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Núcleo de Pós-Graduação AEE - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO AEE – DEFICIÊNCIA AUDITIVA E SURDEZ 2 SUMÁRIO MÓDULO I – CONCEITOS DE DEFICIÊNCIA AUDITIVA 1.1 Conceito 1.2 Tipos de Deficiência Auditiva 1.3. Graus de Severidade 1.4. A linguagem e a surdez 1.5 Fatores de Risco 1.6 Educação Escolar Inclusiva para pessoas com surdez MODULO II – DIAGNÓSTICO DA DEFICIÊNCIA AUDITIVA E SURDEZ 2.0 Conhecendo o Deficiente Auditivo 2.1. Identificação de Crianças com Surdez 2.2. Educação bilíngüe e sua operacionalização 2.4. Considerações sobre a língua brasileira de sinais – LIBRAS 2.5. Considerações sobre a língua portuguesa escrita 2.6. Aprendizado da língua portuguesa oral 2.7 Riscos e Complicações da Cirurgia 2.8 Aparelhos Auditivos e Implante Cocleares 3 MODULO III – ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS NA AEE COM ALUNOS DE DEFICIÊNCIA AUDITIVA 3.1. Desenvolvimento da linguagem interior na etapa pré-lingüística 3.2. Desenvolvimento da linguagem receptiva na fase pré-lingüística 3.3. O Atendimento Educacional Especializado para o ensino da Língua Portuguesa MODULO IV – AEE PARA ALUNOS SURDOS 4.1. O Atendimento Educacional Especializado em Libras na Escola Comum 4.2. O Atendimento Educacional Especializado para o ensino de Libras 4.3. O papel do Intérprete Escolar 4.4 Capacitação/qualificação de professores 4.5 Educação de surdos e novos recursos tecnológicos: a tecnologia assistiva 4.6 Sala de Recursos para Surdos 4.7 Atividades para Salas de Recursos . 4 Apresentação Prezado aluno, Com a entrega desta apostila, nós “eternos estudantes” nos perguntamos....porque nós nos enveredamos pelos caminhos da Educação Especial? Esta é uma história longa e começa muito antes de fazermos nossa inscrição para um vestibular, não é mesmo? E porque chegamos aqui? Porque o tempo passa e o nosso gosto pelos meninos e meninas especiais se afloram e quando vamos perceber estamos junto com eles iguais a entes familiares. É fácil constatar isso porque todos nós que resolvemos estudar esta ramificação educacional, passamos por uma experiência no qual refletimos sobre a vida e encontramos um sentido para estarmos nela, correto? Pois é... e é com esse intuito que apresento este material a vocês, queridos alunos. Conteúdo no qual permeio sobre todos os recursos imagináveis e inimagináveis que nós educadores devemos e podemos assegurar ao aluno especial, além do direito que essas pessoas têm e precisam ser assegurado sob todos os âmbitos. Este caderno, com noções e situações para auxiliar e estratificar o trabalho para com os deficientes auditivos, físicos, visuais e intelectuais foi selecionado especialmente a você, Educador Especial, e logicamente para as futuras gerações de alunos especiais. O material também serve para todos que queiram dominar a arte de auxiliar essas pessoas tão importantes em nossa vida. Por último, acredito que estes alunos vieram para ensinar-nos o que é viver, porque com todas suas limitações, nossos queridos especiais nos revelam a cada dia o nosso maior bem que é nossa vida. Um bom trabalho, Prof. Esp. Kellermann dos Santos 5 MÓDULO I – CONCEITOS DE DEFICIÊNCIA AUDITIVA 1.1 Conceito Definição Deficiência auditiva é considerada genericamente como a diferença existente entre a performance do indivíduo e a habilidade normal para a detecção sonora de acordo com padrões estabelecidos pela American National Standards Institute (ANSI - 1989). Zero audiométrico (0 dB N.A) refere-se aos valores de níveis de audição que correspondem à média de detecção de sons em várias freqüências, por exemplo: 500 Hz, 1000 Hz, 2000 Hz, etc. Considera-se, em geral, que a audição normal corresponde à habilidade para detecção de sons até 20 dB N.A (decibéis, nível de audição). A surdez consiste na perda maior ou menor dos sons. Verifica-se a exisência de vários tipos de pessoas com surdez, de acordo com diferentes graus de perda da audição. Sob o aspecto da interferência na aquisição da linguagem e da fala, o déficit auditivo pode ser definido como perda média em decibéis, na zona conversacional (freqüência de 500 – 1000 – 2000 hertz) para o melhor ouvido. Pela área da saúde e pela área educacional, o indivíduo com surdez pode ser considerado: Parcialmente surdo (com deficinêcia auditiva – DA). Pessoa com surdez leve – indivíduo que apresenta perda auditiva de até quarenta decibéis. Essa perda impede que o indivíduo perceba igualmente todos os fonemas das palavras. Além disso, a voz fraca ou distante não é ouvida. Em geral, esse indivíduo é considerado desatento, solicitando, freqüentemente, a repetição daquilo que lhe falam. Essa perda auditiva não impede a aquisição normal da língua oral, mas poderá ser a ausa de algum problema articulatório na leitura e/ou na escrita.Pessoa com surdez moderada – indivíduo que apresenta perda auditiva entre quarenta e setenta decibéis. 6 Esses limites se encontram no nível da percepção da palavra, sendo necessária uma voz de certa intensidade para que seja convenientemente percebida. É freqüente o atraso de linguagem e as alterações articulatórias, havendo, em alguns casos, maiores problemas lingüísticos. Esse indivíduo tem maior dificuldade de discriminação auditiva em ambientes ruidosos. Em geral, ele identifica as palavras mais significativas, tendo dificuldade em compreender certos termos de relação e/ou formas gramaticais complexas. Sua compreensão verbal está intimamente ligada a sua aptidão para a percepção visual. Surdo a) Pessoa com surdez severa – indivíduo que apresenta perda auditiva entre setenta e noventa decibéis. Este tipo de perda vai permitir que ele identifique alguns ruídos familiares e poderá perceber apenas a voz forte, podendo chegar até aos quatro ou cinco anos sem aprender a falar. Se a família estiver bem orientada pela área da saúde e da educação, a criança poderá chegar a adquirir linguagem oral. A compreensão verbal vai depender, em grande parte, de sua aptidão para utilizar a percepção visual e para observar o contexto das situações. b) Pessoa com surdez profunda – indivíduo que apresenta perdaauditiva superior a noventa decibéis. A gravidade dessa perda é tal que o priva das informaçõe auditivas necessárias para perceber e identificar a voz, impedindo-o de adquirir a língua oral. Um bebê que nasce surdo balbucia como um de audição normal, mas suas emissões começam a desaparecer à medida que não tem acesso à estimulação auditiva externa, fator de máxima importância para a aquisição da linguagem oral. Assim, tampouco adquire a fala como instrumento de comunicação, uma vez que, não a percebendo, não se interessa por ela e, não tendo retorno auditivo, não possui modelo para dirigir suas emissões. Esse indivíduo geralmente utiliza uma linguagem gestual, e poderá ter pleno desenvolvimento linguístico por meio da língua de sinais. Atualmente, muitos surdos e pesquisadores consideram que o termo “surdo” referese ao indivíduo que percebe o mundo por 7 meio de experiências visuais e opta por utilizar a língua de sinais, valorizando a cultura e a comunidade surda. A princípio, a língua materna é uma língua adquirida naturalmente pelos indivíduos em seu contexto familiar. Imersa no ambiente lingüístico, qualquer criança ouvinte chega à escola falando sua língua materna, cabendo à escola apenas a sistematização do conhecimento. Como a maioria das crianças surdas não têm imersão lingüística idêntica à dos ouvintes em suas famílias, a escola passa a assumir a funçãotambém de oferecer-lhe condições para aquisição da língua de sinais e para o aprendizado da língua portuguesa. As alternativas de atendimento para os alunos com surdez estão intimamente relacionadas às condições individuais do educando e às escolhas da família. O grau e o tipo da perda auditiva, a época em que ocorreu a surdez e a idade em que começou a sua educação são fatores que irão determinar importantes diferenças em relação ao tipo de atendimento a ser desenvolvido com o aluno, e em relação aos resultados. Quanto maior for a perda auditiva, maior será o tempo em que o aluno precisará receber atendimento especializado para o aprendizado da língua portuguesa oral. Tal perda, no entanto, não traz nenhum problema lingüístico para o desenvolvimento e aquisição da língua brasileira de sinais – LIBRAS. 1.2 Tipos de Deficiência Auditiva • Deficiência Auditiva Condutiva: Qualquer interferência na transmissão do som desde o conduto auditivo externo até a orelha interna (cóclea). A orelha interna tem capacidade de funcionamento normal mas não é estimulada pela vibração sonora. Esta estimulação poderá ocorrer com o aumento da intensidade do estímulo sonoro. A grande 8 maioria das deficiências auditivas condutivas pode ser corrigida através de tratamento clínico ou cirúrgico. • Deficiência Auditiva Sensório-Neural: Ocorre quando há uma impossibilidade de recepção do som por lesão das células ciliadas da cóclea ou do nervo auditivo. Os limiares por condução óssea e por condução aérea, alterados, são aproximadamente iguais. A diferenciação entre as lesões das células ciliadas da cóclea e do nervo auditivo só pode ser feita através de métodos especiais de avaliação auditiva. Este tipo de deficiência auditiva é irreversível. • Deficiência Auditiva Mista: Ocorre quando há uma alteração na condução do som até o órgão terminal sensorial associada à lesão do órgão sensorial ou do nervo auditivo. O audiograma mostra geralmente limiares de condução óssea abaixo dos níveis normais, embora com comprometimento menos intenso do que nos limiares de condução aérea. • Deficiência Auditiva Central, Disfunção Auditiva Central ou Surdez Central: Este tipo de deficiência auditiva não é, necessariamente, acompanhado de diminuição da sensitividade auditiva, mas manifesta-se por diferentes graus de dificuldade na compreensão das informações sonoras. Decorre de alterações nos mecanismos de processamento da informação sonora no tronco cerebral (Sistema Nervoso Central). 9 1.3. Graus de Severidade Os níveis de limiares utilizados para caracterizar os graus de severidade da deficiência auditiva podem ter algumas variações entre os diferentes autores. Segundo critério de Davis e Silverman, 1966: • Audição Normal - Limiares entre 0 a 24 dB nível de audição. • Deficiência Auditiva Leve - Limiares entre 25 a 40 dB nível de audição. • Deficiência Auditiva Moderna - Limiares entre 41 e 70 dB nível de audição. • Deficiência Auditiva Severa - Limiares entre 71 e 90 dB nível de audição. • Deficiência Auditiva Profunda - Limiares acima de 90 dB. Indivíduos com níveis de perda auditiva leve, moderada e severa são mais freqüentemente chamados de deficientes auditivos, enquanto os indivíduos com níveis de perda auditiva profunda são chamados surdos. Causas da Deficiência Auditiva Condutiva • Cerume ou corpos estranhos do conduto auditivo externo. • Otite externa: infecção bacteriana da pele do conduto auditivo externo. • Otite média: processo infeccioso e/ou inflamatório da orelha média, que divide-se em: otite média secretora; otite média aguda; otite média crônica supurada e otite média crônica colesteatomatosa. • Estenose ou atresia do conduto auditivo externo (redução de calibre ou ausência do conduto auditivo externo). Atresia é geralmente uma malformação congênita e a 10 estenose pode ser congênita ou ocorrer por trauma, agressão cirúrgica ou infecções graves. • Miringite Bolhosa (termo miringite refere-se a inflamação da membrana timpânica). Acúmulo de fluido entre as camadas da membrana timpânica, em geral associado a infecções das vias respiratórias superiores. • Perfurações da membrana timpânica: podem ocorrer por traumas externos, variações bruscas da pressão atmosférica ou otite média crônica supurada. A perda auditiva decorre de alterações da vibração da membrana timpânica. É variável de acordo com a extensão e localização da perfuração. • Obstrução da tuba auditiva • Fissuras Palatinas • Otosclerose Causas da Deficiência Auditiva Sensório-Neural • Causas pré-natais: • de origem hereditárias (surdez herdada monogênica, que pode ser uma surdez isolada da orelha interna por mecanismo recessivo ou dominante ou uma síndrome com surdez); e uma surdez associada a aberrações cromossômicas. • de origem não hereditárias (causas exógenas), que podem ser: Infecções maternas por rubéola, citomegalovírus, sífilis, herpes, toxoplasmose. Drogas ototóxicas e outras, alcoolismo materno Irradiações, por exemplo Raios X. Toxemia, diabetes e outras doenças maternais graves • Causas perinatais • Prematuridade e/ou baixo peso ao nascimento • Trauma de Parto - Fator traumático / Fator anóxico • Doença hemolítica