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Educação de 0 a 3 anos 161 c a p í t u l o 9 Crianças em seu terceiro ano de vida Todas as mães deveriam manter um livro para anotar as falas de seus filhos – quando uma criança se refere ao mel como geleia da abelha, isso revela a criação da linguagem. William Barnes, Dorsetshire dialect poet ma explosão da consciência do self” é uma das maneiras pelas quais a experiência de uma criança em seu terceiro ano de vida pode ser descrita. Em um grupo na creche, que muitas vezes dispõe de espaço limitado e tem de enfrentar o alvoroço das crianças mais velhas, a cuidadora tem para si a exigente tarefa de se adaptar ao ritmo das crianças, que passam por vários estágios de crescimento. As crianças que têm entre 2 e 3 anos estão recém começando a se tornar conscientes das explicações e negociações que são parte fundamental da convivência em grupo. Elas precisam sentir-se valo- rizadas e respeitadas, e entender o que os adultos esperam delas. Devemos dar-lhes oportunidades crescentes para fazerem suas próprias escolhas e to- mar suas decisões. Será útil fazer uma avaliação geral das questões que o período situado entre os 2 e 3 anos da criança impõe. Seguindo o tema das diretrizes de desen- volvimento (Freud, 1965), podemos observar as habilidades de manipular e mover-se, a alimentação, o controle dos esfíncteres, a linguagem e a vasta gama de maneiras de brincar e a aprender que está na base de todos os aspec- tos do sentido de si mesma de uma criança e os integra. Em seu terceiro ano de vida, a criança dirige-se, com um certo grau de autonomia, a um período de consolidação, ao mesmo tempo em que busca uma enorme quantidade de informações sobre o seu mundo imediato. Ela tenta interpretar de que maneiras isso se relaciona diretamente com ela e luta para responder à complexidade das exigências, muitas vezes inexplicáveis, que seus pais e pares fazem a ela. “U 162 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson Pelo fato de uma criança muitas vezes não ter informações suficientes para construir um significado para o que acontece, ela tem de lidar com ansie- dades e frustrações que requerem uma compreensão imaginativa por parte dos seus adultos. Os acontecimentos que não podem ser explicados adquirem uma qualidade misteriosa e mágica. Isso não acontece somente com as crian- ças, pois nós, como adultos, muitas vezes temos sentimentos similares quan- do, por exemplo, ouvimos falar da possibilidade de enviar uma fotografia para a América do Norte através de um e-mail, ou dos milagres da engenharia genética. Precisamos sempre respeitar e não rir das tentativas da criança de compreender. DESENVOLVIMENTO NO TERCEIRO ANO DE VIDA Controle do corpo a habilidade de manipular Já aos 2 anos a criança consegue correr com segurança em uma linha reta, e mais tarde fazer curvas. Ao se aproximar dos 3 anos, ela será capaz de negociar obstáculos. Com a prática constante de subir e descer de móveis e outras coisas, sua habilidade e sua capacidade de julgar aumentam rapida- mente. Aos 2 anos, ela sobe até o topo de uma escada, colocando os dois pés em cada degrau, mas aos 3 ela consegue fazê-lo alternando os pés, apesar de, ao descer, ela ainda colocar ambos os pés em cada degrau. Aos 3 anos, ela já tem domínio sobre uma ampla variedade de movi- mentos, e caminha e corre com prazer e controle. Muitas vezes, grita para o adulto observá-la, com prazer e orgulho da habilidade adquirida. A habili- dade de subir em coisas é uma bênção mista, pois implica que a tarefa de colocar coisas longe do alcance dela não é mais uma questão simples. As crianças muitas vezes demonstrarão uma determinação extraordinária em conseguir o que querem, ou simplesmente subirão em uma prateleira alta porque ela está ali, à disposição. Afinal, esse é o impulso que leva as pessoas a escalarem o Ben Nevis* ou o Monte Everest, e ele precisa ser deslocado, e não suprimido. Alimentação Aos 2 anos, a criança pode alimentar-se, utilizando uma colher, com bas- tante competência e sem derrubar comida, e pode levantar e beber de uma caneca. Aos 3, ela já consegue servir-se de bebida de uma jarra pequena, e usa * N. de T. Monte mais alto da Grã-Bretanha, situado próximo a Glasgow, na Escócia. Educação de 0 a 3 anos 163 garfo e