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Contexto e fundamentos teóricos da literatura comparada
Prof. Rodrigo Jorge Ribeiro Neves
Descrição
Você vai entender o contexto e os principais fundamentos da literatura
comparada como disciplina.
Propósito
A literatura comparada é um dos principais campos do saber não
apenas dos estudos literários, mas também das Humanidades.
Conhecer sua história e entender sua metodologia é fundamental,
especialmente para o estudioso da língua, para a compreensão dos
aspectos centrais da sociedade e da experiência humana.
Objetivos
Módulo 1
Surgimento e desenvolvimento da literatura
comparada
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https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/39928/index.html?brand=estacio# 1/39
Identificar o panorama histórico da literatura comparada como
disciplina e campo do saber.
Módulo 2
Fundamentos da análise comparatista
Analisar os principais fundamentos conceituais do método
comparatista.
Introdução
Há um ditado popular que diz: “Nada se cria, tudo se copia”. Será
verdade mesmo? Afinal, o que é a criação sem as referências que
a antecederam? Se tudo já foi escrito e dito, e apenas estamos
repetindo as mesmas palavras, então por que continuar criando?
Seria a história da literatura, e, por extensão das artes, uma
galeria interminável de cópias e imitações? Essas e outras
questões estão entre os temas da literatura comparada, campo
do saber que busca analisar as relações entre os textos de
diferentes origens, formas e funções, a partir de um conjunto de
métodos baseado na comparação.
A literatura comparada, em princípio, lidava exclusivamente com
a análise sincrônica e diacrônica de textos literários produzidos
em línguas diferentes, sendo, portanto, mais vinculada ao estudo
comparatista das chamadas literaturas vernáculas. Depois de
algumas mudanças e crises, com o tempo a área de atuação da
literatura comparada se ampliou e passou a abarcar outros tipos
de textos, literários e não literários, bem como outros temas e
questões, ainda que os elementos dispostos na comparação
estejam no mesmo idioma.
Como veremos, todo esse esforço foi fruto de um processo,
marcado, especialmente, pelo I Seminário Latino-americano de
Literatura Comparada, que “veio ao encontro de uma demanda

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reprimida, para usarmos um termo do mercado de produção. Isso
porque em toda a América Latina – e não só no Brasil –
praticava-se largamente o comparatismo, como forma natural de
contrastar uma literatura nova com aquelas já consolidadas e de
onde é oriunda” (CARVALHAL, 2012, p. 2).
Neste conteúdo, estudaremos alguns dos principais aspectos que
tratam do surgimento e da formação da literatura comparada,
como os diálogos culturais com os países europeus no século
XIX, o desenvolvimento da disciplina no século XX e a sua história
aqui no Brasil. Também abordaremos os fundamentos da análise
comparatista, considerando seus principais conceitos, como o de
tradição, influência e intertextualidade.
1 - Surgimento e desenvolvimento da literatura comparada
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car o panorama histórico da literatura
comparada como disciplina e campo do saber.
Origens da literatura comparada: a
Europa do séc. XIX
Neste vídeo, falaremos sobre o contexto e os fatos históricos
responsáveis pelo nascimento da literatura comparada no século XIX.
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Vamos começar por uma cena que você, muito provavelmente, já
presenciou ou até mesmo participou: a discussão acalorada diante de
uma partida de futebol ao se comparar a equipe em campo, com a
equipe, do mesmo clube, de décadas atrás. Você consideraria possível
uma comparação razoável?
A literatura comparada tem um princípio semelhante, especialmente se
levarmos em conta algumas de suas principais tendências
contemporâneas. Mas antes de chegarmos a essas tendências, talvez
fosse mais adequado dar um salto para trás, lá para o início, quando a
ideia de comparação entre literaturas começa a surgir.
Do que estamos tratando quando nos referimos à “literatura
comparada”? O que estamos comparando? Como comparamos? De
onde e quando surgiu essa necessidade de comparação? Não
entraremos no mérito ainda da comparação em si, mas da origem do
método comparatista e qual seria sua finalidade.
A literatura comparada surgiu em meados do século
XIX, em um período de desenvolvimento de métodos
científicos de comparação entre elementos
semelhantes, seja na filosofia, nas ciências naturais ou
na medicina. O objetivo era encontrar, a partir do
método comparativo, alguns aspectos em comum que
permitissem aos pensadores e cientistas encontrar leis
gerais em torno de seus objetos de investigação.
O que há entre eles que permite funcionarem de um modo específico e
não de outro? Há algum elo que explique essa relação?
Conheça alguns dos principais títulos da época que faziam uso do
comparatismo (CARVALHAL, 2006, p. 9):
1800
Lições de anatomia comparada,
de Jorge Cuvier.
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E a literatura? Onde entra nisso?
Os estudos literários na época vão ser bastante influenciados pela
tendência do método comparatista em outros campos do saber. E qual
seria a especificidade da literatura? O que ela tem que a distingue
desses demais campos? Está bem na sua frente! Isso mesmo, a língua!
A literatura, em síntese, é o modo como determinada língua funciona,
portanto, se falamos de literatura comparada, os elementos de
comparação partem das línguas diferentes nas quais as respectivas
literaturas se manifestam.
Um dos livros representativos dessa fase é o de Madame de Stäel
(1766-1817), cujo título é Da Alemanha: da literatura considerada em
suas relações com as instituições sociais, de 1800. Perceba que a
palavra que remete ao método comparatista aqui é “relações”.
1804
História comparada dos sistemas
de filosofia, de Joseph-Marie
Degérando.
1833
Fisiologia comparada, de Henri-
Marie Blainville.
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Madame de Stäel.