do recém-nascido ( ictericia grave do recém-nascido) • Causas pós-natais • Infecções - meningite, encefalite, parotidite epidêmica (caxumba), sarampo • Drogas ototóxicas • Perda auditiva induzida por ruído (PAIR) • Traumas físicos que afetam o osso temporal 11 1.4. A linguagem e a surdez A linguagem permite ao homem estruturar seu pensamento, traduzir o que sente, registrar o que conhece e comunicar-se com outros homens. Ela marca o ingresso do homem na cultura, construindo-o como sujeito capaz de produzir transformações nunca antes imaginadas. Apesar da evidente importância do raciocínio lógico-matemático e dos sistemas de símbolos, a linguagem, tanto na forma verbal como em outras maneiras de comunicação, permanece como meio ideal para transmitir conceitos e sentimentos, além de fornecer elementos para expandir o conhecimento. A linguagem, prova clara da inteligência do homem, tem sido objeto de pesquisa e discussões. Ela tem sido “um campo fértil” para estudos referentes à aptidão lingüística, tendo em vista a discussão sobre falhas decorrentes de danos cerebrais ou de distúrbios sensoriais, como a surdez. Com os estudos do lingüista Chomsky (1994), obteve-se um melhor entendimento acerca das línguas e do seu funcionamento. Suas considerações partem do fato de que é muito difícil explicar como a língua materna pode ser adquirida de forma tão rápida e tão precisa, apesar das impurezas nas amostras de fala que a criança ouve. Chomsky, junto com outros estudiosos, admite, ainda, que as crianças não seriam capazes de aprender a língua materna caso não fizessem determinadas suposições iniciais sobre como o código deve ou não operar. A palavra tem uma importância excepcional, no sentido de dar forma à atividade mental, e é fator fundamental de formação da consciência. Ela é capaz de assegurar o processo de abstração e generalização, além de ser veículo de transmissão do saber. Os indivíduos que ouvem parecem utilizar, em sua linguagem, os dois processos: o verbal e o não-verbal. A surdez congênita e pré-verbal pode bloquear o desenvolvimento da linguagem verbal, mas não impede o desenvolvimento dos processos não-verbais. A fase de zero a cinco anos de idade é decisiva para a formação psíquica do ser humano, uma vez que nesse período ocorre o ativamento das estruturas inatas genéticoconstitucionais da personalidade. A teoria sobre a base biológica da linguagem admitea existência de um substrato neuroanatômico no cérebro para o sistema da linguagem. Portanto, todos os indivíduos nascem com 12 predisposição para a aquisição da fala. Nesse caso, o que se deduz é a existência de uma estrutura lingüística latente responsável pelos traços gerais da gramática universal (universais lingüísticos). A exposição a um ambiente lingüístico é necessária para ativar a estrutura latente e para que a pessoa possa sintetizar e recriar os mecanismos lingüísticos. As crianças são capazes de deduzir as regras gerais e regularizar os mecanismos de uma conjugação verbal, por exemplo. Dessa forma, utilizam as formas “eu fazi”, “eu di”, enquadrando-as nas desinências dos verbos regulares – “eu corri”, “eu comi”. As crianças que ouvem aprendem a língua portuguesa oral de uma forma semelhante e num espaço de tempo. No entanto, não se pode esquecer as diferenças individuais. Essas são encontradas nos tipos de palavras que as crianças pronunciam primeiro. Algumas crianças emitem nomes de coisas, enquanto outras, evitando substantivos, preferem exclamações, outras, ainda, expressam automaticamente os elementos emitidos pelos mais velhos. Há crianças, no entanto, que apresentam dificuldades na aquisição da linguagem oral. A capacidade de comunicação lingüística apresenta-se como um dos principais responsáveis pelo processo de desenvolvimento da criança surda em toda a sua potencialidade, para que possa desempenhar seu papel social e integrar-se verdadeiramente na sociedade. Entre os grandes desafios para pesquisadores e professores de surdos situa-se o de explicar e superar as muitas dificuldades que esses alunos apresentam no aprendizado e uso de línguas orais, como é o caso da língua portuguesa. Sabe-se que quanto mais cedo tenha sido privado de audição e quanto mais profundo for o comprometimento maiores serão as dificuldades educacionais, caso não receba atendimento adequado. No que se refere à língua portuguesa, segundo Fernandes (1990), a grande maioria das pessoas surdas já escolarizadas continua demonstrando dificuldades, tanto nos níveis fonológico e morfossintático quanto nos níveis semântico e pragmático. É de fundamental importância que a influência da língua portuguesa oral sobre a cognição não seja supervalorizada em relação ao desempenho do aluno com surdez, dificultando sua aprendizagem e diminuindo suas chances de integração plena. Faz-se necessária, por conseguinte, a utilização de alternativas de comunicação que possam propiciar um melhor intercâmbio, em todas as áreas, entre surdos e ouvintes. 13 A língua é um fator fundamental na formação da consciência. Ela permite pelo menos três mudanças essenciais à atividade consciente do homem: ser capaz de duplicar o mundo perceptível, de assegurar o processo de abstração e generalização, e de ser veículo fundamental de transmissão de informação (Luria, 1986). Vygotsky é apresentado como um dos primeiros pesquisadores soviéticos a julgar ter a linguagem um papel decisivo na formação dos processos mentais e, para prová-lo, empreendeu uma série de experimentos que visaram a testar a formação da atenção ativa e dos processos de desenvolvimento da memória por meio da aquisição da língua (a memorização passa a ser ativa e voluntária) e de outros processos mentais superiores. Todos os experimentos levaramno a dar, efetivamente, à língua o papel de destaque na formação dos processos mentais, como previra. Para o autor, é relevante perceber a “língua não apenas como uma forma de comunicação, mas também como uma função reguladora do pensamento”. O vínculo emocional com os pais pode ser também mais difícil de se estabelecer e de se manter. Isso ocorrerá, entretanto, apenas se a família não for devidamente orientada e a se criança não for encaminhada a um atendimento adequado. Além da questão da linguagem, é importante proporcionar à pessoa com surdez condições que lhe permitam se estruturar emocionalmente. “Não é a fala ou a língua de sinais; a pessoa surda que “se deu bem” é aquela que pôde preservar a sua autenticidade, aceitou a surdez como uma parte diferente e não doente de si; que pôde fazer uma escolha que lhe permita ser natural em sua comunicação, independentemente de ser oralizada ou sinalizada.” (Bergmann, 2001) Com as mudanças propostas pela Lei Nº 9.394/96, a educação infantil, embora não obrigatória, passa a constituir a primeira etapa da educação básica, a ser ofertada pela rede de ensino municipal, deixando, portanto, de ser competência da assistência social. Como parte integrante da primeira etapa da educação básica, o aprendizado de línguas configura-se como componente curricular a ser desenvolvido com crianças surdas. Assim, a língua portuguesa (oral e escrita) e a língua brasileira de sinais – LIBRAS devem ser ofertadas pelo sistema educacional. O aprendizado da língua portuguesa oral em creches e pré escolas diferencia-se do aspecto clínico e da reabilitação quando implica interação entre várias crianças com atividades didático-pedagógicas que incluem dramatização, 14 vivências e temas curriculares. Construir uma proposta pragmática, vivencial e interativa constitui uma experiência incipiente na educação infantil, principalmente para crianças do nascimento aos três anos. A aquisição da LIBRAS em creches e pré-escolas é também um desafio. Envolve quebra de preconceitos, destruição de mitos e o reconhecimento de outro profissional: o professorinstrutor surdo. É por meio desse profissional que o uso da LIBRAS deve efetivar-se. 1.5 Educação Escolar Inclusiva para pessoas com surdez Estudar a educação escolar das pessoas com surdez nos reporta não só a questões referentes aos seus limites e possibilidades, como também aos preconceitos existentes nas atitudes da sociedade para com elas.1 As pessoas com surdez enfrentam inúmeros entraves para participar da educação escolar, decorrentes da perda da audição e da forma como se estruturam as propostas educacionais das escolas. Muitos alunos com surdez podem ser prejudicados pela falta de estímulos adequados ao seu potencial cognitivo, sócio-afetivo, lingüístico e político-cultural e ter perdas consideráveis no desenvolvi-mento da aprendizagem. Estudos realizados na última década do século XX e início do século XXI, por diversos autores e pesquisadores oferecem contribuições à educação de alunos com surdez na escola comum ressaltando a valorização das diferenças no convívio. Deve-se entender o uso do termo pessoa com surdez como uma forma de nos reportamos a pessoas com uma deficiência auditiva, independente do grau da sua perda sensorial. social e o reconhecimento do potencial de cada ser humano. Poker (2001) afirma que as trocas simbólicas provocam a capacidade representativa desses alunos, favorecendo o desenvolvimento do pensamento e do conhecimento, em ambientes heterogêneos de aprendizagem. No entanto, existem posições contrárias à inclusão de alunos com surdez nas turmas comuns, em decorrência da compreensão e as formas de representação da surdez como incapacidade ou das propostas pedagógicas desenvolvidas tradicio-nalmente para atendê- las que não consideram a diversidade lingüística. A inclusão do aluno com surdez deve acontecer desde a educação infantil até a educação superior, garantindo-lhe, desde cedo, utilizar os recursos de que necessita para superar as barreiras no processo educacional e usufruir seus direitos escolares, exercendo sua cidadania, de acordo com os princípios constitucionais do nosso país. A inclusão de pessoas com 15 surdez na escola comum requer que se busquem meios para beneficiar sua participação e aprendizagem tanto na sala de aula como no Atendimento Educacional Especializado. Conforme Dorziat(1998), o aperfeiçoamento da escola comum em favor de todos os alunos é primordial. Esta autora observa que os professores precisam conhecer e usar a Língua de Sinais, entretanto, deve-se considerar que a simples adoção dessa língua não é suficiente para escolarizar o aluno com surdez. Assim, a escola comum precisa implementar ações que tenham sentido para os alunos em geral e que esse sentido possa ser compartilhado com os alunos com surdez. Mais do que a utilização de uma língua, os alunos com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores, que desafiem o pensamento, explorem suas capacidades, em todos os sentidos. Se somente o uso de uma língua bastasse para aprender, as pessoas ouvintes não teriam problemas de aproveitamento escolar, já que entram na escola com uma língua oral desenvolvida. A aquisição da Língua de Sinais, de fato, não é garantia de uma aprendizagem significativa, como mostrou Poker (2001), quando trabalhou com seis alunos com surdez profunda que se encontravam matriculados na primeira etapa do Ensino Fundamental, com idade entre oito anos e nove meses e 11 anos e nove meses, investigando, por meio de intervenções educacionais, as trocas simbólicas e o desenvolvimento cognitivo desses alunos. Considerando a necessidade do desenvolvimento da capacidade representativa e lingüística dos alunos com surdez, a escola comum deve viabilizar sua escolarização em um turno e o Atendimento Educacional Especializado em outro, contemplando o ensino de Libras, o ensino em Libras e o ensino da Língua Portuguesa. Ao optar-se em oferecer uma educação bilíngüe, a escola está assumindo uma política lingüística em que duas línguas passarão a co-existir no espaço escolar. Além disso, também será definido qual será a primeira língua e qual será a segunda língua, bem como as funções em que cada língua irá representar no ambiente escolar. Pedagogicamente, a escola vai pensar em como estas línguas estarão acessíveis às crianças, além de desenvolver as demais atividades escolares. As línguas podem estar permeando as atividades escolares ou serem objetos de estudo em horários específicos dependendo da proposta da escola. 