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organizadora judit falk EDUCAR OS TRÊS PRIMEIROS ANOS a experiência de Lóczy <© Junquetra&màrin editores Judit Falk MD: Pediatra. Nascida em 1922 em Debrecen/Hungria. Estudou Pedagogia e Medicina e especializou-se em epidemiologia e pediatria em Budapeste. Foi pesquisadora do Instituto Nacional de Saúde Pública e assistente na Clínica Pediátrica da Universidade de Budapeste. Desde 1962 trabalha no Instituto Pikler (Lóczy) onde foi diretora do Instituto entre 1979 e 1991 e atualmente é conselheira científica. Autora ou co-autora de 70 artigos e 10 livros, é conferencista em cursos de pós- graduação e de formação continuada. Maria Vincze MD: Pediatra. Nascida em 1925 em Budapeste, trabalhou como assistente na Clínica Pediátrica da Universidade de Budapeste e no Instituto de Psicologia da Academia Húngara de Ciências. Trabalha no Instituto Pikler (Lóczy) desde 1962 sendo atualmente conselheira científica. Autora, co-autora e editora de 42 artigos e 4 livros, tem 3 filhos e 8 netos. Eva Dehelán: Psicóloga da Infância e da adolescência e psicoterapeuta. Nascida em 1939 em Budapeste, trabalhou durante 3 anos no Instituto Pikler (Lóczy). Ultimamente tem atuado com orientação clínica e como psicóloga escolar. Educar os trEs primEiros anos a experiência de lúczy judit falk organizadora tradução de suely amaral mel Io 68963 JM editora Capa : Zero Criativa Coordenação: Dinael Marin Editoração Eletrônica: Gráfica O Expresso Revisão Gramatical: Maria Aparecida Boschi Ribeiro Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Educar os três primeiros anos: a experiência de Lóczy / Judit Falk (Org.) Tradução de Suely Amaral Mello - revisão de tradução de Jaqueline Moll -1* edição Araraquara: JM Editora, 2004, 88p. CDD- 372.21 índices para catálogo sistemático: 1. Educação pré-escolar 2. Escolas maternais 3. Educação em creches DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA: © JM Editora Ltda. Av. Pio Lourenço Corrêa, 287 - E - Santa Angelina ( i I \ Fone/Fax: (16) 236-3671/3336-3671 k() ) CEP 14802-010 XVvoVVvq/ . -------Araraquara - São Paulo - Brasil Proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada em língua portuguesa. Impresso no Brasil Printed in Brazil Sumário Prefácio à edição brasileira..................................................................05 Prefácio à edição catalã........................................................................ 07 “Lóczy” e sua história Judit Falk.................................................................................................09 O que é a autonomia na primeira infância? A. Tardos e A. Szanto............................................................................33 Relação através da linguagem entre a educadora e as crianças do gmpo Katalin Hevesi...................................................................................... 47 A integração das regras de vida através da atitude dos educadores Eva Dehelan, Lili Szredi e Anna Tardos............................................57 Atividades em comum em um grupo de crianças de até 2 anos e meio Maria Vincze............................................. 67 A participação da criança no cuidado de seu corpo Katalin Hevesi...................................................................................... 79 r Prefácio à edição brasileira É com muita alegria que, na condição de tradutoras, apresentamos para a edição brasileira, reflexões acerca da “experiência de Lóczy” tão significativas para o momento que vivemos em relação à educação das nossas crianças pequenininhas. Apesar das contradições que o cercam, o século XX pode ser lido desde a perspectiva de inúmeras iniciativas pela consolidação de um conjunto de direitos sociais - enunciados e anunciados pela Revolução Francesa. O direito à infância, hoje negado pela escola infantil que escolariza e precocemente transforma a criança em escolar, é ativamente cultivado nesta experiência iniciada nos anos 40, nas práticas e ensinamentos decorrentes desta singular experiência liderada por Emmi Pikler em Budapeste (Hungria). No contexto específico de uma instituição destinada a crianças órías, recupera-se sua condição humana como sujeitos de emoções, de movimentos, de interações; condição esquecida pelas intervenções de profissionais que, a serviço do Estado, higienizavam e atendiam as crianças como pequenos “autômatos”. Pela inovadora relação dos adultos com as crianças - expressão de uma nova concepção de criança -, a experiência do Instituto Lóczy iluminou experiências européias de educação de crianças de 0 a 6 anos em creches e escolas infantis, hoje reconhecidas como as mais avançadas na educação da infância. Nesse sentido, pode ser modelar -5- para educadores e pais, que nos quatro cantos do mundo enfrentam o desafio do cuidado cotidiano com crianças pequenas. A força do olhar, da palavra, do gesto, do que temos de mais “demasiado humano” é o que se recupera nestas páginas que nos falam de respeito à infância e de novas relações entre adultos e pequenos, seguindo a “ética do cuidado amoroso” proposta pelo teólogo Leonardo Boíf. O fato da experiência de Lóczy, - relatada aqui a partir de várias temáticas convergentes para a experiência grupai: a autonomia, a linguagem entre o educador e as crianças, as regras de vida, as atividades em comum, a participação no cuidado com o corpo -, se realizar dentro do claro marco institucional, nos anima a pensar a reinvenção da própria instituição que tem sob sua responsabilidade o cuidado com os pequenos. E desafia-nos a pensar, também, na intervenção doméstica - privada - que, em muitas situações, segue entendendo as crianças pequenininhas como seres inertes, meros objetos de higienização e alimentação que “mais tarde despertarão”. Gostaríamos de lembrar, nesta apresentação, os amigos e amigas da “Associação de Professores Rosa Sensat”, de Barcelona, incansáveis nas lutas pela qualificação da relação do mundo adulto com a infância - como a socialização de trabalhos como este que nos recordam, nesta aldeia global, que podemos compartilhar ideais e práticas que façam a vida na infância mais respeitada e bonita. E apontem, também neste campo, para “outro mundo possível”. São Carlos/Porto Alegre - janeiro de 2003 Suely Amaral Mello (Universidade Estadual Paulista Unesp) Jaqueline Moll (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) -6- Prefácio à edição catalã Conhecemos a existência de Lóczy através do livro “Lóczy ou a insólita educação das crianças pequenininhas” de M. David e G. Appell1, psicólogos de Paris. Era o ano de 1973. Os autores difundiam, ao mundo ocidental, o pensamento e a obra de uma instituição nascida em Budapeste na década de 40. A sintonia foi imediata. Que realidade se movia atrás daquelas páginas? Quem eram as pessoas que, com tão grande sensibilidade, coordenavam um centro de acolhida de crianças? Qual era sua concepção de criança e sobre que a fundamentavam? Em suas páginas encontravam-se formulados alguns princípios que pareciam muito adequados: uma relação afetiva de qualidade entre adulto e criança; o valor da atividade autônoma da criança como motor do seu próprio conhecimento; a regularidade nos fatos, nos espaços e no tempo como base do conhecimento de si próprio e do entorno; a dimensão extraordinária da linguagem como meio de comunicação pessoal; a compreensão inteligente das necessidades da criança e muito mais. Envolvendo aqueles valores, descobríamos um excepcional cuidado, no desenho da estrutura e na organização da escola, dirigido a alcançar os objetivos. Cabia conhecer mais a fundo aquela realidade, cabia contatá-la. Aquela foi a razão da visita à Hungria e do -7- intercâmbio que aconteceu em seguida: artigos publicados na Revista Infância1 2, curso da diretora Judit Falkna escola de verão, seminário em Noszvaj. E esta é a razão do livro que temos em mãos, no qual se reúne uma seleção de escritos que apresentam a instituição e sua filosofia. 1 Paris: Scarabé, 1971 Revista publicada bimestralmente pela Associaciq de .Maestros Rosa Sensat de Barcelona (Espanha) da qual é efetiva colaboradora a organizadora do prefacio à edição catalã. E um dever e, ao mesmo tempo, uma satisfação apresentarmos pinceladas de uma realidade que há anos nos influencia e que, sem dúvida, modificou e melhorou nossa prática na sempre prodigiosa tarefa da educação dos pequenos em coletividade. Constitui agora uma pequena homenagem à instituição Pikler-Lóczy, às pessoas que a criaram e às que agora a integram. Nós a oferecemos aos leitores com o desejo de contribuir com a difusão do pensamento e da valorização das crianças pequenas. Pepa Odena Associação de Professores Rosa Sensat/Barcelona -8- Lóczy” e sua história Judit Falk O Instituto Lóczy, que desde 1986 leva o nome de sua fundadora Emmi Pikler, foi fundado em 1946 como uma das instituições de acolhida de crianças órfãs da capital Budapeste, em uma pequena vivenda situada no meio de um grande jardim. Emmi Pikler sempre sonhou com um instituto moderno de investigação, com um edifício - também situado em meio a um grande jardim - construído para ter boas condições de trabalho, mas foi naquela casa que não seria modesta para uma família de três pessoas, mas que, sim, o era para abrigar um centro público, que criou seu complexo centro. No momento de sua fundação, os princípios daquele centro remontavam a um passado de quase três décadas. Hoje, suas concepções pedagógicas, sua organização e seu funcionamento são citados cada vez mais freqüentemente na literatura como o “modelo Lóczy”. Emmi Pikler fez seus estudos de medicina em Viena, nos anos 20 do século passado e, também naquela cidade, obteve sua licenciatura em pediatria no Hospital Universitário com o professor Pirquet. Sempre considerou que o professor Pirquet e o professor Salzer, cirurgião pediatra no Hospital Mauthner Markhof, haviam sido seus -9- Judit Falk primeiros mestres. Nesse lugar, familiarizou-se com a concepção de fisiologia e de prevenção que determinariam todas as suas atividades. Para ela, a investigação em fisiologia não significava experimentos de laboratório - ainda que também tivesse adquirido experiência nesse campo -, mas implicava observação do funcionamento do organismo que vive em seu meio natural. Tampouco acreditava que a prevenção consistisse na utilização de métodos profiláticos concretos contra certas doenças, mas sim no conjunto e na harmonia ideal de condições adequadas de vida e de desenvolvimento, elaboradas de maneira reflexiva e detalhada. E, ainda que, naquela época, não se conhecesse o termo “psicossomático” e a definição de saúde da OMS demorasse, ainda, mais de 30 anos para vir a público, no modo de pensar e agir de Emmi Pikler integravam-se indissociada e naturalmente, desde o primeiro momento, a saúde somática e psíquica, a noção de interação do indivíduo com seu meio. Juntamente com o professor Pirquet, lutou durante toda a sua vida contra todas as formas de polipragmatismo médico: além da patologia, o diagnóstico e a terapia. Estava impressionada com o interesse com que o professor via o sistema de vida da criança c como dirigia a atenção de seus discípulos e colaboradores para esses aspectos. Paralelamente à preparação de alimentos para crianças, os jovens médicos e futuros pediatras tinham que aprender, em primeiro lugar, a atender os bebês e crianças pequenas, e mais especificamente, a fazê-lo da maneira menos desagradável possível para a criança. Uma das regras rígidas a se respeitar era a que proibia terminantemente dar a um bebê doente uma colherada a mais do que ele aceitasse voluntariamente. -10- L "Lóczy” e sua história Não se obrigava as crianças doentes - segundo a sua doença e seu estado - a passar dias na cama, mas preparavam- se espaços de jogos para todos - tema que continua atual em muitos centros de pediatria hoje. A própria maneira de vestir os bebês era diferente da habitual naquela época e seria por muito tempo ainda: por exemplo, para que pudessem movimentar-se livremente, as fraldas deviam ajustar-se formando calças compridas e as crianças passavam muitas horas do dia, inclusive no inverno, ao ar livre, nas varandas e nas janelas que haviam se transformado em pequenas sacadas, mediante a introdução de pequenas estruturas que serviam de suporte. As crianças ficavam bastante protegidas do frio, mas não impossibilitadas de movimentar-se. Na clínica Pirquet, Emmi Pikler já tinha a impressão de “que haviam solucionado a colaboração com as crianças pequenas de maneira exemplar” (citação do prólogo de sua monografia sobre o desenvolvimento motor), porém agora achava, ainda mais exemplar o “primeiro mandamento” do serviço de cirurgia de Salzer, aquele que dizia que a um bebê ou a uma criança pequena se havia de examinar ou aplicar o tratamento mais desagradável, sem fazê-la chorar e tocando-a com gestos delicados, com compaixão, considerando que nas mãos se tinha uma criança com vida, sensível e receptiva. No serviço de cirurgia daquele hospital de bairro, outra _ coisa também chamava a atenção de Emmi Pikler: a 1^1 estatística de acidentes. Entre os acidentes com as crianças do bairro operário vizinho, que jogavam e corriam pelas ruas, ! subiam em árvores e ficavam em cima dos bondes, havia ' menos fraturas e menos traumas que em outros lugares. Nos -11- JUDIT FALK bairros ricos da cidade, os acidentes com crianças de famílias abastadas, educadas em um clima de disciplina e superproteção, aconteciam no interior da casa ou em situações de passeio. Emmi Pikler estava convencida de que a criança que pode mover-se com liberdade e sem restrições é mais prudente, já que aprendeu a melhor maneira de cair; enquanto a criança superprotegida e que se move com limitações tem mais riscos de acidente porque lhe faltam experiências e desconhece suas próprias capacidades e seus limites. Seguindo com interesse a relativa liberdade de movimentos dos filhos dos operários, com capacidade de caminhai- e correr, constatou que, em relação às possibilidades de movimento dos bebês, nos países que conhecia - Hungria, Áustria e Itália - não havia grandes diferenças no tratamento dos bebês entre as diversas classes sociais. Em todos os lugares, colocavam os recém-nascidos em berços ou caminhas estreitas durante muitos meses, depois os seguravam nos braços em posição de sentados e mais tarde os faziam sentar em um canto da cama ou num cadeirão para que pudessem “familiarizar-se com o mundo” ao seu redor. Depois os colocavam em pé e os ensinavam a andar falando com eles e levando-os pela mão. Em poucas palavras, colocavam-nos em determinados lugares e situações a fim de que a criança aprendesse a caminhar sozinha. No máximo, a única diferença percebida era que as famílias que acreditavam ter idéias progressistas faziam diariamente alguns minutos de exercício com os bebês - agachar, levantar, esticar braços e pernas, pedalar, aplaudir - e observavam quanto tempo a criança sozinha era capaz de manter a cabeça na vertical ou de se manter sentada sem apoio. -12- “Lóczy” e sua história Emmi Pikler já não acreditava que o bebê tivesse necessidade da intervenção direta do adulto, de suas instruções nem de seus exercícios para adotar, conservar ou abandonar as diferentes posições do corpo, nem para mudar de posição, nem para deslocar-se, nem para aprender a colocar-se em pé e caminhar. Não acreditava que o ser passivo se tornasse uma pessoa ativa pelo impulso do adulto; além disso, não acreditava que aquele tipo de intervenção pudesse acelerar o desenvolvimento do bebê e pensava que, caso acelerasse, não representaria nenhuma vantagem para sua vida nem para seu desenvolvimento. Além de suas experiênciasprofissionais, baseava-se também nas idéias de seu marido, um pedagogo progressista. Quando nasceu seu primeiro filho, no início dos anos 30, decidiram não acelerar seu desenvolvimento, respeitar seu ritmo individual e assegurar-lhe, desde o início, todas as possibilidades de ter iniciativas autônomas, de movimento livre e de jogo independente. Os pais nunca colocavam o filho numa posição que ele não pudesse adotar e abandonar sozinho; nunca lhe propunham nem impunham diferentes classes de movimentos e se abstinham de exercer uma influência direta sobre seu desenvolvimento motor. Em troca, criavam condições para que seu filho pudesse passar os dias com tranqüilidade e equilíbrio, que tivesse sempre a possibilidade de espaços e lugares necessários para a liberdade de movimentos - inclusive mais possibilidades do que aquelas que a criança pudesse aproveitar naquele momento. Garantiam que as roupas não impedissem a realização das atividades, que os brinquedos oferecessem experiências adequadas, que a criança os usasse com independência e que, sentindo sempre o afeto de seus pais, -13- JüDIT FALK tivesse vontade de experimentar todo tipo de atividade, conhecer o mundo e conhecer-se a si própria. Naturalmente, Emmi Pikler não teria se decidido a fazer tal “experimento” se não estivesse convencida do acerto de sua hipótese. Segundo sua opinião, naquelas circunstâncias, uma criança que seguisse seu ritmo e seus desejos seria capaz de aprender tudo - sentar, colocar-se em pé, caminhar, brincar, falar, refletir etc.