Prévia do material em texto
WTWEENUS. COM THOMAS BONNICI LÚCIA OSANA ZOLIN (Organizadores) TAM ...... TEORIA LITERÁRIA ABORDAGENS HISTÓRICAS E TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS 3a Edição (revista e ampliada) PREFÁCIO Marisa Lajolo AWOODDODDI Maringá 2009 RSS Bw Copyright © 2003 para os autores 3a Edição 2009 1a. reimpressão da 3a. Ed. - 2009, 2a. reimpressão da 3a. Ed. - 2011, 3a. reimpressão da 3a. Ed. - 2012, 4a. reimpressão da 3a. Ed. - 2014 Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo mecânico, eletrônico, reprográfico etc., sem a autorização, por escrito, dos autores. Todos os direitos reservados desta edição 2009 para Eduem. Wedding Video Revisão textual e gramatical: Maria Regina Pante, Antônio Augusto de Assis Normalização: Ana Cristina Hintze Jaeger Projeto gráfico e diagramação: Marcos Cipriano da Silva, Marcos Kazuyoshi Sassaka Capa - ilustração: Tânia Machado Capa - arte final: Luciano Wilian da Silva Imagens: Fornecidas pelos autores Ficha catalográfica: Edilson Damasio (CRB 9-1123) Fonte: Aldine401 BT Tiragem (versão impressa): 500 exemplares Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) (Eduem - UEM, Maringá - PR., Brasil) T314 Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas organização Thomas Bonnici, Lúcia Osana Zolin. 3. ed. rev. e ampl. -- Maringá : Eduem, 2009. 406 p. : il. endências contemporâneas 260organização Thomas ISBN 978-85-7628-162-7 1. Teoria literária. 2. Poesia - Narrativa. 3. Estudos culturais. 4. Pós-Modernismo (Literatura). 5. Texto literário. 6. Crítica literária. 7. Artes. I. Bonnici, Thomas, org. II. Zolin, Lúcia Osana, org. III. Título. CDD 21. ed. 801 AR WWW. Editora filiada à wwwwwww Associação Brasileira das Editoras Universitárias STMODDDDDD Eduem - Editora da Universidade Estadual de Maringá Av. Colombo, 5790 - Bloco 40 - Campus Universitário - 87020-900 - Maringá-Paraná Fone: (0xx44) 3011-4103 - Fax: (0xx44) 3011-1392 Site: http://www.eduem.uem.br - E-mail: eduem@uem.br REMYASWE W R XWRASSERWOWYM YS: MISMIWww. ver AFINAL, O QUE É LITERATURA? Mirian Hisa e Yaegashi Zappone Vera Helena Gomes Wielewicki DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO-SEMÂNTICO DO TERMO LITERATURA Quando pensamos, leitores desse livro e, portanto, leitores já iniciados no caminho das letras, na pergunta O que é literatura?, imediatamente vêm à nossa mente nomes de obras arroladas há muito tempo como tal. Quem não pensa n'Os lusíadas, de Camões, no Dom Casmurro, de Machado de Assis, nos versos de Gonçalves Dias ou de Castro Alves, em Iracema, de José de Alencar, no Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa e em muitos outros, para ficar apenas na tradição literária em língua portuguesa? Esse processo mental de associação entre a palavra literatura e esse rol específico de textos parece nos muito natural e imediato, de forma que o próprio conceito de literatura imiscui-se, mistura-se com a descrição desse determinado conjunto de textos. E, assim, ficamos com a impressão de falar de um objeto, a literatura, como um fato concreto, imediato, pronto e acabado, como se sempre tivesse sido assim. Essa associação é tão ajustada, tão natural, que ninguém questiona a veracidade de ser o Dom Casmurro uma obra da literatura brasileira: a literatura é tanto Dom Casmurro quanto Dom Casmurro é literatura. Como comenta Williams (1979), ao falar desse processo de associação entre conceito e descrição da literatura, “esse é um sistema de abstração poderoso, e por vezes proibitivo, no qual o conceito de ‘literatura’ é ativamente ideológico” (WILLIAMS, 1979, p. 51). E o aspecto ideológico dessa associação reside no fato de ele apagar ou encobrir para todos nós a ideia de que o conceito de literatura construiu se e constrói-se através de um processo que é social e histórico ao mesmo tempo. Com isso queremos estabelecer que aquela relação entre Dom Casmurro e literatura e literatura e Dom Casmurro pode não ser tão direta ou concreta quanto faz supor a associação que fizemos no primeiro parágrafo ao perguntar O que é literatura? Bem, se não se trata de uma relação direta, mas de uma relação que obscurece o próprio modo de construção desse conceito, parece-nos que uma forma de deslindar os aspectos sociais e históricos, que influíram e influem sobre sua construção, seria verificar como, afinal, o conceito veio a se desenvolver. ... :::::. ( ZA PPONE E WIELEWICKI ......................::::::::::::::::::::::::::::::::::::: WIRRRR mitt a relli WIMONA ........................ A ideia moderna de literatura, ou seja, como uma arte particular, diferenciada da música, da pintura, da arquitetura, enfim como uma categoria específica de criação artística que resulta num determinado conjunto de textos só veio a ser formulada a partir da segunda metade do século XVIII e desenvolvida, de forma mais completa, no século XIX. A palavra literatura, como informa Aguiar e Silva (1988), deriva da palavra latina litteratura, que fora, por sua vez, imitada do substantivo grego ypauuatiin (grammatiké). Nas línguas europeias modernas, termos correlatos de literatura, do latim, aparecem em meados do século XV (aproximadamente 1450). No intervalo de tempo entre meados desse século e meados do século XVIII, há uma literature na língua inglesa, uma littérature, em francês, uma letteratura, no italiano, e uma literatura em português. O uso desse termo nas diversas línguas estava, entretanto, muito longe de abarcar o caráter especializado com que o vemos hoje. Nesse intervalo de tempo, não se fazia literatura, mas se tinha literatura, ou seja, ela era mais um atributo de um indivíduo que era capaz de ler e que havia realizado leituras. Literatura relacionava-se à capacidade de ler e de, portanto, possuir conhecimento, erudição e ciência. Assim, literatura não designava uma produção artística. Ela abarcava tanto o conhecimento dos indivíduos sobre vários ramos do saber, da gramática à filosofia, da história à matemática, quanto o amplo conjunto dos textos que propiciavam esse conhecimento. Como a partir do final do século XV a reprodução de materiais escritos começou a transferir-se das mãos dos copistas para a oficina do impressor, o conhecimento ou a literatura passou a ser adquirida de forma mais específica