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Certa vez, li que a doutrina cristã sobre Deus tem sido, nos
últimos tempos, negligenciada. Contudo, desde o Concílio
de Niceia (325 d.C.), a igreja tem afirmado sua crença em
um único Deus: Pai, Filho e Espírito. O testemunho da igreja
em nossos dias nos faz questionar a clareza deste conceito
para a comunidade que o professa. Este livro chega em boa
hora! Ele nos convida a uma profunda revisão de nossa
compreensão confessional e do consequente compromisso
de vida. Recomendo, com entusiasmo, a leitura desta obra
escrita por autores que amam o trino Deus e a igreja
brasileira.
Ziel J. O. Machado
Vice-reitor do Seminário Servo de Cristo, São Paulo 
Pastor da Igreja Metodista Livre, Concílio Nikkei, São Paulo
Piedade, erudição e praticidade. O tema tão complexo que é
a Trindade foi comunicado de uma forma prática, cheio de
inspiração não somente para a vida eclesiástica, mas
também para a vida pessoal. Sendo prático e inspirador
como é, o texto será de ajuda imensurável para a igreja
brasileira e seus líderes, que buscam trazer para a realidade
do nosso país a compreensão de como o papel da Trindade
pode e precisa ser real e eficiente para o que a igreja é e
faz. 
Lisânias Moura
Pastor Sênior, Igreja Batista do Morumbi, São Paulo
Atualmente, o desenvolvimento teológico global necessita
de vozes dos países em desenvolvimento. A Trindade, a
Igreja e a Realidade Social oferece o microfone para os
brasileiros falarem sobre distintas aplicações trinitárias a
partir do seu contexto latino-americano. Ao ler esta obra
coletiva, aprecie a variedade de vozes que, sem dúvida,
enriquecerão suas próprias reflexões teológicas.
Michael A. Ortiz
Cátedra de Missiologia e Estudos Interculturais, Dallas Theological Seminary 
Diretor Internacional do ICETE (International Council for 
Evangelical Theological Education)
Os autores encontraram o jeito certeiro e suave de falar
sobre um tema geralmente visto como incompreensível.
Entender a Trindade é entender o fundamento da fé cristã.
Ao converterem textos bíblicos e termos teológicos
complicados em matérias fáceis de serem entendidas, os
escritores nos ensinam o jeito bíblico de viver e de refletir a
imagem de Deus, o nosso Criador e Pai.
Jonas Neves de Souza
Pastor Presidente, Primeira Igreja Batista do Povo, São Paulo
A Trindade, a Igreja e a Realidade Social  mostra o efeito
inevitável do Deus trino na família, na igreja, na equipe
pastoral, entre outros. A qualidade é alta e consistente ao
longo deste livro e serve como um recurso valioso num
campo que mostra uma escassez de contribuições
acadêmicas. A Trindade promove unidade no meio cristão
de várias maneiras. Dessa forma, já obtive várias ideias
para sermões a partir desta obra!
Joseph Arthur
Diretor do Seminário Batista Logos, São Paulo
A Trindade, a Igreja e a Realidade Social, organizado pelos
professores J. Scott Horrell e Murilo R. Melo, traz o tema da
Trindade para o cenário da reflexão teológica no Brasil, tão
necessário diante das mais variadas facetas das discussões
teológicas parcializadas num Deus dividido em capítulos,
ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito Santo. Este
texto traz de volta à nossa mente o pensar a teologia em
uma perspectiva trinitariocêntrica, o que promoverá um
maior aprofundamento na compreensão da criação,
restauração e reconstrução do ser humano e do mundo
criado por Deus. Esperamos que o leitor sinta-se compelido
a ler cada capítulo para o enriquecimento de sua
compreensão sobre a vida.
Lourenço Stelio Rega
Teólogo, autor, eticista 
Diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo
Este livro vem colmatar uma grande lacuna e será de
extrema relevância para as igrejas nos países de expressão
portuguesa.
Isaias Uaene
Ex-presidente da Convenção Batista de Moçambique 
Diretor fundador do Centro para o Desenvolvimento 
de Liderança (CDL) em Maputo
É um grande prazer pessoal ver surgir mais um livro do dr.
Scott Horrell junto com o dr. Murilo Melo e uma série de
acadêmicos brasileiros. Esta abrangente coleção de artigos
trata sobre a Trindade e sua relação com a apologética, a
igreja, a sociedade, a juventude, o sexo e o casamento, as
falsas doutrinas, os credos cristãos clássicos e, acima de
tudo, com o conhecimento e a adoração do Deus vivo e
verdadeiro em nossa vida pessoal. Não há fim para a
necessidade de novas instruções e aplicações expressas da
sã doutrina cristã. Drs. Horrell e Melo, obrigado por
pastorearem e organizarem este esplêndido livro.
Alan Pieratt
Ex-presidente de Edições Vida Nova, São Paulo 
Diretor fundador de Children’s Relief International, Dallas, Texas, EUA
É com grande alegria e expectativa que recomendo o livro A
Trindade, a Igreja e a Realidade Social. Alegria por vários
motivos. O primeiro é que tenho o privilégio de conhecer e
ter desenvolvido um relacionamento de amizade com vários
autores. Ler um material produzido por alguém com quem
você tem caminhado e em quem tem observado as marcas
e o aroma de Cristo, torna o exercício mais profundo e
proveitoso. Alegria também pelo próprio tema. Há mais de
dez anos, eu tenho estudado sobre a Trindade. A realidade
de nosso Deus trino, em eterna e harmoniosa comunhão,
tem orientado minha compreensão sobre igreja, família e
equipes ministeriais. Percebi em minha leitura alguns
conceitos e ideias que eu mesmo havia perscrutado, mas
que neste livro foram desenvolvidos com muita
propriedade. Alegria, por fim, por ver um movimento de
produção teológica que ocorre no “chão de fábrica”, ou seja,
por homens que têm se dedicado ao ministério pessoal e no
contexto de igrejas e relacionamentos. Os capítulos trazem
a doutrina da Trindade à realidade do dia a dia, seja na
igreja, seja ao recém-convertido, seja no contexto de
família. Tudo isso me leva a um profundo senso de
expectativa. Expectativa ao saborear a produção de tantos
novos teólogos brasileiros. Expectativa de ver o tema da
Trindade trazido à prática, à luta e às tensões do ministério.
Pessoalmente, sonho em ver a doutrina da Trindade ser
reconduzida a uma posição central naquilo que fazemos em
ministério, em como conduzimos nossas igrejas e
instituições e no modo como vivemos nossa relação com
Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Se você compartilha desta
expectativa, este é um livro para colocar no topo de sua
pilha.
Daniel Lima
Ex-deão acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida 
Professor e Pastor da Convenção Batista 
Diretor fundador do FOCO – Formação Contínua
Copyright © 2020 por J. Scott Horrell e Murilo R. Melo
Edição original por Chamada. Todos os direitos reservados.
1ª Edição – Fevereiro/2021
É proibida a reprodução desta obra em quaisquer meios sem a expressa
permissão da editora, salvo para breves citações com a indicação da fonte.
Editor: Sebastian Steiger
Revisão: Débora Steiger e João Rodrigues Ferreira
Capa: Filipe Spitzer Landrino e Rômulo Spier do Nascimento
Diagramação: Rômulo Spier do Nascimento
Conversão para ePub: SCALT Soluções Editoriais
Salvo indicação em contrário, todas as passagens da Escritura foram extraídas
da Tradução de João Ferreira de Almeida – 2ª Versão Revista e Atualizada®,
copyright © 1993 por Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os direitos reservados.
Passagens da Escritura marcadas como NVI foram extraídas da Bíblia Sagrada,
Nova Versão Internacional, NVI®, copyright © 1993, 2000, 2011 por Biblica, Inc.
Todos os direitos reservados mundialmente.
Passagens da Escritura marcadas como ARC foram extraídas da Almeida Revista
e Corrigida (ARC), copyright © 2009 por Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os
direitos reservados.
Obra Missionária Chamada da Meia-Noite
Rua Erechim, 978 – Bairro Nonoai
90830-000 – Porto Alegre – RS
Fone: 0300 789 5152
www.chamada.com.br
pedidos@chamada.com.br
 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Lumos Assessoria Editorial - Bibliotecária: Priscila Pena Machado CRB-7/6971
T833 A Trindade, a igreja e arealidade social: como o fato de Deus ser
trino impacta a vida cristã / editores J. Scott Horrell e Murilo R.
Melo. – 1. ed. – Porto Alegre : 
Chamada, 2021.
320 p. ; 21 cm.
Inclui bibliografia. 
ISBN 978-65-89505-03-7
1. Santíssima Trindade. 2. Vida cristã - Doutrina bíblica. 3.
Teologia. I. Horrel, J. Scott. II. Melo, Murilo R. III. Título.
 
CDD 231.044
Dedicamos este livro a uma nova geração
de líderes evangélicos e a todos que
querem se aprofundar no entendimento
do Deus trino. Que nossas igrejas e
nossos seminários teológicos sejam
fortalecidos na fé que uma vez por todas
foi entregue aos santos, firmados na
verdade bíblica e comprometidos em
proclamar e viver o evangelho de Jesus
Cristo.
SUMÁRIO
COLABORADORES
INTRODUÇÃO
1. BASE FIRME:
A TRINDADE A PARTIR DAS ESCRITURAS
J. SCOTT HORRELL
2. PENSAR DE TUDO:
UMA COSMOVISÃO TRINITÁRIA
MURILO R. MELO
3. A TRINDADE E A IMAGO DEI:
O QUE É O SER HUMANO?
WINNETOU KEPLER
4. A TRINDADE E A SALVAÇÃO:
AS BOAS NOVAS DO DEUS TRINO
LIBNIS SILVA
5. A TRINDADE E OS JOVENS:
AUTOCONCEITO, INTIMIDADE E SEXO
CARLOS FELIPE OLIVEIRA DO NASCIMENTO
6. DICAS PARA UM CASAMENTO E UMA FAMÍLIA SAUDÁVEIS:
A TRINDADE COMO PRINCÍPIO FORMADOR, PARADIGMÁTICO E ORIENTADOR DA
FAMÍLIA
CREUSE P. SANTOS
7. A TRINDADE E O CORPO DE CRISTO:
APRECIANDO UNIDADE E DIVERSIDADE
IVIS COSTA FERNANDES
8. A TRINDADE E A IGREJA LOCAL:
ASPECTOS DA IMAGEM DO DEUS TRINO COMO MODELO PARA OS
RELACIONAMENTOS INTERNOS DA LIDERANÇA NA IGREJA LOCAL
MARCELO DIAS
9. AO QUE DEUS NOS CHAMA?
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE À LUZ DA DOUTRINA DA TRINDADE
GARY WAYNE PARKER
10. SEPARANDO AS OVELHAS DAS CABRAS:
COMO LIDAR COM OS PENTECOSTAIS “JESUS SÓ” (UNICISTAS)?
ARI LANGRAFE JR.
11. O PORQUÊ DAS MISSÕES:
COMO A TRINDADE INFORMA A MISSÃO?
ERIOMAR HELDIR DE FREITAS MAIA
12. A PERSPECTIVA TRINITÁRIA:
UMA APOLOGÉTICA AO VAZIO DO HUMANISMO SECULAR
ARTHUR VINICIUS GOTTLIEB LUPION
13. A TRINDADE E ALÁ:
DESAFIOS NO DIÁLOGO CRISTÃO COM OS MUÇULMANOS
PAULO C. SANT’ANNA E JOSH MILANO
14. OS CREDOS TRINITÁRIOS E O PENSAMENTO CERTO:
COMO OS CREDOS PODEM FUNCIONAR NA IGREJA
CÉSAR ORLANDO MENDOZA RAMÍREZ
15. AMAR MELHOR:
APROFUNDANDO A ADORAÇÃO AO DEUS PAI, DEUS FILHO E DEUS ESPÍRITO
SANTO
CIDRAC FERREIRA FONTES
OBSERVAÇÕES FINAIS
J. SCOTT HORRELL E MURILO R. MELO
NOTAS
BIBLIOGRAFIA
ÍNDICE DE REFERÊNCIAS BÍBLICAS
COLABORADORES
Ari Langrafe Junior é pastor da Igreja Batista Calvário, em
Pinhais/PR. Graduou-se em ciências biológicas na
Universidade Federal do Paraná (UFPR) e é mestre e
doutorando em fisiologia pela mesma universidade. Estuda
resposta ao estresse e burnout laboral e atualmente faz
parte da equipe de cientistas do laboratório de fisiologia da
mente na UFPR. Em seus estudos teológicos, fez a
graduação pelo Seminário Batista Regular do Sul e é mestre
em exegese e exposição do Antigo Testamento pelo
Seminário Bíblico Palavra da Vida. Está terminando o
doutorado em ministério pelo Dallas Theological Seminary. É
casado com Carolyn e tem quatro filhos.
Arthur Vinicius Gottlieb Lupion é diretor da
TeachBeyond Uruguay, com sede em Ecilda Paullier,
Uruguai. Também é coordenador acadêmico do FOCO,
movimento de apoio e formação contínua de pastores
gaúchos. Formado em administração de empresas pelo
Centro Universitário Internacional e em teologia pelo
Seminário Teológico de Gramado. Pós-graduado em
administração de empresas pela Faculdade Getúlio Vargas,
mestre em ministérios formativos pelo Seminário Bíblico
Palavra da Vida e doutorando em Leadership Studies pelo
Dallas Theological Seminary. É casado e pai de um filho.
Carlos Felipe Oliveira do Nascimento, o “Café”, é pastor
na Igreja Batista do Itaim, na Grande São Paulo, e professor
de teologia. É graduado em comunicação social pela Escola
Superior de Propaganda e Marketing e em teologia pelo
Seminário Bíblico Palavra da Vida. É mestre em liderança
pastoral pela Faculdade Teológica Sul-Americana e em
pregação pelo Mackenzie/Andrew Jumper. Atualmente, faz
doutorado em Leadership Studies, no Dallas Theological
Seminary.
César Orlando Mendoza Ramírez é pastor da Igreja
Presbiteriana Independente do Rio Pequeno, na cidade de
São Paulo. Trabalhou na plantação de igrejas em Passo
Fundo/RS. Bacharel em teologia pelo Seminário Teológico de
São Paulo, pós-graduado em plantação e revitalização de
igrejas pelo Seminário do Sul de Campinas, mestre em
divindade pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e
doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary.
É casado e pai de duas filhas.
Cidrac Ferreira Fontes é pastor da Assembleia de Deus
(ES) há 23 anos. Formado em teologia pelo Seminário
Teológico Batista do Espírito Santo, concluiu seu mestrado
em teologia e exposição bíblica no Seminário Bíblico Palavra
da Vida e é doutorando em ministério no Dallas Theological
Seminary. Leciona grego e Novo Testamento em seminários
do Espírito Santo. Casado com Tânia Fontes desde 1990.
Creuse Pereira Sousa Santos é pastor da Primeira Igreja
Batista em Barueri, na Grande São Paulo, há dez anos.
Professor do Seminário Bíblico Palavra da Vida na área de
Antigo Testamento e ministério pastoral. Professor
convidado no Seminário Batista de Cuba Oriental.
Doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary.
Bacharel em teologia com ênfase pastoral e mestre em
exposição do Antigo Testamento pelo Seminário Bíblico
Palavra da Vida, bacharel em teologia pela Faculdade
Teológica Batista de São Paulo e pós-graduado em
aconselhamento bíblico pelo Núcleo de Treinamento e
Recursos em Aconselhamento. Casado e pai de dois filhos.
Eriomar Heldir de Freitas Maia é missionário da Brazil
Gospel Fellowship Mission (BGFM) no nordeste do Brasil, em
Aracaju/SE. Bacharel em ciências pastorais pelo Seminário e
Instituto Bíblico Maranata (SIBIMA), mestre em ministério
pastoral pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e
doutorando em ministério com ênfase em liderança no
Dallas Theological Seminary. Serviu à igreja brasileira como
pastor por 20 anos. É professor convidado para lecionar e
treinar líderes no Brasil e em Moçambique e convidado para
conferências sobre missões e membro da diretoria-
executiva da BGFM do Brasil. É casado com Daniele Maia
desde 1995, com quem tem dois filhos.
Gary Wayne Parker é cofundador e atual diretor regional
do Palavra da Vida Norte, onde tem servido por mais de 25
anos como professor e conferencista. Bacharel em teologia
pelo Calvary Bible College em Kansas City, Missouri, mestre
em aconselhamento bíblico pelo Master’s College, Santa
Clarita, Califórnia, e doutorando em ministério pelo Dallas
Theological Seminary. Casado, tem três filhos.
Ivis Costa Fernandes é pastor de educação e grupos
pequenos na Segunda Igreja Batista de Macaé/RJ e professor
no Curso de Aperfeiçoamento Teológico Legado. Graduado e
pós-graduado em direito pela Pontifícia Universidade
Católica de Campinas, bacharel em teologia pelo Seminário
Bíblico Palavra da Vida, pós-graduado em aconselhamento
pelo Southeastern Baptist Theological Seminary, mestre em
aconselhamento pelo Centro Presbiteriano de Pós-
Graduação Andrew Jumper e doutorando no Dallas
Theological Seminary. Casado, tem três filhos e dois netos.
J. Scott Horrell é professor de estudos teológicos no Dallas
Theological Seminary. Formado na Seattle Pacific University,
Dallas Theological Seminary (Th.M., Th.D.), Visiting Scholar
no Tyndale House, Cambridge. Missionário com WorldTeam
(Aliança Bíblica) em Porto Alegre e São Paulo por 18 anos,
pastor, titular da teologia e coordenador do mestrado na
Faculdade Teológica Batista de São Paulo, professor no
Seminário Teológico Servo de Cristo, no Seminário Bíblico
Palavra da Vida e em várias escolas pelo mundo. Autor de
vários livros e artigos. Casado com Ruth, tem duas filhas e
oito netos.
Josh Milano é  um jovem paulista, casado desde 2015 e
formado no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Desde os 15
anos de idade, seu desejoé viver a vida de Cristo entre os
povos não alcançados. Ele serviu à Missão Evangélica Árabe
do Brasil (MEAB) atuando no treinamento de pessoas que
compartilham Jesus com muçulmanos. Ele e sua esposa
estão indo morar na Ásia, em um país de difícil acesso ao
evangelho.
Libnis Nascimento da Silva é missionário da Brazil
Gospel Fellowship Mission (BGFM) no nordeste do Brasil, em
Maceió/AL, onde também é pastor na Igreja Bíblica Batista
Esperança. Bacharel em teologia com ênfase em educação
cristã e bacharel em teologia com ênfase em ciências
pastorais pelo Seminário e Instituto Bíblico Maranata
(SIBIMA), pós-graduado em teologia bíblia (M.A.) pela
mesma instituição e mestrando em ministério pelo
Seminário Bíblico Palavra da Vida. É professor do SIBIMA
desde 2013. Cursa atualmente o doutorado em ministério
pelo Dallas Theological Seminary. Casado com Anelyse, tem
três filhos.
Marcelo Dias é bacharel em teologia (curso livre) pelo
Seminário Bíblico Palavra da Vida, bacharel em teologia
também pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo,
mestre em teologia e exposição bíblica (Th.M.) com ênfase
no Novo Testamento pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida
e doutorando em ministério pelo Dallas Theological
Seminary. Missionário da Organização Palavra da Vida desde
2004, onde atua como professor de métodos de estudo
bíblico, teologia bíblica do Novo Testamento, grego e
exegese do Novo Testamento. É casado com Ana e tem uma
filha.
Murilo Rezende Melo é mestre em teologia pelo Dallas
Theological Seminary com elevada distinção, onde cursa
Ph.D. em teologia, além de médico patologista clínico, com
doutorado pela Santa Casa de São Paulo. Professor-visitante
do Centro para Desenvolvimento de Lideranças (CDL) em
Moçambique e assistente de ensino em trinitarianismo no
Dallas Theological Seminary. Lecionou medicina molecular
por dez anos na Faculdade de Ciências Médicas de São
Paulo, tendo sido diretor de várias entidades médicas e
publicado mais de 60 trabalhos na área. Casado com Keli e
pai de dois filhos.
Paulo César Sant’Anna é coordenador da especialização
de aconselhamento bíblico no Seminário Bíblico Palavra da
Vida (SBPV), em Atibaia/SP. É bacharel em teologia pelo
Seminário Bíblico Palavra da Vida, mestre em divindade em
aconselhamento bíblico pelo Southeastern Baptist
Theological Seminary em Wake Forest, Carolina do Norte, e
doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary.
Missionário da Organização Palavra da Vida desde 1990,
coordena o programa de alunos casados do SBPV e leciona
aulas de aconselhamento, ética pessoal e lar cristão.
Casado, tem dois filhos.
Winnetou Kepler é pastor da Igreja Evangélica Livre
Comunidade Bom Pastor, em Sorocaba/SP, desde 2004,
igreja onde iniciou o seu ministério pastoral. É bacharel em
teologia com ênfase em educação cristã e mestre em
ministério, ambos pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida,
em Atibaia/SP. Fez convalidação do bacharelado em teologia
pela Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina/PR.
Cursa atualmente o doutorado em ministério pelo Dallas
Theological Seminary. É casado com Noemi.
INTRODUÇÃO
Tarde demais eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde
demais eu te amei! E eis que tu estavas dentro de mim,
enquanto eu estava fora; era lá fora que te procurava. Criatura
deformada, mergulhei de cabeça nesses objetos de beleza que
tu criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Elas
me detiveram longe de ti, essas coisas belas que, se não
estivessem em ti, simplesmente não existiriam.1
Como cristãos, cremos e proclamamos que o Deus da Bíblia
é a Santa Trindade – um só Deus em três pessoas: o Pai, o
Filho, e o Espírito Santo. Mas para a maioria, incluindo nós
evangélicos, a doutrina da Trindade parece abstrata,
mística, tradicional, pouco viva e ainda menos prática.
Líderes, obreiros e até mesmo pastores têm às vezes
dúvidas e escondem suas próprias incertezas. Suspeitamos
de que nossa confissão trinitária pública não seja bem
firmada, nem nas Escrituras nem em nossos corações.
Contudo, as nossas dúvidas e incertezas não
necessariamente significam descrença ou negação.
Declaramos que Deus, o Deus trino, é o absoluto de toda a
existência. Pela vontade do Pai, a atuação do Verbo e o
poder vivificador do Espírito, tudo foi criado e tudo é
sustentado. Mas não sabemos como a doutrina da Trindade
informa o nosso viver. Os cânticos e as orações dos nossos
cultos têm o fim de adorar esse Deus, mas raramente
juntamos a confissão trinitária – esta pedra angular da fé
histórica – com a maneira que entendemos o resto da vida
cristã e o mundo ao nosso redor.
Pouco depois de escrever sua autobiografia, as Confissões,
em 397 d.C., Agostinho começou o que ele pretendia ser a
obra mais importante da sua vida, A Trindade. Sofrendo
interrupções, levou mais de 20 anos para completar o
trabalho que muitos esperavam. O livro virou o tratamento
mais conhecido sobre a doutrina da Trindade em toda a
história cristã.
Embora tivesse uma mãe crente (Mônica), o inteligente
jovem Agostinho havia enveredado por uma vida
decadente, e por 15 anos vivia com uma amante e um filho.
Durante esse tempo, ele ensinou filosofia em Cartago, Roma
e finalmente Milão, quando, sob a influência do famoso
pregador Ambrósio, foi dramaticamente convertido.
Agostinho não esperava achar a verdade na igreja. A
transparência dele nas Confissões foi chocante para os
leitores, não por causa de detalhes vívidos, mas devido à
profunda honestidade quanto a seus motivos, sua hipocrisia
e depravação.
Como vemos na citação acima, todas as belezas da vida
que o jovem Agostinho buscava, e que não conseguiam
satisfazê-lo, foram criadas pela Suprema Beleza. “Fora de si
mesmo”, Agostinho procurava o belo nos prazeres da
criação, mas sem o Criador. Sem Deus, no entanto,
nenhuma coisa bela ou agradável viria a existir. Descobriu,
pela graça soberana, que somente em Deus, o Deus trino,
há a chave e a estrutura da vida. O Senhor Deus deseja que
nós o amemos e o honremos, mas também que possamos
descobrir que nele há tudo o mais. O belo, o bem e o
verdadeiro estão no Deus trino.
Eu (Murilo) passei por experiência semelhante. Já um
médico, sem conhecer a Deus, tentei me encher com os
prazeres carnais. Depois de um dia extravagante, “perfeito”
aos olhos de um jovem sem Deus, senti o maior vazio da
minha vida. Se aquilo era tudo o que a vida podia oferecer,
viver não fazia sentido. O gosto do cano daquele .38 me
vem à mente. Poucos meses depois, por meio de uma moça
linda e firme na fé, que queria honrar a Deus, comecei a ler
a Bíblia – para achar algum “furo” nas Escrituras que me
permitisse um namoro “normal”. Mas Deus tinha outros
planos. Ao ler o primeiro livro que me propus, o evangelho
de João, senti como se Deus me convidasse a dar um passo
de fé sobre o abismo invisível, como no filme Indiana Jones
e a Última Cruzada. Em lágrimas, sozinho, me coloquei de
joelhos diante do Deus que busca o perdido e entreguei
minha vida a ele. Tudo na minha vida mudou. Alguns meses
depois, casei-me com ela, Keli, que me encoraja há 20 anos.
Este livro é uma coletânea de ensaios sobre o significado
da confissão trinitária para as nossas vidas, nossas igrejas e
a vida ao nosso redor. John Stott definiu a teologia
sistemática como “a busca séria pelo verdadeiro
conhecimento de Deus, realizada em resposta à sua
autorrevelação firmada nas Escrituras, iluminada pela
tradição cristã, manifestando uma coerência racional
interna, se desdobrando em conduta ética, ressonando com
o mundo contemporâneo e preocupada em promover a
glória de Deus”.2 Nosso livro não é uma teologia sistemática
formal. Mas, aproveitando vários métodos, os ensaios se
esforçam para aplicar verdades bíblico-históricas sobre a
Trindade no contexto brasileiro, tudo para a glória do
Senhor.
O propósito do livro é: a doutrina da Trindade (base
fundamental da fé cristã) nos orienta em diversos aspectosda vida, seja como seres humanos ao nível do indivíduo ou
da igreja local, seja como jovens, casais e família, ou na
missão de alcançar não cristãos. A Trindade se define da
seguinte forma: o único e verdadeiro Deus eternamente
existe em três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –,
um na sua essência, iguais na sua glória e distintas nas suas
relações.
Os autores são pastores, professores e missionários
brasileiros, quase todos cursando o doutorado. A maioria
representa uma nova geração de pensadores no Brasil,
junto com uma nova onda de mestres e alunos
amadurecendo na fé evangélica. Um alvo do livro é
incentivar outros para continuarem seus estudos teológicos
no Brasil ou em qualquer lugar. Nem tudo ao nível de pós-
graduação é abstrato e irrelevante à vida ministerial. Ao
contrário, aprofundar-se na riqueza dos estudos clássicos e
modernos realmente abre portas para ministrar melhor em
quaisquer que sejam as circunstâncias. C. S. Lewis insistiu
em que o verdadeiro erudito é a pessoa capaz de explicar
as coisas complicadas de forma simples para que até uma
criança possa entender.
Por outro lado, admitimos que a doutrina da Trindade é um
mistério, baseada na Bíblia sim, mas além da nossa
compreensão completa – o Infinito diante do finito. O Credo
de Niceia (325 d.C.), ou tecnicamente o Credo Niceno-
Constantinopolitano (381 d.C.), é o quadro (ou caixa) que
define a Trindade. As doutrinas fora do quadro são
subtrinitárias, histórica e justamente rejeitadas (veja os
capítulos sobre os unicistas e muçulmanos). Mas dentro da
caixa de Niceia, pela longa história do cristianismo, há
perspectivas que complementam umas às outras. Algumas
perspectivas valorizam mais a unidade da essência, com as
três pessoas denominadas “subsistências” (a perspectiva
psicológica). Outras abordam mais os relacionamentos das
três pessoas e confessam também a unidade da essência
divina ou como procedência do Pai (a perspectiva
relacional). Dentro do quadro de Niceia, as duas
perspectivas complementam uma à outra – refletidas nas
diversas analogias de Agostinho em A Trindade.
Especialmente relevante para nós no século XXI, nosso
volume aprecia mais a perspectiva relacional, porém
sempre na unidade essencial do Credo Niceno.
Os ensaios aqui são acessíveis, abordando princípios do
Deus trino para a vida cristã. Começamos com a base
bíblica que levou a igreja primitiva à articulação da doutrina
de três pessoas numa substância. Qual é o perfil de uma
cosmovisão trinitária? O que significa sermos criados na
imago dei? Por que a Trindade é tão importante na
compreensão do evangelho – até para os novos na fé?
Como a Trindade reorienta jovens nas áreas de
autoconceito, relacionamentos mútuos, intimidade e até
sexo? A Trindade pode sugerir princípios para casamento e
famílias? Como a doutrina da Trindade nos ajuda a apreciar
a unidade e a diversidade no corpo de Cristo? E quanto à
igreja local? Como a Trindade serve como modelo para
relacionamentos em nossas congregações e até na
liderança? Avaliaremos a teologia da prosperidade à luz da
Trindade. Perguntamos: como lidar com a doutrina de Jesus
Só (unicistas)? Por que a Trindade é a base das missões? E
os muçulmanos? Quais são os passos para explicar a
divindade de Jesus Cristo e a Trindade para os que dizem
que isso é a pior das blasfêmias? Como a doutrina da
Trindade serve como apologética ao vazio do humanismo?
Qual é o valor dos credos da igreja primitiva para a igreja
evangélica brasileira? E como o entendimento da Trindade
pode orientar e enriquecer a adoração, seja na igreja ou ao
nível individual?
Reconhecemos que, em um livro relativamente básico com
ensaios curtos, não podemos apresentar os vários lados de
cada questão. Cada capítulo representa apenas a posição
do seu autor, e como editores demos a liberdade para que
cada colaborador expressasse sua posição desde que dentro
dos parâmetros de Niceia. Apresentamos as ideias para
diálogo como sugestões da fonte abundante da Santa
Trindade. Em tudo, e com todos, queremos exaltar o nosso
Senhor – Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
J. Scott Horrell e Murilo R. Melo
CAPÍTULO 1
BASE FIRME:
A TRINDADE A PARTIR 
DAS ESCRITURAS
J . SCOTT HORRELL
Muitas vezes, ouvimos que a palavra Trindade não faz parte
da Bíblia. As Testemunhas de Jeová, mórmons e
Pentecostais do Nome de Jesus (“Só Jesus” ou Unicistas)
reclamam que o conceito histórico da Trindade não vem das
Escrituras e sugerem até que a ideia vem de religiões
pagãs, da filosofia grega ou mesmo de Satanás. Ao longo da
história da igreja, há dissidentes que negaram as
conclusões dos pais da igreja, proclamando de uma forma
ou de outra que Jesus não era Deus, mas apenas um profeta
cheio da presença de Deus, ou uma manifestação de Deus.
Os muçulmanos e os hindus dizem o mesmo.
Formando de uma universidade em Seattle, eu também
estava com muitas perguntas e poucas respostas sobre a
doutrina da Trindade. Eu era até pastor interino de uma
igreja evangélica. Entretanto, fiquei perguntando de onde
veio essa doutrina. Sei que é preciso que eu creia, mas por
quê? Naquela época, não havia muitos recursos para
pesquisar, além de tomos enormes de teologia sistemática.
E, muitas vezes, até estes discutiam de forma prolongada
os conflitos no desenvolvimento histórico. Mas e as
Escrituras? Eu queria saber: qual é a base bíblica? Será que
posso confiar nesta doutrina da Trindade?
Embora o nosso sumário seja abreviado, apresentamos
aqui os textos bíblicos que me convenceram no início e,
mais importante, convenceram os pais da igreja primitiva e
milhões de adeptos desde então. A revelação de Deus não é
simplista, não é matemática infantil. A revelação de Jesus
como Deus confundiu o monoteísmo judaico, berço da fé
cristã – pois não é como um segundo Deus, e também não é
idêntico ao Pai na sua pessoa. Depois, entrou o Espírito
Santo em plena força pessoal no Pentecostes. No Novo
Testamento, embora com palavras e ordem diferentes, as
três pessoas da Trindade se acham juntas em pelo menos
133 passagens (inteiras). Achamos duas pessoas no mesmo
versículo quase mil vezes. Desde o início, a igreja “vivia” a
Trindade, quer dizer, a igreja primitiva era trinitária na sua
experiência, mas não tinha as categorias conceituais para
articular o que estava vivendo. Contudo, a igreja cada vez
mais obedeceu ao mandato de Jesus de ir, discipular,
ensinar e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo.
TRAÇOS DA TRINDADE NO 
ANTIGO TESTAMENTO
O lema do judaísmo é o grande shema’: “Ouve, Israel, o
SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). O Criador, o
Deus de Israel, é “um”, “nenhum outro há” (4.39). Vista
quase mil vezes (960) na Bíblia hebraica, a palavra “um” ou
“único” (echad) vem da raiz que significa uma unidade
composta. Na verdade, “um” é usado de forma parecida
com o português, isto é, em vários sentidos. Geralmente
indica um só, mas outras vezes fala de uma união, assim
como Adão e Eva “tornando-se os dois uma só carne” (Gn
2.24; semelhante uso no grego, Mt 19.6). Todos os cristãos
confessam um só Deus, mas isso não exclui um Deus de
ampla riqueza pessoal em si. Ao mesmo tempo, “antes de
mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum
haverá” (Is 43.10; cf. 42.8). É interessante que das três
palavras centrais e mais usadas para Deus no hebraico –
Yahvé (“SENHOR”), ’Elohim (’ělōhîm, “Deus”) e Adonai
(ādônāy, “Senhor”) – as últimas duas têm a forma plural.
Esses plurais de majestade ou intensidade são usados para
exaltar a grandeza do infinito Senhor, semelhante a quase
100 outras palavras hebraicas plurais. Com verbos e
modificadores singulares, não indicam uma pluralidade de
deuses. Como cristãos, somos sim monoteístas, mas não
afirmamos necessariamente um monoteísmo monopessoal.
Se Deus é Trindade, conforme a revelação em Jesus Cristo
no Novo Testamento, esperamos algumas evidências no
Antigo Testamento. Por exemplo, quase todosos pais da
igreja interpretaram Gênesis 1.26-27 como a Trindade: “...
disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança”. Embora haja várias interpretações do
texto, o erudito judeu Umberto Cassuto argumentou contra
a ideia de que Deus estava falando com anjos ou com um
concílio divino. Ao contrário, o verbo exortativo e os
pronomes nós e nosso indicam uma ação dentro do ser
divino.3 Mais tarde, vemos outros pronomes divinos em
passagens-chave na história da salvação e com implicações
sobre o próprio Deus (Gn 3.22; 11.7; Is 6.8).
No Antigo Testamento, vemos agentes de Deus que ficam
ao lado do Senhor, mas também são tidos como seres
divinos ou até como o próprio Deus. Por exemplo,
geralmente o Espírito (ruach) do Senhor é visto como uma
força ou ação, o dedo de Deus (Gn 1.2), mas outras vezes o
Espírito aparece como o mesmo Eu Sou (Is 40.13-14), ou,
ainda outras vezes, como um agente divino instruindo (Ne
9.20), guiando (Sl 143.10), ou alguém que pode se
entristecer devido ao pecado (Is 63.10). Vemos a mesma
ambiguidade nas passagens sobre a Palavra do Senhor (Gn
1.3; Sl 33.6; Is 55.11), a Sabedoria do Senhor (Pv 8.22-31) e
o Anjo do Senhor (Êx 3.2-15; Zc 3.1-6). Geralmente, o
Messias é visto como o Filho prometido de Davi, mas ele
também é o “Deus Forte” (Is 9.6; cf. 10.21) e o “Filho do
Homem” celestial (Dn 7.13-14) recebendo honra, glória e
um domínio eterno. No período intertestamentário e no
tempo de Jesus, conforme o respeitado doutor rabínico
Daniel Boyarin, houve várias ideias sobre o Messias,
incluindo a possibilidade de que o Messias seja Deus ou até
um Deus-homem.4
Com tudo isso, muitas vezes vemos Deus distinto de Deus.
Em Isaías 48.12-16, o Senhor declara que ele fundou a terra
e estendeu os céus, e que desde o princípio ele não falou
em segredo, e “agora o SENHOR Deus me enviou a mim e o
seu Espírito”. Mas é o Senhor quem está falando! Em
Zacarias 12, o Senhor Deus fala novamente da sua criação
do céu e da terra e como muitas nações vieram contra
Jerusalém: “E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de
Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e
olharão para mim, a quem traspassaram; e o prantearão
como quem pranteia por um unigênito; e chorarão
amargamente por ele, como se chora amargamente pelo
primogênito” (12.10, ARC). Como é que Israel traspassou
(lit. feriu) Deus? As palavras “unigênito” e “primogênito”
neste texto descrevem o Filho de Deus no Novo Testamento
(cf. Jo 19.37; Ap 1.7). Enfim, muitos textos que descrevem o
Senhor no Antigo Testamento se aplicam a Jesus Cristo no
Novo.5
Então, o que diremos? Que o Antigo Testamento prova a
doutrina da Trindade? Claro que não. Mas as peças estavam
em seu lugar para a nova revelação em Jesus Cristo.6
JESUS CRISTO É DEUS
Pessoas reclamam que Jesus nunca se declarou Deus.
Realmente não é verdade. Mas, vamos supor por um
momento que Jesus começa seu ministério se proclamando
como o Deus todo-poderoso e fazendo milagres tão
espetaculares que ninguém poderia negar. Ninguém. Os
inimigos seriam eliminados. Todos teriam que crer. Que tipo
de religião seria essa? O que significaria crer, confiar, ter fé
em Jesus como o Filho de Deus?
Há uma sabedoria profunda na maneira que Deus se
revelou em Jesus. Todos foram convidados a confiar. Mas
poucos o seguiram. Dos dois ladrões crucificados ao lado de
Jesus, um confiou, o outro não. As mulheres creram, muitos
líderes religiosos não. De uma certa forma, todos são
convidados, mas ninguém vem ao Filho senão pelo Pai e
pelo Espírito (Jo 6.44; Mt 12.31-32). Ouvindo o evangelho,
Friedrich Nietzsche disse não, mas C. S. Lewis, sim. A
sabedoria e a graça do Senhor espantam.
Quando Jesus se definiu como Deus, ele estava, em cada
ocasião, em debate com as pessoas que já queriam matá-lo
e que repetidamente tentaram fazê-lo: “Antes que Abraão
existisse, EU SOU” (Jo 8.58; cf. 5.17-18) e “Eu e o Pai somos
um” (10.30). Perante as acusações no Sinédrio, Jesus
guardou silêncio até que finalmente o sumo sacerdote
disse: “Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o
Cristo, o Filho de Deus”. Jesus respondeu: “Tu o disseste;
entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho
do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo
sobre as nuvens do céu” (Mt 26.63-64). Jesus assumiu os
dois títulos, o Filho de Deus e o Filho do Homem (Dn 7.13),
elevando ao máximo o sentido de cada um e se declarando
o prometido Messias divino diante de quem todos vão se
ajoelhar e adorar. O Sinédrio ficou furioso e deflagrou a
crucificação do Salvador. Depois da ressurreição, Jesus
esclareceu a verdadeira estrutura trinitária do Sagrado
Nome, “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt
28.19), e aceitou ser adorado como Deus (Mt 28.9; Lc
24.52; Jo 20.28; cf. Mt 14.33).
O Novo Testamento apresenta várias altas cristologias,
declarações inegáveis que Jesus Cristo é Deus. A mais
famosa é o prólogo de João – “No princípio era o Verbo, e o
Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” – que quer
dizer que o Deus Filho estava com Deus Pai em comunhão
e, ao mesmo tempo, que toda a natureza divina do Pai
pertence ao Filho. Por meio do Filho, todas as coisas foram
criadas, “e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3).
Assim, o Filho não é uma criação. O Filho é “o Deus
unigênito, que está no seio do Pai, [e] é quem o revelou”
(lit. 1.18). Aqui vemos o início do conceito da geração
eterna do Filho,7 como diz o Credo Niceno-
Constantinopolitano (325/381 d.C.): “Jesus Cristo, Filho
unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos,
Deus de Deus, Luz de Luz, Deus Verdadeiro de Deus
Verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por
ele todas as coisas foram feitas”.8
Em Colossenses 1.15-19, vemos de novo que toda a
criação é criada e sustentada pelo Filho – o herdeiro
(“primogênito”) de toda a criação. “Tudo foi criado por meio
dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo
subsiste” (1.16-17). De novo, em 2.9, Paulo se repete:
“Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude
da Divindade” (theotes significa a natureza divina). Mais
uma alta cristologia, Hebreus 1.2-3 declara que o Filho é
“herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o
universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão
exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra
do seu poder”. Todo o primeiro capítulo de Hebreus revela a
divindade do Filho de Deus, e os capítulos 2-9 refletem a
profundeza e o propósito da sua natureza humana; Cristo
assumiu nossa humanidade, sem pecado. Essas passagens
revelam as duas naturezas de Cristo (“a união hipostática”,
cf. Fp 2.5-11). Como o ser humano perfeito, Jesus Cristo
morreu como nosso substituto, e, como Deus, o valor da sua
morte é infinito para todos que creem.
Quanto mais estudamos as Escrituras, mais vemos
evidências por todos os lados da profunda divindade de
Cristo. Ele não foi adotado por Deus Pai como um jovem de
Nazaré. Ele não foi criado, nem como o primeiro que criou
tudo mais. E o Filho não é uma máscara ou apenas uma
manifestação de uma pessoa divina (i.e., uma pessoa que
aparece em três modos). Jesus Cristo é Deus como Deus Pai,
sem confundir as pessoas e sem separar a essência divina.
Por isso, como os discípulos quando ele acalmou o mar e
como o cego que passou a ver, também nos dobramos
diante dele para adorá-lo.9
O ESPÍRITO SANTO É DEUS
Desde o início, a igreja primitiva entendia que Jesus é Deus,
mas o lugar do Espírito Santo não foi tão claro. À primeira
vista, parece que há uma falta de evidência para afirmar o
Espírito, não tanto como Deus, mas como uma pessoa
distinta da Trindade. Relembramos que o desejo do Espírito
é de revelar e glorificar o Filho e o Pai. E sua atuação é mais
subjetiva, como o vento ou a ação divina. No Antigo
Testamento, a palavra “espírito” (ruach em hebraico)
aparece 389 vezes como vento, respiração, alma, espíritoou o Espírito de Deus (c. 100 vezes). No Novo Testamento, a
palavra grega pneuma ocorre 379 vezes, com cerca de 275
se referindo ao Espírito; o termo “Espírito Santo” ocorre 92
vezes. Como foi mencionado, o Pai, o Filho e o Espírito
aparecem juntos em 133 passagens do Novo Testamento,10
e cada vez com papéis relativamente definidos.
Mas será que o Espírito é Deus, igual ao Pai e o Filho?
Que o Espírito é Deus vemos não apenas na fórmula do
batismo (Mt 28.19), mas também quando, em Atos 5.3-9, o
apóstolo Pedro acusou Ananias de mentir contra o Espírito
Santo, contra Deus – e logo veio o julgamento também
contra sua esposa Safira por “tentar o Espírito do Senhor”.
Em 2Coríntios, Paulo escreveu: “Ora, o Senhor é o Espírito;
e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (3.17), e
de novo “como pelo Senhor, o Espírito” (3.18).11 Assim, o
Espírito Santo também é Deus.
A meu ver, a passagem mais forte sobre a divindade
pessoal do Espírito Santo é o relato de quando Jesus curou
um homem endemoninhado, cego e mudo, e os fariseus
murmuraram que o poder de Jesus era o de Belzebu (Mt
12.22-32). Jesus declarou a eles: “Todo pecado e blasfêmia
serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o
Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma
palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado;
mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será
perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (v. 31-32). O
que estamos vendo aqui? Qualquer blasfêmia contra Deus,
o Deus Pai, pode ser perdoada. Qualquer blasfêmia contra o
Filho (o Filho do Homem, Filho de Deus) também pode ser
perdoada. Mas contra o Espírito Santo jamais seria
perdoada! À parte da questão sobre o que constitui a
blasfêmia contra o Espírito, Jesus eleva o Espírito ao nível de
Deus como pessoa – distinto do Pai e do Filho e igual na sua
divindade. Pois no fim, é o Espírito Santo que atua como
Deus no mundo, capacitando o arrependimento e a fé
salvífica no pecador.
Numa pesquisa de evangélicos nos Estados Unidos, a
grande maioria afirmou a doutrina da Trindade, mas 59%
responderam que o Espírito é uma força, não uma pessoa.12
Além do que temos visto, quais são as evidências da
pessoalidade do Espírito Santo?
Primeiro, vemos que o Espírito demonstra inteligência.
Como o Espírito da verdade, ele conhece, transmite e
inspira em palavras as verdades de Deus (Jo 14.17; 1Co
2.10-13). Segundo, o Espírito manifesta sua própria
vontade, guiando a igreja primitiva e dando dons conforme
sua vontade (At 8.29; 9.31; 13.2; 15.28; 16.6-7; Rm 8.14;
1Co 12.8,11); observamos que o Espírito fala como “eu” e
“mim”. O Espírito também manifesta emoções. Podemos
entristecê-lo e insultá-lo (Ef 4.30; Hb 10.29); o nosso pecado
não entristece uma força nem a policia, mas sim alguém
que nos ama. Ele é o Advogado, o “outro Consolador” (um
do mesmo tipo do Filho; 1Jo 2.1); ele intercede por nós (Jo
14.16,26; 15.26; 16.7; Rm 8.26). Além disso, o Espírito
Santo é o testemunho vivo e a própria presença de Deus em
nós, que somos filhos de Deus (Jo 14.16-17,26; 15.26; Rm
8.14-16; 1Jo 3.9).
Contudo, a evidência mais forte da divindade pessoal do
Espírito Santo é indireta. Ele tem todos os atributos de
Deus. Ele faz as obras divinas, mesmo em conjunto com o
Pai e o Filho. Com 40 títulos, o Espírito é chamado o Espírito
do Senhor, do Pai, do Filho, de Cristo, de Jesus, da graça, da
vida, da verdade e da glória, mas tem sua distinção pessoal.
A TRINDADE NO NOVO TESTAMENTO
Como é que as três pessoas se relacionam? Realmente, isso
é a questão-chave no mistério da Santa Trindade como um
só Deus. O evangelho de João apresenta alguns traços que
podem nos orientar. Primeiro, o Filho e o Espírito estavam
com Deus e foram enviados ao mundo.13 Jesus vê e ouve o
Pai; o Espírito ouve e fala do que ele recebe do Pai e do
Filho. A linguagem da Bíblia (ver, ouvir, imitar, fazer) implica
relações excepcionalmente pessoais.
Segundo, as pessoas divinas conhecem e testificam cada
uma da outra.14 O Pai conhece o Filho, e o Filho o Pai; o
Espírito o Pai, e o Pai o Espírito etc. O Deus Filho unigênito
“que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). No
batismo, o Pai anunciou que Jesus é seu Filho e o Espírito
desceu e pousou sobre ele como uma pomba. Há
conhecimento mútuo e infinito, e eles testificam um do
outro.
Terceiro, cada pessoa mostra vontade, um querer distinto,
em relação ao outro.15 Por um lado, há singularidade da
vontade e ação divina no mundo. Por outro, a comunhão
divina não é automática ou mera aparência de um Deus
monopessoal. O Pai, o Filho e o Espírito operam mútua e
intencionalmente no mundo e em relação um com o outro.
“Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a
reassumir” (Jo 10.17). As relações divinas vistas na vida de
Jesus implicam alguma realidade eterna do relacionamento
entre o Pai e o Filho.
Quarto, cada pessoa da Trindade reflete o amor (a
autodoação) para a outra. O Pai ama o Filho (Jo 3.35; 5.20;
15.9; 17.23-24,26) e o Filho o Pai (14.31). Jesus falou: “Eu
faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29) e “Como o Pai me
amou, também eu vos amei” (Jo 15.9). O verbo agapao
(aparece 37 vezes em João) e o substantivo agape (7 vezes)
significam um amor sacrificial por uma outra pessoa. A linda
realidade é que o Pai se deleita no Filho e o glorifica (Jo
8.50,54; 13.32; 17.1,5), o Filho se deleita no Pai e o glorifica
(Jo 13.31-32; 14.13; 17.1,4) e o Espírito se deleita em
glorificar o Filho (Jo 16.14) e o Pai. O Pai entrega todas as
coisas ao Filho (Jo 3.35), e o Filho devolve todas as coisas ao
Pai (1Co 15.28).
Quinto, cada pessoa habita mutuamente na outra (grego,
pericorese) sem ofuscar ou confundir cada pessoa em si.
Várias vezes Jesus testificou que “o Pai está em mim, e eu
estou no Pai” (Jo 10.38; 14.7-11; 17.11,21,23). Também o
Espírito estava em Jesus (Jo 4.10-14; 7.37-39; 20.22) e Jesus
está no Espírito (At 16.7; Rm 8.9; Gl 4.6; 1Pe 1.11). Nisso
vemos uma doutrina profunda com amplas implicações,
inclusive sobre o nosso próprio ser humano (imagem de
Deus), em sermos feitos para estarmos habitados por Deus.
Sexto, o Filho e o Espírito vêm do Pai. O padrão joanino
mostra a preeminência do Pai na ordem divina. O Filho e o
Espírito vêm do Pai. Os pais da igreja aproveitaram a ideia
do Filho como o unigênito, então gerado do Pai (gerado, e
não criado) fora do tempo. O Pai sempre é Pai do Filho, que
sempre é Filho. E o Espírito procede do Pai (Jo 3.34; 15.26;
16.7-13). Essa ordem (grego, taxis), nas palavras de D. A.
Carson, “é claramente persistente, unidirecional, sem
exceção, e não pode ser negada”.16 O Filho é exaltado e
corregente do reino eterno (cf. Ap 22.1-6), mas a ordem não
se reverte. A Trindade não é democracia, mas é, de certa
forma, comunidade divina, com cada pessoa fazendo o que
convém e expressando a sua disposição distinta dentro do
ser divino.