- melhor que aquela que estivesse diretamente influenciada para chegar aos diferentes graus de desenvolvimento que os adultos consideram adequados ao momento em que vivem. Como o desenvolvimento de seu filho respondia em todos os aspectos às suas expectativas, Emmi Pikler passou a trabalhar, com o mesmo espírito, em pediatria familiar durante mais de dez anos com a educação de mais de 100 bebês e crianças pequenas. Graças à ajuda que deu aos pais com seus conselhos refletidos e minuciosos, baseados em observações regulares e permanentes, eles aprenderam, em primeiro lugar, a ter confiança na capacidade de desenvolvimento de seus filhos. Além disso, aprenderam, sem intervir diretamente nas brincadeiras nem nos movimentos das crianças, como podiam criar e transformar as condições materiais e subjetivas através de uma atividade cada vez mais variada iniciada pela própria criança. Segundo as necessidades das crianças, organizava-se um sistema tranqüilo e equilibrado de vida que respeitava seu ritmo de dormir e despertar, que estabelecia um regime alimentar equilibrado, porém simples, definido sobretudo pela vontade da criança.-Também segundo as necessidades da criança, eram definidas as saídas ao ar livre, o maior tempo possível, tanto no verão quanto no inverno. Não intervinham nem -14- “Lóczy” e sua história em seus movimentos, nem em seus jogos, não lhe ensinavam nada, não lhe impunham exercícios motores, mas asseguravam à criança um lugar adequado, inclusive no interior das casas mais simples. As refeições, as trocas de fralda, o banho e o momento de vestir a criança eram as melhores ocasiões de estarem juntos de maneira regular. Durante todas estas atividades, os pais nunca tinham pressa, levavam em conta as necessidades e as reações da criança e toda sua participação - o que tornava mais lentas as operações - e aproveitavam tudo o que acontecia entre eles nesses momentos. O primeiro livro de Emmi Pikler “O que sabe fazer o vosso recém-nascido?”1 é o documento daqueles anos. Esse livro foi publicado na Hungria e no exterior, num total de dez edições. A última edição foi lançada em 1985 na República Federal da Alemanha com um título ainda mais expressivo: “Crianças tranqüilas, mães satisfeitas”. Somente a mãe dc um bebê tranqüilo pode estar contente e satisfeita. E o bebê, por seu lado, somente está tranqüilo se sua mãe está satisfeita. Emmi Pikler pôde constatar que as crianças eram, em geral, alegres, curiosas, vivas e ativas, que se desenvolviam harmoniosamente e que tinham boas relações com seus pais e com seu entorno. No tocante aos pais, eles também estavam satisfeitos. Ainda que o sistema de educação proposto por Emmi Pikler exigisse dos pais uma maior organização das suas vidas e do entorno, para que os filhos estivessem e se sentissem realmente seguros, eles aceitaram e seguiram seus conselhos e estavam orgulhosos e contentes com a sua função de pais. Estavam convencidos e constataram em diversas ocasiões que, durante as suas atividades independentes e -15- JUDIT FALK sem sua intervenção, seus filhos haviam adquirido experiências muito ricas. Não pensavam que, para poder considerar-se bons pais, teriam que estar sempre próximos às crianças nem fazendo alguma atividade com elas. As crianças que se ocupavam com suas próprias tentativas e suas atividades autônomas não exigiam a presença direta e permanente, a participação ou a ajuda constante dos pais, já que, sem eles não se sentiam impotentes. Os pais, por seu lado, viam a atividade serena e independente de seus filhos e, conscientes do valor que aquela atividade possuía, podiam ocupar-se de outras coisas sem sentimento de culpa; podiam orientar seu interesse com liberdade e estar, ao mesmo tempo, ao alcance da vista e da voz de seus filhos. Não se sentiam escravos sujeitados a todas as horas por seus filhos e não os consideravam como um brinquedo. Descobriram o prazer de observar a atividade e o desenvolvimento da criança. Usufruíam de sua companhia e suas relações. Esperavam com alegria o tempo que tinham para passar juntos. Estavam com os filhos, muitas vezes, porque queriam e, quando a criança queria prolongar o tempo de jogo com eles, não consideravam isso ruim ou uma conduta inadequada da criança. As “crianças Pikler” há muito tempo cresceram e demonstraram, com sua vida, seu trabalho - e não em último lugar - com a educação dos próprios filhos e com seu comportamento como pais, que a orientação que os seus pais haviam recebido era acertada. Quando, em 1946, Emmi Pikler foi encarregada de organizar e dirigir o orfanato da rua Lóczy, propôs-se três objetivos. Entusiasmava-lhe a tarefa de demonstrar, por exemplo, que, mesmo no interior de uma instituição, ainda -16- Lóczy" e sua história que fosse mais difícil que em uma família, era possível criar as condições para que os bebês e as crianças pequenas se desenvolvessem favoravelmente, tanto do ponto de vista físico como psíquico. Estava convencida de que a chave da solução dessa tarefa estava nos princípios e métodos estruturados durante as suas observações no marco da educação familiar e, ao mesmo tempo, isso lhe oferecia duas novas possibilidades: se as crianças educadas na instituição se desenvolvessem bem, isso seria a comprovação, a “pedra- de-toque” de toda sua concepção. Já não se poderia pensar que as “crianças Pikler” se desenvolviam bem apesar dos princípios e métodos propostos por ela, já que os pais poderiam não realizá-los de maneira conseqüente, ou mesmo desviá-los de alguma forma. Daí se seguiu que o primeiro objetivo seria provar seu sistema de educação. Outro objetivo era poder fazer observações longitudinais sobre o desenvolvimento do bebê e das crianças pequenas sadias e de suas condições de desenvolvimento. E tudo isso não em situação experimental, mas em circunstâncias da vida cotidiana, que são bem definidas, descritíveis e controláveis. Os objetivos e os meios tinham uma ligação estreita. A finalidade do trabalho prático, - o desenvolvimento sadio das crianças - também era a condição da investigação, já que o processo e a regularidade do desenvolvimento psicológico somente se pode acompanhar em crianças saudáveis e que crescem satisfatoriamente. Para que as crianças se desenvolvessem adequadamente, cabia elaborar, no marco da instituição, os meios de utilização do método estabelecido que já havia sidoprovado. Para isso, era necessário organizar as condições, ensinar aqueles que utilizariam o método e, -17- JUDIT FALK finalmente, era necessário fazer com que os educadores fossem receptivos. Graças às notas de Emmi Pikler e de Maria Reinitz, sua antiga colega e principal educadora, conhecemos as difíceis condições nas quais começaram o trabalho no orfanato, ao iniciá-lo com 35 crianças. A respeito das instalações, registraram: “em cada quarto há camas brancas de hospital com mantas e travesseiros duros. Apenas são bonitos os sacos de dormir de cor azul céu. Pela manhã, faz frio e as crianças não têm o que colocar nos pés, não há pantufas nem material para fazê-las. A água para o banho precisa ser esquentada na cozinha, de onde é preciso carregá- la. Não há uma gota de leite”. “Não há um copo graduado, ainda que eu não pare de solicitar. Em 26 de Julho, enviaram- nos duas latas adaptadas e marcadas com seis ranhuras em lugar dos copos graduados. Mas, com isso não se pode medir com a mesma precisão e assim lançamos mão da concha utilizada para servir a sopa: se não está completamente cheia, corresponde a 150 gramas. E difícil exigir um trabalho preciso nessas condições”, escreveu Maria Reinitz. Mas a preocupação maior era com o pessoal. Segundo Emmi Pikler, “com muitíssimas dificuldades lutamos por coisas absolutamente indispensáveis e, ainda mais, por fazer um bom trabalho. O pessoal resistia muito a um estilo de trabalho que não conhecia”. Citemos Maria Reinitz, “O pessoal tem muita desconfiança. Não há trabalho excessivo, mas não se pode dizer que façam alguma coisa com atenção e cuidado. Não se preocupam com as crianças: as trocas e a alimentação acontecem da forma mais rápida possível, com o menor número de movimentos possível e, quando podem, deixam tudo para as amas e pessoal de serviço. Segundo -18- “Lóczy” e sua história elas, a tarefa dos educadores é o tratamento da roupa porque é preciso arrumá-la, distribuí-la, contar sempre as peças e tomar nota. Por isso não têm tempo para as crianças”. Isso não podia durar muito tempo, uma vez que Emmi Pikler e Maria Reinitz não haviam aceito aquele trabalho para perpetuar as más tradições. No terceiro mês, despediram todo o pessoal. Em lugar de pessoal qualificado, contrataram jovens sem formação profissional, inclusive com pouco estudo, mas interessadas na educação de crianças; elas mesmas lhes ensinaram não somente a dar atenção, mas também a perceber a maneira como as crianças, incluindo os menores, se sentiam confortáveis enquanto eram atendidas. Elas mesmas ensinaram àquelas jovens o método preciso e unificado para atender as crianças: como alimentá- las, trocar-lhes as fraldas, banhá-las e vesti-las, sem ter pressa durante essas operações, ocupando-se delas com carinho, considerando as necessidades individuais e reagindo frente a seus sinais. Ensinaram-lhes gestos delicados e pequenas atenções e sublinharam, particularmente, o fato de a criança - em qualquer idade - ser sensível a tudo o que lhe acontece: sente, observa, grava e compreende as coisas ou as compreenderá com o tempo, sempre que lhe dermos a oportunidade. Ensinaram às jovens a observar as crianças, a tentar compreender tudo o que expressa a posição de seu corpo, seus gestos e sua voz, a dedicar sempre bastante tempo a atendê-las sem ter pressa e a satisfazer suas necessidades segundo as exigências individuais. Ensinaram que tinham que falar enquanto as atendiam - inclusive aos bebês menores - e que, através de suas palavras e de seus gestos, haviam de piepará-las para tudo o que iam fazer, para tudo o que iam -19- JüDIT FALK aprender. Que haviam de estar atentas às reações da criança, às suas palavras e a seus gestos, que haviam de dar-lhe a possibilidade de participar nestes momentos de atendimento, que haviam de considerar seus gestos de colaboração ou de protesto. Que não haviam de impor nada às crianças, mas que haviam de fazer esforços para que as crianças tivessem vontade de fazer o que se esperava que elas fizessem. Também ensinaram que uma educadora que trabalha por turnos, com um grupo geralmente de 10 crianças, tem que conhecê-las bem, tem que trabalhar em cooperação com os outros educadores e, desde o início, manter um registro individual de cada criança, tomando nota não apenas do peso da criança, de suas refeições - por exemplo, o que comeu e quanto -, mas de tudo que lhe tenha acontecido e de tudo o que pôde observar sobre ela. As educadoras não se limitavam às diversas situações dos cuidados com a criança. Os bebês de 3 a 4 meses somente ficavam nos berços enquanto dormiam ou repousavam. Quando estavam despertos, encontravam-se no local comum de jogos, na sala ou ao ar livre, no parque ou na área coberta, ou estavam rodeados de objetos simples porém variados, com os quais podiam brincar de maneira autônoma, sem ajuda nem intervenção dos adultos. Nunca colocavam as crianças em posição que não pudessem adotar ou abandonar sozinhas, nunca as estimulavam a fazer movimentos mais complexos que aqueles que eram capazes de fazer por si mesmas, por própria iniciativa, sozinhas e sem ajuda. As educadoras acompanhavam atentamente - e anotavam com satisfação - todas as tentativas e até as menores manifestações do desenvolvimento da criança. -20- "Lóczy” e sim história Observavam e compreendiam que a criança pequena saudável e equilibrada não precisava ser ensinada a andar ou brincar, mas que, por suas próprias experiências adquiridas durante atividades anteriores, era capaz de desenvolver-se com alegria e harmonia. As educadoras constataram e compreenderam que o desejo de atividade da criança - além do sistema de vida adequado, do horário estudado atentamente, das condições materiais adequadas, do espaço, das brincadeiras, das roupas convenientes, etc. - depende, em grande medida, da alegria, da intimidade e do sentimento de segurança que a criança experimenta em relação ao adulto -sentimento este que é construído enquanto o adulto se ocupa dela. Também constataram e aprenderam sobre outro aspecto da estreita relação existente entre os fatores nos quais se baseia essa relação pessoal: a atividade independente da criança e a relação carinhosa que a educadora podia estabelecer individualmente com cada criança durante os cuidados; e sobre o caráter inseparável destes dois fatores. Apenas podiam dedicar o tempo necessário aos cuidados e aos interesses da criança que estavam atendendo, se soubessem que durante esse tempo as outras crianças não estavam inativas, chorando ou abandonadas, enquanto esperavam ser cuidadas. Em outras palavras, perceberam o caráter inseparável da atividade independente da criança e a possibilidade de cuidar dela de forma adequada. Aprenderam que apenas podiam dar alegria, intimidade e segurança durante o tempo que passavam com cada criança individualmente, porque as outras crianças estavam fazendo uma atividade que as deixava tranqüilas, alegres e seguindo a sua própria esfera de interesses, deslocando-se, brincando, familiarizando-se com as suas próprias capacidades e com o mundo que as -21- JüDIT FALK rodeia, aprendendo a agir de uma maneira cada vez mais madura, aprendendo a mudar de posição ou de lugar, aprendendo a ocupar-se dos objetos e a coexistir com seus companheiros. Os educadores aprenderam e compreenderam que - segundo palavras de Emmi Pilder - “a criança que consegue algo por sua própria iniciativa e por seus próprios meios adquire uma classe de conhecimentos superior àquela que recebe a solução pronta” e, também, que o não intervencionismo na atividade independente da criança não significa abandoná-la: algumas trocas de olhares, um comentário verbal, uma ajuda em caso de necessidade, o compartilhamento da alegria com quem está feliz, tudo isso indica à criança que ela é uma pessoa importante e querida. Esses dois princípios fundamentais elaborados por Emmi Pilder durante a suaassistência às famílias no campo da educação -e que eram a base de todo o seu sistema de educação- adquiriram muito mais importância nas condições institucionais, tornaram-se uma espécie de “leitmotiv”, um conjunto no qual os dois elementos se pressupunham reciprocamente. Miriam David e Genevieve Appell, em seu livro “Lóczy ou a insólita educação das crianças pequenininhas” consideraram, a partir de suas observações e discussões, que esses princípios estavam estreitamente ligados a outros dois princípios fundamentais. Segundo elas, e nós pensamos da mesma forma, a atividade do pessoal da Lóczy estava marcada por quatro princípios fundamentais que formam uma unidade indissolúvel e coerente. Se um desses princípios fosse abandonado, os outros três não poderiam permanecer: -22- “Lóczy” e sua história • a valoração positiva da atividade autônoma da criança, baseada em suas próprias iniciativas; • o valor das relações pessoais estáveis da criança - e dentre estas, o valor dc sua relação com uma pessoa em especial - e da forma e do conteúdo especial dessa relação; • uma aspiração constante ao fato de que cada criança, tendo uma imagem positiva de si mesma, e segundo seu grau de desenvolvimento, aprenda a conhecer sua situação, seu entorno social e material, os acontecimentos que a afetam, o presente e o futuro próximo ou distante; • o encorajamento e a manutenção da saúde física da criança, fato que não só é a base dos princípios precedentes, como também é um resultado da aplicação adequada desses princípios. Com efeito, o conjunto desses quatro princípios determinava a organização da vida de cada criança e dos grupos de crianças assim como o ambiente educacional de todo o centro. Por tudo isso que acabamos de dizer, possivelmente ficara evidente que o orfanato da rua Lóczy havia começado algo absolutamente