através de textos impressos e, obviamente, como o número das pessoas capazes de ler era bastante restrito, a literatura era atributo de poucos. Logo, mesmo no sentido inicial de seu emprego, a saber, como uma condição cultural (muito próximo ao conceito atual de letramento), a literatura especificava uma distinção social particular, ligando-a, portanto, às classes privilegiadas. Para designar especificamente os textos de caráter imaginativo, enquanto criação artística, eram utilizadas normalmente as palavras poesia, eloquência, verso ou prosa. A palavra poesia assumiu, com o tempo e a partir do próprio desenvolvimento do termo literatura, uma especialização: de “composições de cunho imaginativo”, passou a se referir unicamente às composições metrificadas e, posteriormente, às composições metrificadas, escritas e impressas. Literatura, por sua vez, tornou-se uma categoria mais ampla e abrangente do que poesia (WILLIAMS, 1979, p. 52).. Retornando, pois, ao processo de especialização do termo literatura, foi no século XVIII que se registraram as primeiras mudanças do uso de literatura como “conhecimento”, “saber”, “erudição” para um uso diferente, agora relacionado à ideia de “gosto” ou “sensibilidade”, embora ainda permaneçam resíduos do significado anterior. Os dicionários e enciclopédias, tão em voga nesse momento do Século das Luzes, ajudam a ilustrar essa passagem. O Dictionaire philosophique, de Voltaire (1694-1778), registra as dificuldades que cercavam aqueles que tentavam definir literatura nessa época circunscrita a meados do século XVIII, até as últimas décadas desse século: XX I ....... ...GREITA . . W ............ ala WAX Literatura; essa palavra é um desses termos vagos tão frequentes em todas as línguas [...] a literaturadesigna em toda a Europa um conhecimento de obras de gosto, um veniz de história, de poesia, de eloquência, de crítica [...]. Chama-se bela literatura as obras que se interessam por objetos que possuem beleza, como a poesia, a eloquência, a história bem escrita. A simples crítica, a polimatia, as diversas interpretações dos autores, os sentimentos de alguns antigos filósofos, a cronologia não são bela literatura porque essas pesquisas são sem beleza (VOLTAIRE, 1764 apud AGUIAR E SILVA, 1988, p. 4-5). - O próprio autor do texto chama atenção para a falta de delineamento mais preciso para o termo, quando o indica como um "termo vago.”. Além disso, notamos certa ambiguidade na sua descrição, pois literatura ainda aparece como conhecimento, embora o autor a associe com o aspecto estético como se vê em "bela literatura” ou mesmo em "objetos que possuem beleza”. Segundo Aguiar e Silva. (1988), a partir das últimas três décadas do século XVIII e de forma crescente, o termo literatura vai incorporando o sentido de fenômeno estético e de produção artística. :... . .... ............ 20 — TEORIA LITERÁRIA SWEATS KERAKO XXXCESORIROW ANY HASSAN W WWWWWWWWWWW WALISIS secondominium ( 1 ) A FINAL, O QUE É LITERATURA? Nessa mesma época, começam a surgir as primeiras literaturas nacionais, a partir da composição das primeiras histórias da literatura em diferentes países. A gênese dessas histórias da literatura, bem anteriores ao século XVIII, pode ser encontrada em textos inicialmente de caráter bio-bibliográfico, mas que já tematizavam a vida de autores em forma de inventários. Escarpit (1958) cita algumas delas: Vita di Dante Alighieri, feita por Boccacio, em 1358, ou a Illustrium majoris Britanniae scriptorum, hoc est Angliae, Cambriae, ac Scotiae, Catalogus, de John Bale, composta entre 1548 a 1559. Sendo um processo de condicionamento feito pelo próprio desenvolvimento das línguas nacionais, essas biografias passam a se desenvolver e a adquirir uma consciência muito precisa de seu papel, a saber, a busca das fontes nacionais da literatura de cada país. Assim, até o final do século XVIII, quase todas as nações já possuem uma história literária. Na Inglaterra, encontramos The History of Poetry from the Close of the Eleventh to the Commencement of the Eighteenth Century, de Thomas Warton, entre 1774 e 1781, e The Lives of the Poets, de Samuel Johnson, entre 1779 e 1781. Na Itália, começa a ser publicada a Storia della letteratura italiana, de Girolamo Tiraboschi, em 1772; em Portugal, há Memórias para a História Literária de Portugal e seus dominios, divididas em várias cartas, de 1774. Também no mundo oriental, observa-se a mesma tendência, de forma que, em 1777, surge a primeira história da literatura japonesa, Kunitsufumi-Yonono-ato, de Kokei Ban (ESCARPIT, 1958, p. 1758-1762). Vale ressaltar que as ideias de gosto, de beleza e de sensibilidade, através das quais se defendeu o argumento estético da literatura, foram, sem dúvida, o resultado da atividade de setores dominantes que exerceram a própria atividade do gosto como forma de disseminar seus valores. Esse gosto, exercido como algo objetivo, desempenhou, em termos de valores de classe, um papel suficientemente hegemônico para que fosse aceito, tanto pelos “amadores cultos” que o exerciam, quanto pelo público leitor que paulatinamente se ampliava. Williams (1979) chama atenção para o fato de esse "gosto”, que passou a aquilatar como literários certos textos, possuir uma base caracteristicamente burguesa e subjetiva, de forma que podia ser aplicado, sem reservas, tanto a textos como a vinhos: “Gosto em literatura poderia ser confundido com ‘gosto' em tudo o mais, mas, dentro dos termos de classe, as reações à literatura foram notavelmente integradas, com a relativa integração do público leitor” (WILLIAMS, 1979, p. 54). Esse exercício do gosto, inicialmente realizado pelos amadores cultos”, vai, a partir do séc. XIX, passando ao domínio da crítica, que vai se transformar em uma nova disciplina praticada cada vez mais nos ambientes relacionados às academias e às universidades. Uma segunda e importante modulação no conceito de literatura é aquela operada na associação de literatura com obras “criativas” ou “imaginativas”, em oposição aos textos de caráter objetivo ou aos da ciência. Assim, para ser literatura não bastava que o texto fosse bem escrito segundo o gosto burguês vigente, o que poderia incluir um texto de história ou de ciências, mas esse texto deveria ser, de algum modo, a