16 O Brasil fez opção pela construção de um sistema educacional inclusivo ao concordar com a Declaração Mundial de Educação para Todos e ao mostrar consonância com os postulados produzidos em Salamanca (Espanha). A Declaração de Salamanca (Brasil, 1994a), em seus pressupostos, afirma que: “- A tendência da política social durante as duas últimas décadas foi de fomentar a integração e a participação e de lutar contra a exclusão. A integração e a participação fazem parte essencial da dignidade humana e do gozo e exercício dos direitos humanos. No campo da educação, essa situação se reflete no desenvolvimento de estratégias que possibilitem uma autêntica igualdade de oportunidades. A experiência de muitos países demonstra que a integração de crianças e jovens com necessidades educativas especiais é alcançada de forma mais eficaz em escolas integradoras para todas as crianças de uma comunidade. É nesse ambiente que crianças com necessidades educativas especiais podem progredir no terreno educativo e no da integração social. As escolas integradoras constituem um meio favorável à construção da igualdade de oportunidades e da completa participação; mas, para ter êxito, requerem um esforço comum, não somente dos professores e do pessoal restante da escola, mas também dos colegas, pais, famílias e voluntários.- As necessidades educativas especiais incorporam os princípios já comprovados de uma pedagogia equilibrada que beneficia todas as crianças. Parte do princípio de que todas as diferenças humanas são normais e de que a aprendizagem deve, portanto, ajustar-se às necessidades de cada criança, ao invés de cada criança se adaptar aos supostos princípios quanto ao ritmo e a natureza do processo educativo. Uma pedagogia centralizada na criança é positiva para todos os alunos e, conseqüentemente, para toda a sociedade. - As políticas educativas deverão levar em conta as diferenças individuais e as diversas situações. Deve ser levada em consideração, por exemplo, a importância da língua dos sinais como meio de comunicação para os surdos, e ser assegurado a todos os surdos acesso ao ensino da língua de sinais de seu país. Face às necessidades específicas de comunicação de surdos e de surdo-cegos, seria mais conveniente que a educação lhes fosse ministrada em escolas especiais ou em classes ou unidades especiais nas escolas comuns.” 17 Com base nesses dispositivos político-filosóficos e nos dispositivos da legislação brasileira, o Conselho Nacional de Educação aprovou a Resolução Nº 02/2001 que institui as Diretrizes nacionais para educação especial na educação básica. Essas Diretrizes incluem os alunos surdos no grupo daqueles com dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, e que demanda a utilização de linguagens e códigos aplicáveis. O parágrafo 2º do art. 12 dessa Resolução diz: “Deve ser assegurada, no processo educativo de alunos que apresentam dificuldades de sinalização diferenciadas dos demais educandos, a acessibilidade aos conteúdos curriculares mediante a utilização de linguagens e códigos aplicáveis, como o sistema braile e a língua de sinais, sem prejuízo do aprendizado da língua portuguesa, facultando-lhes e às suas famílias a opção pela abordagem pedagógica que julgarem adequada, ouvidos os profissionais especializados em cada caso”. O inciso IV do art. 8º dessa mesma Resolução aponta os diferentes serviços de apoio pedagógico especializado que deverão ser previstos e providos pelas escolas: a) atuação colaborativa de professor especializado em educação especial; b) atuação de professores-intérpretes das linguagens e códigos aplicáveis; c) atuação de professores e outros profissionais itinerantes intra e interinstitucionalmente; d) disponibilização de outros apoios necessários à aprendizagem, à locomoção e à comunicação. Além desses serviços, essa legislação prevê ainda a utilização de salas de recursos e, extraordinariamente, classes e escolas especiais como forma de cooperar para a inclusão de alunos no sistema educacional brasileiro. Inclusão significa responsabilidade governamental (secretários de educação, diretores de escola, professores), bem como significa reestruturação da escola que hoje existe, de forma que ela se torne apta a dar respostas às necessidades educacionais especiais de todos seus alunos, inclusive dos surdos. Nenhuma escola pode excluir um aluno alegando não saber com ele atuar ou não ter professores capacitados. Toda escola (regular ou especial) deve organizar-se para oferecer educação de qualidade para todos. Assim, ao matricular crianças com surdez, a primeira providência que a direção da creche ou da pré-escola deverá tomar será comunicar-se com a secretaria de educação e solicitar a capacitação de seus professores e demais elementos da comunidade escolar. A forma como a escola vai 18 desenvolver o currículo com as crianças surdas vai depender de sua proposta pedagógica e do número de crianças surdas matriculadas. MODULO II – DIAGNÓSTICO DA DEFICIÊNCIA AUDITIVA E SURDEZ 2.1 Conhecendo o Deficiente Auditivo A afeição, a emoção, o carinho e a amizade entre o professor e a criança com surdez são componentes essenciais e fundamentais nas atividades de conversação e diálogo, isto é, na interação. A comunicação visual é essencial, tanto para o aprendizado da língua portuguesa oral quanto para a aquisição da língua de sinais. A criança com surdez que for inserida em uma classe comum do ensino regular, provavelmente irá necessitar de atendimento em outro turno, em salas de recursos para o desenvolvimento de LIBRAS, da línguaportuguesa e para complementar as informações obtidas na classe comum. A variedade de problemas enfrentados pela criança surda é tal, que muitas vezes apenas um professor pode não conseguir lhe prestar o apoio necessário. Ela poderá necessitar de profissionais da área da saúde e de professores para acompanhamento pedagógico, que poderá ser oferecido em turno inverso ao da escola regular. Estes acompanhamentos podem acontecer em salas de recursos ou escolas especiais, num trabalho entre pedagogos, professores especializados, fonoaudiólogos e psicólogos. O professor, ao receber um aluno com deficiência auditiva, provavelmente ficará inseguro e com muitas dúvidas. Poderão surgir perguntas como: Como é esse aluno? Como ele se comunica? Ele vai me compreender? Se eu conversar com ele me olhando, ele vai entender pela leitura facial? Algumas dessas dúvidas podem ser esclarecidas através de conversas com a família, com profissionais da escola, com fonoaudiólogos, e também com a observação desse aluno. Além do conhecimento sobre o assunto: Deficiência Auditiva, o professor deve ter atitude reflexiva diante da questão, usando a sensibilidade e o bom senso na solução dos problemas que poderão surgir a partir da relação aluno/professor. Na sala de aula o aluno com surdez deve estar posicionado em um local onde possa enxergar o professor de frente, especialmente com seu rosto iluminado. Isso facilita a leitura facial, bem como pistas como gestos e expressões faciais e corporais. É 19 importante que o professor, ao receber em sua turma um aluno com deficiência auditiva, informe as outras crianças que irão receber um colega diferente. A deficiência auditiva é, portanto, um assunto sério e de interesse de toda a sociedade, seja em ambiente escolar ou não. As pessoas com deficiência auditiva têm o direito e devem ser inseridas normalmente na sociedade. Como diz Wederson Honorato Inácio, a educação brasileira busca inserir seus alunos em uma sociedade igualitária. Para que isso ocorra efetivamente é preciso que os alunos com necessidades especiais sejam colocados dentro do contexto escolar regular, fazendo com que toda a comunidade escolar participe das inovações a caminho de uma educação com qualidade para todos. No ambiente escolar cabe aos professores fazer com que os futuros cidadãos brasileiros aceitem as diferenças e convivam com elas com extrema naturalidade. Também é um dever do professor sua constante atualização e capacitação para suprir as necessidades de comunicação e formação pessoal dos alunos com deficiências. 2.1. Identificação de Crianças com Surdez Do Nascimento aos Três Anos de Idade: - o recém-nascido não reage a um forte bater de palmas, numa distância de 30 cm; - o recém-nascido desenvolve-se normalmente nas áreas que não envolvem a audição, quando propriamente estimulado. Dos Três aos Seis Meses de Idade: - a criança não procura, com os olhos, de onde vem um determinado som; - a criança não responde à fala dos pais; - a criança pode interagir com os pais, se a abordagem for visual. Dos Seis aos Dez Meses de Idade: - a criança não atende quando é chamada pelo nome, não atende a campainha da porta ou à voz de alguém; 20 Dificudades de Comunicação e Sinalização: - a criança não entende frases simples como “não, não”, ou “até logo”; - a criança pode entender o que as pessoas estão “falando” com ela, se for utilizada a língua de sinais. Dos Dez Aos Quinze Meses de Idade: - a criança não aponta objetos familiares ou pessoas quando interrogada em língua portuguesa oral; - a criança não imita sons e palavras simples; - a criança não reage ao “não, não”, ou ao nome, a menos que veja quem está falando; - a criança não mostra interesse por rádio; - a criança aponta objetos familiares ou pessoas quando interrogada em língua de sinais. Dos Quinze aos Dezoito Meses de Idade - a criança não obedece a instruções faladas, por mais simples que sejam; - as primeiras palavras da criança, como “até logo”, “não, não”, não se desenvolvem; - a criança obedece a instruções dadas em língua de sinais;- a criança inicia sua linguagem gestual, sinalizada. Dos Dezoito Meses Aos Três Anos e Meio De Idade: - não há enriquecimento vocabular (via oral); - em vez de usar a fala, a criança gesticula para manifestar necessidades e vontades; - a criança observa intensamente o rosto dos pais, enquanto eles falam; - a criança não gosta de ouvir histórias; - a criança tem histórico de dores de cabeça e infecções de ouvido; - a criança parece desobediente a ordens dadas em língua portuguesa oral; - a criança desenvolve a língua de sinais, comunica seus desejos e necessidades, gosta de histórias narradas em língua de sinais e gosta de desenhos. 21 Dos Três Anos e Meio Aos Cinco Anos De Idade: - a criança não consegue localizar a origem de um som; - a criança não consegue entender nem usar palavras simples em língua portuguesa oral, como: ir, mim (eu), em, grande, etc; - a criança não consegue contar oralmente, com seqüência, alguma experiência recente; - a criança não consegue executar duas instruções simples e consecutivas, emitidas oralmente; - a criança não consegue levar adiante uma conversa simples em língua portuguesa oral; - a fala da criança é difícil de se entender; - a criança utiliza a língua de sinais para as funções sociais. A Criança Com Mais De Cinco Anos De Idade: - tem dificuldade em prestar atenção a conversas em língua portuguesa oral; - não responde quando é chamada oralmente; - confunde direções ou não as entende, quando expressas em língua portuguesa; - freqüentemente dá respostas erradas às perguntas formuladas oralmente; - não se desenvolve bem na escola, onde os conhecimentos são repassados somente em língua portuguesa oral; é morosa; - expressa-se confusamente quando recebe ordem ou quando lhe perguntam alguma coisa em língua portuguesa oral; - possui vocabulário pobre em língua portuguesa; - substitui sons, omite sons e apresenta qualidade vocal pobre; - evita pessoas, brinca sozinha, parece ressentida ou irritada se não tem colegas que com ela interajam; - amanhece cansada; parece inquieta ou tensa quando o ambiente lingüístico não lhe é conhecido; - movimenta a cabeça sempre para um mesmo lado, quando deseja ouvir algo, mostrando perda de audição em um dos ouvidos; - tem freqüentes resfriados e dores de ouvido; 22 - a criança conhece, entende e utiliza a LIBRAS. 2.2. Educação bilíngue e sua operacionalização Conforme o estabelecido na Resolução do CNE Nº 02/2001, a educação dos alunos com surdez pode ser bilíngüe, facultando-lhes e às suas famílias a opção pela abordagem pedagógica que julgarem adequada, ouvindo os profissionais especializados em cada caso. Os pais devem estar cientes de que existem duas formas de realizar a educação bilíngüe: uma envolve o ensino das duas línguas, em momentos distintos, e a outra caracteriza-se pelo ensino da segunda língua somente após a aquisição da primeira língua. No presente trabalho, optou-se pela primeira forma: o ensino das duas línguas, em momentos distintos. A educação bilíngüe para crianças brasileiras com surdez consiste na aquisição de duas línguas: a língua brasileira de sinais (LIBRAS) e a língua portuguesa (modalidades oral e escrita), com professores diferentes em momentos diferentes, a depender da escolha pedagógica da escola e da família. A opção por uma educação bilíngüe oferece às crianças com surdez o ensino da língua de sinais como primeira língua (L1) e o da língua portuguesa como segunda língua (L2). Nesse caso, conforme Faria (2001), o ensino de língua portuguesa para surdos deve ser desmembrado em dois momentos distintos: língua portuguesaoral e língua portuguesa escrita. Existem teorias que enfatizam que os três primeiros anos de vida são fundamentais para o aprendizado de línguas, e que, a partir dos sete anos, o aprendizado torna-se mais difícil. Experiências têm mostrado que não há interferência no aprendizado concomitante de duas línguas. O importante é proporcionar momentos distintos para que a criança possa estar exposta a cada língua. O aprendizado de uma língua não acontece de forma descontextualizada. Portanto, é importante estar atento para que a criança possa vivenciar a língua, utilizando-a. As línguas adquiridas são utilizadas para diferentes objetivos, em contextos específicos. 