CONCLUSÃO
Então, a fé da igreja cristã afirma que a doutrina da
Trindade é bíblica: o único e verdadeiro Deus existe
eternamente em três pessoas – no Pai, no Filho e no Espírito
Santo –, sendo um na sua essência divina (não há três
deuses), iguais na sua glória (porque a glória é
compartilhada) e cada pessoa distinta das outras em suas
relações (de origem, sendo o Filho gerado e o Espírito
procedido). O Credo Apostólico já estava na sua forma
rudimentar em 150 d.C., Atenágoras descreveu Deus como
“um em poder e três em distinção de ordem” (177 d.C.),17
Teófilo de Antioquia (c. 180 d.C.) elaborou Deus como trias
(grego) e logo depois Tertuliano definiu Deus, em latim,
como trinitas, tres personae et una substantia (c. 210
d.C.).18 Irineu foi muito claro que esta fé comum, esta
confissão unânime, foi espalhada por todo o mundo, até os
confins da terra: “As línguas do mundo podem ser
diferentes, mas a mensagem da tradição é uma e a
mesma”,19 qual seja, a do Pai Todo-Poderoso, do Filho
encarnado por nós e do Espírito Santo (190 d.C.).20 Os
esclarecimentoscontra o modalismo e mais tarde o
arianismo iriam levar tempo, mas os fundamentos da
doutrina da Trindade estavam firmes.
Para mim, quando o testemunho da própria Bíblia ficou
mais claro, senti uma plenitude da presença do Senhor
como nunca na minha vida. Se o absoluto do universo é o
Deus tripessoal, então a criação ganha novo significado. Foi
como acender a luz e ver que tudo faz sentido.
PARA REFLEXÃO
1. Por que é importante ver traços da doutrina da Trindade
no Antigo Testamento? Quais são as três evidências do
Deus trino no Antigo Testamento?
2. Por que Jesus não foi mais direto sobre sua divindade?
Se fosse assim, como seria a chamada “fé cristã”?
Ninguém entendia bem o título que ele assumiu (80
vezes nos Evangelhos): o Filho do Homem. Quais são as
implicações desse título?
3. O Espírito é uma pessoa? Conte a relevância dessa
afirmação para a sua vida. Você acha que podemos
adorar o Espírito? Orar ao Espírito? Por quê? Quais são as
bases bíblicas para suas respostas?
4. Como as três pessoas da Trindade se relacionam no
evangelho de João? Nestes relacionamentos trinitários,
existem alguns exemplos para nós? O que isso significa?
Há cautelas também?
CAPÍTULO 2
PENSAR DE TUDO
UMA COSMOVISÃO TRINITÁRIA
MURILO R. MELO
A sabedoria é uma das mais importantes virtudes que
precisamos cultivar como cristãos (Pv 4). Como vimos no
capítulo anterior, Jesus é chamado de sabedoria (sophia) de
Deus (Pv 8.22-31; 1Co 1.22-25). Mas, o que é sabedoria? É a
capacidade de entendermos e vivermos de acordo com o
que entendemos.21 Não é um exercício meramente
intelectual, mas pressupõe uma reflexão cuidadosa para
direcionar a vida que agrada a Deus.
Muitas vezes, focamos exclusivamente na prática, sem
considerar as grandes perguntas da vida. Desde 1964, o
ensino da filosofia (lit. amizade da sabedoria) começou a ser
excluído do currículo escolar no Brasil, já que ela não
contribuía para a formação tecnicista dirigida ao mercado
de trabalho.22 Acostumamo-nos a viver sem questionar, e,
por vezes, até ridicularizamos as grandes questões por
terem sido discutidas por séculos e ainda não termos todas
as respostas. Um outro desdobramento da revolução
industrial é a fragmentação das esferas da vida, comum em
muitas cosmovisões atuais. Muitas vezes, isso se reflete em
uma separação entre o sagrado e o secular nas nossas
vidas.
É com esse pano de fundo que buscamos definir uma
cosmovisão trinitária. Segundo James Sire, cosmovisão é
“comprometimento, uma orientação fundamental do
coração, que pode ser expressa como uma história ou um
conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total
ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que
detemos (consciente ou subconscientemente, consistente
ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da
realidade e que fornece o alicerce sobre o qual vivemos,
movemos e possuímos nosso ser”.23 Assim, uma
cosmovisão molda a estrutura e os padrões de
comportamento em uma cultura, com pressuposições e
valores que são passados de uma geração a outra, muitas
vezes sem questionamento. Se nos imaginarmos como
peixes num aquário, a água e o vidro do aquário são parte
da nossa cosmovisão: podemos passar a vida sem
questioná-la. Mesmo vários conceitos bíblicos têm seu
entendimento profundamente ligado à uma cosmovisão
imbuída na cultura que não examinamos: tome como
exemplo o vestir-se com modéstia e como esse conceito
mudou ao longo da história. Assim, embora busquemos uma
cosmovisão trinitária, muito permanece ligado à nossa
cultura, à nação e à época em que vivemos. Ao mesmo
tempo, coletivamente criamos cultura e somos moldados
por ela. O que buscamos é o começo de uma reflexão sobre
as grandes questões da vida e como ter coerência nas suas
diferentes esferas.
Precisamos nos lembrar de que a Palavra de Deus nos dá
bases fundamentais para essas reflexões, que estimulam
uma vida coerente aos planos de Deus para nós. Não é
opcional. Se queremos viver com sabedoria, como Deus
planejou para nós, essas reflexões são essenciais para uma
prática integrada, que faz tudo ter sentido. Podemos
entender a sabedoria bíblica como uma cosmovisão que
busca ser expressa em pressuposições verdadeiras, que por
meio de reflexão em comunidade se tornam mais
conscientes, e que pela santificação se tornam mais
consistentes no nosso dia a dia e entre nossas diversas
práticas.
O propósito deste capítulo é estimular uma reflexão ampla,
sem discutir profundamente cada questão, mas buscando
uma visão de mundo abrangente, à luz da Bíblia e do
entendimento de quem é o nosso Deus, como vimos no
capítulo anterior: o único e verdadeiro Deus eternamente
existe em três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –,
um na sua essência, iguais na sua glória e distintas nas suas
relações. Meu argumento é que essa visão de mundo
trinitária explica melhor nosso universo, quem somos e nos
orienta a uma vida agradável a Deus. Para isso, vamos
contrastar outras cosmovisões – de modo superficial, é
verdade, dada a diversidade entre cada uma delas e as
limitações de espaço que temos. Ao fazermos algumas
perguntas, fiquemos atentos para a coerência das visões de
mundo. Vamos começar, então, com uma das maiores
perguntas da nossa existência, aquela que vai criar as
categorias-chave que abrangem as visões de mundo de
todos nós.
POR QUE EXISTE ALGO, EM VEZ DE NADA?
Essa é a pergunta implícita no começo da história da Bíblia.
Apesar de muita discussão sobre “como” nosso universo
existe, temos essencialmente três categorias principais para
a resposta dessa questão.
No ateísmo, negando que a criação é originada por Deus,
nega-se obrigatoriamente um “começo” da criação (pois
qual seria sua primeira causa?). Assim, exige-se que a
criação seja eterna; na física atual, energia, tempo e
matéria sempre existiram (neste universo ou em outros,
com geração e destruição de universos).24 Nosso universo
existe na forma atual apenas por um incidente do acaso. No
Brasil, temos cerca de 615 mil pessoas que se declararam
ateístas no censo de 2010. Note que, em termos de
cosmovisão, essa é uma posição distinta do grupo maior,
“sem religião”, afirmada por quase 15 milhões de
brasileiros.
No panteísmo, a criação também é eterna, mas Deus e a
criação são um. Deus não tem um status independente da
natureza, já que a natureza menos deus é nada (e deus
menos a natureza também é nada).25 Esse deus é infinito e
impessoal, não permitindo um relacionamento com “ele”
(até o uso do pronome pessoal é estranho). Os adeptos
precisam lembrar dessa realidade, para entrar em contato
com Deus em nós. Na minha adolescência, a trilogia de
livros de Herman Hesse me levou para uma (curta) fase
Hare Krishna, que se enquadra nessa categoria.26 O tempo
aqui também é circular, já que reencarnações são comuns
no panteísmo. O panteísmo monístico inclui não apenas a
forma Advaita Vedanta do hinduísmo clássico, mas muitas
formas de dualismo oriental (taoísmo), espiritismo e
pensamento Nova Era. Cabe lembrar que existem versões
ocidentais de panteísmo, especialmente depois de Hegel,
que entendia Geist (usualmente traduzida como Espírito ou
Mente, mas impessoal) sendo “encarnada” na história, uma
particularização do universal. No Brasil, houve certa
disseminação da força evolutiva proposta por Henri Bergson
(élan vital), assim como sua popularização pelo filme (um
favorito de minha mãe) “Zorba, o Grego”, de Nikos
Kazantzakis.27
No teísmo, Deus cria o universo. A existência de Deus
antecede a criação e é independente dela (ou seja, Deus é
livre para criar ou não). No politeísmo, em geral, um deus
principal cria ou gera outros deuses, dando origem à
diversidade que observamos (religiões tradicionais
africanas, candomblé, mormonismo).28 Em muitos casos,
esse deus principal é bastante desinteressado da criação,
ou até mesmo presente em tudo – de modo que pode ser
ainda classificado como panteísmo. No monoteísmo
absoluto, comum Deus monopessoal, como no islã (35 mil
brasileiros) e no judaísmo (107 mil), Deus não tem nenhum
“outro” para amar antes da criação. Apesar de
apresentarem Deus ou Alá como compassivos, nenhum
deus monopessoal pode ter essa característica antes da
criação (mas ambos rejeitam que Deus mude, e tanto o
judaísmo quanto o islamismo têm variações místicas que
enfatizam emoções). No capítulo 13, as diferenças entre
nosso Deus trino e Alá serão exploradas com mais detalhes.
No segundo século, Tertuliano já argumentava que nosso
Deus trino é diferente: “Pois antes de todas as coisas Deus
estava só – sendo em Si mesmo e para Si mesmo universo,
espaço e todas as coisas. Além disto, Ele estava só, porque
não havia nada externo a Ele além de Si mesmo. Mas nem
mesmo naquele momento Ele estava só”.29 Capaz de amar
um outro nele mesmo, Pai, Filho e Espírito Santo
desfrutavam de comunhão antes e independentemente da
criação. Não há necessidade de criar um outro para poder
amar ou ser servido. A criação passa a ser extensão do
deleite divino, o amor eternamente existente do Deus trino
extravasando em atos criativos que explicam uma natureza
tão bonita, complexa e diversificada (Sl 19.1-6; 104). Deus
era tudo, e decide criar algo que não ele mesmo, de certa
maneira se limitando: as árvores, as rochas e os animais
não são Deus. Tudo isso existe pela graça de um Deus
generoso.
Uma outra pergunta que nos fazemos é:
QUAL O SENTIDO DA MINHA VIDA?
Obviamente, essa pergunta está diretamente ligada a como
entendemos a biogênese, a criação da vida, mas ela
extrapola esse parâmetro para nossa existência pessoal, um
sentimento que geme dentro de cada um de nós, querendo
que nossa vida faça sentido.
Para o ateísta, a vida é gerada por acaso, uma feliz
combinação de temperatura, pressão e quantidade das
moléculas certas para criar vida. Apesar da maioria dos
cientistas considerar a teoria da evolução como definitiva,
as pesquisas sobre origem da vida não escapam da
necessidade de interferência externa.30 Simplesmente não
há evidência nenhuma que esse “acaso” possa ser replicado
intencionalmente em laboratório, nem mesmo nos mais
sofisticados do mundo. O eticista Peter Singer é consistente
com essa posição ao afirmar que toda vida senciente tem o
mesmo valor, ou seja, que sua vida tem o mesmo valor que
a vida de qualquer animal que sinta dor, como um rato, por
exemplo.31 Não há nada especial em ser um humano. No
capítulo 12, esse vazio do humanismo secular será mais
discutido.
No panteísmo monístico do Oriente, o ser humano, assim
como tudo que existe, é uma emanação da única realidade
divina. No hinduísmo, o ser íntimo da pessoa (atman, “força
vital”) é Deus. Nossas consciências podem tanto nos
separar da realidade divina ou ser a ponte para
alcançarmos unidade com ela. No Bhagavad Gita, vemos
que aqueles que conseguirem ser “conscientes da sua união
comigo [Brahman] não tornarão a nascer para esta vida
perecível de sofrimentos, mas vêm a mim, a eterna
Beatitude”.32 O hinduísmo, embora seja uma das maiores
religiões do mundo (1,1 bilhão no mundo), é pouco
praticado no Brasil, com menos de seis mil adeptos.
No Brasil, temos ainda cerca de 244 mil budistas (censo de
2010), de um total de mais de 500 milhões no mundo.33
Embora a maior parte dos budistas no mundo seja ateísta (e
o restante, panteísta), há uma pressuposição de unidade
essencial do universo, ainda que seja o Nada absoluto. O
que somos é uma ilusão para o budismo; somos um mero
entrelaçar de relacionamentos e energias. O budismo é
entendido a partir de “quatro nobres verdades” ensinadas
por Sidarta Gautama (c. 500 a.C.): 1) viver é sofrer; 2) o
sofrimento é causado pelo desejo; 3) podemos eliminar o
sofrimento ao eliminarmos o desejo; e 4) o nobre caminho
óctuplo conduz à cessação do desejo. As escolas de
budismo diferem bastante umas das outras, mas a falta de
permanência da vida leva o budista a se liberar de todo
desejo, atingindo não o tudo-absoluto do hinduísmo, mas o
nada. O esvaziar-se completo é o nirvana (lit. extinguir-se,
apagar-se). Assim, tanto no hinduísmo quanto no budismo,
aquilo que nos torna indivíduos únicos é o que causa
separação do alvo dessas duas religiões (o tudo ou o nada
absolutos, respectivamente).
Nas três formas de monoteísmo que abordamos, cada
pessoa é criada por Deus/Alá com livre-arbítrio para
obedecer ou não. O islã tem como preceito central a
submissão como caminho para a salvação, e o Alcorão não
tem nenhum conceito de sermos criados à imagem de Deus.
Na Surata 8.55 lemos que “os pecadores são os piores seres
aos olhos de Deus, porque não creem”. Assim, no islã, nem
todas as vidas humanas têm o mesmo valor; os que se
submetem (muçulmanos) estão numa categoria à parte.
Apesar das severas advertências no Antigo e no Novo
Testamentos quanto às consequências de rebelião contra
Yahweh, nunca vemos afirmações que rebaixam serem
humanos, mesmo os mais rebeldes, abaixo dos animais.
Outra diferença é que muitos estudiosos do islã afirmam
que o embrião recebe a alma após 40 ou 120 dias da
concepção.34
Apesar de compartilharmos com o judaísmo o poderoso
conceito de sermos criados à imagem de Deus, nossa fé
trinitária ainda conta com a encarnação de Jesus Cristo,
quando Deus se fez homem perfeito, sem pecado, para nos
mostrar não apenas quem Deus é, mas também quem
somos. Ao vermos Jesus se relacionando com o Pai,
entendemos que cada pessoa da Trindade é um centro de
consciência que compartilha a totalidade dos atributos
divinos, sendo mutuamente interpenetrada pelas demais
(perichoresis) e tendo a mesma essência. Deus, assim, cria
outras pessoas, outros agentes morais, com pensamentos,
desejos, emoções, criatividade, apreciação estética,
capacidade de exercer domínio, desejo por relacionamentos
e capacidade de serem habitados por ele – na sua imagem
(ver ainda o capítulo 3). Apenas na vida de Jesus
entendemos o que é uma vida sem pecado, de perfeita
comunhão com o Pai e com os outros, mesmo no meio do
sofrimento. Após o Pentecostes, recebemos o Espírito Santo
em nós, nos transformando – nascemos de novo! No
capítulo 4, veremos em detalhe a obra de salvação do Deus
trino e como isso muda tudo. Nós amamos e valorizamos
relacionamentos porque Deus amava desde antes da
criação, e o Pai enviando Jesus, Jesus dando sua vida por
nós e o Espírito Santo fazendo morada em nós testificam
desse amor. Mas quando olhamos para o futuro, quando
Jesus retornará, é que vemos povos de todas as línguas,
cores de pele e nações adorando o Deus verdadeiro, na sua
diversidade. Temos um perfeito equilíbrio entre unidade e
diversidade na cosmovisão trinitária (no capítulo 7,
discutimos a unidade e a diversidade dentro da igreja).
MAS, COMO SEI O QUE É A VERDADE?
Na nossa época pluralista, a epistemologia (lit. estudo de
como conhecemos) é uma área extensa de pesquisa. Mais
uma vez, o objetivo aqui é apenas exploratório – conto com
sua graça em perdoar as grandes omissões que farei – para
percebermos como epistemologia e cosmovisão são
relacionadas.
No ateísmo, se formos consistentes, não há base alguma
para a verdade. Somos fruto do acaso, e, pela ciência, o
máximo que podemos fazer é descobrir padrões que
funcionam e que podem explicar provisoriamente o mundo
ao nosso redor. O iluminismo partiu de um fundamento
cristão, buscando conhecer a verdade de Deus revelada na
criação. No modernismo (e ainda hoje, em muitos ramos da
ciência), a ideia de progresso dominava, apesar de sua falta
de coerência com o ateísmo (afinal, o que dá ordem?
Progresso para qual fim?). Com o pós-modernismo, ocorre a
quebra das categorias essencialistas, isto é, não podemos
alcançar a essência de coisa alguma.35 Como exemplo, o
historiador desconstrucionista Alun Munslow afirma que o
historiador cria construções retóricas que servem o
exercício de poder, a história como ideologia.36 A noção de
que a verdade é relativa condiz com essacosmovisão
ateísta. Para evitar o relativismo, Stanley Fish sugere uma
âncora numa comunidade interpretativa. Mas, como saber
se essa comunidade está certa? Sem absolutos, o ateísta
segue Nietzsche, em afirmar suas verdades, exercendo sua
vontade. Parece que a posição inevitável é expressa assim:
“Apesar da minha busca por coerência levar a menos e
menos respostas, acabei ficando cada vez mais confortável
sem elas”.37
No panteísmo, a razão é uma ilusão. A Verdade é a
Realidade (satyam, a palavra hindu para verdade, deriva de
sat, realidade). Mas essa Realidade final não é racional, mas
experiencial; não se trata de conhecer a realidade, mas de
ser um com ela.38 Como já vimos, apesar do budismo
entender a realidade final de modo diferente (como “nada”)
e prescrever modos diferentes de atingi-la, também há uma
distância em relação ao conceito ocidental (judaico-cristão)
de realidade. Assim, o budista pergunta “qual é o som de
uma só mão batendo palmas?” e outras perguntas sem
respostas racionais, afinal lógica e racionalidade nos
prendem a este mundo transitório. A iluminação transcende
o racional.
No teísmo, Deus se revela. No politeísmo, não existe
nenhum absoluto e nenhuma estrutura para dar sentido a
tudo, sendo tudo filosoficamente arbitrário (mormonismo).
No islã, todos nascemos muçulmanos e inclinados
naturalmente ao bem, mas o ambiente social leva o qalb
(coração e mente) de cada um a se afastar de Deus. Mas a
principal diferença para a questão da verdade é que Alá
pode enganar as pessoas. Várias suratas declaram que Alá é
o maior enganador, ou o mais ardiloso (3.54; 7.99; 8.30;
13.42), as palavras que melhor refletem o termo original,
makr.39 Assim, existe uma possibilidade de a realidade
percebida não ser coerente com o real, no islã. Ao contrário,
Yahweh não pode mentir (Nm 23.19; Hb 6.18).
O grande diferencial epistêmico entre a cosmovisão
trinitária e o judaísmo é a pessoa de Jesus Cristo, que afirma
categoricamente: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;
ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Jesus é ele
mesmo a verdade, a chave interpretativa de toda a
realidade. Seu uso das Escrituras valida a autoridade e a
inspiração do Espírito. A tumba vazia de Jesus realmente
ocorreu, demonstrando a verificabilidade de sua
ressurreição. Sua encarnação, morte, ressurreição e
ascensão aos céus, assim como seu futuro retorno no corpo
ressurreto, afirmam tanto a realidade deste mundo (e da
história) quanto do sobrenatural. Afirmamos, assim, uma
base absoluta para a verdade (verdade para todos, em
todas as épocas, em todos os lugares) e que essa base é o
próprio Deus trino que se revela, e que a realidade
corresponde com o modo que as coisas realmente são.40
Assim, nossa cosmovisão trinitária dá expressão ao estudo
objetivo pelas ciências e história, mas também à expressão
artística, com diferenciação entre realidade e fantasia, já
que imitamos a criatividade divina.
CONCLUSÃO
Um estudo detalhado de cosmovisão ocuparia livros. Não
abordei pontos importantes, como o equilíbrio entre
misericórdia e justiça divina, tempo e espaço.41 Meu
objetivo aqui foi começarmos uma conversa sobre o tema,
enquanto introduzo alguns conceitos que ajudarão nos
próximos capítulos. Demonstrei que cada um de nós tem
uma cosmovisão, e para sermos sábios devemos examinar
a nossa. Devemos almejar uma consistência na nossa visão
de mundo, tanto entre diferentes ideias (p. ex. quem somos
e as implicações éticas disso) quanto entre teoria e prática.
Uma cosmovisão trinitária permite que nos enchamos da
presença de Deus, da alegria de vivermos com ele, e nos
doarmos uns aos outros como ele. Não somos trinos como
nosso Deus, e precisamos de um relacionamento com Deus
e uns com os outros. Cada um de nós tem pontos cegos,
crenças e atitudes que nos parecem válidas, mas dos quais
nossos irmãos e nossas irmãs com outras culturas podem
nos alertar. Apreciamos nossa individualidade e a diferença
que temos entre nós. Apenas o Deus trino explica a unidade
e a diversidade e faz com que a sua vida tenha importância,
pois você reflete a Deus e, ao mesmo tempo, expressa que
todas as pessoas, de diferentes etnias e línguas, também
são preciosas. O Deus trino é confiável e nos conduz à
verdade, revelada especialmente na pessoa do Deus-
homem, Jesus Cristo. Eu o convido a examinar aquilo que
você acredita em relação a todas as áreas de sua vida, para
ter uma vida coerente com o Deus trino que você ama.
PARA REFLEXÃO
1. Como você pode ampliar essa discussão sobre
cosmovisão trinitária no seu contexto? Que outras áreas
deveriam ser abordadas, considerando as características
de sua igreja local?
2. Enquanto examinamos as outras visões de mundo, você
notou inconsistências nelas? Quais?
3. Existem elementos das outras visões de mundo que
foram integrados ao modo que você enxerga o mundo?
Como esses elementos geram inconsistência na sua
cosmovisão?
4. Atualmente, muitas pessoas dizem que “cada um tem a
sua verdade”. Explique por que você concorda ou
discorda dessa posição.
CAPÍTULO 3
A TRINDADE E 
A IMAGO DEI
O QUE É O SER HUMANO?
WINNETOU KEPLER
Quem é o ser humano? Quem sou eu? O que define quem e
o que somos? Sejam explícitas ou latentes, além de serem
fundamentais e primárias para cada jovem e cada adulto da
terra, essas perguntas recebem uma variedade tão
diversificada de “respostas” que, em vez de tranquilizarem
a mente e o coração do indagador, tendem a levá-lo para
um caminho ainda mais obscuro. É por esse motivo que
religiões do mundo inteiro e filósofos não desistem de tentar
responder quem é o ser humano.
Uma cosmovisão molda a estrutura de comportamento em
uma cultura, com pressuposições e valores que são
passados de uma geração a outra – muitas vezes sem
questionamento. Iniciando tal conversa, o capítulo anterior
apresentou a cosmovisão do ateísmo, panteísmo,
politeísmo, teísmo e monoteísmo cristão, culminando com a
importância de termos uma cosmovisão à luz das Escrituras.
As Escrituras fornecem a base fundamental para responder
às grandes questões da vida. É por meio delas que é
possível ter acesso ao conhecimento da revelação
progressiva do Deus trino, da origem da humanidade e do
projeto divino de conduzi-la para um relacionamento
pessoal com ele.
Assim, surgem algumas perguntas: o que é o ser humano
na Bíblia e na fé cristã? Será que Deus, como Trindade, pode
nos orientar melhor quanto ao que quer dizer ser pessoa,
ser imago dei? Conforme Bruce Milne, a pergunta “que é o
homem?” nos “confronta hoje com nova premência e com
menos perspectiva de uma resposta definida do que em
qualquer outra época da história”42 – certamente no mundo
ocidental pós-cristão. Partindo do pressuposto de que
somente podemos compreender o ser humano à luz do que
o próprio Criador diz, não podemos ter como base principal
o conhecimento adquirido através dos estudos da psicologia
e da antropologia secular. “Apesar da diversidade”, diz
Milne, as teorias sobre o que é o ser humano “não têm uma
resposta às questões finais: de onde veio a humanidade?
Qual sua importância final? Para onde vamos?”43 Ainda
mais, teorias seculares e não cristãs estão cheias de
tensões sem solução.
Deus, para a sua glória, decidiu, em sua grandeza,
sabedoria, demonstração de poder, criatividade e amor,
criar a humanidade de maneira que ela lhe fosse
correspondente e semelhante a ele mesmo, embora finita.
Diferente de todo o restante da criação, por mais bela e
variada que seja, a humanidade possui a imagem de Deus.
Isso desperta um sentimento de proximidade com o Criador.
O salmista Davi declarou: “Quando contemplo os teus céus,
obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que
estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o
filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um
pouco, menor do que Deus e de glória e honra o coroaste.
Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus
pés tudo lhepuseste” (Sl 8.3-6).
Para Wayne Grudem, quando refletirmos sobre a nossa
semelhança com Deus, “ficaremos espantados em perceber
que, quando o Criador do universo quis criar alguma coisa ‘à
sua imagem’, alguma coisa mais semelhante a ele
próprio  que o restante da criação, ele nos fez!”.44 Que
pensamento profundo! Certamente não somos obra do
acaso. O Deus trino desejou nos trazer à existência. Na
revelação dada por Deus nas Escrituras, na história do povo
judeu, podemos encontrar perfeitamente na pessoa de
Cristo, o Deus-homem, o ser humano perfeito.
Para desenvolvermos o raciocínio que nos conduz ao
entendimento sobre o significado de sermos criados
conforme a imagem de Deus, compartilharei um breve
relato do desenvolvimento do conceito da imago dei na
história, expondo pontos de vista de alguns pais da igreja e
teólogos recentes. Na segunda parte, refletiremos sobre a
“Base segura que revela a imago dei” e, no fim, faço uma
proposta para firmar o que somos como seres humanos
feitos para um relacionamento pessoal com Deus. O fato de
termos sido criados por um Deus tripessoal, conforme sua
imagem e semelhança, implica que em nós há
características semelhantes às de Deus, porém ao nível de
criatura. Como conhecer o Deus trino poderá nos conduzir
ao conhecimento de quem somos?
IMAGO DEI NA HISTÓRIA
No que consiste a imago dei? Alinhados com a filosofia
grega, quase todos os pais da igreja colocaram a
capacidade racional e moral como o ápice da pessoa (nous,
mente, e psyche, alma).45 Conforme Nonna Verna Harrison,
“eles acreditavam que, como nós, seres humanos, somos
feitos à imagem de Deus, o próprio Deus tem sido nosso
modelo desde o momento em que fomos criados. Isso é um
grande presente e um grande privilégio. [...] Ele é a fonte
direta de nossa autêntica identidade humana, uma vez que
a imagem de Deus é o que nos define como distintamente
humanos”.46 Alguns ensinaram que o Logos, o Filho de
Deus, Jesus Cristo, era visto como a imago ideal na sua
divindade, o corpo sendo o santuário da imago perfeito.47 A
imago dei consistia primordialmente de características
racionais e morais do homem e em sua capacidade para a
santidade e comunhão com Deus. Alguns limitavam a
imagem às qualidades morais da justiça e da santidade com
as quais Adão e Eva foram criados. Já outros incluem a
presença da vontade, criatividade ou a capacidade de
interagir em sociedade, perfeição moral original e
imortalidade.
Segundo R. N. Champlin, “não devemos pensar em
qualquer modalidade de imagem física (de aparência de
ser), como se o homem duplicasse, ainda que
imperfeitamente, o formato de Deus. Antes, devemos
abandonar toda ideia concreta, material, sólida”.48 Pelo
simples fato de termos sido criados homem e mulher
conforme a imagem e semelhança de Deus, e ele ser
espírito, a imago dei é uma característica exclusiva do ser
humano no conceito central, não na aparência física. Se
este pensamento está correto, como podemos responder ao
conflito de raciocínio em que Jesus Cristo, o Filho de Deus, o
Filho do Homem, perfeito varão, é exatamente a imagem de
Deus?
Antes, precisamos compreender melhor o significado das
palavras “imagem” e “semelhança”. As expressões são
sinônimas? Na teologia histórica encontramos uma tensão
quanto ao significado. Irineu (190 d.C.) ensinava que a
imagem se referia à capacidade ontológica para a razão,
liberdade e comunicação com Deus, mas se torna
“semelhança” somente quando tais características são
realizadas. Alguns pais criam que a imagem foi perdida por
causa da Queda, e outros que esta imagem foi
simplesmente obscurecida.49 Vários pais (Atanásio e Ciro de
Alexandria, por exemplo) insistiram que a imagem tem dois
sentidos: primeiro como o raciocínio orientado para o moral,
e segundo como o dom do Espírito Santo para nos
tornarmos “coparticipantes da natureza divina, livrando-vos
da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe 1.3-4). O
conceito comum de divinização na igreja primitiva é que o
cristão (agora regenerado pelo Espírito) participa, ou seja,
fica infuso, com a natureza divina. Tornamo-nos “deuses”
pela graça, devido àquele que se tornou carne por nós. O
que foi perdido por causa de Adão agora em Cristo está
sendo recapitulado. Pertencemos a uma nova humanidade
debaixo do Cristo vitorioso, o vencedor Jesus Cristo. Mais
tarde, os teólogos reformados rejeitaram a distinção entre a
imagem e a semelhança. Lutero reconhecia que Gênesis
1.26 era “um caso de paralelismo hebraico, onde ‘imagem’
e ‘semelhança’ eram termos sinônimos; o que se aplicava a
um, aplicava-se igualmente ao outro”.50
Como podemos ver, o tema necessita de uma cuidadosa
resposta para não cairmos em exageros ou atribuirmos ao
sentido bíblico da imago dei algo que o Deus trino nunca
intencionou revelar.
BASE SEGURA QUE REVELA A IMAGO DEI
“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança” (Gn 1.26). As palavras hebraicas para
“imagem” e “semelhança”, segundo Grudem, simplesmente
informavam aos leitores originais que o homem ao nível
pessoal era igual a Deus e de certo modo representava
Deus. Como para os reformadores, para ele a simplicidade
se perde quando tentamos dar um significado estreito e
específico demais para as duas palavras.51 Conforme Ryrie,
“embora alguns venham tentado fazer uma distinção entre
as duas palavras para ensinar que existem dois aspectos na
imagem de Deus, nenhum contraste grande entre eles tem
apoio na linguística”.52 Embora as palavras hebraicas
tselem (“imagem”, 34 vezes no Antigo Testamento) e demut
(“semelhança”, 25 vezes) geralmente sejam usadas para
imagens físicas (estátuas, ídolos), já que Deus é criador dos
céus e da terra, qualquer imagem de Deus implica uma
interpretação analógica e espiritual.
Conforme a história do povo de Israel se desenrolava nas
Escrituras, mais e mais o Deus trino se revelava. O relato do
surgimento do homem em Gênesis 2.7 diz que Deus fez
algo diferente do restante da criação. Ele poderia
simplesmente ter dito: “Que haja o homem”! Mas não foi
isso o que aconteceu. O homem foi feito do pó da terra e
recebeu diretamente de Deus o fôlego da vida. Deus,
consigo mesmo (“façamos”, 1.26), decidiu que criaria um
ser que carregaria a imagem e semelhança dele mesmo.
Logo após ter feito o homem, “viu Deus tudo quanto fizera,
e eis que era muito bom” (1.31). É por esse motivo que
precisamos olhar para ele, para podermos encontrar no
Criador respostas que revelam a imago dei. A essência do
homem consiste em ser ele a imagem de Deus. Somos
especiais! Deus pensou em dar a nós uma imagem e
semelhança que um dia o Filho de Deus também assumiria,
quando viesse ao mundo em forma humana para buscar e
salvar pecadores. Em outras palavras, Deus fez de si
mesmo o modelo que inspirou nossas características
humanas.
Certamente não somos semelhantes a ele em todos os
aspectos. Para começar, imago dei não nos torna deuses,
nem todo-poderosos, nem oniscientes (atributos
incomunicáveis de Deus). Mas, certamente, há
características em todo ser humano que apontam para ele.
Criado com autoconsciência, Adão tinha capacidade para
manter comunhão com Deus, para administrar e cuidar do
Éden, para dar nomes aos animais e interagir com eles. O
ser humano foi criado com o dom de pensar, comunicar,
criar, sentir e desejar.
Enfim, há paralelos estruturais, já que o ser humano
individual recebe capacidade de pensar, raciocinar, falar
com linguagem, exercitar livre vontade e até de se
emocionar – semelhante à revelação bíblica de cada pessoa
da Trindade. Há paralelos funcionais, porque o homem e a
mulher receberam a capacidade e a autoridade para manter
e governar sobre a terra, cuidando da criação divina – Adão
dando nomes aos animais. Também há paralelos relacionais,
primeiro com o Criador (até de andarem juntos no Éden), e
entre seres humanos a ponto de juntos, homem e mulher,
poderem procriar. Ainda mais, o ser humano é capaz de serhabitado por Deus, mas sem deixar sua individualidade. É
possível que, de certo modo, o fato de sermos criados à
imagem de Deus nos dê um paralelo da capacidade que
cada pessoa da trindade tem de ser habitada pela outra
enquanto permanece totalmente individual (perichorese).
Assim, como o Pai habita no Filho e o Filho no Pai, e como o
Espírito Santo é também o Espírito de Cristo e o Espírito do
Pai, “Deus planejou a natureza humana de maneira que esta
possa ser habitada por ele. Embora habitados por um Outro
divino, os seres humanos são simultaneamente fortalecidos
em sua individualidade”.53 Isso é refletido no próprio Jesus
Cristo, imagem perfeita de Deus, quando falou: “... estou no
Pai e... o Pai está em mim” (Jo 14.10-11). E ele rogou por
nós: “... como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também
sejam eles em nós” (17.21). Temos a capacidade estrutural
e relacional de sermos habitados por Deus.
Umas das diferenças fundamentais entre o ser humano e
os animais é que o ser humano é capaz de conversar e se
comunicar com o Criador. Segundo Lewis Sperry Chafer,
“desde o princípio ele foi capaz de conversar com Deus; e,
portanto, podemos inferir que a linguagem foi nele uma
capacitação sobrenatural e miraculosa”.54 Entre os animais,
não houve companheiro para o homem. Só outro ser
humano, Eva, satisfazia: “Esta, afinal, é osso dos meus
ossos e carne da minha carne... tornando-se os dois uma só
carne” (Gn 2.23-24). O homem e a mulher receberam a
capacidade de reproduzir e experimentar unidade através
da união física entre eles.
Não é por “encontrar-nos a nós mesmos” que
descobriremos o significado do ser humano. A Bíblia nos
dirige ao nosso Criador, o Deus tripessoal. Quando o
enfocamos – olhando para cima e não para dentro –,
começamos, então, a recuperar nossa humanidade. Como
Karl Barth insistia, o significado da pessoa humana se define
somente em relação a Deus. As três pessoas da Santa
Trindade providenciam, através da revelação, a estrutura
ontológica para nossa pessoalidade humana, que implica
relacionamentos e funções na terra. E ainda mais, essa
imagem divina é aperfeiçoada tanto pela habitação divina
quanto pela sua própria autodoação a Deus e aos outros.55
Note que, embora o homem e a mulher tenham herdado a
imagem e a semelhança de Deus, são física e
emocionalmente diferentes um do outro. Apesar dessas
diferenças, Deus os criou de uma forma que estas
contribuíssem para a união e o complemento um do outro.
Eles são iguais em dignidade e importância e podem
expressar o amor um pelo outro por meio da união
estabelecida em aliança, isto é, no casamento. Essa unidade
“não é somente uma unidade física; é também uma unidade
espiritual e emocional de dimensões profundas”.56 O
casamento é uma expressão relacional que aponta para a
perfeita unidade e comunhão que existe na Trindade –
reflexo analógico da perichoresis divina (habitação mútua).
Grudem observa:
O fato de que Deus criou duas pessoas distintas que eram
homem e mulher, e não apenas um homem, é parte de nossa
existência à imagem de Deus porque ela pode ser vista
refletindo, em algum grau, a pluralidade das pessoas dentro da
Trindade [...] Há alguma similaridade aqui: exatamente como
houve comunhão, comunicação e compartilhamento de glória
entre os membros da Trindade antes de o mundo ser feito (ver
Jo 17.5,24 e cap. 6 sobre a Trindade), assim Deus fez Adão e Eva
de tal modo que eles compartilhariam amor, comunicação
mútua e dariam honra um ao outro em suas relações
interpessoais. Naturalmente tal reflexo da Trindade viria a se
expressar de várias formas dentro da sociedade humana, mas
ela certamente existiu desde o começo na unidade íntima e
interpessoal do casamento.57
Apesar de o casamento refletir, em vários sentidos, a
unidade da Trindade, os solteiros não estão à margem da
verdadeira humanidade. De acordo com Milne, “Jesus, o
homem normativo, não era casado, e o Novo Testamento
em ponto algum apresenta o casamento como sendo
essencial para uma vida cristã plena”.58 O solteiro pode
desenvolver sua vida cristã e sua humanidade através de
outros relacionamentos humanos assim como Deus, em si
mesmo, tem tanto unidade quanto diversidade. Não é de
surpreender que essa unidade e essa diversidade se
reflitam nos relacionamentos humanos íntimos (mas não
sexuais) que Jesus estabeleceu.59
Cada uma dessas características, e tantas outras,
demonstram que há em cada um de nós a imago dei;
mesmo que o pecado tenha rompido uma série de
relacionamentos (Gn 3.6-19): da humanidade com Deus,
entre seres humanos, e do relacionamento deles com a
natureza, e do restante da criação com ela mesma. A imago
dei nos seres humanos ainda permanece, mas está sujeita
ao pecado. Somente Deus pode restaurá-la, e ele o fará. O
processo foi prometido em Gênesis 3.15 e aponta para o
segundo Adão, Jesus Cristo.
UMA PROPOSTA
Como a Trindade revelou para nós como deveria ser o ser
humano? Podemos encontrar uma imagem humana que
seja exatamente como Deus planejou que deveríamos ser?
Sim! Deus, em Cristo, assumiu a nossa semelhança da
carne, mas sem pecado. Jesus, “ele mesmo é tudo quanto
se pode saber acerca de Deus”60 e de como é o ser humano
perfeito. Ele é a verdadeira imagem de Deus e, assim
sendo, é o verdadeiro homem.
Desta maneira, podemos afirmar que não há outra forma
de podermos conhecer o verdadeiro ser humano enquanto
não o conhecemos em e através de Cristo. O
relacionamento entre as pessoas da Trindade, por exemplo,
é refletido, de alguma forma, quando os seres humanos, em
seus relacionamentos interpessoais, trocam experiências de
comunicação, respeito, amor e apoio mútuo. Tais
características refletem algo essencial quanto à natureza
humana herdada na imago dei.
Quando a Trindade revela Cristo, o Filho do Homem, o
segundo e último Adão, ela manifesta como deveria ser a
perfeita humanidade. Cristo foi um perfeito Filho, o perfeito
amigo, o perfeito servo, o perfeito mestre, o perfeito líder, o
perfeito Deus-homem (Hb 2.17; 4.15). Embora a nossa
humanidade esteja corrompida pelo pecado, prevemos em
Jesus Cristo o homem realizado e glorificado. Ele se
encarnou e assumiu completamente a natureza humana,
mas sem pecado. Assim, vemos em Jesus a riqueza da
imago dei – o arquétipo61 do ser humano na nova criação.
Por este motivo, não podemos perder o foco daquele que
nos fez semelhantes a ele mesmo, pois somos mais
completamente humanos à medida que usamos as aptidões
de personalidade dadas por Deus para louvar e servi-lo.62
CONCLUSÃO
Pela graça de Deus, um dia seremos completamente
conformados àquele que nos salvou. Cristo é o ser humano
perfeito (Rm 8.29; 2Co 3.18). Por termos sido criados
conforme a imago dei e, ao mesmo tempo, termos sido
salvos por intermédio do sacrifício do Filho, o que nos
aguarda é a grande expectativa de sermos completamente
restaurados à imagem que Deus planejou para a nossa
eternidade, quando um corpo glorificado, a comunhão
imaculada com Deus e a ausência do pecado serão a
realidade.
Diante de tudo o que refletimos, podemos compreender
que nossa semelhança com Deus deveria nos constranger a
cuidar melhor do nosso semelhante, bem como do mundo
em que vivemos. Deus não nos criou para vivermos
isolados, mas para relacionamentos. O fato de sermos
portadores da imagem de Deus deveria influenciar a
maneira como tratamos e honramos uns aos outros, tanto
nos relacionamentos familiares, quanto na igreja, na
vizinhança, na cidade em que moramos e aonde quer que
formos. Respeitamos e guardamos os direitos humanos,
porque todos são criados na imagem de Deus. Por
compreendermos melhor que somos imago dei, temos o
dever de proteger os não nascidos, os deficientes físicos e
mentais, os idosos e aqueles que estão privados de
recursos. Além disso, como vice-regente, como imagem do
Rei, o ser humano é governador sobre a criação. Isso
significa que temos responsabilidade também sobre as
demais coisas queforam criadas; nossa tarefa ainda não
terminou.
Em contraste com as diversas formas de filosofia que
tentam explicar quem é o ser humano tendo como base o
próprio homem, o cristão se define olhando para o Deus
tripessoal. O cristão reconhece que sua capacidade de
pensar, comunicar, exercer a vontade, doar-se ao outro,
amar e se relacionar com outros seres humanos, assim
como ser habitado pelo Espírito Santo, é própria da
Trindade.
Ser imago dei é um privilégio, uma inspiração, um deleite.
É saber que não estamos sozinhos no universo. É viver a
experiência de sermos um com Deus, um no corpo de Cristo
e sermos habitados por ele sem destruir nossa pessoalidade
(até para fortalecê-la). É doar-se, é expressar amor, viver
relacionamentos... mesmo com diferenças.
PARA REFLEXÃO
1. Como você explica “Façamos o homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26)? Quais são
algumas das características da imago dei?
2. Como a doutrina da Trindade informa a imago dei? Quais
as diferenças? As semelhanças?
3. Contraste o perfil do ser humano da perspectiva cristã
com a do ateu e a do espírita.
4. De qual maneira a imago dei influencia a minha forma
de viver?
CAPÍTULO 4
A TRINDADE E 
A SALVAÇÃO
AS BOAS NOVAS 
DO DEUS TRINO
L IBNIS S ILVA
“Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo...” Essa será uma das poucas vezes que o novo
convertido, senão muitos crentes, irá escutar sobre a
Trindade de maneira prática.63 Desde os pais da igreja,
estudar a doutrina da Trindade tem sido um encanto e um
desafio. No entanto, muitos não têm ensinado sobre a
Trindade devido à complexidade e às abordagens dadas. A
doutrina da Trindade tem sido reconhecida como uma
doutrina essencial da fé ortodoxa, mas sem nenhuma
ligação com a vida ortodoxa (ortopraxia). Parece que, para
muitos, o conhecimento de Deus e de quem ele é não está
ligado à realidade do cristão no mundo.
Como reverter essa situação tão triste? Um modo de
transformar essa realidade nas igrejas é ensinando como a
Trindade é relevante para o cristão. É começar a ensinar,
não apenas na fase de maturidade do conhecimento cristão,
mas desde cedo, desde o novo nascimento, desde que o
cristão é novo convertido. A Trindade deve ser o
fundamento para a vida do novo convertido, assim como foi
na história da igreja.64
O objetivo central deste capítulo é promover o
conhecimento das maravilhas que o Deus trino fez pelo
pecador. Também, que este texto seja usado pelos irmãos e
pelas irmãs para ensinarem em suas igrejas, em grupos
pequenos e nas famílias. Mas, principalmente, este capítulo
foi escrito para quem está iniciando a fé cristã, que é novo
convertido – de modo que este veja as maravilhas que o
Deus trino fez por ele e assim possa louvá-lo de modo
digno. Que esta geração e as próximas possam entender
que não existe separação entre teologia (doutrina) e
prática.
SALVAÇÃO: O QUE É ISSO?
Se estamos falando da ação do Deus trino para salvar,
precisamos então saber o que é salvação. Qual seria uma
definição simples de salvação? Sobre a natureza da
salvação, o Novo Dicionário de Teologia Bíblica fala: “A
salvação consiste, em essência, no ato ou estado de
livramento do dano ou perigo, físico ou espiritual, temporal
ou eterno”.65 De maneira geral, quanto à situação do
homem, a ideia bíblica de salvação envolve três noções: (1)
resgate do perigo, do pecado, da morte; (2) renovação do
espírito; e (3) reconciliação e restauração de um
relacionamento correto com Deus.66
Assim sendo, qual é o destino, então, daqueles que não
encontram resgate para a morte, renovação de espírito e
restauração de um relacionamento com Deus? A morte é o
destino de todos os pecadores, porque o salário do pecado é
a morte (Rm 3.23; 6.23). A revelação do anjo de Deus dada
a Daniel esclarece: “Muitos dos que dormem no pó da terra
ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para
vergonha e horror eterno” (Dn 12.2).
POR QUE PRECISAMOS SER SALVOS?
Como foi visto, a salvação na Bíblia envolve o resgate, a
renovação e a restauração do perdido. Quem é esse
perdido? Só alguns ou todos? Em que situação está esse
perdido? Ele precisa ser regatado de algum perigo? Do
pecado? Da morte? O perdido precisa somente de proteção?
Ou ele precisa de alguma mudança? Por quê?
Ter essas respostas é extremamente importante, pois
“conhecer as reais dimensões da profundidade do nosso
pecado vai nos ajudar a ter uma perspectiva correta de
quem somos, da intensidade da contaminação e da
grandeza da misericórdia divina”.67
Então, qual é a condição do homem? No salmo 51, lemos:
“Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha
mãe” (v. 5). Desde nossa concepção, já somos culpados
pelo pecado, já nascemos separados de Deus, já que Deus
não pode conviver com o mal.68 Paulo, falando sobre a
condição dos crentes antes de serem salvos, escreve: “...
éramos, por natureza, filhos da ira, como também os
demais” (Ef 2.3), mostrando que o homem possui disposição
para o pecado devido à sua natureza pecaminosa. O estado
do ser humano é trágico. Sem poder se salvar, está
mergulhado em seus desejos pecaminosos, preso a ciladas
do Diabo, longe de Deus, sem esperança no mundo,
carregando uma eterna dívida que não pode pagar e
caminhando a passos largos para a punição eterna. Onde
essa pessoa pode encontrar a salvação?
O DEUS TRINO QUE SALVA O PECADOR
Será que “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” é o
único envolvimento prático da Trindade que precisamos
saber e ser lembrados em nossa vida cristã? Então, quanto
o Deus trino está envolvido na salvação do homem? Será
que podemos estudar a salvação do homem sem falar de
alguma das pessoas divinas? Será que precisamos apenas
dar mais destaque a uma delas?
Infelizmente, para algumas pessoas, essas perguntas são
irrelevantes. “Meu Cristo é suficiente”, alguns dizem.
“Pregar Cristo e somente Cristo é suficiente.” Sendo que,
para essas pessoas, Jesus Cristo é a chave hermenêutica
que destranca tudo. Alguns até citam Paulo: “Mas nós
pregamos a Cristo crucificado...” (1Co 1.23). No entanto,
essas declarações refletem realmente o cristianismo? Lloyd-
Jones nos ajuda com a resposta:
Muitas vezes as pessoas se detêm numa só Pessoa. Alguns se
detêm na Pessoa do pai; falam acerca do Pai e do culto a Deus e
do perdão que se pode obter de Deus; no entanto, em toda sua
prosa e conversa, o Senhor Jesus Cristo não é nem mencionado.
Algumas outras pessoas se detêm única e inteiramente no
Senhor Jesus Cristo. Concentram-se tanto nele que pouco se
ouve sobre o Pai e sobre o Espírito Santo. Há outros cuja
conversação só parece girar em torno unicamente das
manifestações espirituais. Há esse constante perigo de
esquecer-nos de que, como cristãos, temos de,
necessariamente, prestar culto às três Pessoas da Trindade
santa e bendita. O cristianismo é trinitário em sua origem e em
sua continuidade.69
Vamos, então, sem demora, aprender o que o Deus trino
fez para nos salvar?
A Maravilhosa Ação do Deus Pai 
na Salvação do Pecador
Já parou para meditar no que Paulo escreveu em Efésios
1.3? “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual
nas regiões celestiais em Cristo.” Fantástico! Deus nos deu
toda sorte de bênçãos espirituais. O apóstolo Pedro nos diz
mais: “Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido
doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade...”
(2Pe 1.3). Tudo de que precisamos para viver uma vida que
agrade a Deus nos foi dado por ele.
Vejamos, então, as ações do Pai na nossa salvação. O Pai é
aquele que escolhe, que chama, que atrai para Cristo, tudo
porque ama intensamente os seus de modo que deu o que
tinha de mais precioso: seu filho como sacrifício para salvar
o mundo. É dele a salvação, pois estabeleceu sua justiça em
Cristo, para justificar pela fé os que creem (Ef 1.5; Rm 3.26;
8.28; Jo 2.16; At 28.28).
O Pai dá vida, dá um novo coração,perdoa e continua a
perdoar e também santifica. Ele adota, faz seus filhos e
filhas ao enviar o espírito de adoção, tornando-os herdeiros
das promessas; de modo que, agora, são propriedade
particular dele, pois ele habita e anda entre eles, os quais
são santuários de Deus (1Pe 1.3; 1Jo 1.9; Ef 1.5; 2Co 6.16).
Podemos nos achegar a ele do modo que estamos, com a
certeza de que ele nos receberá como filhas e filhos
amados, assim como fez o pai do filho pródigo (Lc 15.11-
32).
O Pai dá o único e perfeito Mediador. Sendo um Pai
protetor, ele garante que irá terminar a salvação que
começou nos seus. O Pai os sela para o dia da redenção e
nunca os abandonará. Todo o processo de salvação é um
presente do Pai (Ef 2.5,8; 4.30; Fp 1.6; Hb 13.5).