novo. Era preciso muita coragem, convicção e conhecimentos sólidos para que, em um momento em que ainda não se haviam publicado as obras de Spitz, d’Aubry, de Bowlby e de Robertson que tratavam dos perigos que ameaçam a vida e a personalidade em plena formação do bebê e das crianças pequenas sem família, Emmi Pikler tenha rompido de maneira consciente e radical -23- Judit Falk com as tradições dos hospitais e dos centros tipo “asilo” - instituições nas quais, a característica da vida dos bebês e das crianças pequenas e as atividades dos que se ocupavam deles estavam determinadas por uma ordem impessoal, por cuidados realizados no tempo mais breve possível e dispensados por profissionais com medo dos contágios, das doenças e dos acidentes. Observando a higiene das famílias com um bom nível cultural e criando as condições para um bom estado de saúde das crianças, sem querer imitar o ambiente afetivo espontâneo dessas famílias, Emmi Pikler estabeleceu as condições pessoais e materiais de educação e as estruturas de organização internas cabíveis para que a criança educada nesse centro se sentisse competente em suas relações e atividades progressivamente enriquecidas, pudesse reconhecer-se no mundo material, nas relações com as pessoas do seu entorno imediato ou mais distante, respeitasse a si mesma e aos outros, estivesse aberta e preparada para aceitar novos conhecimentos, seguisse capaz de estabelecer relações afetivas duráveis e profundas e de integrar-se ativamente na sociedade. O “modelo Lóczy”, no que se refere aos traços essenciais e aos numerosos detalhes da prática que ora estudamos, estabeleceu-se desde o início. E desde o início os órgãos oficiais não viram esse modelo com confiança ou entusiasmo. Sobre esse fato, nos fala a nota de Emmi Pikler: “Faz muito tempo que não nos enviam crianças. Ouvem-se rumores de que este é apenas um centro experimental e que não sobreviverá muito tempo; que possivelmente ainda funcione 5 ou 6 meses, mas não mais que isso.” -24- “Lóczy” e sua história Entretanto, ainda existe... Ainda é um centro experimental no sentido de que até hoje continua a elaboração de um sistema: o desenvolvimento minucioso dos detalhes que se relacionam uns com os outros, a análise crítica dos objetivos, dos métodos e das condições, o estudo dos diferentes processos de desenvolvimento, das diversas influências do meio, das relações das crianças com os adultos e com as outras crianças e, especialmente, o refinamento dos conceitos. A maioria das questões examinadas é suscitada pela observação da vida cotidiana, do comportamento e do crescimento das crianças e os resultados da investigação se verificam com a prática. Além das investigações que analisam a prática e aportam resultados que a incrementam diretamente, conseguimos contribuir para o estabelecimento de determinadas dinâmicas fundamentais do desenvolvimento e de outros processos. Porém, o Instituto Lóczy não é um centro experimental em que as crianças são os sujeitos de experimentos. Nunca mudamos seu sistema, nem suas condições de vida por interesse de uma investigação, mesmo que se trate de um curto período de tempo ou de um arranjo temporal, já que, atuando assim, transgrediriamos nossos próprios princípios no campo do cuidado e da educação e, ao mesmo tempo, não poderiamos examinar os fenômenos para estudo dos quais as nossas condições oferecem uma possibilidade quase única. Ainda que, desde o início, se tenha feito um trabalho de observação - que sustentou e ajudou diretamente a prática - e uma documentação do desenvolvimento das crianças e do trabalho de cuidar e educar, apenas se pôde realizar um -25- JUDIT FALK trabalho de metodologia e de investigação mais extenso quando Lóczy passou a se chamar “Maternitat Metodológica”, em 1961, e depois Instituto de Metodologia de Puericultura e de Educação. Ao longo desse tempo, o número de vagas aumentou até 70, mas estabilizou-se final mente em 48. Durante esses anos, encerrou-se a edição corrigida e ampliada do manual para educadores sobre o qual já haviam aparecido antes alguns aspectos sob o título de “O desenvolvimento e as atenções ao bebê e à criança saudável”. Habitualmente se referiam a este livro como “manual dos três volumes” ou ao “livro azul”. Muitas gerações de educadores dos berçários e dos orfanatos o têm utilizado com bons resultados. A publicação do manual “Pedagogia”, de três volumes, é da mesma época. Durante aqueles anos também se elaborou o programa e o temário da formação de educadores em nível de escola profissional geral e de escola profissional secundária, que ainda constituem a matéria básica dos programas feitos depois das mudanças sofridas na formação profissional. Durante esse mesmo período, organizaram-se cursos de aperfeiçoamento para pediatras de berçário. Em 1970, o Instituto Lóczy se transformou em Instituto Nacional de Metodologia dos Orfanatos. Até esse momento apenas havíamos avaliado os resultados de nosso trabalho com a observação do desenvolvimento das crianças educadas em nosso centro. Mas, três pesquisas de grande envergadura - uma delas realizada com ajuda da Organização Mundial de Saúde - corroboraram nossa concepção, nossos princípios fundamentais e nossos métodos. -26- “Lóczy” e sua históhia O suporte profissional e metodológico que oferecemos a outros orfanatos do país serviría para verificar se o que se passava com Lóczy era algo especial, irrepetível, ligado a determinadas pessoas, ou se era um modelo verdadeiro, cujos elementos mais importantes formam um conjunto coerente e desefnbocam em resultados também verdadeiros. Em 1971, conheciam-se 43 orfanatos que até aquele momento existiam em 63 edifícios diferentes. Encontraram- se centros em diversos níveis: em alguns, aspirações cheias de boa vontade; em outros, soluções atrativas, mas que levavam a “becos sem saída”; na maioria daquelas escolas, no entanto, a situação era muito preocupante. As crianças mostravam sinais de diversos graus de “hospitalismo”. Desde então, visitamos com regularidade os orfanatos, recebemosa cada ano entre 60 e 80 diretores e colaboradores em cursos de aperfeiçoamento individual; organizamos, em diferentes ocasiões, cursos de aperfeiçoamento de duas semanas para diretores, outras vezes, conferências de dois dias para todos os diretores médicos ou outros dirigentes, psicólogos e pedagogos. Redigimos 25 guias metodológicos com diversos temas sobre a educação dos pequenos. Produziu alguma influência todo esse investimento no trabalho? Sem dúvida. Havia alguns centros que resistiam a toda classe de conselhos, mas a maioria compartia a nossa concepção. O trabalho em comum nos agradou muito e resultou em muitos aprendizados úteis. Agora, em cada centro, se considera importante que a equipe de educadores e os grupos de crianças continuem estáveis e que, entre a educadora e a criança, se estabeleça uma verdadeira relação pessoal, que a criança não permaneça inativa em seu berço, que tenha muitas possibilidades de mover-se, de deslocar- -27- JUDIT FaLK se e de brincar. É verdade que, em alguns centros, as formas nem sempre se enchem de conteúdos, e que, às vezes, o ambiente íntimo durante o cuidado e as boas intenções apenas são anunciadas (e os “slogans” que não têm verdadeiro conteúdo são verdadeiramente perigosos). Entretanto, podemos dizer tranqüilamente que a maioria de nossas instituições pode competir com as dos países estrangeiros que conhecemos e que consideramos como boas, e, talvez, algumas delas estejam acima do nível das melhores. As instituições não fazem pesquisa de acompanhamento das crianças depois de sua saída, mas quase sempre podemos constatar, quando as visitamos, que a situação das crianças melhorou muito, que a expressão de seus rostos é muito mais individual e mais serena, que elas são muito mais ativas, e que se parecem muito mais com crianças educadas cm famílias que seus predecessores no mesmo centro - e não estamos falando das crianças de 15 anos atrás, mas 3 ou 4 anos atrás. Antes de terminar esta exposição, gostaríamos de tentar responder à pergunta sobre se a experiência e as soluções do “modelo Lóczy”, que têm como ponto de partida a família e a educação na família, devem limitar-se a orfanatos. Pensamos que não. Durante o nosso trabalho educacional, buscamos garantir que as crianças sejam aptas a integrar-se, com uma personalidade saudável, aberta ao mundo e preparada para estabelecer relações estreitas com a família que continua a sua educação - seja sua própria família, seja uma família adotiva. Queremos que sejam pessoas maduras do ponto de -28- “LÓCZV” E SUA HISTÓRIA vista afetivo, social e moral, que possam lutar com perseverança pelos fins que se tenham proposto, que sejam capazes de refletir de maneira independente, que saibam desejar e decidir responsavelmente em seu universo, mas, ao mesmo tempo, possam adaptar-se aos interesses dos outros e às exigências reais e compreensíveis da sociedade. Pensamos que as nossas experiências ainda têm relações mais diretas com o mundo de fora das paredes das instituições. Concretamente, as nossas experiências, as nossas conclusões e os fatos que reconhecemos - mutatis mutandis - também são aplicáveis às crianças educadas nas famílias. Isso se manifesta, por exemplo, no fato de que, em muitas províncias do país, os puericultores que visitam os domicílios utilizam com bons resultados o “quadro de desenvolvimento de Lóczy” para elevar o nível de cultura educacional das famílias e para encorajar o comportamento mais compreensivo e mais paciente dos pais que querem criar um ambiente e uma relação que respondam melhor às verdadeiras necessidades do filho, preocupam-se com ele c consideram sua personalidade e suas características individuais. Talvez tivéssemos menos conflitos afetivos entre pais e filhos e menos problemas na educação em família se as primeiras relações entre pais e filhos recém-nascidos não se limitassem a determinadas atividades - carregar a criança nos braços, colocá-la sobre os joelhos, segurá-la no colo, brincar com ela, ensiná-la - e se, em relação ao contato físico, não se considerasse o cuidado como simples procedimento técnico que significa a satisfação das -29- JüDIT FaLK necessidades fisiológicas da criança que, nessa idade, estão juntas com as necessidades psíquicas. Evitaríamos muitos problemas se, desde o começo, considerássemos o cuidar como um momento íntimo, pleno de comunicação. O bebê não deveria ser considerado como um simples objeto de cuidado, mas como uma pessoa que tem uma influência sobre os acontecimentos e que estabelece relações, um verdadeiro companheiro que sente melhor o amor de seus pais se eles, tendo em conta suas necessidades, lhe dedicam uma atenção de qualidade. Poderiamos evitar perigosos impasses se as descobertas feitas nas últimas décadas sobre a inaudita capacidade precoce de aprendizagem dos recém-nascidos e dos bebês não conduzissem a uma direção equivocada: ensinar e condicionar engenhosamente e incansavelmente as crianças desde os primeiros momentos da vida por um lado com coisas que poderiam aprender melhor e apropriar-se delas sozinhas, por iniciativa própria, e, por outro lado, com coisas que as crianças aprendem apenas para contentar os adultos, sem entender seu significado. As capacidades que antes nem se imaginava, mas que o recém-nascido tem -inclusive o feto- não apenas sugerem a possibilidade de ensinamento precoce, mas também reforçam a confiança na capacidade independente de aprendizagem do bebê. Não há dúvida de que a situação social traz em si possibilidades de ensinamento muito importantes nas idades muito jovens, em especial no que diz respeito ao comportamento social e à apropriação da utilização de determinados objetos e instrumentos, condicionada pelas tradições sociais ou outras. Entretanto, a atividade de movimento e de jogos livres - sem a participação iniciadora -30- “Lóczy” e sua história ou modificadora do adulto - reforça as possibilidades especiais de “aprendizagem” do bebê e da criança pequena que nenhuma outra coisa pode substituir. O bebê, pelo que faz na direção de seus movimentos e na aquisição de experiências sobre ele mesmo e sobre o seu entorno - sempre a partir daquilo que consegue fazer - é capaz de agir adequadamente e de aprender dc maneira independente. Para o desenvolvimento da independência c da autonomia da criança, é necessário -além da relação de segurança - que ela tenha a experiência de competência pelos seus atos independentes. A intervenção do adulto, ensinando ou simplesmente interferindo nos movimentos e nos jogos do bebê, não apenas perturba a situação de independência, substituindo o interesse do bebê por seus próprios objetivos, como também aumenta artificialmente a dependência da criança, enquanto que a atitude de respeito à autonomia coloca, em lugar de um comportamento possessivo e autocrático dos pais, o fundamento de um sistema de relações pais-filhos em que ambos se consideram e confiam mutuamente. Talvez não fôssemos por demais imodestos se disséssemos que, além da contribuição feita à educação institucional dos bebês e das crianças pequenas e à formação profissional, demos nossa contribuição ao desenvolvimento da pediatria, e, no interior dela, em primeiro lugar à pediatria social, à proteção da infância e da juventude, à psicologia genética, pedagógica, médico-pedagógica, social e talvez também à psiquiatria infantil. Em meu informe, me detive em explicar mais os nossos resultados e os nossos êxitos que as nossas preocupações e as nossas dificuldades. Naturalmente isso não significa que -31- JUDIT FALK não tenhamos dificuldades e quando digo isso não apenas penso nos problemas exteriores ou financeiros. Nunca perdemos de vista nossos objetivos mais importantes, mas a sua realização não é sempre direta, não se faz sem erros e dúvidas. Para que cada criança tenha tudo o que necessita para o seu desenvolvimento equilibrado, do ponto devista físico e psíquico, para que nossos conselhos sejam autênticos, para que nossas investigações possam descobrir os mecanismos e as correlações reais existentes, precisamos enfrentar a cada dia, continuamente, problemas que ainda não foram resolvidos, precisamos saber distinguir o que conseguimos daquilo que ainda exige esforço para ser conquistado. O caráter coerente de nossos princípios e de nossa prática nos protege contra os erros verdadeiramente graves, mas o perigo maior que constantemente tentamos evitar é que nem os êxitos nem os fracassos diminuam nossa sensibilidade para os problemas, que não cedamos às tentações, que não lhes exageremos a importância e tampouco os desconsideremos, uma vez que deixaríamos de lado o meio de encontrar soluções. Ao contrário, a nossa força maior consiste talvez no fato de que sempre tentamos encarar sinceramente e de maneira crítica as nossas debilidades, os nossos fracassos, pequenos ou grandes, e reencontrar assim a direção correta. 