A literatura comparada nasceu na França, por volta de 1830 (COUTINHO;
CARVALHAL, 1994), especialmente pelo fato de a literatura francesa,
naquele período, exercer uma influência maior em relação às outras
literaturas. E foi justamente nas universidades francesas que a literatura
comparada surgiu como parte da grade de formação: em 1887, em Lyon,
e em 1910, na Sorbonne.
Mais ou menos no mesmo período, cabe destacar, o escritor alemão
Johann Wolfgang von Goethe utilizou o termo weltliteratur, ou seja,
“Literatura Mundial”, para se referir à ideia de universalidade de uma
obra literária a partir do momento em que se torna possível a sua
tradução.
Johann Wolfgang von Goethe.
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Talvez para o leitor contemporâneo não passe de uma obviedade, já que
existem traduções de livros de diversos idiomas diferentes, desde o
inglês, espanhol e francês até o árabe, russo e persa. No entanto, essa
noção de circulação de obras escritas em um idioma e traduzidas para
outro, na realidade, passa a se desenvolver no ambiente cosmopolita
europeu do século XIX, em um momento de consolidação dos Estados-
nação e, portanto, de uma ideia de nacionalidade, iniciado no século
anterior por influência do iluminismo.
Para você ter uma noção da importância desse debate,há uma história
curiosa envolvendo o Fausto, de Goethe, uma de suas obras mais
famosas. Os versos foram traduzidos para o francês pelo poeta Gérard
de Nerval, um admirador do trabalho do alemão. Dizem que Goethe
achou seu Fausto bem mais bonito em francês do que em alemão.
Seguindo nossa perspectiva de comparações literárias, o que Goethe
teria dito da obra Mephisto, de Klaus Mann? Ou ainda, do filme
homônimo, dirigido por István Szabó, ganhador do Oscar de melhor
filme estrangeiro – Hungria –, em 1982?
Mephisto, István Szabó, 1981.
O desenvolvimento da disciplina ao
longo do século XX
Neste vídeo, falaremos sobre os autores que se tornaram referências no
desenvolvimento da literatura comparada.
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A literatura comparada veio mesmo para ficar. Não por acaso, até hoje
ela não apenas ocupa parte importante da formação de todo
profissional da área de letras, mas também de vários outros campos do
saber. Em algumas instituições, por exemplo, há diálogos até mesmo
com áreas como economia e medicina.
A concepção metodológica comparatista surge no
âmbito do desenvolvimento das principais vertentes
científicas e filosóficas do século XIX, mas talvez o que
não imaginaríamos é que a literatura comparada
ocuparia um lugar de destaque como influenciadora
também dessas vertentes durante sua fase de
formação e consolidação, no século XX.
Então, a literatura comparada assume de vez seu espaço como
disciplina nos cursos das principais universidades na Europa e nos
Estados Unidos, já apresentando uma série de referências bibliográficas
fundamentais. Na época, havia uma discussão metodológica sobre
quantos termos deveriam entrar na “equação” para se considerar
literatura comparada, ou seja, quantos países entrariam na conta, já que
o principal objeto de investigação ainda eram as literaturas vernáculas.
Para os franceses, apenas dois países seriam analisados: um escritor
alemão com um espanhol ou um francês com um inglês, por exemplo.
No entanto, houve uma reação de pesquisadores das instituições norte-
americanas. Ora, por que apenas dois países? Qual seria a diferença
fundamental que permitiria apenas a comparação entre duas literaturas
de idiomas distintos?
O alemão Henry H. H. Remak, professor de estudos germânicos e
literatura comparada na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos,
foi um dos questionadores. O interessante na indagação de Remak
(1994) é que, ao confrontar essa noção fechada da disciplina, ele
colocou em pauta uma nova dimensão metodológica que se abria para
o diálogo não apenas com mais de uma literatura, mas também de
outros campos do saber.
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Henry H. H. Remak.
Parece atual, não é? Sim, de certo modo essa concepção metodológica
defendida por Remak, guardadas todas as devidas diferenças históricas
e culturais, é bem próxima do que se faz hoje entre os comparatistas.
Como síntese das principais discussões sobre o que pode a literatura
comparada, podemos considerar:
Literatura comparada é a
comparação de uma literatura com
outra ou outras e a comparação da
literatura com outras esferas da
expressão humana.
(REMAK, 1994, p. 175)
Hoje em dia a literatura comparada não se restringe apenas às
literaturas vernáculas. Dentro de uma mesma língua, você pode aplicar o
método comparatista, até mesmo com um mesmo escritor.
Bem, mas voltemos ao século XX e ao período de desenvolvimento da
disciplina.
Como vimos, a literatura comparada surge na França. Uma das
publicações periódicas pioneiras do campo é a Revue de Littérature
Comparée, fundada por Fernand Baldensperger e Paul Hazard, em 1921.
É importante destacar, dessa época, a predominância de duas
prescrições teórico-metodológicas, que vão dar forma à boa parte dos
estudos comparatistas do século XX. Vamos conhecê-las!
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Revue de Littérature Comparée, Fernand Baldensperger e Paul Hazard, 1921.
A primeira prescrição teórico-metodológica apontava para a
necessidade de haver um contato efetivo entre um autor e uma obra ou
um autor e um país para que se possa comparar. O que isso quer dizer?
Vamos lá: segundo essa regra (CARVALHAL, 2006) a comparação só
faria sentido entre esses termos se, de algum modo, eles realmente
tivessem dialogado. Essa noção foi fundamental para os primeiros
estudos em torno de conceitos como fonte e influência de uma obra, ou
de um conjunto de obras, sobre outras.
