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Certa vez, li que a doutrina cristã sobre Deus tem sido, nos últimos tempos, negligenciada. Contudo, desde o Concílio de Niceia (325 d.C.), a igreja tem afirmado sua crença em um único Deus: Pai, Filho e Espírito. O testemunho da igreja em nossos dias nos faz questionar a clareza deste conceito para a comunidade que o professa. Este livro chega em boa hora! Ele nos convida a uma profunda revisão de nossa compreensão confessional e do consequente compromisso de vida. Recomendo, com entusiasmo, a leitura desta obra escrita por autores que amam o trino Deus e a igreja brasileira. Ziel J. O. Machado Vice-reitor do Seminário Servo de Cristo, São Paulo Pastor da Igreja Metodista Livre, Concílio Nikkei, São Paulo Piedade, erudição e praticidade. O tema tão complexo que é a Trindade foi comunicado de uma forma prática, cheio de inspiração não somente para a vida eclesiástica, mas também para a vida pessoal. Sendo prático e inspirador como é, o texto será de ajuda imensurável para a igreja brasileira e seus líderes, que buscam trazer para a realidade do nosso país a compreensão de como o papel da Trindade pode e precisa ser real e eficiente para o que a igreja é e faz. Lisânias Moura Pastor Sênior, Igreja Batista do Morumbi, São Paulo Atualmente, o desenvolvimento teológico global necessita de vozes dos países em desenvolvimento. A Trindade, a Igreja e a Realidade Social oferece o microfone para os brasileiros falarem sobre distintas aplicações trinitárias a partir do seu contexto latino-americano. Ao ler esta obra coletiva, aprecie a variedade de vozes que, sem dúvida, enriquecerão suas próprias reflexões teológicas. Michael A. Ortiz Cátedra de Missiologia e Estudos Interculturais, Dallas Theological Seminary Diretor Internacional do ICETE (International Council for Evangelical Theological Education) Os autores encontraram o jeito certeiro e suave de falar sobre um tema geralmente visto como incompreensível. Entender a Trindade é entender o fundamento da fé cristã. Ao converterem textos bíblicos e termos teológicos complicados em matérias fáceis de serem entendidas, os escritores nos ensinam o jeito bíblico de viver e de refletir a imagem de Deus, o nosso Criador e Pai. Jonas Neves de Souza Pastor Presidente, Primeira Igreja Batista do Povo, São Paulo A Trindade, a Igreja e a Realidade Social mostra o efeito inevitável do Deus trino na família, na igreja, na equipe pastoral, entre outros. A qualidade é alta e consistente ao longo deste livro e serve como um recurso valioso num campo que mostra uma escassez de contribuições acadêmicas. A Trindade promove unidade no meio cristão de várias maneiras. Dessa forma, já obtive várias ideias para sermões a partir desta obra! Joseph Arthur Diretor do Seminário Batista Logos, São Paulo A Trindade, a Igreja e a Realidade Social, organizado pelos professores J. Scott Horrell e Murilo R. Melo, traz o tema da Trindade para o cenário da reflexão teológica no Brasil, tão necessário diante das mais variadas facetas das discussões teológicas parcializadas num Deus dividido em capítulos, ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito Santo. Este texto traz de volta à nossa mente o pensar a teologia em uma perspectiva trinitariocêntrica, o que promoverá um maior aprofundamento na compreensão da criação, restauração e reconstrução do ser humano e do mundo criado por Deus. Esperamos que o leitor sinta-se compelido a ler cada capítulo para o enriquecimento de sua compreensão sobre a vida. Lourenço Stelio Rega Teólogo, autor, eticista Diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo Este livro vem colmatar uma grande lacuna e será de extrema relevância para as igrejas nos países de expressão portuguesa. Isaias Uaene Ex-presidente da Convenção Batista de Moçambique Diretor fundador do Centro para o Desenvolvimento de Liderança (CDL) em Maputo É um grande prazer pessoal ver surgir mais um livro do dr. Scott Horrell junto com o dr. Murilo Melo e uma série de acadêmicos brasileiros. Esta abrangente coleção de artigos trata sobre a Trindade e sua relação com a apologética, a igreja, a sociedade, a juventude, o sexo e o