1 N. de T. O primeiro livro de Emmi Pikler foi publicado em 1940 em Budapeste, teve 6 edições húngaras, a última em 1976. Teve 3 edições francesas (Que sait faire votre bébé?), a última em 1962 (Les Editeur Français Reunis, Paris) e 5 edições na alemanha (Friedliche Babys - zufriedenen Miitter), a última em 1991 (Herder Verlag, Freiburg, Basel, VVien). -32- O que é a autonomia na primeira infância?1 A. Tardos e A. Szanto Podemos determinar a atividade dos bebês ativos e autônomos a partir das estatísticas apresentadas por diversos estudos baseados na observação das crianças que passam parte de sua vida sob os princípios da experiencia Lóczy. Constatamos que as crianças com idade em torno dos 8 meses, na etapa em que se mantêm deitadas de lado ou de bruços e são capazes de virar-se conseguindo dar uma volta inteira, mudam de posição uma média de 42 vezes em 30 minutos, ou seja, a cada 43 segundos e somente ficam em uma mesma posição durante uma média de 3.5 minutos. Um pouco mais tarde, quando começam a sentar e a deslocar-se engatinhando ou arrastando-se, mudam de posição fi eqüentemente e apenas ficam numa mesma posição uma média de 1 minuto e 20 segundos. Sua mobilidade aumenta quando começam a levantar-se (próximo aos 11- 12 meses): a média de mudança de posição passa a ser de 74 vezes a cada 30 minutos (dos quais 21 são para sentar-se, 17 para engatinhar e 10 para pôr-se de pé). -33- A. Tardos e A. Szanto Próximo aos 5 ou 6 meses, a atividade dominante é a contemplação dos objetos ou das pessoas; há crianças que, em 25 minutos de observação, passaram nessa atividade uma média de 8.5 minutos, mais de 15 segundos de cada vez sem interrupção. Próximo aos 8 a 10 meses, domina a exploração de objetos pela manipulação. Uma média de 13.5 minutos em 25 minutos de observação. Durante tal atividade, pudemos distinguir mais de 60 variedades de movimentos das mãos e dos dedos. Algumas posições podem aparecer em uma média de 27 a 37 vezes em 25 minutos. E importante destacar que as crianças observadas nesses estudos não são crianças excepcionais em relação a outras; estão sendo educadas com afeto e com respeito à sua atividade autônoma. Que atividade? A investigação experimental descobre cada vez mais facetas da competência da criança. A ciência também nos ensina que todo ato desejado e executado ativamente pelo sujeito tem para este conseqüências imediatas e, a longo prazo, muito mais enriquecedoras que os atos impostos e suportados. Entretanto, em nosso “hábito cultural”, essas descobertas ainda não têm espaço: a imagem do recém nascido é teimosamente fixa. O recém-nascido ainda é considerado como alguém a quem teremos de ensinar tudo, ou pelo menos, alguém a quem temos de fazer exercitar suas capacidades segundo nos pareça importante para seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, não se dá suficiente importância às suas atividades, nem às suas descobertas autônomas. Muitas vezes involuntariamente e muitas vezes com bons argumentos, o adulto impede que a criança atue fora dos momentos concretos que ele - adulto - tenha -34- O QUE É A AUTONOMIA NA PRIMEIRA INFÂNCIA? previsto. Sendo assim, a criança passa uma parte de seu tempo esperando: esperando que alguém venha até ela, esperando que chegue o momento da atividade, esperando crescer para variar a atividade, esperando passivamente. Há cada vez mais lugares onde a criança é percebida de uma outra maneira: ativa por si própria e competente desde o nascimento, rica de iniciativas e de interesses espontâneos pelo que a rodeia. As condições que a rodeiam, no sentido amplo do termo, determinam as possibilidades de realizar essas experiências. A observação do adulto: fundamento da autonomia da criança Mais que qualquer discussão teórica, a observação concreta é o que nos pode convencer da importância fundamental da atividade na vida psíquica da criança. Os parâmetros de observação são: a qualidade da atividade, o seu conteúdo, a sua duração e o lugar que ocupa em relação ao comportamento global da criança. Nessa situação, não se trata de medir o que a criança é capaz de fazer em determinadas circunstâncias, mas de observar os momentos habituais de sua vida, de olhar a criança que está espontaneamente em atividade. Colocar-se questões concretas e variadas, permite ver a criança, descobri-la e depois atuar de forma conseqüente: as descobertas que se seguem são apaixonantes. Quando observamos, devemos fazê-lo de um duplo ponto de vista: o do adulto e o da criança. Pois a criança não brinca, vive. Vive muito seriamente, implicando-se completamente, envolvendo todas as suas funções e todas as suas emoções em cada ato, desde o nascimento. Apenas a -35- A. Tardos e A. Szanto observação externa descobre nessa atividade os sinais de uma evolução, os elementos mais ou menos favorecedores de progresso, os fatores de comportamentos futuros cada vez mais complexos. Para a criança não se trata de “preparar o futuro”, mas de esgotar suas possibilidades atuais. Essas possibilidades dependem do estado de desenvolvimento em que se encontra, do entorno sobre o qual pode ter influência e do seu estado psíquico. Tomemos o exemplo de uma criança de 8 dias, nos braços de sua mãe, logo depois de mamar: imóvel, gira os olhos em todos os sentidos, durante alguns momentos parece que não vê nada exterior. Deitada em seu berço, agita os braços, continua a mover os olhos, depois vira a cabeça diversas vezes à esquerda e à direita. O que faz o adulto? Tem nos braços a criança com uma atenção cálida e reflexiva para assegurar-lhe uma sensação de segurança; a criança recosta a nuca e as costas. Constatamos que movendo os olhos e a cabeça, a criança exercita sua coordenação ocular-cefálica. A criança não sabe nada disso. Simplesmente parece muito interessada: comodamente experimenta a sutil sensação que envolve o ato de girar os olhos, depois, no leito, se agarra ao prazer de girar a cabeça... Os seus meios nos parecem rudimentares, mas são, nesse momento, os seus e, por eles, a criança é ativa, séria e atenta. Um outro exemplo: uma menina pequena de dois meses, na creche, uma manhã. Está deitada de bruços, com a cabeça erguida, observa um pedaço de papel, girando-o em todos os sentidos. Vira-se de barriga para cima e continua a observá-lo, mudando-o de mão e lança o papel longe. -36- O QUE É A AUTONOMIA NA PRIMEIRA INEÃNCIA? Depois, toma a se pôr de bruços e olha seus companheiros. Esticando bem o braço quer recuperar o pedaço de papel que uma outra criança acaba de pegar. Como não consegue, busca um outro objeto para manipular. Alcança uma bola e toma a se virar de barriga para cima segurando a bola. Uma semana mais tarde vemos que se põe outra vez de barriga para cima, de bruços, que se vira, que brinca com seus pés, que se desloca de lado para alcançar um objeto. De bruços, ao lado da educadora, aponta um objeto, depois se dirige a ela pedindo o objeto -e faz isso três vezes seguidas. O que constatamos? Os seus movimentos estão adaptados àquilo que deseja fazer. Fixamo-nos em sua agilidade, em sua habilidade, na adequação de todo o seu corpo ao seu atual nível motor que consiste em assimilar bem o fato de “virar-se”. Ainda que não engatinhe nem sente, não parece ter nenhum “atraso”. Notamos a grande destreza das mãos e dos dedos, e também os progressos de uma semana a outra: eleva mais o peito, e quando se vira, tem mais controle que na semana anterior. Além disso, observamos um certo domínio do espaço no deslocamento em direção a algum objeto concreto e observamos gestos que demonstram um bom esquema corporal. O seu comportamento com o adulto a situaria, em breve, como “mais avançada” para sua idade. Sempre satisfeita, relaxada em tudo aquilo que faz, já que tem plena liberdade de movimentos, a criança está contente, preocupada, incomodada, sorridente, séria, ativa ou interessada de acordo com o andamento das coisas. Extrai suas ocupações da riqueza do ambiente adaptado aos seus meios. -37- A. Tardos e A. Szanto Para que a vida ativa de uma criança seja satisfatória para ela e para o seu educador é necessário que haja dois fatores fundamentais: que a criança tenha liberdade de movimentos e que tenha alguma coisa com que ocupar-se, relacionada com o seu desenvolvimento. A importância, durante o primeiro ano, do jogo autônomo iniciado pela própria criança Os adultos poucas vezes vêem o recém-nascido absorto na contemplação e na descoberta de seu entorno. Em geral, no momento em que se aproximam do bebê e entram no seu campo visual, modificam a situação. Ao ver o adulto, é normal que o bebê comece a observá-lo. De acordo com sua idade, suas experiências anteriores e o valor afetivo que para ele tenha o adulto que se aproxima, estará atento ou na expectativa. As vezes ri, dá pequenos gritos de alegria ou se põe sério e inclusive se põe a chorar. Se o adulto estabelece um contato falando-lhe ou mostrando-lhe um brinquedo, se começa a brincar com ela, a criança escuta e participa; muitas vezes é ela própria quem toma imediatamente a iniciativa. Esses momentos são muito importantes e valiosos na vida de um recém-nascido. Sabemos muito bem de que maneira a criança acolhe, nas diferentes idades, os adultos conhecidos ou desconhecidos quando vê que se aproximam. Porém, quase não sabemos nada sobre o que passa com a criança pequena contente e satisfeita quando nem ela nos vê nem nós a vemos, quando brinca no lugar que lhe é habitual,-um lugar espaçoso, adaptado a sua liberdade de movimento e muito bem provido de brinquedos. Para a criança esses minutos e essas horas são, também, tão -38- O QUE É A AUTONOMIA NA PRIMEIRA INFÂNCIA? importantes e valiosos como o tempo que passa em nossa companhia. Se o adulto consegue observar a criança nesses momentos sem que a criança se dê conta, pode ter uma alegria e uma satisfação muito grandes. Tudo o que diremos em seguida neste artigo somente é válido para os recém-nascidos que vivem uma plena sensação de segurança. E preciso lembrar que o fundamento desse sentimento se constitui pela experiência de ajuda imediata quando a criança tem alguma necessidade. Isso quer dizer que quando a criança “faz saber” que tem um problema, o adulto, ainda que se encontre fora de seu campo visual, aparece imediatamente, ou a faz saber que a ouviu. Assim, para a criança, estar sozinha não quer dizer estar abandonada, mas pode significar longos momentos de serenidade e de brincar tranqüila. Talvez seja essa serenidade que seduza o adulto que a observa! Para a criança, é ela que dá tanto valor à situação. Quando a criança não está rodeada de brinquedos “inoportunos” que se movem ou produzem ruídos a cada gesto involuntário que faz, e quando está confortável, livre em seus movimentos, então, sua atenção e seu interesse se organizam no ritmo exato de sua maturidade, no nível que corresponde ao estágio de seu crescimento. A criança pode deter-se ao seu gosto em um objeto ou em um fato. Está atenta aos seus gestos, às suas mãos, aos seus pés, olha a natureza e os objetos, observa as folhas em movimento, os passaros que bicam as migalhas de pão na praça ou no quintal, estuda o entrelaçado da pequena cesta de plástico que tem na mão e os buracos do entrelaçado, entretém-se movendo a cesta ou arrastando-a pelo chão, etc. -39- A. Tardos e A. Szanto Sua atividade também se organiza em função de sua capacidade de atenção, de seu interesse e de seu humor naquele momento. Pode interromper a cada instante sua atividade livre e espontânea e, de fato, faz isso freqüentemente. Segura no ar por um momento a cesta de plástico que tem nas mãos, observa a grama, olha uma mosca que voa, um pássaro que passa, depois volta à cesta. À primeira vista, parece-nos que segue uma seqüência arbitrária de atos sem ligá-los uns com os outros. Na realidade, a criança segue seu próprio ritmo e sua curiosidade. Essas experiências e esses momentos de repouso permitem-lhe voltar depois à sua cesta para descobrir nela cada vez mais coisas: colher informações sobre o material de que é feita, sua forma, os movimentos que se podem fazer com ela. Precisamente porque ninguém está lhe ensinando nada, porque ninguém lhe chama a atenção, pode ocupar-se da cesta todo o tempo que o objeto lhe interesse e nesses momentos pode estar realmente atenta. A repetição do ato lhe permite observar os resultados desse ato; uma vez que o recorda, inclusive espera esses resultados. Por exemplo, um gesto fortuito fez a cesta desequilibrar-se. De agora em diante, seguirá experimentando até que aprenda a repetir o gesto que tenha o resultado que busca, que espera. A serenidade, o sentimento de estar só frente à cesta a ajudam a aprender em que medida pode propor-se tarefas que têm uma solução acessível para ela. Além disso, nessa situação sem condicionamentos, as provas infrutíferas não se transformam em fracassos explícitos, socialmente reprovados. A criança pequena também pode modificar seu projeto de ação e recomeçar suas tentativas mais tarde. Por exemplo, quer recuperar a cesta que lhe caiu fora da grade do cercado. -40- O QUE É A AUTONOMIA NA PRIMEIRA INFÂNCIA? Não pode, não encontra o gesto adequado, a cesta não passa. A criança está só, não espera a ajuda do adulto. Tenta conseguir a cesta umas tantas vezes, impacienta-se. De tempos em tempos, pode parar para descansar, pega outros brinquedos, vai engatinhando ou arrastando-se até o outro extremo do cercado e volta alguns minutos depois. Passa algum tempo contemplando e depois tenta recuperar a cesta. Também pode conformar-se com um brinquedo menor. Por enquanto, abandona as tentativas e voltará a ela num outro dia. A aceitação do fracasso momentâneo e a modificação flexível dos planos de ação também fazem parte da aprendizagem. O bebê que, em seu lugar habitual, tem a oportunidade de encontrar, dia após dia, brinquedos e objetos familiares, tem a possibilidade, quase desde o nascimento e durante todo o seu primeiro ano (e nos seguintes), de exercitar e de desenvolver as suas competências. Cada vez se faz mais hábil, cada vez aprende mais coisas sobre os objetos que o rodeiam, sobre suas dimensões, suas formas, suas qualidades. Mas, sobretudo, aperfeiçoa as suas competências aprendendo a estar atento aos resultados dos seus atos, aprende a aprender. A importância, durante o primeiro ano de vida, do movimento autônomo iniciado pela própria criança Para a criança, a liberdade de movimentos significa a possibilidade, nas condições materiais adequadas, de descobrir, de experimentar, de aperfeiçoar c de viver, a cada fase de seu desenvolvimento, suas posturas e movimentos. Por isso, tem necessidade de um espaço adaptado aos seus movimentos, de roupa que não atrapalhe, de um chão sólido e de brinquedos que a motivem. -41- A. Tardos e A. Szanto Depois da posição dorsal2, aparecem sucessivamente- sem que o adulto coloque a criança em nenhuma dessas posições - as primeiras viradas, o girar-se no momento em que a própria criança domina o comportamento. Depois vêm outras etapas: arrastar-se e deslocar-se engatinhando, a posição meio sentada, elevar-se de joelhos, depois de pé, primeiro com apoio e depois sem apoiar-se. A criança vive sua vida diária através dessas posturas e movimentos intermediários, brincando como descrevemos acima. Fazendo isso, constrói as preliminares, as infra-estruturas de sua motricidade “acabada”; aquelas que lhe permitirão sentar-se e caminhar, coisa que fará depois com facilidade. Antes de falar das vantagens dessa prática temos de dizer que atualmente está demonstrado estatística e cientificamente que as crianças que têm uma boa saúde e um bom estado psíquico descobrem, efetivamente, por sua própria conta e em determinada ordem, todas as etapas da motricidade que citamos acima. Se não encontram nenhum impedimento, todas passam por isso3. Quais são essas vantagens? Através dessa motricidade, desenvolve-se uma atividade realmcnte autônoma e contínua, que é um fator fundamental na estruturação de uma personalidade competente. 1. A maneira progressiva que a criança tem de encontrar as posturas, permite que ela volte, com segurança, com um movimento controlado, à postura anterior. Nessa postura, pode estar tranqüila enquanto a nova posição não esteja totalmente assimilada. Por isso, não tem necessidade da ajuda do adulto (voltar a colocar-se de barriga pra cima, -42- O QUE É A AUTONOMIA NA PRIMEIRA INFÂNCIA? estando de bruços, pode ser problemático durante alguns dias...). 2. A criança passa de uma posição assimilada a outra sem que haja rupturas no processo, já que cada postura tem um período de predomínio. No entanto, uma postura não desaparece completamente do repertório da criança ativa. 3. Essa motricidade parece relacionar intimamente a necessidade constante de atividade da criança e os meios dos quais disponha a cada etapa de seu desenvolvimento. 4. Também há uma relação entre motricidade e desenvolvimento intelectual e afetivo: a criança tem sempre os meios de escolher a posição mais adequada para poder manipular objetos com tranqüilidade ou para estar atenta ao seu entorno. Os movimentos e as suas posições lhe são de utilidade para construir um esquema corporal correto, e os seus deslocamentos são importantes para estruturar ativamente a sua percepção de espaço. 