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É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na internet ou outros), sem permissão expressa da editora. Rua Conselheiro Nébias, 1384 Campos Elísios, São Paulo, SP – CEP 01203-904 Tels.: 21-3543-0770/11-5080-0770 faleconosco@grupogen.com.br www.grupogen.com.br Produção digital: Ozone Designer de capa: Rejane Megale Imagem de capa: Greens87 | iStockphoto CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G356o Giacomoni, James Orçamento governamental: teoria, sistema, processo / James Giacomoni. São Paulo: Atlas, 2019. Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-97-01900-1 1. Administração pública - Brasil. 2. Finanças públicas - Brasil. 3. Orçamento - Brasil. I. Título. 18-52896 CDD: 338.10981 CDU: 336.13(81) Vanessa Mafra Xavier Salgado - Bibliotecária - CRB-7/6644 Para MARIA EUNICE, pela paciência durante a preparação deste livro. Para CLARISSA, LUIS HENRIQUE, LUCAS, FERNANDO e NICOLAS A maior parte deste livro foi escrita durante a segunda mais severa recessão desde que, no País, passaram a ser datados os ciclos econômicos. Iniciada no segundo trimestre de 2014 e encerrada oficialmente ao final do último trimestre de 2016, a recessão provocou no período uma queda acumulada de 8,2% no Produto Interno Bruto (PIB). Chamar a atenção para este aspecto já na apresentação de um manual de orçamento público é necessário porque a crise das finanças públicas em grande medida foi responsável pelo agravamento da recessão. Desde que devidamente aproveitados, os acontecimentos dessa fase fornecem lições úteis para futuras definições de política orçamentária. Em outros períodos, particularmente durante a inflação elevada, o desempenho econômico fraco e as quedas na renda interna eram atribuídos a várias causas, entre elas, a dependência da importação de petróleo, a elevada dívida externa, a fragilidade da moeda nacional, as pequenas reservas do País e o déficit no balanço de pagamentos. Atribuir responsabilidade ao quadro fiscal nas crises era difícil porque a situação real das contas públicas era obscurecida pelo mecanismo da correção monetária, que aumentava a receita mediante o imposto inflacionário e, com o auxílio do atraso nos desembolsos, tornava artificial o equilíbrio fiscal. A estabilidade proporcionada pelas medidas introduzidas em 1994 tornou conhecida a situação das finanças federais e permitiu ao País implantar uma efetiva política fiscal. Nos anos seguintes, mesmo com a gestão pró-cíclica favorecida pelo crescimento da carga tributária, o governo federal obtinha superávits primários anuais e, dessa forma, mantinha sob controle o déficit nominal e o endividamento. A partir de 2008, o quadro fiscal sofreu forte alteração com a queda no fluxo da arrecadação e com o continuado crescimento real dos gastos, especialmente os de natureza obrigatória.1 A deterioração dos indicadores fiscais e a queda real da renda em 2009 não foram alertas suficientes dado o protagonismo estatal, que se baseava em um exitoso ciclo nos preços das commodities (já em seu final) e de expectativas baseadas nas reservas de petróleo do pré-sal (empreendimento a se realizar). O crescimento de 6,5% do PIB em 2010 fortaleceu a política econômica oficial e minimizou as críticas. Os estados, o DF e os municípios, igualmente, beneficiavam-se do expansionismo dos gastos mediante o mecanismo de transferências entre os entes da Federação. Medidas contraditórias de política econômica contribuíam para a formação de um cenário futuro problemático: combate à inflação mediante a elevação da taxa de juros, expansão continuada dos gastos públicos e ajustes represados nos preços administrados. Receitas extraordinárias e outros artificialismos entravam nas estatísticas, distorcendo os resultados fiscais. Quando os sinais recessivos ficaram evidentes, o governo respondeu com desonerações fiscais que contribuíram para a redução da receita. Pela primeira vez desde 1997, os superávits cederam lugar aos déficits primários em 2014. A campanha eleitoral desse ano escondeu a gravidade do quadro fiscal e recessivo, que, naturalmente, evidenciou-se desde o início do novo mandato. Os sinais trocados entre as medidas alardeadas na campanha e as postas em prática e os indicadores aumentaram as desconfianças do setor privado, enfraqueceram politicamente o governo e levaram ao afastamento da presidente. A agenda fiscal da nova administração compreendia crescimento real zero para as despesas primárias nos próximos anos e reforma dos sistemas previdenciários público e privado. O alcance do primeiro objetivo baseou-se na aprovação de emenda constitucional instituindo novo regime fiscal para vigorar por 20 exercícios financeiros. A partir do décimo exercício de vigência do novo regime, por meio de lei complementar de iniciativa do presidente da República, poderá ser alterado o método de correção estabelecido na emenda constitucional. Quando da elaboração deste prefácio, o governo federal negociava com a sua base parlamentar no Congresso a aprovação da reforma previdenciária com alcance bem menos ambicioso do que o inicialmente proposto. Há muitas questões envolvidas na atual crise política e econômica brasileira. Dentre elas, interessa a este manual os problemas fiscais e as suas possíveis lições. Em todo o lugar, o modelo moderno de elaborar os orçamentos públicos dá-se menos no processo de elaboração anual do orçamento, e mais mediante a aprovação de leis ordinárias que criam ou aumentam despesas ou de leis de apropriação de gastos, muitas vezes, sem a definição de prazos de vigência. Dois efeitos importantes resultam dessa prática: (a) em face da norma legal, a despesa passa a ser de execução obrigatória; e (b) a despesa é aprovada sem a identificação da correspondente fonte de recursos. Ao contrário, quando as despesas são escolhidas no processo de elaboração do orçamento, obriga-se a observar o que talvez seja o princípio por excelência de gestão financeira responsável: “não há despesa sem fonte”. São várias as razões para a aprovação de despesas obrigatórias ou criação de direitos que serão atendidos com recursos do orçamento público: necessidade de garantir recursos estáveis para determinados setores apoiados por fortes lobbies, pressões por parte de categorias de servidores públicos, decisões judiciais que se sobrepõem ao processo decisório administrativo, necessidade de expansão da máquina administrativa governamental etc. De acordo com os cálculos atuais, no orçamento federal brasileiro cerca de 90% das despesas primárias são de execução obrigatória; da parte restante, parcela importante é constituída de despesas quase-obrigatórias, especialmente, as destinadas ao custeio administrativodos órgãos, unidades e entidades. Ações governamentais baseadas, principalmente, em despesas de execução obrigatória constitui a armadilha fiscal perfeita; depois de montada, será praticamente impossível desmontá-la. Os interesses que se mobilizaram para aprovar as despesas ou para criar os direitos resistirão a qualquer tentativa de alteração ou revogação. O orçamento de despesa assume tal grau de rigidez e inflexibilidade, que são muito difíceis até mesmo pequenas reduções do déficit. Limitar despesas discricionárias apresenta resultados ínfimos porque são poucas e parte delas são de execução quase-obrigatória. Os resultados dos últimos exercícios comprovam as dificuldades no enfrentamento do déficit do orçamento da União. Após dois exercícios de déficits primários – 2014: 0,4%; e 2015: 1,9%, como proporção do PIB –, o Projeto da LDO para 2016 foi encaminhado ao Congresso Nacional com a previsão de superávit primário de 1,65% do PIB; a LDO daquele exercício reduziu o superávit para 0,39% e ao final de 2016, o déficit primário alcançou 2,5% do PIB. O Projeto da LDO para 2017 foi proposto com a previsão de déficit zero. A meta comprovou-se insustentável e a LDO foi aprovada com um déficit primário de 2,0%; revisão da LDO aumentou a previsão de déficit para 2,4%. Ao final do exercício, o déficit somou R$ 118,4 bilhões, ou 1,8% do PIB. A LDO para 2018 foi aprovada com a previsão de déficit primário de 1,78% do PIB. Revisão da LDO, aprovada em setembro de 2017, aumentou a previsão do déficit para R$ 159 bilhões, correspondendo a 2,23% do PIB. Para o exercício de 2019, a LDO estabeleceu déficit primário de R$ 139 bilhões, ou 1,84% do PIB. 1 2 Reformas no sistema previdenciário e no modelo salarial no setor público são necessárias e só deverão se dar de forma incremental, com efeitos fiscais de longo prazo. Revisões nos incentivos fiscais e redução nas desonerações ajudarão, mas o quadro fiscal em médio prazo poderá mudar apenas com a retomada da atividade econômica. Poderá, entretanto, se os incrementos da receita orçamentária proporcionados pelo crescimento da economia não forem empregados na implantação de estruturas administrativas que exigirão despesas permanentes, especialmente, as de natureza obrigatória ou quase--obrigatória. Cabe aqui nesta apresentação recordar uma lição do passado. Aliás, conforme William Faulkner, “o passado nunca está morto. Nem sequer passou”.2 A experiência brasileira com o emprego dos superávits proporcionados pelo boom das commodities do período de 2000 a 2014 é um claro indicador da desatenção aos efeitos do ciclo econômico. Não utilizar os superávits de forma prudente tendo em vista as necessidades que cresceriam ao encerrar-se o período do boom, contribuiu para a gravidade da recessão instalada a partir de 2014. Uma lição bem a propósito dessa questão foi dada por Gunnar Myrdal (1962) ainda em meio à grande recessão da década de 1930. Durante a fase ascendente do ciclo econômico, quando são gerados superávits orçamentários, o economista sueco recomendava o emprego desses recursos na redução da dívida, se necessário, e na constituição de um fundo a ser utilizado na fase descendente do ciclo, quando a prioridade será enfrentar os efeitos de queda na renda e, especialmente, no emprego. Políticas orçamentárias atentas aos efeitos dos ciclos econômicos nas finanças públicas, como a recomendada por Myrdal, devem ser anticíclicas nas duas fases do ciclo, e não apenas na fase descendente como amplamente passou-se a aplicar a recomendação keynesiana. A implantação do modelo de Myrdal exige ir além da anualidade orçamentária da política fiscal e elaborar orçamentos cíclicos que considerem o comportamento dos grandes agregados de receitas e de despesas orçamentárias para vários exercícios no futuro. Como sugeriu A. E Buck (1933), em escrito publicado originalmente em 1936, orçamentos cíclicos, que parecem ser a Meca dos orçamentistas em apuros, é um caminho cheio de dificuldades por várias razões, entre elas, “as influências sutis e penetrantes que a instabilidade dos partidos políticos exerce sobre o planejamento financeiro”. Este argumento é bem ilustrado pelas atitudes de grande parte dos políticos--legisladores brasileiros e por seus comportamentos em face da crise fiscal atual e dos graves efeitos que ela projeta para o futuro. James Giacomoni Receita do governo central como proporção do PIB: 1997: 16,7%; 2008: 23,0%; 2016: 20,6%. Despesa primária do governo central como proporção do PIB: 1997: 14,1%; 2008: 17,8%; 2016: 19,4%. Ver Gobetti e Orair (2017). The past is never dead. It’s not even past. Retirado de Requiem for a nun, novela publicada em 1951. 1 2 A. B. B.1. B.2. B.3. C. D. E. 3 A. B. C. D. D.1. D.1.a. D.1.b. D.1.c. D.2. D.3. D.4. E. E.1. E.2. E.3. E.3.a. E.3.b. F. 4 A. B. B.1. B.2. B.3. B.4. B.5. B.5.a. B.5.b. B.5.c. B.6. C. C.1. C.1.a. C.1.b. C.1.c. C.2. C.2.a. C.2.b. C.2.c. C.3. C.3.a. C.3.b. Introdução PARTE I – TEORIA ORÇAMENTÁRIA Natureza política: orçamento público é escolha Introdução Teoria do orçamento incremental de Wildavsky Conceitos de base e quinhão justo e as características do modelo incremental Orçamento protegido: as despesas de execução obrigatória Modelo incremental sob críticas Teoria comparativa de processos orçamentários Relação entre Principal e Agente no processo orçamentário Teoria dos custos de transação aplicada ao orçamento público Natureza econômica: orçamento público é alocação de recursos Introdução Tamanho do Estado Razões do crescimento das despesas públicas Funções do orçamento: teoria normativa de Richard Musgrave Promover ajustamentos na alocação de recursos Bens públicos Bens meritórios Avaliação dos gastos públicos: medição de custos e benefícios Promover ajustamentos na distribuição de renda e da riqueza Manter a estabilidade econômica Funções fiscais e descentralização Financiamento das necessidades públicas Princípio do benefício Princípio da capacidade de pagamento Déficits e endividamento público Escola clássica: posição dos principais intérpretes Revolução keynesiana e endividamento público Ciclos econômicos e orçamentos cíclicos Natureza gerencial: orçamento público é um plano de gestão Introdução Estágios da reforma orçamentária Orçamento executivo e por objeto (line-item) Orçamento de desempenho Sistema de planejamento, programação e orçamento (PPBS) Orçamento base-zero (OBZ) O “novo” Orçamento de desempenho NPR e GPRA PART Gprama Orçamento por resultados (OPR) Modelo normativo de orçamento governamental: principais componentes Estrutura baseada em programas Programa: conceito e modalidades Componentes da estrutura programática Orientações para a implantação da estrutura programática Mensuração do desempenho Produto versus resultado Indicadores de processo Dimensão da qualidade Informações financeiras e contábeis Incorporação do cálculo de custos Contabilidade por competência 5 A. B. C. C.1. C.2. C.3. C.4. 6 A. B. B.1. B.2. B.3. B.3.a. B.3.b. C. C.1. C.2. D. D.1. D.2. D.3. D.4. D.5. D.6. D.8. 7 A. B. C. C.1. C.1.a C.1.b C.2. C.2.a. C.2.b. C.2.c. C.2.d. C.3. C.3.a. C.3.b. C.3.c. C.4. C.4.a. C.4.b. C.4.b.1. C.4.b.2. C.4.c. C.4.c.1. C.4.c.2. C.4.c.3. C.4.d. Natureza jurídica: orçamento público é lei Introdução Origens da lei orçamentária Natureza jurídica do orçamento Lei material, lei formal e ato administrativo O orçamento é ato-condição Lei vinculada, reforçada e superordenadora Ausência de lei orçamentária PARTE II – SISTEMA ORÇAMENTÁRIO Sistema Orçamentário Brasileiro Introdução Planejamento e plano plurianual (PPA) Antecedentes Planejamento na Constituição Plano plurianual (PPA) Conteúdo do PPA Prazos e vigência Diretrizes orçamentárias (LDO) Conteúdo da LDO Prazos Orçamento anual(LOA) Conteúdo da LOA Conteúdo exclusivo da lei orçamentária Unidade e universalidade orçamentária Vedação à vinculação da receita de impostos Incentivos, benefícios e subsídios Regionalização dos orçamentos “Regra de ouro” aplicada ao orçamento Organização do orçamento anual Dois componentes principais: despesa e receita Linguagem orçamentária Classificação da despesa Classificação institucional Finalidade Categorias classificatórias Classificação funcional Antecedentes Finalidade Categorias Classificação funcional em outros países Classificação por programas e ações Antecedentes Finalidade Categorias Classificação segundo a natureza Antecedentes Categorias econômicas Finalidade Categorias Grupos de natureza da despesa (GND) Finalidade Os grupos Classificação econômica da despesa conforme o Manual do FMI Modalidades de aplicação (MOD) C.4.d.1. C.4.d.2. C.4.e. C.4.e.1. C.4.e.2. C.4.e.3. C.5. C.5.a. C.5.b. D. D.1. D.1.a D.1.a.1. D.1.a.2. D.1.b. D.1.b.1. D.1.b.2. D.1.b.3. D.1.b.4. D.1.b.5. D.2. D.2.a D.2.b D.3. D.3.a. D.3.b. A. B. C. D. E. 8 A. B. B.1. B.2. B.3. B.4. C. C.1. C.2. D. D.1. D.1.a. D.1.b. D.1.c. D.1.d. D.1.e. D.1.f. D.2. A. Finalidade As modalidades Elementos de despesa Antecedentes Finalidade Os elementos Identificadores Identificador de uso (IU) Identificador de resultado primário (RP) Classificação da receita Classificação da receita segundo a natureza Categorias econômicas Finalidades As categorias econômicas Classificação segundo as origens da receita Finalidades As origens da receita Receitas intragovernamentais Origens da receita: atendem o critério econômico ou a destinação? Detalhamento das origens Classificação institucional Finalidade Modalidades Classificação por fontes de recursos Finalidade Grupos e fontes de recursos Apêndice 7.1 – Fundos Especiais Antecedentes Conceituação Características do fundo especial Outra natureza de fundos Fundo Nacional de Saúde (FNS) PARTE III – PROCESSO ORÇAMENTÁRIO Elaboração do orçamento Processo orçamentário Plano plurianual (PPA) Conteúdo dos PPAs Conteúdo dos programas Vigência e prazos de elaboração e aprovação do PPA PPA como rolling plan Lei de diretrizes orçamentárias (LDO) Elaboração da LDO Prazos de elaboração e de aprovação da LDO Lei orçamentária anual (LOA) Conteúdo e forma da proposta e da lei orçamentária O projeto de lei orçamentária anual Conteúdo da lei orçamentária Princípios orçamentários e a LOA Competência de elaboração do projeto da LOA Etapas do processo de elaboração orçamentária Fluxo do processo de elaboração orçamentária Proposta orçamentária dos outros poderes Apêndice 8.1 – Conteúdos da LDO da União Metas fiscais e as prioridades e metas B. C. D. E. F. G. H. I. J. L. M. N. O. P. Q. R. S. A. B. C. 9 A. B. C. D. D.1. D.2. D.2.a. D.2.b. D.2.c. D.2.d. D.3. D.3.a. D.3.b. D.3.c. D.3.d. D.3.e. D.3.f. D.3.g. D.3.h. D.3.i. D.3.j. D.3.k. D.4. 10 A. B. C. D. E. E.1. E.2. E.3. F. Estrutura e organização dos orçamentos Diretrizes gerais sobre proibições Diretrizes específicas para os poderes legislativo e judiciário, o Ministério Público da União e a Defensoria Pública da União Outras diretrizes sobre a elaboração orçamentária Alterações na lei orçamentária Programação orçamentária e financeira e limitação de gastos Execução provisória do projeto de lei orçamentária Do regime de execução das programações incluídas ou acrescidas por emendas parlamentares Das transferências para o setor privado Da dívida pública federal Das despesas com pessoal e encargos sociais e benefícios aos servidores, empregados e seus dependentes Da política de aplicação dos recursos das agências financeiras oficiais de fomento Das alterações na legislação e sua adequação orçamentária Das disposições sobre a fiscalização pelo poder legislativo e sobre as obras e serviços com indícios de irregularidades graves Da transparência Disposições finais Anexos da LDO para Apêndice 8.2 – Orçamento participativo Participação Participação nas administrações municipais Orçamentos participativos (OP) Aprovação das leis orçamentárias Introdução Lei do plano plurianual (PPA) Lei de diretrizes orçamentárias (LDO) Lei orçamentária anual (LOA) Norma geral sobre emendas Norma geral sobre o processo legislativo do orçamento Aprovação do projeto da LOA Publicação da LOA Vetos Rejeição Processo legislativo da LOA federal Recebimento do projeto de lei Comissão Mista de Orçamento (CMO) Apresentação de emendas à receita e de renúncia de receitas Apresentação e votação do relatório da receita e emendas Apresentação e votação do relatório preliminar Apresentação de emendas de despesa ao projeto da LOA Apresentação e votação dos pareceres setoriais Apresentação e votação do parecer final Destaques Votação do parecer da CMO no Congresso Nacional Devolução do projeto de lei orçamentária para sanção Execução impositiva das emendas individuais Execução orçamentária e financeira Introdução Exercício financeiro Detalhamento da lei orçamentária Sistema de controle da execução orçamentária Programação financeira Cronograma mensal de desembolso Limitação de empenho Liberação dos recursos financeiros Descentralização de créditos G. G.1. G.2. G.3. G.4. H. H.1. H.1.a. H.1.b. H.2. H.3. H.4. I. I.1. I.1.a. I.1.b. I.1.c. I.1.d. I.1.e. I.1.f. I.2. J. J.1. J.1.a. J.1.b. J.1.c. J.2. K. L. L.1. L.2. L.3. 11 A. B. B.1. B.1.a B.1.b. B.1.c. B.2. B.2.a. B.2.b. B.2.c. B.2.d. B.3. Processos licitatórios Norma geral – Lei no 8.666, de 1993 Pregão Regime diferenciado de contratações públicas (RDE) Sistema de registro de preços (SRP) Estágios de realização das despesas Empenho Nota de empenho Modalidades de empenho Liquidação Ordem de pagamento Pagamento Alterações no orçamento durante a execução Créditos adicionais Créditos suplementares Créditos especiais Créditos extraordinários Vigência dos créditos adicionais Recursos para a abertura de créditos adicionais Autorização e abertura de créditos adicionais Alterações em outras categorias classificatórias Realização da receita Estágios de realização da receita Lançamento Arrecadação Recolhimento Cobrança da dívida ativa Unidade de caixa ou caixa-único Encerramento do exercício orçamentário e financeiro Regime de apuração da receita e da despesa Restos a pagar Despesas no último ano de mandato Controle e avaliação da execução Introdução Sistemas de controle Controle interno Finalidades Competência e peças de controle interno Ministério da Transparência Fiscalização e Controladoria-Geral da União (CGU) Controle externo Competências Tribunais de contas Tribunais de contas na Constituição federal Tribunal de Contas da União (TCU) Controle social Referências 2.1 4.1 4.2 7.1 7.2 7.3 7.4 7.5 7.6 7.7 7.8 7.9 7.10 7.11 7.12 7.13 7.14 7.15 7.16 8.1 10.1 10.2 11.1 11.2 3.1 3.1 4.1 6.1 7.1 8.1 8.2 11.1 LISTA DE QUADROS Cinco processos orçamentários Estágios da reforma orçamentária Propriedades desejáveis dos Produtos e dos Resultados Orçamento da União: exemplos de órgãos e UOs, Orçamento da União: exemplos de funções e subfunções Classificação funcional: exemplos do orçamento dos EUA e da COFOG PPA da União: exemplo de programa temático e indicadores selecionados Orçamento da União: exemplo de programa temático, ações e produtos Orçamento da União: exemplo de programa de gestão, manutenção e serviços ao Estado, ações e produtos Orçamento da União: exemplo de programa temático, de gestão, manutenção e serviços ao Estado e de operações especiais, ações e subtítulos GFSM 2014: classificação econômica da despesa Principais modalidades de aplicação Vínculos entre categorias econômicos, GNDs e elementos selecionados Identificadores de uso (IU) Identificadores de resultado de resultado primário (RP) Resumo da receita por categorias econômicase por origem e da despesa por categorias econômicas e GNDs Orçamento da União: denominação dos níveis de desdobramento da receita Orçamento da União: exemplo da apresentação da classificação institucional da receita Orçamento da União: exemplos de origens da receita e de fontes de recursos Etapas do processo de elaboração orçamentária e unidades responsáveis Orçamento da União: classificação segundo a natureza, elementos e subelementos selecionados Orçamento da União: classificação institucional, órgãos, unidades orçamentárias e unidades gestores selecionados Controladoria-Geral da União: Macroprocesso de Controle Interno Questões e abordagens de auditoria operacional LISTA DE TABELAS Despesas governamentais em países e anos selecionados em % do PIB LISTA DE FIGURAS Países selecionados: percentuais das despesas governamentais em relação ao PIB Etapas do processo de gestão e medidas de desempenho Componentes principais do sistema orçamentário brasileiro Categorias da classificação por programas e ações e seus vínculos Etapas do processo orçamentário Marcha do processo de elaboração orçamentária: órgãos e eventos principais Dimensões da auditoria operacional Todo o problema social e, de fato, todo o problema econômico é, em última análise, um problema financeiro (Goldscheid, 1967, p. 212). Em todos os ambientes, profissionais ou não, os orçamentos estão entre os instrumentos de organização do trabalho mais utilizados. Qualquer empreendimento, plano, projeto, intenção, desejo, enfim, cuja realização dependa de recursos financeiros, só se aproximará da realidade se estiver bem representado por meio de um orçamento. Este mostrará a sua utilidade em dois momentos: previamente, quando orienta a decisão sobre realizar integralmente, parcialmente ou não o empreendimento e, posteriormente, se realizado, servirá de base para a avaliação dos resultados obtidos. Constituir-se em instrumento de planejamento e de controle e avaliação são, portanto, as principais finalidades dos orçamentos. O orçamento público, tema deste manual, recebe inúmeras definições: lei, ato, plano político, plano econômico, programa de trabalho, referência para o controle e meio de comunicação entre os poderes executivo e legislativo, entre o governo e o povo e entre os agentes do governo. Para atender a todas essas características, o orçamento na administração pública, revestido das formalidades da lei, autoriza as despesas a serem realizadas em determinado período de tempo, geralmente um ano, e indica as fontes de recursos a arrecadar e que financiarão as despesas no mesmo período. O processo constituído pela elaboração, aprovação, execução e controle da lei orçamentária envolve várias características e dimensões técnico-formais e substantivas. Os aspectos financeiros e contábeis são interpretados, em geral, como a parte técnica do orçamento e serão detalhados e analisados na segunda e na terceira parte deste manual. O significado e, em especial, a importância do orçamento são demonstrados com base em quatro naturezas ou dimensões: jurídica, administrativa, econômica e política. Há uma natureza jurídica no orçamento por duas razões principais: assume a forma de lei e tem o caráter de lei formal. Não se trata aqui de um jogo de palavras. Os eventos que formam o processo orçamentário têm amparo em normativos legais de variada hierarquia. Ainda que essas normas não estabeleçam regra jurídica, a forma de lei é necessária para garantir a sua observância. Por outro lado, o orçamento é lei formal por resultar de decisão soberana dos poderes constituídos: governo e representação do povo regularmente eleitos. O Estado moderno, estruturado em grande número de órgãos e unidades, que executam enorme variedade de programas e ações distribuídos em dezenas de áreas de competência, necessita que o orçamento, na forma de lei, seja ao mesmo tempo um efetivo plano de gestão. A lei orçamentária foi a forma idealizada no passado para de maneira legítima autorizar a realização das despesas públicas. Diferentemente do instrumento simples adotado inicialmente para as autorizações, a lei orçamentária moderna será um instrumento efetivo de apoio à gestão se autorizar as despesas organizando-as em programas de trabalho com objetivos claros e metas que funcionem como guias para a execução e para a avaliação. Transformar os orçamentos públicos em planos para a ação é um objetivo que vem sendo perseguido desde o início da década de 1950, por meio da difusão de novos conceitos e metodologias. Em maior ou menor grau, em todo o lugar, esses avanços têm sido considerados e incorporados. O crescimento acelerado dos gastos públicos a partir do final do século XIX e em grande parte do século XX deu ao orçamento um significado econômico antes não conhecido, quando o Estado era menor e lidava com finanças equilibradas (neutras), conforme exigia a teoria econômica clássica. A economia pública moderna alcançou tamanho e importância impensáveis no passado como resultado da urbanização acelerada e do progresso tecnológico aliado a novas competências do Estado na execução de políticas compensatórias, de regulação e de incentivo ao desenvolvimento econômico. Entretanto, o crescimento das despesas públicas não vem sendo acompanhado pela identificação de fontes de recursos adequadas e o resultado tem sido, em todo o lugar, em maior ou menor proporção, o déficit orçamentário e o endividamento público.1 O crescimento das atribuições governamentais garantiu ao orçamento público um significado político não conhecido no passado. “O orçamento é essencialmente um ato político (itálico no original)”. Assim, Jèze (1922) inicia o prefácio da sexta edição de seu famoso Curso de Ciência das Finanças, reclamando, ao mesmo tempo, que importantes autores, seus contemporâneos, não perceberam esse significado. Entende-se o silêncio de Stourm, Leroy-Beaulieu e de outros autores do final do século XIX, porque o significado político do orçamento, assim como o econômico, nasceu e desenvolveu-se com as novas funções assumidas pelo Estado. Cumprir funções e atribuições exige das instâncias decisórias do Estado a formulação de políticas cuja execução, quase sempre, demandará recursos na forma de dispêndios e, em muitos casos, de incentivos e benefícios. Nesses níveis, as escolhas serão políticas, na medida em que algumas necessidades ou demandas serão atendidas e outras não. O processo decisório com reflexos no orçamento é constituído de componentes técnico-legais, mas o componente político será sempre preponderante. Nas palavras de Wildavsky (1974, p. 5), “[e]m seu sentido mais integral, o orçamento está no coração do processo político”. Não poucas vezes, o orçamento estará, também, no centro de crises políticas, como bem demonstram episódios recentes, nos Estados Unidos e no Brasil. Nos períodos de equilíbrio entre os dois grandes partidos na composição das duas casas do Congresso norte-americano e em eventual acirramento de posições ideológicas, a aprovação do orçamento corre riscos. Nos últimos 40 anos, em várias oportunidades ocorreram dificuldades para o cumprimento dos prazos de apreciação e para a aprovação regular do orçamento.2 Recentemente, o processo orçamentário federal sofreu, na expressão de Meyers (2014), uma “implosão”, como resultado da grave crise política produzida por desencontros e desacordos entre o presidente Obama, os seus partidários e os seus adversários nas duas casas do Congresso. Em 2011, a crise foi incentivada pelas resistências da bancada republicana, naquela oportunidade majoritária na Câmara dos Representantes, em autorizar novos valores para a renegociação da dívida federal. A ameaça da ocorrência de inadimplência – default – estevepresente até o dia anterior ao do vencimento de parcela da dívida, quando, então, o novo teto foi aprovado.3 A dívida era apenas a justificativa, enquanto o verdadeiro centro da disputa residia nas diferenças ideológicas entre os dois partidos em temas como carga tributária, gastos sociais, tamanho do Estado etc., além das resistências ao plano de saúde aprovado pelo presidente Obama. Dois anos após, mais uma vez o teto da dívida e, também, a aprovação do orçamento foram os pivôs de nova crise. A não aprovação do orçamento no final de setembro fez com que o ano fiscal iniciasse em 1o de outubro de 2013 sem que despesas rotineiras pudessem ser realizadas, provocando a suspensão de atividades e a colocação de muitos servidores em disponibilidade. Tecnicamente, o governo federal entrou em shutdown, uma paralisação das atividades em razão da ausência de autorização legal para a realização de despesas. O governo e seus apoiadores democratas culpavam os republicanos por sua intransigência e, estes, respondiam aprovando resoluções com a apropriação pontual de recursos para o funcionamento de alguns serviços. Amplamente desaprovado pela população, o shutdown foi encerrado após dezesseis dias e estendido o limite do endividamento até o mês de fevereiro do ano seguinte.4 No Brasil, diferentemente das razões que levaram à renúncia e ao afastamento definitivo do presidente Collor, em 1992, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, formalizado em 2016, fundamentou-se no descumprimento de normas de execução do orçamento. O processo de impedimento começou com a aprovação pela Câmara dos Deputados da admissibilidade do pedido apresentado por três juristas com acusações que configurariam a ocorrência de crime de responsabilidade por parte da presidente. Apontadas, anteriormente, no parecer prévio do Tribunal de Contas da União (TCU), que recomendou ao Congresso Nacional a rejeição das contas do governo relativas ao exercício de 2014, duas imputações foram aceitas pela Câmara: (a) realização por parte do Tesouro Nacional de operações de crédito junto a bancos federais, o que é vedado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF); e (b) abertura de créditos suplementares por meio de decretos não numerados em desacordo com a autorização constante na lei orçamentária daquele exercício. Recebido da Câmara, o parecer pela abertura do processo de impedimento foi aprovado pelo Senado Federal, provocando o afastamento da presidente e a posse interina do vice--presidente. No final de agosto de 2016, o plenário do Senado aprovou a perda do cargo da presidente, encerrando o longo processo. Os episódios norte-americano e brasileiro foram em tudo diferentes, menos em um aspecto: no centro da crise política estavam as diferenças existentes entre as forças partidárias principais que se utilizaram de questões ligadas ao orçamento para firmar posições no palco da disputa. No caso brasileiro, os resultados ruins nas finanças públicas e na economia em 2014 e 2015, provocados por equívocos de política econômica, enfraqueceram sobremaneira a posição do governo no Congresso Nacional, que viu rapidamente diminuir a sua base de sustentação. A grande maioria dos parlamentares, anteriormente governista, para fugir da associação com resultados econômicos tão negativos, mudou de lado e apoiou o impedimento da presidente. De maneira geral, nos estudos descritivos, a elaboração dos orçamentos é considerada a primeira etapa de um processo que compreende, em sequência, a aprovação legislativa, a execução e o controle. A elaboração inicia com o governo orientando as suas unidades na preparação das propostas parciais do orçamento para o ano seguinte; consolidada, a proposta do poder executivo, juntamente com as dos demais poderes, formará o projeto de lei orçamentária que será encaminhado ao poder legislativo para apreciação. Por meio de emendas, especialmente as de despesa, o órgão legislativo contribui na elaboração retirando, incluindo ou aumentado os valores da proposta. Aprovado o projeto, a lei de orçamento será promulgada e comandará a execução financeira do exercício. Mediante a aprovação de leis de créditos adicionais, o orçamento poderá ser retificado durante a execução alterando-se os valores autorizados e incluindo-se novos créditos, sempre com a indicação de fontes de recursos. Concretamente, a elaboração orçamentária não resulta apenas do processo aqui descrito. As principais decisões que afetam o conteúdo do orçamento são tomadas quando da apreciação e aprovação de legislação ordinária que cria ou aumenta a despesa e a que cria, aumenta ou diminui as fontes de recursos, ou seja, as receitas. Salvo as poucas leis que afetam o orçamento e que tenham sido aprovadas com prazo de vigência, a grande maioria delas têm caráter permanente e produzirão efeitos sobre os orçamentos futuros. No Capítulo 5 deste manual, dirigido ao estudo da natureza jurídica do orçamento, ver-se-á que desde o início foi necessário disciplinar a relação entre as leis orçamentárias e as leis permanentes tributárias e de despesa. Ilustra bem essa questão o fundo consolidado, criado na Inglaterra juntamente com os primeiros orçamentos e que reunia receitas e despesas permanentes que, como tal, ficavam dispensadas de sua apreciação anual. As despesas criadas pela legislação ordinária permanente serão sempre de execução obrigatória. Ainda que constar na lei orçamentária seja condição para a realização de qualquer despesa, inclusive as obrigatórias, a inclusão no orçamento e a execução destas poderá ser apenas postergada por algum tempo. De outro lado, as despesas previstas para realização apenas com base na lei orçamentária anual poderão ou não ser executadas, eis que resultam de créditos de caráter autorizativo. O crescimento das autorizações de despesas, não por meio da lei orçamentária, e, preferencialmente, por leis ordinárias, vem produzindo o fenômeno da rigidez do orçamento. Constituída, na maior parte, por despesas de execução obrigatória, a peça orçamentária torna-se rígida ou engessada e, dependendo do volume de encargos a serem obrigatoriamente atendidos, produzirá déficits cada vez mais difíceis de serem absorvidos.5 Não cabe aqui listar exaustivamente as modalidades de normas que criam despesas obrigatórias, mas é possível indicar as principais. Em primeiro lugar, há o conjunto de disposições que disciplinam o relacionamento com o funcionalismo público ativo e inativo e as que estabelecem e mantêm direitos e benefícios nas áreas da seguridade social, em especial, na previdência, saúde e combate à pobreza. Outra forma de a legislação marcar profundamente os orçamentos é mediante a vinculação de parcelas da receita a determinadas finalidades. Enraizada na história do Brasil, essa prática tem inúmeros defensores, já que significa recursos orçamentários permanentemente garantidos, dispensando disputá-los a cada ano quando da elaboração e da aprovação do orçamento. Na área federal brasileira, o nível de vinculações de receita é inédito em face da importância que as contribuições sociais e econômicas assumem no total das receitas. Como se sabe, por sua natureza, a receita de contribuição estará sempre vinculada a alguma finalidade. Sejam impostos ou contribuições, não será difícil defender as vinculações quando estas dizem respeito a áreas prioritárias como educação e saúde. Ocorre que há muitas outras vinculações e é o excesso que provoca distorções sérias. Os fundos especiais constituem outro mecanismo que contribui para a rigidez orçamentária estabelecendo despesas permanentes. A lei que cria o fundo define determinados recursos e os reserva ou compromete para atender a certas finalidades.Como no caso de vinculações entre receita e despesa, fundos especiais constituem, também, uma das preferências dos gestores de áreas setoriais na administração pública; os gestores centrais de orçamento e finanças, ao contrário, são, quase sempre, contrários aos dois mecanismos pela rigidez provocada no orçamento e pela redução na liberdade de dispor dos recursos na elaboração orçamentária. No lado das receitas, desonerações tributárias ou concessão de benefícios e incentivos fiscais são políticas públicas comumente utilizadas pelos governos. É necessário, nos casos em que houver renúncia de receita, que o impacto orçamentário das medidas seja avaliado previamente de maneira a não comprometer a realização das despesas programadas. A alteração na norma tributária que provoca diminuição de receitas tem o mesmo efeito fiscal de uma despesa, daí a importância de se encontrar compensação, seja na forma de novas receitas ou no cancelamento de outras despesas. Há uma importante diferença entre autorizar novas despesas no curso da elaboração e aprovação do orçamento e a de criar futuros encargos por meio de legislação permanente. No primeiro caso, a introdução de novas despesas no orçamento dependerá da existência de recursos para a sua cobertura; considerando que os orçamentos se apresentam equilibrados, o montante global da receita prevista funcionará como uma restrição. Por outro lado, na aprovação de leis ordinárias que criam despesas de execução obrigatória, quase sempre, não se exige a indicação de fonte de recursos compensatória. Criam-se, assim, encargos que serão forçosamente atendidos e, estando descobertos, produzirão os déficits. Superar essa limitação envolve a adoção de norma legal que obrigue a indicação de recursos novos e suficientes sempre que for criada nova despesa de execução mandatória. A mesma exigência caberia nos casos da aprovação de legislação sobre tributos que provoque diminuição da receita orçamentária. São exemplos de normas com esse objetivo o mecanismo do pay-as-you-go, adotado no nível federal norte-americano, e a regra da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) brasileira sobre as despesas obrigatórias de caráter continuado. O objetivo principal do PAYGO norte-americano, como o mecanismo ficou conhecido, é garantir que a nova legislação que altera a receita ou que cria despesa obrigatória não aumente o déficit orçamentário. Para tanto, o órgão de orçamento da presidência elabora, para períodos de cinco e dez anos, demonstrativos computando os efeitos nos orçamentos anuais produzidos pela legislação mencionada. Os dados dos demonstrativos do PAYGO, na forma de débito e crédito, são apresentados após cada sessão legislativa anual; ocorrendo valores em débito, a ordem de sequestro (redução de dotações) será comunicada pelo presidente às casas do Congresso e implementadas imediatamente pelos departamentos e agências.6 A norma brasileira estabelecida pela LRF disciplina duas situações. Na primeira, a criação, expansão ou aperfeiçoamento de ação governamental que acarrete aumento da despesa deverá ser acompanhado de estimativa do impacto orçamentário-financeiro no exercício em que deva entrar em vigor e nos dois subsequentes. O outro foco da LRF dirige-se às leis, medidas provisórias ou atos que criam despesas correntes de caráter continuado, consideradas obrigatórias se previstas para execução por um período superior a dois exercícios; os atos mencionados deverão também estar acompanhados de cálculo dos efeitos orçamentários e financeiros durante o período considerado. Os conteúdos deste livro estão distribuídos em três partes: teoria, sistema e processo. Várias teorias têm o orçamento público como foco ou objeto. Isto, entretanto, não o transforma em uma disciplina autônoma capaz de reunir conhecimentos, premissas consistentes e teorias próprias, reconhecidas e aceitas. É uma área de estudo de interesse para pesquisadores que encontram pontos de conexão entre as suas disciplinas e o orçamento.7 Neste sentido, a primeira parte do manual reúne estudos investigativos, propostas de modelos de organização e funcionamento, doutrinas e teorias voltadas para o orçamento público integrantes de quatro disciplinas: política, economia, administração pública e jurídica. No desenvolvimento dos temas abordados na primeira parte do livro será empregada a classificação dos conhecimentos popularizada pelo pai do famoso economista John Maynard Keynes. Menos conhecido do que o filho, John Neville Keynes (1891, p. 34) propôs definir ciência positiva “como um corpo de conhecimento sistematizado concernente ao que é”. De outro lado, a ciência normativa pode ser definida “como um corpo de conhecimento sistematizado que examina critérios sobre o que deve ser, ou concernente com o ideal que se distingue daquilo que é atual”. Ainda segundo o autor, “[o] objeto de uma ciência positiva é a investigação de uniformidades e de uma ciência normativa é a determinação de ideais” (itálicos no original) (p. 35). O orçamento resulta de escolhas, o que lhe garante a natureza política, tema do Capítulo 2. As instâncias do Estado lidam com reinvindicações de toda a ordem e decidem alocando os recursos (Schick, 1988). As decisões orçamentárias são inúmeras e tomadas em uma variedade de níveis hierárquicos, contemplando juízos de fato e de valor (Simon, 1965). Quanto maior o número de elementos a serem considerados na decisão e quanto menos elementos sobre as alternativas forem disponibilizados, maiores serão os juízos de valor aplicados nas escolhas. Nessas situações, está-se no terreno, não da técnica ou de princípios de economia, mas, sim, da filosofia política (Key Jr., 1940). A teoria do orçamento incremental é, provavelmente, a mais influente das teorias que, em qualquer campo, buscam explicar o processo de elaboração e aprovação do orçamento governamental. Proposto na década de 1950 por seu autor, o cientista político Aaron Wildavsky, o incrementalismo orçamentário de alguma maneira tratou de responder as inquietações de outro cientista político que, em 1940, perguntava: “em que bases deve-se aplicar X dólares na atividade A ao invés de aplicá-los na atividade B” e, ao mesmo tempo, reclamava da ausência de teorias que explicassem como de fato os orçamentos são elaborados (Key Jr., 1940). O conteúdo dos orçamentos é fortemente estável, confirmando a máxima: “a base do orçamento do ano próximo é o orçamento deste ano”. A base do orçamento de cada órgão é rígida, compreendendo encargos obrigatórios ou despesas essenciais de funcionamento. O que efetivamente representa diferença na elaboração orçamentária é a possibilidade de incorporação de incrementos, ou seja, de novos recursos eventualmente disponíveis a cada ano. A diferença entre o orçamento de um ano e o do anterior não está na base, que é praticamente a mesma, mas nos eventuais incrementos que, incorporados, aumentarão a base. Ao lado da ampla aceitação, a teoria incremental foi recebida com críticas, na maior parte em razão do caráter descritivo do modelo que não consideraria adequadamente as mudanças nas finanças públicas, como as determinadas por crises fiscais. Em estudo mais recente, Wildavsky situou o modelo incremental, concebido originalmente sobre a experiência do orçamento federal norte-americano, ao lado de outros dois modelos: orçamentos repetitivos e orçamentos baseados nas receitas. Os três modelos, combinados com as variáveis riqueza e pobreza dos países e maior ou menor grau de previsibilidade (certeza), possibilitaram ao autor propor cinco processos orçamentários: (a) em ambientes ricos com alta previsibilidade sobre o comportamento político e das finanças públicas no futuro são elaborados orçamentos incrementais; (b) nos países pobres, mas com comportamentos previsíveis, os orçamentossão elaborados condicionados pelas receitas; (c) nos ambientes onde combinam a falta de recursos e a imprevisibilidade, serão produzidos orçamentos repetitivos. Nos ambientes em que não há carência de recursos, mas incertezas, a instabilidade política, alternadamente, produzirá orçamentos incrementais e repetitivos; além disso, certas combinações de cultura política também produzirão orçamentos repetitivos. Ao final do Capítulo 2, faz-se rápida referência às teorias do Principal-Agente e dos Custos de Transação. Com ampla utilização nos processos de negociação e de decisão em inúmeras áreas, os dois modelos são aplicáveis ao processo orçamentário governamental pelo caráter de contrato que o orçamento assume quando negociado internamente no governo entre as unidades executoras e os órgãos centrais e, de maneira ainda mais representativa, quando o orçamento, visto como plano de trabalho, é aprovado pelo poder legislativo. Nas várias etapas de negociação e de execução do contrato (o orçamento) há custos que influenciam o processo e que moldarão os resultados. Entre os fatores presentes e que geram custos devem ser mencionados: incertezas políticas, comportamentos oportunísticos, distribuição assimétrica de informações, criação de salvaguardas e especificidade de direitos, ou seja, quando ativos envolvidos em uma transação não se sujeitam a transferências ou redistribuição, porque são exclusivos de algumas atividades, por exemplo, a prática comum no Brasil de estabelecer vinculação entre determinadas receitas do orçamento e despesas específicas. Decorrente de escolhas, o orçamento indicará o resultado das decisões alocativas, isto é, a aplicação dos recursos que constituem as fontes de financiamento de um determinado plano orçamentário. O tema do Capítulo 3 é a natureza econômica dos componentes do plano orçamentário, em especial, da despesa. As resistências da escola clássica e do pensamento liberal à atuação do Estado, durante muito tempo, desestimularam a investigação teórica sobre a economia pública até, pelo menos, a metade do século XX. É dessa época a formulação de Richard Musgrave sobre as Funções do Orçamento. O Capítulo 3 inicia com dois temas geralmente presentes em manuais de economia do setor público ou de finanças públicas: o tamanho do Estado, medido pelo volume de seus gastos e as possíveis explicações para o crescimento das despesas. Desde as décadas finais do século XIX, o fenômeno da expansão dos gastos públicos chamou a atenção de investigadores de várias correntes que trataram de encontrar critérios de aferição desse fenômeno e, em especial, das razões determinantes do crescimento das despesas. O modelo normativo de Richard Musgrave busca associar o orçamento ao cumprimento de três objetivos da economia pública: eficiência, equidade e estabilidade. Para tanto, identifica as três funções do orçamento: promover ajustamentos na alocação de recursos; promover ajustamentos na distribuição