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Ele continua falando e sua cuidadora o acompanha. Decidi- 
damente, vestir seu pijama não parece encantá-lo de maneira 
alguma. Sua cuidadora diz, que se ele se vestir poderá ver os 
maiores e Marika. 
Finalmente, ela consegue obter sua participação com pouco en- 
tusiasmo, contudo real. Ele volta a pegar seu brinquedo. Agora, sua 
cuidadora propõe que Tamas se sente para que ele mesmo possa 
calçar seus chinelos. Já de pé, ele lhe estende um deles para que ela 
o calce. Ela recusa sempre com o mesmo bom humor e ele acaba 
por se sentar e calçar os chinelos, ou melhor, inicia o movimento 
de colocá-los; “sem enrolar”, sua cuidadora completa a tarefa. 
Ele olha para ela intensamente, balbucia sem parar. Clara- 
mente, os dois tem muito prazer nisso. 
Tamas recebe o pente, se penteia... muito mal, decididamen- 
te esta noite seu interesse está alhures. Sua cuidadora diz, “Oh! 
Oh!” um pouco crítica e o penteia com alegria. 
Pronto, confiante, ele desce sozinho do trocador e vai para o 
cômodo dos maiores.” 
Esse momento encantador durou quinze minutos. 
A participação da criança aumenta na medida da sua idade, 
os brinquedos também intervêm. Por exemplo, uma criança 
maior ensaboa a cabeça de sua boneca ao passo que a cuidadora 
lhe aplica o xampu. O banho na boneca tem quase a mesma im- 
portância que o da criança. 
As refeições 
As dietas, estritamente controladas, são estabelecidas a cada dia 
para cada criança e modificadas desde que as observações cotidia- 
nas indiquem a necessidade. Para isso, toda manhã o pediatra lê o 
caderno de cada criança onde estão registrados: a dieta em curso, a 
quantidade de alimento efetivamente consumida e principalmente 
Os suplementos recebidos, seu peso, as fezes e diversas outras obser- 
Vações que serão examinadas de maneira detalhada no capítulo VII. 
- Como já foi dito, a hora da refeição é fixa, e cada criança é ali- 
mentada na sua vez, e acordada se necessário, exceto para o lanche. Os cuidados 75 
Digitalizado com CamScanner
As refeições dos menores são preparadas e apresentadas indi. 
vidualmente, as dos maiores são preparadas para O grupo e cada 
um é servido por sua cuidadora, ou se serve sozinho, mas para 
todos, servido na casa ou na parte externa, a alimentação é tra- 
zida no banho-maria e permanece quente sem que a cuidadora 
tenha que se preocupar com isso. 
Uma criança nunca é forçada a comer mais do que tem von- 
tade. Ao primeiro sinal de recusa, sem nenhuma tentativa para 
que coma mais, sua cuidadora para ou deixa que ela pare de 
comer. À regra “nenhuma colher a mais” é levada a sério. Em 
contrapartida, se terminada a sua porção e a criança continuar 
insatisfeita: para as pequenas é dado um suplemento de suco de 
cenoura ou de frutas e para as maiores um suplemento do prato 
que acabou de comer. 
As sucessivas situações propostas à criança para as suas refei- 
ções serão apresentadas através de exemplos. 
Até atingir a idade de 2 meses e meio, os bebês são intei- 
ramente alimentados no seio, depois parcialmente e progres- 
sivamente desmamados em torno dos 5-6 meses. A partir do 
momento em que a sua dieta se torna mista, eles são alimen- 
tados na colher e no copo. A mamadeira só é utilizada quando 
uma criança apresenta necessidades particulares ou não pode 
ser amamentada no seio. 
Caso contrário, a mamadeira é julgada um intermediário inú- 
til. A necessidade de sucção é considerada como satisfeita posto 
que a criança é amamentada e tem toda a liberdade de chupar 
o que aparece na sua frente durante as suas atividades. Então, 
pensa a equipe de Lóczy, por que não lhe apresentar de cara um 
conjunto mais avançado de alimentos, que por sinal a criança se 
mostra rapidamente hábil em tê-los? 
Charles e Melinda são bons exemplos do que acontece. 
Charles, 2 meses 
“Confortavelmente instalado no colo, Charles começa sua 
refeição com um caldo bem leve. Sua cuidadora, nomeando, 
 