5. Se ao princípio de cada estágio encontramos as características das tentativas e dos erros, assim como as dúvidas do início próprio de toda aprendizagem, uma vez adquirido o gesto ou o movimento (em algumas horas ou dias), podemos notar a boa qualidade da coordenação e da economia de esforço. A criança, sentindo-se satisfeita, dá-se conta de sua eficácia, aprende a aprender e realiza até o fim o que começou. Assim, a criança que tem vontade faz esforços ativamente e os organiza de maneira global. Além disso, pode organizar suas etapas e, sobretudo, realizá-las enquanto quiser. E capaz de, ao fazer um movimento novo ou assumir «ma posição nova, voltar à anterior para continuar -43- A. Tahdos e A. Szanto tranqüilamente unia atividade orientada para uma outra coisa que não seja o próprio movimento. Alguns pontos de impacto sobre aspectos da relação entre o adulto e a criança A observação do conteúdo da atividade da criança na vida diária, cujo motivador é a livre motricidade e cujo instrumento é a riqueza do ambiente, permite apreciar o nível global de seu desenvolvimento de uma maneira completamentc nova. Essa apreciação intervirá na qualidade do movimento e da brincadeira, no interesse que a criança tem por seu próprio jogo. Dessa forma, aquilo que ela ainda não faz perde importância perto daquilo que faz. Além disso, o progresso no interior de um mesmo estágio pode ser considerado no mesmo nível de importância que a passagem a um novo estágio. Temos que sublinhar que entre as crianças que se “movem livremente” c que têm à sua disposição grande variedade de brinquedos, a idade para passar de um estágio a outro varia segundo a criança. Além disso, a mesma criança pode ser “rápida” para alguns estágios e “lenta” para outros. Isso evidencia a grande diversidade de fatores que, em geral, determinam o desenvolvimento. Em troca, aquilo que caracteriza cada fase c cada criança é a tranqüilidade do gesto, a harmonia do movimento assimilado, ou seja, a correção c a precisão de seus atos. O estágio alcançado não é mais unicamente um dos critérios do desenvolvimento correto, mas a qualidade c a riqueza desse estágio e a sua integração na atividade complexa. O interesse pela atividade motora c pelo jogo autônomo vivido desde os primeiros momentos da vida continua sendo válido mais tarde. A criança de 18 meses, de 3 ou de 10 anos carrega em si, por -44- O (,)l'E É A Al TONOMIA NA PHIMEIKA INEÃNCIA? um lado, a harmonia, a simplicidade e a boa qualidade dos seus movimentos e de seus gestos; de outro, o espírito de iniciativa, o interesse pelo descobrimento do mundo e o prazer da iniciativa rica e autônoma. Na complexidade de fenômenos que determinam o desejo que a criança tem de ser ativa, é importante destacar a atitude de respeito por parte do adulto por essa atividade. Isso implica a organização de um entorno estimulante em função da criança, de cada criança, mas pode haver outros elementos. Quando mostramos um respeito profundo por aquilo que a criança faz, por aquilo por que cia se interessa - mais por ela mesma que por seus atos - todas as nossas ações se tornam impregnadas de um conteúdo que enriquece a personalidade: desenvolve a segurança afetiva, a consciência c a auto-estima da criança. Temos podido constatar com freqüência que a observação e a valoração dessa atividade autônoma (motricidade livre, manipulação, investigação, iniciativas da criança nas suas relações com os adultos) induzem ao respeito no adulto que se encarrega de cuidar da criança: esse respeito se torna um componente importante de sua relação. Temos de destacar que a criança da qual nos desinteressamos não pode ser, em absoluto, “autônoma” da maneira como descrevemos acima. Seu sentimento de segurança, sua comodidade motora e a riqueza adaptada de seu entorno exigem muito mais atenção individualizada e disponibilidade, por parte do adulto, que qualquer programa de atividade pré-estabelecido. É mais difícil de realizar, porém traz satisfação mais profunda aos adultos que estão ao lado da criança: pais, educadores ou assistentes, pediatras ou enfermeiras. -45- A. Tardos e A. Szanto Como conclusão, apontamos uma hipótese sugerida por tantos anos de experiências, de observações e de comparações. Trata-se de ir mais além de dizer: “a criança pode brincar sozinha e tirar proveito disto”. A hipótese é esta: a atividade autônoma, escolhida e realizada pela criança - atividade originada de seu próprio desejo - é uma necessidade fundamental do ser humano desde seu nascimento. A motricidade em liberdade (segundo Pikler) e um ambiente rico e adequado que corresponda ao nível dessa atividade são as duas condições sine qua non da satisfação dessa necessidade4. 1 "E Enfant", n" 3 - 4, 1984 (N. de T. é uma revista belga). 2 Por muitas e importantes razões o recém nascido adota a posição dorsal. Esta será sua única posição até que ele mesmo consiga virar de lado e depois de bruços. Pikler La medicine infantile, n" 2, fev. 1981 (Maloine, Paris, página 219 - 228); Szanto - Feder, Le pédiatre, 1981, XVII, 75,125 -133 (N. de T. revista publicada na França). ! Como demonstra a Dra. Pikler na sua obra Se mottvoir em liberté dês le premier âge. Paris: PUE 1979 1 Seis filmes que mostram a filosofia da educação infantil de Lóczy, na Hungria. Trata-se de: “Eu mesmo”, “O prazer do banho”, “Mais que brincar”, “O passeio’, “A alegria do movimento”, “Independentemenle, sozinho”. Todos esses filmes podemser emprestados do serviço da cinemateca da Associação para a promoção da higiene mental infantil no endereço: 23, rue Lalande, 14ème arrondissement, 75014 Paris/França, tel 322.21.75. -46- Relação através da linguagem entre a educadora e as crianças do grupo1 Katalin Hevesi Um conjunto de estudos que evidenciavam o retardo da linguagem de crianças que viviam em uma instituição, em comparação com crianças educadas em casa, incitou os observadores a estudar a relação verbal adulto-criança em coletividade. Diversas pesquisas sobre a linguagem dos trabalhadores dos berçários e das escolas infantis colocaram em evidência a sucessão de traços negativos na linguagem dos auxiliares. Constatamos que, na maioria das vezes, sua linguagem consistia em ordens e proibições. Percebemos ainda que freqüentemente as educadoras dão às crianças respostas impessoais, sem conteúdo, com um vocabulário pobre. Tudo isso se manifesta, sobretudo com as crianças pequenas, justamente quando começam a falar, e com os recém-nascidos que ainda não falam. E. Habinakoba2 constatou que, em 10 berçários de Bratislava, as auxiliares falavam com as crianças com frases de duas ou três palavras em média e aquilo que diziam tinha ligação com ordens: esperar ou proibir- uma conduta determinada. Apenas em 1.72% dos casos as palavras expressavam sentimentos positivos. -47- Katalin Hevesi B. Tizard e seus colaboradores3, depois de analisarem a linguagem de auxiliares que se ocupavam de crianças de 2 a 5 anos em orfanatos, também descobriram que a parte mais importante de seus atos de fala tinha um caráter imperativo: apenas uma pequena parte expressava uma informação, uma explicação ou uma opinião. As auxiliares falavam menos com as crianças pequenas. Depois dos três anos, aumentava consideravelmente a quantidade de atos de fala endereçados às crianças. I. Lezine* verificou, em suas observações, duas situações opostas. Em um berçário, durante 10 minutos, a auxiliar apressa as crianças 27 vezes enquanto comem, repreende-as 10 vezes e apenas 2 vezes lhes dá ânimo ou as consola. Em outro berçário, também durante 10 minutos, a auxiliar estimula e felicita as crianças 26 vezes e apenas 2 vezes as repreende. A enorme diferença constatada entre as duas instituições demonstra que é muito importante preocupar- se com a linguagem do pessoal. Durante duas observações que realizamos nas escolas de infância húngaras também pudemos ver muitos exemplos negativos. Entre outros, acontecia que as palavras da auxiliar se tornavam insignificantes precisamente quando queria expressar um sentimento positivo. Em grupos de crianças que tinham por volta de 2 anos, a auxiliar falava com amabilidade com as crianças que brincavam, mas quando queria felicitar alguma delas, o fazia sem nenhuma distinção da criança nem da causa pela qual a felicitava, falava sempre na terceira pessoa, sempre com o mesmo tom, utilizando sempre as mesmas palavras: “bom menino”, “bonito”... nunca pronunciava o nome das crianças. -48- Relação através da linguagem entre a edugadora e as crianças do grupo Em nossa escola - que se conhece pelo nome de Lóczy - os educadores falam ao recém-nascido e com a criança pequena, sobretudo nos momentos dos cuidados (troca, alimentação e banho). Nessa situação, é mais fácil que a educadora “converse” inclusive com um recém-nascido em lugar de falar-lhe mecanicamente. Assim, a criança pode perceber que há momentos durante o dia nos quais a educadora apenas está por conta dela, cuida especialmente dela. Fala com ela, escuta-a, espera a sua resposta e reage à sua resposta. Dessa forma, a educadora que se acostuma a essa prática, considera natural informar, inclusive a um recém- nascido, de todas as coisas que o afetam e que afetam a vida do grupo. Explica aquilo que faz com eles, por que o faz... e isso também com crianças muito pequenas que ainda não obedecem instruções nem proibições. Desde a primeira infância, as crianças necessitam que a educadora se preocupe com elas, que lhes fale, não apenas nas horas dos cuidados, mas também durante os outros momentos do dia. As crianças a procuram com o olhar, depois com sinais cada vez mais variados de acordo com a idade: pedem a atenção da educadora com a qual tenham uma relação pessoal durante o cuidado. Mas, para a educadora, isso significa uma tarefa difícil, pois tem de dividir a sua atenção entre a criança de quem está cuidando e as outras crianças do grupo. Durante anos, muitos grupos de crianças no orfanato suscitaram problemas. Refletindo sobre essas situações, começamos a nos dar conta de que os educadores falam com as crianças do grupo, sobretudo quando algo “não funciona”: quando choram, quando brigam entre si... Essa atitude é compreensível já que o adulto sente, com razão, que tem de -49- Katalin Hevesi intervir e não cabe que se dirija às crianças que brincam tranqüilamente. No entanto, nestas condições, as crianças se dão conta de que, se fazem alguma coisa errada, podem ter a atenção do adulto. Desenvolve-se implicitamente uma forma da criança demandar a atenção do adulto contra a qual os próprios adultos lutam. Quisemos mudar - ou melhor, prevenir - esta situação que se produz muito facilmente. Queríamos: • que os educadores buscassem e percebessem no próprio comportamento das crianças em quais momentos as crianças querem que eles as ajudem, e os sinais que fazem para demonstrar isso; • que os educadores encontrassem, enquanto as crianças se portam bem, um momento que despertasse seu interesse, um momento que pudessem comemorar ou do qual pudessem simplesmente falar. Os resultados desse trabalho são os que expomos a seguir. A pergunta que serviu de ponto de partida foi a seguinte: “quais formas de comportamento das crianças fazem com que os educadores das instituições estejam mais freqüentemente ajudando-as e falando com elas.” Condições das observações Observamos, uma por uma, quatro educadoras fixas de um mesmo grupo, - cada vez apenas uma educadora estava de serviço, - e fizemos 10 observações no total. No início das observações, o grupo era formado por 8 crianças, mais tarde por 7. A menor tinha 6 meses, as outras tinham entre 13 e 22 meses. -50- Relação através da linguagem entre a educadora e as crianças do grupo A observação acontecia em geral no início do almoço e do lanche da tarde. A educadora atendia as crianças, uma após a outra. Atendê-las queria dizer: almoçar, trocar fraldas, preparar para o sono, ou, se era depois do sono, trazê-las do jardim (para o sono, os berços eram colocados em espaço aberto) e trocá-las antes de merendar. Enquanto isto, preparava tudo o que era necessário para dar de comer e vestir à criança seguinte. Durante esse tempo, as outras crianças brincavam em parte da sala que estava preparada para sua atividade. De tanto em tanto, a educadora entrava no espaço de brincar das crianças organizava os brinquedos, às vezes lhes dava outros, etc. A duração de cada observação era de meia hora, repartida em segmentos de tempo de 5 minutos. Nas 10 observações, que representam um total de 60 segmentos de tempo, podemos distinguir: • 35 segmentos durante os quais a educadora apenas se dedicava exclusivamente a atender as crianças; • 25 segmentos nos quais, por um lado, cuidava das crianças e, por outro lado, fazia outras atividades. Duas vezes foi até o espaço de jogos das crianças durante os cinco minutos do segmento. As observações contêm: • as palavras da educadora: as que direcionava às crianças no espaço de brincar; •as atividades das crianças: mencionadas pela educadora, atividades que as fizeram reagir. -51- Katalin Hevesi Resultados das observações As educadoras dirigiram-se às crianças do grupo em uma média de 45 vezes durante os 30 minutos: • 57.7% dos casos eram reações a formas positivas de comportamento; • 32.7% dos casos respondiam a formas negativas de comportamento; • 9.9% dos casosdiziam algo sem relação com o comportamento das crianças. Examinemos agora, detalhadamente, as respostas dadas aos comportamentos positivos que classificamos em três grupos: 1. As palavras com que a educadora avisa as crianças que se interessam pela atividade espontânea que estão desenvolvendo (um movimento, uma brincadeira, um barulho, um som...). Nesse caso a iniciativa de contato é da educadora. Uma criança chamada Zsolti golpeia com um cubo os ângulos de uma caixa de brinquedos. A educadora: “Que barulho mais bonito, Zsolti!” Zsolti sorriu. Nos exemplos que se seguem, a educadora não reage à atividade geral da criança, mas, sim, a um momento preciso dessa atividade que achou que cabia comentar ou reforçar. O pequeno Csaba está esticado de bruços no parque, depois se põe de barriga para cima com um brinquedo na mão. A educadora: “Ei, Csaba! Você se virou? Que bom que você brinque com essa bola de vime. Quem sabe você será ioirador de handball!” -52- REDAÇÃO ATRAVÉS DA LINCUACEM ENTRE A EDUCADORA E AS CRIANÇAS DO GRITO Duas crianças jogam os baldinhos para dentro de um cercado. Uma menina, que se chamava Borika estende o braço e depois de fazer esforços durante alguns minutos consegue pegar um deles através da grade. A educadora: “Vejo que você conseguiu pegar o baldinho!" 2. As palavras que a educadora dirige à criança que observa. É uma transição entre as iniciativas da educadora e as da criança. A criança, com seu olhar atento, “toma a iniciativa” do contato, chama a atenção da educadora. Isso se nota sobretudo quando a criança observa a atividade da educadora por alguma razão concreta. É hora de Zsolti comer. Enquanto a educadora leva um companheiro seu ao jardim para dormir, Zsolti se coloca na porta da sala de brinquedos; quando a educadora entra, a criança a observa. A educadora: “Zsolti, você já está esperando? Já preparo tudo, você vai comer e também vai dormir. Agora mesmo arrumo seu saco de dormir.” A educadora diz a Kati que lhe dará banho à tarde. Quando ouve a palavra banho, Margo olha para a educadora. “Margo, você também tomará banho esta tarde”, lhe diz a educadora. A educadora coloca Csaba em um outro espaço de brinquedos. A pequena Eszti vai até o corrimão que os separa, se debruça ali e fica olhando. A educadora: “Trouxe o Csaba para cá, a partir de agora ele vai brincar aqui.” 3. As palavras da educadora em resposta a uma criança. A iniciativa de contato é da criança: todos emitem sons ou palavras dirigindo-se à educadora e ela lhes responde. É -53- Katalin Hevesi possível que apenas queiram chamar a atenção, mas aqui o importante é que seja a criança que tome a iniciativa do contato quando necessita de que a educadora se volte para ela. A pequena Kriszti chama risonha a educadora dizendo “egi”. “Estou vendo, estou vendo Kriszti”, sorri a educadora respondendo para a criança. A pequena Kati mostra a educadora um brinquedo que está em sua mão dizendo duas sílabas “da-da”. A educadora: “o que você tens, Kati, um lenço colorido? E verde e tem um pedaço vermelho, olhe!” A busca de contato tem uma razão bem definida quando a criança pede ajuda com sons ou com gestos. A pequena Margo pede atenção da educadora dizendo “ti” e mostrando que seu tênis está desamarrado. A educadora: “Eu vou amarrar para você, já sei que havia prometido. Que bom que você me lembrou.” Andris diz “hoppa” e mostra para a educadora sua boneca que caiu do outro lado do corrimão. A educadora: “Você quer a boneca? Vou pegar para você quando terminar de ajudar a Kriszti. Mas chegue mais perto e veja se você pode alcançá-la através da grade.” Freqüentemente, as crianças se dirigiam à educadora quando percebiam um fato ou quando ao seu redor acontecia alguma coisa que queriam comunicar a ela. Por exemplo, olhavam como a educadora se ocupava de seus companheiros. Bori chama a atenção da educadora fazendo um som “tii”. Esta acaba de dar de comer a uma criança. A educadora: -54- RELAÇÃO através da linguagem entre a educadora e as crianças do grupo «Csabika comeu muito bem, depois Zsolti vai comer”. Borika aponta Zsolti. A educadora: “O Zsolti vai comer.” Margo observa enquanto seu companheiro Andris come e diz “chá”. A educadora: “Chá. Fiz este chá para Andris. Depois de lanchar, também vou dar um chá para você.” As crianças também se dirigiam à educadora quando encontravam um objeto que lhes parecia interessante. As crianças mostravam que de seu brinquedo - um cãozinho - caíam pedaços de espuma. A educadora vai até lá e os recolhe. Esztike diz “pega”. A educadora: “Vou pegá- los e jogá-los no cesto de lixo”. Andris mostra para a educadora uma meia que tirou dizendo “sapato”. A educadora: “Meia, Andris, vou vesti-la de novo em você. Veja que seu pé precisa dela.” Algumas vezes as crianças também reagiam às coisas que a educadora dizia ao seu companheiro. Quando a educadora fala de desenho, Esztie aponta o seu desenho pendurado na parede dizendo “este”. A educadora: “Sim, Esztie, esse que você me mostra é o seu desenho.” Desses exemplos podemos deduzir que, no momento da investigação, essas crianças se expressavam, por um lado, com palavras (fragmentos de palavras), por outro lado, com grupos de sons e com gestos. Uma vez que o tema deste estudo é a relação entre a educadora e as crianças, não separamos, dentre as iniciativas das crianças, as expressões verbais das expressões pré-verbais, quando tinham função similar. Caberíam novas investigações para saber qual é a hmção, no desenvolvimento da linguagem das crianças, do exercício intensivo dos meios de expressão pré-verbais. -55- Katalin Hevesi Nos processos verbais encontramos, com especial freqüência, respostas dadas às crianças quando estas se dirigiam à educadora. Essas respostas significam 38.2% do conjunto de palavras das educadoras e 66.6% das reações positivas a comportamentos. Essa informação corrobora a impressão que havíamos formado durante as observações: entre as formas positivas de comportamento das crianças, a expressão de sons é a que mais faz com que a educadora fale com a criança quando não está diretamente cuidando dela. Se a educadora entende a importância desses pequenos diálogos, inclusive os mais curtos, na vida das crianças, terá atenção em sua resposta e deixará de responder apenas contra as formas negativas de comportamento como fazia antes. Essa atitude da educadora repercute no comportamento das crianças do grupo: confirma para as crianças as formas desejáveis de chamar a atenção e estimula o desenvolvimento da relação verbal. Dando resposta à sua iniciativa, se oferece à criança não apenas muitas informações e explicações gerais, mas também informações ligadas ao fato para o qual elas apontam e no momento preciso em que aquilo as preocupa. 