A Maravilhosa Ação do Deus Filho 
na Salvação do Pecador
A carta aos Hebreus é um maravilhoso tratado de exaltação
a Cristo e sua obra, pois através da “única oferta pessoal de
seu corpo, Cristo destruiu Satanás (2.14), afastou o pecado
(9.26,28; 10.18), libertou os que estavam em cativeiro
espiritual (2.15) e, assim, trouxe ‘muitos filhos à glória’
(2.10)”.70
Percebemos que Jesus, o Filho, é exaltado em todo o Novo
Testamento, seu nome está acima de todo nome; de modo
que não há salvação por meio de outro nome (Fp 2.9; At
4.12). Jesus, o Filho, é representante e substituto que, no
lugar do pecador, naquilo que Adão falhou e desobedeceu,
obedeceu ao Pai e ofereceu-se como cordeiro sem defeito e
sem mácula, que derramou seu sangue para pagar as
dívidas do pecador e comprá-lo. O Filho é fundamento da
salvação, sendo conhecido como salvador do mundo antes
da sua fundação. Todo seu sacrifício foi porque amou o
pecador (1Jo 2.1-2; Jo 6.39; 10.17-18; 1Pe 1.19-20; Ef 5.2).
Os efeitos de seu precioso sacrifício são para que aqueles
que creem tenham remissão de pecados, reconciliação e
paz com Deus, vida eterna, uma herança e sejam
chamados, justificados, santificados e glorificados (At 10.43-
44; Rm 5.1; 8.30).
A Maravilhosa Ação do Deus Espírito Santo 
na Salvação do Pecador
O Espírito Santo participa ativamente da salvação do
pecador. O pecador é salvo pelo “lavar regenerador e
renovador do Espírito Santo” (Tt 3.4-6). A ação do Espírito
Santo é maravilhosa na vida daquele que é salvo. Ele nos
vivifica, chama efetivamente, regenera, justifica, santifica,
nos transforma à imagem de Cristo, nos une a Cristo, aplica
os méritos de Cristo, testifica que somos filhos de Deus e
nos habilita a chamar “Aba, Pai”, intercede por nós, nos sela
e ainda milita contra a nossa carne (1Co 2.14; Jo 6.63;
16.14; 2Co 3.18; Rm 8.16; Gl 4.6; 5.17; Ef 1.13; 4.30). Assim
como Pedro e João em Atos 4, somos cheios do Espírito
Santo para dar testemunho do poder de Deus em
transformar vidas.
DA TEOLOGIA À PRÁTICA: REFLETINDO 
O DEUS TRINO EM NOSSO DIA A DIA
Somos muito bons em falar das maravilhas feitas (passado)
pelo Deus trino, ou somos muito enfáticos no que
acontecerá (futuro) quando o Senhor Jesus Cristo retornar.
Mas quais são as implicações da salvação do Deus trino
para o nosso presente?
Creio que uma das melhores formas de perceber as
maravilhas da salvação para nosso dia a dia seja lendo a
carta aos Efésios. Paulo sumariza para nós a doutrina da
salvação e ainda demonstra que a boa prática está ligada
diretamente à boa teologia.
Prioritariamente, a finalidade da salvação se refere a
receber uma nova identidade para relacionar-se com Deus.
Essa nova identidade não só muda o status, mas também
muda as ações, os pensamentos, as emoções, os
relacionamentos.
Efésios nos mostra isso. Paulo estrutura a carta de maneira
fantástica! Na primeira parte da carta (caps. 1-3)
aprendemos: sobre o que somos em Cristo, qual é nossa
nova identidade, que somos capacitados para viver uma
nova vida e que somos parte de um corpo onde Cristo é a
cabeça. Essa nova identidade é dada pelo Deus trino, que
age para salvar (1.3-14), transformar (2.1-8) e capacitar
(1.19-20). Aquilo que somos em Cristo, somos pelo fruto da
ação do Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Sempre que pego
meu RG, gosto de lembrar como ele não reflete quem
realmente sou. Deixe-me explicar melhor. Primeiro, lembro
que a data de nascimento foi mudada – nasci de novo (2.1);
depois, vejo que minha filiação é outra – agora sou Filho de
Deus (1.5). Agora minha naturalidade é especial – sou
concidadão dos santos (2.19). Mas não para por aí: o
registro que garante isso é o livro da vida (Ap 3.5) e a data
do registro é de antes da fundação do mundo (Ap 17.8). E,
por último, lembro que receberei um novo nome (Ap 2.17).
Fantástico, não?! Que Deus maravilhoso!
Na segunda parte da carta (caps. 4-6), Paulo nos mostra as
implicações daquilo que somos. Ele diz: “Rogo-vos... que
andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”
(4.1). Em outras palavras, diante da salvação que
recebemos de Deus, devemos viver de modo a engradecer
o Deus que representamos. A igreja, a comunidade de
novas pessoas, carrega o reflexo de Deus “para que, pela
igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne
conhecida...” (3.10). Nos capítulos finais, aprendemos de
forma clara e prática a refletir o Deus trino. Devemos andar
em humildade, paciência e unidade, pois “há somente um
corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa
só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só
fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos...” (4.4-5).
Devemos andar em amor, sendo imitadores de Deus (5.1).
Devemos andar como filhos da luz (5.8), evitando a idolatria
e a imoralidade. Devemos andar como sábios (5.15),
remindo o tempo e estando cheios do Espírito (5.18). As
implicações não param aí. Uma vida cheia do Espírito Santo,
então, nos leva a relacionamentos que glorificam a Deus:
marido e mulher (5.22-33), pais e filhos (6.1-4), patrões e
empregados (6.5-9).
Não podemos dissociar nossa vida da teologia. Precisamos
mergulhar profundamente no que Deus fez por nós e
entender melhor o seu amor, para que cheguemos no ápice
de nossa salvação. De modo que, como Paulo diz,
precisamos orar mais “a fim de poderdes compreender, com
todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a
altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que
excede todo entendimento, para que sejais tomados de
toda a plenitude de Deus” (3.18-19). Mas, qual é o ápice da
salvação? O que é ser tomado de toda a plenitude de Deus?
O ÁPICE DA SALVAÇÃO
Realmente são maravilhosos e grandiosos os feitos de nosso
Deus trino por nós, mas qual a finalidade de todos esses
feitos? Sabemos que o fruto final dos feitos do Deus trino
para salvar o homem (Ef 1.6,12,14), bem como tudo que
fazemos (1Co 10.31) deve ser para a glória de Deus. Mas
será que a salvação proporcionada por Deus tem por
finalidade apenas livrar-nos da condenação eterna, do
inferno? Será que a finalidade é receber bênçãos? Ou será
que nos dá possibilidade de termos bons relacionamentos
com o próximo? Qual é o ápice da nossa salvação?
O ápice da nossa salvação é a restauração do
relacionamento com Deus. O ápice da salvação é sermos
plenos de Deus (Ef 3.19). Veja só! Já imaginou não ir para
uma separação eterna de Deus, mas para o céu com Deus?
Já imaginou ser salvo do inferno, ter seus pecados (suas
dívidas) pagos, mas permanecer sem um coração que pulsa
por Deus? Como podemos desejar o amor de Deus e suas
dádivas sem primeiramente desejá-lo?
Infelizmente repetimos os mesmos erros e nos enganamos
amando e desejando mais e mais bênçãos e o amor de
Deus sem realmente desejarmos um relacionamento com
ele. Como explica John Piper: “Desde o primeiro pecado no
jardim do Éden até o Juízo Final, no Grande Trono Branco, os
seres humanos continuarão a aceitar o amor de Deus como
aquilo que nos dá tudo, exceto ele mesmo. De fato, existem
milhares de dádivas que fluem do amor de Deus. [...] Mas
nenhuma dessas dádivas nos levará ao gozo final, se não
nos tiverem levado primeiramente a Deus”.71
Qual é o gozo finalda vida dos crentes de nossos dias?
Será que nossa alma tem anseio por Deus (Sl 143.6)? Será
que nossa alma suspira por Deus (Sl 42.1)? Será que temos
sede de Deus (Sl 42.1-2)? Infelizmente não. Atualmente, as
gerações têm se afastado de Deus até mesmo buscando o
amor, ou os dons de Deus. No entanto, o ensinamento
bíblico é que o melhor e mais importante dom do amor de
Deus é o desfrutar de quem ele é.72
É impressionante que, quando lemos os livros de teologia
sistemática, vemos muitas discussões sobre a ordem de
salvação (as várias visões de salvação, a cruz de Cristo, por
quem Cristo morreu), de modo que nos concentramos muito
na obra e no processo de salvação e nos esquecemos dos
motivos da salvação do homem e sua finalidade, o ápice da
salvação. Este ápice é ser dele, é estar nele, é ter
comunhão com ele eternamente.73 Jesus Cristo, falando da
finalidade de sua obra, diz: “A fim de que todos sejam um; e
como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles
em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo
17.21). Reeves, falando da obra do Espírito Santo, também
nos leva ao “ápice” de nossa salvação: “A vida que o
Espírito dá não é algo abstrato. Na verdade, não é
primariamente uma coisa o que ele dá. O Espírito nos dá
seu próprio ser, para que possamos conhecer e desfrutá-lo,
e, assim, desfrutar de sua comunhão com o Pai e o Filho”.74
A obra do Deus trino para salvar o pecador é grandiosa,
maravilhosa e cheia de detalhes. Não precisamos nem
devemos reduzir o evangelho a uma pessoa da Trindade.
Precisamos ter em nossa mente que “o evangelho é do
tamanho de Deus, porque Deus se coloca nele. O Deus vivo
se liga a nós e torna-se a nossa salvação, a vida de Deus na
alma do homem. Somos salvos pelo evangelho de Deus
para adorar o Deus do evangelho”.75
É muito triste ver que muitos desejam, amam, buscam,
louvam as bênçãos que Deus dá. Muitos têm colocado seu
coração, sua alma, sua força e seu entendimento mais em
dons e em coisas do que no Deus que dá todas essas
maravilhas. Louvor, honra e gratidão são características
daqueles que conhecem o Deus trino.
Mais do que salvação, é desfrutar da maravilhosa e
perfeita comunhão com o Deus trino, é amar e desejar a
Deus com todo o nosso ser.
PARA REFLEXÃO
1. Daquilo que você viu que o Deus trino fez por você, o
que mais chamou a sua atenção? Por quê?
2. Você conhece alguém que não gosta de teologia porque
é difícil e não é prática? O que você diria agora para essa
pessoa sobre doutrina e prática?
3. Qual tem sido o “ápice” da salvação para você? Se não
sabe, pense naquilo que você mais agradece a Deus em
sua salvação.
4. O quanto o relacionamento com o Deus trino faz
diferença em sua vida? Quais atitudes você precisa rever
na sua vida, já que você tem um relacionamento com o
Deus trino?
CAPÍTULO 5
A TRINDADE E 
OS JOVENS
AUTOCONCEITO, 
INTIMIDADE E SEXO
CARLOS FEL IPE OL IVEIRA DO NASCIMENTO
O teólogo russo Vladimir Lossky diz: “Se rejeitarmos a
Trindade como o fundamento de toda realidade [...] estamos
comprometidos com uma estrada que leva a lugar nenhum;
terminamos em contradição, em tolice, em desintegração
do nosso ser”.76 Essa afirmação é precisa e alerta para a
importância da Trindade ser o referencial interpretativo das
experiências humanas.
A juventude é uma época carente de referenciais. Zygmunt
Bauman afirma que, à medida que os jovens se deparam
com as incertezas e as inseguranças da cultura atual, suas
identidades sociais, culturais, profissionais, religiosas e
sexuais sofrem um processo de transformação contínua.77
Portanto, é comum faltar compreensão correta da própria
identidade aos jovens, o que impacta diretamente seus
relacionamentos.
Assim, entender as relações intratrinitárias é
imprescindível à juventude. A Trindade fornece a
perspectiva segura para que eles interpretem a si mesmos e
suas relações, de modo que interajam com o mundo de
modo apropriado. Desse modo, a Trindade ressignifica
questões relacionadas ao autoconceito e também questões
relacionadas à intimidade, ao sexo e casamento.
QUESTÕES RELACIONADAS 
AO AUTOCONCEITO
Senso de Inadequação
Cada pessoa possui diferentes dons, características e
oportunidades. Essas diferenças, quando mal-interpretadas,
podem gerar desconforto e levar a comparações com (e até
mesmo inveja de) quem possui condições diferentes. Esse
modo de pensar equivocado é comum no jovem brasileiro.78
Pondé afirma que essa é a geração dos ressentidos, “que
pensam que todos deviam amá-los mais do que amam e
que acham que todos deviam reconhecer neles os grandes
valores que eles não têm”.79
Contudo, a doutrina da Trindade os ajuda a construírem
sua identidade no fundamento correto, pois mostra que há
mais de um modo de ser pleno (Cl 1.19; 2.9). Os membros
da Trindade são pessoas distintas, no entanto, todos são
iguais em essência. Uma pessoa não é a outra; ainda assim,
as três pessoas possuem a mesma plenitude divina. Ou
seja, na Trindade, a dignidade se mantém apesar das
diferenças.
De maneira semelhante, há inúmeros modos de um jovem
cristão ser agradável a Deus, uma vez que o que o torna
digno é o fato de Deus ter feito habitar nele sua plenitude,
na pessoa do Espírito Santo (Cl 2.10). Portanto, à medida
que esse jovem vive pelo Espírito (Gl 5.16), sua vida é
agradável a Deus. Quando Deus nos estabelece em
condições diferentes, ele não nos faz pessoas diferentes em
valor ou dignidade. Assim como as pessoas divinas são
funcionalmente diferentes ainda que iguais em essência,
também nós, embora diferentes, podemos ser agradáveis a
Deus.
Portanto, é perfeitamente possível ser agradável a Deus
independentemente das circunstâncias (casado, solteiro,
empregado, desempregado, estudante etc.). As diferenças
humanas foram estabelecidas pelo próprio Deus para
refletir sua multiforme graça (1Pe 4.10). Diferentemente do
conceito popular, Deus ama a diversidade que ele próprio
criou. Nele, a diversidade não é empecilho, mas motivo de
glória.
Senso de Autossuficiência
Deus nos ordena a amarmos e servirmos uns aos outros (1Jo
4.7; Gl 5.13). Vida cristã é uma vida de altruísmo
demonstrado em amor sacrificial. Apesar disso, dados
recentes comprovam que, embora 60% dos adolescentes
sirvam na igreja, esse número cai para 30% entre jovens
adultos.80 De fato, tem sido cada vez mais difícil encontrar
jovens adultos dispostos a servir, especialmente quando
entram na universidade e, subsequentemente, no mercado
de trabalho.81
A Trindade ajuda nesse cenário, pois ensina a importante
lição de que dar é receber. Tomemos como exemplo a
relação entre o Pai e o Filho – Deus Pai entrega a si mesmo a
Deus Filho. Ele não retém, mas compartilha tudo. Tudo que o
Pai é – a completa e indivisível essência divina – ele
compartilha com o Filho.82 O Pai se doa ao filho. Ao Filho,
portanto, não falta nada daquilo que o Pai é. Toda a glória
divina e majestade do Pai pertencem também ao Filho (Jo
3.35; 14.10; 16.15; 17.7,10).
Isso, no entanto, não significa que o Pai, ao se doar ao
Filho, sai prejudicado. Pelo contrário, apenas ao doar-se ao
Filho é que o Pai existe como Pai. Se o Pai não se doasse ao
Filho, então, o Filho não existiria; no entanto, se o Filho não
existisse, tampouco o Pai poderia existir, já que não é
possível haver um Pai a não ser que haja um Filho. É ao
doar-se ao Filho que o Pai estabelece sua própria identidade
como Pai. A mesma verdade pode ser dita acerca das
demais relações intratrinitárias.
Esse princípio se aplica aos seres humanos. Todo serviço
cristão envolve entregar algo de nós (emocional, mental,
física ou materialmente).83 No entanto, doar-se dessa
maneira não nos diminui. Pelo contrário, nos engrandece.
Nós fomos criados para refletir a vida da Trindade, e quando
as pessoas da Trindade se doam, elas também recebem.
Essa é uma das razões por que Cristo ensinou que “mais
bem-aventurado é dar que receber” (At 20.35).
Senso de Solidão
Muitosjovens sofrem com solidão, um problema que só
aumenta à medida em que estes envelhecem.84 Estudos
realizados na Inglaterra apontam que 53% dos jovens se
sentem deprimidos por causa da solidão85 e 48% dos jovens
entre 18 e 24 anos afirmam se sentir solitários na maior
parte do tempo.86 A solução para essa “carência relacional”
está na correta compreensão da Trindade. A Trindade
apresenta um Deus relacional que, surpreendentemente,
nos convida a desfrutarmos de relacionamento, intimidade e
pertencimento com ele.
Pai, Filho e Espírito Santo se relacionam entre si. Eles se
amam e vivem em comunhão e comunidade. As pessoas da
Trindade são amigas, e por isso Deus pôde nos tornar seus
amigos (Jo 15.15; Tg 2.23; Is 41.8). Diferente de nós, que
constantemente fazemos coisas que desejamos não ser
expressão de quem somos, Deus sempre age de modo
consistente com quem é.87 Porque Deus nos fez seus
amigos, nós podemos ter certeza de que ele é amigo
(enquanto permanece Senhor e Deus – cf. Jo 15.14-15).
Quando Deus nos torna seus amigos, isso significa que ele
é amigo.88 Deus nos tornar seus amigos e nos inserir em um
relacionamento de amor, de perdão e de cuidado é algo
insondável. E, ainda assim, é o que Deus faz. Dizer que ele
é nosso amigo, portanto, não prejudica sua transcendência,
mas respeita quem ele revelou ser.
Porque as pessoas da Trindade são amigas entre si e
porque Deus é nosso amigo é que podemos ser amigos uns
dos outros. Isso é uma implicação de termos sido feitos à
imagem e semelhança desse Deus.89 Assim como a
Trindade mostra que Deus existe em relacionamento
comunitário, nós só refletimos a imagem de Deus no mundo
quando não vivemos em isolamento, mas quando vivemos
em relacionamento uns com os outros (Gn 2.18; Ec 4.10).
Precisamos de relacionamentos, inclusive (e em especial)
porque pessoas irão nos rejeitar neste mundo caído,
conforme o próprio Jesus ensinou. Em resumo, amizade
reflete a imagem de Deus porque o Deus trino é amigo.
Em um mundo marcado por distanciamentos, solidão e
relacionamentos quebrados, a Trindade nos oferece recursos
para realmente não estarmos sós. Viver de acordo com
nossa criação à imagem do Deus trino é o contrário de viver
isolado. Nosso chamado é para vivermos em comunidade,
em suporte mútuo e de sermos uns pelos outros, não
apenas fazermos coisas uns pelos outros. Nosso chamado é
para termos e sermos amigos, especialmente no meio
cristão (Gl 6.10).
QUESTÕES RELACIONADAS À 
INTIMIDADE, SEXO E CASAMENTO
Amor Abnegado e Sacrificial
Na Trindade, temos um Deus que, em essência, ama (Jo
17.24). Reeves afirma que, antes de criar o universo, Deus
sempre amou.90 Sempre existiu amor em Deus, ele é fonte
de amor e não pode não amar.91 Portanto, porque Deus é
amor (1Jo 4.8,16) é que ele pode se autocomunicar conosco
em amor. O amor trinitário se manifesta na disposição de se
doar pelo bem do ser amado (Jo 3.16; 14.31).92
Todo relacionamento amoroso humano só é significativo
quando reflete o amor do Deus trino. É por isso que
qualquer relacionamento romântico que se baseie em
paixões oscilantes e em impulsos carnais, e não no amor, é
o oposto do que Deus deseja para um jovem cristão,93 pois
seu objetivo é extrair algo do outro e não se doar em função
do seu bem. Por isso, também, é que o relacionamento
amoroso de um cristão com um incrédulo sempre será
disfuncional, pois este último não é capaz de amar
conforme Deus sem conhecê-lo como o amor absoluto (1Jo
4.19). O Espírito Santo ensina o cristão a amar dessa
maneira (Rm 5.5; Cl 1.8) e refina o amor de homem e
mulher para que este reflita o amor trinitário.
Equilíbrio Entre Unidade e Singularidade
Na Trindade, o amor perfeito gera unidade completa (Jo
10.30), e essa unidade é o mais elevado e influente modelo
para a unidade que jovens desfrutarão no casamento. Essa
unidade irá além do sexo e se manifestará em várias
dimensões do casamento. Envolverá cada cônjuge indo
além de si mesmo e se doando pelo outro, gerando unidade
entre pessoas equivalentes em dignidade, mas diferentes
entre si.
É em sua vida relacional que o casal manifestará unidade
em meio às diferenças pessoais. Assim como ocorre na
Trindade (Jo 14.28; 5.19), o amor entre homem e mulher
deve uni-los sem destruir a singularidade. Os jovens
deverão compreender suas características singulares e
permitir que o outro tenha a liberdade de desenvolver seu
potencial e os dons dados por Deus no casamento.
No entanto, as singularidades devem ser incentivadas
apenas se conservam os papéis bíblicos para cada cônjuge.
No casamento, o marido ama sua esposa (Ef 5.25) enquanto
exerce posição de autoridade espiritual sobre ela (Ef 5.23),
ao passo que ela o respeita enquanto se submete à sua
autoridade (Ef 5.22-24,33). Essas definições soam absurdas
para a juventude atual, que tem sido orientada em direção
a uma autoperspectiva equivocada desde tenra idade.94
Porém, quando consideramos a Trindade, vemos que o Pai
ama o Filho (Jo 3.35; 5.20) e tem autoridade sobre ele, uma
vez que foi o Pai quem o enviou (Jo 4.34; 5.36), assim como
o Filho ama o Pai e se submete à vontade dele (Jo 14.31).95
Portanto, quando vemos a diferença funcional entre Pai e
Filho e reconhecemos que isso não implica em diferença de
natureza ou importância entre ambos, podemos aplicar isso
ao casamento e reconhecer que a autoridade espiritual que
o futuro marido terá sobre sua futura esposa em nada
diminuirá a qualidade ou a importância dela. Entender os
relacionamentos da Trindade econômica (i.e., enquanto se
relaciona conosco) conforme revelado para nós nas
Escrituras nos ajuda a entender melhor a diferenciação de
papéis no casamento e como, a partir dela, surge a
unidade.96
Intimidade e Permanência
Dentro da Trindade, há profunda intimidade. Na teologia, a
intimidade trinitária é chamada de perichoresis – a eterna
coabitação (ou interpenetração) das pessoas da Trindade.
No casamento, o ato sexual, mais do que experiência
sensorial, é o ato supremo de intimidade. Ele aponta para a
Trindade à medida que o casal, ao fisicamente entregar
seus corpos um ao outro, se torna uma analogia física de
Deus – duas pessoas coabitando (interpenetrando-se),
formando apenas uma (Gn 2.24), assim como, em Deus,
três pessoas coabitam e formam um único ser. Portanto, a
santidade do sexo matrimonial reside no fato de que apenas
no casamento é possível haver plena unidade, por aliança,
entre as duas vidas, sendo o sexo a manifestação visível
dessa unidade.
Intimidade, no entanto, não se limita ao sexo. Intimidade é
a construção de um relacionamento que permanece por
toda a vida, baseada no conhecimento mútuo. No entanto, é
apenas com uma consciência clara de si mesmo que alguém
pode dar-se a conhecer, de fato. Muitos jovens conduzem
namoros e contraem casamentos vivendo uma mentira –
fingindo ser quem o outro deseja e não quem de fato é.
Isso, com o tempo, mata a relação, pois mina a intimidade.
Intimidade madura exige de cada cônjuge a convicção
acerca de sua identidade pessoal e da sua responsabilidade
com a verdade. Se a relação não se basear na veracidade, o
resultado não será intimidade e esta se limitará a mera
junção simbiótica de corpos humanos no ato sexual. Não é à
toa, portanto, que tantos casais hoje preferem apenas
desfrutar de intimidade sexual, sem necessariamente
desfrutar da intimidade gerada pela vida matrimonial.97
Enquanto os relacionamentos trinitários são eternos, o
relacionamento matrimonial deve ser permanente e durar
até que a morte de um dos cônjuges o encerre. O
compromisso de casamento deve ser irrevogável, como
reflexo da inquebrável relação intratrinitária (Mt 19.6).
Muitos jovens se casam hoje sem entenderem como a união
do casal deve refletir a união trinitária, e se separam por
motivos e valores mundanos.98 No casamento, um cônjuge
só cumprirá o compromisso que assumiu com o outro,
apesar das frustrações e limitações, se depender do
referencialde permanência relacional da Trindade. Sem a
resiliência demonstrada pela Trindade, o medo do que o
compromisso pode exigir a longo prazo pode sobrepujar o
impulso do casal em direção à permanência.99
Vale lembrar que, diferentemente das pessoas da Trindade,
os cônjuges humanos sempre serão imperfeitos em si e em
suas relações. Nenhum deles será aquilo que quer ser ou o
que precisa ser. Ainda assim, a aliança de casamento diante
de Deus permanece. Um ser humano expressa seu amor e
fidelidade a Deus ao ser fiel a seu cônjuge, mesmo nos
períodos de tensão.100
CONCLUSÃO
A Trindade não é apenas a criadora da realidade, mas é o
próprio eixo interpretativo dela. Aqueles que Deus chamou
para serem seu povo devem, portanto, refletir o Deus a
quem adoram no modo como interpretam e conduzem suas
vidas.
As relações intratrinitárias são um referencial seguro para
a construção de um autoconceito equilibrado na juventude.
A partir do relacionamento entre Pai, Filho e Espírito, o
jovem cristão realinha sua perspectiva, lidando tanto com o
senso de inadequação (causado por uma má compreensão
acerca do que o torna digno) quanto com o senso de
autossuficiência (causado por uma convicção distorcida de
que é inútil se doar a outros). A Trindade também
reconfigura o coração solitário do jovem, pois mostra que
convida o jovem para uma relação de amizade. Por conta
disso, este pode construir amizades significativas,
especialmente com seus irmãos na fé.
As relações intratrinitárias também auxiliam a juventude
nas questões relacionadas à intimidade, ao sexo e
casamento. O modelo fornecido por Pai, Filho e Espírito
Santo ensina que o fundamento do relacionamento deve ser
o amor abnegado e sacrificial em vez de carnalidade e
paixões desordenadas; esclarece a diversidade de papéis na
relação conjugal ao mesmo tempo em que fortalece a
unidade, valorizando tanto a singularidade quanto a
complementaridade. Por fim, a Trindade propõe que a
construção de uma vida comunitária exige intimidade
crescente e veracidade constante, de modo que a relação
permaneça até que a morte os separe.
Há outras áreas em que a Trindade reorienta os jovens, as
quais exigem aprofundamento maior. Uma delas é a relação
entre o envio do Espírito pelo Pai e Filho e como isso
impacta o desejo de casais cristãos de terem (ou não) filhos,
para serem instrumento de bênção ao mundo. De todo
modo, as áreas abordadas aqui são suficientes para mostrar
que é a partir do Deus trino que os jovens cristãos
reinterpretam sua trajetória, e é apenas ao refletir esse
Deus que passam a viver de modo pleno.
PARA REFLEXÃO
1. Os cristãos são acusados por muitos de serem contra a
“diversidade”. Como a doutrina da Trindade rebate essa
acusação ao mostrar que Deus cria pessoas diferentes
para sua glória? Como a diversidade, segundo Deus, é
diferente da “diversidade” segundo a cultura vigente?
2. Como as relações de mútua autodoação das pessoas da
Trindade fornecem um parâmetro para a frequência,
contribuição e serviço dos jovens em sua igreja local?
3. “Em um mundo marcado por distanciamentos, solidão e
relacionamentos quebrados, a Trindade nos oferece
recursos para realmente não estarmos sós.” Como essa
verdade deve impactar nossas amizades na era de
relacionamentos virtuais, redes sociais e conexões
digitais?
4. Como a equivalência em essência e a diferença de
papéis entre as pessoas da Trindade ensinam maridos e
esposas acerca da real natureza de sua relação no
casamento?
5. Como os conceitos de autodoação e de coabitação entre
as pessoas da Trindade devem impactar as concepções
de amor, sexo e intimidade de um casal?
CAPÍTULO 6
DICAS PARA UM CASAMENTO E UMA
FAMÍLIA SAUDÁVEIS
A TRINDADE COMO PRINCÍPIO FORMADOR,
PARADIGMÁTICO E ORIENTADOR DA
FAMÍLIA
CREUSE P. SANTOS
ENTÃO, A FAMÍLIA MORREU MESMO?
De tudo o que Deus criou, talvez o que vem mais recebendo
ataques em nossos dias é justamente a família. Vivemos
num mundo onde se declara a morte da família,101 e há
uma quantidade imensa de divórcios, até mesmo entre
cristãos, como testemunho dessa realidade. Além disso,
discussões como homossexualidade, identidade de gênero,
poliamor, dentre outras, têm lançado ainda mais críticas ao
que até hoje era chamado de família.
Em muitas cidades brasileiras, escolas estão cancelando
Dia dos Pais e Dia das Mães para substituí-los pelo Dia da
Família, pois já é realidade definir como “família” a união de
duas pessoas do mesmo sexo. E para que ninguém fique
constrangido, o Dia da Família homenageia a todos, sem
definir homem (pai) ou mulher (mãe) como no modelo
anterior. Alguns ambientes públicos já têm banheiros
unissex e já é possível ver nas ruas meninos que nasceram
com o sexo masculino serem criados como meninas,
vestindo roupas de meninas e desfilando com bonecas nas
mãos. Mais recentemente, o governo brasileiro iniciou uma
discussão sobre o reconhecimento civil do que vem sendo
chamado de poliafetividade,102 ou seja, a união amorosa
entre três pessoas.
Além dessas questões, temos uma grande maioria de
casais que decide se casar, mas não quer ter filhos para
poder se dedicar à carreira, à profissão ou como dizem:
“Viajar, passear e curtir a vida, sem filhos para atrapalhar”.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD) de 2014,103 realizada pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada, apenas 44,8% das famílias brasileiras
são consideradas famílias tradicionais, compostas de um
homem (marido), uma mulher (esposa) e seus filhos.
Não é exagero se ainda adicionarmos, a essa salada mista,
os animais, que atualmente são tratados como gente, e
para muitos são membros da família. Segundo uma
pesquisa atual do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC
Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas
(CNDL), 61% dos entrevistados consideram seus animais de
estimação como um membro da família e gastam em média
184 reais mensais com seus pets.104 Já existe todo tipo de
amparo para os bichinhos: salão de beleza, hotel, hospital,
plano de saúde, esteticista, serviço de táxi, cemitério etc.
As relações deixaram de ser duradouras e os vínculos
familiares têm sido cada dia mais facilmente rompidos. Já é
realidade no país existir mais uniões estáveis do que os
tradicionais casamentos civis.105 Ou seja, basicamente, o
novo conceito de família, que está sendo cada vez mais
aceito socialmente e já é maioria no país, é:
1. Qualquer número de pessoas ou animais;
2. De qualquer gênero;
3. Que vivam no mesmo ambiente familiar ou não;
4. Podendo ter filhos ou não;
5. Que quando têm filhos, estes podem ser da relação
atual ou de diversas outras, além de adotivos;
6. Que criam seus filhos sem preocupação de transmitir-
lhes qualquer identidade de gênero.
Portanto, a família não é mais reconhecida sequer pelos
laços de ancestralidade ou grau de parentesco, tem prazo
de validade, aceita até animais e, em geral, está unida em
torno de uma criança.106
Vendo esse quadro sobre família, temos que nos perguntar:
o que Deus acha disso? Como o fato de o homem refletir a
imago dei pode dar alguma orientação nesse sentido?
Sendo este um livro sobre a Trindade, como podemos
avaliar a família à luz de um Deus trino?
TRINDADE E FAMÍLIA
No capítulo 3, vimos um vasto panorama histórico-
sistemático do ser humano como sendo criado para refletir
a imagem e semelhança de Deus, a imago dei. Essa
definição deixa bastante evidente que, à luz da Bíblia, os
parâmetros epistemológicos de definição de família que os
cristãos devem assumir não vêm da sociologia, da
psicologia ou até mesmo do que é aceito socialmente. Ou
seja, aquilo que os cristãos devem aceitar como família vem
do Criador e de seus propósitos criacionais, dentre eles o de
revelar o próprio Deus. Deste modo, podemos afirmar, com
base em Gênesis, que Deus é revelado em uma relação
monogâmica e vitalícia, entre homem (masculino) e mulher
(feminino), capaz de se reproduzir e ter filhos,que por sua
vez devem refletir a imagem de Deus.107
A Trindade como Resposta ao Poliamor e ao Divórcio
Podemos ressaltar que, ainda que Deus expresse
pluralidade nas diferentes pessoas da Trindade, essas
pessoas formam uma unidade indivisível. O casamento,
ainda que envolva duas pessoas distintas, recebeu o
decreto de que eles seriam “uma só carne”. Ou seja, a
vontade primordial de Deus para o homem e a mulher é que
o prazo de validade para o fim do casamento seja somente
a morte, e não traições, ciúmes, dinheiro, e o mais famoso
dos motivos, incompatibilidade de gênios.
Assim como um Deus plural e indivisível, também deveria
a união matrimonial plural (homem e mulher) representar
essa indivisibilidade na figura de uma só carne no
casamento. Nada deveria ser motivo de divórcio, como
expressam as fortes palavras de Jesus: “Não foi assim desde
o princípio” (Mt 19.8), e a reação dos discípulos: “Se essa é
a condição do homem relativamente à sua mulher, não
convém casar” (19.10).
É claro que vivemos tempos difíceis e as pessoas
enfrentam situações de pedofilia, de violência doméstica, de
ameaças contra a vida etc. Em situações assim, é evidente
que, para preservação da vida, é melhor a separação. Mas
essas devem ser exceções. A regra é a indissolubilidade do
casamento, que deveria ser preservado a todo custo, e, por
isso, em nossas igrejas, o divórcio não deveria ser
banalizado, sendo algo comum e normal.
Como diz a famosa música “... é preciso amar as pessoas
como se não houvesse amanhã”,108 as Escrituras
descrevem que Deus é amor (1Jo 4.7-8). Isto é, o amor não
é um simples sentimento passageiro, o amor não é uma
emoção, o amor não é uma troca, o amor é uma pessoa:
Deus. Ou seja, ele é a única fonte de amor verdadeiro e
também o exemplo de amor (1Jo 4.10), por isso podemos
afirmar que o amor jamais acaba (1Co 13.8).
Um casal que quer fugir do divórcio deve estar fortemente
apegado a Deus, manifestando assim a presença dele, em
obediência a ele (1Jo 4.3), pois é esse amor que tudo sofre,
tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Co 13.7). Esse amor
não é uma opção pelo outro nem pelo que ele tem para
oferecer, é uma opção por Deus, pelo amor que ele já
ofereceu na cruz, é uma opção pela obediência, que muitas
vezes vai contra todo sentimento humano; um amor que
envolve morrer para si mesmo, como um sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus. O casamento deveria ser um dos
relacionamentos humanos que mais apontam para essa
escolha incondicional, definitiva e inabalável de amar
alguém até o fim da vida como Jesus amou (Jo 13.1).
A Trindade como Solução para 
o Machismo e o Feminismo
Também é importante notar que Deus expressa
singularidade nas pessoas da Trindade, e cada uma destas
pessoas tem funções diferentes. Deus também expressou
isso ao criar dois seres distintos, que, apesar de plenamente
iguais em termos de sua humanidade e dignidade, são
completamente diferentes em funções. Por mais que o
feminismo tenha surgido e queira lutar contra os fatos, é
evidente que, desde a constituição física, até a espiritual,
holisticamente, homens e mulheres são significantemente
diferentes, e essas diferenças claramente apontam para
funções diferentes.
Adão não é auxiliador idôneo de Eva, nem Eva foi
responsável pelo pecado entrar no mundo (Rm 5.12), ou
seja, Deus fez Adão e Eva com funções diferentes. Jesus foi
submisso ao Pai, como a mulher deve ser a seu marido;
Jesus se sacrificou pela igreja para realizar a vontade do Pai,
assim como o marido deve fazer por sua esposa. Ou seja,
tanto a mulher quanto o homem, ao expressarem suas
diferentes funções, expressam nuances distintas das
diferentes pessoas da Trindade.
A relação de exclusividade e mútua procedência da
Trindade (pericorese) pode ser demonstrada no casamento
através de um pertencimento mútuo, em que o homem
pertence à mulher e a mulher ao homem (1Co 7.4), e em
uma relação de exclusividade e fidelidade total, o que
também nomeamos de monogamia: um homem com uma
mulher, um para um, um de um, um com um. Essa
monogamia expressa não só a natureza do casamento,
como também a natureza daquele que os criou.
Além disso, as relações intratrinitárias ensinam que, ainda
que haja uma submissão funcional, como a de Cristo para
com o Pai (e da mulher para o marido), isso, de nenhuma
maneira, expressa que qualquer das pessoas da Trindade é
superior à outra. Muito pelo contrário, Jesus e o Pai são um.
Pessoas diferentes, mas de essência e existência igualitárias
e unas.109
Jesus é tão Deus quanto o Pai, tão onisciente, onipotente,
onipresente, autoexistente, eterno, soberano etc.,
participando igualitariamente em todos os atributos divinos
com o Pai e o Espírito. E até mesmo aquilo que afirmamos
da submissão do Filho ao Pai é algo limitado em expressar a
realidade da Trindade. Pois a vontade do Pai é a mesma do
Filho. Em última instância, Jesus, ao se submeter à vontade
do Pai, se submeteu à sua própria vontade soberana. Ao
mesmo tempo em que o Pai se submeteu a Jesus em aceitar
a vontade dele, de não se apegar à condição de Deus e
adentrar a natureza humana.
Essa realidade é expressa no casamento, ou seja, se a
mulher deve se submeter ao seu esposo, isso jamais deve
ser feito contra sua própria vontade. Não é uma submissão
imposta pela força, autoritária ou violenta, mas uma
submissão voluntária, cheia da consciência de que é uma
submissão baseada no amor sacrificial como o de Cristo
pela igreja. Por outro lado, Paulo, em Efésios 5.21, afirma
que essa submissão é mútua e recíproca, ou seja, o marido
também deve ser submisso à sua esposa, e a forma como
ele demonstra essa submissão é reproduzindo o serviço,
humildade e sacrifício de Cristo, abrindo mão de si mesmo,
morrendo para si mesmo e cuidando de como agradar a sua
esposa (1Co 7.33). Sendo assim, a submissão da mulher
deve ser uma submissão como a de Cristo a Deus Pai, e a
submissão do homem deve ser como a de Cristo à igreja.
Em ambos os casos Cristo se submeteu, e em ambos essa
submissão implicava na cruz.
Ou seja, tanto esposas quanto maridos devem se submeter
“uns aos outros”. Isso significa abrir mão de si mesmos e de
seus desejos, sofrendo o prejuízo para o bem do outro, para
a honra do outro. E ainda existe uma última realidade, a
submissão de Cristo unindo-se à igreja. Assim, quando
homem e mulher se sacrificam “um ao outro”, eles se unem
a Cristo, e assim, mais ainda, um ao outro.
Essa realidade de submissão mútua destrói
completamente as ideias de machismo e feminismo, que
colocam o casamento num igualitarianismo, onde ambos
consideram que têm “direitos iguais”, num conflito eterno
para que seus direitos sejam atendidos. Pelo contrário, a
Bíblia suplanta essa ideia quando nos leva a considerarmos
o outro superior a nós mesmos (Fp 2.3-4). Assim, ambos são
atendidos, não igualitariamente, pois não são iguais, mas
são atendidos em suas vontades e necessidade individuais
específicas.
Ou seja, para sermos práticos, o homem carrega o peso,
pois é muscularmente mais forte, doa o casaco no dia frio,
pois tem mais pelos e pele mais grossa, vai à frente na
escada, pois usa sapatos mais estáveis e tem mais força
para sustentar a mulher em caso de queda. Ao mesmo
tempo, a mulher, com sua sensibilidade e habilidade
multitarefas, cuida da casa e dos filhos, e o faz muitas vezes
até mesmo doente, pois é mais resiliente a uma gripe, que
normalmente destrói os homens.
Além de questões físicas, é fato que intelectual e
emocionalmente também somos diferentes, e que mulheres
são muito melhores que os homens em questões relacionais
como comunicação e expressão de sentimentos, assim
como homens, de forma reconhecida pelas mulheres, têm
maior capacidade de liderança.110
Usei esses exemplos gerais, simples e corriqueiros (que em
casos específicos podem apresentar incongruências), não
como regras estabelecidas, pois cada sociedade tem seus
padrões para feminilidade e masculinidade,mas para,
dentro da cultura que estou inserido, demonstrar que
ambos são fortes, mas também limitados em suas
especificidades, e podem agir em complementaridade em
vez de em competição, como o machismo e o feminismo
pressupõem.
Enfim, ao olharmos para a Trindade, temos esse padrão
que ao mesmo tempo é de igualdade de ser e apresenta
distinção no agir. Porém, esse agir nunca compete com o
ser, pelo contrário, é a distinção no agir que complementa o
ser, sendo que todo o agir individual visa ao bem e à
exaltação do outro, e assim fortalecendo reciprocamente a
unidade do ser.
A Trindade e a Questão do Gênero e da Função Social
Além de solucionarmos a questão do machismo e do
feminismo, também ressaltamos a importância de
enfatizarmos em nossas comunidades a distinção de
gênero, ou seja, é bom ser homem, tanto quanto é bom ser
mulher, e que homens e mulheres, apesar de apresentarem
diferentes funções sociais, são complementares e têm fator
preponderantemente igual para uma sociedade saudável.
Essa realidade precisa ser ressaltada na sociedade
brasileira, que em geral é matriarcal e tem uma alta
porcentagem de lares apenas com mulheres como chefe de
família.111 Muito desta realidade que atinge nosso país é
fruto da desvalorização social do homem. É evidente que
vivemos uma crise na masculinidade112 e perdemos o
referencial masculino.
Em geral, na sociedade brasileira, ou o homem é bruto e
violento, predador sexual (muitas vezes tendo os próprios
filhos como vítimas) e irresponsável, sendo uma figura
inexistente na vida doméstica e na criação dos filhos, ou é
um “banana de pijama”,113 dominado pela mulher, tendo
basicamente o papel de contribuir apenas com uma
porcentagem do sustento econômico da família, e em
alguns casos, inclusive, invertendo-se completamente os
valores criando o personagem social do “dono de casa”.114
Essa realidade não está longe das igrejas. As mulheres na
igreja são a maioria, quase que sem exceções,
demonstrando assim seu maior interesse por espiritualidade
e relacionamento com Deus e com outros, e como
consequência natural os homens estão gradativamente
perdendo a liderança.115 Fato que é reflexo de que, na
maioria dos lares, não são os homens os principais
responsáveis pela vida e orientação espirituais da família.
Na verdade, são os menos interessados pela leitura bíblica,
oração, estudo da Palavra e participação nos programas da
igreja, função que geralmente tem sido relegada às
mulheres.
Essa perda de referência da liderança masculina tem sido
um dos fatores preponderantes para essa verdadeira
epidemia social homoafetiva.116 Pois, se os homens são
agressivos e predadores sexuais ou se são ausentes e uma
carga a mais (quase que mais um filho sobre a
responsabilidade da mulher), que mulher desejará tê-los
como companheiros? Ou ainda, que meninos buscarão a
eles como referencial de modelo a ser seguido?
Foi o próprio Deus que disse: “Não é bom que o homem
esteja só”. Essa fala é extremamente relevante, num
contexto em que todas as afirmações de Deus acerca de
sua criação são categóricas: “É bom”. A única coisa que não
é boa é o homem sozinho, sem sua correspondente
feminina. E não é bom justamente por não ser um reflexo
completo. Deus diz da mulher: “Farei para o homem alguém
que seja compatível (física e espiritualmente) e que o
auxilie (complete – funcionalmente ou propositalmente)”,
isso implica que, se ela é uma complementação, ela
também não é completa em si mesma e precisa de sua
outra parte. É o próprio Deus que deixa evidente que o “é
muito bom” de Gênesis 1 está na pluralidade e na
complementaridade de homem e mulher.
Muito se tem dito da existência de homem e mulher
buscando sua masculinidade e sua feminilidade em Deus.117
Isso é um erro, seja qual for o gênero escolhido. Grande
parte desse erro reside no fato de relacionar imagem e
semelhança com identidade, e não como representação.
Deus não é nem macho nem fêmea, ainda que seja refletido
na feminilidade e na masculinidade. Porém, algumas das
tentativas de descrever o reflexo de Deus na masculinidade
e na feminilidade acabaram por esbarrar em fatores
sociológicos, que divergem de cultura para cultura
(sociedades matriarcais ou sociedades patriarcais) e por
isso acabaram se contradizendo.
O grande problema dessa discussão é querer afirmar a
imagem de Deus nos gêneros separadamente, como se
fossem dois espelhos distintos, e como se o espelho fosse a
imagem que ele reflete, identificando Deus ora com o
masculino, ora com o feminino. Segundo minha percepção,
esta é uma visão hermenêutica equivocada do texto bíblico,
que define que a imagem de Deus é espelhada em homem
e mulher juntos.118 Ou seja, o gênero masculino não é o
espelho da imagem de Deus, nem o gênero feminino o é.
Deus não é macho nem fêmea e, por isso, não pode ser
identificado nos gêneros especificamente. É fato que
homens e mulheres têm a mesma dignidade, pois refletem
a imagem de Deus igualmente; também é fato que ambos
têm pessoalidade (razão, intelecto, volição etc.), sendo
distintos de todos os outros seres criados.
Porém, há mais uma qualidade que precisa ser
acrescentada, que é o relacionamento. Homem e mulher,
por natureza, foram criados para comunicar a imagem de
Deus juntos para a criação,119 pelo ato de dominar a terra e
de multiplicar a imagem de Deus por meio de seus filhos.
Sendo assim, o espelho da imagem de Deus é a união de
homem e mulher: “... homem e mulher os criou”.
Esclarecendo: o macho sozinho não reflete a imagem plena
de Deus, e a fêmea sozinha também não reflete a imagem
plena de Deus. Os dois juntos, no relacionamento conjugal,
refletem quem Deus é de maneira especial. Portanto, é uma
questão de gênero, no sentido de que, biblicamente, a
imagem de Deus só pode ser comunicada e representada
por meio de macho e fêmea, que são complementares e
podem se reproduzir, e assim formarem uma sociedade que
dominará a terra juntos.120
Desta forma, nunca poderemos, como cristãos, aceitar a
ideia de chamar de família qualquer coisa que não reflita
idealmente os seguintes pontos:121
1. Um macho com uma fêmea: expressando a pluralidade
de Deus e a individualidade das pessoas da Trindade;
2. Deixando pai e mãe (casamento civil): expressando a
unidade de Deus;
3. Unindo-se carnal e espiritualmente: expressando a
unidade indissolúvel de Deus e o amor de Deus;
4. Podendo gerar filhos: expressando a capacidade criativa
de Deus;
5. Dominando a terra: expressando a soberania mediada
de Deus.
Estou convicto de que essa definição e sua aplicação não
só farão os seres humanos mais felizes, com casamentos
mais duradouros e saudáveis, como também solucionarão
problemas educacionais na criação de filhos, contribuindo
para uma sociedade mais saudável em todos os sentidos.
PARA REFLEXÃO
1. De que maneiras pensar na Trindade pode ser instrutivo
para o casamento?
2. E, pelo contrário, em que devemos evitar usar a
Trindade como metáfora para o casamento e a família?
3. Como a realidade da Trindade como padrão para
entender o casamento e a família se choca com os
conceitos atuais?
4. Usando este capítulo e o anterior como base, como
podemos entender o celibato (de Paulo e Jesus, veja Mt
19.10-11; 1Co 7) e o casamento à luz da Trindade? Como
você poderia favorecer amizades profundas que reflitam
a Trindade, no seu contexto?
CAPÍTULO 7
A TRINDADE E O 
CORPO DE CRISTO
APRECIANDO UNIDADE 
E DIVERSIDADE
IV IS COSTA FERNANDES
Cada ser humano é singular em suas características
pessoais. Tanta variedade também se reflete nos
relacionamentos, pois as diferenças têm o potencial de
separar. Por essa razão, existem várias denominações
cristãs, muitas delas nascidas a partir de divisões
decorrentes de vários tipos de diferenças. Tal realidade faz
com que a comunhão e a cooperação entre essas igrejas
sejam pequenas, diminuindo consideravelmente o impacto
que os cristãos poderiam promover neste mundo.
Nessesentido, a prática da igreja parece se distanciar da
realidade do Deus trino que a criou. A unidade e a
diversidade em Deus coexistem de maneira harmônica.
Seria possível que a igreja refletisse algo dessa realidade
divina? Será que a doutrina da Trindade pode, de alguma
forma, orientar a igreja em seus relacionamentos, de modo
que exista mais unidade no meio de tanta diversidade?
Cremos que sim! Nosso objetivo neste capítulo é propor
algumas reflexões iniciais sobre estas questões, que
auxiliem a prática na igreja em relação à unidade e à
diversidade.
ELEMENTOS DA DOUTRINA DA TRINDADE
Apesar de várias questões serem abrangidas pela doutrina
da Trindade, nosso foco estará apenas nos temas de
unidade e diversidade, por serem relevantes para abordar o
assunto da fragmentação da igreja. A doutrina da Trindade
pode lançar luz sobre esse tema, na medida em que o Deus
criador de todas as coisas manifesta semelhante unidade e
diversidade.
Um aspecto essencial nesta discussão é a compreensão
dos termos ousia e hypostasis, ou seja, natureza divina e
pessoa. A posição firmada no Concílio de Constantinopla
fala de “uma ousia [substância] em três hypostases122
[pessoas]”.123 O primeiro termo se refere aos chamados
“universais” e o segundo, aos “particulares”. Nas palavras
de Franklin Ferreira e Alan Myatt: “Os particulares são
objetos concretos que existem como entidades individuais.
Eles estão localizados numa região do espaço, num
determinado momento. Os universais são entidades que se
repetem, uma vez que o universal é demonstrado em todos
os exemplos dos particulares do mesmo tipo. Assim, o
conceito universal de cachorro é exemplificado em todos os
cachorros individuais, ou seja, nos cachorros
particulares”.124
Quando aplicada à Trindade, essa distinção impedia a
alegação da existência de três deuses. Enquanto existe
diversidade nas pessoas, a ortodoxia afirma a unidade de
essência. Portanto, no que se refere à ousia (essência)
existe unidade. No que se refere à hypostasis (pessoa)
existe diversidade.
