa, não é só uma técnica! Você irá estudar o seu surgimento histórico a nível macro, contextualizando no decorrer do mundo e também de nosso país. Posteriormente, refletirá o conceito de didática em sua concepção atual, que, aliás, será a base de toda a disciplina. Para além deste conhecimento básico, conhecerá as tendências pedagógicas, que também trazem elementos didáticos próprios e peculiares. De modo específico, entenderemos os pressupostos didáticos para a educação infantil e ensino fundamental, refletindo estratégias, ferramentas, conteúdos, organização do trabalho do professor e alunos frente a estes contextos. Articulando teoria e prática, conheceremos algumas práticas didáticas que são vivências diferenciadas em sala de aula com possibilidades para diferentes níveis de ensino. Já ouviu falar em sequência didática ou aula aberta? São alguns exemplos do que iremos estudar! Para finalizar falaremos sobre o ensino remoto, uma realidade presente e necessária na nossa educação! A didática também está presente neste contexto, que aliás é muito rico! Aproveitem a disciplina, tenho certeza que ela irá te surpreender, além de garantir bases importantíssimas para toda a sua formação profissional e acadêmica! Prof.Dra. Nathália Delgado DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 8 CAPÍTULO 1 A DIDÁTICA E SUAS ORIGENS: CONTEXTO GERAL 1.1 Introdução Você sabia que é recente a escola como espaço formalizado para transmissão do saber? Damis (2014) aponta que a instituição deste espaço como direito do cidadão, dever do Estado e transmissor de um conhecimento sistematizado, ocorreu aproximadamente, a pouco mais de dois séculos. Precisamos entender essa parte da história, para posteriormente situar a didática nesse contexto. Afinal, já vou te adiantar que ela relaciona-se com educação, escola e processo ensino aprendizagem. Mas, com toda a certeza é bem mais ampla do que você acredita que ela seja ou que comumente é mencionada no senso comum. Nesta primeira aula nós vamos discutir e entender o processo de origem da didática, indo de seus primórdios até meados da década de 1990. Aproveitem o aprendizado! Boa aula!!! 1.2 Breve histórico Na Antiguidade e Idade Média a divisão de trabalho pautava-se em trabalho escravo, homens livres ou nobres e tratando-se da educação, era um privilégio restrito a poucos. Aliás, a educação neste contexto visava transmitir as visões de mundo que atendiam às necessidades da época, buscando desenvolver habilidades de organização racional do pensamento e de erudição. Nestes períodos, os nomes marcantes e que estudamos até os dias atuais, são de Sócrates, Platão, Aristóteles e São Tomás de Aquino. Cada um com seus pressupostos, desenvolveram e difundiram concepções de educação. Vale ressaltar que na Idade Média havia o predomínio da visão cristã, assim, a educação enfatizou a formação do homem como ser imperfeito em busca da perfeição, visando retirá-lo da condição de pecador e levando-o à salvação da alma. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 9 A autoridade moral, filosófica e religiosa do mestre, a disciplina e a verdade religiosa transmitidas tinham como referência uma visão de Deus que premiava os bons com o céu e castigava os maus com o inferno. Os princípios fundamentais desse modelo de educação podem ser encontrados, por exemplo, na obra de Santo Tomás de Aquino e na Ratio Studiorum dos jesuítas (DAMIS, 2014, p.16). Como o nosso foco é a didática, vamos nos ater aos seus elementos no histórico da educação. Em 1657, no contexto de transição da sociedade feudal, Comênio escreveu a Didáctica Magna que até hoje é um marco entre seus escritos, isto porque, ficou conhecida como um tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. Mas quem foi o Comênio? Ele era bispo, professor e reitor, criticava o dogmatismo da igreja católica e da sociedade que perseguiu o protestantismo. Para ele, a causa das guerras das chagas da humanidade é a ignorância humana, e o remédio para a cura será encontrado na educação de todos os povos (DAMIS, 2014, p. 16). Na imagem abaixo, você pode conhecer o Comênio, o pai da Didática! Título: Comênio Fonte:novaescola.org.br É importante compreender quem era Comênio, pois isso interfere diretamente em sua visão acerca da educação e consequentemente, da didática. Posteriormente ele tornou-se o “pai da didática”, justamente por, naquele momento, trazer algo que era inovador e inserir essa temática na discussão. Quando falamos em didática o seu nome sempre está atrelado! Aliás, você verá nas aulas a palavra “Comênio”, “didática” e “Didática Magna”, escritas de diferentes maneiras pois respeitamos a forma que os autores a registraram. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 10 Analisando a Didáctica Magna após todo o avanço sobre o tema, hoje vemos que ela foi inovadora, porém, limitada, pois o conceito de didática, como vocês verão no decorrer das aulas, é bem mais amplo, não restringindo-se a formasde ensinar, conforme exposto e refletido neste escrito. A concepção de didática anunciada na sua obra, veicula-se ao processo de instruir, desta forma, a Didáctica Magna buscou estruturar um método para reformar a escola e criticar as práticas educativas vigentes, no entanto, vale ressaltar, que não desvincula- se da base religiosa que marca esta época. Segundo Albuquerque (2002) a Didática Magna expressa duas principais características: preocupação da reforma da fé cristã e surgimento dos tempos modernos. Para a autora, os escritos deste livro a partir do princípio de ensinar tudo a todos, visa economia de tempo e fadiga, ou seja, o fim do mundo está próximo e por isso é necessária a conversão verdadeira de todos os homens. E por qual motivo a didática articula-se com tais pressupostos? A didática que se baseava, para Comenius, numa piedade profunda, servia, por outro lado, para a consolidação do projeto de uma burguesia como classe em ascendência. Racionalidade, eficiência e procedimentos seguros para atingir metas propostas são princípios norteadores do modo de produção burguês (ALBUQUERQUE, 2002, p. 40). A autora vai além, mencionando ainda, que a burguesia abandonou a fundamentação teológica da didática magna e se apropriou de seus procedimentos didáticos- metodológicos para atingir as suas próprias finalidades. Ou seja, fez uso de acordo com seus interesses, mesmo que limitando suas nuances. Independente das visões acerca da Didática Magna, é relevante situar e que você compreenda que ela foi um marco histórico, bem como, destinava à didática o papel de instrução, propondo uma reforma da escola, do ensino e da cristandade. Segundo escritos do próprio Comênio: A proa e a popa da nossa Didáctica será investigar e descobrir o método segundo o qual o professores ensinem menos e os estudantes aprendam mais: nas escolas haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho inútil, e, ao contrário, haja mais recolhimento, mais atractivo e mais sólido progresso; Na cristandade, haja menos trevas, menos confusão, menos dissídios, e mais luz, mais ordem, mais paz, mais tranquilidade (COMÊNIO, 1976, p. 44 apud DAMIS, 2014, p. 17). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 11 Para ele, a escola é uma oficina de homens, devendo encaminhar os alunos para a instrução e bons costumes. Quando trata da arte de ensinar tudo a todos, ele apoia- se nas letras, nas ciências, nas virtudes e nas religiões. Ao compreender a escola e o processo ensino aprendizagem, Comênio articula suas práticas as da natureza comparando o professor ao jardineiro por exemplo, propondo que este deve semear habilmente na mente dos jovens as sementes que vão ensinar e assim regar as suas plantas. É uma figura de linguagem que coloca os alunos em processo de construção de conhecimento e o professor como responsável como tal. Conforme mencionado, a Didática Magna criticava as práticas educativas de seu tempo, propondo um tratado universal de ensinar tudo a todos! Pensando com a cabeça de hoje, será que isso é possível? Vamos problematizar a ideia de Comênio? Ao modo que ele propõe algo visando ensinar “tudo a todos”, ele insere os indivíduos nos mesmos pressupostos, ou seja, como se fosse possível estabelecer uma receita universal que atendesse as diferentes especificidades. Se ele estivesse certo, nossos problemas estariam acabados, não é? Era só aplicar o seu manual e não haveria mais problemas de aprendizagem, dentre tantos outros. Outra questão a ser refletida: é saudável inserir todos os alunos nas mesmas práticas de aprendizagem? Hoje já constatamos que há aqueles que possuem mais facilidade de aprender pela via oral, outros pela via visual, dentre outros. Quando eu penso em uma prática única, eu estou desconsiderando estas especificidades, de modo a exigir que todos aprendam da mesma maneira. Essa realidade não é muito diferente do que acontece hoje nas realidades escolares, mas ainda que haja um padrão existe o entendimento das especificidades e o compromisso em considerá-las. Estas reflexões são relevantes para que a gente tenha o senso crítico sobre os escritos do Comênio, mas, é importante reforçar o quanto eles foram importantes naquele contexto histórico. E por este motivo tornou-se um marco. Quando falamos da didática no senso comum, por exemplo, mesmo sem estar na Área da educação e afins, ela é vinculada com maneiras de ensinar, com receitas, fórmulas e manuais. Isto é consequência, deste histórico, que a fez surgir com essa finalidade. Este entendimento está errado? Não! Como vocês verão no decorrer da disciplina, a didática associa-se a esta nuance, mas, ela não para por aí, o seu conceito é mais ampliado! Mas vamos com calma, ok? O seu conhecimento sobre a didática vai sendo construído e aprimorado no decorrer das aulas. Outro nome marcante da época, especificamente no século XVIII, foi de Rousseau. Ele estabelece críticas ao Comênio, apontando que seus ensinamentos serviram à DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 12 burguesia a partir de suas adaptações e vai além, possuindo um conceito de educação diferente do autor supracitado. Para Rousseau, a educação nos deve dar tudo o que não temos ao nascer e de que necessitamos quando adulto, nunca ultrapassando ou antecipando o desenvolvimento natural do homem (DAMIS, 2014, p. 22). A partir destes elementos, há os seguintes princípios didáticos: 1) Respeitar o desenvolvimento natural dos indivíduos; 2) Controlar as influências dos homens, interferindo o mínimo possível; 3) Não impor conteúdos, mas arranjar situações em que o aluno tenha possibilidade de descobrir por conta própria. Ao modo que considera o desenvolvimento natural dos indivíduos, as influências externas ficam em segundo plano, fator mais evidente no segundo item, onde é dito de forma direta acerca do controle das influências. O terceiro item pode ser bastante controverso, pois aponta para o aprendizado espontâneo, ou seja, não há a imposição de conteúdos, de modo que o professor crie situações para que o aluno faça descobertas. Ao modo que insere os conteúdos em segundo plano, há a relativização da relevância dos conteúdos escolares, por este motivo esse item torna-se polêmico. Mas, daí a importância da gente explorar diferentes vertentes, para também refletir por várias perspectivas. Nesta perspectiva, o indivíduo vai se educando de forma autônoma, de modo que haja a menor interferência possível, pois, em primeiro plano é valorizado o seu desenvolvimento natural. Vamos conhecer o Rousseau? Título:Rousseau Fonte: infoescola.com.br DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 13 Uma questão para a gente refletir neste momento: será que não podemos respeitar o desenvolvimento e ao mesmo tempo trazer os conteúdos escolares em primeiro plano? Ou até mesmo, respeitar o desenvolvimento e ainda assim interferir no processo ensino aprendizagem? Tais indagações são para que você reflita os itens também com posicionamentos diferentes. Neste momento, não estamos discutindo o que é certo ou errado, mas problematizando, pensando sobre as questões. O histórico vai mostrar a valorização de diferentes perspectivas, por isso é relevante conhecê-lo. As reflexões atuais sobre a didática, nada mais são do que fruto do seu processo de construção! Cada perspectiva traz um pano de fundo diferente acerca da educação e seus elementos. Desta maneira, reparem que há diferentes questões que ficam em primeiro ou segundo plano no processo ensino aprendizagem. Ao modo que os meios de produção vão ficando mais complexos e o capitalismo vai tornando-se cada vez mais sólido, as relações sociais e de trabalho vão modificando- se e consequentemente as relações na escola também. Damis (2014) aponta que as relações de trabalho caminham agora para instituir uma sociedade voltada para a produtividade e o consumo. Destamaneira, se na Idade Média a educação escolar era privilégio da igreja e atendia às suas necessidades, neste contexto posterior, a Educação entra como dever do Estado e direito do cidadão. O conhecimento científico passa a tornar-se evidência, antagonizando com o conhecimento que antes era de base religiosa. Um nome que marcou este contexto foi o de Herbart, sendo considerado o pai da ciência moderna da educação. Aliás, ele iniciou o processo de sistematização da ciência pedagógica. Nesse momento, a conversão da prática educativa em ciência formal tem seu fundamento na atividade subjetiva do homem e suas bases teóricas encontram-se nos estudos de psicologia e filosofia [...] A ação pedagógica, por meio da atividade subjetiva da criança, penetra no mais íntimo de formação do espírito de um ser que vem ao mundo desprovido de vontade e incapaz de decidir sobre suas ações (DAMIS, 2014, p. 19). O escrito acima enfatiza o papel da ciência como fundamento na educação, além de também expor o entendimento acerca das relações adulto e criança no processo ensino aprendizagem. Herbart insere a figura do adulto como primordial, inserindo a educação moral como responsável por desenvolver a alma da criança. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 14 Fazendo uma ponte entre esse posicionamento e o anterior, há uma diferença clara e que neste momento você precisa comparar: enquanto Rousseau aponta para o desenvolvimento natural do indivíduo, Herbart traz a figura do adulto como primordial ao tratar da criança, ou seja, ele pode até considerar as questões próprias do indivíduo, mas, em primeiro plano pontua uma relação externa para o favorecimento da aprendizagem. O autor justifica que a criança e seu desenvolvimento do caráter possui três estágios, sendo eles: 1) sensação e percepção; 2) memória e imaginação; 3) julgamentos e conceitos universais. A partir de tal entendimento, o ensino herbartiano colocará maior ênfase na literatura e na história, sendo papel do educador tornar claras as representações que são trazidas à mente do aluno, de modo a: [...] desenvolvê-las desde o nível de sensações e percepções, passando pelo da imaginação e da memória até chegar ao pensamento conceitual e ao julgamento. Torna-se fundamental para o educador: encaminhar a maior parte de suas reflexões para o que ensina, tornando-o acessível à criança e dirigindo suas esperanças para que a humanidade pode realizar (DAMIS, 2014, p. 20). A educação moral é inserida neste contexto para além dos aspectos exteriores das ações dos homens, sendo vista como meio para o desenvolvimento da criança e da sua inteligência. A educação moral tem, pois, por fim fazer com que as ideias de justiça e do bem, em todo seu rigor e pureza, cheguem a ser os objetos propriamente ditos da vontade [...] (DAMIS, 2014 p. 20). Vamos conhecer o Herbart? Título: Herbart Fonte: infoescola.com.br DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 15 ANOTE ISSO A partir de tais pressupostos, Herbart desenvolveu um esquema de cinco passos formais a serem seguidos pelo professor na instrução: 1) O professor recorda os conhecimentos já aprendidos; 2) O novo conhecimento é apresentado; 3) Compara-se o novo conhecimento ao velho, encaminhando a assimilação; 4) Passo da generalização; 5) Efetiva-se a aplicação em exercícios. É interessante você analisar os passos pois eles são bastante atuais! A partir do momento em que se recorda os conhecimentos aprendidos, o professor considera os conhecimentos prévios dos alunos, ou seja, fator relevante pois não os considera como uma folha em branco. O processo como um todo também mostra-se a favor do aluno, pois, as etapas são construtivas interligando-se e finalizando com a aplicação de exercícios, que de modo geral são considerados instrumentos de finalização e reforço de conteúdo. Percebem como a concepção de educação e aprendizagem vai se modificando com o decorrer dos anos e contexto histórico e social? Vale salientar que as expressões mencionadas acerca dos autores, são ideias gerais de suas bases de pensamento, pois, para a disciplina, você compreender as concepções gerais já é o suficiente. Mas, vale a pena inteirar-se de forma mais esmiuçada pelos diferentes posicionamentos. Essa concepção do momento, baseada em Herbert, pode ser considerada um avanço frente à concepção anterior, justamente por articular o conhecimento científico às bases educacionais e não mais o conhecimento religioso. A partir do momento em que se valoriza o conhecimento científico são exploradas as hipóteses, comprovações, trabalho estratégico, pesquisa, metodologia, pressupostos antagônicos do conhecimento religioso, que tem por base apenas a fé. Albuquerque (2002) menciona que a valorização do conhecimento científico estava atrelada ao fato de preparar a elite para difundir seus pensamentos às camadas populares, além de preparar a escola como ambiente eficiente. Nesse contexto surge um movimento conhecido como Escola Nova, que vem contrapor-se às ideias anteriores, acusando a escola de não científica e tradicional ineficiente. A partir do entendimento de Albuquerque (2002), a Escola Nova tentava DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 16 ser científica e adotando o procedimento de laboratório: atividade, problemas, dados hipóteses e experimentação, fazendo da pesquisa o procedimento didático. Assim, há a intenção de renovação da escola, estando em evidência a base de pensamento de Dewey. Para ele, a ideia de progresso, distanciou a capacidade original da criança dos ideais e dos costumes dos adultos, desta maneira, a escola nova deve direcionar o crescimento infantil para: melhor compreender o significado do que é aprendido e desenvolver aptidões adequadas à vida na qual faz parte (DAMIS, 2014). Vamos conhecer o Dewey? Título: Dewey Fonte:novaescola.org.br A relação professor e aluno também apresenta elementos específicos, pautando-se na figura do professor como aquele que torna o ensino mais atraente, não limitando- se apenas na transmissão de conteúdos, devendo também facilitar a aprendizagem e desenvolver aptidões nos mesmo. Aliás, Dewey criticava o modelo de ensino pautado na figura do professor como fonte de transmissão de conhecimento. Sua concepção de ensino está fundada no princípio de que a mente e a inteligência humanas evoluem com base em situações práticas e sociais de vida (DAMIS, 2014, p. 23). Desta maneira, defende o ensino focado no aluno, devendo haver experiências que garantam interesse dele nas atividades. Há cinco passos que expressam seus pressupostos, sendo eles: 1) A atividade do aluno; 2) Definição de uma problemática de estudos; 3) Coleta de dados; 4) Elaboração de hipóteses; 5) Experimentação. Acerca do contexto social do momento, é importante relembrar que ao modo que o trabalho e suas condições vão sendo modificadas, também alteram-se as necessidades da mão de obra para executá-lo. Desta forma, o foco do ensino e da educação recaem no desenvolvimento de atividades em que o aluno aprenda habilidades, atitudes e DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 17 conhecimentos científicos. As preocupações da didática e seus elementos vão se alterando de acordo com o contexto. No século XX outro elemento é inserido em destaque no ato de ensinar: ambiente favorável. Tendo por base o conhecimento de Skinner, a organização de um ambiente favorável modela o comportamento do aluno, tendo em vista adaptá-lo e ajustá-lo ao ambiente e à vida social. Para Skinner a escola precisa desenvolver, com urgência, uma tecnologia do comportamento para desenvolver os problemas postos pelo progresso, uma vez que o efeito do ambiente no comportamento foi desconhecido por muito tempo. Para ele, é possível perceber com facilidade que os organizamos interferem no ambiente (DAMIS, 2014, p.24). Percebe que até então a questão do ambiente não entrava nas reflexões ou preocupações? Neste momento, o ambiente não é apenas um cenário, mas sim um contexto atuante com suas devidas interferências, servindo para realizar uma seleção natural. O ambiente é visto como fundamento de formação e de manutenção de qualquer tipo de comportamento. E, por meio de sua manipulação, obtêm-se consequências específicas de condicionamento de comportamentos desejáveis (DAMIS, 2014, p. 25). Vamos conhecer o Skinner? Título: Skinner Fonte:novaescola.org.br Ao modo que segue tais pressupostos, essa linha de pensamento atua por meio de punições e recompensas como garantia de que os objetivos sejam alcançados. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 18 ANOTE ISSO A partir de tal perspectiva e considerando a sistemática do ambiente, a atividade do aluno para aprender será direcionada para se obter as respostas desejadas. Desta maneira há algumas questões base, como: 1) Que comportamento deve ser estabelecido?; 2) Quais os reforçadores que estão à disposição?; 3) Com que respostas é possível contar para iniciar um programa de aproximação sucessiva que levará a forma final do comportamento?; 4) Como podem ser esquematizados com mais eficiência os reforços para manter o comportamento fortalecido? Estas e outras indagações direcionam essa linha de pensamento. Fez-se questão de inseri-las neste momento, para que de forma mais exemplificada você possa compreender os escritos de Skinner, que também marcaram época. Hoje há várias críticas sobre ele, principalmente por ser sistemático e poder expressar percepções limitadas, mas, como estou sempre reforçando por aqui, é relevante você compreender que marcou época e teve sua importância na história da didática e da educação. Refletindo o contexto social vive-se um acentuamento da ciência e tecnologia, distanciando cada vez mais a humanidade do trabalho manual, havendo desta maneira, novos ritmos de vida e consequentemente uma nova visão de mundo. Todos esses pressupostos acerca da educação, papel do professor, aluno e processo ensino e aprendizagem, podem ser criticados com os olhares atuais, aliás, o conhecimento avança! Mas de qualquer forma, os aspectos que concebemos hoje acabam por considerar parte dos elementos difundidos por esses e outros indivíduos que marcaram suas épocas. É neste contexto, que no final do século XX e início do século XXI, Perrenoud introduz uma nova dimensão ao processo ensino aprendizagem e trabalho na escola: a formação de competências, que aliás, também faz parte do trabalho do professor. Para ele, o professor deve criar situações favoráveis para o aprendizado e utilizar métodos ativos de ensino, ou seja, aqueles em que o aluno não assume postura passiva. Tudo isso visando o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes. Desta forma, ao invés de uma postura onde há a transmissão de conteúdos, por parte do professor, este servirá como instrumento para resolver questões, preparar e tomar decisões. Assim, entende-se que há uma nova relação entre o professor e o conhecimento. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 19 Ensinar praticando mais e mais não é suficiente, é preciso criar situações para o aluno confrontar-se com dificuldades específicas, bem dosadas, aprendendo a superá-las. Devem-se criar situações que exijam alcançar uma meta, resolver problemas, tomar decisões e regular a aprendizagem, colocando o aluno em confronto com problemas numerosos, complexos e realistas, visando mobilizar diversos tipos de recursos cognitivos (DAMIS, 2014, p. 26). Reparem que no decorrer dos anos, ao modo que mudam a relação entre professor, aluno, escola e conhecimento a didática também passa a ter necessidades diferentes, porém, sendo sempre norteada por estes itens básicos. Refletindo a educação por essa linearidade histórica e articulando com o contexto social, podemos observar que ela e suas concepções foram modificando o modo que o trabalho foi sendo concebido de maneira mais produtiva, tecnológica, dentre outros. Ou seja, ao modo que o trabalho foi se complexificando, no sentido de ampliar suas nuances, houve a necessidade da educação acompanhar, de modo que suas prioridades também foram alternando-se. É relevante compreender que essa interferência do nível macro ao micro acontece em diferentes âmbitos, para além da educação. Por isso, ao estudar os aspectos educacionais em evidência, é importante situar em que contexto social ela faz parte, pois os elementos sempre são articulados e conforme mencionado, valendo para outros âmbitos também! Tal interferência nos faz refletir acerca da neutralidade dos elementos. Ou seja, a valorização da educação sob determinado aspecto representa o interesse de um grupo, certo? São questões que nem sempre são levantadas ou nos passam despercebidas, mas que sempre que possível devemos considerar! Analise a visão do autor sobre isso , muito pertinente: Se pensar na história da didática, concluir-se à que negar o seu conteúdo instrumental, normativo e pretensamente neutro é, de certa forma, negar a própria disciplina [...] Desde seu primeiro momento, a didática organizou-se como um corpo de doutrina, de prescrição. Lembre-se que Comênio definiu sua Didática Magna, que inaugurou a disciplina como um artifício universal para ensinar tudo a todos. A partir daí, a didática, em sua produção intelectual e ensino, outra coisa não tem sido senão um conjunto de normas, recursos e procedimentos que devem informar e orientar a atuação dos professores (DAMIS, 2014 p. 26). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 20 Concluímos a aula trazendo esses apontamentos acerca da neutralidade, justamente para você ampliar o olhar ainda mais sobre os aspectos discutidos. Aliás, retomaremos esta questão com maior ênfase em aulas posteriores! Nesta aula nós estudamos as origens da didática em seus aspectos gerais, ou seja, envolvendo os pensadores e seus escritos que marcaram época nos diferentes contextos. Na próxima aula nós iremos contextualizar a didática no histórico da educação brasileira! Até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 21 CAPÍTULO 2 A DIDÁTICA E SUAS ORIGENS: CONTEXTO BRASILEIRO 2.1 Introdução Na aula passada nós estudamos a didática em seu histórico geral e na presente aula vamos contextualizá-la em articulação com a educação no Brasil. É importante que no início da disciplina você tenha contato com as bases educacionais seja no âmbito mundial como em seu próprio país. São tais pressupostos que te garantirão bases para as demais aulas e conteúdos da disciplina. Desta maneira, terá contato com as nuances acerca da educação em suas relações com a didática! Boa aula! 2.2 Breve histórico Quando pensamos nos primórdios da educação brasileira de forma recorrente nos vem à cabeça: os jesuítas! Isto porque, nós estudamos sua chegada no país desde a educação básica, também na disciplina de história da educação, entre outros. É justamente por eles que iremos começar nossa abordagem histórica articulando educação brasileira e a didática. Antes de mais nada, vamos situar em qual contexto estamos? Período do Brasil colônia, onde os jesuítas e sua educação estavam atrelados à coroa portuguesa, ou seja, a grosso modo podemos compreender desde já que era uma educação voltada aos interesses dos colonizadores, ou seja, portugueses e sendo difundida por meio dos jesuítas. Para quem destinava essa educação? Aos filhos dos colonos e senhores do engenho, bem como aos índios e escravos, que eram subjugados e deveriam aprender o cristianismo e ideologia dos colonizadores. Vale constar que os escravos eram a classe trabalhadora neste momento, desta forma, era mais escasso seu contato com DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADECATÓLICA PAULISTA | 22 essa educação. Vale ressaltar também, que a educação destinada aos filhos da elite tinham um propósito diferenciado daquela educação destinada aos demais. O plano de educação dos jesuítas ficou conhecido como Ratio Studiorum. Alguns detalhes merecem destaque: a língua latina e os autores clássicos latinos eram indispensáveis, já a língua materna foi sendo suprimida e autores pagãos não constavam. Os retratos abaixo ilustram algumas vivências dos jesuítas em solo brasileiro. Título: jesuítas em solo brasileiro Fonte: mundoeducação.com.br DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 23 Acerca da maneira e forma de ensinar, os papéis eram bem delimitados, onde o professor era o único detentor do saber e o aluno o receptáculo. A memorização era a estratégia de aprendizagem, o método de instrução que baseava-se na memorização palavra por palavra e do conteúdo a ser aprendido. Havia aliás o lema repetitio mater studiorum, que significa: a repetição é a mãe da aprendizagem (ALBUQUERQUE, 2002). Ainda sobre o método de instrução, a autora aponta para o fato de haver a necessidade dos alunos decorarem os conteúdos que sistematicamente são revisados pelo professor. A ideia concebida para defesa dessas práticas é a de que a partir de então os conteúdos são impressos na memória tornando-se parte da inteligência dos alunos, que aliás, também deveriam ser isolados de experiências exteriores para que não tirassem sua atenção. Olhe só que interessante e oposto do que vemos atualmente: isolar o aluno das experiências externas, sendo que hoje, a defesa é de que justamente os conteúdos escolares articulem-se com as vivências dos alunos para que haja maior interesse e motivação. É que neste caso, como há uma base religiosa, há também a preocupação com questões nomeadas como mundanas, assim, o conhecimento que era admitido enquanto útil e necessário era somente os advindos dos jesuítas e afins. Em 1759 há uma mudança nesta educação, quando Marquês de Pombal a assume no lugar dos jesuítas, desta forma, o ensino que antes era organizado em forma de curso, passa a ser composto por aulas avulsas. Para alguns autores essa mudança representa um retrocesso. A partir de então, algumas mudanças vão ocorrendo, em 1800, por exemplo, com a vinda da corte Portuguesa há a necessidade de outras formações, havendo adaptações das escolas. Por muito tempo a igreja continuou como provedora das instituições de ensino, estando estas também articuladas com as classes dominantes. Durante o Império e Primeira República, o país continuava com a força de trabalho escrava que também passou a ser composta por imigrantes e no fim do império a força de trabalho livre que também não exigia qualificação. Com a nova Constituição de 1891, na fase republicana, o ensino secundário era responsabilidade da União e o ensino primário dos estados, bem como, da formação de professores. Albuquerque (2014) aponta que o estado de São Paulo foi pioneiro na preocupação com a educação pública, pois, logo em 1893 organizou o seu ensino primário de forma regulamentada juntamente com a formação de professores. Muitos estados mandavam seus professores para lá ou convidavam tais professores para seus estados para auxiliar na organização de seus sistemas de ensino. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 24 Lembram quando na primeira aula mencionamos sobre o Herbart? Ele teve sua importância na educação, destacando-se em determinado período histórico e sua influência também recai no estado de são paulo pois os responsáveis pela organização de seus sistemas de ensino haviam estudado nos Estados Unidos com tal base de pensamento. No entanto, há estados que agem de forma independente, conforme consta a seguir. Os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e o Distrito Federal, organizaram, independentemente da influência paulista, seus próprios sistemas escolares. Estes eram mais fiéis à tradição da influência francesa, procurando os fundamentos teóricos de suas respectivas organizações na versão francesa da pedagogia européia (ALBUQUERQUE, 2014, p. 46). Vale mencionar que neste contexto a educação atende prioritariamente a camada urbana da sociedade e a população rural fica com um ensino mais improvisado. Neste momento, é importante você se situar da educação e suas nuances nos diferentes contextos históricos do país, refletindo a maneira que ela se apresenta. É o conhecimento prévio necessário para que você tenha a base para os demais conteúdos da aula. Além do fato de você conseguir articular a educação no contexto geral, conforme exposto na aula passada, com a educação em nosso país, foco desta aula. No início de 1900, em meados de 1915, refletiu-se no Brasil novas condições políticas e econômicas, consequências do término da primeira guerra mundial. Consequentemente, há interferências na educação e na didática. Na década de 1920, por exemplo, surge a influência da Escola nova, vimos sobre ela na primeira aula, lembra? Desta maneira, ao modo que estas ideias concretizavam-se em alguns estados, outros tinham diferentes encaminhamentos. Neste contexto, há uma crescente urbanização, ou seja, as camadas rurais estão chegando mais às cidades, fazendo com que haja a necessidade de mais escolas, daí surge a problemática: quantidade versus qualidade. A didática nos contextos supracitados é compreendida como um conjunto de regras e instruções, visando situar os professores na sua atuação e também segregando teoria e prática. A década de 1930 merece destaque pois traz elementos representativos para a educação como sistema de ensino e também para a didática. Estamos em um contexto DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 25 de industrialização e mudanças políticas e na educação há a criação do Ministérios da Educação, bem como, a defesa do ensino público e gratuito. Em 1934 especificamente, a Constituição garante avanços educacionais ao prever, por exemplo, a obrigatoriedade do ensino primário, a necessidade do Plano Nacional de Educação e regulamentar quotas fixas para a Federação, estados e municípios. Olhe só como era a nossa CF/1934. Título: Constituição Federal,1934 Fonte:jus.com.br Há nesta década e na posterior, uma série de acontecimentos que não vamos nos ater aqui para não perder o foco ou entrar nos conteúdos de outra disciplina, mas há avanços, retrocessos e vários aspectos educacionais que são relevantes. Na década de 1950 merece destaque a escola nova que era a base de pensamento que permeia a didática naquele momento. Visando combater o ensino tradicional e valorizar a criança, os seus pressupostos são: individualização, liberdade, iniciativa e autonomia, o aprender fazendo e o aprender a aprender. De base psicológica, as diferenças individuais são valorizadas, bem como as técnicas que focam os indivíduos, desta maneira, há quem critique essa perspectiva por desconsiderar ou deixar em segundo plano o contexto social e suas articulações com o processo ensino aprendizagem e produção de conhecimento. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 26 Acerca das influências desta perspectiva, Albuquerque (2014) afirma que chegou às legislações educacionais e nos cursos de formação para o magistério, além de acabar por reforçar o caráter prático e técnico do processo ensino aprendizagem. Na aula passada, ao tratar da Didática Magna vimos que ela inseriu a didática como arte de instruir, como técnica, lembra? No parágrafo anterior, quando falamos no caráter prático e técnico há forte influência desta concepção de didática fomentada por Comênio. Até a década de 1960 há o predomínio de perspectivas humanistas, que vão perdendo forças no decorrer dos anos, de modo que, o período entre 1960 e 1968 remetem-se a uma crise na pedagogia Nova, segundo Albuquerque (2014). A partir do contextomilitar e tecnocrata, a autora aponta que a didática continua focando a individualidade, liberdade e experimentação, porém, sendo acrescentados agora e com ênfase, à produtividade, eficiência, racionalização, entre outros. Há também a visão da didática como estratégia para o alcance do processo ensino aprendizagem, ou seja, o professor e o aluno passam a ficar em segundo plano e o centro do ensino agora é a técnica. Nessa perspectiva a didática é o processo que define o que e como os professores e alunos devem fazer. Observe e analise a imagem abaixo: Título: educação tecnicista Fonte: novaescola.org.br A imagem é bem representativa do que seja a educação na perspectiva tecnicista. Os alunos estão em uma esteira, simulando um processo de produção, ou seja, ao modo que não considera seus conhecimentos, parte-se de uma educação e formação igual para todos, além do fato desta formação objetivar a inserção social apenas. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 27 A ferramenta que a professora utiliza na aluna, está ali para mostrar a relevância dos instrumentos nessa perspectiva, afinal, professor e aluno estão em segundo plano, conforme mencionado. O importante são as técnicas, os instrumentos para aprendizagem, que claro, serão direcionados pela figura do professor. Reparou que todos os alunos possuem a cabeça cortada? É para demonstrar o processo de alienação em sala de aula, na qual o professor insere o conteúdo. Se os alunos fossem minimamente ativos ou relevantes nessa perspectiva, não precisaria abrir suas cabeças, certo? Aconteceria o diálogo, discussão, debates, dentre outras práticas nesse sentido. Escola enquanto linha de produção, enquanto reprodutora, visando uma formação passiva, pois ao modo que não há incentivo ao diálogo ou não há a consideração dos alunos como atuantes no processo ensino e aprendizagem, sua inserção social vai reproduzir tais elementos. Estes aspectos não são somente da educação de cunho tecnicista, ok? Você entenderá melhor no decorrer da disciplina. Reflita comigo: Não é mais difícil garantir um indivíduo crítico e ativo socialmente se é propiciada para ele uma educação onde ele não possui voz ativa, onde não há estímulo a ele problematizar as situações, não havendo essas opções? Para a gente como sociedade é ruim termos pessoas com uma formação passiva, pois quem irá lutar pelos nossos direitos? Quem vai questionar as estruturas? Enfim, para você refletir para além e de forma articulada com questões práticas e sociais. Retomando, a didática é concebida neste momento como ferramenta, maneira de executar, pois ao modo que passa a ser utilizada como estratégia, tornando-se primeiro plano em detrimento dos alunos e professores, o olhar para ela é estritamente técnico. Portanto, o professor assume o papel de executor, visto que, ele será o responsável em executar os objetivos instrucionais, as estratégias de ensino e os modelos de avaliação. O formalismo didático era observado nitidamente através dos planos elaborados segundo normas prefixadas pelos cânones didáticos; quando muito o discurso dos professores é afetado, mas a prática pedagógica permanecia a mesma (ALBUQUERQUE, 2014, p. 53). Essa prática de cunho tecnicista recebe a mesma crítica da escola nova, de uma perspectiva que não considera os contextos: social e contextual, havendo uma desvinculação dos fins a que servem a educação, ou seja, não há essa preocupação. Sforni (2015), pontua que até mesmo os problemas educacionais são tratados de maneira técnica e assim a didática assume papel fundamental na formação de professores pois era considerada: neutra, objetiva e racional. