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421 
 
10. A FALSA INTERDISCIPLINARIEDADE DO FATO JURÍDICO 
Muitos juristas investem em análises econômicas, políticas, éticas, históricas, da 
realidade tida como fato jurídico, alegando sua intradisciplinaridade. Principalmente na seara do 
Direito Tributário é muito comum encontrarmos autores que atribuem aos fatos ensejadores de 
obrigações e deveres tributários, caráter econômico, como se o direito tomasse emprestado fatos da 
economia para implementar os efeitos prescritivos que lhes são próprios. AMÍLCAR DE ARAÚJO 
FALCÃO, por exemplo, é um destes autores, que qualifica o fato jurídico tributário de “fato jurídico 
de conteúdo econômico” ou mesmo de “fato econômico de relevância jurídica”, revelando a confusão 
metodológica que ALFREDO AUGUSTO BECKER criticamente denominou de “mancebia 
irregular”471. 
Considerando o direito como um corpo de linguagem que se estrutura na forma de 
sistema autônomo, cujos elementos são normas jurídicas expressas mediante proposições hipotéticas-
condicionais, não há possibilidade lógica de um fato que não pertença a este corpo de linguagem, nele 
propagar efeitos. O fato capaz de implicar a conseqüência prescrita numa norma jurídica será tão-
somente o fato jurídico, enunciado antecedente de uma norma individual e concreta, nenhum outro 
mais. Mesmo porque, é a partir deste dado que se separa o jurídico do não jurídico. 
Uma das características do direito positivo é sua homogeneidade sintática. O sistema 
determina o que é jurídico ou não, elegendo uma forma lingüística específica para constituir seus fatos, 
expressa num código que é só dele, à qual denominamos de linguagem competente. Tal linguagem cria 
uma realidade única que não se confunde com qualquer outra: a realidade jurídica. Um acontecimento 
relatado em linguagem competente é um fato jurídico e produz efeitos no sistema do direito positivo, 
porque se constitui como antecedente de uma norma individual e concreta. Qualquer outro fato, não 
constituído no código próprio deste sistema, não tem o condão de nele produzir efeitos e, portanto, não 
pode ser qualificado de jurídico. Isto não acontece só com o direito positivo, mas com qualquer outro 
sistema, cada um tem a sua linguagem própria e os critérios para constituição de seus elementos. 
Nestes termos, não existe um fato econômico capaz de desencadear conseqüências jurídicas, apenas 
econômicas, da mesma forma um fato jurídico não é capaz de propagar efeitos políticos, econômicos, 
contábeis, antropológicos, somente jurídicos. 
 
471 Teoria geral do direito tributário, p. 
422 
 
Anota PAULO DE BARROS CARVALHO, em artigo escrito à memória de 
ALFREDO AUGUSTO BECKER, que “o direito não pede emprestado conceitos de fatos de outras 
disciplinas. Ele mesmo constrói sua realidade, seu objeto, suas categorias e unidades de 
significação”472. E, assim o faz, relatando os eventos do mundo social na linguagem que lhe é própria. 
O que é jurídico, é jurídico, não é econômico, político, histórico, contábil, porque o critério utilizado 
para separação destes outros domínios do social em relação ao direito é justamente a homogeneidade 
sintática do universo jurídico. Neste sentido, esclarece FABIANA DEL PADRE TOMÉ: mesmo que o 
sistema econômico (v.g.) influencie (semântica e pragmaticamente) o sistema jurídico, este não 
produzirá atos comunicativos econômicos, mas sim jurídicos. A economia, passa informações para o 
direito, que as submete ao seu filtro, e vai produzindo suas unidades473. Assim, só os fatos jurídicos 
são capazes de desencadear efeitos na ordem jurídica. 
Tendo em vista ser o fato um recorte lingüístico sobre certa base empírica. De um 
mesmo fato social pode-se construir um fato jurídico, contábil, político, econômico, ou histórico, tudo 
sob a pendência do corte que se quer promover daquele evento. Um e outro, no entanto, são 
completamente diferentes. Todos são construções de linguagem sobre um mesmo evento, o que os 
diferencia é a linguagem que os constitui. O fato jurídico, capaz de desencadear efeitos na ordem do 
direito posto é aquele inscrito como antecedente da norma individual e concreta dentro das regras 
sintáticas ditadas pelo ordenamento e de acordo com os limites semânticos delineados pela hipótese de 
incidência normativa, os demais representam unidades carentes de significação jurídica, que não 
pertencem ao sistema e que, portanto, nele não são capazes de produzirem efeitos. 
O gráfico abaixo demonstra a constituição de vários fatos a partir da mesma 
realidade social, cada um deles autônomo em relação ao outro. 
 