23 O importante, como já foi mencionado, é permitir a construção de uma linguagem elaborada. Dependendo da estimulação recebida ou da característica individual de cada criança com surdez, seu aprendizado acadêmico será melhor elaborado em uma ou em outra língua. Definir que uma criança com perda auditiva leve e moderada deve ser educada prioritariamente na língua portuguesa oral e que outra com perda severa deve ser educada em língua de sinais é padronizar, e não observar a individualidade e a estimulação recebida pela criança e ignorar que a língua portuguesa não é uma língua natural do ponto de vista da aquisição. No entanto, experiências têm demonstrado que a grande maioria das crianças surdas (com perda severa e profunda) desenvolvem-se melhor quando, na escola, a língua instrucional é a língua de sinais, enquanto que aquelas com perda leve e moderada desenvolvem-se melhor quando, na escola, a língua instrucional é a língua portuguesa oral. Sendo a língua de sinais a primeira língua, a segunda língua (língua portuguesa) deve ser desenvolvida em outro momento, dentro da escola. A inclusão de aluno com surdez leve e moderada, em princípio, pode ocorrer naturalmente em creches e classes comuns da pré-escola regular, onde a língua portuguesa é a língua de instrução e onde ele conte com apoio de salas de recursos para a aquisição da LIBRAS e para o desenvolvimento da língua portuguesa (oral e escrita). Essa complementação deve ser desenvolvida em outro local, estruturado para esse fim, como por exemplo a sala de recursos. Na sala de recursos, o adulto com surdez pode ensinar-lhe a LIBRAS em momento distinto do ensino da língua portuguesa oral. No caso da criança com surdez severa ou profunda, sugere-se que a língua instrucional para o desenvolvimento curricular deva ser a língua de sinais, garantindo o desenvolvimento da língua portuguesa oral em outro momento específico, de preferência com outro professor. A inclusão do aluno com surdez, salvo raras exceções, deve ter, portanto, um caráter mais social, por isso muitas escolas optam pela classe especial. A presença de um professor/instrutor com surdez proporcionará à criança a aquisição da LIBRAS e o desenvolvimento do processo de identificação com seu semelhante. O trabalho, numa proposta bilíngüe, “quer dar o direito e condições ao indivíduo surdo de poder utilizar duas línguas; portanto, não se trata de negação, mas de respeito; o indivíduo 24 escolherá a língua que irá utilizar em cada situação lingüística em que se encontrar” (Kozlowski,1998). Essa proposta leva em consideração as características dos próprios surdos, incluindo a opinião dos surdos adultos com relação ao processo educacional da criança surda. Pesquisas sobre as línguas de sinais vêm mostrando que essas línguas são comparáveis em complexidade e expressividade a quaisquer línguas orais. Elas expressam idéias sutis, complexas e abstratas. Os surdos que utilizam a LIBRAS podem discutir filosofia, literatura ou política, além de esportes, trabalho, moda, e utilizá-la com função estética para fazer poesias, histórias, teatro e humor. As línguas de sinais apresentam-se numa modalidade diferente das línguas oraisauditivas. São línguas espaço-visuais, ou seja, a realização dessas línguas não é estabelecida por meio do canal oral-auditivo, mas por meio da visão e da utilização do espaço. A diferença na modalidade determina o uso de mecanismos sintáticos específicos, diferentes dos utilizados nas línguas orais. As línguas de sinais, que não são universais, são sistemas lingüísticos independentes dos sistemas das línguas orais. Petitto & Marantetti (1991) realizaram um estudo sobre o balbucio em bebês surdos e bebês ouvintes no mesmo período de desenvolvimento (desde o nascimento até por volta dos 14 meses de idade). Elas verificaram que o balbucio é um fenômeno que ocorre em todos os bebês, surdos ou ouvintes. As autoras constataram que esse fenômeno é manifestado não somente por meio de sons, mas também por meio de sinais. Nos bebês surdos foram detectadas duas formas de balbucio manual: o balbucio quirológico e a gesticulação. O balbucio quirológico apresenta combinações que fazem parte do sistema articulatório das línguas de sinais (correspondente ao fonológico das línguas orais). Ao contrário, a gesticulação não apresenta organização interna. Os dados apresentam um desenvolvimento paralelo do balbucio oral e do balbucio manual. Os bebês surdos e os bebês ouvintes apresentam os dois tipos de balbucio até um determinado estágio, depois desenvolvem o balbucio em uma das modalidade. É por isso que os estudos afirmavam que as crianças surdas balbuciavam oralmente até um determinado período. As vocalizações são interrompidas nos bebês surdos assim como as produções manuais são interrompidas nos bebês ouvintes, pois a interação lingüística favorece o desenvolvimento de um dos modos de balbuciar. 25 O primeiro subsistema mais complexo que adquire é a concordância verbal, na qual o verbo concorda com seu argumentonome, depois usa produtivamente a concordância verbal para verbos de movimento. Como se pôde observar a partir dessa ligeira explanação, o processo de aprendizagem da LIBRAS é semelhante ao processo de aquisição de qualquer língua. 2.6. Considerações sobre a língua portuguesa escrita Segundo Quadros (1997), a escrita deve ser a oportunidade de o indivíduo expressar inúmeras situações significativas para determinados fins. A produção criativa é possível somente quando envolve situações comunicativas verdadeiras e quando o aluno identifica as possibilidades da nova língua enquanto objeto social e interacional. A língua escrita é uma língua construída independentemente da construção da língua oral. Um bom leitor e um bom escritor é aquele que lê e escreve muito. A língua escrita é adquirida por meio de constante acesso a ela. Dessa forma, desde a educação infantil, a criança deve estar em contato constante com a leitura e a escrita. É importante que a criança desde cedo seja estimulada a ler histórias infantis. Essas devem ser lidas para as crianças com surdez com apoio de muita imagem visual, muita dramatização e acompanhada da língua oral ou da língua de sinais, dependendo do momento e do modelo educacional. É preciso despertar na criança o interesse pela leitura. É importante também que a criança esteja envolvida no universo do letramento; para isso, o professor deve chamar sua atenção para tudo que está escrito ao seu redor. Mesmo que a criança não saiba ler, tudo o que for vivenciado em atividades de classe, em passeios, em relatos trazidos de vivências experimentadas pelas crianças e trazidas para a sala de aula, deve ser registrado em forma de textos construídos junto com crianças e escritos pelo professor. O registro escrito pode e deve ser utilizado: - no desenho livre – muitas vezes a criança usa o desenho como forma de expressão e, se solicitada, “conta” por meio da LIBRAS, de gestos naturais, da dramatização ou mesmo da língua portuguesa oral, o que desenhou. O professor aproveita para traduzir o que foi comunicado,em língua portuguesa escrita, escrevendo no espaço embaixo da folha ou anexando uma tira grampeada ao desenho. - nas histórias contadas – o professor deve escrever o título da história. A criança desenha ou o professor passa uma cópia das principais cenas do livro, escrevendo 26 uma frase que sintetize a idéia.- na hora da rodinha – a criança pode contar o que fez por meio da LIBRAS, dramatizando ou utilizando mímicas. Devem ser desenvolvidas muitas atividades que favoreçam a comunicação da criança. Comunicação não somente na escola, como também com a família. Exemplos de atividades que podem ser desenvolvidas: saco surpresa – na segunda-feira, a criança traz de casa, no saquinho-surpresa, algum objeto e frases simples escritas em casa, dando pistas de atividades que a criança realizou no final de semana. Com apoio das pistas, o professor estimulará a comunicação da criança para que tenha condição de contar situações vivenciais em casa e em outros lugares; contando histórias que foram vivenciadas em classe para a família - como dever de casa, o professor deve mandar folhas contendo figuras da história trabalhada em classe, contendo espaços vazios para que, em casa, os pais preencham, a partir do relato da criança. A criança está adquirindo a língua de sinais, sendo assim, o professor deve usar muita expressão corporal, além do estímulo visual, para que a criança entenda os conceitos. Na educação infantil, em todos os momentos, o professor deve recorrer ao estímulo visual, desde a pintura, o alarme de luz, a campainha luminosa, o painel legendado, o computador com tela de apresentação onde poderá aparecer a língua de sinais, lembrando que, para os usuários de aparelhos de amplificação sonora individual – AASI, o amplificador sonoro em um ambiente amplo ajudará muito. O professor pode organizar centros de atividades, que nada mais são do que uma área da sala de aula onde são oferecidos materiais baseados em uma área de conteúdo ou tópico, para estimular a aprendizagem da criança. Nos centros de atividades, deve-se considerar os interesses das crianças, estimular uma aprendizagem significativa, atender às atividades oferecidas, observando-se os níveis de desenvolvimento das crianças e suas experiências anteriores, possibilitando, assim, que aprendam em seu próprio ritmo sobre o mundo ao seu redor, manipulando objetos, construindo, dialogando e assumindo diferentes papéis. 27 Com base em Spodek & Saracho (1998), são sugeridos os seguintes centros: Centro de jogos dramáticos Centro de jogos e quebra-cabeças Centro de blocos Centro de matemática Centro de ciências Centro de água e areia Centro de som e música. Centro de marionetes Centro de educação física 2.7. Aprendizado da língua portuguesa oral Para o desenvolvimento da língua portuguesa oral em crianças com surdez, a ênfase, desde os primeiros anos de vida, deverá ser a interação, a comunicação, a conversação significativa e contextualizada. O acompanhamento por um professor e/ou pelo fonoaudiólogo complementa as atividades da sala de aula e a interação entre eles e a família será um fator indispensável para a obtenção de resultados positivos. A diferença entre projetos educacionais que envolvem crianças com surdez às vezes não depende do tipo de proposta ou do objetivo, mas das modalidades, das estratégias e da persistência em desenvolvê-los.Perdas graves da audição – especialmente em crianças muito pequenas, no período pré-lingüístico (perdas auditivas antes do aprendizado da fala) – afetam significativamente o desenvolvimento da linguagem oral caso não sejam trabalhadas adequadamente. Se não se pode escutar uma língua, é extremamente difícil aprendê-la. Crianças que apresentam perdas auditivas antes do aprendizado da fala necessitarão de cuidados muito especiais para aprender a língua oral. Uma criança que já tinha aprendido a falar e perdeu a audição no período póslingüístico (perda auditiva após 28 o aprendizado da fala), terá maior possibilidade de entender a linguagem falada, mas, necessitará de alguns cuidados especiais. Cada criança apresenta sua individualidade e riqueza, e isso é válido para as crianças com surdez. As classificações se tornam, contudo, necessárias, pelo menos em termos didáticos. Apesar de todas as variáveis, não é fácil dizer, por exemplo, por que duas crianças com surdez, com a mesma perda auditiva, com o mesmo tempo de uso de prótese, desenvolvem sua audição e fala de modo diferente uma da outra. Em termos de desenvolvimento de linguagem oral, existe uma classificação: crianças com surdez desde o nascimento e criançasque perderam a audição mais tarde (por exemplo, devido a meningite). As crianças que perderam a audição depois da aquisição da linguagem oral arquivaram, no cérebro, modelos de linguagem receptiva e até expressiva, e as