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A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fi la para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez vai pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas fi las em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infi ndável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar-condicionado e cheiro de cigarro. À luz artifi cial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fi la e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fi m de semana. E se no fi m de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fi ca satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma. COLASANTI, Marina. Eu sei, mas não devia. In: COLASANTI, Marina. A casa das palavras e outras cr™nicas. São Paulo: Ática, 2002. p. 67-68. (Coleção Para gostar de ler, v. 32). © Marina Colasanti A escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti (1937-), nascida na Eritreia quando ainda era colônia italiana, é também artista plástica, jornalista e tradutora. Escreve para adultos, jovens e crianças. Recebeu diversos prêmios. Entre os mais recentes, prêmio Orígenes Lessa – O Melhor para o Jovem, com o livro Como uma carta de amor (Editora Global), e o prêmio Jabuti, com Breve história de um pequeno amor (FTD). Mantém um site com indicação de suas obras, lembranças e notícias a seu respeito. Disponível em: https:// www.marinacolasanti.com/. Acesso em: 17 dez. 2019. D an ie l M ar en co /F ol ha pr es s 8.e) Não, porque, ao poupar a vida, o indivíduo deixa de viver, não aproveita a natureza, perde a identidade e as possibilidades de sonhar, de projetar futuros, ou seja, não usufrui o tempo que tem. 8. A crônica de Marina Colasanti trata de diversos aspectos da vida cotidiana. a) Releia a crônica e, no caderno, atribua a cada parágrafo um título que resuma o tema desen- volvido nesse trecho. b) A crônica faz uma crítica aos hábitos cotidianos. Qual é ela? c) A crônica sugere ao leitor imaginar o contrário do que descreve. Que atitudes estão pressu- postas nesse contrário? d) Essa crônica foi publicada pela primeira vez no diário carioca Jornal do Brasil no fi nal dos anos 1960 e retrata a realidade cotidiana daquele momento. Para você, essa realidade mudou? Em quê? Explique. e) Segundo a autora, a gente se acostuma “para não se ralar na aspere- za, para preservar a pele”, “para evitar feridas, sangramentos”, “para poupar a vida”. Na opinião dela, vale a pena tanta proteção? Por quê? f) Haveria outras formas de levar o cotidiano sem fazer tantas conces- sões? Explique. g) Você concorda com a autora quanto ao que a gente não devia? Por quê? 8.d) Espera-se que os estudantes percebam que não mudou, os problemas da vida urbana só se acen- tuaram, a despeito de todo o progresso e desenvolvimento socioeconômico da sociedade. Peça aos estudantes que justifi quem suas posições. Capa do livro A casa das palavras, da editora Ática, em que foi publicado o conto de Marina Colasanti transcrito nesta unidade. R ep ro du çã o/ E di to ra Á tic a Não escreva neste livro. 8.a) Sugestões: 1 e 2: falta de horizonte; 3: falta de tempo para tudo; 4: aceitação ou banalização da violên- cia; 5: solidão; 6: viver para trabalhar e para consumir; 7: assédio da publicidade e do consumo; 8: afasta- mento da natureza e degradação do ambiente; 9: pequenas acomodações; 10: a morte ou a perda da vida. 74 PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 74PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 74 2/11/20 12:21 PM2/11/20 12:21 PM PROVOCAÇÕES Texto 7 9. Na tirinha de Liniers, o personagem opta por não se proteger da chuva, o que o diferencia das demais pessoas. a) O que essa atitude sugere sobre o personagem? b) No plano simbólico, que sentido pode ter a atitude do personagem? c) Como pode ser lida a tirinha se relacionada ao texto de Marina Colasanti (texto 6)? d) Ao compararmos a tirinha de Macanudo com a de Snoopy (texto 5), podemos observar que, na de Macanudo, o personagem está em uma situação que envolve várias pessoas, enquan- to na de Snoopy, ele está só. Em qual das situações o enfrentamento do cotidiano é mais arrojado? Por quê? Sugere que ele é diferente da maioria, que não segue um padrão de comportamento. Pode ter o sentido da ousadia, do não ter medo de ser diferente, de assumir as próprias vontades. LINIERS. Macanudo. Disponível em: http://deposito-de-tirinhas.tumblr.com/post/188594648522. Acesso em: 16 jan. 2020. O artista argentino Ricardo Liniers (1973-) trabalhou com publicidade até se fi rmar como quadrinista. Ganhou notoriedade com as histórias de Macanudo, publicadas a partir de 2002 no jornal argentino La Nación. Seu trabalho é apreciado em muitos países e já o levou a fazer várias mostras como artista plástico, como Macanudismo, em 2015, que passou por algumas cidades brasileiras. Id e a fi x a /M a n d a c a ru Exposição Macanudismo com quadrinhos e ilustrações de Liniers. Foi montada em várias capitais brasileiras. Na foto, detalhe da exposição em São Paulo, 2015. 