 
 
 
 
472 O absurdo da interpretação econômica do ‘fato gerador’ – Direito e sua autonomia – O paradoxo da 
interdisciplinariedade p. 25 
473 A prova no direito tributário, p. 45 
# 
Fato social 
� 
Fato político Fato econômico Fato jurídico 
423 
 
Explicando: o fato jurídico constitui-se em linguagem jurídica, o econômico em 
linguagem econômica e o político em linguagem política, e assim por diante. O fato jurídico, não tem 
possibilidade ontológica de interferir na política, na economia, na religião, ou na história de um país, 
embora da mesma base empírica a que faz referência (fato social) possam ser construídos fatos capazes 
de atuar nos mais diversos sistemas: econômico (fato econômico), político (fato político), 
antropológico (fato antropológico), ético (fato ético), histórico (fato histórico), religioso (fato 
religioso) etc. Não há um fato que possa ser constituído com todos os aspectos, capaz de produzir 
efeitos em todos os sistemas, pois a separação dos caracteres econômicos políticos, jurídicos, 
religiosos, é suficiente para delimitar cada um deles como objetos distintos. 
Os fatos, como bem salienta LOURIVAL VILANOVA, nada mais são do que 
elaborações conceptuais, subproduto de técnicas de depuração de idéias seletivamente ordenadas474. 
No caso dos fatos jurídicos, o direito determina tais técnicas de depuração traçando limites de ordem 
semântica, quando da definição conotativa constante nas hipóteses de normas jurídicas gerais e 
abstratas e de ordem sintática, quando prescreve um procedimento de produção próprio 
(processo/competência). No entanto, acompanhando a dualidade direito positivo e ciência do direito, 
existem duas possibilidades de cortes: (i) aquele realizado pelo aplicador no processo de positivação, 
que efetivamente constitui o fato jurídico; e (ii) aquele realizado pelo jurista ao separar o fato relevante 
juridicamente como objeto cognoscitivo. 
O critério adotado no corte é que qualifica o fato cognositivamente por ele 
constituído. Se o critério é jurídico (como a conotação de uma hipótese de incidência normativa), o 
fato será jurídico. Assim, os fatos podem ser observados como jurídicos, econômicos, políticos, 
contábeis, históricos, etc., tudo dependendo do critério metodológico empregado na realização do 
corte. O economista atribui uma interpretação econômica ao fato, o contador o traduz contabilmente, o 
historiador o recorta historicamente e o jurista, uma vez assumido o critério jurídico, fixa uma 
interpretação jurídica do fato. No entanto, se o critério utilizado for outro, caímos na “mancebia 
irregular” de ALFREDO AUGUSTO BECKER. 
O conhecimento só é possível mediante abstração do objeto, que se dá pela 
realização de cortes metodológicos na realidade que nos é perceptível. Tais cortes constituem os 
objetos do conhecimento, delimitando aquilo que chamamos de disciplinas. O saber disciplinar, no 
entanto, leva o sujeito cognoscente à busca da interdisciplinariedade, com o objetivo de completar seu 
 