casamento, as falsas doutrinas, os credos cristãos clássicos e, acima de tudo, com o conhecimento e a adoração do Deus vivo e verdadeiro em nossa vida pessoal. Não há fim para a necessidade de novas instruções e aplicações expressas da sã doutrina cristã. Drs. Horrell e Melo, obrigado por pastorearem e organizarem este esplêndido livro. Alan Pieratt Ex-presidente de Edições Vida Nova, São Paulo Diretor fundador de Children’s Relief International, Dallas, Texas, EUA É com grande alegria e expectativa que recomendo o livro A Trindade, a Igreja e a Realidade Social. Alegria por vários motivos. O primeiro é que tenho o privilégio de conhecer e ter desenvolvido um relacionamento de amizade com vários autores. Ler um material produzido por alguém com quem você tem caminhado e em quem tem observado as marcas e o aroma de Cristo, torna o exercício mais profundo e proveitoso. Alegria também pelo próprio tema. Há mais de dez anos, eu tenho estudado sobre a Trindade. A realidade de nosso Deus trino, em eterna e harmoniosa comunhão, tem orientado minha compreensão sobre igreja, família e equipes ministeriais. Percebi em minha leitura alguns conceitos e ideias que eu mesmo havia perscrutado, mas que neste livro foram desenvolvidos com muita propriedade. Alegria, por fim, por ver um movimento de produção teológica que ocorre no “chão de fábrica”, ou seja, por homens que têm se dedicado ao ministério pessoal e no contexto de igrejas e relacionamentos. Os capítulos trazem a doutrina da Trindade à realidade do dia a dia, seja na igreja, seja ao recém-convertido, seja no contexto de família. Tudo isso me leva a um profundo senso de expectativa. Expectativa ao saborear a produção de tantos novos teólogos brasileiros. Expectativa de ver o tema da Trindade trazido à prática, à luta e às tensões do ministério. Pessoalmente, sonho em ver a doutrina da Trindade ser reconduzida a uma posição central naquilo que fazemos em ministério, em como conduzimos nossas igrejas e instituições e no modo como vivemos nossa relação com Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Se você compartilha desta expectativa, este é um livro para colocar no topo de sua pilha. Daniel Lima Ex-deão acadêmico do Seminário Bíblico Palavra da Vida Professor e Pastor da Convenção Batista Diretor fundador do FOCO – Formação Contínua Copyright © 2020 por J. Scott Horrell e Murilo R. Melo Edição original por Chamada. Todos os direitos reservados. 1ª Edição – Fevereiro/2021 É proibida a reprodução desta obra em quaisquer meios sem a expressa permissão da editora, salvo para breves citações com a indicação da fonte. Editor: Sebastian Steiger Revisão: Débora Steiger e João Rodrigues Ferreira Capa: Filipe Spitzer Landrino e Rômulo Spier do Nascimento Diagramação: Rômulo Spier do Nascimento Conversão para ePub: SCALT Soluções Editoriais Salvo indicação em contrário, todas as passagens da Escritura foram extraídas da Tradução de João Ferreira de Almeida – 2ª Versão Revista e Atualizada®, copyright © 1993 por Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os direitos reservados. Passagens da Escritura marcadas como NVI foram extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional, NVI®, copyright © 1993, 2000, 2011 por Biblica, Inc. Todos os direitos reservados mundialmente. Passagens da Escritura marcadas como ARC foram extraídas da Almeida Revista e Corrigida (ARC), copyright © 2009 por Sociedade Bíblica do Brasil. Todos os direitos reservados. Obra Missionária Chamada da Meia-Noite Rua Erechim, 978 – Bairro Nonoai 90830-000 – Porto Alegre – RS Fone: 0300 789 5152 www.chamada.com.br pedidos@chamada.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Lumos Assessoria Editorial - Bibliotecária: Priscila Pena Machado CRB-7/6971 T833 A Trindade, a igreja e arealidade social: como o fato de Deus ser trino impacta a vida cristã / editores J. Scott Horrell e Murilo R. Melo. – 1. ed. – Porto Alegre : Chamada, 2021. 320 p. ; 21 cm. Inclui bibliografia. ISBN 978-65-89505-03-7 1. Santíssima Trindade. 2. Vida cristã - Doutrina bíblica. 