1 Vers 1'Education Notivelle, n" 419 (jan, 1988). (N. de T revista do CEMEA - Centro de Treinamento de Métodos da Educação Ativa). 2 E. Habinakoba (1975) Correlação entre os níveis de linguagem dos bebês de 18 a 24 meses e as condições de educação. Contribuição ao seminário de especialistas em educação de crianças até 3 anos dos paises socialistas da Europa. 3 B. Tizard, O. Cooperman, A. Joseph, J. Tizard (1972). Environmental effects on language development: a study of young cbildren in long-stay residential nurseries. Chiíd Development, n° 43 337 - 358 (N. de T. revista publicada nos EUA). 11. Lezine (1962). Problèmes posés par lapprentissage du langage chez le jeune enfant en fònction de ses diflérents conditions de vie. Etude sur le langage de 1'enlant. Paris: Ed. Scarabé. -56- A integração das regras de vida através da atitude dos educadores' Eva Dehelan, Lili Szredi e Anna Tardos Constatar que, quando o professor ensina, tudo têm conseqüências, seja uma negligência ou uma falta de comportamento, é uma experiência vivida com freqüência pelo aluno. Um caderno que se tenha esquecido em casa, uma régua que falte, um dever mal feitopor incompreensão ou por falta de atenção comportam um ponto negativo ou uma nota ruim. Os professores que dão esses pontos negativos ou essas notas baixas partilham, sem dúvida, do princípio de que se deve aplicar regras especiais para que, numa próxima vez, o aluno não se esqueça de comprar o caderno, de trazer a régua, nem de fazer em casa o dever que se lhe havia demandado. O ponto essencial desta lógica do educador consiste em desacostumar as crianças de seus comportamentos não desejáveis, de suas ações repreensíveis, destacando, acentuando e pondo em relevo mediante normas especiais as conseqüências negativas desses comportamentos. Essa lógica do educador, tão freqüente nas escolas, se aplica de uma maneira ainda mais acentuada às crianças -57- Eva Dehelan, Lili Szredi e Anna Tardos muito pequenas. Mas também existem concepções sobre os alunos segundo as quais, se pode fazer um bom trabalho sem necessidade desses meios, exercendo uma influência sobre a consciência das crianças. No que toca às crianças pequenas, parece patente que o comportamento adequado da criança apenas pode ser obtido sobre a base de experiências positivas ou negativas, quer dizer, por condicionamento, destacadas poi’ regras especiais pelos educadores. Analisando, em nossa instituição, o trabalho de uma educadora que trabalhava há 15 anos, tentamos penetrar na lógica de sua atitude pedagógica. Sobre as bases de nossas observações examinamos uma parte de sua atividade, relativa à formação de novos hábitos que tinha como objetivo a integração social das crianças. As condições da observação Em nossa instituição, a partir de 1 ano e meio, as crianças vão em pequenos grupos ao pavilhão jardim da infância onde a educadora - da qual falamos acima - as recebe. As crianças ficam ali meia hora ou 45 minutos. Os maiores, uma hora, com dois ou três companheiros. Nesse lugar, as crianças encontram um equipamento que é diferente daquele com o qual estão acostumadas, novos brinquedos e regras diferenciadas de comportamento. A sala onde se vive e se brinca durante todo o dia está organizada para que possam brincar sem perigo, tranqüilamente, inclusive enquanto a educadora veste, banha ou dá de comer a uma das crianças do grupo. Diferentemente, no pequeno pavilhão, há um aquecedor sem -58- A INTEGRAÇÃO DAS REGRAS DE VIDA ATRAVÉS DA ATITUDE DOS EDUCADORES proteção, gavetas sem chave e cheias de objetos de adultos, cortinas que as crianças podem tocar, fios elétricos... No espaço habitual do grupo, há brinquedos que as crianças podem pegar sem que haja uma estreita vigilância: nesse pavilhão, há brinquedos que apresentam certos perigos, por exemplo, martelos de madeira, pequenos bastões e discos de madeira, grandes caminhões para empurrar e pedras pesadas para carregar nos caminhões. As crianças de 17 a 21 meses estavam no pavilhão no contexto que acabamos de descrever. Quando começaram as observações, todas essas crianças, com exceção de uma, já haviam freqüentado o pavilhão entre cinco e oito semanas e, em geral, 3 vezes por semana. As regras de comportamento mais diferenciadas do pavilhão ainda não haviam sido totalmente assimiladas pelas crianças, de tal modo que as seções pareciam adequadas para analisar como atuava a educadora a fim de fazer com que as crianças conhecessem e respeitassem essas regras. A atitude da educadora Em geral, a educadora não impunha que as crianças fizessem ao mesmo tempo tarefas comuns e muito poucas vezes elevava a voz: o observador externo pode equivocar- se facilmente pensando que a educadora não fazia nada e apenas vigiava as crianças. Muitas vezes parecia que as crianças se deslocavam por iniciativa própria e com desenvoltura pela sala de brinquedos, que respeitavam por iniciativa própria as normas de comportamento com relação às outras crianças, ao equipamento e aos brinquedos. Apenas aqueles que puderam seguir o caminho percorrido por -59- Eva Dehelan, Li li Szredi e Anna Tardos diversas crianças, diversos grupos de crianças entre um ano e meio e três anos, podem compreender que se trata de uma aplicação rigorosa de um sistema pedagógico, cuja lógica é muito diferente da lógica pedagógica habitual anteriormente mencionada. No transcurso de nossas observações, tomamos nota textual das ações verbais da educadora, ativas e meta- comunicativas, bem diferenciadas, assim como todas as atividades e todos os momentos do comportamento das crianças aos quais a educadora havia respondido de alguma forma. Contrariamente à impressão superficial que uma pessoa estranha pode ter, a atitude da educadora se caracterizou por um grande número e grande riqueza dessas ações. Mais à frente, falaremos de algumas características dessa atitude. Estudo das ações da educadora Em primeiro lugar, nos fixaremos nas ações da educadora que tinham um caráter de resposta. Em presença das crianças, a educadora respondia constantemente aos seus comportamentos. As suas ações tinham uma ligação com os sinais e com os comportamentos das crianças. Cada criança podia ouvir e ver que o seu comportamento e a sua atividade tinham uma conseqüência na atitude da educadora. Apenas uma parte da educação da criança destacada pela educadora estava diretamente relacionada com as normas de comportamento que deviam ser assimiladas. Entre as intervenções da educadora, as reações negativas - como, por exemplo, recusar ou impedir a criança -60- A INTEGRAÇÃO DAS REGRAS DE VIDA ATRAVÉS DA ATITUDE DOS EDUCADORES de comportar-se sem respeito às normas, e consolá-la se estava triste por alguma recusa ou impedimento - representavam apenas 15% das ações relativas ao ensino das regras. A maior parte (85%) das ações tinha como objetivo expressar e estimular o comportamento esperado e criar as condições para esse comportamento. A atividade mais importante da educadora (40%) estava destinada a expressar a expectativa do comportamento desejado. A educadora expressava essa expectativa não apenas com um pedido, recordando a regra, mas também de uma maneira indireta, numa proporção de 66%. Por exemplo, dizia com uma voz espantada à pequena Andréa, de 20 meses que queria tocar a estufa que estava fervendo: “Está quente!”, adicionando uma pequena explicação: “Está nos aquecendo!” À Vilci, que queria sentar-se na cadeira de Elvira, lhe dizia com voz amistosa: “Viki, é o lugar de Elvira”. Ou seja, não convidava Viki a sentar-se em outro lugar nem tampouco proibia Andréa de tocar na estufa; não enunciava as regras, porém expressava a sua expectativa de maneira indireta. Geralmente já havia evocado essas regras antes e de maneira explícita. As ações meta-comunicativas da educadora que acompanhavam esses exemplos também serviam para expressar de maneira indireta essa expectativa, por exemplo, a evidente alegria com que a educadora arrumava os brinquedos. Pensamos que a expressão indireta da expectativa é importante pelo fato de que, através dela, a educadora está -61- E\'z\ Dehelan, Lili Szredi e Anna Tardos oferecendo às crianças a possibilidade de cumprir espontaneamente, por iniciativa própria, aquilo que se espera delas. Uma outra parte importante da atividade pedagógica (32%) consiste em aprovar, em dar suporte ao comportamento correto das crianças. Nessas ações - e isso não estava de acordo com as nossas previsões - apenas 50% das atividades da educadora consistiam em expressão direta de aprovação do comportamento. Normalmente a aprovação apenas se expressava com poucas palavras ditas com um tom objetivo; o elemento indireto era o mais importante. Muito freqüentemente a educadora simplesmente precisava com algumas palavras o comportamento correto. Por exemplo: Tamas, de 17 meses, que diferentemente das outras crianças estava no pavilhão pela primeira vez, joga a boneca fora da sua cama. “Você a jogou, agora recolha”, disse a educadora. Tamas a recolhe, mas está ocupada arrumando a caminha da bonecae a deixa cair novamente. Em seguida, torna a recolhê-la, coloca-a na caminha, carrega-a e torna a deixá-là cair. Apenas nesse momento a educadora disse muito amavelmente e com voz para dar ânimo: “você colocou de volta a boneca dentro de sua caminha.” Tamas repete contente as palavras da educadora: “...dentro, dentro...” e depois não jogou mais a boneca. Em uma outra sessão, a educadora disse à Viki que esta guardando as rolhas nos buracos de um tabuleiro especial: “Eu estou vendo, você está guardando as rolhas. A expressão indireta que realça o comportamento desejado, muitas vezes se relaciona com uma nova atividade -62- A INTECRAÇÂO DAS RECRAS DE VIDA ATRAVÉS DA ATITUDE DOS EDUCADORES iniciada, após a realização pela criança daquilo que a educadora esperava como atitude adequada: “E uma colher muito legal, né, Csaba?” disse a educadora quando Csaba, de 18 meses, depois de passear com a colher (coisa que não agrada a educadora), brinca com a colher sobre a mesa e olha a colher com prazer. A educadora espera o momento em que a criança inicia uma atividade percebida como adequada para manifestar sua atenção. A aprovação indireta da ação correta se expressa igualmente pela ajuda verbal, dando idéias ou conselhos, ou ajuda material ao arranjar um lugar para brincar, juntando os brinquedos, etc. Também cremos ser importante o método indireto de suporte da atitude correta. Parece-nos que esse método dá à aprovação um caráter objetivo, ressalta o caráter de normalidade da ação correta e expressa em si mesmo a confiança na criança. A ação que tem como objetivo dar aprovação a tudo que no comportamento da criança podia ser uma intenção louvável - inclusive se esse comportamento não é de conformidade com aquilo que dela se esperava- também traduz a confiança da educadora. Para Elvira, que bate no xilofone com seu martelo, a educadora propõe bater sobre as rolhas do balcão de trabalhos. Assim, a educadora respeitou o desejo da criança - bater com seu martelo - e lhe sugeriu a maneira permitida. Um outro aspecto da atividade da educadora refere-se a tudo o que tem como objetivo criar as condições necessárias para o respeito das regras (13% de todas as ações). Entre essas encontramos a maior proporção de ações ativas da -63- Eva Dehelan, Lili Szredi e Anna Tardos educadora: asseguram-se os meios, o lugar, as boas condições que as crianças têm para brincar. Mas nós gostaríamos de chamar atenção sobre aquelas ações que têm uma função especial: o objetivo de criar as condições prévias para a comunicação entre o adulto e as crianças. Assim, a educadora convida Elvira, Csaba e Elod que a escutem, e espera que eles estejam efetivamente atentos. Só depois inicia uma segunda ação, geralmente uma pergunta, uma proibição ou uma lembrança. A educadora tenta desta maneira criar as condições para a comunicação, preparando a compreensão da informação. A maior parte das ações que têm como objetivo a criação das condições necessárias para o cumprimento das regras cumpre essa função. Por exemplo, antes de pedir a Csaba, de 18 meses, para recolher as rolhas de madeira que jogou no chão, a educadora lhe diz: “As rolhas rolaram”. Ou seja, sem renunciar àquilo que espera da criança, a educadora lhe dá uma possibilidade para experimentar a diferença entre o ato correto e o incorreto. A educadora também facilita a ação espontânea daquilo que espera, quando, sem renunciar a ela, propõe sua execução. Por exemplo, Elvira segura um lenço de papel na mão. Não imitou seu colega que jogou o lenço usado no chão. A educadora lhe diz: “Elvira, ele vai jogar o lenço no lixo mais tarde.” Comportamento das crianças As crianças não abusam das possibilidades que lhes são oferecidas, atuam corretamente em uma proporção de -64- A INTEGRAÇÃO DAS RECRAS DE VIDA ATRAVÉS DA ATITUDE DOS EDUCADORES 80%. No caso de crianças maiores, a freqüência dos atos corretos aumenta de 80% para 94%. Em sua obra sobre nossa instituição, M. David e G. Appell escreveram: “A disciplina das crianças maiores se faz notar, se submetem facilmente à ordem que se lhes propõe e respeitam espontaneamente algumas regras claramente enunciadas.” A aptidão das crianças para a cooperação se baseia nas experiências adquiridas em seu grupo e através de suas relações com a educadora. A atitude receptiva e compreensiva da educadora reforça a disposição das crianças a adaptar-se. Os estudos de Stayton, Hogan e Alnsworth demonstraram de maneira convincente que a criança que tem uma mãe compreensiva, que coopera com ela e que aceita as suas reações, obedece mais facilmente as ordens verbais e as proibições de sua mãe que uma outra criança que tem uma mãe pouco compreensiva que sempre intervém e que tudo recusa. Sem dúvida, essas relações não acontecem apenas entre mãe e filho. A educadora era compreensiva, estava disposta a cooperar, porém não havia, ainda, renunciado ao fato de que a criança fosse capaz de alcançar algo que ela não esperava. M. David e G. Appell reforçaram a importância do fato do adulto ter uma expectativa positiva em relação às realizações da criança. Em um de seus estudos dedicados à interação entre a mãe e o filho, colocaram em evidência que as crianças compreendem e respeitam sem dificuldade as proibições que parecem profundamente evidentes para as -65- Eva Dehelan, Lili Szredi e Anna Tardos mães e que, por essa razão, são importantes na educação de seus