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 28 Na década de 1970, a didática assume o discurso reprodutivista, isto porque há por parte dos professores, um pessimismo didático. A escola estava sendo considerada como um aparelho do estado e reprodutora das condições, assim, havia a sensação de que não valeria a pena melhorar o ensino. Acerca deste contexto social: [...] a educação é requisitada para atender tanto as demandas do crescimento econômico, como os impactos do fato de esse crescimento estar concentrado em poucas mãos. Nesse contexto, o lema do governo era “segurança e desenvolvimento” e a educação deveria atender a esses dois aspectos: a segurança via formação moral e cívica, propaganda anticomunista, desenvolvimento via expansão do sistema educacional, combate à evasão e repetência para que fosse elevada a produtividade do sistema escolar (SFORNI, 2015, p. 89). Em contraponto, na década de 1980, principalmente após a ditadura militar, há olhares mais otimistas, bem como, busca pelos direitos e conquistas políticas, tanto por parte dos professores, quanto de outras classes. Assim, há também novos rumos para a educação e a didática. Em 1982, por exemplo, a Pontifícia Universidade Católica, PUC/RJ, realizou um seminário tendo como tema a didática, visando discutir o ensino e seus elementos. As constatações não foram muito positivas, porém, vamos analisá-las ponto a ponto pois refletem a didática até o momento, ou seja, desde os seus primórdios no país. 1) A didática não possuia conteúdo próprio, constituindo-se em um conjunto de informações fragmentadas; 2) Apresentava-se desarticulada entre teoria e a prática, caracterizando-se pelo consumismo de teorias importadas; 3) Reduzia-se ao aspecto instrucional; 4) Tinha como pressuposto implícito a afirmação da neutralidade científica e técnica; 5) Desarticulava-se das disciplinas de fundamentos da educação; 6) Não havia integração entre suas dimensões técnica, humana e política. Tais pontos resumem o que foi sendo difundido acerca da Didática até então. É importante você observar neste momento que até a década de 1980, ainda não havia um corpo denso que delimite seus pressupostos, ou seja, falamos em didática, mas, ela apresenta-se de forma diversa, às vezes técnica, priorizando o contexto político do momento, não integrando elementos políticos na educação, dentre outros, conforme salientado acima e visto no decorrer da aula. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 29 É a partir da década de 1990 que a didática passa a estabelecer-se de maneira mais sólida e com objetivos mais definidos. Ao modo que a nossa Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB/1996, preocupa-se como uma educação de qualidade, contextualizada, dentre outros aspectos que até hoje estão vigentes, a didática precisa articular-se com tais elementos. A educação agora, passa a ser concebida com um papel transformador, além de estar intimamente relacionada com os diferentes contextos. Ou seja, eu compreendo que a vida do meu aluno interfere em sua educação, bem como, que a economia do país também. Assim, há uma rede de relações a serem consideradas ao pensar tanto a educação, de modo geral, como a educação particular do indivíduo, pois ambos recebem influências. Observe a imagem abaixo: Título: educação transformadora Fonte: novaescola.org.br Na imagem nós vemos a figura de um adulto e seis crianças, bem como, mapas mentais que trazem diversos elementos. A ilustração está aqui para demonstrar uma forma de educação diferente, antagônica àquela baseada na imagem anterior, por exemplo. Neste momento, o professor está ao lado dos alunos, os alunos possuem pensamento, o que representa também voz ativa e de forma consequente, posicionamento e senso crítico. Todos os elementos expressos no mapa mental, estão aqui para demonstrar que os indivíduos são plurais com diferentes necessidades e demandas e que seu processo escolar não pode perder estes elementos de vista, afinal, como desvincular educação com o social? DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 30 A imagem representa os pontos valorizados pela educaçãode hoje! Claro, que não há como definir de modo exato todos os elementos que ela contempla, pois a educação também é prática e possui aspectos que não conseguimos antecipar. Ao modo que a educação valoriza tais elementos, a didática passa a estar articulada como uma educação transformadora, de trabalhar para além dos métodos e técnicas, procurando associar escola-sociedade, teoria-prática, conteúdo-forma, técnico-político, ensino-pesquisa, professor-aluno (ALBUQUERQUE, 2014, p. 56). Lembram que em períodos anteriores o professor e sua função ficavam em segundo plano, em detrimento do método? E a didática assim priorizando quesitos técnicos? Agora o professor possui papel primordial, devendo estar atento, por exemplo, também aos meios mais coerentes a serem utilizados, visto que, há a preocupação com a qualidade da educação. Para além do como ensinar, também espera-se que o professor saiba que esta prática está associada com um contexto e que também tenha intencionalidade em suas ações, bem como, entenda cada aluno em sua especificidade. Desta forma, o processo ensino aprendizagem, a educação e a didática são mais amplos e complexos, principalmente quando comparados aos períodos anteriores. Na fala a seguir a autora expõe muitos bem acerca dos anos passados. A visão unilateral sobre o processo ensino-aprendizagem esteve presente na Didática de inspiração escolanovista, bem como na Didática de base tecnicista, mas cada uma focou um dos aspectos do ensino, a primeira os aspectos psicológicos e a segunda os meios, recursos e produtos do ensino. Apesar de muito diferentes, essas duas abordagens não consideraram a dimensão política do ato educativo. As condições socioeconômicas e estruturais não foram levadas em consideração por nenhuma delas (SFORNI, 2015, p. 95). Acerca dos elementos da didática, na visão após anos 1990, há vários outros a serem considerados, no entanto, como trata-se do olhar atual, iremos explorá-los em outras aulas, ok? O importante é você compreender neste momento o grande passo que a didática dá no Brasil principalmente a partir da década de 1990, tornando-se mais ampla e considerando mais aspectos. Na próxima aula continuaremos com essa discussão, focando a didática em seus conceitos e concepções atuais! Até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 31 CAPÍTULO 3 DIDÁTICA: CONCEITOS E CONCEPÇÕES ATUAIS 3.1 Introdução Tomando por base as aulas anteriores, já sabemos que a didática relaciona-se com a educação, processo ensino e aprendizagem, escola, professores e alunos, certo? Vimos que no decorrer dos anos ela esteve atrelada a tais aspectos e focando diferentes nuances, sendo influenciada pelo contexto político e econômico, ou até mesmo com as preocupações da educação de cada época. Tratando-se do Brasil, vimos que as correntes técnicas e humanistas se sobressaíram, possuindo elementos independentes que as caracterizam, porém, também possuindo um núcleo em comum: a não preocupação e articulação da educação e didática com fatores externos e afins. É a partir da década de 1990 que tais necessidades vêm à tona, ou seja, que o olhar sobre a didática passa a ser mais específico, havendo a necessidade por parte dos autores de situar e definir esse campo de estudos. Na presente aula nós iremos estudar a didática a partir de suas concepções e conceitos atuais, refletindo os diferentes pontos levantados pelos autores e buscando compreender sua importância na educação! Boa aula!! 3.2 Compreendendo a didática Antes de pensar a didática propriamente dita, vamos refletir o conceito de Pedagogia, considerando que esta é uma área do conhecimento que tem por objetivo as práticas educativas em diferentes modalidades. Aliás, não vamos limitar as práticas educativas ao “como” ou “porque motivo” se faz, mas preocupando-se também em orientar o caráter educativo com as finalidades sociais e políticas. Ou seja, se faz desta forma para que se chegue a tal objetivo, ou aquele outro. Neste momento, mesmo que em DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 32 outras palavras, estamos nos referindo a práticas e processos contextualizados, com intenções. E onde a didática articula-se a estas questões? Segundo Libâneo (2017), pedagogia e didática formam uma unidade, se correspondem, mas não são idênticas, ou seja, possuem características próprias, ainda que estejam articuladas. Pode-se afirmar que todo trabalho didático é pedagógico, mas, nem todo trabalho pedagógico é didático. A didática nesse ponto de vista constitui-se como prática que realiza objetivos e intervenções em situações específicas de ensino e aprendizagem com suas devidas finalidades sociais, pedagógicas e com seus devidos princípios e condições. Se é vinculada ao processo ensino e aprendizagem, bem como, considera o contexto de tais elementos, entende-se que a didática visa a formação intelectual e moral dos alunos. Vamos fazer um parêntese: se a gente pensar agora a didática como disciplina da faculdade, dos cursos de graduação, por exemplo, ela está presente nos diferentes cursos de licenciatura, isto porque, estes estão relacionados com a prática pedagógica, ou seja, ministrar aula, experiência docente. Assim, entende-se que há uma base de pensamento necessária que possa orientar futuros profissionais da educação sobre sua atuação nesse campo e o que une todas as áreas? A didática. Percebe como ela é relevante? Seja como conceito na educação, ou seja como disciplina? Aliás, elas estão imbricadas, pois trata-se de uma didática só! Então, é importante você compreender neste momento que discutimos a didática como conceito na educação, mas, também discutimos ela como disciplina pois ela é tudo isso! A explicação a seguir define muito bem o termo, reflita: A didática consiste na sistematização de conhecimentos e práticas referentes aos fundamentos, condições e modos de realização do ensino e da aprendizagem dos conteúdos, habilidades, valores, visando ao desenvolvimento das capacidades mentais e à formação da personalidade dos alunos (LIBÂNEO, 2017, p. 15). Observe que na explicação supracitada, o autor foca o que seja a didática, bem como, expõe também onde ela quer chegar, ou seja, não limita o conceito a sua forma prática ou técnica, mas insere um objetivo final: visando desenvolvimento das capacidades mentais e à formação da personalidade. Se a didática visa tal desenvolvimento, eu posso afirmar que ela refere-se à educação? Sim! E que ela refere-se ao processo ensino-aprendizagem? Também, ela está articulada a tudo isso e hoje também às consequências e intenções, logo que DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 33 visa o desenvolvimento de capacidades mentais, dentre outros. Não foca na técnica ou só nas práticas por elas mesmas, mas destas articuladas aos seus fins. A partir de tais pressupostos, o núcleo da didática então é a mediação entre o aluno e o conhecimento, suas aprendizagens, em situações concretas. Desta maneira, o papel do professor também é bem definido e articula-se diretamente com a didática, pois, também é sua função servir como mediador entre o aluno e o conhecimento, não é mesmo? Assim, a didática relaciona-se com professor e aluno de diferentes maneiras. Enquanto media o conhecimento entre o aluno, serve de instrumento para o professor, serve como base. O ponto em comum são os objetivos a que serve. Libâneo (2017) pontua quatro focos da didática: 1) os conteúdos dos saberes a ensinar; 2) a ativação das capacidades intelectuais dos alunos; 3) o ambiente sociocultural e institucional para o ensino; 4) organização das situações didáticas com os meios adequados. Refletindo os itens mencionados conseguimos ligar diretamente o item dois com os alunos, pois trata de sus capacidades intelectuais, o item número um com osprofessores, pois versa sobre os conteúdos e saberes a serem ensinados e os itens três e quatro com ambos, pois, tratam do ambiente e das situações que os englobam. Todos estão articulados e devem caminhar de forma inerente, mas relacionamos a um e a outro, simplesmente para ter um olhar específico sobre eles. Lembra lá na primeira aula quando estudamos que a didática tratava das maneiras de ensinar, assim como prevê o senso comum, porém, que não se limitava a isso? Pois é, como vem sendo demonstrado, ela é bem mais ampla! Ela investiga o processo ensino aprendizagem em conjunto, articulando as interações entre ensino e estudo, ensino e desenvolvimento intelectual (LIBÂNEO, 2017). Baseados nessa concepção contemporânea, há autores que mencionam haver o triângulo didático, ou seja, a tríade que a compõe, sendo: o professor o aluno e a matéria. No entanto, vale ressaltar que estes elementos não devem ser encarados de maneira estática ou burocrática, havendo uma rede de relações e interações entre eles, conforme exposto a seguir: [...] a relação dinâmica entre três elementos constitutivos do ato didático - o professor, o aluno, a matéria - forma as categorias da didática: para que ensinar? O que ensinar? Quem ensina? Para quem se ensina? Como se ensina? Sob que condições se ensina e se aprende? Tais categorias formam, por sua vez, o conteúdo da didática (LIBÂNEO, 2017, p. 17). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 34 São tais indagações que unem a tríade, bem como, que tornam a didática ainda mais complexa. Por exemplo, se o seu foco fosse apenas o agrupamento de conteúdos, não haveria a necessidade de articulá-la com as questões que dizem respeito a quem se ensina, ou para que e o que ensinar. Quando vimos a sua trajetória nos capítulos anteriores, ficou evidente que estas preocupações foram sendo aglutinadas com o passar dos anos, fazendo com que sejam preocupações atuais e contemporâneas. Este ponto é muito positivo, pois demonstra o quanto o conhecimento avançou, ou seja, não ficou estagnado com os elementos passados, acompanhando a educação como um todo. ANOTE ISSO Visto os questionamentos que ligam essa tríade da didática, vamos compreender cada um deles? Eles são bastante relevantes para a disciplina e para a educação como um todo, além de também deixar o nosso olhar mais crítico sobre o conteúdo. 1) Para que ensinar: Traz os problemas da educação em geral, ou seja, o que se espera da escola e do ensino, quais os seus objetivos. Para refletir além: que objetivos definir em uma sociedade cheia de desigualdades e com esse fato interferindo na educação? 2) O que ensinar: Remete-se à seleção dos conteúdos, mas estes de forma interligada aos objetivos educacionais, de modo que o ensino não fique descontextualizado. Essa análise implica também a seleção de acordo com a faixa etária adequada; 3) Quem ensina?: Diz respeito aos agentes que ensinam, sejam eles professores, familiares, dentre outros; 4) Como ensinar?: Refere-se aos meios e estratégias, aos métodos utilizados. Este ponto é relevante estar articulado com os objetivos, além, da consideração nas especificidades dos alunos e comunidade escolar (LIBÂNEO, 2017). Há uma série de elementos a serem refletidos em cada item. Eles ficaram sintetizados de forma mais explicativa, mas, é importante situar que seus fundamentos não se esgotam nas linhas supracitadas. Urban (2009) nos faz uma consideração relevante, mencionando que a didática hoje possui o compromisso de buscar práticas pedagógicas que promovam um ensino eficiente com significado efetivo aos educandos e contribuindo com a transformação DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 35 social. Aliás, ela remete-se a didática como uma ciência do ensino, no sentido de ser essa a sua especificidade: o ato de ensinar. A fala da autora vai ao encontro dos elementos supracitados pois trata a didática e o processo ensino aprendizagem de forma contextualizada e com intencionalidades, ao modo que menciona o significado efetivo e a transformação social. Ou seja, eu ensino com intenções e objetivos e independente do meu conteúdo e maneira de ensinar eu foco a transformação. Consegue perceber a relevância que tais elementos possuem? Se eu busco transmitir conteúdos por eles mesmos, eu não tenho responsabilidade acerca de suas consequências, sendo assim, uma maneira burocrática de ensinar. Eu transmito conteúdos para os meus alunos e não me preocupo se estão aprendendo ou se são relevantes para eles, as implicações de tais conteúdos no contexto social, entre outros. Ao modo que a didática valoriza o processo ensino aprendizagem com suas devidas contextualizações e intencionalidade essa forma burocrática de ensinar fica obsoleta, dando espaço a uma aprendizagem significativa e real. Comparando as reflexões e discussões, acerca da didática, antes e após a década de 1990, o principal fator a ser observado é justamente a valorização de seus elementos de maneira articulada e complexa. Se antes a educação e o processo ensino aprendizagem baseava-se na figura central do professor com suas técnicas específicas, hoje considera- se diversos elementos, que aliás, você estudará com mais detalhes na aula seguinte, que trataremos do trabalho pedagógico do professor. Libâneo (2001) conceitua a didática como a disciplina que estuda o processo de ensino no seu conjunto, no qual os objetivos, conteúdos, métodos e formas organizativas da aula se relacionam entre si de modo a criar as condições e os modos de garantir aos alunos uma aprendizagem significativa. Vamos compreender o conceito do autor em detalhes? Em um primeiro momento ele foca a didática como disciplina que estuda os processos de ensino, ou seja, processo ensino aprendizagem. Posteriormente, ele agrega ao conceito, evidenciando que há objetivos, conteúdos, métodos, ou seja, elementos específicos que o compõem e mais do que isso, que visam garantir aos alunos aprendizagem significativa. Amplo e complexo não é mesmo? Podemos então tratar a didática como um simples método de ensino? Não! Podemos tratar a didática apenas como conjunto de ações do professor? Também não! Porque ela refere-se às ações, aos métodos, mas também com objetivos e estratégias com uma DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 36 intencionalidade, proporcionar desenvolvimento, um processo ensino e aprendizagem eficaz. Podemos dizer, então, que o processo didático, é o conjunto de atividades do professor e dos alunos sob a direção do professor, visando à assimilação ativa pelos alunos dos conhecimentos, habilidades e hábitos, atitudes, desenvolvendo suas capacidades e habilidades intelectuais. Nessa concepção de didática, os conteúdos escolares e o desenvolvimento mental se relacionam reciprocamente, pois o progresso intelectual dos alunos e o desenvolvimento de suas capacidades mentais se verificam no decorrer da assimilação ativa dos conteúdos. Portanto, o ensino e a aprendizagem (estudo) se movem em torno dos conteúdos escolares visando o desenvolvimento do pensamento (LIBÂNEO, 2001, p. 03). Assim, podemos afirmar que a didática relaciona-se ao processo ensino e aprendizagem, de modo geral, estabelecendo também funções específicas aos professores e alunos, de modo que ambos são sujeitos ativos nesse processo. Aliás, propiciar o desenvolvimento de ambos, professor e aluno, é tarefa constante da didática, que está sempre buscando novas respostas para tal. Segundo o autor supracitado, o pensamento didático mais avançado, apoia-se nas seguintes proposições acerca do processo ensino e aprendizagem: 1) papel ativo do sujeito na aprendizagem escolar; 2) formação de sujeitos capazes de desenvolver pensamento autônomo, crítico e criativo; 3) desenvolvimento de competências cognitivas do aprender a aprender; 4) aprendizagem interdisciplinar; 5) construção deconceitos articulados com as representações dos alunos. Os itens são autoexplicativos, mas vamos refleti-los para um melhor entendimento. O autor está afirmando que as tendências e estudiosos mais contemporâneos da didática, pontuam elementos primordiais em que ela se preocupa, ou seja, são básicos ao processo ensino aprendizagem, aos métodos, à organização do trabalho do professor, e todos os pressupostos que a didática contempla. Há uma base de pensamento que insere o aluno como sujeito ativo, ou seja, indivíduo que também possui conhecimentos e que estes devem ser articulados aos conteúdos escolares, para que assim desenvolvam-se como sujeitos críticos e autônomos. Consequentemente, ao modo que estabelecem relações, problematizam, estes também ficam cientes do aprender a aprender, ou seja, compreender a maneira que os processos interferem em si. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 37 Para além do aluno, ao tratar da aprendizagem interdisciplinar é justamente o fato de não tratar o ensino de maneira burocratizada, ou seja, separado por gavetas, por conteúdos que não se articulam, pois, na vida os conteúdos estão acontecendo de maneira inerente e assim, os indivíduos precisam reconhecê-los. O processo de ensino e aprendizagem teria, então, como referência, o sujeito que aprende, seu modo de pensar, sua relação com o saber e como constrói e reconstrói conceitos e valores, ou seja, a formação de sujeitos pensantes implicando estratégias interdisciplinares de ensino para desenvolver competências do pensar e do pensar sobre o pensar (LIBÂNEO, 2001, p. 07). Quanto conteúdo não é mesmo? Da década de 1990 para cá a didática e seus pressupostos ampliaram bastante, de modo a deixar as suas concepções mais completas e complexas. Neste momento, valoriza-se suas bases técnicas, ou seja, que ela organiza metodologias e conteúdos, no entanto, sem perder de vista os outros elementos que a compõem. Sem desconsiderar sua rede de relações, articulações e propósitos, aliás, são estes aspectos que a diferenciam da visão da didática em anos anteriores. Tendo discutido os principais aspectos da didática na sua forma contemporânea, encerramos a presente aula. Na aula seguinte discutiremos de maneira mais esmiuçada a didática em articulação com o trabalho pedagógico do professor . Até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 38 CAPÍTULO 4 A DIDÁTICA E O PAPEL DO PROFESSOR 4.1 Introdução Vimos nas aulas anteriores que a didática articula-se com o processo ensino aprendizagem e desta forma, está intimamente relacionado aos professores e alunos. Na presente aula vamos estudar as articulações entre a didática, o professor e o seu trabalho pedagógico, considerando a didática em seus conceitos atuais e contemporâneos. É uma reflexão que te acrescenta para a formação e também que visa aprimorar o seu fazer pedagógico, pois vamos refletir o professor e o seu fazer docente! Aproveite a aula! 4.2 Articulando a didática o professor e o fazer pedagógico. Cabe aos professores, independente de vertente educacional ou área de pesquisa, o papel de ensinar. Esta é a sua atividade principal e a sua função: ensinar os alunos. Para além de dom ou levar jeito é preciso que você compreenda já no início da discussão de que para ser professor é necessário os fundamentos necessários, por este motivo fazemos uma graduação que nos habilite a ser professor. Quando alguém diz que fulano tem o dom, pode até ser um elogio pelo fato de levar jeito, mas, dom não é suficiente, para ser professor precisamos ter as devidas fundamentações, aportes teóricos e práticos, responsabilidades, estratégias, dentre tantos outros fatores que implica o processo ensino e aprendizagem que é o centro do trabalho pedagógico do professor. A prática profissional de professores não é uma mera atividade técnica, não se constitui como mero fazer resultante de habilidades técnicas, mas como atividade teórica e prática, uma atividade prática que é sempre teórica, pensada, e um movimento do pensamento, do que resulta uma prática pensada (LIBÂNEO, 2017, p. 30). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 39 Urban (2009) aponta que o trabalho do professor é uma constante ação, reflexão, reflexão e ação. Aliás, é assim que deve ser considerado, enquanto prática consciente, investigativa e com intencionalidade. A intencionalidade remete-se ao fato de objetivos, ações fundamentadas, ou seja, todas as minhas ações com os alunos possuem intenções, há propostas específicas. Desta maneira, há também um planejamento com as minhas possíveis ações, hipóteses e ponto de partida e chegada. Por este motivo, estando na educação o planejamento é tão relevante. Ao modo que se põe como crítico e reflexivo, o professor consegue atuar de maneira ativa na sociedade, pois, por meio de um ensino contextualizado, está alinhando os seus objetivos educacionais com algo maior. Lembra que a gente estudou em aulas passadas que os contextos estão articulados? Desta forma, o professor não pode perder isso de vista. Na prática, como seria? Seria estabelecer conexões entre os conteúdos escolares e a realidade dos alunos, bem como, com as situações na qual estão expostos, com os seus interesses também. Tornando assim, o ensino mais atrativo e menos burocrático. Além de dominar os conteúdos, o professor também necessita saber as estratégias para trabalhá-lo, estar ciente dos processos e recursos metodológicos para uma melhor partilha de seus conhecimentos (URBAN, 2009). Há quem defenda que o professor está em constante formação, sendo sua prática uma formação continuada em serviço, isto porque, o ambiente real de sala de aula o expõe a diferentes situações e desta maneira ele está em constante reflexão. Faz sentido, não é? Nos apropriamos da teoria, fazemos nosso planejamento como professor, mas quando vamos para a sala de aula temos a realidade para encarar com novos elementos e situações adversas que nem sempre são passíveis de antecipação. Aliás, para além da formação continuada em serviço, o professor também deve se manter em constante atualização, de modo a acompanhar o conhecimento e estar sempre atualizado. Por isso, é necessário que a formação do professor seja continuada, começando nas instituições de formação inicial e se estendendo ao longo da vida profissional com práticas de atualização constante. Concomitante à formação inicial (formal), a formação contínua deve estender-se a escola (URBAN, 2009, p. 34). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 40 Em poucos parágrafos, quantos elementos já foram evidenciados sobre o professor e sua função, não é mesmo? Realmente a sua prática é complexa e demanda uma série de fatores, sendo de extrema responsabilidade você ser o profissional com o intuito de educar. O trabalho pedagógico do professor é extenso e demanda todos os pontos já mencionados, além de outros que ainda vamos ponderar, e tantos outros que poderão surgir nas demandas práticas. Desta maneira podemos afirmar que não é tarefa fácil delimitar o papel do professor, até porque ele também está vinculado ao que se espera no contexto social e econômico, porém, conforme mencionado anteriormente, vamos nos ater às peculiaridades gerais, necessárias a este profissional independente de sua formação, corrente teórica, dentre outros. A autora supracitada faz uma fala relevante a este respeito, pontuando que ser um professor ideal ou possuir uma educação ideal não é tarefa fácil, justamente pois tais características são adaptáveis ao período histórico, à realidade da escola, ao tipo de ser humano que se deseja formar, dentre outros. Desta forma, ainda que pareça algo simples o fato do professor ensinar, há uma série de elementos que estão por trás desse pressuposto. Para além dos motivos mencionados, há também o fatode que ensinar, neste caso, não refere-se a uma atividade técnica, sem significado, ou ação resultante de habilidades técnicas, mas sim como atividades teórica e prática, uma prática que é sempre teórica, pensada, e um movimento do pensamento, do que resulta uma prática pensada (LIBÂNEO, 2017). Mas o que essa fala do autor significa? Que as ações do professor, que o seu fazer pedagógico, suas práticas, baseiam-se na teoria, pois devem ser fundamentadas e que os seus fundamentos, suas bases teóricas, também baseiam-se nas práticas, desta maneira é uma via de mão dupla e um trabalho polivalente que não desconsidera nenhuma nem outra vertente. O trabalho do professor é apenas teórico? Não! É apenas prático? Também não! O trabalho do professor contempla a dupla: teórico e prático. Não se trata de tecnicismo, mas de relação entre a prática de ensino e o princípio teórico-científico que lhe dá suporte. A reflexão sobre a prática não resolve tudo, nem a experiência refletida. São necessárias estratégias, procedimentos, modos de fazer, com o suporte do conhecimento teórico, que ajudam a orientar com mais competência a aprendizagem dos alunos (LIBÂNEO, 2017, p.35). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 41 O autor supracitado faz um apontamento muito interessante relacionando o ser professor com as categorias que contemplam a didática. Ele aponta que os elementos constitutivos da didática são os mesmos que definem os conteúdos das práticas docentes, assim, ambos estão intimamente relacionados. Desta maneira, prevê quatro requisitos aos profissionais professores. O primeiro requisito diz respeito ao domínio dos conteúdos da matéria, pois é através de tal domínio que o professor será capaz de organizar a sua disciplina de modo a favorecer os alunos. O segundo requisito refere-se a apropriação de metodologias de ensino, sendo elas que facilitarão o desenvolvimento de seu trabalho. O primeiro e o segundo requisitos são alinhados, pois a partir do momento em que você domina os conteúdos, automaticamente há questões metodológicas alinhadas àqueles conteúdos. Pensando na prática especificamente, cada conteúdo alinha-se a uma forma de trabalho, já parou para pensar? Se você for ensinar cálculos, por exemplo, deverá utilizar estratégias diferentes do professor que for ensinar história ou língua portuguesa, dentre outros. Por isso a premissa de que determinados conteúdos alinham mais ou menos a determinadas metodologias. Por este motivo quando estamos no papel de aluno pode acontecer de muitas vezes não nos adequarmos na maneira que o professor rege suas aulas, mesmo que o conteúdo nos agrade, ou vice versa. Provavelmente você já ouviu alguém dizer: “eu gosto da matéria do fulano, mas não da maneira que ele dá aula” ou “eu não gosto da matéria do fulano, mas a maneira que ele dá aula me agrada”. Agora estando no papel do professor, é muito mais fácil entender o porquê optamos por determinada postura frente a determinados conteúdos e vice-versa. Daí também a relevância de, em alguns casos, situar os alunos sobre a sua forma de dar aula, por exemplo, explicar as atividades que serão feitas e os motivos que adequam-se ao conteúdo, trocar ideias no término, mensurar o que deu ou não certo. Vale a pena situar, que aqui estamos partindo do pressuposto de que o professor possui autonomia em sala de aula, mas há casos, dependendo da instituição de ensino, que o professor deve seguir um roteiro previamente planejado pela escola, ou seja, já há metodologias próprios para determinados conteúdos e vice e versa. Retomando os requisitos, o terceiro está alinhado aos alunos e suas demandas e características individuais. Ao modo que o professor as conhece, fica mais fácil trabalhar de modo com que atinjam as capacidades almejadas e necessárias. Aliás, conhecer o aluno é o pontapé inicial para os demais requisitos também, analise a seguinte fala do autor: DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 42 O conhecimento dos alunos é necessário para análise dos conteúdos e organização do plano de ensino. É o momento em que o professor formula tarefas de aprendizagem com suficiente atrativo para canalizar os motivos dos alunos para o conteúdo. Esta é a maneira de ligar o conteúdo e o desenvolvimento da personalidade (LIBÂNEO, 2017, p.37). Se o objetivo final da educação e do professor é a aprendizagem, diz respeito aos conhecimentos dos alunos, certo? Assim, eles são o pontapé inicial do processo e também o ponto de chegada. Já tinha parado para pensar nisso? Este é um conhecimento muito relevante e que você irá levar para a toda a sua formação! Lembre sempre disso! Já o quarto requisito diz respeito ao conhecimento do professor acerca das práticas socioculturais e institucionais em que os alunos estão envolvidos, ou seja, o contexto e a forma que ele atua na motivação dos alunos. A este respeito: Não basta obter o conhecimento teórico e os meios pedagógicos- didáticos para melhorar e potencializar a aprendizagem dos alunos, é preciso considerar os contextos concretos em que se dá a formação. Não se pode separar as pessoas que atuam e o mundo social da sua atividade (LIBÂNEO, 2017, p.39). Esta questão do contexto vai ao encontro do que mencionamos anteriormente da articulação entre contexto macro e micro, no que diz respeito à escola e ao meio em geral e também dos conteúdos em relação à realidade dos alunos. Quanto mais próximo de sua realidade, mais atrativo ele será. É mais fácil decorar a letra da música ou a matéria da escola? Geralmente é a letra da música e existe uma razão para tal e está associada com nossos interesses e gostos particulares. Já os conteúdos escolares chegam até nós de forma burocratizada e imposta, por isso a necessidade de torná-los mais leves e orgânicos aos alunos. O quinto e último requisito diz respeito às convicções ético-políticas, que norteiam o papel educativo do professor, que dão a base para ela situar os alunos e inseri-los como sujeitos ativos sociais. Não se trata de conduzir os alunos por meio de suas aspirações, mas, orientá-los de maneira crítica sobre a realidade que estão inseridos e suas devidas possibilidades. 4.3 Refletindo o fazer pedagógico Neste momento vamos prosseguir com o conteúdo focando ainda mais o trabalho do professor, ou seja, o seu fazer pedagógico. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 43 Para iniciar, vamos esclarecer: qualquer professor tem por ação o fazer pedagógico? A resposta é sim, pois o pedagógico no caso, não está relacionado ao curso de pedagogia, mas, a um fazer com fins educacionais, um fazer com intencionalidades, pretensões. Por este motivo falamos que o professor tem por especificidade da função o fazer pedagógico. Libâneo (2017) aponta que o fazer pedagógico é dialético e dialógico, vamos entender a que se remetem? O dialético está relacionado ao conjunto de ações e operações realizadas, já o dialógico remete-se à parte de comunicação entre os sujeitos. Lembrando que se estamos falando de dois pontos presentes no fazer pedagógico, estamos nos referindo às ações do professor e que articulam-se ao processo ensino e aprendizagem e a didática. Tanto a forma dialética quanto a dialógica são meios para aprender o mundo e conhecê-lo, ambos são instrumentos mediadores da realidade. Ou seja, eu como professor organizo o meu trabalho pedagógico de maneira dialógica, como uma via de mão dupla entre eu e os alunos, partindo de seus conhecimentos prévios junto ao conhecimento formal e de maneira articulada também opto por vivências dialéticas, ou seja, articulando os contextos, refletindo suas contradições, especificidades, dentre outros. Tais aspectos estão presentes em todos os fazeres pedagógicos, pois são gerais, certo? Independente do nível de ensino, conteúdo, objetivo, há o diálogo e também há um conjunto de ações específicas.Desta maneira pode-se afirmar que o fazer pedagógico possui aspectos gerais e comuns a todos os professores e também aspectos específicos, que são aqueles que serão norteados de acordo com a realidade e contexto que estou atuando. O autor ainda evidencia mais um aspecto ao fazer pedagógico, os aspectos substanciais, olhe só: Os aspectos gerais da atividade pedagógica são aqueles que se repetem, ou o conjunto de ações que é invariável e comum nas práticas pedagógicas. Os aspectos substanciais são considerados aqueles que, além dos aspectos comuns, possuem traços específicos nas práticas pedagógicas; são considerados necessários e inseparáveis na organização do ensino e propiciam o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, considerando-se determinadas circunstâncias e condições (LIBÂNEO, 2017, p. 45). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 44 Assim, ele diferencia os aspectos gerais, como aqueles comuns e que se repetem nas práticas, ou seja, são os que denominamos de comuns aos professores anteriormente, e os aspectos substanciais, que são aqueles imprescindíveis, articulados à organização do ensino. Os aspectos gerais na prática são: 1) a dimensão epistêmica do conhecimento, que trata dos conteúdos; 2) o uso de material didático; 3) a ação reflexiva sobre o conhecimento, que se dá entre os alunos e o professor; 4) a dedução informal, que refere-se a apropriação dos conceitos. E os aspectos substanciais, quais são eles? 1) a lógica que organiza as ações; 2) o instrumento pedagógico. O primeiro item, a lógica, refere-se a como se organiza o sujeito e o objeto de estudo, já o segundo item trata-se dos instrumentos que definem o processo pedagógico de maneira específica, questões metodológicas. Assim, ambos são articulados e complementam-se. Tanto os aspectos gerais quanto os substanciais são comuns a todo fazer pedagógico, devendo não perder de vista os itens anteriormente refletidos. A didática articula-se diretamente ao fazer pedagógico ao modo que fornece a segurança necessária ao professor, pois, ela também constitui-se como formas de ação em sala de aula, certo? E também como formas de organização do conteúdo, dentre outros. Em resumo, acerca da função do professor: O papel do professor, portanto é o de planejar, selecionar e organizar os conteúdos, programar tarefas, criar condições de estudo dentro da classe, incentivar os alunos, ou seja, o professor dirige as atividades de aprendizagem dos alunos a fim de que estes se tornem sujeitos ativos da própria aprendizagem (LIBÂNEO, 2001, p. 03). A partir de então podemos afirmar que o fazer pedagógico também é um processo didático, e eles são atividades do professor e dos alunos, em conjunto, ainda que veiculam-se mais especificamente como ação do professor. Os alunos são considerados neste momento, justamente, para não cair em uma prática onde são desconsiderados. Mas qual é o papel dos alunos? Estes entram em contato com o conhecimento desenvolvendo suas capacidades mentais e cognitivas, refletindo, problematizando, participando e estabelecendo conexões.O processo de ensino é um constante vai-e-vem entre conteúdos e problemas que são colocados e a percepção ativa e o raciocínio dos alunos (LIBÂNEO, 2011). Quando mencionamos o aluno não podemos perder de vista que estamos falando de alunos, ou seja, indivíduos que possuem suas histórias, linguagens, subjetividades e DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 45 que vivem em um meio que também os influencia. Desta maneira, os conhecimentos prévios dos alunos também devem ser o ponto de partida, aliás, já falamos sobre isso anteriormente, certo? Sobre eles serem o ponto de partida e chegada. Então, para complementar ainda mais a função do professor, também há essa disposição em considerar as especificidades dos alunos, levando em conta os seus conhecimentos de forma articulada com os demais. Só considerando os alunos de forma plural, que será possível trazê-los como ativos de sua aprendizagem e de forma consequente, promover a eles uma aprendizagem significativa de fato, ou seja, aprendizagem real, aquela que acrescenta, que aprimora, que faz crescer. Para encerrar a discussão, vamos analisar algumas imagens de professores. O intuito é problematizar e refletir o seu fazer pedagógico a partir dos pressupostos discutidos anteriormente. Observe a primeira imagem: Título: Ilustração professor n.1 Fonte: https://aedmoodle.ufpa.br/ Nesta imagem o professor é representado pela boca e os alunos pelo ouvido, ou seja, de modo imediato, já podemos perceber que enquanto um fala os outros ouvem. Se os alunos só possuem ouvidos, significa que eles não falam, bem como, que o seu conhecimento não é considerado, e da mesma forma o professor, se ele só fala ele não ouve os alunos. Se a gente considerar os pressupostos estudados na presente aula acerca da didática na contemporaneidade, podemos afirmar que a imagem expressa uma concepção ultrapassada. Visto que, hoje uma das preocupações do professor e da organização do seu trabalho pedagógico, é justamente, considerar os alunos, os seus conhecimentos prévios, bem como, articular suas vivências com os conteúdos considerados formais. Claro que neste momento estamos julgando a imagem de maneira geral e limitada, poderíamos extrair uma série de problematizações, no entanto, são essas mensagens que ela nos retrata. A próxima imagem está alinhada a primeira, porém, acrescenta um aspecto, olhe só: DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 46 Título: Ilustração professor n.1 Fonte: https://aedmoodle.ufpa.br/ De imediato nós vemos a professor cortando o pensamento dos alunos de modo a deixá-los igual ao seu. A partir de então, podemos inferir diversas interpretações e articulações com a educação e os pressupostos discutidos em aula. Primeiramente, se eu considero o professor o detentor do saber e responsável maior pela educação dos alunos eu entendo que ele deve orientá-los, correto? Até aí aceitável, porém, a problemática da imagem é que ela expressa o professor deixando o pensamento dos alunos necessariamente igual ao seu, sendo que, poderiam haver outras possibilidades. Ainda que o conteúdo formal seja o mesmo para todos os alunos, que exista uma base de pensamento, cada um possui suas apropriações, conhecimentos prévios e vivências, não é? Desta maneira, o balãozinho de cada um poderia ser diferente e chegar ao mesmo ponto de raciocínio. Assim, a imagem remete a um controle que nos parece exagerado e que não vai ao encontro da concepção atual para a figura do professor. Se eu considero o aluno também como sujeito atuante de seu processo de formação, eu tenho a obrigação de considerá-lo, mesmo que seja para instigá-lo acerca dos conteúdos. A postura do professor em relação ao aluno, ao processo ensino aprendizagem e demais aspectos, possuem relação com os diferentes posicionamentos na educação, diferentes vertentes e tendências pedagógicas, que aliás, são os temas das próximas aulas. Vamos encerrar a presente aula por aqui. Com toda a certeza daria para constituir um material didático específico só acerca da função do professor, que é ampla, complexa e merece total destaque e que também pode ser delineada sob diferentes perspectivas. São tais perspectivas que discutiremos nas aulas posteriores! Até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 47 CAPÍTULO 5 TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS NO BRASIL E SEUS REFLEXOS NA DIDÁTICA: PARTE I 5.1 Introdução Nas aulas anteriores focamos na gênese da didática, em seu contexto geral e no Brasil, seguindo para a discussão de seus conceitos e pressupostos atuais, além de focá-la na organização do trabalho do professor. Após esse arcabouço geral, vamos discutir os seus meandros de forma articulada às tendências pedagógicas, pois são elas que norteiam o ensinono país, delimitando fundamentação teórica, postura do professor e demais direcionamentos na educação. Tudo a ver com a didática, não é mesmo? Aproveitem a aula! 5.2 Manifestações didáticas e educacionais Podemos compreender as tendências pedagógicas como concepções que nortearam e norteiam a educação. É relevante você estar ciente que elas marcaram época em determinados períodos, até porque recebem influências do contexto, mas, se perpetuam até hoje. São agrupamentos de ações e vivências específicas que caminham de forma articulada e com diferentes propósitos na educação. Estão relacionadas a didática em todos os seus aspectos, sendo preocupação desta disciplina, que como visto anteriormente, trata do processo ensino e aprendizagem, educação, relação professor e aluno, dentre outras questões relacionadas. Outro ponto para situar desde o início, diz respeito às suas práticas, das tendências pedagógicas, acontecerem tanto de forma direta e consciente, como de forma indireta, DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 48 que se manifesta muitas vezes sem o devido rótulo, mas compreende os elementos básicos de determinada tendência. Na prática isso quer dizer que há professores que mencionam fazer parte de determinada tendência e voltam sua prática para ela de maneira orientada, e também há aqueles que não se rotulam, mas que suas ações representam determinada perspectiva. Aliás, a prática do professor e a organização de seu trabalho pedagógico sempre irá representar alguma perspectiva, certo? Variando com os pressupostos utilizados e seus objetivos. Assim, de forma anunciada ou não, o professor possui determinada tendência pedagógica como balizadora de suas práticas. Também é relevante mencionar que mesmo estudando as tendências de forma linear, uma não acaba necessariamente quando a outra começa, bem como, podem não ser exclusivas, permitindo articulações entre os seus elementos. Luckesi (1991) considera como tendência pedagógica diversas teorias filosóficas que pretendem compreender e orientar práticas educacionais em diversos momentos e circunstâncias da história humana na educação brasileira. Ações educativas interpretam o desempenho da educação na sociedade e, como tal, classificam- se em educação como redenção, educação como reprodução e educação como transformadora da sociedade. Essas tendências possibilitam a compreensão da educação enquanto prática educacional, compreensão filosófica sobre seu sentido e, política, quanto ao direcionamento para a ação (SILVA, 2018, p. 08). Silva (2018) menciona que as tendências são de grande valia para o professor pois a partir de sua associação e escolha, servem de base para fundamentar suas práticas e trabalho pedagógico. Desta maneira, vamos considerá-las como categorias de estudo, ok? Categorias que contemplam especificidades e determinado foco. Por “tendência pedagógica” compreende-se a expressão de determinadas cAntes de entrar nas tendências, há mais um elemento a ser considerado: a necessidade da materialidade para as suas expressões, ou seja, estamos estudando elas em sua forma teórica, mas suas ações se expressam na prática. Não podemos perder de vista que há neste caso uma articulação direta entre teoria e prática. Aliás, como qualquer conceituação, é bem difícil abordar toda a riqueza da prática escolar, mas os conceitos expressam suas ideias e pressupostos gerais. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 49 Visto algumas premissas, vamos conhecer e discutir as tendências pedagógicas e articulá-las com a didática? As tendências são divididas entre liberal e progressista, usando por critério a posição que adotam em relação aos condicionantes sociopolíticos da escola. Mas o que isso significa? Aos elementos que se articulam. Ao estudá-las ficará nítido que os seus elementos possuem ou não objetivos sociais articulados a sua educação. E estas são as bases para a divisão. oncepções de homem, de mundo e de educação que, provenientes do desenvolvimento social, conformam-se e se traduzem em políticas educacionais moldando uma forma específica de ser da organização do sistema escolar e da escola, com métodos próprios, seleção e valorização de conteúdos, formas de avaliação e relação professor aluno (MIGUEL, 2007, p. 74). Dentro de cada divisão há as devidas ramificações. Para melhorar compreensão, há a divisão no quadro a seguir: Pedagogia liberal Tradicional Renovada progressivista Renovada não-diretiva Tecnicista Pedagogia progressista Libertadora Libertária Crítico-social dos conteúdos Nome: Tendências pedagógicas e suas divisões. Fonte: Libâneo, 1983. 5.3 Pedagogia liberal Vamos começar pela pedagogia liberal, que foi concebida no século XIX, sob forte influência da Revolução Francesa (1989), do liberalismo ocidental e do capitalismo (SILVA, 2018). Aliás, a palavra liberal não se trata do termo em seu senso comum, no sentido de democrático ou aberto, ele remete-se a uma manifestação da sociedade capitalista, estando essa vertente atrelada a ela. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 50 Na prática, a pedagogia liberal sustenta a ideia de que a escola tem por função preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de acordo com as aptidões individuais. Para isso, os indivíduos precisam aprender a adaptar-se aos valores e às normas vigentes na sociedade de classes, através do desenvolvimento da cultura individual. (LIBÂNEO, 1983, p. 03). Ou seja, a sociedade está como está e nós podemos fazer o quê para nos adaptar? Daí o papel da escola. Desta forma, podemos afirmar que os pressupostos da pedagogia liberal preocupam- se em preparar os indivíduos para adaptação e inserção social. Aliás, é esta base de pensamento que agrupa as tendências nesta pedagogia especificamente, não havendo preocupações para além, tratando-se da relação educação e meio social. A pedagogia tradicional está no Brasil desde a época dos jesuítas, evoluindo para a pedagogia renovada, ou escola nova, lembrando que uma não substitui a outra, acontecendo de forma inerente e em muitos casos, conjunta. O Ratio Studiorum, comentado em aulas passadas, é um exemplo da pedagogia tradicional e sua versão mais acabada foi sistematizada por Tomás de Aquino, filósofo e teólogo medieval. Acerca da tradicional, relacionada com a didática, o processo ensino aprendizagem baseia-se na repetição, treino intensivo e memorização, acontecendo de maneira sistematizada pelo professor. Nesta configuração, ele e o aluno possuem papéis bem definidos, onde o professor é o transmissor do saber e o aluno o receptor. Aliás, o aluno é considerado como uma folha em branco. Desta maneira, os alunos são passivos, e seus conhecimentos prévios não eram considerados, ou seja, não havia essa preocupação. As realidades sociais também são deixadas em segundo plano, não havendo contextualização dos conteúdos. Se o foco da pedagogia é a adaptação social, porque motivo contextualizá-los, certo? Percebe como os elementos são articulados? Se o meu intuito é a adaptação social, eu só preciso que meus alunos absorvam os conteúdos, de modo a sugá-los para posteriormente se inserir socialmente. Aliás, todos os alunos recebem a mesma educação, sendo o seu esforço que irá garantir melhor adaptação social ou não. Lembram das imagens que analisamos na aula passada? São exemplos ilustrativos da pedagogia tradicional. Sabe aquela visão que ouvimos no senso comum de que basta se esforçar que você chegará a algum lugar? Ela é de base liberal, tem base nessas tendências pedagógicas e desconsideram todo o contexto social e seus elementos. Assim, pode-se afirmar que o papel da escola nas tendências de cunho liberal: DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 51 [...] consiste na preparação intelectual e moral dos alunos para assumir suaposição na sociedade. O compromisso da escola é com a cultura, os problemas sociais pertencem à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber é o mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem. Assim, os menos capazes devem lutar para superar suas dificuldades e conquistar seu lugar junto aos mais capazes. Caso não consigam, devem procurar o ensino mais profissionalizante (LIBÂNEO, 1983, p. 04). A tendência liberal renovada progressivista vem para antagonizar com a tradicional e nela a aprendizagem é considerada um processo interno, partindo das necessidades individuais ao meio. Um exemplo prático dessa corrente é o movimento da escola nova, do Dewey, que também vimos lá na gênese da didática. Essa tendência teve grande penetração no Brasil na década de 1930 com influência em muitas práticas pedagógicas nos dias atuais (SILVA, 2018). Enquanto a tradicional parte do professor ao aluno, esta valoriza a auto-educação, a experiência direta e um ensino centrado no aluno e no grupo, na adequação das necessidades individuais ao meio. Tanto a função do professor, quanto a do aluno mudam nesta abordagem, quando comparados à tradicional. Enquanto na tradicional o professor despeja o conhecimento teórico no aluno, aqui ele é facilitador, mediador. E o aluno, enquanto era passivo na tradicional, aqui ele é valorizado e está no foco. O aluno passa a ter papel fundamental no processo de ensino- aprendizagem, no qual a criatividade, a curiosidade e a inventividade devem ser estimuladas pelo professor. Essa tendência defende uma escola que possibilite a aprendizagem pela descoberta, partindo do interesse do aluno na experimentação e na construção do conhecimento (SILVA, 2018, p. 99). Diferente do ensino tradicional onde o professor foca os conteúdos formais, na renovada progressivista, dá-se muito mais valor aos processos mentais e habilidades cognitivas do que a conteúdos organizados racionalmente. Ao modo que foca o aluno, trata-se de “aprender a aprender”, ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. Assim, o formato dessa tendência está muito próxima do que conhecemos hoje por “método ativo”. A pesquisa, tentativas experimentais e atividades de descobertas são o foco das metodologias, pois, são justamente as práticas que alinham-se a tais pressupostos. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 52 Sabe a ideia do “aprender fazendo”? Tem tudo a ver com essa perspectiva! Os passos básicos do método são: a) colocar o aluno numa situação de experiência que tenha um interesse por si mesma; b) o problema deve ser desafiante, como estímulo à reflexão; c) o aluno deve dispor de informações e instruções que lhe permitam pesquisar a descoberta de soluções; d) soluções provisórias devem ser incentivada e ordenadas, com a ajuda discreta do professor; e) deve-se garantir a oportunidade de colocar as soluções à prova, a fim de determinar sua utilidade para a vida (LIBÂNEO, 1983 p. 06). A renovada não diretiva é um ramo da Liberal Renovada Progressivista e seus objetivos estão relacionados aos fins de auto-realização e desenvolvimento pessoal. Assim, os conteúdos escolares passam a ter significado pessoal no encontro entre o interesse e a motivação do aluno e a aprendizagem torna-se um ato interno e apoia- se na busca da autorrealização. Acerca da relação professor e alunos, ela baseia-se na afetividade. Acentua-se nesta tendência o papel da escola na formação de atitudes, estando mais preocupada com problemas psicológicos do que com os pedagógicos ou sociais. Todo esforço está em estabelecer uma mudança dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal às solicitações do ambiente (LIBÂNEO, 1983, p. 06-07). Portanto, os conteúdos formais estão em segundo plano. A valorização do “eu” está em evidência, tanto que, a avaliação conteudista perde o seu valor frente à auto-avaliação. Esta tendência está mais distante das práticas escolares justamente por não priorizar os conteúdos formais e estar mais relacionada com práticas da psicologia. Migrando para a última vertente da liberal, de cunho tecnicista, ela teve seu início no final da década de 1960, concretizando-se nas Leis n. 5.540/68 e n. 5.692/71. Silva (2018) aponta que estando sob a instalação do regime militar no País, as elites contemplam a educação direcionada às massas a fim de permanecer na posição de status dominante. Assim, a tendência tecnicista objetiva a formação dos indivíduos para o mercado de trabalho, sendo a escola instrumento para a educação comportamental, transmitindo os conteúdos de forma rápida e eficiente. O papel do professor é modelar respostas apropriadas e comportamentos, daí a importância da tecnologia educacional. Nesta perspectiva a educação está atrelada ao sistema produtivo e servindo à ele. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 53 A tendência liberal tecnicista subordina a educação à sociedade, tendo como função a preparação de “recursos humanos” (mão-de- obra para indústria). A sociedade industrial e tecnológica estabelece (cientificamente) as metas econômicas, sociais e políticas, a educação treina (também cientificamente) nos alunos os comportamentos de ajustamento a essas metas. No tecnicismo acredita-se que a realidade contém em si suas próprias leis, bastando aos homens descobri-las e aplicá-las (LIBÂNEO, 1983, p. 04). O importante nesta perspectiva não é o conteúdo formal, mas a busca pelas técnicas adequadas. Cópias, reproduções e treinos estão em evidência. Desta maneira, alunos e professores também possuem papéis bem definidos, sendo os alunos os reprodutores dos conteúdos, devendo copiar e reproduzir o que é transmitido, e os professores são os técnicos responsáveis pela eficiência do ensino. Acerca dos conteúdos, foca-se nos conhecimentos que podem ser mensuráveis e observáveis, a ciência objetiva, tirando de foco qualquer subjetividade. Portanto, o ensino é um processo de condicionamento através do reforçamento das respostas que se quer obter. O aprender é questão de modificação do desempenho. A influência da pedagogia tecnicista remonta à 2ª metade dos anos 50 (PABAEE - Programa Brasileiro-Americano de Auxílio ao Ensino Elementar). Entretanto foi introduzida mais efetivamente no final dos anos 60 com o objetivo de adequar o tema educacional à orientação político econômica do regime militar: inserir a escola nos modelos de racionalização do sistema de produção capitalista. É quando a orientação escolanovista cede lugar à tendência tecnicista, pelo menos no nível de política oficial; os marcos de implantação do modelo tecnicista são as leis 5.540/68 e 5.692/71, que reorganizam o ensino superior e ensino de 1° e 2° graus (LIBÂNEO, 1983 p. 09). Percebe como cada vertente possui elementos bem definidos que as caracterizam? Por isso, não é difícil identificá-las no decorrer dos anos, de modo que cada uma acabou sendo favorecida de acordo com cada contexto social e político-econômico. Independente dos aspectos que as regem ou da roupa que vestem, as tendências de cunho liberal servem ao mesmo propósito e é este elemento que você não pode perder de vista! Qual propósito? Ao capital, conforme evidenciado anteriormente. Se você reparar, em nenhuma destas posições, há intenções ou objetivos que articulam DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 54 o aluno ao social ou algum tipo de transformação, não sendo preocupações destas vertentes. O foco é sempre a inserção e/ou acomodação social. Se você recordar, comentamos nas aulas passadas em determinado momento, que tanto a pedagogia tecnicista quanto a humanista não pensavam a educação com um propósito, fazendo com que a didática tivesse essa preocupação após a década de 1990. Aqui estamos visualizando a mesma situação, ou seja, não temos vertentes que preocupam-se com tais aspectos, servindo de mantenedorasdo social, porém, sob diferentes roupagens. A tradicional focando os conteúdos historicamente acumulados, situando o professor na função de transmissor e o aluno de receptor, a progressivista focando o aluno e a sua experimentação, deixando o professor em segundo plano, e a tecnicista focando a forma, métodos e a formação específica e voltada para o mercado de trabalho. Encerramos a presente aula por aqui. Nela focamos as vertentes da pedagogia liberal e na próxima vamos estudar as progressistas! Até a próxima DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 55 CAPÍTULO 6 TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS NO BRASIL E SEUS REFLEXOS NA DIDÁTICA: PARTE II 6.1 Introdução A presente aula é continuação direta da aula passada, vamos estudar as tendências pedagógicas, focando as de cunho progressistas, enquanto na aula anterior focamos as liberais. Estudamos que existem tendências, vertentes e pedagogias que focam determinados aspectos, posturas e conteúdos e que os autores as agruparam, assim, estudamos seus elementos de modo a compreendê-las, sendo elas também preocupação da didática. As pedagogias focadas na presente aula são as mais aceitas na contemporaneidade e com certeza você já ouviu falar de alguma delas! Aproveitem a aula! 6.2 Pedagogia progressista Vamos estudar as tendências progressistas? Já te adianto que são hoje as mais bem aceitas, pois adequam-se às preocupações atuais e contemplam o que é visto hoje como necessidade da educação. O ponto mais antagônico da tendência anterior é que neste momento parte-se de um olhar crítico da sociedade, estando esta como base articuladora do processo ensino e aprendizagem. Desta maneira, as tendências e pedagogias desta vertente servem como instrumentos de luta para a emancipação social. Enquanto a pedagogia liberal visava a formação para acomodação e inserção social, as de cunho progressista visam mudanças, transformações e a formação de sujeitos críticos e ativos nos diferentes âmbitos. Vamos relembrar quais são as pedagogias progressistas? DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 56 Pedagogia progressista Libertadora Libertária Crítico-social dos conteúdos Nome: Tendências pedagógicas e suas divisões. Fonte: Libâneo, 1983. A pedagogia libertadora está associada ao nome de Paulo Freire, sendo em alguns momentos confundida com a educação popular. Suas premissas são o caráter não autoritário, a autogestão e a valorização da experiência vivenciada como alicerce da ação educativa (SILVA, 2018). Desta maneira, as vivências pessoais e culturais estão em evidência, ficando em primeiro plano em detrimento dos conteúdos escolares. Assim, quando se fala na educação em geral, diz-se que ela é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo de aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atuarem, num sentido de transformação social. Libâneo (1983) aponta que essa vertente associa-se à educação não formal, porém, que seus pressupostos são utilizados pelos professores nas instituições de ensino, daí tomando forma neste âmbito. Sua base questiona a realidade e as relações visando a transformação social, ou seja, atua de maneira intencional com este propósito. Daí possui caráter essencialmente político. Em nenhum momento o inspirador e mentor da pedagogia libertadora, Paulo Freire, deixa de mencionar o caráter essencialmente político de sua pedagogia, o que, segundo suas próprias palavras, impede que ela seja posta em prática, em termos sistemáticos, nas instituições oficiais, antes da transformação da sociedade. Daí porque sua atuação se 11 dê mais a nível da educação extra-escolar. O que não tem impedido, por outro lado, que seus pressupostos sejam adotados e aplicados por numerosos professores (LIBÂNEO, 1983, p. 11-12). É no início da década de 1980 que essa pedagogia ganha ênfase, com o fim do regime militar e a abertura política, havendo mais do que nunca uma mobilização dos professores e demais profissionais da classe para uma educação contrária à que vinha sendo difundida. O processo ensino aprendizagem tem por base o diálogo e a relação professor aluno é horizontal, onde ambos são sujeitos e ativos na aprendizagem. O professor, aliás, é o adulto vigilante do processo, sendo responsável em orientar e manter o aluno enquanto ativo e também reconhecedor de seu papel neste contexto. A educação passa a ser um papel conscientizador, direcionada para a classe trabalhadora e para o povo. O intuito é que educação e sociedade articulam-se de DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 57 forma dialética, elevando o nível de consciência do estudante e sua emancipação econômica, cultural, política e social (SILVA, 2018, p. 101). Por este motivo, o aluno não mais decora, repete e memoriza o conteúdo, mas sim, a partir de suas experiências, adquire o conhecimento de forma articulada ao social. Assim, quando se fala na educação em geral, diz-se que ela é uma atividade onde professores e alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo de aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa mesma realidade, a fim de nela atuarem, num sentido de transformação social (LIBÂNEO, 1983, p. 10). Daí essa tendência ser considerada crítica, pois ao modo que consideram a realidade no processo ensino e aprendizagem, professor e aluno atuam de forma crítica sobre ela, não mais preocupando-se em apenas se adaptar, mas sim, inserindo-se de maneira ativa, ou seja, também modificá-la caso necessário. Tomando por base o ensino de Paulo Freire, os conteúdos desta vertente são organizados por meio dos temas geradores, que são extraídos das realidades dos alunos para problematização. Desta forma, os conteúdos escolares considerados formais ficam em segundo plano, sendo valorizadas as experiências dos indivíduos para a partir de então serem trabalhados os conteúdos. Segue justificativa para tal: Os conteúdos tradicionais são recusados porque cada pessoa, cada grupo envolvidos na ação pedagógica dispõem em si próprios, ainda que de forma rudimentar, dos conteúdos necessários dos quais se parte. O importante não é a transmissão de conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma da relação com a experiência vivida. A transmissão de conteúdos estruturados a partir de fora é considerada como “invasão cultural” ou “depósito de informação”, porque não emerge do saber popular (LIBÂNEO, 1983, p. 11). Refletindo tal perspectiva com o olhar atual, podemos fazer algumas considerações. Primeiro, o fato de partir dos conhecimentos dos alunos é muito interessante, pois sabe-se que unir os conteúdos escolares com seus interesses faz com que o ensino seja mais significativo. No entanto, ao modo que deixa os conteúdos formais em segundo plano, ao ponto de desconsiderá-los, tal tendência pode receber críticas, se a gente partir do pressuposto de que é na escola que os alunos entram em contato com tais conteúdos. Para garantir que tais pressupostos sejam concretizados, o método de ensino viável é o dialógico e o grupo de discussão, onde professor e alunos por meio de rodas de conversa, desenvolvem o processo ensino e aprendizagem. Desta maneira, professor e aluno são sujeitos ativos do conhecimento e o professor especificamente se põe em uma reação horizontal com os alunos. O responsável por essa base de pensamento, Paulo Freire, estava ciente da inviabilidade destas práticas, de maneira integral, nas instituições de ensino (LIBÂNEO, DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 58 1983), porém, suas adaptações são utilizadas até os dias atuais. Aspectos como a valorização das experiências dos alunos e relações dialógicas, são influências dessa vertente na nossa educação de hoje. Já a pedagogia libertária visa modificaçõesinstitucionais, buscando que estas se espalhem por todo o sistema. O que ela possui em comum com a anterior? A valorização das experiências vividas, pelos alunos, como base do processo ensino aprendizagem, deixando os conteúdos formais em segundo plano. Os conteúdos formais são colocados à disposição dos alunos mas não são exigidos, valorizando-se as aprendizagens baseadas nas vivências dos grupos. Assim, os conteúdos propriamente ditos são os que resultam de necessidades e interesses manifestos pelo grupo e que não são, necessária nem indispensavelmente, as matérias de estudo (LIBÂNEO, 1983, p. 12). Os alunos possuem muita autonomia, aliás, estando grande parte do processo ensino e aprendizagem, nas suas mãos. Segundo o autor supracitado, eles possuem liberdade de trabalhar ou não, ficando o interesse pedagógico na dependência de suas necessidades. Libâneo (1983) afirma que ela espera que a escola exerça uma transformação na personalidade dos alunos em um sentido libertário e autogestionário. Na prática seria estimulá-los em vivências grupais, como assembléias, conselhos, reuniões, dentre outros, de modo que eles aprendam e saibam instituir tais práticas em outros âmbitos. Entende-se que ao modo que o indivíduo vivencia tais práticas e compreende que elas sejam válidas e significativas ele terá a vontade e a necessidade de implementá-las. Desta maneira, a autogestão é o conteúdo e o método, articulando ambos os aspectos. Os seus pressupostos podem ser justificados com base no pensamento: As formas burocráticas das instituições existentes, por seu traço de impessoalidade, comprometem o crescimento pessoal. A ênfase na aprendizagem informal, via grupo, e a negação de toda forma de repressão visam favorecer o desenvolvimento de pessoas mais livres. A motivação está, portanto, no interesse em crescer dentro da vivência grupal, pois supõe-se que o grupo devolva a cada um de seus membros a satisfação de suas aspirações e necessidades (LIBÂNEO, 2983, p. 13). Após refletir sua base de pensamento, fica de fácil compreensão os motivos pela negação dos conteúdos escolares, bem como, da escolha pela aprendizagem em grupo. Parte-se do pressuposto de que o desenvolvimento por meio dos pares é mais livre e consequentemente, mais motivador. Assim como a libertadora, possui caráter político, relacionando seus pressupostos com questões sociais, objetivando, aliás, questões que estão para além dos muros DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 59 da escola. É uma forma de resistência à burocracia e controle do Estado, a partir do momento que visa o estímulo das vivências coletivas. A pedagogia libertária, também conhecida como pedagogia institucional, é uma forma de resistência contra a burocracia enquanto instrumento de ação dominadora e de controle do Estado. A partir de 1980 cresce o interesse por escolas democráticas e inclusivas. Consolida-se o projeto de escola, anseio da classe trabalhadora, visando ao respeito pelas diferenças, interesses locais e regionais, e a construção de uma educação de qualidade ao cidadão brasileiro. Dessa forma, a educação passou a desenvolver seu papel além dos muros escolares, estimulando a participação em grupos e movimentos sociais, o que permite trazer para a escola a realidade social (SILVA, 2018, p. 102). Por deixar os conteúdos escolares em segundo plano, essa tendência para ingressar nas instituições de ensino precisa ser adaptada, assim como a anterior. Ou seja, é possível a utilização de alguns de seus pressupostos, como por exemplo, as atividades grupais, o estímulo às assembléias, grupos de discussão, de modo a incentivar os alunos em tais atividades, visando que as implementem em outros âmbitos. O relacionamento professor e aluno a partir do diálogo também é de fácil adaptação, sendo hoje uma das premissas defendidas para o processo ensino e aprendizagem. A última tendência da pedagogia progressista, a Crítico- social dos conteúdos, chega ao Brasil por volta de 1984 com uma origem baseada no materialismo histórico, uma base de fundamento teórico epistemológico. Também é conhecida como pedagogia dialética e concretiza-se como a teoria que visa captar o movimento objetivo do processo histórico, direcionando o ensino para a superação dos problemas do dia a dia da prática social e buscando a emancipação intelectual (SILVA, 2018, p. 102). Na prática, a supracitada fala da autora pode ser sintetizada pela ideia da intenção em empoderar as camadas populares por meio da escola e de seus conteúdos sistematizados, de modo que socialmente consigam expressar-se como sujeitos ativos e críticos. A atuação da escola consiste em preparar o estudante para o mundo e suas contradições, por meio da aquisição de conteúdos e da socialização para a participação ativa e organizada na democratização social. Para servir aos interesses populares a escola deve oferecer ensino de qualidade e possibilitar conteúdos articulados com a vivência social do aluno. A educação destaca-se como atividade mediadora na prática social, passando de uma experiência fragmentada para uma visão unificada (SILVA, 2018, p. 102). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 60 Fica claro a evidente as diferenças dessa perspectiva com as anteriores, não é? Ainda que possuam uma base em comum, por este motivo estando enquadradas como pedagogias progressistas, a Crítico-social do conteúdos insere os conteúdos formais escolares em primeiro plano, ou seja, eles considerados fundamentais para o processo ensino aprendizagem dos alunos, bem como, para a sua inserção social que é de cunho ativo. A base de pensamento que articula escola, sociedade, indivíduos e conhecimentos está embasado nos seguintes elementos: A difusão de conteúdos é a tarefa primordial. Não conteúdos abstratos, mas vivos, concretos e, portanto, indissociáveis das realidades sociais. A valorização da escola como instrumento de apropriação do saber é o melhor serviço que se presta aos interesses populares, já que a própria escola pode contribuir para eliminar a seletividade social e torná-la democrática. Se a escola é parte integrante do todo social, agir dentro dela é também agir no rumo da transformação da sociedade (LIBÂNEO, 1983, p.14). É importante você compreender neste momento que o que caracteriza as pedagogias progressistas são a sua consciência da relevância e intuito de inserir os indivíduos na sociedade para além de sua simples inserção de forma acomodada, mas sim, ativa e crítica. Independente da roupagem esse é o pensamento base, no entanto, enquanto a libertadora e a libertária deixam os conteúdos formais em segundo plano em detrimento dos indivíduos e suas experiências práticas, a Crítico-social dos conteúdos compreende o papel dos conhecimentos formais de outra maneira, como base necessária para esta inserção ativa e crítica. Desta forma, nesta base de pensamento a escola é considerada como democrática e sendo a única possibilidade de ferramenta para os indivíduos das camadas mais populares, pois é somente nela que entrarão em contato com a base necessária para se fundamentar, sendo essa base os conteúdos formais. Portanto, há um peso de relevância nas instituições escolares e nos seus conteúdos. Se você refletir acerca dos papéis do professor e aluno, neste caso tem mais a ver com as apropriações das pedagogias liberais, pois o professor entra como o detentor do saber e responsável pela transmissão de tais conteúdos, no entanto, diferente de tais pedagogias, neste caso o professor considera os conhecimentos prévios dos alunos, devendo aliás, articular os conhecimentos escolares com eles. Desta forma, o ensino dialógico também acontece. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 61 Embora se aceite que os conteúdos são realidades exteriores ao aluno, que devem ser assimilados e não simplesmente reinventados,eles não são fechados e refratários às realidades sociais. Não basta que os conteúdos sejam apenas ensinados, ainda que bem ensinados; é preciso que se liguem, de forma indissociável, à sua significação humana e social (LIBÂNEO, 1983, p. 14). Havendo a valorização do conteúdo o método está subordinado a ele, ou seja, a partir dos conteúdos e das conexões que preciso estabelecer, quais os métodos mais adequados? Há maior liberdade por parte do professor e do aluno também, possuindo ambos diferentes papéis no processo ensino e aprendizagem. O professor é o responsável por considerar os conhecimentos prévios dos alunos de modo a elevá-los de senso comum à conhecimento teórico, aprendizagem significativa. Assim, o professor precisa ter os conhecimentos e estratégias primordiais para tal, sem perder de vistas as especificidades de cada aluno, suas experiências, necessidades e também dificuldades e facilidades. O papel do adulto é insubstituível, mas acentua-se também a participação do aluno no processo. Ou seja, o aluno, com sua experiência imediata num contexto cultural, participa na busca da verdade, ao confrontá-la com os conteúdos e modelos expressos pelo professor. Mas esse esforço do professor em orientar, em abrir perspectivas a partir dos conteúdos, implica um envolvimento com o estilo de vida dos alunos, tendo consciência inclusive dos contrastes entre sua própria cultura e a do aluno (LIBÂNEO, 1983, p. 15). Ao modo que trata o professor como insubstituível, a pedagogia Crítico-social valoriza a sua função para além da transmissão dos conteúdos, de modo que ele também é responsável por levar o aluno além, a criar perspectivas, novas problematizações e também situá-lo de seu papel frente a este contexto, de colaborar nas aulas para que o seu processo ensino e aprendizagem seja completo e eficaz. Bom, finalizamos por aqui o estudo das pedagogias progressistas com a certeza de que você se apropriou de seus principais aspectos e reflexões. Estas tendências são de grande valia, sendo elas que organizam o trabalho pedagógico do professor e o processo ensino aprendizagem na escola, ou seja, elas se consolidam nas práticas e vivências educativas. São muitos conteúdos, não é? Com toda a certeza hoje você subiu mais um degrau na sua formação. Para finalizar a aula vamos destacar um resumo que Silva (2018) fez de todas as tendências, inclusive as liberais, visando que você tenha uma retomada de seus aspectos gerais. Agora que já viu e problematizou todo o conteúdo, é importante pois irá revisar! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 62 ANOTE ISSO Vamos à retomada geral das tendências? A Tendência Liberal Tradicional prepara os alunos para assumirem seu papel na sociedade e valoriza os conhecimentos acumulados como verdade absoluta. Nessa tendência, a autoridade do professor exige atitude receptiva do aluno – uma aprendizagem mecânica. Não considera a singularidade do aluno. Tem presença nas escolas religiosas ou leigas que adotam filosofias humanistas clássicas ou científicas. Na Tendência Liberal Renovada, a escola deve adequar-se às necessidades individuais ao meio social. Os conteúdos são estabelecidos a partir das experiências vividas pelos alunos diante das situações-problemas, exploradas por meio de experiências, pesquisas e método de solução de problemas. O professor é auxiliador no desenvolvimento livre da criança, fundamentado na motivação e estimulação. A Tendência Liberal Renovadora Não diretiva valoriza a busca dos conhecimentos pelos próprios alunos, é facilitadora da aprendizagem. A educação é centralizada no aluno, e o professor é quem garantirá um relacionamento de respeito. Aprender é modificar as percepções da realidade. A Tendência Liberal Tecnicista é modeladora do comportamento humano a partir de metodologias específicas. As informações são ordenadas numa sequência lógica e psicológica com procedimentos realizados para a transmissão e recepção de informações. Essa tendência objetiva a transmissão de informações por parte do professor e a memorização como aprendizagem. A Tendência Progressista Libertadora anseia levar professores e alunos a atingir um nível de consciência da realidade, na busca pela transformação social, a partir de temas geradores e grupos de discussão. Já a Tendência Progressista Libertária visa à transformação da personalidade num sentido libertário e autogestionário, a escola dá ênfase na participação grupal como mecanismos institucionais de transformação. A Tendência Progressista Crítico-Social dos Conteúdos visa à difusão dos conteúdos culturais universais incorporados pela humanidade frente à realidade social. O método parte de uma relação direta da experiência do aluno confrontada com o saber sistematizado. O papel do aluno é participador e o do professor é ser mediador, com base nas estruturas cognitivas estruturadas nos alunos. A Tendência Histórico-Crítica tem a prática social como ponto de partida e de chegada da prática educativa, aspectos filosóficos, econômicos e político-sociais resultam na forma da sociedade atual. Essa tendência visa intermediar os métodos a partir da problematização, instrumentalização e catarse, e parte da prática social na qual professor e alunos se encontram em posições distintas e promovem o encaminhamento da solução dos problemas postos pela prática social. A educação é entendida como mediação no seio da prática social global. As tendências pedagógicas são o ato de condução dos processos educativos e da prática dos educadores. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 63 CAPÍTULO 7 A DIDÁTICA E SEUS PRESSUPOSTOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL 7.1 Introdução Na presente aula vamos discutir a didática focando o nível da educação infantil. Sabemos que há aspectos gerais relacionados ao processo ensino e aprendizagem, porém, tratando-se dos níveis de ensino também há questões específicas, considerando a faixa etária e demais peculiaridades. Considerando neste momento a didática como organização do trabalho pedagógico, como seria esta organização no trabalho com crianças de zero a cinco anos? São estes elementos que serão discutidos! Aproveitem a aula! 7.2 Retomando aspectos gerais deste nível de ensino A organização curricular dos níveis de ensino são balizadas hoje pela Base Nacional Comum Curricular, BNCC/2017. Assim, Educação infantil, ensino fundamental I e II e ensino médio possuem aspectos gerais e básicos a serem seguidos em todo o nosso país. Desta maneira, seus aspectos didáticos baseiam-se em tal documento. Vale relembrar que os estados e municípios possuem autonomia em suas instituições de ensino, porém, articulando-se com o que é previsto em âmbito nacional, lembra do regime de colaboração? Daí haver a BNCC com tais pressupostos, ou seja, eles devem ser seguidos. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 64 A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE). Este documento normativo aplica- se exclusivamente à educação escolar, tal como a define o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), e está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) (BRASIL, 2017, p. 07). Vamos relembrar alguns aspectos gerais deste nível de ensino? Hoje, parte da educação infantil é considerada educação básica, ou seja, a educação infantil abrangede zero a 5 anos, sendo obrigatório a partir dos 4 anos de idade. Desta forma, crianças de 4 anos ou mais devem estar obrigatoriamente matriculadas na escola. [...] com a promulgação da LDB, em 1996, a Educação Infantil passa a ser parte integrante da Educação Básica, situando-se no mesmo patamar que o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. E a partir da modificação introduzida na LDB em 2006, que antecipou o acesso ao Ensino Fundamental para os 6 anos de idade, a Educação Infantil passa a atender a faixa etária de zero a 5 anos (BRASIL, 2017, p. 35). Devido a diferenciação entre parte da educação infantil ser obrigatória e parte não, a nossa Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB/1996, utiliza o termo creche visando tratar dos níveis de zero a 3 anos e pré escola para os níveis de 4 e 5 anos. Há uma polêmica discussão acerca deste tema e da obrigatoriedade limitada. Não é o foco da nossa aula, mas, vamos evidenciar, para você refletir, algumas questões gerais que são norteadoras de quem defende ou não essa diferenciação. Para alguns, é um avanço o fato da educação infantil estar atrelada à educação básica, bem como, ter uma parte em caráter obrigatório. No entanto, a grande questão é: ao modo que apenas parte dela torna-se obrigatória, não há uma desvalorização no ensino de zero a 3 anos? Analisando o histórico da educação infantil, é sabido que houve um avanço acerca de suas especificidades, onde hoje são valorizados o educar de forma alinhada ao DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 65 cuidar, aliás, o cuidar também passou a ser considerado algo pedagógico, quando feito com os devidos pressupostos. Assim, ao modo que a creche não é obrigatória e considerando o seu histórico, muitos estudiosos acreditam que retome a desvalorização destas faixas etárias, de modo a serem consideradas, novamente, como limitadas ao cuidar ou, desvinculadas dos aspectos pedagógicos, por não serem obrigatórias como as demais. E você tem a sua opinião sobre o assunto? É uma discussão muito interessante de se conhecer e refletir! Vamos continuar com o foco da aula? De qualquer forma, ainda que não seja obrigatória, o nível de creche também consta na BNCC/2017, ou seja, há pressupostos didáticos previamente estabelecidos. Nas últimas décadas, vem se consolidando, na Educação Infantil, a concepção que vincula educar e cuidar, entendendo o cuidado como algo indissociável do processo educativo. Nesse contexto, as creches e pré-escolas, ao acolher as vivências e os conhecimentos construídos pelas crianças no ambiente da família e no contexto de sua comunidade, e articulá-los em suas propostas pedagógicas, têm o objetivo de ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens, atuando de maneira complementar à educação familiar – especialmente quando se trata da educação dos bebês e das crianças bem pequenas, que envolve aprendizagens muito próximas aos dois contextos (familiar e escolar), como a socialização, a autonomia e a comunicação (BRASIL, 2017, p. 36). Estas são as principais reflexões que giram em torno desta temática. No momento, é relevante você estar ciente desta discussão, por fazer parte da educação e também servir como pano de fundo a este nível de ensino. ESTÁ NA REDE Você sabia que a Base Nacional Comum Curricular é de domínio público e você pode acessá-la na íntegra? Aliás, uma versão virtual e interativa muito interessante! Dê uma olhada, este documento é uma das bases da sua formação didática e também da educação de modo geral! Link para consulta: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/ DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 66 7.3 Didática e educação infantil A organização curricular da educação infantil é hoje o principal aspecto que norteia os seus princípios didáticos. Desta maneira, iremos refletir a didática de forma articulada à educação infantil, a partir dos seus pressupostos curriculares presentes na BNCC/2017, documento base em todo o país. Os eixos estruturantes da educação infantil hoje são as interações e as brincadeiras, ou seja, todo o seu processo ensino e aprendizagem devem focar esses aspectos que caracterizam atividades lúdicas, isso porque há a especificidade das faixas etárias englobadas. Tratando-se de crianças de zero a cinco, há o entendimento de que são as interações e as brincadeiras que irão de forma mais significativa e orgânica desenvolver as crianças. Portanto, quais os aspectos didáticos são considerados eixos estruturantes na educação infantil? As interações e as brincadeiras. São peculiaridades deste nível de ensino. Para além destes dois eixos estruturantes, a BNCC/2017 prevê seis direitos de aprendizagem, sendo eles os direitos de: 1)conviver; 2)brincar; 3)participar; 4) explorar; 5) expressar; 6) conhecer-se. Eles são auto explicativos, referindo-se à convivência com os pares, a autonomia em suas participações, ao saber se expressar e conhecer. São estes os itens que nortearão os aspectos didáticos, tratando-se da organização do trabalho do professor. Assim, estes elementos devem ser considerados o tempo todo, pois, são elencados como direitos de aprendizagem, então, eles não devem ser perdidos de vista. Se são direitos, devem ser vivenciados e alcançados pelos alunos. Partindo de tais eixos e direitos, o documento propõe os campos de experiência para a organização do trabalho pedagógico na educação infantil. Os campos de experiências constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural (BRASIL, 2017, p. 40). De modo prático, os campos substituem as disciplinas e áreas do conhecimento. Ou seja, ao invés de trabalhar matemática, português, história, trabalha-se com os campos da experiência, pressupondo que por meio deles os aspectos supracitados serão melhor desenvolvidos e também articulados e relacionados com o meio social. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 67 Visto tais conteúdos, percebe que são várias as camadas de organização didática na educação infantil? Os eixos são as interações e as brincadeiras, havendo seis direitos específicos da criança e sendo o ensino organizado por meio dos campos. Considerando que, na Educação Infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e a brincadeira, assegurando-lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se, a organização curricular da Educação Infantil na BNCC está estruturada em cinco campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento (BRASIL, 2017, p. 40). Conforme expresso na fala acima, os campos da experiência definem os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento, mas vale ressaltar que eles não são tratados de maneira estanque, mas sim articulados, pois uma mesma atividade pode envolver mais de um campo, bem como, englobar mais de um direito de aprendizagem. São justamente estes aspectos que definem um ensino interdisciplinar. No campo o eu, o outro e o nós, os aspectos didáticos articulam-se com as interações e sociabilidade dos alunos, prevendo atividades deste cunho, de modo que ele relaciona- se com os pares, mas que também se reconheça. Assim, também visam desenvolver os aspectos de autocuidado, independência, além da reciprocidade. A organização do trabalho do professor, ao trabalhar neste campo, também deve propiciar oportunidades das crianças conhecerem outras culturas e grupos sociais. Nessas experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro, valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos constituem como seres humanos(BRASIL, 2017, p. 40). Os elementos deste campo são extremamente relevantes e articulados com as nossas vivências sociais, de modo que foca o autoconhecimento e os dos pares. Essa relação, ou seja, se conhecer é o que permitirá que eu conheça e respeite o outro. Ou seja, ao modo que eu me entendo e entendo os outros, eu sou capaz de perceber nossos pontos em comum ou não. Ao modo que eu entendo que sou diferente de você, tenho pressupostos para respeitá-lo, pois eu também quero ser respeitado, certo? Assim, a organização didática do trabalho do professor deve pautar-se em objetivos específicos, pois, são eles que levarão à concretização dos aspectos supracitados, seja os de cunho geral na educação infantil, seja os específicos a este campo. Vamos conhecer alguns destes objetivos, que estão divididos por faixas etárias. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 68 Alguns objetivos previstos às crianças de zero a 1 ano e seis meses: Perceber que suas ações têm efeitos nas outras crianças e nos adultos; Perceber as possibilidades e os limites de seu corpo nas brincadeiras e interações das quais participa; Interagir com outras crianças da mesma faixa etária e adultos, adaptando-se ao convívio social. Você deve compreender neste momento, que ao prever objetivos articulados com faixa etária, pressupõe considerar as especificidades das mesmas, ou seja, quando eu menciono que um bebê deva perceber, é através de um ato que seja possível a ele, não exigindo nada além de seus limites de possibilidades. Acerca dos objetivos previstos as crianças de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses, são alguns deles: Demonstrar atitudes de cuidado e solidariedade na interação com crianças e adultos; Demonstrar imagem positiva de si e confiança em sua capacidade para enfrentar dificuldades e desafios; Perceber que as pessoas têm características físicas diferentes, respeitando essas diferenças; Resolver conflitos nas interações e brincadeiras, com a orientação de um adulto. A última faixa etária abordada contempla de 4 anos a 5 anos e 11 meses, alguns de seus objetivos são: Demonstrar empatia pelos outros, percebendo que as pessoas têm diferentes sentimentos, necessidades e maneiras de pensar e agir; Ampliar as relações interpessoais, desenvolvendo atitudes de participação e cooperação; Demonstrar valorização das características de seu corpo e respeitar as características dos outros (crianças e adultos) com os quais convive; Usar estratégias pautadas no respeito mútuo para lidar com conflitos nas interações com crianças e adultos. Analisando os objetivos de uma e outra faixa etária, é relevante que você observe que há aspectos que são os mesmos, porém, vão ficando mais complexos, visto que aumenta-se a idade. Ao modo que prevê objetivos, a BNCC/2017 estipula um currículo básico, bem como, norteia a didática neste campo de experiência, pois agora, todo o trabalho deverá alcançar tais objetivos. O próximo campo é denominado: Corpo, gestos e movimentos, estando atrelado diretamente aos sentidos, e como o próprio nome diz, ao corpo e seus movimentos, sejam eles intencionais ou não. Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão (BRASIL, 2017, p. 41). Ao modo que a educação infantil pressupõe interações e brincadeiras como eixos norteadores, seu corpo e o movimento são primordiais. Assim, os pressupostos didáticos DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 69 que norteiam esse campo devem propiciar oportunidades para que as crianças explorem e possam vivenciar movimentos, gestos, olhares, sons, de modo a descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo, aliás, de forma articulada com o campo anterior, também fica previsto o descobrir suas potencialidades e dificuldades. É por meio de seu corpo que a criança explora e conhece o mundo. Antes mesmo de falar, o toque é o seu principal meio de acesso, evoluindo para a fala, para o toque mais elaborado, bem como, uso dos demais sentidos. Desta forma, o trabalho do professor para explorar este campo, deve utilizar-se das diferentes linguagens, como a música, a dança, o teatro, as brincadeiras de faz de conta. Será por meio delas que as crianças se comunicam e expressam, articulando corpo, emoção e linguagem. Assim como no campo anterior, há objetivos específicos como metas a serem alcançadas, vamos conhecer alguns deles? Aos alunos de zero a 1 ano e 6 meses, prevê: Movimentar as partes do corpo para exprimir corporalmente emoções, necessidades e desejos; Imitar gestos e movimentos de outras crianças, adultos e animais; Participar do cuidado do seu corpo e da promoção do seu bem-estar. Aos de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses: Apropriar-se de gestos e movimentos de sua cultura no cuidado de si e nos jogos e brincadeiras; Deslocar seu corpo no espaço, orientando-se por noções como em frente, atrás, no alto, embaixo, dentro, fora etc, ao se envolver em brincadeiras e atividades de diferentes naturezas; Demonstrar progressiva independência no cuidado do seu corpo. E aos alunos de 4 anos a 5 anos e 11 meses: Demonstrar controle e adequação do uso de seu corpo em brincadeiras e jogos, escuta e reconto de histórias, atividades artísticas, entre outras possibilidades; Criar movimentos, gestos, olhares e mímicas em brincadeiras, jogos e atividades artísticas como dança, teatro e música; Coordenar suas habilidades manuais no atendimento adequado a seus interesses e necessidades em situações diversas. Observem que vários objetivos deste campo estão articulados com o campo anterior, ao modo que articula corpo e movimento ao próprio conhecimento de si. Observem também, que de modo geral, este campo visa este entendimento de seu corpo, e também de seus aspectos de deslocamento no espaço, complexificando os objetivos de acordo com as faixas etárias. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 70 O próximo campo denomina-se como: Traços, sons, cores e formas e está intimamente relacionado com questões artísticas. Seus pressupostos didáticos devem propiciar que as crianças por meio de experiências diversificadas, possam vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotografia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras (BRASIL, 2017, p. 41). A criança por natureza se expressa de diferentes formas e são estes aspectos que serão explorados ao trabalhar neste campo. A organização didática e pedagógica do professor, deverão se basear em diferentes manifestações artísticas, para que também os alunos possam vivenciar diferentes sensibilidades e oportunidades de expressão. Portanto, a Educação Infantil precisa promover a participação das crianças em tempos e espaços para a produção, manifestação e apreciação artística, de modo a favorecer o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e da expressão pessoal das crianças, permitindo que se apropriem e reconfigurem, permanentemente, a cultura e potencializem suas singularidades, ao ampliar repertórios e interpretar suas experiências e vivências artísticas (BRASIL, 2017, p. 41). Os objetivos específicos deste campo são: Explorar sons produzidos com o próprio corpo e com objetos do ambiente; Traçar marcas gráficas, em diferentes suportes, usando instrumentos riscantes e tintas; Explorar diferentes fontes sonoras e materiais para acompanhar brincadeiras cantadas, canções, músicas e melodias. Sendo estes destinados aos alunos de zero a 1 ano e 6 meses. Aos alunos de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses: Criar sons com materiais, objetos e instrumentos musicais, para acompanhar diversos ritmos de música; Utilizar materiais variados com possibilidades de manipulação (argila, massade modelar), explorando cores, texturas, superfícies, planos, formas e volumes ao criar objetos tridimensionais; Utilizar diferentes fontes sonoras disponíveis no ambiente em brincadeiras cantadas, canções, músicas e melodias. E aos alunos de 4 anos a 5 anos e 11 meses: Utilizar sons produzidos por materiais, objetos e instrumentos musicais durante brincadeiras de faz de conta, encenações, criações musicais, festas; Expressar-se livremente por meio de desenho, pintura, colagem, dobradura e escultura, criando produções bidimensionais e tridimensionais; Reconhecer as qualidades do som (intensidade, duração, altura e timbre), utilizando-as em suas produções sonoras e ao ouvir músicas e sons. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 71 É interessante e importante observar dentre seus objetivos, a menção às atividades de livre expressão, que muitas vezes é confundida com atividades sem propósitos, mas na verdade podem ser importantes aliados didáticos. Sabe aquela folha em branco que disponibilizamos aos alunos? Elas podem e devem possuir intencionalidades educativas coerentes com os propósitos da faixa etária. A utilização de diferentes materiais também merecem destaque, pois são eles que propiciam o contato com diferentes texturas e uma vivência diferenciada com o tato. Cabe mencionar que todos os objetivos deste campo foram expressos, logo que eram uma quantidade inferior aos demais. O próximo campo é o da Escuta, fala, pensamento e imaginação. Ele está articulado com processos de desenvolvimento da linguagem e seus pressupostos didáticos estão alinhados com nosso vocabulário e demais recursos de expressão e de compreensão. Na Educação Infantil, é importante promover experiências nas quais as crianças possam falar e ouvir, potencializando sua participação na cultura oral, pois é na escuta de histórias, na participação em conversas, nas descrições, nas narrativas elaboradas individualmente ou em grupo e nas implicações com as múltiplas linguagens que a criança se constitui ativamente como sujeito singular e pertencente a um grupo social (BRASIL, 2017, p. 42). Analise na fala supracitada, que para além dos meios de expressão mencionados, tem como objetivo final a constituição do sujeito como singular e pertencente a um grupo social. Destaca-se este aspecto neste momento, justamente para que você veja que a base educacional hoje está articulada com perspectivas progressistas. Lembra que estudamos em aulas passadas? A BNCC/2017, em vários momentos menciona tais aspectos, mostrando que para além de qualquer objetivo, há um maior: a formação de sujeitos críticos e ativos socialmente. Retomando, para compreender este campo do conhecimento, é preciso relembrar que nosso processo de expressão é evolutivo, e que de forma progressiva, a criança vai ampliando o seu vocabulário até que ele se torne sua principal fonte de interação. Considerando a faixa etária da educação infantil, os pressupostos didáticos neste momento focam diferentes demonstrações, por parte do professor, da língua e sua escrita, de modo que o aluno por meio de seus contatos vá pegando familiaridade e desenvolvendo a sua cultura letrada. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 72 Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua (BRASIL, 2017, p. 42). Alguns dos objetivos voltados à criança de zero a 1 ano e 6 meses: Reconhecer quando é chamado por seu nome e reconhecer os nomes de pessoas com quem convive; Demonstrar interesse ao ouvir a leitura de poemas e a apresentação de músicas; Imitar as variações de entonação e gestos realizados pelos adultos, ao ler histórias e ao cantar; Participar de situações de escuta de textos em diferentes gêneros textuais (poemas, fábulas, contos, receitas, quadrinhos, anúncios etc; Conhecer e manipular diferentes instrumentos e suportes de escrita. Aos alunos de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses: Criar e contar histórias oralmente, com base em imagens ou temas sugeridos; Manusear diferentes portadores textuais, demonstrando reconhecer seus usos sociais; Dialogar com crianças e adultos, expressando seus desejos, necessidades, sentimentos e opiniões; Identificar e criar diferentes sons e reconhecer rimas e aliterações em cantigas de roda e textos poéticos. E aos alunos de 4 anos a 5 anos e 11 meses: Expressar ideias, desejos e sentimentos sobre suas vivências, por meio da linguagem oral e escrita (escrita espontânea), de fotos, desenhos e outras formas de expressão: Inventar brincadeiras cantadas, poemas e canções, criando rimas, aliterações e ritmos; Recontar histórias ouvidas para produção de reconto escrito, tendo o professor como escriba. Se a gente fosse relacionar diretamente os campos com as famosas disciplinas escolares que conhecemos, é bem visível que este campo está relacionado à língua portuguesa, certo? Repare que os objetivos almejam a comunicação de forma cada vez mais elaborada, o reconhecimento de diferentes expressões, dentre outros. O último, porém, não menos importante campo denomina-se: Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Já deu para perceber com qual disciplina ele se relaciona, não é? Mencionamos essa questão da disciplina, porém, não há essa menção na BNCC/2017, ok? É apenas uma forma da gente articular os conhecimentos que já temos com estes novos. O fato de não relacionar com disciplinas específicas é justamente para que a interdisciplinaridade dos campos não seja limitada. Ao modo que relaciono com algo, eu rotulo e corro o risco de não ampliar suas possibilidades. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 73 O supracitado campo possui como elementos didáticos na organização do trabalho do professor atividades que promovam experiências de observação, investigação, levantamento de hipóteses, dentre outros relacionados. Assim, a instituição escolar está criando oportunidades para que as crianças ampliem seus conhecimentos do mundo físico e sociocultural e possam utilizá-los em seu cotidiano (BRASIL, 2017, p. 43). Na prática, este campo visa situar a criança de seu tempo e espaço, discutindo questões como o ontem, o hoje e o amanhã, bem como, meu bairro, minha cidade, meu país, fenômenos atmosféricos, e questões de quantidades e medidas. Estas questões despertam o interesse das crianças desde muito novas e este campo busca refletí-los. Mas claro, sem perder de vista e considerar as faixas etárias adequadas. Com toda a certeza você não vai situar um bebê de 1 ano do mesmo modo de crianças de 5, não é? Daí a relevância dos objetivos específicos relacionados a cada faixa etária. Vamos vê-los? Aos alunos de zero a 1 ano e 6 meses: Explorar e descobrir as propriedades de objetos e materiais (odor, cor, sabor, temperatura); Explorar o ambiente pela ação e observação, manipulando, experimentando e fazendo descobertas; Manipular materiais diversos e variados para comparar as diferenças e semelhanças entre eles. Aos alunos de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses: Observar, relatar e descrever incidentes do cotidiano e fenômenos naturais (luz solar, vento, chuva etc.); Compartilhar, com outras crianças, situações de cuidado de plantas e animais nos espaços da instituição e fora dela; Identificar relações espaciais (dentro e fora, em cima, embaixo, acima, abaixo, entre e do lado) e temporais (antes, durante e depois); Classificar objetos, considerando determinado atributo (tamanho, peso, cor, forma etc.). E aos alunos de 4 anos a 5 anos e 11 meses: Estabelecer relações de comparação entre objetos, observando suas propriedades; Identificar e selecionar fontes de informações, para respondera questões sobre a natureza, seus fenômenos, sua conservação; Classificar objetos e figuras de acordo com suas semelhanças e diferenças. Os objetivos relacionados a este campo são bem interessantes de serem analisados. Ao tratar do primeiro grupo, por exemplo, onde muitos professores poderiam ter dúvidas de como efetuar seu trabalho com tais pressupostos, fala-se da manipulação de diferentes texturas, onde o aluno fará descobertas, há possibilidades de usar massinha, gelatina, sagu, bacana, não é? DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 74 Assim como nos demais campos, os elementos vão se complexificando ao modo que a faixa etária vai ampliando. Entende-se que quanto mais idade o aluno tiver, maiores suas experiências, bem como, suas possibilidades de compreensão do mundo. Quantas informações não é mesmo? Essa aula é muito rica em conhecimento pois articula a didática diretamente a um nível de ensino. Independente de sua formação na educação, este conteúdo é relevante pois também pode ser articulado e/ou adaptado com outras faixas etárias. Encerramos a aula por aqui e até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 75 CAPÍTULO 8 EXPERIÊNCIAS PRÁTICAS DE DIDÁTICA E EDUCAÇÃO INFANTIL 8.1 Introdução Na aula passada nós estudamos os pressupostos didáticos na educação infantil. Focamos a didática como organização do trabalho pedagógico do professor, bem como, enquanto conjuntura organizacional do processo ensino aprendizagem. Tomamos por base a BNCC, Base Nacional Comum Curricular, pois é este documento que estabelece os princípios curriculares na educação básica, ou seja, estados e municípios devem seguí-lo em suas instituições de ensino. Desta forma, nós pudemos analisar e refletir os princípios didáticos para esse nível de ensino. Na presente aula nós vamos refletir e analisar questões práticas sobre este assunto, a partir de uma pesquisa de doutorado que estudou a organização didática do ensino na educação infantil. Desta forma, a autora possui vários dados práticos. Bacana não é mesmo? Boa aula!! 8.2 Situando a pesquisa Visando verificar as possibilidades de ações didáticas na educação infantil, Lazaretti (2013) fez um estudo de cunho bibliográfico exploratório-explicativo com base nas práticas pedagógicas descritas em teses e dissertações produzidas no período de 1998 à 2010. Cabe mencionar, que a autora fez seu estudo com base na Teoria Histórico-cultural, porém, nós não vamos no ater a este foco, privilegiadas informações relacionadas à didática e a educação infantil. A coleta foi realizada no portal eletrônico da Fundação Capes, resultando em onze dissertações e teses que descreveram ou analisaram práticas pedagógicas concretas DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 76 na educação infantil. A partir dos dados destas pesquisas que a autora fez o seu estudo. Tratando-se de uma tese, que é a nível de doutorado, trata-se de uma pesquisa extensa, complexa e com vários elementos, no entanto, vamos nos ater ao foco da aula. A motivação do tema da pesquisa veio a partir de suas experiências nos estágios e enquanto docente neste nível. A autora relata que a prática mostrava a falta de planejamento dos professores, bem como, proliferação de atividades baseadas na espontaneidade e sem prever um objetivo por parte do professor. Assim, a didática neste nível de ensino se mostrava fragmentada. Analise a fala da autora a este respeito: Um exemplo presenciamos numa classe de crianças na faixa etária de cinco anos. Enquanto na rodinha se conversava sobre a rotina do dia, invade a sala uma borboleta. Esse evento desperta a curiosidade das crianças. A professora se apropria do fato e dedica não só o dia, mas a semana ao objetivo de ensinar sobre a borboleta. O conteúdo de ensino centrou-se na borboleta. Naquela semana vários procedimentos envolveram atividades de recorte de borboleta, colagem de borboletas, imitações de borboletas, etc. Contudo o fundamental não foi respondido: Por que ensinar sobre borboletas? O que é uma borboleta? Como ensinar sobre borboletas? Situações desse feitio eram comuns tanto nos estágios que fazíamos quanto nas escolas em que trabalhávamos e, admitamos, nossas próprias ações pedagógicas, como professora, caminhavam, por vezes, nessa direção (LAZARETTI, 2013, p. 12). A partir de suas indicações, nota-se que os professores consideravam as necessidades e interesses dos alunos, porém, não parecia haver intencionalidade pedagógica em seu trabalho, ou seja, objetivos que relacionassem o estudo com a devida relevância deles. Estudaram a borboleta por conta de uma aparição espontânea e interesse dos alunos, até aí bacana, mas, a indicação é de que as práticas eram vazias de conteúdos e objetivos. Daí a motivação da autora em realizar o presente estudo. Parecia não haver clareza sobre o que é representativo na organização didática com os alunos da educação infantil, ou seja, Por que ensinar? O que ensinar? Como ensinar?. Reparem que estes pontos na qual a autora sentia falta em sua prática são aqueles que englobam as teorias mais recentes, que preveem um estudo escolar para além de práticas por elas mesmas, mas sim, com significados. Aliás, a premissa teórica da autora, entende o trabalho educativo como primordial ao desenvolvimento multilateral da criança, o qual se dá pelas vias da educação, DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 77 preferencialmente escolar. No entanto, a inserção da criança na escola não garante essa apropriação, sendo preciso haver mediação do adulto para mediar essa relação criança -mundo, de modo intencional e sistemático. Você concorda com a perspectiva da autora? É importante a gente compreendê-la neste momento para que possamos situar os elementos de seus escritos. A sua base teórica vai ao encontro da pedagogia crítico dos conteúdos que vimos em aulas passadas ao estudar as pedagogias progressistas. Ela entende a escola como primordial no desenvolvimento do aluno, bem como, o professor no processo ensino e aprendizagem. Aliás, também compreende essa formação como primordial para uma inserção do aluno na sociedade de forma crítica, ativa e transformadora. Os dados foram organizados e analisados a partir das seguintes divisões: 1) os elementos constitutivos da didática: os objetivos- conteúdos-metodologias e a relação professor aluno; 2) a atividade principal como eixo articulador do processo ensino e aprendizagem; 3) a mediação pedagógica como potencializadora da zona de desenvolvimento proximal. Vamos analisar e refletir os resultados de sua pesquisa, comparando também com os elementos que estudamos no campo teórico? 8.3 Refletindo os resultados Cabe lembrar que os resultados são advindos das pesquisas na qual Lazaretti (2013) se debruçou. Iniciando com as faixas etárias de zero a 3 anos, a autora aponta que ainda há a prevalência de atenção às necessidades básicas das crianças, em detrimento de outras questões, ou seja, o cuidado em evidência, como a hora do sono, alimentação e higiene estão, junto ao trabalho com habilidades motoras, regras comportamentais e hábitos. Além destes fatos, há a constatação da demonstração de um trabalho sem intencionalidade e objetivos coerentes, baseados no improviso e espontaneidade. Além, de o momento de práticas pedagógicas basearem-se em atividades livres e espontâneas. A rotina desta faixa etária também mostrou-se limitada ao espaço da sala de aula, com algumas idas ao espaço externo, visando não desorganizar a rotina da instituição de ensino. Também foram vistos fragmentação das atividades de rotina, com fixidez e DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 78 sequência, sendo a rotina marcada pelo momento de mamar, trocar, dormir e algumas vezes brincar. Quando as crianças não estãoem atividades de cuidado, elas estão brincando, porém, o brincar é constantemente livre. São raras as oportunidades de atividades pedagógicas orientadas, pelo educador, salvo contar histórias e cantar com as crianças. Disso decorre uma prática em que parece que os objetivos são inventados na hora, improvisados, sem planejamento (LAZARETTI, 2013, p. 138). As constatações da autora nada tem a ver com os pressupostos didáticos refletidos na teoria na aula passada, não é? Daí a relevância da gente estudar ambos os aspectos: teoria e prática. Visando averiguar o que a teoria prevê, bem como, como a prática reage a isso. É preciso estar ciente de que estamos lidando com um estudo que apresenta um pequeno recorte frente a todas as instituições de ensino do país, portanto, os dados vistos aqui devem estar situados como de onze trabalhos em específicos. Após esse parêntese, vamos prosseguir. Verificando os demais, a pesquisadora verifica dados alinhados com os supracitados, não sendo vistos planejamentos de aulas e atividades pedagógicas direcionadas, mas sim um zelo excessivo às crianças. Um ponto importante a ser destacado é o fato de não ser observado relações afetivas entre o professor e as crianças, nem ao menos entre as crianças entre si. Assim, o professor aparece como cuidador do parque, na sala, dentre outros momentos. Há uma diferença notada entre as instituições públicas e privadas, onde nas públicas as atividades ocorriam espontaneamente e o professor buscava manter as crianças ocupadas com brinquedos e nenhum direcionamento. Já na instituição particular, havia a intenção em ultrapassar os cuidados, por parte do professor, porém, acabavam acontecendo atividades que ritualizavam o processo de ensino. Aliás, era com crianças com mais de 16 meses que podiam ser verificadas as intenções de atividades, e assim, elas aconteciam sempre da mesma maneira e seguindo o mesmo roteiro. A partir dos dados expostos, pode-se afirmar que a prática desenvolvida com as crianças de zero a 3 anos releva uma organização didática do ensino que centraliza seus objetivos em manter assegurados os cuidados de higiene, alimentação e descanso, com conteúdos procedimentais não sistematizados (LAZARETTI, 2013, p. 139-140). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 79 Acerca das crianças de 4 a 6 anos, os dados demonstram a antecipação da alfabetização por meio de atividades de treino e repetição, como se aquele espaço fosse a preparação para a escola, que virá nos níveis a seguir. Desta forma, há a escolarização, bem como e consequentemente a transformação das crianças em alunos. [...] atividades mecânicas, pouca interação, genuína entre professores e alunos, proposição de escolarização tradicional, como: trabalho centrado no adulto, espaços inadequados para execução das atividades e ênfase em atividades de alfabetização (LAZARETTI, 2013, p. 142). Assim como constatado na faixa etária anterior, a autora aponta que a relação entre objetivos, conteúdos e metodologias não apresenta uma unidade, mas sim fragilidade na organização didática de ensino de modo a pautar os objetivos deste nível à preparação ao ensino fundamental, fazendo com que atividades como brincar, explorar e desenhar ocupam lugar secundário. Em algum momento a BNCC/2017 menciona a antecipação da alfabetização na educação infantil? A resposta é não! Ao contrário, as interações e as brincadeiras são os eixos norteadores, e os 6 direitos de aprendizagem, não manifestam intenções a este respeito. Os conteúdos de ensino aparecem nas atividades padronizadas, nas músicas, nas brincadeiras, nos desenhos, com elevado tempo para instruir e instituir regras e comportamentos e formar habilidades motoras e destreza corporal, sem muita clareza de por que e para que são realizados. Conteúdos que provoquem formação de conceitos, aprimorem habilidades, hábitos e capacidades e avancem do cotidiano e só espontâneo ocupam um ínfimo espaço no rol de atividades desenvolvidas nesse período escolar (LAZARETTI, 2013, p. 146). Acerca dessa reflexão, sobre a antecipação do ensino fundamental, há vários elementos além a serem considerados, como por exemplo, o desconhecimento dos pais, que por vezes acham “bonitinho” os filhos pequenos lendo e escrevendo e acabam por gerar uma expectativa em cima da escola sobre isso. Nós como professores somos responsáveis em fundamentá-los, até porque, quando são de outras áreas e profissão, não possuem esse entendimento. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 80 Há situações em que a antecipação ocorre devido aos sistemas de ensino, que em suas redes focam essas questões com os professores, estimulando um trabalho que acaba por incentivar práticas neste sentido. Enfim, há uma série de variáveis, até mesmo, a ideia de que ler e escrever torna a escola mais escola ou mais séria! Ao tratar a prática, é preciso estar ciente que devemos tomar um cuidado com os nossos posicionamentos e ações, ou seja, não podemos chegar na escola como os detentores do saber querendo impor regras e teorias, pois, muitas vezes a realidade prática demanda situações que exigem questões não antecipadas ou defendidas teoricamente. É preciso ter esse senso crítico e compreender que a teoria muitas vezes fala do que é ideal e nem sempre esse ideal será alcançado em todas as realidades. Quanto mais estudamos e entramos em contato com os textos e reflexões, será maior as nossas problematizações e críticas sociais, pois vamos ampliando o nosso olhar e isso é muito bom, mas devemos sempre estarmos atentos ao respeito às demandas práticas e seus agentes, que também baseiam-se em determinadas questões teóricas, a gente estando de acordo ou não. Ao modo que estudamos as práticas analisadas por Lazaretti (2013), constatamos que em nenhum dos trabalhos vistos por ela, há alinhamento das questões estudadas na aula passada. Infelizmente, o estudo da autora nos mostra questões preocupantes acerca da educação infantil, como a valorização do cuidar em detrimento do educar e a antecipação da alfabetização. Ainda que os resultados sejam negativos, considerando que as práticas não correspondem ao que se espera na educação infantil, na pesquisa a autora menciona alternativas didáticas para este nível, baseadas na Teoria Histórico-cultural, ou seja, propõe soluções. Não iremos entrar nesta parte da pesquisa, pois o foco da aula foi verificar como está a didática na educação infantil, tratando-se da prática nas instituições escolares, desta forma, focamos até o momento em que a autora nos trouxe estes elementos. Para finalizar, é importante relembrar que as práticas didáticas consideradas ideais para este nível de ensino, podem ser constatadas na aula anterior e também na BNCC/2017 e demais documentos que regem este nível de ensino no país. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 81 ESTÁ NA REDE Se você tiver interesse em entrar em contato com a tese da autora na íntegra, você pode acessá-la por meio do link: https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ ufscar/2312/5371.pdf?sequence=1&isAllowed=y Na próxima aula iremos refletir os pressupostos didáticos em outro nível de ensino: o ensino fundamental! Até o próximo encontro! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 82 CAPÍTULO 9 A DIDÁTICA E SEUS PRESSUPOSTOS NO ENSINO FUNDAMENTAL 9.1 Introdução Na presente aula nós iremos prosseguir o assunto, refletindo a didática em mais um nível de ensino, o ensino fundamental. Assim como realizado com a educação infantil, utilizaremos o documento da BNCC/2017, Base Nacional Comum Curricular, como base para o presente estudo, considerando que é ele que fornece os pressupostos curriculares para todo o país. Como será a organização do trabalho pedagógico do professor neste nível de ensino? Quais os pressupostos ele deveráconsiderar? Qual o foco do processo ensino e aprendizagem? Estes e outros elementos didáticos serão refletidos e discutidos! Aproveitem a aula! 9.2 Contextualizando o nível de ensino Na educação básica brasileira temos a educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, sendo o ensino fundamental dividido entre anos iniciais e anos finais. Cada um deles engloba faixas etárias bem diferentes, considerando que é o nível de ensino mais longo da educação, contemplando dos 6 aos 14 anos. Desta forma, há várias questões relevantes a serem consideradas ao tratar do ensino fundamental: o seu momento de chegada, onde os alunos passam pela transição da educação infantil a um modo de educação bem diferente, assim como há a transição dos anos iniciais do ensino fundamental para os anos finais. A saída dos anos finais também é um momento de transição, a ida para o ensino médio que é outro nível de ensino com pressupostos e organização de ensino também DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 83 peculiares. Assim, há três especificidades: o início, a transição para os anos finais e a transição para o ensino médio. É relevante você estar ciente destes aspectos pois eles servem de pano de fundo para os elementos educacionais, bem como, didáticos. Vamos em um primeiro momento abordá-los de maneira geral, para no próximo item estudar os componentes didáticos de forma mais específica. Tratando-se dos anos iniciais do ensino fundamental, são valorizadas questões lúdicas, de modo a articular as experiências vivenciadas na educação infantil. Indica- se que a sistemática deste nível de ensino seja vivenciada de forma progressiva. Quando a criança chega ao ensino fundamental é um mundo novo, muitas vezes, uma escola nova, uma nova organização da sala de aula, uso de novos materiais didáticos, já parou para pensar? Daí a relevância da progressiva mudança, para que ocorra de forma mais orgânica. As características dessa faixa etária demandam um trabalho no ambiente escolar que se organize em torno dos interesses manifestos pelas crianças, de suas vivências mais imediatas para que, com base nessas vivências, elas possam, progressivamente, ampliar essa compreensão, o que se dá pela mobilização de operações cognitivas cada vez mais complexas e pela sensibilidade para apreender o mundo, expressar-se sobre ele e nele atuar (BRASIL, 2017, p. 58-59). A fala acima expressa um dos elementos didáticos para este nível de ensino: organização escolar a partir dos interesses das crianças e suas manifestações, para a partir de então, elas ampliarem essas vivências. De maneira prática, o que podemos constatar? Que os conhecimentos prévios das crianças são considerados e além disso são os seus interesses que irão nortear as práticas educativas. Desta maneira, é a partir da consolidação das aprendizagens anteriores e da ampliação das práticas de linguagem e da experiência estética e intercultural das crianças, que a progressão do conhecimento ocorrerá no ensino fundamental. Aliás, nos dois primeiros anos o foco é a alfabetização, visando amplas oportunidades de letramento, ou seja, contato com formas de escrita e leitura. Quando pensamos na transição dos anos iniciais do ensino fundamental para os anos finais, um dos aspectos estruturais é a figura do professor. Enquanto nos anos iniciais há um professor da turma, os anos finais é composto por professores de acordo com a disciplina, assim, há uma mudança brusca na organização do ensino. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 84 Portanto, indica-se realizar as necessárias adaptações e articulações, tanto no 5º quanto no 6º ano, para apoiar os alunos nesse processo de transição, pode evitar ruptura no processo de aprendizagem, garantindo-lhes maiores condições de sucesso (BRASIL, 2017, p. 59). Todos os períodos de transição necessitam de um olhar atento por parte dos adultos, de modo a fazer com que os alunos sintam menos dificuldade de adaptação, para não trazer um elemento a mais no processo ensino e aprendizagem. Nos anos finais do ensino fundamental, há maiores desafios, visto que as áreas são trabalhadas de modo específico, pressupondo diferentes lógicas de organização dos conhecimentos relacionados às áreas. Assim, aponta-se que os conhecimentos do ensino fundamental, anos iniciais, sejam retomados, visando sua ressignificação, aprofundamento e ampliação. Nessa direção, no Ensino Fundamental – Anos Finais, a escola pode contribuir para o delineamento do projeto de vida dos estudantes, ao estabelecer uma articulação não somente com os anseios desses jovens em relação ao seu futuro, como também com a continuidade dos estudos no Ensino Médio. Esse processo de reflexão sobre o que cada jovem quer ser no futuro, e de planejamento de ações para construir esse futuro, pode representar mais uma possibilidade de desenvolvimento pessoal e social (BRASIL, 2017, p. 62). Visto esse panorama geral acerca do ensino fundamental, chegou o momento de compreender de que forma a educação é organizada. Lembra que na educação infantil havia os campos da experiência? Essa organização não acontece neste nível, sendo substituída pelas Áreas do conhecimento, ou seja, o ensino se dará por meio das diferentes áreas, sendo elas: área de linguagens, área de matemática, área de ciências natureza, área de ciências humanas e a área de ensino religioso. Dentro de cada área, há questões específicas, os componentes curriculares, sendo as áreas um composto mais amplo. A ideia de trabalhar por meio de áreas é justamente prever um ensino interdisciplinar, não deixando as disciplinas isoladas. Entende-se que quanto mais articulado for a educação escolar com os seus elementos sociais, mais o processo ensino e aprendizagem será significativo aos alunos. Desta maneira, propõe-se aos estudantes o ensino dos componentes curriculares e suas peculiaridades, mas sem perder de vista que fazem parte de um todo maior, DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 85 estando também articulados com outros componentes e áreas. Daí a relevância de um ensino contextualizado. 9.3 Didática e áreas do conhecimento Tendo estudado os aspectos gerais acerca do ensino fundamental, vamos refletir os componentes didáticos presentes neste nível? Os elementos supracitados já nos garantem algumas respostas, como por exemplo, a maneira que o trabalho deve prosseguir, tratando-se das transições presentes neste nível de ensino, tratando-se também das áreas do conhecimento, que pressupõe um processo ensino e aprendizagem interdisciplinar, bem como, a consideração aos interesses e conhecimentos prévios dos alunos, fator mencionado na BNCC como um todo. Na área das linguagens, o foco é possibilitar aos alunos práticas diversas de linguagens, ao modo que ampliem suas capacidades expressivas por meio de diferentes manifestações, sejam elas a linguagem verbal, corporal, artística, dentre outras. Mais do que isso, é relevante que compreendam que as linguagens são dinâmicas, e que todos participam desse processo de constante transformação (BRASIL, 2017, p. 63). Ao modo que pressupõe estes elementos, a organização do trabalho pedagógico do professor e os elementos didáticos se pautam em diferentes atividades de expressão, bem como, explorando diferentes linguagens. Reparem que estes elementos não são isolados, visto que, há também o objetivo de demonstrar aos alunos a dinamicidade da linguagem, bem como, suas transformações. Quando a gente compara a linguagem presente na internet, por exemplo, em muitos momentos se faz diferente da formal da língua portuguesa, não é mesmo? E as linguagens corporais? Dizem muito sobre o que pensamos e demonstram nosso posicionamento. Há estas e tantas outras possibilidades a serem exploradas com os alunos, aliás, a BNCC/2017, assim como ao tratar da educação infantil, apresenta os objetivosnecessários, facilitando o trabalho do professor. O trabalho é e deve ser amplo, bem como, sem perder de vista os fatores mencionados anteriormente, como a consideração do conhecimento prévio dos alunos e sua articulação com questões do meio social. Aliás, estes aspectos valem para todo o processo ensino aprendizagem, não esqueça! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 86 Tratando-se das especificidades das faixas etárias, nos anos iniciais do ensino fundamental, os componentes curriculares pautam-se principalmente nas práticas relativas às culturas infantis tradicionais e contemporâneas, lembrando que nos dois primeiros anos, a alfabetização é o foco. E nos anos finais do ensino fundamental, há a inclusão da língua inglesa, que está diretamente relacionada à área de linguagens. Neste momento, os alunos já possuem um repertório mais amplo e linguagem mais sólidas, sendo necessária a reflexão do já aprendido, bem como, ampliação. É importante considerar, também, o aprofundamento da reflexão crítica sobre os conhecimentos dos componentes da área, dada a maior capacidade de abstração dos estudantes (BRASIL, 2017, p. 64). A figura do professor é de extrema importância na transmissão dos conteúdos, porém, diferente do ensino tradicional, o seu papel não para por aí, pois, ele deve articular estes conteúdos com as vivências dos alunos, conhecimentos prévios, bem como, questões sociais. Estes elementos valem para tal área como as outras também. A didática neste sentido, mostra-se ampliada, havendo vários elementos que são de sua preocupação, que não haviam anteriormente. No ensino tradicional, por exemplo, que mencionamos acima, as preocupações didáticas eram mais limitadas, certo? Pois o processo ensino aprendizagem era considerado mais simples: professor transmite, aluno recebe. A partir do momento em que amplia-se a figura do professor e do próprio aluno, pois agora os seus conhecimentos prévios são considerados, a didática também ganha novo sentido. É importante que estas reflexões sejam realizadas no decorrer da aula, pois, nem sempre utilizaremos a palavra didática, mas, tratando-se do processo ensino aprendizagem, sabemos de antemão que faz parte de seus elementos e preocupações, desta maneira, é preciso que você vá fazendo as devidas relações. Vamos prosseguir? A área da matemática, como o próprio nome nos apresenta, diz respeito à quantificação, unidades de medida, grandezas, porém, não para por aí, ela também inclui os fenômenos do mundo físico. A Matemática cria sistemas abstratos, que organizam e inter- relacionam fenômenos do espaço, do movimento, das formas e dos números, associados ou não a fenômenos do mundo físico. Esses sistemas contêm ideias e objetos que são fundamentais para a compreensão de fenômenos, a construção de representações significativas e argumentações consistentes nos mais variados contextos (BRASIL, 2017, p. 265). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 87 Visando combater o ensino das especialidades por eles mesmos, a BNCC/2017 amplia as áreas, fazendo com que o ensino e seu processo esteja mais intimamente relacionado às questões sociais. Se a matemática no documento fosse compreendida como operações, por exemplo, ela seria limitada, certo? Assim, podemos afirmar: quanto mais complexo o entendimento acerca do processo ensino e aprendizagem, mais complexos os elementos didáticos. O ensino matemático neste sentido deseja que o aluno estabeleça relações do mundo real com representações, bem como, realizando hipóteses, conjecturas e possíveis resoluções de problemas. Ouvimos muito falar do letramento em relação ao processo de alfabetização, porém, também existe o letramento matemático, onde o aluno capacita as suas habilidades de raciocinar, representar, comunicar e argumentar matematicamente, de modo a favorecer o estabelecimento de conjecturas, a formulação e a resolução de problemas em uma variedade de contextos, utilizando conceitos, procedimentos, fatos e ferramentas matemáticas (BRASIL, 2017, p. 266). É este letramento que favorece a compreensão do aluno acerca da matemática e sua função fora do contexto escolar, bem como, a relevância dela neste contexto, ou até mesmo, para a sua formação. As preocupações didáticas neste momento, voltam-se para os aspectos para além das linguagens, mencionadas anteriormente. Aqui, os elementos são mais objetivos, quantificáveis, são dados, medidas, fenômenos, entre outros. O desenvolvimento dessas habilidades está intrinsecamente relacionado a algumas formas de organização da aprendizagem matemática, com base na análise de situações da vida cotidiana, de outras áreas do conhecimento e da própria Matemática. Os processos matemáticos de resolução de problemas, de investigação, de desenvolvimento de projetos e da modelagem podem ser citados como formas privilegiadas da atividade matemática, motivo pelo qual são, ao mesmo tempo, objeto e estratégia para a aprendizagem ao longo de todo o Ensino Fundamental. Esses processos de aprendizagem são potencialmente ricos para o desenvolvimento de competências fundamentais para o letramento matemático (raciocínio, representação, comunicação e argumentação) e para o desenvolvimento do pensamento computacional (BRASIL, 2017, p. 266). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 88 Outra área é a de ciências da natureza e seu foco é o letramento científico. Já ouviu falar? Envolve a capacidade de compreender e interpretar o mundo, porém, também de transformá-lo. Assim, os conteúdos são relevantes, mas o objetivo não para por aí, estendendo-se ao desenvolvimento da capacidade de atuação do aluno no mundo. A proposta é possibilitar o contato com diferentes conhecimentos científicos e também suas práticas produzidas ao longo dos anos. Espera-se, desse modo, possibilitar que esses alunos tenham um novo olhar sobre o mundo que os cerca, como também façam escolhas e intervenções conscientes e pautadas nos princípios da sustentabilidade e do bem comum (BRASIL, 2017). Fala-se em escolhas e intervenções conscientes, ou seja, ao modo que o aluno tem a sua disposição diferentes possibilidades, espera-se que ele opte pela melhor, sendo as melhores aquelas que prezam o bem comum. Os elementos didáticos são bem definidos nesta área: ensino baseado em questões científicas, porém, também na experimentação. Amplas possibilidades de aprendizagem, estando os alunos em contato com diferentes modelos e pressupostos. Além, do caráter de pesquisa também estar envolvido, pois, quando se fala em científico, os métodos de pesquisa não ficam em segundo plano. [...] pressupõe organizar as situações de aprendizagem partindo de questões que sejam desafiadoras e, reconhecendo a diversidade cultural, estimulem o interesse e a curiosidade científica dos alunos e possibilitem definir problemas, levantar, analisar e representar resultados; comunicar conclusões e propor intervenções (BRASIL, 2017, p. 322). A investigação possui evidência, pois o seu caráter científico será estimulado nos alunos. Ao modo que verificam como se chega ao conhecimento, esta prática é amplamente desenvolvida, ou seja, há possibilidades, hipóteses, testes, experimentações, verificação de resultados, é um ciclo e um processo para se chegar ao conhecimento. O aluno aprende esses elementos na teoria, mas também os desenvolve, ou seja, leva o caráter da pesquisa para a sua própria formação. A próxima área é a de ciências humanas! Tem ideia do que ela se refere? Ela é bem complexa e simples ao mesmo tempo! Confuso? Vamos entendê-la melhor a partir da fala direta do documento: DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 89 A área de Ciências Humanas contribui para que os alunos desenvolvam a cognição in situ, ou seja, sem prescindir da contextualização marcada pelas noções de tempo eespaço, conceitos fundamentais da área. Cognição e contexto são, assim, categorias elaboradas conjuntamente, em meio a circunstâncias históricas específicas, nas quais a diversidade humana deve ganhar especial destaque, com vistas ao acolhimento da diferença. O raciocínio espaço-temporal baseia-se na ideia de que o ser humano produz o espaço em que vive, apropriando-se dele em determinada circunstância histórica. A capacidade de identificação dessa circunstância impõe-se como condição para que o ser humano compreenda, interprete e avalie os significados das ações realizadas no passado ou no presente, o que o torna responsável tanto pelo saber produzido quanto pelo controle dos fenômenos naturais e históricos dos quais é agente (BRASIL, 2017, p. 353). Refletindo esta área em termos práticos, a que ela se refere especificamente? Por meio das competências evidenciadas à ela é possível compreender de forma mais direta. A compreensão de si, sua história e peculiaridades, bem como, a compreensão do outro, especificidades de tempo e espaço, localização, direitos humanos, questões culturais, intervenções na natureza, análise do mundo social, digital e cultural, dentre outros elementos. O tempo, o espaço e o movimento são elementos centrais da área, junto com a crítica sistemática à ação humana, às relações sociais e de poder e, especialmente, à produção de conhecimentos e saberes, frutos de diferentes circunstâncias históricas e espaços geográficos (BRASIL, 2017). Relacionando diretamente a área com disciplinas, podemos apontar a geografia e a história. Vale lembrar, que assim como os trato com as demais áreas, os assuntos são contextualizados, problematizados e refletidos, não sendo suficiente o conteúdo formal por ele mesmo. A formação ética também é enfatizada nesta área, pois fala-se em respeito às demais culturas, aos direitos humanos, ao ambiente e questões sociais. Aliás, a pauta das desigualdades também são foco, devendo os alunos refleti-las, buscando maneiras de diminuí-las. Ao longo de toda a Educação Básica, o ensino das Ciências Humanas deve promover explorações sociocognitivas, afetivas e lúdicas capazes de potencializar sentidos e experiências com saberes sobre a pessoa, o mundo social e a natureza. Dessa maneira, a área contribui para o adensamento de conhecimentos sobre a participação no mundo social e a reflexão sobre questões sociais, éticas e políticas, fortalecendo a formação dos alunos e o desenvolvimento da autonomia intelectual, bases para uma atuação crítica e orientada por valores democráticos (BRASIL, 2017, p. 354). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 90 Em todas as áreas o objetivo final é a inserção social crítica e reflexiva, do aluno, no entanto, nas ciências humanas esse ponto possui ainda mais evidência, pois, são estudadas e questionadas questões intimamente humanas. Por exemplo, é diferente de estudar esse aspecto no letramento matemático e de linguagens, não é mesmo? A última área proposta para o ensino fundamental é a do ensino religioso. Ela não trata apenas de religião em si, mas de aspectos como: identidade e alteridade, manifestações e crenças religiosas e filosofias de vida. Acerca da identidade de alteridade, trabalha-se de modo que os alunos reconheçam, valorizem e acolham o caráter singular e diverso do ser humano. Fala-se dos símbolos e de como o humano conferiu valor de sacralidade a objetos, coisas, pessoas, forças da natureza ou seres sobrenaturais, transcendendo a realidade concreta (BRASIL, 2017). Mitos e ritos também são estudados, bem como, espaços e territórios sagrados. Acerca dos demais aspectos, eles estão intimamente relacionados, pretendendo trabalhar com os alunos: as diferentes experiências e suas lideranças, as diversas tradições religiosas, filosofias de vida, mitos, doutrinas, sendo elas orais ou escritas. O conhecimento religioso, objeto da área de Ensino Religioso, é produzido no âmbito das diferentes áreas do conhecimento científico das Ciências Humanas e Sociais, notadamente da(s) Ciência(s) da(s) Religião(ões). Essas Ciências investigam a manifestação dos fenômenos religiosos em diferentes culturas e sociedades enquanto um dos bens simbólicos resultantes da busca humana por respostas aos enigmas do mundo, da vida e da morte. De modo singular, complexo e diverso, esses fenômenos alicerçaram distintos sentidos e significados de vida e diversas ideias de divindade(s), em torno dos quais se organizaram cosmovisões, linguagens, saberes, crenças, mitologias, narrativas, textos, símbolos, ritos, doutrinas, tradições, movimentos, práticas e princípios éticos e morais. Os fenômenos religiosos em suas múltiplas manifestações são parte integrante do substrato cultural da humanidade (BRASIL, 2017, p. 436). Verificamos os aspectos didáticos em cada uma das áreas, mas, para finalizar vamos fazer uma reflexão geral e também articulá-los com o nível da educação infantil? 9.4 Didática na educação infantil X didática no ensino fundamental As preocupações e elementos didáticos não são muitos diferentes em um nível de ensino ou em outro, prevendo aspectos em comum, tais quais: proposta de um DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 91 processo ensino aprendizagem que articula conteúdo formal com aspectos sociais, ou seja, os conhecimentos prévios dos alunos são considerados, seja para reforçar o conhecimento ou até mesmo para servir de base para as futuras apropriações. Os conteúdos são contextualizados, daí o trabalho por áreas, ou tratando-se da educação infantil, com os campos das experiências. Além de que os conteúdos não são fins em si mesmos, sendo sempre considerados balizadores de futuras ações, havendo a necessidade de formação de indivíduos críticos e ativos socialmente. Ou seja, todos os níveis de ensino preveem que o aluno seja sujeito transformador social e não só aquele que se insere e adequa socialmente. Os papéis do professor e aluno são bem definidos, possuindo especificidades próprias, porém, articuladas. O professor é o adulto que direciona, estimula, propõe desafios maiores e problematizações, tendo papel primordial no processo ensino e aprendizagem dos alunos. Portanto, sua base e carga de conhecimentos devem ser amplas, de modo a ter condições, preparo e estratégias suficientes para desenvolver um trabalho coerente. Os alunos também possuem papéis definidos, como de sujeitos ativos em sala de aula, que comentam, discutem e participam de seu próprio processo de ensino e aprendizagem. São primários também para o seu próprio desenvolvimento, considerando, que necessitam também agir e estudar a partir dos direcionamentos do professor. Refletidas as questões didáticas de modo geral, finalizamos a presente aula por aqui! Conteúdo muito bacana, né? Com certeza te ajudará em outras disciplinas também! Até a próxima aula! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 92 CAPÍTULO 10 SALA DE AULA E DIDÁTICA 10.1 Introdução Na presente aula nós iremos estudar e refletir a didática em relação a aspectos práticos, ou seja, seus elementos que estão diretamente influenciando a sala de aula. Vamos refletir esses aspectos que interferem diretamente à nossa prática, independente do nível de ensino que iremos atuar ou disciplina que iremos ministrar. Nós vimos em aulas passadas que a didática não se resume às técnicas e metodologias, porém, que tais elementos também fazem parte de suas preocupações; daí a relevância em refleti-los e estudá-los. Quanto mais sabemos menos erramos e sobre a didática há muitos elementos para a gente aprender! Boa aula!! 10.2 Aspectos práticas da didática em sala de aula Em uma perspectiva atual da didática, vimos que seus elementos são amplos, considerando aspectos técnicos e práticos, bem como, um processo ensino e aprendizagem que não se resume a mera transmissão de conteúdos formais, devendoestes serem articulados às práticas sociais, bem como, ter toda a educação associada a estes propósitos, de modo a formar indivíduos críticos e ativos no diferentes âmbitos. A fala acima é um resumo bem geral, articulando didática e aspectos contemporâneos, e tem seus elementos minuciosamente refletidos e problematizados no decorrer das aulas anteriores. O importante é você compreender neste momento como ela chegou até aqui e os aspectos que a fundamentam. Refletindo os aspectos práticos, tratando-se da didática em perspectivas atuais, podemos dizer que uma boa didática é aquela que amplia as capacidades intelectuais dos alunos e promove o seu desenvolvimento. Isso por meio dos conteúdos escolares, porém, importante não perder de vista que eles não são considerados de maneira isolada, mas sim, articulados com outras questões, para que não tenham as mesmas limitações do ensino tradicional. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 93 A teoria do ensino desenvolvimental de Vasíli Davydov, baseada na teoria histórico-cultural de Vygotsky, sustenta a tese de que o bom ensino é o que promove o desenvolvimento mental, isto é, as capacidades e habilidades de pensamento. Segundo Vygotsky, a aprendizagem e o ensino são formas universais de desenvolvimento mental. Para Davydov, a atividade de aprendizagem está assentada no conhecimento teórico-científico, ou seja, no desenvolvimento do pensamento teórico e nas ações mentais que lhe correspondem (LIBÂNEO, 2011, p. 98). Desta forma, vale mencionar, que a educação nessa perspectiva, que valoriza os conteúdos formais, porém, não os considera como um fim em si mesmo, está fundamentada na teoria histórico cultural, ou seja, perspectiva específica e que considera os elementos mencionados acerca da didática em suas defesas atuais. Está alinhada à pedagogia crítico social dos conteúdos. Lembra dela? Vimos em aulas passadas que é uma das tendências da educação progressista. A partir desta perspectiva, há a necessidade de o aluno entrar em contato com os conteúdos formais para que haja seu desenvolvimento crítico social, porém, estando estes conteúdos articulados com as suas experiências e práticas sociais de modo geral. Portanto, o conteúdo escolar não é tratado de forma estanque, ao contrário, ele é contextualizado. As questões práticas didáticas também são bem definidas, envolvendo conteúdos escolares e questões sociais. Acerca do processo ensino aprendizagem, a partir desta perspectiva, é defendido que: O ensino é meio pelo qual os alunos se apropriam das capacidades humanas formadas historicamente e objetivadas na cultura material e espiritual. Essa apropriação se dá pela aprendizagem de conteúdos, habilidades, atitudes, formadas pela humanidade ao longo da história (LIBÂNEO, 2011, p. 86). Esse processo de desenvolvimento pode ser melhor compreendido por meio de cinco características apontadas pelo autor supracitado, vamos entendê-las? A primeira aponta que o desenvolvimento mental dos alunos depende da transmissão- apropriação de conhecimentos, habilidades, valores, que vão sendo constituídos na história da humanidade; Ou seja, ao mencionar a história da humanidade, está trazendo à tona os conteúdos formais, sendo eles frutos do conhecimento historicamente acumulado. Ao trazer em primeiro plano tais conteúdos, há o reforço do posicionamento de que eles são fundamentais ao desenvolvimento do indivíduo. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 94 Outra característica, alinha-se diretamente à primeira, porém, a ampliando. É pontuado que o ensino tem por objetivo propiciar aos alunos os meios de domínio dos conceitos, porém, de modo a formar capacidades intelectuais com base nos procedimentos lógicos e investigativos da ciência ensinada. Desta forma, para além de objetivar a apropriação dos conteúdos, é preciso que estes estejam articulados com um avanço das capacidades mentais, bem como, que também haja, por parte do aluno,a compreensão dos procedimentos na qual seu aprendizado se baseia. Esta parte é bem interessante, trazendo outro aspecto prático e didático à tona, pois, ao mesmo tempo que valoriza-se o conhecimento científico formal, também é valorizado o seu processo de investigação, de modo que o aluno também o compreenda. Ou seja, ele aprende o conteúdo e também os processos investigativos na qual este conteúdo percorreu. Esta característica mencionada está intimamente relacionada com a posterior, que menciona que a ação de ensinar como prática para além de “passar conteúdo”, logo que, consiste em intervir no processo mental de formação de conceitos por parte dos alunos. Ou seja, entende-se que ao modo que o aluno recebe novos conteúdos e articula com seus conhecimentos, vai criando conceitos e aprimorando a sua formação. As duas próximas características mencionam aspectos mais amplos, afirmando que as relações intersubjetivas na sala de aula implicam, necessariamente, a compreensão dos motivos dos alunos, isto é, seus objetivos e suas razões para se envolverem nas atividades de aprendizagem. E também que a aprendizagem se consolida melhor se forem criadas situações de interlocução, cooperação, diálogo, entre professor e alunos e entre os alunos, em que os alunos tenham chance de formular e operar com conceitos (LIBÂNEO, 2011). Em ambas características há a valorização para elementos além dos conteúdos, como por exemplo, os fatores que dizem respeito aos próprios estudantes, como suas motivações e razões como pano de fundo para o sucesso de seu desenvolvimento. Ou seja, o aluno precisa estar motivado para que o processo ocorra de forma eficaz, além de que é preciso que estejam cientes da necessidade de suas aprendizagens, os motivos de aprender, os motivos da relevância do conteúdo, seja para sua formação enquanto estudante, seja como indivíduo social. Fazendo uma ponte desta questão com a sua formação, não é mais significativo aquele conhecimento que você visualiza a aplicabilidade? Ou, situá-lo frente a alguma DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 95 situação específica? Quando o conteúdo é isolado, ele perde o sentido, não há motivação para aprendê-lo, deixando o processo ensino e aprendizagem mais burocrático e cansativo. Analise a tirinha abaixo: Título: Tirinha Mafalda. Crítica educação Fonte:clubedamafalda.com O que será que a tirinha tem a ver com a aula neste momento? Observe que a menina, chamada Mafalda, questiona a sua educação, aliás, ela tem a intenção de ler o jornal, porém, se atenta que ainda não sabe fazê-lo, aliás, ela recorda que na escola ela aprende determinados elementos. Quando ela menciona que até agora ela aprendeu que “mamãe mima o fulano”, ela está problematizando a maneira que vem sendo alfabetizada, de modo que quando está em uma situação real e cotidiana, ela não consegue ler. Então, de que adianta? Essa fala da Mafalda vai ao encontro do que estamos discutindo. Se não há, para o aluno, relevância do conteúdo, qual o sentido? É preciso ter em mente que nem sempre vamos ter contato com os conteúdos de forma imediata, ou, visível aos nossos olhos, às vezes os conteúdos são bases para outros que virão, ou até mesmo, para nos fazer refletir. De qualquer forma, é primordial que a gente compreenda o porquê estão ali e mais do que isso, que sejam relacionados com as nossas questões sociais e práticas, nem que seja de forma indireta, subjetiva ou como ponte para outras questões. Percebe como há a relevância do aluno nesse processo? Ou seja, em seu próprio processo de desenvolvimento? Por isso fala-se da sua motivação e de seu diálogo. Aliás, ao articular o seu conhecimento prévio com os conteúdos, ele também possui seu papel de relevância, devendo expor, tirar dúvidas, argumentar, de modo a aprimorar o que já sabe e também trazer elementos novos aos demais. Com toda a certeza DIDÁTICAPROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 96 também aprendemos com os alunos em sala de aula, não é? Eles estando cientes de seu papel poderão participar ainda mais. Percebe como o professor também é relevante em todo esse processo? Até então, não mencionamos a sua função, porém, está subentendido ao dizermos todas essas necessidades. Ou seja, quem deverá estar preparado para propiciar essa educação diretamente aos alunos? O professor! Quem deverá estimular sua motivação? O professor! E por aí em diante. [...] para que o ensino esteja voltado para o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos, é preciso que o professor conheça quais são os métodos de investigação utilizados pelo cientista (em relação à matéria que ensina), pois é nesses métodos que encontrará as capacidades intelectuais a serem formadas pelos estudantes enquanto estudam a matéria (LIBÂNEO, 2011, p. 87). Partindo de tais pressupostos, entende-se que ao professor não basta dominar os conteúdos, é preciso que ele compreenda o processo de pesquisa na qual este conteúdo esteve sujeito. Lembra que anteriormente falou-se da relevância de os alunos compreenderem o processo investigativo? É sobre isso. Para os alunos conseguirem compreender, é necessário que o professor também entenda e valorize tais processos. A escolha dos métodos e estratégias mais ou menos adequados também ficam a cargo do professor, aliás, devendo optar por aquelas que de forma mais significativa auxiliarão os alunos em seu processo ensino aprendizagem. E falando em alunos, a consideração de suas especificidades também é um elemento a ser considerado pelo professor. Libâneo (2011) é categórico em afirmar que cabe ao professor compreender quais são as características individuais e socioculturais dos alunos e os motivos que os impulsionam, de modo a saber ligar os conteúdos com esses motivos. Os saberes didáticos são organizadores da mediação didática empreendida pelo professor na sala de aula. Os saberes didáticos estruturam a prática pedagógica, concedendo-lhe forma e consistência. Inspirada em Gauthier (2006), classificamos os saberes didáticos em dois tipos: saberes referentes à mediação de classe e saberes referentes à mediação da disciplina (D´AVILA, 2014, p. 91-92). Esses saberes didáticos expressos pela autora, referenciando Gauthier, são muito interessantes para serem refletidos por nós, visto que também representam questões DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 97 práticas da didática. Ao mencionar os saberes referentes à mediação de classe, a autora quer dizer sobre os organizadores da gestão do grupo da sala de aula ,ou seja, são aqueles na qual os professores lançam mão para estimular a aprendizagem, a participação, o trabalho compartilhado, dentre outros, para gerar uma atmosfera positiva para a aprendizagem significativa (D´AVILA, 2014). São exemplos de saberes relacionados à mediação de classe: •Administrar o tempo da aula; •Interagir verbalmente; •Estimular a participação, o compromisso nas atividades; • Estimular a formação de valores, postura profissional; •Produzir um clima de confiança na sala; •Produzir integração entre os alunos e entre os alunos e o professor; •Saber administrar os trabalhos em equipes; • Localizar as lideranças; • Trabalhar de forma proativa (D´AVILA, 2014, p. 92). Acerca dos saberes referentes à mediação da disciplina, a autora refere-se aos aspectos que diretamente relacionam-se aos conteúdos para melhor favorecer o processo ensino e aprendizagem dos alunos, ou seja, são as ações direcionadas. Alguns exemplos práticos: •Organizar e selecionar metodologias de ensino; •Pesquisar como meio de enriquecer e atualizar o processo de ensino-aprendizagem; •Identificar as lacunas de aprendizagem e nelas intervir; •Utilizar recursos (técnicos e tecnológicos); •Criar situações didáticas (de aprendizagem); •Planejar aulas (elaborar planos de aula); •Contextualizar o conteúdo de acordo com o nível cognitivo/cultural dos alunos; •Ter segurança no assunto/dominar o conteúdo específico da matéria; •Valorizar conhecimentos prévios dos alunos sobre o conteúdo; •Usar metáforas lúdicas e linguagem artística (D´AVILA, 2014, p. 92). Estes saberes agrupados pela autora em dois grupos, dão concretude aos elementos discutidos até então, pois traçam exemplos práticos representativos e que sintetizam os conhecimentos estudados. Aliás, vale mencionar, que ao trazer estes exemplos e formas de saberes, a autora está ciente de que uma ou outra ação podem não constar, considerando as amplas possibilidades práticas. Já vimos em aulas anteriores sobre a organização do trabalho pedagógico do professor articulado com a didática, porém, este trabalho é tão presente, que ao tratar da didática em sala de aula e suas questões práticas, seu trabalho não pode passar despercebido. Aliás, é o professor, o aluno e o conhecimento que estão diretamente interligados e associados a esta nuance didática. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 98 A partir de então, podemos afirma que o papel da didática é: a) ajudar os alunos a pensar teoricamente (a partir da formação de conceitos); b) ajudar o aluno a dominar o modo de pensar, atuar e investigar a ciência ensinada; c) levar em conta a atividade psicológica do aluno (motivos) e seu contexto sociocultural e institucional (LIBÂNEO, 2011, p. 99). Já estudamos bastante a didática e suas nuances até aqui, mas ainda não tínhamos pensado o seu papel de forma prática, não é? Vale relembrar que estamos focando uma de suas nuances, pois a didática é muito mais! Reforçamos sempre esta questão, pois, devido ao uso do seu termo no senso comum é muito fácil limitá-la aos aspectos meramente técnicos. ANOTE ISSO Libâneo (2011), aponta um caminho didático para a elaboração de um plano de ensino. Vale situar, que as bases do autor são as expressas anteriormente! Ao assumir o ensino de uma matéria, os professores geralmente partem de um conteúdo já estabelecido num projeto pedagógico-curricular. O procedimento da análise de conteúdo indicado na didática desenvolvimental pode levar a uma organização do conteúdo muito diferente da existente na instituição, ou seja, os temas podem ser os mesmos, mas a seqüência e a lógica de estruturação podem ser outras. Os procedimentos a serem utilizados em relação à formulação de conteúdos, objetivos e metodologia podem ser os seguintes: 1. Identificar o núcleo conceitual da matéria (essência, princípio geral básico) e as relações gerais básicas que a definem e lhe dão unidade. Este núcleo conceitual contém a generalização esperada para que o aluno a interiorize, de modo a poder deduzir relações particulares da relação básica identificada. 2. Construir a rede de conceitos básicos que dão suporte a esse núcleo conceitual, com as devidas relações e articulações (mapa conceitual). 3. Estudo da gênese e dos processos investigativos do conteúdo, de modo a extrair ações mentais, habilidades cognitivas gerais a formar no estudo da matéria. 4. Formulação de tarefas de aprendizagem, com base em situações-problema, que possibilitem a formação de habilidades cognitivas gerais e específicas em relação à matéria. 5. Prever formas de avaliação para verificar se o aluno desenvolveu ou está desenvolvendo a capacidade de utilizar os conceitos como ferramentas mentais (LIBÂNEO, 2011, p. 100). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 99 Já parou para refletir o porquê é importante conhecer os saberes pedagógicos e aspectos didáticos? D´avila (2014) afirma que é este conhecimento que nos garante profissionalismo, ou seja, quanto melhores lidamos e estamos conscientes de nossas práticas, melhores e mais eficazes elas serão. Podemos também compreender a fala da autora como atos com intencionalidade, ou seja, trabalhos intencionaispossuem planejamento, objetivos e método definido. Desta forma, é preciso que o professor e toda a rede de ensino possuam trabalhos intencionais, neste sentido, sempre haverá objetivos e fundamentos por trás das práticas. Estudar a didática é muito bacana, não é? Principalmente pois ela está diretamente relacionada ao nosso trabalho! Espero que tenha aproveitado a aula de hoje! Encerramos a presente aula por aqui! E até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 100 CAPÍTULO 11 PRÁTICAS DIDÁTICAS 11.1 Introdução Na presente aula iremos estudar diferentes didáticas, considerando o conceito enquanto ações em sala de aula, enquanto vivências práticas a serem vivenciadas. Até então tratamos da didática em sua forma autônoma e conhecida pela educação de modo geral, com preocupações relacionadas ao processo ensino e aprendizagem, dentre tantos outros aspectos que a tornam ampla e complexa. Na presente aula nós iremos refletir e estudar a didática da matemática, que segundo Gálvez (1996) é uma perspectiva teórica específica que trata de uma área de conhecimento. Já ouviu falar? Posteriormente, estudaremos a aula aberta, outra perspectiva didática muito interessante e com pressupostos peculiares que a fundamentam. Boa aula! 11.2 Didática matemática A didática da matemática tem origem na França na década de 1960 e suas preocupações iniciais se pautavam no apoio aos professores de modo a complementar a sua formação matemática no âmbito teórico, bem como, também com produção de materiais específicos. Ao modo que os anos foram passando as necessidades da área foram se ampliando, avançando, sendo assim, foi percebido que para além da necessidade de produção de meios para atuar no processo de ensino, também passou a ser necessária a produção de conhecimentos para tal. [...] defende a ideia de que aplicar modelos gerais dos processos de aprendizagem ou desenvolvimento intelectual para organizar tanto a aquisição de conhecimentos matemáticos como a de quaisquer outros conteúdos escolares, indistintamente, acarreta um isolamento dos modelos psicológicos da realidade a partir da qual foram construídos. Assim, acontece a transposição destes modelos a outra realidade, como se fossem entidades autônomas, atribuindo-lhes um funcionamento ideológico e não científico (GÁLVEZ, 1996, p. 27). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 101 Analisando a fala acima, reparem que ela levanta uma questão que já evidenciamos em aulas anteriores, que é o fato das receitas e manuais aplicados à educação. A autora questiona que existam modelos aplicáveis em todas as realidades, aliás, o foco do assunto é a didática matemática e suas pretensões iniciais, no entanto, ela não perde de vista que este fato esteja relacionado a qualquer outro conteúdo escolar. Desta forma, assim como com os demais conhecimentos, a didática matemática passou a preocupar-se mais com a produção de conhecimentos, que no caso são adaptáveis, do que com formas para aplicá-los. Portanto, o seu objeto de estudo é a situação didática, que pode ser definida como um conjunto de relações estabelecidas explícitas e/ou implicitamente entre um aluno ou um grupo de alunos, um determinado meio e um sistema educativo com a finalidade de que estes alunos apropriem-se de um saber constituído ou em vias de constituição (GÁLVEZ, 1996, p. 28). Em termos práticos, as situações didáticas, neste contexto, são atividades destinadas aos alunos e que são fundamentadas pelo professor. A situação didática não tem o contexto escolar como essencial, mas sim a intencionalidade, ou seja, o objetivo de que alguém aprenda algo. Olha a intencionalidade presente novamente! Já discutimos ela em vários momentos da disciplina. Neste caso, é importante que você compreenda que na didática matemática é a situação didática que é o seu objeto de estudo e que esta necessita de intencionalidade, sendo aliás, esse aspecto mais relevante que os demais. E qual o objetivo fundamental da didática da matemática? A autora aponta que trata-se de averiguar como funcionam as situações didáticas, ou seja, quais das características de cada situação são determinantes para a evolução do comportamento dos alunos e, consequentemente, de seus conhecimentos. Em termos práticos, a preocupação é entender as situações que levam ao aprendizado dos alunos, por este motivo levantam a situação didática como o foco da didática matemática. A situação aqui é entendida como conjunto de ações. Por isso também, a intencionalidade aparece, pois, tratando-se de ações voltadas ao processo ensino e aprendizagem, é preciso ter objetivos definidos e planejamentos prévios, certo? Aliás, não só as situações didáticas que levam ao conhecimento são valorizadas. Aquelas que levam aos erros também fazem parte da preocupação da didática matemática, considerando que também precisam ser compreendidas, visando o que deu ou não certo e como avançar, além de analisar o motivo de não terem sido exitosas. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 102 Nem sempre, como professores, iremos propiciar atividades certeiras ao objetivo que queremos, podemos focar determinado objetivo e chegar em outro, por exemplo. Assim, todas as situações são relevantes, seja para averiguar se chegou ao esperado, ou não. Considerando que são as situações didáticas o foco, criou-se uma metodologia para analisá-las, ou seja, um passo a passo, critérios para sempre serem tratadas e analisadas de maneira equivalente. Em um primeiro momento, é preciso compreender que há uma base de pensamentos que entende que é preciso prever os possíveis efeitos das situações didáticas postas em prática, para posteriormente comparar as previsões com o os acontecimentos. Ou seja, se você prevê determinadas situações, é preciso que tenham hipóteses sobre elas, expectativas. Na minha intenção, qual o objetivo proposto? Quais as minhas expectativas? Ao término será possível comparar minhas ideias prévias com a conclusão de fato. Uma das formas de análise toma por base a teoria dos jogos, identificando o estágio inicial da situação, bem como, os seus processos e estágio final, que trata-se da conclusão. Assim, explicita-se as regras que passam de um estágio a outro e os envolvidos devem evidenciar suas estratégias para conseguir chegar ao final. Desta forma, as diferentes estratégias são postas em discussão, problematização e análise. Outra forma de análise das situações didáticas é a sua classificação. Tomando por base Brousseau, Gálvez (1996) explicita quatro tipos, sendo elas: as situações de ação, as situações de formulação, de validação e de institucionalização. Vamos compreender cada uma delas? A primeira, situação de ação, é aquela que gera interação entre os alunos e o meio físico, onde estes devem tentar solucionar problemas formulados. Já a situação de formulação, diz respeito à modificação da linguagem que utilizamos habitualmente, adequando-a conforme a mensagem que precisa transmitir, sendo assim, o seu objetivo é a comunicação de informações entre os alunos. A situação de validação diz respeito ao convencimento de um ou vários interlocutores acerca das afirmações que são feitas, assim, não só explicitações empíricas são suficientes, é preciso que os alunos saibam explicar o porque necessariamente precisam ser assim. Nas situações de institucionalização, busca-se que um conjunto de alunos assuma o significado socialmente estabelecido de um saber que foi elaborado por eles mesmos DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 103 em situações de ações, formulação e validação. Percebe como as situações, mesmo possuindo peculiaridades próprias, também articulam-se? Outra análise de situações didáticas pautam-se na comparação entre uma e outra situação, de modo a agrupá-las de acordo com seus objetivos. Cria-seassim, um mapa de situações possíveis e com as suas respectivas respostas, sendo possível verificar suas variáveis, acertos e erros. Assim, a didática matemática também visa otimizar o ensino dos alunos, de modo a criar diferentes situações didáticas para favorecê-las. Quando apontamos as diferentes situações explícitas acima, por exemplo, é uma maneira de demonstrar diferentes possibilidade, aliás, cada uma delas prevê diferentes aspectos e objetivos também. [...] é preciso que se crie situações didáticas que façam funcionar o saber, a partir dos saberes definidos culturalmente nos programas escolares. Esta formulação apoia-se na tese de que o sujeito que aprende necessita construir por si mesmo os seus conhecimentos por meio de um processo adaptativo semelhante ao que realizaram os produtores originais dos conhecimentos que se quer ensinar (GÁLVEZ, 1996, p. 32). Ao modo que passa pelas situações didáticas, os alunos também vão compreendendo o processo na qual os levaram a atingir determinado conhecimento. Ao modo que o processo vai tomando forma para ele, é mais um aprendizado, assim, o aluno entenderá a maneira que o seu conhecimento foi construído. Em relação ao papel do professor nas situações didáticas, indica-se que em algumas situações ele interfira, direcionando, e em outras não, de modo a deixar os alunos tentarem e esgotarem as suas hipóteses de atuação. Neste caso, onde os alunos encaminham as situações por eles mesmos, há algumas peculiaridades a serem evidenciadas. A primeira delas é a responsabilidade dos alunos acerca de suas próprias tomadas de decisões, bem como, da antecipação de hipóteses acerca das situações. Ao modo que vão testando as suas hipóteses, os alunos vão percebendo os motivos pelos quais umas deram certo e outras não, sendo preciso analisar o que modificar em suas ações e decisões. Processo interessante para os alunos passarem, não é mesmo? Quanto mais possibilidades de tentativas, maiores as suas desconstruções e construções mentais. Aliás, os alunos também podem controlar as suas hipóteses e quando realizadas em conjunto, podem negociar ações, discutir com os pares para chegar a uma conclusão. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 104 A situação proporciona a significação do conhecimento para o aluno, na medida em que o converte em instrumento de controle dos resultados de sua atividade. O aluno constrói assim um conhecimento contextualizado, em contraste com a sequência escolar habitual, em que a busca das aplicações dos conhecimentos antecede a sua apresentação, descontextualizada (GÁLVEZ, 1996, p. 33). Analisem a fala acima, a autora aponta um fator interessante, mencionando que ao modo que o aluno passa a ter controle das situações, diferente daquelas em que é o professor que direciona, o ensino fica mais contextualizado, pois ele é obrigada a construir hipóteses primárias que justificam a sua tentativa. Ou seja, ele pensa para executar, tudo sozinho e por ele mesmo. Quando o professor direciona, ele instiga o aluno a pensar, a partir de suas problematizações, para daí a sua tentativa ser aplicada. Ambas as situações são relevantes, aliás, já vimos a importância do professor em perspectivas atuais, no entanto, também é importante refletir outras nuances do ensino. Desta maneira, a didática matemática atua diretamente nesta área do conhecimento, porém, está para além de práticas e técnicas de ensino. Sua preocupação é favorecer o processo ensino e aprendizagem dos alunos, seja por meio de estratégias técnicas, seja por meio de conhecimentos específicos. A próxima vivência didática que iremos estudar será bem diferente e com certeza você irá gostar! 11.3 Aula aberta Muitos professores entendem esse conceito como aulas realizadas em espaços livres, ou, por meio de diferentes materiais, de modo a transferir sua função para eles. No entanto, a abertura neste caso deve ser compreendida de modo mais amplo, não só como método, mas como posição pedagógica. Com toda a certeza você vai se surpreender com essa vivência didática! Brügelmann (2015), aponta que essa abordagem permite aos professores modificar o passo a passo de suas aulas, bem como, aos alunos diferentes possibilidades exploratórias. Há três dimensões a serem exploradas na aula aberta, em que em sua forma prática aparentam uma sucessão, ou seja, podem ser consideradas enquanto graus e serem tomadas como base juntas ou de forma isolada. Vamos compreender melhor essa vivência didática da aula aberta? DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 105 A primeira dimensão é denominada de abertura da aula para as diferenças entre as crianças (abertura metodológico-organizacional da aula), ou seja, ao modo que eu considero que cada criança possui as suas especificidades, eu estou aberto a considerá-las, certo? Assim, quais aspectos eu preciso estar de olho? Aos diferentes saberes e capacidades, aos diferentes estilos de aprendizagem e também às diferentes velocidades de trabalhos. São estes os três aspectos substanciais. O autor menciona que ao estar aberto neste ponto, aumenta-se as possibilidades de aprendizado, pois os alunos: • se ocupam das mesmas tarefas em seu próprio ritmo, • trabalham paralelamente em tarefas fáceis e difíceis, • podem colocar ênfases em diferentes áreas de conteúdo (BRÜGELMANN, 2015, p. 354). Interessante essa observação, não é? E melhor ainda é que o autor nos apresenta fundamentos práticos acerca de suas assertivas, demonstrando os motivos pelo qual a abertura para as diferenças entre as crianças é tão relevante para elas mesmas em seu processo ensino e aprendizagem. As questões práticas não param por aí. Há duas sugestões possíveis para vivenciar a abertura nesta dimensão, o trabalho livre e os planos semanais. No trabalho livre, os alunos são os determinantes das atividades, podendo determinar quando, onde e com quem, ou seja, a sequência, a data, a duração do trabalho, o lugar, os seu(s) parceiro(s), ou seja, a forma social e eventualmente a forma de trabalhar (BRÜGELMANN, 2015, p. 355). E onde entra o professor? É ele que escolhe o tema, ficando a execução a cargo dos alunos, no seu tempo, e nos meios que acharem mais pertinentes. Por este motivo as escolhas do professor também determinam muito, pois, dependendo de qual for, acabam por limitar os alunos, mesmo estando em atividade livre. O que importa nesse momento é que os alunos testem as suas hipóteses e possam desenvolver as atividades no seu tempo, verificando as suas concepções. Acerca do plano semanal, as tarefas são estipuladas para os alunos: de maneira igual para todos podendo ter alternativas para escolhas individuais, bem como, para grupos de crianças de acordo com seus desempenhos ou outro critério estabelecido pelo professor (BRÜGELMANN, 2015). Ao tratar do plano semanal, o autor é mais breve, porém, podemos constatar que trata-se de um plano convencional, que já é habitual por parte dos professores, porém, considerando os elementos defendidos e partindo deles, daí a sugestão para planos individuais ou em grupos com necessidades em comum, entre outros. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 106 A próxima dimensão, refere-se à abertura para o mundo pessoal das experiências e ideias das crianças (abertura didática e de conteúdo da aula). Neste momento, parte-se do pressuposto de que trabalhar ativamente propiciará mais o aprender do que o copiar respostas ou cumprir tarefas. Assim, as experiências das crianças são a base para o seu aprendizado, por isso defende-se abrir espaço para o pensar autônomo e para uma conexão, em termos de conteúdo, com o mundo das experiências das crianças. Já ouvimos falar sobre isso em outras aulas e com outras palavras, certo? Da necessidade do professor em articular os conhecimentos prévios das crianças com os conteúdos escolares. Neste caso,esta relação faz-se de maneira mais intensa pois ao modo que o professor abre sua aula para estes pressupostos, o conteúdo e a forma de vivenciá-lo também passam a ser diferentes. Daí resulta que, na aula, não se trata de eleger entre tarefas (fechadas), mas sim que a qualidade das mesmas tem de mudar. Não apenas as condições de trabalho, mas sim as tarefas mesmas têm de se tornar abertas, isto é, mais exigentes, ao abrirem espaço para o pensar autônomo e para uma conexão, em termos de conteúdo, com o mundo das experiências das crianças (BRÜGELMANN, 2015, p. 356). Vamos ver as opções de atividades nessa concepção de abertura? Como sugestão para a atividade semanal, e tomando por exemplo atividades de ortografia, indica-se que o professor escolha o tipo de tarefa, porém, que os próprios alunos decidam o seu desenrolar, como por exemplo se trabalhariam com palavras individualmente (palavras próprias que elas utilizem comumente ou palavras difíceis, que elas frequentemente errem) ou se elas se ocupariam de uma questão investigativa (por exemplo, Como é grafado o /i:/?) (BRÜGELMANN, 2015). Como prática de trabalho livre, os alunos podem eleger ou inventar atividades dentro da proposta. Nesse modelo, a responsabilidade dos alunos aumenta, assim como, quando pensamos a autocorreção, que nesta perspectiva trata-se de uma comparação argumentativa com outras perspectivas e argumentos. Em uma situação em sala de aula, é interessante trabalhar a autocorreção com os alunos, pensa só, colocá-los em círculo e cada um comentando a sua atividade (pode ser de temas variados), de modo a contrastar ideias e compará-las de forma argumentativa. Nas duas dimensões mencionadas, é o professor que determina as atividades, ou seja, fica para ele a decisão sobre as tarefas, e a autonomia dos alunos se concretiza em DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 107 ideias de conteúdo e método para a solução da tarefa. Todos os exemplos mencionados são passíveis de adaptações em diferentes realidades, aliás, são ótimas ideias para quem tem a intenção de vivenciar experiências didáticas diferenciadas. A última dimensão é a abertura para a participação e a corresponsabilidade em decisões [abertura pedagógico-institucional da escola]. Neste caso, o trabalho livre teria maior participação dos alunos, pois estes escolheriam as tarefas, colocando-as em prática de maneira individual ou em grupo. Acerca do autocontrole dos alunos, se faz por meio de reflexões sobre a sua própria prática e experiência. Como trata-se de uma participação mais ampla, entende-se que há uma dificuldade em colocar em prática essa dimensão, no entanto, conforme explicitado anteriormente, elas podem ser adaptáveis, sendo importante conhecê-las no âmbito teórico como perspectivas gerais. Vistas as dimensões, indica-se que sejam trabalhadas de maneira progressiva, e conforme mencionado no início, as dimensões podem ser consideradas como níveis, prevendo inicialmente uma abertura metodológico-organizacionais, passando pela abertura didática e de conteúdo até a abertura pedagógico-institucional. Visto seus pressupostos, fica de mais fácil compreensão, o motivo de anteriormente ter-se mencionado que a aula aberta estava para além de uma aula fora do espaço físico da escola. Trata-se de uma vivência diferenciada e com amplas possibilidades, permitindo elementos que estão além das práticas habituais. Nesta perspectiva de aula aberta, tanto professor como aluno possuem papéis relevantes e bem definidos em sala de aula, aliás, é preciso que compreendam o seu papel, para que a prática de fato faça sentido. Em primeiro lugar, há que considerar, por motivos pragmáticos: só o grau de abertura que o próprio educador for capaz de suportar poderá ser por ele estruturado de modo frutífero. Isto não é um cheque em branco para que ele se acomode. Seria, entretanto, ingênuo esconder a importância da personalidade para a execução de um conceito, ainda que muito bem fundamentado. A insegurança leva à queda na rotina. A abertura da aula é, assim, um exercício de desenvolvimento pessoal, não apenas uma incumbência de formação contínua didático- metodológica (BRÜGELMANN, 2015, p. 360). Na fala acima, o autor diz algo relevante sobre o professor e sua postura, afirmando que este deverá possibilitar graus de autonomia na qual se sinta seguro. A abertura é DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 108 encarada nesta perspectiva, como você pode perceber, não só como estratégia prática, mas como vivência integral. Em sua função, é importante que eles, como adultos da situação, desafiem as crianças fazendo perguntas (Como você chegou até isso? O que isso significa?), mostrem alternativas (Experimenta agora desse jeito! Eu faria de tal jeito!) e os instiguem a expressar dúvidas (Isso também seria possível se...? Tom chegou a outra conclusão ). O direcionamento do professor é fundamental para o desenrolar da aula aberta. Acerca dos alunos, é preciso reforçar, que estamos lidando com uma perspectiva que entende que ele aprende melhor quanto menos o professor interferir. Reparem que é antagônica, neste ponto, da teoria crítico dos conteúdos. Na aula aberta, portanto, o professor não transmite conteúdos e normas e sim desafia as experiências, o pensamento, as opiniões das crianças. Pois aprender significa sempre mudança, convergência, neste sentido não significa adaptação. Daí um ponto diferente de uma pedagogia tradicional, por exemplo, e comum com uma progressista. Em vez de transportar conteúdos e habilidades como produtos pronto, os educadores tornam-se acompanhantes críticos de processos de aprendizagem, aos quais eles contribuem com determinados conteúdos, porém cujos efeitos sobre os alunos eles nunca possam determinar (BRÜGELMANN, 2015, p. 361). A fala supracitada é de extrema relevância para que possamos identificar e entender a perspectiva base da aula aberta. Ao introduzir o professor como aquele que instiga a criticidade dos alunos, já podemos afirmar que ele não tem uma postura passiva frente aos conteúdos, nem ao menos os alunos, características da pedagogia tradicional. Outro ponto importante, é a consideração de que os efeitos desse processo não são possíveis de mensurar, demonstrando que ao menos não há a intenção de adaptação, como das pedagogias liberais. Sabe-se que frente a estrutura atual de educação, com toda a sua base curricular e também em termos de burocracias dentro das instituições de ensino e demais peculiaridades, há uma série de entraves ao executar a aula aberta. Ainda que as ideias sejam bacanas, precisamos considerar estes fatos, certo? Aliás, há escolas, inclusive, que a autonomia dos professores é bem limitada, devendo focar estritamente o que lhe é mandado. Para concluir, vamos fazer algumas considerações finais? Pode ser visto que diferente do senso comum, na aula aberta os professores não perdem sua função de relevância DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 109 em sala de aula, bem como, os alunos não estão com tudo a sua disposição. Na prática, os professores garantem direcionamentos, porém, dão maiores aberturas aos alunos, que vão assumindo maiores graus de autonomia frente ao seu processo de desenvolvimento. Acerca das dimensões, vimos que elas se complementam e também podem ser utilizadas de maneira progressiva, considerando que apresentam progressivos graus de autonomia. Até o próximo encontro! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 110 CAPÍTULO 12 PRÁTICAS DIDÁTICAS 12.1 Introdução Na presente aula iremos estudar diferentes didáticas, considerando o conceito enquanto ações em sala de aula, enquanto vivências práticas a serem vivenciadas. Até então tratamos da didática em sua forma autônoma e conhecida pela educação de modo geral, com preocupações relacionadas ao processoensino e aprendizagem, dentre tantos outros aspectos que a tornam ampla e complexa. Na presente aula estudaremos os jogos didáticos e a sequência didática. Aproveitem a aula! 12.2 Jogos didáticos Os jogos didáticos estão relacionados, neste contexto, às atividades de ensino, de natureza recreativa, usadas em sala de aula para obtenção de um maior rendimento no processo ensino-aprendizagem de um conteúdo específico ou para o desenvolvimento de competências e habilidades específicas. Flemming (2003), aponta que ao modo que o professor busca estratégias para modificar sua prática, ele reflete acerca do processo ensino aprendizagem, tirando-o da inércia e levando a uma nova prática educativa. Os jogos entram nesse contexto como uma estratégia diferenciada, pois, fazem com que o aluno aprenda de uma maneira menos burocrática e mais lúdica. Vale ressaltar, que os jogos didáticos treinam as nossas operações cognitivas, mas não propiciam uma aprendizagem direta. A aprendizagem surge a partir do desenvolvimento psíquico anterior do aluno. Cabe ao professor propiciar a interação entre os alunos favorecendo o crescimento pessoal de cada um (FLEMMING, 2003). Os jogos didáticos podem ser classificados pelos seguintes critérios: 1) tempo requerido na aplicação; 2) tipo de material requerido; 3) conteúdo abordado; 4) grau de dificuldade; 5) momento de inserção na sequência didática. Estes itens são grupos DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 111 de critérios que podem diferenciar os jogos uns dos outros, de modo a agrupá-los por determinados elementos em comum. Por tratar-se de uma prática que inclui regras, objetivos e mais de dois participantes, os jogos possuem a peculiaridade de trabalhar com as atitudes dos indivíduos, propiciando o seu amadurecimento. Esta atitude, no caso, por meio de diferentes nuances, como por exemplo às atitudes relativas à disciplina, pois ao entrar no jogo é preciso seguir regras, bem como, reprimir comportamentos que avacalhem com ela. Atitudes relativas a complexos, pois em muitos casos, os jogos podem tornar o indivíduo menos desinibido, ao modo que é preciso dialogar, além de deixar mais feliz ou até mesmo triste, assim é preciso lidar com tais comportamentos, com tais sentimentos e possíveis complexos. A atenção também é trabalhada, pois é preciso ter interesse ao jogar, para saber lidar com as situações, raciocinar, de modo a compreender o jogo e suas estratégias. Quando relacionamos o jogo com conteúdos, em sala de aula, ele acaba sendo uma estratégia interessante, pois, ao querer ganhar o jogo, por exemplo, o aluno pode acabar tendo mais interesse pela matéria. Desta forma, o jogo entra como uma ferramenta de tornar as disciplinas e conteúdos mais atrativos, mais leves. Atitudes relacionadas a honestidade e solidariedade também são trabalhadas, pois ao lidar com oponentes, estes aspectos estão sempre em voga. Para a gente jogar é preciso ter um competidor, certo? Respeitá-lo então, é um princípio substancial para prosseguir com o jogo. Além, dos aspectos relacionados à honestidade, para não prejudicar o oponente e o jogo como um todo. Aliás, a afetividade também é trabalhada, pois a reciprocidade é elemento básico para lidar com o outro, ainda mais nesse contexto com regras e competitividade. Para além destes aspectos, há também os jogos que trabalham fixação e reforço de conteúdo, além daqueles responsáveis em iniciar o conteúdo ou finalizá-lo. Sendo uma ferramenta, sua vivência fica a cargo do professor e dos objetivos previstos. Portanto, os jogos didáticos potencializam as situações ensino aprendizagem. Como trata-se de uma prática lúdica, que também envolve diversão, é preciso que estes elementos não sejam perdidos de vista pelo professor ao propô-los, senão, perderá o sentido. Afinal, o uso do jogo como estratégia é justamente por ser diferente de atividades comuns escolares do dia a dia. Por outro lado, mesmo sendo uma prática diferenciada, é preciso que tenha intencionalidade, objetivo para fundamentá-lo, certo? Para que assim se constitua DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 112 enquanto prática pedagógica. Além de que, ainda que utilize tais estratégias, o jogo não diminui a função do professor na mediação do saber, sendo necessários seus devidos direcionamentos. Ao optar pela utilização dos jogos didáticos, seja para trabalhar alguns conteúdos específicos ou propor uma aula de jogos, por exemplo, independente da opção, é preciso alguns questionamentos iniciais por parte do professor, até mesmo, para que eles direcionam a sua prática de forma intencional. Flemming (2003), propõe os seguintes questionamentos: Qual o objetivo que pretendo atingir? Conheço um jogo adequado? Vou precisar fazer uma adaptação? Quais os materiais necessários para aplicar o jogo escolhido? Como aplicá-lo? Em que momento da minha seqüência didática o jogo vai ser inserido? O que pode acontecer na sala de aula? Como avaliar os resultados da aplicação do jogo? Vamos refletir cada um dos questionamentos, mas anteriormente observe a imagem a seguir: Título: mapeamento dos jogos didáticos. Fonte: FLEMMING, 2003, p.08 A imagem retrata os vários passos que compõem a vivência dos jogos didáticos, é um mapeamento de seu processo de atuação. Inicie pelo “jogo adequado”, posteriormente, DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 113 cabe decidir se sim ou não, caso sim, você fará a adaptação, caso não, você fará a criação e confecção, ambos levam à aplicação em sala de aula, que leva à avaliação, objetivos e o ciclo inicia-se novamente. Todo esse processo, nem sempre é refletido, mas ao modo que fazemos o seu mapa mental, fica fácil de ser observado quais as suas etapas e necessidades. Cabe mencionar que este mapa é adaptável, podendo você como professor criar outros processos, que sejam mais adequados a sua realidade, para execução dos jogos didáticos. Retomando os questionamentos, eles estão aqui com o intuito de garantir um norte, um caminho para esta vivência. Ao questionar se o jogo é adequado, o intuito é averiguar se ele propicia atingir os objetivos propostos e se atende às expectativas do público alvo. Já acerca da adaptação, ela é uma aspecto saudável a ser considerado, pois, ao modo que adaptamos estamos inserindo nossas próprias características àquela peça, ou seja, deixando ela menos genérica e mais própria. Ao refletir os materiais necessários para aplicação, como por exemplo os dados ou papel e caneta, também podem ser refletidos se há a intenção na confecção dos jogos, uma alternativa também muito interessante, pois amplia-se os seus objetivos com os alunos. E sobre qual o melhor momento para aplicar o jogo, a autora esclarece que: [...] se o objetivo é fixar conteúdos, deve-se ter como pré-requisito que o conteúdo já tenha sido trabalhado anteriormente. Por outro lado, se o jogo vai ser usado para introduzir um conteúdo, precisa-se ter muito clara a passagem do jogo para o formalismo do conteúdo. Portanto, é de fundamental importância que o professor faça um planejamento formal das aulas nas quais o jogo vai ficar contextualizado. Seria estabelecer “o antes” e “o depois” da aplicação do jogo (FLEMMING, 2003, p.08). Considerando que há intencionalidade, há também, de forma inerente, objetivos e momentos mais oportunos para o desenvolver do jogo, então, sua prática não se dará de maneira aleatória, mas sim quando for mais conveniente, mais propício aos seus objetivos. O penúltimo questionamento: o que pode acontecer na sala de aula? É muito interessante, estando aqui para nos fazer refletir acerca de nossas expectativas, comparando-as com os dados reais, que virão no decorrer e poderão ser constatadas após a execução dos jogos. Há situações mais e menos previsíveis, pois nem sempre é possível prever situações que podem ocorrer em sala deaula. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 114 A avaliação dos resultados dos jogos merece um olhar atento, pois, é por meio delas que será possível avaliar as próximas adaptações para sua prática, mensurando os prós e contras. Essa avaliação gera uma realimentação do processo metodológico proposto. É preciso ter a certeza de que em outros momentos a aplicação dos mesmos procedimentos poderá ter uma melhor qualidade tanto do ponto de vista do processo ensino-aprendizagem quanto do ponto de vista do processo recreativo (FLEMMING, 2003, p.10). Já parou para pensar que o jogo didático também poderá ser utilizado como avaliação? Se bem organizado, pode ser uma estratégia interessante para minimizar o peso que as avaliações têm para os alunos. Aliás, há diferentes estratégias que podem ser trabalhadas com os jogos, sendo elas: estratégias para que a turma se conheça; estratégias para a exploração de conteúdos; estratégias para avaliação e estratégias para momentos específicos (MIRANDA, 2020). Vistos tais pressupostos, vamos conhecer a sequência didática? 12.3 Sequência didática De maneira prática, a sequência didática refere-se a um modo de o professor organizar as atividades de ensino em função de núcleos temáticos e procedimentais. Assim, há uma sequência a ser seguida, sendo organizadas de acordo com os objetivos que o professor quer alcançar para aprendizagem de seus alunos e envolvendo atividades de avaliação que podem levar dias, semanas ou durante o ano. Peretti (2013), aponta que para nomear sequência didática, é preciso ofertar desafios cada vez mais complexos, permitindo assim, a construção do conhecimento.Também é necessário que tanto aluno como professor estejam cientes do processo. É uma possibilidade muito interessante para optar em sala de aula, pois, o professor consegue estimular o aluno em relação ao conteúdo, de diferentes maneiras. A sequência permite o trabalho com músicas, com jogos, com a própria apostila, enfim, há variadas possibilidades, o importante é: estabelecer uma sequência coerente, com objetivos prévios, com passos alinhados e com a complexidade e desafios aumentando cada vez mais, de modo a motivar os alunos. O passo inicial é mapear os conhecimentos prévios dos alunos, acerca do tema que pretende realizar a sequência, e partir de tal, organizar variedades de atividades com desafios diferenciados. Por que essa consideração dos conhecimentos dos alunos? Se a ideia da sequência é complexificar os desafios, bem como, trabalhar um conteúdo, precisamos saber de onde partimos, certo? Ao modo que se realiza um DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 115 mapeamento, dá para ter uma ideia geral do que os alunos sabem ou não, para aí sim, definir o que pretendo com eles como objetivo final, bem como, os processos para tal. Ao considerar os conhecimentos dos alunos, será que são eles que garantem o norte para a sequência? Analise a fala a seguir: Algumas vezes, professores organizam suas aulas tendo como centro o interesse dos alunos, na intuição de refletir sobre seu dia a dia. Nem sempre agindo assim poderá garantir bons resultados, pois ao valorizar apenas o conhecimento que os alunos trazem fica-se apenas na superficialidade. É necessário também propor investigações sobre resultados encontrados nos cálculos e maneiras de resolvê- los, como poderiam ter sido desenvolvidos de uma maneira mais prática, construindo regras básicas para uma melhor compreensão (PERETTI, 2013, p. 06-07). Essa fala é muito importante para a nossa postura como professor de modo geral. Ela nos mostra que considerar o aluno e seus conhecimentos é relevante, porém, que somos responsáveis pelo direcionamento deles. Vale relembrar que esta também é uma base de pensamento específica, havendo perspectivas onde será o aluno que irá nortear o ensino. Mas no caso, a figura do professor é preponderante para elevar a situação para além do senso comum e experiência prática dos alunos. Seu intuito também é propor problematizações, gerar motivação, dentre outros. Lembra da intencionalidade que já refletimos diversas vezes na disciplina? Então, ela é do professor, ele que possui os seus objetivos finais, então, cabe a ele direcionar a turma neste sentido. As atividades podem ser de cunho teórico ou práticas, bem como, articulando ambas as vivências, havendo também a possibilidade de experimentações, tudo depende da intencionalidade, onde se quer chegar e de que maneira. A interdisciplinaridade também é possível ao realizar a sequência didática, ou seja, articular diferentes disciplinas ou conteúdos, aliás, essa prática é recomendada, pois aproxima mais os alunos da realidade, além de não tratar as disciplinas de forma estanque. A faixa etária também pode ser diversa, pois, o que importa é estar alinhada às propostas. Posso propor uma sequência para os alunos do infantil ao ensino médio, variando o conteúdo e a maneira de executá-lo. Aliás, a sequência didática também pressupõe a busca pelo conhecimento visando a formação do aluno como ser crítico e social, ou seja, processo ensino aprendizagem visando uma formação para a transformação. Alinhando com aulas passadas, podemos afirmar que se feita a sequência de maneira correta, ela está embasada por uma educação de cunho progressista. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 116 Já conhecia a sequência didática? É uma prática muito utilizada na educação básica e até mesmo na superior. Hoje ela é bem aceita entre professores e alunos por permitir diferentes possibilidades, além de prever um ensino também em diferentes estágios facilitando para os alunos e também para o professor, que pode acompanhar de modo mais direto a maneira que todos os alunos estão lidando com a sequência. Para finalizar a aula, vamos conhecer algumas sequências didáticas que foram realizadas e veiculadas nas mídias! Reparem que há diferentes possibilidades! ACONTECEU NA PRÁTICA O site da prefeitura de Vitória publicou no início de julho de 2022 uma matéria apontando o trabalho com sequência didática com o seguinte tema: conceitos de consciência ambiental e reflorestamento. A sequência foi realizada com alunos do primeiro ano do ensino fundamental. Você pode conferir a matéria na íntegra por meio do link: https://m.vitoria.es.gov. br/noticia/sequencia-didatica-trabalha-conceitos-de-consciencia-ambiental-e- reflorestamento-45575 Título: sequência didática. 1 ano Fonte:m.vitoria.es.gov.br/ DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 117 Em uma matéria também deste ano, porém, sobre uma escola localizada no Mato Grosso, foi noticiada uma sequência didática acerca do tema: higiene e saúde. Essa sequência, diferente da apresentada anteriormente, foi realizada com todas as turmas e nos diferentes períodos, aliás, ela pareceu mais extensa também. Acesse a matéria na íntegra no link abaixo: https://www.jornalmtnorte.com.br/ atualidades/emeif-futuro-feliz-realiza-sequencia-didatica-higiene-e-saude/17989 Título: professores que ministraram a sequência didática. Fonte:jornalmtnorte.com.br/ Esta outra prática, foi bem diferente! Uma professora pesquisadora da Universidade Federal de Goiás elaborou uma sequência didática para orientar a leitura de obras de literatura infantil em sala de aula para as turmas do 1º e 5º ano do ensino fundamental. Muito bacana, não é? Aliás, o livro é em formato digital e você pode acessar através do link: https://kelps. com.br/catalogo/expericencia-estetica-com-narrativas-infantis/ Título: Denise Camilo de Lima, autora da sequencia. Fonte:jornal.ufg.br/ DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 118 Nesse próximo exemplo prático, também temos uma professora que elaborou uma sequência didática, no entanto, o foco foi a educação financeira para os alunos do quarto ano doensino fundamental. Segundo a professora, essa temática é muito relevante para a vida social dos alunos, daí a iniciativa em desenvolvê-la de maneira diferenciada! Ao término da atividade ela relata que o trabalho foi maravilhoso pois os alunos se envolveram em todo o processo que finalizou com uma exposição das atividades realizadas. Acesso na íntegra: https://www.assiscity.com/educacao/professora-da- fema-desenvolve-sequencia-didatica-sobre-educacao-financeira-para-ensino- fundamental-114963.html Título: sequência didática. Educação financeira Fonte:assiscity.com DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 119 CAPÍTULO 13 ESTRATÉGIAS DIDÁTICAS PARA O ENSINO REMOTO 13.1 Introdução O uso de tecnologias é hoje uma opção enriquecedora no processo ensino aprendizagem, permitindo aulas diferenciadas e um processo educacional mais moderno. No entanto, a pandemia do COVID-19, trouxe o uso de tecnologias de forma mais intensa e sendo a única opção em determinado momento, desta forma, nossos olhares sobre as plataformas digitais passaram a mudar. A partir do ocorrido, que nos pegou de surpresa, as instituições escolares passaram a ter estratégias didáticas mais avançadas, de modo a lidar com estes meios em diferentes circunstâncias. Em um primeiro momento então, a tecnologia surge como algo imposto, pois não havia opção, e agora, com o ensino presencial de volta, já podemos olhar para a situação com um olhar mais maduro e também criando estratégias de forma mais planejada e intencional. Hoje, não tem como desvincular a educação escolar do ensino remoto, portanto, na aula de hoje estudaremos diferentes estratégias didáticas para tal ensino. Hoje a educação não é só presencial, ou, quando for, também necessita do uso de tecnologias, assim, refletir a didática nesse contexto também torna-se relevante. 13.2 Didática e tecnologia A migração para o ensino remoto, devido a pandemia, exigiu de todos competências didáticas e pedagógicas para planejamento de aulas, exercícios, provas, e tudo que contempla o processo ensino e aprendizagem. Hoje já estamos com as aulas presenciais, porém, o contexto nos mostrou que é preciso estar preparados, além de que, normalizou uma demanda que em alguns casos ainda se mantém. Há escolas da educação básica ou superior, por exemplo, que ainda possibilitam o ensino a distância para os alunos que estão com covid ou afastados devido algum DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 120 familiar. Essa possibilidade passou a ser normalizada após este ocorrido, ampliando ainda mais as opções de estudo, logo que antes, os alunos ficavam de atestados e sem contato direto com a sala de aula. A pandemia do novo coronavírus trouxe um grande desafio não somente às instituições de ensino, mas também ao corpo docente para dar continuidade às atividades de ensino diante do cenário de isolamento social. O uso de diferentes plataformas e ferramentas para o ensino remoto é dependente da disponibilidade de acesso, do domínio no uso e do tipo de interação e de atividade pretendida pelo docente. No entanto, alguns destes serviços podem ficar temporariamente indisponíveis e, por isso, é importante ter o conhecimento da diversidade de plataformas e ferramentas disponíveis. Além disso, vê-se neste formato de ensino uma oportunidade de inovação nas práticas didáticas (NIENOV, 2021, p. 19). Refletindo o ponto de que ampliou-se as possibilidades, surge a necessidade então de averiguar esses novos elementos que a didática contempla. Conforme evidenciado acima, ao modo que se depende do ensino online, há uma série de problemáticas, como acesso e domínio do uso, além de que, saber lidar com a situação quando o acesso estiver limitado ou fora do ar. Você já tinha pensado na possibilidade de pensar a didática nesses meandros? Hoje há essa necessidade, por isso, após ver várias situações práticas de vivências didáticas, essa aula torna-se relevante. Não tem como desvincular a didática do processo de ensino e aprendizagem remoto. Não só pela pandemia, mas porque o uso da tecnologia se faz relevante na educação atual, então, precisamos estar preparados para ela. Vale mencionar que ensino remoto e educação a distância não são sinônimos. O primeiro remete-se a uma adaptação do ensino presencial aos moldes à distância, já o segundo é o ensino organizado desta maneira. Ensino remoto, educação remota, ensino virtual, educação virtual, educação on-line, educação digital, entre outras expressões, caracterizam-se pela adaptação das aulas presenciais em caráter emergencial, utilizando TDICs para estabelecer uma comunicação síncrona com os alunos onde outrora existia regularmente a educação presencial (NIENOV, 2021, p. 19). O ensino remoto, ou educação remota, ensino virtual, dentre outras nomenclaturas, são adaptações, possibilidades pontuais, mediações pedagógicas, na forma tecnológica, para a educação organizada para o presencial. Não se trata de uma transposição do presencial para o online, pois requer adaptações de planejamentos didáticos, DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 121 cronológicos e avaliativos, além do uso de estratégias, metodologias e recursos educacionais (NIENOV, 2021, p. 20). Daí a relevância de averiguar as possibilidades didáticas para estas situações, pois estão além da transposição, exigindo todos aqueles elementos relevantes que já estudamos acerca do ensino: objetivos, intencionalidade, planejamento, dentre outros. O ensino a distância então, é algo mais amplo, já foi estruturado e pensado para ser desenvolvido de forma online. É o caso dos seus estudos, por exemplo, e não uma situação emergencial, ou pontual para desenvolver determinada atividade. Você que estuda na educação online, já sabe que terá colegas de classe de diversas partes do brasil, bem como, diversos professores, aliás, você já recebe a estrutura da sua graduação de antemão, tudo já está planejado e preparado para tal. No ensino remoto a turma se conhece no presencial, aliás, tem contato direto com seus professor e materiais, biblioteca. Percebe como os elementos são bem diferentes? A tecnologia une ambos os casos, porém, cada um com a sua peculiaridade, o que, aliás, exige estratégias didáticas diferenciadas. Focando o ensino remoto, quais as melhores estratégias? Os autores apontam que a melhor é aquela que adequa-se aos objetivos e pretensões, ou seja, que possibilitam de maneira mais eficaz que o processo ensino e aprendizagem se concretize. Vistos os pressupostos necessários, vamos entender as estratégias didáticas para o ensino remoto? Já de início, saiba que existem diferentes tipos de interação nas redes, ou seja, diferentes possibilidades, sendo elas: a interação síncrona, assíncrona e bimodal ou híbrida. Vamos entender cada uma delas e suas devidas especificidades e estratégias. A síncrona remete-se ao acesso simultâneo, permitindo que os participantes estejam conectados no mesmo horário, com apoio de tecnologias e ferramentas que sejam capazes de manter as interações on-line. Nesse caso de interação, há uma melhor transposição do que seja a aula no mundo físico, pois professor e aluno conseguem se ver e dialogar de forma simultânea. No planejamento dessas interações, recomenda-se que o professor informe o tema da aula, seu objetivo e metodologia, de modo que os alunos já estejam preparados para a ocasião. Aliás, havendo materiais, há plataformas que permitem o seu acesso também, ou os alunos já deverão ter em mãos. Neste caso, também haverá um link de acesso aos envolvidos. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 122 A vantagem dessa interação é que permite o contato professor e aluno e também alunos e alunos, assemelhando-se de forma mais direta à sala de aula presencial. São exemplos de plataformas que permitem essa interação: Google Meet,Google Hangouts, Zoom Meetings, Skype, Microsoft Teams, Jitsi Meet, Mconf UFRGS, Moodle, etc. A imagem abaixo ilustra um exemplo de interação síncrona. Ela está aqui para que você reflita alguns elementos. Título: interação síncrona Fonte: datafolha.com.br Primeiramente, é inevitável não ver o recurso do “telefone sem fio”, que expressa essa interação em tempos mais antigos. Ele está aí, justamente para demonstrar que está acontecendo uma interação simultânea, onde o rapaz está no computador e a moça no celular, no entanto, estão se falando. Quando um aluno vai viajar por muito tempo, ou está internado essa interação pode ser algo interessante, permitindo o acesso direto aos estudantes. A ideia de incluir algum contato nas férias ou até mesmo no final de semana, também são possibilidades. Ao modo que a interação síncrona permite o acesso simultâneo, grupos de discussão e problematização podem ser iniciados, tornando o ambiente online apenas um ambiente diferente. Com toda a certeza há elementos bem diferentes de quando estamos no universo físico, o contexto digital pode propiciar dificuldades, seja para o seu acesso ou em prender a atenção dos alunos que estão cada um nas suas casas, por exemplo, porém, usar a tecnologia ao nosso favor é importante para estabelecer estratégias didáticas diferentes e que podem aprimorar o desenvolvimento das aulas e de forma específica, dos alunos. As interações assíncronas são aquelas que não possibilitam simultaneidade, o que ao mesmo tempo pode configurar-se enquanto vantagem, por permitir maior DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 123 flexibilidade, ou desvantagem por não haver a simultaneidade. Exemplos práticos são os fóruns, aulas gravadas, blogs, entre outros. Enquanto na interação anterior havia o contato simultâneo, neste momento há o depósito em alguma plataforma, seja em formato de vídeo, escrito, dentre outros. A interação assíncrona garante possibilidade àqueles que não puderam participar das atividades síncrona, justamente pelos meios poderem ser explorados posteriormente. Este elemento também é interessante por garantir maior autonomia e proatividade aos alunos, que tendo essa opção, deverão organizar-se de forma individual. Nesse tipo de interação, indica-se que o professor, como estratégia didática, dilua os exercícios e demais atividades, de forma a não sobrecarregar os alunos. Aliás, uma orientação a este respeito também é importante, fornecendo aos alunos os elementos necessários para que consigam se organizar de maneira mais efetiva para que não haja acúmulos e não fiquem sobrecarregados. Tratando-se de alunos que estavam acostumados com o universo físico, essa orientação deve ser constante, principalmente com faixas etárias menores e independente das interações na qual for se estabelecer (síncrona ou assíncrona). Geralmente o acesso às tecnologias é para um momento de lazer das crianças, como jogar, brincar, assim, ao modo que a educação é levada para essa instância, nós como adultos devemos ter esse cuidado em orientar e também sem perder de vista as especificidades de cada faixa etária na qual estamos lidando, para não exigir além ou aquém. Utilizar a tecnologia como estratégia de ensino e possibilitar o ensino remoto é também não perder de vista questões importantes: o que quero ensinar? A quem estou ensinando? E de que forma ensinar? O ensino remoto não é diferente do presencial neste sentido. Outro tipo de interação é a híbrida, que abrange as duas anteriormente mencionadas: a síncrona e a assíncrona, de modo a revezar as possibilidades em um modelo misto. Assim, há maior flexibilidade de organização espaço- temporal. Para o ensino remoto é uma opção interessante, pois eu possibilito em alguns momentos o contato direto entre os alunos e professor, e em outros momentos eu faço uso como forma estratégica de inserir conteúdos, de modo que cada aluno tenha acesso da maneira que considerar mais pertinente. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 124 A educação híbrida é diferente da anteriormente mencionada, também sendo chamada de bimodal. Se caracterizam como um ensino em duas instâncias, online e presencial. A imagem abaixo, ilustra muito bem o que seja esse ensino, olhe só: Título: ilustração educação híbrida Fonte:mec.com.br Ao modo que insere o livro de forma inerente ao computador, a imagem representa as duas possibilidades como paralelas, e é justamente essa a característica da educação híbrida. O livro representa o universo físico e o computador o universo online. Hoje já temos os livros online, mas, a leitura presencial e online apresentam aspectos bem diferentes e para executar uma leitura online, você precisa de alguma ferramenta que não é o livro, certo? Computador, tablet ou celular. A educação híbrida é uma tendência atual, unindo o ensino presencial, remoto e a distância, assim, envolve várias possibilidades de atuação, bem como, aprimorando as estratégias didáticas. Com a mobilidade e a conectividade, o processo é muito mais perceptível, amplo e profundo: é um ecossistema mais aberto e criativo. Tudo pode ser misturado, combinado, e podemos, com os mesmos ingredientes, preparar diversos “pratos”, com sabores muito diferentes. É uma forma de inovação no ensino, tornando-o mais atraente e interativo (NIENOV, 2021, p. 23). Quando exploramos a didática nas aulas anteriores, sempre pensamos o ensino de forma presencial, certo? Isso é inevitável, pois é com ele que estamos acostumados. Conforme mencionado, ao modo que houve essa situação emergencial do uso online, as plataformas ficaram mais em evidência. Elas já estavam sendo utilizadas, geralmente DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 125 como atividades diferentes e em situações pontuais. Agora, o nosso olhar para a tecnologia de forma alinhada à educação está mais ampliado e isso é bom, pois temos opções a mais para garantir um processo ensino e aprendizagem eficaz. Se os alunos hoje estão cada vez mais em contato com a tecnologia, porque não utilizá-las a nosso favor? Seja para aprimorar minha prática docente, suas possibilidades de estudo, bem como, enriquecer o ambiente escolar. Quando a escola faz uso da forma híbrida, por exemplo, a casa da criança também torna-se uma parte da escola. Essa questão envolve vários questionamentos, como por exemplo, se os pais estão preparados para isso, se há recursos em casa para propiciar essa situação, dentre outros. Não podemos perder essas questões de vista, no entanto, visando sempre o objetivo final: o processo ensino aprendizagem. Conforme mencionado pelos autores, no ensino híbrido há a possibilidade de “preparar diversos pratos” com sabores diferentes. O trabalho do professor se intensifica, pois, também como já vimos em aulas anteriores, a organização de seu trabalho pedagógico é complexa, envolve vários elementos, e neste momento exige ainda mais, tratando-se de diferentes possibilidades de ensino. Assim, a educação on-line surge como fenômeno da cibercultura (conjunto de técnicas, práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço), com foco na hipertextualidade e na interatividade, compreendendo o caráter dinâmico e fexível do ciberespaço nos processos de interação on-line. Ou seja, é o conjunto de ações de ensino-aprendizagem ou atos de currículo mediados por interfaces digitais que potencializam práticas comunicacionais interativas e hipertextuais (NIENOV, 2021, p. 23). Para além das estratégias didáticas que já foram mencionadas, ao ingressar no ensino híbrido, é importante que o professor também se sinta seguro para tal, bem como, que a escola, que a instituição de ensino na qual ele faz parte, também te ofereça as devidas bases. Na prática, sabemos que nem tudo é tão fácil, mas não podemos perder estes elementos devista. O aluno precisa sempre de incentivo para não encarar a escola como algo massante e tratando-se do ensino remoto o incentivo deve ser ainda maior, pois envolve uma série de atividades e responsabilidades que antes os alunos não tinham. A proatividade, concentração, o uso das redes de forma responsável, dentre outros elementos, precisam DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 126 ser incentivados pelo professor, assim de forma gradativa ele vai tomando consciência dessa nova forma de aprender e sua relevância. Para desenvolver as suas aulas, ainda que haja os conteúdos pré estabelecidos, o professor precisa estar ciente do seu público alvo, certo? É daí que conseguirá buscar as estratégias de ensino mais adequadas ao grupo, dos interesses dos alunos, das suas motivações, limitações, dentre outros. Quando o professor conhece os alunos pelo presencial e migram para o ensino remoto, há maiores facilidades, considerando que a turma foi previamente conhecida. Quando o professor conhece os alunos pelos meios digitais, a situação é diferente, pois o conhecer é mais limitado. Neste caso, há algumas alternativas, como por exemplo a instituição de formulários, visando formar um mapeamento do perfil dos alunos e também estar ciente de seus conhecimentos prévios. A interação síncrona, também é uma maneira de conhecê-los de forma mais direta. Os princípios da aprendizagem permitem ao professor identificar e estruturar um perfil para o grupo de alunos a partir da observação das potencialidades da turma. Existem técnicas de aprendizagem que podem ser adaptadas e utilizadas no ensino virtual, como a baseada em problemas, baseada em projetos, entre times, sala de aula invertida, por estações e gamificação. Também pode-se optar pela combinação destas técnicas (NIENOV, 2021, p. 27). O conhecimento do professor sobre o uso das redes, também é um pressuposto definidor da organização de seu trabalho pedagógico virtual, ou seja, quanto mais o professor tiver conhecimento, mais possibilidades online ele terá para desenvolver com os alunos. Aliás, é preciso que os alunos também tenham os conhecimentos necessários para o seu acesso, justamente, para não ficarem desmotivados e daí dificultar o processo ensino aprendizagem. Consulte as funcionalidades dos sistemas, plataformas e aplicativos, assim como das ferramentas que elegeu para uso. Use as funcionalidades do seu computador, tablet, smartphone, etc., para benefício das atividades de ensino. Procure conhecer as ferramentas e aplicativos disponíveis e use-as. Dê preferência para aquelas que já domina (NIENOV, 2021, p. 24). DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 127 Os autores supracitados indicam que o professor ao lidar com a educação híbrida ou remota, enfim, em todas as possibilidades, apresente os conteúdos, os temas e as propostas de ensino, além dos materiais e o local que ficarão disponíveis aos alunos. Um aspecto que é necessário ao professor, principalmente no início do uso do ambiente online, é estabelecer os objetivos de ensino, as metas a serem alcançadas, os conhecimentos a serem desenvolvidos e as habilidades e atitudes esperadas, até mesmo para posteriormente poder visualizar o que deu certo e o que precisa ser revisado. O planejamento estratégico no ensino remoto deve ser objetivo, claro e operacional. Independentemente do modelo proposto que irá nortear os processos de ensino e aprendizagem, o planejamento didático é o ponto de partida. Planejar é uma ação reflexiva que visa à organização de etapas integradas, como forma de estabelecer o diálogo entre reflexão-ação-reflexão. O planejamento didático contempla a reflexão, a ação e a avaliação de todo o processo de ensino-aprendizagem (NIENOV, 2021, p. 26). Os autores chamam de planejamento estratégico, o agrupamento da organização do trabalho do professor. A fala acima evidencia aspectos muito relevantes, sobre a didática e outras questões, pontuando que o planejamento do professor é um trabalho reflexivo, pois ele planeja, ou seja, reflete, depois executa e a partir dos resultados, deve refletir novamente, por isso pontuamos acima sobre observar a prática e revisar o que deu certo ou não. Há algumas técnicas possíveis de serem utilizadas no ambiente online, como a aprendizagem baseada em problemas, a sala de aula invertida e a rotação por estações. Vamos conhecer cada uma delas? A aprendizagem baseada em problemas é aquela que se inicia com um questionamento, desafios e problematização a ser resolvida, sendo preciso investigar, criar soluções, hipóteses e testes. O professor neste caso é o mediador, estará instigando e provocando o aluno a buscar as respostas, orientando e direcionando quando necessário. O professor pode incluir um problema no sistema, com algumas dicas de onde buscá-lo, de forma online, assim, na interação assíncrona os alunos resolvem e para finalizar, por meio da interação síncrona, debater com os alunos os seus processos. Outra possibilidade, é por meio da interação síncrona, trazer um problema para os alunos, para resolvê-los de forma imediata. Há variadas possibilidades. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 128 Na sala de aula invertida o aluno é o protagonista, aliás, ele tem contato com o conteúdo antes mesmo da aula, possibilitando que tenha conhecimentos prévios sobre ele. Assim o processo ensino aprendizagem é mais aberto e dinâmico, de modo que os alunos vão direcionando. Neste caso, o professor está para orientar, porém, quando observar que o conhecimento está ficando em segundo plano, ou que faltam algumas orientações para os alunos. Na rotação por estações, a sala de aula é dividida em espaços de aprendizado chamados estações, todos relacionados ao tema principal da aula, em que cada estação o abordará por meio de uma atividade diferente, de acordo com um objetivo específico (NIENOV, 2021). Neste caso, o professor direciona os alunos entre as estações, também com os conteúdos se for o caso. Na interação assíncrona, o professor pode inserir no sistema diferentes atividades, que serão as estações e depois, de forma síncrona, debater com os alunos, ao modo que forem transitando entre uma e outra. Estas técnicas permitem diferentes possibilidades, devendo ser adequadas à turma, faixa etária e também aos conteúdos. Se reparar as estratégias, didáticas e vivências do ensino online não é muito diferente do presencial, aliás, há uma base em comum e daí as devidas peculiaridades. No caso da avaliação, por exemplo, assim como no ensino presencial, indica-se que seja referente ao processo, ou seja, não só o resultado final, bem como, que também se avalie as próprias possibilidades desenvolvidas. Será que essa estratégia de intervenção online foi adequada? Ou, será que essa forma de interação é a melhor neste momento? Às vezes, o que se aplica para uma turma, não se aplica para outra, mesmo sendo a mesma faixa etária. Encerramos a aula por aqui! Nela você estudou diferentes possibilidades didáticas de forma online, focando o ensino remoto. É um conteúdo muito pertinente para a sua formação e com certeza ainda teremos muito a aprender, pois, como o foco da educação básica é presencial, é um campo que tende a crescer! Até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 129 CAPÍTULO 14 PORQUE A DIDÁTICA ESTÁ AQUI? 14.1 Introdução Após estudar tantos aspectos didáticos, aliás, você já chegou na aula 14, já percebeu que não tem como desvincular seus elementos da figura do professor, certo? Aliás, é até difícil esgotá-los, visto que, a didática hoje é complexa, assim como o processo ensino e aprendizagem e a educação de modo geral. Hoje nós iremos compreender a didática na formação dos professores, focando os seus aspectos legais e intenções. Mais um conteúdo que te acrescenta na formação pessoale profissional! Aproveite a aula! 14.2 Didática e formação de professores Ao problematizar a formação de professores, Gatti (2017) traça aspectos legais que demonstram a necessidade da didática em sua formação. Seja na pedagogia ou em outras licenciaturas. Nas aulas anteriores discutimos vários pontos que reforçam a relevância das preocupações da didática, mas, os aspectos que garantem suas bases legais ainda não vimos. Deste modo, os estudos da autora servirão de base para a presente aula. Já constatamos que hoje a figura do professor é de extrema relevância para a educação, de modo que é ele que direciona, instrui, media e está diretamente em contato com os alunos em seu processo ensino aprendizagem e desenvolvimento. Se em tempos remotos o professor estava ali apenas para transmitir conteúdos e avaliar, hoje ele está para transmiti-los, articulados, relacioná-los, dentre tantos outros aspectos que estamos estudando até então. Assim, a sua função hoje é mais complexa pois ele deve formar o aluno para a vida, para garantir-se como sujeito ativo e social. Aliás, a autora aponta sua atuação como prática política. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 130 A constituição de novas perspectivas sobre essa formação poderá tomar força se associada à ideia de formação de um profissional que é de importância fundamental para a vida social nos dias de hoje. Não como discurso, mas sim como prática de política educacional. Não há como negar que os pilares de nossa sociedade se assentam na detenção de conhecimentos relevantes que dão condições para o exercício da cidadania, permitindo às pessoas um viver melhor e favorecendo movimentos societários que alavancam as possibilidades humanas em seu conjunto (GATTI, 2017, p. 1154). E o que a didática tem a ver com isso? É ela a responsável, é o seu campo de preocupações e atuação que traz as referências formativas necessárias às novas demandas que se colocam para o trabalho educacional nas redes escolares (GATTI, 2017). Quando você achava que a didática era importante com toda a certeza já percebeu que ela é ainda mais! Analise a tirinha abaixo: Título:tirinha professor Fonte: novaescola.org.br Em uma análise mais superficial, o que nós vemos? O aluno questiona a maneira que a professora ministra a sua aula, ela responde de modo a não considerá-lo e ele finaliza a sua fala demonstrando o que é divertido em sua visão. Explorando a temática de forma articulada à didática, podemos refletir em que sentido? Bom, professor e aluno não possuem uma relação linear de diálogo, pois a maneira que o professor responde, expressa que não há interesse no que o aluno diz, além da professora relacionar o estudo com necessariamente algo pesado e burocrático. Se a gente fosse ponderar a situação em seu plano ideal, como seria? O professor ao ouvir o questionamento do aluno, deveria ter a iniciativa de perguntar o que seria divertido para ele, por exemplo, e dependendo da resposta, explicar porque naquele momento é viável ou não. Caso seja viável, poderá explorar em outro momento, ou caso não, procurar alguma outra alternativa. De qualquer forma, a postura da professora poderia ser mais empática com o aluno, partindo do pressuposto de que para ele aprender, também é necessária a motivação. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 131 Aliás, a professora também pode indicar ao aluno o motivo da sua postura, ao invés de fazer uma fala no sentido da que fez. Há conteúdos, por exemplo, que não são passíveis de uma prática muito dinâmica. De qualquer forma, a situação permite inúmeras possibilidades. Claro que estamos falando de uma situação hipotética e também julgando as aparências da tirinha, mas é um exercício de reflexão a partir de uma situação prática, algo importante para você aluno conseguir articular com os seus conhecimentos. Retomando o conteúdo acerca do ser professor, a fala abaixo é extremamente representativa a seu respeito, olhe só: A docência é uma profissão complexa e, tal como as demais profissões, é aprendida”. Para essa profissão são essenciais os conhecimentos dos fundamentos da educação e do campo da Didática – campo que trata do ensino, de seus fundamentos e suas práticas. Esses conhecimentos imbricados com aqueles específicos das outras áreas de conhecimento devem constituir, sem dúvida, a base para a formação para a docência, para o exercício do magistério. Isso requer uma perspectiva interdisciplinar (GATTI, 2017, p. 1155). Neste momento, Gatti (2017) está trazendo a didática como base da formação docente, justificando que é esta disciplina com as suas devidas preocupações que garantirá elementos necessários até mesmo para outras preocupações, daí a relevância da interdisciplinaridade. Segundo a autora, as bases legais que instituem os cursos de formação docente reafirmam o papel da didática e de sua relevância, e são estes aspectos que iremos estudar a partir de então. Eles complementam o que já vimos até então. O Plano Nacional de Educação, PNE/2014, traz diversas metas que apontam para a necessidade de melhor formação dos professores, de modo a articular tal formação com as necessidades dos alunos. Discutimos bastante esse aspecto em aulas passadas, pois é um elemento prático bem presente nas realidades educacionais. Enfim, eles não passam despercebidos pelas nossas políticas educacionais. A Meta 13 do PNE, coloca o objetivo de “promover a melhoria da qualidade dos cursos de pedagogia e licenciaturas”, com a proposta de mudanças em sua avaliação, “integrando-os às demandas e necessidades das redes de educação básica, de modo a permitir aos graduandos a aquisição das qualificações necessárias a conduzir o processo pedagógico de seus futuros alunos(as)” (GATTI, 2017, p. 1153). A preocupação da referida meta é a avaliação do curso de graduação, de modo que estas passem a aferir as qualificações necessárias que articulem a graduação com DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 132 os aspectos práticos, daí a fala em promover qualificações necessárias a conduzir o processo pedagógico de seus futuros alunos, ou seja, é preciso que nos cursos tenham essa capacitação. Que forneça bases estratégicas para habilitar seus futuros professores para tal. A autora aponta que a fala da política educacional traz constatações que vêm sendo apuradas no decorrer dos anos, sendo uma delas, o fato da graduação nem sempre trazer os elementos práticos suficientes que irão preparar os alunos para a sala de aula reais. Um novo olhar e consideração sobre como se forma e quem forma os docentes da educação básica está sendo requerido ante o cenário social e a situação educacional do país, bem como em face das necessidades postas por perspectivas democráticas e de equidade para o atendimento das novas gerações quanto à sua educação escolar (GATTI, 2017, p. 1152). Acerca desta fala da autora, vamos problematizar? Com toda a certeza, nem sempre vamos conseguir antecipar todas as questões práticas, mas são os fundamentos teóricos que nos dão as bases e que nos fornecem os meios para produzir estratégias e intencionalidades. E é na graduação que devemos tê-los. Assim, devemos tomar cuidado ao questionar essa parte prática. Não necessariamente, a autora foi para esse lado, mas vamos aproveitar o gancho pois é uma reflexão pertinente a nós. Se a graduação fosse um curso estritamente prático fornecendo receitas e manuais, ele seria um curso técnico, certo? Ao modo que está no caráter de graduação, há uma diferenciação, que é justamente te garantir as bases teóricas e epistemológicas. Ambos não estão desarticulados pois a teoria baseia-se na prática e vice versa, porém, ao tratar da prática a expectativa é sempre voltada à receitas e manuais e é aí que você precisa ter o senso crítico para compreender que receitas e manuais são voltados para indivíduos específicose é preciso que você considere as especificidades locais, os alunos, da comunidade na qual a escola está inserida, então, se você tem as bases epistemológicas e fundamentos para tal, saberá criar a sua receita específica. Daí a relevância da graduação e seu diferencial frente aos demais profissionais que não a possuem. Lembra quando o Comênio escreveu a Didática Magna? Era uma receita, a arte de ensinar tudo a todos. O conhecimento avançou de modo a superar essas receitas que englobam todos os alunos da mesma forma. Hoje já vimos que há a necessidade em considerar as especificidades, conforme apontado acima. Assim, devemos sim refletir a prática na graduação, mas de modo a não limitar a receitas e manuais. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 133 Estes elementos também são preocupações didáticas, já tinha pensado neles? Pois é, são reflexões muito pertinentes! Enfim, ao modo que a autora traz essa problematização, ela diz respeito ao fato de na formação de professores haver tais articulações, ou seja, o estudante, futuro professor, vivenciar articulações teoria e prática, bem como, compreender a importância delas de modo a também conseguir realizá-las em seu campo de atuação profissional. Quando articula teoria, prática, sala de aula, processo ensino aprendizagem, a didática vem à tona, justamente pois estes elementos fazem parte de suas preocupações. Assim, acerca dessa formação, há a preocupação, por parte do nosso Conselho Nacional de Educação, CNE/2015, para a necessidade da didática nos cursos para a formação dos professores, desta forma, há esse postulado no PNE/2014, mencionando que a concepção sobre conhecimento, educação e ensino é basilar para garantir o projeto de educação nacional. O documento vai além, ao afirmar: [...] como ação educativa e como processo pedagógico intencional e metódico, envolvendo conhecimentos específicos, interdisciplinares e pedagógicos, conceitos, princípios e objetivos da formação que se desenvolvem na socialização e construção de conhecimentos, no diálogo constante entre diferentes visões de mundo (GATTI, 2017, p. 1154). Você já ouviu o termo intencionalidade por diversas vezes aqui na aula, e olha só ele sendo reafirmado na política educacional. Fica instituído o processo pedagógico intencional e metódico, ou seja, com intenções, objetivos, trabalho com preparo prévio. A interdisciplinaridade também aparece, é justamente o fator que devemos considerar para não executar um trabalho limitado, mas sim possibilitar a junção de diferentes áreas do conhecimento. Seja em nosso trabalho como professor, seja na nossa formação como professor. Para que haja uma base nacional específica visando garantir padrão de qualidade aos cursos de formação ao redor do país, há a Resolução CNE/CP n. 2/2015 que define Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Ela veio com o propósito de fornecer padrão de qualidade instituindo aspectos gerais, básicos e necessários aos respectivos cursos. Ao modo que há uma previsão em âmbito nacional, há a garantia de formação comum. Não é uma receita exclusiva a ser realizada independente do contexto, mas, a instituição de diretrizes, que vão sendo adaptadas de acordo com as realidade, por este motivo a resolução menciona “diretrizes”. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 134 ESTÁ NA REDE Você pode acessar a Resolução CNE/CP n. 2/2015 na íntegra, por meio do link: http://portal.mec.gov.br/docman/agosto-2017-pdf/70431-res-cne-cp-002-03072015- pdf/file Vale a pena a sua leitura! Gatti (2017) aponta que esta resolução faz várias menções à didática, seja de forma direta ou indireta, referindo-se a conhecimentos de seu campo, tais como conhecimento pedagógico, conhecimentos relativos ao ensinar e aprender, práticas educativas formais e não formais, etc. Desta forma, estes elementos incluem-se como aspectos básicos a serem vivenciados pelo estudante, futuro professor, visto que, são eles que te garantirão bases para sua atuação profissional. Vamos analisar as menções que diretamente tratam da didática no referido documento? Vale lembrar, que há muitos outros, porém, sem mencionar o seu termo. No entanto, vamos focar neste momento as que a mencionam diretamente, mas, conforme já mencionado, vale a pena você fazer a leitura do documento na íntegra, para visualizar suas propostas de forma integral. Ao buscar a palavra didática na Resolução CNE/CP n. 2/2015, encontra-se três menções. A primeira delas está no artigo 6 e aparece de forma articulada às práticas de ensino e saberes pedagógicos, olhe só: Art. 6º A oferta, o desenvolvimento e a avaliação de atividades, cursos e programas de formação inicial e continuada, bem como os conhecimentos específicos, interdisciplinares, os fundamentos da educação e os conhecimentos pedagógicos, bem como didáticas e práticas de ensino e as vivências pedagógicas de profissionais do magistério nas modalidades presencial e a distância, devem observar o estabelecido na legislação e nas regulamentações em vigor para os respectivos níveis, etapas e modalidades da educação nacional, assegurando a mesma carga horária e instituindo efetivo processo de organização, de gestão e de relação estudante/professor, bem como sistemática de acompanhamento e avaliação do curso, dos docentes e dos estudantes (BRASIL, 2015, [s.p]). O supracitado artigo está mencionando os diferentes aspectos que devem tomar base na legislação, e é assim que a didática aparece diretamente no documento pela primeira vez. Menciona-se os fundamentos da educação, os conhecimentos pedagógicos, bem como a didática, práticas de ensino e vivências. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 135 Podemos entender que neste momento, a didática está alinhada a fatores práticos, sendo relacionada diretamente às práticas de ensino e vivências. É que justamente por seu termo englobar amplas possibilidades, pode ser utilizado com determinado aspecto em evidência ou não, e ainda assim estará coerente, lembre-se disso! Independentemente do aspecto na qual a didática está associada, você precisa sempre lembrar dela como um todo, ainda que esteja sendo falado de algo específico em determinado momento. Aliás, este artigo é o último do Capítulo II, que trata diretamente da base comum para a formação dos profissionais do magistério. A segunda menção à didática está no próximo artigo, o sétimo, especificamente em seu inciso VII. Tal artigo versa sobre as informações e habilidades na qual os estudantes deverão estar aptos ao finalizar o respectivo curso, justamente para realizar determinadas ações, é aí que entram os incisos. O VII especificamente, traz a didática em dois momentos, olhe só: VII - cotejamento e análise de conteúdos que balizam e fundamentam as diretrizes curriculares para a educação básica, bem como de conhecimentos específicos e pedagógicos, concepções e dinâmicas didático-pedagógicas, articuladas à prática e à experiência dos professores das escolas de educação básica, seus saberes sobre a escola e sobre a mediação didática dos conteúdos (BRASIL, 2015, [s,p]. Se analisarmos o inciso como um todo ele reforça um aspecto amplamente discutido aqui na disciplina, que trata da necessidade de aprendizados em suas instâncias teóricas e práticas, bem como, da articulação entre elas. Conhecimentos específicos também são focados e a didática aparece duas vezes, sendo atrelada à dinâmicas didáticos pedagógicas e a mediação dos conteúdos. No primeiro caso, podemos entender a nuance da didática que diz respeito aos seus aspectos práticos, no sentido de formulações diferenciadas no âmbito pedagógico, e já no segundo, ao relacionar com os conteúdos, a didática traz sua nuancemais técnica, de mediação, ou seja, os aparatos didáticos necessários ao professor para mediar o conteúdo entre eles e os alunos. Interessante analisá-la no campo legal, não é mesmo? Se você não tivesse as devidas bases, que já estudou na disciplina até então, poderia considerá-la de forma limitada, certo? Não estamos culpando a lei, por isso, aliás, os trechos são curtos, não dá para DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 136 refletir, no corpo da lei, cada um deles, daí a relevância dos devidos conhecimentos prévios e anteriores, que aliás, você já tem. A próxima menção está no artigo 12, letra c do inciso II. Tal artigo versa sobre os núcleos que os cursos de formação deverão ter, considerando a diversidade nacional e a autonomia pedagógica. A didática está inclusa no seguinte ponto: pesquisa e estudo dos conhecimentos pedagógicos e fundamentos da educação, didáticas e práticas de ensino, teorias da educação, legislação educacional, políticas de financiamento, avaliação e currículo (BRASIL, 2015). Ao mencionar aspectos básicos da formação, inclui-se a pesquisa, conteúdos, práticas e a didática. Este artigo reforça um aspecto relevante que mencionamos anteriormente, que mesmo havendo uma Resolução, ou seja, uma base legal em âmbito nacional para os cursos de formação, há a necessidade de consideração dos aspectos referentes a cada região e contexto. Eles não são perdidos de vista em nenhum documento nacional. Se você lembrar acerca da BNCC que estudamos em aulas passadas, por exemplo, ela sempre versa sobre a necessidade do professor em articular os conteúdos e princípios propostos com a realidade de sua instituição escolar e dos alunos. Mencionamos as menções diretas da didática em tal resolução, porém, cabe relembrar que há outras especificidades a seu respeito. No momento é relevante você compreender que a didática e sua relevância para a nossa formação e também para a educação como um todo, está para além dos aspectos meramente epistemológicos, sendo também evidenciada em lei. Também é relevante você visualizar como a didática entra no corpo da Lei. Aliás, se a gente comparar os estudos que fizemos nessa aula e nas aulas que tratamos da didática no ensino fundamental e educação infantil, exploramos processos de investigação diferentes, você percebeu? Naquelas aulas, nós estudamos os aspectos didáticos no corpo de uma política educacional, porém, compreendendo a didática a partir de seus elementos, e já na aula de hoje, nós focamos a palavra didática em si, buscando compreender seus elementos a partir de então. São movimentos diferentes, mas que visam um mesmo ponto: a sua percepção acerca da didática nos referidos documentos legais. Assim, pode-se afirmar com propriedade que o estudo da didática e de seus elementos é direto dos alunos que estão em processo de formação para professores, estando prevista nas preocupações do nosso Conselho de Educação, bem como, em outras DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 137 políticas educacionais, como vimos acerca do PNE/2014, da Resolução e tantas outras que também constam. Também podemos constatar que para além de um direito, ela permeia os documentos educacionais de diferentes maneiras, de forma direta e indireta, estando presente em suas diferentes nuances! Encerramos a presente aula por aqui! Conteúdo extenso, complexo, porém, muito relevante a sua formação, pois, a cada aula você sobe um degrau a mais, parabéns! Até a próxima! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 138 CAPÍTULO 15 FINALIZANDO 15.1 Você chegou até aqui Parabéns para você que chegou até aqui! Na nossa última aula, vamos revisitar os elementos mais importantes da didática! Todo o conteúdo é importante, mas agora que você já entrou em contato com ele na íntegra, com certeza retomá-lo fará com que aumente suas bases ainda mais! Quando começamos a disciplina sempre temos uma série de expectativas. A didática, por ser um termo de uso no senso comum, faz com que muita gente a reconheça apenas como elemento prático e técnico, desvinculado de qualquer outra faceta. Agora que você chegou ao término da disciplina, podemos afirmar com propriedade que a didática é muito mais do que esperava, certo? Quando ouvir “aquele professor não tem didática”, ou “aquele professor tem didática”, você saberá reconhecer que está ok o contexto, mas, que a didática não se limita a sua ação prática, mas sim a toda a organização de seu trabalho pedagógico. Ao estudar suas origens, pudemos averiguar que o passar dos anos foi fundamental para conceber a didática da maneira que é hoje. Em tempos remotos, a educação baseava-se na fé cristã, sendo compreendida como uma forma de elevar a alma do indivíduo. Uma preocupação que nada tem a ver com conhecimento escolar e afins, certo? Assim, quem tinha o poder da educação, era uma classe específica, seja para ministrá-la, seja para receber seus pressupostos. O grande marco da didática veio com Comênio, que aliás, ficou conhecido como pai da didática, justamente por trazer esse termo à tona, além de seu aspecto técnico e prático. Esse escrito ficou conhecido como arte de ensinar tudo a todos, ou seja, representava de modo geral, uma instrução a ser transposta e realizada. Aliás, muito do conceito de didática que temos hoje a partir do senso comum, é fruto dessa didática concebida por ele. Hoje vemos que ele não estava errado, mas que o conceito foi utilizado de maneira limitada, ou seja, que a didática até então, era concebida como arte de ensinar, como uma prática apenas. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 139 Ao propor uma forma de ensinar tudo a todos, podemos afirmar que não havia, por parte da Didática Magna, a consideração das especificidades dos alunos das instituições escolares, muito menos dos professores. Ao modo que concebe um escrito com esse intuito, parte-se do pressuposto de que todos são iguais e aprendem da mesma maneira. Já avançamos sobre isso! Outro ponto que podemos refletir acerca desse escrito, porém, estamos o fazendo com o olhar de hoje, é que não há pretensões acerca da formação do aluno e sua inserção no meio social. Até certo ponto, até há, pois, a Didática Magna também tinha um pano de fundo religioso, mas, no sentido que vemos hoje, da formação para formar um indivíduo ativo, crítico, aí já não há essa preocupação. De forma linear, quem aparece na história contrapondo o Comênio, foi Rousseau e seu conceito de educação. Para ele, a educação deve respeitar o desenvolvimento natural dos indivíduos e a escola não impor conteúdos, mas, contribuir de modo que o aluno encontre as possibilidades por ele mesmo. Ao inserir essa perspectiva, Rousseau contrapõe à anterior, justamente, pois segundo a anterior, segundo Comênio, há a possibilidade de ensinar tudo a todos, certo? Nesta outra visão, isso não deve acontecer, devendo o professor intervir o menos possível de modo a respeitar o desenvolvimento natural e autônomo dos alunos. Seguindo o contexto histórico, entramos em uma fase de maior desenvolvimento social e com a igreja perdendo o controle da educação. É aí que o nome de Herbart aparece, sendo considerado o pai da ciência moderna. Junto com ele há a valorização do conhecimento científico. Ele considera a figura do adulto primordial na educação, contrapondo os ensinamentos de Rousseau e neste ponto, estando mais próximo de Comênio. Fala-se em educação moral e também nos estágios de apropriação, como sendo: 1)sensação e percepção; 2) memória e imaginação; 3)julgamentos e conceitos universais. Esses estágios representam, para ele, a maneira que o indivíduo vai ganhando o seu desenvolvimento, ou seja, processo ensino e aprendizagem, que inicia-se na percepção, finalizando em conceitos universais que nada mais são, do que conhecimentos científicos. A escolaNova aparece nesse contexto, trazendo novos olhares para a educação e retomando a figura do aluno como central. Assim, o professor é o facilitador de seu aprendizado, não estando no contexto escolar para transmitir conteúdos, mas sim, como orientador das práticas dos alunos a partir de seus interesses, que aliás, possuem peso maior do que os conteúdos em si. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 140 A experimentação ganha ênfase nessa escola, os testes, atividades em grupo e demais atividades práticas, havendo a valorização também da formação de atitudes por parte dos alunos. Skinner aparece enfatizando o ambiente como primordial no processo ensino aprendizagem, ou seja, ele traz à tona um elemento que anteriormente não aparecia como preocupação. Ele defende que o contexto é responsável pelos comportamentos dos indivíduos. Por meio de experimentações com animais, ele aponta que o reforço positivo e a punição fazem parte do processo de desenvolvimento dos indivíduos. Ele também reforça os comandos e a repetição como formas de aprendizagem. Não há preocupação, por exemplo, por fatores subjetivos, não considerando que estes também podem alterar nossas atitudes e comportamentos. No final do século XX, o nome de Perrenoud aparece evidenciando elementos antagônicos com o supracitado. Fala-se da formação de competências, bem como, de habilidades e atitudes. O professor nesse contexto, deve criar situações favoráveis para o aprendizado, tendo uma figura de relevância no espaço escolar, visando direcionar os alunos por meio de métodos ativos, ou seja, aqueles que os alunos atuam em seu processo ensino aprendizagem. Nesse desenrolar, é relevante que você perceba os movimentos da educação e suas devidas valorizações, pois, são estes aspectos que influenciam a didática, certo? Percebemos assim, elementos didáticos de valorização do professor como instrutor do conhecimento, em alguns momentos, apenas como direcionador, pois é o aluno que é valorizado neste sentido. Vimos também que o próprio conhecimento escolar nem sempre fica em primeiro plano. Desta forma, a tríade: aluno, professor e conhecimento vão alterando-se conforme as necessidades do momento e também do contexto social. Trazendo essa realidade a nível Brasil, nota-se que elas são paralelas e que nosso contexto é influenciado. Não há como ser diferente, considerando que os contextos macro e micro estão articulados. Um exemplo prático dessa influência, percebemos no estado de São Paulo, lembra? Ele foi pioneiro de preocupação com a educação pública e em 1893 organizou o seu ensino primário. Há influência dos pensamentos de Herbart na sua constituição, isso porque, os responsáveis pela organização haviam estudado fora do país. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 141 Aliás, prosseguindo no contexto histórico, chegam ao Brasil os pressupostos da Escola Nova, que estudamos anteriormente. Seu foco é o aluno e seu papel ativo no processo ensino aprendizagem. Posteriormente, a ênfase recai no ensino técnico, alterando o papel do professor e aluno novamente. Neste momento o professor é a ponte entre o aluno e o conhecimento, e os recursos são valorizados como primordiais para a sustentação do processo ensino aprendizagem. Vale relembrar que tais pensamentos não são estanques e acabam quando o outro começa. Eles marcam época, possuem seu destaque no decorrer dos anos, porém, acontecem de forma simultânea. A gente estuda eles desta forma, para conseguir organizar o pensamento e também para compreender o contexto na qual surgem, mas, é importante estar ciente de que são inerentes. Neste momento, também é importante relembrar que até então, não há ênfase na educação enquanto processo transformador social. As preocupações recaem na educação para que o aluno se insira socialmente. Preocupações além disso vem posteriormente, principalmente após a década de 1990. Observe a imagem abaixo: Título: sala de aula Fonte:novaescola.org.br Visto o desenrolar da didática no decorrer dos anos, vamos analisá-la de acordo com diferentes perspectivas. É um exercício importante neste momento para articular teoria e prática. De modo aparente vemos uma sala de aula e os alunos copiando da lousa. Se a gente buscar os conhecimentos do Comênio, a imagem expressa de forma alinhada às suas ideias, pois pode haver nesse contexto, um professor ensinando a todos de forma equivalente. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 142 Se a gente relacionar com os pressupostos de Rousseau, por exemplo, a imagem já não faz sentido, pois, como estamos respeitando o desenvolvimento natural dos alunos, se todos estão cumprindo as mesmas tarefas? Claro que a imagem é estática e estamos analisando de forma estereotipada, mas, a partir desta configuração, faria sentido a perspectiva de Rousseau, se os alunos tivessem autonomia para desenvolver as atividades diferentes, ou seja, estão sentados todos iguais, mas cada um no seu tempo. O ensino técnico também não faria sentido, considerando que não há recursos aparentes sendo utilizados para mediar o conhecimento e nessa perspectiva, esse é o foco. Visualmente temos os alunos a lousa e seus cadernos, então, não há mediações para além. A imagem também não retrata a educação na perspectiva da Escola Nova, pois nesta os alunos estariam provavelmente em grupos, testando, experienciando e desenvolvendo o conhecimento de outra maneira, para além de copiar. Vale relembrar, que estamos tratando a imagem como exercício de reflexão a partir dos principais pontos de cada vertente, pois, há também vários outros elementos que elas representam e que não se esgotam nas linhas dessa aula, ok? Prosseguindo, vimos que a didática alinha-se aos conhecimentos pedagógicos, justamente, pois estes relacionam-se ao espaço escolar e ao processo ensino e aprendizagem. Tomando por base um pesquisador renomado na área, Libâneo, vimos que há quatro focos da didática, sendo eles: 1) os conteúdos dos saberes a ensinar; 2) a ativação das capacidades intelectuais dos alunos; 3) o ambiente sociocultural e institucional para o ensino; 4) organização das situações didáticas com os meios adequados. Ao propor o item três, por exemplo, o autor demonstra a preocupação da didática para além do ambiente de sala de aula escolar, pois qual relação teria ela com o ambiente sociocultural? Justamente pois há uma base do conhecimento que considera a educação permeada por diferentes âmbitos e níveis de atuação: macro e micro. Mesmo que o autor não expresse certos elementos, ao ler suas ideias, é importante que você consiga ir situando as suas bases, pois a defesa de um ou de outro, expressam de forma inerente, sua base de pensamento, que na verdade é o que definirá todos os seus pressupostos. Isso vale para todas as disciplinas e autores, sempre busque em suas defesas e afirmações, quais as bases do que defende, assim, ficará bem mais fácil compreender a sua ideia geral. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 143 Ao modo que a didática articula-se com o conhecimento, processo ensino aprendizagem, professor, aluno e demais nuances da educação, algumas questões bases garantem seus pressupostos, como: 1)para que ensinar? 2) o que ensinar? 3) quem ensina? 4) como ensinar? Ao modo que essas indagações são o ponto inicial, a didática não perde de vista os elementos que foi agregando no decorrer dos anos. Hoje defendemos que a didática tem como foco a educação e suas preocupações voltando-se às técnicas e estratégias de ensino, aos conteúdos e a organização dos mesmos, bem como, à organização do trabalho do professor e suas nuances, aquilo que considera e também desconsidera. Se o ambiente interfere na aprendizagem, se há fatores externos, se a escola está contribuindo e de que forma, o papel que é dado aos alunos, suas autonomias,conquistas. Todos estes elementos esboçam a didática, no entanto não é possível esgotá-los por meio de palavras, percebe? Assim como todo conceito, definir a didática não é fácil, e tratando-se do seu tema, a dificuldade é ainda maior, pois tanto a prática como a teoria abrange elementos objetivos e subjetivos. Por isso, fazemos na disciplina atividades de reflexão o tempo inteiro, entendemos os autores e refletimos, problematizamos, relacionamos com a prática. Assim como apontado acerca do histórico, ao estudar as tendências pedagógicas, é importante não perder de vista que elas vão acontecendo de forma inerente e que uma não necessariamente termina quando a outra começa. No entanto, estudamos de modo linear e separadas para uma melhor compreensão, e também para ficar mais fácil de explorar suas principais peculiaridades. Vimos que a educação é dividida a partir de seu objetivo final e assim pode ser considerada como liberal ou progressista. Nas perspectivas onde o foco é educar para que o aluno se insira socialmente, no sentido de acomodação, é a perspectiva liberal sendo base. Já quando o processo ensino aprendizagem volta-se para uma educação que visa a formação do aluno para transformação social, para uma inserção ativa no meio, podemos afirmar que se tem uma perspectiva de cunho progressista. Desta forma, independente da roupagem, o fator relevante é seu objetivo final. Essa questão não deve ser perdida de vista nunca por você estudante, pois, do que importa uma educação bonita aos nossos olhos se os seus pressupostos não garantem ao aluno as bases necessárias para uma inserção social ativa? DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 144 Do que adianta o aluno ter boas notas na escola ou o professor ser visto como o melhor de todos, se no final das contas não há uma preocupação para além dos muros da escola? Quando chegamos a fase adulta, ou conforme o conhecimento pedagógico avançou, percebemos que a educação escolar é necessária, porém, de forma alinhada à outras questões. Daí a tendência crítico social dos conteúdos receber ênfase na educação atual. Diferente de outras perspectivas de cunho liberal, os conteúdos escolares são valorizados por esta perspectiva, havendo o entendimento de que o espaço escolar é o responsável em fornecer os conhecimentos historicamente acumulados, justamente pois é o único âmbito propício para tal. Este entendimento, acerca dos fins da educação é um conhecimento muito necessário para nós professores, ao modo que você tem essa consciência, você sobe um patamar nos seus conhecimentos, pois, entende que não é só a forma da educação que importa, mas sim, os seus fins. Quando analisamos a imagem acima, por exemplo, pelo que nós vemos não é possível identificar os fins, certo? Quando vemos os alunos enfileirados, automaticamente relacionamos com o ensino tradicional e por vezes criticamos. Agora que temos esse conhecimento, vou te lançar uma questão: ainda que estejam organizados desta forma, se o professor explora o conteúdo articulando com as suas vivências, considera os seus conhecimentos prévios, tem diálogo, está sempre problematizando e colocando os alunos para refletir, de modo que amadureçam o seu senso crítico…essa é uma educação ruim? Agora você está pronto para compreender que nem sempre a aparência, ou a “casca” da educação é o suficiente para garantir uma formação crítica e reflexiva. Aliás, devemos tomar cuidado pois há várias propostas onde na aparência o aluno é super valorizado, dentre outros elementos, mas no final das contas, não há o mais importante, uma educação de qualidade. Qualidade é um conceito versátil, mas, conforme constatamos estudando a didática, em seus pressupostos atuais, uma educação de qualidade pressupõe alguns elementos bases, como: formação crítica do indivíduo, professores aptos com estratégias para considerar as especificidades dos alunos, valorização do conteúdo escolar de forma articulada com as vivências sociais, alunos com possibilidades ativas em sala de aula, dentre outros. Entendemos que não tem como esgotar as peculiaridades, pois, existe uma base, mas também as demandas de cada realidade. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 145 Após refletir os elementos didáticos de modo geral, entendemos que há especificidades de acordo com os níveis de ensino. Desta forma, estudamos os pressupostos didáticos na educação infantil e no ensino fundamental. Na educação infantil, para além dos elementos supracitados, os pressupostos didáticos em sua organização consideram os campos de experiência como uma forma de trabalho lúdica entre os alunos. Neste nível não existem disciplinas, mas sim, os campos para a criança experienciar e entrar em contato com as diversas área do conhecimento por meio das interações e brincadeiras, que são peculiaridades da faixa etária. Título: alunos vivenciando os campos das experiências em diferentes atividades Fonte:novaescola.org.br Cada imagem acima demonstra um tipo de vivência diferenciada nos campos de experiência na educação infantil. Devido os campos trabalharem com diferentes conhecimentos e de forma articulada, ao modo que vemos as imagens podemos até ter uma ideia do que retratam, mas não conseguimos ter a dimensão do todo. Por exemplo, na segunda imagem a criança está pintando, de imediato já relacionamos com o campo “traço, som, cores e formas” que de forma mais direta trabalha com a DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 146 expressão artística. Com certeza a associação está correta, pois ao pintar, de forma automática, o aluno trabalha a sua expressão, mas e se ele estiver expressando alguma quantidade por meio de uma atividade direcionada para tal? No caso, o aluno estará vivenciando os pressupostos de mais de um campo ao mesmo tempo, certo? Interessante, não é mesmo? É sempre relevante você refletir essas possibilidades. Assim, a organização didática possui pressupostos próprios e que valorizam a criança e suas especificidades. Há objetivos, princípios e direitos da criança neste nível, afinal, a intencionalidade do professor não é perdida de vista. Será em cada campo de experiência que o professor propiciará atividades e vivências tendo como foco o processo ensino aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos. Conforme vimos em aula específica, nem sempre é fácil executar na prática o que é almejado na teoria. É preciso estar ciente de que a teoria é considerada o plano ideal, ou até mesmo, em algumas situações ela não corresponde à realidade, então, devemos sempre ter cuidado ao refletir ambos os casos, para não julgar um ou outro de forma arbitrária, pois ambos devem e caminham juntos. Já no ensino fundamental, os pressupostos didáticos baseiam-se nas áreas do conhecimento, visando um ensino interdisciplinar. Ao modo que não é dividido por disciplinas, os diferentes conteúdos podem e devem ser tratados de maneira articulada, de modo a sempre propiciar ao aluno a experiência e os conteúdos escolares sem perder de vista sua relevância no meio. Após estudar os diversos pressupostos didáticos e suas especificidades nos diferentes níveis, refletimos algumas possibilidades práticas, considerando neste momento, a didática como vivência diferenciada em sala de aula. Vamos retomar as práticas didáticas? Lembrando que há várias outras e que estas são passíveis de adaptações! Vimos os jogos didáticos, que são estratégias lúdicas por meio de jogos de regras que proporcionam diferentes ganhos aos alunos, seja para a sua dimensão pessoal, como honestidade, amadurecimento, raciocínio, como ganhos coletivos e a partir das próprias especificidades de cada jogo. Ele torna-se uma prática didática a ser proposta em diferentes níveis e com diversas possibilidades, para reforçar um conteúdo, como exercício de prática, avaliação, ou como atividade lúdica educativa, parao aluno ter um tempo brincando com algo produtivo e que gere aprendizados. Lembrando que os jogos podem ser confeccionados ou até mesmo adaptados. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 147 A sequência didática é outra proposta. Ela é mais ampla, pois trata-se de uma sequência de atividades organizadas por meio de critérios que visam um objetivo final. Por exemplo, eu posso fazer uma sequência didática e uma das atividades serem os jogos, outra ser uma atividade escrita, ou de dança, dentre outros. O relevante é a coerência entre a sequência, o aumento da complexidade das atividades e que tenha intencionalidade pedagógica por parte do professor, assim, não é um agrupamento qualquer de atividade. Lembra da didática matemática? Vimos que é uma parte da didática que trata de um conjunto de conhecimentos específicos e que seu foco são as situações didáticas. E a aula aberta, está lembrado? Com certeza essa perspectiva te surpreendeu, pois quando falamos em aula aberta de forma imediata já pensamos em aulas em lugares diferenciados, ou seja, fora da sala de aula padrão. O conceito estudado remete-se à abertura em diferentes dimensões, por parte do professor, de modo a deixar a sua atuação mais aberta, mais ampla às possibilidades. Falamos de abertura aos alunos a sua autonomia e participação, abertura nas instituições de ensino, abertura dos conteúdos, dentre outras vivências que o professor pode possibilitar. Os pressupostos de aula aberta articulam-se com as tendências pedagógicas progressistas, visando a formação de alunos ativos e críticos sociais. Este aspecto nos permite pensar que ela torna-se uma estratégia para o professor, de modo a deixar o ensino mais orgânico e menos pesado aos alunos. Até então, falamos em educação privilegiando o espaço físico, que ainda é a realidade mais presente na educação básica, porém, não podemos perder de vista as bases para o ensino remoto que hoje também está presente. Vamos relembrar alguns de seus aspectos didáticos? Importante situar primeiramente a sua diferenciação da educação online, sendo esta um ensino todo organizado para os meios digitais, já a educação remota é uma situação pontual, emergencial, ou seja, há o ensino presencial e faz-se uso da tecnologia em determinadas situações, como aconteceu na pandemia, por exemplo. O ensino remoto pode ter diferentes interações como a síncrona, assíncrona e o ensino híbrido. Cada uma delas propicia diferentes alternativas didáticas e diferentes focos. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 148 Na interação síncrona há o contato simultâneo, sendo uma boa opção para debates, discussões, pois aproxima-se mais da situação da sala de aula presencial, pois além do contato professor e aluno, também é possível o contato aluno-aluno. Na interação assíncrona, o professor insere os conteúdos na plataforma e os alunos utilizam posteriormente. Uma de suas vantagens é que os horários são flexíveis e as possibilidades de atividades também ampliam-se, pois pode-se trabalhar com textos, vídeos, músicas, dentre outros, até mesmo com grupos de trabalhos diferenciados entre os alunos. No ensino híbrido, uma tendência atual, há uma organização mista de educação presencial e online. Neste caso, o online é previamente organizado de forma articulada com o âmbito presencial, não só para atividades específicas, mas como forma organizacional do ensino. Ambas são relevantes nessa forma de interação. Independente da forma de interação, o ensino remoto possui as mesmas especificidades da educação presencial, no sentido de: necessidade em considerar os conhecimentos prévios dos alunos, importância da sua participação, dentre outros elementos que estamos sempre reforçando. No entanto, há demandas específicas a serem consideradas. Estão em uma plataforma diferenciada, exigindo assim domínio daqueles que irão utilizá-la. É um espaço em que o aluno tem muitos estímulos, daí a necessidade de motivação constante e também de orientação, por parte do professor em auxiliar o aluno em sua organização. Será que podemos afirmar que há uma didática específica para o ensino remoto? Considerando a didática em suas formas de organização específica, a resposta é sim, pois existem peculiaridades didáticas a serem consideradas nesse âmbito. Ufa! Quantos conhecimentos desenvolvemos nessa disciplina e você chegou ao final! O intuito da presente aula é justamente que você, de forma didática, retome conteúdo sem ao menos perceber o tanto que já estudou! Claro que aqui o conhecimento está sintetizado e você precisa das bases e conteúdos em sua forma integral, mas após tê-las é um bom exercício para relembrar, reforçar e consolidar o que já sabe! Agora sim você chegou ao fim! Parabéns! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 149 CONCLUSÃO Parabéns aluno por ter finalizado a presente disciplina! Não tenho dúvidas de que se chegou até aqui, possui os conhecimentos necessários sobre a didática. Para além do uso de seu termo no dia a dia, vimos que a didática pauta-se no processo ensino aprendizagem, pressupondo os diversos elementos que contemplam essa vivência. Desta forma, abrange alunos, professores, conteúdos, organização, formas de interações, dentre outros elementos. Sua configuração atual não é aleatória, mas sim, fruto de um desenvolvimento histórico marcado por idas e vindas. Os pressupostos didáticos no decorrer dos anos, mostraram que o professor foi o foco, sendo considerado o detentor do saber, já em outros momentos ele era apenas o mediador entre o aluno e o conhecimento e em outros ainda, ele estava ali apenas para auxiliar o aluno em seu direcionamento. Assim como o professor, vimos que o aluno também teve seu papel a partir de diferentes posicionamentos: enquanto receptor de conteúdos, como sujeito autônomo, tendo seus conhecimentos prévios valorizados ou não. Assim, os pressupostos didáticos foram marcados durante os anos de acordo com os seus contextos históricos e sociais, além das influências macro e micro que se relacionam. Podemos concluir que de modo inerente à educação, a didática está presente no cotidiano escolar em todas as suas nuances e níveis de ensino, que aliás, constatamos que também possuem aspectos didáticos específicos. Ou seja, há concepções atuais sobre a didática, que expressam conceitos gerais, porém, também há conhecimentos peculiares que devem ser considerados dependendo do nível de atuação e/ou contexto na qual se ensina, seja ele presencial ou remoto. Espero que tenham gostado da disciplina! É importante visitá-la sempre que possível, para cada vez mais aprofundar as suas reflexões sobre o assunto. É importante situar que o conhecimento nunca se esgota nas linhas das aulas, independente da disciplina, por isso elas são a sua base para futuros aprimoramentos e formação continuada, aliás, sua formação deve ser contínua. Para finalizar, deixo um pequeno texto para a sua reflexão e que vai ao encontro do que discutimos na disciplina! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 150 “Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas! Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”. Parabéns novamente, por chegar até aqui e aproveite bem a sua formação! DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 151ELEMENTOS COMPLEMENTARES LIVRO Título: Uma Didática Para a Pedagogia Histórico-crítica Autor: João Luiz Gasparin Editora: Autores Associados Sinopse: O autor elaborou uma metodologia baseada em determinada fundamentação teórica. É um trabalho inovador mostrando direcionamento e estratégias de sala de aula. O autor divide a nova didática em cinco passos, e cada um deles tem como objetivo envolver o educando na aprendizagem significativa dos conteúdos. Desta forma, os conteúdos e os procedimentos didáticos são estudados na interligação que mantém com a prática social dos alunos. O livro destina-se a professores do ensino fundamental e médio que desejam oferecer aos educandos uma possibilidade de aprender criticamente o conhecimento científico. Professores do ensino superior encontrarão nele um novo caminho para seu trabalho na formação das competências e habilidades dos futuros mestres. Título: Didática Autor: José Carlos Libâneo Editora: Cortez Editora Sinopse: Leitura básica sobre o assunto com um autor e pesquisador referência na área no Brasil. Este livro propõe o estudo sistemático da Didática como teoria do processo de ensino. Como disciplina integradora, busca conhecimentos teóricos e práticos de metodologias específicas das matérias de ensino, generalizando princípios para a docência de todas as matérias escolares. DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 152 Título: Didática da Matemática Autor: Parra, Cecilia, Saiz, Irma, Lerner, Delia, Gálvez, Grecia, Brouseeau, Guy, Santaló, Luis A., Sadovsky, Patricia, Charnay, Roland, Llorens, Juan Acuña, Koch, Maria Celeste Machado Editora: ArtMed Sinopse: Esse livro acrescenta à disciplina por tratar-se de uma área específica da didática, que aliás, vimos alguns aspectos em uma das aulas. A obra traz reflexões sobre qual é a matemática que deve ser ensinada na educação básica, analisando, ainda, a situação atual do ensino e da aprendizagem de conteúdos importantes do ensino fundamental, e apresentando propostas didáticas que dão ao aluno a oportunidade de colocar em jogo suas conceitualizações, suas reflexões e seus questionamentos. FILME/DOCUMENTÁRIO Título: Projeto Âncora (Brasil) - Destino educação: escolas inovadoras Sinopse: Documentário que retrata uma realidade educacional diferenciada no Brasil! O Âncora atende hoje cerca de 170 alunos em período integral, é uma escola gratuita mantida através de recursos privados para alunos da região de Cotia. A escola tem uma filosofia educacional inovadora, inspirada na Escola da Ponte de Portugal, na qual os alunos estudam juntos e aprendem através de pesquisas e projetos, sem salas de aula, muros e hierarquia. No Âncora, os alunos não passam por séries, como em uma escola tradicional, mas se dividem em ciclos de aprendizagem. Existe um Currículo Objetivo baseado nos Parâmetros Curriculares Nacionais, e os conteúdos obrigatórios são passados aos alunos através dos projetos de estudo. O programa vai mostrar um projeto de educação inovadora pensado por e para todos, com um modelo construído de maneira coletiva e democrática e diversos ambientes participativos onde educadores e educandos tomam juntos as decisões e definem o dia a dia e o futuro da escola. Você pode assistir o documentário na íntegra: https://www.youtube.com/ watch?v=kE6MlnwML8Y DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 153 Título: Finlândia - Destino educação Sinopse: Famosa pela qualidade de ensino, a Finlândia é apontada como modelo para todas as nações. Por lá, o professor para entrar em sala tem, no mínimo, mestrado, e a autonomia é a palavra de ordem. No Ensino Médio, por exemplo, os estudantes têm direito a escolher o que querem aprender. A carga horária não é exageradamente grande e a biblioteca é um dos passatempos preferidos. Em média, um estudante vai 12 vezes à biblioteca ao longo de um ano. Com ajuda de especialistas, esse episódio vai discutir também: como o governo conseguiu a difícil tarefa de igualar a qualidade do ensino? Por que a profissão de professor é a mais desejada pelos jovens, mesmo sem oferecer os salários mais altos da região? E aos melhores profissionais cabe a tarefa de trabalhar nas piores escolas. Por quê? Por fim, quais as lições que o mundo pode aprender com os finlandeses apesar de ser um país tão diferente? Você pode assistir o documentário na íntegra: https://www.youtube.com/ watch?v=Bj9ciijbMj8 DIDÁTICA PROF.a NATHÁLIA DELGADO B. DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 154 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, Marluce Jacques de. Retrospectiva histórica da didática e o educador. Educação: teorias e práticas, v. 2, 2002. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/ CP n. 02/2015, aprovado em 9 de junho de 2015 – Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica. Brasília, DF: MEC/CNE, 2015 _____. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017. BRÜGELMANN, Hans. Didática da Sala de Aula: entre abertura e estruturação. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 40, n. 2, p. 349-374, abr./jun. 2015 DAMIS, Olga Teixeira. Didática e ensino: relações e pressupostos. 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FINALIZANDO