3. Teologia. I. Horrel, J. Scott. II. Melo, Murilo R. III. Título. CDD 231.044 Dedicamos este livro a uma nova geração de líderes evangélicos e a todos que querem se aprofundar no entendimento do Deus trino. Que nossas igrejas e nossos seminários teológicos sejam fortalecidos na fé que uma vez por todas foi entregue aos santos, firmados na verdade bíblica e comprometidos em proclamar e viver o evangelho de Jesus Cristo. SUMÁRIO COLABORADORES INTRODUÇÃO 1. BASE FIRME: A TRINDADE A PARTIR DAS ESCRITURAS J. SCOTT HORRELL 2. PENSAR DE TUDO: UMA COSMOVISÃO TRINITÁRIA MURILO R. MELO 3. A TRINDADE E A IMAGO DEI: O QUE É O SER HUMANO? WINNETOU KEPLER 4. A TRINDADE E A SALVAÇÃO: AS BOAS NOVAS DO DEUS TRINO LIBNIS SILVA 5. A TRINDADE E OS JOVENS: AUTOCONCEITO, INTIMIDADE E SEXO CARLOS FELIPE OLIVEIRA DO NASCIMENTO 6. DICAS PARA UM CASAMENTO E UMA FAMÍLIA SAUDÁVEIS: A TRINDADE COMO PRINCÍPIO FORMADOR, PARADIGMÁTICO E ORIENTADOR DA FAMÍLIA CREUSE P. SANTOS 7. A TRINDADE E O CORPO DE CRISTO: APRECIANDO UNIDADE E DIVERSIDADE IVIS COSTA FERNANDES 8. A TRINDADE E A IGREJA LOCAL: ASPECTOS DA IMAGEM DO DEUS TRINO COMO MODELO PARA OS RELACIONAMENTOS INTERNOS DA LIDERANÇA NA IGREJA LOCAL MARCELO DIAS 9. AO QUE DEUS NOS CHAMA? TEOLOGIA DA PROSPERIDADE À LUZ DA DOUTRINA DA TRINDADE GARY WAYNE PARKER 10. SEPARANDO AS OVELHAS DAS CABRAS: COMO LIDAR COM OS PENTECOSTAIS “JESUS SÓ” (UNICISTAS)? ARI LANGRAFE JR. 11. O PORQUÊ DAS MISSÕES: COMO A TRINDADE INFORMA A MISSÃO? ERIOMAR HELDIR DE FREITAS MAIA 12. A PERSPECTIVA TRINITÁRIA: UMA APOLOGÉTICA AO VAZIO DO HUMANISMO SECULAR ARTHUR VINICIUS GOTTLIEB LUPION 13. A TRINDADE E ALÁ: DESAFIOS NO DIÁLOGO CRISTÃO COM OS MUÇULMANOS PAULO C. SANT’ANNA E JOSH MILANO 14. OS CREDOS TRINITÁRIOS E O PENSAMENTO CERTO: COMO OS CREDOS PODEM FUNCIONAR NA IGREJA CÉSAR ORLANDO MENDOZA RAMÍREZ 15. AMAR MELHOR: APROFUNDANDO A ADORAÇÃO AO DEUS PAI, DEUS FILHO E DEUS ESPÍRITO SANTO CIDRAC FERREIRA FONTES OBSERVAÇÕES FINAIS J. SCOTT HORRELL E MURILO R. MELO NOTAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE DE REFERÊNCIAS BÍBLICAS COLABORADORES Ari Langrafe Junior é pastor da Igreja Batista Calvário, em Pinhais/PR. Graduou-se em ciências biológicas na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e é mestre e doutorando em fisiologia pela mesma universidade. Estuda resposta ao estresse e burnout laboral e atualmente faz parte da equipe de cientistas do laboratório de fisiologia da mente na UFPR. Em seus estudos teológicos, fez a graduação pelo Seminário Batista Regular do Sul e é mestre em exegese e exposição do Antigo Testamento pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida. Está terminando o doutorado em ministério pelo Dallas Theological Seminary. É casado com Carolyn e tem quatro filhos. Arthur Vinicius Gottlieb Lupion é diretor da TeachBeyond Uruguay, com sede em Ecilda Paullier, Uruguai. Também é coordenador acadêmico do FOCO, movimento de apoio e formação contínua de pastores gaúchos. Formado em administração de empresas pelo Centro Universitário Internacional e em teologia pelo Seminário Teológico de Gramado. Pós-graduado em administração de empresas pela Faculdade Getúlio Vargas, mestre em ministérios formativos pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e doutorando em Leadership Studies pelo Dallas Theological Seminary. É casado e pai de um filho. Carlos Felipe Oliveira do Nascimento, o “Café”, é pastor na Igreja Batista do Itaim, na Grande São Paulo, e professor de teologia. É graduado em comunicação social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing e em teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida. É mestre em liderança pastoral pela Faculdade Teológica Sul-Americana e em pregação pelo Mackenzie/Andrew Jumper. Atualmente, faz doutorado em Leadership Studies, no Dallas Theological Seminary. César Orlando Mendoza Ramírez é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Rio Pequeno, na cidade de São Paulo. Trabalhou na plantação de igrejas em Passo Fundo/RS. Bacharel em teologia pelo Seminário Teológico de São Paulo, pós-graduado em plantação e revitalização de igrejas pelo Seminário do Sul de Campinas, mestre em divindade pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary. É casado e pai de duas filhas. Cidrac Ferreira Fontes é pastor