Hypostases é um termo que faz referência à pluralidade de
pessoas de Deus. Trata-se de uma diferença dentro do ser,
sem que exista uma essência separada125. Cada uma delas
é identificada, na Bíblia, como Pai, Filho e Espírito Santo e
fazem parte do “ser único e não derivado de Deus”.126
As diferenças entre as pessoas da Trindade não são
ontológicas, mas relacionais.127 Desse modo, embora sejam
consideradas uma única essência (ousia), distinguem-se das
demais pelas suas relações, o que torna cada pessoa
(hypostasis) singular.128 Assim, o Pai é diferente do Filho na
medida em que o primeiro eternamente gera o segundo (Sl
2.7; Hb 1.5-6; Cl 1.15,18). O Espírito distingue-se do Pai por
ser dele procedente (Jo 15.26; Gl 4.6). O Filho e o Espírito
distinguem-se entre si pelo seu relacionamento recíproco. O
Espírito opera na concepção (Mt 1.18; Lc 1.35), ressurreição
(Rm 8.11), vida e ministério de Jesus (Lc 4.1,18), enquanto
Cristo promete e envia o Espírito (juntamente com o Pai, Jo
15.26) e é quem batiza com o Espírito (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc
3.16). Conforme destaca Franklin e Myatt, “o Pai, o Filho e o
Espírito Santo são assim relações, no sentido de que o que
quer que cada um deles seja, sempre o é em relação a um
ou a ambos os demais”.129
A ousia, por sua vez, destaca a unidade existente em
Deus. Essa unidade não é apenas de propósito, mas de
essência.130 Essência é a qualidade do ser, que o faz ser o
que ele é. No que se refere às pessoas da Trindade, a ousia
que as caracteriza é a divindade que é apenas uma, com
seus atributos incomunicáveis.131 As três pessoas não
possuem uma natureza divina separada, mas compartilham
de uma única e mesma ousia. Por isso é preciso falar em um
único Deus e não em três deuses.132
Compreender a unidade (ousia) e a diversidade
(hypostases) no Deus trino é de grande importância se
pretendemos que a igreja reflita essas características de
forma apropriada. A diversidade de Deus se manifesta em
seus relacionamentos eternos, bem como em suas funções
no plano redentor. Sua unidade, por sua vez, revela-se em
sua essência divina e também em seu propósito e em seus
pensamentos. Tal entendimento é relevante para a igreja,
pois parece ser apropriado que a igreja reflita essa unidade
e essa diversidade.
RELACIONAMENTOS NA IGREJA
Se cremos que existe em Deus tanto a unidade quanto a
diversidade, é natural que as relações humanas criadas
reflitam estes mesmos elementos.133 Uma vez que as
Escrituras ensinam que a igreja foi estabelecida por Deus, a
conclusão é que ela deve refletir estes aspectos em seus
relacionamentos. Assim, indicaremos, de maneira breve,
como vislumbres da unidade e da diversidade do Deus trino
podem ser vistos na vida da igreja.
Diversidade Cristã
Não é preciso grande esforço para perceber a diversidade
existente na criação. Por semelhante modo, essas distinções
existem na humanidade e também no meio da igreja.
Mesmo sendo parte de um só corpo em Cristo, ainda assim
existem diferenças entre os membros. Mas, ao contrário do
que se possa imaginar, essa diferença não precisa ser algo
ruim. Quando vemos a diversidade no meio de uma igreja,
devemos ser gratos a Deus pelo fato de podermos glorificá-
lo, refletindo um pouco da unidade e da diversidade do
Deus trino.134
Em outras palavras, o que glorifica a Deus não é os
cristãos serem todos iguais, mas o fato de se relacionarem
com amor e harmonia apesar das diferenças. O problema é
que o pecado faz com que as pessoas não lidem
adequadamente com essas diferenças, o que acaba por
resultar na separação. Embora aplicado num contexto
diferente, Jesus afirma em Mateus 19.8 que é a dureza do
coração humano para amar e perdoar que conduz à
separação nos relacionamentos.
A doutrina da Trindade deve orientar os cristãos a lidar
com as diferenças que não sejam contrárias à unidade
promovida pelo Espírito Santo. Elas refletem a diversidade
existente no Deus trino. Por isso, as diferenças não devem
ser suprimidas, mas valorizadas.135 Existe espaço para elas
no meio do povo de Deus. Desse modo, é preciso cuidado
para que os pastores e líderes não imponham a
uniformidade na igreja. A liderança pode ser tentada a
querer que a comunidade seja feita à sua própria imagem e
semelhança, corrigindo e disciplinando aqueles que pensam
diferente.
Algo semelhante pode acontecer com os membros da
igreja que não conseguem permanecer unidos por simples
questões de diversidade na preferência do estilo de
pregação, na condução pastoral ou simplesmente pela
escolha da cor da tinta para a pintura da igreja. Um caso
muito comum é a existência de desentendimentos e até
mesmo divisões na igreja por causa do estilo musical no
louvor.
No entanto, a diversidade existente entre as pessoas pode
ser uma grande demonstração do poder do evangelho.
Existe uma tendência atual de pessoas em igrejas locais se
organizarem por afinidades e características comuns.
Porém, uma igreja assim apenas demonstra um fenômeno
social. É o que acontece com pessoas que se reúnem
apenas por terem algo em comum, como um grupo de
amigos que se reúne para jogar futebol ou baralho, ou
pessoas que saem juntas para andar de bicicleta ou moto.
Esses grupos podem existir sem a intervenção divina.
Contudo, pessoas com diferenças raciais, sociais, bem como
de outras naturezas, vivendo amorosamente unidas numa
igreja é uma clara manifestação do poder unificador do
evangelho.136 O apóstolo Paulo fala sobre essa ação
unificadora em sua carta aos Efésios ao mostrar que a obra
de Cristo uniu grupos profundamente distintos entre si,
como os judeus e os gentios (Ef 2.11-22).
Mas é preciso considerar que diferenças são essas. Na
Trindade existe diversidade de relacionamentos e funções.
Espera-se diversidade da mesma natureza na igreja.
Contudo, o que vemos são diferenças de preferências,
crenças e propósitos, as quais não são encontradas no Deus
trino.Desse modo, parece-nos que não é essa diversidade
que reflete a Deus em sua plenitude. Nessas diferenças,
portanto, deve-se buscar a unidade.
Assim, quando a igreja diverge sobre o enfeite da classe do
ministério infantil, é preciso que alguém esteja disposto a
ceder em favor da unidade. Quando se trata de diferenças
de crenças e propósitos, é fundamental que existam
maturidade e paciência para que, juntos, estudem as
Escrituras em humildade e oração, em busca da unidade.
Contudo, mesmo que a unidade em crenças periféricas não
seja totalmente alcançada, ainda é possível a comunhão,
quando existe concordância nos elementos centrais da fé.
Unidade Cristã
Ao contrário do que muitos pensam, unidade no meio da
igreja não exige uniformidade ou ausência de diferenças.137
Como destaca Carl Braaten, a unidade da igreja está
baseada na Trindade.138 Fundamenta sua perspectiva em
Efésios 4.4-6, onde o apóstolo Paulo afirma a unidade da
igreja e cita, além de outros elementos unificadores, a
existência de um só Espírito, um só Senhor e um só Deus e
Pai.
A unidade da igreja envolve relacionamento, reciprocidade
e mutualidade entre seus membros numa amorosa
comunidade de iguais.139 Dentro da igreja existem pessoas
com diferenças em suas características, convicções,
habilidades, formação, costumes etc. Contudo, elas são
iguais em Cristo, o que deveria promover algum grau de
união. Com efeito, em sua oração sacerdotal, Jesus ora para
que aqueles que o Pai lhe deu fossem um, assim como o
Filho e o Pai são um (Jo 17.21).
É preciso considerar que tipo de unidade devemos esperar
na igreja. Não podemos esperar, por exemplo, unidade em
desvios doutrinários ou morais. Na Trindade houve, de uma
forma que jamais poderemos compreender completamente,
a quebra da unidade quando os pecados da humanidade
estavam sobre Jesus (Mt 27.45-46). Desse modo, até
mesmo com o Deus trino não houve unidade diante do
pecado.140 Não podemos esperar que seja diferente com as
relações humanas. O ensinamento bíblico é que o pecador
não arrependido deve gerar quebra da comunhão (Mt 18.15-
17). Desse modo, não se pode tolerar heresias, desvios
doutrinários e pecados sob o pretexto de viver em união.
Além disso, na Trindade encontramos unidade de essência,
pensamento e propósito. Em Cristo, o cristão já compartilha
dessa unidade essencial pelo Espírito e pela Palavra. Na
medida em que os cristãos agora são participantes da
natureza divina (2Pe 1.4), todos eles também estão unidos
numa mesma essência, apesar disso ainda não se
manifestar em sua plenitude na presente era.
Contudo, vemos profundas diferenças de pensamento e
convicções. Parece-nos que a unidade neste aspecto deve
ser buscada para refletir a relação trinitária. Essa busca
deve se concentrar em certos elementos gerais. Ao tratar
sobre o tema da unidade, o apóstolo Paulo afirma a
existência de alguns elementos comuns gerais que unem os
cristãos: um corpo, um Espírito, uma esperança, um Senhor,
uma fé, um batismo, um Deus e Pai (Ef 4.4-6). O que
precisamos é de parâmetros bíblicos para orientar a forma
como lidamos com a unidade e a diversidade.
AFIRMAÇÕES SOBRE UNIDADE E DIVERSIDADE
Com base nessas compreensões sobre a Trindade, podemos
fazer as seguintes afirmações sobre a unidade e a
diversidade cristãs:
1. A diversidade cristã reflete a Trindade. Existe
diversidade no Deus trino. Por isso a criação possui tanta
variedade. O mesmo acontece dentro da igreja. Pessoas
possuem histórico, aparência física, aptidões, preferências,
dons etc. diversos entre si (Rm 12.4-8). Tudo isso reflete
algo da diversidade trinitária.
2. A diversidade cristã reflete o poder do evangelho. Isso
acontece porque a unidade no meio de grande diversidade
apenas é possível por meio do poder do evangelho e não
por subterfúgios sociais. É a salvação em Cristo que
promove essa unidade (Jo 17.20-23).
3. A diversidade na igreja deve ser de natureza
semelhante à da Trindade. Não nos parece apropriado
afirmar que a diversidade trinitária autoriza qualquer tipo de
diversidade no meio da igreja. Não se pode admitir, por
exemplo, diversidade de condutas morais. De modo
semelhante, deve haver uma busca ativa para solucionar as
diferenças de preferências, crenças e propósitos, uma vez
que as mesmas não existem na Trindade. Isso deve
encorajar a igreja a buscar a unidade nestas questões.
4. A diversidade cristã não deve ser reprimida.
Considerando que a diversidade na igreja é capaz de refletir
a diversidade existente na Trindade, a implicação é que a
mesma não deve ser reprimida. A analogia do corpo usada
pelo apóstolo Paulo indica que na igreja também existe
diversidade entre seus membros (1Co 12.12-27), a qual
pode se manifestar em diferenças de raça, gênero, nível
socioeconômico, idade, estado civil, formação acadêmica,
dons, habilidades e preferências pessoais, dentre outras.
5. A unidade cristã é uma realidade espiritual. A unidade
cristã é fruto da ação divina. Deus opera nos cristãos de
modo que reflitam a unidade existente entre o Pai e o Filho
(Jo 17.20-23). Nesse sentido, a unidade compreende uma
realidade espiritual na qual todo cristão se encontra a partir
de sua conversão, ao ser habitado pelo Espírito Santo e
inserido no Corpo de Cristo. Entendida desse modo, a
unidade não é algo a ser buscado, pois já existe.
6. A unidade cristã é uma prática de vida. Em outro
aspecto, a unidade compreende uma prática da vida, na
qual os cristãos permanecem juntos em comunhão. Tal
compreensão parece coerente com o que o apóstolo Paulo
afirma em Efésios 4.3-6, ao encorajar os cristãos a preservar
a unidade. Em Cristo, os cristãos já possuem vários
elementos que os unem. Entendida desse modo, a unidade
deve ser preservada, refletindo, na prática, a realidade
espiritual já existente.
7. A unidade cristã não exige igualdade. É comum as
igrejas promoverem a comunhão em grupos formados a
partir de afinidades e características iguais (faixa etária,
estado civil, preferências pessoais etc.). Contudo, a unidade
existente nesses grupos pode ser apenas um fenômeno
social, que independe da ação de Deus. Nesse sentido, até
mesmo grupos não cristãos podem apresentar certo tipo de
unidade. É o que acontece, por exemplo, com aqueles que
se reúnem regularmente para jogar futebol, andar de
bicicleta, pescar etc. A unidade cristã, entretanto, é
diferente, pois não depende de características comuns, mas
do poder de Deus. A verdadeira unidade cristã é derivada
de elementos espirituais comuns (cf. Ef 4.3-6), mesmo entre
aqueles que possuem características e preferências
pessoais totalmente distintas entre si.
8. A unidade cristã não será totalmente alcançada nesta
era. Apesar de ser possível e progressiva, por causa do
pecado a união vivencial entre cristãos apenas será
plenamente realizada na era vindoura. Na prática, isso evita
falsas expectativas de que as diferenças entre cristãos,
como é o caso das barreiras denominacionais, serão
totalmente superadas.
9. A unidade cristã deve ser buscada com práticas
apropriadas para questões específicas.
Questões essenciais:141 busca pela unidade. Inclui-se aqui
tanto as questões morais quanto as doutrinas essenciais.
Caso não sejam alcançados a unidade e o arrependimento,
o melhor é que a separação aconteça para que desvios
doutrinários e morais não contaminem o povo de Deus.
Questões periféricas: busca pela unidade. Caso não seja
alcançada, ainda é possível a unidade por meio da
concordância com as crenças centrais.142 Fazem parte
dessas questões os temas sobre os quais as Escrituras não
fazem afirmações categóricas, como, por exemplo, formas
de batismo e formas de governo.143
Questões de preferência: busca pela unidade através da
disposição mútua em abrir mão dos próprios interesses em
favor do próximo. São os temas para os quais as Escrituras
dão plena liberdade de escolha, como o lugar onde será
construído o prédio da igreja, se a igreja terá ou nãoum
prédio, quais serão as ênfases ministeriais de uma
comunidade cristã etc.
10. A unidade cristã deve ser buscada em elementos
comuns gerais (Ef 4.3-6). Existem certos elementos que
unem todos os cristãos. O apóstolo Paulo destaca esses
elementos: um corpo, um Espírito, uma esperança, um
Senhor, uma fé, um batismo e um Deus. Um dos problemas
das divisões está no fato de se dar grande atenção às
especificidades, firmando convicções sobre temas nos quais
a própria Bíblia não faz afirmações categóricas. Uma
possível implicação disso é que a formulação de confissões
de fé mais abrangentes144 pode ser útil para promover a
unidade entre igrejas para determinados fins, mesmo que
cada igreja local ou denominação mantenha sua própria
declaração de fé, que preserve sua identidade e suas
convicções específicas.
11. A unidade cristã pode ser progressivamente
alcançada quando os cristãos compreendem o seu propósito
e papel. Deus tem um propósito comum para o seu povo, de
ser glorificado através dele (Ef 1.9-12; 3.20-21). Também
distribuiu funções e dons distintos à igreja, que permitem
que o indivíduo coopere com o propósito. Compreender isso
ajuda a viver em unidade e cooperação. Os diferentes
propósitos e áreas de atuação de cada igreja, as diferentes
habilidades, características e dons podem ser unificados
quando se compreende que tudo isso deve ser usado a
serviço de um propósito maior. Nesse sentido, a figura
paulina dos membros do corpo cooperando entre si é
pertinente à realidade atual.
12. A unidade cristã precisa estar em harmonia com a
santidade. Desse modo, não se pode tolerar heresias,
desvios doutrinários e pecados sob o pretexto de viver em
união. Neste sentido, a igreja jamais pode ser inclusiva na
perspectiva atual, que tende a aceitar as práticas
homossexuais e outros comportamentos pecaminosos que
não condizem com o padrão moral de Deus.
Assim, após considerar a natureza da unidade e
diversidade existentes em Deus, pudemos refletir acerca de
alguns desdobramentos para a vida da igreja. Cremos que
uma unidade e uma diversidade, orientadas pelas
afirmações apresentadas acima, podem conduzir a igreja a
uma prática que reflete, de forma limitada mas progressiva,
a unidade e a diversidade existentes no Deus trino.
CONCLUSÃO
A realidade nos mostra que a igreja muitas vezes não sabe
o que fazer com a diversidade nem como buscar a unidade
prática. Nesse sentido, compreender a doutrina da Trindade
é relevante na medida em que nos mostra como o próprio
Deus vive em unidade e diversidade, embora em perfeita
harmonia.
Uma vez que a igreja é uma criação do Deus trino, nada
mais natural que possua a capacidade de refletir essa
mesma unidade e diversidade, embora de maneiras
distintas e limitadas. Entendida dessa forma, a diversidade
deve ser vista como algo positivo, que glorifica a Deus. De
modo semelhante, a unidade prática deve ser desejada e
preservada.
Para isso, compreender a unidade da essência e da
diversidade real das três pessoas fornece um
direcionamento. Em sua essência santa, Deus é um só.
Também é uno em seus pensamentos e em seu propósito.
Espera-se que a igreja também busque a unidade nesses
aspectos. Por outro lado, em sua subsistência, Deus é trino.
Nele existe diversidade de relacionamentos e de funções.
Devemos esperar o mesmo tipo de diversidade na igreja.
Lidar com a unidade e a diversidade dessa forma pode
parecer um alvo utópico para muitos. Certamente o padrão
é perfeito, pois é fundamentado num Deus sem limitações
ou defeitos. No entanto, é da vontade do Senhor que seu
povo busque esse ideal, confiante na graça divina. É
possível nos aproximarmos gradualmente desse padrão e
refletir um pouco do Deus trino para um mundo que não
sabe como lidar com a diversidade nem o que é a
verdadeira unidade. Como igreja de Cristo, prossigamos
nessa busca até aquele dia em que desfrutaremos disso
plenamente.
PARA REFLEXÃO
1. De que forma a ênfase na tolerância à diversidade em
nossos dias pode ultrapassar os limites da diversidade
existente na Trindade?
2. Quais afirmações sobre unidade e diversidade precisam
ser mais bem compreendidas e aplicadas em sua igreja?
3. De que forma sua igreja poderia melhor usufruir da
diversidade nela existente? Como isso poderia refletir o
Deus trino?
4. Com base nos princípios apresentados no capítulo, de
que forma prática você pode contribuir para a unidade
em sua igreja?
CAPÍTULO 8
A TRINDADE E 
A IGREJA LOCAL
ASPECTOS DA IMAGEM DO DEUS TRINO
COMO MODELO PARA OS
RELACIONAMENTOS INTERNOS DA
LIDERANÇA NA IGREJA LOCAL
MARCELO DIAS
As lideranças de igrejas, por diversas razões, raramente têm
um bom relacionamento entre si. Esse fato prejudica o
propósito de Deus para sua igreja, conduzindo membros a
um estilo de vida que não desfruta da abundância oferecida
por Deus. Este capítulo apresenta três atributos da Trindade
– ela é pessoal, amorosa e santa – como modelo que guiará
os relacionamentos interpessoais de toda liderança de
modo a promover conformidade à imagem de Deus e
modelar tal estilo de vida para a igreja. Ao promover uma
liderança piedosa e exemplar, serão minimizados
escândalos entre cristãos e não cristãos, e a igreja refletirá
com mais eficácia a glória de Deus.
Para isso, serão abordados atributos comunicáveis do Deus
trino e como eles afetam o relacionamento intratrinitário. O
padrão encontrado no relacionamento da Trindade, por sua
vez, será relacionado com as exigências de Deus para
aqueles que almejam o episcopado (1Tm 3.1). Por fim,
tendo em vista que a liderança eclesiástica é modelo para
seu rebanho (1Pe 5.3), serão apresentadas sugestões para o
desenvolvimento de relacionamentos saudáveis de uma
liderança local, de modo a modelar também os
relacionamentos entre os cristãos.
É fato que muitos pastores da liderança brasileira, tanto
titulares quanto auxiliares, não refletem o caráter de Deus
em suas vidas. Não lidam com seus desejos de receber
glória e de exercer a primazia na igreja (3Jo 9). Como
consequência, pastores titulares tratam seus companheiros
de ministério como empregados que estão ali para servir a
eles e não a Deus. Por outro lado, jovens pastores, com os
mesmos desejos pecaminosos, agem com leviandade e
armam ciladas contra seus colegas de ministério a fim de
tomarem seus lugares nas igrejas.
A RESTAURAÇÃO DA 
IMAGEM DE DEUS NO HOMEM
O Deus trino criou o homem à sua imagem (Gn 1.26-27),145
o qual deveria espalhar-se sobre a terra (Gn 1.28). Isso
implicaria espalhar também a imagem de Deus. Sua
imagem no homem significa que as características
comunicáveis146 do Deus trino lhe foram doadas na criação.
Pela própria natureza do infinito Deus, muitos de seus
atributos não foram compartilhados com o ser humano. Os
atributos comunicáveis encontram-se no ser humano dentro
de certos limites, isto é, estão restritos por nossa própria
natureza de seres criados.
O pecado do homem desfigurou a imagem de Deus nele.
Isso o separou de um relacionamento íntimo com seu
Criador, tornou-o seu inimigo (Rm 5.10) e concedeu-lhe uma
indisposição natural no que diz respeito a Deus (Ef 2.1; Tt
3.3). O ser humano, nessa condição, passou a viver
antropocentricamente ao invés de teocentricamente. Desde
então, o Deus trino vem executando seu plano para a
restauração de sua imagem no homem (Gn 3.15; Rm 8.29;
2Co 3.18). Essa restauração se inicia quando alguém crê em
Jesus como seu único e suficiente Salvador (Rm 1.16; 10.9-
11) e se completará no momento da transformação do
corpo corruptível em incorruptível (1Co 15.50-54). Nesse
intervalo, acontece o processo de santificação, e é por meio
dele que Deus vem restaurando sua imagem na vida de
seus filhos. Além disso, esse processo é um instrumento de
Deus para refletir sua imagem aos que não creram (2Co
5.17-21), tornando-se, assim, uma ferramenta do Espírito
para atraí-los ao evangelho (Tt 3.1-7).
O RELACIONAMENTO INTERPESSOAL 
NA TRINDADECOMO MODELO 
PARA O RELACIONAMENTO 
INTERPESSOAL NA LIDERANÇA
Deus É Infinitamente Pessoal e Relacional
A existência da Trindade consiste numa evidência da
pessoalidade de Deus. Francis Schaeffer afirma que “dentro
da Trindade, antes da criação de qualquer coisa, havia [...]
real comunicação”.147 As Escrituras demonstram a
pessoalidade de Deus por meio das interações entre Pai,
Filho e Espírito. O uso da primeira pessoa do plural, “nós”,
tanto em pronomes quanto em verbos, sugere um
relacionamento intratrinitário (Gn 1.26;148 3.22) diante da
revelação do Novo Testamento e como os pais da igreja
primitiva afirmaram.
Essa pessoalidade é demonstrada também por meio da
participação conjunta em suas obras e propósitos. O Espírito
participou da criação (Gn 1.2). Semelhantemente, o Filho
também participou (Jo 1.3; Cl 1.16). Em Mateus 3.16-17, no
batismo de Jesus, o Pai e o Espírito estavam presentes
autenticando o início de seu ministério. Em Atos 7.55, o
Espírito fez Estêvão contemplar a glória do Pai e do Filho
antes de seu martírio. Em Atos 10.38, Pedro afirma que,
quando o Pai estabeleceu o Filho para sua missão,
concedeu-lhe o Espírito, e o Filho fez tudo “porque Deus era
com ele”.149
A busca e a interação do Deus trino com o ser humano
demonstram sua pessoalidade. Desde a criação, Deus
escolheu se relacionar com o homem (Gn 3).150 Agiu com
bondade (Gn 1.29-30). Afirmou que não era bom o homem
estar só, da mesma forma como o Deus trino não estava
(Gn 2.18). Deus falou com Agar (Gn 16), com Abraão (Gn
12,15,17–19,22) e com Jacó (Gn 32,35,46). Ele conversou
com Moisés (Êx 3; 19.19) e falou com profetas (1Sm 3; Is
5.9; Jr 1.7). A encarnação de Jesus e toda sua vida
demonstram um Deus pessoal (Evangelhos). O Espírito falou
com Felipe (At 8.29), com Pedro (At 10.19; 11.12), com os
profetas e mestres de Antioquia (At 13.2) e afirmou a Paulo
que ele passaria por tribulações (At 20.23).151 Assim
também a habitação do Espírito naqueles que creram (Rm
8.11),152 bem como a possibilidade de entristecê-lo (Ef
4.30) e ofendê-lo (Hb 10.29) manifestam o ser pessoal –
enfim, tripessoal – por toda a eternidade.
Assim, o Deus trino é inerentemente relacional. O ser
divino se relaciona intensamente entre si, além das três
pessoas trabalharem juntas com o mesmo propósito. Desde
a criação, este Deus se aproxima intencionalmente do ser
humano para se relacionar também com ele.
A Trindade e os Relacionamentos 
na Liderança Eclesiástica
Jaime Kemp afirma: “Observo que grande porcentagem de
pastores brasileiros não tem amizades profundas,
compromissadas. Infelizmente, em alguns casos nem
mesmo suas esposas são suas amigas”.153 Minha percepção
é que líderes de uma mesma igreja geralmente se
relacionam muito pouco entre si. Seus relacionamentos são
apenas “profissionais”. Suas conversas e interações visam
estritamente a ações e planejamentos ministeriais. Embora
esse tipo de relacionamento seja útil e importante, o
modelo apresentado pela Trindade não se restringe às
relações ministeriais. Pelo contrário, relacionamentos
precisam ser intencionais e promover o bem do outro,
repartindo com outros sua própria vida. Isso não significa
que todas as pessoas devem ter a mesma proximidade, mas
estarem abertas para isso é de grande importância.
Em razão de sua natureza, um dos círculos íntimos de
amizade do líder precisa ser a liderança ministerial. A igreja
é liderada por presbíteros154 que precisam ter o mesmo
propósito,155 as mesmas convicções bíblico-doutrinárias e
um estilo de vida exemplar. Essas áreas serão alcançadas e
solidificadas também por meio da intimidade e da confiança
mútua suficientes para líderes abrirem seus corações e
receberem ajuda uns dos outros nas tentações, nas lutas e
nos sofrimentos, sem o medo de serem condenados,
usados, “apunhalados pelas costas”, enganados ou feridos.
Comunhão é relacionamento que produz vida espiritual, é
participar da vida do outro com o propósito de
conformarem-se à imagem de Cristo. Isso se dá porque
imita o relacionamento intratrinitário, que é sempre
benéfico para o outro.156 A aproximação intencional que usa
o caráter de Deus como critério produzirá grandes
benefícios para aqueles que se engajam na vida de
comunhão. Provérbios sugere a busca de relacionamento
interpessoal como reflexo da sabedoria (Pv 18.1), no
entanto, isolar-se ou mesmo ter relacionamentos
superficiais dentro de uma liderança demonstra propósitos à
parte do caráter do Deus trino. Kemp diz que “o homem,
quando no pastorado, enfrenta pressões e estresses que
demandam ser compartilhados com amizades
profundas”.157 É possível afirmar que amizades profundas
são muito importantes porque significam modelar as
relações a partir do relacionamento intratrinitário. Schaeffer
afirma: “Porque eu sou feito à imagem de Deus e porque
Deus é pessoal, tanto um relacionamento pessoal com Deus
quanto o conceito de comunhão, como também o
companheirismo, têm validade”.158
Ao mesmo tempo, a maioria das igrejas locais se estrutura
com um pastor principal e outros pastores auxiliares.
Historicamente, os padrões hierárquicos da Igreja Católica,
as Igrejas Ortodoxas Grega e Orientais e a Igreja Anglicana
refletem o esquema sacerdotal do Antigo Testamento.
Alguns veem nisso a maneira de atuar paralela com a
própria Trindade econômica (vista na história da salvação),
com a prioridade do Pai e a submissão do Filho e do Espírito
Santo.159 Várias denominações protestantes tradicionais e
igrejas carismáticas seguem estruturas semelhantes. Outras
igrejas evangélicas e livres buscam uma pluralidade de
liderança mais equilibrada, dividindo a atuação ministerial
entre os líderes conforme os dons espirituais, habilidades e
experiência pastoral. Independentemente do modelo da
liderança, o amor mútuo na Santa Trindade – a Trindade
ontológica (imanente) – é modelo a ser seguido nos
relacionamentos de cada liderança local. Dessa forma, ela
refletirá o amor e a santidade num mundo devastado pelo
pecado.
Tendo em vista o modelo da comunhão intratrinitária,
sugiro duas ações para a prática da liderança:
• Aproximar-se gradativa e intencionalmente dos líderes
com quem se divide o ministério. Separar momentos na
agenda para encontros informais e lazer, com e sem a
presença das famílias.
• Começar paulatinamente a compartilhar dificuldades,
lutas, sofrimento etc. Começar com assuntos mais
simples e, à medida que a amizade se intensifica e a
confiança aumenta, compartilhar assuntos mais difíceis e
íntimos.
Quando a liderança tem um pastor titular ou pastor
principal na igreja local, é especialmente importante que ele
incentive um ambiente de verdadeira comunhão. Quando
ele se abre, ele começa a criar espaço para os outros. É
claro que isso é um processo, e um processo com risco. Mas
isso inicia passos para confessar as nossas incertezas,
fraquezas, medos e até pecados. Nem tudo é dito no início.
Conte com a confidencialidade dos outros (alguns fazem até
um voto de confidencialidade). Tudo é mantido no círculo da
liderança, menos o que exige disciplina na igreja ou até
processo jurídico. Os líderes se preocupam uns com os
outros para que todos cresçam. Assim, há mútua e saudável
prestação de contas e cada um contribui com a formação do
caráter de Cristo na vida do outro.
O AMOR INTRATRINITÁRIO COMO 
MODELO PARA O AMOR INTRALIDERANÇA
Deus É Amor
As Escrituras afirmam que Deus é amor (1Jo 4.8,16). Tal
declaração sugere que a maneira como as três pessoas
agem uma para com as outras é fruto de sua própria
essência. Deus ama porque é amor. Para Ryrie, “essas
afirmações não refletem propriedades de Deus (isto é, Deus
é... amoroso), mas demonstram aspectos essenciais de sua
natureza [...] Ele é amor independentemente de qualquer
oportunidade [ad extra] de expressá-lo”.160 O Deus trino é
amor eternamente. Pai, Filho e Espírito sempre se amaram
porque amar faz parte da natureza de Deus, e expressar
deliberadamenteesse amor é característico de cada pessoa
divina. As Escrituras revelam esse amor mais diretamente
entre o Pai e o Filho, provavelmente pela função de cada
pessoa da Trindade: o Pai ama o Filho (Jo 3.35; 5.20; 10.17;
15.9; 17.23-24,26) e o Filho ama o Pai (Jo 14.31; 17.4).
O amor intratrinitário foi a base para o amor de Deus pela
criação e por suas criaturas. Michael Reeves demonstra que
o Pai sempre amou o Filho (Jo 15.9) e que a criação foi um
transbordar desse amor.161 As Escrituras declaram
abundantemente o amor do Pai por suas criaturas.162 Sua
expressão máxima foi dar seu Filho para morrer (Jo 3.16).
Da mesma forma, o Filho também amou os homens e as
mulheres (Jo 13.34).163 Semelhantemente, o Espírito ama o
ser humano. Todavia, o amor como atributo do Espírito em
geral não está abertamente declarado (cf. Rm 15.30164),
mas é possível demonstrar o amor do Espírito por meio de
inferências. Ele é o agente do amor do Pai (Rm 5.5) e quem
produz o amor naqueles que vivem sob seu controle (Gl
5.18,22). Ações do Espírito, tais como regenerar (Tt 3.5),
capacitar (At 1.8) e santificar (Gl 5.22-23)165 o homem,
acontecem em prol do seu bem e sugerem amor. Sendo
Deus, é também inegável que o amor seja uma
característica inerente ao Espírito, pois o Pai está no Filho, o
Filho está no Espírito e o Espírito está no Pai. Conforme
Agostinho e a tradição ocidental, o Espírito é o amor do Pai
para o Filho, e o amor do Filho para o Pai – o dom mútuo que
unifica a Trindade.
Refletindo o Amor Intratrinitário 
na Liderança Eclesiástica
O modelo do amor de uns para com os outros procede tanto
do amor intratrinitário (Jo 15.12; 1Jo 4.7-8) quanto do amor
divino expressado por suas criaturas (1Jo 3.16; Jo 15.9).
Esse amor é o fundamento da obediência (Jo 14.15,21,23-
24; 15.10) e expressa a ação divina na vida de seus
discípulos (Jo 13.35). Sua marca é a abnegação e sua
expressão maior é a entrega sem restrições para o bem
maior do outro (Jo 3.16; 15.13). Ele não é uma opção (Jo
15.12,15); pelo contrário, a comunhão com o Deus trino
exige amor pelos irmãos (1Jo 2.10).
Jesus afirmou que seus discípulos seriam conhecidos
manifestando amor uns pelos outros (Jo 13.35). Tais
palavras sugerem que a liderança seja exemplo, pois elas
foram primariamente dirigidas aos primeiros líderes da
igreja, os apóstolos. Cada líder deve expressar o exemplo de
amor um para com o outro de modo que suas ovelhas
aprendam observando. “Pastoreai o rebanho de Deus que
há entre vós, não por constrangimento, mas
espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida
ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos
que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do
rebanho” (1Pe 5.2-3, ênfase acrescentada).166 Alguns
líderes podem tratar bem suas ovelhas, mas maltratar os
seus companheiros de ministério. Essa incoerência pode
indicar amor não genuíno, acepção de pessoas, desejo de
controle e poder e até ciúmes. Outros, todavia, podem usar
suas capacidades como meios de manipular e exercer a
primazia sobre outros, ganhar popularidade e dinheiro.
Exercitar o amor pelos companheiros de ministério mantém
o foco no lugar certo e protege a liderança de disputas e
contendas.
O amor produz alegria quando o outro é elogiado e é bem-
sucedido na realização de um programa. Por outro lado, o
foco em si mesmo torna líderes em “Sauls”, com ciúmes e
desejo de manter-se no topo do poder e da popularidade
(1Sm 18.6-9), pois “a natureza humana é influenciada pelo
desejo de obter poder”.167 O amor conduz o homem a sair
do caminho para outros passarem, mas a falta dele o faz
atropelar tudo o que está à sua frente para se sobressair e
ser beneficiado. A consideração/amor pelos companheiros
de ministério precisa acontecer mesmo que entendamos ser
piores ou melhores do que eles. É importante que se
entenda que a dinâmica do corpo de Cristo comporta
diferentes capacidades em diferentes níveis, sem contudo
tornar alguém maior ou melhor por isso (1Co 12.12-27).
Após um encontro para aprofundar o relacionamento com
algum companheiro de ministério, é prudente fazer uma
análise do próprio coração para discernir a eventual
presença de barreiras, indisposições e/ou indiferença.
Entender-se melhor ou superior é uma demonstração clara
da falta de amor. Quando alguém se foca em si mesmo,
perde a essência do próprio Deus de vista.
O amor como modelo intratrinitário pode sugerir certas
ações iniciais para cada indivíduo: (1) agendar uma tarde
para meditar e orar sobre o amor e a sua expressão prática
na vida dos companheiros de ministério; (2) após um
encontro para aprofundar o relacionamento com algum
companheiro de ministério, sondar o próprio coração para
discernir a eventual presença de barreiras, indisposições
e/ou indiferença; (3) avaliar como cada um se sente com as
vitórias e elogios (ou derrotas e críticas) dos outros; (4)
acertar-se com Deus (1Jo 1.9) e, se preciso, com o irmão.
A SANTIDADE INTRATRINITÁRIA 
COMO MODELO PARA A 
SANTIDADE INTRALIDERANÇA
Deus É Santo
A própria declaração de Deus – “eu sou santo” (Lv 11.44) –
já é suficiente para afirmar sua santidade, mas declarações
da santidade de Deus são frequentes nas Escrituras.168 Ele
é designado como luz (1Jo 1.5), o que estabelece o
contraste entre ele e as trevas (o mal). Ele é Pai das luzes
(Tg 1.17), em paralelismo com “boa dádiva” e “dom
perfeito”, o que indica que tudo aquilo que vem do Senhor é
puro, santo. Nada em Deus é mau, e tudo em Deus é bom, e
isso reflete sua santidade. Carlos Osvaldo Pinto diz que a
santidade de “Yahweh significa sua separação do mal em
toda e qualquer de suas formas”.169
O salmo 16, um salmo messiânico, declara que o Messias é
santo (Sl 16.10).170 Sua santidade, embora não reconhecida
pelos israelitas, é declarada pelos demônios (Mc 1.24) e
pelos cristãos do início da igreja (At 4.27,30). Hebreus
afirma que o Filho, embora tivesse passado por tentações,
manteve-se puro, santo, sem pecado (Hb 4.15).
O Espírito é designado como Santo em três ocorrências no
Antigo Testamento. No Novo Testamento, ele é denominado
“Espírito Santo” mais de 90 vezes. Sua ação santificadora é
iniciada na própria salvação e se mantém por toda a vida
dos que creem em Cristo, o que sugere sua santidade (2Ts
2.13; 1Pe 1.2).
Uma Liderança Santa: 
Reflexo da Santidade do Deus Trino
Ferreira e Myatt afirmam que Deus estabeleceu “sua própria
santidade como padrão moral que devemos imitar”,171 o
que pode ser observado nos dois Testamentos.172 A
santidade dos cristãos é tanto uma posição quanto um
processo (Mt 6.9; 1Co 1.2; 6.11; Hb 10.14). Deus chamou
seus filhos para a santidade e deseja que vivam nesse
processo (1Ts 4.3-4,7). E, da mesma forma como o amor, a
santidade de Deus deve ser imitada por suas criaturas,
independentemente da situação em que se encontram.
Pedro citou Levítico para seus leitores num contexto de
perseguição e tristezas (1Pe 1.6-11). A esperança de
encontrarem-se com Cristo, o seu exemplo (1Pe 1.11) e seu
justo juízo futuro (1Pe 1.17) eram a motivação para se
adequarem à ordem de imitar o Deus trino (1Pe 1.15-16).
Vivemos num país onde a frouxidão moral geralmente é a
norma de vida. O indivíduo não se preocupa com certo ou
errado, a não ser que isso afete a si mesmo. Assim, a
cultura onde o “importante é ter vantagem” é encontrada
também nas igrejas cristãs. Não seria diferente no caso de
muitas lideranças eclesiásticas no Brasil. Embora as
Escrituras tenham critérios claros para o estabelecimento
de líderes e a permanência deles na liderança (1Tm 3.1-15;
Tt 1.5-9; 1Pe 5.1-4), poucos líderes sequer estudaram tais
qualificações. Estão mais preocupados com o desempenho
do que com a santidade. Mas John Jowett afirma: “Podemos
vir a supor que falar bem é viver bem, que a habilidade
expositiva é piedade profunda, e enquanto abraçamos
afetuosamente o não essencial, escapa-nos a genuína
essência”.173 Não é de surpreender, então, que muitoslíderes briguem entre si, dividam igrejas, machuquem a
liderança, suas famílias e muitas ovelhas. É grande a
incidência de pastores que adulteram com suas ovelhas,
que são viciados em pornografia ou em jogos na internet,
são iracundos, dominadores, apegados ao dinheiro,
obstinados de opinião, mentirosos e complacentes com o
pecado (o que é diferente de ser compassivo, perdoador). É
natural que muitos filhos de pastores nem queiram saber do
ministério. Outros vêm para o seminário e abrem seus
corações dizendo que seus pais são pessoas diferentes em
casa e na igreja. Não é de se admirar que disciplina é uma
palavra quase que abominável na igreja, pois ou há
“tratamento” sem sabedoria e muita dureza, ou fecham-se
os olhos para não perder um dizimista, sem ter alguém que
cobre a santidade dos pastores. A lista poderia continuar,
mas o que não pode ser esquecido é que o relacionamento
com Deus e a santidade cultivados hoje não garantem a
piedade e a proximidade com ele amanhã. Todo dia é um
dia de relacionamento e de buscar santidade.
Diante da santidade do Deus trino, faz-se necessário imitá-
lo e mudar tanto o coração quanto o comportamento,
cumprindo a razão de ser santo. Como é que o cristão pode
crescer em santidade?
1. Avaliar diariamente o coração para certificar-se de que
não há impedimentos no relacionamento pessoal com
Deus e se há necessidade de perdoar um companheiro
cristão;
2. Desenvolver hábitos que protejam a mente, de modo a
pensar nos princípios bíblicos (Sl 1; Fp 4.8; Sl 119.11,15-
16);
3. Fazer amigos íntimos (especialmente na liderança) que
promovam o temor, a piedade e a santidade;
4. Tratar a indisposição do coração diante de críticas.
CONCLUSÃO
O homem foi criado à imagem do Deus trino com o
propósito de encher toda a terra com ela. Essa imagem foi
manchada pelo pecado, fazendo-se necessária sua
restauração. Essa restauração tem sua base na obra de
Jesus Cristo, o Deus Filho. Por meio dela o Deus trino age
com o propósito de restaurar sua imagem no homem. Esse
processo nada mais é do que conduzir o homem a ser
novamente o que ele deveria ser: espelho da imagem de
Deus.
Deus estabeleceu sua igreja como um agente para
transformação do ser humano à imagem de Cristo.
Estabeleceu líderes para ajudarem os santos e santas nessa
tarefa. E, enquanto ajudam suas ovelhas, líderes se tornam
e modelam a imagem de Deus. No entanto, a liderança
eclesiástica moderna tem deixado de focalizar em seu
propósito para se concentrar em resultados numéricos e
antropocêntricos. A busca da conformação com a
pessoalidade, o amor e a santidade de Deus ajudará líderes
a modelar a imagem de Deus para suas ovelhas. Assim
como Pai, Filho e Espírito desejam.
PARA REFLEXÃO
1. O que a igreja local pode fazer para discernir possíveis
rupturas nos relacionamentos de seus líderes?
2. Como os líderes (incluindo o pastor titular ou principal)
podem iniciar e modelar a comunhão trinitária para a
igreja?
3. Quais são os perigos de uma comunhão íntima, seja na
liderança ou na comunidade maior da igreja local? Há
limites? Explique.
4. Como a igreja pode ajudar seus líderes a serem mais
íntimos, transparentes e humildes uns com os outros e
requerer esse comportamento de outros chamados
líderes da igreja?
CAPÍTULO 9
AO QUE DEUS 
NOS CHAMA?
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE À LUZ DA
DOUTRINA DA TRINDADE
GARY WAYNE PARKER
“Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males” (1Tm
6.10). Essa severa advertência do apóstolo Paulo ao seu
mentoreado, Timóteo, estabelece um princípio importante
que deve alertar todos os crentes sobre os perigos do amor
ao dinheiro. Ganância e ingratidão parecem brotar
naturalmente nos corações das pessoas depois da Queda
(Gn 3), mas contentamento e gratidão precisam ser
cultivados. Especialistas em marketing entendem esse
princípio e se esforçam para vender seus produtos,
apelando para a insatisfação e o desejo por mais que se
alojam em nosso interior. Infelizmente, muitas igrejas
“comercializam” o evangelho prometendo às pessoas
prosperidade proporcional às suas contribuições. A teologia
da prosperidade atrai multidões apelando para a ganância
do homem. É perigoso construir uma igreja sobre o
ensinamento de “que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5).
O que a doutrina da Trindade informa à teologia da
prosperidade? Essa é a questão que este capítulo procura
responder. Uma breve história e uma visão geral das
crenças da teologia da prosperidade serão examinadas. A
doutrina e a natureza da Trindade, vistas no exemplo
sacrificial de Jesus e o que significa ser criado à imagem e
semelhança de Deus, serão o foco deste estudo.
Finalmente, a maneira que a doutrina da Trindade poderá
ser aplicada e ensinada numa cultura influenciada pela
teologia da prosperidade concluirá o trabalho. Não
pretendemos fazer uma avaliação completa do movimento,
mas focaremos principalmente no Brasil. Este capítulo é
escrito de uma perspectiva teológica conservadora e
tradicional que defende a autoridade e a suficiência das
Escrituras.
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: 
UMA BREVE HISTÓRIA
Acredita-se tradicionalmente que a teologia da prosperidade
tenha suas raízes no ensino de Kenneth Hagin. No entanto,
um estudo cuidadoso da história demonstra a forte
influência de Essek William Kenyon (1867-1948). Ele era de
origem metodista, tinha pouco treinamento teológico
formal, mas ministrava em igrejas metodistas, batistas e
pentecostais. Quando jovem, Kenyon “matriculou-se no
Emerson College, em Boston, o núcleo do movimento
‘transcendental’ no final do século XIX e início do XX. As
várias sociedades filosóficas que floresceram durante certo
tempo naquele campus, àquela época, são hoje reunidas
sob o título ‘seitas metafísicas’”.174 Ele produziu 18 livretos
em que registrou seus ensinamentos, nos quais buscou
reunir a fé cristã na redenção por meio de Cristo e o ensino
transcendental de que a mente pode controlar a
realidade.175
Kenneth Hagin nasceu prematuramente em 1918. Sua
infância e sua juventude foram marcadas pela doença, pela
pobreza associada à Grande Depressão, pelo abandono por
seu pai e pelo colapso mental de sua mãe.176 Aos 15 anos
de idade, ficou acamado por mais de um ano, período em
que afirma ter recebido revelações diretamente de Deus –
especificamente sobre a verdadeira interpretação de Marcos
11.23-24. “A essência dessa revelação era que, para obter
resultados da parte de Deus, o fiel deve confessar em voz
alta seus pedidos e nunca duvidar de que tenham sido
respondidos, mesmo que as evidências físicas não indiquem
que a oração foi atendida.”177 É preciso confessar
repetidamente seu desejo até que se torne realidade.
Hagin afirma ter recebido todos os seus ensinamentos
diretamente de Deus. Ele não tinha treinamento teológico
formal nem foi orientado por outro ministro. No entanto,
muitos dos seus ensinamentos são bem semelhantes aos
dos 18 livros escritos por Kenyon, e Hagin admitiu ter lido
essas obras. No entanto, ele sustenta que suas mensagens
foram o produto da revelação divina, e as semelhanças
entre seus ensinamentos e as de Kenyon devem-se a ambos
serem a Palavra de Deus.178
Muitos outros pastores e autores norte-americanos, como
Kenneth Copeland, Benny Hinn, Oral Roberts, Dave
Robertson, Paul Crouch e, mais recentemente, Joel Osteen
também influenciaram a teologia da prosperidade no Brasil.
No entanto, Hagin e seus escritos foram os mais
influentes.179 R. R. Soares, que publicou muitos dos livros de
Hagin e escreveu vários outros de conteúdo semelhante,
tem sido um dos líderes mais influentes da teologia da
prosperidade no Brasil. Valnice Milhomens, líder dos
Ministérios da Palavra da Fé, foi uma das primeiras
proponentes depois de ter sido exposta a esse ensinamento
na África do Sul.180
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: 
CRENÇAS BÁSICAS
As crenças da teologia da prosperidade podem ser
resumidas em três “crises” básicas. A primeira é uma crise
de autoridade.Uma das reivindicações mais comuns dos
líderes desse movimento é que eles recebem revelações
diretamente de Deus. Eles recebem novas revelações e
interpretações divinamente inspiradas da Bíblia.181 Isso lhes
dá uma enorme autoridade, o que torna quase impossível
questionar seus ensinamentos. Essa linha direta de
comunicação com Deus faz com que eles se considerem a
voz de Deus na terra. O perigo disso é que a sua própria
autoridade pode parecer ser superior à autoridade das
Escrituras. Outro aspecto da crise de autoridade é visto na
maneira como fazem exigências a Deus. Gondim explica
que “na Teologia da Prosperidade fé não é depender
totalmente do caráter de Deus, mas ‘chamar realidades à
existência’. Fé não é depositada em Deus, mas em um
poder dirigido a Deus que o força a fazer o que se deseja
que ele faça”.182 Eles afirmam que seus ensinamentos têm
autoridade divina e que podem exercer autoridade sobre
Deus.
A segunda área de crença é uma crise de prioridades. Para
muitas pessoas, o aspecto mais importante da vida cristã é
a riqueza e a saúde. A prosperidade se torna a maior virtude
e a pobreza é considerada sinônimo de pecado. “Uma das
afirmações mais contundentes dessa corrente é que o
cristão deve ser próspero financeiramente e sempre ser
livre de qualquer enfermidade. Quando isso não acontece, é
porque ele deve estar vivendo em pecado ou porque não
tem fé.”183 Parece que a saúde do corpo se torna mais
importante que a santidade do espírito e que a
prosperidade tem prioridade sobre a piedade. Valdemiro
Santiago incentiva os seus ouvintes a entregarem “trízimo”
do décimo terceiro salário: “Você vai ser fiel e vai tirar 30%
e vai falar: ‘Senhor, representando a santíssima Trindade:
Pai, Filho e Espírito Santo’, você vai dar nesta obra; 70% vai
ficar com você. Você vai fazer coisas que nunca fez na tua
vida”.184 Silas Malafaia apresenta fórmula para seus
ouvintes obterem casa própria: “Você vai oferecer um
aluguel seu... fala ‘Eu vou oferecer uma semente de um
aluguel para que o Senhor possa abrir a porta para eu ter
minha casa própria’”.185 R. R. Soares afirmou que é errado
para um crente ir a um médico porque é uma demonstração
de falta de fé.186
A terceira e mais preocupante crise é uma crise de
identidade. Isso envolve uma visão completamente
distorcida de quem é o homem e de quem é Jesus. Hagin
afirmava que os crentes têm uma natureza divina que é não
semelhante, mas igual à de Deus. Os crentes são
encarnações de Deus exatamente como Jesus.187 Kenneth
Copeland disse: “Você não tem Deus morando dentro de
você. Você é Deus”.188 Além de ver o homem como Deus, a
teologia da prosperidade tem uma visão herética de Jesus e
da crucificação. Eles ensinam que a morte física de Jesus
não poderia pagar o preço do pecado. Eles insistem em que
Jesus morreu espiritualmente indo para o inferno,
assumindo a natureza de Satanás e sendo separado do Pai e
do Espírito por três dias até a ressurreição. Kenyon nega
que o sofrimento de Cristo na cruz fosse físico e literal.189
Essas visões distorcidas do homem e de Jesus ajudam a
explicar a teologia e a antropologia por trás da teologia da
prosperidade.