de renda; e manter a estabilidade econômica. O financiamento do plano orçamentário é o outro lado da questão. A busca de critérios justos de distribuição do gravame tributário entre os contribuintes interessou aos filósofos, sociólogos e economistas do passado, que formularam os dois princípios ainda hoje considerados: (a) sistema tributário é justo e equitativo se o tributo for pago proporcionalmente aos benefícios que os serviços públicos proporcionam a cada contribuinte; e (b) conhecido o montante da receita tributária necessária para o funcionamento do Estado, os contribuintes são convocados a cobri-lo de acordo com a capacidade de pagamento de cada um. As finanças públicas convivem com déficits e endividamentos desde sempre ou, pelo menos, desde que rentistas ou banqueiros aceitaram financiar projetos das Coroas. Entretanto, é na atualidade que o assunto assume maior importância pela persistência dos déficits e pelas elevadas taxas de endividamento dos governos. Na abordagem, selecionou-se as duas posições emblemáticas sobre o tema: da escola clássica e da teoria keynesiana. Ao final do Capítulo 3, chamou-se a atenção para a importância a ser dada aos efeitos que os ciclos econômicos produzem sobre os orçamentos públicos. Em certa época, o tema mereceu tantos cuidados que ensejou recomendações no sentido da elaboração de orçamentos cíclicos, cuja aplicação pioneira em países nórdicos talvez ajude explicar por que, ainda hoje, os problemas fiscais são por lá melhor resolvidos. A natureza gerencial do orçamento é apresentada e comentada no Capítulo 4. Além de ser o veículo que representa as escolhas e a alocação dos recursos, o orçamento deve ser organizado como o plano de trabalho da gestão. No passado, o Estado menor e com poucas funções empregava o orçamento como instrumento de controle; para tanto, a apresentação da despesa na forma de limites financeiros por objeto de gasto – pessoal, material, serviços etc. –, em cada órgão de governo era adequada. No século XX, o crescimento das despesas públicas exigiu a incorporação de práticas administrativas condizentes com a configuração e com a dimensão do novo Estado. O modelo de orçamento até então elaborado não atendia as novas necessidades, devendo ser reformado. No Capítulo 4, traça-se o caminho da reforma orçamentária identificando os estágios principais desenvolvidos nos Estados Unidos na segunda metade do século XX e nos anos iniciais deste século. Nessa trajetória, devem ser destacados os seguintes modelos: Orçamento de desempenho ou Orçamento-programa; Sistema de Planejamento, Programação e Orçamento (PPBS); Orçamento base-zero (OBZ); Novo orçamento de desempenho; e Orçamento por resultados. Havia sentido nessa sucessão de tantas propostas porque cada uma concedia ao orçamento uma ênfase particular: gestão, economia, eficiência, planejamento, avaliação, eficácia, accountability e resultados. Assim, é possível ver-se cada novo modelo implantado, não exatamente como um substituto integral do anterior, mas como um agregador de outros elementos ou ênfases. Os modelos foram sendo abandonados, mas parte de suas recomendações acabaram permanecendo. Parte do Capítulo 4 é dedicada à apresentação de um modelo normativo de orçamento governamental com ênfase dirigida às necessidades da gestão. Os três componentes essenciais do modelo descrito são: a estruturação baseada em programas, a mensuração do desempenho e a mensuração dos custos. Sendo normativo, o modelo faz recomendações que, de maneira geral, representam grandes desafios de implementação, mas que têm origem em propostas da reforma orçamentária. As dificuldades estão presentes nos três componentes do modelo. Adotar uma autêntica estrutura programática significa que cada programa: (a) está associado a executores tendo em vista a responsabilização; (b) é organizado em ações capazes de tornar realidade os objetivos; e (c) tem seus produtos e resultados devidamente acompanhados e mensurados em termos físicos e financeiros. Estágios avançados de implantação do modelo normativo recomenda a incorporação do cálculo de custos e a contabilidade por competência. Sendo o orçamento público um instrumento de tamanho significado, sua formalização deve ser feita por ato de hierarquia superior, no caso, por uma lei, como ocorre em todos os lugares. A natureza jurídica do orçamento é abordada no Capítulo 5. Ao contrário das naturezas política, econômica e administrativa, não é possível aqui pretender-se modelos normativos, porque o direito positivo de cada país estabelecerá suas próprias normas para o orçamento. Entretanto, aceita-se que princípios formulados pela doutrina orçamentária ao longo do tempo sejam aproveitados e acolhidos pela norma positiva em muitos lugares. Em todoo capítulo dá-se grande ênfase às considerações históricas, necessárias, por óbvio, na investigação sobre a origem da lei orçamentária, mas, também, na recuperação de controvérsias caras ao direito orçamentário germânico e latino, como o caso notório da natureza formal/material da lei orçamentária. Um tema acentuado no desenvolvimento do capítulo é o da relação entre as leis ordinárias tributárias ou as que criam despesas e as leis orçamentárias. Por ser útil na caracterização da relação entre as leis do sistema orçamentário brasileiro – plano plurianual (PPA), diretrizes orçamentárias (LDO) e orçamento anual (LOA) −, chama-se a atenção para os conceitos de lei vinculada, reforçada e superordenadora. A ausência de leis orçamentárias ou os atrasos na aprovação são temas tratados no capítulo pelo interesse histórico e doutrinário que apresentam e porque mantém atualidade com o caso brasileiro e, especialmente, norte-americano. Em países europeus – Alemanha e Itália, por exemplo –, a execução provisória do orçamento em decorrência de não devolução do orçamento no prazo tem amparo constitucional, comprovando o caráter excepcional dessa contingência. No Brasil, a eventualidade é formalizada por dispositivo nas leis de diretrizes orçamentárias, o que lhe tira a excepcionalidade e acena com a solução fácil, sempre à disposição. O caso federal norte-americano é mais grave: dificilmente, o Congresso consegue votar as leis de apropriação no prazo, restringindo-se, como solução, a aprovar reiteradas resoluções contínuas – continuous resolutions – como garantia para a não interrupção dos serviços. A segunda parte do livro é dedicada ao sistema orçamentário. Expressão latina de origem grega, sistema significa “união de coisas de maneira organizada”. Todos os atos ou medidas, de caráter permanente ou não, que contribuem para estabelecer a forma ou o conteúdo do orçamento, inclusive ele próprio, formam o sistema orçamentário. Como parte importante do funcionamento da administração pública, o orçamento é produto de normas de variada hierarquia, principalmente, da Constituição, de leis que criam e alteram receitas e despesas, de normas que organizam o sistema e de leis que estabelecem conteúdos do orçamento. Esta parte do livro é constituída por dois capítulos. No Capítulo 6, o objeto de apreciação é o tratamento dado pela Constituição Federal a cada uma das principais leis componentes do sistema − PPA, LDO e LOA − e o Capítulo 7 é dedicado à organização e apresentação da lei orçamentária anual. A Constituição de 1988 trouxe alterações significativas no marco jurídico do orçamento brasileiro, entre elas, as seguintes: (a) a valorização do planejamento de médio prazo e a integração deste com o orçamento; (b) a criação da lei de diretrizes orçamentárias e, por meio dela, o disciplinamento da elaboração e da execução do orçamento anual; e (c) a adoção da unidade e da universalidade orçamentária, ou seja, a reunião de todas as despesas e receitas públicas em uma peça única submetida a um processo único de elaboração, aprovação e execução. Aprovada na década de 1980, a Constituição preconiza o modelo de planejamento, que alcançou notoriedade em décadas anteriores, baseado em planos nacionais e regionais de desenvolvimento econômico e social, entretanto, inviável no século XXI pela incapacidade de investimento do setor estatal. Por outro lado, é positiva a instituição do plano plurianual (PPA), com objetivos e metas da administração pública para médio prazo. Após a experiência com a elaboração e execução de vários PPAs, entraves importantes ainda limitam a efetiva utilidade do plano como indicação de objetivos de médio prazo e orientação para a elaboração orçamentária anual. Os PPAs vêm sendo reféns de uma organização por programas, que exige formas de gerenciamento e execução não conciliáveis com a prática orçamentária tradicional. Superados esses entraves, o PPA poderá constituir-se em útil instrumento de planejamento da gestão, mantendo consonância com os demais planos setoriais e integração com o orçamento anual. Com a criação da lei de diretrizes orçamentárias (LDO), a Constituição Federal qualificou sobremaneira o processo de elaboração e execução do orçamento anual. Em razão da regra que estabelece conteúdo exclusivo para a lei orçamentária, muitos temas que demandam disciplina deixavam de ser tratados. Aprovada antes da finalização da proposta orçamentária, cada LDO anualmente aprovada passou a possibilitar que os poderes executivo e legislativo se ponham de acordo sobre uma série de pontos que naturalmente passarão a ser considerados no projeto e na LOA. A grande capacidade reguladora das LDOs foi reconhecida pelo legislador que aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esta trouxe uma série de novos e importantes conteúdos para a LDO, parte deles ligados à elaboração e outros vinculados à execução da lei orçamentária. A unidade e a universalidade proporcionadas pelo modelo da Constituição representaram avanço em relação às práticas anteriores, que mantinham orçamentos paralelos como o orçamento monetário e a aprovação das receitas e despesas previdenciárias por decreto e a inclusão no orçamento apenas dos valores globais. Apesar desses progressos, parcelas importantes de receitas e despesas fiscais continuam não sendo demonstradas no processo orçamentário comum, particularmente, os subsídios, incentivos, benefícios e desonerações tributárias, bem como os custos de operações realizadas por instituições financeiras oficiais suportados pelo orçamento público. O Capítulo 7 é dedicado à descrição da forma de organização e de apresentação da lei orçamentária anual. Assim como a contabilidade, o orçamento utiliza uma dupla linguagem – contábil e financeira − para demonstrar as estimativas de arrecadação e as autorizações de despesas, previstas e realizadas. Orçamentos que apresentam metas empregarão linguagem com unidades de mensuração física. Afora o texto da lei orçamentária e uma série de demonstrativos que resumem os dados e outros com informações complementares, o corpo do orçamento anual é constituído de classificações padronizadas de contas relativas às despesas e receitas. Contas padronizadas, cada uma com os respectivos valores financeiros, possibilitam consolidar informações e gerar as estatísticas. Com início ao final da década de 1930, a busca por um modelo padronizado de contabilidade e orçamento para todos os entes da Federação foi alcançada com a aprovação da Lei no 4.320, em 1964. Afora inúmeros outros benefícios proporcionados pela padronização, as classificações orçamentárias ensejaram maior precisão nas estatísticas sobre carga tributária e gastos públicos. A classificação funcional da despesa, por exemplo, possibilita o cálculo das aplicações totais do setor público − União, estados, DF e municípios −, em cada uma das funções – educação, saúde, transporte etc. Igualmente, a comprovação de que os percentuais mínimos legais exigidos para aplicação em certas áreas são possíveis com base nas informações padronizadas. O Apêndice 7.1, ao final do Capítulo, traz uma apresentação sobre fundos especiais, mecanismo bastante apreciado pelos gestores públicos porque garante a cada fundo, todos os anos, os recursos previstos na lei instituidora, bem como eventuais superávits. Por ser uma forma precisa de vinculação entre receita e despesa, a proliferação de fundos contribui para aumentar a rigidez do orçamento. A Constituição Federal determina, no art. 165, § 9o, que a lei complementar disporá sobre os conteúdos e prazos das leis do sistema e sobre normas de gestão orçamentária e financeira. Em todo o período de vigência da Constituição, inicialmente na Câmara dos Deputados e, posteriormente, no Senado Federal, foram propostos vários projetosde lei complementar com esse objetivo, sempre por iniciativa de parlamentares. A matéria a ser disciplinada é extraordinariamente ampla, o que, provavelmente, explica as dificuldades de as proposições ultrapassarem os crivos das várias comissões nas duas casas do Congresso Nacional. Esses 30 anos de ausência da lei complementar, possivelmente, possa ser explicado pelo desinteresse do poder executivo em encaminhar o seu projeto ou, então, em apoiar projetos em apreciação. A inoperância é justificada na medida em que o governo federal utiliza as LDOs para disciplinar os assuntos de seu âmbito, além de portarias para atualizar os classificadores de receita e despesa. Na terceira parte do livro são tratadas as questões do processo orçamentário. De origem latina, o termo processo – de procedere – significa avançar, ou seja, pôr em andamento o que está disposto ou definido. De maneira geral, nos textos sobre o tema, o processo orçamentário é constituído pelas quatro tradicionais etapas: elaboração, aprovação, execução e controle. Cada uma das etapas será tratada e analisada em seus aspectos principais nos capítulos finais do livro. Tendo presente o sistema orçamentário ampliado, a elaboração orçamentária, tema do Capítulo 8, deve considerar os vínculos que o orçamento anual deve manter com o PPA e, em especial, com a LDO. Em mais de um dispositivo, a Constitucional Federal estabelece a necessidade dessa compatibilidade. A título de exemplo, na programação de despesas propriamente dita, há a seguinte exigência: “[n]enhum investimento cuja execução ultrapasse um exercício financeiro poderá ser iniciado sem prévia inclusão no plano plurianual, ou sem lei que autorize a inclusão, sob pena de crime de responsabilidade”.8 De parte da LDO são inúmeras as regras que orientarão a elaboração da proposta e da lei orçamentária anual. Entre todas, a mais importante é a que fixa as metas fiscais que deverão ser demonstradas na LOA e cumpridas no exercício de execução. As LDOs federais constituem bons exemplos da utilização dessa lei para orientar a elaboração dos orçamentos anuais. Para ilustrar, no Apêndice 8.1, faz-se um resumo do conteúdo da LDO federal para o exercício de 2018, em que há normas de organização e apresentação do orçamento, proibições, limites para as propostas orçamentárias para os poderes legislativo, judiciário, Ministério Público da União (MPU) e Defensoria Pública da União (DPU), autorizações para despesas de pessoal, sobre a dívida pública, dentre inúmeras outras determinações. As tarefas de elaboração orçamentária são bastante descentralizadas, envolvendo, especialmente no caso das despesas, todos os órgãos, unidades e entidades da administração pública. O poder executivo, oficialmente encarregado da iniciativa da apresentação do projeto de lei orçamentária, por meio de órgãos centrais, orienta a elaboração e a consolidação das propostas. No Capítulo 8, chama-se a atenção para os princípios orçamentários previstos na Constituição Federal e na Lei no 4.320/64, apontam-se os conteúdos da proposta e da lei orçamentária e os prazos de elaboração e de apresentação do projeto de lei ao poder legislativo. Por sua representatividade e capacidade de ilustração, utiliza-se a experiência federal para demonstrar as etapas e o fluxo da elaboração orçamentária. Ao final do capítulo, há rápida menção às regras da LDO sobre o recebimento, por parte do poder executivo, das propostas orçamentárias dos outros poderes para consolidação. A participação direta dos cidadãos em decisões da administração pública vem sendo incentivada nos últimos 40 anos, inclusive por meio da aprovação de normas legais. De todos os processos, o que mais se desenvolveu e mais reconhecimento obteve, inclusive em países do exterior, foi o dos orçamentos participativos municipais. No Apêndice 8.2, após rápida fundamentação da participação, apontam-se alguns exemplos pioneiros de participação na gestão municipal, finalizando com a descrição simplificada do orçamento participativo. A segunda etapa do processo orçamentário, tema do Capítulo 9, compreende a apreciação e a aprovação dos projetos de leis orçamentárias. Em linhas gerais, todo o andamento é similar ao das demais leis: recebido, o projeto de lei é encaminhado à comissão especializada do poder legislativo, onde sofrerá discussão, receberá emendas e gerará parecer posteriormente votado no plenário da casa legislativa. Aprovado, o projeto de lei será encaminhado para a sanção do chefe do poder executivo, que poderá opor veto, que, por sua vez, será mantido ou derrubado pelo poder legislativo. Em países presidencialistas como o Brasil – Estados Unidos é outro bom exemplo −, os parlamentares aproveitam a apreciação do orçamento para um envolvimento mais próximo com a administração e, dessa forma, defenderem os interesses de seus representados. Concretizar essa defesa dá-se por meio da aprovação de emendas de despesa ou alteração da legislação tributária. No Brasil, a longa tradição de aprovação de emendas ao orçamento foi interrompida durante os governos militares, com base nas Constituições de 1967 e 1969, e retomada com a Constituição de 1988. Nos anos iniciais da década de 1990, a Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso Nacional encontrava-se totalmente desaparelhada de regras e critérios para retomar a prerrogativa de apresentação e aprovação de emendas. Em exercícios desse período chegaram a ser apresentadas mais de 60.000 emendas, número inimaginável sob qualquer critério mínimo exigido para apreciação. Muito mais sérias foram as consequências da falta de normas na organização da CMO, na distribuição dos principais cargos de comando e na escolha dos relatores para os projetos de leis orçamentárias. Naquele período, a perpetuação de pequeno grupo na condução dos trabalhos da Comissão ensejou gravíssimos desvios na aplicação de recursos, posteriormente comprovados por uma importante Comissão Parlamentar Mista de Inquérito instalada em 1993. No Capítulo 9, faz-se rápida referência à votação dos projetos de lei do PPA e de diretrizes orçamentárias e descreve-se com mais detalhes as várias etapas da apreciação do projeto da LOA da União. Tema que naturalmente merece destaque na experiência federal é a elaboração do parecer sobre a receita, onde admite--se a possibilidade de reestimativa da arrecadação. Em vários exercícios, o mecanismo de revisão das metas de arrecadação possibilitou identificar fontes de recursos para o atendimento de emendas, sempre insuficientes, se depender apenas do cancelamento de dotações constantes do projeto de lei. O último assunto do Capítulo 9 é dedicado ao mecanismo criado em 2015 que torna de execução obrigatória as emendas parlamentares individuais. Desagradava bastante aos congressistas a prática das administrações federais de liberar para execução as emendas cujos autores mantinham fidelidade à base de sustentação oficial ou que votavam a favor de matérias de interesse do governo. Por meio de emenda constitucional foi aprovada a regra, similar ao mecanismo do rescission, em vigor na execução do orçamento federal norte-americano. As emendas aprovadas de iniciativa de cada parlamentar – deputado ou senador – deverão ser executadas desde que não haja impedimentos de ordem técnica. A própria emenda constitucional estabelece um calendário para troca de informações entre os poderes sobre impedimentos e viabilidade de execução das emendas individuais. A execução orçamentária, terceira etapa do processo orçamentário, é realizada em termos financeiros, ou seja, por meio dos fluxos de arrecadação e de desembolsos. No Capítulo 10, descreve-se os eventos mais característicos da execução orçamentária e financeira, matéria disciplinada em vários diplomas legais. Afora as medidas preparatóriasno sistema contábil e a introdução de detalhamentos nas classificações orçamentárias, o evento mais importante na fase inicial da execução é a programação financeira, organizada pela Lei de Responsabilidade Fiscal na forma de metas bimestrais de arrecadação e de cotas mensais de desembolso. A mesma lei define as condições para a limitação de gastos durante o exercício com o objetivo de garantir o alcance da meta de resultado fiscal. Na gestão pública, os processos licitatórios ocupam posição central por garantirem lisura, competitividade, economicidade e publicidade nas aquisições de bens e serviços, contratações de obras, bem como nas alienações e concessões. Para ilustrar esse tema, são apresentadas as modalidades previstas na Lei no 8.666/93, o pregão, o regime diferenciado de contrações públicas e o sistema de registro de preços. Os estágios de execução da despesa são os definidos na Lei no 4.320/64 que, igualmente, estabelece as principais modalidades de retificação do orçamento durante a execução. Para alterar as classificações de despesas não contempladas na Lei no 4.320/64, o governo federal vem obtendo autorização por meio das LDOs. Dois importantes temas relacionados com a execução do orçamento federal são tratados ao final do capítulo. O princípio da unidade de tesouraria ou de caixa é parte da doutrina tradicional e, em alguns casos, é consagrado na própria legislação, sendo exemplos a Lei no 4.320/64 e o Decreto-Lei no 200/67. Foi difícil tornar realidade esse comando legal em face das práticas tradicionais de descentralização dos recursos financeiros e, também, do manejo de receitas próprias das unidades e dos fundos. Somente com a profunda reforma realizada no Ministério da Fazenda, na década de 1980, e mediante a informatização da contabilidade e a criação da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) foi possível dar os passos necessários para viabilizar a conta-única do Tesouro. O tema que encerra o capítulo não contempla os mesmos resultados positivos. A norma brasileira estabelece que, ao encerrar-se o exercício, são apuradas as receitas arrecadadas e as despesas empenhadas. As despesas empenhadas e não pagas até 31 de dezembro serão inscritas em restos a pagar. Ocorre que muitas despesas, por terem sido empenhadas nos últimos dias do exercício, serão realizadas apenas no decorrer do exercício seguinte. A situação descrita provoca uma grave anomalia por duas razões. Em primeiro lugar, as demonstrações contábeis do final do exercício desrespeitam a competência por considerarem do exercício despesas – empenhadas – que não foram nele realizadas. Em segundo lugar, ocorre um efeito ainda mais grave no exercício seguinte na medida em que o orçamento paralelo representado pelo grande volume de restos a pagar utilizará como fontes de recursos para pagamento as receitas do novo exercício. Dessa forma, as receitas desse novo exercício não serão suficientes para atender as próprias despesas provocando, ao final do exercício, novas inscrições em restos a pagar e assim sucessivamente. A quarta etapa do processo orçamentário trata do controle da execução orçamentária e financeira, assunto do último capítulo. Há grande significado no tema porque, como lembra Allen Schick (1973), “[...] o controle será sempre o primeiro problema de qualquer processo orçamentário”. No Brasil, o marco jurídico contempla três sistemas de controle: interno, externo e social. Os dois primeiros são incialmente qualificados na Lei no 4.320/64 e ampliados em seu alcance na Constituição de 1988. Em vários dispositivos, a Constituição estabelece as condições para a participação dos cidadãos e de suas representações e uma das formas são as atividades de controle social. O Capítulo 11 inicia identificando os antecedentes históricos da função do controle, destacando o pioneirismo dos franceses responsáveis pela criação das primeiras cortes de contas. No longo processo de evolução do controle das finanças públicas é possível identificar três momentos em que ocorreram mudanças de paradigmas. Nas primeiras fases, a menor dimensão do Estado e, consequentemente, do volume de despesas e receitas, possibilitava o exercício de controles prévios realizados, por exemplo, por auditores gerais, na Inglaterra, ou por tribunais de contas, como nos casos da Itália e Bélgica. Com o crescimento da máquina administrativa pública, representada pela explosão dos gastos, as fiscalizações e outras formas de controle, baseadas em verificações de conformidade, isto é, do cumprimento de leis e demais normas disciplinadoras da gestão estatal, impraticáveis antes da realização dos eventos, passaram a ser realizadas a posteriori. A terceira mudança de paradigma do controle é determinada pela modernização dos orçamentos, que se transformam em planos com objetivos, metas e indicadores de desempenho e de resultados. O controle não perde a missão de verificar o respeito à legalidade, mas incorpora novos campos de atuação. Na norma brasileira, a Lei no 4.320/64, no art. 75, III, é clara ao estabelecer que o controle compreenderá “o cumprimento do programa de trabalho expresso em termos monetários e em termos de realização de obras e prestação de serviços”. No caput do art. 70, da Constituição Federal, fica ainda melhor demonstrada a ampliação do alcance do controle: “A fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e indireta, quanto à legalidade, legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e renúncia das receitas, será exercida pelo Congresso Nacional, mediante controle externo, e pelo sistema de controle interno de cada Poder” (não grifado no original). Nas últimas décadas, especialmente no âmbito federal brasileiro, foram realizados avanços importantes no aparelhamento dos mecanismos de controle interno e externo. No primeiro caso, as atividades que se encontravam diluídas entre órgãos subalternos de cada ministério passaram a ser comandadas por uma secretaria ministerial e, por último, por um ministério. O posicionamento da função em nível ministerial, ainda que dividindo as atenções com outras áreas como Ouvidoria-Geral e Corregedoria-Geral, representa o reconhecimento da importância do controle interno. No âmbito do controle externo, a ampliação e a qualificação dos quadros de pessoal técnico vêm possibilitando ao Tribunal de Contas da União (TCU) não só aperfeiçoar as suas atividades tradicionais de julgamento de contas, fiscalização e auxílio ao Congresso Nacional, mas, também, dar crescente ênfase às auditorias operacionais e de desempenho. 1 2 4 5 6 7 3 8 O exercício do controle social depende do conhecimento que os cidadãos possuem sobre o comportamento dos agentes do Estado e sobre a atuação dos órgãos e entidades públicas. Além de destacar a publicidade como princípio, a Constituição determina que lei disciplinará formas de participação do usuário na administração pública, regulando as reclamações sobre os serviços públicos e avaliação periódica da qualidade dos serviços e o acesso a registros administrativos e a informações sobre atos do governo. Para tornar realidade esses objetivos, em 2011, com bastante atraso, foi aprovada a Lei de Acesso à Informação. O enfrentamento do problema fiscal vem exigindo dos países o cumprimento de regras que estabelecem metas anuais de controle do déficit orçamentário e de crescimento da dívida pública. Desde 1997, com a complementação do Tratado de Maastricht, a Comunidade Europeia estabeleceu, em 3% do PIB o limite máximo para o déficit nominal anual e, em 60% do PIB, o limite para a dívida púbica bruta,valores posteriormente flexibilizados em função do crescimento do PIB e da dívida de cada país. Uma análise detalhada das regras fiscais no Brasil e na Europa é encontrada em Gobetti (2014). O orçamento federal norte-americano é formado por 12 leis regulares de apropriação que devem ser aprovadas até 30 de setembro de cada ano, cobrindo o exercício fiscal que inicia em 1o de outubro. Na falta dessas leis regulares, o Congresso vê-se obrigado a aprovar resoluções para que os serviços públicos não se interrompam. Para maiores detalhes, ver a Seção C.4, do Capítulo 5. Ao episódio foi dada tamanha importância que a agência de risco Standard and Poor’s chegou a diminuir o rating de crédito do governo federal. No governo federal norte-americano, o shutdown de 2013 foi o terceiro mais longo da história, depois de 18 dias, em 1978, e de 21 dias do shutdown de 1995-96. No orçamento federal norte-americano de 1965, as despesas obrigatórias correspondiam a 29% do total; nas projeções do orçamento para 2021, esse mesmo percentual alcançaria 72,5%. No orçamento federal brasileiro, o percentual de 90% para as despesas obrigatórias indica um grau de rigidez ainda maior. A expressão pay-as-you-go é muito popular nas operações de compra e venda e significa, grosso modo, “pagar após usar”. A legislação do PAYGO foi inicialmente aprovada em 1990, vigorando até 2002. Nos exercícios seguintes, os déficits recorrentes exigiam enfrentamento e o PAYGO foi retomado após aprovação em 2010. Para avaliar os efeitos de projetos de lei iniciados em cada uma, as duas casas do Congresso norte-americano mantêm normas próprias inspiradas no PAYGO. Em uma investigação sobre a possibilidade de construção de uma teoria orçamentária, Schick (1988, p. 68) encontrou dificuldades e apresenta, entre outras, esta conclusão: “Pode ser mais esclarecedor considerar o orçamento como um subconjunto de outros campos do que um campo propriamente dito. Obtém-se mais com o estudo do orçamento como um processo político do que como um processo separado que sofre influência da política e de outras forças”. Constituição Federal de 1988: art. 167, § 1o. No sentido mais integral, o orçamento reside no coração do processo político (Wildavsky, 1974, p. 5). As leis orçamentárias são elaboradas e aprovadas para um determinado período de tempo, geralmente um ano, e nelas estão estimados os montantes de receita a arrecadar e fixados os tetos de despesas a realizar. Esse conteúdo é resultado de decisões tomadas em diferentes oportunidades. Na mais conhecida, o poder executivo elabora uma proposta de orçamento para o período imediato e a submente à apreciação e aprovação do poder legislativo. Em outras oportunidades, são aprovadas leis ordinárias que provocarão impactos nas receitas ou nas despesas públicas. Nos primeiros orçamentos públicos, a convivência era maior com a legislação que, anualmente, criava e renovava os tributos; mais tarde, com o crescimento do papel do Estado, o orçamento passou a ser crescentemente influenciado por leis ordinárias de despesas. As decisões que impactam o orçamento criam novas, aumentam ou diminuem receitas e despesas de maneira permanente ou para o período de vigência do orçamento. Diferentemente do que ocorre com os orçamentos empresariais em que o montante da receita limita a despesa, nos orçamentos públicos ocorre o contrário: definida a despesa vai-se em busca da receita para a devida cobertura. Quase como regra geral, a receita é insuficiente, o que provoca os déficits e o endividamento. Nas decisões sobre receitas e despesas dá-se maior atenção às últimas, por duas razões principais. São proporcionalmente poucas as fontes importantes de receita e, além disso, elas são estimadas no orçamento. Isso significa que, em qualquer de suas modalidades, a arrecadação efetiva poderá ser maior ou menor do que o montante estimado para o período. As despesas, por seu turno, dependendo do porte do ente público, podem estar representadas em milhares de consignações (dotações), cada uma aprovada com o respectivo teto, que não poderá ser ultrapassado no exercício de execução. Mais ou menos até o início da década de 1940, o orçamento público despertava a atenção da área jurídica e da contabilidade, em particular nos países da Europa do Sul e da América Latina; nos Estados Unidos, provocava o interesse de gestores públicos e de acadêmicos preocupados com o aperfeiçoamento da técnica e do documento orçamentário. Em um muito citado artigo, V. O. Key Jr. (1940, p. 1.138) levantou questões até então ignoradas e formulou a pergunta--chve para a compreensão das finalidades, do alcance e da importância do orçamento nas instituições do Estado. Ao questionar “em que base deve-se decidir aplicar X dólares na atividade A ao invés de alocá-los na atividade B?”, chamou a atenção para a principal questão envolvida na elaboração do orçamento, ou seja, os juízos considerados nas escolhas e, ao mesmo tempo, reclamou da ausência de teorias que respondessem àquela indagação. O dilema proposto por Key Jr. está associado, segundo Schick (1988, p. 63), aos dois elementos constitutivos do orçamento: reivindicação e alocação de recursos. Elaborar orçamentos públicos ou aprovar leis que criem ou aumentem despesas, necessariamente, envolve considerar as reinvindicações ou os pleitos existentes e decidir em quais finalidades alocar os recursos. Ambos os elementos estão presentes quando as despesas crescem, mas igualmente quando diminuem; fazem parte dos complexos processos dos grandes governos, e também dos processos simples dos pequenos entes públicos. Quem reivindica os recursos do orçamento público? “Orçamento, monstro enorme, admirável peixão, em busca dele todos lançam o arpão”.1 Nesta metáfora em versos de Victor Hugo, famoso escritor francês do século XIX, está a resposta. Todos reivindicam. Difícil é encontrar quem não demande por ações públicas e, consequentemente, por recursos geridos pelo Estado. As reivindicações se originam de corporações, grupos, setores econômicos e sociais, entidades representativas e, igualmente, dos próprios poderes do Estado. Nenhum dirigente de poder, de órgão ou de entidade da administração pública está satisfeito com a fatia recebida do orçamento. Todos têm propostas de novos programas ou de expansão das atividades atuais e defendem a obtenção de maior parcela de recursos.2 Característicos na alocação orçamentária, os recursos financeiros sofrem de crucial restrição: serão sempre limitados quando confrontados com as novas demandas e necessidades e, mesmo, em relação às atividades a serem mantidas.3 Reunir desejo e escassez ou havendo maior procura por recursos financeiros do que oferta, a solução parece estar em “leis” da teoria econômica. Se apenas parte dos desejos pode ser atendida, como avaliar e ponderar as reivindicações e assim fazer a melhor escolha? Avaliações econômicas pressupõem o emprego de quantidades, especialmente, medidas relativas que favoreçam comparações entre as alternativas. Para Lewis (1952, p. 42), autor de outro artigo pioneiro, “Em direção a uma teoria orçamentária”, “[u]ma vez que os recursos são escassos em relação às demandas, o teste econômico básico a ser aplicado é o de que o retorno de cada gasto compense seu custo em termos de alternativas sacrificadas. A análise orçamentária, portanto, é basicamente uma comparação dos méritos relativos dos usos alternativos dos recursos”. Reconhecendo a validade de proposições como a do valor relativo, da análise incremental e da eficácia relativa, o autor citado concorda, entretanto, que a fórmula nem sempre é fácil de ser aplicada. Nos níveis em que a análise orçamentária se desenvolve é difícil obter dados estatísticos necessários e fidedignos que possam ser utilizados nas equações. Princípios de mercado voltados parao objetivo do lucro não servem como orientação e disciplina para o setor público; este segue o princípio orçamentário em que os serviços resultam de decisões “[...] tomadas através de processos políticos e administrativos, baseados em objetivos sociais comuns” (Colm, 1955, p. 9), citado por Burkhead (1971, p. 46). A impossibilidade de os princípios econômicos terem ampla aplicação nos processos de decisão orçamentária foi apontada pelo próprio Key Jr. (1940) em seu pioneiro artigo. A doutrina da utilidade marginal, desenvolvida de maneira mais apurada na análise da economia de mercado, tem um toque de irrealidade quando aplicada aos gastos públicos. A melhor utilização de recursos públicos torna-se uma questão de preferência de valores entre fins que não têm um denominador comum. Dessa forma, a questão é um problema de filosofia política (p. 1143). Todas as escolhas orçamentárias serão uma questão de filosofia política? Herbert Simon4 (1965, p. 53-56) ajuda a responder a questão caracterizando os elementos que constituem qualquer decisão. Juízos de valor estão presentes toda a vez que a decisão tem por objetivo as principais finalidades. Juízos de fato fazem parte das escolhas que tratam de implementar aquelas finalidades. São juízos de valor nas decisões conclusões do tipo: é bom, deve ser, é desejável, é preferível etc. Não se prestam a testes de validade: falso ou verdadeiro, certo ou errado. Os juízos de fato, por outro lado, submetem-se aos testes e só serão verdadeiros se confirmados pela realidade e pela experiência. 1. 2. 3. O orçamento público é resultado de um grande número de decisões, parte das quais serão apoiadas em juízos de fato, outras terão, ao mesmo tempo, conteúdos factuais e valorativos e, muitas outras, as mais importantes, estarão assentadas em juízos exclusivamente valorativos. É possível que a linha divisória que separa os elementos de fato e de valor possa ser utilizada no mesmo sentido, entre administração e política. Nas instituições do Estado, as decisões são tomadas no âmbito da administração e da política. Juízos de fato estão presentes em maior número nas decisões na esfera administrativa, enquanto juízos de valor preponderam na esfera política. Uma separação mais efetiva entre esses elementos é recomendada por Simon (1965), mas, considerando que muitos juízos de fato são também necessários nos trabalhos legislativos, a esse setor deverão ser disponibilizadas informações pertinentes. “Isto não deve assumir a forma, todavia, de meras recomendações para ação, mas de informação factual a respeito das consequências objetivas das alternativas com que se defronta o poder legislativo” (p. 69). Escassos os recursos, é fundamental no exercício das escolhas considerar as alternativas. Key Jr. (1940) já chamava a atenção para a questão recomendando “[...] canalizar as decisões para a máquina governamental de forma a estabelecer alternativas em justaposição e forçar a consideração de valores relativos. Esse é o efeito de muitos dos arranjos institucionais existentes; mas a questão é raramente colocada dessa forma, ...” (p. 1142). De maneira geral, as pessoas esperam que as decisões orçamentárias sejam baseadas em princípios e recomendações da economia por acreditar que neles há uma racionalidade não existente quando as escolhas sofrem influências políticas. De acordo com Simon (1965, p. 95), o exercício da racionalidade objetiva pressupõe: (a) o conhecimento das alternativas, antes da tomada de decisão; (b) considerar as consequências que resultarão de cada escolha; e (c) realizar a escolha, de acordo com o sistema de valores, de uma alternativa entre as disponíveis.5 O autor pondera que a racionalidade objetiva não está presente no comportamento real dos tomadores de decisão pelas seguintes razões: O conhecimento pleno e antecipado das consequências de cada opção exigido pela racionalidade é sempre fragmentado. As consequências pertencem ao futuro e, na ausência de experiências que lhes atribuam valores, a imaginação antecipa esses valores de forma imperfeita. A racionalidade pressupõe que será escolhida uma opção entre as alternativas identificadas. No comportamento real, apenas uma parcela pequena de todas as possíveis alternativas é levada em consideração (Simon, 1965, p. 95). Na década de 1960, muitos países desenvolveram esforços de modernização dos sistemas e das práticas orçamentárias, inspirados na experiência norte--americana com a implantação de Orçamentos de desempenho e Orçamentos-programa (PPBS).6 Agências da Organização das Nações Unidas (ONU) encarregaram-se da divulgação dessas técnicas, inclusive junto aos países em desenvolvimento, por meio de ampla divulgação de manuais e da realização de cursos e seminários. Na mesma década, a publicação da primeira edição do livro The Politics of the Budgetary Process, de autoria do cientista político Aaron Wildavsky, produziu grande impacto entre os especialistas e acadêmicos por colocar o orçamento no centro do jogo político, negando-lhe o caráter de neutralidade que técnicas reformistas como o PPBS pareciam sugerir. “No sentido mais integral, o orçamento reside no coração do processo político” (Wildavsky, 1974, p. 5). A obra demonstra que, ao longo do tempo, o processo de elaboração dos orçamentos é estável, ocorrendo pequenas mudanças a cada nova edição, com grande parte de seu conteúdo resultar de decisões prévias. O orçamento incremental, como o modelo passou a ser denominado, recebeu reconhecimento imediato e passou a ter enorme influência em todos os estudos do campo do orçamento público. O método incremental aplicado ao orçamento tem raízes nos argumentos de Simon (1965, p. 128) a propósito dos limites e das possibilidades da racionalidade humana na tomada de decisões organizacionais. Também é herdeiro dos modelos de decisão política de Lindblom (1959) e do incrementalismo disjunto de Braybrooke e Lindblom (1972). O modelo de orçamento incremental está claramente demonstrado já na primeira edição da obra, publicada em 1964. Wildavsky publicou reedições em 1974, 1979 e 1984; a versão de 1988 trouxe um título ligeiramente modificado – The New Politics of the Budgetary Process – alteração necessária segundo o autor em face da maior complexidade assumida pelo orçamento federal norte-americano. “Apesar das massivas mudanças no processo orçamentário, o incrementalismo permaneceu essencialmente inalterado durante o período de trinta anos nas duas publicações” (Swain; Hartley Jr., 2001, p. 12). No modelo de elaboração orçamentária incremental há dois conceitos centrais: base e quinhão justo (fair share). A base representa a maior parte do orçamento e é constituída por gastos incomprimíveis – pessoal, serviço da dívida, custeio dos órgãos e agências etc. –, assim como por despesas de programas, projetos e atividades já iniciados e que não devem ser interrompidos. Sendo a base uma representação dos recursos que cada órgão recebeu no exercício anterior, a expectativa de todos os gestores é a de que ela seja mantida no orçamento seguinte. Nesse sentido, de acordo com Wildavsky e Caiden (2004, p. 46) “[o] principal fator determinante do orçamento deste ano encontra-se no orçamento do ano passado”. Para os órgãos é importante ser contemplado com novos recursos, especialmente para novos projetos e para a expansão de ações, pois isso representará o aumento do tamanho da base e a certeza de contar com esses recursos no futuro; em situações normais, as despesas que formam a base não são submetidas a questionamentos ou avalições sistemáticas, pois são vistas como necessárias para o funcionamento do órgão e para a manutenção das ações nos níveis atuais de atendimento. O quinhão justo, no entendimento de cada gestor responsável, significanão apenas a manutenção da base, mas, também, a expectativa de que seu órgão será contemplado com uma proporção de recursos, como consequência do aumento ou da diminuição da base dos outros órgãos. Ocorrendo crescimento real da receita orçamentária, recursos adicionais estarão disponíveis, alimentando as expectativas e as disputas por parcelas desses fundos. Quando são criados órgãos ou instituídos novos programas, o funcionamento do modelo demandará ajustes em razão da ausência da base. Em épocas de dificuldades maiores, especialmente se ocorrer redução real da receita, a base geral provavelmente deverá diminuir, com a distribuição do ônus entre os órgãos ou entre parte deles. Além dos conceitos-guia base e quinhão justo, o modelo incremental baseia-se em nove características, que, de acordo com o autor, descrevem como se desenvolve o processo político de apreciação e aprovação dos orçamentos governamentais. De forma sumária, as características são apresentadas a seguir (Wildavsky; Caiden, 2004, p. 47-50).7 O orçamento é resultado de consensos. Acordos são sempre buscados, seja com o objetivo de manter ou, então, de aprovar novas políticas ou programas. Sem os acordos entre os poderes executivo e legislativo e entre os membros do poder legislativo, as escolhas serão difíceis. As negociações tendem a ser facilitadas no caso da manutenção de programas, mas é possível que essa pretensão entre no jogo que se estabelece quando há a proposição de novos programas, cuja aprovação é sempre mais difícil. Nem sempre o consenso total sobre políticas é obtido, determinando os conflitos. As discordâncias, entretanto, não podem ser muito grandes, a ponto de prejudicar o andamento de todo o processo de elaboração do orçamento.8 O orçamento é histórico por manter escolhas realizadas ao longo do tempo. Os orçamentos são organizados e apresentados em programas cujos valores estão decompostos em elementos de despesas (line-item): pessoal, materiais, equipamentos, serviços etc Como regra geral, as comissões parlamentares que apreciam a proposta orçamentária deixam de lado a avaliação dos programas e centram a discussão nos valores a serem atribuídos aos elementos de despesa. A apreciação sobre o andamento dos programas, de seus objetivos e resultados é tarefa difícil no meio parlamentar; quando da aprovação dos programas realizaram-se muitas negociações, não sendo recomendável retornar a esses debates. Provoca menos discussão as decisões sobre os novos montantes a serem apropriados aos elementos de despesa, cujos valores provenientes de orçamentos anteriores quase sempre não sofrem questionamentos.9 O orçamento é elaborado de forma fragmentada. Apesar de o presidente norte-americano encaminhar ao Congresso uma proposta orçamentária, não haverá uma lei de orçamento e, sim, 13 leis de apropriação; tem-se, assim, uma primeira indicação dessa fragmentação. Outra, está representada na complexa e demorada tramitação que a proposta orçamentária se submete a cada ano. Afora as análises, que cada uma das casas realizou sobre a resolução conjunta dos valores totais de receita, despesa, déficit e dívida e na conferência realizada em comissão específica para tal, as comissões de apropriação e as 12 subcomissões de apropriação da Câmara e as 12 do Senado analisam as solicitações de recursos das agências e votam a legislação que autoriza os créditos orçamentários, posteriormente submetida à aprovação pelo plenário de cada casa. As subcomissões são especializadas e dão atenção aos aumentos ou reduções em relação ao exercício anterior. Na expressão de Wildavsky e Caiden, elas “[...] lidam com um fragmento de um fragmento”.10 O orçamento é simplificado. A elaboração orçamentária é complexa em todas as suas fases, inclusive na apreciação e aprovação pelo poder legislativo. Nesse âmbito, é difícil aos parlamentares conhecerem em profundidade os grandes projetos, em especial na parte relativa aos seus custos. Neste aspecto, os parlamentares dão atenção aos componentes mais simples com os quais tenham familiaridade, por exemplo, gastos com pessoal, custeios e transações imobiliárias. De resto, optam por acreditar nas informações de administradores e consultores experientes. Conforme Wildavsky e Caiden, “[i]ncapazes de enfrentar problemas mais complexos, os responsáveis pelas decisões podem recuar para os mais simples”.11 O orçamento é resultado, também, de interação social. O processo de apreciação do orçamento anual no Congresso norte- americano é previsto para o período de oito meses: início de fevereiro a 30 de setembro. Nesse longo período, há o envolvimento das comissões e subcomissões de orçamento de cada casa e, também, de comissões temáticas. São comuns as audiências com representantes dos órgãos e agências do governo e de segmentos econômicos e sociais interessados nas importantes questões que