da Assembleia de Deus (ES) há 23 anos. Formado em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Espírito Santo, concluiu seu mestrado em teologia e exposição bíblica no Seminário Bíblico Palavra da Vida e é doutorando em ministério no Dallas Theological Seminary. Leciona grego e Novo Testamento em seminários do Espírito Santo. Casado com Tânia Fontes desde 1990. Creuse Pereira Sousa Santos é pastor da Primeira Igreja Batista em Barueri, na Grande São Paulo, há dez anos. Professor do Seminário Bíblico Palavra da Vida na área de Antigo Testamento e ministério pastoral. Professor convidado no Seminário Batista de Cuba Oriental. Doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary. Bacharel em teologia com ênfase pastoral e mestre em exposição do Antigo Testamento pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida, bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e pós-graduado em aconselhamento bíblico pelo Núcleo de Treinamento e Recursos em Aconselhamento. Casado e pai de dois filhos. Eriomar Heldir de Freitas Maia é missionário da Brazil Gospel Fellowship Mission (BGFM) no nordeste do Brasil, em Aracaju/SE. Bacharel em ciências pastorais pelo Seminário e Instituto Bíblico Maranata (SIBIMA), mestre em ministério pastoral pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e doutorando em ministério com ênfase em liderança no Dallas Theological Seminary. Serviu à igreja brasileira como pastor por 20 anos. É professor convidado para lecionar e treinar líderes no Brasil e em Moçambique e convidado para conferências sobre missões e membro da diretoria- executiva da BGFM do Brasil. É casado com Daniele Maia desde 1995, com quem tem dois filhos. Gary Wayne Parker é cofundador e atual diretor regional do Palavra da Vida Norte, onde tem servido por mais de 25 anos como professor e conferencista. Bacharel em teologia pelo Calvary Bible College em Kansas City, Missouri, mestre em aconselhamento bíblico pelo Master’s College, Santa Clarita, Califórnia, e doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary. Casado, tem três filhos. Ivis Costa Fernandes é pastor de educação e grupos pequenos na Segunda Igreja Batista de Macaé/RJ e professor no Curso de Aperfeiçoamento Teológico Legado. Graduado e pós-graduado em direito pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, bacharel em teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida, pós-graduado em aconselhamento pelo Southeastern Baptist Theological Seminary, mestre em aconselhamento pelo Centro Presbiteriano de Pós- Graduação Andrew Jumper e doutorando no Dallas Theological Seminary. Casado, tem três filhos e dois netos. J. Scott Horrell é professor de estudos teológicos no Dallas Theological Seminary. Formado na Seattle Pacific University, Dallas Theological Seminary (Th.M., Th.D.), Visiting Scholar no Tyndale House, Cambridge. Missionário com WorldTeam (Aliança Bíblica) em Porto Alegre e São Paulo por 18 anos, pastor, titular da teologia e coordenador do mestrado na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, professor no Seminário Teológico Servo de Cristo, no Seminário Bíblico Palavra da Vida e em várias escolas pelo mundo. Autor de vários livros e artigos. Casado com Ruth, tem duas filhas e oito netos. Josh Milano é um jovem paulista, casado desde 2015 e formado no Seminário Bíblico Palavra da Vida. Desde os 15 anos de idade, seu desejoé viver a vida de Cristo entre os povos não alcançados. Ele serviu à Missão Evangélica Árabe do Brasil (MEAB) atuando no treinamento de pessoas que compartilham Jesus com muçulmanos. Ele e sua esposa estão indo morar na Ásia, em um país de difícil acesso ao evangelho. Libnis Nascimento da Silva é missionário da Brazil Gospel Fellowship Mission (BGFM) no nordeste do Brasil, em Maceió/AL, onde também é pastor na Igreja Bíblica Batista Esperança. Bacharel em teologia com ênfase em educação cristã e bacharel em teologia com ênfase em ciências pastorais pelo Seminário e Instituto Bíblico Maranata (SIBIMA), pós-graduado em teologia bíblia (M.A.) pela mesma instituição e mestrando em ministério pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida. É professor do SIBIMA desde 