A VERDADE DA TRINDADE
Como a doutrina da Trindade informa a teologia da
prosperidade? A Trindade é frequentemente vista como uma
doutrina problemática, difícil de compreender e ainda mais
difícil de aplicar. Stanley Grenz discordaria dessa visão: “Eu
sugeriria que o propósito da teologia é servir à igreja e à sua
missão engajando-se na tarefa construtiva de apresentar
um modelo coerente do mosaico cristão de crenças que seja
fiel às narrativas e aos ensinamentos bíblicos e seja
relevante para o cenário contemporâneo”.190
À primeira vista, ensinamentos sobre a Trindade podem
parecer apoiar a teologia da prosperidade. Jim Berg afirma:
“Deus faz tudo para a sua glória”, e “glorificar Deus deve
ser o coração de todo crente”.191 Essa dedicação à sua
própria glória, juntamente com a verdade de que o homem
foi criado à imagem de Deus, tem sido usada pelos
proponentes para defender a teologia da prosperidade.
Contudo, Deus buscar a sua própria glória é muito diferente
de uma pessoa promovendo sua própria glória. Apesar das
afirmações acima sobre os crentes serem Deus, as
Escrituras deixam claro que existe apenas um Deus (Dt
4.35-39; Is 43.10; 1Co 8.4-6; 1Tm 2.5). Não é egoísta Deus
buscar a sua própria glória, porque ele é Deus. No entanto,
quando os homens se consideram Deus, isso é idolatria.
Deus ser trino revela verdades vitais sobre a sua natureza.
Ele é completo em si mesmo e tem desfrutado de profunda
e perfeita comunhão dentro do relacionamento trinitário por
toda a eternidade. Ele não criou o homem porque estava
sozinho ou precisava de algo, mas para multiplicar sua
alegria compartilhando-a com seres humanos. Dentro do
relacionamento da Trindade, o Pai glorifica o Filho, o Filho
glorifica o Pai e o Espírito glorifica o Pai e o Filho. “Na própria
revelação de Deus, encontramos o Pai, o Filho e o Espírito
Santo, cada um amando o outro, dando-se ao outro,
honrando o outro, glorificando o outro.”192 Essa visão social
e “outrocêntrica” da Trindade confronta a teologia da
prosperidade.
A natureza doadora e sacrificial da Trindade é claramente
vista na cruz de Cristo. Filipenses 2.5-11 descreve essa
natureza como Jesus se esvaziando, humilhando-se e
tornando-se obediente até a morte na cruz. Jesus suportou
dor, humilhação e morte por amor ao Pai e ao Espírito. Os
sofrimentos de Jesus foram os sofrimentos da Trindade.
Qualquer pai que tenha visto um filho sofrendo sabe um
pouco do sofrimento do Pai ao observar a tortura do seu
Filho. Esse sofrimento só se intensifica quando o Pai
abandona o Filho na cruz para pagar o preço do pecado (Mt
27.46). É da natureza de Deus amar, e o amor se doa (Jo
3.16). Jesus chama seus discípulos para seguir seu exemplo:
“E quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo;
tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido,
mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt
20.27-28).
Quando a Trindade criou a humanidade à sua imagem e
semelhança (Gn 1.26-27), proporcionou aos homens e às
mulheres um relacionamento único consigo. Isso não
significa que o ser humano se torne Deus, mas sim que ele
assume semelhanças com o Senhor. Possuímos razão e
vontade e fomos criados para viver num relacionamento
vertical com Deus e horizontal com homens e mulheres. O
ser humano foi criado para refletir o que chamamos de
atributos comunicáveis de Deus, como amor, fidelidade,
humildade e santidade. João Calvino ensinou que “os
humanos ocupam um lugar especial na tarefa de espelhar
Deus. Eles são o ‘espelho mais brilhante’ no qual a glória de
Deus pode ser vista”.193 É claro que a queda do homem tem
manchado significativamente esse espelho. Cristo redime o
crente do pecado e o regenera, e o Espírito Santo habita no
crente, para que a imagem de Deus possa ser restaurada
nele. Essa restauração será completa no futuro, mas
começa agora. “Amados, agora, somos filhos de Deus, e
ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos
que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele,
porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2).
A encarnação de Cristo é a perfeita imagem de Deus ao
homem (Cl 1.15,19). O Espírito Santo está trabalhando nos
corações dos crentes para os conformar à imagem de Cristo
(Rm 8.29). “A natureza autodoadora de cada pessoa da
Trindade sugere que os ensinos de Jesus sobre o amor e o
autossacrifício relacionam-se com a natureza íntima da
imago dei do homem.”194 Essas verdades sugerem que
qualquer tentativa de informar a teologia da prosperidade
através da Trindade deve ser feita pelo exemplo e pelos
ensinos de Cristo.
APLICANDO A TRINDADE À 
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
Informar àqueles sob a influência da teologia da
prosperidade à luz da Trindade deve começar com a
educação. Ensinar a verdade das Escriturasé a única fonte
de autoridade disponível para combater qualquer falso
ensino. Além dos princípios delineados acima sobre a
natureza doadora da Trindade e a imago dei, os principais
ensinamentos de Cristo são vitais para essa discussão. Jesus
resumiu o ensino da Lei em dois mandamentos: amar a
Deus e amar os outros (Mt 22.37-40). Mais tarde, falando
com seus discípulos, ordenou que amassem uns aos outros
como ele os amava (Jo 13.34). A essência da vida cristã é o
amor – não do ego, mas dos outros. Paulo reitera este
princípio exortando os crentes a considerarem os outros
como superiores a si mesmos, assim como fez o Deus Filho,
Jesus Cristo (Fp 2.3-7).
Um dia, todo homem estará diante de Cristo para prestar
contas de como amou a Deus e os outros. Jesus adverte que
muitos ouvirão estas palavras naquele dia: “Porque tive
fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me
destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes;
estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e
preso, não fostes ver-me” (Mt 25.42-43). Jesus deixa claro
que, quando amamos os necessitados, estamos amando a
ele. Quando a teologia da prosperidade considera a pobreza
e a doença como sinais de pecado, em vez de motivos de
amor, ela incorre no julgamento de Deus e perde a
oportunidade de amar a Deus como ele deseja ser amado.
Jesus e Paulo instruem os crentes a guardar seus tesouros
no céu, em vez de acumular riquezas na terra (Mt 6.19-24;
1Tm 6.6-19). A riqueza, por si só, não é pecaminosa e é
geralmente apresentada nas Escrituras como uma bênção
de Deus (Dt 8.18; 2Co 9.8,11 etc.).195 Seguir os princípios
das Escrituras frequentemente melhora a saúde e a
situação financeira de uma pessoa.196 No entanto, a riqueza
não deve se tornar um ídolo ou mesmo um fator motivador.
A natureza sacrificial e abnegada da Trindade demonstra
que esses recursos devem ser usados para ajudar os pobres
e promover o reino de Deus. Essa doação deve ser feita de
maneira privada e alegre, de modo que as recompensas
sejam concedidas no céu (Mt 6.3-4; 2Co 9.6-12). Não
importa ser rico ou pobre, o chamado e o exemplo de Jesus
são de dar a si mesmo (Mt 10.39; 16.25). O ato de dar não
deve ser um meio de alcançar uma vida de abundância na
terra, como é ensinado na teologia da prosperidade, mas ter
foco em recompensas eternas. “Ao compreender o Deus
trino e autodoador, descobrimos que o que Cristo nos pediu
para fazer ao doar-nos é exatamente o que Deus
exemplifica repetidamente em sua própria
autorrevelação.”197
A exortação é outro meio pelo qual a teologia da
prosperidade deve ser confrontada. Jesus não hesitou em
confrontar a hipocrisia que cercava o seu ministério (Mt
15.7; 22.18; 23.13,15,23,25,27). Paulo instruiu seus
mentoreados a confrontar falsos mestres e garantir que não
tivessem acesso à igreja.198 Quando se trata de teologia da
prosperidade, a passividade não é uma opção. O glorioso
evangelho do Senhor Jesus Cristo, a fama do Pai e a verdade
do Espírito nas Escrituras inspiradas estão sob ataque.
Milhões de pessoas estão sendo iludidas por esses falsos
profetas. Não é hora de timidez. O rebanho do Bom Pastor
deve ser protegido desse perigo. Os propagadores da
teologia da prosperidade devem ser confrontados e
chamados ao arrependimento. Aqueles que foram
enganados devem ser instruídos na verdade da Palavra de
Deus.
Talvez a maneira mais eficaz pela qual a teologia da
prosperidade possa ser informada seja através da
exemplificação. Deus nos chama para refletir sua imagem
em nossas palavras e ações. As igrejas que proclamam a
teologia da prosperidade são grandes e impressionantes, e
aqueles que medem o sucesso pelos números podem ser
tentados a imitá-las. Em vez disso, devemos ser exemplos
de humildade, amor, contentamento, generosidade,
gratidão, sofrimento, alegria e santidade. Como indivíduos,
devemos demonstrar compaixão aos outros e nos engajar
na missão de levar o amor da Trindade às nações. Nossas
famílias devem cuidar de nossos vizinhos e sacrificar nosso
próprio conforto para abençoar outras pessoas. Como o Pai
enviou o Filho, no poder do Espírito, para redimir um mundo
perdido, assim também devemos enviar nossos filhos e
netos para os cantos mais escuros do globo, onde eles
possam sacrificar suas vidas, para que a luz do evangelho
possa brilhar nessas nações. Nossas igrejas não devem se
concentrar em si mesmas e em seus programas como um
fim em si. Devemos estar ativos em nossas comunidades,
apaixonados pela missão e intencionalmente servir
sacrificialmente as pessoas que precisam
desesperadamente de esperança.
“Assim como as pessoas da Trindade não se confinaram
apenas entre elas mesmas para amarem-se, mas criaram o
mundo e entraram redentivamente em nossa existência,
assim também a igreja local é chamada a doar-se a um
mundo alienado.”199
PARA REFLEXÃO
1. O que você pode fazer para proteger seu coração da
ganância e cultivar contentamento?
2. Como você pretende ajudar amigos e conhecidos que
depositam esperança na teologia da prosperidade?
3. Quais são as áreas de insatisfação na sua vida/igreja?
Como você pretende transformá-las em motivos de
gratidão?
4. Quais são os sacrifícios que você pretende oferecer para
imitar a Trindade e espalhar sua fama entre as nações?
CAPÍTULO 10
SEPARANDO AS OVELHAS DAS
CABRAS
COMO LIDAR COM 
OS PENTECOSTAIS 
“JESUS SÓ” (UNICISTAS)?
ARI LANGRAFE JR.
Se você é cristão há algum tempo, provavelmente conhece
pessoas que também afirmam ser cristãs, mas professam
uma fé que não é comprometida com as Escrituras. Pessoas
que, no fim das contas, conhecem apenas outro evangelho.
Mas antes de gritar “anátema!”, espere um momento... É
muito fácil entrar em discussões e criar um ambiente de
hostilidade, afinal aprendemos ou pensamos que devemos
defender a fé ou tomar um caminho ainda mais fácil:
ignorar e desprezar.
Permita-me propor outra abordagem. “Defender a fé sem
perder a razão. Coloque de lado por um instante a ideia de
que apologética (defesa da fé) é algo belicoso ou
agressivo”, como disse o professor Jonas Madureira em uma
de suas aulas de apologética. O propósito da apologética
não é meramente ganhar uma discussão, ou argumentar
melhor, mas envolve ganhar pessoas que são nossos
colegas no trabalho, familiares e indivíduos com quem nos
importamos. Não se trata de vencer um debate, mas ganhar
pessoas, e só ganhamos pessoas por meio do evangelho.
Portanto, tenha o evangelho em vista.
Lembre-se da sua história. Você não se tornou cristão
porque perdeu ou ganhou uma discussão, ou como diz Joey
Coffey, porque é inteligente ou estava certo. Você foi salvo
porque precisava de um salvador, e ele veio até você. Isso
significa graça. Não perca de vista a graça ao compartilhar
o evangelho ou defender a sã doutrina.200
Ao apresentar a Palavra de Deus, creia que ela irá defender
a fé. O poder está no evangelho. Você vai com amor e
firmeza e o evangelho vai com transformação e poder. Ao
encontrar pessoas que não conhecem Jesus ou que são
confusas quanto à fé, seja exatamente como aquele de
quem queremos falar. Lembre-se de Jesus junto ao poço de
Samaria (os samaritanos eram considerados uma seita
pelos judeus) falando com a mulher.
Ao fazer as perguntas certas, permita-se ouvir perguntas
honestas e responda com sabedoria, paciência e mansidão
a verdade do evangelho. Minha oração sempre é que a
verdade do evangelho continue nos surpreendendo, pois a
máxima continua valendo: “E conhecereis a verdade, e a
verdade vos libertará” (Jo 8.32).
COMPRA A VERDADE E 
NÃO A VENDAS (PV 23.23)
As Escrituras descrevem todos os cristãos autênticos como
aqueles que conhecem a verdade e que foram libertos por
ela (Jo 8.32). Eles creram na verdade com todo o coração
(2Ts 2.13). Obedeceram a verdade mediante o Espírito de
Deus (1Pe 1.22) e receberam um amor fervoroso por meio
da verdade, mediante a obra graciosa de Deus em seus
corações (2Ts 2.10). Portanto, defender aambiguidade,
exaltar a incerteza ou, de qualquer forma, obscurecer a
verdade é um modo pecaminoso de nutrir o erro e fomentar
a incredulidade.201
A TRINDADE É REALMENTE IMPORTANTE?
Dentre os inúmeros grupos sectários que existem no Brasil e
no mundo, três grupos principais merecem atenção especial
devido ao grande número de seguidores. São os mórmons,
as Testemunhas de Jeová e os pentecostais unicistas. Todos
eles são associados ao seu proselitismo e clara divergência
em relação ao Deus trino e à doutrina bíblica. Os dois
primeiros são reconhecidos como seitas pela maior parte
das igrejas no Brasil e ficam longe de se serem aceitos
como doutrina cristã verdadeira. Mas o terceiro grupo, o
pentecostalismo unicista, mais numeroso que os mórmons e
as Testemunhas de Jeová, tem se aproximado do
evangelicalismo, principalmente por sua semelhança com a
doutrina pentecostal, e assim tem confundido e enganado a
muitos.202
Assim, vale a pena entendermos o ressurgimento da
doutrina unicista, pois, dentro da roupagem evangélica, os
pentecostais unicistas afirmam ter recebido uma nova
revelação de uma verdade bíblica central, a saber, que Deus
é uma pessoa e seu nome é Jesus, que então se manifesta
como Pai, Filho e Espírito Santo. Consequentemente, estão
afirmando que a doutrina da Trindade é falsa.
No unicismo temos uma boa ilustração de como um forte
zelo pela doutrina pode levar uma pessoa ou uma igreja ao
erro, se não se fizer um estudo equilibrado da Bíblia. O
sabelianismo ou modalismo antigo vestido de “Só Jesus” é
um exemplo disso. Tais doutrinas surgem como
interpretações equivocadas, geralmente
descontextualizadas ou ênfases exageradas do significado
do cristianismo.
OS UNICISTAS: CAVANDO MAIS FUNDO
Modalismo Antigo
A origem do unicismo se prende aos primeiros séculos da
era cristã. No fim do segundo século da nossa era, surgiu
um movimento doutrinário a respeito da natureza de Deus
por Práxeas, na Ásia Menor, e Noeto, em Roma (que
afirmava que o Deus Pai morreu na cruz), mas tomou forma
mais popular por meio dos ensinos de Sabélio,203 um
presbítero no norte da África. Sabélio insistia em que Deus é
uma pessoa só que se manifesta como o Pai (Jeová) no
Antigo Testamento, o Filho nos Evangelhos e o Espírito
Santo em Atos e na igreja. É interessante que foi Tertuliano,
o pai da igreja mais “pentecostal” (montanista), quem
também mais atacou as doutrinas unicistas (sabelianismo)
como heresia. Essa concepção conhecida como
“modalismo” ensinou que Deus operava em modos ou
manifestações diferentes em momentos distintos – às vezes
como o Pai, outras como o Filho e ainda outras como o
Espírito Santo.
Essa visão desvaneceu-se no terceiro século, mas a ideia
permaneceu, pois estava mais perto de afirmar o Filho e o
Espírito como sendo igualmente Deus do que a maioria das
alternativas. Na controvérsia, houve adaptações e adesões
por todo o quarto século. Essa questão provocou na igreja o
desejo de estudar essa questão por numerosos pastores e
doutores, conhecidos como pais da igreja, que contribuíram
de forma definitiva para a formulação da fé cristã,
debatendo e, finalmente, lançando por terra esse falso
ensino.
Porém, essa doutrina falsa ressurgiu no século XX com
uma nova roupagem, por intermédio do movimento
chamado “Só Jesus” ou “Nova Luz”.204 Hoje, igrejas
independentes, em especial as igrejas pentecostais, têm
aceitado a falsa interpretação concernente à pessoa de
Deus, adotada pelo “Movimento Só Jesus”. É importante
notar que os ensinos referidos de novas revelações muitas
vezes são um retrocesso a velhas heresias, contra as quais
a igreja precisou – e ainda precisa – lutar para manter firme
a sua integridade.
O Novo Início dos Unicistas
Ainda que a história dos unicistas ou do movimento “Só
Jesus” possa ser rastreada até os primeiros anos do
movimento pentecostal em 1906, ela teve seu início a partir
da reunião anual do movimento pentecostal realizada em
abril de 1913, em Arroyo Seco, nos arredores de Los
Angeles, na Califórnia. O preletor, R. E. McAlister,205 disse
que os apóstolos batizavam somente em nome do Senhor
Jesus e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo –
então, o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo deve ser
Jesus.206 McAlister foi notificado de que seu ensino possuía
elementos heréticos. Ele tentou esclarecer sua prédica, mas
ela já havia produzido efeito.207
Um de seus ouvintes era John Sheppe, que, após aquela
mensagem, passou uma noite em oração refletindo sobre a
mensagem de McAlister e concluiu que Deus havia revelado
o batismo verdadeiro, que seria somente “em nome de
Jesus”. Nesse período, o australiano Frank J. Ewart estudou a
questão da unidade por um ano e tornou-se o primeiro a
formular claramente uma visão modalista de Deus. Em
1914, Ewart realizou um batismo com o evangelista Glenn
Cook, cada um batizando o outro em nome de Jesus, e
passou a pregar sobre a fórmula batismal de Atos 2.38,
onde chegou à conclusão de que o nome de Deus seria
então somente o nome Jesus.208 Esse movimento começou
então a crescer em cima dessa polêmica e ficou conhecido
por vários nomes, tais como: Nova Questão, movimento Só
Jesus, o Nome de Jesus, Apostólico ou Pentecostalismo
Unicista.209
A partir dessa centelha, uma chama irrompeu e quase
destruiu as recém-formadas Assembleias de Deus. A
questão chegou ao plenário em 1915, juntamente com a
necessidade de se estabelecer parâmetros doutrinários. Em
1916, as Assembleias de Deus votaram para afirmar o
trinitarianismo histórico dentro de seus artigos de fé.
Aqueles que se apegaram ao movimento “Só Jesus” (156
dos 585 pastores) saíram para formar suas próprias
organizações.210
Depois de várias fusões e divisões, houve concordância
que os unicistas têm em comum a unicidade de Deus em
torno de dois pontos principais: a prática do batismo em
nome de Jesus e da experiência pentecostal do batismo do
Espírito Santo no nome de Jesus, de acordo com Atos 2.38.
Crescimento das Igrejas Unicistas
Igrejas unicistas frequentemente assumem identidades
como “Apostólica”, “Unidade” e “Igrejas de Jesus
Verdadeiro”. Entre as igrejas que surgiram desse
movimento, a Pentecostal Unida é, provavelmente, a mais
forte. Dentre estas, duas das maiores, a Igreja Pentecostal
Incorporada e as Assembleias Pentecostais de Jesus Cristo,
se fundiram em 1945 e formaram a Igreja Pentecostal
Unida, hoje com ramificações em quase todo o mundo.
Estatísticas recentes afirmam que a Igreja Pentecostal Unida
Internacional (UPCI, na sigla original) está estabelecida em
cerca de 190 países. No Brasil, a Igreja Pentecostal Unida
teve início em 1957, em Porto Alegre.211
No Brasil, os movimentos unicistas mais conhecidos são
Igreja Voz da Verdade, do conjunto de mesmo nome; Igreja
Apostólica do Brasil; Assembleia de Deus do Nome;
Assembleia de Deus Renovada; Assembleia de Deus
Unicista; Igreja Cristã Apostólica; Igreja Evangélica de Jesus
Cristo; Igreja de Deus no Brasil; Igreja Pentecostal dos
Apóstolos; Igreja Pentecostal Unida do Brasil; Igreja
Pentecostal Unida Internacional; o Tabernáculo da Fé e o
movimento As Maravilhas de Jesus.212
NO QUE OS UNICISTAS CREEM?
A Igreja Pentecostal Unida declara que “algumas das
Doutrinas básicas da Igreja Apostólica estão fundamentadas
principalmente em Atos 2:1-4, 36-47, com destaque
especial para Atos 2:38 onde temos o arrependimento,
batismo nas águas em Nome de Jesus e Dom do Espírito
Santo como requisitos do plano de salvação”.213 Os teólogos
unicistas entendem que a expressão “em nome”, usada em
Mateus 28.19 referindo-se ao Pai, Filho e Espírito Santo,
reflete apenas nomes singulares de Jesus. Assim, o que
parecia ser apenas uma polêmica referente à fórmula
batismal resultou na negação da doutrina da Trindade. Os
unicistas não aceitam a pluralidade de pessoas na unidade
divina e interpretam qualquer referência à ideia de Trindade
como sendo várias manifestações de Deus ou de Jesus.Logo, não são contra a Trindade pelo fato de não crer que
Jesus seja Deus, mas ironicamente pelo fato de crer que
Deus é só Jesus.
A doutrina unicista tem duas verdades bíblicas como
premissas. A primeira verdade bíblica é que há somente um
Deus. A segunda é que Jesus é Deus. Dessas duas verdades,
os unicistas deduzem que Jesus Cristo é Deus em sua
totalidade, sendo assim, Jesus tem que ser o Pai, o Filho e o
Espírito Santo, negando a doutrina da Trindade. Essa
argumentação presume que, por uma coisa acontecer antes
de outra, logo, a segunda coisa só pode ter sido causada
pela primeira, o que não é necessariamente verdadeiro.
Os termos Pai, Filho e Espírito não expressam quem Deus é
apenas para com os seres humanos criados, mas sim
evidenciam as relações intratrinitárias antes da criação. O
Filho é o Filho do Pai. O Pai e o Filho enviam o Espírito Santo.
É claro que o Espírito era o Espírito antes de ser enviado. No
batismo de Jesus, “o Espírito de Deus” desceu como pomba
e a voz dos céus dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem
me comprazo” (Mt 3.16-17). Em várias ocasiões, Jesus
dirigiu-se ao Pai em oração (p. ex. Jo 11.41; 17.1-26). Jesus
declarou: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém
conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai,
senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt
11.27). O Pai e o Filho se dirigem um ao outro como “eu” e
“tu”. Mesmo quando Cristo diz “eu e o Pai somos um” (Jo
10.30), nós não apenas temos a distinção entre “eu” e o
“Pai”, mas também o “um” (grego, hen) é neutro (que
implica a mesma deidade, essência; Jo 10.33-39) e não
“um” (grego, heis) masculino (assim sendo, a mesma
pessoa). Como os pais da igreja entendiam, essas distinções
dificilmente podem ser negadas como revelando distinções
pessoais.214
Para contrapor a teologia unicista, a fé cristã histórica
observa que frequentemente duas, e às vezes as três,
pessoas da divindade estão à vista – por exemplo: na
encarnação, no batismo, na ressurreição e na ascensão. A
relação de amizade entre Jesus, como o Filho de Deus, e
Deus o Pai – através de noites de oração, no monte da
Transfiguração, no Getsêmani, e especialmente na cruz –
não faz sentido em uma teologia de “Só Jesus” na qual Deus
é uma única pessoa. Ainda mais, ficamos imaginando como
o Deus eterno poderia ser amor, se as distinções pessoais
divinas são meros modos ou simples manifestações. Na
teologia unicista, a revelação de Deus na criação e salvação
como Pai, Filho e Espírito Santo, de fato, não revela
verdadeiramente quem é Deus em si mesmo, e sim os
nomes que são as máscaras de um ator. Mais de 200 vezes
é referido como Filho, mais de 200 vezes referiu-se ao Pai
como alguém distinto dele, em mais de 50 versículos
podemos observar Jesus e o Pai lado a lado. Será que Jesus
estava fantasiando quando disse: “Pai, nas tuas mãos
entrego o meu Espírito”?215
TRABALHANDO A PRÁTICA
O pentecostalismo unicista declara que “a doutrina básica
fundamental é o padrão bíblico de salvação completa, o que
significa o arrependimento, o batismo por imersão em
águas em nome somente do Senhor Jesus Cristo e o batismo
com o Espírito Santo com o sinal inicial de falar em outras
línguas de acordo com a direção do Espírito”.216
Qualquer coisa adicionada à fé em Jesus Cristo como sendo
uma condição para a salvação é uma salvação baseada em
obras. Adicionar qualquer coisa ao evangelho é dizer que a
morte de Jesus na cruz não foi suficiente para comprar
nossa salvação. Dizer que precisamos ser batizados para
sermos salvos é dizer que precisamos adicionar nossas boas
obras e obediência à morte de Cristo para que sua morte
seja suficiente para a salvação. Apenas a morte de Cristo
pagou pelos nossos pecados (Rm 5.8; 2Co 5.21). O batismo
é um passo importante que todo cristão deve seguir, pois
significa nossa identidade com Cristo em sua morte e
ressurreição e nossa incorporação como membro do corpo
de Cristo, que é a igreja, mas o batismo não pode ser uma
condição para a salvação. Argumentar a favor disso, como
fazem os pentecostais unicistas, é dizer que a morte e a
ressurreição de Cristo não foram suficientes.
Quanto à fórmula do batismo em águas, o testemunho
bíblico e a história da igreja nos primeiros séculos
confirmam que o batismo era ministrado cada vez mais no
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19).
Tertuliano, Clemente de Alexandria e Basílio advertiram:
“Ninguém seja enganado nem se suponha que, pelo fato de
os apóstolos [em Atos] frequentemente omitirem o nome do
Pai e do Espírito Santo, ao fazerem menção do batismo, não
seja importante invocar estes nomes”.217 Cipriano, no ano
200 d.C., falando de Atos 2.38, disse: “Pedro menciona aqui
o nome de Jesus Cristo, não para omitir o do Pai, mas para
que o Filho não deixe de ser unido com o Pai. Finalmente,
depois de ressurreto, os apóstolos são enviados em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.218
POR QUE A DOUTRINA DA 
TRINDADE É TÃO IMPORTANTE?
O que acontece quando o trinitarianismo é substituído pelo
unitarismo, a visão de que Deus é meramente um? Um dos
resultados é que o Deus assim descrito tende a perder
definição e marcas de sua personalidade. Nos primeiros
séculos da era cristã, os modalistas, os arianos e os
neoplatônicos cultuaram um Deus não trinitário. Esse Deus
era puramente um, sem pluralidade de nenhum tipo. Mas
um o quê? Uma unidade de quê? O Novo Testamento tem
uma resposta marcante para a questão: uma unidade de
Pai, Filho e Espírito Santo. É interessante que, quando o
Novo Testamento enfatiza mais fortemente a unidade de
Deus, ela parece não resistir à nominação de mais do que
uma das pessoas da Trindade (cf. 1Co 8.4; Ef 4.4-6). Para os
autores bíblicos, a Trindade confirma, em vez de
comprometer, a unidade de Deus. A unidade de Deus é
precisamente a unidade de três pessoas. A maior razão para
crer na Trindade é o fato de a Bíblia apontar para um Deus
trino sem perder sua unidade.
O Deus cristão é três em um. Ele é Pai, Filho e Espírito
Santo. Há apenas um Deus (Dt 6.4; Is 44.6). Mas o Pai é
Deus (Jo 20.17), o Filho é Deus (Jo 1.1; Rm 9.5; Cl 2.9; Hb
1.10) e o Espírito é Deus (Gn 1.2; At 2; Rm 8; 1Ts 1.5). De
alguma maneira são três e de alguma maneira são um. O
Credo Niceno diz que eles são um “ser”, mas três
subsistências, ou, traduzindo de maneira diferente, uma
“substância” e três “pessoas”. Prefiro simplesmente dizer:
“um Deus, três pessoas”.219
O fato é que não sabemos precisamente como os três são
um e o um é três. Não sabemos isso, uma vez que sendo
Deus, os três são iguais; não há superioridade ou
inferioridade no ser de Deus. Ser Deus é ser superior a
qualquer coisa.
CONCLUSÃO
A igreja, através dos séculos, sempre ensinou que dentro da
unidade do único Deus existem três pessoas distintas: o Pai,
o Filho e o Espírito Santo; e essas três pessoas
compartilham da mesma natureza e atributos; então, com
efeito, essas três são o único Deus.
Muitos unicistas são sinceros em sua fé, mas infelizmente
não foram ensinados da maneira correta. Na verdade,
muitos deles nunca receberam um ensino sistemático da
Bíblia sobre a Trindade e tudo o que conhecem a respeito
dela é a doutrina de sua igreja.
As igrejas evangélicas unicistas são antitrinitárias. No
entanto, devemos apontar que seu antitrinitarianismo não é
igual à posição adotada pelos unitaristas (Testemunhas de
Jeová), pois os unicistas não nutrem ideias preconceituosas
contra a divindade de Jesus, como é o caso do unitarismo
(arianismo). Ironicamente, os unicistas são antitrinitários
pelo fato de acharem que a divindade é exclusivamente a
pessoa de Jesus e não compreenderem a unidade composta
de Deus.
Esse ensinamento existe há séculos, de uma forma ou de
outra, como modalismo ou sabelianismo. Essa doutrina foi
combatida por Tertuliano em Contra Práxeas, quando o
apologista usa pela primeira vez o termo latim trinitas
(“trindade”) para a divindade.220 A igrejarejeitou o
modalismo, argumentando, com base nas Escrituras, que a
triunidade de Deus é evidente, uma vez que mais de uma
pessoa da Trindade é vista frequentemente ao mesmo
tempo e muitas vezes interagindo uma com a outra.
Portanto, o pentecostalismo unicista é antibíblico.
Ao conversar com eles, convide-os a refletir no ensino da
Bíblia como um todo. Reconheça que a doutrina trinitária vai
além da compreensão humana. Todavia, cremos na doutrina
da Trindade porque a Bíblia a ensina. Convide-os a meditar
em passagens-chave onde Cristo se relaciona com o Pai. A
compreensão correta dos ensinamentos doutrinários do
cristianismo é a solução para a confusão criada pela
multidão de vozes que reivindica a posição de portadora da
verdadeira fé.
PARA REFLEXÃO
1. Todo o cristianismo histórico tem anatematizado o
modalismo como heresia. Como você se relaciona com
amigos que pertencem ao movimento “Só Jesus”?
2. Como podemos ajudar os pentecostais unicistas a
entender como o movimento deles começou e onde se
encaixa na história da fé cristã?
3. Qual é a razão dos pentecostais unicistas não crerem na
Trindade?
4. Como o modelo de “salvação completa” (que significa o
arrependimento, o batismo por imersão em águas em
nome somente do Senhor Jesus Cristo e o batismo com o
Espírito Santo com o sinal inicial de falar em outras
línguas) não está de acordo com as Escrituras Sagradas?
Que versículos você usaria para defender isso?
CAPÍTULO 11
O PORQUÊ DAS MISSÕES
COMO A TRINDADE 
INFORMA A MISSÃO?
ERIOMAR HELDIR DE FREITAS MAIA
Por que todos nós fomos chamados à missão – isto é,
alcançar outros, sejam nossos parentes, vizinhos na
comunidade em que vivemos, colegas no trabalho, na
escola ou faculdade ou os povos na Índia ou nos países
africanos? A resposta é fascinante: o Deus trino é
missionário no Filho e no Espírito Santo. Todos fomos
chamados a darmos de nós mesmos aos outros para
testemunhar do evangelho. O ponto de partida para a
compreensão desse nosso excelente chamado é o Deus
trino. Qual é a fonte primária para a compreensão do Deus
trino e sua missão? O que motiva o Deus trino para tal
missão? Qual é a relevância e a aplicação para nós após a
compreensão mais profunda da Trindade? A partir do
conhecimento da doutrina trinitária e sua relação íntima e
pessoal com a igreja, vamos discutir como nossa vida deve
modelar-se à missão de Deus pelo planejamento, a
providência e a promoção das três pessoas da Trindade e
como devemos fazer parte dela até o seu triunfo. A
revelação de Deus “como Pai, Filho e Espírito Santo é o
centro e o absoluto para entender toda a realidade humana.
E, como elemento fundamental para a compreensão da
realidade humana, a doutrina da Trindade é o quadro
essencial das missões cristãs”.221 A Santíssima Trindade,
desde a sua eternidade, não somente revela a ela mesma,
mas a sua missão (cf. 2Tm 1.9).
A BÍBLIA: FONTE PRIMÁRIA 
PARA A COMPREENSÃO DO DEUS 
TRINO E SUA (NOSSA) MISSÃO
O testemunho bíblico, em ambos os Testamentos, afirma
com precisão e saturação a doutrina trinitária e a missão do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, para glória dele. Antes de
toda e qualquer criação, Deus era completamente
autossuficiente e tudo que existia era Deus; não havia coisa
alguma que não fosse Deus (1Cr 29.10; Sl 90.2; 1Tm 1.17;
Hb 1.12). Após a criação do mundo material e imaterial, o
Deus trino criou pessoas à sua imagem e semelhança (cf.
Gn 1.27). Fomos criados para partilharmos do
relacionamento de amor que sempre houve entre as
pessoas da Trindade. “O amor da Trindade é perfeito e
completo por si só. Contudo, por pura bondade e
generosidade, Deus quis criar uma grande multidão de
outras pessoas para participar da sua eterna e extática
‘troca de amor’.”222 As criaturas resolveram pecar contra o
seu Criador trazendo condenação eterna a toda a
humanidade (cf. Gn 3). A missio dei sempre foi trazer o ser
humano de volta à sua companhia através do perdão
eternamente planejado pelo Pai, providenciado pelo Filho e
promovido pelo Espírito. Como Sant’Anna e Milano abordam
no capítulo 13 (sobre Alá monopessoal), existe a
necessidade de Deus subsistir em pluralidade de pessoas
para que o Deus perfeitamente santo possa prover perdão
sem comprometer a sua justiça.
DEUS PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO PLANEJOU,
PROVIDENCIOU E PROMOVEU A MISSÃO
A missão é motivada pelo amor e para a glória de Deus.
João escreveu: “... pois Deus é amor” (1Jo 4.8). O amor do
Deus trino expressado desde a eternidade numa mútua
relação pessoal de amor motivou a missão de Deus para
salvação do homem (cf. Rm 5.8). Não só porque Deus nos
ama, mas porque “as três Pessoas da Trindade vivem uma
‘eterna troca de amor’”.223 Michael Reeves afirma que “o
amor não é algo possuído pelo Pai, apenas uma de suas
muitas emoções. Na realidade, ele é amor. Ele não poderia
não amar. Se ele não amasse, não seria Pai”.224
A glória de Deus é a principal razão de todo o plano eterno
da Trindade que envolve toda a perfeita criação visível e
invisível, a história da Queda e da redenção da humanidade
e separação do povo que se chama Israel e a igreja (cf. Rm
11.36). Para sua glória, Deus planejou a missão para que o
evangelho chegasse a toda criatura por intermédio da
propagação dessa boa nova. Martyn Lloyd-Jones afirma que
“o objetivo supremo desta obra [pregação do evangelho] é
glorificar a Deus. Esse é o ponto central. Esse é o objetivo
que deve dominar e sobrepujar todos os demais. O primeiro
objetivo da pregação do evangelho não é salvar almas – É
GLORIFICAR A DEUS”.225
Deus, motivado pelo amor e para sua glória trina, enviou o
seu Filho ao mundo, encarnado em Jesus, para providenciar,
por meio de um único sacrifício, a salvação para os
perdidos. O Filho partilhou o amor e a glória de Deus Pai aos
homens através do seu ministério terreno. O verdadeiro
propósito de Cristo, a essência da encarnação, é que “Cristo
Jesus veio para lidar efetivamente com o pecado, para
tornar-se a expiação do pecado, o destruidor da culpa do
homem, assim para ser o conquistador e aniquilador do
pecado. Que ele assim o fez fica objetivamente em
evidência pelo perdão do pecado e libertação do poder do
pecado dos cristãos nele, os quais aprendem a apropriar-se
de seus méritos e seu poder”.226 Reeves coloca essa
dinâmica de forma devocional ao afirmar que “o Pai entrega
toda a sua glória, seu amor, suas bênçãos, seu próprio ser
com exclusividade ao Filho – e, então, ele envia o Filho para
partilhar essa plenitude conosco”.227
Na ceia, em Lucas 22, o Filho revelou o custo do
pagamento pela salvação: “Isto é o meu corpo oferecido por
vós...” (v. 19) e “meu sangue derramado em favor de vós”
(v. 20). O plano eterno da Trindade envolveu um custo
altíssimo para a salvação da humanidade. Foi necessário o
pagamento pelo pecado por meio do único sacrifício
perfeito, o completamente Deus e completamente homem,
Jesus Cristo (cf. Jo 1.29). Antes da criação do universo, Deus
sabia da entrada do pecado no mundo e do remédio pelo
qual ele iria efetuar o perdão do pecado. Peters ainda afirma
que “em sua infinita sabedoria, Deus designou a salvação;
em sua infinita graça e a um custo infinito, Deus concedeu a
salvação por intermédio de Jesus Cristo, seu Filho
unigênito”.228
O Filho de Deus, ressurreto dentre os mortos, bradou no
monte das Oliveiras: “Toda a autoridade me foi dada no céu
e na terra” (Mt 28.18). O Pai concedeu autoridade ao Filho e
ele aos seus discípulos, para vivermos em amor (Mt 22.37-
39) e para propagarmos a mensagem do evangelho aos
perdidos. Em João 17.18 encontramos o fundamento deste
mandato: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também
eu os enviei ao mundo”. John Piper afirma que “a
supremacia de Jesus Cristo como nosso Deus soberano e
exaltado é a nossa autoridade para a missão [...]. Nós
obteremos a nossa autoridade para pregar o evangelho a
todas as pessoas, em todas as épocas e em todos os
lugares da gloriosaexaltação do nosso grande Deus e
Salvador Jesus Cristo”.229
O Espírito fora enviado para promover a missão de Deus.
João registrou as palavras do Filho: “Disse-lhes, pois, Jesus
outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou,
eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre
eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.21-22). O
Espírito Santo promove, neste mundo, a missão do Pai
juntamente com o Filho. O Espírito se submete ao plano do
Pai e do Filho numa relação de amor e para sua glória.
Assim como a salvação se originou no eterno plano de Deus
e se concretizou “historicamente na pessoa e obra de
Cristo, o eterno Filho de Deus, a administração e a
efetivação da salvação foram encarregadas ao Espírito
Santo”.230 O papel do Espírito Santo na salvação é
convencer o pecador. O Filho falou sobre o Espírito: “Quando
ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do
juízo” (Jo 16.8). Uma vez que o pecado está enraizado no
coração humano, “o Espírito nos confere novo nascimento
em uma nova vida precisamente por dar-nos um coração
novo (Ez 36.26; Jo 3.3-8)”.231 Após a salvação, o Espírito
Santo dá convicção ao crente em Cristo de adoção
verdadeira pelo Pai (cf. Rm 5.5; 8.16). A segurança da nossa
salvação pelo Filho e do amor do Pai é efetuada pelo
Espírito, que “torna a comunhão com o Pai e o Filho real e
deliciosa”.232 A obra de crescimento do corpo de Cristo, a
igreja, é atribuída ao Espírito Santo (cf. 1Co 12.12-13). A
igreja, em sua unidade, é composta por muitos membros
com uma multiplicidade de dons e talentos. A igreja cresce
cada vez mais pelo habitar do Espírito Santo em cada
pessoa que crê em Cristo.
O TRABALHO EVANGELÍSTICO E MISSIONÁRIO
DEPENDE EXCLUSIVAMENTE DA TRINDADE
A igreja reflete a expressão do Deus trino missionário no
amor, na unidade, na diversidade, na mutualidade, na
igualdade, na ordem, na comunhão e na missão. A missão
de levar o evangelho é autorizada pela Trindade. “Jesus,
aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me
foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e
do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas
que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os
dias até à consumação do século” (Mt 28.18-20). A igreja
começa, então, onde a missão começa: com o Deus trino.
Deus, em sua compaixão por nós, “institucionalizou missão
e missões primeiro através de Israel e agora por meio de
sua igreja”.233 O objetivo primordial de Deus “era levar o
evangelho até os confins da terra. Essa tarefa fazia parte da
Grande Comissão que Jesus deu a seus discípulos, ela se
consolidou rapidamente”.234 Para Sanders, “o Pai é aquele
que envia Cristo à sua missão de salvação e também envia
o Espírito Santo para completar a obra. Visto desse ângulo,
a economia da salvação é algo que foi moldado em forma
pelo próprio Pai através dos seus dois emissários pessoais, o
Filho e o Espírito”.235
Ao observar o verbo “ide” em Mateus 28.19, surge uma
pergunta: “Ir... para fazer o quê?”. É como Yago Martins
despertou seus leitores com essa pergunta e acrescentou:
“Precisamos cair na real e entender que o ‘ide’ é só o
começo, não sua conclusão”.236 A resposta é dita pelo
próprio Senhor no mesmo texto das Sagradas Escrituras:
fazei discípulos. Ele não disse, como ironiza Martins, “ide e
fazei o que quiseres...”,237 nem “fazer convertidos”,238
como falou Keith Phillips. Robert Coleman comentou sobre a
Grande Comissão em Mateus 28.19: “Este texto indica que
os discípulos deveriam sair pelo mundo e ganhar outras
pessoas para o Evangelho. Elas se transformariam naquilo
que eles mesmos já eram: discípulos de Cristo”.239 Bill
Lawrence define discípulo da seguinte forma: “Um discípulo
é um aprendiz que pode ajudar outros a aprender, alguém
que pode reproduzir em outros o que Cristo está fazendo
nele próprio pelo poder do Espírito Santo”.240
O fazer discípulos de Cristo envolve a proclamação fiel da
Palavra de Deus a exemplo do Mestre. Jesus disse aos seus
discípulos: “Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos
tenho ordenado” (Mt 28.20a). Pelo simples fato de estar no
ministério, ninguém é levado a ser discípulo de Cristo
sozinho. Martins foi contundente ao afirmar: “Estar teológica
e interpessoalmente preparado para fazer discípulos de
Cristo e para desgastar suas energias glorificando a Cristo
na obra de discipulado é o que deve estar na sua mente
quando pensa em Missões”.241 Bill Lawrence analisou o
seguinte: “Uma igreja cumprida da Grande Comissão ensina
como Jesus ensinou: do púlpito e por meio de
relacionamentos que transformam experiência da vida
cotidiana em lições eternas, para que seus membros se
tornem multiplicadores de multiplicadores”.242
A nossa motivação para realizar a missão de Deus, seja
local ou mais distante, origina-se do amor eterno do Pai (cf.
1Jo 4.11). Afinal, é dando de nós mesmos em amor aos
outros que mais nos aproximamos da imago dei.243 Outra
motivação para missão é a glória dele. O salmista canta:
“Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os
povos, as suas maravilhas” (Sl 96.3). Devemos anunciar e
“promover a glória de Deus até os confins da terra”.244 As
primeiras missões protestantes viam a glória de Deus como
seu motivo primordial.245 Devemos realizar a missão de
levar o evangelho nos moldes do plano do Deus missionário.
O amor e a glória dele devem nos motivar para realizar esse
trabalho. Somos exortados para nos darmos inteiramente
aos outros com Cristo, compartilhando o evangelho de
Cristo e fazendo boas obras em Cristo (Ef 2.10).
É importante saber que a missão requer sacrifício por parte
daqueles que se dispõem a fazê-la aqui ou acolá. Cristo
sacrificou-se pela igreja (cf. Ef 5.25). Paulo entendeu isso, e
o seu ministério envolveu sacrifícios (cf. At 9.16; Fp 1.21).
Você se dispõe a sacrificar sua vida pelo nome do Senhor?
Para refletir verdadeiramente o caráter do Deus tripessoal,
os crentes na igreja local precisam considerar com
seriedade “os imperativos do Novo Testamento, dando-se
não só um ao outro, mas a um mundo necessitado, às vezes
hostil”.246
A nossa missão na terra, através dos séculos e até o último
dia, sempre foi e será promovida pela obra do Espírito Santo
de Deus (cf. At 1.8). João registrou: “‘Assim como o Pai me
enviou, eu também vos envio’. E, havendo dito isto, soprou
sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20.21-
22). A obra da salvação é do Espírito Santo (cf. Tt 3.4-5). Os
dons são distribuídos por ele (cf. 1Co 12.11; Ef 4.11). A
presença divina na missão é garantida aos crentes (cf. Mt
18.20). “Deus é um Pai magnífico. Deus é um
magnífico  Salvador, Jesus Cristo. Mas, se não fosse pelo
magnífico Espírito Santo, eu ainda seria um pecador
miserável e odioso! Não basta ter um Pai-Deus que me ama
e fornece-me. Não é suficiente ter um Salvador que morreu
por meus pecados. Para qualquer uma dessas bênçãos fazer
a diferença em nossas vidas, também deve haver presente
neste mundo a Terceira Pessoa de Deus, o Espírito
Santo”.247 Missões são essencialmente um ministério do
Espírito Santo, o que é um conforto para nós, “no sentido de
que podemos confiar nele plenamente para realizar seu
trabalho”.248
CONCLUSÃO
Em suma, a missão, seja local, seja mais distante, é uma
tarefa urgente da igreja. Jesus já havia dito: “É necessário
que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é
dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4).
Pare e pense por um minuto. Temos a Santíssima Trindade a
cooperar nesta missão de amor. Sendo imitadores do Deus
trino, devemos nos envolver mais nos planos de Deus
enquanto é dia. A igreja no Novo Testamento “não tentou
realizar seu evangelismo dentro dos limites de um prédio,
mas sim no mundo”.249 Agora é a hora de cada um de nós
ir, partir em missão, “anunciando o Evangelho, criando
comunidades e fazendo discípulos.Na certeza de que Jesus
está conosco, na certeza de que a Trindade Santa nos
ilumina, somos chamados a sermos discípulos
missionários”.250 A identidade missionária está firmada no
Deus trino que “envia”.251 O conceito da missio dei (a
missão de Deus) é o reconhecimento de que Deus é um
Deus que se envia, que envia a igreja, sendo “a missão mais
importante das Escrituras”.252 Wilbert Shenk explica que
“Jesus Cristo é a encarnação dessa missão; o Espírito Santo
é o poder dessa missão; a igreja é o instrumento dessa
missão; e a cultura é o contexto em que essa missão
ocorre”.253
É importante entender que fomos convocados para seguir
o modelo trino de missões e confiar exclusivamente na
autoridade do Senhor Jesus (Mt 28.18) e na presença do
Espírito Santo nesta obra (At 1.8). Os resultados que o Deus
trino promove através da nossa fidelidade na proclamação
do evangelho são surpreendentes! Podemos confiar que
veremos múltiplos discípulos, líderes e igrejas em todos os
lugares, de todos os povos, línguas e nações, como ele
prometeu a Abraão (Gn 22.18) e nos revela em Apocalipse
(5.9).
PARA REFLEXÃO
1. O que tem motivado as igrejas, as agências ou missões
a realizarem a tarefa de levar o evangelho dentro e além
de suas fronteiras, com diligência, sabendo que essa
obra envolve sacrifícios?
2. O que tem motivado os líderes contemporâneos a
incentivarem missões em suas igrejas?
3. Pare e pense um pouco sobre o amor do Deus trino por
você. Esse amor motiva você a amar o seu próximo e a
realizar as boas obras que ele realizou (1Jo 4.7-21)?
4. Como você pretende participar na atividade missionária
do Deus trino em alcançar o perdido e fazer discípulos?
Pense em termos concretos, que lhe permitam avaliar
sua fidelidade nisso.
CAPÍTULO 12
A PERSPECTIVA TRINITÁRIA
UMA APOLOGÉTICA AO VAZIO 
DO HUMANISMO SECULAR
ARTHUR VINIC IUS GOTTLIEB LUPION
Há muitos anos me deparei com um livro chamado E Se
Jesus Não Tivesse Nascido?254 Uma leitura interessante, em
que o autor aborda como o mundo seria diferente se ele não
tivesse encarnado. O que o livro não avaliou foi como uma
sociedade relativista consegue ignorar de fato que Jesus
nasceu, enquanto, de maneira politicamente correta,
concorda que ele existiu.
Quem somos como sociedade ocidental, historicamente e
de modo geral, é fundamentado nos valores e princípios
judaico-cristãos. No entanto, o mundo pós-moderno e, por
conseguinte, seus valores estão mais arraigados em outras
linhas de pensamento que não a judaico-cristã. Vivemos um
momento em que as pessoas aceitam a ideia de Jesus, mas
rejeitam quem ele é e transformam o Cristo das Escrituras
numa fábula, num homem como outro qualquer, ou ainda
minimizam a magnitude de seus feitos e de quem ele é.
Se concordarmos com essa realidade, percebemos, mesmo
inconscientemente, os princípios do humanismo secular
influenciando o modo de pensar do homem moderno
ocidental. A “estrutura interpretativa”,255 a chamada
cosmovisão do homem pós-moderno, é sem dúvida
influenciada por essa filosofia. Para entender o modo de
pensar do tempo atual, é fundamental entender o
humanismo secular.
Muitos líderes cristãos, apesar da capacidade de
apontarem algumas das características do humanismo, não
conseguem definí-las com clareza histórica ou refutá-las de
maneira bíblica. Sendo assim, é fundamental entendermos
mais acerca desse tema para o bom desenvolvimento das
comunidades locais que desejam reunir-se ao redor de
Cristo.