474 As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, p. 104. 
424 
 
conhecimento. Como bem explica PAULO DE BARROS CARVALHO, sem disciplinas não teremos 
as interdisciplinas, pois o próprio saberdisciplinar, em função do princípio da intertextualidade, 
avança na direção de outros setores do conhecimento, buscando a indispensável 
complementariedade475. A realidade (evento), na sua multiplicidade cognoscitiva é intangível enquanto 
recortes lingüísticos não o constituem como fatos. Feitos os recortes nascem as disciplinas, que se 
referem ao mesmo domínio real (Direito, Economia, Política, História, Antropologia, Contabilidade, 
etc.). Por terem um referencial comum tais disciplinas em alguns aspectos se entrecruzam, mas isto 
não descaracteriza a autonomia de cada uma delas. Neste sentido, não há que se falar em análise 
econômica do fato jurídico, pois este é um recorte jurídico, mesmo porque uma análise econômica 
constitui o objeto analisado como econômico. Fala-se, assim, na análise de um fato econômico. 
Apesar de sintaticamente fechado, o direito positivo, possui abertura semântica, o 
que lhe permite qualquer tipo de análise, desde que realizada dentro dos critérios estabelecidos pelo 
recorte metodológico proposto. A tipificação de um crime numa sentença, por exemplo, pode ser 
analisada sob vários enfoques (ex: cultural, político, econômico, antropológico, histórico, psicológico, 
etc), da mesma forma que um texto de lei, um contrato, um ato administrativo e todos os demais 
veículos jurídico-normativos. Mas para o jurista o que interessa é unicamente o recorte jurídico. 
Por retratar uma parcela de um fato social (a parcela jurídica) e sobre esta realidade 
incidirem outras incisões, nunca haverá um fato puramente jurídico, ou econômico, ou político 
(considerando seu aspecto semântico). O que existe são recortes de linguagem. O jurista promove um 
recorte jurídico, isto não impede, contudo, que o economista, tomando a mesma base objetiva (fato 
social), ou sob o próprio fato jurídico, realize uma incisão econômica e que o contador faça uma 
delimitação contábil. A pureza do fato, assim, é delimitada pelos critérios do recorte e cada incisão 
produz um novo objeto. 
11. FATOS JURÍDICOS LÍCITOS E ILÍCITOS 
Alguns capítulos acima, quando tratamos da classificação das normas jurídicas, 
distinguimos duas espécies de normas: (i) dispositivas e (ii) derivadas, com base na relação de 
coordenação estabelecida entre elas pelo legislador. Chamamos de “derivadas”, as normas cuja 
hipótese pressupõe uma prescrição contida em outra norma e de “dispositivas” aquelas que prescrevem 
condutas tomadas como relevantes pelas normas derivadas. Dentre as normas derivadas, separamos, 
 
475 O absurdo da interpretação econômica do ‘fato gerador’ – Direito e sua autonomia – O paradoxo da 
interdisciplinariedade (À memória de Alfredo Augusto Becker), p. 8. 
425 
 
levando em conta a valoração positiva ou negativa do legislador, as: (a) normas derivadas não-
punitivas, que valoram positivamente a conduta prescrita na norma que lhe é dispositiva; e (b) normas 
derivadas punitivas, que valoram negativamente a conduta prescrita na norma que lhe é dispositiva, 
descrevendo um fato ilícito em seu antecedente. 
Reside em tal classificação a distinção entre o fato jurídico lícito e o fato jurídico 
ilícito. O primeiro é construído com a positivação de normas dispositivas e derivadas não-punitivas, o 
segundo com a positivação de normas derivadas punitivas. Dizemos que um fato é ilícito quando 
contrário ao direito, isto pressupõe que outra norma (que lhe seja dispositiva) prescreva a conduta a ser 
contrariada. O fato ilícito se resume, assim, num enunciado protocolar denotativo da hipótese de uma 
norma derivada punitiva, que se refere a um acontecimento contrário ao prescrito por outra norma 
jurídica (dispositiva). 
Ao adotarmos a concepção de que a incidência normativa se equipara à aplicação do 
direito, abandonamos a idéia de que a propagação de efeitos jurídicos possa se dar com a verificação 
empírica do evento. Qualquer modificação de ordem jurídica pressupõe necessariamente a existência 
de uma linguagem competente. Não basta a verificação do evento, é preciso que este seja relatado em 
linguagem jurídica para que enseje uma obrigação jurídica. Os direitos e deveres correlatos, enquanto 
efeitos jurídicos, só passam a existir depois do ingresso de uma norma individual e concreta no 
sistema. Entender, no entanto, que a realização do ilícito (descrito como hipótese de norma derivada-
punitiva) depende da constituição da obrigação prescrita no conseqüente da norma dispositiva, é um 
grande equivoco, porém muito freqüente entre os críticos da teoria de PAULO DE BARROS 
CARVALHO. 
Por vezes, nos deparamos com as seguintes colocações: (i) se juridicamente o sujeito 
só tem direito à vida depois que o seu nascimento é constituído em linguagem competente (registro), 
então se antes dele ser registrado alguém o matar, tal pessoa não cometerá um homicídio porque a 
vítima ainda não tinha direito à vida; (ii) se a obrigação de pagar tributo só é constituída com o 
lançamento e este não foi realizado, o contribuinte que pagar com atraso não realiza o fato ilícito, pois 
o dever dele pagar ainda não estava juridicamente constituído; (iii) Se o dever de parar num sinal 
vermelho não está constituído juridicamente, aquele que avançar o sinal vermelho não deveria pagar 
multa, vez que para o direito não tinha o dever de parar, etc. A maioria das críticas vai de encontro ao 
equivoco de que a realização do ilícito, tido como fato contrário ao “direito”, pressupõe a constituição 
dos direitos ou deveres prescritos no conseqüente da norma dispositiva a serem descumpridos. 
426 
 