2013. Cursa atualmente o doutorado em ministério pelo Dallas Theological Seminary. Casado com Anelyse, tem três filhos. Marcelo Dias é bacharel em teologia (curso livre) pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida, bacharel em teologia também pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, mestre em teologia e exposição bíblica (Th.M.) com ênfase no Novo Testamento pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary. Missionário da Organização Palavra da Vida desde 2004, onde atua como professor de métodos de estudo bíblico, teologia bíblica do Novo Testamento, grego e exegese do Novo Testamento. É casado com Ana e tem uma filha. Murilo Rezende Melo é mestre em teologia pelo Dallas Theological Seminary com elevada distinção, onde cursa Ph.D. em teologia, além de médico patologista clínico, com doutorado pela Santa Casa de São Paulo. Professor-visitante do Centro para Desenvolvimento de Lideranças (CDL) em Moçambique e assistente de ensino em trinitarianismo no Dallas Theological Seminary. Lecionou medicina molecular por dez anos na Faculdade de Ciências Médicas de São Paulo, tendo sido diretor de várias entidades médicas e publicado mais de 60 trabalhos na área. Casado com Keli e pai de dois filhos. Paulo César Sant’Anna é coordenador da especialização de aconselhamento bíblico no Seminário Bíblico Palavra da Vida (SBPV), em Atibaia/SP. É bacharel em teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida, mestre em divindade em aconselhamento bíblico pelo Southeastern Baptist Theological Seminary em Wake Forest, Carolina do Norte, e doutorando em ministério pelo Dallas Theological Seminary. Missionário da Organização Palavra da Vida desde 1990, coordena o programa de alunos casados do SBPV e leciona aulas de aconselhamento, ética pessoal e lar cristão. Casado, tem dois filhos. Winnetou Kepler é pastor da Igreja Evangélica Livre Comunidade Bom Pastor, em Sorocaba/SP, desde 2004, igreja onde iniciou o seu ministério pastoral. É bacharel em teologia com ênfase em educação cristã e mestre em ministério, ambos pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida, em Atibaia/SP. Fez convalidação do bacharelado em teologia pela Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina/PR. Cursa atualmente o doutorado em ministério pelo Dallas Theological Seminary. É casado com Noemi. INTRODUÇÃO Tarde demais eu te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! E eis que tu estavas dentro de mim, enquanto eu estava fora; era lá fora que te procurava. Criatura deformada, mergulhei de cabeça nesses objetos de beleza que tu criaste. Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo. Elas me detiveram longe de ti, essas coisas belas que, se não estivessem em ti, simplesmente não existiriam.1 Como cristãos, cremos e proclamamos que o Deus da Bíblia é a Santa Trindade – um só Deus em três pessoas: o Pai, o Filho, e o Espírito Santo. Mas para a maioria, incluindo nós evangélicos, a doutrina da Trindade parece abstrata, mística, tradicional, pouco viva e ainda menos prática. Líderes, obreiros e até mesmo pastores têm às vezes dúvidas e escondem suas próprias incertezas. Suspeitamos de que nossa confissão trinitária pública não seja bem firmada, nem nas Escrituras nem em nossos corações. Contudo, as nossas dúvidas e incertezas não necessariamente significam descrença ou negação. Declaramos que Deus, o Deus trino, é o absoluto de toda a existência. Pela vontade do Pai, a atuação do Verbo e o poder vivificador do Espírito, tudo foi criado e tudo é sustentado. Mas não sabemos como a doutrina da Trindade informa o nosso viver. Os cânticos e as orações dos nossos cultos têm o fim de adorar esse Deus, mas raramente juntamos a confissão trinitária – esta pedra angular da fé histórica – com a maneira que entendemos o resto da vida cristã e o mundo ao nosso redor. Pouco depois de escrever sua autobiografia, as Confissões, em 397 d.C., Agostinho começou o que ele pretendia ser a obra mais importante da sua vida, A Trindade. Sofrendo interrupções, levou mais de 20 anos para completar o trabalho que muitos esperavam. O livro virou o tratamento mais conhecido sobre a doutrina da Trindade