76 Maternagem Insólita 
Digitalizado com CamScanner
 
 
 
 
 
 
 
 
mostra O copo contendo o caldo, em seguida, antes de cada co- 
jherada, lhe apresenta a colher com a qual ela o alimenta. Ele 
parece não prestar atenção. A cuidadora continua falando com 
ele e procura utilizar os movimentos que Charles faz com a boca 
para poder colocar a colher e assim lhe oferecer verdadeiras co- 
lheradas. Charles procura chupar a extremidade da colher, mas 
ao observar o seu vizinho mais velho percebe que se seguir o mé- 
todo utilizado por este, ele também não tardará a se tornar hábil. 
Se uma colher demora um pouco para chegar, ele se contorce 
e começa a chorar, sua cuidadora delicadamente e verbalmente 
lhe transmite segurança, ao mesmo tempo em que continua sua 
tarefa. Logo, tendo acalmado um pouco o seu apetite, Charles 
torna-se menos impaciente. Mas quando o copo é retirado, fica 
tão decepcionado que explode, sendo rapidamente acalmado ao 
receber uma porção de suco de cenoura que, desta vez, ele bebe 
no copo com eficiência. Decididamente guloso, Charles se agita, 
volta a chorar quando o copo é retirado. Sua cuidadora então lhe 
dá um suplemento e sentindo que ele fica mais tranquilo, se in- 
clina, fala com ele, levanta-se, coloca-o em seu berço no terraço, 
lhe diz até logo e sai.” 
Ela ficou com ele por oito minutos. 
Melinda, 6 meses e meio 
Com Melinda a cena é um pouco diferente. 
“Melinda tem uma expressão mais descontraída, abando- 
nada, ao mesmo tempo em que, à sua maneira, participa mais 
ativamente da refeição. Ela segue com os olhos o vai-e-vem da 
colher, abre bem a boca quando ela se aproxima e come com 
“competência. Procura pelo copo quando quer beber. Quando 
este está na boca, segura tão bem que sua cuidadora controla 
a situação apenas com seu indicador discretamente apoiado no 
fundo do copo. 
“ Com a mesma idade, Judith, mais hábil, bebe sozinha. 
2 Melinda acompanha com os olhos todos os gestos da sua cui- 
dadora, Será que ela conhece o copo e a colher? É provável em 
 
REEITS (O PDM EIS PATAS MOS TIS APAE NE PET DE Dota re 
Os cuidados 77 
Digitalizado com CamScanner
todo caso, tranquila, porém alerta, Melinda participa e sua cui- 
dadora fala com ela o tempo inteiro. ” 
Sua refeição durou quatro minutos. Da mesma forma que o 
banho, a ausência de pressa, a atenção da cuidadora constante- 
mente centrada na criança, exceto nos breves olhares dirigidos 
aos outros do grupo, o bem-estar de Melinda dão uma impressão 
de contato real dos dois lados e parece que dissipam a brevidade 
do encontro. 
Esse modo de agir dura ainda por longos meses. Certamente 
ocorrem modificações, copo e colher não são mais mostrados 
de maneira tão sistemática, na medida em que a criança progri- 
de ao beber sozinha, procura pegar a colher. Aliás, isso é mes- 
mo encorajado e chega então a dita fase “das duas colheres”, 
quando cuidadora e criança, investidas desse utensílio, empre- 
endem a tarefa em comum, ora uma, ora outra levam a colher 
para a boca da criança. 
A próxima mudança importante ocorre quando a criança se 
senta à mesa. 
A idade de ser levada à mesa é extremamente variável. Só é 
proposto à criança cadeira de refeição quando espontaneamente 
ela já está na fase sentada, se controla suficientemente para po- 
der se sentar sozinha e se sentir confortável nessa posição tendo 
um bom controle de sua preensão. 
Nesse estágio, o sistema das duas colheres, se necessário, ain- 
da é utilizado. Bem progressivamente, a proporção de alimento 
que a criança pega e a dada pela cuidadora se invertem. Aos 15 
meses, a maior parte das crianças come sozinha e sem se sujar. 
Quando começa a comer à mesa, a criança é instalada na 
cadeira de refeição, depois em uma mesa com uma cadeirinha 
separada. Progressivamente na medida em que o número de par- 
ticipantes aumenta, elas passam a quatro e finalmente são rea- 
grupadas todas as crianças no grupo das maiores, instaladasem 
duas mesas próximas uma da outra. 
Para cada criança, o momento em que ela será levada à mesa 
é discutido a partir das observações das cuidadoras. A manei- 
ra como elas serão progressivamente reagrupadas em torno 
 