envolvem a aprovação do orçamento federal. Nas audiências com autoridades do governo, estas apresentam e enfatizam os méritos de suas propostas e solicitam o apoio dos parlamentares na aprovação dos recursos. Os encontros permitem aos parlamentares questionamentos e apreciações sobre a segurança demonstrada nas justificativas e, mesmo, acordos baseados na confiança que se estabelece.12 O orçamento deve ser “satisfatório”. Todos os participantes do processo orçamentário, no governo ou no poder legislativo, sabem que as solicitações de recursos são sempre maiores do que as possibilidades de atendimento, o que implica reduções. Nesse sentido, não tentam maximizar o orçamento e aceitam torná--lo satisfatório. Soluções ótimas e, em muitos casos, soluções melhores não existem. As palavras de ordem são: “o mínimo necessário”, “evitar problemas”, “evitar o pior”, “acabar bem”. No ano seguinte, com o novo orçamento será possível, progressivamente, avançar na superação das dificuldades.13 O orçamento é tratado como se fosse não programático. As inúmeras decisões e os incontáveis acordos realizados no passado, cujos efeitos se prolongam por vários exercícios, obrigam os responsáveis pelas decisões a realizarem ajustes monetários marginais nos programas. Apesar de as discussões se darem sobre os programas, não há a possibilidade de uma genuína apreciação sobre as necessidades de cada um, a não ser em certos casos. Wilavsky e Caiden reproduzem uma esclarecedora explicação feita por integrante de comissão de apropriação: “Se há acordo, vamos em frente. Se há muita controvérsia, deixamos o item de lado. Após um ou dois dias, podemos ter uma lista com dez itens controversos. Aumentamos e cortamos e martelamos esses itens até chegarmos a um acordo”.14 O orçamento é repetitivo. Na elaboração orçamentária aceita-se que, apenas em poucos casos, os problemas devem ser solucionados de uma vez e para sempre. Sendo o orçamento produto de processo que se repete, um problema pode ser enfrentado repetidas vezes. Assim, a questão não devidamente tratada em um exercício pode ser retomada no seguinte. Como são de difícil resolução, os problemas podem ser vencidos por ações parciais repetitivas até que deixem de afligir ou sejam substituídos por novos problemas. Para Wildavsky e Caiden, “[s]ubstituição do problema, e não solução do problema, descreve melhor o que acontece”.15 O orçamento é elaborado de maneira sequencial. As comissões encarregadas das apropriações, ou seja, a aprovação dos créditos e dotações orçamentárias, não tratam de todos os problemas ao mesmo tempo. Nem mesmo muitos problemas podem ser enfrentados em um mesmo exercício, sendo preferível tratá-los em oportunidades diferentes. Em muitos casos, as decisões em matéria orçamentária têm efeitos permanentes e, na hipótese de questionamentos, as comissões distribuem os temas entre subcomissões especializadas para investigação mais detalhada.Não há prazos para que soluções definitivas sejam encontradas. É possível que decisões tomadas por uma subcomissão sejam contrárias às decisões de outra, empregando-se, nestes casos, a ‘tática do bombeiro’, em que cada problema é enfrentado por vez e no setor em que ocorre. Conforme os autores, “[a]s dificuldades são superadas não tanto pela coordenação ou pelo planejamento central, mas por uma abordagem cibernética que ataca, em sequência, cada manifestação nos diferentes centros de decisão”. Para Wildavsky e Caiden (2004, p. 49), as características do modelo são fundamentais para a compreensão de como são aprovadas as estimativas que formam o orçamento. Concentrando-se a atenção nos incrementos e não no valor relativo de um programa em relação a outro, evitam-se possíveis conflitos. O caráter não programático do orçamento retira-lhe, em parte, o seu significado político, valorizando os aspectos especializados e técnicos. Além disso, simplificar as decisões, distribuindo-as ao longo do tempo, contribui, também, para a diminuição dos riscos de conflitos. Possivelmente, com exceção dos conceitos de base e quinhão justo que parecem ajustar-se, também, aos processos orçamentários de países desenvolvidos, como se verá mais adiante, as características recém--vistas do modelo incremental são tão próprias das peculiaridades do sistema norte-americano que, pelo menos em parte, não se aplicam a outras realidades. Nos países com o sistema parlamentar de governo, em geral, os parlamentos não têm atribuições importantes em matéria orçamentária, especialmente no detalhamento das despesas. Uma experiência radical é encontrada no parlamentarismo inglês, no qual não há o envolvimento da Câmara dos Comuns nas autorizações de despesa.16 Juntamente com os primeiros orçamentos, o nascente direito orçamentário envolveu-se com uma importante questão: a convivência entre a lei orçamentária anual e a legislação ordinária que instituía tributos e criava encargos permanentes. As dúvidas foram esclarecidas ainda no início e em conformidade com o entendimento aceito até hoje, decisões de alcance anual – o conteúdo do orçamento – devem subordinar-se às normas de caráter permanente.17 Resolvida a questão no aspecto jurídico, as implicações financeiras da convivência entre as duas fontes criadoras de despesas – lei ordinária e lei de orçamento – têm enorme significado para os orçamentos modernos. No passado, distinguiam-se as despesas orçamentárias quanto a sua regularidade em ordinárias e extraordinárias. Era uma classificação importante porque orientava definições sobre as receitas: despesas ordinárias dependiam da arrecadação de impostos permanentes, enquanto as extraordinárias seriam atendidas por tributos eventuais, empréstimos etc. Os orçamentos modernos deixaram de apresentar essa classificação formalmente, mas a necessidade obriga a elaboração de estatísticas sobre essas categorias. A nomenclatura mudou porque a regularidade passou a ser mais estrita: as despesas são obrigatórias, no sentido legal, ou então discricionárias.18 Uma das razões que motivou Wildavsky a revisar o livro The Politics of... e a lançar The New Politics of... em 1988 foi o rápido crescimento das despesas obrigatórias, entre elas, os entitlements. Em 1962, em proporção às despesas totais do orçamento federal norte- americano, as discricionárias corresponderam a 67,5% e as obrigatórias mais os juros líquidos a 32,5%. Em 1987, quando Wildavsky preparava The New Politics of..., esses percentuais foram, respectivamente, 44,2 e 55,8%. Tomando-se dados mais atuais, as estimativas para 2022 indicam 23,8% para as despesas discricionárias e 76,2% para as obrigatórias mais juros líquidos, ou seja, no decorrer desses 50 anos alterou-se de forma absoluta o significado de cada uma dessas categorias (OMB, 2017a). Entre as despesas obrigatórias, a atenção de Wildavsky voltou-se especialmente para os entitlements devido ao seu rápido crescimento e representatividade em relação às despesas totais.19 Sem uma expressão equivalente na língua portuguesa, entitlement é assim definido na norma norte-americana: “[o]brigação legal de o governo federal efetuar pagamentos ou prestar ajuda a qualquer pessoa ou estado ou governo legal que atenda aos critérios legais de elegibilidade”. Entre os exemplos, incluem-se os benefícios do seguro social, os programas de saúde para idosos e para a população carente − Medicare e Medicaid −, o seguro-desemprego, compensações aos veteranos, renda suplementar em caso de invalidez e subsídios para programas estaduais de seguros de saúde infantil (OMB, 2017b). Em várias dessas modalidades, o valor total a ser despendido é incerto, pois depende do número de beneficiários elegíveis na norma legal. O volume alcançado e o crescimento acelerado dos entitlements contribuem para alimentar a divisão ideológica existente entre a classe política e também dentro da sociedade norte-americana. Na defesa de valores individualistas, os conservadores rejeitam o Estado transferidor de tantos recursos às pessoas, enquanto os liberais acreditam que a manutenção desses benefícios depende de ajustamentos para que possam ser preservados ao longo do tempo. Para Wildavsky e Caiden (2004, p. 124), há razões legítimas para as políticas dos entitlements que “aumentam a estabilidade e a segurança e fornecem à comunidade uma provisão frente às dificuldades de uma economia de mercado cheia de incertezas”. Por outro lado, o autor acredita que existem, também, boas razões políticas para proteger o governo de adversidades, permitindo que ele limite as demandas por seus recursos. Leis orçamentárias e leis ordinárias que criam despesas obrigatórias convivem em todo o lugar. Não com a concordância intelectual de Wildavsky e Caiden. Para esses autores, orçamento e entitlements são conceitos incompatíveis. Elaborar um orçamento significa escolher, entre objetivos concorrentes, quais os que serão financiados com os recursos disponíveis (sempre limitados), enquanto o entitlement, aprovado a priori, obrigatoriamente sequestra recursos. Nos orçamentos, os entitlements entram por adição – a soma de cada programa é adicionada a outras – e não por subtração, na qual programas são eliminados ou reduzidos ou onde mais para um significa menos para outro (p. 130). Parte significativa das leis que criam despesas obrigatórias têm origem em propostas que consideram necessário enfrentar certos problemas ou a atender determinadas necessidades em caráter permanente. Tanto é assim que, na quase totalidade dos casos, as leis são aprovadas sem o estabelecimento de prazos de vigência. São facilmente reconhecidas as dificuldades de aprovação de qualquer norma que crie benefícios. Será um processo demorado e demandará negociações, convencimentos e acordos. Bem maiores serão as dificuldades para, eventualmente, revogar benefícios. Além dos parlamentares diretamente envolvidos, os próprios beneficiados se mobilizarão para defender a manutenção desses direitos. Alta proporção de despesas obrigatórias provoca reflexos importantes tanto nos superávits como nos déficits orçamentários.20 Medidas de enfrentamento dos déficits tendem a ser pouco efetivas porque as despesas obrigatórias são rígidas e ficam a salvo de reduções ou sequestros.21 Por outro lado, nos períodos em que ocorrem superávits, em pouco tempo eles serão absorvidos pelo crescimento das despesas e, também, pela concessão de benefícios fiscais ou cortes nos impostos. Juntamente com a entusiasmada aceitação, o modelo do orçamento incremental também recebeu críticas. Trata-se de uma teoria normativa ou positiva (empírica)? Para Naomi Caiden (2004, p. xxiii), autora juntamente com Wildavsky da quinta edição de The New Politics of ..., “[...] Aaron foi um passo alémda teoria empírica – o incrementalismo explica como os orçamentos são elaborados – para uma teoria normativa – o incrementalismo é sobre como os orçamentos devem ser elaborados” (itálicos no original). A maior parte das restrições à teoria incremental estão postas sobre a sua parte descritiva (empírica). A relativa estabilidade no jogo político da elaboração orçamentária no período pós-Segunda Guerra Mundial até a década de 1960 foi o cenário para a construção do modelo incremental baseado nas pequenas mudanças que os orçamentos sofrem a cada ano. LeLoup (1983, p. 77), um dos mais reconhecidos críticos da teoria, considera que o principal viés do incrementalismo é exatamente entre estabilidade e mudança. As significativas mudanças sofridas na composição do orçamento federal norte-americano nos últimos 30 anos do século passado e que continuam neste século, especialmente em relação aos entitlements, recomendam o desenvolvimento de alternativas analíticas que garantam, no âmbito da teoria orçamentária, o equilíbrio em relação à estabilidade na elaboração dos orçamentos e aos mecanismos de mudança (LeLoup, 1983, p. 72-77). No prefácio da quinta edição do The New Politics of ..., Kettl (2004, xv) concorda com os autores que a elaboração orçamentária pode ser melhor compreendida a partir de incrementos do quinhão justo sobre a base. Agora: em que montante um aumento se torna incremento? Se todos os aumentos são incrementos, a argumentação é uma redundância. Por outro lado, o que é aumento do quinhão justo? “Se é o aumento que as agências podem ganhar, mais uma vez arrisca ser verdade por definição, pois o que ganharão define o quinhão justo”. Como outros autores, Kettl (2004) chama a atenção para as mudanças que ocorreram desde a publicação da teoria, em 1964. Naquela época, os responsáveis pela elaboração orçamentária decidiam sobre o conteúdo, o tamanho do aumento e sobre quem receberia o aumento. Com o crescimento das despesas obrigatórias, a elaboração passou a cargo de um “piloto automático”, em tudo diferente dos ritos anuais e das manobras descritas por Wildavsky. Com isso, “[a]s normas básicas do processo – decisões anuais, decisões abrangentes sobre o financiamento de todas as atividades federais e a busca do equilíbrio orçamentário – desgastaram-se de maneira significativa” (Kettl, 2004, p. xv). Para Allen Schick (2000, p. 84), a conjuntura econômica é decisiva para o funcionamento incrementalismo aplicado ao orçamento. Os incrementos se constituem quando há crescimento econômico ou por meio do financiamento do déficit. Enquanto a economia estiver crescendo ou o governo estiver disposto a endividar-se, é possível concentrar-se no incremento – que é a medida em que as alocações do próximo ano variam em relação ao ano anterior – e empregar o tempo reexaminando compromissos passados e programas em andamento. Quando nenhuma dessas condições é suficiente para cobrir o custo futuro dos programas existentes, o comportamento incremental pode não ser sustentável (p. 84). Irene Rubin (2000, p. 132) concorda que, algumas vezes e em alguns lugares, os atores que participam do processo orçamentário deixam de lado a pretensão por recursos elevados, aceitando a alocação de pequenos montantes, de maneira idêntica ao que ocorreu no ano anterior, minimizando-se, assim, a competição por meio de consentimentos mútuos, o que é defendido pela teoria do orçamento incremental. Por outro lado, a autora crê que uma das razões que torna esse modelo inaplicável é que as normas que disciplinam a apresentação de pleitos orçamentários e as normas que buscam a equidade na alocação de novos recursos apenas podem funcionar limitando as reivindicações e restringindo as alocações se cada ator do processo souber o que outros atores irão obter. Para a autora, em especial no nível federal, nos anos recentes, a variedade de fontes de recursos, a relativa invisibilidade de alguns desses recursos, os projetos plurianuais, os cortes realizados durante o exercício, as suplementações e outras alterações tornam virtualmente impossível conhecer os resultados do orçamento. Em estudo anterior, Rubin (1988, p. 4) fez severas críticas ao incrementalismo como teoria orçamentária, chamando a atenção para achados empíricos não consistentes com a teoria, nos quais a base não se mantém estável, os legisladores valorizam outras coisas que não o incremento, os orçamentos das agências mudam o tempo todo e, ainda que não permanentemente, ocorrem conflitos nas arenas política e orçamentária. Além disso, o componente normativo da teoria a considera melhor do que as alternativas de reforma orçamentária.22 Para a autora, o incrementalismo, como declaração do que deveria ser, mais do que efetivamente é, não pode ser confirmado ou negado. Ensaio de Swain e Hartley Jr. (2001, p. 19-20) busca responder a indagação: “Incrementalismo: velho, mas bom?”. Além de detalhada pesquisa junto à literatura, apresentando a teoria em seus aspectos analítico, normativo e empírico, os autores avaliam o modelo e sintetizam as críticas, reunindo-as em quatro grupos. Primeiro, a argumentação normativa coloca o incrementalismo em uma posição hostil ao processo decisório racional, ao mesmo tempo em que apoia o processo político pluralista existente. De acordo com alguns intérpretes, o modelo indica que a população está satisfeita com os resultados proporcionados pelo orçamento e não espera mudanças no processo. Para outros, o modelo assume os benefícios do processo sem, contudo, examinar os resultados; essas condições mudam se a população estiver insatisfeita com os resultados e esperar mais do orçamento, ocorrendo, então, a preferência pelas reformas. Segundo, para os críticos, o incrementalismo descreve um período histórico. A visão que geralmente associa o incrementalismo com estáveis aumentos anuais das despesas é negada em virtude do crescimento dos entitlements, dos déficits e de mudanças nos padrões de comportamento no orçamento federal norte-americano. Terceiro, o incrementalismo é incompreensível e confuso, podendo significar diferentes coisas, mas sem estar preso a nenhum sentido particular. “Múltiplos significados, a dualidade entre processo e resultado e a falta de especificação de quanto pode variar um resultado em relação ao seu valor anterior tornam o incrementalismo inaceitavelmente vago” (p. 20). 1. 2. 3. Quarto, há uma variedade de argumentos a propósito de falhas no tratamento empírico em que se baseia a teoria, especialmente em relação à análise, à definição de incremento, à metodologia e aos procedimentos estatísticos. O emprego da análise no nível das agências e não dos programas também tem sido criticado. Em resposta à indagação que fornece o título do ensaio, Swain e Hartley (2001) concluem que o incrementalismo é uma velha teoria orçamentária, mas ainda boa, e apontam as seguintes razões: O incrementalismo é uma teoria superior para descrever o processo político da elaboração orçamentária. Os achados empíricos permitem melhor observar os comportamentos do que outras teorias. Como teoria analítica, o incrementalismo fornece uma estrutura realista que permite pensar o orçamento de forma abstrata e, assim, contribuir para o desenvolvimento de ideias. Como teoria normativa, o incrementalismo parece fornecer uma razoável e plausível perspectiva que se acredita ser pelo menos possivelmente correta. Nas palavras dos autores, o incrementalismo “[...] parece oferecer razoáveis perspectivas em todos os quatro tipos de argumentos. É, em termos gerais, descritivamente preciso, analiticamente lógico, razoável como perspectiva normativa e empiricamente correto. Em nossa opinião, o incrementalismo tende a tornar a observação do orçamento melhor do que qualquer outra teoria” (p. 23). Orçamentos são regularmente elaborados por entes públicos em todos os lugares. O modelo de orçamentoincremental, nos termos propostos por Wildavsky, pode ser estendido de maneira ampla a outros países, constituindo-se em representação adequada dos respectivos processos orçamentários? Em outro estudo, Wildavsky (2002)23 considera que há semelhanças e importantes diferenças entre os processos orçamentários e propõe uma teoria comparativa entre eles. Em qualquer sistema orçamentário, pequeno, médio ou grande, participam dois personagens – atores – centrais: os que gastam e os que arrecadam e guardam os recursos. Os primeiros encarregam-se de cumprir os objetivos governamentais e têm claro que o alcance dos objetivos depende de seu desempenho. Para tanto, tratam de manter os orçamentos conquistados, lutam por maiores recursos e buscam evitar os cortes. Por outro lado, os que arrecadam e guardam os recursos do Tesouro não serão bem avaliados se permitirem o crescimento da inflação ou se, frequentemente, aumentarem os tributos por não conseguirem controlar os gastos. Seu trabalho será cortar ou segurar as despesas dentro dos limites das receitas. Há períodos em que os guardadores falham e outros em que eles têm sucesso. O que poderia explicar isso?, pergunta Wildavsky. “Será as riquezas do país, as incertezas nos seus ambientes ou o uso dos regimes políticos que produzem essas oportunidades?” (p. 14). Outra característica comum a qualquer sistema orçamentário é a complexidade do processo alocativo, da qual nenhum participante fica imune. Independentemente do tamanho do sistema, o número de variáveis envolvidas nas decisões é sempre superior à capacidade do decisor de processá-las adequadamente. No exemplo do autor, autoridades no nível local envolvidas em decisões com 86 variáveis não se comportam de maneira muito diferente do que aquelas que, no nível estadual, manejam com 860 ou daquelas outras que, no nível federal, lidam com 8600 variáveis (p. 15). Em todos os níveis ou lugares, adotam-se estimativas. Para simplificar o trabalho de tomada de decisões, toma--se como referência a base histórica e concentra-se a atenção nos novos incrementos. Incrementos crescentes significam facilidades para os que gastam e dificuldades para os que controlam os recursos nos níveis centrais. Situação oposta inverterá o sinal: alocação de incrementos decrescentes facilitará o trabalho dos responsáveis pelo Tesouro e representará tempos mais duros para os que gastam. Em todos os processos, as práticas são as mesmas: solicitações infladas, cortes lineares nos créditos, aumento dos gastos no final do ano e dificuldades na liberação dos recursos de acordo com as necessidades. A opulência econômica do país parece beneficiar muito os orçamentos públicos. A riqueza pode produzir excedentes de recursos ao Estado, o que favorece a previsibilidade, característica útil na elaboração orçamentária. Pode, mas nem sempre, pois, assim como foi criada, a riqueza pode ser dissipada. Haverá previsibilidade quando as necessidades se mantêm abaixo ou no nível dos recursos disponíveis; se as necessidades estiverem acima das disponibilidades, o resultado será a incerteza, seja em países ricos ou pobres. “Nações ricas e pobres se diferenciam porque a riqueza funciona como um amortecedor que leva tempo para dissipar. Mas, se as despesas crescem mais rapidamente do que as receitas, o resultado é inevitável – a incerteza torna-se endêmica” (p. 15). Há várias diferenças significativas entre os processos orçamentários: tamanho, riqueza, previsibilidade e cultura política. O tamanho constitui-se em uma variável importante não só pelos valores absolutos do orçamento, mas, principalmente, pela quantidade de alternativas envolvidas nas decisões com reflexo na elaboração orçamentária. Em um município, a decisão de gastar um décimo de um por cento – 60 mil dólares – do orçamento anual de 60 milhões de dólares, possivelmente, permite realizar uma parte de um pequeno programa. Em um estado que gasta anualmente 6 bilhões de dólares, o mesmo percentual – 6 milhões – atenderá integralmente um pequeno programa. No nível federal, com gastos anuais de 900 bilhões de dólares, com a fração correspondente – 900 bilhões de dólares – será possível financiar um programa de grande impacto. Nos exemplos indicados, crescem os valores dos orçamentos, mas o que realmente tem significado na elaboração orçamentária é o aumento do número de decisões e das múltiplas alternativas envolvidas. Para Wildavsky (2002). A escala muda de forma significativa a importância prática de tomar decisões por incrementos. Que ninguém se surpreenda, o montante disponível para gastar faz uma grande diferença não apenas em relação a quanto é gasto, mas, também, sobre os mecanismos de realizar a despesa (p. 16). Riqueza e previsibilidade são variáveis que distinguem a forma de elaborar os orçamentos nos países ricos e pobres. A riqueza está relacionada com as grandes diferenças entre as rendas per capita de uns e outros e a previsibilidade aos graus de certeza ou incerteza em relação aos recursos disponíveis versus as demandas por despesas públicas. Nos orçamentos dos países pobres há uma incapacidade de mobilizar os recursos necessários ou porque eles são insuficientes ou porque as despesas crescem em uma velocidade maior ou, ainda, pela dificuldade de controlar os gastos. Nos processos com alto de grau de previsibilidade, há certeza no controle dos fluxos de despesas e de receitas do passado imediato e nas projeções para o futuro. Ocorre o oposto quando o processo é marcado pela incerteza. Orçamentos incrementais resultam da combinação de certeza e disponibilidade de recursos. As decisões do passado condicionam a maior parte das despesas do futuro; os compromissos são mantidos e as escolhas realizadas no presente baseiam-se em pequenos percentuais – incremento – sobre a base existente. O importante no processo não é o incremento e, sim, a base, na qual está representada a aceitação do passado. “Disputas antigas não serão discutidas novamente” (p. 16). As cidades norte-americanas que contam com recursos limitados em decorrência de receitas inelásticas e de exigências de equilíbrio orçamentário acabam sendo orientadas para o controle. Possuem capacidade de manobras estratégicas menor do que as cidades mais ricas e há poucas oportunidades para decisões. Nelas, a elaboração orçamentária é condicionada pela receita. As autoridades conhecem a situação e sabem que não irão muito longe, já que os incrementos, sejam crescentes ou decrescentes, são de fato muito pequenos (p. 16). Nos países ricos, os orçamentos são elaborados em cenários de alta previsibilidade e apresentam incrementos positivos como resultado do crescimento. O aumento dos recursos pode ser destinado a expandir proporcionalmente a maior parte dos programas ou a estabelecer prioridades. Em uma situação oposta, os incrementos nos orçamentos condicionados pela receita são pequenos e deixam pouca margem para prioridades. Nos países pobres, os orçamentos não são incrementais por lhes faltar a estabilidade necessária para a manutenção da base. Em outros países pobres ocorre uma perversa combinação: crônica falta de recursos e imprevisibilidade. Nessa situação, os orçamentos não possuem a estabilidade necessária para guiar as ações públicas em direção ao futuro. Os orçamentos são repetitivos, ou seja, são feitos e refeitos ao longo do exercício porque não há garantia de que a programação do uso dos recursos possa ser realizada. De acordo com Wildavsky (2002), “esses países têm pouco para gastar porque são pobres, e a incerteza não lhes permite gastar sabiamente” (p. 17). Com base nas variáveis riqueza e previsibilidade, Wildavsky (2002) propõe que sejam considerados cinco processos orçamentários, indicados de forma esquemática no Quadro 2.1. Quando o processo orçamentário se desenvolve em ambiente que combina riqueza, ou seja, disponibilidade de recursos e previsibilidade (certeza)elaboram-se orçamentos incrementais. Por outro lado, nos países pobres, caracterizados pela falta de recursos, mas com ambientes e comportamentos previsíveis, os orçamentos são condicionados pelas receitas. Em outros casos, em que a carência de recursos soma-se às incertezas serão produzidos orçamentos repetitivos. Em ambientes marcados pela disponibilidade de recursos (riqueza) e pela imprevisibilidade serão gerados, alternadamente, orçamentos incrementais e repetitivos. Quadro 2.1 Cinco processos orçamentários A previsibilidade e a estabilidade política não são inerentes à condição econômica de um país e de sua economia pública. São os atos governamentais que produzem o ambiente de certeza ou de incerteza. A incerteza e a instabilidade política retiram as condições necessárias para o processo incremental e os orçamentos tornam-se repetitivos. Como evidência dessa realidade, Wildavsky (2002) menciona a sistemática adotada na França, em alguns períodos da Terceira (1870-1940) e da Quarta República (1946-1958), de votar as autorizações orçamentárias na forma de duodécimos em razão da ausência de acordos para aprovar o orçamento. “Assim, na França, dependendo da situação política alternavam--se orçamentos incrementais e repetitivos” (p. 18). Os cinco processos apontados por Wildavsky podem ser interpretados como modelos ‘ideais’ em sentido weberiano. Em dois contínuos, países ricos e pobres seriam colocados nos pontos inicial e final do primeiro e as medidas de previsibilidade (certeza e incerteza), nos pontos inicial e final do segundo contínuo. A utilidade do contínuo está em revelar que nenhum sistema real se coloca nos pontos extremos que são posições ‘ideais’; todos os sistemas encontram--se em posições ao longo do contínuo, uns mais perto do ponto inicial, outros do ponto final e outros em posições intermediárias. Nesse sentido, não haveria orçamento totalmente incremental ou totalmente condicionado pela receita, ou ainda totalmente repetitivo. O processo orçamentário federal brasileiro serve como boa ilustração por se colocar claramente em posições intermediárias. Em primeiro lugar, trata-se de um país de renda média, ou seja, não é rico nem pobre, de acordo com os conceitos utilizados pelo autor. Leis ordinárias que criam despesas tornaram a base extremamente rígida. Nas fases de crescimento econômico, a receita aumenta, o incremento é disputado e a base cresce. A estratégia de elaboração orçamentária, então, parece acompanhar bem de perto o modelo incremental. Ocorre que há problemas de previsibilidade. Apenas as despesas obrigatórias são conhecidas de maneira precisa. As despesas discricionárias (não obrigatórias), entre elas, os investimentos, dependerão do comportamento das receitas, entre elas, das receitas ordinárias, que são conhecidas, e de receitas extraordinárias, parte delas utilizadas com o objetivo mascarar os resultados fiscais. Nas fases de crescimento pequeno ou negativo, durante o exercício faz-se permanentemente a reprogramação da parte discricionária do orçamento por meio de contingenciamentos (cortes) e liberações, configurando a forma tanto de orçamento baseado na receita como repetitivo. No início deste capítulo, chamou-se a atenção para os dois elementos que, de acordo com Allen Schick (1988, p. 63), estão no centro da elaboração orçamentária: as reivindicações ou demandas e as decisões que alocam os recursos. Se parte das reivindicações são atendidas e outras não, Schick pondera que haveria aí duas funções: reivindicar (claiming) e preservar (conserving). De maneira geral, as agências governamentais que gastam (ministérios setoriais, fundações, órgãos dos outros poderes etc.) se comportam como reivindicantes, mas igualmente podem preservar os recursos ao não atender as demandas das unidades subalternas. Os órgãos centrais de orçamento e de finanças têm como principal papel o de preservar os recursos, mas transformam-se em reivindicantes quando propõem ao poder legislativo alterações no orçamento ou na legislação que trata de despesa e de receita. A relação entre os que demandam recursos orçamentários e os que avaliam e decidem pode ser demonstrada em alguns de seus principais aspectos empregando-se o Modelo do Principal-Agente (MPA). Os que reivindicam recursos (claimants) são agentes e os que decidem a alocação (conservers) são os principais. Empregado em inúmeras áreas, entre elas, a economia comportamental e a política, o Modelo, também denominado de Problema do Principal-Agente, é aplicável toda vez que o principal, mediante alguma forma de acordo, contrata e fornece meios à agência para o cumprimento de determinados objetivos. Forrester (2002, p. 123) observa que o processo orçamentário afeta profundamente as relações entre os poderes executivo e legislativo, entre os órgãos e entidades desses poderes, entre atores de diversos níveis da administração pública e entre grupos externos ao Estado que buscam o atendimento de suas demandas. Se o orçamento pode ser interpretado como um contrato entre os que autorizam e os que executam uma programação de trabalho, o Problema do Principal--Agente estará aí representado. Dois elementos são fundamentais no estabelecimento do contrato e no seu cumprimento: a administração e distribuição da informação e a relação hierárquica entre os participantes do processo orçamentário (p. 124). Forrester (2002) propõe analisar os dois elementos a partir do comportamento dos quatro grupos atuantes nas decisões orçamentárias: agências, poder legislativo, poder executivo e redes de interesses. Domínio das agências. Na elaboração orçamentária, as agências, ou seja, as unidades organizacionais que executam o plano de trabalho, têm um relativo domínio sobre o processo por controlarem boa parte das informações relevantes sobre o comportamento das despesas e sobre o desempenho e os resultados. Nessa fase, os órgãos centrais de orçamento e finanças, que representam o chefe do executivo, cumprem o papel de principal e disputam com as agências o controle do fluxo de informações. Dominam as informações sobre as receitas e evitam ficar em inferioridade em relação às agências na parte das despesas.24 Na atuação das agências, é necessário destacar o comportamento da burocracia. Teorias como a da Escolha Pública (Public Choice) demonstram que o burocrata tem objetivos próprios – ganhos salariais, manutenção em cargos importantes, prestígio etc. – e para alcançá- los maximizam o orçamento da agência. Niskanen (1971) argumenta que, em igualdade de condições de demanda e de custos, o produto ofertado pela agência (dominada pelos burocratas) seria maior do que o da empresa privada, porque esta é obrigada a gerar lucros, o que não ocorre com a agência governamental. Nesta, as sobras são empregadas na expansão da produção.25 Domínio do poder executivo. Antes de obterem autorização para despender recursos e executar a programação por meio da lei orçamentária, as agências devem se relacionar com o comando do poder executivo representado pelos órgãos de orçamento e finanças. Nessa fase, o poder executivo se comporta como principal e, mediante a aprovação preliminar dos orçamentos, sinaliza a contratação das agências para o cumprimento de determinados objetivos. O controle do fluxo de informações pelo poder executivo ocorre não apenas na fase preliminar de aprovação do orçamento como plano de trabalho, mas, igualmente, na fase de execução por meio de normas, calendários de liberação dos recursos, programação financeira mensal, contingenciamentos etc. Não ocorrem conflitos em função da clara relação hierárquica entre principal e agência. Domínio do poder legislativo. Na forma de um projeto de lei,a proposta orçamentária elaborada pelo poder executivo, agora transformado em agência, é levada à consideração do principal, papel que passa a ser desempenhado pelo poder legislativo. A quantidade de ações a cargo da administração pública, a variedade de formas de organização e de atuação institucional do Estado, as exigências da política fiscal, entre outros inúmeros aspectos, produzem naturalmente uma assimetria de informações em favor do poder executivo. A esse controle do fluxo e da qualidade das informações, o poder legislativo responde com o poder de controle sobre as autorizações de gastos e sobre a aprovação de normas de funcionamento da administração pública.26 A hierarquia que, historicamente, é reservada aos órgãos legislativos na formulação dos orçamentos, muitas vezes é falha ou não funciona adequadamente em razão da falta de unidade e da dificuldade de obter consenso quanto aos objetivos. Isto decorre do número elevado de representantes eleitos e, também, da variedade de comitês, comissões, relatorias e lideranças que se envolvem nas discussões sobre as matérias orçamentárias. Os parlamentares e as comissões legislativas com-portam-se como reivindicantes quando apresentam emendas ao orçamento e lutam para que elas sejam aprovadas. São pelo menos três os motivos que embasam essas propostas: (a) atendem aos interesses do parlamentar, individualmente ou como integrante de comissão; (b) têm origem nas bases eleitorais do parlamentar; ou, ainda, (c) são demandas de órgãos do poder executivo as quais o parlamentar tem interesse em atender. Não basta, entretanto, aprovar as emendas apropriando no orçamento os recursos necessários. Os fundos devem ser liberados possibilitando a execução da programação prevista. Nesse momento, os 1. 2. 3. parlamentares, inicialmente reivindicantes (agentes), tornam-se principais, dependentes da atuação das agências do poder executivo que serão as executoras das despesas. Inexistindo hierarquia, a relação entre os poderes é disciplinada pela lei. Na formação da lei orçamentária, a norma constitucional dá a última palavra ao poder legislativo por meio da prerrogativa de derrubar vetos opostos pelo chefe do poder executivo. A ocorrência de conflitos se deve à natureza autorizativa que cerca a parte discricionária do orçamento, ou seja, de execução não obrigatória. Responsável pela política fiscal, e não podendo restringir gastos obrigatórios, o poder executivo limita os gastos discricionários, entre eles, investimentos e emendas parlamentares, o que desagrada aos parlamentares.27 Redes de interesses. Uma rede de interesses é constituída, no âmbito da relação entre agentes e principais, quando uma agência, uma comissão legislativa e um terceiro grupo, geralmente beneficiado pelos serviços da agência, agem de forma coordenada com o objetivo de apoiar e defender uma política ou programa. Para que os objetivos da rede sejam alcançados, as informações devem circular livremente entre os envolvidos na elaboração orçamentária e os participantes individuais devem trabalhar com os demais participantes de forma solidária (Forrester, 2002, p. 133). Burocratas e membros do corpo legislativo que integram uma rede podem agir com o objetivo de maximizar os seus interesses. Entretanto, contrariamente ao que ocorre nas situações em que há o domínio da agência, eles trabalham de forma cooperativa com os principais do poder legislativo e com os beneficiários do serviço tendo por objetivo o crescimento (p. 133). As redes de interesses não estão isentas de problemas. Determinados interesses estabelecidos tendem a ganhar se uma agência em especial for encarregada dos serviços ou a perder se outra agência for a escolhida. Além do equívoco na escolha da agência que pode ocorrer, a programação de realização dos serviços proposta pela agência pode não ser a melhor, em especial, se não estiver conectada com o calendário de aprovação do orçamento (p. 134). Forrester (2002) conclui observando que Embora os modelos do Principal-Agente possam ajudar a explicar como se comportam os participantes no processo orçamentário, as explicações serão apenas parciais. Alguns dos comportamentos decorrem de fatores organizacionais e políticos (entre muitos outros). A cultura organizacional e as rotinas pessoalmente defensivas, por exemplo, regulam a capacidade de uma agência de se adaptar e aprender em um ambiente dinâmico e de recursos limitados e, por sua vez, afetam as perspectivas de sucesso das reformas orçamentárias. Um desafio para a pesquisa futura é não apenas continuar explorando diferentes perspectivas sobre o orçamento, mas combiná-las ou integrá-las com as grandes teorias sobre os orçamentos públicos (p. 136). A teoria dos custos de transação (TCT) tem origem em estudos na área de negócios, em especial, voltados às formas de organização das empresas.28 Posteriormente, os conceitos da teoria foram estendidos a outros campos, como economia, política e administração pública. Por várias razões, Bartle e Ma (2001, p. 158) consideram adequada a aplicação da TCT também aos estudos do orçamento e das finanças públicas. Em primeiro lugar, porque os acordos e as negociações em torno do orçamento constituem formas de transação e as políticas orçamentárias convivem com oportunismos, incertezas e assimetria de informação. Em segundo lugar, a TCT tem por foco as instituições e a história, o que condiz perfeitamente com um campo de estudo como a administração pública, igualmente, voltado às instituições. Por último, a TCT aplicada de maneira ampla pode ser útil na organização dos achados sobre o orçamento público, dando-lhe uma estrutura conceitual mais coerente. Apesar de serem evidentes os pontos de contato, Bartle e Ma (2001) consideram pequenos os progressos na aplicação da TCT ao orçamento e às finanças públicas. Patashnik (1996, p. 189) considera o orçamento como um contrato cuja formalização depende de negociação entre as partes envolvidas.29 Há, nesse caso, a possibilidade de análise dos comportamentos dos agentes envolvidos, podendo a TCT ser aplicada com cuidados críticos em razão das características do processo decisório governamental. Enquanto, no setor privado, a TCT considera que os arranjos contratuais perseguem a eficiência, no setor governamental, não há incentivos visando à busca soluções eficientes porque os agentes “... não têm direitos de propriedade sobre os produtos e porque o sentido de eficiência no contexto público é frequentemente pouco claro e politicamente contestado (p. 191). Em face dessas diferenças, Patashnik (1996, p. 191) pede atenção para três pontos: os custos de negociação e execução do ‘contrato’ (o orçamento) moldam o processo orçamentário e, por meio dele, os resultados do orçamento; os atores políticos deliberadamente criam salvaguardas institucionais para aumentar a durabilidade de seus compromissos;30 é improvável que as reformas orçamentárias sejam bem-sucedidas se não levarem em conta tanto o potencial de comportamento político oportunista como a necessidade inerente de transações complexas para as salvaguardas contratuais. Patashnik (1996, p. 192-93) define o comportamento do modelo de custos de transação comparando-o com duas conhecidas teorias orçamentárias: a racionalidade sinótica e o incrementalismo. O orçamento, de acordo com o modelo da racionalidade sinótica ou compreensiva, resulta de decisões que, se cumpridas as metas fiscais, estabelecem os melhores cursos de ação e aprovam uma programação que maximiza a utilidade social. Nesse modelo, os responsáveis pelas decisões são oniscientes e benevolentes, “... conhecem tudo o que vale a pena saber e usam a riqueza do conhecimento para maximizar o bem-estar coletivo”. No coração do modelo está a afirmação de Smithies (1955):“As considerações políticas contam relativamente pouco”. Para os defensores do incrementalismo, a racionalidade sinótica exige tal grau de consenso impossível de ser obtido nos regimes democráticos. Além disso, as limitações cognitivas de quem decide não possibilitam comparações entre os itens do orçamento quanto à contribuição de cada um para o bem-estar social. No incrementalismo, a racionalidade é limitada e busca-se o próprio interesse. As decisões tomadas no passado não são revistas e, assim, a base, que representa a maior parte do orçamento, não sofre escrutínio. Eventuais conflitos restringem-se aos acordos sobre a distribuição dos recursos que a cada ano formam o incremento. 