HUMANISMO SECULAR
O humanismo secular, em todas as suas variações, defende
o não teísmo.256 O humanismo tem origem no movimento
renascentista do século XIV, desenvolvendo-se de fato no
iluminismo, desencadeando no que pode ser definido “como
uma postura de vida humanista”.257
É interessante notar que o humanismo secular é
caracterizado por ser a parte do secularismo que lida com
as questões da moral e políticas. As questões relativas à
origem e à natureza do universo são deixadas para o
naturalismo.258 Atualmente, percebe-se que o humanismo
secular é uma visão de mundo positiva, avaliando a
positividade da humanidade, não partindo para o ataque a
outras crenças. No entanto, com base nessa positividade,
aos poucos os argumentos vão denegrindo a perspectiva da
necessidade de uma Deidade.259
Historicamente houve diversas vertentes neste
movimento, mas podemos salientar os elementos comuns
ao humanismo secular: o não teísmo, no qual nem todos
negam a existência de Deus, mas todos negam a
necessidade de um Criador; todo o universo é explicável por
meio do naturalismo; todos creem num relativismo ético,
assim, não há absolutos dados por Deus, e a humanidade
tem liberdade para decidir seus próprios valores, e, por
consequência, os valores são culturais; o ser humano é
autossuficiente, capaz de resolver sozinho todos os seus
problemas, sem necessidade de auxílio divino. Logo, a razão
e a educação são a única esperança para a humanidade
alcançar seu potencial existencial.260
No primeiro manifesto humanista, de 1933, “os valores de
liberdade, criatividade e realização são claramente
considerados universais e irrevogáveis”.261 Para os
humanistas, a perspectiva de Deus restringe o potencial
humano de evolução, assim como minimiza a liberdade,
tanto de expressão quanto de desenvolvimento moral. A
premissa no primeiro manifesto é “que cada pessoa tem
dentro de si o poder para sua realização”.262
Assim, o secularismo negou claramente a existência de
Deus e a substituiu pela crença no homem. Nega toda
crença sobrenatural, devido à inviabilidade de prová-la de
maneira científica. Alguns humanistas criam que havia um
espaço para esse tipo de fábula, com base na necessidade
de o homem desenvolver sua criatividade. Qualquer crença
teísta era vista como um limitador para o desenvolvimento
humano. Sendo assim, a perspectiva de um Deus
monopessoal e soberano oferece restrições à liberdade nos
aspectos da moral, do desenvolvimento, das realizações, do
determinismo de valores e do objetivo de vida.
Percebe-se que muito da cosmovisão pós-moderna é
centrada na fragmentação da verdade, da realidade, da
razão e dos valores;263 e também é contaminada por
relativismo, pluralismo, sincretismo, dualismos, paganismo,
egoísmo, narcisismo, hedonismo, consumismo, imediatismo
e pragmatismo.264 Essas crenças são de diversas formas
oriundas do humanismo secular, baseadas na relativização
da verdade básica acerca da pessoa de Deus.
O relativismo, tão presente em nosso tempo, pode ser
sintetizado como: “A doutrina que prega que algo é relativo,
contrário de uma ideia absoluta, categórica. Afirma que as
verdades (morais, religiosas, políticas, científicas, entre
outras) variam conforme a época, o lugar, o grupo social e
os indivíduos de cada lugar. Postura segundo a qual toda
avaliação é relativa a algum padrão, seja qual for, e os
padrões derivam de culturas”.265
O pensamento relativista trouxe sérias consequências para
a sociedade de modo geral, por meio do materialismo
científico, como niilismo266 e existencialismo.267 Com base
nesses pensamentos, só importa o momento, os fatos
acontecem ao acaso de maneira fatalista e aleatória. Assim,
se Deus existisse dentro dessa crença, ele seria como uma
criança mimada, com um olhar indiferente para sua fazenda
de formigas. Esses e outros pensamentos humanistas
seculares evoluíram, estando presentes de diversas formas
em nosso tempo.
A tabela abaixo demonstra as diferenças da modernidade
para a pós-modernidade. Mas o que poderia ser chamado
de diferenças, na verdade são consequências ou, num
sentido irônico, evolução do extremo das doutrinas
humanistas tão presentes na modernidade.
Contrastes dos valores da modernidade e pós-modernidade
Valores da Modernidade Valores da Pós-Modernidade
O absoluto O relativo
A unidade A diversidade
O objetivo O subjetivo
O esforço O prazer
A trajetória (passado e futuro) O presente
A razão O sentimento
A ética A estéticaA modernidade, assim tão rodeada de absolutos, destruiu
os absolutos da Palavra de Deus que poderiam fundamentar
a ética, o agir, o sentir e as decisões na pós-modernidade.
Quando não há referência imutável, a qual somente é o
Deus trino, surge o relativo, e com base na relatividade
infelizmente “tudo é possível”. O interessante é que o
relativismo não surgiu de um abandono da razão, mas do
extremo da razão que descaracteriza o que não pode
explicar.268
Essas mudanças são notórias a partir da década de 1970,
quando a ética aplicada do Ocidente sofreu mudanças
evidentes. Visivelmente, a aceitação do homossexualismo e
do aborto por partes significativas da sociedade refletem
que grandes tabus começaram a cair. Começava a se
formar uma sociedade pós-moderna, na qual alguns
padrões de referência, que ainda sofriam significativa
influência cristã, foram relativizados e conduziram a um
individualismo notório. E assim surge o homem pós-
moderno que afirma: “O que eu decido é bom e correto”,
enquanto o seu vizinho que faz exatamente o contrário
também pode afirmar “o que eu decido é bom e correto”, e,
então, os dois fazem o que é “bom e correto de maneira
individual”.
No momento atual, a relativização evolui ainda mais, assim
como a fragmentação da verdade, por meio da
subjetividade proposta pelos humanistas. Essa evolução
pode ter relativizado e fragmentado suas crenças dentro do
próprio protestantismo. Vive-se um momento em que uma
apologética ao humanismo secularista é proferida por
diversas pessoas que professam a fé cristã, mas que, por
meio do sincretismo, confundem e promulgam
pseudoprincípios bíblicos, relacionados à prosperidade, à
missão integral, à igreja emergente, ao evangelismo
igualado a uma forma de proselitismo, às formas de
superação de obstáculos com base no crer em si próprio, ao
coaching cristão, entre outras manifestações de que o ser
humano consegue e pode. Sempre é necessário verificar
com clareza as respostas do cristianismo ao humanismo
secular; no entanto, há uma necessidade latente para esses
movimentos que invadem as igrejas locais com
pensamentos humanistas.
Dentre todas as possíveis respostas, a perspectiva da
triunidade é a melhor. A doutrina da Trindade ruge como a
melhor apologética a aqueles que entendem que a busca do
sentido da vida se dá por meio daquilo que é inteligível,
sem absolutos e com o ser humano como figura central. Ela
refuta amorosamente e de maneira contundente a
influência dos pensadores humanistas na sociedade. Ela
deve ser determinante para o proceder do cristão em todos
os âmbitos de sua vida.
APOLOGÉTICA TRINITÁRIA 
AO HUMANISMO SECULAR
O conhecimento do Deus trino provê para a atualidade
princípios e valores necessários para uma vida digna de ser
chamada humana. A totalidade da revelação acerca de
Deus nos apresenta uma resposta adequada ao humanismo
secular.
Deus é trino em sua totalidade:269 com base nas Escrituras
percebemos que são três pessoas em uma essência. Deus
em Trindade e Trindade em unidade, num relacionamento
de igualdade de diferentes funções.270 O Deus das
Escrituras é pessoal, amoroso, autossuficiente, autodoador,
unido na diversidade, que se comunica e vive em perfeita
comunhão.271
Ele cria seres “à sua imagem” (Gn 1.26-27). A perspectiva
de um Deus que transmite aspectos seus é a base para a
imago dei presente em cada ser humano. A imagem de
Deus no homem fundamenta alguém que é racional,
possuidor de capacidade de escolha e moralidade.272 Os
aspectos acerca de Deus, descritos nas Escrituras,
fundamentam essas características nele. Esses atributos,
que são percebidos no ser humano como sendo um
presente de seu Criador para distingui-lo da criação
impessoal, tornam o ser humano único na sua criação,
capaz de relacionar-se com Deus, já que as características
transmissíveis de Deus fundamentam a possibilidade de
personalidade273 do ser humano.274
Deve-se sempre lembrar que, conforme Gênesis
1.10,12,18,21,25, tudo que Deus criou é bom. Logo, tudo
que foi criado por Deus é bom, na sua forma original. Sendo
assim, a capacidade de relacionamento e cada esfera
desenhada por Deus ao longo das Escrituras, na sua forma
original, são boas, tais como igreja, família e estado.275
O pensamento humanista secular afirma que o ser humano
não necessita de um ponto de referência existencial além
dele mesmo. Esse argumento é frágil, assim como o homem
é frágil. As escolhas más do homem ao longo da história,
marcadas por guerras, genocídios, atentados, terrorismo,
entre outros, levam a duvidar da ética positivista oriunda da
moral desse fraco ponto de referência. Quando atrelamos a
perspectiva de um Deus trino, pessoal, que criou este
homem à sua imagem, temos não só um ponto de
referência moral, mas esperança existencial para o ser
humano.
Este Deus que cria e sustenta a criação “segundo o
propósito daquele que faz todas as coisas conforme o
conselho da sua vontade” (Ef 1.11) continua soberano sobre
toda a criação, guiando e dirigindo todas as coisas. A
percepção de José, em Gênesis 50.20, demonstra que Deus
não só dá esperança por meio da bondade, mas também
por meio da maldade: “Vós, na verdade, intentastes o mal
contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer,
como vedes agora, que se conserve muita gente em vida”.
Este Deus, vendo as más escolhas do homem e como
afetaram a humanidade (cf. Rm 3), age em prol dos seres
humanos (cf. Rm 5). Vale ressaltar que há uma atribuição de
maneira igualitária pelos autores do Novo Testamento e os
autores do Antigo Testamento com relação à soberania de
Deus (1Tm 6.15-16; cf. Jr 10.7; Sl 135.5). Ou seja, a
intervenção divina devido às escolhas do homem não
tornou Deus “menos” soberano. Assim, percebe-se que ele
age em todas as coisas (Rm 8.28), inclusive sobre o mal,
com o propósito de transformar o ser humano à imagem de
seu Filho (Rm 8.29-30).
A partir dessas ideias podemos ampliar ainda mais as
perspectivas sobre Deus, seus planos e sua obra de criação
máxima, que é o ser humano, como um ser pessoal, à
imagem de um Deus pessoal e soberano. No entanto, o
secularismo afirma que um Deus monopessoal e totalmente
soberano anula a livre escolha do homem.
Três entendimentos fundamentais precisam ficar claros
acerca desse pensamento. Primeiro, a soberania de Deus é
um alívio para o homem, conforme descrito acima, e
entendido, por exemplo, por José. Um ser limitado é incapaz
de lidar com todas as probabilidades de ações ao seu redor.
Suas ações acarretam muitas outras, gerando o que poderia
ser chamado de efeito borboleta.276 Assim, a soberania não
priva o homem de sua liberdade,277 ela liberta da
responsabilidade de governo sobre todas as coisas e auxilia
o desamparado (cf. Is 57.15). Importante ressaltar que
enquanto Deus é “distante” por ser poderoso, ele é próximo
e pessoal: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a
eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e
santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido
de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o
coração dos contritos” (Is 57.15).
Segundo, Deus é dotado de livre vontade.278 Com base
nessa livre vontade ele é, de fato, possuidor de um livre-
arbítrio totalmente autônomo. Deus capacita o ser humano
com base em quem ele é. Ele é soberano, de livre vontade
e, ao mesmo tempo, amoroso e autodoador. Ao efetuar a
obra da criação, “ele deliberadamente escolheu limitar-se,
porque fez algo além de si mesmo”.279 Deus viabiliza um
exemplo de verdadeira liberdade para o homem, a qual
constitui-se não em fazer o que quiser, como quiser, mas
em limitar-se em prol do próximo, visando ao bem maior da
sociedade. Diferente dos humanistas seculares, o
cristianismo acredita que, sim, a transformação vem pelo
amor e sacrifício de Deus na cruz e não meramente pela
boa educação ou segurança financeira. A Trindade é um
modelo de uma sociedade vivendo em perfeita harmonia.Novamente, percebemos que só podemos ser pessoais e
relacionais porque somos feitos à imagem do Deus
tripessoal. Da mesma forma que o Deus trino utiliza sua
liberdade para autodoar-se, podemos experimentar um
modelo de liberdade divino.
O terceiro entendimento que contrapõe a perspectiva
humanista secular é que Deus não é monopessoal. Sendo
trino, ele é tripessoal.280 A perspectiva da tripessoalidade
gera uma interação de formas diferentes sobre a mesma
questão com o ser humano. Pode-se questionar: como Deus,
sendo santo e justo, em harmonia e sem divisão, relaciona-
se com o mal que o homem pecador produz? Segundo
Franklin Ferreira, a viabilidade está na Trindade:
Por fim, não existe tensão entre a santidade e o amor de Deus.
A santidade exige que a pena do pecado seja paga (Rm 1.18-32;
2.1–3.20), e o amor age para que alguns sejam justificados,
para entrar em comunhão com Ele (Rm 1.17; 3.21). A união
entre esses atributos é demonstrada na Cruz. Nela, o eterno
Filho de Deus se entregou, como nosso representante, para
satisfazer a santidade do Pai, ofendida por nossos pecados, e
para proporcionar perdão para todos quantos confiam em
Cristo.281
Assim, a ação das pessoas da Trindade, cada uma
realizando uma função, permite que o homem viva com
capacidade de escolha. Deus é justo e misericordioso, ele
exige perfeição, mas ao mesmo tempo justifica o ser
humano e, então, atua na vida dessa pessoa. O justo, o
justificador e o Espírito Santo atuam. Três pessoas, um só
Deus. Um Deus idôneo, onde cada pessoa da Trindade pode
suportar os atos contra si, mas as outras duas podem julgar
esses atos. Um Deus que vive em unidade, onde sempre
houve e sempre haverá diversidade, é capaz de dotar o
homem de arbítrio. O homem tem liberdade somente
porque Deus é trino e de livre vontade.282
PERSPECTIVA TRINITÁRIA E A IGREJA LOCAL
Uma perspectiva trinitária de Deus influencia diretamente o
modo de ser igreja. Quando se entende melhor os conceitos
de como a Trindade vive em comunidade e de como nós
somos chamados para a comunhão com um Deus trino,
podemos, de fato, entrar em comunhão uns com os outros.
Assim, a comunhão com Deus pode ser visível na comunhão
eclesiástica. A igreja, a comunidade criada por Deus para
nos relacionarmos na imitação de quem ele é, nos fornece a
perspectiva correta para adquirir e praticar uma cosmovisão
trinitária.283
O humanismo abandona o único ponto de referência
imutável existente, ignorando quem Deus é. No entanto,
quando a igreja local tem o Deus trino como único ponto de
referência de maneira perceptível em seus programas,
cultos, propósitos, por meio de uma mutualidade real,
baseada na autodoação e autoentrega de cada membro, é
possível alcançar comunhão em unidade preservando a
diversidade, regida por absolutos de santidade. O corpo de
Cristo é uma das expressões mais claras da existência da
Trindade. Onde pessoas que não teriam um motivo claro
para se amarem, escolhem se sacrificar umas pelas outras.
Quando isso acontece, temos uma apologética viva e clara
ao humanismo secular.
Por isso, a igreja local necessita ser a expressão da
Trindade para as pessoas que não conhecem a Cristo, por
meio da aceitação mútua, do sacrifício e do entendimento
da soberania de Deus, orando e apoiando-se mutuamente,
suportando uns aos outros e cumprindo os demais
mandamentos recíprocos do Novo Testamento. Na igreja
local, seres limitados são exortados a imitarem o ilimitado
(Ef 5.1).
O humanismo é extremamente presente na pós-
modernidade. A perspectiva trinitária possibilita a
construção de uma resposta para todos esses elementos. A
igreja local deve estar disposta a viver à imagem de um
Deus na sua totalidade. É poderoso refletir que somos
criados à imagem de Deus, mas quando comunidades que
seguem a Cristo praticam e vivem a autoentrega, mostram
ao mundo uma realidade que espelha o amor de Deus (Jo
17). A falta de comunhão verdadeira em uma igreja local
produz cristãos individualistas. A mutualidade, os
relacionamentos profundos e a autoentrega são
extremamente necessários para a formação de uma igreja
que reflita a imagem da Trindade. 284
CONCLUSÃO
Obviamente, o conceito profundo sobre a Trindade é
necessário para toda e qualquer pessoa. No decorrer deste
capítulo, percebeu-se que os conceitos humanistas
seculares estão presentes na atualidade de diversas formas,
e a perspectiva da Trindade é, sem dúvida, a melhor
resposta para eles. No entanto, o humanismo secular,
incrustado em nossa sociedade, conduz o indivíduo a uma
cosmovisão que frutifica em individualismo, egoísmo e
relativização. As absolutas verdades de um Deus
autodoador e que eternamente vive em comunidade são
essenciais para a formação de uma cosmovisão que permita
ao indivíduo alcançar a maturidade. Assim, a necessidade
de explanação acerca da perspectiva trinitária, buscando a
formulação de uma cosmovisão trinitária, parece ser o
caminho seguro para a condução do indivíduo rumo à
piedade, à fidelidade e à relevância.
Interessante perceber que a constituição de quem Deus é
nos ampara. A providência divina, por exemplo, nos dá um
motivo para suportar todas as coisas. Um Deus criador e
pessoal nos oferece uma oportunidade de relacionamento,
uma viabilidade para os aspectos de personalidade e um
padrão de comportamento. Ele, sendo o criador da família e
da sociedade, tem um plano ativo para elas. Sendo
autodoador e agindo de livre vontade, nos capacita para
escolher e nos oferta um padrão libertador para essas
escolhas. Por fim, por ser tripessoal, se relaciona conosco de
maneira completa, não permitindo desamparo por causa da
sua justiça nem libertinagem por causa do seu amor. A
perfeição da Trindade é viabilizadora de uma vida próspera
para o ser humano num mundo caído, à medida que
vivemos em comunidade como ele vive em comunidade.
PARA REFLEXÃO
1. No meio universitário acadêmico, percebe-se os
princípios do humanismo secular vivos. Jesus disse: “Não
peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do
mal” (Jo 17.15). Cristãos não podem abandonar a
academia tanto quanto não podem crer em qualquer
ideia contrária às Escrituras. Como a cosmovisão
trinitária pode auxiliar a ser relevante e manter-se fiel em
situações como essa?
2. Como você percebe um humanismo secular presente
nos meios em que está inserido? E como a Trindade pode
auxiliar a superar os desafios oferecidos por esse
pensamento?
3. Vemos em João 17.20-21 a possibilidade de que o
mundo conheça a verdade por meio do relacionamento:
“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles
que vierem a crer em mim, por intermédio da sua
palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó
Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para
que o mundo creia que tu me enviaste”. Como essa ideia
se aplica na igreja local e em que forma a sua existência
é uma apologética ao humanismo?
CAPÍTULO 13
A TRINDADE E ALÁ
DESAFIOS NO DIÁLOGO CRISTÃO COM OS
MUÇULMANOS
PAULO C. SANT’ANNA E JOSH MILANO
O islamismo nega enfaticamente a doutrina da Trindade e
levanta várias barreiras com relação ao pensamento cristão.
Os principais obstáculos enfrentados por cristãos ao
tentarem compartilhar o evangelho aos muçulmanos
surgem de pressuposições assumidas sobre o cristianismo à
luz do Alcorão ou devido às suas tradições históricas. O
desafio é tentar transpor essas barreiras ou divergências de
crenças na tentativa de buscar pontes para o diálogo sobre
o Deus trino revelado na Bíblia.
IDENTIFICANDO AS BARREIRAS 
COM A TRINDADE
Mesmo crendo que a Bíblia foi divinamente inspirada em
seus manuscritos originais, os muçulmanos tendem a crer
que a doutrina da Trindade foi uma invenção inserida pelos
cristãos e seria, consequentemente, uma heresia. Carlos
Madrigal aponta o surgimento dessas barreiras em dois
erros na crença do islã:
Os que rejeitam a Trindade o fazem baseados em dois erros
principais. O primeiro erro consiste em pensar queas Sagradas
Escrituras (Taurat-[...]; Zabur-[...]; Injil-[...]) (sic) têm sido
adulteradas, e, portanto, os versículos que sustentam a
Trindade são considerados forjados. No entanto, tal suposição é
completamente infundada. O segundo erro é a alegação de que
essa doutrina não procede de revelação divina, mas que é
resultado de decisões caprichosas e infundadas tomadas nos
concílios da igreja primitiva – especialmente no Concílio de
Niceia, em 325 d.C.285
Esses dois erros citados por Madrigal já seriam suficientes
para erguer uma barreira intransponível neste diálogo.
Porém, por outro lado, o próprio Alcorão poderá fornecer
temas importantes para a conversa, pois faz alusões às
Escrituras, dando crédito a elas. Assim, é sábio aproveitar
pontos da crença do islã para uma abordagem bíblica sobre
a Trindade.
O islã afirma ser a mensagem do mesmo Deus do Antigo e
do Novo Testamentos, pois está revelado no Alcorão286 em
várias passagens, como nas Suratas 2:136,138-140; 4:150-
152. Um exemplo é a Surata 29:46 com a declaração que
confirma a ideia da crença: “E não disputeis com os adeptos
do Livro, senão da melhor forma, exceto com os injustos,
dentre eles. Dizei-lhes: cremos no que nos foi revelado,
assim como no que vos foi revelado antes; nosso Alá e o
vosso são Um e a Ele nos submeteremos”.287
O islã é uma religião monoteísta com o conceito de que Alá
é infinito, pessoal e criador, mas ainda muito diferente do
Deus trino das Escrituras; ele é uma unidade absoluta.
Afirmar a Trindade com Jesus e o Espírito é, para o islã, o
pecado imperdoável chamado shirk, como explica Silas
Tostes: “É atribuir parceiros a Alá, ou seja, considerar algo
ou alguém que não tem natureza divina como Deus,
adorando-o como tal”.288 Na Surata 4:48 encontramos a
seguinte declaração: “Alá jamais perdoará a quem Lhe
atribuir parceiros; porém, fora disso, perdoa a quem Lhe
apraz. Quem atribuir parceiros a Alá cometerá um pecado
atroz”.289
Para os muçulmanos, Alá é absoluto e autossuficiente, que
não precisa relacionar-se com alguém. Por outro lado, o
Deus do cristianismo é relacional em sua essência;
constituído como Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas e
uma substância. Por isso manifesta-se de forma finita na
criação e pode continuar sendo Deus independente da
criação. O autor Fred Sanders tem uma afirmação neste
ponto sobre o Deus trino: “Coisas como a criação e a
redenção são coisas que Deus faz, e continuaria sendo Deus
se ele não tivesse feito. Porém a Trindade é quem Deus é, e
sem ser a Trindade, ele não seria Deus. Deus menos criação
continuaria sendo Deus, mas Deus menos o Pai, Filho e
Espírito Santo não seria Deus”.290
Os estudiosos do islã também defendem que os atributos
de Alá são semelhantes aos do Deus cristão, mas sem
aceitar a Trindade. Na Surata 1, Alá é descrito como
clemente e misericordioso e que é também soberano no dia
do juízo. Desta maneira, Alá é monopessoal e não se
relaciona com o pecador. Porém, a Bíblia afirma um Deus
trino que poderá resolver a questão do pecador, enviar o
seu Filho para demonstrar sua misericórdia e imputar
justiça, sendo que não há nenhum ser humano justo (Rm
3.23). Scott Horrell comenta:
Como é que o Absoluto Moral do universo pode perdoar e ter
comunhão com um pecador? Na Bíblia, Deus é o Justo, mas
também o Justificador de nossos pecados (Rm 3.23-26),
precisamente porque ele é mais do que uma pessoa. Por causa
de sua pluralidade de pessoas, o Deus Triúno pode ser o Santo
Juiz sem se comprometer, o Cordeiro sacrificial que morreu em
meu lugar e o Espírito santificador que atua em mim.291
Embora os conceitos básicos de uma crença monoteísta se
assemelhem ao conceito cristão, a crença na divindade
monopessoal como Alá não é o Deus da Trindade bíblica. Por
essas razões e outras, os muçulmanos são enfáticos em
negar a divindade de Jesus e os versículos que apresentam
a Trindade.
APRESENTANDO A TRINDADE 
POR PONTES DE AMOR
Ainda que as crenças do islã apresentem barreiras difíceis
de serem transpostas, é possível construirmos pontes dos
temas do Alcorão para com a revelação bíblica em defesa
da Trindade. A seguir, veremos três aspectos da doutrina
cristã e as devidas alusões no Alcorão que podem servir de
pontes para um diálogo amoroso sobre a Trindade.
Deus Filho Jesus Cristo
A divindade de Cristo é condenada no islamismo e no
Alcorão. Afirmar que Jesus é o “Filho de Deus” é uma
heresia, pois encaram esse tipo de filiação apenas em nível
biológico, pois Deus jamais teria contato sexual com uma
mulher. Eles o veem como um profeta humano, ou seja, um
homem mensageiro de Deus equiparado a Abraão, Moisés e
Davi.
Todavia, na Bíblia, a filiação de Jesus e sua divindade estão
amplamente relacionadas em várias passagens, como por
exemplo: Deus o chama de Filho amado (Mc 1.11; Lc 3.23);
Jesus é pré-existente e eterno (Jo 8.58); Jesus e o Pai são um
(Jo 10.30); quem vê o Filho vê o Pai (Jo 14.9). O próprio Jesus
foi acusado de declarar ser o Filho de Deus ou o próprio
Deus (Mc 14.61-64), então não poderia ser apenas profeta.
Como apresentar o Filho para a compreensão de um
muçulmano? O relato do nascimento virginal de Jesus é
descrito no Alcorão e pode ser uma ponte para o diálogo
sobre a pessoa de Jesus. Duas passagens do Alcorão
relatam o nascimento de Jesus, a Surata 19:26-29 e a
Surata 3:42-47. Esta última relata assim:
42. Recorda-te de quando os anjos disseram: Ó Maria, Alá te
elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da
humanidade! 43. Ó Maria, consagra-te ao Senhor. Prostra-te e
ajoelha-te com os que se ajoelham! 44. Estes são alguns relatos
do desconhecido, que te revelamos. Tu não estavas presente
com eles quando, com setas, tiravam a sorte para decidir quem
se encarregaria de Maria; tampouco estavas presente quando
estavam a discutir entre si. 45. E quando os anjos disseram: Ó
Maria, Alá te anuncia o Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus,
filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará
entre os próximos de Alá. 46. Falará aos homens ainda no berço,
bem como na maturidade, e se contará entre os virtuosos. 47.
Perguntou: Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se mortal
algum jamais me tocou? Disse-lhe o anjo: Assim será. Alá cria o
que deseja, posto que quando decreta algo basta dizer: Seja! e
é.292
Esse texto do Alcorão pode trazer uma alusão ao texto
bíblico de Lucas 1.26-38. No texto bíblico há maior riqueza
de detalhes que não estão registrados no Alcorão. A Bíblia
relata o nascimento de Jesus pela virgem Maria de maneira
milagrosa sem que ela tivesse contato íntimo, como afirma
a Surata 3:47 anterior. O foco deve estar nos detalhes
bíblicos sobre quem é Jesus, como sugere Don McCurry:
“Sendo que os mais importantes são que Jesus será um
Salvador, que herdará um reino eterno, que ele é o auge
das promessas de Deus feitas a Abraão, Jacó/Israel e Davi, e
que será chamado ‘o Filho de Deus’, ‘o Filho do
Altíssimo’”.293 O relato do nascimento virginal e miraculoso
de Jesus reforça sua divindade e mostra que Deus não teve
um relacionamento sexual com Maria.
Outra ponte possível para apresentar a divindade de Jesus
é o fato do Alcorão se referir a Jesus como o Verbo ou a
Palavra encarnada. Essa afirmação está na passagem do
Alcorão mencionada anteriormente (Surata 3:42-47). O
Alcorão dá ênfase a Jesus como sendo a Palavra de Deus,
veja a Surata 4:171: “O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão
somente um mensageiro de Alá e o Seu Verbo, com o qual
ele agraciou Maria por intermédio do seu Espírito”.294 Sobre
este conceito, a Bíblia é bem clara: Jesus é o Logos, o Verbo
ou a Palavra de Deus encarnada. Isso é sinônimo de sua
pré-existência, participação na criação e divindade
reveladas na Bíblia (Jo 1.1-4,14; Cl 1.16-17; Hb 1.1-3).
Madrigal resume o conceito bíblico de Jesus como Verbo:
Em resumo, podemos dizer que o fato de que Jesus é o Filho de
Deus não está sujeito ou depende do seu nascimentoterreno.
Antes de nascer como um homem, o ser espiritual que estava
“instalado” em Jesus – a Palavra divina – já era, de fato, o Filho,
a revelação viva de Deus, o Kalamu’llah. Ele não foi forçado a
nascer como um homem. Mesmo que Jesus não tivesse vindo a
este mundo, continuaria a ser o Filho (isto é, a Palavra), porque
já existia no coração de Deus. Foi depois de assumir uma
natureza humana que ele se tornou o Filho do Homem, o
Messias e o Salvador. Por seu nascimento, Jesus Cristo foi e é
um homem; mas, como a Palavra divina que vive desde a
eternidade, ele é e sempre foi Deus em pessoa.295
Uma excelente oportunidade no diálogo com o muçulmano
é apresentar o conceito bíblico da pessoa do Senhor Jesus
como o Verbo encarnado, pré-existente, sendo ele mesmo o
Filho de Deus, o Redentor. Jesus é o Unigênito Filho de Deus,
ele também é o primogênito, mas não em ordem de
nascimento e sim de primazia, pois Deus deseja nos adotar
como filhos.
O Deus Pai da Bíblia e o Alá do Islã
No islã, a terminologia de Deus como Pai não é comum
devido ao mesmo argumento de que Deus também não tem
Filho. A nomenclatura “pai” evoca para os muçulmanos um
significado estritamente biológico, o que para o cristão
também seria uma heresia. Há muitos textos na Bíblia para
se referir a Deus como Pai nos seus diversos sentidos: o Pai
de Israel (Is 63.16); a Deus Pai pertencem todas as coisas
(1Co 8.6); o Pai que ouve nossas orações (Ef 3.14-15); o Pai
que disciplina seus filhos (Hb 12.9-10); o Pai que dá boas
dádivas (Tg 1.17).
Os textos bíblicos que apresentam Deus como Pai têm de
nos remeter à eternidade, pois a paternidade de Deus
revela o relacionamento de amor na Trindade. O Senhor
Jesus declara em João 17.24: “... porque me amaste antes
da fundação do mundo”, confirmando esse relacionamento.
Na eternidade, o Deus trino se relacionava numa
comunidade de amor, e fomos criados como demonstração
desse amor para desfrutar da comunhão com ele. Alguns
concluem que a criação originou-se no sobrefluir de amor e
de autossacrifício dos relacionamentos trinitários.
Certamente, esse Deus trino criou, sustenta e envolve-se
com todas as dimensões da existência. Assim conclui
também Thomas Finger:
Contudo, embora este processo autodoador e autoesvaziador
seja tão radical, tal Deus trinitário permanece distintamente
outro. Assim o entrelaçamento de Deus com as criaturas evoca
maravilha elevada, pois não procede de uma necessidade
natural – não porque já somos o corpo de Deus, mas da
graça.296
No diálogo cristão com o muçulmano é preciso apresentar
que Deus é um Pai amoroso, que sua paternidade espiritual
é de um relacionamento muito diferente das experiências
negativas que a paternidade humana possa providenciar.
Podemos recorrer sempre ao amor do Pai celestial (2Co
13.13), pois ele mesmo é a fonte de amor (1Jo 4.7-8). Deus
Pai nos ama, e por causa do seu amor – que começa dentro
da Trindade – ele também quer nos adotar como filhos (Mt
5.45; Jo 1.12; 1Jo 3.1). A oração de Jesus por nós revela o
seu desejo de que esse amor do Pai esteja em nós (Jo
17.26).
O grande amor de Deus Pai é demonstrado ao dar o seu
próprio Filho Jesus por nós para recebermos a salvação (1Jo
4.9-10; Jo 3.16). Somente um Deus trino pode ter um plano
tão maravilhoso de adotar novos filhos e torná-los
coerdeiros com Jesus (Rm 8.29).
O Espírito Santo e o Islã
O desafio permanece em apresentar o Espírito Santo como
sendo Deus. O Alcorão menciona Maria como uma tentativa
de se tornar a terceira pessoa da Trindade. O apoio para
esse pensamento parece ser baseado no Alcorão, Surata
5:116.
E recorda-te de quando Alá disse: Ó Jesus, filho de Maria! Foste
tu que disseste aos homens: Tomai a mim e a minha mãe por
duas divindades, em vez de Alá? Respondeu: Glorificado sejas! É
inconcebível que eu tenha dito o que por direito não me
corresponde. Se o tivesse dito, tê-lo-ias sabido, porque Tu
conheces a natureza da minha mente, ao passo que ignoro o
que encerra a Tua. Somente és Conhecedor do
desconhecido.297
O texto acima parece estar reafirmando a humanidade de
Jesus e Maria, e que adorá-los como Deus é um erro. Há
uma explicação para tal ponto de vista, como esclarece
Silas Tostes:
Há duas possibilidades de como Maomé se convenceu de que a
crença da Divindade de Maria era aceita por cristãos. Talvez
obteve este conhecimento através de uma obscura seita cristã
chamada Collyridians. Estes adoravam Maria e lhe ofereciam
um bolo em adoração, chamado Collyris. Ou simplesmente o
obteve por meio do que pensou ser verdade, segundo as
aparências, pois alguns cristãos veneram Maria em suas
expressões populares de fé, de tal maneira, que poderia ter lhe
parecido que era uma doutrina cristã, a divindade de Maria.
Sendo assim, Maomé poderia ter concluído que Maria era parte
da Trindade, o que é contrário ao ensino bíblico sobre ela.298
Na doutrina cristã evangélica, a veneração ou adoração de
Maria é inaceitável e é inconcebível colocá-la como membro
da Trindade até mesmo entre católicos romanos que
aceitam sua veneração. Os muçulmanos também concluem
que os textos que mencionam o “Espírito Santo” devem
obviamente ser uma referência ao anjo Gabriel, que se
revelou ao profeta Maomé.
Por isso, é necessário explicar quem a Bíblia diz ser o
Espírito Santo. Ele não é uma força ou energia, mas uma
pessoa: chamado de Consolador – o paracletos (Jo 14.26;
15.26; 16.7). Expressa sentimentos (Ef 4.30) e vontade (At
16.7). É reconhecido como Deus: chamado de Espírito do
Senhor (2Sm 23.2), ele é Deus (At 5.3-4) e existe desde a
eternidade (Hb 9.14; 1Pe 1.10-12).
O Espírito Santo é uma pessoa e age em nosso meio, ele
tem um ministério de convencer o mundo do pecado, da
justiça e do juízo de Deus (Jo 16.8); dando-nos a nova vida
espiritual quando nos tornamos filhos (Jo 3.6) e garantindo a
salvação e filiação (Ef 1.13; Rm 8.11,16).
As obras do Espírito Santo também apontam para a sua
divindade: participação da criação do mundo (Gn 1.2); a
inspiração das Escrituras (2Pe 1.21); a concepção de Jesus
(Mt 1.20); e sua morada no crente (1Co 6.19).
Inevitavelmente, o Espírito Santo é Deus de acordo com a
Bíblia, e não uma invenção posterior dos cristãos. Os credos
dos apóstolos, de Niceia e de Atanásio não definiram a
Trindade, foram apenas uma tentativa de organizar os
pensamentos sobre a Trindade para instruir a igreja contra
eventuais heresias.
O Deus trino é glorioso e soberano, o que o torna
transcendente. No entanto, ao mesmo tempo, ele também é
imanente ao garantir a sua presença (Jo 14.16-17) e
comunhão (1Co 6.19) por intermédio do Espírito Santo. Um
Deus monopessoal e absoluto é apenas transcendente e
não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, pois uma
excluiria a outra.
CONCLUSÃO
Por mais confusas que possam ser as ideias do islã sobre a
Trindade, os cristãos precisam assumir uma postura de
amor nesse diálogo. O amor é a maior dádiva que alguém
pode oferecer e a fonte desse amor é o próprio Deus trino
(1Co 13.1-7,13; 1Jo 4.8). Temos que lembrar que o
convencimento das verdades espirituais vem através da
obra do Espírito Santo na vida daqueles que se submetem a
ele.
Muçulmanos vieram ao Brasil como imigrantes no passado
e, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, são hoje mais de 35 mil pessoas. Alguns líderes
muçulmanos ainda afirmam que os números podem chegar
a 1,5 milhão de fiéis.299 Ainda que haja divergência nas
estimativas, é verdade que a cada dia a população de
seguidores do islã só cresce, sendo por conversões ou pela
chegada de refugiados de países em conflito. Diante dessas
informações, a igreja brasileira deve se conscientizar e
preparar os cristãos para essas portas que se abrem. Sim,
criar oportunidades de se aproximar de muçulmanos, com o
intuito de lhes apresentar o evangelho do Deus trino. Que o
povo de Deus possa se engajar num diálogo com os
muçulmanos sobre o Deus trino, que é aquele que revela oseu amor, que nos resgata com o seu amor e nos recebe em
seu amor. Convide-os para experimentar esse amor.
PARA REFLEXÃO
1. Ao investigarmos a natureza do Deus trino e de Alá,
aparentemente vemos atributos semelhantes, como
justiça e misericórdia. No entanto, quais seriam as
implicações das crenças no aspecto monopessoal de Alá
e do Deus trino em relação aos seus atributos?
2. Na visão do islã, é grande heresia chamar Deus de Pai,
pois é inconcebível que Deus tenha gerado filhos.
Basicamente, o argumento utilizado é da impossibilidade
de uma filiação biológica, logo, como podemos explicar
biblicamente a maneira que nos tornamos filhos de
Deus?
3. Há um controverso entendimento dos muçulmanos a
respeito de Maria, de que ela seria uma pessoa da
Trindade. Como que o conhecimento do texto do Alcorão
e do texto bíblico podem ser argumentados para se
refutar essa ideia?
4. Existe uma maneira prática em que um cristão pode
demonstrar o amor de Deus por um muçulmano? Como?
CAPÍTULO 14
OS CREDOS TRINITÁRIOS E O
PENSAMENTO CERTO
COMO OS CREDOS PODEM FUNCIONAR NA
IGREJA
CÉSAR ORLANDO MENDOZA RAMÍREZ
Uma das características de grande parte da igreja
evangélica brasileira é sua anticonfessionalidade, ou seja,
ser indiferente a tudo aquilo que está relacionado com
confissões de fé e catecismos. Dentro dessa rejeição da
prática de ensinar essas formulações de fé, também
podemos agregar os credos – que historicamente foram de
grande importância para o desenvolvimento da doutrina
cristã. Infelizmente, os credos possuem uma fama de ser
algo desnecessário para a vida cristã.
Ironicamente, aqueles que são contrários às confissões de
fé, aos catecismos ou aos credos também possuem seus
próprios dogmas, que talvez não estejam escritos, porém
são conhecidos publicamente pela comunidade à qual
pertencem. Eles também defendem pontos que os
diferenciam de outras comunidades cristãs. A verdade é que
a grande maioria das discussões acontece com relação às
“doutrinas denominacionais”, como qual é o tipo certo de
batismo, o verdadeiro significado da santa ceia, qual é a
forma de governo correta, como devemos entender os dons
espirituais etc.
O problema com isso é ficarmos preocupados com
questões periféricas e nos esquecermos do mais
importante, como por exemplo: o que nos identifica como
cristãos? Quais são as doutrinas históricas e fundamentais
que estão além do denominacionalismo? Por isso, é de
muita importância que, em nossa época, a igreja de Cristo
volte a apreciar os credos que enfatizam o Deus trino –
dentre os quais temos o Credo dos Apóstolos, de Niceia, de
Constantinopla, da Calcedônia e de Atanásio – bem como
entenda como estes se relacionam com a igreja atualmente.
Desde o início de sua existência, a igreja quis organizar o
essencial da sua fé em resumos articulados. Como dizem
Franklin e Myatt, os credos principais serviam como símbolo
de identificação e comunhão: “Desde o seu início, o
cristianismo confessou sua fé de forma lógica e objetiva,
através de credos, confissões e catecismos, e isso cedo se
refletiu na anuência ao Credo dos Apóstolos, ao Credo de
Niceia, à Definição de Calcedônia e ao Credo de
Atanásio”.300 Paralelo a isso, os credos resolveram conflitos
que surgiam dentro da igreja, fruto de heresias que
formulavam ensinos errados e destruíam os alicerces da fé.
Enfim, a aceitação ou a rejeição de um credo servia para
distinguir os crentes e os negadores de uma doutrina
específica ou de um conjunto de doutrinas ao redor da
pessoa de Jesus Cristo e da Santa Trindade. Com o tempo,
certos credos entraram na liturgia da igreja, geralmente
depois da leitura das Escrituras, como uma afirmação da fé
congregacional. Por isso, numa época como a nossa, onde
temos variadas informações que ingressam numa grande
velocidade em nossas igrejas locais, com muitas delas
inclusive indo além ou até contradizendo a Palavra de Deus,
os credos se tornam uma ajuda para delimitar o que de fato
está conforme o ensino bíblico e o que é herético.
Os reformadores protestantes não tinham medo de usar os
credos. Infelizmente, depois de Calvino e Lutero, surgiram
posições radicais que se desligavam da tradição histórica da
igreja. Atualmente, temos evangélicos que não gostam de
ouvir a palavra “tradição”, já que acreditam que isso os
vincula com o catolicismo. No Brasil, muitas denominações
evangélicas desenvolveram uma grande oposição aos ritos,
cerimônias e mensagens que tenham algum vínculo com o
catolicismo, por isso, usando o argumento de Sola Scriptura,
rejeitaram os credos.
O entendimento errado da Sola Scriptura levou muitos
grupos evangélicos a acreditarem que sua interpretação da
Bíblia é a única base e autoridade na vida do cristão,
enquanto afirmam que os credos são o resultado de
tradições humanas inúteis e enganosas. Lamentavelmente,
deixam de lado uma rica história de interpretação das
Escrituras em comunidade, onde o Espírito de Deus agiu na
vida dos crentes do passado. Quando nos desvinculamos
totalmente da tradição cristã, esquecendo-nos que a própria
Bíblia insiste que sigamos o ensino dos apóstolos e o
ensinemos a outros (2Tm 3.10-17), corremos o risco de nos
tornarmos a autoridade final da interpretação.
Também sabemos que vivemos numa época de rápida
mudança mundial, onde princípios que guiavam a
humanidade, e especialmente a cultura cristã, estão sendo
destruídos, e não temos tempo para construir novos valores
com a mesma rapidez que outros se destroem. Por isso, é
muito importante que a igreja seja flexível em sua forma, a
fim de alcançar o ser humano perdido, porém sem se
esquecer da sua essência – em quem tem crido. Neste
contexto, o estudo dos credos se torna muito relevante para
nossa época, já que eles são de extremo valor para manter
uma vida saudável nas igrejas.
BREVE HISTÓRIA DOS CREDOS
Sabemos que a Bíblia não foi escrita como um livro de
teologia sistemática ou um compêndio, onde podemos
encontrar uma parte específica que fale sobre a Trindade,
sobre pneumatologia, escatologia etc. Obviamente, ela fala
sobre esses temas, e o desafio da boa teologia é juntá-los e
mostrar o que Deus revela sobre um tema específico, para
logo dialogar com questões da época atual e poder mostrar
que a Palavra de Deus tem resposta para um ser humano
perdido. Dentro desse processo, os credos se tornaram
muito importantes, já que neles podemos encontrar um
resumo do que temos crido e por quê.
O Credo Apostólico
O Credo dos Apóstolos é o mais conhecido dos credos e por
muito tempo foi atribuído aos doze apóstolos,301 porém
muitos estudiosos acreditam que ele se desenvolveu a
partir de pequenas confissões batismais empregadas nas
igrejas dos primeiros séculos. Sabemos que é bem antigo:
atualmente alguns autores acreditam que alcançou sua
forma rudimentar (a Velha Fórmula Romana) em mais ou
menos 150 d.C. Por volta do século VI começaram a circular
histórias sobre seu processo de formação.302 A forma
integral do Credo, tal como a conhecemos hoje, teve sua
origem em torno do século VIII na Gália, atual França.
Para Franklin e Myatt, doutrinas essenciais encontram-se
neste credo: “Desde cedo, a igreja cristã afirmou o conteúdo
do ‘cristianismo puro e simples’, as afirmações mais básicas
e distintivas da fé cristã, no assim chamado Credo dos
Apóstolos”.303 Podemos acreditar que existe uma conexão
entre o Credo dos Apóstolos com credos antigos menores,
como por exemplo o Credo Romano Antigo, que provém da
segunda metade do século II.304
O Credo Apostólico surgiu como resposta à exigência que
as Escrituras fazem aos cristãos para que confessem sua fé
de forma clara e simples e também serviu para combater o
paganismo.305 A versão mais antiga que conhecemos
provém de Marcelo, bispo de Ancira (capital da Galácia),
aproximadamente nos anos 337-341 d.C. O objetivo de
Marcelo foi provar sua ortodoxia ao bispo Júlio I. O Credo de
Marcelo é claramente trinitário, embora aparte cristológica
seja maior que a referente ao Pai e ao Espírito. A versão
atual do Credo afirma claramente o caráter trino de Deus; a
encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte,
ressurreição e ascensão; a igreja como criação do Espírito
Santo; o perdão dos pecados; a ressurreição do corpo e a
vida eterna.
O Credo de Niceia (325 d.C.)
O Credo de Niceia foi elaborado no primeiro Concílio
Ecumênico (universal) da Igreja, que foi realizado na cidade
de Niceia (atual Iznik, na Turquia), no ano 325 d.C.306 O
propósito deste credo foi combater o ensino de Ário, um
presbítero da igreja de Alexandria, natural da Líbia, que
havia declarado que embora o Filho fosse divino, ele era o
primeiro ser criado através de quem tudo o mais foi criado,
e, portanto, o Filho não possuía a mesma essência com o
Pai. A natureza de Cristo era parecida com a de Deus
(“natureza semelhante”, homoiousios), e não igual
(“natureza idêntica”, homoousios).307 Também ensinou que
o Espírito Santo foi criado pelo Filho.
Quando o Concílio de Niceia procurou resolver essa
questão, um grupo de bispos liderados por Alexandro de
Alexandria defendeu que o Filho era da mesma substância
(homoousios) que o Pai. Depois de semanas de debate, o
imperador Constantino afirmou, junto com o bispo
Alexandro e a grande maioria dos bispos presentes, que
Cristo era da mesma substância (ou essência) do Pai.
O Credo de Constantinopla (381 d.C.)
Com respeito ao Espírito Santo, o Credo de Niceia
simplesmente dizia “cremos no Espírito Santo”, dando por
entender que o Espírito, assim como o Filho, era da mesma
essência que o Pai. Ainda mais, houve oscilação no Império
entre o chamado arianismo e a ortodoxia de Niceia, com
vários sínodos e novos credos comprometidos com o que foi
antes rejeitado. Pior ainda, um novo imperador, Juliano, “o
Apóstata”, queria devolver o mundo para o velho
paganismo. A igreja estava sem definição, e para isso foi
realizado o Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., sob a
orientação (inicial) de Gregório de Nazianzo. O Credo de
Constantinopla reivindicou a eterna igualdade do Filho com
o Pai: o Filho é “eternamente gerado do Pai, Deus de Deus,
luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não
criado, de uma substância com o Pai, através de quem tudo
foi criado”. Sobre o Espírito, o Credo declara: “Cremos no
Espírito Santo, Senhor vivificador, que procede do Pai, que
com o Pai e o Filho conjuntamente é glorificado e que falou
por meio dos profetas”. Ainda que esse credo não utilize a
expressão “de uma só substância com o Pai” em relação ao
Espírito Santo, usada para falar sobre Cristo no Credo de
Niceia, descreve a obra do Espírito Santo em termos que
não poderiam ser atribuídos a qualquer outro ser criado. A
partir do Credo de Constantinopla – geralmente tido e citado
como “o Credo de Niceia” –, os seguintes Concílios
Ecumênicos de Éfeso (431 d.C.) e Calcedônia (451 d.C.)
foram construídos.
O Credo de Calcedônia (451 d.C.)
O imperador Marcião convocou o quarto concílio ecumênico,
conhecido como o Concílio de Calcedônia, no ano 451.
Semelhante ao Concílio de Éfeso, em 431, mas agora de
forma mais definitiva, o propósito desse concílio foi corrigir
controvérsias entre as igrejas ocidentais e orientais a
respeito da encarnação e da natureza de Jesus Cristo. Era
necessário escrever um novo credo que definiria de modo
claro a relação entre as duas naturezas de Cristo (divina e
humana).
Três posições principais que foram rejeitadas no concílio:
(1) Jesus teve um corpo humano, porém os aspectos
espirituais e racionais eram divinos. Fisicamente ele era um
homem, porém não tinha alma nem espírito humano. De
fato, essa posição defendida por Apolinário já havia sido
condenada no Concílio de Constantinopla em 381; (2) em
Jesus foram unidos um homem e Deus sem mistura, de tal
maneira que Jesus quase foi entendido como duas pessoas
no mesmo corpo – uma posição atribuída a Nestório; e (3)
contra o nestorianismo, Êutico defendeu que as duas
naturezas, humana e divina, se fusionaram de tal maneira
que Jesus teve uma só natureza, nem inteiramente Deus
nem inteiramente homem; surgia, assim, uma terceira
substância antes inexistente, diferente de qualquer corpo
humano.
O Concílio de Calcedônia rejeitou essas três posições.