expressão da criatividade humana. Tal passagem tem, sem dúvida, certos correlatos históricos e sociais. Historicamente, essa especialização do termo literatura corresponde à exigência do desenvolvimento das ciências indutiva e experimental e do desenvolvimento de novas técnicas no bojo da sociedade capitalista industrial. Esse desenvolvimento torna mais clara e patente a diferença entre os valores da moral ou da ciência e os valores artísticos e estéticos. “Assim, se constituía uma das antinomias fundamentais da cultura ocidental nos dois últimos séculos – a antinomia da chamada cultura humanística versus cultura científico-tecnológica” (AGUIAR E SILVA, 1988, p. 10). Essa antinomia, por sua vez, condicionaria a separação entre textos de caráter “imaginativo” e textos de caráter “científico ou moral”. Socialmente, a especialização do termo literatura, enquanto textos de caráter "imaginativo” ou "criativo", tem sua contrapartida num fenômeno também correlato ao desenvolvimento da sociedade capitalista: a necessidade de desafiar as formas repressivas da nova ordem social através do argumento da criatividade humana. Assim, dar vazão a textos criativos ou através dessa consciência imaginativa era uma forma de contrapor-se às novas formas de relações humanas marcadas pela ética da produção, pela dissolução da vida social em práticas exclusivamente marcadas pelo trabalho.. Como se vê, o termo literatura passou por um complexo processo de especialização, partindo de um sentido inicial – as obras impressas que forneciam a seus leitores um atributo de possuidores · THOMAS BONNICI / Lúcia OSANA ZOLIN (ORGANIZADORES) – 21 (ZA PPONE WIELEWICKI CHAHANANSOWWWWWWWWMWYAIWAN AUSNARINNAR SUREN ge de literatura – passando a textos de "gosto" e "sensibilidade” e, posteriormente, a textos de caráter “imaginativo” ou “criativo”. Ao chegar a esse nível de especialização, o problema central em termos de conceituação da literatura passa a ser o como valorizar os textos a partir desses critérios, ou seja, dando mais importância à sua dimensão imaginativa ou estética. Nesse sentido, mais uma vez a crítica, aquela mesma atividade construída sobre uma base burguesa, terá papel preponderante ao julgar entre o "criativo" e o "estético", sempre através de critérios seletivos: nem tudo o que é literatura imaginativa é "literatura”, nem tudo o que é belo é imaginativo, o que atesta a imprecisão do termo e a dificuldade de acercar um objeto de estudo cuja própria configuração é móvel, em razão de seu caráter histórico e social. Essas tentativas de definição da literatura, entretanto, continuam e, a partir da segunda metade do século XIX e início do século XX, ganham novo tom, pois busca-se definir literatura enquanto dado objetivo, concreto, observável. Surgem, nesse momento, propostas de definição da literatura como conjunto de textos portadores de características que corresponderiam à sua literariedade. Nessas propostas, observa-se a ideia de que os textos literários teriam certas características estruturais ou textuais muito peculiares, as quais os tornariam diferentes dos demais textos, considerados, portanto, não-literários. Trata-se de uma tentativa de trazer a discussão sobre o que é literatura para um campo mais objetivo, utilizando métodos que se distanciavam da subjetividade que permeara a definição do termo até então. A defesa dessa especificidade objetiva como marca dos textos literários era feita com base em métodos e processos de análise também objetivos. Essa concepçãoobjetiva de literatura disseminou-se fortemente nos estudos literários nas primeiras décadas do século XX através do Formalismo Russo, do New Criticism e da Estilistica. Um texto bastante conhecido de um autor formalista, Vitor Chklovski, ajuda a ilustrar como eles procuravam demonstrar que o caráter literário de um texto poderia ser observado em suas qualidades internas ou textuais. O próprio título do texto, “A arte como procedimento", de 1917, refere-se ao fato de que o autor do texto literário criaria certos procedimentos, certos modos de elaboração textual que concederiam ao seu texto o caráter de literariedade. Para os formalistas, o caráter estético de um texto seria resultado da utilização de procedimentos desautomatizados de linguagem em oposição à utilização de procedimentos comuns, já automatizados no uso da linguagem cotidiana. Ao desautomatizar a linguagem, o autor de um texto o tornaria singular, especial e, portanto, artístico, ou seja, literário. Assim, o caráter estético em literatura seria a soma de todos os procedimentos desautomatizados utilizados num texto: www . [...] chamaremos objeto estético, no sentido próprio da palavra, os objetos criados através de procedimentos particulares, cujo objetivo é assegurar para estes objetos uma percepção estética. [...] O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. [...] Em arte, a liberação do objeto do automatismo perceptivo se estabeleceu por diferentes meios (CHKLOVSKI, 1971, p. 41, 45). SA A proposta formalista parte da ideia, no que se assemelha ao New Criticism e à Estilística, de que os textos literários possuem traços de linguagem ou de propriedades textuais, ou uma essência estética que os irmana, tornando-os literários em oposição aos textos que não possuem tais traços. Em razão de estudarem a literatura a partir dessas características textuais específicas, tais correntes de estudo ficaram conhecidas como textualistas. Basicamente e de forma sumária, podem ser consideradas como marcas textuais de literariedade: 1) a oposição da linguagem literária à linguagem comum, sendo a literatura uma forma textual que coloca em primeiro plano a própria linguagem, ou seja, há ênfase na função poética dessa linguagem; 2) a integração da linguagem como organização especial de palavras e estruturas que estabelecem relações específicas entre si, potencializando o sentido dos textos; 3) a distinção entre o caráter referencial dos textos não-literários e o caráter ficcional dos textos literários, ou seja, a literatura, abarcaria textos que criam uma relação especial com o mundo: uma relação ficcional onde o mundo, os eventos e os seres evocados não WAYAWE 22 — TEORIA LITERÁRIA ...................... WWWMWINNAR . . are the that read( 1 ) AFINAL, O