1 2 3 Nos modelos de custos de transação aplicados à economia, assume-se que a racionalidade nas decisões é limitada, como ocorre com o incrementalismo, mas, ao contrário deste, não se acredita que os agentes usem normas justas de procedimento e moderem os seus pleitos. Em vez disso, considera-se que atores oportunistas enganarão os outros jogadores, renegarão seus compromissos e manipularão as regras do jogo, se puderem fugir com ele (Williamson, 1985, citado por Patashnik, 1996, p. 192). As diferenças conceituais entre incrementalismo e teorias dos custos de transação tornam-se evidentes ao se reconhecer que os custos de transação incluem os custos ex ante dos acordos de negociação e os custos ex post da salvaguarda dos acordos através do tempo. Implícita na teoria incremental é a ideia de que os atores vivem por seus acordos e que qualquer problema na execução do orçamento pode ser facilmente corrigido durante o ciclo orçamentário do ano seguinte. Consequentemente, a principal tarefa organizacional dos responsáveis pelo orçamento é reduzir os custos visando à retomada de suas decisões. Em contrapartida, a teoria dos custos de transação sustenta que os atores irão se desfazer da letra e do espírito dos acordos quando for adequado aos seus propósitos e se os contratos de longo prazo forem inevitavelmente incompletos (Patashnik, 1996, p. 192). De acordo com o autor aqui analisado, dois atributos têm implicações importantes na constituição do contrato orçamentário: a incerteza e a especificidade dos ativos (ou direitos). A incerteza política, entre todas, é a mais presente nas definições orçamentárias. Não há garantias de que políticas e programas com grande aceitação ao serem aprovadas mantenham esses apoios no futuro. “Autoridades eleitas são livres para imporem suas escolhas nos contratos orçamentários, mas esses contratos são vulneráveis a modificações ou mesmo anulação se os futuros políticos tiverem interesses políticos opostos” (Patashnik, 1996, p. 194). Antecipando-se a esses riscos, as autoridades eleitas podem propor e implementar salvaguardas blindando as escolhas feitas anteriormente.31 A incerteza também ocorre quando há a distribuição assimétrica das informações. Isso ocorre quando uma parte que participa da formulação do acordo detém informações que a outra ou as outras partes não possuem. Bartle e Ma (2001, p. 173) observam que os [c]ustos das informações são parte importante dos custos de elaborar e executar contratos orçamentários. Esses custos serão afetados pela distribuição de informações entre os atores orçamentários, o que, por sua vez, afetará as suas estratégias. A assimetria de informações pode aumentar o custo da informação para certos atores e, assim, torná-los vulneráveis ao comportamento oportunístico de outros atores. Conforme o modelo de maximização do orçamento formulado por Niskanen (1971, p. 29), no funcionamento do bureau (a agência ou, ainda, a unidade executora do orçamento) há grande disparidade entre as informações disponíveis para o patrocinador (normalmente, o poder legislativo) e para o bureau. Em regra, o domínio de informações sobre a execução de orçamentos anteriores permite ao burocrata conhecer muito mais sobre a formação dos custos e processos de produção de serviços a cargo do bureau do que é disponibilizado aos representantes do patrocinador. A especificidade dos ativos (direitos ou recursos) é o segundo atributo importante na aprovação dos contratos orçamentários e refere-se ao grau em que os ativos envolvidos em uma transação são exclusivos de determinada atividade e não se sujeitam à transferência ou redistribuição. No setor público, um bom exemplo são as transações em que os cidadãos tomam importantes decisões sobre previdência – quanto poupar e quando se aposentar – tendo em vista os benefícios prometidos. A alta especificidade dos recursos faz com que programas de previdência e de seguridade social estejam entre os mais fortes contratos orçamentários e entre os mais protegidos pelas autoridades eleitas (Bartle; Ma, 2001, p. 163). Bartle e Ma (2001, p. 173-74) identificam cinco tipos de especificidades de ativos com peso significativo na elaboração orçamentária. Os dois primeiros resultam da irreversibilidade dos investimentos propostos e defendidos por partidos políticos e por grupos de interesses. Nas duas situações, os políticos, no primeiro caso, e lobistas, no segundo, envolver-se-ão nas negociações visando à continuidade das iniciativas até a obtenção dos resultados. Um terceiro tipo está relacionado com os ativos específicos conduzidos por autoridades eleitas do poder executivo interessadas em atender os setores econômicos e os eleitores que lhes dão suporte político. Compromissos de longo prazo, igualmente, podem criar ativos específicos quando bloqueiam a ação do governo que privilegia certos programas e políticas que comprometerão os futuros orçamentos. Por último, os autores introduzem a especificidade organizacional ou programática aplicada ao capital humano. “Se o capital humano dos burocratas é específico da organização, eles estarão mais propensos a defender a missão e o orçamento da sua organização” (p. 174). O modelo de custos de transação, assim como outros, tem por finalidade dar aos pesquisadores instrumentos de análise e interpretação da realidade, seja na perspectiva normativa como positiva. Originária no campo econômico, a TCT aplicada ao orçamento público tem como valor central a eficiência. Tal foco pode ser uma limitação tendo em vista as características da negociação orçamentária marcada pelos riscos, incerteza política, oportunismo, assimetria de informação e especificidade dos recursos. Bartle e Ma (2001, p. 176-78) concluem que o modelo de custos de transação é poderoso e suficientemente amplo nas explicações sobre o comportamento fiscal governamental. Incorporando mais conceitos políticos, a TCT poderá ser produtivamente empregada no estudo de inúmeros processos de gestão financeira, tais como licitações e compras, contratações, terceirização, serviços de manutenção e conservação etc. Igualmente, terá utilidade no estudo de temas orçamentários tradicionais como as normas de elaboração, aprovação e controle do orçamento, reforma orçamentária, contabilização e custos aplicados ao orçamento. Le budget, monstre énorme, admirable poisson à qui de toutes parts on jette l’hameçon. Os versos integram o poema Noces et festins, da coleção Les chants du crépuscule, publicado em 1836. Na bibliografia sobre o orçamento, os versos foram reproduzidos em Stourm (1889, p. 3). Schick (1988, p. 63) lembra que recursos não financeiros e, mesmo, não físicos são também demandados. “Sistemas sociais alocam status, sistemas legais alocam direitos e sistemas políticos alocam poder”. Além das reivindicações, há as atividades que devem ser mantidas ou conservadas. Ao mesmo tempo que demandam por novos recursos, os grupos, órgãos e agências tratam de conservar os já disponibilizados. “Atrás das moedas estão as limitações humanas; a menos que as naçõespossuam uma pedra de alquimista capaz de transformar metais comuns em 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 ouro, os recursos são limitados. Mas os desejos humanos não são” (Wildavsky, 2002, p. 7). Herbert Alexander Simon (1916-2001) foi um economista e cientista social norte-americano, agraciado com o Prêmio Nobel de Economia de 1978, com estudos reconhecidos em comportamento administrativo, teoria das decisões, teoria organizacional e inteligência artificial. O método de decisão racional-objetivo, herdeiro do racionalismo de Max Weber, é conhecido também por outras denominações: racional- compreensivo e racional-dedutivo. As principais características dos modelos de reforma orçamentária estão descritas no Capítulo 4. A sigla PPBS significa Sistema de Planejamento, Programação e Orçamento. A tramitação do orçamento no Congresso norte-americano serviu de base para a formulação das características. Quando for o caso, em nota de rodapé far-se-á referência à experiência do orçamento federal brasileiro. Não são raros os conflitos no Congresso norte-americano dificultando a aprovação das 13 leis que formam o orçamento anual. Na Seção C.4, do Capítulo 5 deste manual, faz-se rápida descrição dos efeitos que os dissensos provocam na apropriação de recursos a cargo das comissões de orçamento do Congresso norte-americano. A interrupção dos serviços não essenciais e a dispensa de servidores podem ocorrer nas situações mais graves até que acordos sejam obtidos. Para Allen Schick (2000, p. 1-7), o orçamento público convive com conflitos, mas também com soluções. Exemplificando, apresenta em detalhes o conflito ocorrido em 1993 quando apenas duas das 13 leis de apropriação foram aprovadas no prazo (30/9). A realização das demais despesas ficou na dependência da aprovação de resoluções permitindo a continuidade dos serviços (continuous resolutions). No Brasil, no nível federal, os governos tradicionalmente contam com uma base de apoio suficientemente grande que evita conflitos de fundo ideológico como os que ocorrem no Congresso norte-americano. A discussão sobre a proposta orçamentária encaminhada pelo poder executivo se dá, não de forma pulverizada nas duas casas do Congresso Nacional, mas de maneira concentrada na Comissão Mista de Orçamento e têm como objetivo apenas a identificação de recursos e sua distribuição no atendimento, principalmente, das emendas individuais e de bancadas estaduais e, de maneira acessória, das emendas de comissões. Como são reconhecidas por todos os participantes as limitações de fontes de recursos para o atendimento das emendas, não ocorrem crises que ponham em risco a aprovação da lei orçamentária. Durante inúmeros exercícios após a aprovação da Constituição de 1988, os orçamentos da União não foram aprovados no prazo regular e, sim, durante o exercício de execução. As razões para tanto foram mais de desorganização dos trabalhos e de cumprimento da agenda na Comissão Mista de Orçamento e menos de conflitos políticos sobre a matéria. Na organização dos orçamentos no Brasil emprega-se uma estrutura por programas, mas essa categoria não tem o mesmo significado gerencial como ocorre nos Estados Unidos. A apropriação dos recursos orçamentários é, igualmente, realizada em grupos de elementos de despesa, dentro de cada unidade orçamentária (órgãos e entidades). No Brasil, os orçamentos são consolidados em uma lei anual. No governo federal, projeto de lei de iniciativa do presidente da República é apreciado por uma comissão mista de deputados e senadores, que aprova parecer votado, ao final do processo, pelo plenário do Congresso Nacional. Na comissão mista, o projeto é desmembrado em 16 áreas temáticas – até 2015 eram dez – com a finalidade de apreciar e aprovar emendas. De acordo com a experiência brasileira, o tratamento às emendas dá-se de maneira fragmentada enquanto a parte restante do orçamento é aprovada em bloco, praticamente sem nenhum escrutínio. A rigidez do orçamento, decorrente das vinculações de receita e das despesas de execução obrigatória – mais 90% das despesas primárias –, pelo menos em parte explica o desinteresse dos parlamentares em avaliar o orçamento como um todo. A simplificação parece ser uma regra comum a todos os orçamentos. A forma de organização, tanto do projeto como da lei orçamentária aprovada, exige alto nível de padronização, o que impede a apresentação de dados e informações necessários para a correta avaliação e decisão. No caso brasileiro, a simplificação é bastante evidente na apresentação de propostas de emendas parlamentares ao projeto de lei, cujo formato padronizado compreende apenas uma sumária justificativa e a indicação do montante de recursos financeiros destinados a formular nova ação ou a acrescer o valor de ação existente no projeto de lei em apreciação. No Brasil, o projeto de lei orçamentária anual da União é apreciado no período compreendido entre 1o de setembro e 22 de dezembro no âmbito de apenas uma comissão especializada. As comissões setoriais permanentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal não participam do processo de apreciação, restringindo-se a apresentar algumas emendas. O prazo exíguo e o trabalho centralizado na comissão impedem que várias audiências possam ser realizadas ao mesmo tempo, perdendose a oportunidade de colocar frente a frente os representantes dos órgãos do poder executivo que demandam recursos e os parlamentares. No caso brasileiro, o que mais se aproxima da característica “social” identificada por Wildavsky no orçamento norte-americano são os encontros, não oficializados no calendário da Comissão de Orçamento, entre parlamentares e representantes de alguns ministérios com o objetivo de divulgar as ações e projetos nos quais prioritariamente deveriam ser apresentadas emendas de despesa. Na preparação da proposta orçamentária da União, após as estimativas para o serviço da dívida e despesas fixas obrigatórias, o governo estabelece limites (tetos) para as despesas de custeio e capital de seus órgãos e unidades orçamentárias, com base na efetiva necessidade e no desempenho histórico de cada entidade. Essa prática impede na origem a criação de expectativas por maiores recursos. Quando há incrementos nas receitas orçamentárias, que, quase sempre, são bastante limitados, os órgãos centrais avaliam solicitações que visam ampliar atendimentos ou a iniciar novos projetos. Mesmo nesses casos, as expectativas provocadas não serão grandes e, sim, realistas, na linha do atendimento “satisfatório”, conforme o argumento de Wildavsky. Na fase legislativa de aprovação do orçamento, não há expectativas em relação às propostas de emendas individuais, as quais observam regras próprias sobre quantidades e valores e, em função disso, são integralmente aprovadas. As emendas de comissão e de bancada estadual são propostas em montantes irreais, sem a menor possibilidade de atendimento. Na apreciação dessas emendas, os relatores sequer consideram os valores solicitados, limitando-se a aprová-las parcialmente em montantes bastante inferiores aos solicitados. A rigidez que caracteriza o orçamento federal e que limita a identificação de recursos que podem ser separados para atender emendas é conhecida por todos e, com isso, não são criadas expectativas falsas. Elaborar e executar os orçamentos públicos estruturados com base em programas significa enfrentar muitos desafios. Isso em todo o lugar. O leitor interessado encontrará no Capítulo 4, Seção C.1, deste livro, as características da estrutura programática como parte de um modelo normativo de orçamento governamental. Atendendo as normas gerais, os orçamentos brasileiros efetivamente trazem uma classificação por programas, mas estes, na maior parte dos casos, estão distantes de se constituírem em efetivos centros de decisão e de organizaçãoe controle do trabalho, com objetivos claros, custos, identificação de responsáveis, cronogramas etc. Nesse sentido, os programas orçamentários funcionam apenas como rótulos de contas, enquanto os recursos são alocados em grupos de despesas por ações dentro de cada uma da unidades orçamentárias. A maior parte dos orçamentos é constituída por ações de manutenção dos órgãos e dos serviços cuja realização se dá de maneira continuada no tempo. Esse grande conjunto terá, obrigatoriamente, caráter repetitivo. O próprio modelo padronizado dos orçamentos favorece a repetição dos conteúdos, ocorrendo correções marginais em decorrência da inflação ou de reajustes determinados por lei. Em face de sua natureza, a realização de investimentos pressupõe um tratamento diverso. A execução das etapas previstas deveria ser tão rápida quanto recomendam as normas técnicas, 16 17 18 19 20 21 24 26 27 28 29 30 31 22 23 25 de maneira que os benefícios do investimento sejam usufruídos o mais cedo possível. A experiência brasileira na execução de obras públicas está longe desse ideal, seja pela necessidade de o governo atender a pleitos regionais, seja pelos mecanismos das emendas parlamentares. É prática, em todos os níveis de governo, iniciar obras em grande número e, ao mesmo tempo, claramente em descompasso com a capacidade financeira de mantê-las em bom ritmo de execução. Em razão dos parcos recursos destinados a cada um, os empreendimentos mantêm-se nos orçamentos por inúmeros exercícios. Ocorreram situações mais graves, em que obras já iniciadas ficavam fora do orçamento, sendo substituídas por novas. Para enfrentar a distorção, as leis de diretrizes orçamentárias (LDOs) da União autorizam a inclusão de ações ou subtítulos novos, no caso, obras, se tiverem sido adequadas e suficientemente contemplados os projetos e os seus subtítulos em andamento. O Brasil é um país presidencialista, como os Estados Unidos, e conta com parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado Federal muito interessados em participar da elaboração orçamentária por meio de emendas. A Constituição de 1988, ao mesmo tempo que devolveu a prerrogativa da propositura de emendas, estabeleceu limitações à atuação do Congresso brasileiro nessa matéria. É bastante provável que, especialmente, os conceitos de base e de mudanças incrementais possam ser aplicados também ao processo orçamentário brasileiro. O mesmo não ocorre quando são comparadas as atribuições dos congressistas dos dois países no processo orçamentário; elas são tão mais amplas no caso norteamericano que, na sua maior parte, as características delineadas no modelo de Wildavsky não possuem correspondência com a atuação do Congresso brasileiro. O leitor interessado neste tema encontrará, na Seção B, do Capítulo 5, deste livro, uma descrição das questões jurídicas que cercaram a criação das primeiras leis orçamentárias. De acordo com as definições adotadas no orçamento federal norte-americano, despesa obrigatória (mandatory spending) significa a despesa controlada por leis que não os atos de apropriação que formam o orçamento, incluindo os gastos com entitlements e com o selo de alimentação. Em outras normas, a despesa obrigatória é denominada despesa direta. A despesa discricionária (discretionary spending) significa os recursos orçamentários, excetuados os que financiam despesas obrigatórias, aprovados por atos de apropriação que formam o orçamento (ver OMB, 2017b). Na estimativa para 2022, dos 76,2% das despesas obrigatórias, 67,1% correspondem aos entitlements (OMB, 2017a). Na próxima década (2017- 2027), as despesas com os entitlements e os juros líquidos aumentarão 84% em dólares nominais e passarão de 69 para 77% de todas as despesas federais (CBO, 2017). De acordo com Schick (2000, p. 9), “[o] aumento dos entitlements está associado ao crescimento de outra importante parte do orçamento – o déficit prolongado. Fenômeno recente, os déficits crônicos têm sido alimentados, em grande parte, por demandas junto ao governo para que sejam pagos entitlements, independentemente das condições financeiras”. De acordo com a norma brasileira, as despesas obrigatórias não sofrem reduções; contingenciamentos (sequestros), apenas nos casos em que as datas de pagamento são flexíveis. Na experiência norte-americana de enfrentamento dos déficits deve ser mencionado o Ato de Controle Emergencial do Déficit e do Equilíbrio Orçamentário, de 1885, (Gramm-Rudman-Hollings Act), que estabeleceu, no período de 1986 a 1991, a possibilidade de redução das despesas com entitlements, excetuados o seguro social, benefícios aos veteranos, auxílios às famílias com crianças dependentes, selos de alimentação, entre outros programas de garantia de renda. Orçamento de desempenho, Sistema de Planejamento, Programação e Orçamento (PPBS), Orçamento base-zero (OBZ) etc. A primeira edição de Budgeting: a comparative theory of budgetary processes é de 1986. A experiência do governo federal brasileiro ilustra o embate entre a unidade executora e o órgão central relativamente às informações. Durante muito tempo, a folha de pagamento do pessoal era confeccionada pelas unidades, restando ao órgão central de finanças transferir mensalmente o valor total da folha. O crescimento permanente dos montantes transferidos e as dificuldades na auditagem dos valores obrigaram o governo a alterar os procedimentos centralizando a confecção da folha de pagamento de todos os servidores em setor do poder executivo. Outro exemplo de busca de controle sobre informações por parte dos órgãos centrais foi a criação da conta única do Tesouro na qual passaram a ser depositados todos os valores arrecadados, não apenas as receitas típicas de Estado, como tributos e contribuições, mas, igualmente, as receitas próprias das entidades descentralizadas, como autarquias, fundações públicas e empresas públicas dependentes. A importância da burocracia para o crescimento do Estado é abordada na Seção C, do Capítulo 3, deste livro. Nos Estados Unidos, entre as várias normas sobre matérias orçamentárias aprovadas no decorrer do século XX, duas trataram de estabelecer com maior precisão as competências da Presidência e do Congresso na aprovação dos orçamentos. A primeira reforma (1921) inaugurou a prática de o presidente encaminhar uma proposta estruturada de orçamento, substituindo a grande quantidade de informações tradicionalmente encaminhadas ao Congresso para servir de base às autorizações. A mudança na regra do jogo possibilitou um longo período de domínio da Presidência na condução do processo. A retomada da ascendência do Congresso nas definições orçamentárias, tradicional desde a Independência até 1921, foi a razão determinante para a aprovação da segunda reforma (1974). Nos Estados Unidos e no Brasil há exemplos de reações do poder legislativo ao exercício discricionário do poder executivo na execução das autorizações orçamentárias. O Congressional Budget and Impoundment Control Act, aprovado em 1974, criou dois mecanismos que obrigam a Presidência a consultar o Congresso: o rescission, nos casos de despesas que, no entendimento da Presidência, não devam ser realizadas, e o deferral, quando é recomendável postergar a realização do gasto. No governo federal brasileiro, quase sempre, a execução das emendas de interesse dos parlamentares dependia dos órgãos centrais de finanças que não liberavam automaticamente os recursos e muitas vezes os submetiam a bloqueios. A Emenda Constitucional no 86, aprovada em 2015, tornou as emendas individuais de execução obrigatória desde que atendidos certos parâmetros. Descrição das novas regras pode ser encontrada neste livro, na Seção D.4 do Capítulo 9. A TCT é herdeira dos estudos pioneiros de Ronald Coase publicados na década de 1930, em especial o artigo The Natureof the Firm, de 1937. Coase inovou ao introduzir a questão dos custos para a empresa quando esta contrata os serviços que necessita no mercado ou quando opta por produzi-los internamente. Trata-se de tema ainda atual tendo em vista as discussões que a terceirização provoca em todo o lugar. De nacionalidade inglesa, Ronald Coase (1910-2013) foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia de 1991. A interpretação do orçamento como um contrato é defendida por Wildavsky (1974, p. 2). “Visto sobre outra ótica, um orçamento pode ser considerado como um contrato. O Congresso e o Presidente prometem fornecer os recursos sob determinadas condições e as agências concordam em utilizá-los em conformidade com os termos acordados. (Quando uma agência repassa os recursos para suas subunidades pode-se dizer que está sendo formalizado um contrato interno)”. No Brasil, salvaguardas institucionais que garantam durabilidade aos compromissos de interesse de atores políticos são criadas por meio da aprovação de leis permanentes. Constituem exemplos, as receitas – impostos e contribuições – vinculadas a determinadas finalidades e os fundos especiais. Na experiência brasileira, conforme observado anteriormente, as vinculações de receitas a determinadas finalidades são exemplos salvaguardas muito utilizados. Mesmo nesses casos, a incerteza política não é totalmente eliminada porque será sempre possível, por meio de disposição legal de mesma hierarquia, neutralizar a salvaguarda ainda que parcialmente. Ficando na experiência brasileira, bom exemplo de neutralização é a Desvinculação de Receitas da União (DRU), mecanismo renovado periodicamente por emenda constitucional que desvincula (torna sem efeito) parte das receitas de impostos e contribuições vinculadas. Formas de economia pública ou coletiva existem desde tempos imemoriais, embora estudos sistematizados sobre o seu funcionamento façam parte da história recente. Qualquer investigação, se recuar bastante no tempo, encontrará estudos sobre uma parte das finanças públicas: a receita, representada por impostos de todo o tipo, contribuições, apropriações, empréstimos etc. Os recursos coletados eram aplicados, mas pouco se sabe sobre a natureza, modalidades e finalidades das despesas. Nas velhas monarquias, os limites da economia pública eram imprecisos porque as finanças pessoais do rei e as do reino não estavam separadas. A maior parte dos recursos tinha como origem o patrimônio da família real e, apenas na falta deste, cobrava-se impostos e taxas ou recorria-se aos empréstimos. O declínio do sistema feudal e o florescimento do mercantilismo sinalizou o crescimento do papel do Estado como defensor dos interesses da classe comercial. Importantes lideranças políticas e economistas influentes defendiam a imposição de tarifas protecionistas à produção interna, medidas de favorecimento às exportações e às empresas nacionais de navegação, assim como forte apoio visando ao crescimento das colônias no exterior.1 Contra essa forma de protagonismo do Estado na economia, rebelaram-se os fisiocratas franceses e, principalmente, os economistas ingleses que, no rastro do surgimento do sistema capitalista no final do século XVIII, criaram a Economia Política, escola de inspiração liberal de enorme influência no pensamento econômico da maior parte do século seguinte. Juntamente com o capitalismo nasceu o Estado Fiscal mantido por tributos pagos pelos cidadãos, rompendo o sistema tributário praticado no regime feudal em que os impostos recaíam, principalmente, sobre os proprietários de terras. O gasto público deveria atender apenas as funções essenciais e estas eram limitadas às poucas situações em que o mecanismo de mercado não atendia às necessidades.2 Frase lapidar de Jean B. Say (1983, p. 420) sintetizava o ideal dos economistas liberais: “[o] melhor de todos os planos financeiros consiste em gastar pouco, e o melhor de todos os impostos é o menor”. Entre os economistas de linhagem clássica da segunda metade do século XIX, destaca-se John Stuart Mill como revisor do pensamento laissez-faire ortodoxo. Admite o predomínio das decisões tomadas no mercado, entretanto reconhece que há importantes atividades que o governo deve assumir nos casos em que o setor privado não pode ou não tem interesse em desempenhar. “O laissez-faire, em suma, deve ser a prática geral: qualquer coisa além disso, a menos que seja exigido para algum grande bem, é certamente um mal” (Mill, 1923, p. 950). Menos preocupada com as questões da despesa pública, a economia clássica preferiu concentrar a atenção nos problemas da tributação e, nesse tema, nos critérios de repartir o gravame dos impostos entre os contribuintes. Os cidadãos devem pagar os impostos na proporção dos benefícios que recebem das ações do governo ou, em lugar desse sistema, de acordo com as suas capacidades. Os dois princípios – benefício e capacidade – não nasceram com a escola clássica, mas dela receberam a doutrina que iria influenciar fortemente as abordagens futuras sobre tributação. A influência dos postulados da economia clássica e do laissez-faire foi muito forte nas sete décadas iniciais do século XIX, perdendo representatividade nos últimos 30 anos. A gravidade dos efeitos da longa depressão inglesa do período entre 1873 e 1886 pôs em dúvida as virtudes do liberalismo e favoreceu o crescimento da intervenção estatal. Na Europa, os partidos socialistas renovaram-se incorporando teses marxistas críticas do papel preponderante do capital. A dinâmica do sistema capitalista tornou conhecido o funcionamento dos ciclos econômicos: o desempenho da economia, muitas vezes exuberante em uma fase, é seguido pela recessão ou, mais gravemente, por períodos de depressão. Nessas situações, políticas e ações governamentais de correção e de prevenção passaram a ser apontadas como indispensáveis. Nos anos finais do século XIX e iniciais do século XX, novas correntes de pensamento econômico surgiram reunidas sob o rótulo de marginalismo e, também, de escola ou economia neoclássica.3 Cânones clássicos foram revisados: o preço das mercadorias ou dos serviços não é determinado pelo custo e pela quantidade ofertada e, sim, pelo desejo e pela quantidade demandada. A aplicação intensiva da matemática favoreceu o desenvolvimento de novos ramos de estudo, como a microeconomia, cujas teorias passaram a explicar as práticas de mercado, o comportamento das empresas e dos consumidores, os processos de produção e de custos e de oferta e demanda, o estabelecimento de preços, entre outros aspectos do funcionamento da economia moderna. Assim como na teoria clássica, no marginalismo continuou a preferência pelos temas sobre tributação, mas a despesa pública começava a ser percebida como um componente da economia que deveria ser melhor conhecido. Se, na escola inglesa, a tributação de acordo com o benefício proporcionado aos cidadãos era postulada como um padrão de justiça, para outras escolas europeias essa regra era uma condição de equilíbrio (Musgrave, 1976, p. 98). Estabelecer a tributação de acordo com os benefícios provocaria a avaliação dos serviços públicos e, consequentemente, as despesas deveriam ser consideradas em qualquer nova teoria de finanças públicas. Se os impostos se fundamentam no financiamento das despesas, estas estarão sempre no centro da questão. Musgrave (1976, p. 98-104) comenta, com detalhes em certos casos, algumas das contribuições em finanças públicas elaboradas por autores italianos de Ciência das Finanças e por integrantes das escolas de Viena e Estocolmo.4 Na variada abordagem daqueles estudos pioneiros, uma das linhas procurava ver nos modelos da escola marginalista que explicam o funcionamento dos mercados e na satisfação dos consumidores aproximações como funcionamento das finanças públicas; nesse sentido, o mecanismo baseado no tributo como preço poderia ser visto como medida de eficiência do processo alocativo. Em outro tema, a questão envolvia preferências individuais em processo de decisão que considerava, principalmente, as necessidades coletivas. Nestas resulta impossível aplicar o princípio da exclusão, na medida em que os serviços públicos beneficiam a todos a quem são oferecidos, sem que o benefício auferido por um contribuinte impeça ou diminua o benefício dos restantes. Em outros estudos, não foram esquecidas as considerações políticas que são centrais nas finanças públicas; nesse contexto, a participação individual do contribuinte é tão pequena que não produzirá efeito significativo na oferta de serviços públicos. Outro estudo conclui que, por não resultar do processo de mercado, o orçamento público deve ser formulado por órgãos do governo que, interessados no equilíbrio político, tratarão de satisfazer as preferências subjetivas dos eleitores. Na esteira dessas contribuições pioneiras, responsáveis por ampliar o campo das finanças públicas, anteriormente circunscrito pelos economistas clássicos à tributação, desenvolveu-se o movimento da economia do bem-estar. Em seu reconhecido manual, Musgrave, (1976) situa a nova escola como parte da abordagem do princípio da capacidade, cuja aprovação provocou divisão na escola clássica e contou com defensores reconhecidos como Say e John S. Mill. Ao movimento da economia do bem-estar estão associados importantes economistas ingleses, entre eles, H. Sidgwick, F. Edgeworth, A. Pigou e H. Dalton. Os dois primeiros, seguindo a velha tradição de estudos na área, centraram as análises na tributação, em especial, nos critérios para repartir os tributos e nos efeitos econômicos determinados pelos diferentes impostos nas atividades econômicas. Pigou e Dalton divulgaram as suas principais contribuições na década de 1920, concedendo neles um destaque às despesas públicas até então inédito em estudos sobre economia. O seguinte princípio certamente ajuda a interpretar o pensamento de Pigou (1960, p. 31) sobre as questões de tributação e bem-estar: Se uma comunidade é literalmente um corpo unitário, sob o comando do governo, as despesas públicas devem ser realizadas em todos os sentidos até o ponto onde a satisfação obtida com a última moeda despendida é igual à satisfação perdida com a última moeda utilizada na manutenção dos serviços governamentais (impostos). Para Galbraith (1989, p. 192), ao afirmar que “[...] o bem-estar econômico (a satisfação total proporcionada pelo sistema) aumentava com a transferência de recursos disponíveis e despendíveis dos ricos para os pobres” quando tais medidas não reduzissem a produção global, Pigou desatava o pensamento econômico da teoria clássica que rejeitava qualquer forma de redistribuição de renda. Galbraith reconhece no argumento de Pigou “[...] um vigoroso ponto de apoio para a redistribuição de renda exigida pelas medidas de bem-estar”. O fundador da “economia do bem-estar” forneceu, assim, argumentos importantes para a defesa dos futuros programas compensatórios como a previdência universal, pensões para a velhice e salário-desemprego (Roll, 1942, p. 450). Entre os autores neoclássicos, Dalton (1970, p. 33) foi provavelmente o primeiro a reclamar duramente dos opositores da economia pública. Para ele, o argumento de Say de que o melhor plano financeiro é gastar pouco e que o melhor tributo será sempre o menor era superficial e primário. Defesas enfáticas de que todo o imposto é um mal ou toda a despesa pública é um bem produziriam juízos equivocados ao esconder o que realmente importa: os efeitos produzidos pela imposição dos tributos e pelos gastos públicos. A despesa pública, em qualquer direção, deve ir apenas até onde o benefício da coletividade (proveniente de mais um pequeno aumento em qualquer direção) chegar para contrabalançar a desvantagem de um pequeno aumento correspondente, na tributação ou nas receitas provenientes de quaisquer outras fontes de renda pública. É isso que nos dá o total ideal, tanto da despesa como da receita (Dalton, 1970, p. 42). Na primeira edição do manual de Dalton, publicada em 1923, não há referência ao tema do equilíbrio orçamentário. Em dois capítulos que passaram a integrar as reedições a partir da década de 1930, o autor enfrenta questões sobre os déficits orçamentários que se tornaram comuns nos países industrializados em consequência dos efeitos da Grande Depressão iniciada com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Especialmente na Inglaterra, conforme a doutrina tradicional, o orçamento equilibrado tinha muitos adeptos e apoios por ser visto como um princípio de finanças e como regra moral. Dalton (1970, p. 255-69) propõe que algumas questões sobre os déficits devem ser sempre consideradas: o período de tempo em que foi produzido, o montante e as receitas e despesas consideradas na apuração do déficit. Em alguns casos, o exercício anual pode ser um período pequeno demais para a aferição de resultados orçamentários. Déficits eventuais e não excessivos não devem significar um grande problema, enquanto déficits muito grandes, mesmo em períodos curtos, passarão má impressão sobre a condução da política fiscal. Além disso, a hipótese do déficit crônico é inaceitável. Para a correta apuração dos resultados, algumas modalidades de receitas e despesas precisam ser desconsideradas, entre elas, o pagamento da dívida, empréstimos destinados à realização de obras públicas e receitas de capital oriundas da alienação de bens de capital. Durante a década de 1930, período em que foram sentidos os graves efeitos que a Grande Depressão provocou especialmente nos países industrializados, os estudos e as propostas do economista inglês John Maynard Keynes tiveram grande influência na identificação de soluções para a crise e para a reorganização da economia mundial ao encerrar-se a Segunda Guerra Mundial. A revolução keynesiana foi assim denominada por comprovar a incapacidade da ortodoxia de enfrentar crise de tamanha dimensão e pelo impacto que a originalidade das novas ideias produziu no pensamento econômico. Entre os pontos centrais da nova teoria, há um de grande interesse para os objetivos deste capítulo. Keynes liberou a política fiscal da obsessão pelo equilíbrio orçamentário, fornecendo sólidos argumentos para a manutenção ou criação de demanda, quando necessário, por meio dos gastos públicos gerados em orçamentos deficitários. A Lei de Say – a oferta cria a sua própria demanda – comprovou-se inaplicável nas recessões e depressões econômicas. Nas fases descendentes dos ciclos econômicos, a diminuição da demanda determina queda na produção, nos salários, nos preços e na receita tributária do governo, provocando o déficit orçamentário. O desequilíbrio na economia provoca o desequilíbrio nas finanças públicas. Com a diminuição da produção e do investimento, as leis de mercado não levarão o sistema econômico ao equilíbrio, pois os poupadores privados tenderão a fugir das incertezas dos negócios optando pela liquidez. Apenas o agente Estado poderá reanimar a demanda agregada a partir do gasto público, mesmo que para tanto se produzam déficits e aumento do endividamento. Dessa forma, o desequilíbrio orçamentário equilibrará a economia. O papel ativo da finança pública não deve ocorrer apenas no enfrentamento de crises econômicas acentuadas; a busca do pleno emprego, o aumento do investimento e a distribuição de renda são temas intimamente relacionados com a teoria geral keynesiana. Particularmente, sobre os investimentos, o autor assim se manifestou: “[c]reio, portanto, que uma socialização algo ampla dos investimentos será o únicomeio de assegurar uma situação aproximada do pleno emprego[...]” (Keynes, 1964, p. 356). Mais adiante, esclarece que o papel do Estado por ele defendido vem em apoio e não em prejuízo da iniciativa individual: Por isso, enquanto o alargamento das funções do governo, que supõe a tarefa de ajustar a propensão a consumir com o incitamento para investir, pareceria a um publicista do século XIX ou a um financista americano contemporâneo uma abominável limitação do individualismo, parece-me ao contrário o único meio praticável de evitar a destruição total das instituições econômicas atuais e como a condição de um proveitoso exercício da iniciativa individual (p. 358). Os efeitos das recomendações de Keynes foram sentidos, também, nos países de economia periférica, às voltas com as dificuldades próprias do estágio de desenvolvimento. No Brasil, em particular, a doutrina do desenvolvimentismo, praticada nas décadas de 1940 a 1970, aproximou-se da teoria keynesiana em vários pontos, em particular, no papel ativo assumido pelo Estado como formulador da política econômica e da estratégia de crescimento e, também, diretamente como investidor por meio de empresas estatais. Mais recentemente, foram de fundamento keynesiano as medidas anticíclicas implementadas no País com o objetivo de neutralizar os efeitos da crise do sistema financeiro central de 2007-2008. O crescimento das atividades estatais nos países industrializados deu-se de maneira acelerada durante um século, com início nos últimos 30 anos do século XIX. A partir de 1970, na maior parte dos casos, o crescimento continuou, mas em ritmo menor, estabi-lizando-se de 1990 em diante. As referências feitas a esses períodos devem ser vistas como aproximações, variando entre os diferentes países. Certamente, não há muitas ou variadas formas de medir o tamanho do Estado; as que forem utilizadas devem proporcionar a padronização da informação e a comparabilidade dos dados entre períodos e entre os países. Convenciona-se que comparar o montante das despesas orçamentárias realizadas ou da carga tributária em dado período com um indicador representativo da economia do país produz uma medida adequada na representação do tamanho do Estado. Indicadores de renda nacional – produto interno bruto (PIB) ou produto nacional bruto (PNB) – são normalmente utilizados nesse sentido. A disposição de estatísticas fidedignas sobre dados financeiros não vai muito além dos anos finais do século XIX, o que certamente explica as dificuldades em precisar o início do fenômeno da expansão das atividades públicas. De qualquer maneira, deve-se ter em conta que, em 1880, o alemão Adolph Wagner divulgava a sua “lei do crescimento incessante das atividades estatais”, como ver-se-á mais adiante.5 Os dados apresentados na Tabela 3.1 cobrem um período de 145 anos e referem-se a dez países industrializados, relacionando as despesas governamentais de cada um com a renda nacional medida pelo PIB. Estão computados os gastos de todos os níveis de governo com a aquisição de bens e serviços, realização de investimentos, pagamento de juros da dívida pública, transferências e subsídios. Os dados de 1870 certamente resultaram de notável esforço de pesquisa histórica. Borcherding (1977, p. 19-20) observa que, no caso dos Estados Unidos, a obtenção de dados financeiros relativos ao século XIX era dificultada pela concentração de competências nos estados e municípios, posteriormente perdidas com a centralização no governo federal. A média de 10,2% para o conjunto dos países em 1870, bastante pequena comparada ao padrão posterior, reflete a concepção do laissez-faire que previa poucas atribuições para o Estado. Enquanto, nos 43 anos que separam 1913 de 1870, houve pequeno aumento no padrão dos gastos públicos, nos sete anos seguintes, após a Primeira Guerra Mundial, ocorreu um dramático crescimento representado, pelo menos em parte, pelos gastos de reconstrução dos países mais envolvidos no conflito. As despesas de preparação para a Segunda Guerra Mundial parecem bem evidenciadas nos dados de 1937 relativos ao Japão, Alemanha e Itália. Em 1960, 15 anos após o encerramento dos combates, os gastos desses países em relação ao PIB foram inferiores aos do ano de 1937. Para todos os países da amostra, os números comprovam o crescimento acelerado no período entre 1870 e 1980, bem demonstrado visualmente nas colunas da Figura 3.1. O salto mais expressivo deu-se no final da série, entre 1960 e 1980. Nesses 20 anos, vários países aumentaram em 10 e 15% a proporção das despesas públicas em relação ao PIB. No caso do Japão e da Suécia, essa proporção praticamente dobrou. No período compreendido entre 1980 e 2015, houveram casos de crescimento, sempre bem menores do que nos períodos anteriores, de estabilidade e, até mesmo, de redução expressiva, como no caso da Suécia. Tanzi e Schuknecht, (2000, p. 100), com base nos dados de 1990, que não diferem muito em relação aos dados atuais, propõem uma tipologia para hierarquizar os governos quanto aos gastos públicos em relação ao PIB: seriam governos “pequenos” os que têm gastos inferiores a 40% do PIB; “médios” entre 40 e 50%; e “grandes” no caso de percentuais superiores a 60. Em estudo sobre as economias em transição do leste europeu, especialmente, dos países do Báltico e da antiga Cortina de Ferro, Gupta et al. (2001, p. 3) consideram que as avaliações sobre o tamanho dos governos desses países é dificultado por, pelo menos, quatro razões: (1) as contas governamentais são apresentadas de maneira incompleta no orçamento e sem a observância de critérios uniformes ao longo do tempo; (2) em geral, não são disponibilizados registros completos dos compromissos assumidos pelas unidades responsáveis pelos gastos; (3) o emprego de transações não financeiras pelo governo com o setor privado, por exemplo, compensações fiscais ou pagamentos em espécie, contribuem para dificultar as análises; e (4) em certos casos, as diversas formas empregadas pelos governos para influenciar o setor privado não são capturadas pelos relatórios estatísticos. Grande parte dessas dificuldades certamente podem ser aplicadas ao caso brasileiro. As mesmas situações e outras específicas da realidade do país explicam os poucos estudos e avaliações sobre o tamanho do Estado brasileiro. Entre eles, é justo mencionar os artigos de Longo (1982) e Von Doellinger (1982). A redução sofrida pela carga tributária bruta e líquida durante a década de 1970, na opinião de Longo (1982, p. 122), evidenciou a tendência à diminuição do setor público tradicional e o aumento do estado-empresário.6 Figura 3.1 Países selecionados: percentuais das despesas governamentais em relação ao PIB. O estudo de Von Doellinger (1982, p. 111) sobre o dispêndio global do governo federal mostra que, enquanto o crescimento do gasto total em relação ao PIB evoluiu de 33,43% em 1979 para 36,97% em 1982, o dispêndio líquido da União, sem considerar os gastos das estatais e do orçamento monetário, passou, nos mesmos anos, de 5,1 para 5,3%. Nesses mesmos anos, o crescimento dos dispêndios das estatais foi de quase 5% do PIB. No estudo de Longo, há uma tentativa de mensurar a participação do governo brasileiro na economia com base em dados de 1980. O autor considerou cinco componentes de participação com os seguintes percentuais em relação ao PIB: (a) setor público tradicional – carga tributária líquida (administração direta e indireta dos três níveis da federação): 12,8%; (b) transferências do setor público tradicional: 9,1%; (c) receita própria de empresas e autarquias: 18,3%; (d) imposto inflacionário: 4,3%; (e) operações de crédito – giro da dívida (administração direta e indireta de dois níveis da federação): 3,0%. Total: 47,5%. A variedade de formasde atuação empregadas pela administração pública continua a desafiar a elaboração de cálculos sobre a dimensão do Estado brasileiro. Deve-se reconhecer os importantes avanços que ocorreram nos anos 1980, alguns consagrados na Constituição de 1988, especialmente, o encerramento da conta-movimento mantida no Banco do Brasil, a extinção do orçamento monetário e a unificação das receitas e despesas nos orçamentos fiscal e da seguridade social. Persistem, entretanto, obscuras as operações do Tesouro com os bancos oficiais, em particular, a cobertura, com recursos captados pela emissão de títulos públicos, de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) oferecidos com taxas de juros abaixo das de mercado. Historicamente, o governo brasileiro tem utilizado como política de apoio a setores econômicos uma grande variedade de benefícios fiscais cujos efeitos são poucos conhecidos pela ausência de acompanhamento sistemático. No caso de medidas que determinam a renúncia de receitas, o efeito fiscal produzido é o mesmo de uma despesa nova, sendo recomendável a introdução de efetiva contabilização dos resultados alcançados, acompanhando práticas desenvolvidas em outros países. O estudo de Gobetti e Orair (2017), elaborado com o objetivo de corrigir os dados estatísticos do governo federal brasileiro prejudicados pela prática sistemática que ficou conhecida por “contabilidade criativa”, recuperou estimativas do resultado primário dos três níveis da Federação para o período de janeiro de 2002 a abril de 2016, concluindo por questionar “... a hipótese de que a deterioração recente do resultado primário tenha sido provocada por um aprofundamento do expansionismo fiscal via gastos”. Para os autores, teriam tido papel relevante na expansão fiscal os subsídios ao setor produtivo por meio de créditos do BNDES e as desonerações tributárias pelo lado das receitas. Por coincidência e infelizmente, essas duas áreas de atuação governamental são negligenciadas nas estatísticas oficiais. Os dados ajustados por Gobetti e Orair mostram, no período de 2002 a 2015, o crescimento da receita bruta dos três níveis de governo, de 40,8% do PIB no primeiro ano para 43,3% em 2008 e redução nos anos seguintes chegando a 40,4% em 2015. A redução da carga se acelerou nos anos finais da série em consequência da política de desonerações tributárias implementadas pelo governo federal. No mesmo período, a despesa primária manteve tendência de crescimento em todos os anos, partindo de 30,2% do PIB em 2002 e alcançando 34,2% em 2015. A diferença entre a receita bruta e a despesa primária em cada exercício corresponde aos déficits e aos juros pagos no refinanciamento da dívida pública. De acordo com Peacock e Wiseman (1967, p. 17), os escritos de economistas do final do século XIX sugeriam que os gastos públicos cresciam na mesma proporção do crescimento da renda per capita.7 O economista alemão Adolf Wagner alterou esse entendimento ao demonstrar estatisticamente que, nos países industrializados, ao contrário, a despesa pública crescia a uma velocidade superior ao crescimento da renda (PIB).8 Três tipos de atividades estatais seriam as principais responsáveis pelas evidências que sustentavam a Lei de Wagner: (a) a manutenção e a execução das leis e da ordem interna e externa, garantindo, assim, as precondições sociais necessárias para os mercados cumprirem suas funções; (b) a participação na produção de bens; e (c) a provisão de serviços econômicos e sociais como comunicação, educação e serviços financeiros (Peacock; Wiseman, 1967, p. 18). Apesar do reconhecimento obtido pela Lei de Wagner, na opinião de Tanzi e Schuknecht (2000, p. 15), ela falha ao não explicar por que as despesas públicas praticamente não cresceram entre 1870 e 1913; conforme os dados da Tabela 3.1, elas corresponderam a 10,2% do PIB em 1870 e a apenas 13,1%, em 1913, mais de 40 anos depois. Peacock e Wiseman (1967) apontaram dois sérios defeitos no argumento de Wagner. Primeiro, o autor alemão adotava uma teoria orgânica do Estado, que a rigor não seria superior a outras explicações sobre o caráter do Estado ou, então, aplicável a diferentes sociedades. Segundo, o interesse de Wagner era um padrão secular de despesas públicas, desconsiderando outros aspectos significativos no desenvolvimento das despesas, como, por exemplo, o padrão no tempo do crescimento dos gastos (p. 17). A conhecida pesquisa conduzida por Peacock e Wiseman (1967) sobre o crescimento dos gastos públicos no Reino Unido forneceu adequado contraponto ao pretendido padrão secular de despesas públicas defendido por Wagner. De acordo com os dois autores, quando as sociedades não estão submetidas a pressões incomuns, os cidadãos aceitam um padrão de tributação desde que baseado em taxas razoáveis. Nesses casos, ocorrerá uma conexão aceitável entre a taxa de crescimento da despesa pública per capita e a taxa de crescimento da renda do país. O crescimento mais acelerado das despesas do governo dependeria do aumento da carga tributária, o que não seria aceito.9 Característico dos períodos de normalidade, esse equilíbrio é rompido em situações que contemplam distúrbios sociais em larga escala e, particularmente, com o envolvimento do país em grandes guerras. Essas situações excepcionais podem criar um “efeito deslocamento” – displacement effect – elevando as receitas e as despesas públicas a níveis mais altos daqueles existentes no passado. Aumentos tributários, vistos como intoleráveis em épocas de estabilidade, passam a ser aceitos como necessários para o enfrentamento da crise. Esta hipótese ficou demonstrada estatisticamente pelos gastos públicos realizados no Reino Unido no período entre 1890 e 1955. Os dados indicaram forte crescimento das despesas durante os anos de realização dos dois grandes conflitos mundiais (1914-18) e (1939-45) e a redução nos anos seguintes, mas em patamar superior àquele existente anteriormente aos conflitos. As consequências trazidas pelas duas guerras – reconstruções, tratamentos aos veteranos etc. – normalmente justificariam um patamar superior de gastos, porém, de acordo com os autores, os governos aproveitam o ‘efeito de deslocamento’, que reduziu à resistência ao aumento da tributação, para a adoção de outras modalidades de despesas públicas não aceitas normalmente nas épocas de estabilidade. Musgrave e Musgrave (1980) testaram a hipótese de ter ocorrido o ‘efeito limite’ e o ‘efeito deslocamento’ nas finanças públicas norte- americanas durante as duas grandes guerras mundiais e as guerra da Coreia e do Vietnã. Com exceção do último conflito, os dados confirmam o crescimento da razão entre gasto público civil e com a defesa e o PIB durante e imediatamente após os conflitos, confirmando a ocorrência dos dois efeitos. Entretanto, de acordo com os autores, pelo menos para a caso norte-americano, a teoria não fornece uma explicação definitiva para o crescimento dos dispêndios públicos, pois, em períodos não relacionados à guerra, os gastos públicos também cresceram em relação ao PIB (p. 122-3). Outras interpretações sobre as razões do crescimento dos gastos públicos defendem que o processo intenso de urbanização, as mudanças tecnológicas, as crises econômicas cíclicas, o envolvimento dos países em guerras, a difusão de direitos sociais atendidos por meio de transferências, assim como outros fatores passaram a exigir medidas governamentais que, em grande parte, só poderiam ser atendidas por meio de despesas orçamentárias (Musgrave; Musgrave, 1980, p. 117-23).10 Wildavsky (2002, p. 357-93) acredita que razões culturais explicam melhor o crescimento das despesas governamentais dos que razões de outras ordens, principalmente, econômicas. Mesmo considerando a Lei de Wagnercomo o primeiro e o mais importante esforço de explicação sobre por que, nos países industrializados, o ritmo de crescimento das despesas públicas continua sendo maior que o da economia, Wildavsky propõe uma questão não respondida pela teoria: por que, nos países ocidentais como um todo, o Estado continuou sua expansão mesmo nas fases em que declinaram as taxas de crescimento