Como já ressalvamos, quando se adota um referencial teórico devemos segui-lo até o 
fim, tanto para criticá-lo, quanto para referenciá-lo. O que não se admite cientificamente é a confusão 
de referências, que leva a um total desconhecimento do objeto. 
Partimos da premissa de que as normas são unidades autônomas do sistema do 
direito positivo. Cada uma incide independentemente de outra, basta que o fato descrito em seu 
antecedente seja verificado. As relações de coordenação e subordinação são estabelecidas pelo 
intérprete na compreensão do sistema (plano S4). As normas derivadas punitivas descrevem, em suas 
hipóteses, um acontecimento que se constitui na não-realização de uma conduta, que por sua vez 
encontra-se prescrita no conseqüente de outra norma. A ocorrência relevante para a incidência das 
normas punitivas é a verificação da não-realização desta conduta, não interessa se o direito a 
constituiu, ou não, como obrigatória, mediante um ato de aplicação. Assim, o direito ou o dever, a ser 
descumprido não precisa estar individualizado, para que o evento ilícito se caracterize, mas é 
necessário que esteja previsto em termos gerais, para ser assinalado como contrário ao direito. O que 
interessa, é unicamente a descrição hipotética da norma punitiva, preenchidos todos seus critérios ela 
pode ser incidida. 
No caso, por exemplo, do homicídio, em que o tipo penal descreve: “matar alguém”, 
para que a norma penal incida é necessário a verificação de tal acontecimento. O ‘ser alguém’, no 
entanto, não pressupõe o registro, este apenas é responsável pela constituição da personalidade 
jurídica, enquanto a hipótese penal diz respeito à personalidade física, de modo que, a concretização do 
evento, independe da pessoa ser registrada juridicamente, ou não. No caso da multa tributária, a 
hipótese de incidência da norma derivada punitiva conota o fato de não pagar o tributo, ou seja, de não 
entregar dinheiro aos cofres públicos no dia prescrito pela legislação. Não é preciso que o crédito 
tributário, enquanto elemento da relação jurídica, esteja constituído, nem que o montante pecuniário 
seja determinado, para que o evento descrito se concretize. A hipótese da norma sancionadora apenas 
requer que o sujeito que realizou o fato imponível não entregue dinheiro aos cofres públicos no diadeterminado. Verificada tal ocorrência há suporte fáctico para sua incidência. Para a constituição 
jurídica da multa, no entanto, pressupõe-se a constituição do crédito tributário. 
Certamente que, para constituir o fato ilícito do não pagamento do tributo, o 
aplicador, no mesmo veículo introdutor (auto de infração) também constitui o fato jurídico tributário e 
instaura juridicamente a obrigação de pagar tributo. Como os fatos jurídicos referem-se a eventos 
passados, declarando tais ocorrências, apesar de seus efeitos se projetarem para o futuro, retroagem as 
427 
 
datas dos eventos a que eles se referem. Neste sentido, o direito constitui como devido o tributo desde 
a data do evento tributário e a multa desde o dia final do prazo para pagamento do tributo. 
No caso da multa de trânsito, a situação é um pouco diferente, consideramos que, 
com a emissão da carteira nacional de habilitação constitui-se o fato jurídico lícito ensejador dos 
direitos e deveres inerentes ao trânsito. O dever de respeitar o sinal vermelho já está constituído a 
partir do momento em que o condutor adquire a carteira de motorista. Apesar disso não ser relevante 
para a incidência da norma do ilícito de trânsito, cuja hipótese descreve a passagem em sinal vermelho. 
Verificado o desrespeito ao semáforo, já se tem suporte fáctico suficiente para a incidência da norma. 
Analisando sintaticamente, a distinção entre fato jurídico lícito e o fato jurídico 
ilícito reside na valoração atribuída pelo sistema à proposição-antecedente das normas jurídicas. Os 
fatos valorados positivamente caracterizam-se como lícitos, ao passo que os valorados negativamente 
apresentam-se como ilícitos. Não há uma terceira possibilidade. Não existe um fato jurídico meio 
ilícito ou meio ilícito. Se é jurídico, ou está valorado positivamente pelo sistema e, portanto, é licito, 
ou está valorado negativamente, constituindo-se como ilícito. 
O lícito e o ilícito são valorações (positiva/negativa) do fato jurídico atribuídas pelo 
sistema e só existem dentro dele. Não há ilícito fora do direito, esta é uma atribuição do sistema, 
determinada por seu código, mediante o qual ele recolhe as informações de seu ambiente. Cada 
subsistema do social, processa suas informações internas por meio de um código próprio que, no caso 
do direito positivo, é o do lícito/ilícito. Ao adotar este código o sistema jurídico distingue-se das 
demais comunicações sociais, garantindo seu fechamento sintático e sua autonomia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
428 
 