QUE É LITERATURA? precisam, necessariamente, ser reais, mas criados ou imaginados; 4) os textos literários teriam um fim em si mesmos, pois, ao colocar a própria linguagem em primeiro plano, estariam operando o seu caráter estético, que ocasionaria, por sua vez, o prazer nos receptores desse texto. Todas as características anteriormente apontadas podem ser facilmente observadas em muitos textos arrolados como literatura e, não raramente, elas foram abstraídas pelos teóricos a partir do estudo e da leitura de textos literários, como é o caso do próprio Chklovski (1971), anteriormente citado, que estuda as obras de Tolstoi (1828-1910) para dizer que uma das marcas da literatura é a desautomatização da linguagem, feita por meio de muitos procedimentos, entre eles o de singularização (criar uma percepção particular do objeto, diferente do mero reconhecimento).. Não tardaram, entretanto, as reações a essa visão objetiva ou essencialista de literatura. Muitos autores começam a questionar se, efetivamente, o que caracterizava a literatura eram certas "propriedades internas” dos textos. Assim, a partir da década de 60 do século XX, começam a surgir várias reações a esse ponto de vista, cujos argumentos centrais podem ser encontrados nas relações entre a literatura e seus leitores, já que muitos autores observam que os fatores distintivos de literariedade, defendidos pelas correntes textualistas, não eram exclusividade de textos literários, podendo também ser encontrados em textos de natureza referencial. Assim, o ponto de discussão sobre o que é literatura desloca-se da esfera do texto e de suas propriedades peculiares" e passa para a esfera do leitor, uma vez que o texto só existiria a partir do ato de leitura dos leitores e o seu significado só emergiria através de um ato interpretativo. Na França, essa preocupação com o estatuto do leitor e com as formas de circulação dos textos aparece muito claramente em Sociologia da literatura e Histoire des Littératures: littératures françaises, connexes et marginales, textos nos quais Escarpit, em 1958, propõe o que chama de abordagem sociológica da literatura. Nela, o caráter literário define-se basicamente por meio da recepção, das relações estabelecidas entre autor/texto e o seu público e todos os meios de transmissão que os ligam: Todos os escritores, no momento em que escrevem, têm presente um público para além deles próprios. Uma coisa não está inteiramente dita até que é dita a alguém: isto é, como vimos, o sentido do acto da publicação. Mas podemos igualmente afirmar que uma coisa apenas pode ser dita a alguém (isto é, publicada) se for dita por alguém. Os dois “alguém” não têm forçosamente que coincidir. É mesmo raro que tal aconteça. Por outras palavras, existe um público-interlocutor na própria origem da criação literária (ESCARPIT, 1969, p. 165, grifos nossos). Ou ainda: Todo o facto literário pressupõe escritores, livros e leitores ou, de maneira geral, criadores, obras e um público. Constitui um circuito de trocas que, por meio de um sistema de transmissão extremamente complexo, dizendo respeito ao mesmo tempo à arte, à tecnologia e ao comércio, une indivíduos bem definidos (ESCARPIT, 1969, p. 9). Também articulando as leituras realizadas pelos leitores ao longo do tempo no que se pode chamar de história da leitura, Chartier (1997) propõe, contemporaneamente, uma abordagem de literatura que leva em conta a figura do leitor. Para ele, a literatura não teria uma natureza característica, própria, mas seria uma construção de sentidos propostos para certos textos. A historicização seria um modo de desvendar os mecanismos de construção do literário, entre os quais a leitura teria importância preponderante: Uma história da literatura é então uma história das diferentes modalidades de apropriação dos textos. Ela deve considerar que o “mundo do texto“, usando as palavras de Ricoeur, é um mundo de “performances” cujos dispositivos e regras possibilitam e restringem a produção do sentido (CHARTIER; 1997, p. 68). Além da leitura, importa para Chartier (1997) a historicização do literário, ou seja, a verificação de como acontecem as variações, no tempo e espaço, entre o que é considerado literário ou não. Em THOMAS BONNICI / Lúcia OSANA ZOLIN (ORGANIZADORES) - 23 1972 ΑΝΑΡΡΟ Ν Ε VIELE WICKI busca dessa historicização da literatura, ele propõe o estudo de algumas categorias responsáveis por construir a literariedade: Decorre daí a definição de domínios de investigações particulares (o que não quer dizer próprias a tal ou tal disciplina): assim, por exemplo, a variação dos critérios que definiram a "literariedade” em diferentes períodos, os dispositivos que constituíram os repertórios das obras canônicas; as marcas deixadas nas próprias obras pela “economia da escrita” em que foram produzidas (segundo as épocas e as possíveis coerções exercidas pela instituição, pelo patrocínio ou pelo mercado), ou, ainda, as categorias que construíram a “instituição literária” (como as noções de “autor" de “obra”, de “livro", de "escrita”, de “copyright”etc.) (CHARTIER, 1997, p. 68-69). Em terras brasileiras, a noção de sistema literário, elaborada por Candido (1981), representa uma abordagem semelhante, na qual o literário aparece associado aos leitores e onde a natureza social do literário é resgatada para a própria caracterização da literatura enquanto manifestação cultural. Apresentado inicialmente em A formação da literatura brasileira, de 1959, o conceito de sistema literário é, para Candido, um modelo explicativo do processo de formação da literatura brasileira, no qual os elementos da tríade autor-obra-público aparecem como fundamentais para a caracterização das condições em que a literatura poderia existir. Sem a articulação desses três elementos, haveria, segundo o crítico, apenas manifestações literárias: [...] convém principiar distinguindo manifestações literárias, de literatura propriamente dita, considerada aqui um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes de uma fase. Estes denominadores são, além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem traduzida em estilos), que liga uns a outros (CANDIDO, . 