que nasceram com surdez não conseguiram imprimir esses modelos na memória. Dependendo do tempo e da intensidade da estimulação a que as crianças que nasceram com surdez são expostas, elas poderão desenvolver muito bem a língua de sinais e também a comunicação oral. A interação entre o fonoaudiólogo e o professor responsável pela estimulação precoce, de maneira permanente, possibilitará o planejamento das atividades que viabilizarão o desenvolvimento harmonioso de cada criança. O professor pode interpretar para as demais pessoas aquilo que não conseguiram compreender da mensagem da criança. Ao mesmo tempo, o professor deve explicar à criança com surdez o que os outros colegas contaram. Isso já é realizado normalmente por muitos professores, tornando a aprendizagem muito rica para a turma toda, tanto em termos de compreensão como de aquisição de linguagem. É necessário que, desde o começo das atividades educacionais, o professor fale oralmente o que a criança com surdez quer dizer. Os recursos gráficos e visuais são muito importantes para ajudar a compreensão da fala do professor. Todas as vezes que um adulto tratar diretamente com a criança (troca de roupa, fraldas, hora do banho, momento do colo, alimentação), deve lembrar que, com alguns minutos a mais, pode propiciar-lhe uma atenção mais dirigida, muito enriquecedora, e deve usar as mesmas estratégias que o professor responsável pela estimulação precoce pede para a mãe utilizar em casa. 29 Na educação infantil, em geral, os avisos e ordens são dados somente pela comunicação oral. Esse hábito precisa ser alterado. Os assuntos, na maioria dos casos, são relacionados a coisas concretas e podem ser dramatizados ou apresentados por meio de gravuras. A escolha de estratégias a serem utilizadas com o grupo ou somente com a criança com surdez depende da oportunidade e das circunstâncias. Há muitas técnicas para ajudar crianças com surdez a aprender a falar. Entre elas encontram-se aquelas utilizadas pela fonoaudiologia e pelos professores especializados. Fazse necessário começar a desenvolver a linguagem desde as primeiras semanas de vida, independentemente de a criança surda responder ou não ao que está sendo falado. As crianças que ouvem apenas um pouco devem utilizar essa pequena audição para desenvolver a linguagem oral. Nesse momento não deve haver interferência de barulhos a sua volta. Alguns aspectos metodológicos que devem ser observados pelo professor: chamar a criança pelo nome, quando se dirigir a ela, é uma das formas de colaborar para a descoberta de sua identidade. Antes de falar, o professor deve esperar que a criança olhe para ele. Se ela não o fizer, ele deve segurá-la pelo queixo e, gentilmente, fazê-la voltar-se para ele; usar palavras simples e familiares em frases curtas como, por exemplo, venha comer. Não se deve usar “linguagem infantil” coma criança, pois, posteriormente, ela sóentenderá quem lhe falar da mesma maneira; utilizar os movimentos do corpo e as expressões do rosto linguagem corporal – para ajudar a criança a se comunicar a todo instante. Assim, ela aprenderá o que significam esses movimentos e expressões; usar movimentos do corpo para tornar mais clara a mensagem falada para aqueles que o estão escutando ou estão vendo. Balançar a cabeça quando disser sim ou não; utilizar as mãos para mostrar o tamanho dos objetos etc; modificar a expressão do rosto de acordo com o que se fala. Pode-se demonstrar pesar, alegria, surpresa e muitos outros sentimentos no rosto; não parar de conversar com a criança ao utilizar a linguagem corporal. Na educação infantil, em contato com a criança surda, os professores devem: falar naturalmente, de acordo com a idade da criança, procurando não fazer nenhuma alteração da sintaxe; participar sempre da alegria ou do sofrimento da criança, dando valor a seu estado emocional; fazer perguntas à 30 criança surda, como a qualquer outra criança, e responder por ela, com o objetivo de estimular a conversação e sua compreensão (método do duplo papel: papel da criança e do adulto): “Você fez cocô? José fez cocô! Espere! Vamos trocar a fralda? Isso te incomoda? Vai ficar bem limpinho! Quer brincar de bicicleta? Está rindo? José é feliz! Vamos brincar com Carol.” O mais importante nesse tipo de atividade, como em outras, é não perder a oportunidade de conversar com a criança, com a máxima naturalidade, apenas buscando manter o interesse da criança no rosto de quem fala (leitura labial); estabelecer desde o começo do processo de ensino e aprendizagem um diálogo com a criança, de maneira que, com o tempo, ela aprenda a fazer e a responder adequadamente as perguntas, primeiro de maneira muito simples, depois cada vez mais complexa. O professor deve incentivá-la a utilizar a voz, dando um significado para os sons que a criança pode emitir. Com a criança surda isso não acontece de maneira natural, pela falta do estímulo auditivo, mas pode, em parte, ser superado com o uso do aparelho de amplificação sonora individual – AASI e do trabalho de estimulação da linguagem oral desenvolvido pelas pessoas que com ela convivem. Aos poucos a criança deverá aprender a falar, quer dizer, aprender que, emitindo sons, algo modifica ao seu redor. É preciso prender a atenção da criança sobre a sonoridade das coisas, sobre a possibilidade de utilizar - como instrumento das brincadeiras primeiro, depois da comunicação e do conhecimento - as emissões orais próprias e as dos outros. A criança observará que, ao emitir um som, vai aparecer um objeto conhecido e/ou desejado. Se emitir um som, haverá uma reação no ambiente: o professor vira-se, sorri, chega perto, pega no colo, dá algo. O som da voz da mãe, do professor que chama a criança pelo nome com aquela entonação própria, com o tempo pode ser reconhecido e adquirir um profundo significado. A criança, aos poucos, deve chegar a emitir diferentes sons para diferentes pedidos (por exemplo, aaa quando quer água, ooo quando quer a bola, mamama quando vê e quer a mãe). Esse estilo de relacionamento deveria tornar-se, aos poucos, comum a todos os que se relacionam com a criança com surdez. Mais do que uma informação teórica e informal inicial, será a maneira de interagir do professor especialmente encarregado de lidar com a criança surda que levará os outros a agir da mesma forma com naturalidade e alegria. 31 Para a aprendizagem da língua portuguesa oral é de fundamental importância que a criança faça uso do aparelho auditivo – aparelho de amplificação sonora individual - AASI. 2.8.1 Aparelhos Auditivos e Implante Cocleares Aparelhos auditivos Os aparelhos AASI (aparelhos de amplificação sonora individual) servem para captar ampliar os sons, mas o fato de uma criança estar utilizando-os não significa que está tendo uma audição normal. Crianças com surdez leve ou moderada podem desenvolver bem a linguagem oral. No caso da surdez leve, isso é possível mesmo sem o aparelho auditivo. As que têm surdez severa e surdez profunda também poderão ser beneficiadas com o uso do aparelho, mas terão dificuldades ligadas à detecção e à discriminação dos sons da fala, podendo, conseqüentemente, não adquirir a língua portuguesa oral de maneira natural. Nos casos de ter surdez moderada, severa ou profunda, a criança deverá usar o aparelho auditivo o dia todo para que haja um melhor aproveitamento de seus resíduos auditivos. Pais, pessoas ouvintes de seu convívio, professores, funcionários da escola, sempre que possível, devem estimular auditivamente a criança, chamando-lhe a atenção para os ruídos e sons ambientais (barulho de avião, trovão, batidas na porta, o barulho da descarga, do telefone tocando, etc.), e para os sons da fala. Assim a criança, aos poucos, passará a dar significado a esses sons, valendo se também da pista auditiva, além da pista visual (leitura orofacial, leitura das expressões corporais, faciais, etc.), adquirindo melhor domínio do ambiente sonoro e melhor desempenho comunicativo. 32 O modelo de aparelho auditivo mais usado pelas crianças no período da educação infantil é o retroauricular. O professor deverá receber as informações sobre o uso e os cuidados com a prótese auditiva da criança. Crianças muito pequenas dependem do adulto para ligar/desligar, tirar/ colocar o aparelho. O professor deverá monitorar o aparelho, avisando à família quando ele apresentar problemas, como: gasto das pilhas e necessidade de limpeza dos moldes. Estimulação auditiva A estimulação auditiva visa desenvolver os resíduos auditivos, ou seja, as habilidades auditivas que quase todas as crianças com surdez possuem. Para isso, é fundamental o uso da prótese auditiva, lembrando-se de que ela é somente uma ferramenta. É necessária uma educação permanente e específica para que essas capacidades auditivas da criança sejam estimuladas, em particular do nascimento aos três anos de idade, e possam tornar-se parte integrante e funcional do próprio universo perceptivo. Ao falar com crianças que já possuem o aparelho auditivo, o professor não deve ficar distante (mais de três metros) e, quando for lidar com ela individualmente, pode falar e brincar a uma distância de 30 a 40 cm de sua orelha. A criança deverá ser estimulada desde cedo a: perceber a diferença entre o som e o silêncio. Na abordagem pedagógica, a mensagem sonora deve estar relacionada a um determinado contexto, aos objetos, aos acontecimentos, à comunicação (verbal, gestual e de sinais) sempre redundante, rica de entonações e traços exclamativos, interrogativos e expressivos. O som deve aparecer enfatizado com o seu oposto: o silêncio (percebido como espera); descobrir o que significa colocar-se à escuta. Diante de um som, por exemplo, colocar a mão perto da orelha com o gesto caraterístico de quem quer ouvir; aprender a detectar, a discriminar, a reconhecer o som .Deve aprender, também, a gostar de todas as características próprias do som, do ritmo, da música que estão na base da linguagem oral. O professor deve escolher para a criança brinquedos com ruídos um pouco mais fortes: tamborim, apito, gaita, flauta, cascas de coco. Em lugar de fazer um barulho qualquer, escolher ritmos simples e agradáveis. perceber a fonte de cada som. Deve aprender 33 que o som que está agora ouvindo é da caixa da descarga do banheiro, da campainha que assinala o começo e o fim do recreio, da fala da diretora, da professora. Implantes cocleares O implante coclear é um aparelho implantado na orelha cirurgicamente e capaz de estimular diretamente o nervo auditivo, causando sensações sonoras. A cirurgiatem uma porção interna, que fica dentro da orelha do paciente, e uma porção externa, que é acoplada logo atrás da orelha e se mantem em posição por meio de um imã. O aparelho é usado no mundo todo há mais de 30 anos e não é uma tecnologia experimental. Há aproximadamente 220 mil pessoas implantadas no mundo. Infelizmente, por questões políticas e também por falta de profissionais capacitados, o implante coclear demorou a popularizar-se no Brasil. Em linhas gerais, pessoas com perda auditiva severa a profunda bilateral que não têm benefício com aparelhos auditivos convencionais. É claro que existe uma infinidade de nuances na indicação do implante coclear que devem ser discutidas com o paciente ou, no caso das crianças, com os familiares e responsáveis. O implante permite que a pessoa implantada volte a ouvir sons. Em muitos casos é possível inclusive compreender a fala humana, mas certamente não se trata de uma audição normal (distinguir entre as vozes de diferentes pessoas, por exemplo, é muito difícil para o implantado). Há pacientes implantados que conseguem falar ao telefone como também há pacientes cujo implante ajuda apenas a perceber os sons sem conseguir compreender a fala. O quanto a pessoa implantada será capaz de compreender depende de muitos fatores, dentre eles o tempo que a pessoa ficou sem ouvir (tempo entre a perda auditiva e a cirurgia de implante), se o paciente já ouviu em algum momento ou não, se tem algum código linguístico estabelecido (sabe se comunicar de alguma forma), etc. 34 MODULO III – ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS NA AEE COM ALUNOS DE DEFICIÊNCIA AUDITIVA 3.1. Desenvolvimento da linguagem interior na etapa pré-linguística Na etapa pré-lingüística, o primeiro objetivo é desenvolver a linguagem interior, interrelacionando a experiência da criança com símbolos visuais. A criança surda adquire linguagem interior ao relacionar a experiência que está vivendo com a sinalização ou com a fala de uma pessoa (mãe, amigos, professores etc.). O professor deve colocar a criança surda em contato direto com pessoas e ambientes diferentes e variados para que ela assimile não somente o que é, mas para que serve e como utilizar o ambiente, os objetos. É importante para a criança com surdez vivenciar situações e dramatizar outras. É fundamental para ela participar ativamente das situações vivenciadas. Quanto maior o número de experiências vivenciadas pela criança, e posteriormente gesticuladas e verbalizadas por alguém, maior será a bagagem que elas utilizarão na fase posterior para decodificação da mensagem gestual e verbal alheia (linguagem receptiva). É importante que se chame atenção para a importância da participação da família nesse trabalho como determinante do êxito escolar da criança. Para tanto sugerem-se os seguintes materiais: – espelhos; – material para mural; – maquetes; – lã; – reálias; – miniaturas; – fotos... 