da economia? (p. 367). Defende, ainda, que [a] crescente proporção do produto nacional gasto através dos governos no Século Vinte não é explicada completamente pelo crescimento da riqueza ou da industrialização. Ao contrário, é precisamente a verdadeira riqueza ou a capacidade tecnológica desses países que podem tornar possível, se essa for a intenção, a redução do tamanho da atividade estatal (p. 357). O incrementalismo, influente teoria sobre a elaboração orçamentária, vista em detalhe no capítulo anterior, defende que a base do orçamento de cada ano não sofre mudanças importantes em relação ao orçamento anterior, restringindo-se a incorporar incrementos proporcionados pela existência de novos recursos. Wildavsky não concorda que a sua teoria possa estar alinhada às interpretações que apontam no sentido do crescimento permanente das despesas públicas. Não sendo uma “via de sentido único”, na teoria incrementalista não há nada que requeira incrementos positivos ou, então, negativos. Quando necessárias, adaptações mediante mudanças decrementais devem ser consideradas por meio de sucessivos pequenos passos (p. 366). O argumento central de Peltzman (1980, p. 287), “[...] o tamanho do governo responde aos interesses articulados dos que tendem a ganhar ou perder com a politização da alocação dos recursos” é aproveitado por Wildavsky na construção da sua teoria: a mudança cultural precede e domina a mudança orçamentária: “o tamanho do Estado hoje é decorrência da cultura política de ontem” (p. 385). Wildavsky (2002) toma como base empírica o período da maturidade industrial – décadas de 1960, 1970 e início dos anos 1980 – no qual são encontradas três tendências influenciando os orçamentos públicos: o aumento dos gastos em programas sociais, a diminuição relativa, mas o aumento absoluto das despesas militares e a inabilidade em incrementar a receita com o objetivo de garantir a paz com aquelas ações. “Se a teoria cultural é correta, além disso, a despesa não deveria simplesmente crescer como proporção do produto nacional; seus componentes igualitários deveriam ter aumentado muito mais rapidamente e os outros (no caso, as despesas militares) mais lentamente” (p. 385). Os dados mostram que isso efetivamente ocorreu.11 Richard Rose é outro autor citado por Wildavsky em apoio à teoria cultural. Nos países ocidentais, no período de 1954 a 1980, em seu conjunto, os gastos nos principais programas cresceram em média 22% como proporção do produto nacional. Considerados isoladamente, o crescimento variou bastante entre os programas, estando na média apenas os investimentos na infraestrutura econômica (transportes e habitação). Em todos os lugares, diminuiu a proporção dos gastos em defesa, enquanto cresceu expressivamente nas áreas de manutenção da renda, saúde, educação e juros da dívida púbica. Nos Estados Unidos, no período considerado, os gastos em saúde cresceram 213% e em defesa diminuíram 59% (p. 388). Wildavsky conclui que “[...] esta tendência para a equalização – um aumento constante nos gastos em programas redistributivos – é melhor explicada por uma hipótese cultural” (p. 389). Na maior parte, as investigações mencionadas e outras mais, filiadas às escolas neoclássica e keynesiana, concluem apontando o crescimento acelerado das instituições estatais durante um século como resultante de forte demanda pela ação governamental. Reação a esse entendimento da economia convencional – a oferta atenderia à demanda – aplicado às finanças públicas foi proporcionada no âmbito da teoria da escolha pública – public choice – e de correntes institucionalistas.12 James M. Buchanan (1977) encaminhou assim a questão que orientou muitas das investigações no âmbito da teoria da public choice: [o] crescimento dos governos é uma resposta direta às demandas da população por mais e melhores serviços públicos? Ou os governos funcionam independentemente da população, produzindo resultados que podem não estar relacionados com os desejos dos cidadãos e, no final das contas, trazem para o povo mais males do que benefícios? (p. 5). Para o autor, as motivações da burocracia governamental constituem a fonte primária do crescimento das despesas públicas e não as demandas por bens e serviços (p. 18). Gordon Tullock, um dos principais parceiros de Buchanam, pensa da mesma forma. Não sendo apenas uma fornecedora de fatores de produção, a burocracia exercita influência política de diversas maneiras; “[a]ssim, o crescimento da burocracia, em larga medida, é autogerado” (Tullock, 1977, p. 285). Não apenas nas organizações estatais são sentidos os efeitos da burocracia, mas é nestas que se concentram a maior parte das discussões e avaliações. Para Tullock, há duas razões para mirar a atenção na burocracia pública. Em primeiro lugar, porque com essas discussões é possível que as decisões políticas tenham retorno. Em segundo lugar, porque a ineficiência da burocracia no setor governamental é maior do que em qualquer outro lugar (p. 280). William A. Niskanen Jr. (1971) é autor de reconhecida teoria sobre o comportamento econômico dos bureaux e dos burocratas.13 Nos bureaux estatais, são burocratas todos os servidores de carreira e, também, os funcionários não integrantes dos quadros da organização, investidos em cargos de chefia por autoridade eleita (o político), que têm sob a sua responsabilidade uma parte definida do orçamento. Os burocratas não obtêm, a título de vantagem pessoal, nenhuma parcela que resulte da diferença entre as receitas e os custos do bureau (p. 15, 22). Para Niskanen, o burocrata é um maximizador do orçamento. Para tanto, utiliza informações privilegiadas e busca obter junto aos níveis de decisão política – legislativo e chefias superiores do executivo – o maior orçamento possível, que será todo empregado na produção. As utilidades que interessam ao burocrata – salário, gratificações, reputação pública, poder, benefícios financeiros, favorecimentos e produtos do bureau – resultam automaticamente do tamanho do orçamento (p. 38). Por não haver o lucro, o bureau de Niskanen, ao operar nas mesmas condições de demanda e de custos, oferece um nível de produto superior ao da organização lucrativa, já que o eventual resíduo será empregado na expansão da produção.14 O tamanho do bureau depende da sua capacidade de entregar a produção esperada por quem aprova o orçamento. Será penalizado com menores orçamentos o bureau que consistentemente promete mais do que pode entregar; já o bureau com desempenho superior ao esperado será premiado com maiores orçamentos no futuro (p. 42). De acordo com Forrester (2001), “[o]s argumentos dos teóricos da public choice sugerem que os burocratas são ‘gananciosos’ na medida em que se envolvem em um comportamento que lhes permite maximizar seus objetivos claramente articulados. A veracidade de cada argumento, no entanto, tem sido contestada por vários acadêmicos vinculados à administração pública” (p. 114). Forrester concorda que a burocracia é afetada pela política, mas não só. Vários campos de estudo e disciplinas se interessam pela burocracia – ciência política, contabilidade, sociologia, economia e outras – sendo razoável que o comportamento dos burocratas seja modelado com contribuições dessas várias áreas e não apenas de uma, como pretende a public choice (p. 115). No Brasil, o crescimento das despesas públicas acompanhou o processo deindustrialização do País, ambos realizados tardiamente. Nos anos que se seguiram ao final da Segunda Guerra Mundial – 1947 a 1950 –, a receita tributária do setor público correspondeu, anualmente, a 15% do PIB, indicando um governo com poucas atribuições econômicas. O crescimento do setor público inicia na década de 1950 e se acelera nas décadas seguintes. Baer et al. (1973) defendem que a forte presença estatal sentida já no início do processo não se deveu a razões ideológicas ou, mesmo, de maneira planejada. Para os autores, [a] atual preponderância do Estado na economia brasileira não é o resultado de um esquema cuidadosamente concebido. Decorre, em grande parte, de numerosas circunstâncias que, em sua maioria, forçaram o Governo a intervir de maneira crescente no sistema econômico do País. Essas circunstâncias vão desde reações a crises econômicas internacionais e o desejo de controlar as atividades do capital estrangeiro, principalmente no setor de serviços de utilidade pública e na exploração de recursos naturais, até a ambição de industrializar rapidamente um País atrasado (p. 883). Na esteira do processo de substituição de importações iniciado na década de 1950, cujo êxito explica, em parte, o “milagre brasileiro” dos primeiros anos da década de 1970, o Estado brasileiro, no entendimento de Martone (1982, p. 69), poderia ter aproveitado a “oportunidade histórica de ‘queimar etapas’ no processo de industrialização” abrindo a economia brasileira para o exterior como fizeram os países industrializados. A opção pela criação e expansão de empresas estatais, formando monopólios em alguns setores, afastou o país do modelo de abertura externa, encaminhando-o na direção de um sistema autárquico.15 O protagonismo estatal no setor produtivo e os dois choques do petróleo na década de 1970 aumentaram o endividamento público contribuindo para a desaceleração do crescimento econômico, quadro que se agravou com a moratória da dívida externa em 1987. Terminada a chamada “década perdida” e diante do cenário econômico difícil marcado pela inflação elevada e pela crise fiscal, a União agilizou, na década de 1990, o processo de desestatização iniciado timidamente nos anos 1980. O estado empresarial diminuiu de porte e a Constituição aprovada em 1988 ampliou os direitos sociais, especialmente nas áreas da seguridade social. Os estudos sobre as finanças públicas brasileiras, ao longo do tempo, foram dificultados pela ausência de séries estatísticas mais longas e uniformes, mesmo no âmbito do governo federal. Ocorreram importantes avanços a partir da adoção do Plano Real em 1994 e da implantação de metodologia-padrão de apuração das contas fiscais. Assim, com base em dados disponibilizados pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN), sabe-se que a despesa primária total do governo federal passou de 14% do PIB em 1997 para 20% em 2016, representando uma variação de 43%. Essa notável expansão dos gastos resultou, em parte, do crescimento da estrutura administrativa, mas especialmente dos encargos previdenciários que passaram de 5 para 8% do PIB no período considerado, ou seja, uma variação de 60%. Esta causa de crescimento das despesas públicas pode ser explicada no âmbito da teoria cultural defendida por Wildavsky e apresentada anteriormente nesta seção. O crescimento dos gastos previdenciários resultou, ao mesmo tempo, de políticas intencionais de sentido redistributivo e de medidas incrementais aleatórias que, ao longo do tempo, foram alterando a legislação.16 A trajetória insustentável desse crescimento foi reconhecida pelos últimos governos, cujas tentativas de enfrentamento resultaram sempre na adoção de medidas de impacto limitado. Estudos sobre os problemas econômicos dos indivíduos, das famílias e das entidades privadas, lucrativas ou não, estiveram e estão no centro das atenções de importantes escolas e correntes econômicas e constituem um acervo importante de conhecimento teórico. O mesmo não ocorre em relação ao funcionamento do setor público. O alcance e a amplitude das ações governamentais, o grande número de funções em exercício na administração pública, as variadas formas de atuação dos órgãos públicos e o componente político presente nas decisões econômicas mais importantes, possivelmente, são fatores que não incentivam ou, mesmo, dificultam o desenvolvimento de teorias gerais que expliquem o funcionamento da economia do setor público. Em lugar de uma teoria positiva de política fiscal que “descreva o que se passa nas capitais do mundo” (p. 24), Musgrave (1976) propôs uma teoria normativa a partir da qual é estabelecido um plano orçamentário ótimo. O autor explica que a estrutura da teoria normativa “depende dos valores sociais e políticos da sociedade a que serve” e que “a implantação do plano orçamentário depende dos relacionamentos funcionais que prevalecem no setor de mercado da economia” (p. 25). As finanças públicas devem ser avaliadas de acordo com a contribuição para o alcance de quatro objetivos na economia: eficiência, equidade, estabilidade e crescimento (Head, 1974, p. 50). No modelo de Musgrave, os três primeiros objetivos constituem as próprias funções do sistema orçamentário: alocativa, distributiva e estabilizadora. A economia moderna é uma economia mista na qual convivem o Estado e os mecanismos de mercado. Na maior parte das situações, a alocação dos recursos dá-se de acordo com as regras de mercado, cabendo ao Estado promover os ajustamentos que corrijam distorções e tornem a alocação mais eficiente. As intervenções são necessárias em face das externalidades ou deseconomias provocadas por agentes econômicos afetando o funcionamento normal do mercado ou gerando custos para os demais agentes. Fechamento de mercado, aumentos ou reduções de preços com objetivos especulativos, emissões de poluentes são exemplos de funcionamento ineficiente da alocação, devendo o Estado implementar medidas que produzam os ajustes necessários.17 Há situações em que a falha de mercado é total, devendo a alocação ficar sob a responsabilidade do Estado. É o caso do atendimento das necessidades sociais ou da provisão de bens públicos puros. O mecanismo de mercado não funciona nos casos em que é inaplicável o mecanismo do preço, assim como o da exclusão do consumidor no caso de não pagamento. “As necessidades sociais são aquelas que devem ser satisfeitas através de serviços que precisam ser consumidos por todos em quantidades iguais” (Musgrave, 1976, p. 29). Entre os bens públicos típicos mais conhecidos, estão os serviços de segurança pública e de justiça, a defesa do país, as medidas de proteção ao meio ambiente, iluminação pública etc. Diferentemente do consumidor de bens privados que precisa definir as suas preferências para obter o benefício, o consumidor de bens públicos não precisa expressá-las em todos os casos, beneficiando-se juntamente com os demais consumidores dos bens providos pelo Estado. Em sociedades democráticas, o plano orçamentário não deve ser definido de forma autoritária pela estrutura político-administrativa, sendo necessário que se estabeleçam maneiras de conhecer as preferências do consumidor. Por não funcionar nestes casos, o mecanismo de mercado é substituído pelo processo político, que deverá contemplar processos de escolha por meio de votação e cobertura das despesas orçamentárias via cobrança de tributos. Além dos bens públicos, outro grupo de bens integram as necessidades sociais. Por um lado, asse-melham-se aos bens privados, pois atendem as regras de mercado e sujeitam o consumidor ao princípio da exclusão. Por outro lado, seus benefícios têm grande importância para a população, devendo ser usufruídos por todos, inclusive pela parcela da população com menor ou sem capacidade de pagamento. São denominados bens meritórios, havendo uma variedade deles: merenda escolar,vale-refeição, subsídios à habitação para a população de baixa renda, serviços gratuitos de educação e de atenção à saúde, entre muitos outros.18 Bens públicos e meritórios são providos pelo plano orçamentário de acordo com diferentes princípios. Os bens públicos têm natureza especial porque a mesma quantidade deve ser usufruída por todos, ainda que isso não ocorra sempre. Já os bens meritórios, por serem também bens privados, sujeitam-se às preferências do consumidor. Musgrave (1976) pergunta se “[...] terá a satisfação das necessidades meritórias lugar em uma teoria normativa de economia pública, baseada na premissa da preferência individual dentro de uma sociedade democrática”? (p. 35). Para o autor, apenas posições individuais extremadas negariam a importância dos bens ou de necessidades meritórias. Ao lado de bens meritórios há os não meritórios cujo consumo traz prejuízos para a população, devendo Estado adotar medidas restritivas ao consumo. A ação pública terá caráter repressivo no caso das drogas ilícitas e imporá restrições ao consumo das drogas lícitas – fumo e bebidas – limitando os pontos de venda e de consumo e, principalmente, por meio de taxação elevada. As receitas e as despesas que constituem o plano orçamentário são escolhidas em processos em que as avaliações políticas assumem importância decisiva. O capítulo anterior foi dedicado a demonstrar esse aspecto. Há situações, entretanto, em que os administradores públicos e os representantes da população podem aperfeiçoar o processo de decisão levando em conta o cálculo econômico dos resultados. Particularmente, é o caso de projetos de investimentos em que a existência de alternativas permite a realização de análises de custos e benefícios de cada opção, possibilitando, assim, a melhor escolha. A escolha entre projetos alternativos de sistemas de transporte – rodovia, ferrovia ou hidrovia – para o escoamento de safras em uma região de ocupação nova serve como bom exemplo do emprego da análise de custo-benefício. Para cada uma das alternativas deverão ser identificados e levantados todos os custos e todos os benefícios; a alternativa que apresentar a melhor relação final será a escolhida. Eventuais dificuldades na identificação de todos esses componentes não devem ser menosprezadas, já que poderão existir custos e benefícios de difícil identificação e apuração. Musgrave e Musgrave (1980) propõem que se considere a existência de custos e benefícios reais e monetários.19 Os custos e benefícios reais são de diversas ordens: diretos ou indiretos, tangíveis ou intangíveis, finais ou intermediários e internos ou externos. No exemplo citado, os custos diretos tangíveis estão representados nos valores das obras de cada uma das três alternativas e os benefícios diretos tangíveis nos custos de transporte da produção, considerados os volumes transportados e o tempo. Custos reais indiretos tangíveis e intangíveis também deverão ser considerados como no caso dos efeitos determinados pelas mudanças em cursos de água, por alterações nos ecossistemas e pelo crescimento desordenado de áreas urbanas (p. 133-36). Os autores ponderam que em projetos públicos é mais fácil identificar os benefícios de bens intermediários dos que os de bens finais. Citam um parque público como exemplo de bem final e uma estrada como bem intermediário. Não sendo aplicável o princípio da exclusão, a quantificação dos benefícios proporcionados pelo parque será sempre difícil, enquanto no caso da estrada a redução dos custos de transporte constituirá benefícios de mais fácil apuração. Em variados tipos de projetos públicos, os custos e benefícios não serão apenas internos à região onde as intervenções são feitas, mas igualmente fora da região considerada. Normalmente, são os benefícios que se estendem externamente e, nesses casos, é recomendável a busca de colaboração entre as regiões (p. 137-38). Para boa parte dos investimentos públicos, especialmente os maiores, os fluxos dos benefícios se estendem por vários anos no futuro, sendo recomendável calcular o valor presente do fluxo mediante o emprego de uma taxa de desconto. Caso o capital a ser investido venha a ser obtido por meio de financiamento, os custos do empréstimo deverão ser utilizados como taxa de desconto. Taxas inferiores às do mercado – taxa social – podem ser utilizadas, bem como as taxas dos títulos públicos de longo prazo. Nos períodos de domínio da economia liberal, a alocação de recursos para a provisão de bens e serviços era aceita como a única função econômica do Estado. O advento e a ampliação dos direitos econômicos e sociais estabeleceram uma nova função para o plano orçamentário público: distributiva ou redistributiva. Nas economias mistas, a distribuição da renda e da riqueza entre as pessoas é resultado de uma série de fatores: recebimento de heranças, inteligência e habilidades inatas, oportunidades educacionais, possibilidade de mobilidade social e o própria estrutura e funcionamento dos mercados. Produto dessas condições, resultará uma medida de distribuição, “com um dado grau de igualdade ou desigualdade” (Musgrave, 1976, p. 40). A aceitação ou não da medida de distribuição da renda e da riqueza depende da filosofia social defendida pelas pessoas. Alguns aceitarão graus maiores e, outros, graus menores de desigualdade. Há, também, os que preferem dar ênfase, em particular, às igualdades de oportunidades. De maneira geral, uma comunidade verdadeiramente democrática tende a considerar inaceitável proporções elevadas da população em faixas de renda muito baixa ou, ainda, atendimento deficiente às necessidades de crianças e idosos. Assim como no atendimento das necessidades sociais por meio da função alocativa, também na distribuição ocorrerão falhas proporcionadas pelo mecanismo de mercado. A desequilibrada disposição inicial dos fatores não só contribui para manter a desigual distribuição como tenderá a acentuá-la. Caberá, então, ao plano orçamentário promover ajustamentos que minimizem as distorções e conduzam a um estado aceitável de distribuição. Os ajustes na distribuição de renda que mais favorecem a busca de equidade combinam a 1. 2. 3. cobrança de impostos diretos progressivos junto às classes de renda mais elevada com transferências de recursos às parcelas da população de renda baixa. Auxílios pagos às famílias pobres (bolsa-família), salários pagos aos desempregados, distribuição de vale-refeição, entre outras medidas, não produzirão efeitos redistributivos se forem financiados com receitas orçamentárias provenientes, na sua maior parte, da arrecadação de impostos indiretos, em particular os incidentes sobre o consumo e a produção. Bens públicos puros e meritórios, providos pelo plano orçamentário no âmbito da função alocativa, em muitos casos contribuirão para a promoção de ajustes da distribuição de renda. Serviços gratuitos de atenção à saúde e subsídios a programas habitacionais de baixa renda são exemplos de interdependência entre os orçamentos das duas funções. Alterações legislativas, igualmente, possibilitam mudanças importantes no estado da distribuição. Normas que alteram o salário mínimo, subvenções incidentes sobre produtos agrícolas, incentivos e benefícios fiscais a determinados setores, controles de preços, entre outros, são exemplos de medidas que produzem resultados na formação da capacidade de compra e de consumo da população. Musgrave (1976, p. 40), entretanto, chama atenção para a opinião dos economistas que, de maneira geral, consideram indesejáveis intervenções como essas na alocação dos recursos em virtude dos efeitos artificiais produzidos na formaçãodos preços. Sempre que possível, o mecanismo representado pelas receitas tributárias e pelas despesas orçamentárias deveria ser adotado em razão de seu efeito neutro no processo econômico. A função estabilizadora é a mais nova das três funções fiscais e apresenta diferenças sensíveis em relação às outras duas. Constituiu-se em importante objetivo de política econômica na década de 1930 visando ao enfrentamento das graves consequências da Grande Depressão, especialmente o desemprego, assim como as altas taxas de inflação do período entre as duas guerras mundiais. Manter elevados os níveis de emprego e estável o valor da moeda constituem, portanto, as metas centrais da função estabilizadora. Adicionalmente, medidas fiscais deverão perseguir outros dois objetivos: equilíbrio no balanço de pagamentos e crescimento econômico. Eventos em muitos países ao longo do século XX comprovaram que as instabilidades não ocorrem apenas em depressões severas ou em períodos de hiperinflação. A complexidade da economia moderna naturalmente produz tensões e riscos, quadro que tende a se agravar quando há incentivos à formação de “bolhas” em setores econômicos importantes, cujo crescimento exuberante se demonstrar insustentável. Musgrave (1976) propõe as seguintes recomendações de finanças compensatórias com vistas à estabilidade: Frente a taxas indesejáveis de desemprego involuntário, o crescimento da procura deve ser incentivado forçando o crescimento dos gastos agregados até que seja alcançado o pleno emprego. Aumento dos gastos com a provisão de bens e serviços públicos, aumento das transferências ao setor privado e redução de impostos são exemplos de medidas fiscais capazes de dinamizar a demanda agregada. Frente a taxas elevadas de inflação, os níveis de demanda devem ser reduzidos de modo a equilibrar o volume das despesas agregadas e o valor da produção, medidos a preços correntes e não a preços em elevação. Aqui as medidas fiscais serão inversas em relação àquelas implantadas em caso de desemprego: as despesas públicas deverão ser reduzidas, diminuídas as transferências e aumentados os impostos. Frente a situação de pleno emprego e estabilidade dos níveis de preços, a política fiscal deverá manter um nível de dispêndio que previna o desemprego e a inflação. Isso não significa um nível constante de demanda agregada. Se a economia está em crescimento, os níveis de renda não estão estabilizados e haverá expansão da procura que precisará ter, como limite, a capacidade de produção (p. 46-8). A estabilidade econômica pode ser perseguida com a utilização combinada de medidas de política fiscal e de política monetária. É conhecida a incapacidade de o sistema de mercado regular a oferta de moeda, em especial, em face do papel proativo das instituições financeiras na oferta de créditos. No exercício dessa atribuição, a autoridade monetária – banco central – define os níveis de reservas bancárias, os montantes de depósito compulsório, o funcionamento do mercado interbancário (overnight) etc. Em apoio às medidas fiscais de controle da demanda e de combate à inflação, o mecanismo monetário mais empregado é o estabelecimento da taxa de juros de referência. Adicionalmente, as intervenções do banco central no mercado de câmbio terão por objetivo uma relação conveniente entre as moedas, favorecendo o controle de preços e o incentivo às exportações. A situação das finanças federais brasileiras, no período seguinte à crise do sistema bancário de 2008, serve como boa ilustração das dificuldades causadas pela falta de coordenação entre medidas fiscais e monetárias. A memória dos longos períodos de inflação persistente e a prática legal ainda em vigor de indexação de preços importantes foram responsáveis por taxas de inflação elevadas, mesmo nos períodos de baixo crescimento. Enquanto o Banco Central (Bacen), mirando a inflação, aumentava a taxa de juros de referência – taxa Selic –, o governo mantinha elevado o nível de gastos orçamentários e estimulava os financiamentos privados, acreditando que medidas anticíclicas afastariam os riscos de a crise externa contaminar o País e provocar recessão. A expansão fiscal não deu certo e as taxas de inflação começaram a cair com o início da recessão em 2014. O exercício das funções fiscais é afetado pelo modelo de organização político-administrativa do Estado. Países com menores áreas geográficas tendem a assumir um formato centralizado ou unitário, facilitando a coordenação da gestão fiscal. Já os Estados com vastas áreas geográficas constituem instâncias governamentais e administrativas de caráter descentralizado, determinando a necessidade de divisão das tarefas fiscais. Entre estes últimos, são exemplos de países federativos o Brasil e os Estados Unidos da América. A unidade central e as unidades descentralizadas – regiões, estados ou entes locais – não têm as mesmas responsabilidades no cumprimento das funções fiscais. A função estabilizadora é essencialmente de competência do governo central, assim como a função distributiva, podendo, neste caso, os entes descentralizados assumirem, por delegação, a execução de programas. Já o ajustamento na alocação de recursos é de competência amplamente compartilhada entre todos os entes federativos. O Brasil assume um lugar especial entre as federações por contar com três níveis administrativos e de governo – federal, estadual e municipal –, representando desafios adicionais de coordenação. As constituições federais, inclusive a de 1988, consagraram o denominado ‘federalismo cooperativo’, que estabelece inúmeras competências comuns, ou seja, de responsabilidade dos três entes da Federação. Ainda que, em certos casos, o papel da União, por exemplo, seja o de colaborar financeiramente, a ausência de clareza nas atribuições de cada ente dificulta a responsabilização. Há desafios importantes de coordenação na alocação de recursos no âmbito local. São exemplos ilustrativos o que ocorre nas regiões metropolitanas integradas por grande número de municípios, onde a provisão de bens e serviços exige especial esforço de colaboração entre os entes locais na divisão de tarefas. Em várias situações, o espaço físico determina uma lógica na organização racional dos serviços, o que deve ser compreendido e atendido no âmbito político--administrativo, obtendo-se com isso maior eficiência. No Brasil, as normas gerais de direito administrativo não facilitam a formalização de acordos entre os entes da Federação, o que dificulta o estabelecimento de processos em que a colaboração e a coordenação são necessárias. Deve ser mencionado como mecanismo facilitador da articulação entre os entes a criação, em 2005, da figura do consórcio público, pessoa jurídica de direito público ou privado a ser contratada para a realização de objetivos de interesse comum. As ações governamentais realizadas no âmbito das funções alocativa e distributiva são atendidas com recursos financeiros captados, principalmente, por meio da tributação. Nas páginas iniciais deste capítulo viu-se que, pelo menos desde a Idade Média, filósofos, economistas e outros pensadores dedicaram-se ao estudo de maneiras e fórmulas de distribuir, entre os contribuintes, o ônus representado pelas despesas públicas. A luta histórica contra o absolutismo das Coroas e que consagrou o poder dos parlamentos na aprovação dos impostos deveria perseguir, também, sistemas tributários não arbitrários, baseados na busca de equidade. Um modelo tributário “ideal” deve estabelecer a parcela ‘justa’ que cada contribuinte precisa assumir com a finalidade de financiar as despesas governamentais. A busca por esse modelo tributário consolidou, no âmbito da teoria econômica, duas abordagens clássicas: do benefício e da capacidade de pagamento.Para Dalton (1970, p. 93), há um terceiro princípio, denominado custo do serviço, representado pelos serviços prestados pelo governo a contribuintes específicos. Esta categoria compreende as atividades executadas por entidades públicas e cujas tarifas ou preços são fixados em conformidade com os custos, como os serviços postais e dos aeroportos públicos, o fornecimento de energia elétrica, gás e saneamento e o uso de transporte público. No âmbito administrativo, os órgãos públicos fazem inúmeros atendimentos e cobram por esses serviços. Em muitos casos, a cobrança dá-se por meio de taxas, denominação indevida já que essa expressão é privativa de uma das modalidades de tributo. Nesses exemplos, os serviços prestados pelo Estado assumem características de bens privados na medida em que o consumidor só se beneficia mediante o pagamento. De acordo com o princípio, o sistema tributário será justo e equitativo se o tributo for pago proporcionalmente aos benefícios que os serviços públicos proporcionam a cada contribuinte.20 Com frequência, o princípio era representado pela expressão latina quid pro quod, ou seja, trocar uma coisa por outra. A abordagem do benefício amparava-se na teoria contratual do Estado, em que o tributo era concebido como o pagamento pelos serviços prestados pelo governo em defesa das pessoas e de seus bens. Importantes pensadores políticos dos séculos XVII e XVIII, como Locke, Hobbes e Montesquieu, filiaram-se a essa corrente. O escocês Adam Smith, na obra que inaugura a economia clássica, propôs uma síntese dos princípios do benefício e da capacidade de pagamento: “Os súditos de qualquer Estado devem contribuir para o sustento do governo na proporção de suas respectivas possibilidades, isto é, na proporção das rendas e dos haveres que ganham sob a proteção daquele Estado” (Smith, 1954, v. III, p. 117).21 A abordagem do benefício perdeu adeptos com o desprestígio da teoria do contrato social e, a partir do final do século XVIII, com a diminuição do protagonismo do Estado patrocinado pelo liberalismo econômico. A contar do final do século XIX, novas abordagens defendidas por escolas e autores europeus renovaram o interesse no princípio. De acordo com a mais conhecida – troca voluntária –, “o imposto deve ser estabelecido como um preço destinado a maximizar a satisfação que o consumidor aufere com seus pagamentos por serviços públicos e privados” (Musgrave, 1976, p. 103). A ênfase anteriormente dada na existência de semelhanças com o sistema de mercado para definições de preferências e de preços (imposto), na troca voluntária é transferida para o processo político-eleitoral que representa os desejos da população. A aplicação prática do princípio do benefício aos sistemas tributários é dificultada por várias razões. A doutrina e as normas de direito defendem que a finalidade das receitas dos impostos gerais é cobrir os custos de manutenção e operação do Estado. Para tanto, há normas positivas que proíbem que as receitas de impostos sejam vinculadas a objetivos específicos.22 Nessa modalidade tributária, não caberia personalizar os serviços gerados pelas despesas públicas, bem como os benefícios proporcionados aos contribuintes. No caso brasileiro, a norma constitucional que proíbe a vinculação traz várias ressalvas, determinando que parcelas da receita de impostos sejam aplicadas em certos setores, o que configura benefício para a população interessada. Constituem exemplos as aplicações em educação e saúde. Mesmo nestes casos, a observância do princípio do benefício é difícil. Há um montante de despesas realizadas no setor e um grupo de beneficiados, mas não há, claramente, como relacionar o serviço público prestado e o contribuinte particular beneficiado. Diferentemente dos impostos, as contribuições e certas modalidades de taxas seriam imposições mais próximas ao princípio do benefício. Na sua origem, as contribuições diferenciavam-se dos tributos por seu caráter parafiscal. Serviam ao cumprimento de certos deveres do Estado com categorias profissionais ou sociais. Conforme explica Morselli (1959, p. 17) “[a] regra é o princípio do interesse ou do benefício da categoria econômica ou social a que o fim particular se refere. Acontece que são contribuintes, pela única e só relação com 1. 2. 3. a despesa àquele mesmo fim destinada, os próprios indivíduos pertencentes à categoria designada”. No Brasil, a maior parte das contribuições perdeu o caráter parafiscal e passou a se confundir com os impostos. Bons exemplos são a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e a Contribuição Social sobre o Lucro das Pessoas Jurídicas (CSL), vinculadas ao financiamento da seguridade social, amplo arco que compreende as despesas de serviços de saúde, previdência e assistência social. Restariam como exemplos próximos ao princípio do benefício a Contribuição do Servidor Ativo Civil para o Regime Próprio e a Contribuição Previdenciária do Segurado Assalariado. Também nesses casos, a “parafiscalidade” é suprida pela “fiscalidade” (Morselli, 1959, p. 17) porque os déficits dos fundos previdenciários são cobertos por transferências do orçamento geral. No modelo em vigor no Brasil, ao lado do imposto e da contribuição de melhoria, a taxa é um tributo cujo fato gerador é o exercício regular do poder de polícia, ou a utilização de serviço público prestado ao contribuinte ou posto à sua disposição.23 Difere das tarifas e preços públicos praticados no atendimento do custo dos serviços, como comentado anteriormente, pela sua natureza jurídica, divisibilidade e compulsoriedade. Em boa parte dos casos, portanto, é possível considerar o tributo taxa como exemplo de imposição que atende ao princípio do benefício.24 Outra abordagem com o objetivo de orientar a organização do sistema tributário é a da capacidade de pagamento. Ao contrário da abordagem do benefício, em que há uma troca entre dispêndio (benefício) e tributo, aqui, o montante da receita necessária é conhecido e os contribuintes são convocados a cobri-lo de acordo com a capacidade de pagamento de cada um. Musgrave (1976, p. 124-25) observa que a formulação do princípio é anterior à doutrina do benefício e está associada a ideia de sistema “justo” de distribuição dos encargos tributários. Contribuintes com a mesma capacidade de pagamento devem pagar o mesmo montante de impostos; por outro lado, devem incidir diferentes encargos tributários sobre os que não possuem a mesma capacidade de pagamento. Na primeira situação, alcança-se a equidade horizontal e, na segunda, a equidade vertical. Entre os economistas clássicos, John Stuart Mill foi defensor do princípio e crítico notório da regra do benefício. Essa abordagem provocaria a regressividade na tributação já que os pobres, por terem mais necessidade de proteção do Estado, pagariam mais tributos. Prevalecendo o princípio de que todos são iguais perante a lei, seriam todos iguais também perante a lei tributária. Para Mill (1923, p. 804), citado em Musgrave (1976, p. 125), “[...] igualdade tributária quer dizer igualdade de sacrifício”. Para Dalton (1970), deve-se associar ao sacrifício, representado pelo pagamento de tributos, princípios que orientem a distribuição desses encargos. Os três princípios mais comuns seriam: o do sacrifício igual; o do sacrifício proporcional; e o do menor sacrifício. Conforme o princípio do sacrifício igual, o encargo financeiro representado pelo tributo deve ser repartido de maneira que o ônus real seja semelhante a todos os contribuintes. No caso do princípio do sacrifício proporcional, o ônus real produzido pela tributação para cada contribuinte deve ser proporcional ao bem--estar proporcionadoa cada um pela renda econômica. O princípio do menor sacrifício defende que o ônus real direto para os contribuintes em conjunto determinado pela tributação seja o menor possível. Ainda de acordo com Dalton, haveria um quarto princípio a partir do qual as diferenças entre as rendas pessoais não aumentariam ou diminuiriam em decorrência da tributação (p. 95). Um sistema tributário poderá ser proporcional, progressivo ou regressivo como resultado da aplicação de qualquer dos princípios mencionados. Um imposto proporcional afetará cada contribuinte de maneira proporcional à respectiva renda. Perante um imposto progressivo, quanto maior for renda do contribuinte, maior será o encargo tributário. O inverso ocorre com o imposto regressivo: quanto maior a renda, menor será o encargo tributário do contribuinte. Dalton (1970) situa os princípios do sacrifício e as modalidades do sistema tributário considerada a hipótese de os contribuintes possuírem renda igual ao bem-estar econômico e de a utilidade marginal da renda (UMR) diminuir bastante na proporção em que esta aumente. De acordo com o autor: O princípio do sacrifício igual determinará: (a) imposto progressivo; (b) imposto proporcional, no caso de a UMR diminuir muito lentamente; e (c) imposto regressivo, no caso da diminuição ainda mais lenta ou da não diminuição em absoluto da UMR. Com o princípio do sacrifício proporcional: (a) haveria aumento na progressividade do imposto; (b) o imposto proporcional se justificaria se a UMR não diminuir em absoluto, permanecendo constante com o aumento da renda; e (c) o imposto regressivo seria considerado apenas na hipótese de elevação da UMR. O princípio do menor sacrifício: (a) provocaria muitas isenções e apenas progressividade para os não isentos; (b) tendo presente a hipótese inicial, o princípio “[...] não levaria a qualquer distribuição da tributação, de preferência a outra [...]”; (c) na situação absurda de aumento da UMR, provocaria a isenção do imposto de renda acima de certo nível e à taxação máxima de todas as rendas situadas abaixo desse nível (p. 95-97).25 Os sistemas tributários reais tendem a contemplar diferentes modalidades de impostos. “[...] [P]oderá ser proporcional relativamente a certa faixa de rendimentos, progressivo em uma e regressivo ainda em outra, embora exista naturalmente um número infinito de possíveis graus de progressão e de regressão” (Dalton, 1970, p. 95) (sem itálico no original). Entre as medidas de aferição da capacidade de pagamento estão a renda, a riqueza e o consumo. De acordo com Musgrave e Musgrave (1980), “[u]ma definição ampla de renda fornece um indicador mais adequado do que é o consumo, por ser uma medida mais abrangente da capacidade de pagamento” (p. 194). O autor pondera que um imposto de renda amplo aplicado sobre os vários tipos de renda dispensa a tributação sobre a riqueza. Tributos adicionais sobre esta e sobre o consumo podem ser necessários caso políticas redistributivas optem por maior taxação nessas modalidades e não sobre a renda (p. 194).26 A opção por impostos sobre pessoas ou sobre coisas e impostos diretos ou indiretos tem implicações importantes sobre a organização dos sistemas tributários cujo objetivo deve ser a justiça e a equidade. Os impostos sobre pessoas devem ser cobrados considerando-se a capacidade de pagamento de cada contribuinte. Já os impostos sobre coisas são aplicados às operações de produção, compra e venda ou posse de bens, sem que se leve em conta o indivíduo ou o proprietário que realiza a operação. Musgrave e Musgrave (1980) observam que todos os encargos tributários, mesmo quando incidentes sobre coisas, são “suportados” pelas pessoas. A busca da equidade, portanto, deve considerar como o peso dos tributos distribui-se entre os indivíduos (p. 192). O debate a respeito da distinção entre impostos diretos e indiretos é visto com particular interesse, em especial, no Brasil. Há, certamente, relação inicial entre esta classificação de impostos e a classificação recém-analisada. Os impostos diretos são lançados sobre os indivíduos ou sobre as famílias que, em última análise, deverão suportar o gravame. Os impostos indiretos são, inicialmente, aplicados a segmentos intermediários no processo econômico e, posteriormente, transferidos ao destinatário final do gravame tributário, em geral, as pessoas ou as famílias. A relação não ocorre sempre: o imposto sobre a propriedade incide sobre uma ‘coisa’, mas trata-se de um tributo direto. O imposto de renda sobre as pessoas físicas é um típico exemplo de imposto direto, enquanto impostos sobre coisas, por exemplo, sobre vendas, constituem impostos indiretos. Um sistema tributário organizado tendo em vista a equidade deverá considerar a progressiva substituição de impostos indiretos pelos diretos. Ainda que os impostos indiretos sejam suportados, ao final, pelos indivíduos ou pelas famílias, a capacidade de pagamento desses destinatários é mais difícil de ser apurada do que no caso dos contribuintes de impostos diretos. Em geral, os impostos sobre vendas ou sobre o consumo utilizam alíquotas comuns que serão suportadas por todos os consumidores, independentemente da renda e da capacidade de pagamento de cada um. Em praticamente todos os países, a receita ordinária constituída pelos tributos e outras formas de imposição é insuficiente para fazer frente a todos os encargos da economia pública. Receita menor que a despesa significa déficit e como solução recorre-se ao crédito público, ou seja, a formas variadas de financiamento, em especial a tomada de empréstimos de curto, médio e longo prazos.27 Dessa forma, constitui- se a dívida pública, cuja efetiva liquidação dependerá da ocorrência de superávits na execução orçamentária. Sem os superávits, a dívida se perpetua e crescerá se for alimentada por novos déficits. Nesses casos, o objetivo da política fiscal será controlar o déficit e, dessa forma, evitar o crescimento descontrolado da dívida pública. Déficit e endividamento foram temas que interessaram, em maior ou menor grau, as escolas do pensamento econômico. Nesta seção, far-se-á rápida descrição do tratamento que os dois temas receberam por parte das escolas clássica e keynesiana. O endividamento público possui uma longa história. Na Idade Média, as casas bancárias em processo de consolidação cunhavam e guardavam moedas, mas também realizavam empréstimos a particulares e aos governos. Estes, com o endividamento, obtinham os recursos para financiar as guerras e apoiar as demandas do capitalismo mercantil na expansão de seus negócios no país e nas colônias.28 No século XVIII, empréstimo público tinha muitos defensores não só entre os comerciantes, sempre dependentes do apoio oficial, mas também entre economistas da escola mercantilista, políticos e filósofos.29 No final do século XVIII e início do século XIX, os principais economistas de linhagem clássica negavam as virtudes do endividamento público. A rejeição fundava-se na própria concepção sobre as funções do Estado. Despesa pública contida significava carga tributária limitada com efeito neutro sobre a economia desde que houvesse equilíbrio orçamentário. Para Burkhead (1971), as restrições de Adam Smith aos déficits e ao endividamento público provavelmente resultavam de sua crítica ao Estado mercantilista, por ele visto como ineficiente na criação de renda e “[...] baluarte de um sistema de privilégios comerciais, concessão de monopólios e tarifas” (p. 559). As preocupações de Smith como crescimento da dívida inglesa se justificavam. De 1713 a 1739, os ambiciosos projetos no hemisfério sul e a guerra com a Espanha elevaram a dívida de 47 milhões de libras para 78 milhões; ao final da Guerra dos Sete Anos a dívida se elevou a 136 milhões. Para o autor de A Riqueza das Nações, ocorria o mais sério prejuízo para o país quando a indústriae o comércio emprestavam os recursos para o governo. Considerava um sofisma próprio do sistema mercantilista o argumento da inexistência de perdas porque os emprestadores – tomadores de títulos – recebiam juros anuais transferidos dos impostos. O volume de juros a serem pagos poderia provocar o aumento de impostos, inclusive sobre o lucro dos investidores, estimulando a fuga de capitais. E, quando da cobrança desses impostos, todos ou a maior parte dos comerciantes ou industriais, que são a maioria dos que empregam os recursos de capital do país, ficam continuamente expostos aos vexames das repetidas visitas dos arrecadadores de impostos, a disposição de mudar de país se transforma em realidade. A indústria nacional sofre necessariamente com a saída de capitais que a sustentam, e a ruína do comércio e das indústrias será seguida de perto pela decadência da agricultura (Smith, 1954, p. 241). Na França, onde a geração da dívida pública era ainda mais irresponsável no que na Inglaterra, Jean Baptista Say (1983) pensava da mesma forma e com uma argumentação válida também para os atuais problemas das finanças públicas de muitos países, entre eles, o Brasil: Qualquer espécie de empréstimo público tem a desvantagem de desviar capitais ou parcelas de capitais de empregos produtivos para consagrá-los ao consumo. Além disso, quando se dá num país cujo Governo inspira pouca confiança, tem ainda o inconveniente de fazer subir o juro dos capitais. A agricultura, as fábricas e o comércio têm mais dificuldade em encontrar capitais para tomar emprestado quando o Estado oferece permanentemente um investimento fácil e, muitas vezes, juros elevados (p. 445-6).30 O endividamento público inglês continuou a crescer, obrigando outros importantes pensadores da escola liberal a analisarem o fenômeno além das críticas. David Ricardo (1871) defendia o pagamento total ou de grande parte da dívida e considerava que os mecanismos de fundos de amortização como o existente na época não cumpriam essa finalidade. Considerava como única solução para a efetiva liquidação da dívida a criação, em tempos de paz, de um imposto sobre a propriedade, cobrado no período de dois ou três anos. 1. 