1981, p. 23). Além de constituir argumento de sua tese sobre a formação da literatura brasileira, o conceito de sistema literário aparece em diversos outros textos de Candido, compondo uma trilha na qual se podem perceber outros detalhes sobre os elementos constituintes de seu sistema. Em O escritor e o público, de 1955, aparecem mais visíveis a noção de circulação literária e o mecanismo de retroação do sistema literário, quando o autor mostra a dupla influência das obras sobre os leitores e dos leitores sobre os autores e, consequentemente, sobre as obras: A literatura é, pois, um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. A obra não é produto fixo, unívoco ante qualquer público; nem este é passivo, homogêneo, registrando uniformemente o seu efeito. São dois termos que atuam um sobre o outro, e aos quais se junta o autor, termo inicial desse processo de circulação literária, para configurar a realidade da literatura atuando no tempo (CANDIDO, 1985b, p. 74, grifos nossos). Mais recentemente, as mesmas ideias reaparecem no texto Iniciação à literatura brasileira, publicado inicialmente em 1997: SRCA. com Entendo por sistema a articulação dos elementos que constituem a atividade literária regular: autores formando um conjunto virtual, e veículos que permitem seu relacionamento, definindo uma vida literária: públicos, restritos ou amplos, capazes de ler ou de ouvir as obras, permitindo com isso que elas circulem e atuem; tradição, que é o reconhecimento de obras e autores precedentes, funcionando como exemplo ou justificativa daquilo que se quer fazer, mesmo que seja para rejeitar (CANDIDO, 1999, p. 15). : 24 — TEORIA LITERÁRIA SARAS SUVASSAGERARANDANESE versenyen ( 1 ) AFINAL, O QUE É LITERATURA? Baseadas num pressuposto sociológico, as ideias de Candido sobre literatura passam sempre pela relação que a literatura estabelece com a sociedade onde surge. Disso decorre o caráter coletivo da literatura, assim referido pelo autor: “A literatura, porém, é coletiva, na medida em que requer uma certa comunhão de meios expressivos” (CANDIDO, 1985a, p. 139). Se literatura é comunicação e se erige entre os espaços que unem autor-obra-público, o conceito de sistema literário de Candido pode ser produtivo como explicação teórica do funcionamento e construção da literatura. O conhecimento de como esses elementos se relacionam dinamicamente no tempo pode ajudar a compreender os caminhos através dos quais a literatura vai se construindo e se constituindo, enquanto expressão de uma sociedade. LITERATURA E RELAÇÕES DE PODER O panorama oferecido até aqui mostra como, ao longo do tempo, construíram-se os sentidos do termo literatura e todos eles são férteis exemplos para se mostrar que a sua definição, como outras definições, ou estabelecimentos de “verdades”, é permeada pelo envolvimento do poder com o conhecimento. Não são, portanto, apenas características intrínsecas a um determinado texto que fazem com que ele seja literário ou não, mas também o poder do conhecimento específico vai determinar se aquele texto pode ser considerado literatura ou não e, em sendo literatura, se é “boa” ou “ruim”. Vamos discutir essa colocação em outras palavras. Já vimos que aquilo que entendemos hoje por literatura, na sala de aula, nem sempre foi visto como literatura. Como aponta Eagleton (2001), na Inglaterra do século XVIII, por exemplo, a literatura abrangia todo o conjunto de obras valorizadas pela sociedade, como filosofia, história, ensaios, cartas e poemas. Duvidava-se que o romance, ainda emergente, pudesse vir a se tornar literatura. Os critérios que agrupavam textos literários eram ideológicos, selecionando escritos que expressassem os valores e gostos de uma determinada sociedade. A arte da palavra que se fazia nas ruas, como baladas e romances populares, não pertencia ao rol literário. É com aquilo que chamamos hoje de período romântico que as conceituações de literatura começam a se desenvolver. Nesse período, escrever sobre algo que não existe, “imaginativo”, passa a ser interessante. Entretanto, como aponta Eagleton, a escrita imaginativa entra em choque com o espírito revolucionário da época, já que os regimes feudais estão sendo derrubados, na França e nos Estados Unidos, pela ascensão da classe média, enquanto a Inglaterra vem tornar-se a primeira nação industrial capitalista do mundo. A situação social que se tem então é de uma quase escravidão da classe assalariada recém-formada, com intermináveis horas de um trabalho massacrante e alienante, e a rejeição de tudo aquilo que não pudesse ser transformado em mercadoria. A literatura romântica, aqui, tem um papel a cumprir: denunciar e transformar a sociedade. Assim, como uma forma de resistência ao estado absolutista no século XVIII inglês, havia sido criado um espaço de discussão literária em clubes e cafés, bem como em jornais e periódicos. Em meados do século, entretanto, o crescimento do número de leitores e do mercado jornalístico aumentou as possibilidades de uma escrita profissional, propiciando o aparecimento da figura do “homem de letras". Um precursor do intelectual do século XIX, o homem de letras possui um conhecimento ideológico genérico, tornando-se capaz de discorrer sobre a cultura e a intelectualidade de sua época. Fazendo da escrita seu ganha-pão, ele procurava ajudar o público a entender as complexidades da transformação econômica, social e religiosa (EAGLETON, 1991). · Até o século XVIII, o público leitor era claramente definido: havia a “sociedade polida”, intelectualizada e interessada, tanto pelas artes, quanto pela manutenção de valores morais, e os incapazes de ler, dedicados ao trabalho braçal, com os quais a produção crítica e literária não precisava, grosso modo, se preocupar. A partir daí, entretanto, vai surgindo uma classe de leitores intermediária, THOMAS BONNICI / Lúcia Osana ZOLIN (ORGANIZADORES) -- 25 (Z)APPONE E WIELEWICKI .- ..... ...... 