35 3.2. Desenvolvimento da linguagem receptiva na fase pré-linguística O objetivo geral é desenvolver a linguagem receptiva (gestual e escrita) e os objetivos específicos são relativos à LIBRAS e à língua portuguesa. Objetivos específicos da linguagem receptiva em LIBRAS: • conhecer os sinais que nomeiam o esquema corporal, o vestuário, a alimentação, os brinquedos, os animais, o ambiente escolar, os meios de transportes, as profissões, elementos de higiene pessoal e ambiental, o trânsito, os automóveis, plantas; • entender frases semicomplexas de 5 a 6 vocábulos e gestos; • identificar seqüências de fatos; • reproduzir histórias em seqüência por meio de dramatização; • identificar os participantes do discurso; • identificar a idéia principal do texto; • detectar características físicas e psicológicas dos personagens e do ambiente descrito. Objetivos específicos da linguagem receptiva em língua portuguesa escrita: • reconhecer e identificar palavras-chave em frases simples e semicomplexas; • reconhecer e identificar as sílabas dos vocábulos; • ordenar frases simples e semicomplexas, formando o texto; • ordenar palavras, formando frases simples e semicomplexas; • ordenar sílabas, formando palavras. Objetivos do professor dentro do trabalho de linguagem receptiva: Estimular: • a relação existente entre as experiências apresentadas ou vivenciadas; • a expressão de sentimentos, emoções e mensagens por meio de movimentos corporais; • a expressão escrita; 36 • os movimentos do corpo; • a escrita de atividades vivenciadas com ou sem gravura; 3.3. O Atendimento Educacional Especializado para o ensino da Língua Portuguesa Segundo Quadros (1997), a escrita deve ser a oportunidade de o indivíduo expressar inúmeras situações significativas para determinados fins. A produção criativa é possível somente quando envolve situações comunicativas verdadeiras e quando o aluno identifica as possibilidades da nova língua enquanto objeto social e interacional. A língua escrita é uma língua construída independentemente da construção da língua oral. Um bom leitor e um bom escritor é aquele que lê e escreve muito. A língua escrita é adquirida por meio de constante acesso a ela. Dessa forma, desde a educação infantil, a criança deve estar em contato constante com a leitura e a escrita. É importante que a criança desde cedo seja estimulada a ler histórias infantis. Essas devem ser lidas para as crianças com surdez com apoio de muita imagem visual, muita dramatização e acompanhada da língua oral ou da língua de sinais, dependendo do momento e do modelo educacional. É preciso despertar na criança o interesse pela leitura. É importante também que a criança esteja envolvida no universo do letramento; para isso, o professor deve chamar sua atenção para tudo que está escrito ao seu redor. Mesmo que a criança não saiba ler, tudo o que for vivenciado em atividades de classe, em passeios, em relatos trazidos de vivências experimentadas pelas crianças e trazidas para a sala de aula, deve ser registrado em forma de textos construídos junto com crianças e escritos pelo professor. É fundamental que a criança perceba que tudo que é experimentado pode ser escrito, e tudo que é escrito pode ser lido, despertando assim, para o gosto pela leitura e escrita. O desenvolvimento da língua escrita é motivo de grandes estudos. É importante perceber, entretanto, que sua aquisição ocorrerá à medida que a criança estiver exposta a ela. 37 A importância do apoio escrito Mesmo sabendo-se que a criança em idade pré-escolar ainda não sabe ler, o apoio escrito deve ser dado à criança com surdez sempre que possível, e desde muito cedo. O registro escrito, reforçado com um desenho, foto ou colagem representativa, realizado durante ou após situações vivenciadas pela criança, funciona como apoio visual, facilitando aprendizagem da língua portuguesa, estimulando a leitura e escrita e contribuindo para a memorização de palavras e de estruturas frasais. Poderá ainda ser revivido e “lido” em outros momentos pelos familiares, professores, fonoaudiólogo etc. O registro escrito pode e deve ser utilizado. - no desenho livre - na hora da rodinha - nas aulas de música Aprendizado da língua portuguesa oral Para o desenvolvimento da língua portuguesa oral em crianças com surdez, a ênfase, desde os primeiros anos de vida, deverá ser a interação, a comunicação, a conversação significativa e contextualizada. O acompanhamento por um professor e pelo fonoaudiólogo complementa as atividades da sala de aula e a interação entre eles e a família será um fator indispensável para a obtenção de resultados positivos. A diferença entre projetos educacionais que envolvem crianças com surdez às vezes não depende do tipo de propostaou do objetivo, mas das modalidades, das estratégias e da persistência em desenvolvê-los. Perdas graves da audição – especialmente em crianças muito pequenas, no período pré-lingüístico (perdas auditivas antes do aprendizado da fala) – afetam significativamente o desenvolvimento da linguagem oral caso não sejam trabalhadas adequadamente. Se não se pode escutar uma língua, é extremamente difícil aprendê-la. Crianças que apresentam perdas auditivas antes do 38 aprendizado da fala necessitarão de cuidados muito especiais para aprender a língua oral. Uma criança que já tinha aprendido a falar e perdeu a audição no período póslingüístico (perda auditiva após o aprendizado da fala), terá maior possibilidade de entender a linguagem falada, mas, ainda assim, necessitará de alguns cuidados especiais. Cada criança apresenta sua individualidade e riqueza, e isso é válido para as crianças com surdez. As classificações se tornam, contudo, necessárias, pelo menos em termos didáticos. Apesar de todas as variáveis, não é fácil dizer, por exemplo, por que duas crianças com surdez, com a mesma perda auditiva, com o mesmo tempo de uso de prótese, desenvolvem sua audição e fala de modo diferente uma da outra. Em termos de desenvolvimento de linguagem oral, existe uma classificação: crianças com surdez desde o nascimento e crianças que perderam a audição mais tarde (por exemplo, devido a meningite). As crianças que perderam a audição depois da aquisição da linguagem oral arquivaram, no cérebro, modelos de linguagem receptiva e até expressiva, e as que nasceram com surdez não conseguiram imprimir esses modelos na memória. Dependendo do tempo e da intensidade da estimulação a que as crianças que nasceram com surdez são expostas, elas poderão desenvolver muito bem a língua de sinais e também a comunicação oral. A interação entre o fonoaudiólogo e o professor responsável pela estimulação precoce, de maneira permanente, possibilitará o planejamento das atividades que viabilizarão o desenvolvimento harmonioso de cada criança. São necessários estímulos em língua portuguesa para aumentar seu conhecimento, por meio de seqüências de quadros (a boneca levanta, toma café, descansa) e também para acrescentar pormenores (toma banho, usa o sabonete, lava os pés, a cabeça, enxuga com a toalha, penteia os cabelos); aprenda, paulatinamente, a discriminar auditivamente e/ou visualmente as primeiras palavras; mostre interesse pelas histórias contadas ou dramatizadas, com a ajuda de videocassete e de desenhos; mostre interesse pela leitura de histórias realizadas com o auxílio de gravuras nos livros ou com seqüência de desenhos; é interessante que a criança guarde seu livro de histórias, em que há três ou quatro gravuras para cada história. 39 Quando são usados livros e gravuras, é bom lembrar as regras da comunicação visual. A história trabalhada na escola deve ser recontada em casa; familiarize-se com a escrita, aproveitando o material encontrado no próprio contexto; comece a dar um significado intencional à própria fala, utilizando a emissão para designar animal, objeto, pedido; comece a desenvolver a linguagem receptiva, entendendo a comunicação oral do professor nas atividades da vida diária e nas atividades da escola; relate suas experiências, mesmo de fora da escola, com naturalidade, como por exemplo: a visita ao jardim zoológico, o nascimento do bebê, um aniversário, o choque de carros na rua. Uma agenda pode facilitar o contato do professor com a família, possibilitando a interpretação do que a criança comunica gestualmente. O professor pode interpretar para as demais pessoas aquilo que não conseguiram compreender da mensagem da criança. Ao mesmo tempo, o professor deve explicar à criança com surdez o que os outros colegas contaram. Isso já é realizado normalmente por muitos professores, tornando a aprendizagem muito rica para a turma toda, tanto em termos de compreensão como de aquisição de linguagem. Na educação infantil, em geral, os avisos e ordens são dados somente pela comunicação oral. Esse hábito precisa ser alterado. Os assuntos, na maioria dos casos, são relacionados a coisas concretas e podem ser dramatizados ou apresentados por meio de gravuras. A escolha de estratégias a serem utilizadas com o grupo ou somente com a criança com surdez depende da oportunidade e das circunstâncias. As crianças que ouvem apenas um pouco devem utilizar essa pequena audição para desenvolver a linguagem oral. Nesse momento não deve haver interferência de barulhos a sua volta. Não se deve usar “linguagem infantil” com a criança, pois, posteriormente, ela só entenderá quem lhe falar da mesma maneira; utilizar os movimentos do corpo e as expressões do rosto – linguagem corporal – para ajudar a criança a se comunicar a todo instante. Assim, ela aprenderá o que significam esses movimentos e expressões; usar movimentos do corpo para tornar mais clara a 40 mensagem falada para aqueles que o estão escutando ou estão vendo. Balançar a cabeça quando disser sim ou não; utilizar as mãos para mostrar o tamanho dos objetos etc; modificar a expressão do rosto de acordo com o que se fala. Pode-se demonstrar pesar, alegria, surpresa e muitos outros sentimentos no rosto;não parar de conversar com a criança ao utilizar a linguagem corporal. É sempre muito importante estimular sua linguagem; descobrir se a criança está entendendo seu interlocutor, pedindo-lhe que responda as perguntas. A criança pode responder de diferentes maneiras: fazendo o que se pediu, falando ou apontando coisas. A criança pode responder, também, emitindo sons, que não são propriamente palavras; valorizar a emissão de qualquer som que a criança queira ou consiga produzir. Mais tarde, pode-se ajudá-la a dizer palavras, emitindo corretamente os sons; reconhecer o esforço da criança quando ela fizer alguma coisa bem feita ou aprender a dizer palavras novas, por meio de palavras e demonstrações de emoções de alegria. A língua portuguesa oral deve ser desenvolvida o mais naturalmente possível, sempre de forma contextualizada e lúdica. Sugere-se que essa modalidade seja trabalhada em momentos separados daqueles utilizados para aquisição da língua de sinais. Para desencadear o processo de ensino e aprendizagem da língua portuguesa oral, o professor deve falar o tempo todo com a criança, como se faz com a criança ouvinte, em todas as situações da vida diária. Nunca se deve proibi-la de utilizar sinais. O professor deve compreendê-los e expressar a palavra correspondente em língua portuguesa. 