faca. Ela mastiga bem e, se tem a oportunidade, é bastante capaz de servir-se, aproveitando-se desse momento. Seu domínio crescente da lingua- gem permite que ela peça por comida e bebida e indique suas preferências. Nessa idade, ela tem prazer nos aspectos sociais da hora de comer, e conversa animadamente com suas companhias. Controle dos esfíncteres Aos 2 anos, uma criança consegue indicar suas necessidades, e provavel- mente permanecerá seca durante o dia. Durante o ano vindouro, ela precisará de ajuda para abaixar suas calças, aprendendo gradualmente a trocá-las, embora aos 3 anos ela ainda possa precisar de alguma ajuda. Há grande variação na velocidade com que as crianças adquirem o con- trole da bexiga e, como é bem sabido, essa área do desenvolvimento é extre- mamente sensível a qualquer tipo de ansiedade ou estresse. Uma preocupa- ção familiar ou uma doença podem facilmente causar uma regressão tempo- rária, e é muito importante que as cuidadoras aceitem isso sem demonstrar reprovação ou impaciência. Para uma criança que já controla sua bexiga há algum tempo, molhar as calças é desconfortável e às vezes embaraçoso. Tra- tar o incidente de maneira séria, sem a implicação de que a criança foi “mal- -criada”, tem muito mais probabilidade de evitar que um retrocesso passageiro se transforme em um problema de longo prazo. Algumas crianças são simplesmente mais lentas que outras, o que pode ser fonte de problemas para os pais, caso a mudança da criança para um grupo de recreação ou escola maternal dependa da capacidade dela de per- manecer “seca” durante o dia. As cuidadoras e as mães-crecheiras devem re- sistir à pressão de dar demasiada importância à questão, por exemplo, inter- rompendo constantemente o brincar da criança para sugerir uma visita ao banheiro. Vale a pena verificar se as roupas possibilitam que as crianças lidem com facilidade e independência com elas, substituindo botões, cintas, zíperes e cadarços por velcros, tanto quanto for possível. Nesse estágio, não há neces- sidade de haver a “hora do banheiro” coletiva, e as crianças podem ir quando quiserem, ao longo do dia, embora elas provavelmente ainda precisem ser lembradas de lavar as mãos. Linguagem As educadoras de creches de grande movimentação são às vezes criticadas por não conversarem o suficiente com as crianças, o que certamente é impor- tante, mas o outro lado da questão, como foi mencionado no Capítulo 7, resi- de na qualidade das relações pessoais e nas experiências ativas e interessan- tes que são oferecidas a cada criança. 164 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson Até que ponto os adultos organizam a rotina do dia de forma a possibili- tar que escutem atentamente as crianças? Isso deve ser um assunto para cons- tante discussão por parte das educadoras, enfocando sobretudo as necessida- des de crianças cujas famílias não têm o inglês como língua materna. Mais uma vez é útil pensar em nós mesmos quando estamos na situação de apren- der uma língua estrangeira, digamos, ao nos prepararmos para as férias. Bus- camos dominar frases simples, para obter informações sobre como viajar ou comprar comida. Podemos nos sentir bastante confiantes, escutando a nossa fita cassete para aprender essa língua, perguntando e respondendo perguntas conhecidas. As dificuldades surgem quando estamos no exterior e, em respos- ta à nossa pergunta, recebemos uma avalanche de palavras que está além da nossa compreensão. Podemos compreender as palavras mais importantes, mas ainda corremos o risco de interpretar o sentido erroneamente. Muitas vezes pedimos às pessoas que falem mais devagar, querendo dizer que precisamos de tempo para interpretar o que elas na realidade estão dizendo. Nessa idade, não se deve esperar que as crianças, mesmo as que têm um amplovocabulário e um bom domínio da linguagem, percebam os aspectos mais sutis da fala dos adultos. Isso pode levar a compreensões incorretas. Por exemplo, Jan, uma mãe-crecheira, visitara uma amiga na companhia de Sally, uma criança de 2 anos, em geral bem-comportada, de quem estava cuidando há vários meses. Ao saírem da casa da amiga, Jan disse a Sally, “Se tivermos tempo, ao voltarmos para casa, talvez possamos ir no zoo”. Sally, que havia achado muito prazerosa a visita que haviam feito anterior- mente