Enfim, a Definitio Fidei, isto é, a Definição de Calcedônia,
estabeleceu a resposta à questão cristológica: as duas
naturezas, divina e humana, cada uma completa e perfeita,
se juntam na única pessoa de Jesus Cristo, “sem confusão,
sem mudança, sem divisão, sem separação” – isto “para nós
e para a nossa salvação”. Sendo plenamente Deus, o
sacrifício de Jesus é perfeito e infinitamente valioso,
suficiente para pagar o preço de todos os pecados. Sendo
plenamente humano, seu sacrifício é em nosso lugar. Como
diz Gregório de Nazianzo em sua carta a Cledônio, “o que
não é assumido por Jesus, ele não cura, mas o que é unido à
sua divindade, ele salva”. Assim, ao afirmarmos com
Calcedônia a união do divino e humano em Jesus, podemos
nos alegrar da sua suficiência para nos salvar em todos os
aspectos da nossa existência.
O Credo de Atanásio (c. 500 d.C.)
O Credo de Atanásio (Quicunque vult) foi inicialmente
atribuído por alguns a Atanásio, bispo de Alexandria (c. 296-
373 d.C.), honrando o famoso defensor da doutrina da
Trindade. Baseado na teologia de Atanásio, Constantinopla e
Agostinho, o Quicunque vult funcionava como catequese
para os novos na fé na igreja latina (católica romana). A
mais antiga menção ao Credo de Atanásio é do século VI,
através de um sermão de Cesário. A forma definitiva do
século VIII reflete a teologia dos quatro primeiros sínodos
ecumênicos.
Esse credo possui 40 artigos e, ainda que seja um tanto
longo, é considerado “um majestoso e único monumento da
fé imutável de toda a igreja quanto aos grandes mistérios
da divindade, da Trindade de pessoas em um só Deus e da
dualidade de naturezas de um único Cristo”.308 Na igreja
ocidental, o credo foi elaborado para orientar novos
convertidos à fé trinitária para o batismo: “Adoramos um
Deus em Trindade e a Trindade em Unidade, sem confundir
as Pessoas, sem dividir a essência. Pois há uma Pessoa do
Pai, uma do Filho, outra do Espírito Santo. Mas a Divindade
do Pai, do Filho e do Espírito Santo é Uma só, a Glória igual e
coeterna a Majestade”. E de novo, “o Pai é Deus, o Filho é
Deus e o Espírito Santo é Deus, porém não há três Deuses,
mas um só Deus”. Ao mesmo tempo, o Credo de Atanásio
esclarece a distinção de cada pessoa da Trindade – o Pai
como o gerador, o Filho gerado e o Espírito procedido, todos
dignos de adoração.
Os Credos Apostólico, Niceno, Constantinopolitano,
Calcedônico e de Atanásio unificam a igreja de Jesus Cristo.
São afirmados por todos os protestantes da Reforma, todos
os evangélicos e todos os pentecostais tradicionais – junto
com as Igrejas Católica e Anglicana. As verdades neles
expressas dividem a fé bíblica e ortodoxa das outras
religiões e de todas as seitas subcristãs rejeitadas da longa
história cristã.
A IMPORTÂNCIA DOS CREDOS 
PARA A NOSSA ÉPOCA
A importância dos credos não está na sua repetição vã, ou
mesmo na sua memorização, mas em expor e ensinar
doutrinas essenciais da fé cristã. Apresentamos seis razões
pelas quais os cristãos deveriam apreciar, estudar e
aproveitar para uso na igreja local os credos centrais da
igreja antiga.309 Esses pontos podem servir como
contextualização para séries de mensagens que explicam os
credos, a sua utilidade para nossas igrejas e o nosso
relacionamento com o Deus trino.
1. Os Credos Oferecem Resumos Claros sobre Nossa
Fé
Quando estudamos os Credos dos Apóstolos, de Niceia, de
Constantinopla, da Calcedônia e de Atanásio, podemos
aprender, de forma breve, verdades sobre nossa fé – em
quem temos crido. Usualmente os cristãos não têm tanto
tempo para ler coleções teológicas e chegar a conclusões
sobre sua fé, por isso os credos sãode grande ajuda, já que
podem ser memorizados e lembrados em todo momento.
Com isso, podemos usá-los em várias situações em que
precisamos falar sobre nossa fé.
2. Os Credos Permitem Identificar 
Quanto Conhecemos sobre Deus
As igrejas precisam de presbíteros que liderem conforme a
vontade de Deus, e, para que isso aconteça, a Bíblia nos
recomenda que eles não devem ser neófitos na fé: “Não
seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra
na condenação do diabo” (1Tm 3.6).
Os credos nos ajudam a avaliar quanto um cristão tem
crescido no conhecimento da fé, já que isso está vinculado
com seu conhecimento das doutrinas básicas que nos
permitem saber nossa identidade como filhos de Deus e
defender nossa fé (1Pe 3.15). Uma igreja que não ensina os
credos corre o risco de ver o povo de Deus correr atrás de
mentiras. Sempre é necessário lembrar que não é só uma
repetição de informação; pelo contrário, os credos são
manifestações de uma igreja que está viva e que deseja
preservar sua fé.
3. Os Credos nos Ensinam o que É Importante
Os credos proporcionam às igrejas um mapa pedagógico do
que deve ser ensinado. Com isso podemos identificar o que
é importante para um bom currículo no ministério de
educação cristã. A doutrina da Trindade é muitas vezes
omitida ou muito abreviada em várias igrejas, por ser
considerada complicada e misteriosa, mas os credos nos
lembram de sua importância vital.
4. Os Credos Delimitam o Poder da Manipulação
Numa época onde palavras são usadas para afirmar
“grandes ‘verdades’ que nunca anteriormente foram
ensinadas” e que, na grande maioria das vezes, tem como
objetivo manipular o povo de Deus, levando-o por um
caminho contrário à verdade, os credos se tornam
importantes, já que servem para delimitar o poder da
manipulação nas igrejas locais. Se, por um lado, uma leitura
individualista da Bíblia permite que qualquer líder proponha
qualquer coisa, os credos, por outro, já definiram limites
claros para nossa fé, dentro dos quais temos liberdade de
explorar e clarificar nossas posições. Um exemplo é a
relação com as propostas da teologia da prosperidade.
5. Os Credos nos Conectam com o Passado
Sabemos que as bases do cristianismo não foram
construídas recentemente; pelo contrário, elas são de longa
data e foram realizadas por diferentes irmãos em Cristo
para nosso benefício. Numa época como a nossa, em que o
antigo é muitas vezes rejeitado por acreditarmos que o novo
sempre é melhor, surge a necessidade de reavaliar essa
posição com a ajuda dos credos. Podemos ver o agir de
Deus através da história do cristianismo derramando
sabedoria sobre seu povo para que venhamos a entender
melhor sua Palavra e combater heresias. O uso dos credos
nos conecta com o passado, que também é nosso (já que a
igreja é uma só), e nos identifica com um Deus que está
agindo na história.
6. Os Credos nos Ajudam a Lembrar o Propósito do
Culto
Os credos sempre estiveram vinculados diretamente com o
culto público, por isso não podemos desvinculá-los de
nossos cultos, já que por meio deles declaramos
publicamente que Jesus é o Senhor e que a salvação é uma
obra do Deus trino – o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Consequentemente, não devemos acreditar que o uso dos
credos nas nossas liturgias possa tornar nossos cultos
densos e pouco vibrantes. O uso dos credos em nossos
cultos serve para lembrar em quem temos crido e o motivo
pelo qual estamos reunidos nesse momento, ou seja, nos
ajuda como cristãos a dar sentido aos fundamentos da fé.
Numa época onde existe um pluralismo religioso, com uso
de linguagem similar a muitos cultos cristãos, os credos nos
ajudam a lembrar que o Senhor ao qual dedicamos o culto é
Jesus – o único caminho para a salvação.
APLICAÇÃO: OS CREDOS 
NA IGREJA EVANGÉLICA
Nesse tempo de muita confusão teológica pelo qual a igreja
está passando, é aconselhável que todos os cristãos devam
conhecer sua fé, saber no que creem e por que creem.
Infelizmente, em nome de um suposto “pluralismo
inclusivista”, a igreja evangélica brasileira (e mundial) tem
se enfraquecido doutrinariamente, daí a importância de
voltar a estudar os credos, já que o propósito deles sempre
foi nortear nossa fé. Heber Carlos de Campos nos ajuda a
entender como o estudo dos credos é relevante para nossa
época:310
Reforçando quem somos, a igreja de Cristo: somos o povo
de Deus, que foi chamado por meio da pregação do
evangelho. Esse evangelho diz respeito a quem é Deus,
quem é Cristo, quem é o Espírito Santo, quem é o homem, o
que é a igreja etc. Assim, os credos nos auxiliam a entender
quem somos e a apresentar aos outros a nossa identidade
em torno de Cristo.
Combatendo os ataques de heresias e outras religiões:
muitos credos surgiram para combater falsos ensinamentos
que apareceram na igreja. Atualmente a igreja de Cristo
precisa de um norte teológico que sirva para combater
ensinamentos não bíblicos, tais como a teologia da
prosperidade, a negação da soberania de Deus, as
revelações de anjos, técnicas seculares de crescimento etc.
Evitando o pluralismo do tempo presente: vivemos em
uma época que defende todas as crenças e opiniões como
igualmente corretas. Os credos se colocam contra essa
ideia, afirmando que existe uma posição que a igreja deve
tomar como verdadeira, sendo assim, todas as outras são
distorções ou negações dela.
Limitando o experiencialismo: sem os credos, as
“revelações” e experiências podem ganhar status de
autoridade final. É comum vermos certos cânticos
antibíblicos tornarem-se moda na igreja e parte
inquestionável do culto. Da mesma forma, a visão de um
pastor pode tornar-se lei em uma igreja, mesmo que
princípios bíblicos sejam derrubados por isso. Isso se deve
pela falta de “muros doutrinários”. Obviamente os credos
não abordaram todas as doutrinas, por isso reconhecemos
que os muros são especialmente importantes nas doutrinas
essenciais da fé.
Estimulando exortação e correção. Como na igreja fiel e
antiga, os credos são úteis para corrigirem os cristãos, caso
eles estejam se desviando da fé. Para isso é necessário que
todos os cristãos saibam claramente em que a igreja crê.
CONCLUSÃO
Uma vez que muitos cristãos possuem pouco conhecimento
bíblico, aprender os credos é proveitoso, já que neles temos
um resumo da fé que deveria ser conhecido por todo
cristão. Os credos podem ser usados em classe de
catecúmenos para o ensino das doutrinas-chave do
cristianismo, ajudando os novos cristãos a terem um
conhecimento simples e correto do que é a essência do
cristianismo.
Também podem ser usados na celebração da ceia do
Senhor como uma forma de mostrar o que a igreja acredita
como um único corpo.
Finalmente, podem servir como roteiro de pregação ou
estudo bíblico, sendo estudados ao longo de várias
semanas. Essa ênfase na explicação dos credos é
importante para evitar a repetição vazia que muitas pessoas
experimentaram na Igreja Católica Romana, sem entender a
riqueza que eles expressam. Por esses e outros motivos, o
estudo e o uso dos credos em nossas igrejas podem ser de
grande utilidade.
PARA REFLEXÃO
1. A Bíblia diz que a igreja é coluna e baluarte da verdade
(1Tm 3.15). Essa verdade foi conservada pela igreja ao
longo de sua história. Até que ponto os credos,
atualmente, são úteis para combater os ensinos errados
que aparecem nas comunidades locais?
2. Os primeiros credos foram fruto de reflexão, querendo,
com isso, obter respostas que venham ajudar a igreja a
cumprir a missão que Cristo lhe entregou. Infelizmente,
por vários momentos, se levantaram vozes questionando
a necessidade deles. Será que os muitos
questionamentos nos têm influenciado negativamente
para usar os credos em nossas igrejas?
3. Alguns cristãos afirmam que “a letra mata” (2Co 3.6),
portanto estudar os credos pode nos levar a destruir
nossa vitalidade espiritual. Será que é suficiente para
nossa caminhada de fé manejar a Bíblia ao acaso,
abrindo em qualquerlugar e pregando sem considerar a
interpretação que a tradição tem realizado através dos
séculos?
4. Os credos históricos procuravam corrigir o erro
excluindo-o, e usavam a Bíblia para isso, explicando
como ela se opunha ao ensino herético. Hoje, até que
ponto procuramos na Bíblia as respostas aos muitos erros
que enfrentamos? Ou será que a Bíblia já não tem as
respostas?
CAPÍTULO 15
AMAR MELHOR
APROFUNDANDO A ADORAÇÃO 
AO DEUS PAI, DEUS FILHO E 
DEUS ESPÍRITO SANTO
CIDRAC FERREIRA FONTES
Adoração é um tema relevante nos dias atuais, pois
ocasionalmente observamos que certos rituais litúrgicos não
coadunam com os parâmetros bíblicos e não legitimam uma
adoração verdadeira. Pastoreio há 23 anos a igreja
Assembleia de Deus, e dentro do meio pentecostal temos
vivenciado certo desequilíbrio e exagero concernentes à
adoração, seja ela individual ou de forma comunitária.
Diversas vezes ouvi líderes conduzindo cânticos e
pronunciando veementes afirmações como: “A adoração nos
leva à presença de Deus!”. É claro que somos encorajados,
renovados e edificados quando adoramos coletivamente,
mas o que nos leva à presença de Deus é a morte e
ressurreição de seu Filho. Expressões como essa (e outras)
demonstram uma superficialidade de muitos crentes no que
tange à adoração.311
MAS, O QUE É ADORAÇÃO? E QUAL A RELAÇÃO DA
TRINDADE COM ADORAÇÃO?
A palavra adorar literalmente significa: inclinar-se até o
chão, prostrar-se diante de alguém em reverência ou temor.
No entanto, o domínio semântico da palavra é bem
complexo e pode ultrapassar o seu sentido literal. Adoração
sobrepõe os ritmos musicais, sermões, reuniões, ofertas,
liturgias e outras expressões corporais. Adoração sempre diz
respeito à identidade antes que tenha alguma coisa a ver
com atividade.
Todo nosso estilo de vida, pensamentos, atitudes,
relacionamentos pessoais, música etc. dizem muito sobre
nossa adoração. O que quer que façamos, mesmo que
estejamos simplesmente comendo, bebendo, falando,
envolvidos nos negócios, estando em casa ou na igreja,
devemos fazer tudo para a glória de Deus. Isso é adoração.
E todas as vezes que nos reunimos, nos envolvemos na
adoração de uma forma coletiva.312
O alicerce da adoração não se concentra nas emoções
humanas, mas nas relações divinas apresentadas pelas
próprias Escrituras. Isso significa que o eixo da adoração é
teológico e nunca voltado para o homem. O significado de
adoração nas Escrituras sempre foi teocêntrico e nunca
antropocêntrico.313 O conceito de adoração dos salmistas
era “teocêntrico”. Eles afirmavam que nada na terra era
digno se não estivesse na relação apropriada com o criador
do universo, o doador da vida, mestre, juiz e salvador.314
A diversidade da Trindade informa claramente a
pluralidade das formas pelas quais a igreja adora o seu
Criador. O intercâmbio entre o Pai, o Filho e o Espírito é a
moldura para orientar a liderança local e a igreja à adoração
e viabilizar relacionamentos sadios e duradouros que
expressam uma adoração trinitária.
O QUE A IGREJA PERDE POR 
DESCONHECER A TRINDADE?
A profundidade ou superficialidade da igreja em adorar pode
ser medida pela insipiência de alguns crentes acerca da
relação entre Trindade e igreja. Um maior entendimento da
Trindade conduz-nos a um relacionamento mais íntimo com
o Pai, de uma compreensão mais profunda da vontade de
Deus em nossas vidas, de uma adoração plena, de
relacionamentos saudáveis na família, na igreja e na
sociedade.
Quando estudamos o Novo Testamento e nos deparamos
com o culto oferecido pelos seguidores do judaísmo,
podemos concluir que aquela liturgia não representava uma
adoração ao Deus trino. Primeiramente porque eles não
admitiam que o Pai pudesse compartilhar sua glória com o
Filho. O estilo de vida dos fariseus, sua abordagem rude
com o próximo, sua religiosidade inflexível e seu
exclusivismo demonstravam um monarquismo monoteísta
em vez de trinitário. O radicalismo e a severidade com o
próximo não refletiam um Deus trino que se doou à
humanidade.
Gerald Bray disse que “os cristãos primórdios cultuavam o
Deus único em uma Trindade que demoraria alguns séculos
para ser definida, mas que era real na experiência
deles”.315 Bray está querendo dizer que a adoração da
igreja primitiva refletia o Deus trino. O estilo de vida
daqueles cristãos já demonstrava uma influência trinitária
tanto em sua adoração quanto na sua experiência. A forma
como compartilhavam seus dons e recursos, doando-se uns
aos outros, expressava o Pai que compartilha com o Filho
sua glória, poder e majestade, e que se autodoou ao criar o
mundo, o homem e proporcionar nossa redenção. A maneira
que eles se subordinavam uns aos outros também
expressava o Filho, que em amor e voluntariedade
subordinou-se ao Pai, mesmo sendo igual ao Pai em poder e
glória.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo decidiram não existir
somente para eles, e por amor criaram o mundo. Assim, a
igreja que adora o Deus trino não vive em torno de seus
objetivos e satisfação, mas ela existe para se doar à
humanidade. Adoração e atitude estão juntas no culto.
Hebreus 13.15-16 diz: “... portanto, ofereçamos
continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto
de lábios que confessam o seu nome. Não se esqueçam de
fazer o bem e de repartir com os outros o que vocês têm,
pois de tais sacrifícios Deus se agrada” (NVI). O texto diz
que há um “sacrifício de louvor” (adoração) e “fazer o bem
e de repartir” (atitude).
Para que a igreja aprofunde sua adoração e adore melhor a
Trindade é necessário que ela compreenda que o Pai, o Filho
e o Espírito Santo são merecedores de uma mesma
adoração. Todas as três pessoas, embora distintas, possuem
a mesma divindade.
A visão trinitária da adoração nos habilita a participar, por
meio do Espírito, na comunhão do Filho com o Pai. Essa
comunhão entre o Pai e o Filho é descrita na oração
sacerdotal de Jesus em João 17.
ADORANDO O PAI
Quanto à paternidade divina, era normal aos judeus
compreenderem Deus como Pai da nação judaica, mas era
quase inconcebível concordarem nele como Pai de
indivíduos. Eles não admitiam Jesus se referir a Deus como
Pai. Todavia, a palavra “Pai” foi usada mais de 250 vezes no
Novo Testamento e sempre se referindo a Deus, sendo que
quase a metade encontra-se no evangelho de João. O
evangelho de João usa o termo “Pai” 122 vezes,
ultrapassando o uso da palavra “Deus”, que ocorre 83
vezes, formando nosso modelo em dirigir-se a Deus como
Pai. Esses dados nos informam que, no período do Novo
Testamento, a adoração era direcionada ao Pai na maioria
das vezes.
Quando estudamos o intercâmbio entre o Pai e o Filho,
concluímos que o Pai possui características singulares que o
tornam distinto das demais pessoas. O Pai é a fonte divina
de toda existência, o originador de tudo, ele tem a vida em
si mesmo, e por meio do Filho e do Espírito dá a vida a
todos.
A expressão “Pai” é muito relevante, pois denota-o como
sendo o fundamento e a fonte de geração eterna do Filho e
da procedência eterna do Espírito. João 5.26 diz: “Porque
assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu
ao Filho ter vida em si mesmo”.
Carson comenta que o uso de “Aba” (“Pai” ou “meu Pai”)
foi adotado por Jesus e posteriormente pelos cristãos
primitivos (Rm 8.15; Gl 4.6); e não há evidências, antes de
Jesus, do uso desse termo para tratar a Deus.316
A oração do “Pai Nosso” relatada por Lucas revela que a
paternidade de Deus ultrapassa a compreensão que os
discípulos tinham da soberania de Deus. Mostra-nos
primeiramente o quanto o Filho era íntimo do Pai, e em
segundo lugar revelou para seus discípulos que Deus (Pai) é
próximo e bondoso para com seus filhos e que eles
poderiam, como indivíduos, se aproximar do Pai em suas
orações.
Ao registrar a oração do “Pai Nosso”, Lucas não incluiu a
frase “que estás nos céus”, o que é de grande importância,
pois traz a figura do “Pai” para um contexto mais pessoal e
relacional.A ausência dessa expressão informa uma
Trindade econômica, onde o Pai se relaciona com sua
criação.
Há muitas afirmações sobre os atributos do Pai e seu
caráter nas Escrituras. Podemos conhecer muito sobre Deus
através da sua Palavra e das suas obras. Essas afirmações
positivas acerca de Deus são suficientes para que sua igreja
o adore plenamente. Por outro lado, os escritores bíblicos
não escreveram tudo sobre Deus, pois Deus é insondável, e
o homem não pode descrevê-lo em sua essência.
O Deus que nos foi revelado pelo Filho ainda permanece,
em certo sentido, o Deus desconhecido. Nosso desafio na
adoração é conectar o conhecido com o desconhecido sobre
Deus. Aproximamo-nos em adoração daquele que é e que
pode fazer infinitamente mais do que tudo que pensamos
(Ef 3.20), sempre com deleite em conhecê-lo e amá-lo mais
a cada dia, até mesmo por toda a eternidade.
ADORANDO O FILHO
Em todo o Novo Testamento, o nome “Jesus” aparece com
mais frequência. O termo “Senhor” também é muito
encontrado nas epístolas, sempre se referindo a Jesus.
Assim também nos Evangelhos, o vocábulo “Filho”
geralmente se refere a Jesus.
Ele é chamado nos Evangelhos de Filho de Davi, Filho do
Homem e Filho de Deus. Ladd menciona que a expressão
“Filho de Deus” tem um significado elevado, pois revela que
ele é Deus e participa da natureza divina e encarnou-se com
o objetivo de revelar Deus à humanidade.317
Adoramos o Filho porque ele é digno de ser adorado da
mesma forma como o Pai é. Há muitas declarações
explícitas dos próprios lábios de Cristo de que ele é Deus
igual ao Pai (Jo 8.58; 10.30; Mt 28.19). A palavra Deus
(theos) também foi atribuída ao Filho (Jo 1.1-3,18; 20.28-
29). Há diversas declarações em Atos e nas epístolas que
Jesus é Deus (At 10.36; 20.28; Rm 9.5; Cl 1.16-19; 2.9; Tt
1.3-4). Um nome de Deus no Antigo Testamento usado para
o Filho encontra-se em Isaías 9.6.
Há muitos exemplos no Novo Testamento da palavra
“Senhor” (grego, kyrios) ser empregada para o Filho (Lc
2.11; 1Co 8.6; Hb 1.10-12). Essa expressão ocorre mais de
6 500 vezes no Antigo Testamento para se referir ao Deus
Criador (YHWH).
A pré-existência (Jo 8.58; 17.5,24; Is 9.6), onipresença (Mt
18.20; 28.20; Cl 1.16-17), onipotência (Mt 28.18; Hb 1.3) e
imutabilidade (Hb 13.8) são atribuídas ao Filho da mesma
forma como são atribuídas ao Pai. Há várias obras, diversos
sinais e títulos de Jesus encontrados nos Evangelhos, em
Atos e nas cartas que declaram seu caráter divino. João 5.20
diz que o Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que faz; o
versículo 21 revela que, com o mesmo poder que o Pai tem
de ressuscitar os mortos, o Filho vivifica quem quer; no
versículo 23, João relata que a mesma honra dada ao Pai
deve ser concedida ao Filho.
Dentre todos os quatro evangelhos, João é o que apresenta
uma visão mais cristalina sobre a relação do Filho com o Pai.
O termo “Filho” aparece 40 vezes em João, mas quando
comparamos com o uso da palavra “Pai”, observamos que
as citações a Deus como Pai são bem mais frequentes, pois
Jesus fala mais do Pai do que de si mesmo.318 Esses dados
indicam que no Novo Testamento a maior parte da adoração
era direcionada ao Pai, conforme o próprio Filho ensinou.
O relacionamento do Filho com o Pai orienta a igreja que a
adoração é uma relação de intimidade e subordinação. Em
João 5.19-20, observamos que o Filho não age
independentemente do Pai: “O Filho nada pode fazer de si
mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai”. Essa
expressão não indica que o Filho é inferior, mas mostra uma
profunda intimidade dele com o Pai. Tudo que o Pai faz, o
Filho faz da mesma maneira. Esse texto não apenas mostra
que o Filho não deseja fazer nada sem o Pai, mas também
que ele não pode agir independentemente do Pai.
ADORANDO O ESPÍRITO SANTO
Atualmente há segmentos religiosos que não creem que o
Espírito Santo seja uma pessoa distinta ou mesmo que deva
ser adorado como Deus. Há outros grupos religiosos que
enfatizam muito a obra carismática do Espírito Santo, mas
não esclarecem seu aspecto pessoal e divino. Quando
Leonardo Boff disse que “há setores cristãos que se
concentram somente na figura do Espírito Santo”,319 ele faz
referência a grupos religiosos que enfatizam
demasiadamente a ação do Espírito Santo na vida dos seus
membros, mas que não enfatizam as outras duas pessoas e
a divindade do Espírito.
O contexto de boa parte da igreja brasileira tem sido
marcado por essa característica, em que seus crentes são
estimulados a viverem e desfrutarem uma experiência
efervescente com o Espírito. Todavia, sentimos falta de uma
teologia bíblica de adoração, que reoriente seus membros
aos aspectos pessoais e divinos do Espírito, que ensinem
que ele é merecedor da mesma adoração que tributamos ao
Pai e ao Filho.
Muitos crentes, erroneamente ou por desconhecimento,
veem o Espírito Santo como um poder ou força enviado pelo
Pai exclusivamente para a capacitação da sua igreja para
evangelismo, encorajamento e fortalecimento. Se o Espírito
Santo é uma pessoa divina e digna de ter os mesmos
atributos e os mesmos títulos do Pai, então ele é
plenamente digno de ser adorado com a mesma
intensidade que adoramos o Pai e o Filho.
Sabemos que não há nenhuma oração ao Espírito nas
Escrituras. O Espírito sempre nos direciona a adorar o Pai
pelo Filho. Todavia, não é errado adorar o Espírito, e até
convém que o façamos, porque ele é Deus. O Espírito Santo
é visto nas Escrituras em termos pessoais. Embora
intimamente relacionado à ressurreição de Cristo, ele é
também o Espírito do Pai. Ele é ainda uma pessoa distinta
do Pai e do Filho, e com eles um único Deus trino (Mt 28.19;
At 5.3-4,9; 2Co 3.17-18).
O Espírito Santo pode ser adorado, pois possui os mesmos
atributos divinos do Pai e do Filho: onisciência (1Co 2.10),
onipotência (Is 40.13-17), onipresença (Sl 139.7-12),
santidade (Ef 4.30), vida (Rm 8.2) e verdade (Jo 14.17). O
Espírito Santo ainda possui atividades divinas como o Pai e
o Filho: criação do mundo (Gn 1.2; Jó 33.4), inspiração das
Escrituras (2Tm 3.16), novo nascimento nos crentes (Jo 3.4-
5), batismo (1Co 12.13), habitação (Rm 8.13-14) e
permanência nos filhos (1Jo 3.9).
O Espírito Santo tem diversos outros títulos, incluindo
Espírito do Senhor (Jz 3.10), do Pai (Mt 10.20) e do Filho (Rm
8.9). O título “outro Consolador” se refere a outro do mesmo
tipo de Jesus, isto é, um outro Consolador igualmente divino
(Jo 14.16). Quando Jesus disse: “Não vos deixarei órfãos,
voltarei para vós outros” (Jo 14.18), ele não estava
pensando no período pós-ressurreição ou na sua segunda
vinda visível, mas sim que estaria conosco na pessoa do
Espírito Santo.
O Pai e o Filho são descritos como habitando nos céus. O
Pai enviou o seu Espírito a pedido do Filho (Jo 14.16-17). A
fonte do Espírito é o próprio Pai, é dele que emana a vida –
o Espírito (Jo 14.26). Nossa adoração toma novas
profundidades quando humildemente absorvemos esses
conceitos trinitários. É através do Espírito Santo que o Pai
desenvolve o amor eterno pelo Filho. E ao partilhar de seu
Espírito conosco, o Pai e o Filho participam do seu amor,
participam da sua própria vida.320 Por intermédio do Espírito
desfrutamos do amor do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai.
Michael Reeves estava certo ao dizer que a vida que o
Espírito Santo nos dá vai muito além de um pacote fechado
de bênçãos: é a sua própria vida compartilhada conosco. O
Pai, ao compartilhar conosco do seu Espírito, está de fato
compartilhando da sua vida.
CONCLUSÃO
Jesus disse que “vem a hora e já chegou, em que os
verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em
verdade; porque são estes que o Pai procura para seus
adoradores” (Jo 4.23). O Pai está em busca dos verdadeiros
adoradores.
Há muito material escrito sobre esse texto, e todos eles
têm o seu devido valor. Mas acredito que a comunhão com
Deus e os relacionamentos pessoais desenvolvidos pela
igreja primitiva nos fornecem umabase segura e sólida para
identificar com precisão esse modelo de adoradores que o
Pai procura.
Mesmo não tendo ainda uma doutrina trinitária claramente
definida, a experiência registrada pelos escritores bíblicos
demonstrou que a igreja primitiva já adorava o Deus trino,
uma vez que eles procuravam desenvolver um nível de
mutualidade que é encontrado somente no relacionamento
entre o Pai e o Filho. O padrão de comunhão e edificação
dos crentes descrito em Atos indica que a igreja
compreendia o intercâmbio e a intimidade entre o Pai e o
Filho. Ao ler o relato da vida da igreja em Atos, concluímos
que a adoração deles não estava limitada a cânticos,
liturgia, templo e festas, ainda que isso tenha seu devido
lugar, mas estendia-se na comunhão e edificação mútua
dos irmãos. Se a igreja atual deseja aprofundar sua
adoração de forma que seus membros desfrutem de um
relacionamento mais próximo com Deus e cultivem
amizades saudáveis que glorifiquem a Cristo, será
necessário que ela se disponha a orientar seus membros a
relerem as Escrituras atentando para os aspectos trinitários
relacionados à adoração. Como definiu James B. Torrance:
“Adoração é o presente de participarmos através do Espírito
na comunhão do Filho encarnado com o Pai”.321
PARA REFLEXÃO
1. Quais os resultados práticos na vida diária de uma igreja
que reflete uma adoração ao Deus trino?
2. Podemos adorar e orar ao Espírito Santo da mesma
forma como adoramos e oramos ao Pai?
3. Em quais aspectos a relação do Filho com o Pai
estabelece uma moldura à nossa adoração?
4. Como o conceito de Deus como “Pai” pode aprofundar
nossa adoração?
OBSERVAÇÕES FINAIS
J . SCOTT HORRELL E MURILO R. MELO
O famoso professor da Universidade de Oxford, Alister
McGrath, se converteu à fé cristã enquanto estava
estudando biofísica molecular.322 Ele observa que muitas
pessoas fora da comunidade cristã supõem que a crença na
Trindade é um exemplo clássico da irracionalidade da fé.
Mas para ele foi o oposto. Sua conversão ao cristianismo
não veio por uma experiência emocional poderosa, nem por
uma única verdade que foi entendida de repente.
Persuadido pelo bom senso da verdade cristã inteira,
McGrath concluiu que “devemos pensar a distinta lógica
trinitária como a estrutura maior da fé cristã – uma maneira
de entender a nós mesmos e nossos mundos que
transcende os limites da razão humana, mas ao mesmo
tempo ajuda a nos posicionarmos no meio da racionalidade
‘nativa’ ou da racionalidade do dia a dia dentro de um
contexto que faz sentido”.323 Foi esse quadro maior da fé
que convenceu o ateu McGrath da veracidade cristã – um
quadro baseado na revelação bíblica e na confissão nicena
de uma cosmovisão trinitária. A teologia da Trindade
ofereceu a maneira mais plausível para entender o universo
e a vida humana. E nós concordamos. Em vez de atrapalhar,
a doutrina da Trindade se torna uma apologética bela e
persuasiva para não cristãos – sejam ateus, humanistas,
espíritas ou muçulmanos.
A confissão da Santa Trindade marca toda a igreja cristã
histórica e atual. A doutrina do trino Deus fundamenta-se
nas Escrituras que relatam o engajamento do Criador com
sua criação. Contudo, a doutrina da Trindade brota da
confissão do apóstolo Tomé que Jesus Cristo – agora
fisicamente ressurreto – é nosso Senhor e Deus (Jo 20.28). A
divindade de Jesus é a pedra fundamental da verdadeira fé
que nos reconcilia com Deus. Não há dois ou três deuses,
nem uma pessoa divina com máscaras ou apenas
manifestações. O único e verdadeiro Deus eternamente
existe em três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –,
um na sua essência, iguais na sua glória (pois é uma glória
compartilhada) e distintas nas suas relações.
Ao mesmo tempo, reconhecemos os limites do
pensamento humano sobre o infinito Deus em sua
refulgência e glória. Diante da revelação divina nas
Escrituras e na história, nós nos dobramos de joelhos.
Tomamos uma postura de humildade. Há tanto que não
sabemos. Algum dia, quando formos redimidos e purificados
na presença do Senhor Deus, entenderemos muito mais do
que agora. Mas, ainda na eternidade, sempre seremos
criaturas diante do Criador infinito, tripessoal e
resplandecente. Através da Palavra, guiada pelo Espírito, a
igreja histórica acertou na articulação básica da doutrina da
Trindade. Os Concílios de Niceia (325 d.C.) e Constantinopla
(381 d.C.) estabeleceram a estrutura de como devemos
pensar em Deus, ou seja, formaram a “caixa” definindo os
parâmetros do pensamento ortodoxo versus o que fica fora
da ortodoxia cristã.
Assim, dentro da “caixa” ou estrutura da ortodoxia
trinitária há espaço para concepções ou lentes diferentes de
como entendemos e articulamos o Deus trino. Nenhuma
explicação do Deus bíblico e cristão capta tudo. Na história
da teologia trinitária vemos alguns que favorecem a
preeminência do Pai, de quem é gerado o Filho e de quem
procede o Espírito – todos eternos e iguais na sua divindade.
Outros enfatizam a essência do ser divino explorando seus
atributos com argumentos filosóficos sobre a necessidade
da existência do Criador, a Primeira Causa. Outros dão
prioridade às três pessoas da Trindade, com seus
relacionamentos internos e também para conosco na vida
cristã. Em tudo, dentro da caixa de Niceia, essas lentes não
se contradizem, mas se complementam.324 Engrandecem o
Senhor Deus, que nos aproxima, mas também sempre fica
além de nós. Enchem o coração com admiração e temor
reverencial.
Com diversas vozes e perspectivas, A Trindade, a Igreja e a
Realidade Social é uma tentativa de explorar o sentido do
Deus trino para as nossas vidas, comunidades cristãs e o
mundo ao nosso redor. Começamos no capítulo 1 com um
estudo nas Sagradas Escrituras dando uma base firme da
doutrina trinitária. Embora a palavra “Trindade” não exista
na Bíblia, certamente a ideia e a experiência do único Deus
como Pai, Filho e Espírito Santo são abundantes (os três são
pessoas vistas juntas em mais de 130 passagens no Novo
Testamento).
O capítulo 2 apresentou traços de uma cosmovisão
trinitária diante das grandes questões da vida: por que
existe algo em vez de nada? Qual o sentido da minha vida?
Como sei o que é a verdade? Em tudo, o entendimento
trinitário se demonstra lindo e superior a qualquer outra
opção, enchendo a vida com significado e coerência.
No capítulo 3, Winnetou Kepler explorou o conceito de
imago dei. Já que Deus é três pessoas em relacionamento
eterno, o que significa isso para nós como pessoas – nós
que temos a mesma natureza humana, mas também somos
pessoas distintas e únicas, em parte definidas pelos
relacionamentos pessoais ao nosso redor? Enfim,
concluímos que, porque o Criador é pessoal, eu também sou
pessoal: há base ontológica para o ser humano como
indivíduo e em comunidade.
Libnis Silva, no capítulo 4, destaca a importância do
mandato de Jesus: “... fazei discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito
Santo” (Mt 28.19). Pela ação livre e gratuita da Trindade, o
convertido é resgatado do pecado, renovado no espírito e
reconciliado para o relacionamento íntimo com Deus.
O capítulo 5, por Carlos Felipe (“Café”) Oliveira do
Nascimento, demonstra como o ensino da Trindade
reorienta jovens para aceitar sua individualidade, formar um
autoconceito saudável, respeitar outros – especialmente do
outro gênero –, apreciar a santidade de intimidade e sexo e
imitar a Trindade em se dar aos outros.
Creuse Santos coloca a Trindade como “princípio formador,
paradigmático e orientador da família” no capítulo 6 – isso
no meio de uma sociedade confusa e quebrada, em que o
conceito de família morreu para muitos. Ele aplica a
unidade/diversidade da Trindade aos papéis distintos do
homem e da mulher no casamento e nas famílias, cada um
se dando ao outro (Ef 5.21-33).
Ivis Fernandes, no capítulo 7, nos exorta a apreciar como o
próprio Deus trino – um só na sua essência, mas diverso nas
suaspessoas – é refletido na unidade e diversidade na
igreja. Assim, líderes devem valorizar as diferenças
culturais, educacionais e econômicas no meio cristão e nas
igrejas locais, sem insistir na uniformidade de todos, mas
também incentivar uma consagrada unidade na missão de
Cristo.
No capítulo 8, Marcelo Dias destaca aspectos interpessoais
da Trindade como modelo ideal de como a liderança na
igreja local pode e precisa se relacionar – isso num contexto
atual em que pastores e pessoas com autoridade usam seu
poder para se elevar e manipular outros na liderança em
vez de iniciar amor, transparência e dependência mútua.
Gary Parker propõe no capítulo 9 que a disposição da
Trindade exemplificada no sacrifício de Jesus Cristo na cruz
serve como antídoto à teologia da prosperidade. Ele
observa três problemas centrais: revelações pessoais
assumem a autoridade acima da Bíblia; as prioridades
cristãs focam no bem-estar pessoal; e os líderes, tanto
quanto os seguidores, se identificam e se elevam como
“supercrentes” (até divinizados). Em contraste, o Deus da
Bíblia é o Deus trino que se autoentrega, uns pelos outros e
para o mundo.
O capítulo 10, por Ari Langrafe Jr., aborda mais uma área
sensível e crítica para evangélicos: como lidar com os
pentecostais “Jesus Só”? Diferentes dos mórmons e das
Testemunhas de Jeová, os unicistas se identificam como
pentecostais – embora a teologia modalista já fosse
considerada heresia desde os primeiros séculos d.C. Afinal,
Langrafe insiste que evangélicos devem se informar e estar
prontos para responder aos unicistas pelo ensino bíblico
claro e histórico.
Eriomar Heldir de Freitas Maia mostra, no capítulo 11, que
o próprio Deus enviou seu Filho e o Espírito (a missio dei)
para nos resgatar e para transformar as nossas vidas e o
mundo. O Deus trino planejou, providenciou e promoveu a
missão. Assim, a Trindade é nosso exemplo missionário:
“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo
20.21).
No capítulo 12, Arthur Vinicius Gottlieb Lupion apresenta “a
perspectiva trinitária” como “uma apologética ao vazio do
humanismo secular” – a posição não teísta, positivista, mas
também fragmentada. Nesse âmbito, a totalidade da
revelação acerca da Trindade provê uma plataforma mais
elevada e convincente para sustentar os princípios e valores
necessários para uma vida humana digna.
A segunda maior religião no mundo é o islamismo, a qual é
crescente e, às vezes, agressiva. Paulo Sant’Anna e Josh
Milano abordam no capítulo 13 os desafios no diálogo com
muçulmanos, especialmente nas confissões cristãs centrais:
a divindade de Jesus Cristo e a Santa Trindade – tidas como
blasfêmias fatais no islã. Os autores criam pontes, até do
próprio Alcorão, para persuadir o muçulmano da veracidade
libertadora do evangelho de Jesus Cristo.
No capítulo 14, César Orlando Mendoza Ramirez exorta a
igreja evangélica a utilizar os Credos dos Apóstolos (c. 150
d.C.), de Niceia (325/381), da Calcedônia (451) e de
Atanásio (c. 500) na adoração e no ensino tanto individual
quanto congregacional. Nos dias atuais, quando pessoas
inventam qualquer novidade teológica, os antigos credos
históricos seguram as verdades centrais da fé cristã, a qual
“uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3).
Finalmente, Cidrac Ferreira Fontes amplia nossa visão de
como melhor adorar Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito
Santo no capítulo 15. Advertindo contra louvor desviado ou
sem equilíbrio nas igrejas locais, o autor (que é pastor
pentecostal) enfatiza a importância não apenas da
experiência trinitária em louvor, mas também da expressão
deliberada e doutrinariamente firme ao nosso Deus trino,
exaltando cada pessoa conforme os seus papéis, suas
atividades bíblicas e sua dignidade.
Em resumo, A Trindade, a Igreja e a Realidade Social é uma
tentativa de destilar o significado do Deus trino para as
nossas vidas, para as comunidades cristãs e para o mundo
ao nosso redor. Porque Deus é realmente Deus, infinito em
toda a sua perfeição, há muito ainda para ser explorado.
A. W. Tozer percebeu: “O que vem às nossas mentes
quando pensamos sobre Deus é a coisa mais importante
sobre nós”.325 Porque somos criados à imagem de Deus,
nosso ser pessoal no seu ideal é definido por Deus. Somos
finitos e contingentes, mas legados com dignidade imensa.
A ontologia do que é pessoa – a estrutura essencial da
nossa realidade, nosso desejo de relacionamentos com
outros, nossa disposição de criar e produzir – reflete a
imago dei. Deus nos desenhou para que possamos conhecê-
lo, amá-lo e servi-lo de maneira frutífera.
Ao mesmo tempo, o ser humano é rebelde, egoísta e
pecador. Cada pessoa precisa do “Salvador do mundo” (1Jo
4.14), Jesus Cristo. Somos convidados a confiar nesse Deus
que pagou, ele mesmo, o preço para nos reconciliar consigo.
Somente pelo Deus Filho somos feitos filhas e filhos do Deus
Pai, e pelo Deus Espírito somos unidos e capacitados para
viver vidas santas e em harmonia com outros na igreja e
nos doarmos para alcançar a sociedade.
Enfim, nosso conceito de Deus nos define. Seja como
indivíduo, na igreja ou na sociedade em geral, nosso pensar
sobre Deus gera consequências. “Nenhum povo jamais se
elevou acima da sua religião, e [...] nenhuma religião se
tornou maior que o seu conceito de Deus.”326 Quando
pensamos nas maravilhas de um Deus trino que cria tudo
que existe pelo seu amor intratrinitário, tudo em nossas
vidas deve se orientar a esse bem supremo, que é nosso
Deus. Nossas vidas passam a ter um sentido novo; nossas
igrejas e até nossa sociedade são fortalecidas e impactadas
por essa confissão trinitária, que antecipa o futuro – a volta
de Cristo e o reino do Deus trino na terra. Esse reino
expressa a unidade (todo joelho se dobrará, Fp 2.9-11; cf. Is
45.23) e a diversidade (“... todas as nações, tribos, povos e
línguas...”, Ap 7.9) que apenas um Deus trino pode
entender como o reino de perfeita paz e justiça que espelha
seu ser. Vem, Senhor Jesus!
NOTAS
INTRODUÇÃO
1 Agostinho, Confissões (São Paulo: Mundo Cristão, 2017), p. 219. Confissões é a
primeira autobiografia intimista na história ocidental; mudou o gênero de
autobiografia para essa forma que ficou comum hoje em dia.
2 John W. R. Stott, “Theology: A Multidimensional Discipline”, in: Doing Theology
for the People of God, eds. Donald M. Lewis e Alister E. McGrath (Downers
Grove, IL: InterVarsity Press, 1996), p. 3-4.
CAPÍTULO 1 
BASE FIRME
3 Umberto Cassuto, A Commentary on the Book of Genesis, 2 vols. (Jerusalém:
Magnes Press, The Hebrew University, 1961), 1.55. Veja Zc 12.1.
4 Daniel Boyarin, The Jewish Gospels: The Story of the Jewish Christ (Nova York:
New Press, 2012), p. 7. Inclusive, para Boyarin, não era inesperado que o
Messias fosse sofrer na mistura de ideias messiânicas. Contra o monoteísmo
estrito da Ortodoxia Judaica (de Maimônides), um outro professor judaico,
Benjamin D. Sommer, The Bodies of God and the World of Ancient Israel
(Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 2009), p. 132-43,
defende que o Senhor do AT toma várias formas e que o conceito da Trindade
já estava latente na mistura do judaísmo antes de Cristo.
5 Sl 45.6-7; 110.1; Is 44.6; 45.22-23; 63.8-11,16.
6 Vendo as aparentes múltiplas pessoas nos discursos divinos no AT, os autores
do NT e a grande maioria dos pais da igreja interpretaram esses como
revelação do Filho e do Espírito. Veja Matthew W. Bates, The Birth of the
Trinity: Jesus, God, and the Spirit in the New Testament and Early Christian
Interpretation of the Old Testament (Oxford: Oxford University Press, 2015).
7 Também Jo 5.26; veja Fred Sanders e Scott R. Swain, eds., Retrieving Eternal
Generation (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2017), esp. cap. 4; D. A. Carson,
“John 5:26: Crux Interpretum for Eternal Generation”, p. 79-97, e cap. 5;
Charles Lee Irons, “A Lexical Defense of the Johannine ‘Only Begotten’”, p. 98-
116.
8 Tecnicamente a versão é o Credo Niceno-Constantinopolitanode 381,
geralmente chamado o Credo Niceno. Disponível em:
http://www.annusfidei.va/content/novaevangelizatio/pt/annus-
fidei/professione-di-fede.pdf.
9 Mt 14.33; Jo 9.38; veja tb. At 10.36; Rm 9.5; 1Co 8.4-6; Tt 2.13.
10 Veja Mt 3.16-17; 28.19; Lc 10.21-22; Jo 3.34-36; 14.23-26; At 7.55-56; Rm
15.30; 1Co 12.3-6; 2Co 13.13[14]; Ef 1.17; 4.4-6; 5.18-20; 2Ts 2.13-14; Hb 2.3-
4; 1Pe 1.2-3; 3.18; 1Jo 4.2; Jd 19-21; Ap 21.9-11.
11 Quem é “o Senhor” nesse contexto? O kurios divino pode se referir a Cristo
ou ao Pai, mas o ponto é que a palavra “o Senhor” se constituiu o título
atribuído também ao Espírito.
12 Jeremy Weber, “Christian, What Do You Believe? Probably a Heresy About
Jesus, Says Survey”, Christianity Today, 17 out. 2018. Disponível em:
https://www.christianitytoday.com/news/2018/october/what-do-christians-
believe-ligonier-state-theology-heresy.html.
13 Jo 1.1-2,18; 3.11,31-34; 5.17,19,21; 6.38; 16.13-15.
14 Jo 7.29; 8.55; 10.15; 16.13-14; 17.25; Rm 8.9; 1Co 2.11-13.
15 Jo 5.21; 14.27; 15.12.
16 D. A. Carson, “John 5:26: Crux Interpretum for Eternal Generation”, p. 92;
veja p. 79-97.
17 Atenágoras, Apelo em favor dos Cristãos, 12.
18 Teófilo, Para Autólico 2.10, 15; 2.22.
19 Irineu, Contra Heresias 1.10.3.
20 Ibid., 1.10.1.
CAPÍTULO 2 
PENSAR DE TUDO
21 William Arndt, Frederick W. Danker e Walter Bauer, A Greek-English Lexicon
of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago:
University of Chicago Press, 2000), p. 934.
22 Cláudio Roberto Brocanelli, “O Ensino de Filosofia no Brasil: História e
Perspectivas para o ‘Filosofar’”, Colloquium Humanarum 9, n. 1 (2013): 50.
23 James W. Sire, O Universo ao Lado: Um Catálogo Básico sobre Cosmovisão, 4
ed. (São Paulo: Hagnos, 2009), p. 16.
24 O livro de física, voltado para uma audiência leiga, que popularizou essa
visão foi O Universo Numa Casca de Noz (Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2011), de Stephen Hawking.
25 Millard J. Erickson, Christian Theology, 3 ed. (Grand Rapids, MI: Baker
Academic, 2013), p. 275.
26 Meu pai, que também era médico, me convenceu de que se nossos corpos
precisam de vitamina B12 para produzir células normais e uma dieta
vegetariana como a de Hare Krishna não contempla isso, há uma falta de
coerência entre como somos feitos e o que devemos fazer. Assim, um
argumento de cosmovisão (com um exame microscópico de uma anemia
megaloblástica) me livrou do erro.
27 Uma boa revisão de Bergson é Dante Augusto Galeffi, “Religião e Ciência:
Diferença e Repetição – Uma Investigação a partir da Concepção Moral e
Religiosa de Henri Bergson”, Caderno CRH 26 (2013). Kazantzakis dizia que
Bergson foi um dos seus “pais espirituais”.
28 Um bom relato da criação no candomblé é de Sergio Sezino Douets
Vasconcelos, “A União Mística com o Orixá através da Participação no Axé”,
Horizonte 11, n. 30 (2013). O mormonismo tem uma série de deuses-pai
infinita, não resolvendo bem a questão de origem; veja Susanna Morrill,
“Women and the Book of Mormon: The Creation and Negotiation of a Latter-
day Saint Tradition”, Journal of Book of Mormon Studies 26 (2017). O sermão
de Joseph Smith mencionado por ela (em inglês) é esclarecedor: Joseph Smith
Jr., “The King Follett Sermon”. Disponível em:
https://www.lds.org/ensign/1971/04/the-king-follett-sermon?lang=eng. Acesso
em: 27 dez. 2019.
29 Tertuliano, Contra Práxeas 5.
30 Neste artigo esperançoso de uma rede de reações químicas que possa
produzir vida, os autores acabam admitindo que nem mesmo na construção
dos elementos necessários para a vida sabemos fazer uma cascata de
reações independente de estímulo externo. Paul J. Bracher, “Origin of life:
Primordial Soup that Cooks Itself”, Nature Chemistry 7, n. 4 (2015).
31 Peter Singer, Practical Ethics, 2ª ed. (Cambridge, Inglaterra: Cambridge
University Press, 1993), p. 23, 55.
32 Bhagavad Gita, canto VIII.15. “Bhagavad Gita”. Disponível em:
http://www.culturabrasil.org/zip/bhagavadgita.pdf. Acesso em: 21 mai. 2018.
33 Uma interessante análise do budismo no Brasil é de Frank Usarski, “O
Dharma Verde-Amarelo Mal-Sucedido: Um Esboço da Acanhada Situação do
Budismo”, Estudos Avançados 18 (2004).