filhos. Como uma educadora de crianças pequenas pode ensinar essa atitude e esse método educativo? A base da atitude mencionada - e, ao mesmo tempo, a condição necessária para assumir essa atitude - é, do nosso ponto de vista, a confiança em relação à criança. As experiências apaixonantes de Rosenthal e de Jacobson parecem corroborar essa idéia. Essas experiências demonstraram que a modificação do estado de ânimo do educador - inclusive sem modificação consciente dos métodos educativos e pedagógicos - melhora consideravelmente os progressos de seus alunos. O nosso estudo queria demonstrar que, contrariamente às constatações da literatura especializada, uma criança de 18 a 20 meses pode ser dirigida de maneira que não tenha a sensação de ser mandada nem dominada e possa estar de acordo com as decisões que a implicam ou possa aceitá-las de bom grado, se em relação a ela se adota uma atitude pedagógica positiva baseada na confiança. Vers LÉducation Nouvelle, no. 404 (jun/jul 1986). Paris. (N.deT revista do CEM EA Centro de Treinamento de Métodos da Educação Ativa. -66- Atividades em comum em um grupo de crianças de até 2 anos e meio1. Maria Vincze No Instituto Metodológico Nacional de Lares para Recém-Nascidos, fizemos uma investigação longitudinal sobre o desenvolvimento dos comportamentos relacionais dos membros de um grupo de recém-nascidos e de crianças pequenas educadas juntas. O método de investigação c a mesma técnica empregada por Mérei em suas experiências com pequenos grupos: o registro de atividades (registros actométricos) aplicado à categoria da idade observada. Durante os 30 meses da investigação, registramos 304 observações. Os fenômenos registrados por essas observações de 15 minutos podem classificar-se em nove categorias de relações sociais: 1 Olhar, sorriso, relação vocal 2 Tomada de contato motor 3 Contato físico 4 Retenção de um objeto 5 Dar, oferecer 6 Imitação 7 Atividade em comum -67- Maria Vincze 8 Comunicação verbal 9 Comportamento dito adulto com os companheiros Aqui exporemos o desenvolvimento de uma dessas nove categorias: a atividade em comum. Entendemos por atividade em comum a classe de relação social na qual a ligação entre os participantes não apenas tem a forma de ação-reação, mas na qual se dão formas de comportamento possuidoras de conteúdo afetivo e que supõem uma consciência da existência do outro. Essa é a única categoria que pode incluir todas as outras e é a única que não segue as três fases dos processosdas outras categorias: ação, reação e réplica. Durante a observação, a atividade em comum foi sempre espontânea, provocada pela iniciativa própria das crianças, e a função de adulto apenas consistiu cm procurar um lugar e prover os brinquedos. Seguiremos a ordem do aparecimento das diversas formas de atividade em comum. 1. Tocar-se mutuamente as mãos. Isso se observa, às vezes, nas crianças muito pequenas, de apenas 4 a 7 meses. Deitadas de barriga para cima, com o rosto virado para uma outra criança, ou então deitadas de lado voltadas uma para a outra, as crianças tocam-se mutuamente as mãos, olhando-se ou olhando suas mãos; ao mesmo tempo, alternativamente se sorriem e se chamam. A pequena freqüência do fenômeno pode ser causada pelo fato de que as crianças não podem ainda se deslocar e que precisam de uma posição favorável para que possam chegar a alcançar a mão da outra; além disso, há de haver uma -68- Atividades em comum em um grupo de crianças de até 2 anos e meio correspondência entre os estados de ânimo das duas para que o simples toque se transforme em uma atividade em comum. 2. 'Iroca de risos e gritos. Ainda que os recém-nascidos já tivessem começado a sorrir para sua educadora há algumas semanas e, inclusive entre eles quando estavam no parque, durante muito tempo não vimos as crianças sorrirem uma para a outra. A primeira relação dessa categoria era o resultado de uma situação fortuita: Pierre, de 5 meses e meio olhava, do alto de seu berço a Martin de 6 meses deitado no parque. Martin não parava de gritar para Pierre. Ele olhava e ria alto, enquanto que Martin lhe retornava o olhar todo sorridente. Outros casos mostraram que quando aparecia uma troca semelhante de risos, a posição das duas crianças tinha também uma função. De acordo com a observação de Spitz, de que o rosto da mãe inclinado sobre o recém-nascido desencadeava o sorriso, enquanto que o mesmo rosto visto de perfi 1 não tinha o mesmo efeito, nós também constatamos que não havia troca de sorrisos entre as duas crianças deitadas de barriga para cima. A posição dos próprios corpos também tem uma função no aparecimento da relação. Bühler, que estudou as relações sociais entre recém-nascidos colocados sentados em um lugar estreito, assinalou a importância decisiva da posição do corpo no aparecimento dessa relação. Esse autor constatou e demonstrou que em uma posição de instabilidade do corpo não há energia disponível para a observação, e cita os seguintes exemplos: quando a um recém-nascido lhe -69- Maria Vincze seguram a cabeça reta, ele não sorri; quando se mantém uma criança de 4 meses sentada, ela não retira um pano colocado em seu rosto, enquanto que se estiver deitada, ele o retira; as crianças pequenas de 4, 5 e 6 meses, colocadas sentadas, não fazem caso uma da outra, enquanto que se estiverem deitadas, se darão conta das outras. Desse modo, Bühler destaca que a criança pequena é incapaz de estabelecer relações sociais em uma posição imposta, insegura. Em nosso material de observação, percebemos que as crianças de 4-5 meses já se olhavam e giravam a cabeça uma em direção à outra, tocavam-se as mãos; os de 5-6 meses se sorriam. O fato de encontrarem-se em uma posição corporal segura, que elas próprias haviam adotado, tem uma função clara no aparecimento precoce dessas atividades entre as crianças. 3. Contato físico. As crianças de 6 a 10 meses, que ainda não ficavam em pé, tocavam-se uma à outra e se colocavam mutuamente as mãos no rosto. Classificamos esse toque como uma atividade em comum quando era mútua e quando os dois a faziam com prazer. Mais tarde, esses toques eram substituídos por brincadeiras de agarramentos de mãos e, sobretudo, no primeiro ano, por encontrões que se observavam freqüentemente. Esses encontrões lembram explosões de energia dos jogos dos mamíferos jovens: cachorros, gatos, ursos; às vezes caem, se jogam uns sobre os outros, se arrastam, rolam no chão, enroscam-se sem preocupar-se minimamente com os golpes ou com os tombos provocados pela brincadeira. -70- Atividades em comum em um grupo de crianças de até 2 anos e meio Também constatamos troca de gestos amigáveis entre as crianças: roçavam as cabeças uma na outra, encostavam os rostos sorrindo, deitavam no chão uma agarrada aos joelhos da outra. Mas também observamos manifestações mais brutas. Observamos um exemplo especialmente interessante e que ocupou sozinho todo um caderno de observação em uma atividade em comum que faziam 6 crianças de mais ou menos 2 anos. A brincadeira consistia no seguinte: uma das crianças se deitava no chão de bruços enquanto seus companheiros subiam em suas costas e saltavam. Cada vez que o adulto liberava a criança, que estava chorando, da função que já lhe começava a pesar, imediatamente a própria criança ou uma outra “se oferecia” e, em seguida, duas, às vezes três crianças, lhe subiam nas costas e começavam a saltai’. Esse processo se repetiu 12 vezes. 4. Fazer a mesma coisa juntos. Esses conjuntos se formam pela imitação do companheiro. A simples imitação se torna uma atividade comum pelo fato de que o modelo iniciado por um é adotado por outro colega que lhe está imitando e continua sua atividade quer dizer, a partir daí, os dois continuam a brincadeira juntos. A base da atividade em comum pode ser uma atividade com um objeto ou então um fenômeno vocal ou motor. A freqüência dessa classe de conjuntos cresce rapidamente a partir do 8" mês e continua sempre muito alta. Comecemos pela primeira atividade desse tipo que observamos. Duas crianças pequenas sopravam o ar através de um brinquedo que tinham na boca, olhando-se durante todo o tempo. -71- Maria Vincze Depois passaram para as mais diversas atividades de manipulação do brinquedo. A variedade das atividades imitadas é muito grande: às vezes, as crianças utilizam um mesmo objeto ao mesmo tempo; outras vezes, cada criança tem o seu objeto pessoal. As vezes, acontece que o elemento essencial do conjunto é a própria voz: gritar em uníssono, emitir barulho como se cuspissem ou como se roncassem, imitar uma sílaba em uníssono. As vezes, a atividade em conjunto baseia-se na imitação de um breve e simples movimento: agarrar-se às grades e jogar a cabeça para trás; sentados um de frente para o outro, tentar pegar o rosto um do outro. São muito freqüentes as atividades lúdicas, motoras, produzidas por imitação nas quais, deitadas de barriga para cima, as crianças dão golpes de pé na parede, ou passando as pernas pelas grades, as movem de um canto para outro; ou quando empurram-se e escorregam pelo tobogã tornando a fazê-lo -ou um e outro - sem parar; ou quando se arrastam sobre o banco resmungando, rindo ou imitando latidos ameaçadores; depois se perseguem como um trator que tenta atropelar os pés de cada um. E de se notar que essa forma de relações sociais também se encontra nos símios antropóides. W. Kõhler descreveu de que maneira, nos grupos de chimpanzés, quando um deles começa a caminhar em círculos fazendo certos gestos, todos os membros do grupo se põem a segui- lo fazendo os mesmos gestos até que um deles introduza um novo gesto: a partir daí, todos passam a fazer o novo exercício. Uma variação motora de “fazer a mesma coisa juntos” consiste em perseguir-se arrastando-se pelo chão ou correndo, variação que se observa a partir dos 10-11 meses, muito freqüentemente ligada à brincadeira de esconde- Atividades em comum em um grupo de crianças de até 2 anos e meio esconde e dar encontrões. Acontecia muitas vezes que inclusive crianças que ainda não sabiam andar, mas que se deslocavam engatinhando, se perseguiam ou escapavam engatinhando, gritando e rindo. E mais de uma vez, as crianças que já andavam voltavam a engatinhar nessas perseguições lúdicas. Chegaram a congregar-se de 5 a 6 crianças em uma alegre perseguição dessas. A atividade imitada e o conjunto que se deriva dela se tornam cadavez mais complexos e mais ricos em seus elementos. Assim, vimos 5 crianças que desfilavam batendo os pés no chão trazendo copos plásticos. Há muitos outros conjuntos formados por imitação de atividades rítmicas. Atividades desse tipo são: dar golpes, bater na parede, bater no chão, bater no corrimão - com a mão ou com um objeto agarrado pela mão - sacudir o corrimão ou as cortinas; esfregar contra o chão latas, copos, pratos metálicos virados de cabeça para baixo, etc. Todas são atividades espetaculares que produzem muito barulho, que exigem movimentos muito amplos. Os conjuntos de atividades acompanhados de movimento apresentam também variações rítmicas: dar golpes de pé, arrastar os pés. Em nossas observações, freqüentemente, os conjuntos rítmicos estavam acompanhados de gritos em uníssono. 5. Brincadeiras de cuco “escondeu-achou”. Durante a nossa investigação, observamos muito freqüentemente uma brincadeira de cuco ou jogo do cuco “escondeu-achou”, ou seja, um conjunto em que dominava o esconder-se e mostrar-se. Primeiro vimos entre duas crianças de 9 e 11 meses, depois, sobretudo entre crianças de 1 ou 2 anos. -73- Maria Vincze A brincadeira do cuco “escondeu-achou” sempre ia acompanhada de risos e, a partir de 1 ano e meio, de gritos de “achou” ou do nome do companheiro. A partir de um ano, todas as crianças do grupo participavam da brincadeira. Mas a freqüência de sua participação variava muito: a algumas crianças essa atividade agradava mais que a outras. Por exemplo, observamos que entre duas crianças que passavam o mesmo tempo com o grupo, uma participou uma única vez em um jogo desse tipo, enquanto a outra participou 15 vezes. Segundo Kleeman -pesquisadora norte americana-, a brincadeira de “escondeu-achou” está condicionada pela maturação do mecanismo do “eu” - memória, antecipação, percepção visual e auditiva, um princípio de distinção entre o “eu” e o “não-eu”. Essa autora acredita que a brincadeira seja, também, condicionada pela atenção da mãe. Por todas essas razões, considera que a brincadeira de “escondeu- achou” tem mais importância que todas as outras brincadeiras do primeiro ano e vê, aí, um ponto de referência em seu desenvolvimento. Provence e Lipton, que investigaram as crianças de uma escola infantil norte-americana, não observaram nenhuma vez essa brincadeira, nem entre as crianças, nem entre as crianças e os adultos, mas também é verdade que não constataram tampouco outros tipos de relações sociais. 6. Cooperação. Não entendemos por cooperação o fato de que as crianças cooperem por uma finalidade comum, pensada e planejada com antecedência. Certamente, quando se põem juntas para arrastar um grande cesto de roupas, quando se reúnem para -74- Atividades em comum em um grupo de crianças de até 2 anos e meio colocar as peças de dominó em uma mesma cesta, quando constroem juntas uma grande torre com almofadas, temos a impressão de que essas atividades já contêm os germens de uma atividade realizada com uma finalidade comum. Em outros casos, a cooperação já é mais evidente. Por exemplo, no caso de Alex e de Imi que enchem de pedras de dominó uma lata que arrastam puxando com uma corda. Depois, a transportam do canto dos brinquedos até um outro canto da sala enquanto uma criança segura a corda e outra, a lata, finalmente voltam a carregar a lata vazia ao canto dos brinquedos, a enchem de novo e voltam a começar o tráfego três vezes. Cada uma das crianças dá muita importância à participação da outra: Alex, segurando a lata pela corda, chama Imi para pegar e levantar a lata; quando terminam de esvaziá-la, é Imi quem devolve a corda às mãos de Alex, para que juntos possam carregar a lata a sua maneira. Uma variação observada na cooperação é a de arrastar ou empurrar um ao outro num carrinho. No início, o que está no carrinho se conforma em deixar-se levar passivamente; mais tarde, toma gosto, torna-se um participante ativo da atividade e ordena diretamente ao companheiro que o arrasta: “Vamos, puxe Alex!”, proclama o pequeno Alex de 20 meses a Andréa. 