20. TV wi wwwwwwwwwwwww e w::AIORNAM que não é mais formada de "pessoas influentes", bem versadas nas discussões culturais e intelectuais, nem pelos analfabetos que não conseguem ler coisa nenhuma. Essa nova classe de leitores é alfabetizada, mas não faz o mesmo sentido da leitura feita pelas “pessoas influentes” intelectualmente. Assim, o crítico literário dirige-se a um público que, como ele, trabalhapara viver, mas não está inserido nas formas do diálogo intelectualizado polido das elites. As questões de classe forçosamente passam a fazer parte das preocupações do homem de letras. Ao mesmo tempo em que essa nova classe de leitores burgueses é fortalecida, com suas novas necessidades, o conhecimento especializado vai se definindo, tornando o trabalho do homem de letras extremamente complicado. A função humanista desenvolvida por ele de forma “amadorística”, ingenuamente não profissional, com sua confiança na responsabilidade ética, na autonomia individual e na livre transcendência do eu, como afirma Eagleton (1991), perde terreno para o conhecimento especializado e para um gosto público determinado pelo mercado. Assim, o sábio decide afastar-se da esfera social, buscando ambientes menos “contaminados" para sua busca pela verdade. É dessa forma que a universidade passa a abrigar as discussões literárias. A instituição da literatura inglesa como tema acadêmico deu-se para buscar a satisfação de algumas finalidades ideológicas. Primeiramente, o estudo do "inglês” destinava-se a “pacificar e incorporar o proletariado, gerar uma sociedade complacente entre as classes sociais e construir uma herança cultural nacional que servisse para fortalecer a hegemonia da classe dominante num período de instabilidade social” (EAGLETON, 1991, p. 57). A indagação transcendental decorrente desse projeto justifica a função alienadora atribuída, por vezes, à literatura. Além disso, a universidade veio profissionalizar os estudos literários. A academização da crítica deu ao homem de letras uma base institucional e uma estrutura profissional, mas o separou da esfera pública. Para Eagleton (1991), a crítica literária alcançou sua segurança cometendo um suicídio político: seu momento de institucionalização acadêmica é seu desaparecimento como força socialmente ativa. Suas preocupações com as “letras” ou com a “vida” raramente saem dos limites universitários. É dessa forma de discussão literária, institucionalizada nas universidades inglesas, que a crítica literária atual deriva. É a academia, com suas pesquisas, estudos e publicações, além de discussões em sala de aula, e trabalhos jornalísticos de críticos que passaram pelas universidades, que acaba determinando, hoje em dia, o que é literatura, o que é literatura boa ou ruim, e como ela deve ser lida. Entretanto, pode-se questionar até que ponto as discussões acadêmicas sobre literatura chegam ao público leitor. Quem se importa, além de professores universitários e seus alunos, se o personagem é plano ou redondo, se a narrativa é homo ou heterodiegética, qual seria uma leitura psicanalítica de um conto ou desconstrutivista de um poema? Em quê essa leitura literária "profissionalizada” contribui para a sociedade? Vamos procurar discutir a importância da leitura literária acadêmica lembrando a questão do poder. A resposta para nosso questionamento, se a leitura acadêmica importa ou não para o público leitor de uma forma geral, vamos deixar para o final. Já vimos que a universidade, hoje em dia, tem um papel fundamental na definição daquilo que é ou não considerado literatura, daquilo que é “boa” literatura, e como deve ser lida. A comunidade acadêmica, portanto, tem o poder de definir literatura pela posição que essa comunidade ocupa na sociedade, já que o conhecimento especializado é altamente valorizado. Se a universidade e, por extensão, a escola de um modo geral; diz que determinado texto é literário e de bom nível, entende-se que seja assim. O problema, entretanto, não reside tanto nas escolhas feitas e nas exclusões delas decorrentes. A crítica literária refugiou-se nas universidades para buscar a verdade de forma não poluída pelos problemas sociais. Mas, o que é a verdade? Não seria a verdade uma questão de escolha, condenando outras "verdades” ao esquecimento, mais do que a expressão de uma essência imutável? Foucault (1996) afirma que a verdade nada mais é do que uma construção do discurso, mudando de acordo com variações culturais e ideológicas, em diversos momentos da história. Discurso, conhecimento e poder estão entrelaçados. Existem, portanto, condições para a produção do discurso que envolvem relações de poder, gerando conhecimento e controlando o acesso a ele. O autor fala de uma série de procedimentos que contribuem para a produção e controle dos discursos, ou seja, para a produção ....... . .. ... * TEORIA L I T E R A R I A wkeys KWSUR WISEXXIXSXMRAKUSYAW partneritetien ( 1 ) AFINAL, O QUE É LITERATURA ? e controle da “verdade”. Vamos ficar com apenas dois: a oposição entre o verdadeiro e o falso e as disciplinas. A divisão entre verdadeiro e falso, segundo Foucault (1996), é historicamente constituída, já que aquilo considerado hoje como verdade nem sempre o foi. Para os poetas gregos do século VI a.C., por exemplo, o discurso verdadeiro era aquele que inspirava medo e terror. Aquilo que era dito era considerado realidade, o discurso fazia acontecer, trançando-se junto com o tecido do destino. Se saltamos para a virada do século XVI, em especial na Inglaterra, a verdade passa a ter a obrigação de ser observada, medida e classificada. O objeto a ser conhecido deve ser visível, verificável, comprovável. Um nível técnico de saber é necessário, o conhecimento precisa ser empregado para ser verificável e útil. É essa forma de verdade que conhecemos até hoje. O verdadeiro, agora, é o científico, o comprovável, o palpável. O desejo de que a verdade seja alcançada move a busca científica e está sujeito a um respaldo institucional. Ele é renovado e reforçado por práticas, como a pedagogia, por exemplo, e por sistemas de livros, publicações, bibliotecas, sociedades letradas e laboratórios. A verdade também é renovada pela maneira como o conhecimento é distribuído e atribuído em uma sociedade. Assim, a verdade é estabelecida por grupos detentores do poder do conhecimento e não representa uma essência imutável. As próprias descobertas científicas são revistas e reelaboradas, e aquilo que é considerado verdadeiro em certo momento e por certo grupo de pessoas poderá ser desacreditado no futuro. A mesma coisa se dá com a definição e a valoração da literatura. Textos considerados não-literários no passado são estudados como literatura