2. 3. 4. 5. 6. “Assim, por um grande esforço, devemos livrar-nos de um dos flagelos mais terríveis que já foi inventado para afligir uma nação” (p. 546). Thomas R. Malthus, mais conhecido por suas previsões quanto ao crescimento populacional, representou uma dissidência entre os clássicos por não ver tantos defeitos nas dívidas governamentais. Acreditava que os juros pagos pelo Estado atingiam variadas parcelas da população, favorecendo o aumento da demanda e o consumo e, dessa forma, a produção. Caso, por um passe de mágica, a dívida pública fosse eliminada, a nação ficaria mais pobre e não mais rica, pois ninguém estaria preparado para mudança tão radical.31 Burkhead (1971, p. 565-66) observa que, mais tarde, Malthus modificou em parte sua posição, reconhecendo males na dívida, em especial, resultantes da tributação necessária para o pagamento dos juros. Contemporâneo da fase de consolidação do sistema capitalista, John Stuart Mill acreditava que os empréstimos ao governo poderiam ser vantajosos se tivessem origem no exterior ou se os recursos, na falta de alternativas, acabassem sendo desperdiçados em usos inadequados ou, ainda, aplicados em outros países. Para o autor, os empréstimos ao Estado destroem capital na hipótese de serem subtraídos de aplicações mais produtivas. Independentemente dos resultados alcançados com a dívida, Mill recomendava o seu pagamento assim que possível, propondo duas fórmulas: criação de uma contribuição geral ou o pagamento gradual com os superávits orçamentários (Burkhead, 1971, p. 566-67). A diminuição da dívida inglesa no período de um século, ainda que em montantes modestos, possivelmente tenha sido uma das razões do desinteresse dos economistas em tratar do tema na segunda metade do século XIX e inícios do século XX.32 Burkhead (1971, p. 568) observa que os Princípios de Economia, de Alfred Marshall, “[o] ponto máximo da tradição clássica, não dispensa atenção alguma ao assunto”.33 Hugh Dalton (1970) foi uma das exceções. Na primeira edição de seu conhecido manual Princípios de Finanças Públicas, publicado em 1923, o tema da dívida pública foi tratado em cinco capítulos: características gerais, encargos, reembolsos, conversão e dívidas intergovernamentais. Manteve a forma usual de classificá-las em dívidas reprodutivas, caso gerassem ativo de igual valor, e dívidas de peso-morto, nos casos de ausência do correspondente ativo. Típicas dívidas de peso-morto eram aquelas contraídas para financiar conflitos bélicos. Dalton (1970) considerava que “[s]em pagamento, a dívida permanece como eterna influência nefasta, quer na produção, quer na distribuição” (p. 230). Entre a liquidação em ritmo lento ou rápido era partidário da segunda opção. Propunha para tanto a instituição de imposto especial de curto prazo. Em edição mais recente de seu manual, defendeu uma tributação gradual sobre o capital, ou seja, sobre os patrimônios herdados acima de determinado valor e reconheceu as dificuldades de tal recomendação ser aceita politicamente (p. 236). A título de síntese da doutrina clássica sobre o déficit e o endividamento público, Burkhead (1971, p. 572-75) indica as seguintes proposições: Os empréstimos tomados pelo governo diminuem os recursos que seriam empregados produtivamente pelo setor privado. Os déficits são melhor aceitos que os impostos. Com isso, orçamentos deficitários expandem as atividades e facilitam o comportamento irresponsável do governo. As dívidas públicas dificultam a obtenção de financiamento futuro devido ao aumento dos impostos destinados ao pagamento dos juros. Os gastos públicos financiados por empréstimos são pagos duas vezes: atendendo as taxas de juros e amortizando a dívida. Orçamentos deficitários contribuem para a deterioração da moeda (inflação). Um orçamento equilibrado proporciona normas facilmente compreensíveis para orientar a transferência de recursos do setor privado para o público. A grande depressão econômica sentida em toda a década de 1930 nos Estados Unidos e em vários outros países, inclusive no Brasil, constituiu-se em cenário apropriado para questionamentos a cânones da doutrina econômica clássica e a dogmas de gestão fiscal, em especial o equilíbrio orçamentário e as resistências ao déficit e ao endividamento público. Publicada em 1936, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro deu forma e unidade às ideias de Keynes, inclusive no sensível aspecto de maior protagonismo do Estado na economia. Nas crises econômicas graves, somente a intervenção estatal poderá estimular a propensão a consumir por meio de instrumentos de política econômica: tributação, fixação da taxa de juros, investimentos e medidas de fomento à renda e ao emprego.35 Entre todos os cursos de ação propostos por Keynes, o aumento dos gastos de investimentos por parte do Estado deveria ser a prioridade principal em razão de seus efeitos multiplicadores na economia.36 Em defesa de suas recomendações, é bastante conhecida a ação política de Keynes ao publicar, no jornal New York Times, de 31-12-1933, carta aberta dirigida ao presidente Roosevelt, aconselhando “[...] ampla política de trabalhos públicos financiada, se necessário, por déficit orçamentário” (Barrère, 1961, p. 293). Enquanto o receituário inicial de Keynes foi concebido para um período de gravíssima crise econômica, a Teoria Geral estendeu as medidas para as situações de desemprego e subemprego e de recessões leves e ocasionais. Nesses casos, o incentivo ao investimento e ao consumodependerá do incremento dos desembolsos compensatórios por parte do orçamento estatal. As consequências das intervenções governamentais são reconhecidas, mas faltou à Teoria Geral tratar dos efeitos provocados nas finanças públicas. Na falta de recursos fiscais, os desembolsos provocarão o déficit e o endividamento e, para ambos, certamente deveriam sempre ser considerados certos limites. As intervenções estatais na economia pelas razões já apontadas, quando sistemáticas, provocam déficits crônicos e, nesse ponto, o estabelecimento de limites é indispensável. Escritos publicados em décadas anteriores à atual universalização dos déficits orçamentários alertavam para os perigos dos déficits crônicos. Para Dalton (1970), tão importante quanto o tempo será a proporção do desequilíbrio orçamentário. “Se os déficits foram tão grandes que derem a impressão de situação financeira desequilibrada, os resultados poderão ser muito nocivos” (p. 259). De acordo com Barrère (1961), [a] política do déficit sistemático contém em si graves perigos. Supõem, com efeito, grande domínio da economia pelo Estado, 1. 2. 3. 4. conhecimento aprofundado das quantidades globais sobre as quais se pretende agir, controle dos elementos monetários suscetíveis de permitir uma ação rápida quando o perigo da inflação começa a manifestar-se. Além disso, não parece absolutamente aplicável a um déficit importante, sendo dada a impressão que reina quanto às possibilidades de cobri-lo (p. 312). Para Duverger (1971, p. 236-42), a doutrina do déficit sistemático não tinha o caráter geral e absoluto que lhe atribuíam e a própria denominação – déficit sistemático −, muito empregada ao final da Segunda Guerra, estaria fora de moda. De qualquer maneira, a doutrina jamais pretendeu descartar o equilíbrio orçamentário. Este, de acordo com as finanças modernas, é uma regra, mas não absoluta ou intangível. É uma regra flexível e suscetível de exceções de acordo com as circunstâncias. O papel do déficit sistemático é somente o de colocar em marcha uma economia estagnada: é possível compará-lo com o ato de fazer arrancar um automóvel. Uma vez relançada a economia, as despesas excepcionais de investimentos públicos devem progressivamente diminuir, as restrições fiscais finalizadas etc. O equilíbrio orçamentário deve então ser restabelecido (p. 238).37 Aceito e aplicado em muitos países, o keynesianismo obteve e, ainda obtém, grande reconhecimento nos países em desenvolvimento, onde há forte atuação do Estado na economia e limitada capacidade de poupança perante as necessidades de investimentos. Na segunda metade do século XX, na América Latina, com destaque para o Brasil, vários governos adotaram políticas econômicas filiadas ao nacional- desenvolvimentismo e, mais tarde, ao novo desenvolvimentismo, modelos com vários pontos de contato com teses keynesianas.38 A guinada sofrida pela política econômica no segundo mandato do presidente Lula da Silva representou uma tentativa de retomar políticas desenvolvimentistas como reação à crise do sistema financeiro iniciada em 2008, cujos efeitos recessivos poderiam atingir o País. Como exemplo de ação anticíclica, o governo criou o ambicioso Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e ampliou programas de transferência de renda, como o bolsa-família. O governo seguinte, da presidente Dilma Roussef, apesar do cenário não recessivo, com inflação alta e pleno emprego, manteve em crescimento os gastos correntes e os subsídios e incrementou as desonerações tributárias, provocando os primeiros déficits primários desde a implantação da reforma monetária em 1994.39 Na ordem econômica capitalista, os negócios empresariais convivem com fases alternadas de expansão e de contração. De acordo com Wesley Mitchell, autor do mais importante estudo sobre os ciclos econômicos, publicado em 1913, citado em Schumpeter (1970, p. 245), [u]m ciclo consiste em expansões que ocorrem mais ou menos na mesma ocasião em numerosas atividades econômicas, seguidas de recessões gerais, contrações e recrudescimentos também gerais que se transformam na fase expansionista do ciclo seguinte. A sequência de mudanças é repetitiva, mas não periódica. Em duração, os ciclos econômicos variam de mais de um a dez ou doze anos.40 No início do século XX, o estudo dos ciclos ocupou inúmeros autores, cada um com diferentes interpretações, especialmente sobre as razões que explicariam as fases de queda e de recuperação das atividades econômicas. Para Mitchell (1984), cada ciclo é formado por acontecimentos únicos, inclusive por razões não econômicas. Entre as propostas de controle dos ciclos, o mesmo autor sugeriu a reforma do sistema bancário e o emprego das compras governamentais; a primeira, com o claro objetivo de evitar o pânico entre os correntistas e a segunda antecipando parte do receituário keynesiano para a Grande Depressão da década de 1930 (p. 151). Schumpeter (1982), autor de outro reconhecido estudo sobre os ciclos, destaca o papel da inovação e das mudanças tecnológicas tanto na fase do boom – expressão empregada pelo autor –, como no esgotamento. Com a difusão generalizada no mercado dos mesmos produtos e processos inovadores, a rentabilidade de todo o segmento começa a cair; o início da recuperação dependerá de novos avanços tecnológicos nos processos produtivos e, especialmente, de novos produtos. O enfrentamento da crise nos anos 1930 deixou lições aos governos sobre como proteger as economias nacionais dos efeitos das crises cíclicas. No conjunto das ações terapêuticas, as recomendações da teoria keynesiana ocupam um lugar especial. Com o êxito dessas políticas, diminuiu o interesse no estudo dos ciclos econômicos e de seus efeitos nas finanças públicas, em geral, e na política orçamentária, em particular. Alvin Hansen (1941), no manual de política fiscal e ciclos econômicos, chama atenção para a sensibilidade das receitas tributárias às fases dos ciclos: a arrecadação cresce com a expansão dos negócios e cai na fase recessiva. Se não ocorrer a expansão das atividades operacionais (despesas correntes) na fase do boom, haverá superávit na execução orçamentária desse período. Entre as opções de utilização dos superávits deve estar o pagamento da dívida consolidada, bem como a cobertura dos déficits que certamente ocorrerão nos exercícios da fase descendente. O economista sueco Gunnar Myrdal41 (1962) é autor de aprofundado estudo visando adequar e proteger as finanças públicas dos efeitos dos ciclos econômicos. De maneira bastante simplificada, a sua proposta, que se beneficiou de modelos praticados na Suécia e na Dinamarca, tem as seguintes características principais: O orçamento, dividido em duas partes – gastos correntes (ordinários) e gastos de investimentos –, é aprovado por um período de tempo suficientemente longo para compreender anos orçamentários bons e ruins. “A nivelação, do ponto de vista financeiro, será tanto mais precisa quanto em maior grau um ciclo completo esteja contemplado” (p. 185). A saúde financeira é o objetivo da política e do orçamento plurianual, devendo ser buscadas, permanentemente, informações técnicas e estatísticas sobre o comportamento da conjuntura de maneira a classificar os distintos anos orçamentários como normais, de depressão ou de conjuntura alta. Ocorrendo uma variação para acima, financeiramente se forma um fundo de nivelamento da conjuntura. As retenções que constituem o fundo poderão ou não ter um limite determinado. Ao boom sucederá a fase de baixa com déficits orçamentários decorrentes da queda da atividade econômica, dos preços e da receita pública. Os recursos do fundo de nivelamento serão empregados em programas de recuperação econômica e do nível de 1 2 3 4 5 7 8 106 9 emprego. Na hipótese “de uma variação contrária à tendência secular de desenvolvimento da conjuntura” em que os anos de baixo desempenho superariam em número e intensidade os da conjuntura alta, “[o] resultado seria uma tendência no sentido de sucessiva diminuição do grau de saúde financeira a longo prazo” (p. 187). A proposta de Myrdal estabelece de maneira precisa e organizada um modelo de orçamento cíclico, técnica que contou com vários defensores nas décadas de 1920 e 1930. O interesse no tema praticamente desapareceu com a ampla aceitação das recomendações keynesianas de enfrentamento dos efeitos que ocorrem nas fases baixas dos ciclos. Ocorre que a fórmula keynesiana é apenas parcialmente adequada por não tratar devidamente, como visto anteriormente neste capítulo, dos efeitos das medidas anticíclicas nas finanças públicas, questões que estão no centro das propostas de orçamentos cíclicos. Este livro foi elaborado em meio a uma severa recessão econômica no Brasil, produzida em grande medida pelo desajuste nas finanças públicas.42 Nas últimas duas décadas, o fortalecimento da atuação do Estado deu--se por meio de despesas correntes, cujo aumento em proporção superior ao crescimento do PIB se acentuou nos últimos anos com o incremento que o boom do comércio exterior provocou nas receitas de todos os níveis governamentais.43 A ordem jurídico-institucional praticada no País utiliza leis ordinárias, em alguns casos a própria Constituição, na criação de estruturas administrativas, programas e atividades meios e finalísticas, transformando praticamente de execução obrigatória todo o orçamento corrente. O “superávit” – nos termos de Myrdal – obtido no período do boom foi em parte utilizado no financiamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas em boa proporção na expansão das despesas correntes. Com o fim do ciclo das commodities, a rigidez dos gastos orçamentários em seus componentes principais – servidores ativos e inativos, previdência social, gastos mínimos obrigatórios em saúde e educação e despesas operacionais essenciais –, não permitiu o ajuste das despesas à queda da arrecadação e, com isso, o setor público vem acumulando enormes déficits fiscais. Se as velhas lições dos defensores dos orçamentos cíclicos, especialmente a de Gunnar Myrdal, tivessem sido assimiladas pelas autoridades responsáveis, os resultados certamente teriam sido outros. A experiência brasileira recente, infelizmente, parece comprovar o desencantado prognóstico de A. E. Buck (1963, p. 189) que, em escrito publicado originalmente em 1936, assim previu as possibilidades de implantação do orçamento cíclico: Logo à primeira vista, esta proposta se apresenta como a Meca para a qual os orçamentistas em apuros financeiros deviam recorrer, em busca de conforto e, mesmo, auxílio; o caminho, contudo, está cheio de dificuldades. Dentre elas destacam-se as influências sutis e penetrantes que a instabilidade dos partidos políticos exerce sobre o planejamento financeiro, a falta de estimativas idôneas quanto à extensão e à duração dos períodos alternativos de depressão e prosperidade, e a aparente incapacidade da maioria dos orçamentistas para elaborar programas viáveis que atinjam um futuro remoto. “A intervenção do Estado era uma parte essencial da doutrina mercantilista, que, como disse o professor Laski, transferiu ‘a ideia do controle social, da igreja para o estado’. Aqueles a cujo encargo estava o governo aceitaram as noções mercantilistas e a elas conformaram sua política porque com elas viram o meio de fortalecer o estado absolutista contra os remanescentes do particularismo medieval dentro do país, e no estrangeiro, contra seus rivais” (Roll, 1942, p. 67). De acordo com Adam Smith (1954, p. 5-107), os gastos do soberano ou da república deveriam atender as seguintes finalidades: defender o país e manter a segurança interna; administrar a justiça; construir e manter obras e estabelecimentos públicos; manter estabelecimentos para a educação da juventude; e sustentar a dignidade do soberano e de seu cargo. A escola recebeu a denominação de marginalista em razão da ampla aplicação dos conceitos de utilidade marginal aos processos econômicos. As pessoas adquirem bens porque veem neles utilidade, ou seja, atendem aos desejos e às necessidades humanas. Conforme o princípio da utilidade marginal decrescente, uma quantidade de bens sempre maior não significará aumento da satisfação. Ao contrário, a partir de determinada quantidade de bens adquiridos, cada nova unidade do bem proporcionará grau de satisfação menor do que aquele da unidade anterior. A utilidade do bem para o consumidor decresce a cada unidade adicional (marginal) obtida. Posteriormente, ampliou-se a aplicação do conceito da utilidade marginal para o trabalho, produto (renda), dinheiro etc. Entre os autores italianos de Ciência das Finanças são mencionados, especialmente, M. Pantaleoni, U. Mazzola e A. Vitti di Marco. Das Escolas de Viena e Estocolmo: E. Sax, K. Wicksell e E. Lindahl. No prólogo da quarta edição de seu manual, Stourm (1900, p. 1-4) reclamava do contínuo crescimento dos gastos públicos e, de acordo com os valores liberais da época, lamentava que, em todos os países, eram ineficazes as medidas para conter esse incremento. Como ilustração, apontou o aumento de 80% nas despesas do orçamento inglês entre 1870 e as previsões para 1900. Os percentuais da carga bruta e líquida foram os seguintes: em 1970 (24 e 15%); em 1975 (23,9 e 14,9%); e em 1980 (21,9 e 12,8%). Conforme Musgrave e Musgrave (1980, p. 122), haveria nesses casos um ‘efeito limite’ (threshold effect). “Do ponto de vista do investimento, portanto, bem como da consideração da satisfação a ser assegurada pelas atividades do Estado, podemos concluir que as demandas fiscais do governo aumentarão juntamente com ou na mesma proporção da renda social geral” (Adams, 1909, p. 39). Citado em Peacock e Wiseman (1967, p. 17), Wagner (1890, p. 16) explica assim o centro de seu argumento: “[a] lei de crescimento das atividades estatais é o resultado da observação empírica em países industrializados, ao menos no âmbito da civilização da Europa Ocidental; sua explicação, justificativa e causa é resultado da pressão do progresso social e das mudanças resultantes nas esferas da economia pública e privada, especialmente as medidas compulsórias da economia pública. Mas, a longo prazo, o desejo pelo progresso social superará sempre essas dificuldades financeiras”. Gordon Tullock (1977) duvida que haja correlação entre o tamanho da renda nacional per capita e o tamanho do governo. Para o autor, se isso for verdadeiro, as estruturas de gastos públicos de diferentes países seriam as mesmas caso tivessem o mesmo nível de desenvolvimento econômico. “Embora não tenha havido uma investigação cuidadosa sobre este ponto, eu acredito que iria revelar-se falso” (p. 286). Citado por Burkhead (1971, p. 51), estudo de Gerhard Colm apontou quatro razões para o crescimento das despesas de estados e municípios norte- americanos na década de 1930: “a necessidade de serviços públicos, o desejo por melhores serviços públicos, os recursos disponíveis para utilização pelo governo e o custo dos serviços públicos”. 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 24 25 26 27 28 29 30 31 32 22 23 Parte substancial do incremento de gastos sociais nos países da OECD, na metade da década de 1970, era dirigido para a saúde, educação e programas de manutenção da renda. A maior parte da população de muitos países fazia jus aos benefícios na saúde, metade tinha acesso à educação superior e dez por cento recebiam benefícios na velhice. A public choice é uma escola que defende o uso da análise econômica nos processos políticos e no estudo das decisõesno âmbito das instituições governamentais. Seu principal intérprete, James McGill Buchanan Jr., foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia de 1986. A economia institucional é um ramo do pensamento econômico, defendido por autores norte-americanos, a partir do início do século XX, voltado a questões negligenciadas pelo liberalismo e pela teoria neoclássica como o papel cumprido pelas instituições, os hábitos e as normas sociais, as políticas econômicas e o comportamento das grandes corporações. Entre os destacados autores da corrente estão Wesley Mitchell, Thorstein Veblen, John Commons e, mais recentemente, John K. Galbraith. Além das teorias sobre o comportamento da burocracia e da public choice, consideram-se herdeiras da economia institucional a moderna economia comportamental e o novo institucionalismo de Douglas North. O bureau é qualquer modalidade de organização não lucrativa, financiada, pelo menos em parte, por subvenções ou transferência periódicas (Niskanen, 1971, p. 15). Diferentemente das organizações de mercado que oferecem unidades de produto por um preço, o “bureau promete realizar determinado conjunto de atividades e os produtos resultantes dessas atividades por conta de um orçamento global” (p. 25). Migue e Belanger (1974), citados por Orzechowski (1977, p. 236-7), veem uma inconsistência no modelo de Niskanen, pois, se todo o resíduo for aplicado na expansão da produção, o burocrata não obteria qualquer vantagem com isso. Migue e Belanger preferem defender a hipótese de que o burocrata emprega apenas parte do resíduo no aumento da produção, sendo o restante destinado às despesas que representam vantagens pessoais, aumento de salários, comissões, pagamento aos lobistas que apoiam o bureau etc. De acordo com dados oficiais, o País contava com 55 empresas estatais na década de 1950 e com 560 no ano de 1981, computadas as empresas e suas subsidiárias e coligadas dos três entes da Federação (Martone, 1982, p. 61). Na metade da década de 1970, em meio aos dois choques de preços do petróleo, a carga tributária global chegou a 25% do PIB. Dois exemplos de medidas redistributivas planejadas foram: (a) a inclusão como beneficiários de aposentadoria pela previdência social de trabalhadores rurais mesmo que não tenham contribuído; e (b) a adoção, nos governos do Partidos dos Trabalhadores (PT), de correção anual acima da inflação dos valores do salário mínimo. Nem sempre a correção de distorções dependerá de ações alocativas no âmbito do orçamento. Por exemplo, o exercício monopolístico por parte de empresa determinaria a aprovação de lei de regulação que proíba a prática e favoreça as condições de concorrência. No caso de bens públicos e de bens meritórios é importante considerar a diferenciação entre a produção e a provisão dos bens. O plano orçamentário contempla recursos tanto para a produção de bens por parte da administração pública como para a provisão, caso em que organizações do setor privado, mediante contratação, produzem os bens. Entre os inúmeros exemplos de bens públicos contratados estão as obras públicas dos mais diversos tipos e os armamentos de defesa; entre bens meritórios providos pelo Estado estão os medicamentos a serem distribuídos gratuitamente, as bolsas de estudos, a merenda escolar, os serviços de saúde pública fornecidos pela rede particular etc. Musgrave e Musgrave (1980) recomendam que os custos e os benefícios pecuniários não sejam considerados. No exemplo citado, os benefícios pecuniários poderão ser de diversas ordens: crescimento dos rendimentos de produtores e empregados, aumento do valor das propriedades, incremento da receita tributária dos governos etc. (p. 148). Paul Hugon (1945) prefere substituir a expressão benefício por lucro: “[...] o imposto como sendo a contribuição paga pelos particulares ao Estado em troca de lucros, serviços, vantagens, que obtêm da ação pública. É uma espécie de seguro pago pelos cidadãos ao Estado pela sua segurança” (p. 15-6). A mesma ideia de agregar os dois princípios foi proposta pelo pioneiro inglês no estudo da economia política, William Petty, em publicação de 1677: “[...] geralmente todos concordam que os homens devem contribuir para as despesas públicas, mas somente na proporção de sua participação e interesse na paz pública; isto é, de acordo com suas propriedades e riquezas” (citado em Musgrave, 1976, p. 94-95). Para o caso brasileiro, ver o tema da não afetação das receitas tratado no Capítulo 6, Seção D.4, e no Capítulo 8, Seção D.1.c. Lei no 5.172, de 25-10-1966 (Código Tributário Nacional): art. 77, caput. Ainda no caso brasileiro, enquadra-se no princípio do benefício o tributo contribuição de melhoria, criado com o objetivo de cobrir o custo de obras públicas de que decorra da valorização nos imóveis. O tributo é pouco utilizado em face das dificuldades na caracterização da valorização imobiliária e das demandas jurídicas propostas pelos contribuintes. Dalton (1970) reconhece que hipóteses como essas sofrem restrições por suas limitações teóricas, mas defende a “(...) suposição que, pelo menos nos países civilizados, a equidade exige e os políticos e os administradores, pelo menos, devem adotar” (p. 95-6). Em países desenvolvidos, onde as rendas e as riquezas passam pelo sistema financeiro, a capacidade de pagamento dos contribuintes será melhor conhecida. O mesmo não ocorrerá em países em desenvolvimento, pois parte da movimentação financeira não sofre registro. No caso brasileiro, apesar do sistema financeiro desenvolvido, parcelas dos rendimentos de capital são sempre considerados de difícil apuração. “Os Estados, assim como os entes privados, têm, em todos os momentos e em todos os países, tomado empréstimos de mil maneiras: sob a forma aperfeiçoada de empréstimos de longo prazo, sob a forma insidiosa do curso forçado da moeda, por formas primitivas de empréstimos em penhor, de alienações de impostos, antecipações sobre o penhor, contas em atraso etc.” (Leroy-Beaulieu, 1908, p. 242). “Por volta de 1690, os britânicos tinham instituído o Banco da Inglaterra (...) e fundado a dívida pública – quer dizer, penhorado específicas rendas para garantir o pagamento de suas dívidas. Durante o século XVIII, isto havia expandido vastamente a dívida pública. Longe de enfraquecer o país, produziu benefícios contínuos. O crédito público havia permitido à Inglaterra construir a Marinha Real, travar guerras ao redor do mundo, para manter o império comercial mundial” (Chernow (2004, p. 288) citado por Octaviani (2011, p. 1190). Entre os franceses entusiastas do endividamento público, Leroy-Beaulieu (1908, p. 262) cita os filósofos Voltaire e o Marques de Condorcet. O filósofo idealista irlandês George Berkeley chamava os débitos públicos de ‘mina de ouro’. O economista Jean François Melon de Pradou defendia os empréstimos com o duvidoso argumento de que débitos contratados pelo governo são compromissos que a mão direita tem com a esquerda, na medida em que são compensados na forma de juros pagos aos rentistas pelos contribuintes de impostos. Say (1983) manifestou-se favorável a empréstimos públicos moderados desde que os recursos fossem empregados em empreendimentos úteis e representassem a aplicação de “[...] pequenos capitais pertencentes a mãos pouco industriosas e que, se não lhes fosse oferecido esse investimento fácil, murchariam nos cofres ou gastar-se-iam gota a gota” (p. 448). Em face desses argumentos, Ricardo escreveu: “Penso que Mr. Malthus é o único homem na Inglaterra que esperaria tais efeitos dessa causa” (Burkhead, 1971, p. 565) . A dívida inglesa foi reduzida de 850 milhões de libras em 1817 para 707 milhões em 1914. Os conflitos bélicos explicavam em parte essa elevada dívida. A Guerra da Crimeia exigiu empréstimos de 35 milhões de libras e a dos Bôeres, cerca de 140 milhões (Dalton, 1970, p. 219). 34 35 36 3738 39 40 43 33 41 42 A primeira edição do livro foi publicada em 1890. Hugh Dalton (1970), inglês, assim como Keynes, escreveu: “A nova maneira de encarar a política orçamentária deve mais a Keynes que a qualquer outro autor. É justo, portanto, falarmos da revolução keynesiana. Outros já executaram e aperfeiçoaram as ideias por ele lançadas, mas o que ele lançou foi uma das revoluções intelectuais de nossa era na Economia” (p. 263) (itálicos no original). O posto central de crítico à teoria clássica é reservado a Keynes, mas como observa Galbraith (1989) “[u]m dos traços notáveis desta revolução foi o número de pessoas que a haviam antecipado. Havia keynesianos muito antes de Keynes” (p. 200). O multiplicador do investimento indica que, quando se produz um acréscimo no investimento total, a renda sobe em um montante igual ao multiplicador vezes o acréscimo do investimento (Keynes, 1964, p. 117). A teoria do déficit orçamentário sistemático é atribuída ao inglês Willian Beveridge e alicerça-se nas recomendações de Keynes visando retirar a economia da estagnação. Beveridge considera que o Estado deve desenvolver as despesas políticas sem se preocupar com o déficit até que o pleno emprego produtivo seja alcançado, ou seja, onde não há mais desempregados (exceto uma reserva incompressível fixada em cerca de 3%) (Duverger, 1971, p. 238). No Brasil, essas políticas estiveram presentes nos governos de Getúlio Vargas (década de 1950) e de Juscelino Kubitschek (1956 a 1961) e durante o período militar (1964 a 1985). O estudo de Gobetti e Orair (2017), dedicado a depurar as estatísticas oficiais de inconsistências como a utilização de ingressos extraordinários no cômputo da receita primária, demonstra que, no período entre 2009 e 2013, os superávits primários foram sempre menores do que os apresentados oficialmente; em 2014, inicia a série de déficits primários. De acordo com Mitchell (1984, p. 9), “[e]ntre 1890 e 1910, os Estados Unidos tiveram cinco períodos de reativação econômica, precedidos de períodos de depressão: meados do verão de 1891, primavera de 1895, meados do verão de 1897, outono de 1904 e inverso de 1908/09. Na Inglaterra, França e Alemanha também ocorreram períodos semelhantes em 1895, 1904/05 e 1909”. Alvin Hansen (1941, p. 18-19) computou 17 ciclos econômicos nos Estados Unidos entre 1795 e 1937. Os ciclos de maior duração variaram de um mínimo de seis anos e um máximo de 12, e os ciclos de menor duração ficaram na faixa compreendida entre dois e seis anos. Gunnar Myrdal (1898-1987) foi um acadêmico, político e ministro de Estado sueco. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 1974. O PIB real apresentou crescimento positivo de 0,5% em 2014 e negativo de 4,6 e 4,4%, respectivamente, em 2015 e 2016. O Brasil foi um dos beneficiados pelo chamado boom das commodities que, no período de 2000 a 2014, favoreceu os países exportadores de produtos agrícolas e minérios, com alta de preços e grande demanda, especialmente por parte da China. No período entre 2004 e 2011, o crescimento médio real do PIB brasileiro foi de 4,4%, com a expressiva taxa de 7,5%, em 2010. O orçamento é um programa, um plano de ação (Jèze, 1922, p. 8). Orçamento de desempenho é o “[...] que apresenta os propósitos e objetivos para os quais os créditos se fazem necessários, os custos dos programas propostos para atingir àqueles objetivos e dados quantitativos que meçam as realizações e o trabalho levado a efeito em cada programa”.1 Em qualquer organização, o documento que estabelece os objetivos e metas a serem atingidos e que define os recursos financeiros necessários é um plano gerencial. Machado Jr. (1962, p. 5) encontra em Manvel (1943, p. 1) o mesmo conceito: “o orçamento é um plano que expressa, em termos de dinheiro para um período de tempo definido, o programa de operações do governo e os meios de financiamento desse programa”. Nem sempre o orçamento público esteve orientado para a gestão, para a administração. No período compreendido entre a sua criação e consolidação até o final do século XIX, o orçamento era interpretado como um instrumento de controle financeiro e, mesmo, político. O pensamento econômico clássico e as finanças públicas liberais reservavam ao Estado funções limitadas e os orçamentos aprovados pelos parlamentos estavam a serviço daqueles poucos objetivos. O crescimento do Estado e de suas formas de atuação alteraram o entendimento sobre as finalidades desempenhadas pelos orçamentos. Mesmo não deixando de lado o controle político e financeiro, o orçamento precisaria representar, também, as novas e inúmeras responsabilidades assumidas pela administração pública. Isso só seria possível com sistemas orçamentários apropriados. Nos Estados Unidos, ao iniciar-se o século XX, o controle das decisões financeiras, inclusive a elaboração do orçamento, ainda estava sob a responsabilidade dos legislativos, tanto no nível federal como nos estados e municípios. Alterar essa realidade seria mais difícil e demorada no governo federal e, assim, os primeiros movimentos reformistas ocorreram na esfera municipal. No período de 1880 a 1920, o acelerado processo de industrialização do país alterou a distribuição da população – da área rural para a urbana – e chamou grandes levas de imigrantes, produzindo acentuado crescimento das cidades e das demandas junto aos governos locais. A organização das finanças e a elaboração de um orçamento que representasse efetivamente as ações dos órgãos municipais seriam passos indispensáveis para enfrentar a nova realidade. O Bureau de Pesquisa Municipal de Nova York, criado em 1906, ocupou posição de destaque pelo pioneirismo dos estudos realizados e por suas recomendações, entre elas, a elaboração de um orçamento para a prefeitura, a utilização de unidades de custos e demonstrações do trabalho proposto e realizado, em lugar da tradicional utilização de objetos de despesa – line-item – (salários, materiais, equipamentos, serviços etc.).2 Mesmo com a resistência dos conselhos municipais em ceder espaço nas decisões sobre o orçamento, a crise financeira decorrente da perda da receita com a proibição de venda de bebidas alcoólicas e o apoio das classes empresariais contribuiu para a adoção de novos sistemas orçamentários municipais. Na metade da década de 1920, a maior parte das grandes cidades norte-americanas tinham realizado a reforma de seus procedimentos financeiros e implantado um sistema orçamentário (Burkhead, 1971, p. 19-20).3 Na área federal, desde a Independência, a concentração nas comissões do Congresso do poder de alocar os recursos orçamentários não favorecia a adoção de métodos adequados de previsão dos recursos e de avaliação das aplicações. Longos períodos de superávits orçamentários permitiam ineficiências nas alocações e desperdícios de toda ordem. As despesas nas unidades do governo eram realizadas desvinculadas das dotações, com a garantia de que suplementações seriam aprovadas pelo Congresso. Os déficits orçamentários passaram a ser realidade nos anos iniciais do século XX sem que o Congresso obtivesse êxito em restringi-los. Para Burkhead (1971, p. 16-17), “[...] a prática destes era apenas um dos aspectos de uma administração financeira, de modo geral inadequada e negligente, não podendo ser tratado isoladamente. O movimento a favor de uma reforma nos procedimentos financeiros ganhou forte impulso com a criação da Comissão de Economia e Eficiência por iniciativa do presidente Taft”. No período de 1910 a 1912, a Comissão apresentou uma série de recomendações, entre elas, a que enfatizava a necessidade do orçamento como um programa financeiro anual, elaborado por inciativa do presidente.4 Apesar de a proposta não ter sido aprovada imediatamente, os trabalhos da Comissão obtiveram amplo reconhecimento, transformandoo orçamento em assunto de importância nacional. Como resultado das discussões travadas em todos os âmbitos, em 1921, o Congresso norte-americano aprovou a Lei de Orçamento e Contabilidade, estabelecendo o orçamento do tipo executivo, ou seja, a prerrogativa de o presidente propor o projeto de lei orçamentária anual. Reconhecia-se que o poder executivo, mais do que o Congresso, tinha as condições de avaliar as necessidades financeiras e orçamentárias de um setor público complexo comprometido com inúmeras funções e responsabilidades. As administrações estaduais, mesmo sem os mesmos problemas do governo central e dos municípios, aproveitaram a onda reformista, especialmente a notoriedade alcançada pela Comissão de Economia e Eficiência, e adotaram o orçamento do tipo executivo. De acordo com Buck (1921, p. 7-9), no ano de publicação de seu estudo, dos 46 estados, em 24, os orçamentos poderiam ser classificados como do tipo executivo, sendo o governador o responsável pelo projeto inicial.5 Dotar o poder executivo da prerrogativa de propor o projeto anual de orçamento significou um grande avanço para a administração pública norte-americana. Nessa mesma época, todos os chefes de governo de países organizados, desde há muito tempo detinham a iniciativa de elaborar a proposta de lei orçamentária.6 Vencida essa etapa, a questão passava a ser outra: no formato como era elaborado e apresentado, o orçamento atenderia as necessidades de um setor público de enorme porte e encarregado de múltiplas funções? As recomendações do Centro de Pesquisas Municipais de Nova York e da Comissão de Economia e Eficiência do presidente Taft para que os orçamentos representassem o trabalho a ser realizado não produziram efeitos imediatos. Em meados da década de 1930, em plena Grande Depressão, há registros sobre um pioneiro orçamento por projetos e escalas de atividades no Departamento de Agricultura do governo federal. Maior reconhecimento recebeu, na mesma época, o orçamento por programas e realizações da Administração do Vale do Tennessee (TVA).7 A aceitação dessas inovações incentivou outros órgãos federais a adotar formatos próximos ao orçamento por programas durante e após a Segunda Guerra Mundial. Esses eventos serviram como embriões da reforma dos sistemas orçamentários, que inicia com o chamado Orçamento de desempenho, proposto pela primeira Comissão Hoover, em 1949. Mais do que estabelecer modelos normativos acabados, o processo de reforma caracteriza-se pela construção de um modelo “ideal” de sistema orçamentário por meio de propostas e recomendações, algumas bem- sucedidas, outras nem tanto. No Quadro 4.1, estão indicados os estágios da reforma do sistema orçamentário norte-americano. O caminho percorrido não foi linear, compreendendo, como é próprio nas mudanças, expectativas nem sempre realistas, pressa na implantação, despreparo dos envolvidos, avanços e recuos, êxitos e desistências.8 A seguir, ainda que de maneira breve, cada um dos estágios é descrito e comentado. O orçamento público é uma instituição criada e desenvolvida na sua fase inicial por iniciativa parlamentar. Nos países europeus, onde o sistema imediatamente se difundiu, a elaboração orçamentária passou a ser responsabilidade dos governos que detinham a maior parte das informações financeiras relevantes. Surgiu, assim, o orçamento do tipo executivo. Nos Estados Unidos, o Congresso e os conselhos estaduais e municipais resistiram em ceder poder sobre o orçamento, e a iniciativa da matéria por parte do executivo, como viu-se anteriormente, acabou sendo assumida bem mais tarde. Elaborado por um ou por outro poder, a ênfase era dada ao controle sobre a origem e a aplicação dos recursos financeiros. Quadro 4.1 Estágios da reforma orçamentária Representando um avanço em relação aos orçamentos primitivos, aprovados em montantes globais, o sistema de classificação das despesas por objeto – line-item – representou um avanço ao destacar os insumos empregados na realização de serviços e bens públicos: pagamento de salários, compras de materiais de consumo, permanente e equipamentos, aquisição de serviços prestados por pessoas ou empresas etc. Apesar de pioneiro, o sistema continua sendo adotado em todo o lugar, e Tyer e Willand (1997, p. 195) explicam assim as razões: (a) é relativamente fácil de usar e compreender; (b) é atrativa politicamente porque não foca nas escolhas e temas substantivos; (c) concentra o controle sobre insumos e dinheiro antes de serem usados; (d) são uniformes, abrangentes e exatos; (e) permitem que rotinas sejam adotadas; (f) proporcionam oportunidades para o controle, como no caso de compras e contratação de pessoal; e (g) possibilitam os cortes orçamentários. Nas administrações municipais, Buck (1951, p. 31) observa que a introdução do objeto de despesa – line-item – na organização do orçamento passou a favorecer o controle contábil e a fiscalização. No passado, nas cidades pequenas e médias, com poucas funções e compromissos relativamente simples, esse sistema atendia as necessidades já que nem a atuação dos administradores nem a fiscalização eram prejudicadas ou sofriam restrições. A realidade na metade do século XX, entretanto, passou a ser muito diferente: “[a] administração municipal tornou-se complexa e onerosa, exigindo maior flexibilidade na utilização de recursos para conseguir uma gestão econômica e eficiente. As dotações atribuídas a funções ou programas, em vez de uma multiplicidade de objetos, correspondem, por conseguinte, tanto às responsabilidades como às necessidades da administração atual” (Buck, 1951, p. 31). Chamando a atenção para as limitações do orçamento por objeto de despesa, Upson (1924, p. 72), citado em Tyer e Willand (1997, p. 195), observa que “o funcionário médio municipal olhando para o orçamento não encontra nada que o habilite a determinar em grande medida o valor das atividades que são entregues ao público; ou, em menor medida, o grau de eficiência com que essas atividades são conduzidas”. Com o final da Segunda Guerra Mundial, a burocracia norte-americana organizada para os tempos do conflito precisou ser reformada e adaptada para atender as necessidades da administração civil. Nomeada em 1947, a Comissão sobre a Organização do Poder Executivo, conhecida como a primeira Comissão Hoover, produziu inúmeras recomendações, entre elas, a adoção do orçamento baseado em funções, atividades e projetos, denominado Orçamento de desempenho. Conforme o estabelecido pela Comissão (GAO, 1997, p. 30), [n]o orçamento do desempenho – performance budget –, a atenção é centrada na função ou na atividade – na realização da finalidade – em vez de em listas de empregados ou autorizações das compras[...]