CAPÍTULO XIV 
 
 
TEORIA DA RELAÇÃO JURÍDICA 
 
SUMÁRIO: 1. Relação jurídica no contexto do direito; 2. Falácia da relação 
jurídica efectual; 3. Teoria das Relações; 4. Relação jurídica como enunciado 
factual; 4.1. Determinação do enunciado relacional; 4.1. Aplicação das 
categorias da semiótica; 5. Elementos do fato relacional; 5.1. Sujeitos; 5.2. 
Objeto – prestação; 5.3. Direitos subjetivos e deveres jurídicos; 6. Características 
lógicas da relação jurídica; 7. Classificação das relações jurídicas; 8. Eficácia das 
relações jurídicas 9. Efeitos das relações jurídicas no tempo; 10. Modificação e 
extinção das relações jurídicas. 
 
1. RELAÇÃO JURÍDICA NO CONTEXTO DO DIRIETO 
Relação é o modo de ser ou de comportarem-se dois termos entre si476. O homem, na 
sua incessante busca pelo conhecimento, experimenta as sensações do mundo bruto que o cerca e vai 
associando suas percepções a fim de torná-lo inteligível. Assim o faz, estabelecendo relações entre 
elementos lingüísticos. Imersos numa realidade constituída pela linguagem, vivemos num mundo de 
relações, dado a natureza relacional dos signos que a compõem. Toda linguagem é, antes de um 
conjunto estruturado de signos, um sistema de associações, ou melhor, de relações. A isto não foge a 
realidade jurídica. 
Tomando o direito como objeto de análise, EURICO MARCOS DINIZ DE SANTI 
observa que vamos encontrar tantas relações quanto as formas possíveis de combinar a multiplicidade 
de sujeitos, normas, fatos, efeitos que compõem o fenômeno jurídico477. Há relação entre: (i) norma e o 
sistema; (ii) normas e normas; (iii) hipótese e o conseqüente; (iv) norma e fato jurídico; (v) norma e 
efeito jurídico; (vi) fato social, as provas e fato jurídico; (vii) sujeitos de direito; (viii) conduta social e 
conduta prescrita; etc. Todas, relações jurídicas em sentido amplo. Mas interessa-nos, neste capítulo, 
as relações jurídicas em sentido estrito, ou seja, aquelas tidas como efeito jurídico, instauradas entre 
dois sujeitos de direito, com a incidência de normas jurídicas. 
 