41 MODULO IV – AEE PARA ALUNOS SURDOS 4.1. O Atendimento Educacional Especializado em Libras na Escola Comum „Este atendimento constitui um dos momentos didático-pedagógicos para os alunos com surdez incluídos na escola comum. O atendimento ocorre diariamente, em horário contrário ao das aulas, na sala de aula comum. A organização didática desse espaço de ensino implica o uso de muitas imagens visuais e de todo tipo de referências que possam colaborar para o aprendizado dos conteúdos curriculares em estudo, na sala de aula comum. Os materiais e os recursos para esse fim precisam estar presentes na sala de Atendimento Educacional Especializado, quais sejam: mural de avisos e notícias, biblioteca da sala, painéis de gravuras e fotos sobre temas de aula, roteiro de planejamento, fichas de atividades e outros. Na escola comum, é ideal que haja professores que realizem esse atendimento, sendo que os mesmos precisam ser formados para ser professor e ter pleno domínio da Língua de Sinais. O Professor em Língua de Sinais, ministra aula utilizando a Língua de Sinais nas diferentes modalidades, etapas e níveisde ensino como meio de comunicação e interlocução. Professor, explorando conteúdo curricular sobre civilizações antigas com recursos específicos em Libras para alunos com surdez O planejamento do Atendimento Educacional Especializado em Libras é feito pelo professor especializado, juntamente com os professores de turma comum e os professores de Língua Portuguesa, pois o conteúdo deste trabalho é semelhante ao desenvolvido na sala de aula comum. Professor, explorando conteúdo curricular sobre Professor explorando o conteúdo curricular sobre o universo e o movimento do sistema solar com recursos diversos para os alunos com surdez. 42 O Atendimento Educacional Especializado em Libras fornece a base conceitual dessa língua e do conteúdo curricular estudado na sala de aula comum, o que favorece ao aluno com surdez a compreensão desse conteúdo. Nesse atendimento há explicações das idéias essenciais dos conteúdos estudados em sala de aula comum. Os professores utilizam imagens visuais e quando o conceito é muito abstrato recorrem a outros recursos, como o teatro, por exemplo. Os recursos didáticos utilizados na sala de aula comum para a compreensão dos conteúdos curriculares são também utilizados no Atendimento Educacional Especializado em Libras. Ilustramos, por meio de fotos, alguns recursos didático-pedagógicos utilizados: Alunos com surdez no Atendimento Educacional Especializado em Libras Alunos com surdez no Atendimento Educacional Alunos explorando maquetes dos conteúdos curriculares sobre historicidade Professor explorando conteúdos curriculares em Libras com os devidos recursos didáticos Maquetes sobre o conteúdo em estudo sobre a antiguidade oriental clássica Maquete sobre trânsito Recursos pedagógicos para estudo dos sólidos geométricos Recursos pedagógicos para o estudo do sistema de numeração decimal e operações matemáticas 4.2. O Atendimento Educacional Especializado para o ensino de Libras Este atendimento constitui outro momento didático-pedagógico para os alunos com surdez incluídos na escola comum. O atendimento inicia com o diagnóstico do aluno e ocorre diariamente, em horário contrário ao das aulas, na sala de aula comum. 43 Este trabalhado é realizado pelo professor e/ou instrutor de Libras (preferencialmente surdo), de acordo com o estágio de desenvolvimento da Língua de Sinais em que o aluno se encontra. O atendimento deve ser planejado a partir do diagnóstico do conhecimento que o aluno tem a respeito da Língua de Sinais. O professor e/ou instrutor de Libras organiza o trabalho do Atendimento Educacional Especializado, respeitando as especificidades dessa língua, principalmente o estudo dos termos científicos a serem introduzidos pelo conteúdo curricular. Eles procuram os sinais em Libras, investigando em livros e dicionários especializados, internet ou mesmo entrevistando pessoas adultas com surdez, considerando o seguinte: • Caso não existam sinais para designar determinados termos científicos, os professores de Libras analisam os termos científicos do contexto em estudo, procurando entendê-los, a partir das explicações dos demais professores de áreas específicas (Biologia, História, Geografia e dentre outros); • Avaliam a criação dos termos científicos em Libras, a partir da estrutura lingüística da mesma, por analogia entre conceitos já existentes, de acordo com o domínio semântico e/ou por empréstimos lexicais; • Os termos científicos em sinais são registrados, para serem utilizados nas aulas em Libras. Criação de sinais para termos científicos. A organização didática desse espaço de ensino implica o uso de muitas imagens visuais e de todo tipo de referências que possam colaborar para o aprendizado da Língua de Sinais. Os materiais e os recursos para esse fim precisam estar presentes na sala de Atendimento Educacional Especializado e respeitar as necessidades didático-pedagógicas para o ensino de língua. Caderno de registro de Língua de Sinais. O caderno expressa sua compreensão sobre os termos representados em Libras. Os professores do Atendimento Educacional Especializado de Libras fazem permanentemente avaliações para 44 verificação da aprendizagem dos alunos em relação à evolução conceitual de Libras. Em resumo, questões importantes sobre o Atendimento Educacional Especializado em Libras e para o ensino de Libras: • O Atendimento Educacional Especializado com o uso de Libras, ensina e enriquece os conteúdos curriculares promovendo a aprendizagem dos alunos com surdez na turma comum. • O ambiente educacional bilíngüe é importante e indispensável, já que respeita a estrutura da Libras e da Língua Portuguesa. • Este atendimento exige uma organização metodológica e didática e especializada. • O professor que ministra aulas em Libras deve ser qualificado para realizar o atendimento das exigências básicas do ensino por meio da Libras e também, para não praticar o bimodalismo, ou seja, misturar a Libras e a Língua Portuguesa que são duas línguas de estruturas diferentes. • O professor com surdez, para o ensino de Libras oferece aos alunos com surdez melhores possibilidades do que o professor ouvinte porque o contato com crianças e jovens com surdez com adultos com surdez favorece a aquisição dessa língua. • A avaliação processual do aprendizado por meio da Libras é importante para que se verifique, pontualmente, a contribuição do Atendimento Educacional Especializado para o aluno com surdez na escola comum. • A qualidade dos recursos visuais é primordial para facilitar a compreensão do conteúdo curricular em Libras. 45 • A organização do ambiente de aprendizagem e as explicações do professor em Libras propiciam uma compreensão das idéias complexas, contidas nos conhecimentos curriculares. Momento Didático-Pedagógico: O Atendimento Educacional Especializado para o Ensino de Língua Portuguesa O Atendimento Educacional Especializado para o ensino da Língua Portuguesa acontece na sala de recursos multifuncionais e em horário diferente ao da sala comum. O ensino é desenvolvido por um professor, preferencialmente, formado em Língua Portuguesa e que conheça os pressupostos lingüísticos teóricos que norteiam o trabalho, e que, sobretudo acredite nesta proposta estando disposto a realizar as mudanças para o ensino do português aos alunos surdos. 4.3. O papel do Intérprete Escolar O reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais – Libras, em abril de 2002, e sua recente regulamentação, conforme o decreto nª 5.626, de 22 de dezembro de 2005, legitimam a atuação e a formação profissional de tradutores e intérpretes de Libras e Língua Portuguesa. Garante ainda a obrigatoriedade do ensino de Libras na educação básica e no ensino superior - cursos de licenciatura e de Fonoaudiologia e regulamenta a formação de professores da Libras, o que abre um amplo espaço, nunca antes alcançado, para a discussão sobre a educação das pessoas com surdez, suas formas de ocorrência e socialização. Nesse contexto, a formação profissional dos tradutores e intérpretes de Libras e de Língua Portuguesa torna-se cada vez mais valorizada, pois a presença destes profissionais é fundamental para a inserção das pessoas com surdez, que são usuárias da Língua de Sinais. 46 O que é um tradutor e intérprete de Libras e Língua Portuguesa? É a pessoa que, sendo fluente em Língua Brasileira de Sinais e em Língua Portuguesa, tem a capacidade de verter em tempo real (interpretação simultânea) ou, com um pequeno espaço de tempo (interpretação consecutiva), da Libras para o Português ou deste para a Libras. A tradução envolve a modalidadeescrita de pelo menos uma das línguas envolvidas no processo. Postura ética A função de traduzir/interpretar é singular, dado que a atuação desse profissional leva-o a interagir com outros sujeitos, a manter relações interpessoais e profissionais, que envolvem pessoas com surdez e ouvintes, sem que esteja efetivamente implicado nelas, pois sua função é unicamente a de mediador da comunicação. O tradutor e intérprete, ao mediar a comunicação entre usuários e não usuários da Libras, deve observar preceitos éticos no desempenho de suas funções, entendendo que não poderá interferir na relação estabelecida entre a pessoa com surdez e a outra parte, a menos que seja solicitado. Entende-se que, sendo o tradutor e intérprete uma pessoa com capacidade, opiniões e construção identitária próprias, não é coerente exigir que ele adote uma postura absolutamente neutra, como se sua atividade fosse apenas uma atividade mecânica. Entende-se como postura ética uma atitude solidária, pela qual esses profissionais lutam pelo respeito às pessoas com surdez, assim como por qualquer outra pessoa. Existem várias áreas de atuação do tradutor e intérprete de Libras e Língua Portuguesa que merecem ser objeto de reflexão de todos os que atuam com pessoas com surdez usuárias da Libras. A atuação do tradutor/intérprete escolar, na ótica da inclusão, envolve ações que vão além da interpretação de conteúdos em sala de aula. Ele medeia a comunicação entre professores e alunos, alunos e alunos, pais, funcionários e demais pessoas da comunidade em todo o âmbito da escola e também em seminários, palestras, Founs, debates, reuniões e demais eventos de caráter educacional. 47 Com relação à sala de aula, devemos sempre considerar que este espaço pertence ao professor e ao aluno e que a liderança no processo de aprendizagem é exercida pelo professor, sendo o aluno de sua responsabilidade. O Papel do Intérprete Escolar Partindo do princípio de que, comprovadamente, a Língua de Sinais é fundamental para que o aluno com surdez adquira linguagem e avance no seu desenvolvimento cognitivo, não podemos deixar de considerar também, que apenas o uso dessa língua não é suficiente para resolver questões relativas à sua aprendizagem. A Língua de Sinais, por si só, não promove a aprendizagem da leitura e da escrita da Língua Portuguesa e, conseqüentemente, dos conceitos estudados. Outro aspecto importante refere-se à conduta profissional adotada pelo tradutor/ intérprete durante a sua atuação profissional, nos quesitos responsabilidade, assiduidade, pontualidade, posicionamento no espaço de interpretação, aparência pessoal, domínio de suas funções, interação com os alunos, postura durante as avaliações. O tradutor/intérprete deve sempre respeitar o contexto escolar, seja em relação às aulas em si, seja em relação aos alunos com surdez e ouvintes. O profissional tradutor/intérprete consciente de todas as suas funções, papéis e compromissos profissionais tem como responsabilidade agir como difusor dos conhecimentos que tem sobre Libras e comunicação entre pessoas com surdez e ouvintes. Ele deverá saber o valor e limites de sua interferência no ambiente escolar, para dar esclarecimentos e orientação aos que necessitam de seus conhecimentos específicos. Em resumo, o tradutor/intérprete deve conhecer com profundidade, cientificidade e criticidade sua profissão, a área em que atua, as implicações da surdez, as pessoas com surdez, a Libras, os diversos ambientes de sua atuação a fim de que, de posse desses conhecimentos, seja capaz de atuar de maneira adequada em cada uma das situações que envolvem a tradução, a interpretação e a ética profissional. 48 Atuação do tradutor/intérprete e professor de Libras Há uma clara diferença entre ensinar Língua de Sinais a ouvintes ou a pessoas com surdez. No caso do ensino de Libras para alunos ouvintes, o tradutor/ intérprete poderá mediar a comunicação entre os alunos ouvintes e o professor com surdez no ensino teórico da Libras. O ensino prático caberá ao professor de Libras. Atuação do tradutor/intérprete com o professor fluente em Libras O professor que é fluente em Libras é a pessoa mais habilitada para transmitir seus conhecimentos aos alunos usuários da Língua de Sinais. Uma vez que o professor tenha fluência nessa língua e que o domínio do conhecimento a ser trabalhado é exclusivo desse professor, não existe a barreira da comunicação e, assim sendo, o intérprete será desnecessário. Atuação do tradutor/intérprete em sala de aula comum com o professor sem fluência em Libras O tradutor/intérprete poderá atuar na sala comum, mas sempre evitando interferir na construção da Língua Portuguesa, como segunda língua dos alunos com surdez. A sala de aula comum é um dos locais de aprendizado da Língua Portuguesa para os alunos com surdez. A atuação do tradutor/intérprete escolar envolve também a mediação da comunicação nas diversas atividades que acontecem na escola ou relacionadas a ela, visando atender às necessidades tanto de professores e alunos quanto da comunidade escolar e promovendo a inclusão social. O tradutor/intérprete é mais um profissional que, ciente de sua responsabilidade social, poderá mobilizar gestores e professores para a importância de se promover a igualdade de acesso ao conhecimento acadêmico para todos os alunos, indistintamente. 