. Este método de orçamentação concentra a ação congressional e a direção executiva no escopo e na magnitude das diferentes atividades federais. Torna mais claros para o Congresso e para o público as realizações e os custos. O orçamento para o exercício de 1951 foi considerado o primeiro Orçamento de desempenho e, apesar das muitas limitações, significou uma mudança sensível em relação aos anteriores, especialmente no estabelecimento de compromissos por atividades. A segunda Comissão Hoover, criada em 1953, analisando as experiências anteriores “[...] observou que muitos programas não dispunham de informações adequadas sobre os custos e sugeriu a uniformização das atividades orçamentárias e dos padrões organizativos e o estabelecimento das contas que reflitam esse padrão; e que haja sincronização entre as classificações orçamentárias, a organização e as estruturas contábeis” (GAO, 1997, p. 33). Schick (1966, p. 250) observaque o “[o]rçamento de desempenho é orientado para a gestão; seu principal objetivo é ajudar os administradores a avaliar a eficiência do trabalho das unidades operacionais (1) classificando as categorias orçamentárias em termos funcionais e (2) fornecendo as medidas de custo do trabalho para facilitar o desempenho eficiente das atividades estabelecidas. Geralmente, seu método é particularista, com a redução de dados de custo--trabalho para unidades discretas e mensuráveis”. Afora as influências que as Comissões Hoover provocaram na administração pública norte-ame-ricana não só federal, a técnica do Orçamento de desempenho recebeu grande reconhecimento fora dos Estados Unidos como resultado do trabalho de divulgação promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Inúmeros manuais foram elaborados e divulgados, bem como promovidos cursos para a formação de pessoal técnico de muitos países.9 Na América Latina, sob a denominação de Orçamento--programa, a técnica foi impulsionada pelos programas de treinamento realizados pelo Ilpes/Cepal.10 No Brasil, os estados do Rio Grande do Sul e da então Guanabara realizaram experiências de adoção do Orçamento-programa na década de 1960 e o estado de Minas Gerais no início da década seguinte.11 Foram várias as razões da descontinuidade dessas iniciativas no Brasil, entre elas a ausência de normas legais e, principalmente, operacionais, que induzissem e incentivassem avanços na implantação das novas técnicas. A Lei no 4.320/64 poderia, mas deixou de ser a oportunidade para maiores avanços nesse sentido. Em agosto de 1965, o presidente norte-americano Lyndon Johnson por meio de memorando determinou que fosse adotada pelos departamentos civis do governo federal a técnica de elaboração orçamentária denominada Sistema de planejamento, programação e orçamento – Planning, programming, budgeting system (PPBS). O Program budgeting, como era também conhecido, resultou do aperfeiçoamento de modelos de elaboração orçamentária na área militar praticado durante a Segunda Guerra Mundial.12 Com incentivo do secretário de Defesa, Robert Mc-Namara, e com o apoio técnico da Rand Corporation, importante empresa de consultoria, o sistema no seu desenvolvimento beneficiou-se da difusão dos computadores e das novas tecnologias de processamento de dados, que facilitavam as análises econômicas e os cálculos de custo-benefício, pesquisa operacional e análise de sistemas. De acordo com Novick (1973a, p. 16), um dos importantes técnicos envolvidos no aperfeiçoamento da técnica, “[e]m resumo, o program budget (PPBS) é caracterizado pela ênfase nos objetivos, programas e elementos dos programas, tudo expresso em termos de produtos. O custo, ou o objeto de despesa do orçamento tradicional, é tratado em apropriado nível de agregação de maneira a garantir que os planos e programas sejam desenvolvidos com adequado reconhecimento das implicações financeiras”. Importante aspecto da técnica assentava-se na ideia de que a elaboração orçamentária não é um momento estanque, mas, sim, parte de um sistema, do qual faz parte o planejamento. Para Tyer e Willand (1997, p. 198), os componentes do sistema eram conhecidos e a singularidade estava na combinação e na relação entre eles. As finalidades de cada parte seriam as seguintes: “O planejamento estabeleceria os objetivos e os programas para alcançá-los. A programação ajudaria na administração de esforços para cumprir eficientemente os objetivos. A orçamentação realizaria as estimativas financeiras dos recursos necessários às agências para executar os planos”. O PPBS foi recebido com muita atenção, inclusive fora dos Estados Unidos.13 A divulgação dada aos esforços de implantação da técnica no governo federal, interessaram, também, às outras unidades de governo. A Fundação Ford chegou a promover o Projeto 5-5-5, com o objetivo de testar a implantação do PPBS em cinco cidades, cinco condados e cinco estados (Tyer; Willand, 1997, p. 198). Após três anos de implantação da técnica, especialista do órgão de orçamento federal recomendou restringir as expectativas em relação ao PPBS em razão de certas realidades do ambiente federal, especialmente: (a) a demanda por recursos é sempre superior às disponibilidades; (b) compromissos assumidos no passado limitam os orçamentos correntes, diminuindo o controle sobre a alocação de recursos; (c) a complexidade e o tamanho do governo federal dificultam o emprego de técnicas de mensuração dos programas e retardam a implantação de novas ideias; (d) muitas vezes, reivindicações trazidas ao governo federal não se justificam na relação custo-eficácia ou eficiência; (e) a alocação de recursos não está conectada ao planejamento, pois essas atividades atendem a diferentes necessidades e respondem a diferentes prazos; e (f) uma vez aprovado o orçamento, é mínima a responsabilidade para o desempenho (GAO, 1997, p. 40). Para Havens (1983, p. 303), foram válidas a maioria das críticas dirigidas ao processo administrativo do PPBS. A implantação inicial foi inadequada, bem como desconsiderados a natureza e os requisitos do processo orçamentário. Planejamento e orçamento nunca chegaram a estar conectados. Além disso, ao serem excluídos, os técnicos tradicionalmente envolvidos com o orçamento levaram consigo a fonte vital de conhecimento e de compreensão do mundo real da alocação de recursos. O PPBS não chegou a ser oficialmente abandonado no governo federal norte-americano; foi descontinuado aos poucos no mandato presidencial seguinte. Para Havens, isso pode ser interpretado como metamorfose e não morte. Técnicos dos órgãos de orçamento aprenderam a utilidade de importantes elementos do PPBS, tais como a ligação crucial entre a informação sobre os programas e o processo decisório; as análises de custo-benefício; as implicações além do exercício no caso dos investimentos etc. Allen Schick e Aaron Wildavsky foram críticos severos do PPBS. Para o primeiro, o sistema efetivamente morreu em decorrência de múltiplas causas, entre elas: (a) a maneira como foi implantado, sem debates e preparação; (b) desrespeito e desconsideração com as tradições orçamentárias e as relações pessoais; (c) falta de suporte, recursos e pessoal em número adequado; e (d) deficiência de bons analistas e de dados (Schick, 1973, p. 148-49). As conclusões de Wildavsky (1974, p. 205) foram ainda mais duras: “PPBS falhou em todos os lugares e em todos os momentos. Em nenhum lugar o PPBS (1) foi estabelecido e (2) influenciou decisões governamentais (3) de acordo com seus princípios. As estruturas do programa não fazem sentido para ninguém. Eles não são, de fato, usados para tomar decisões de qualquer importância. Os tais produtos de PPBS não são notadamente superiores em qualidade analítica ou desejabilidade social do que foi feito antes”. Assim como o PPBS, o Orçamento base-zero não é um sistema orçamentário e, sim, um modelo dirigido à avaliação e à tomada de decisões sobre as despesas. Wildavsky (2002, p. 320) defende a seguinte distinção entre os dois modelos: com abrangência horizontal, o PPBS compara pacotes de despesas alternativas e escolhe o que melhor contribui para o alcance dos objetivos programáticos. Com abrangência vertical, todos os anos o OBZ considera despesas alternativas a partir do zero para todas as atividades governamentais. “Resumindo, o PPBS compara programas e o OBZ compara fundos alternativos”. Concebido para uma grande empresa do setor de tecnologia – Texas Instruments −, o OBZ foi adaptado para aplicação na administração do Estado norte-ame-ricano da Georgia.14 Em meados da década de 1970, o ex-governador daquele estadoe então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, estabeleceu como meta reformar o sistema orçamentário federal, por ele considerado “ineficiente, caótico e virtualmente incontrolável, tanto por parte do Presidente como do Congresso” (GAO, 1997, p. 46), por meio do emprego de nova ferramenta por ele testada quando governador. Pyhrr (2006, p. 140-41) indica as quatro etapas básicas para o funcionamento do OBZ em qualquer organização: (a) identificação das unidades de decisão; (b) análise de cada unidade de decisão como parte de um pacote de decisão; (c) avaliação e classificação dos pacotes de decisão em prioridades; e (d) preparação de orçamentos operacionais, com a indicação dos pacotes de decisão aprovados. Unidades de decisão são todos os “elementos significativos” a serem considerados na tomada de decisões orçamentárias, podendo ser tanto as unidades orçamentárias ou centros de custos, como os programas, subprogramas e seus componentes e os grandes projetos de investimentos. O pacote de decisão identifica cada unidade de decisão, possibilitando à gerência avaliá-la e classificá-la em relação às demais unidades que competem por recursos e decidir sobre a sua aprovação ou não. Fazem parte do pacote de decisão informações sobre: (a) propósito/objetivo; (b) o que será realizado e como; (c) custos e benefícios; (d) medidas de carga de trabalho e de desempenho; (e) alternativas para o alcance dos objetivos; e (f) benefícios resultantes de vários níveis de fundos. Para o criador do modelo é um erro associar a denominação base-zero com “reinventar a roda”, ou “o processo de jogar tudo fora e começar do princípio”, pois isso seria impraticável e representaria o caos. Orçamento base-zero significa, na realidade, avaliar todos os programas. Em certas situações, alguns poderão ser redirecionados ou descontinuados, mas, na maior parte dos casos, haverá a incorporação de aperfeiçoamentos e melhorias nos programas existentes (Pyhrr, 2006, p. 150-51). Estudo do GAO (1997, p. 48-49) relata o desencanto de observadores com os resultados do OBZ no primeiro ano. A papelada aumentou em média 229% e as muitas horas dedicadas pelos gerentes de programas, técnicos do orçamento e gerentes superiores ao novo processo talvez não tenham trazido resultados úteis. Os prazos para a implementação da nova iniciativa foram vistos como inadequados por muitos órgãos, e funcionários envolvidos eram de opinião de que faltava informação de desempenho necessária. Nos anos restantes da administração Carter, o OBZ foi recebendo menos atenção até ser abandonado já no início do novo governo. Para o GAO (1997, p. 49), alguns requisitos do OBZ continuaram em vigor por mais tempo: a identificação das unidades de decisão e a preparação das classificações consolidadas até 1886 e a identificação de três níveis de financiamento, até 1994. Diversos estados e municípios norte-americanos realizaram experiências de implantação do OBZ.15 De acordo com Wildavsky (2002, p. 322), “[e]m nenhum lugar é praticado o verdadeiro orçamento de base-zero”. Lembrando que a base pode corresponder de 80 a 90% das despesas, o autor não acredita que o OBZ possa justificar a realização da maioria das atividades ou apoiar alguma outra atividade. Na mesma linha crítica, Anthony (1983, p. 344) pondera que o benchmark “zero”, na realidade, deve iniciar em 80%, que é o tamanho da base, e conclui de maneira duríssima: “[c]olocando sem rodeios, a denominação orçamento base-zero é uma fraude”. A complexidade representada pela adoção plena do OBZ levou ao uso de fórmulas parecidas com outras denominações. O Orçamento base-meta – Target-base budgeting (TBB) – não parte do reexame detalhado dos gastos e cada unidade de decisão deve elaborar o seu orçamento com base em um montante de recursos previamente definido, por exemplo, 90% do que foi gasto no exercício anterior. Especialmente nas administrações locais em crise fiscal, era possível encontrar modelos de elaboração orçamentária que tratavam de reduzir as despesas. Seriam orçamentos decrementais ou orçamentos com base na receita – revenue budgeting – conforme a denominação consagrada por Wildavsky (2002, p. 19-20). Em publicação de 2011, a Associação de Dirigentes Governamentais de Finanças – Government Finance Officers Association – afirmava que “[n]o entanto, o OBZ puro pode ter desaparecido em grande parte, mas não foi esquecido; os vestígios continuaram vivos. Na verdade, o OBZ parece estar experimentando um tipo de ressurgimento” (GFOA, 2011). 16 A reforma orçamentária inaugurada no início dos anos 1950 avançou nas décadas seguintes tentando diferentes rotas, com resultados muitas vezes decepcionantes. Em todos os modelos testados, um componente revelou-se fundamental: as medidas de desempenho. No final da década de 1980, os déficits orçamentários, a carga tributária, a baixa qualidade dos serviços públicos, o desapontamento com os resultados da atuação governamental nos vários níveis, alimentavam um amplo debate nacional e ajudaram a dar visibilidade a movimentos como a Nova Administração Pública – New Public Administration – e Reinventando o Governo, este, de enorme notoriedade a partir da publicação do livro de Osborne e Gaebler (1994). Com menor porte e complexidade, os estados e municípios estadunidenses introduziam inovações na elaboração e gestão orçamentária, as quais, no entendimento de Rubin (1990, p. 181), citada em Tyer e Willand (1997, p. 201), seriam “[...] hibridizadas e adaptadas pelo governo federal”. 1. 2. 3. 4. 5. 6. O governo federal norte-americano, entretanto, estava devendo avanços significativos nas práticas administrativas e orçamentárias. A gestão Clinton-Gore buscou responder aos desafios com o anúncio, em setembro de 1993, do programa denominado Revisão do Desempenho Nacional – National Performance Review (NPR). De acordo com Carrol (1995, p. 303), o NPR “[...] é teoria, prescrição e ação administrativa. Os objetivos administrativos declarados são desregulamentar a administração reduzindo a burocracia, capacitando os funcionários da linha de frente para produzir resultados, satisfazendo os clientes dos programas e reduzindo os custos administrativos”. O programa estava centrado mais em como o governo trabalha do que o que o governo faz. Após a eleição para o Congresso em novembro de 1994, foi anunciada a segunda etapa do NPR, esta voltada para o que o governo realiza.17 Aos desafios, a reação do Congresso norte-america-no foi igualmente proativa com a aprovação, em agosto de 1993, da Lei de Desempenho e Resultados do Governo – Government Performance and Results Act (GPRA).18 A Lei estabelece, entre outros, os seguintes objetivos: (a) aumentar a confiança da população responsabilizando cada agência federal com a realização dos resultados de seu programa; (b) iniciar a reforma do desempenho com uma série de projetos-piloto na definição dos objetivos e na medição do desempenho do programa; (c) promover um novo enfoque nos resultados, na qualidade do serviço e na satisfação da população interessada; (d) melhorar a tomada de decisões do Congresso fornecendo informações mais objetivas sobre a consecução dos objetivos e sobre a eficácia e a eficiência dos programas e das despesas federais; e (e) melhorar a gestão interna do governo federal. Entre os principais instrumentos e medidas introduzidos pelo GPRA, devem ser mencionados os seguintes: Planos Estratégicos de cada agência federal, com duração de no mínimo cinco anos e atualizados e revistos, no mínimo, a cada três anos, e planos anuais de desempenho do governo como um todo e de cada agência encaminhados ao Congresso, juntamente com o orçamento do ano fiscal. Relatórios Anuais de Desempenho: do governocomo um todo submetido ao Congresso e de cada agência submetido ao Presidente e ao Congresso, comparando o desempenho efetivo do governo e da agência com as metas de desempenho expressas no plano anual. Planos-piloto de Desempenho e de Accountability e Flexibilização Gerencial, executados durante três e dois anos, respectivamente, por agências previamente escolhidas e relatórios posteriores avaliando benefícios, custos e utilidade dos planos de desempenho e as vantagens com o aumento da flexibilidade organizacional e gerencial. Orçamentos de Desempenho Pilotos elaborados e executados por pelo menos cinco agências durante dois exercícios e relatório com avaliação da exequibilidade e da conveniência de adotá-lo como parte do orçamento anual. Princípios básicos e sistemas efetivos de mensuração: Entre outros: (a) unir – link – mensuração à estratégia; (b) mensurar o que é importante; (c) criar uma “família de medidas”; (d) monitorar as coisas certas; (e) conhecer as dimensões críticas dos insumos, processos e produtos; (f) possuir formas de mensuração total; e (g) desenvolver padrões – standards – para cada medida. Categorias de mensuração: (a) a medida de resultado – outcome measure – avalia os resultados de uma atividade programática em comparação com os objetivos pretendidos; (b) a medida de produção – output measure – tabula, calcula ou registra atividade ou esforço podendo ser expressa de forma quantitativa ou qualitativa; (c) a meta de desempenho – performance goal – expressa objetivo de forma tangível e mensurável, inclusive padrão, valor e taxa, contra o qual a realização atual pode ser comparada; e (d) o indicador de desempenho – performance indicator – é um valor ou característica particular utilizado para medir resultado ou produção. O GPRA encarrega o Government Accounting Office (GAO), organismo de controle externo, equivalente ao Tribunal de Conta da União (TCU), da revisão de muitos requisitos da Lei, bem como de avaliar as perspectivas de acatamento, por parte das agências federais, das medidas de implantação a partir de 1997. Por objetivar a vinculação mais estreita e mais clara entre recursos e resultados, o GAO (1997, p. 1) considera que o “GPRA pode ser considerado o acontecimento mais significativo, no ciclo de quase 50 anos de esforços governamentais federais, no sentido de melhorar o desempenho do setor público e relacionar a alocação de recursos e as expectativas de desempenho”. Com o objetivo de melhorar as decisões no âmbito da Presidência e do Congresso, o GPRA determina que as agências federais desenvolvam informações de desempenho, com dados sobre a eficiência e a eficácia de seus programas. Em 2002, na gestão do presidente George W. Bush, o órgão de orçamento da presidência – Office of Management and Budget (OMB), iniciou a implantação do Instrumento para Avaliação e Medição de Programas – Program Assessment Rating Tool (PART), “[...] concebido explicitamente para utilizar as informações de desempenho produzidas pelas agências em resposta ao GPRA” (Gilmour, 2007, p. 5). O processo do PART funcionou no período de 2003 a 2008 e consistiu na aplicação anual de questionário junto às agências e aos responsáveis por programas previamente selecionados pelo OMB. Em geral, as respostas às questões seriam do tipo “sim/ não”, cabendo a forma “não aplicável” apenas nos casos indicados, assim como “pequeno/grande alcance”. As questões estavam distribuídas em quatro categorias, e as respostas resultavam em um escore entre zero e 100, assim distribuídos qualitativamente: eficaz: escore variando entre 85 e 100; moderadamente eficaz: escore entre 70 e 84; adequado: escore entre 50 e 69; e ineficaz: escore entre 0 e 49. No PART de 2008, o questionário era constituído de 25 questões gerais e 18 questões voltadas às especificidades dos programas. As questões estavam distribuídas nas seguintes categorias, cada uma com a respectiva ponderação: (a) finalidade e concepção do programa – 20%; (b) planejamento estratégico – 10%; (c) gestão do programa – 2%; e (d) resultados do programa e accountability – 50%. Muitos dos dados levantados e dos resultados apurados pelo mecanismo ficavam disponibilizados no site <ExpectMore.gov> cuja atualização deixou de ser feita a partir de 2009 com a mudança de governo. Os resultados de investigação sobre o interesse dos congressistas no PART conduzida por Stalebrink e Frisco (2011, p. 1) indicaram 1. 2. que aqueles com maior experiência em negócios eram mais favoráveis ao mecanismo. Por outro lado, o tempo de mandato no Congresso e o montante de contribuições de campanha recebidas dos comitês de ação política estavam negativamente relacionados com o apoio ao PART. Além disso, apesar da grande exposição concedida a esse instrumento, poucos legisladores manifestaram opiniões positivas ou negativas em relação ao mesmo, o que, para os autores, esclarece sobre os desafios de assegurar o apoio do Congresso às iniciativas do executivo na adoção do Orçamento de desempenho. No início de 2011, no primeiro mandato do presidente Obama, entrou em vigor o GPRA Modernization Act de 2010 (Gprama), com a finalidade de atualizar o GPRA de 1993. A nova Lei mantém alguns produtos e processos originais e traz importantes mudanças.19 Em nível das agências do governo federal, o Plano Estratégico, previsto para ser de no mínimo cinco anos, passa a corresponder aos quatro anos do período de mandato do presidente. O Plano de Performance da Agência deve ser encaminhado anualmente ao presidente juntamente com a proposta orçamentária e disponibilizado em website público. Anualmente, também no website, a agência disporá indicadores relevantes do plano anual comparando-os com os resultados alcançados. Ainda em nível das agências governamentais, o Gprama faz novas exigências. A cada dois anos, algumas delas previamente indicadas deverão identificar, junto ao Plano de Desempenho, um pequeno conjunto de metas denominadas “metas prioritárias da agência” com os respectivos responsáveis. A cada quadrimestre, os responsáveis farão relatórios sobre os progressos, com foco principalmente em cada meta prioritária. Anualmente, o OMB determinará as metas de desempenho atingidas e as não atingidas pela agência, com destaque especial no caso das metas prioritárias. As agências são obrigadas, ainda, a elaborar anualmente a lista de todos os planos e relatórios produzidos para o Congresso, por exigência legal ou solicitados por comitês. O GPRAMA traz novas regras a serem observados pelo poder executivo. O OMB desenvolverá junto com as agências “metas prioritárias de longo prazo do governo federal” em duas categorias. Na primeira, metas orientadas para resultados em um número limitado de áreas de políticas que envolvem mais de uma agência e metas voltadas para a melhoria na gestão em todo o governo federal. Na segunda categoria, metas relacionadas a melhorias na gestão financeira, de capital humano, de tecnologia da informação, de aquisições e de gestão de propriedades. O OMB coordenará juntamente com as agências a elaboração do Plano de Desempenho do Governo Federal, que será encaminhado ao Congresso Nacional juntamente com a proposta orçamentária. O Plano estabelecerá uma ou mais metas de desempenho para cada objetivo prioritário do governo federal. Relatórios Quadrimestrais preparados pelo OMB demonstrarão o progresso na consecução de cada objetivo prioritário. O OMB deverá disponibilizar um website, acessível ao Congresso e ao público, para a divulgação dos objetivos prioritários das agências e do governo federal. O Orçamento por resultados (OPR) – Budget for outcomes – na interpretação de Martin (2002, p. 247), é um daqueles casos interessantes, surgidos de tempos em tempos na área pública, onde a “prática ultrapassa a teoria”. Com pouca atenção recebida da literaturasobre orçamento público, não haveria nem mesmo concordância geral sobre a definição do que seja o OPR.20 O entendimento, talvez prevalecente, de que o OPR seria, na realidade, um componente do Orçamento de desempenho não é aceito por Martin (2002, p. 249) porque este último enfatiza as coisas que o governo faz, ou seja, os produtos – outputs – enquanto o OPR destaca os resultados – outcomes. A crítica de Martin deve ser relativizada com a lembrança de que em lugar do Orçamento de desempenho original está o “novo” Orçamento de desempenho reaparecido na década de 1990 e cuja ilustração mais vistosa, o GPRA, inova ao introduzir, entre as unidades de mensuração, o resultado – outcome. Os estágios da reforma orçamentária apontados por Tyer e Willand (1997), e indicados previamente no Quadro 4.1, não contemplam o OPR porque o estudo dos dois autores é anterior à difusão da nova sistemática. Resultado do trabalho de entidades defensoras das teses do movimento Reinventando o Governo e com apoio de consultores, na maior parte não acadêmicos, o OPR passou a ter grande aceitação entre administrações estaduais e locais dos Estados Unidos. Outros países não ficaram alheios a essas inovações. Estudos realizados por Perrin (2002) e Kristensen et al. (2002), patrocinados pela OCDE, fomentam as técnicas de gestão e orçamentação baseadas nos resultados entre os países-membros. De acordo com Diamond (2005, p. 43), levantamento realizado em 2001 apontou que 70% dos países-membros da OCDE incluíam medidas de desempenho em seus orçamentos; cerca de 40% dos países pesquisados faziam a distinção entre as medidas de produtos e de resultados, com 20 países usando relatórios anuais sistemáticos sobre o desempenho em relação aos produtos e 15 países, em relação a metas de resultados. Em documento divulgado em 2008, a Associação de Dirigentes Governamentais de Finanças – Government Finance Officers Association –, importante entidade de especialistas e autoridades, assim define as principais características da técnica: “Orçamento por resultados conecta planejamento estratégico, planejamento financeiro de longo prazo, medidas de desempenho, orçamento e avaliação. No início do processo orçamentário, articula os recursos aos objetivos de tal maneira que o foco central está mais nos resultados do que na estrutura organizacional” (GFOA, 2008). Empregando palavras de ordem como “o governo está quebrado e continuará quebrado”, “obtenha mais resultados do orçamento ou continue perdendo” e “definir o preço e comparar resultados, NÃO custos”,21 os defensores do OPR chamam a atenção dos cidadãos e, por meio destes, buscam sensibilizar os administradores públicos e os políticos. Documento do Urban Institute (2006) apresenta as principais questões envolvidas no Orçamento baseado em resultados. Resumidamente, são as seguintes: Foco nos resultados, não apenas nos insumos e nos produtos; Menor valorização das medidas de desempenho do passado em benefício da orçamentação baseada em resultados; 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. Valorização da orçamentação baseada nos resultados plurianuais, especialmente porque os resultados geralmente ocorrem após os exercícios em que os recursos foram consignados; Conecção dos insumos aos produtos e aos resultados intermediários e finais e conecção dos produtos aos resultados e os resultados intermediários aos resultados finais; Destaque do papel dos indicadores de eficiência; Definição de metas de desempenho nos orçamentos; Utilização de informações explicativas; Fortalecimento da influência do programa sobre os resultados futuros; Utilização da informação sobre desempenho na formulação e na análise das solicitações de recursos; Aplicação da orçamentação baseada em resultados também aos serviços internos de apoio; Utilização da orçamentação baseada em resultados na alocação dos recursos para investimentos; Do “Orçamento por objetivos” para o “Orçamento por resultados”; Adoção de técnicas analíticas especiais para projeções: análises de custo-benefício e custo--eficácia; e O papel da informação qualitativa sobre impactos – outcomes – no orçamento baseado nos resultados. No início deste capítulo argumentou-se que há uma natureza gerencial no orçamento público. No passado, essa natureza não era reconhecida e, ainda que o fosse, não mereceria destaque porque o Estado era pequeno e exercia poucas e limitadas funções. O gigantismo do setor público moderno forçou a reforma orçamentária, que se deu em estágios, mencionados rapidamente nas seções precedentes. Com base nessa evolução é possível propor um modelo de orçamento, não completo, o que seria impossível, mas constituído de alguns de seus componentes principais. Parte do que será apresentado encontra correspondência na realidade, mas, essencialmente, trata-se de um modelo normativo, ou seja, propositivo, formado por recomendações, algumas delas, desafiadoras e de difícil implantação. De acordo com Robinson e Last (2009), na elaboração de um orçamento governamental focado no desempenho é essencial que as decisões sobre a alocação dos recursos considerem os resultados a serem alcançados pelas despesas. Para tanto, dois requisitos essenciais devem estar presentes: “(i) informações sobre os objetivos e os resultados das despesas públicas, sob a forma de indicadores-chave de desempenho e uma forma simples de avaliação de programas; e (ii) um processo de preparação do orçamento destinado a facilitar o uso dessas informações em decisões de financiamento do orçamento, incluindo processos simples de revisão de despesas e das decisões de gastos por parte das autoridades responsáveis” (p. 2). No Brasil, em alguns momentos, o sistema orçamentário modernizou-se, incorporando conceitos e técnicas promovidos por organismos como a ONU e praticados nos países centrais, especialmente, nos Estados Unidos. Na descrição do modelo que aqui será feita, sempre que possível, o caso brasileiro será tomado como referência empírica, com a indicação de aspectos positivos, dificuldades e limitações. Na apresentação do modelo, a seguir, três componentes serão descritos e analisados: (a) estruturação do orçamento baseada em programas; (b) mensuração do desempenho; e (c) mensuração dos custos. Em unidades governamentais de menor porte é possível estruturar o orçamento no formato tradicional, ou seja, consignando os recursos financeiros aos órgãos ou unidades orçamentárias e atribuindo a essas unidades os objetivos e as metas de desempenho. Nas unidades públicas de grande porte, com muitas e variadas funções, haverá a necessidade de planejar e organizar as ações de acordo com os objetivos e as metas e, nestes casos, a criação de mecanismo como o programa será necessário.22 Na realidade, será indispensável uma estrutura programática constituída pelo programa e seus componentes. No meio organizacional, o programa é comumente concebido como o conjunto de ações com objetivos definidos que uma empresa ou órgão público executa para atender as suas finalidades. Há, também, liberdade na utilização do termo, significando projetos, atividades, serviços, finalidades da entidade etc. Na área governamental, emprega-se muito a expressão programa apenas como um rótulo para representar a atuação do órgão. O programa como categoria integrante da estrutura orçamentária deve ser melhor definido. Para Diamond (2005, p. 44), é “[...] qualquer grupo de atividades e projetos adequadamente integrados, sob unidade de direção, que consome recursos visando contribuir para o alcance de um objetivo de política específico”. Chamando a atenção para a importância da mensuração física no programa, Martner (1972, p. 262) aperfeiçoa o conceito:“[...] instrumento destinado a cumprir as funções do Estado, por meio do qual se estabelecem objetivos ou metas quantificáveis (em função de produtos finais), que se cumprirão através da integração de um conjunto de esforços com recursos humanos, materiais e financeiros a ele consignados, com um custo global e unitário determinado, e cuja execução está a cargo de uma unidade administrativa de alto nível dentro do governo”. Há pelos menos três modalidades de programas. Com base na experiência internacional de MTEFs programáticos, Schiavo-Campo (2009, p. 18) identifica duas dessas modalidades.23 No primeiro caso, há aproximação entre o programa e as principais divisões de um ministério. No exemplo do autor, seria, por exemplo, “Atenção básica à saúde”. Nessa sistemática, em cada ministério haveria poucos e grandes programas, cada um com objetivos amplos e indicadores gerais.24 A responsabilização – accountability – pelas realizações e resultados recai sobre a liderança principal do ministério, o que exige, como contrapartida, a existência de alto grau de autonomia dos órgãos e agências que empregam os recursos. Na outra definição, o alcance do programa é mais limitado, minucioso. Para Schiavo-Campo (2009, p. 18) é “um conjunto de atividades concretas destinadas a um resultado específico comum” – “Atenção pré-natal”, por exemplo. O alcance mais restrito favorece o estabelecimento de metas de eficiência e de resultados e, consequentemente, a responsabilização. Por outro lado, o objetivo limitado produzirá impacto limitado. Schiavo-Campo (2009 p. 18) faz questão de lembrar que, na gestão por desempenho, há um perde-e-ganha na responsabilização. “Esta pode ser justa ou alargada, mas não as duas coisas”. Na terceira modalidade, o programa é concebido para atender amplas áreas de políticas de tal maneira que as instituições envolvidas contribuem, cada uma, para apenas parte de um programa (Diamond, 2006, p. 110). Três grandes desafios cercam essa modalidade. Os dois primeiros estão ligados ao desenho do programa. Nem sempre, mas em muitos casos, dependendo da amplitude dos objetivos de política, os indicadores de desempenho e de resultados são difíceis de ser identificados e mensurados. O outro desafio relaciona-se com as classificações de despesa e com a capacidade do sistema contábil de apurar os custos dos programas. As agências e os ministérios são centros de custos e a apropriação desses valores nos programas, na forma de rateios, depende de habilidades e condições nem sempre presentes nos sistemas contábeis. O terceiro desafio está na execução, no monitoramento e na avaliação dos programas multiagências, ou seja, na especificação da responsabilização.25 A escolha das unidades de mensuração, especialmente dos indicadores de resultado, dependerá da modalidade de programa escolhido: amplo ou restrito; monoagência ou multiagência. Na organização da estrutura programática, as modalidades poderão conviver perfeitamente, especialmente as duas primeiras. A estrutura programática é uma construção progressiva e não o resultado de reengenharia feita por atacado, tudo ao mesmo momento. Focado no cumprimento dos objetivos de políticas, o programa deve estar apoiado em um marco estratégico mais amplo em relação ao período do orçamento anual. Com exceção dos produtos intermediários e de certos produtos finais, os objetivos relevantes de políticas são realizáveis em médios e até em largos prazos de tempo. Com isso, os programas devem ter caráter plurianual, devendo integrar modalidades de planejamento de médio prazo, como planos, orçamentos plurianuais ou MTEFs. Uma estrutura programática básica compreende dois componentes que responderão pelo emprego dos insumos e pelo cumprimento de metas: o programa e as suas ações ou atividades. Dependendo da dimensão e do alcance do programa, será necessário incorporar subprogramas. No manual que orientou a implantação de Or-çamentos-programa nas décadas de 1960 e 1970, a ONU (1965) e ONU (1971, p. 50-51) estabelece duas modalidades de programas: (a) de funcionamento; e (b) de investimentos. O programa de funcionamento é constituído por subprogramas, cada um compreendendo atividades e, cada uma, tarefas. No programa de investimentos, o subprograma é dividido em projetos e estes últimos, em obras. Este modelo de estrutura programática foi reproduzido no manual de Martner (1972), importante referência nas reformas orçamentárias que introduziram o Orçamento-programa na América Latina. O Orçamento de desempenho original e o Orça-mento-programa da ONU representaram a mudança de paradigma ao substituir os insumos, até então o centro da organização do orçamento tradicional, pelos produtos. Com a mensuração e a avaliação do desempenho baseadas nos produtos, havia sentido na distinção entre programas de funcionamento e de investimento. Os produtos de cada um seriam diferentes. O novo paradigma da mensuração – outcomes ou resultados –, torna impraticável separar ações que contribuem para o alcance dos objetivos do programa, sejam elas de operação, manutenção, expansão ou investimento. Quando necessária, a separação poderá ser feita em outro nível da estrutura programática. A estrutura programática básica utilizada no orçamento brasileiro compreende o programa e sua divisão em ações.26 A norma distingue três categorias de ações: atividades, projetos e operações especiais. A atividade compreende operações que se realizavam de modo contínuo e permanente, cujo produto contribui para manter e conservar a ação governamental. No projeto, as operações são limitadas no tempo e o produto expande, melhora e moderniza a ação do Estado. A operação especial pretende ser uma categoria neutra ao reunir encargos que não mantêm a ação do governo, não geram produtos ou bens e serviços em contrapartida. O modelo classificatório descrito é exigido nos orçamentos e demonstrações de todos os entes da Federação. O orçamento da União utiliza o subtítulo, categoria que detalha a ação com a finalidade de identificar a localização física – geográfica – das operações. No orçamento federal brasileiro, há distinções importantes entre os programas. Os denominados programas temáticos são constituídos de atividades e projetos finalísticos e, em princípio, devem ser mensurados por produtos e resultados. Nos programas de gestão e manutenção estão consignados os recursos para a manutenção e funcionamento dos órgãos e entidades dos poderes e para o pagamento de aposentadorias e pensões. Por último, há os programas formados exclusivamente por operações especiais, voltados, principalmente, para o cumprimento de sentenças judiciais, transferências legais aos estados, DF e municípios e refinanciamento e pagamento do serviço da dívida. Além das despesas de custeio e de investimentos administrativos, constam dos programas de gestão e manutenção os recursos para o pagamento do pessoal ativo, inclusive dos envolvidos nas atividades e projetos finalísticos integrantes de programas temáticos. A existência dos programas de gestão e manutenção, na escala adotada, comprovam a dificuldade na adoção de uma sistemática de custos, ainda que embrionária. Diamond, em dois estudos (2005, p. 64; 2006, p. 111), e Schiavo-Campo (2009, p. 20-21), com base nas experiências de implantação de MTEFs, apresentam recomendações úteis para a organização da estrutura programática, as quais servem perfeitamente para o modelo 1. 2. 3. 4. 5. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. orçamentário de gestão. Consolidadas e com pequenos ajustes, as diretrizes estão indicadas a seguir. Os programas devem ser “monofuncionais”, ou seja, cada programa vincular-se-á somente a uma função (educação, saúde, transportes, habitação etc.). Estabelecer critérios para distinguirentre programas de despesas em curso (no âmbito das políticas atuais) e novos programas de despesas (ao abrigo de novas políticas). Desenvolver um procedimento prático para calcular o custo aproximado dos programas. Cada programa terá mais de um subprograma e cada um destes será desmembrado em várias atividades e projetos. Cada subprograma estará relacionado somente com um programa. Da mesma forma, cada atividade, cada projeto relacionar-se-á apenas com um subprograma. Cada uma dessas categorias deve ser definida em consultas aos ministérios de linha e aplicada ao governo como um todo. Cada programa deve ter o tamanho apropriado para uma gestão eficiente. Isso varia de país para país, mas, frequentemente, implica, para programas amplos e de intensa utilização de recursos, que a unidade principal de especificação de desempenho e responsabilização esteja em nível mais baixo, por exemplo, no subprograma. 6. Os programas e os subprogramas devem ser definidos de forma a apoiar o processo decisório político e a priorização, deixando clara a relação entre os recursos utilizados e os produtos e resultados previstos. Os programas devem levar em conta todas as atividades (incluindo as regulatórias) e projetos relacionados que, juntos, contribuem para a consecução dos objetivos. Isso significa que as despesas correntes e as de capital devem ser consideradas em conjunto quando da avaliação de desempenho do programa em relação a seus objetivos. As atividades e os projetos devem ser desenhados em níveis elevados de desagregação de maneira a apoiar a gestão na busca dos objetivos e resultados dos subprogramas. A responsabilização pelos subprogramas deve explicitar a responsabilidade gerencial, geral e, preferencialmente, em uma única unidade organizacional. Estabelecer critérios para a escolha dos gestores de programas e especificar as suas responsabilidades. A implementação de cada programa específico deve ser atribuída a uma unidade administrativa detentora de crédito (unidade orçamentária, no caso brasileiro). Selecionar alguns programas-piloto específicos em ministérios selecionados, com vistas a algumas melhorias iniciais em termos de eficiência, bem como para a obtenção de experiência. Realizar eventos de divulgação, junto ao pessoal da linha de frente, ministérios setoriais e, possivelmente, aos legisladores, sobre a lógica da iniciativa e sobre a introdução gradual da orientação para resultados. Expandir o modelo gradualmente a cada ano, adicionando alguns programas específicos e, com base na experiência, corrigir as medidas de desempenho e a estrutura de monitoramento. Incentivar as instituições de controle interno e externo a desenvolver habilidades para a realização de auditorias de eficiência, eficácia e economicidade. Aumentar a flexibilidade na gestão financeira e de pessoal. Medir o desempenho é exigência central de um modelo orçamentário de gestão.27 Para tanto, são necessárias a seleção e a utilização de medidas adequadas. De acordo com Hatry (2014, p. 1), a “’[m] edição de desempenho’ é um processo no qual uma organização governamental ou não governamental de serviços públicos realiza a coleta regular de dados de resultados e/ou de produtos (preferencialmente ambos) ao longo do ano (não somente no final do ano) para pelo menos muitos dos seus programas e serviços”. Diamond (2005, p. 65) chama a atenção para três passos críticos na adoção de um sistema de mensuração: “primeiro, definir claramente como medir ‘desempenho’; segundo, superar uma série de questões técnicas na concepção e utilização de medidas desse desempenho; e terceiro, tornar as informações sobre o desempenho relevantes nas decisões sobre a alocação de recursos”. Medir de maneira precisa o desempenho depende da definição clara dos objetivos da instituição, o que só será possível com a tradução desses objetivos em resultados mensuráveis. Normalmente, essa é uma tarefa difícil nos órgãos públicos onde as avaliações e as responsabilizações, historicamente, giram em torno da conformidade legal. Um modelo orçamentário voltado para a gestão precisa ampliar o foco, tradicionalmente centrado nos meios ou insumos, e incorporar novas medidas de desempenho. Na Figura 4.1, retirada de Kristensen et al. (2002, p. 9), estão dispostas as etapas do processo de produção de bens e serviços – insumo/ produto/resultado – e as medidas relacionadas com cada etapa: economicidade, eficiência, efetividade e custo- efetividade (value for money). O foco nos insumos é o mais tradicional e ainda bastante utilizado modo de projetar e avaliar o desempenho. Aumento dos recursos aplicados em determinado programa em relação aos valores do ano anterior; o incremento das despesas de investimentos; a redução de certos gastos improdutivos etc. são exemplos de informações de desempenho com ênfase nos insumos. Há, em geral, o entendimento de que maiores gastos produzirão automaticamente maiores e melhores resultados. Nem sempre o senso comum acerta e este é um caso. Se os dados são muito agregados – gastos em educação, por exemplo – a informação é pobre porque não esclarece em que finalidades da educação o incremento foi aplicado; os recursos podem ter sido empregados em áreas de pouca significação. Os insumos serão sempre fundamentais, pois sem eles não há o processo de produção nem os produtos. Haverá benefícios, se as avaliações de desempenho considerarem a questão da qualidade dos insumos e a sua adequação às necessidades do processo de produção e provisão de bens e serviços. A avaliação dos insumos se beneficiaria com a adoção do cálculo de custos na instituição. A economicidade, medida de desempenho valorizada nas normas legais sobre controle, proporciona a racionalização no emprego de insumos a partir do conhecimento de seus custos. Mensurar e avaliar o desempenho com base nos produtos tem por base os bens e serviços públicos programados e entregues à população. Especialmente, devem ser considerados os prazos e a quantidade de produtos disponibilizados. Com dados precisos sobre os insumos utilizados e os produtos obtidos poderão ser desenvolvidas úteis medidas de eficiência. Entre exemplos conhecidos de relação insumo/produto na gestão orçamentária pública, estão (a) a razão entre o número de professores e o de alunos e (b) o custo/ aluno. A respeito desses exemplos, sempre deve ser lembrado o tema da qualidade. Há sentido na diminuição do número de professores ou do custo/aluno desde que a redução de custos não resulte na queda da qualidade do ensino. O foco nos resultados é recomendação central do novo Orçamento de desempenho. Resumidamente, resultado é a medida do impacto e das mudanças que os produtos governamentais provocaram na realidade. As ações – programas – a cargo de órgãos e entidades públicas provocaram que efeitos? (a) problemas foram solucionados ou minimizados; (b) ocorreram melhorias nos indicadores econômicos e sociais; (c) houve redução nos índices de mortalidade infantil; (d) estudantes de escolas públicas alcançaram melhores notas nos exames nacionais etc. A mensuração dos resultados pretendidos no orçamento e obtidos posteriormente deverá estar associada a um sistema de indicadores que bem representem a realidade que os objetivos de política governamental pretendem impactar. Figura 4.1 Etapas do processo de gestão e medidas de desempenho. Assim como nos outros casos, avaliações podem ser realizadas comparando as medidas de resultado com etapas do processo produtivo. Graus de efetividade resultam da relação entre os produtos e os resultados. Aqui, a medida obtida deve ser vista com cuidado: o grau de efetividade da ação pública será considerado elevado apenas quando os produtos foram fortementeresponsáveis pelos resultados; em muitos casos, ações não governamentais explicam os resultados ou a melhoria nos indicadores. A razão custo-efetividade é obtida quando for viável estabelecer a contribuição dos insumos na obtenção dos resultados. Na adoção de um modelo de orçamento de gestão que incorpore medidas de resultado não devem ser esquecidas, nem minimizadas, várias dificuldades práticas. Entre elas, cabem mencionar: (a) a necessidade de definir precisamente o que são resultados; (b) a possibilidade de que produtos sejam confundidos com resultados; (c) a dificuldade de encontrar indicadores adequados em importantes áreas de atuação governamental, por exemplo, segurança nacional, justiça e ciência e tecnologia;28 (d) a escolha de indicadores inadequados, muitas vezes, de modo intencional, com a finalidade de representar objetivos mais facilmente alcançáveis; e (e) a resistência não incomum encontrada entre gestores que evitam se comprometer com indicadores de resultado que os responsabilizem. Diamond (2005, p. 68-72) aponta quatro questões--chave para a mensuração do desempenho: (a) produto versus resultado; (b) indicadores de processo; (c) dimensão da qualidade; e (d) relacionamento do desempenho aos insumos. O longo período dedicado à implantação do Orçamento de desempenho original e do Orçamento--programa consolidou o conceito de produto – output – como representação dos objetivos de política. Assim, é compreensível que ocorram dúvidas sobre o conceito e o que caracteriza o resultado – outcome. No Quadro 4.2, apontadas por Diamond (2005), encontra-se uma seleção de propriedades das duas categorias. Especialmente, entre os países desenvolvidos é uma realidade o enfoque nos resultados e o emprego de medidas correspondentes. Kristensen et al. (2002, p. 11) observam que a distinção entre ouput e outcome não é bem captada nas outras línguas. Na maior parte dos países da OECD, utiliza-se o termo genérico resultado e quando é preciso dar ênfase ao outcomes focus há a necessidade de novos termos para uma distinção mais clara.29 Para os autores, um outcome é interpretado de duas maneiras. O Escritório de Orçamento do governo federal norte-americano trata outcome como intenção, ou seja, o resultado esperado das ações governamentais. No caso do governo australiano, por outro lado, um outcome é percebido como o impacto real, ou seja, o efeito total das ações da unidade, intencional ou não. Diamond (2005, p. 69) chama a atenção para a distinção feita nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros países com a criação de diferentes níveis de outcome dependendo do horizonte de tempo; com isso, é possível que sejam necessárias medidas intermediárias e finais para os resultados. A mensuração de desempenho no orçamento e na gestão inicia com a adoção de metas para cada unidade de produto. Como regra geral, os produtos são medidas atribuídas às atividades e, em certos casos, aos subprogramas. Unidades orçamentárias de nível médio encarregam-se da execução das atividades e, assim, responsabilizam-se pela realização das metas. O prazo de execução da meta de produto deve ser o mesmo do orçamento anual; em determinados casos, metas de produtos intermediários poderão ser exigidos ao final do exercício anual. Com experiência consolidada no emprego de metas de produto, não só no documento orçamentário, mas, igualmente, no acompanhamento e monitoramento da execução e na avaliação, o passo seguinte será ajustar o foco nos resultados – outcomes. É recomendável que a implantação de metas voltadas para os resultados seja feita de maneira progressiva, com a escolha inicial recaindo nas áreas onde a cultura do trato com indicadores é consolidada. Assim procedendo, o desafio será aperfeiçoar e consolidar o trabalho realizado e incorporar metas de resultado para novos programas. O emprego de medidas de produtos e de resultados constitui a base da mensuração do desempenho. Dada a amplitude e a complexidade das formas de atuação das instituições públicas, nem sempre será possível identificar e mensurar os produtos e os resultados. Nesses casos, há duas situações: o trabalho realizado não gera diretamente produtos ou resultados quantificáveis ou o trabalho está em andamento e ainda não concluído. Para tanto, outras modalidades de indicadores de desempenho serão úteis, como as a seguir indicadas, com os respectivos exemplos: (a) medidas de carga de trabalho: servidor/hora ou servidor/dia; (b) taxas de trabalho: número de processos por hora ou por dia ou número de pessoas atendidas por dia; e (c) medidas de rendimento: percentual de redução de custos com novo sistema de energia ou número de horas ou dias para o atendimento de determinada demanda da comunidade. Quadro 4.2 Propriedades desejáveis dos Produtos e dos Resultados Fonte: Diamond (2005, p. 86-7). Medidas de eficiência econômica, como o “custo médio por unidade de produto”, devem ser utilizadas com cuidado, porque eventuais ganhos podem ser obtidos com a diminuição da qualidade do bem ou do serviço. O desafio na condução do processo é, então, obter ganhos de eficiência econômica sem sacrificar a eficiência técnica ou a qualidade. Hatry (2014, p. 27) propõe melhorar o indicador de eficiência adotando a relação entre o “custo médio e a unidade de resultado”. No exemplo apontado pelo autor, o indicador de desempenho “custo por cidadão atendido” seria substituído pelo “custo por cidadão atendido e beneficiado por uma quantidade específica de melhoria”. Citado em Diamond (2005, p. 88), Hatry (1999, p. 17) aponta as características típicas da qualidade de um serviço que devem ser consideradas juntamente com qualquer indicador de eficiência: (a) pontualidade na prestação de serviços; (b) acessibilidade e conveniência; (c) precisão da assistência; (d) cortesia na prestação de serviços; (e) adequação da disseminação de informações para os potenciais beneficiários; (f) condições e segurança das instalações da agência utilizadas; e (g) satisfação do cliente. A importância da dimensão qualitativa dos serviços prestados é reconhecida por todos, devendo ser acompanhada e avaliada. Medidas internas de avaliação da qualidade provavelmente não são suficientes, devendo ser apoiadas por pesquisas de satisfação junto aos usuários. O modelo normativo de orçamento aqui descrito necessita de um sistema de informações financeiras e contábeis que vá além da apuração dos insumos, como ocorre nos orçamentos tradicionais, e que dê destaque aos produtos associados ao desempenho e aos resultados. As medidas físicas do desempenho devem ser acompanhadas da mensuração financeira obtida com a incorporação ampla do cálculo de custos. Estágios mais desenvolvidos no cálculo de custos exigirá aperfeiçoamentos no sistema contábil com a apuração das despesas pelo regime de competência. As organizações do setor privado, em especial, as produtoras de bens e mercadorias situadas em mercados competitivos, têm no cálculo de custo uma ferramenta estratégica essencial para a obtenção de resultados econômicos, quando não para a própria sobrevivência. No setor público, as razões para as estimativas de custos são outras e, igualmente, muito importantes: “apoiar decisões de escolha de um programa e não outro, elaborar solicitações de recursos orçamentários, avaliar as necessidades de recursos nos principais pontos de decisão e desenvolver as bases da avaliação de desempenho” (GAO, 2009, p. 15). No setor público brasileiro, adotar o cálculo de custos tem sido uma preocupação antiga do legislador, como se observa em disposições da Lei no 4.320/64 e do Decreto-Lei no 200/67.30 Norma recente – a Lei de Responsabilidade Fiscal – não pode ser mais categórica ao determinar:“Além de obedecer às demais normas de contabilidade pública, a escrituração das contas públicas observará as seguintes: [...] A Administração Pública manterá sistema de custos que permita a avaliação e o acompanhamento da gestão orçamentária, financeira e patrimonial”.31 Apesar dessas determinações legais, no passado, as experiências com a implantação de metodologias de apuração de custos foram poucas, parciais e, muitas vezes, descontinuadas ao longo do tempo. O governo federal, em atenção especialmente ao disposto na LRF, deu seguimento ao esforço iniciado, em 2005, com a criação de comissão interministerial voltada ao estudo visando à implantação do sistema de custos. Em 2011, por meio de portaria da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), foi criado o Sistema de Custos do Governo Federal, que se encontra em operação.32 Apontam-se várias razões para a não utilização regular da apuração de custos nas instituições estatais, entre elas as seguintes: (a) os bens públicos são disponibilizados aos cidadãos sem o pagamento em contrapartida; nesse processo, não há preços fixados para os produtos, enquanto nos mercados privados o preço é a razão do cálculo do custo; (b) a quantidade de bens públicos a serem produzidos e ofertados é decidida por mecanismos políticos, onde considerações sobre custo não têm relevância; (c) muitos tipos de custos não se prestam a cálculos econômicos, por exemplo, recursos naturais e segurança pública; (d) em inúmeros casos, o conhecimento dos custos não garante que o desempenho da instituição será corretamente avaliado; (e) a implantação da contabilidade de custos exige pessoal técnico preparado, capacidade de organização e mudanças em práticas difíceis de serem alteradas. No modelo normativo de orçamento, a mensuração dos programas e atividades realizada por meio de insumos, produtos e resultados necessita de medidas financeiras correspondentes. Nos planos e orçamentos, os quantitativos de insumos – pessoal, materiais e serviços – são dados úteis que, entretanto, deixarão de sê-lo se não forem acompanhados dos valores despendidos: gastos com o pessoal, com compras etc. Da mesma forma, na programação e na avaliação do desempenho, a quantidade física dos produtos só alcança plena relevância quando combinada com os custos. Se, no setor público, de maneira geral, a ausência de razões objetivas e o desconhecimento quanto a benefícios concretos vêm impedindo a implantação do cálculo de custos, a adoção do orçamento baseado no desempenho e nos resultados deve contribuir para a superação das resistências. A transição do orçamento tradicional para o novo modelo determinará mudanças importantes na geração de informações contábeis, em grande parte produzidas para atender ao acompanhamento da execução das despesas orçamentárias. No Brasil, a contabilidade pública observa os padrões fixados pela Lei no 4.320/64, cuja norma relativa ao controle da despesa orçamentária é praticamente a mesma estabelecida no Código de Contabilidade da União de 1922.33 No decorrer do exercício, a despesa orçamentária passará por vários estágios ou estados, sempre acompanhada por meio de registros contábeis: autorizada na lei orçamentária; retificada por meio de créditos adicionais; empenhada; liquidada; paga; e inscrita como resíduo passivo (restos a pagar). Em geral, as normas legais não definem precisamente o que são despesas públicas ou despesas orçamentárias. Vista de maneira simples e abrangente, a despesa orçamentária é amparada por uma norma legal ou uma autorização na lei orçamentária anual e sua execução dá-se mediante o desembolso financeiro correspondente. Em face da vigência do orçamento e da apuração anual das despesas, parte delas são assumidas, mas não pagas no mesmo exercício. Nesse caso, a norma geral esclarece: “pertencem ao exercício as despesas nele legalmente empenhadas”, ou seja, as que cumpriram o primeiro estágio de execução.34 Nessa sistemática, a apuração da despesa 1. 