A segunda prescrição vincula a literatura comparada com a história
literária, relacionando a ocorrência de determinadas tendências literárias
na história do Ocidente a partir da comparação entre as obras. Isso
acabou abrindo espaço para a formulação de conceitos, como o de
“escola” ou “movimento” na história da literatura, considerando que os
estudiosos do campo passaram a identificar características entre obras
que permitissem compreender, em uma perspectiva histórica, como
determinado grupo de obras e autores se relaciona.
O historiador da literatura Ferdinand Brunetière, por exemplo
(CARVALHAL, 2006), vai fazer uso dessa prescrição, ao pensar em uma
história de grandes movimentos literários a partir da comparação entre
eles. E isso vai exercer um papel importante também no Brasil. Vamos
ver como funciona!
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Gênese da literatura comparada no
Brasil
“Estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada”. Essa
afirmação faz sentido para você? Por que estudar as obras escritas no
nosso país são, necessariamente, uma forma de realizar estudos de
literatura comparada?
A resposta inicial é simples. Ora, se a literatura compara, ainda em sua
fase dita clássica, consiste em estabelecer relações entre literaturas de
países diferentes e sendo a nossa cultura resultante de culturas de
outras nacionalidades, em especial a portuguesa e a francesa, então o
método comparatista seria fundamental para entender a formação da
nossa literatura. Aliás, essa parte final lembrou um título obrigatório na
biblioteca de qualquer estudante de letras, Formação da literatura
brasileira, de 1959, cujo autor é também o formulador da frase que abre
esse parágrafo. Isso mesmo! Estamos falando de Antonio Candido, um
dos críticos brasileiros mais importantes de nossa história.
Antonio Candido.
Nessa mesma obra, já revela sua honestidade literária, em relação à
produção de nosso país, a quem tão bem representou. Veja!
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Comparada às grandes, a nossa
literatura é pobre e fraca. Mas é ela,
não outra, que nos exprime. Se não
for amada, não revelará a sua
mensagem; se não a amamos,
ninguém o fará por nós. Se não
lermos as obras que as compõem,
ninguém as tomará do
esquecimento, descaso ou
incompreensão. Ninguém, além de
nós, poderá dar vida a estas
tentativas muitas vezes débeis,
outras vezes fortes, sempre
tocantes [...]
(CANDIDO, 2000a, p. 10)
A frase “estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada”, de
Candido, saiu no Diário de S. Paulo, em 18 de abril de 1946, depois
republicado na revista Literatura e Sociedade, do Departamento de
Teoria da Literatura e Literatura Comparada, da USP, unidade acadêmica
que ele ajudou a fundar. Antes de comentarmos um pouco sobre o papel
das instituições universitárias na consolidação da área no Brasil, vamos
dar uma rápida passada no trecho emque Candido relaciona a nossa
literatura ao método comparatista. Confira!
As literaturas jovens têm dessas
surpresas: os golpes de ensaio
revelam-se frequentemente golpes
de mestre. Na falta de uma linha
contínua de evolução, de uma longa
tradição literária que se afina e
apura nas mãos de gerações
sucessivas, o ímpeto criador vai se
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inspirar noutras tradições e noutras
terras. Estudar literatura brasileira é,
em boa parte, estudar literatura
comparada.
(CANDIDO, 2000b, p. 213)
No clássico Formação da literatura brasileira, o crítico e professor
paulista também parte dessa comparação para entender de onde
surgiram os nossos autores e obras que deram o que hoje chamamos
de “literatura brasileira”. Nela, Candido aponta nossa literatura como um
“ramo” da portuguesa, no sentido de ramagem, parte da folhagem de
uma árvore, entenda:
Cada literatura requer tratamento
peculiar, em virtude de seus
problemas específicos ou da
relação que mantém com outras. A
brasileira é recente, gerou-se no seio
da portuguesa e dependeu da
influência de mais duas ou três para
se constituir. A sua formação tem,
assim, características próprias [...]
(CANDIDO, 2000a, p. 9)
Embora o Brasil como nação surja apenas no início do século XIX,
Candido aponta o surgimento do que ele chama de “sistema literário”
um pouco antes disso. Mas, para identificar esses aspectos, ele
precisou fazer uso da comparação como método de investigação.
Nesse caso, um método comparatista dialético, ou seja, o resultado de
um conflito de princípios opostos, ou ainda poderíamos formular da
seguinte maneira:
Método comparatista dialético: tese + antítese = síntese.
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O método comparatista dialético aparece em diversos outros ensaios
fundamentais de Antonio Candido, como em Dialética da malandragem,
no qual analisa a obra Memórias de um sargento de milícias, de Manuel
Antonio de Almeida.
Não é demais lembrar que ele foi uma das figuras fundamentais na
consolidação da disciplina em nosso país. Afinal, ele introduziu o estudo
comparatista na USP, por meio da criação do setor respectivo e do
ensino em cursos, além de ter orientado diversas teses e dissertações
de literatura comparada. Isso tudo até os anos 1960 e 1970! Mesmo
assim, havia muito a ser feito. E não somente do famoso eixo entre Rio e
São Paulo, mas, ao falarmos do desenvolvimento da literatura
comparada no Brasil, não podemos deixar de mencionar entidades do
Sul do país.
Desenvolvimento da literatura
comparada no Brasil
Neste vídeo, falaremos sobre como a literatura comparada nasceu e se
desenvolveu no âmbito nacional.
Vamos refletir! Ainda que você deteste futebol, certamente já presenciou
em rodas de amigos ou nos noticiários da TV as pessoas comparando a
atuação de determinado time da atualidade com outro elenco mais
antigo do mesmo clube. Em geral, isso se faz para exaltar as qualidades
de um ou ressaltar os defeitos de outro. Alguns vão protestar, dizer que
não tem como comparar times de momentos históricos distintos, com
características diferentes e outros detalhes. No entanto, algo surgiu para
que aquela comparação fosse estabelecida. No fim das contas, por
mais que a conclusão seja de realidades completamente incompatíveis,
há algo neles que despertará a atenção.