hoje, e autores “menores”, ou que produzem gêneros menos respeitados, podem vir a ser valorizados pela academia. As disciplinas constituem o outro princípio regulador da verdade nos discursos a ser considerado aqui. Para Foucault (1996), as disciplinas são relativas e móveis e permitem uma construção, mas dentro de certas fronteiras. A disciplina não é a soma de tudo que pode ser dito sobre algo, nem o conjunto de tudo que pode ser aceito sobre um mesmo dado em virtude de algum princípio de coerência ou sistematicidade. As disciplinas são feitas de erros e verdades, sendo aqueles indissociáveis destas. Para que uma proposição pertença a uma disciplina, ela deve ser capaz de ser inscrita em certo horizonte teórico. Dessa forma, cada disciplina reconhece seus princípios verdadeiros e falsos, mas deixa além de suas margens os "monstros" do conhecimento não reconhecido. Foucault (1996) afirma que uma proposição deve preencher requisitos pesados para estar inserida no agrupamento de uma disciplina. Diferentemente de ser falsa ou verdadeira, a proposição deve estar "inserida no verdadeiro” de uma disciplina. Para que um texto seja ou não literário, portanto, não é necessário simplesmente que seus elementos constitutivos sejam literários, mas que aqueles elementos que farão dele um texto literário estejam dentro dos padrões “considerados literários” pelas disciplinas envolvidas. Em outras palavras, será literatura, em um determinado momento histórico, aquilo que a teoria e a crítica literárias, além do mercado editorial, decidirem como literatura. Dentro dessa linha de raciocínio, podemos entender a seguinte definição de literatura: A literatura, poderíamos concluir, é um ato de fala ou evento textual que suscita certostipos de atenção. Contrasta com outros tipos de atos de fala, tais como dar informação, fazer perguntas e fazer promessas. Na maior parte do tempo, o que leva os leitores a tratar algo como literatura é que eles a encontram num contexto que a identifica como literatura: num livro de poemas ou numa seção de uma revista, biblioteca ou livraria (CULLER, 1999, p. 34). Culler (1999) chama a atenção para elementos que seriam diferenciadores do texto literário, que fariam com que a fala cotidiana não fosse considerada literatura. A literatura mereceria uma atenção especial de seus leitores. O seu caráter ficcional, por exemplo, possibilita que os leitores tenham uma relação diferente com o mundo. Quando lemos um texto literário, sabemos que estamos em contato com um evento linguístico que projeta um mundo ficcional que inclui falante, atores, acontecimentos e um público implícito. Sabemos que não somos chamados a responder a um texto literário como seríamos a um texto histórico ou científico, por exemplo. Entretanto, as fronteiras entre a história e a ficção, ou entre a ficção e a ciência, não são tão rígidas assim. O caráter científico e histórico de Os sertões, de Euclides da Cunha, não pode ser desprezado. Os Sermões, do Padre Antônio Vieira, hoje estudados mais por seu valor literário, foram escritos com fins doutrinários. Ao mesmo tempo, a história política a. . . Thomas BONNICI / Lúcia Osana ZOLIN (ORGANIZADORES) -- 27 A PPONE E WIELEWICKI Ma Red wwwwwwwwwwwwwwwwwwww recente, por exemplo, pode carregar consigo muito do caráter ficcional de uma “realidade construída”. Apesar da existência de documentos que podem comprovar este ou aquele fato, até onde podemos precisar o que realmente aconteceu no caso do ex-presidente brasileiro Fernando Collor de Mello (1990-1992)? Até onde aquilo que sabemos sobre a trajetória desse político brasileiro é o "retrato da realidade” e até onde é uma construção ficcional da mídia e de interesses particulares? O critério a que Culler (1999) se refere para sabermos se um texto é literário ou não-em que seção da biblioteca ou da livraria ele se encontra-sugere certo grau de arbitrariedade na determinação da literariedade do texto. Se dissermos que este livro é literatura, passará a ser. Não é bem assim. Como vimos, o contexto histórico faz com que as concepções das pessoas acerca de várias coisas mudem. Essas coisas podem ser os costumes, a moda, a alimentação, a ciência e, entre elas, a literatura. Ao mesmo tempo, a questão de poder também determina o que é ou não literatura. Se um grupo de pessoas, entendidas no assunto, afirma que determinado texto é literário, ele passa a ser colocado na seção de literatura de livrarias e bibliotecas. Se relacionarmos esse contexto situacional e histórico com a questão do poder e do conhecimento de que nos fala Foucault (1996), podemos chegar à seguinte definição de literatura, de Fish (1980): acuda AND Literatura, é meu argumento, é uma categoria convencional. Aquilo que será, a qualquer tempo, reconhecido como literatura é função de uma decisão comum sobre aquilo que contará como literatura. Todos os textos têm potencial para isso, naquilo que é possível considerar qualquer trecho de linguagem de tal forma que ele revelará aquelas propriedades presentemente entendidas como literárias. [...] A conclusão é que enquanto literatura é ainda uma categoria, é uma categoria aberta, não definida por ficcionalidade, ou por descaso com uma verdade proposicional, ou por uma predominância de tropos ou figuras, mas simplesmente por aquilo que decidimos colocar ali. E a conclusão dessa conclusão é que o leitor é quem "faz” a literatura. Isso soa como extremo subjetivismo, mas é qualificado quase imediatamente quando o leitor é definido não como um agente livre, fazendo literatura de alguma forma antiga, mas um membro de uma comunidade cujas assunções sobre literatura determinam o tipo de atenção que ele presta e, assim, o tipo de literatura que “ele” faz. (As aspas indicam que “ele” e “faz” não estão sendo entendidas como seriam de acordo com uma teoria de agência individual autônoma). Assim, o ato de reconhecer literatura não é compelido por algo no texto, nem emerge de uma vontade independente e arbitrária; em lugar disso, procede de uma decisão coletiva acerca do que contará como literatura, uma decisão que estará em vigor somente enquanto uma comunidade de leitores ou crentes continuar a sustentá-la (p. 10-11). wwwwwww w RMS WWWWWW W WWWWWWWWWWWWWWWW Nessa concepção de literatura de