49 4.5 Educação de surdos e novos recursos tecnológicos: a tecnologia assistiva. A evolução tecnológica dentre tantos aspectos proporcionou tornar a vida mais fácil. Cotidianamente usamos de ferramentas que facilitam nossas atividades como o uso de talheres, computadores, controle remoto, relógio, telefones celulares, enfim, uma gama de recursos que já fazem parte da nossa rotina e facilitam nosso desempenho em determinadas ações. Nas últimas décadas do século XX, a discussão acerca da acessibilidade passou a fazer parte das temáticas relacionadas às pessoas com deficiência, fazendo parte do rol de reivindicações feitas pelas pessoas que apresentam algum tipo de deficiência. Na década de 80 as discussões eram relativas às barreiras arquitetônicas, e o preconceito. Na década de 90, as atenções voltou-se para as barreiras de comunicação e transporte, incluindo aí outro universo de sujeitos, que vão para além daqueles que apresentam limitações motoras. Essas discussões e estudos passam então a construir uma nova racionalidade que ultrapassa a preocupação com a eliminação de obstáculos voltando-se agora à garantia de acesso, instituindo dessa forma e consequentemente um novo campo do saber, a Tecnologia Asssitiva. 50 O termo Tecnologia Assistiva é utilizado para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e conseqüentemente promover vida independente e inclusão. Para Raiça (2008, p. 10), A educação inclusiva, dentro do novo paradigma tecnológico, requer profissionais reflexivos (...) atualizados acerca dos mecanismos culturais e tecnológicos que se encontram em constante renovação. A inclusão tem sido discutida amplamente nas últimas décadas, porém estamos efetivamente promovendo a inclusão? Nessa unidade procuro problematizar aspectos relativos à inclusão de alunos surdos, mais especificamente quanto à acessibilidade dessas pessoas ao conhecimento. Atualmente abordagens de novas pesquisas e novos campos do saber oportunizam o desenvolvimento de artefatos tanto em formato impresso como digital de materiais com vistas à promoção do letramento das pessoas surdas, porém sabemos que essas iniciativas ainda são incipientes. Esses artefatos tecnológicos tem tornadoa vida dos surdos mais fácil, ampliando suas formas de comunicação como o mundo. No que se refere às pessoas surdas poderíamos citar auxílios que incluem vários equipamentos (infravermelho, FM), aparelhos para surdez, telefones com teclado – teletipo (TTY), sistemas com alerta táctil-visual, e softwares disponibilizados em língua de sinais. O acesso a artefatos digitais em língua de sinais além de oportunizar a leitura na língua que os surdos têm aquisição de forma natural, oportunizará a leitura de mundo de forma cidadã e autônoma. Estas condições se constituem como premissas básicas para construirmos efetivas práticas de inclusão social. 4.6 Sala de Recursos para Alunos Surdos Assegurar para que todos os alunos independentemente de suas necessidades especiais tenham oportunidades homogêneas, educação de qualidade, é um processo importante e que sempre necessitará 51 de adaptações e melhorias para incluir o aluno na escola. Mas, além de incluir, a política educacional também deve garantir que o indivíduo ao entrar na escola, permaneça. Trabalhar condições que o sujeito com algum tipo de deficiência ou não, permaneça em um ambiente escolar de acordo com a realidade de sua vida e com suas necessidades educacionais compreendidas e atendidas para seu desenvolvimento. O Atendimento Educacional Especializado, surgiu para completar o ensino à educação comum, para atender crianças diagnosticadas com algum tipo ou grau de deficiência e especificidade. Também se diferencia pelo objetivo de criar propostas e alternativas para mudar desigualdades existentes entre alunos especiais e alunos ditos „normais para que todos tenham o nível de aprendizado mais próximo possível sem excluir e julgar. O atendimento para alunos com deficiência auditiva e outras deficiências, recebem atendimento em horários diferenciados, portanto, oposto ao horário da sala de ensino regular. O atendimento traz ao aluno a oportunidade de aprender mais assim como os outros alunos da sala regular. Ao se tratar especificamente ao sujeito com deficiência auditiva ou surdo nas salas de atendimento especializado, Mirlene Damázio (2007, p. 26), afirma que: O planejamento do Atendimento Educacional Especializado é elaborado e desenvolvido conjuntamente pelos professores que ministram aulas de Libras, professor de classe comum e professor de Língua Portuguesa para pessoas com surdez. O planejamento coletivo inicia-se com a definição do conteúdo curricular, o que implica que os professores pesquisem sobre o assunto a ser ensinado. Em seguida, os professores elaboram o plano de ensino. Eles preparam também os cadernos de estudos do aluno, nos quais os conteúdos são inter-relacionados. A interação desses profissionais para obterem um bom planejamento é primordial para a aprendizagem do aluno surdo, pois, na sala de aula comum mesmo com um intérprete de sinais e mesmo que o professor regente entenda Libras, língua portuguesa é um desafio constante, pois, o som, as letras existentes na língua dificilmente são compreendidas pelo surdo. Por isso a importância de uma espécie de “reforço” na sala de recursos principalmente da língua portuguesa. “A organização didática desse espaço de ensino implica o uso de muitas imagens visuais e de todo tipo de referências que possam colaborar para o aprendizado dos conteúdos curriculares em estudo, na sala de aula comum.” (DAMÁZIO, 2007, p. 26) 52 4.7 Atividades para Salas de Recursos Seguem algumas atividades que pode- se desenvolver em Salas de Recursos para aluno com surdez. Lembrando que para pensar na educação hoje é necessário perceber as mudanças de comportamento que as tecnologias imprimiram na vida humana. É inquestionável que essas condições proporcionaram novas formas dos homens agirem entre si, e consequentemente nas formas de educar, exigindo uma reorganização do espaço escolar. Alguns elementos são fundamentais para essa conquista, podemos citar o uso de recursos didático-pedagógicos compatíveis com os recursos tecnológicos que dispomos hoje, um projeto pedagógico reflexivo sobre a ação pedagógica, o papel do professor e sua qualificação, o papel do aluno, e o uso das de novas Tecnologias na Educação da Informação e da Comunicação na Educação – TIC‟s. Ao entender que essa disciplina Atendimento Educacional Especializado para alunos, busca-se discutir o acesso aos conteúdos curriculares na Aprendizagem da Língua Portuguesa. Reconhece-se a importância que a aprendizagem da leitura e escrita têm para a criança, não somente no transcurso de sua vida escolar, mas também em sua vida futura, como adulto dentro de uma sociedade na qual a linguagem escrita ocupa um lugar importante. 53 A leitura e a escrita estão diretamente relacionadas com o mundo circundante. Entendemos que não é importante, apenas, o que se aprende num contexto de leitura e escrita, mas como usamos esses conhecimentos em nossas práticas sociais, em nosso contexto, em nossas vidas. Considerando que o que nos rodeia é um mundo todo escrito, e não lê- lo é também não conhecê-lo, não revelá-lo, suscita refletirmos sobre um novo conceito, o letramento. Para Soarez ( apud Botelho 1998:63): Letramento ultrapassa, pois, habilidades de codificação e decodificação de signos escritos e pressupõe uso da leitura e da escrita, comportamentos centrais no mundo atual. É dependente de condições, entre elas, escolarização real e efetiva e disponibilidade de material de leitura. Percebe-se que a relação direta do letramento21 com a construção do sujeito está diretamente ligada a uma natureza política, entendendo que o uso da leitura e da escrita possa gerar uma transformação social e individual no sujeito, consciente de sua realidade. Nesse sentido justifica-se refletir sobre o letramento na educação dos surdos. Sabemos que é de conhecimento comum, e quase impossível que alguém se oponha a idéia de que todo o cidadão têm direito de participar da vida política, social e econômica da nação, e sabemos o quanto ao longo da história dos tempos a instituição escola têm ao menos teoricamente servido para a formação de cidadania das pessoas. Fato é que a realidade nos mostra que esta situação não ocorre assim tão naturalmente. Tanto o fracasso, como o sucesso têm sido vivido, promovendo situações de inclusão e de exclusão social. Freire (1998:48) comenta: se o fracasso existe, ele tem que ser enfrentado a partir de uma proposta nova calcada nas reais necessidades do aprendiz surdo, para quem a primeira língua é a 54 Língua de Sinais e para quem a Língua Portuguesa é uma segunda língua com uma função social determinada. Sabemos que as dificuldades encontradas vão desde a educação infantil até as últimas séries do ensino médio, em vários temas do currículo, porém centrarei minha análise na aprendizagem da língua portuguesa, entendendo que essa se consolida numa necessidade e um grande desafio para o professor atualmente. Como ensinar uma língua que não é a língua materna ? Quais as estratégias, metodologias, abordagens usadas para o ensino de segunda língua ? Quais os requisitos necessários para debruçar-se nesse ensino e nessa aprendizagem ? Que habilidades o professor deve ter, e quais os requisitos para alunos surdos compreenderem e virem a dominar a língua portuguesa, na modalidade escrita, considerando que a aprendizagem de uma segunda língua não se dá de forma “natural”, ou seja requer uma espaço formal de educação, com professores habilitados para essa função, conscientes de sua ação, no mínino conhecedores da Libras, e de preferência acompanhados de educadores surdos, dominantes da Libras, além disso há uma gama de aspectos que envolvem um processo de ensino e aprendizagemde qualidade para esse fim. Nesse sentido apontamos questões que se tornam relevantes quanto as bases teóricas: Qual o nosso entendimento sobre os processo de aprendizagem? E uma segunda questão refere-se a nossa visão de linguagem. Svartholm (1998:39), colabora afirmando que: o conhecimento sobre como realmente funciona o desenvolvimento lingüístico e o conhecimento das condições para o sucesso na tarefa de adquirir linguagem devem ser os pontos de partida para qualquer pessoa responsável pela educação de surdos. 55 Muitas são as indagações acerca da caminhada vivida pelos alunos surdos, na aprendizagem da língua portuguesa. Segundo Assis-Peterson (1998:31): ... as diferentes configurações que as teorias de aquisição de segunda língua tomam, de uma certa maneira, refletem esses dois paradigmas. De um lado, há a corrente que procura estudar o código lingüístico ou a natureza formal da linguagem, seja para revelar os processos cognitivos da aquisição ou os universais lingüísticos. De outro lado, há a corrente que procura explorar a natureza social da linguagem, isto é, o conhecimento aliado a funções sociais. No livro, Ensino da Língua Portuguesa para Surdos, Salles et al (2004), aponta algumas vertentes de abordagens utilizadas no ensino de segunda língua, entre elas: Abordagens Estruturalista, Abordagem Funcionalista e a outra vertente chamada Abordagem interacionista. 56 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil: gostosuras e bobices. SP: Scipione, 1989. ALMEIDA, Fernanda Lopes de. A curiosidade premiada. 10a ed. SP: Ática, 1985. ALMEIDA, Machado de, Damiana. et all. Conto de Histórias na Educação dos Surdos. ALMEIDA. Elisabeth Oliveira Crepaldi de. Leitura e Surdez. Um estudo com adultos não oralizados. Rio de Janeiro. REVINTER ALVES, Denise de Oliveira. Sala de recursos multifuncionais: espaços para atendimento educacional especializado| Marlene de Oliveira Gotti, Claudia Maffini Griboski, Claudia Pereira Dutra – Brasília: Ministério de Educação, Secretaria de Educação Especial,2006. 36p. ASSIS-PETERSON, A. 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