9.c) Pode ser lida como uma resposta à crítica de que muitas vezes agimos automaticamente e acabamos deixando de fazer aquilo que desejamos para reproduzir os padrões da sociedade. Espera-se que os estudantes reconheçam que confrontar um grupo de pessoas exige mais fi rmeza, trata-se de um enfrentamento que requer afi rmação mais corajosa de uma voz, de uma opinião e de argu- mentos que, às vezes, podem provocar críticas. Avalie outras possibilidades propos- tas pelos estudantes. © L in ie rs /F o to a re n a D ia n a A b re u /M a n d a c a ru 75 PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 75PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 75 2/11/20 12:21 PM2/11/20 12:21 PM FALAR DE SI MESMO: Revelações do cotidiano Nosso cotidiano diz muito de nós. Considerar nossos hábitos, o que gostamos ou não gostamos de fazer e nossos percursos mais frequentes contribui tanto para entendermos um pouco mais quem somos como para termos consciência mais clara do que nos motiva ou não, do que nos atrai ou distrai, do que nos encanta ou aborrece e de quais são nossos interesses e desinteresses. As questões a seguir convidam você a pensar sobre seu cotidiano e a observar as pistas que suas respostas dão sobre você e aquilo que você pode considerar na elaboração de seu projeto de vida, pois pensar em um rumo a tomar implica refl etir a respeito do cotidiano que queremos. Porque é preciso equilibrar o tempo do dever e o da fruição, do controle que rege boa parte de nossasatividades cotidianas e do puro contentamento. Pensar em um futuro é também pensar em um cotidiano que possamos sustentar, que permita equilibrar Cronos e Kairós. A ROTINA PESSOAL ■ O que você faz todos os dias? ■ Copie o quadro a seguir no caderno e complete-o. Coisas da rotina que gosta de fazer Coisas da rotina que não gosta de fazer O que gostaria de fazer, mas não faz ■ Como gosta de se divertir? ■ O que faz nas férias? ■ Você cuida da saúde? Copie o quadro no caderno e complete-o. Quanto à alimentação Quanto a exercícios físicos Quanto a exames médicos de rotina ■ Você lê jornal? Acompanha o noticiário? Em caso afi rmativo, que acontecimentos têm cha- mado mais sua atenção? Se não faz isso, como se informa sobre o que ocorre no mundo? ■ Costuma navegar pela internet? Quanto tempo por dia ou por semana? Que assuntos bus- ca na rede? Tem o hábito de verifi car se os sites que você consulta divulgam informações confi áveis? MINHA VIDA EM CASA ■ Com quem você mora? O que fazem as pessoas que moram com você? ■ Como é a rotina de sua casa? ■ Que assuntos costuma conversar com as pessoas da sua casa? ■ Como você avalia a qualidade das trocas com es- sas pessoas? ■ Como você lida com as diferenças no dia a dia? Em casa, por exemplo, você consegue negociar espa- ços, momentos e práticas coletivas? E na escola? E com os amigos? Verifi que se os estudantes avaliam se as fontes de informação que usam na internet são confi áveis. Os próprios hábitos, gostos e interesses podem não só revelar inclinações por esta ou aquela área, como também levar os estudantes a perceber lacunas que pode- riam e/ou gostariam de contemplar. Seria oportuno ex- plorar esses interesses, estimular os estudantes a se informarem para poderem se colocar como sujeitos no mundo, para cuidarem de si mesmos como condição para uma vida realizada e prazerosa. A n to n io G u ill e m /S h u tt e rs to ck Não escreva neste livro. 76 PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 76PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 76 2/11/20 12:21 PM2/11/20 12:21 PM UMA ROTINA HIPOTÉTICA NO TRABALHO ■ De que modo seriam as pessoas que você imagina ao seu lado quando estiver no ambiente de trabalho? Arrojadas no modo de se vestir e descontraídas no compor- tamento ou mais formais tanto no modo de se vestir quanto no comportamento? ■ Como você gostaria que fosse seu ambiente de trabalho? Gostaria de trabalhar em um lugar em que as pessoas conversam o tempo todo para alinhar as tarefas ou em um local silencioso onde você possa se concentrar? ■ Imagine o lugar em que você gostaria de trabalhar. Em uma folha de papel sulfi te, elabore uma descrição ou um desenho que mostre como ele é. As questões acima aproximam os estudantes do mundo do trabalho. Se considerar conveniente, retome o texto 4 da seção Provocações e lembre aos estudantes que todo trabalho ocorre seguindo certa norma, é regido por regras e exige certos comportamentos – e isso ocorre também no campo pro� ssional. O COTIDIANO NA ESCOLA ■ Como você