ao zoo, apanhou as últimas palavras da frase, não entendendo o signi- ficado de “se” e “talvez”. Quando aconteceu de não haver tempo para a visita ao zoo, ela ficou desapontada e frustrada, o que é compreensível, e imediata- mente teve um acesso de raiva. FACILITANDO O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Reconhecendo que a questão do desenvolvimento da linguagem de uma criança pequena é ampla e complexa, tentamos indicar formas pelas quais as crecheiras cuidadoras podem organizar o dia para permitir que esse processo de pensamento e poder criativo aconteça. A ênfase colocada aqui na necessida- de de que as atividades sejam efetuadas, sempre que possível, com grupo pe- queno de quatro ou cinco crianças, é baseada no conhecimento de que a co- municação acontece em uma atmosfera de confiança e tranquilidade, com as cuidadoras cumprindo seu papel essencial como facilitadoras ou capacitadoras. Outra questão a ser enfatizada é a necessidade de manter um nível baixo de ruídos em qualquer centro de cuidado em grupo. A música de fundo pode inibir seriamente o desenvolvimento da linguagem, e os toca-fitas e a televi- são devem ser usados somente para propósitos específicos, se tanto. Educação de 0 a 3 anos 165 Praticando a fala Nos capítulos anteriores, mostramos de que maneiras o sentido vincula- se às palavras por meio das experiências sensórias diretas e do brincar da criança. Se o sistema de educador-referência estiver funcionando eficazmen- te, a “Ilha da Intimidade”, antes da hora do jantar, oferece um momento im- portante em que o pequeno grupo de crianças está seguro de que dispõe da atenção integral da sua cuidadora. Esse é um momento em que o educador- -referência pode tomar notas de como a linguagem de cada criança está pro- gredindo, o que será ainda de grande interesse para os pais. É particularmente importante que ocasiões desse tipo sejam inseridas na estrutura das atividades do dia para crianças que estão em seu terceiro ano de vida. Quando os sentimentos e as ideias surgem com mais rapidez do que as palavras, a criança muitas vezes gaguejará de ansiedade. Para ajudar, a cuidadora pode segurar suavemente a mão da criança e, se as outras crianças estiverem fazendo muito barulho, pedir um pouco de silêncio, mostrando sua genuína consideração pelo que a criança está se esforçando para dizer. Como Barbara Tizard demonstrou, em sua comparação entre a fala da criança na creche e em casa (Tizard e Hughes, 2002), a qualidade da conversação de- pende de forma intensa de quanto o adulto sabe a respeito do contexto (o qual é obviamente tomado pela criança como algo dado). Isso enfatiza a im- portância do educador-referência conhecer as outras pessoas que são impor- tantes na vida de uma criança, e visitar a família em seu lar de tempos em tempos. Compreender algo das experiências que as crianças têm em casa é essencial quando elas são criadas no contexto de uma cultura e educadas no contexto de outra, tendo de lidar desde muito pequenas com as tensões e ajustamentos que isso envolve (Siraj-Blatchford e Clarke, 2000). Aos 2 anos, a criança já saberá em torno de 50 a 300 palavras, e construi- rá frases com duas ou três palavras. Mais tarde, seu vocabulário aumenta rapidamente; aos 2 anos e 6 meses, a maioria usa bem mais de 100 palavras, incluindo o que, onde, eu, mim e você. Ela pode perguntar seguidamente “O que é isso?”, ao perambular mexendo em objetos, testando sua habilidade em explorações sem fim e demandando uma resposta. O adulto por demais so- brecarregado pode por vezes exclamar: “Oh, fique quieta”, ou, como todos já fizemos, “Pelo amor de Deus, fique parada por um minuto”. Se a criança pu- desse explicar o impulso que a leva a mover-se e a falar, ela talvez dissesse: “Você não consegue ver que tenho que praticar essa coisa nova e difícil que consigo fazer, se quiser me tornar melhor nela?”. Nossa frequente incompreensão daquilo que é central para as crianças pode ser tomada por elas como uma mensagem de que se mover e falar são atividades indesejadas em si mesmas. Na verdade, muitas vezes vemos nas creches crianças de famílias muito desfavorecidas, que infelizmente inter- nalizaram essa mensagem. Felizmente as crianças são resilientes, e seu de- Capítulo 9 | Crianças em seu terceiro ano de vida