Não importa se cabe ou não cabe a comparação. Se ela foi realizada,
ora! Então foi possível, ainda que discordemos de seus pressupostos.
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Depois de toda a discussão e constatando que os times não são iguais,
temos uma conversa recheada de análises que vão desde o contexto
sociocultural em que cada grupo está inserido até as mudanças na
forma como os jogadores passaram a jogar de acordo com suas
posições no campo.
Mas como a analogia da discussão no futebol pode nos ajudar a pensar
a literatura comparada, depois de já termos sido apresentados a ela:
como a mera opinião dos torcedores pode nos levar a uma área
acadêmica tão importante? A resposta está na importância do papel
institucional.
A literatura comparada, como método de estudo e análise, é introduzida
no Brasil por volta dos anos 1930, a partir de uma disciplina intitulada
História Comparada das Literaturas Novo-Latinas, prevista no programa
da recém-criada Faculdade Paulista de Letras e Filosofia. Já nos anos
1940, temos a primeira cadeira de Literatura Comparada em uma
instituição universitária. Tasso da Silveira era o responsável pela
disciplina na Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette. Além disso,
instituição fundada em 1939, depois denominada de Faculdade de
Filosofia e Letras do Estado da Guanabara, para, então, em 1950, ser
incorporada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Uerj.
Tasso da Silveira.
Tasso da Silveira também escreveu o primeiro manual voltado para o
estudo de literatura comparada no Brasil.
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Em literatura comparada procedem-
se a comparações de caráter
especial e com finalidade positiva.
Com a finalidade, extremamente
fecunda para a história do espírito,
de verificar a filiação de uma obra
ou de um autor a obras e autores
estrangeiros, ou de um momento
literário ou da literatura interna de
um país a momentos literários ou a
literaturas de outros países.
(SILVEIRA, 1964, p. 15)
Em 1986, foi realizado em Porto Alegre, RS, o I Seminário Latino-
americano de Literatura Comparada, organizado por docentes e
pesquisadores da UFRGS, cujo papel na consolidação da disciplina é de
grande destaque no cenário nacional. E a escolha da região Sul para
realização do evento não foi aleatória, entenda:
A ênfase no contexto latino-americano era
estratégica. Situados em um estado de
fronteira, vizinho ao Uruguai e à Argentina, os
estudiosos de Porto Alegre tinham uma
intenção clara, isto é, a de estimular a
integração latino-americana e a de explorar
as diferenças linguísticas e culturais
existentes nos países do continente. O
bilinguismo e o multiculturalismo já eram ali
mesmo uma premissa natural, favorecendo o
surgimento de estudos comparados. Além
disso, consolidado que estava o hábito de
confrontar a literatura brasileira com as
europeias, faltava no Brasil multiplicar os
campos de atuação comparatista em novos
contextos, pois isso permitiria a construção
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de um novo objeto e a consequente
redefinição da própria disciplina.
(CARVALHAL, 2012, p. 2)
Naquele evento criou-se a Associação Brasileira de Literatura
Comparada, a Abralic, que até hoje realiza eventos em diversos locais
pelo Brasil.
XVI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), 19 de
julho de 2019.
Mesa do XVI Congresso Internacional da Abralic, composta por Cynthia McLeod, Cintia
Schwantes, Conceição Evaristo e Amara Moira, 19 de julho de 2019.
Sua primeira presidente foi a professora Tânia Carvalhal, da UFRGS, uma
das pioneiras nos estudos comparados em literatura, autora de diversos
textos sobre a disciplina. Muitos deles estão aqui e você pode consultá-
los nas referências bibliográficas. A turma da Abralic possibilitou o
amadurecimento das pesquisas da área em uma perspectiva brasileira e
latino-americana, trazendo, inclusive, nomes representativos de outras
partes do mundo.
Recomendação
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Vale a pena conhecer as publicações da Abralic, disponíveis
gratuitamente no formato digital, bem como os inúmeros eventos
acadêmicos, lançamento de livros e premiações na área.
Mãos à obra, isto é, às obras, já que é preciso compará-las!
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
A literatura brasileira conta com diversos autores. Um deles se
destaca por um famoso e relevante texto em defesa da literatura
publicada originalmente em 1959, que aponta a literatura brasileira
como um ramo da literatura portuguesa. Quem é o autor de
Formação da literatura brasileira: momentos decisivos?
Parabéns! A alternativa D está correta.
O livro Formação da literatura brasileira: momentos decisivos é a
principal obra do crítico literário e professor de literatura comparada
da USP, Antonio Candido, no qual o autor faz uso do método de
análise comparatista para compreender as dinâmicas da formação
da nossa literatura. Nessa obra, Antonio Candido oportuniza o
A Mário de Andrade
B Silviano Santiago
C Tania Carvalhal
D Antonio Candido
E Clarice Lispector
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entendimento da origem dos autores e obras que originaram a
literatura brasileira, já que essa é um “ramo da literatura
portuguesa”. A literatura brasileira é por ele comparada, nessa
mesma obra, como um “ramo” da “árvore” da literatura portuguesa.
Questão 2
Johann Wolfgang von Goethe foi um dos mais importantes nomes
da literatura alemã, bem como do romantismo na Europa. Também
foi ministro da Educação e da Cultura de Weimar. Sua obra mais
famosa é Fausto. Também foi ele que criou o conceito de
weltliteratur, muito importante para a compreensão da importância
da literatura. A que se refere o conceito de weltliteratur?