percebe o cotidiano escolar? Avalie o que acredita ser positivo e negativo em situações que acontecem regularmente na escola. Justifi que seu ponto de vista. ■ Você teria alguma proposta de alteração? Se tiver alguma, exponha e justifi que sua ideia. Qual seria o melhor canal para apresentar sua sugestão? MUDANÇAS NA VIDA ■ Você gostaria que algo mu- dasse na sua vida? Se sim, o quê? Se não, por quê? ■ Se pudesse projetar um dia ideal, como seria ele? Estas questões remetem os estudantes a eventualmente projetar sua vida em novas condições. A capacida- de de projetar o que de fato gostaria de ter para si é fundamental para que o indivíduo elabore um projeto de vida. PRÁXIS As canções fazem parte do cotidiano de muitos de nós. As canções de que gostamos muitas vezes mostram o que pensamos, dizem coisas que nós mesmos gostaríamos de dizer ou, ao menos, que gostamos de ouvir. Você e os colegas vão organizar uma playlist da turma com as canções que são importantes para vocês. Se possível, criem uma playlist comentada, isto é, uma gravação em áudio de cada canção acompanhada de um comentário. Sob a coordenação do professor, considerem as etapas a seguir para produzir essa atividade. ■ A turma vai se organizar em grupos de três ou quatro integrantes. ■ Cada grupo vai elaborar uma lista de dez canções. As canções escolhidas precisarão res- peitar o contexto em que serão reproduzidas, ou seja, deverão ser evitadas aquelas cuja letra não possa ser compartilhada no ambiente escolar. ■ Cada grupo elegerá um representante, que vai se reunir com os representantes dos ou- tros grupos. ■ Os representantes dos grupos vão observar se há repetições entre as listas e organizar uma playlist única da turma. A produção da playlist provavelmente vai expor não só os estilos musicais preferidos pela turma, mas também as culturas juvenis que convivem na classe e talvez na escola. Então, nessa seleção, será importante respeitar e valorizar todas. ■ Se quiserem, ao organizarem a playlist, podem agrupar as canções de mesmo estilo – por exemplo, todos os raps em uma sequência, todas as de música popular brasileira (MPB) juntas, etc. ■ Podem também, ao fi nal, organizar um momento para ouvir essas gravações e, se possível, publicar a playlist no blogue da turma. As questões ao lado permitem que os estudantes re� itam sobre sua convivência na escola. Quan- to mais se trabalhar a argumentação e o respeito pelo outro, mais produtiva será a discussão. Elas favorecem também uma eventual revisão de re- gras, atitudes, comportamentos. Considere a possibilidade de retomar o regimento elaborado na unidade 1. Não escreva neste livro. 77 PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 77PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 77 2/11/20 12:21 PM2/11/20 12:21 PM JUNTOPARA FAZER Usando a câmera do celular ou outra, produza uma videorreportagem mostrando sua rotina. A classe pode se organizar para fi lmar em duplas. Assim, quem mostra sua rotina poderá também ser visto no vídeo, enquanto o colega se ocupa da câmera. Para isso, antes da fi lmagem, selecione os momentos de sua rotina que pretende com- partilhar. Por exemplo, deseja iniciar o vídeo mostrando seu café da manhã? Ou gostaria de começar pelo trajeto até a escola? Pretende mostrar as atividades que você pratica fora da escola? Com que situação diária deseja fi nalizar o vídeo? Refl ita sobre como essas situações rotineiras acontecem para extrair aquilo que realmen- te é sempre semelhante e apresentar seu dia a dia como ele realmente acontece. Lembre- -se de que, por ser composta de hábitos e ações repetitivas, muitas vezes a rotina é vivida quase mecanicamente, ou seja, nem se presta atenção em parte dela nem se percebem os detalhes do seu desenvolvimento. No caderno ou em uma folha avulsa, produza um roteiro que oriente a fi lmagem. É impor- tante que ele preveja o que será mostrado e o que será ouvido, ou seja, o que você vai dizer a respeito de cada cena e como vai apresentá-la aos colegas. Observe a seguir um modo de organizar o roteiro. Vídeo Áudio Meu quarto com seus objetos. A imagem deve partir do detalhe do celu- lar ao lado da cama. O celular toca. “Meu dia começa assim, com essa campai- nha estridente do despertador do celular.” A câmera se afasta e mostra o conjunto do quarto. Corte para a xícara de café. “Meu café é apressado. Pão, manteiga, cafezinho e já estou saindo pra escola.” Se for incluir a imagem de outras pessoas no vídeo, lembre-se de pedir uma autorização por escrito. Essa medida preserva o direito de imagem das pessoas. S D I P ro d u c ti o n s /E + /G e tt y I m a g e s Não escreva neste livro. 78 PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 78PV_MTereza_g21Sa_Mod1_U4_066a081.indd 78 2/11/20 12:21 PM2/11/20 12:21 PM