476 NICOLA ABBAGNANO, Dicionário de filosofia, p. 809. 
477 Lançamento tributário, p. 74. 
429 
 
Define-se “relação jurídica” (stricto sensu) como o vínculo abstrato segundo o qual, 
por força da imputação normativa, uma pessoa, chamada de sujeito ativo, tem o direito subjetivo de 
exigir de outra, denominada sujeito passivo, o cumprimento de certa prestação, sendo que esta última 
tem o dever jurídico de adimpli-la. Tal vínculo é constituído no conseqüente de normas individuais, 
produzidas no processo de aplicação do direito. Dizemos que é abstrato para reforçar o fato do vínculo 
não existir empiricamente (enquanto dado bruto). Trata-se de uma construção proposicional, 
identificada com a formalização (abstração lógica) da linguagem veiculada pelo ato de aplicação. E, é 
decorrente de imputação normativa, porque produzido mediante a incidência de uma norma jurídica de 
caráter geral, como efeito de um fato jurídico, propagado em razão da existência da causalidade do 
direito (vínculo que liga a proposição-hipótese à proposição-conseqüente). 
Tomado por base o caráter instrumental do direito positivo, cujo objetivo primordial 
é ordenar a convivência social mediante a regulação de comportamentos intersubjetivos, observa-se 
que o único meio de que dispõe o sistema para alcançar tal objetivo é a relação jurídica, no contexto da 
qual emergem direitos e deveres correlatos. Vê-se assim, a importância do vínculo relacional na 
operacionalidade do sistema, o que leva PAULO DE BARROS CARVALHO eleger o prescritor 
normativo como dado por excelência da realização do direito. Nos dizeres do autor, “é incontestável a 
importância que os fatos jurídicos assumem, no quadro sistemático do direito positivo, pois sem eles 
jamais apareceriam direitos e deveres, inexistindo possibilidade de regular a convivência dos homens 
no seio da comunidade, mas sem desprezar este papel fundamental, é pela virtude de seus efeitos que 
as ocorrências factuais adquirem tanta relevância, e tais efeitos estão prescritos no conseqüente da 
norma, irradiando-se por via de relações jurídicas”478. 
O direito prescreve condutas, estabelecendo relações entre sujeitos, em virtude da 
verificação de certos acontecimentos. Pensemos em qualquer instituição jurídica e deparamo-nos com 
uma relação entre sujeitos. Pagar tributo, por exemplo, é uma relação entre o fisco e o contribuinte; 
comprar e vender é uma relação entre o vendedor e o comprador; casar é constituir uma relação entre o 
marido e esposa; a sucessão é uma relação entre o de cujos e os herdeiros; o ser agente público é uma 
relação entre o agente e o ente público; e assim por diante. Toda atuação jurídica, invariavelmente, se 
estabelece mediante a constituição de relações entre, pelo menos, dois sujeitos distintos, pois esta é a 
forma de que dispõe a linguagem prescritiva para alcançar seu objetivo de disciplinar condutas. 
 
478 Curso de direito tributário, p. 279. 
430 
 
Os efeitos jurídicos, instaurados com a incidência normativa, constituem-se em 
relações jurídicas. Como acentua LOURIVAL VILANOVA, “proibir, ou obrigar, ou permitir ações e 
omissões importa necessariamente estabelecer relações normativas entre os portadores – sujeitos-de-
direito– da conduta”479. Assim, as condutas juridicamente vedadas, exigidas ou facultadas, são 
vínculos relacionais que se estabelecem entre sujeitos, mediante imputação normativa. Uma pessoa só 
pode estar proibida, obrigada ou permitida em relação a outra pessoa. Inexistindo um dos sujeitos (o 
que proíbe ou o que é proibido; o que obriga ou o que é obrigado; o que permite ou o que está 
permitido) a prescrição perde o sentido. 
Irrefragável é, pois, a relevância do vínculo relacional no ordenamento jurídico. É 
importante ressalvar, no entanto, mais uma vez, que o caráter relacional do direito não se encontra 
apenas no conseqüente normativo, mas também na própria estrutura da norma jurídica. A norma 
jurídica é uma relação de implicação entre proposições (antecedente e conseqüente). O fator deôntico 
atua como operador nas duas relações normativas: (i) interligando as proposições antecedente e 
conseqüente das normas jurídicas; e (ii) conectando dois ou mais sujeitos de direito em torno de um 
objeto. No primeiro caso, o operador deôntico é neutro e a relação é inter-proposicional. No segundo 
caso, o operador é intra-proposicional e encontra-se modalizado nas formas: obrigatório (O), proibido 
(V), permitido (P)480. 
A relação jurídica se estabelece apenas com a linguagem competente do ato de 
aplicação, portanto, é sempre concreta e individualizada. Neste sentido, enuncia EURICO MARCOS 
DINIZ DE SANTI, reportando-se às lições de LOURIVAL VILANOVA: “relação jurídica (stricto 
sensu) não é uma relação qualquer, mas aquela que se dá entre sujeitos de direito em razão da 
ocorrência de determinado fato jurídico. É concreta, pois prescreve uma conduta específica e não uma 
conduta-tipo (abstrata); é individual, os termos da relação (Sa e Sp), categoremas, referente e relato, 
são identificáveis, individualizáveis, não meras categorias de sujeitos quaisquer” 481. 
No enunciado tese da regra-matriz de incidência (norma geral e abstrata) ainda não 
temos a relação jurídica, apenas critérios para identificá-la. Somente com o enunciado conseqüente da 
norma individual e concreta, produzido na finalização do processo de aplicação, onde são 
determinados os termos gerais do enunciado-conseqüente da norma incidida, é que a relação jurídica é 
instituída. Por isso, não é correto dizer que o conseqüente contém a relação jurídica. Este delimita 
 
479 Causalidade e relação no direito, p. 115. 
480 Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência, p. 137 
481 Lançamento tributário, p. 76.

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