Parabéns! A alternativa E está correta.
Weltliteratur é um termo alemão e significa “literatura mundial”. A
expressão foi cunhada por Johann Wolfgang von Goethe para se
referir a uma ideia de universalidade de toda obra literária a partir da
possibilidade de sua tradução, ou seja, um texto escrito em uma
língua pode circular em qualquer outro lugar do mundo a partir do
momento em que ele é traduzido para as línguas respectivas.
A Literaturas dos povos originários.
B Impossibilidade de comparar literaturas.
C Literaturas alemã e inglesa.
D Regionalismo literário.
E Universalidade da obra literária.
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2 - Fundamentos da análise comparatista
Ao �nal deste módulo, você será capaz de analisar os principais fundamentos conceituais do
método comparatista.
Os conceitos de tradição e fonte
Agora que vimos alguns dos principais marcos históricos fundadores
que deram origem à literatura comparada como disciplina, precisamos
saber, afinal, como funcionam seus principais instrumentos analíticos.
Para isso, temos que investigar os seus conceitos fundamentais para
apreendermos os pressupostos teóricos e metodológicos que orientam
o estudo de uma obra a partir da utilização do método comparatista.
Vamos a eles!
Tradição
Para alguns, a palavra “tradicional” pode soar algo ultrapassado, que não
serve mais e deve ser abandonado. Porém, o conceito de “tradição” é
fundamental no método comparatista.
O conceito de “tradição”, de modo geral, aponta para
um conjunto de obras que precedem historicamente
um autor ou grupo de autores de determinada
literatura.
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O poeta e crítico T. S. Eliot, em seu clássico ensaio Tradição e talento
individual (1989), indica que a tradição se refere a tudo o que está no
passado e cabe ao poeta do presente escrever consciente desse
período e se dedicar a dar continuidade ao que os poetas antes dele
escreveram, mas sem desconsiderar as questões de seu tempo. E
assume que essa é uma tarefa complexa, veja:
Todavia, se a única forma de tradição, de
legado à geração seguinte, consiste em
seguir os caminhos da geração
imediatamente anterior à nossa graças a uma
tímida e cega aderência a seus êxitos, a
“tradição” deve ser positivamente
desestimulada. Já vimos muitas correntes
semelhantes se perderem nas areias; e a
novidade é melhor do que a repetição. A
tradição implica um significado muito mais
amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém
a deseja, deve conquistá‐la através de um
grande esforço.
(ELIOT, 1989, p. 9)
Outro aspecto que merece nossa atenção é o fato de Eliot se referir ao
“homem branco europeu do início do século XX”. Ou seja, o conceito de
tradição, por exemplo, nos países latino-americanos, em uma
perspectiva pós-colonial, deve levar em conta não apenas a processos
de continuidade, mas também de descontinuidade.
Fonte
Uma das palavras que nos ocorre quando pensamos em “fonte” é
princípio. Se for no meio jornalístico, estamos falando de uma pessoa
que nos confirmou uma informação essencial para uma notícia. Se a
fonte disse, então as chances de veracidade são boas. Em geral, a fonte
jornalística pertence ao nicho do tema da matéria que está sendo
produzida, portanto, ela confere legitimidade ao evento. Se é verdade ou
não, no fim das contas, aí já é outra história!
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Em literatura, a fonte é um princípio e, de algum modo,
atua na legitimidade de determinada obra em uma
análise comparatista. Uma fonte literária refere-se ao
texto literário em si como produto do trabalho criativo
do autor e que se insere em dada tradição.
Em uma perspectiva tradicional, as fontes são um conjunto de obras
consideradas clássicas porque reúnem elementos que respondem a sua
inscrição no tempo.
Há autores, no entanto, como Jorge Luis Borges ou Machado de Assis,
que subvertem essa ordem.
Jorge Luis Borges.
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Machado de Assis.
Se, para Eliot, a criação do presente está submetida às do passado, para
Borges e Machado, é o contrário. Borges, por exemplo, em seu conto
Pierre Menard, Autor do Quixote, traz bem clara essa posição ao
apresentar as obras de Menard, escritor francês, do séc. XX, frente à
obra de Cervantes, escritor espanhol, do séc. XVII. Para ele, o Quixote
francês seria muito mais rico que o Quixote espanhol, exatamente
porque Menard escreveria longe da tradição.
Os conceitos de in�uência e
originalidade
Neste vídeo, falaremos sobre as principais características dos conceitos
fundamentais de literatura comparada.
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Os conceitos de influência e originalidade também se apresentam para
que possamos compreender o funcionamento de seus instrumentos
analíticos. Para isso, resgatamos uma afirmação fundamental acerca da
literatura comparada, que já apontamos acima:
A literatura comparada é o estudo
da literatura além das fronteiras de
um país específico e o estudo das
relações entre, por um lado, a
literatura, e, por outro, diferentes
áreas do conhecimento e da crença,
tais como as artes [...], a filosofia, a
história, as ciências, a religião etc.
Em suma, é a comparação de uma
literatura com outra ou outras e a
comparação da literatura com
outras esferas da expressão
humana.
(REMAK, 1994, p. 175)
É exatamente nessecontexto que Henry H. H. Remak nos apresenta a
afirmação de que a literatura comparada extrapola a comparação
meramente com outra literatura; e chega ao que ele reforça como “a
comparação da literatura com outras esferas da expressão humana”.
Por isso, é fundamental entendermos os conceitos de influência e
originalidade, que são fundamentos para a realização da análise
comparatista.
In�uência
É uma das mais importantes nos estudos de literatura comparada e, até
hoje, suscita uma série de discussões. Assim como nos fundamentos
anteriores, a influência também se pauta em uma relação com o tempo.