2. 3. observaria um regime contábil próprio, porque o empenho é sempre prévio em relação à realização efetiva da despesa.35 Diferentemente da despesa, o custo mensura os insumos consumidos na produção ou provisão de bens e serviços (produtos). Por várias razões, os insumos – materiais e serviços – são adquiridos visando à formação de estoques para posterior utilização em diferentes centros de custos, programas, atividades e produtos. O próprio pagamento de pessoal, em muitos casos, também por praticidade, é centralizado formando “estoques”. Enquanto a sistemática tradicional de acompanhamento orçamentário registra a aquisição e o pagamento dos insumos, os métodos de custeio demandarão registros que captem o consumo efetivo de cada insumo nos objetos de custos.36 Em resposta às variadas necessidades das empresas, a literatura especializada fornece diferentes metodologias de apuração de custos, parte de escassa utilidade para o setor público, a não ser em determinadas atividades industriais e de serviço. O primeiro desafio a superar na estratégia de incorporar o cálculo de custos é a escolha do sistema que forneça as informações necessárias à operação e à avaliação do orçamento baseado no desempenho e nos resultados. Levando em conta as características da gestão pública brasileira, Machado (2002) aponta três características a serem inicialmente consideradas na implantação do sistema de custos: A maior parte dos serviços prestados por ór-gãos públicos – educação, assistência à saúde, segurança pública, serviços judiciários, entre muitos outros – são prestados de maneira continuada, recomendando o sistema de acumulação de custos por processo. Períodos seriam considerados – mês, trimestre, semestre etc. – e o custo unitário do serviço resultaria do cálculo da relação entre o custo total e a quantidade produzida no período considerado. No caso de investimentos típicos – escolas, postos de saúde, estradas etc. – o sistema de acumulação de custos seria por ordem de serviço. Devido à necessária integração que deve existir entre o orçamento e a contabilidade e a importância dos custos para as decisões orçamentárias e avaliações de desempenho, devem ser considerados os custos históricos e os custos orçados. Em fase mais adiantada de implantação do sistema de custos é desejável que a prática sistemática do cálculo de custos históricos produza padrões que serão muito úteis na elaboração orçamentária. Machado (2002) reconhece as dificuldades na escolha do método de custeio mais adequado ao setor público, até porque qualquer um dos cinco métodos pode ser adotado: por absorção, pleno, por atividades, variável e direto. Considera que há boas razões para a adoção do método de custeio direto, entre elas as seguintes: (a) são considerados apenas os custos diretos envolvidos nos programas e ações, sem a necessidade de rateios e transferências de custos; (b) a contabilização de despesas nos programas e ações – atividades e projetos – é uma prática tradicional, o que favorece a incorporação do cálculo de custos; (c) a relação custo--benefício da informação é vantajosa pela rapidez de implantação do método e pela maior familiaridade por parte dos gestores e dos funcionários. No orçamento brasileiro, os recursos consignados às ações – atividades e projetos – que integram os programas finalísticos correspondem apenas à parcela diretamente atribuída a cada ação. Parte importante dos insumos não são rateados ou distribuídos entre as ações e ficam concentrados em outros programas denominados de gestão. Com isso, efetivamente, o montante atribuído ao programa finalístico acaba não sendo representativo. Não se trata apenas da distinção feita entre custos diretos e indiretos, especialmente quando estes últimos são de difícil rateio. No casobrasileiro, na maioria das situações, por comodidade classificatória, as despesas totais de pessoal estão consignadas e contabilizadas em programas de gestão, mesmo nos casos em que o pessoal, com clareza, é custo direto. Apenas o custeio direto não atende as necessidades quando o objetivo é calcular o custo total dos programas e o custo unitário dos produtos. Nestes casos, não há como desconsiderar metodologias mais complexas, como é o caso do custeio por atividades, conhecido na literatura especializada pela sigla ABC – Activity-based costing.37 De acordo com a interpretação (Sffas 4) do Fasab (2016, p. 42), o método “ABC é voltado para as atividades do processo produtivo, com base em duas premissas: (a) um produto requer atividades que o produzam; e (b) as atividades consomem recursos”. Empregando direcionadores de custos (cost drivers), o método, por meio das atividades, atribui custos aos produtos. Ainda de acordo com a Sffas 4, “[a] implementação de um sistema ABC desenvolve-se em quatro etapas principais: (1) identificar as atividades desenvolvidas em uma unidade organizacional responsável por produzir resultados, (2) atribuir ou mapear recursos para as atividades, (3) identificar resultados para os quais as atividades são realizadas e (4) atribuir aos produtos os custos da atividade” (Fasab, 2016, p. 42). Distorções no cálculo do custo unitário de um produto ou serviço que resultam de equívocos no rateio de custos indiretos são evitadas ou reduzidas com a utilização do sistema ABC. Apesar de o método buscar a identificação mais ampla possível de custos diretos, sempre haverá custos indiretos a serem distribuídos. No caso brasileiro, este aspecto constituirá uma dificuldade importante na implantação do ABC, ou de qualquer outro método voltado ao custeio direto, em razão do modelo de elaboração orçamentária que distingue programas temáticos e de gestão. As informações de custos pouco aproveitarão da contabilidade orçamentária, dependente das classificações de despesa e do empenho, e necessitará de outras formas de apropriação realizadas após a concretização da despesa. Da mesma forma que o modelo de orçamento por desempenho e realizações demandará uma estratégia de implantação progressiva, deve-se admitir a adoção de sistema de custos de maneira paulatina, acompanhando as mudanças orçamentárias, a adequação do sistema contábil e a capacitação do pessoal envolvido. No passado, as informações contábeis do setor público, relativas ao período de apuração, eram denominadas de exercício ou de gestão. Países importantes, como a França, seguiam o sistema de exercício; a Inglaterra e Itália, o de gestão. De acordo com Stourm (1889, p. 104), “[e]xercício é o conjunto de encargos e direitos de um mesmo ano, sejam resultantes de operações realizadas durante este ano, sejam de operações posteriores”. Segundo o autor, o exercício pode até mesmo se antecipar ao ano, como no caso dos provisionamentos de guerra. Por seu turno, “[a] gestão compreende a série de operações materiais de ingressos e pagamentos efetuados durante o ano ou em espaço de tempo inferior, se o gestor não exerceu suas funções mais do que uma parte do ano”.38 1. 2. 3. 4. 2 3 4 5 6 1 No sistema de exercício, os livros contábeis de cada exercício ficavam abertos por muitos anos aguardando registros de operações de toda ordem, não só do pagamento de impostos atrasados. As distorções eram de tal ordem que as operações não se encerravam nem mesmo após a prestação e a publicação das contas. No reinado de Luis XVI, a contabilidade continuava admitindo despesas do período de Luis XV, que reinou por 59 anos. Essas dificuldades incentivavam os práticos ingleses a manter o sistema de gestão. Com o passar do tempo, a modernização das práticas contábeis fez desaparecer os arcaicos procedimentos, como o de manter livros abertos indefinidamente, mas a velha dualidade continuou presente nas suas características essenciais, agora sob a denominação de competência e caixa. A partir da década de 1980, a difusão do movimento da nova administração pública, que propunha maior eficiência e qualidade dos serviços prestados por organizações do Estado e gestão fiscal mais responsável, provocou a reação dos órgãos públicos responsáveis por informações financeiras e contábeis. Um dos movimentos importantes nesse sentido foi dado com a edição das Normas Internacionais de Contabilidade para o Setor Público (International Public Sector Accounting Standards (Ipsas) pela International Federation of Accountants (IFAC) para cujos estudos recebeu o apoio do Banco Mundial. A IPSA I foi divulgada em maio de 2000, tendo como principal recomendação a adoção, por parte do setor público, do regime de competência (accrual accounting) na organização dos relatórios financeiros. Além da recomendação técnica, seguida por organismos como o FMI, OECD e União Europeia (UE), a passagem do regime de caixa para o de competência vem sendo incentivada pela introdução do Orçamento de desempenho e resultados e, particularmente, pela implantação dos sistemas de custos. No início da década de 2000, metade dos membros da OECD tinham adotado o regime de competência em alguma medida (Blöndal, 2003, p. 54).39 Em levantamento realizado em 2012 e 2013 a respeito do estágio de implantação do regime de competência nos países da UE, Bellanca et al. (2015, p. 25) propuseram quatro sistemas e chegaram aos resultados que se seguem (ao lado de cada sistema, o primeiro dígito reflete o número de países que adotavam o sistema no nível central, e o segundo dígito, no nível local). Contabilidade de caixa. Método que registra as transações e outros eventos quando o recurso financeiro é recebido ou pago: 1; 2. Contabilidade de caixa modificado. Método híbrido que leva em conta, na maior parte dos casos, a contabilidade de caixa: 10; 4. Contabilidade por competência. Método no qual as transações e outros eventos são registrados quando eles ocorrem e não apenas no caso de recebimento ou desembolso: 9; 12. Contabilidade por competência modificado. Método que tende para o regime de competência pleno, mas com algumas diferenças, incluindo a não consideração de certas classes de ativos ou passivos: 5; 6. Assim como na adoção de sistemas de custos, no regime de competência também se coloca a questão das informações geradas a posteriori pela contabilidade e as previamente necessárias em apoio à elaboração orçamentária. Em estágio avançado, ao lado e proporcionado pela contabilidade por competência, haveria o Orçamento por competência. Schick (2007, p. 131) observa que poucos países adotam receitas e despesas por competência nos orçamentos. A Austrália, a Nova Zelândia e o Reino Unido seriam os poucos países com o Orçamento por competência pleno. Em outros países desenvolvidos, a variedade de princípios adotados indica que o “orçamento por competência está em fases de testes e que seria prematuro para todos, exceto os países mais vanguardistas, alterar seus orçamentos para essa base”. Afora o gradualismo, que é a estratégia recomendável na implantação dessa e de qualquer nova técnica complexa, haverá subjetividade na escolha de critérios do que fará parte dos demonstrativos por competência. Diamond (2005, p. 121) lembra alguns: quais ativos e passivos devem ou não ser incluídos? Passivos contingentes devem ser reconhecidos ou apenas registrados separadamente? Toda a receita deve ser reconhecida ou apenas a receita corrente? Etc. Nos negócios privados, o tratamento da receita no regime de competência é mais simples dado o critério de apuração: há a receita quando ocorre o fato criador do direito líquido e certo de recebê-la. No setor público, a existência de norma legal mais o fato que cria a obrigação tributária mais o lançamento contra o sujeito passivo garante o direito do Estado, mas não odo recebimento. Essa realidade tornou o legislador brasileiro cauteloso e, com isso, o regime de caixa para a receita vem sendo mantido.40 Definição retirada de documento não publicado do Bureau de Orçamento norte-americano e citado por Burkhead (1971, p. 187). Burkhead (1971, p. 17) e Tyer e Willand (1997, p. 195). Clara evidência de que se estava lançando as bases de uma reforma orçamentária foi a elaboração de um orçamento com base em custos para o Burgo de Richmond – uma das cinco partes em que se dividia a cidade de Nova York – em 1913 e 1915. Adotou-se um sistema classificatório de funções e tarefas nas áreas de serviços e obras públicas, com correspondentes unidades físicas de medida do trabalho (Burkhead (1971, p. 175-76). Com a aprovação da 18ª emenda à Constituição norteamericana vigorou, no período de 1920 a 1933, a chamada Lei Seca – Prohibition – que baniu a produção, distribuição, transporte e vendas de bebidas alcoólicas para consumo em todo o país. Esta recomendação deu-se nos seguintes termos: “Que o presidente, como chefe constitucional do Poder Executivo do governo, submeta anualmente ao Congresso, o mais tardar na primeira segunda-feira após o início da sessão ordinária, um orçamento” (Cleveland; Buck, 1920, p. 333). A atuação da Comissão deu-se em outros assuntos, como (a) organização e atividades governamentais, com a recomendação de legislação que prevenisse sobreposição de funções e conflitos de jurisdição; (b) problemas de pessoal; (c) relatórios financeiros; e (d) práticas e procedimentos próprios do setor empresarial. A Comissão submeteu ao presidente mais de 100 relatórios com recomendações, dos quais 26 foram encaminhados ao Congresso com vistas à aprovação de leis (Cleveland; Buck, 1920, p. 81). Outros 21 estados tinham o orçamento elaborado por uma comissão. Em 13 desses estados, a comissão era composta inteiramente por funcionários do poder executivo e em outros oito por funcionários do executivo e do legislativo. Conforme Burkhead (1971, p. 37) “[n]os Estados Unidos, o sistema orçamentário desenvolveu-se quase um século após o da Europa ocidental”. Citando Buck (1929 p. 10), Tyer e Willand (1997, p. 190) observam que, na entrada do século XX, os Estados Unidos eram “a única grande nação 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 20 21 23 24 25 27 28 29 30 19 22 26 sem um sistema orçamentário”. A Tennessee Valley Authority (TVA) é uma organização do governo federal norte-americano, criada em 1933, com a finalidade de desenvolver projetos naquela região particularmente afetada pelos efeitos da Grande Depressão. A expressão “caminho percorrido” é tomada emprestada do artigo de Allen Schick, The Road do PPB: The Stages of Budget Reform, publicado em 1966. Ver Schick (1966). Desde o início da década de 1950, a ONU promoveu a difusão de manuais de classificação de contas com o objetivo de uniformizar as estatísticas sobre os gastos públicos dos países--membros. Ver ONU (1958a), ONU (1958b) e ONU (1959). Sobre a nova técnica orçamentária, a ONU (1965) publicou A manual for programme and performance budgeting. A versão brasileira, publicada em 1971 por iniciativa da Subsecretaria de Orçamento e Finanças, do Ministério do Planejamento e Coordenação Geral, recebeu a denominação de Manual de orçamento por programas e realizações. Ver ONU (1971). Instituto Latino-americano de Planejamento Econômico e Social (Ilpes), criado em 1962, em Santiago, Chile, como organismo autônomo da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Ver em Martner (1972), o modelo de orçamento por programas preconizado pelo órgão. Machado Jr. (1967b) descreve os primeiros momentos da adoção do Orçamento-programa no Brasil. Rápido relato sobre as experiências dos três estados indicados é encontrada nas 15 primeiras edições de Giacomoni (2010), Capítulo 10. Sobre a experiência do estado da Guanabara, ver Sherwood (1966) e Rabelo (1979), sobre a do estado de Minas Gerais. O Program budget ou PPBS não deve ser confundido com o Orçamento-programa difundido pela ONU, cuja inspiração principal foi o Performance budget ou Orçamento de desempenho. Para relatos sobre experiências de implantação do PPBS na Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Reino Unido, França, Irlanda, Japão e Nova Zelândia ver Novick (1973b). A técnica aplicada às empresas está descrita por seu principal formulador em Pyhrr (1981). Descrição do modelo adaptado ao setor governamental é encontrada em Pyhrr (2006). Wildavsky (2002, p. 203) menciona que, entre os 205 diretores de orçamento ouvidos em pesquisa realizada em 1978, 35 empregavam ou haviam empregado o OBZ. Entre os 170 que não haviam tentado introduzir o modelo, mais da metade foram instados a adotá-lo. Principais incentivadores, os chefes do executivo têm vantagens com a técnica que lhe fornece grande quantidade de dados sobre o impacto do acréscimo ou diminuição do orçamento de um departamento. Com isso, os responsáveis por unidades têm sido os menos entusiasmados na adoção do OBZ. Levantamento realizado pela Associação junto a profissionais de orçamento público evidenciou que o uso real de práticas similares está aumentando; cerca de 20% dos entrevistados afirmaram que estão empregando o OBZ, pelo menos em parte. Esse percentual representa um incremento de 50% no número de governos em comparação com o do período imediatamente anterior, quando a recessão de 2008 atingiu gravemente as finanças públicas (GFOA, 2011, p. 2). De acordo com Tyer e Willand (1997, p. 211), o NPR baseou--se no tema “reinventando o governo”, em parte em razão dos conselhos de David Osborne, no livro Mandate for Change, dirigidos à administração Clinton. Diferentemente das experiências anteriores, em que as medidas de reforma orçamentária foram introduzidas por atos administrativos do presidente norte-americano, o GPRA resultou de iniciativa legislativa. Síntese bastante bem elaborada dos produtos e processos do Gprama pode ser encontrada em Brass (2012). Para Tyer e Willand (1997, p. 208), na academia, há uma ênfase no nível federal de governo e “inovações frequentemente iniciam e prosseguem nos níveis estaduais e locais de governo sem muita fanfarra”. Expressões retiradas de uma apresentação não publicada de Peter Hutchinson, juntamente com David Osborne, dois dos mais conhecidos divulgadores do Orçamento por resultados. Diamond (2005, p. 44; 2006, p. 101) observa que o programa é o elemento essencial em todos os sistemas do processo de reforma orçamentária. MTEF ou Medium-term expenditure framework é a denominação dada ao processo de médio prazo no qual o orçamento anual se insere. Conforme Schiavo-Campo (2009, p. 4), o mecanismo tem origem na Inglaterra e desenvolvimento mais recente na Austrália. Correspondendo ao período de dois a quatro anos além do exercício do orçamento anual, o MTEF é recomendado pelo Banco Mundial em suas orientações. Schiavo-Campo (2009, p. 18) observa que simplesmente denominar programa cada divisão superior do ministério torna questionável a “relevância operacional da estrutura programática”. Na mesma linha, o autor considera “exercício puramente cosmético” a iniciativa de denominar como programas a divisão funcional existente “sem nenhuma ação complementar”. Essa crítica, dirigida ao modelo utilizado no Sri Lanka, na década de 1980, serve ao caso brasileiro, que, no longo período compreendido entre a metade da década de 1970 e o final do século XX, adotou uma classificação padronizada de programas os quais, na maior parte, eram simplesmente a representação de funções e subfunções. Diamond (2006, p. 110) observa que o programa integralmente sob a responsabilidade de uma agência ou ministério é o preferido, mas admite que, em casos excepcionais, programas multiagências serão inevitáveis. Descrição da estrutura programática adotada nosorçamentos brasileiros pode ser encontrada na Seção C.3 do Capítulo 7 deste livro. “As organizações que quantificam os resultados de seus trabalhos [...] julgam que este tipo de informação tem grande poder de transformação” (Osborne; Gaebler, 1994, p. 157). Existe um trocadilho na língua inglesa muito apropriado a propósito das limitações da mensuração: Not everything that can be counted counts, and not everything that counts can be counted, ou seja, “Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo que conta pode ser contado”. Geralmente a frase é atribuída a Albert Einstein, mas, na realidade, o autor é Willian Bruce Cameron, professor de sociologia que a utilizou em texto publicado em 1963. Para os autores, ocorre o mesmo com outras expressões de uso corrente no processo orçamentário: effectiveness, performance, accountability e governance há dificuldades em três desses termos. Em geral, traduz-se effectiveness por “eficácia”, quando, talvez, o mais apropriado seria “efetividade”. Não há correspondência clara em português para accountability; o sentido mais próximo é “o dever de prestar contas”, mas o termo é comumente traduzido por “responsabilização”. A tradução de governance apresenta, também, desafios porque a palavra portuguesa “governança” tem sentido diverso do termo inglês, o que tem levado certos círculos a recomendar a criação do neologismo “governância”. Em dispositivo revogado, a Lei no 4.320/64 determinava que a proposta orçamentária seria acompanhada da especificação dos programas de trabalho, em termos das metas visadas decompostas em estimativa de custo das obras a realizar e dos serviços a prestar. Em dois outros dispositivos, a Lei encarrega os serviços de contabilidade de determinar os custos dos serviços industriais, o mesmo devendo ser realizado pelos serviços públicos industriais ainda que não organizados como empresa pública ou autárquica. Além disso, na avaliação patrimonial, os bens móveis e imóveis devem ser considerados pelo valor de aquisição ou pelos custos de produção ou de construção. Ver Lei no 4.320, de 17-3-1954: 31 32 33 35 36 37 39 34 38 40 arts. 22, IV; 85; 99; 106, II. No Decreto Lei no 200/67, há várias referências a expressão custos no sentido comum. Entretanto, o art. 79 traz a regra explícita: “A contabilidade deverá apurar os custos dos serviços de forma a evidenciar os resultados da gestão”. Lei Complementar no 101, de 4-5-2000: art. 50, § 3o. Adicionalmente, a LRF estabelece que, anualmente, as LDOs disponham sobre “normas relativas ao controle de custos e à avaliação dos resultados dos programas financiados com recursos dos orçamentos”(art. 4o, I, letra e). Com esse dispositivo, a LRF pretende, por meio das LDOs, que a exigência de sistemas de custos não seja esquecida e que os gestores sejam permanentemente orientados por normas adequadas. Apesar desses comandos, as LDOs federais têm feito muito pouco nesse sentido. No site da STN há informações sobre reuniões, encontros, documentos que indicam o trabalho em andamento. Não há ainda relatórios para acesso público e o acesso ao sistema está restrito aos servidores que integram comitês ou indicados por unidades reconhecidas como órgãos setoriais do sistema de custos. O modelo praticado no Brasil de acompanhamento da execução do orçamento tem origem nas normas francesas e italianas que desde o final do século XIX observavam os estágios tradicionais: empenho, liquidação, ordem de pagamento e pagamento propriamente dito. Lei no 4.320/64: art. 35, II. Pigatto et al. (2010, p. 825-26) denominam o regime estabelecido pela Lei no 4.320/64, de “financeiro (ou orçamentário)” e consideram que o reconhecimento da despesa com base no empenho é um regime ainda mais conservador que o de caixa puro. No empenho, os gastos não são vistos como despesas, custos ou investimentos, mas apenas como compromissos que precisam de autorização orçamentária. A apuração de custos considera outros elementos além daqueles simplificadamente apontados aqui, por exemplo, o consumo de outros ativos, inclusive de exercícios anteriores, e a depreciação de bens e equipamentos. O método ABC é, com frequência, mencionado nos estudos sobre a contabilidade de custos aplicada ao setor público. Ver Alonso (1999), Diamond (2005; 2006) e IFAC (2000). Decreto francês de 31-5-1862, citado por Stourm (1889, p. 106). Blöndal (2003, p. 54) observa que a migração para o regime de competência foi notavelmente rápida se se considerar que dez anos antes apenas um país-membro adotava a competência plena. Lei no 4.320/64: art. 35 “Pertencem ao exercício financeiro: I − as receitas nele arrecadadas”. As normas que disciplinam o orçamento público em cada país, como todas as demais, inclusive e, especialmente, a própria Constituição, resultam de embates sociais e políticos e, de maneira destacada, das tradições. Nesse sentido, não é viável pretender-se um modelo normativo de orçamento universalizado, a não ser no componente técnico-administrativo, a exemplo do Orçamento por desempenho e resultados apresentado no capítulo anterior. A norma positiva de cada país, ou de cada região ou estado com poderes descentralizados, produz modelos positivos de orçamento público. Entretanto, algumas características, como origem, finalidades e funcionalidade, são comuns e dizem respeito a todos os orçamentos, independentemente das regras adotadas. Na transplantação para outras realidades, o orçamento levou atributos experimentados e testados, alguns que ensejaram a formulação de princípios por parte da doutrina, na sua maior parte ainda no século XIX, aceitos em todo o lugar com poucas adaptações. O período anual de vigência é a mais antiga regra de organização formal do orçamento. Resultou da constatação de que, na maior parte, as despesas não são eventuais e, sim, permanentes, exigindo como cobertura receitas igualmente permanentes. Mesmo sendo regulares ou ordinárias, as despesas não devem ser autorizadas desvinculadas de prazos por várias razões: ocorrem novas despesas – ordinárias e extraordinárias −, alteram-se os valores e, principalmente, há a necessidade de controle. Assim, periodicamente, as despesas nos seus componentes e valores devem ser revisadas e autorizadas, assim como estimadas as fontes de cobertura.1 Modernamente, o princípio da anualidade convive com poucas exceções, como no caso das despesas de capital autorizadas para períodos de médio prazo e do orçamento bienal adotado em parte dos estados norte-americanos. O princípio da unidade estabelece que em cada nível de governo deve existir apenas um orçamento. Na hipótese da necessidade de mais de um, os orçamentos devem ser organizados de maneira a possibilitar a consolidação, ou seja, a totalização dos valores de receitas e despesas; nesse caso, a unidade do documento formal cede lugar para a unidade obtida com a totalização. Historicamente, o princípio contribuiu para eliminar a prática de votar separadamente as receitas, as despesas e os orçamentos paralelos e extraordinários.2 Um orçamento uno, compreendendo todas as despesas e todas as receitas da administração pública, atende ao princípio da universalidade. Não há razões para que despesa pública ou fonte de financiamento fique fora do orçamento e do processo orçamentário comum. Demonstrações financeiras detalhadas, clareza, transparência e avaliações mais precisas são benefícios que resultam do cumprimento do princípio. Contrariamente ao que ocorria no passado, em que as formas mais simples de organização do Estado favoreciam a observância do princípio, presentemente, a existência de várias modalidades de entidades estatais exige a definição de critérios precisos e defensáveis das receitas e das despesas que eventualmente deverãoestar fora do orçamento.3 O princípio da especialização ou especificação exige que a receita e a despesa sejam apresentadas no orçamento de maneira discriminada, de tal maneira que se conheça em detalhe a origem dos recursos e a sua aplicação. Dos princípios orçamentários clássicos, este é um dos mais importantes por garantir o detalhamento do orçamento em níveis que permita o exercício compartilhado de poder entre o governo e o parlamento. A aceitação da especialização da despesa foi difícil em face das resistências da Coroa, mais interessada em contar com autorizações globais. Na França, no início do século XIX, era influente o argumento de que votar os tributos era atribuição parlamentar, enquanto dispor sobre a aplicação dos recursos seria atribuição do rei ou do governo. Os deputados votavam o orçamento de despesa na forma de valores globais, deixando o detalhamento ao próprio governo.4 Norma editada em 1827 determinou a aprovação de autorizações orçamentárias por seções ministeriais e, em um passo adiante, a Lei de 1831 estabeleceu a discriminação da despesa por capítulos, ou créditos/dotações na terminologia de hoje (Stourm, 1889, p. 46). Propostos pela doutrina e incorporados, em parte, pelo direito positivo encontram-se outros princípios aplicados ao orçamento, entre eles, aprovação prévia, não afetação das receitas, este com muitas nuances, orçamento bruto ou integridade, clareza e publicidade. Certas características comuns, como a celeridade na tramitação no Legislativo e a certeza de aprovação, incentivavam a inclusão de matérias estranhas ao conteúdo do orçamento, que deve apenas tratar de estimativas de arrecadação e de autorizações de despesas. As “caudas orçamentárias”, comuns no Brasil no início do século XX, tinham como equivalentes os riders, nos Estados Unidos, os tacking, na Inglaterra, os bepackung, na Alemanha, e as adjonctions budgétaires, na França. Jèze (1922, p. 51-56) relata que na França, durante determinado período, “[...] as adjonctions budgétaires eram praticadas com uma desenvoltura não encontrada em nenhum outro país”.5 Identificados os sérios inconvenientes que essas matérias estranhas provocavam, os países trataram de aprovar normas com as devidas proibições, em alguns casos, por meio de disposições constitucionais. A Constituição Alemã de 1919 e a Prussiana de 1920 trouxeram disposições explícitas proibindo, na lei orçamentária, qualquer matéria que não se reportasse às receitas e às despesas do Estado ou à sua gestão. No Brasil, o enfrentamento das “caudas orçamentárias” deu-se com a aprovação da Emenda Constitucional de 1926, que introduziu o princípio da exclusividade, incorporado a todas as constituições posteriores.6 O direito orçamentário surgiu na Inglaterra como resultado da secular disputa entre o poder que representa a população e o poder da Coroa assentado no absolutismo. De acordo com Jèze (1922, p. 11-13), o orçamento público observou no seu desenvolvimento três princípios fundamentais: o voto das receitas, o voto das despesas e a periodicidade orçamentária. Esses princípios, ao mesmo tempo, constituíram fases de um longo processo que ocupou cinco séculos. A conquista do voto das receitas foi a fase mais demorada. A origem mais remota do princípio é encontrada na Magna Carta, assinada em 1215 pelo rei João Sem Terra por pressão dos barões feudais que constituíam o Conselho da época, embrião dos parlamentos modernos.7 Estabelecido o ponto de partida, o cumprimento da nova regra esbarrava em dois outros princípios: o absolutismo da Coroa e a não separação entre as finanças do rei e as do Reino. Nos séculos seguintes, o direito do consentimento dos impostos pela representação era “vitoriosamente defendido em meio a contínuas violações e conflitos” (Gneist, 1869, p. 5). De acordo com esse comentarista, “[a] aplicação do produto dos impostos, que eram votados periodicamente, assim como as rendas permanentes e hereditárias da Coroa aos serviços da Corte e do Estado dependiam em tudo do arbítrio do rei” (p. 5). No decorrer do século XVII, eventos importantes consolidaram o processo de aprovação das rendas públicas e fortaleceram a ideia de que também as despesas devem ser votadas pela representação.8 Em meio aos conflitos com o rei Carlos I, o Parlamento reagiu aprovando, em 1628, a Petição de Direitos – Petition of Rights – que, além de tratar de direitos e liberdades, confirmava a disposição da Magna Carta na parte relativa ao lançamento de tributos.9 O documento foi acatado inicialmente, mas a Coroa, fragilizada por questões religiosas e as disputas com o Parlamento sobre matéria financeira, levou a Inglaterra à guerra civil e, como resultado, à deposição e execução do monarca em 1649. No período iniciado com a queda da monarquia, seguido da restauração, e no reinado de Carlos II (1660-85), o Parlamento fortaleceu as suas competências no tratamento das despesas reais e do Reino.10 É o início da observância do segundo princípio apontado por Jèze ou a segunda fase no processo de criação da lei orçamentária: as despesas são aprovadas pelos órgãos de representação. Gneist (1869, p. 5) observa que “[d] e 1666 em diante o direito da Coroa sofreu uma nova e importante limitação com a prática estabelecida na Câmara dos Comuns de definir de maneira precisa a aplicação dos recursos”. Depois da Revolução Gloriosa (1688-89) a regra da apropriação11 das despesas passou a ser uma máxima parlamentar.12 Lei (bill) aprovada em 1689 para aplicação no âmbito da marinha militar previa pena ao oficial público que fizesse aplicação de recursos em objeto diverso daquele definido pelo Parlamento. Esta cláusula passou a ser exigida para a maior parte das apropriações aprovadas dali em diante, mas o detalhamento da despesa no orçamento não era regra. Durante a maior parte do reinado de Ana (1702-14), as despesas de guerra e da marinha real foram ainda votadas em bloco; após a assinatura do Tratado de Utrecht, a Câmara retomou a prática anterior de distribuir os recursos por títulos determinados (Gneist, 1869, p. 5, 6). Nos anos finais do século XVII, duas importantes medidas contribuíram na formação do orçamento inglês. Em 1690, no reinado de Guilherme III, foi adotada a Lista Civil, providência que separava os recursos destinados à Coroa e os destinados ao funcionamento dos serviços públicos.13 A outra medida tinha especial significado porque introduzia uma característica formal imprescindível nos orçamentos públicos: o prazo de vigência. Também no período de Guilherme III, o crescimento das despesas passou a determinar a convocação anual do Parlamento, inicialmente visando definir os recursos e os custos para o exército e para a marinha de guerra. No período da rainha Ana, a apresentação anual do orçamento de despesa passou a ser regra. Efetivava-se, assim, o terceiro princípio de Jèze, a anualidade ou periodicidade. Em outra obra clássica, esta de 1878, Gneist (1997, p. 13) descreve assim os procedimentos observados na Câmara dos Comuns no século XVIII: Antes do início do novo ano financeiro, o chanceler do Erário (enquanto ministro de Finanças) faz na Câmara dos Comuns uma detalhada apresentação oral da situação financeira (balanço) e, em seguida, propõe um acordo relativo às necessidades previsíveis, bem como para a relativa cobertura. Num primeiro momento, a Câmara, em discussão informal, sob a forma de um comitê de suprimento (committee of suply), trata das despesas previstas como necessárias. Depois, dos correspondentes meios de cobertura, numa discussão igualmente informal, sob a forma de um comitê de métodos e meios (committee of ways and means); reconhecendo determinadas despesas como necessárias e convenientes, o Parlamento se encarrega, portanto, também da obrigação de procurar e conciliar os meios decobertura necessários. Em todo o decorrer do Século XVIII, a influência da Câmara dos Comuns sobre a administração estava centrada no: “(1) direito de estabelecer novos impostos, acrescer os existentes e renovar os periódicos; (2) direito de aprovar os empréstimos do Estado, sob qualquer forma; e (3) direito de aprovar as despesas, mediante o qual os fundos consignados ao governo para os serviços do ano financeiro vêm de maneira justa divididos e apropriados a determinados títulos (Gneist, 1869, p. 6-7). Rudolf von Gneist, acadêmico, jurista e político alemão, importante partícipe do debate protagonizado na Alemanha sobre a natureza jurídica do orçamento, nas suas observações sobre o direito orçamentário inglês chamou a atenção para alguns riscos, posteriormente afastados. A questão girava em torno da competência da Câmara dos Comuns em votar matéria financeira e no tratamento por ela dado à legislação permanente. Se o direito do Parlamento é sempre o mesmo, autorizar uma despesa implica poder recusá-la. O direito de rejeição traz a possibilidade de extinguir instituições e revogar normas estabelecidas por lei. Essa interpretação permitiria incluir em uma lei de finanças disposições positivas (materiais) de outra natureza que se imporiam sobre a Coroa e a Câmara dos Lordes. Gneist (1869, p. 8 e 11) observou que os conflitos eram frequentes, acompanhando o maior protagonismo da Câmara dos Comuns nas definições sobre finanças. Esse predomínio produzia a tentação de associar outras cláusulas – tacking – às bills pecuniárias e, com isso, o perigo de que direitos constitucionais dos outros poderes pudessem ser rejeitados por meio de simples leis (bills) de finanças. Duas regras foram incorporadas e os riscos afastados. De acordo com a primeira, “[...] as receitas que por força de lei são de competência da Coroa (Estado) não podem absolutamente ser objeto de votação no âmbito do orçamento, de tal modo que receitas permanentes se transformem de fato em receita anual” (p. 8). Segundo o autor, em toda a história inglesa não há exemplo de receita permanente da Coroa que tenha sido transformada em receita anual por iniciativa do Parlamento. Por outro lado, muitos tributos anualmente renovados foram transformados em permanentes (p. 14). A segunda regra estabeleceu que também as despesas amparadas por uma lei (permanente) não poderiam tornar-se objeto de voto no orçamento. “Resumindo: apenas a parte variável da receita e da despesa ficariam sujeitas ao direito e ao voto do Parlamento em matéria de orçamento” (p. 18). Havia coerência entre essas regras e o fato de que instituições do Estado criadas por lei precisam ser mantidas permanentemente e, para tanto, necessitam de fundos permanentes. Aceitas essas realidades, as receitas e despesas passaram a ser divididas em fixas e variáveis, classificação que mantém sentido até mesmo nos orçamentos atuais. Gneist aproveitou a experiência inglesa por ele comentada para ensinar que “[o] bom costume de aprovar um ato abrangente de todas as receitas e todas as despesas não deve ser eliminado, mas na compilação do orçamento é necessário adotar fórmulas que distingam as rubricas e os capítulos realmente aprovados daqueles simplesmente reconhecidos” (p. 30). 1. 2. 3. 4. 5. A precariedade dessas regras foi solucionada com a criação do Fundo Consolidado (Consolitated Fund), em 1784. Este mecanismo compreendia as despesas fixas, sobretudo os juros sobre a dívida pública, e a lista civil, que anteriormente incluía uma grande parte dos encargos com os empregados públicos e as pensões, e agora desvinculadas constituem componentes particulares das despesas permanentes ordenadas no fundo consolidado. Na época em que Jellinek (1997, p. 118-19) fez estes comentários sobre o fundo, as despesas permanentes não incluídas no orçamento anual correspondiam a quase um terço das despesas totais, e eram executadas por força das leis que as declaravam como permanentes. As receitas do fundo tinham especial importância porque, anualmente, era retirado um excesso, além do valor autorizado para atender as despesas permanentes, para utilização pelo Parlamento na cobertura de outras despesas. Com isso, apenas mais ou menos um sétimo das despesas do Estado resultava ordenadas com base nas receitas previstas por força de autorizações anuais do Parlamento. Georg Jellinek, filósofo do direito e juiz alemão, igualmente participante dos debates sobre a natureza jurídica do orçamento, comentou as interpretações de Gneist sobre o orçamento inglês e fez argutas observações sobre a necessidade de apropriação no orçamento também das despesas permanentes. Ressalta, de início, que “[n]ada é menos claro que a relação jurídica entre as despesas baseadas em leis e as que são assumidas no ato de apropriação, e o próprio ato de apropriação”. Mesmo assim, afirma que “[e] nquanto todos os escritores concordam sobre o fato de que os impostos permanentes e os de valor fixo e as despesas permanentes não dependem de autorização parlamentar, assim como todos os escritores ingleses, de Blackstone até hoje, afirmam que a base do direito de todas as despesas apropriadas recai exclusivamente sobre o ato de apropriação” (Jellinek, 1997, p. 123-24). O autor não deixa de ressalvar que o princípio, defendido sem exceção, de que faltaria base legislativa no caso de despesas sem o ato de apropriação tinha pouca utilidade no regime parlamentar inglês em que seriam inimagináveis desencontros sérios entre os dois poderes em matéria orçamentária. Se, por um lado, “[u]ma leve pressão sobre o governo é suficiente para realizar os desejos da Câmara dos Comuns” (p. 122), Jellinek (p. 126) lembra que May (1863), com ironia “[...] concede ao Parlamento “sério elogio” por ser quase sempre condescendente frente aos desejos do governo”. Escrevendo em 1878, Gneist considerava que o modelo orçamentário nascido e desenvolvido na Inglaterra não oferecia respostas sobre a “natureza jurídica das autorizações de despesa”. Defendendo que as conclusões deveriam ser buscadas na prática parlamentar inglesa dos séculos XVIII e XIX, sugere ao interessado considerar os seguintes pontos: Desde o início, o Parlamento reconheceu a subordinação das decisões do orçamento e das leis financeiras à legislação ordinária. Manteve-se o direito de acusar o governo de despender além dos valores autorizados no orçamento; mas a praxe parlamentar não fez uso da acusação senão raramente ou nunca, reconhecendo, com base nessa regra, a impossibilidade de proceder a uma tal acusação. O Parlamento tem mantido uma medida extremamente limitada na especialização dos títulos das despesas, reconhecendo que uma maior especificação retiraria de fato a responsabilidade ministerial. Enquanto regularização posterior (rectification), a prestação de contas não tem nenhuma influência na responsabilização dos ministros, assim como o exame preventivo na discussão sobre o orçamento. Uma rejeição total do orçamento tem sido reconhecida como “inconstitucional” e juridicamente ineficaz (aspas e itálico no original) (Gneist, 1997, p. 25). Burkhead (1971, p. 5) considera que o orçamento inglês estava plenamente desenvolvido em 1822, quando o chanceler do Erário iniciou, anualmente, a apresentação ao Parlamento de exposição detalhada sobre as finanças do reino. No século XIX, a monarquia constitucional inglesa e seus estáveis mecanismos institucionais eram invejados por países da Europa continental, alguns com dificuldades em consolidar regimes políticos e outros envolvidos em guerras de unificação e em intermináveis disputas em torno de fronteiras. Definindo, a cada período, os recursos e as despesas do Estado e facilitando as relações entre o governo e o parlamento na sensível matéria