78 Maternagem Insólita 
Digitalizado com CamScanner
da mesa é discutida e prevista com bastante antecedência e a 
criança é informada. 
Em um mesmo grupo encontram-se crianças que estão em 
estágios diferentes. 
Por exemplo, entre as dez crianças do grupo D (14 a 24 me- 
ses), as quatro crianças mais lentas, por sinal entre as mais no- 
vas, são alimentadas uma por vez no colo. Em seguida as duas 
que ainda necessitam de ajuda comem à mesa ao mesmo tempo 
e, finalmente, as quatro que se viram melhor são convidadas a se 
instalarem juntas. A cada refeição essa divisão se repete. 
No grupo E (23-30 meses), as duas mais novas começam um 
face a face, uma já perfeitamente autônoma, mas ainda um pou- 
co lenta, a outra ainda no “duas colheres”. Depois delas, se insta- 
lam as quatro maiores. 
Entre as quatro maiores, cada uma na sua vez é indicada 
como a ajudante e isto é simbolizado por um avental colocado 
para a ocasião. Ela vai buscar a bandeja de comida com o adulto. 
Depois, ela leva a cada criança uma tigela previamente servida 
pela cuidadora. Logo depois serve em outro recipiente cerejas 
sem caroço e cada uma serve-se sozinha com suas mãos. No final 
da refeição, a criança ajudante auxilia a recolher os utensílios 
sobre a mesa. A essa idade o trabalho termina aí. 
Entre os mais velhos, grupo F (33-42 meses), a criança desta- 
cada como “ajudante” vai igualmente junto com o adulto buscar 
a bandeja, depois ajuda a por a mesa: uma toalha, verdadeiros 
pratos; e aqui as crianças se servem sozinhas com exceção da 
carne, que é servida pelo adulto. É um prazer ver o Michel, de 
33 meses, utilizar a concha com tanta habilidade. Quando uma 
criança é servida com legumes e a sua cuidadora lhe serve a car- 
ne, a criança que é a ajudante do turno lhe dá uma colher para 
começar a comer. 
“Neste grupo também cada um serve-se cerejas. Mas aqui os 
caroços não são retirados e Adam não consegue cuspi-los. Diante 
do fracasso, no lugar das cerejas, a cuidadora lhe oferece uma 
compota de frutas. Isso é bem característico: se uma atribuição 
é muito difícil para uma criança, ela não é obrigada a cumpri-la 
 ad CRM ESA ÍVTR CXLSILD PINOS TIA DECR Ergo ra 
Os cuidados 79 
 Digitalizado com CamScanner
e ninguém faz por ela. Tranquilamente ela fica no nível daquilo 
que pode fazer sozinha e isso não é uma punição. 
Nos grupos E e F, as refeições são rápidas. Calculam-se oito, 
dez, treze, no máximo, quinze minutos. Tudo acontece na calma, 
cada uma come com um bom apetite. Conversa-se pouco, posto 
que cada uma está ocupada com o que faz. Tudo está ali, à mão, 
sem espera nem irritação. Não é um momento nem de grande 
prazer, nem de animação, nem de contato muito próximo com a 
cuidadora como são os momentos do banho, da troca e do pas- 
seio. É mais uma rotina importante que se desenvolve normal 
mente. Às crianças anoréxicas são totalmente desconhecidas. 
Os exames médicos 
O mesmo médico acompanha as crianças ao longo da estadia 
delas no instituto. Portanto, elas não tardam a reconhecê-lo. A 
visita, seja ela de rotina ou porque a criança está doente, é con- 
duzida segundo as mesmas regras que a do tratamento. O médi- 
co fala, comenta, explica, utiliza os movimentos da criança, faz 
com que ela participe. Os gestos são delicados, nada de pressão, 
aqui mais uma vez nada de pressa e tudo é feito através de um 
contato com a criança. 
As crianças também gostam da visita médica, que se torna 
um acontecimento feliz. É a ocasião de tomar consciência do seu 
corpo e, para os maiores, de nomear as diferentes partes. Além 
disso, a criança aprende que se cuidar não é ameaçador e pode 
mesmo ser agradável. 
Entretanto, em alguns períodos, como para todas as crianças 
dessa idade, acontece delas não gostarem nem de serem desves- 
tidas, nem tocadas: 
“Gyuszi está com febre, precisa ser examinado, ora, nesse mo- 
mento ele resiste, não quer ser examinado. Durante muito tempo o 
Dr. L. fica em contato com ele, aceita suas recusas sem se opor, inte- 
ressado no que ele está fazendo, o deixa brincar com o estetoscópio, 
lhe oferece um palito pediátrico. Gyuszi se acalma e acaba até por 
cooperar um pouco. Contudo, se encolhe novamente quando do 
 