Ninguém é influenciado por aquilo que ainda vai existir.
Toda influência, em certo sentido, aponta para o
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modelo que a precede.
O conceito de influência foi apresentado pelo crítico russo Victor
Zhirmunsky, em artigo de 1967, no qual ele considerava a influência
como uma transformação social do modelo que a precede.
Para o crítico literário Harold Bloom, há o que se chama de “angústia da
influência”. Para ele, há nos poetas um conflito em face daqueles que os
precederam e a poesia nasce dessa inquietação em tentar se
desvencilhar de suas filiações, como se toda obra fosse resultado
apenas de aspectos individuais e de sua trajetória. Além disso:
É certo que sua proposição se
autolimita ao montar-se apenas
com relação a grandes poetas. Além
disso, não examina a possibilidade
de que, na construção do poema,
coexistam influências de outra
natureza que não a poética. Ocupa-
se apenas com os caminhos
escondidos que vão de poema a
poema [...] Os aspectos formais dos
poemas ficam, nessa perspectiva,
relegados. Para ele, tudo se reduz a
um conflito de gerações e a uma
série de mecanismos de defesa que,
acionados, regem as relações
intrapoéticas.
(CARVALHAL, 2006, p. 60)
No Brasil, por exemplo, essa noção foi objeto de crítica de ensaístas
como Silviano Santiago e Roberto Schwarz, pois ela pressupõe uma
relação de subalternidade, como se fôssemos “dependentes”
culturalmente da tradição herdada pelos colonizadores.
Originalidade
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Quando se fala que algo é original, em primeiro momento atribuímos o
sentido de “novo” ou “inovador”, ou seja, algo que ninguém pensou até
então. Portanto, para o senso comum, ser original é ser único.
A originalidade, pela raiz da própria palavra, nos remete
à origem, a uma situação primitiva, em que nada surgiu
antes dela. Uma obra não original seria aquela que, em
síntese, repete o que outra já realizou. Portanto, a
originalidade é um valor apreciado por aquele que
inserir a obra em um lugar na história literária como
precursora.
Mais uma vez, Borges e Machado são exemplares no sentido de
embaralhar certas noções tradicionais em literatura. O autor argentino,
ao escrever o conto Pierre Menard, autor de Quixote, não apenas está
confrontando a noção de autoria acerca da obra clássica espanhola,
mas também apontando para o caráter criativo das leituras e releituras
dela a partir do tempo. Machado de Assis, com Memórias póstumas de
Brás Cubas, dialoga com a tradição ocidental e confere outro sentido à
concepção de originalidade ao reler a obra de Laurence Sterne, A vida e
opiniões de Tristram Shandy.
Como se vê, assim como no futebol, na literatura também se deve
dominar os fundamentos para se tornar um craque, seja do campo ou
das palavras!
A intertextualidade e seus
desdobramentos
Neste vídeo, falaremos sobre a profunda e necessária relação do
conceito de intertextualidade na literatura comparada.
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Diante de tantos conceitos e fundamentos teóricos distintos, há um
elemento que parece enlaçar todos eles. Ora, qual é o principal objeto da
literatura? O texto! Sem texto, não há como existir literatura, certo?
No terreno da comparação como método investigativo
do texto é imprescindível que você busque estabelecer
diálogos desse texto, seja com outro texto, com
períodos históricos, com conceitos de outros campos
do saber e até mesmo com outras artes.
Se a literatura comparada é a disciplina que faz uso da análise
comparatista como método, então, nessas diversas relações teórico-
analíticas fica fácil encontrar aspectos intertextuais, ou seja, que estão
entre um texto e outro. E aqui estamos considerando texto não apenas o
literário, mas também o não literário.
A intertextualidade é, portanto, uma qualidade do texto, seja ele de que
natureza for, que estabelece diálogos com outros textos.
O conceito foi cunhado por Julia Kristeva, influenciada pelos russos
Mikhail Bakhtin e Yuri Tynianov, em Introdução à semanálise, de 1969.
Para ela, “todo texto é absorção e transformação de um em outro texto”
(KRISTEVA, 2012, p. 142).
Segundo Roland Barthes, orientador de Kristeva, o texto é como um
tecido de citações (BARTHES, 1988).
Julia Kristeva.
Etimologicamente, a própria palavra texto quer dizer tecido, ou seja,
assim como esse objeto, um texto é composto pela ligação com os fios
dos outros textos, de outros períodos, assuntos, ideologias, culturas etc.
A literatura comparada é necessariamente intertextual, pois é apenas
por meio da relação entre os diferentes tipos de textos que o método de
análise comparatista pode ser realizado, ou seja, ela:
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[...] é uma forma específica de
interrogar os textos literários na sua
interação com outros textos,
literários ou não, e outras formas de
expressão cultural e artística.
(CARVALHAL, 2006, p. 74)
Falamos há pouco sobre algumas apropriações mais diretas, realizadas
pelos próprios autores sabendo do efeito escolhido pelo confronto entre
os textos, como em Borges e Machado.
Graciliano Ramos, por exemplo, ao escrever um romance como Angústia
(1936), estabelece relações não apenas com a tradição do romance
realista no Brasil, mas também com a literatura, em especial Fiódor
Dostoiévski. O personagem Luís da Silva, em muitos aspectos, nos
remete ao narrador de Notas do subsolo.
Graciliano leu Dostoiévski? Claro que sim. O russo, aliás, era um de seus
autores favoritos. Mas essa comparação se dá por meio da análise
comparatista. Antonio Candido é um dos críticos que aponta as
relações entre os dois autores.
Graciliano Ramos.
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Fiódor Dostoiévski.