7. Representar para os outros, exibir-se. Constatamos em alguns casos, em crianças de mais de 1 ano e meio, que a admiração e os risos dos companheiros as incitavam a reproduzir a ação que já estavam fazendo e a desenvolvê-la. As ações barulhentas e espetaculares são as que, em geral, ganham -75- Maria Vincze admiração do grupo: colocar um carrinho de rodas para cima, bater com bastonetes ou com uma pá nos objetos produzindo barulhos; lançar cubos; ou um número especial de “ginástica”. Em uma outra situação, uma criança queria exibir-se diante de um companheiro: gritou com insistência “eu!” enquanto se colocava na cabeça um balde para areia, ensinando ao outro como fazê-lo. Observamos elementos de regularidade nas atividades em comum a partir dos 20 meses de idade. No início, essa regularidade consistia sobretudo em uma certa organização e um certo ritmo estabelecido pelos participantes da brincadeira: arrastar-se sobre o banco em uma ordem e de uma determinada maneira; transportar as peças de dominó recolhidas em um lugar específico para um outro lugar preciso. Mais tarde, quando já têm mais de 2 anos, observamos atividades em conjunto que poderiam encher cadernos inteiros de observações, que colocavam em movimento as 6 crianças do grupo, que se repetiam regularmente e se desenvolviam segundo um processo determinado: as crianças iam buscar areia em dois lugares muito específicos do jardim e a transportavam com as mãos e com as pás até o tobogã, onde a faziam escorregar com as mãos e as pás. Perto dos 2 anos, observamos pela primeira vez a criação e a preocupação com uma certa “ordem”. Utilizam três carrinhos colocados um ao lado do outro: Imi ocupa o carrinho de um extremo e permite que Zoli ocupe o da outra extremidade. O do meio contém lenços. Imi realiza uma luta encarniçada para defender essa ordem contra Zoli que retirou os lenços do carrinho. Por outro lado, se une a -76- Atividades em comum em um crupo de crianças de até 2 anos e meio Zoli contra toda ameaça exterior: não permite que ninguém toque nos lenços nem nos carrinhos. Quando nada perturba essa ordem, eles permanecem tranqüilos sentados frente a frente; não fazem nada, ou melhor, se olham sorridentes ocupando o espaço do cano. A mesma preocupação com estabelecer uma ordem pessoal acontece quando as crianças colocam em fila as almofadas ou vasilhas viradas de cabeça para baixo e, de vez em quando, repassam ao longo da formação para retificar a ordenação. Também próximo aos dois anos, aparece nas atividades formadas por crianças o prazer de incomodar-se: escondem os punhos fechados nas costas e mostram depois as mãos vazias rindo e dizendo “nada!”, um pouco mais tarde as vemos divertindo-se ruidosamente com qualquer expressão como “a Georgette foi embora” ou "você não me pega” que repetem perseguindo-se e divertindo-se com muito barulho. Durante o tempo que durou a investigação, no plano da atividade comum, o grupo não tinha estrutura interna definida, ou, dito de outra forma, não se formou nenhum par definido. O desenvolvimento das diferentes atividades não desembocou na formação de pares, mesmo quando a preferência por uma atividade ou outra pudesse corresponder à existência de algumas diferenças entre as crianças. Não se constatou nenhum indicador de adesão a uma atividade de acordo com o sexo. Nossas observações apontaram apenas uma criança que desde os 10 meses até o momento de ir pra casa aos 20 meses, manifestou uma marcada predileção por um de seus companheiros. As anotações feitas pelas educadoras corroboram a experiência de muitos anos, segundo a qual, nessa idade, as amizades pessoais se dão com pouca freqüência. -77- Maria Vincze O tempo dedicado aos diversos conjuntos de atividades observadas era muito variável: de alguns segundos a 15 minutos; a maioria das atividades durava uma média de1 a 2 minutos. Em uma atividade há geralmente dois participantes, mas vimos que se reuniam, algumas vezes, de 3 a 7 crianças. No plano das atividades coletivas, podemos considerar que o nível de comunicação verbal no qual as crianças começam a interpelar-se, para que participem da brincadeira, é um ponto de referência. Quando uma criança de 4 meses toca a mão de seu companheiro, podemos inclusive perguntar-nos se se trataria de uma relação social, se a criança toca seu companheiro ou um objeto. Alex, que apenas acaba de fazer 2 anos e meio, pede durante alguns minutos a Stephane para que venha puxar o carrinho com ele: “Vamos puxar os dois, Stephane, os dois!” Aqui não há nenhuma dúvida de que a formação de certos conjuntos não é um fato fortuito senão que se trata de uma demanda social que vem das crianças e que se dirige a um indivíduo concreto. Considerando todo esse desenvolvimento em seu conjunto: o caminho conduz progressivamente do que é incerto e casual àquilo que é seguro e dirigido a pessoas concretas. 1 Le Coq - Heron. Bulletin d’un Group d’ Etude du Centre Etienne - Marcei, n"53, 1975 (N. de T. revista publicada em Paris). -78- A participação da criança no cuidado de seu corpo1 Katalin Hevesi No âmbito da situação institucional, e mesmo na família, algumas atitudes das crianças que têm lugar durante atos rotineiros passam desapercebidas e, no entanto, adquirem particular importância quando o adulto está atento a elas e permite que a criança participe, muitas vezes através de um simples movimento, da atividade concreta que se realiza. Por exemplo, quando levanta os braços facilitando a ação do adulto de tirar sua camiseta, quando a pedido do adulto se senta ou se levanta, ou mesmo quando se aproxima do adulto agarrando-se nele, todos esses movimentos indicam que a criança se interessa por tudo o que sucede e que lhe agrada participai- com o adulto do cuidado de seu corpo. São aspectos importantes não apenas para o desenvolvimento da criança, mas para que a educadora atue de forma correta: conseguir que a criança execute por si própria os movimentos necessários na hora de vestir-se e desvestir-se é uma das finalidades concretas e bem definidas do trabalho educativo. Isto influi, por sua vez, no tipo de -79- Katalin Hevesi relacionamento que se estabelece entre a educadora e a criança. Essa atitude facilita o trabalho da educadora e amplia seu significado porque não o limita a alimentar e a trocar a criança de maneira mecânica. Para isso, no entanto, é preciso que a educadora tenha um interesse pessoal pelo comportamento, pelo desenvolvimento da criança e por sua personalidade. Por outro lado, resulta mais fácil para a educadora estabelecer uma relação afetiva em um tipo de relação como esta, na qual a atividade em comum tem um papel muito importante e a criança passa a ser vista como alguém capaz de contribuir com a educadora. Gostaria de continuar minha argumentação analisando as características da atuação dos educadores através de alguns exemplos: os erros e os equívocos mais comuns são certamente instrutivos. Trata-se de atuações observadas em tarefas nas quais os educadores tentam colocar em prática o que dissemos acima a propósito dos movimentos. Assim sendo, procuram tratar a criança não como um objeto, mas como um ser humano vivo, e aceitam, como possibilidade, a idéia de cooperar com a criança. No entanto, pode acontecer que a cooperação seja supervalorizada e isolada do contexto. Por exemplo, durante o desenvolvimento de uma tarefa, observei a seguinte cena: a educadora prepara-se para trocar as fraldas de Zseuzsi, uma menina de 12 meses, dizendo-lhe algumas palavras; Zseuzsi lhe responde com um “haaa” e ambas sorriem. Depoi.s, a educadora deita a menina e, enquanto lhe tira a roupa, lhe dá uma caixinha de plástico para que brinque. Zseuzsi olha a caixinha com alegria, balbucia e agita as -80- A PARTICIPAÇÃO DA CRIANÇA NO CUIDADO DE SEU CORPO pernas, exteriorizando sua satisfação. A educadora troca suas fraldas com movimentos rápidos. Ainda que vá dizendo com poucas palavras o que vai fazendo, a educadora não busca o olhar da criança. A pessoa adulta e a criança atuam de forma independente uma da outra. Zseuzsi fixa sua atenção na caixinha, a educadora, na técnica da troca. Quando chega o momento de colocar a roupa, a educadora pede que ela lhe estenda os pés, enquanto pronuncia esta frase, o faz com voz enérgica e se inclina um pouco mais em direção à criança, esperando. Ainda assim, a menina continua brincando com a caixinha e não reage. Esse exemplo nos permite extrair as implicações de diferentes tipos de atuação da educadora. E importante destacar que no início da troca de fraldas, a menina se havia voltado com curiosidade para a educadora, mas foi a educadora que já no início da troca interrompeu a interação, ainda que executando adequadamente os movimentos. A educadora não conseguiu desvencilhar-se de um velho hábito: desde que colocou a criança deitada, passou a tratá- la como se fosse um objeto. Apenas a partir de um momento que a educadora considerou necessário para facilitar seu trabalho, tentou - sem sucesso - conseguir a participação da criança. Podemos tirar duas conclusões a partir daí. Por um lado, podemos atribuir à influência da ação concreta - a necessidade de colaboração da criança- o fato de que a educadora apenas em um momento durante a troca se distancia dos processos mecânicos pedindo à criança que lhe estenda o pé, buscando seu olhar e esperando sua resposta. Ou seja, a educadora não busca de modo intencional a participação da criança; apenas a solicita quando -81- Katalin Hevesi esta se torna necessária ao seu trabalho. Por outro lado, como conseqüência do fato de que a educadora apenas busca a participação da criança nesse detalhe, esta não se encontra em condições de responder à solicitação por sua participação. Por tudo isso, consideramos fundamental que a criança participe dos cuidados de seu corpo e que, ainda que não possa se vestir sozinha nessa idade, observe os detalhes, acompanhe o processo pela fala da educadora mesmo que não esteja em condições de participar concretamente. A cadeia de interação se interromperá de quando em quando, mas as educadoras devem procurar atrair intencionalmente o olhar da criança e se esforçar por fazer ressurgir a interação. Observei muitas vezes em nosso centro que, quando a educadora pega uma toalha para enxugar o rosto da criança, afasta o olhar da criança, mas quase em seguida, enquanto molha a toalha sob a torneira, começa então uma nova interação. Enquanto troca a fralda - operação que pode realizar sem olhar -, a educadora pode aproveitar a ocasião para inclinar-se um pouco sobre a criança, falar-lhe e olhá- la nos olhos. Quando se produz uma atenção recíproca, resulta natural que a criança ofereça o pé para que lhe vistam a roupa. Não é preciso que a educadora faça um esforço especial, nem que peça à criança para participar: trata-se de uma ação especial que integra todo o processo de atenção recíproca. Um outro problema que surge freqüentemente quando visitamos os serviços de 0 a 3 anos na Hungria, consiste no fato de que a educadora suscita habilmente a cooperação, e seus gestos e suas palavras tornam possível a resposta e a -82- A pahticipação da criança no cuidado de seu corpo reação da criança; sabe esperar com paciência, porém não entende que seus esforços não tenham uma eficácia imediata nem que a criança não atue sempre como ela espera. Nesses momentos, muitos educadores, inclusive com a melhor intenção, caem em tipos de educação rígida e autoritária. “Segure a escova com a outra mão”, disse uma vez uma educadora, a partir de um ponto de vista totalmente correto. Percebendo que a criança não o fazia, continuou: "... tem que pegar a escova com a outra mão, esta, esta, esta...”. Parece que as palavras dizem tudo: a educadora não oferecenenhuma outra possibilidade. A insistência na solicitação com aquelas palavras e com aquele tom fizeram com que a criança se visse obrigada, praticamente, a fazer a ação que lhe havia sido solicitada. Não é estranho que a pessoa adulta utilize a princípio a segunda pessoa enquanto fala com a criança e que mude, em seguida para a forma impessoal: isto acontece quando a educadora concentra sua atenção sobre a ação que deve ser realizada e não sobre a criança. Para resolver questões desse tipo, em muitas instituições se pretende que as crianças de dois anos e meio e três anos se vistam sozinhas. Vi como uma educadora falando em voz baixa e com calma e paciência, se limitava a indicar a uma menina de 3 anos, os movimentos que tinha que fazer. Não falava de nada que não estivesse diretamente ligado com a operação de vestir-se. Quando a menina lhe estendeu o vestido pedindo ajuda, a educadora se recusou docemente, mas de maneira clara: “é você que tem que vestir, não eu”, e ainda, “você tem que tentar”, fazendo-a pegar a camiseta com a outra mão para que se vestisse sozinha. -83- Katalin Hevesi Esses dois exemplos indicam o predomínio de uma “violência suave” na atuação da educadora. Nos dois casos, a educadora quer, seja como for, que a criança faça o movimento que ela solicita, inclusive de maneira correta, mas obtém uma caricatura da cooperação, em lugar de uma verdadeira ação em comum. A educadora chama Atila, que já engatinha, para que venha comer. Ela já lhe havia avisado previamente que a hora de comer se aproximava, mostrando o guardanapo enquanto preparava a comida; agora está quieta na entrada do espaço destinado aos brinquedos, chamando e esperando a criança. Na continuação, encoraja-a umas tantas vezes, mas Atila, ainda que escute a educadora, não se move. Até aqui a educadora atuou corretamente. No entanto, não é capaz de entender que, naquele dia, Atila não tem vontade de engatinhar até a saída do parque e espera que ela vá pegá- lo. A educadora, em troca, torna a chamá-lo agora de um outro lugar no espaço de brinquedos, inclina-se e lhe faz um sinal com a mão. Atila se deita um pouco, depois se levanta e olha ao seu redor. A educadora soa um chocalho para chamar sua atenção; a criança dá uns passos e depois pega outro chocalho parecido ao que a educadora tem na mão e o agita. Por fim, depois de uma curta espera, a educadora vai em direção a ele e o pega no colo. Observando essa cena, parece-me que a educadora dá a impressão de ter esquecido a situação desencadeadora inicial, isto é, de que fez um sinal a Atila, indicando-lhe que estava na hora do almoço e sugerindo-lhe que se aproximasse sozinho do local de refeições. O comportamento da educadora, no momento da comida, não ajudou Atila a compreender a situação: a brincadeira com o chocalho, ao -84- A PARTICIPAÇÃO DA CRIANÇA NO CUIDADO DE SEU CORPO contrário, o desorientou; apenas serviu para que a criança fizesse alguns movimentos. Houve um comportamento que deu a impressão da cooperação da criança, mas sem um conteúdo real. Gostaria de terminar com um exemplo de atuação correta no trabalho em comum. Tomí é uma criança de 9 meses, alegre, sorridente, mas um pouco preguiçoso. Sua educadora o está trocando. Tira- lhe a roupa e, enquanto o faz, pára o movimento da mão e diz: “Tire você mesmo o pé”. A criança sorri, a educadora volta a repetir a solicitação, espera e, depois de um instante, a criança tira o pé. Enquanto a educadora lhe tira a fralda, Torni agarra seu pé nu, olha-o com curiosidade e gira a cabeça, chupando o dedo. A educadora se inclina sobre ele e lhe diz sorrindo: “Você nem me olha?”. A criança tira o dedo da boca, sorri e tenta agarrar o vestido da educadora. Enquanto isso, ela já pegou a roupa da criança para vesti-la de novo. Tomi olha para um outro lugar; a educadora aproxima a roupa da criança dizendo; “olha, é a sua roupa”. Espera um momento que a criança lhe dê atenção para solicitar-lhe que lhe estenda o pé. Tomi bate os pés ritmicamente sobre a bancada destinada à troca de roupa e a educadora veste-lhe a roupa com movimentos suaves e contínuos, seguindo o ritmo dos movimentos da criança. Enquanto faz isso, sorri e fala com ele: “Você está pensando que eu vou pegar seu pé?”. Finalmente, abotoa suas calças e pega os sapatos. Tomi aproxima os pés, a educadora põe o primeiro sapato e durante a operação explica a Tomi o que está fazendo. Pára com o outro sapato na mão, diz a Tomi que lhe dê seu pé e espera. Agora Tomi participa de bom grado. -85- Katalin Hevesi Podemos constatar que essa educadora tenta trazer a criança para participar na troca de roupa de maneira conseqüente. Chama a atenção da criança a respeito daquilo que está fazendo com ela, espera com paciência que a criança descubra e preste atenção à peça de roupa que lhe apresenta e, nesses momentos, pede que realize o movimento necessário. Se a criança não faz o que ela solicita, a educadora continua a operação com naturalidade e, ao final de um instante, volta a propor tranqüilamente, um pequeno movimento em continuidade. Sua atuação, assim, esteve conseqüente e muito mais flexível que os exemplos que vimos anteriormente. As educadoras com as quais trabalhamos consideram muito importante conseguir da criança ainda que seja um pequeno sinal de participação durante essas operações rotineiras de trocas de roupa, mas, ao mesmo tempo, aceitam com muita compreensão que a criança não tenha vontade de aproveitar a possibilidade que se lhe oferece. A previsão desse tipo de atuação por parte das educadoras está integrada completamente em nossa tarefa de formação de pessoas que trabalhem com crianças pequenas. 1 Infanzia, n" 9-10, 1983. (N. de T. revista publicada em Bolonha, Itália.) Este testo foi escrito para a formação de educadores de crianças de 0 a 3 anos, no Instituto de Formação de Puericultores, da Rua Lóczy; Budapeste. -86- Da mesma Editora AVELLAR, R. M. G. O desafio de continuar a alfabetização. BUENO, J. G. S. (Org.) Escolarização, práticas didáticas, controle e organização do ensino. CARR1JO. 1 L. M. Do professor “ideal(?)” de Ciências ao professor possível. CHAKUR. C. R. S. L. Desenvolvimento profissional docente: contribuições de uma leitura piagetiana. CUNHA, M. I. O professor universitário na transição de paradigmas. DE CAMILLIS, L. S. Criação e docência em arte. GIESTA, N. C. Cotidiano escolar e formação reflexiva do professor: moda ou valorização do saber docente? LEITE, I. Emoções, sentimentos e afetos (uma reflexão sócio-histórica). MARIN, A. J. (coord) Didática e trabalho docente. MARIN, A.J.; SILVIA, A. M. M. e SOUZA, M. I. M. (Orgs) Situações Didáticas. MIRANDA, M. I. Crianças com problemas de aprendizagem na alfabetização-contribuição da teoria piagetiana. MONTEIRO , M. I. Práticas alfabetizadoras (contradições produzindo sucesso e fracasso escolar). MORTATTI, M.R. (Org.) Atuação de professores: propostas para ação reflexiva no ensino fundamental. MORTATTI, M.R. (Org.) Formação de professores: propostas para ação reflexiva no ensino fundamental e médio. PEDROSO, L. A. e BERTONI, L. M. (Orgs) Indústria cultural e educação (reflexões críticas). 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