34 Fatima Agha Al-Hayani, “Muslim Perspectives on Stem Cell Research and
Cloning”, Zygon 43, n. 4 (2008): 790.
35 David Jasper, A Short Introduction to Hermeneutics (Louisville, KY:
Westminster John Knox Press, 2004), p. 112.
36 Alun Munslow, Deconstructing History, 2ª ed. (Nova York: Routledge, 2006),
p. 168.
37 Richard B. Norgaard, Development Betrayed: The End of Progress and a Co-
Evolutionary Revisioning of the Future (Londres, Inglatera: Routledge, 1994),
p. viii.
38 Klaus K. Klostermaier, “Hindu-Christian Dialogue on Truth”, Journal of
Ecumenical Studies 12, n. 2 (1975): 9-10.
39 É importante lembrar que é apropriado falar do Alcorão apenas em árabe (lit.
Recita), e que traduções não são consideradas o Alcorão, sendo mais correto
falar “tradução da mensagem do Alcorão”. Uma boa articulação de makr e da
disputa epistêmica com muçulmanos, com base nos escritos de Alvin
Plantinga, é de Erik Baldwin e Tyler D. McNabb, “An Epistemic Defeater for
Islamic Belief?”, International Journal of Philosophy and Theology 76, n. 4
(2015): 356.
40 Norman L. Geisler, Baker Encyclopedia of Christian Apologetics (Grand
Rapids, MI: Baker Books, 1999), p. 742.
41 Para avançar nesses tópicos, recomendo o artigo de J. Scott Horrell, “In the
Name of the Father, Son, and Holy Spirit: Toward a Transcultural Trinitarian
Worldview”, Evangelical Review of Theology 38, n. 2 (2014), p. 126-137. Uma
versão em português (e anterior) é J. Scott Horrell, “Uma Cosmovisão
Trinitária”, Vox Scripturae 4, n. 1 (1994), p. 55-77.
CAPÍTULO 3 
A TRINDADE E A IMAGO DEI
42 Bruce Milne, Estudando as Doutrinas da Bíblia: Conheça a verdade, 5 ed.
(São Paulo: ABU, 1996), p. 92.
43 Ibid.
44 Wayne Grudem e Jeff Purswell, Manual de Teologia Sistemática: Uma
introdução aos princípios da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2001), p. 207.
45 H. Crouzel, “Image”, Encyclopedia of Ancient Christianity, 3 vols., ed. Angelo
Di Berardino (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2014), 2.320-322.
46 Nonna Verna Harrison, God’s Many-Splendored Image: Theological
Anthropology for Christian Formation (Grand Rapids, MI: Baker, 2010), p. 30,
veja 30-37.
47 Crouzel, “Image”, p. 320.
48 Norman R. Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 6 vols., 5
ed. (São Paulo: Hagnos, 2001), 3.246. Por outro lado, Tertuliano e outros
consideravam que esta imagem incluía características corporais (cf. 1Co
11.7).
49 Crouzel, “Image”, p. 321.
50 Milne, Estudando as Doutrinas da Bíblia, p. 99. Veja Louis Berkhof. Teologia
Sistemática, 2 ed. (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), p. 190.
51 Grudem, Manual de Teologia Sistemática, p. 204.
52 Charles C. Ryrie, Teologia Básica (São Paulo: Mundo Cristão, 2012), p. 112.
53 J. Scott Horrell, “O Deus Trino que Se Dá, a Imago Dei e a Natureza da Igreja
Local”, Vox Scripturae: Revista Teológica Latino-Americana 4:2 (dez. 1996), p.
252.
54 Lewis Sperry Chafer, Teologia Sistemática, vols. 1-2 (São Paulo: Hagnos,
2003), p. 570. Embora a comunicação seja uma característica forte quanto à
imago dei no seu ideal, ela não é a única que nos define como feitos à
imagem de Deus. É por este motivo que autistas, embriões e pacientes
comatosos, mesmo diante de limitações, ainda são imago dei. Podemos
deduzir isso partindo do relato de João Batista que, ainda no ventre de Isabel,
estremeceu de alegria ao ouvir a saudação de Maria para sua mãe, Isabel (Lc
1.39-42). No salmo 139, o salmista tinha consciência de que o próprio Deus
era seu criador no ventre de sua mãe e que o havia visto em substância ainda
informe (Sl 139.13-16).
55 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 252, 262.
56 Grudem, Manual de Teologia Sistemática, p. 216.
57 Ibid.
58 Milne, Estudando as Doutrinas da Bíblia, p. 103.
59 Grudem, Teologia Sistemática, p. 127.
60 Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologiae Filosofia, p. 3245.
61 Chafer, Teologia Sistemática, p. 580.
62 Millard J. Erickson e L. Arnold Hustad, orgs., Introdução à Teologia Sistemática
(São Paulo: Vida Nova, 2002), p. 226.
CAPÍTULO 4 
A TRINDADE E A SALVAÇÃO
63 Desde o primeiro século (Mt 28.19, e na Didaqué), a fórmula trinitária foi
usada para o batismo como elemento básico da Regula Fidei, a Regra da Fé.
64 Interessante notar que os credos trinitários tinham lugar importante para o
catecismo dos novos convertidos como preparação para o batismo. No
Ocidente, o credo de Atanásio (Quicumque vult) se tornou obrigatório para
muitos.
65 T. Desmond Alexander e Brian S. Rosner, eds, “Salvação”, Novo Dicionário de
Teologia Bíblica (São Paulo: Vida, 2009), p. 1155.
66 Douglas C. Walder, “Salvation”, Holman Illustrated Bible Dictionary
(Nashville: Holman, 2003), p. 1434.
67 Jenuan Silva Lira, Desejo Dominado: Alcançando vitória na luta contra o
pecado (Eusébio, CE: Peregrino, 2017), p. 26.
68 Rm 1.18–3.23; 1Co 15.21-22; Ef 4.17-19; Is 59.2.
69 D. M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus: Exposição sobre Efésios
1.1-23 (São Paulo: PES, 1996), p. 49.
70 Bruce A. Demarest, The Cross and Salvation: The Doctrine of Salvation
(Wheaton, IL: Crossway, 1997), p. 27.
71 John Piper, Deus É o Evangelho (São José dos Campos, SP: Fiel, 2006), p. 10.
72 Ibid.
73 Importante salientar que creio que os benefícios da salvação incluem ter
relacionamentos restaurados no âmbito horizontal. Isso fica muito claro em
Efésios e principalmente em 1João, onde deixar de amar o irmão é o mesmo
que nunca ter conhecido a Deus.
74 Michael Reeves, Deleitando-se na Trindade: Uma introdução à fé cristã
(Brasília, DF: Monergismo, 2014), p. 99-100 (ênfase no original).
75 Fred Sanders, The Deep Things of God: How The Trinity Changes Everything
(Wheaton, IL: Crossway, 2010), p. 117.
CAPÍTULO 5 
A TRINDADE E OS JOVENS
76 Vladimir Lossky, The Mystical Theology of Eastern Church (Cambridge: James
Clarke, 1957), p. 66.
77 Zygmunt Bauman, Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi (Rio de Janeiro:
Zahar, 2005), p. 34.
78 Isso se deve, em grande parte, à hegemonia de Paulo Freire e sua
“pedagogia do oprimido” no sistema de educação do país. Uma resposta mais
alinhada com a antropologia bíblica pode ser lida em Thomas Giulliano,
Desconstruindo Paulo Freire (Rio de Janeiro: História Expressa, 2017).
79 Luis Felipe Pondé, A Era do Ressentimento: Uma agenda para o
contemporâneo (Rio de Janeiro: Leya, 2017), p. 17.
80 Duas pesquisas recentes realizadas pelo Barna Group confirmam essa
tendência: “The myth of the lazy teen”. Disponível em:
https://www.barna.com/research/teen-attitudes-toward-service/. Acesso em:
16 jan. 2018; e “Generations and generosity: how age effects giving”.
Disponível em: https://www.barna.com/research/generations-generosity-age-
affects-giving/. Acesso em: 16 jan. 2018.
81 Chap Clark, “Youth Ministry as Practical Theology”, The Journal of Youth
Ministry, vol 8, n. 1 (outono 2008), p. 9‐37.
82 A teologia ortodoxa afirma que o Deus Pai é Fons Divinitatis (fonte da
divindade).
83 Robert Letham, “How the Triune God Transforms Worship”, Credo Magazine,
vol. 3, n. 2 (abr. 2013), p. 40-46.
84 Andrew Root, Revisiting Relational Youth Ministry: From a Strategy of
Influence to a Theology of Incarnation (Downers Grove, IL: InterVarsity Press,
2007), p. 17.
85 AVIVA, The Aviva Health Check UK Report. Disponível em:
http://www.aviva.co.uk/media-centre/story/17307/younger-
generationburdened-with-anxiety-and-lonel/. Acesso em: 16 de jan. 2018.
86 The Big Lunch, “More than two thirds of adults in the UK experience
loneliness and the feeling is most acute among young people”. Disponível em:
http://www.thebiglunch.com/documents/TheBigLunchLonelinesspressrelease-
FINALAPPROVED-16April2015_000.doc. Acesso em: 16 jan. 2018.
87 A teologia ortodoxa afirma que Deus é um em essência, de modo que a
unidade entre as pessoas da Trindade é essencial. As pessoas da Trindade se
habitam mutuamente (ou coabitam) no tipo de relacionamento mais profundo
e para qual todo amor humano deve apontar. Assim, os relacionamentos
intratrinitários, embora diferentes, são, ao mesmo tempo, tão similares aos
nossos.
88 Cynthia L. Rigby, “More Than a Mystery: The Practical Implications of the
Trinity in Ministry with Youth”, The 1999 Princeton Lectures on Youth, Church,
and Culture (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1999), p. 57-70.
89 Jonathan Holmes, The Company We Keep: In Search of Biblical Friendship
(Mineápolis: Cruciform Press, 2014), p. 23.
90 Michael Reeves, Delighting in the Trinity: An Introduction to the Christian
Faith (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2012), p. 27.
91 Michael Reeves, “Why a Triune God Is Better than Any Other”, Credo, vol. 3,
n. 2 (abr. 2013), p. 34-39.
92 Um tremendo contraste é estabelecido aqui entre Yahweh, o Deus dos judeus
e cristãos, e Alá, a divindade do islã. Enquanto Alá ama apenas aqueles que o
amam e o servem, Yahweh tanto amou o mundo que entregou seu filho em
sacrifício para que todo aquele que nele crer seja salvo (cf. Jo 3.16).
93 Christopher West, Teologia do Corpo para Principiantes: Uma introdução
básica à revolução sexual por João Paulo II (Porto Alegre: Myriam, 2014), p.
118.
94 Em especial, a ideologia feminista e a ideologia de gênero, cuja agenda
comum é a eliminação das linhas divisórias entre homens e mulheres,
descaracterizando ambos. Um contraponto a ambas a partir de uma
antropologia cristã se encontra em Wayne Grudem, Confrontando o
Feminismo Evangélico: Respostas Bíblicas para Perguntas Cruciais (São Paulo:
Cultura Cristã, 2009); Albert Mohler Jr., Desejo e Engano: O verdadeiro preço
da nova tolerância sexual (São José dos Campos, SP: Fiel, 2008); e Paul David
Tripp, Sex in a Broken World: How Christ Redeems What Sin Distorts
(Wheaton, IL: Crossway, 2018).
95 O que não significa que isso foi imposto ao Filho. Antes, a ortodoxia crê que o
Filho voluntariamente se submeteu à vontade do Pai na Aliança da Redenção
antes da fundação do mundo (assim, referente à Trindade econômica). De
modo que a submissão do Filho é uma submissão mútua (assim como a do
Espírito) na autodoação trinitária na criação. É importante lembrar que, entre
Apocalipse 5–22, tanto “Aquele que está no trono” quanto o “Cordeiro” reinam
juntos.
96 Embora a teologia ortodoxa afirme que há plena igualdade de autoridade
entre as pessoas da Trindade, essa plena igualdade de autoridade é
exercitada de maneiras diferentes por cada uma das pessoas. Há a livre
autodoação de cada pessoa, mas é expressa de modo diferente e autêntico
por cada uma.
97 Uma pesquisa feita pelo Barna Group em 2017 mostrou que 88% da
juventude norte-americana entende ser uma boa ideia coabitar com alguém
antes do casamento (“The trends redefining romance today”. Disponível em:
https://www.barna.com/research/trends-redefining-romance-today. Acesso em:
16 jan. 2018).
98 Ibid. A pesquisa indicou que o índice de divórcio entre casais cristãos é de
25%, igual ao índice entre casais não cristãos.
99 Evelyn Eaton Whitehead e James D. Whitehead, Marrying Well: Stages on the
Journey of Christian Marriage (Garden City, NY: Image Books, 1983), p. 229.
100 Respeitando os limites biblicamente estabelecidos e preservando a
integridade física.
CAPÍTULO 6 
DICAS PARA UM CASAMENTO E UMA FAMÍLIA
SAUDÁVEIS
101 David Cooper, A Morte da Família, 3ª ed. (São Paulo: WMF Martins Fontes,
1994).
102 Manuel Carlos Montenegro, “Cartórios são proibidos de fazer escrituras
públicas de relações poliafetivas”, Agência CNJ de Notícias, 26 jun. 2018.
Disponível em: http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/86892-uniao-poliafetiva-
pedido-de-vista-adia-a-decisao.
103 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “Tabelas Coeficientes
de Variação”, atualizado em 20 mai. 2016. Disponível em:
https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pna
d2014/sintese_coef_var_ods.shtm.104 Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, 19 set. 2017. Disponível em:
http://site.cndl.org.br/61-dos-donos-de-animais-de-estimacao-veem-seus-pets-
como-um-membro-da-familia-gasto-mensal-e-de-r189-em-media/.
105 Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo,
“Uniões consensuais superam casamentos civil e religioso”, Jusbrasil, 14 jul.
2014. Disponível em: https://arpen-
sp.jusbrasil.com.br/noticias/127239479/unioes-consensuais-superam-
casamento-civil-e-religioso.
106 Roseli Sayão e Julio Groppa Aquino, Família: Modo de Usar, Série Papirus
Debates, 2ª ed. (Campinas, SP: Papirus, 2006), p. 15. Veja Ana Carla
Harmatiuk Matos, As Famílias Não Fundadas no Casamento e a Condição
Feminina (Rio de Janeiro: Editora Renovar, 2000); Marcos Alves da Silva, Da
Monogamia – A Sua Superação Como Princípio Estruturante do Direito de
Família (Curitiba: Editora Juruá, 2013); e Rodrigo da Cunha Pereira e Giselle
Câmara Groeninga, coords., Direito de Família e Psicanálise: Rumo a uma
Nova Epistemologia (Rio de Janeiro: Imago, 2003).
107 Não afirmamos a existência de qualquer relação direta entre as pessoas da
Trindade e o ser humano em suas duas formas existenciais (homem e
mulher). Em termos ontológicos Deus existe além do gênero, e as expressões
de gênero humanas não refletem individualmente alguma das pessoas da
Trindade. Como é dito: “O Pai não é o marido, e o Espírito Santo não é a
esposa, e Jesus o Filho de ambos”. De igual modo, como vimos no capítulo 5,
relações de amizade íntima podem refletir relações trinitárias como vemos
nas vidas de Jesus e Paulo.
108 Marcelo Augusto Bonfa, Renato Manfredine Jr. e Eduardo Dutra Villa-Lobos,
“Pais e Filhos”, do álbum Tempo Perdido, ao vivo, Legião Urbana, São Paulo:
Sony/ATV Music Publishing LL, 1986.
109 A discussão sobre a submissão do Filho ao Pai continua hoje. Conforme as
Escrituras, Jesus foi sempre obediente. Mas a questão-chave é se a
subordinação do Filho na kenosis (Fp 2.5-7) revela uma ordem na Trindade
eterna (em si). Alguns acham que sim, de perspectivas diferentes, inclusive
teólogos como Karl Barth, Hans Urs Von Balthasar, Wayne Grudem e Bruce
Ware. O teólogo inglês John Owen (séc. XVII) colocou o ato livre de submissão
do Filho no pacto da redenção antes da criação do mundo. Em grande parte, a
ortodoxia cristã restringe a submissão do Filho à missão da redenção na
Trindade “econômica”, e que o Pai e o Filho são perfeitamente iguais sem
submissão na Trindade ontológica (“imanente”). Contudo, o debate continua.
110 Uma pesquisa divulgada pelo jornal Estado de São Paulo aponta que 82%
das trabalhadoras creem que a liderança masculina é mais racional (Gisele
Tamamar, “Mulher Prefere Chefe Homem”, Blog Seu Bolso, Estadão, 8 mar.
2012. Disponível em: http://www.estadao.com.br/blogs/jt-seu-
bolso/2012/03/08/mulher-prefere-chefe-homem/. Ver
http://entretenimento.r7.com/hoje-em-dia/videos/muitas-mulheres-preferem-
ter-chefe-homem-20102015). Além disso, outra pesquisa divulgada pela
revista Época Negócios aponta que “67% das mulheres preferem chefes
homens a chefes mulheres” (“Mulheres Preferem ter Chefe Homem”, Época,
Negócios. Caderno Carreira/Trabalho 13/08. Disponível em:
http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,ERT87670-
16349,00.html).
111 Estevão Taiar, “Número de lares chefiados por mulheres sobe de 23% para
40% em 20 anos”, Valor Econômico, 6 mar. 2017. Disponível em:
http://www.valor.com.br/brasil/4889492/numero-de-lares-chefiados-por-
mulheres-sobe-de-23-para-40-em-20-anos.
112 Sérgio Gomes Silva, “A crise da Masculinidade: Uma Crítica à Identidade de
Gênero e à Literatura Masculinista”, Psicologia, Ciência e Profissão, vol. 26
(Rio de Janeiro: Instituto de Medicina Social/IMS/Universidade do Estado do Rio
de Janeiro, 2006), p. 118-131.
113 Expressão que faz referência ao estereótipo social do homem ausente, que
não tem autoridade e tem mínima participação na vida familiar,
caracterizado, de maneira geral, por estar sentado de pijama na frente da
televisão e com uma barriga saliente e cara de tédio.
114 Aline Gomiero, “Cresce o Número de Maridos que Ficam em Casa Cuidando
dos Filhos”, Online Claudia: Sua Vida, Editora Abril, 4 mai. 2014. Disponível
em: https://claudia.abril.com.br/sua-vida/cresce-o-numero-de-maridos-que-
ficam-em-casa-cuidando-dos-filhos/.
115 Pode-se destacar a acirrada discussão contemporânea na Convenção
Batista Brasileira sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral, e a
maioria de missionárias nos campos missionários que de fato exercem o
ministério e a função pastoral.
116 A palavra “epidemia” aqui está sendo usada não no sentido médico-clínico,
mas sim no sentido figurativo: “fig. coisa que se difunde rapidamente e é
adotada por muitas pessoas: Epidemia de minissaias” (Michaelis: Dicionário
Prático da Língua Portuguesa). O crescimento vertiginoso da
homossexualidade pode ser observado em pesquisas como: Gary J. Gates,
Same-Sex Couples and the Gay, Lesbian, Bisexual Population: New Estimates
from the American Community Survey, The Williams Institute on Sexual
Orientation Law and Public Policy (UCLA School of Law, Oct. 2006). Acesso em:
4 ago. 2015. E também no último senso divulgado pelo IBGE. Disponível em:
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-
noticias/releases/15160-registro-civil-2014-brasil-teve-4-854-casamentos-
homoafetivos.html.
117 Para um panorama mais completo da discussão, histórico e teóricos
envolvidos, recomenda-se a leitura de Hart M. Nelson, Neil H. Cheek Jr. e Paul
Au, “Gender Differences in Images of God”, Journal for the Scientific Study of
Religion, vol. 24:4 (dez. 1985), p. 396-402.
118 Edesio Sánchez, “Family in the Non-narrative Sections of the Pentateuch”,
em Richard S. Hess e M. Daniel Carroll R., coords., Family in the Bible:
Exploring Customs, Culture, and Context (Grand Rapids, MI: Baker, 2003), p.
33, Kindle. Veja ainda Gregory Brown, “God’s Design For The Family
(Colossians 3:18-21)”, 25 jan. 2016. Disponível em:
https://bible.org/seriespage/14-god-s-design-family-colossians-318-21. Acesso
em: 27 dez. 2017.
119 Michael Anthony e Michelle Anthony, Theology for Family Ministry
(Nashville: B&H, 2011), p. 700-701, Kindle.
120 Andreas Köstenberger e J. David W. Jones, Deus, Casamento e Família:
Reconstruindo o Fundamento Bíblico, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 2015), p.
29.
121 Esses pontos são ideais, mas permitem termos exceções válidas, como um
casal de cristãos sendo estéril e que deseja adotar, ou ter pais mais velhos
que são cuidados pelo casal morando juntos.
CAPÍTULO 7 
A TRINDADE E O CORPO DE CRISTO
122 Hypostases é o plural de hypostasis.
123 Millard J. Erickson, Introdução à teologia sistemática (São Paulo: Vida Nova,
1997), p. 135.
124 Franklin Ferreira e Alan Myatt, Teologia Sistemática: Uma análise histórica,
bíblica e apologética para o contexto atual (São Paulo: Vida Nova, 2007), p.
188.
125 R. C. Sproul, Somos Todos Teólogos (São José dos Campos SP: Fiel, 2017),
cap. 11, 10º parágrafo.
126 Ibid., 11º parágrafo.
127 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 186.
128 Wayne Grudem, Teologia Sistemática: Atual e exaustiva (São Paulo: Vida
Nova, 1999), p. 185-186.
129 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 183.
130 Grudem, Teologia Sistemática, p. 174.
131 John Owen, A Doutrina da Trindade: Provada pela Bíblia (Francisco Morato,
SP: O Estandarte de Cristo, 2019), Kindle.
132 Conforme diz o Credo de Atanásio: “Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o
Espírito Santo é Deus. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus”.
133 Grudem, Teologia Sistemática, p. 190.
134 Ibid., p. 191.
135 É evidente que não estamos tratando aqui de diferenças relacionadas a
desvios doutrinários ou morais. Em questões como estas não deve haver
unidade. O pecado quebra a comunhão e causa separação. Sobre esse
assunto trataremos mais adiante.
136 Mark Dever e Jamie Dunlop. A Comunidade Cativante (São José dosCampos, SP: Fiel, 2016), parte 1, cap. 1, Kindle.
137 Paulos Mar Gregorios, “Human unity for the glory of God”, The Ecumenical
Review, vol. 37, n. 2 (1985), p. 210, cf. 206-212.
138 Carl E. Braaten, “The Triune God: The Source and Model of Christian Unity
and Mission”, Missiology, vol. 18 n. 4 (1990), p. 424.
139 Ibid., p. 425.
140 É evidente que os pecados que quebraram a comunhão entre o Pai e o Filho
não eram de Jesus, mas da humanidade, e foram colocados sobre Cristo na
cruz. Entretanto, não ocorre quebra da ousia de Deus.
141 Embora a Bíblia seja um livro de absolutos, a definição daquilo que é
essencial ou periférico pode variar de um contexto para outro ou de uma
época para outra. Uma discussão sobre esse tema seria extensa e não caberia
nos limites deste capítulo. Uma reflexão interessante sobre o assunto foi feita
por Gregory Koukl, “Doutrinas cristãs essenciais”. Disponível em:
https://tuporem.org.br/doutrinas-cristas-essenciais/.
142 Em situações como estas é necessária uma avaliação individual, feita
debaixo de reflexão bíblica e oração, para saber se a consciência permite
conviver com uma crença e prática diferente.
143 Assim como acontece com as questões essenciais, também existem
dificuldades para se definir quais são as questões periféricas. Sua
abrangência pode aumentar ou diminuir de acordo com os critérios utilizados.
Embora nem todos concordem com os exemplos, eles foram apresentados
com base na ausência de determinação bíblica expressa. Existem descrições
bíblicas sobre esses assuntos, mas não prescrições bíblicas a respeito deles.
144 Embora igrejas locais ou denominações possam ter suas declarações
doutrinárias específicas, é possível subscrever declarações mais amplas com
o objetivo de cooperação denominacional ou missionária. Esse é o propósito
de organizações como a Aliança Evangélica Brasileira.
CAPÍTULO 8 
A TRINDADE E A IGREJA LOCAL
145 “À nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Esta combinação única
de expressões, virtualmente idênticas, enfatiza a natureza incomparável dos
seres humanos e sua relação especial com Deus” (Nahum M. Sarna, Genesis,
The JPS Torah Commentary [Filadélfia: Jewish Publication Society, 1989], p. 11
[ênfase acrescentada]).
146 Os atributos incomunicáveis pertencem à natureza do infinito Deus
(onisciência, onipotência etc.), enquanto os atributos comunicáveis
descrevem as características pessoais (amor, retidão etc.), e de que outros
seres pessoais (criados e finitos) podem participar.
147 Francis A. Schaeffer, The Complete Works of Francis A. Schaeffer, 5 vols.
(Wheaton, IL: Crossway, 1982), 1.93-94.
148 Um plural de autodeliberação, conforme Gesenius’ Hebrew Grammar, ed. E.
Kautzsch, trans. A. E. Cowley, 2ª ed. (Oxford, Inglaterra: Clarendon, 1910),
398, 124, n. 2.
149 A expressão “que Deus era com ele” (grego, hoti ho theos ên met’autou)
indica relação, aprovação e capacitação.
150 O diálogo de Gênesis 3.7-19 sugere fortemente uma relação pessoal
contínua anterior à queda (veja 2.16-17).
151 É importante observar que as palavras usadas para a ação do Espírito
muitas vezes implicam que ele comunicou com palavras (At 9.31; 10.19;
11.28; 15.28).
152 1Co 3.16; Gl 3.2; 2Tm 1.14.
153 Jaime Kemp, Pastores em Perigo (São Paulo: Hagnos, 2006), p. 51.
154 Outras nomenclaturas também são usadas, mas a função é a mesma.
155 Um estudo sobre o propósito de Deus para sua igreja deve direcionar o
propósito da liderança.
156 Isso não significa que os relacionamentos intratrinitários causem alguma
mudança em qualquer das suas pessoas, mas que o padrão do
relacionamento está de acordo com o caráter santo e amoroso de Deus e por
essa razão é sempre benevolente.
157 Kemp, Pastores em Perigo, p. 56.
158 Schaeffer, Complete Works, 2.32.
159 Veja Miroslav Volf, After Our Likeness: The Church as the Image of the
Trinity (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1998).
160 Charles C. Ryrie, Biblical Theology of the New Testament (Dubuque, IA: ECS
Ministries, 2005), p. 290-291.
161 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 50-51.
162 Rm 5.5,8; 8.39; 2Co 13.11,13; Ef 2.4; 6.23; Tt 3.4; Hb 12.6; 1Jo 3.1; 4.7-
10,16.
163 1Jo 3.16; veja Mc 10.21; Jo 11.3; 13.1; 14.21; 20.22; 21.7; Rm 8.35; 2Co
5.14; Gl 2.20; Ef 3.19; 5.2.
164 É possível que esse seja um genitivo objetivo que indicaria o amor “ao
Espírito” ou genitivo subjetivo, indicando que o Espírito ama. Veja Joseph A.
Fitzmyer, Romans: A New Translation with Introduction and Commentary,
Anchor Yale Bible Commentary (New Haven, CT: Yale University Press, 2008),
p. 677.
165 Ryrie, Teologia Básica, p. 33. Ver tb. 2Ts 2.13; 1Pe 1.2.
166 A palavra “dominador” (grego, katakurieuô) é usada para governantes
tiranos na lição de Jesus aos discípulos (Mt 20.25) e para designar a ação de
um demônio atacando e ferindo pessoas (At 19.16).
167 Kemp, Pastores em Perigo, p. 42.
168 Veja M. William Ury, “Holy, Holiness”, Evangelical Dictionary of Biblical
Theology, ed. Walter A. Elwell (Grand Rapids, MI: Baker, 1996), p. 340-344.
169 Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, Foco e Desenvolvimento no Antigo
Testamento (São Paulo: Hagnos, 2006), p. 35.
170 Ver At 2.27; 13.35. O campo semântico do grego hosios permite usá-lo
também como sinônimo de hagios, uma vez que é usado a maioria das vezes
referindo-se tanto ao Pai quanto ao Filho (Ap 15.4; Hb 7.26). Assim também o
hebraico hasid como qodesh por ter sido usado para Deus (Sl 145.17).
171 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 212.
172 Lv 11.44-45; 19.2; Nm 15.40; 1Pe 1.14-16.
173 John Henry Jowett, O Pregador, Sua Vida e Obra (São Paulo: Casa Editora
Presbiteriana, 1968), p. 28.
CAPÍTULO 9 
AO QUE DEUS NOS CHAMA?
174 Alan B. Pieratt, O Evangelho da Prosperidade, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova,
1996), p. 26. Algumas dessas seitas incluiriam: Igreja da Unidade, a Igreja da
Ciência Divina, a Igreja da Verdade, Liga da Igreja de Cristo, O Cristo que Cura
a Sociedade e a Assembleia Cristã.
175 Ibid., p. 28.
176 Ibid., p. 23.
177 Ibid., p. 24.
178 Ibid., p. 29.
179 Ricardo Gondim, O Evangelho da Nova Era, 5 ed. (São Paulo: Abba, 1999),
p. 5.
180 Alderi Souza de Matos, “Raízes históricas da teologia da prosperidade”,
Ultimato (jul.-ago. 2008). Disponível em:
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/313/raizes-historicas-da-teologia-
da-prosperidade.
181 John Ankerberg e John Weldon, Os Fatos Sobre o Movimento da Fé (Porto
Alegre: Chamada, 1993), p. 32.
182 Gondim, O Evangelho da Nova Era, p. 103.
183 Paulo Romeiro, Super Crentes: O Evangelho Segundo Kenneth Hagin,
Valnice Milhomens, e os Profetas da Prosperidade (São Paulo: Mundo Cristão,
1993), p. 25.
184 Valdemiro Santiago. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?
v=0LgjL6VMEO8&feature=youtu.be.
185 Silas Malafaia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4Me-
irBFPSs.
186 Pieratt, O Evangelho da Prosperidade, p. 57.
187 Gondim, O Evangelho da Nova Era, p. 83.
188 Ibid., p. 85.
189 Ibid., p. 69.
190 Stanley J. Grenz, The Social God and the Relational Self (Louisville, KY:
Westminster John Knox, 2001), p. 9.
191 Jim Berg, Created for His Glory (Greenville, SC: Bob Jones University Press,
2002), p. 31.
192 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 247.
193 Grenz, The Social God and the Relational Self, p. 167
194 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 254.
195 Ver Dt 30.9; Js 1.7-8; 1Rs 2.2-3; 2Cr 26.5; 31.21; Sl 1.3; 112.1-3; Mc 10.29-
30. Veja John M. Frame, A Doutrina da Vida Cristã (São Paulo: Cultura Cristã,
2016), p. 770.
196 Peter L. Berger, “You Can Do It!”,
http://www.booksandculture.com/articles/2008/sepoct/10.14.html.
197 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 255.
198 1Tm 1.3-11; 4.1-16; 6.3-5; 2Tm 2.23-26; 3.1-9; 4.1-5; Tt 1.10-16; 2.15; 3.9-
11.
199 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 260.
CAPÍTULO 10 
SEPARANDO AS OVELHAS DAS CABRAS
200 Joey Coffey, Defenda Sua Fé – Pondo por terra as gigantescas questões da
apologética (São Paulo: Vida Nova, 2012), p. 12.
201 John MacArthur Jr., Guerra pelaVerdade (São Paulo: Vida Nova, 2010), p. 11.
202 Os unicistas têm imenso impacto sobre o evangelicalismo nos países em
desenvolvimento, ainda que muitos grupos não tenham uma adesão formal. A
maioria das estimativas numéricas está desatualizada e não é verificável. A
fonte mais recente aponta 24 milhões no mundo, mas sem fontes estatísticas.
Esta estimativa vem do “Pentecostalismo Unicista”, Wikipédia. Disponível em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Oneness_Pentecostalism. Baseado em Eric
Patterson e Edmund Rybaczyk, The Future of Pentecostalism in the United
States (Nova York: Lexington, 2007), p. 123-124. Acesso em: 17 nov. 2019.
203 Sabélio era de origem africana e chegou a Roma por volta do ano 217 d.C.
Nesse tempo, ele começou a pregar e defender o seu ponto de vista
conseguindo reunir um grande número de seguidores. Posteriormente Sabélio
foi excomungado por Calisto, bispo de Roma, e fugiu para o Oriente, e mais
tarde para o Egito, onde morreu em 260 d.C. A seita herética por ele fundada
sobreviveu até o século IV. Veja R. Frangiotti, História das Heresias: Séculos I–
VII (São Paulo: Paulus, 1995), p. 49, 51; M. Simonetti, “Sabellius–
Sabellianism”, Encyclopedia of Ancient Christianity, ed. Angelo Di Berardino, 3
vols. (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2014), 3.445.
204 R. Oliveira, Seitas e Heresias: Um Sinal dos Tempos (Rio de Janeiro: CPAD,
2002), p. 153.
205 Robert Edward McAlister (1880-1953). Pastor e diretor das Assembleias
Pentecostais do Canadá, nasceu e foi criado num lar presbiteriano. Ele
participou de encontros na rua Azusa, em Los Angeles, em 1906, retornando
ao Canadá como um pentecostal verdadeiramente entusiasmado. Ele é
lembrado dentro de sua denominação como aquele que deu o grande impulso
para o unicismo. D. A. Reed, “Oneness Pentecostalism”, The New International
Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements, Stanley M Burgess,
coord., 2ª ed. (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2002), p. 936-944.
206 Stanley Horton, org., Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal
(Rio de Janeiro: CPAD, 1995), p. 99.
207 Ibid.
208 Ibid., e Reed, “Oneness Pentecostalism”, p. 936.
209 Para conhecer melhor o início da história do movimento unicista, veja Reed,
“Oneness Pentecostalism”, p. 936-44; e Walter J. Hollenweger, The
Pentecostals: The Charismatic Movement in the Churches (Londres, Inglaterra:
SCM Press, 1972), p. 31-32.
210 Reed, “Oneness Pentecostalism”, p. 938.
211 Igreja Pentecostal Unida do Brasil. Disponível em:
http://www.ipubgoias.com.br/quem-somos/. Acesso em: 16 mai. 2018.
212 Esequias Soares, “Unicismo: heresias ou questões secundárias?”, Centro
Apologético Cristão de Pesquisas. Disponível em:
http://www.cacp.org.br/unicismo-heresias-ou-questoes-secundarias/. Acesso
em: 27 nov. 2019.
213 Igreja Pentecostal Unida do Brasil, Home page. Disponível em:
http://www.ipubgoias.com.br/quem-somos/. Acesso em: 27 nov. 2019.
214 Também Lc 2.49; Jo 2.16; 5.22-23; 8.54; 14.2,13,16,21,24,26; 1Co 12.3; Hb
1.5. Veja a lista de textos contra a doutrina dos Só Jesus em Ricardo Becerra,
“Unicismo”, Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Disponível em:
http://www.cacp.org.br/unicismo/. Acesso em: 28 nov. 2019.
215 Gordon H. Clark, The Trinity (Unicoi, TN: Trinity Foundation, 1990), p. 8-12.
216 A Igreja Pentecostal Unida do Brasil declara em seus artigos de fé que o
falar em línguas faz parte da salvação, no entanto o fenômeno de falar em
línguas em Atos é registrado apenas três vezes: no Pentecostes (At 2.2-12), no
Pentecostes gentio no lar de Cornélio (10.44-47) e quando os discípulos de
João Batista conheceram a fé cristã plena (19.1-7).
217 Oliveira, Seitas e Heresias, p. 238.
218 Ibid., p. 239.
219 John Frame, Apologética para a Glória de Deus (São Paulo: Cultura Cristã,
2010), p. 43.
220 Tertuliano, Contra Práxeas, 10; ACD 1.68; PL 2.165; ANF 3:604. Já em 177
d.C., Atenágoras defendeu Deus como um na essência, mas três em distinção
e ordem, A Plea Regarding Christians, 10.1ff; e Teófilo de Antioquia falou de
Deus como trias (Para Autólico 2.10,15; 2.22).
CAPÍTULO 11 
O PORQUÊ DAS MISSÕES
221 J. Scott Horrell, “The Trinity, the Imago Dei, and the Nature of the Local
Church”, Connecting for Christ: Overcoming Challenges Across Cultures, ed.
Florence P. L. Tan (Singapura: Florence Poh-Lian Tan, 2009), p. 24, cf. 1-30.
222 Christopher West, Teologia do Corpo para Principiantes (São Paulo: Paulinas
Editora, 2017), p. 19.
223 Ibid., p. 18.
224 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 33.
225 Martyn Lloyd-Jones, “A Apresentação do Evangelho”, p. 3 (ênfase no
original). Disponível em: http://www.slideshare.net/linomar31/a-apresentao-
do-evangelho. Acesso em: 28 nov. 2019.
226 George W. Peters, Teologia Bíblica de Missões (Rio de Janeiro: CPAD, 2000),
p. 57.
227 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 81.
228 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 23.
229 John Piper e Justin Taylor, The Supremacy of Christ in a Postmodern World
(Wheaton, IL: Crossway, 2007), p. 132, citado em Yago Martins, Você Não
Precisa de um Chamado Missionário (Joinville, SC: BTBooks, 2015), p. 52.
230 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 194.
231 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 98.
232 Ibid., p. 110.
233 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 23.
234 Gerald Bray, Igreja: Um relato teológico e histórico (São Paulo: Shedd
Publicações, 2017), p. 70.
235 Fred Sanders, The Deep Things of God: How the Trinity Changes Everything,
2ª ed. (Wheaton, IL: Crossway, 2017), Kindle.
236 Martins, Você Não Precisa de um Chamado Missionário, p. 212.
237 Ibid., p. 213.
238 Keith Phillips, A Formação de um Discípulo (São Paulo: Vida, 2008), p. 17.
239 Robert R. Coleman, Plano Mestre de Evangelismo, 2ª ed. (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 103.
240 Bill Lawrence, Autoridade Pastoral: Servindo a Deus, liderando o rebanho
(São Paulo: Vida, 2002), p. 73.
241 Martins, Você Não Precisa de um Chamado Missionário, p. 216.
242 Lawrence, Autoridade Pastoral, p. 76.
243 J. Scott Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, Vox Scripturae, vol. 4, n. 1
(mar. 1994), p. 66.
244 John Dickson, The Best Kept Secret of Christian Mission: Promoting the
Gospel with More than Our Lips (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2010), p. 31.
245 Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin”,
Reformed Review, vol. 17 (mar. 1964), p. 36-37, citado em Martins, Você Não
Precisa de um Chamado Missionário, p. 61.
246 Horrell, “The Trinity, the Imago Dei, and the Nature of the Local Church”, p.
23.
247 Nicky Cruz e Charles Paul Conn, The Magnificent Three (Old Tappan, NJ:
Revell, 1976), p. 103, citado em Sanders, The Deep Things of God, Kindle.
248 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 194.
249 Paul I. Enns, The Moody Handbook of Theology, 2ª ed. (Chicago: Moody,
2008), p. 378.
250 Juventino Kestering, “A Santíssima Trindade é convite para missão”, 11 jun.
2015. Disponível em: https://www.cnbbo2.org.br/a-santissima-trindade-e-
convite-para-a-missao/. Acesso em: 27 nov. 2019.
251 Ed Stetzer, Plantando Igrejas Missionais: Como plantar igrejas bíblicas,
saudáveis e relevantes à cultura (São Paulo: Vida Nova, 2015), p. 47.
252 Andreas J. Kostenberger e Peter T. O’Brien, Salvation to the Ends of the
Earth (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001), p. 269.
253 Wilbert R. Shenk, “Mission Strategies”, Toward the Twenty-First Century in
Christian Mission, orgs, James M. Phillips e Robert T. Coote (Grand Rapids, MI:
Eerdmans, 1993), p. 221-223, citado em Stetzer, Plantando Igrejas Missionais,
p. 48.
CAPÍTULO 12 
A PERSPECTIVA TRINITÁRIA
254 James Kennedy, E Se Jesus Não Tivesse Nascido? (São Paulo: Vida, 2003).
255 Norman L. Geisler e William D. Watkins, Worlds Apart (Grand Rapids, MI:
Baker, 1989), p. 11.
256 Norman L. Geisler, Enciclopédia Apologética: Respostas aos Críticos da Fé
Cristã (São Paulo: Vida, 2002), p. 403.
257 Elias Hendrikson, Santidade (São Paulo: Clube dos Autores, 2008), p. 18.
258 Hans-DietarMutscheler: “O naturalismo é a concepção de que podemos
‘explicar’ suficientemente o ser humano com os recursos da ciência da
natureza” (Hans-Dietar Mutscheler, Introdução à Filosofia da Natureza [São
Paulo: Loyola, 2002], p. 24). Assim, o naturalismo, por meio da ciência,
buscou explicar a origem de todas as coisas. O naturalismo serve de base
para o desenvolvimento do pensamento humanista. A medida daquilo que é
verdade é ser inteligível ao ser humano e passível de ser provada. Deus
gradativamente tornou-se uma sombra mitológica ilógica.
259 Brendan Sweetman, Religião: Conceitos-Chaves em Filosofia (São Paulo:
Penso Editora, 2013), p. 131.
260 Geisler, Enciclopédia Apologética, p. 403.
261 Ibid., p. 403.
262 Ibid., p. 40.
263 David Noebel, “Compreendendo as Seis Cosmovisões Dominantes no
Mundo”, Forcing Change, vol. 4, n. 2 (22 mar. 2011). Disponível em:
http://www.espada.eti.br/cosmovisao.asp. Acesso em: 5 nov. 2019.
264 Richard Guerra, Desconforme-se: Um alerta para o jovem do século 21 (Rio
de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017), p. 1.
265 Informação fornecida por Hélder Cardin, no congresso de fé e pós-
modernidade da Aliança Bíblica, em Caxias do Sul-RS, 30 jun. 2012.
266 Pensamento de Friedrich Nietzsche, que apresenta a história como cíclica,
ausente de significado transcendente. Onde não há nada além do aqui e
agora.
267 Segundo Abbagnano: “O Existencialismo afirma que o homem é uma
realidade finita, que existe e age por sua própria conta e risco. Afirma que o
homem está ‘lançado no mundo’, ou seja, entregue ao determinismo do
mundo, que pode tornar vãs ou impossíveis as suas iniciativas” (Nicola
Abbagnano, Dicionário de Filosofia, Revista e Ampliada [São Paulo: Martins
Fontes, 2007], p. 402).
268 José Geraldo de Oliveira, “CCM e TC pós modernismo 2” [Cultura,
Comunicação, e Mídia e Teorias da Comunicação], 2015. Disponível em:
https://pt.slideshare.net/JoseOliveira34/ccm-e-tc-pos-modernidade-2. Acesso
em: 10 de nov. 2019.
269 Apesar deste termo não estar contido nas Escrituras e da dificuldade
comprobatória deste fato no Antigo Testamento, é inegável tal conceito da
triunidade de Deus nas Escrituras.
270 Conforme o Credo Niceno-Constantinoplano (325/381 d.C.) e o Credo de
Atanásio. Especificamente no que tange à trindade econômica, este conceito
retrata o relacionamento de iguais em uma hierarquia funcional no
relacionamento com sua obra e sua criação.
271 J. Scott Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, Vox Scripturae: Revista
Teológica Brasileira, vol. 4, n.1 (mar. 1994), p. 61-64.
272 Não há discussão sobre essas características no ser humano, de tal modo é
inegável que estas características são apresentadas no decorrer da Bíblia
como de Deus. Assim, a perspectiva de Criador e criatura torna-se mais
evidente na própria constituição do homem.
273 Podemos atribuir ao conceito de personalidade o principal conjunto de
características de cada indivíduo que o torna único. Conforme conceito
etimológico e uso do mesmo.
274 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 61.
275 Stephen C. Perks, “A Christian View of the State”, Christian and Society, vol.
12, n. 4 (2002), p. 23.
276 “Efeito borboleta” é um termo que se refere à dependência sensível às
condições iniciais dentro da teoria do caos. Aplica-se devidamente à
circunstância do homem assumindo algo incapaz de gerir.
277 O homem é limitado em sua essência e não pela soberania de Deus. Suas
capacidades não são infinitas. Ele está preso ao tempo e ao espaço. Ele tem
início e fim, terreno. A tentativa máxima de liberdade de um ser afetará a de
outro, impossibilitando uma livre vontade.
278 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 71.
279 Ibid., p. 60.
280 Ibid., p. 76.
281 Franklin Ferreira, Teologia Cristã: Uma introdução à sistematização das
doutrinas (São Paulo: Vida Nova, 2015), p. 81.
282 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 71.
283 Mário de França Miranda, A Igreja numa Sociedade Fragmentada (São Paulo:
Loyola, 2006), p. 85.
284 Horrell, “The Trinity, the Imago Dei, and the Nature of the Local Church”, p.
1-30.
CAPÍTULO 13 
A TRINDADE E ALÁ
285 Carlos Madrigal, Explaining the Trinity to Muslims: A personal reflection on
the biblical teaching in light of the theological criteria of Islam (Pasadena, CA:
William Carey Library, 2011), p. 134-138, Kindle.
286 Samir El Hayek, O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado com
Comentários (São Paulo: MarsaM, 2004).
287 Ibid.; Alcorão, Surata 29:46.
288 Silas Tostes, O Islamismo e a Trindade (São Paulo: Ágape, 2001), p. 29.
289 Ibid.; Surata 4:48.
290 Fred Sanders, The Deep Things of God: How Trinity Changes Everything
(Wheaton: Crossway, 2010), p. 70, Kindle.
291 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 67-68.
292 Ibid., Surata 3:42-47 (ênfase acrescentada).
293 Don McCurry, Passos para a Eternidade: Jesus do Alcorão à Bíblia (Foz do
Iguaçu, PR: Letras, 2013), p. 29.
294 Hayek, O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado, Surata 4:171.
295 Madrigal, Explaining the Trinity to Muslims, p. 668-674, Kindle.
296 Thomas Finger, “Modern Alienation and Trinitarian Creation”, Evangelical
Review of Theology, vol. 17, n. 2 (abr. 1993), p. 204.
297 Hayek, O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado, Surata 5:116.
298 Tostes, O Islamismo e a Trindade, p. 61-62.
299 Rodrigo Cardoso, “Os caminhos do Islã no Brasil”, ISTO É, 21 jan. 2016.
Disponível em:
https://istoe.com.br/349181_OS+CAMINHOS+DO+ISLA+NO+BRASIL/. Acesso
em: 24 mai. 2019.
CAPÍTULO 14 
OS CREDOS TRINITÁRIOS E O PENSAMENTO CERTO
300 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 22.
301 Paulo Anglada, Sola Scriptura: A doutrina reformada das Escrituras (São
Paulo: Os Puritanos, 1998), p. 178.
302 Franklin Ferreira, O Credo dos Apóstolos (São José dos Campos: Fiel, 2015),
p. 26.
303 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 19.
304 O. G. Oliver Jr., “Credo dos Apóstolos”, in: Enciclopédia Histórico-Teológica
da Igreja Cristã, 2 vols. (São Paulo: Vida Nova, 1993), 1:362-363.
305 M. E. Osterhaven, “Regra de Fé”, in: Enciclopédia histórico-teológica da
igreja cristã, Walter A. Elwell, ed. (São Paulo: Vida Nova, 2009), p. 260.
306 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 165.
307 Ryrie, Teologia Básica, p. 35.
308 Archibald A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster: Comentada por A. A.
Hodge (São Paulo: Os Puritanos, 2008), p. 27.
309 Sou em grande parte dependente de Carl Trueman para os pontos que se
seguem. Carl R. Trueman, “¿Por qué los cristianos necesitan confesiones?”.
Disponível em:
https://reformadoreformandome.wordpress.com/2013/04/12/carl-trueman/.
Acesso em: 28 dez. 2019.
310 Heber Carlos de Campos, “A Relevância dos Credos e Confissões”, Fides
Reformata, vol. 2 n. 2 (jul.‐dez. 1997), p. 97‐114.
CAPÍTULO 15 
AMAR MELHOR
311 D. A. Carson e Timothy Keller, Louvor: Análise Teológica e Prática (Rio de
Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017), p. 48.
312 Ibid., p. 44.
313 Merrill C. Tenney, Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã (São Paulo: Cultura
Cristã, 2008), p. 109.
314 Ralph L. Smith, Teologia do Antigo Testamento: História, Método e
Mensagem (São Paulo: Vida Nova, 2001), p. 300.
315 Bray, Igreja, p. 38.
316 D. A. Carson, O Comentário de Mateus (São Paulo: Shedd, 2011), p. 208.
317 George Eldon Ladd, Teologia do Novo Testamento, ed. rev. (São Paulo:
Hagnos, 2014), p. 213.
318 Andreas J. Köstenberger, Scott R. Swain, Pai, Filho e Espírito Santo: A
Trindade e o Evangelho de João (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 98.
319 Leonardo Boff, A Santíssima Trindade é a Melhor Comunidade, 12ª ed. (Rio
de Janeiro: Vozes, 2011), p. 34.
320 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 8.
321 James B. Torrance, Worship, Community and the Triune God of Grace
(Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1997), p. 20.
OBSERVAÇÕES FINAIS
322 Alister E. McGrath tem três doutorados da Universidade de Oxford e
escreveu mais de 50 livros; ele é o atual professor de ciência e religião na
Faculdade de Teologia e Religião da Universidadede Oxford e professor de
divindade no Gresham College, em Londres.
323 Palestra para a Sociedade Evangélica da Filosofia, San Antonio, TX, EUA, 18
nov. 2016, publicada como Alister E. McGrath, “The Rationality of Faith: How
Does Christianity Make Sense of Things?”, Philosophia Christi 18:2 (2016), p.
395-409. A Trindade é um tema importante nos escritos de McGrath desde a
década de 1980.
324 Por isso, os teólogos John Frame e Vern Poythress insistem na importância
de multiperspectivalismo, ou seja, a importância de apreciar diversas lentes
na aproximação de Deus. Veja Vern S. Poythress, Knowing and the Trinity: How
Perspectives in Human Knowledge Imitate the Trinity (Phillipsburg, NJ: P&R
Publications, 2018), p. xxi-xxv; Symphonic Theology: The Validity of Multiple
Perspectives in Theology, reimpr. (Phillipsburg, NJ: P&R, 2001).
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