Confira os primeiros versos da canção Triste Bahia, do álbum Transa
(1971), de Caetano Veloso:
Triste Bahia, oh, quão
dessemelhante
Triste Bahia, oh, quão
dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo
estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim
empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim
abundante [...]
(VELOSO, 1971, n. p.)
Esses versos são parte também da primeira estrofe do poema de
Gregório de Matos. Dois brasileiros, dois homens nascidos na Bahia. Um
em Santo Amaro, em 1942, outro em Salvador em 1633 ou 1636.
Perceba que aqui o método comparatista não se limita ao aspecto
vernacular. A língua é a mesma, até mesmo o estado de nascença é o
mesmo, embora, evidentemente, a Bahia dos anos 1940 não seja a
mesma do período colonial. Aqui a comparação se dá entre gêneros
textuais distintos e períodos históricos também diversos. Em comum
temos a crítica aos mandos e desmandos da sociedade e seus
dirigentes.
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A relação de intertextualidade também é estabelecida entre imagens: a
Mona Lisa, obra-prima de Leonardo da Vinci, por exemplo, é uma das
pinturas mais relidas da história da arte. Não faltam referências a ela em
qualquer período e pelos mais variados motivos. Na
contemporaneidade, a cultura pop usa e abusa da intertextualidade,
dialogando com tendências de tempos e culturas diferentes.
Mona Lisa, Leonardo da Vinci, 1503-1519.
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Mônica Lisa, Mauricio de Sousa, 1989.
O desfile das escolas de samba no carnaval também é uma expressão
carregada de intertextualidade. É um festival de referências que, naquela
unidade, criam uma linguagem única, mas, ao mesmo tempo, tão
diversa e heterogênea. Aliás, a especificidade do carnaval é ser uma
espécie de arte total, em que todas as expressões artísticas e culturais
se encontram. Ou seja, um desfile de intertextualidades!
Os textos em diálogo: paráfrase,
paródia, pastiche, citação
Neste vídeo, falaremos sobre as principais formas de relação
intertextual (paráfrase, paródia, pastiche e citação) e sobre a
importância dessas releituras para a literatura comparada.
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Para que a relação entre os textos possa ser inteligível, é fundamental
que tenhamos minimamente um método de estabelecimento do diálogo
entre eles. Como ele é realizado? Em quais momentos? Qual é a função
desse diálogo? Ele não muda apenas com os textos dialogados, mas
também com o contexto, já que nenhum texto nasce no vazio. Como
todo produto da sociedade, ele é resultante dos aspectos sociais,
culturais e políticos nos quais está inserido. Para entender como isso se
dá, vamos verificar algumas das principais formas de relação
intertextual.
Paráfrase
Etimologicamente significa interpretação ou tradução livre. Também
pode ser chamada de “metáfrase”. É o famoso “diga com suas próprias
palavras”. Quem nunca precisou lidar com uma situação assim? Claro
que em um espaço lúdico isso se torna um motivo a mais para brincar
com os vários sentidos que uma mensagem pode carregar.
Paráfrase é criar outro texto a partir daquele texto,
provando que existem mil maneiras de se dizer a
mesma coisa e que a interpretação é uma forma
também de produção do próprio texto.
Em um texto acadêmico, a paráfrase é uma forma eficiente não só de
comunicar, mas também de você demonstrar que apreendeu o conteúdo
referenciado.
Paródia
É outra forma de dizer um texto, ou seja, uma releitura, mas com o
objetivo de criar, geralmente, um sentido diferente do original a partir de
uma relação crítica com este.
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O que vai distingue a paródia é o caráter cômico da
imitação, o que reforça ainda mais a sua dimensão
crítica.
Portanto, na paródia, o jogo intertextual estabelece uma relação irônica
com o texto original, recriando, por meio da linguagem, outra leitura
acerca desse texto. Os chamados repentistas nordestinos fazem isso há
tempos e com grande sofisticação.
No modernismo e na poesia dos anos 1960 e 1970 no Brasil, a paródia
também é um recurso bastante empregado. Um dos textos mais relidos
da literatura brasileira é o poema Canção do exílio, de Gonçalves Dias.
Dentre as paródias poéticas mais conhecidas, está a do poeta Antônio
Carlos de Brito, o Cacaso. Compare seu texto Jogos florais com o
original!
Pastiche
É um termo proveniente do século XVIII para se referir a óperas
concebidas a partir de partes de outras, nem sempre do mesmo autor.
Essa ideia nos ajuda a entender o conceito moderno da expressão.
Realizar um pastiche, assim como acontece na paródia, é também
imitar. Um texto busca refletir ou reler outro texto, modificando-o. No
entanto, o pastiche não tem o intuito de ironizar o original, pois ele não
se presta à crítica.
Claro que um texto pastichizado apresentará críticas a alguma coisa,
afinal nenhum texto é neutro em relação aos aspectos literários ou
extraliterários. Mas isso nada tem a ver com o texto original.
O pastiche é uma espécie de homenagem, não no
sentido de uma reverência solene, claro, e sim de
reconhecimento da importância daquele texto para a
compreensão de questões mais atuais.
Um exemplo de pastiche é a obra Em liberdade, de Silviano Santiago, que
imita o estilo de Graciliano Ramos.
Citação
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É a transcrição de um texto dentro de outro texto. Alguns trabalhos
acadêmicos até parecem uma colcha de retalhos. E por quê? Pela
quantidade enorme de citações! Então não é para fazer citações? Claro
que sim! Deve! Mas, como todo diálogo, este também deve levar em
conta não apenas um lado da conversa.