Fish (1980) fica claro que a decisão sobre aquilo que é ou não é literatura, embora fortemente centrada no leitor, não é uma opção individual. A interpretação, também podemos deduzir daí, não é um "achismo”, escolha de cada leitor em particular. Embora a experiência com o texto literário se dê de uma forma individual e única, o leitor não se desvencilha de suas próprias histórias no momento da leitura e elas contribuem para a sua produção de significado. Essas histórias são frutos de suas vivências e das influências que o leitor sofre de seu modo de ver o mundo. E a escola, com sua forma de saber institucionalizada, é uma das grandes determinantes de maneiras de se ver as coisas, ou de verdades. Assim, a literatura é definida por uma comunidade que determina os critérios para se reconhecer o texto como literário. Essa "comunidade interpretativa”, como denominada por Fish (1980), vai não só definir a literatura classificando-a como de alta ou baixa qualidade, mas também apontar as leituras possíveis. Fazem parte da comunidade interpretativa literária, como vimos anteriormente, professores universitários, críticos literários, o mercado editorial e a escola, de uma forma muito concreta, com seus professores e alunos. Assim, a crítica e a teoria literárias estudadas nos meios acadêmicos têm papel fundamental na definição de literatura e nas possibilidades e restrições das leituras literárias. Como nos ensina Foucault (1996), as disciplinas não só possibilitam discursos como os restringem. Antes de os estudos culturais, feministas e pós-coloniais, por exemplo, serem validados pela academia, leituras de literatura de massa, de autoria feminina e de autoria de minorias étnicas e sexuais, estavam “fora da verdade” acadêmica. O contexto histórico não propiciava que tais textos fossem considerados fonte legítima de estudos. Hoje em dia, apesar de ainda encontrarmos alguma resistência por parte de alas mais conservadoras . WWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWWW 28 - TEORIA LITERÁRIA reces so RAG YVENAMAM.SARANDRUONNOSSONO ESSEREX SEX be mesecake me 1 AFINAL, O QUE É LITERATURA ? dos estudos literários, essas literaturas antes ditas"marginais” não são mais banidas das salas de aula e das publicações especializadas. Da mesma forma, parece senso comum que o texto literário seja plurissignificativo, possibilitando várias leituras. Prova disso é o grande número de correntes críticas contemporâneas, procurando iluminar aspectos diferentes de um mesmo texto. É claro que, novamente, essa proliferação de sentidos não equivale a nenhum sentido. Cada leitura que se quer válida recorre a elementos dentro do texto e fora dele para comprovar seu ponto de vista, e as diversas correntes críticas, bem como a teoria literária, proveem esses elementos. Outra forma de percebermos as diversas possibilidades de leituras de um texto literário é a forte relação entre a literatura e as outras artes, como a pintura e o cinema, além da televisão e da música. Um texto literário serve de argumento para a criação de outros textos literários, dialogando entre si, bem como para a criação de textos visuais ou musicais, por exemplo. Narrativas épicas viram quadros, romances viram filmes e desenhos animados, poemas viram canções populares. A linguagem literária é traduzida em outras linguagens, aguçando o senso crítico e a criatividade de leitores, espectadores e ouvintes. Em contato com essas diversas leituras, o público encontra sugestões para suas próprias produções de significados.Nesses casos, discussões acerca da fidelidade ao texto literário cedem espaço a considerações sobre traduções de uma linguagem para outra. Finalmente, não oferecemos uma definição única de literatura. Acreditamos que todas as definições sejam parciais, já que localizadas em um contexto histórico, que as valida durante certo tempo. Entretanto, discutir literatura, teorizar sobre literatura, está longe de ser uma tarefa inútil por não podermos precisar o objeto de estudo. Como afirma Eagleton (1991), a questão teórica sempre lembra a imagem da perplexidade da criança sobre práticas que ainda não lhe estão familiarizadas, levando-a a produzir questionamentos acerca daquilo que, para o adulto que já perdeu esse estranhamento, parece óbvio. A investigação teórica permite essa redescoberta do óbvio, o desafio a práticas consideradas “normais” e “naturais”, tais como a própria associação da palavra literatura com Dom Casmurro, citada no início deste capítulo. A investigação teórica permite, assim, reavaliações da realidade e novas tomadas de posições. Podemos voltar à nossa pergunta anterior: A quem interessa saber se o personagem é plano ou redondo, ou qual a explicação psicanalítica de um texto? Se o objetivo dessas indagações for meramente produzir assunto para a sala de aula, não interessa a ninguém, nem mesmo a professores e alunos. Por outro lado, enquanto essas discussões proporcionam formas “estranhas” de se ver o mundo e possibilidades de transformá-lo, interessam a todos. Assim, as histórias lidas ajudam a produzir novas histórias, únicas para aquele leitor. E isso, afinal, é literatura. REFERÊNCIAS AGUIAR E SILVA, V. M. Teoria da literatura. 8. ed. Coimbra: Livraria Almedina, 1988. CANDIDO, A. A literatura na evolução de uma comunidade. In: CANDIDO, A. Literatura e sociedade. 7. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985a, p. 139-167. CANDIDO, A. O escritor e o público. In: CANDIDO, A. Literatura e sociedade. 7. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1985b, p. 73-88. CANDIDO, A. Iniciação à literatura brasileira. São Paulo: Humanitas, 1999. CANDIDO, A. Introdução à formação da leitura brasileira. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. CHARTIER, R. Crítica textual e história cultural: o texto e a voz, séculos XVI-XVII. In: Leitura: teoria e prática. Campinas: ALB; Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997, n. 30, p. 67-75. CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: TOLEDO, D. O. Teoria da literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1971, p. 39-55. CULLER, J. Teoria da literatura: uma introdução. Tradução de Sandra V. T. Vasconcelos. São Paulo: Beca, 1999. THOMAS BONNICI / LÚCIA Osana ZOLIN (ORGANIZADORES) -- 29