Digitalizado com CamScanner 
 
 
 
 
 
 
gar ganta; é o único momento no qual, apesar da falta de um instante ele é forçado. Após isso, o médico procura E ficando com Gyuszi até que ele se tranguilize”, 
; i para os cuidados, a cronometragem precisa mostra 
nduzido is maneira não é (ongo, toma “menos 
E Ee obter a cooperação da criança leva apenas um pouco 
e te po. do que lutar contra ela. 
do se trata de uma visita médica de rotina, não é raro 
criança “assistente” do médico. Tamas sempre acompa- 
» ele carrega o estetoscópio, o martelo de reflexo e, 
i nbuído de sua tarefa, realiza-a com seriedade. 
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Os cuidados 81 
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V 
As brincadeiras livres e as atividades 
autônomas 
 
atividade espontânea autoinduzida, que a criança procura 
obter livremente de maneira autônoma, tem um valor es- 
sencial para o seu desenvolvimento; deve ser para ela uma fonte 
de prazer constantemente renovada. 
É por essa razão que, fora dos períodos de sono e de cuida- 
dos, as crianças são colocadas em situações que favorecem ao 
máximo essa atividade. Como os cuidados duram pouco tempo 
e a necessidade de sono diminui progressivamente, essas “brin- 
cadeiras livres” rapidamente ocupam uma parte importante 
dos dias. E mesmo quando, a partir do 18º mês, elas começam 
a frequentar o Jardim de infânciai, sair para passeios e outras 
atividades, as brincadeiras continuam sendo a principal ocupa- 
ção das crianças. 
À organização desse tempo de atividade autônoma não é, por- 
tanto, apenas uma maneira de ocupar as crianças quando estão 
acordadas. Seu planejamento deve servir a objetivos precisos e 
é objeto de reflexões, planejamento e modificações constantes. 
Para cada grupo e para cada criança, uma série de elementos são 
levados em consideração: 
- a distribuição no tempo de acordo com o ritmo individual de 
sono e vigília; 
— O espaço; 
= Os objetos e os materiais; 
— as atitudes do adulto. 
 
1 Nota do tradutor: Jardim de infância refere-se a uma pequena casa localizada no pátio da Instituição, 
Portanto, não é uma escola de Educação Infantil. Atualmente, esse espaço é chamado de “playroom”, casa 
de brincar. A descrição desse espaço encontra-se no capítulo VI - Outras atividades e relações sociais. 
 esa rice mesma es CORTE PESCA ENA 
As brincadeiras livres e as atividades autônomas 83 
 
Digitalizado com CamScanner 
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