O crítico francês Antoine Compagnon nos lembra que escrever é um
exercício de citação, pois o nosso discurso é carregado de referências a
tudo o que lemos e ouvimos. Até mesmo os estereótipos e os clichês
são citações! (COMPAGNON, 1996, p. 34)
As citações diretas são aquelas em que as ideias de
outra pessoa são inseridas em um texto e nós
estabelecemos um diálogo com ela. Já as citações
indiretas são as paráfrases.
A citação é como uma colagem, por isso, é preciso ser econômico,
especialmente se você estiver escrevendo um texto acadêmico. A não
ser que você queira criar outra relação intertextual, como a deste
conteúdo.
Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
“Pode-se dizer, então, que a literatura comparada compara não pelo
procedimento em si, mas porque, como recurso analítico e
interpretativo, a comparação possibilita a esse tipo de estudo
literário uma exploração adequada de seus campos de trabalho e o
alcance dos objetivos a que se propõe” (CARVALHAL, 2006. p. 8). A
literatura comparada se expande cada vez mais e ocupa lugar e
espaço pela grande relevância que tem na constituição literária.
Assinale a alternativa que relacione dois conceitos fundamentais da
literatura comparada.
A Paródia e morfologia
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Parabéns! A alternativa D está correta.
A tradição e a originalidade fazem parte dos fundamentos do
método de análise comparatista. A primeira se refere a um conjunto
de obras do passado com os quais os autores do presente se
relacionam. Já a originalidade trata do princípio de determinada
obra, ou seja, seu caráter de origem e inovação em relação às
precedentes.
Questão 2
Leia o texto a seguir:
Meu Deus, por que me abandonaste?
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco
Adaptado de: Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa. Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.
O trecho é uma das estrofes do “Poema de sete faces”, do livro
Alguma poesia, de Drummond. Ele realiza claramente um diálogo
com outro texto, um clássico da literatura Ocidental, a Bíblia. Como
se chama o procedimento intertextual empreendido pelo poeta
mineiro?
B Fonte e sintoma
C Crítica e reescrita
D Tradição e originalidade
E Discurso e retórica
A Pastiche
B Paródia
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Parabéns! A alternativa A está correta.
O poeta estabelece um diálogo com uma fala de Jesus Cristo em
um dos momentos mais dramáticos de sua história, a crucificação.
O eu lírico imita o texto original, mas modifica-o, não com o intuitode satirizá-lo, mas de atualizar o sentimento de angústia expresso
na frase bíblica para as questões que inquietam o homem moderno.
Considerações �nais
A literatura comparada não é apenas uma maneira de lidar com os
textos, mas também de como podemos lidar com o mundo. Ao surgir a
partir de relações entre línguas e culturas diferentes, os estudos
comparatistas demonstraram que as literaturas são a expressão do
comum nas diferenças, ou das diferenças no comum. A literatura
francesa, devido ao domínio cultural da França no século XIX, foi o ponto
de partida para o surgimento da comparação como método de análise.
No entanto, como toda expressão humana, a literatura também reflete
aspectos sociais. No Brasil sustentou-se uma ideia de dependência por
muito tempo, como se a nossa literatura fosse uma imitação das
europeias. Por isso, os conceitos de influência, tradição, fonte e
originalidade, quando aplicados aqui, devem ser colocados em uma
perspectiva mais crítica.
Os conceitos relacionados aos diferentes diálogos entre os textos são
também ferramentas fundamentais para podermos constatar que nós
também somos textos nesse vasto e infinito livro de folhas em branco,
escritas, rasuradas e reescritas que é o mundo. E cada página que
viramos se descortina em tantas outras pelas quais já passamos em
algum momento, mas, como toda releitura, é como se fosse sempre a
C Citação
D Crítica
E Metáfrase
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primeira vez. Como diria Alberto Caeiro – heterônimo de Fernando
Pessoa – em O Guardador de Rebanhos: “...Sinto-me nascido a cada
momento para a eterna novidade do Mundo...”.
Explore +
Confira as indicações que separamos para você!
Leia os textos do livro Crítica cult, em especial o ensaio A teoria em
crise, em que a autora Eneida Maria de Sousa, destaque no campo
da análise comparatista, estabelece relações entre literatura
comparada, teoria da literatura e crítica literária a partir do diálogo
com os estudos culturais.
Confira a peça Makunaimã, da editora Elefante, e compare com o
romance Macunaíma, de Mário de Andrade. A peça é uma criação
coletiva, envolvendo pessoas diversas, entre brancos, negros e
indígenas, para discutir o legado do romance de Mário de Andrade
em diálogo com o próprio Mário de Andrade!
O vídeo O Rumor da língua - Roland Barthes resgata um trecho
dessa obra de Barthes e apresenta a cena do filme de Michelangelo
Antonioni, que o inspirou. Vale a pena conferir!
No vídeo Literatura Fundamental 26 - A terra desolada, a
professora Viviana Bosi, além de comentar o poema de T. S. Eliot,
fala também sobre a vida e contexto histórico do autor.
O conto Pierre Menard, autor do Quixote, de Jorge Luis Borges,
apresenta-nos uma crítica literária acerca de Pierre Menard, mas
destaca-se a sua forma irônica e humorada.
Referências
BARTHES, R. O rumor da língua. Tradução de Mário Laranjeira. Prefácio
de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Brasiliense, 1988.
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Cultrix, 2006.
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CANDIDO, A. Formação da Literatura Brasileira. 6 ed. Belho Horizonte:
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COMPAGNON, A. O trabalho da citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996.
COUTINHO, E. F.; CARVALHAL, T. F. Literatura comparada: textos
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REMAK, H. H. Literatura comparada: definição e função. In: COUTINHO,
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SILVEIRA, T. Literatura Comparada. Rio de Janeiro: GRD, 1964.
VELOSO, C. Triste Bahia. Londres: Chappell's Recording Studios, 1971.
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