em toda a história cristã. Embora tivesse uma mãe crente (Mônica), o inteligente jovem Agostinho havia enveredado por uma vida decadente, e por 15 anos vivia com uma amante e um filho. Durante esse tempo, ele ensinou filosofia em Cartago, Roma e finalmente Milão, quando, sob a influência do famoso pregador Ambrósio, foi dramaticamente convertido. Agostinho não esperava achar a verdade na igreja. A transparência dele nas Confissões foi chocante para os leitores, não por causa de detalhes vívidos, mas devido à profunda honestidade quanto a seus motivos, sua hipocrisia e depravação. Como vemos na citação acima, todas as belezas da vida que o jovem Agostinho buscava, e que não conseguiam satisfazê-lo, foram criadas pela Suprema Beleza. “Fora de si mesmo”, Agostinho procurava o belo nos prazeres da criação, mas sem o Criador. Sem Deus, no entanto, nenhuma coisa bela ou agradável viria a existir. Descobriu, pela graça soberana, que somente em Deus, o Deus trino, há a chave e a estrutura da vida. O Senhor Deus deseja que nós o amemos e o honremos, mas também que possamos descobrir que nele há tudo o mais. O belo, o bem e o verdadeiro estão no Deus trino. Eu (Murilo) passei por experiência semelhante. Já um médico, sem conhecer a Deus, tentei me encher com os prazeres carnais. Depois de um dia extravagante, “perfeito” aos olhos de um jovem sem Deus, senti o maior vazio da minha vida. Se aquilo era tudo o que a vida podia oferecer, viver não fazia sentido. O gosto do cano daquele .38 me vem à mente. Poucos meses depois, por meio de uma moça linda e firme na fé, que queria honrar a Deus, comecei a ler a Bíblia – para achar algum “furo” nas Escrituras que me permitisse um namoro “normal”. Mas Deus tinha outros planos. Ao ler o primeiro livro que me propus, o evangelho de João, senti como se Deus me convidasse a dar um passo de fé sobre o abismo invisível, como no filme Indiana Jones e a Última Cruzada. Em lágrimas, sozinho, me coloquei de joelhos diante do Deus que busca o perdido e entreguei minha vida a ele. Tudo na minha vida mudou. Alguns meses depois, casei-me com ela, Keli, que me encoraja há 20 anos. Este livro é uma coletânea de ensaios sobre o significado da confissão trinitária para as nossas vidas, nossas igrejas e a vida ao nosso redor. John Stott definiu a teologia sistemática como “a busca séria pelo verdadeiro conhecimento de Deus, realizada em resposta à sua autorrevelação firmada nas Escrituras, iluminada pela tradição cristã, manifestando uma coerência racional interna, se desdobrando em conduta ética, ressonando com o mundo contemporâneo e preocupada em promover a glória de Deus”.2 Nosso livro não é uma teologia sistemática formal. Mas, aproveitando vários métodos, os ensaios se esforçam para aplicar verdades bíblico-históricas sobre a Trindade no contexto brasileiro, tudo para a glória do Senhor. O propósito do livro é: a doutrina da Trindade (base fundamental da fé cristã) nos orienta em diversos aspectosda vida, seja como seres humanos ao nível do indivíduo ou da igreja local, seja como jovens, casais e família, ou na missão de alcançar não cristãos. A Trindade se define da seguinte forma: o único e verdadeiro Deus eternamente existe em três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –, um na sua essência, iguais na sua glória e distintas nas suas relações. Os autores são pastores, professores e missionários brasileiros, quase todos cursando o doutorado. A maioria representa uma nova geração de pensadores no Brasil, junto com uma nova onda de mestres e alunos amadurecendo na fé evangélica. Um alvo do livro é incentivar outros para continuarem seus estudos teológicos no Brasil ou em qualquer lugar. Nem tudo ao nível de pós- graduação é abstrato e irrelevante à vida ministerial. Ao contrário, aprofundar-se na riqueza dos estudos clássicos e modernos realmente abre portas para ministrar melhor em quaisquer que sejam as circunstâncias. C. S. Lewis insistiu em que o verdadeiro erudito é a pessoa capaz de explicar as coisas complicadas de forma simples para que até uma criança possa entender. Por outro lado, admitimos que a doutrina da Trindade é um mistério, baseada na Bíblia sim, mas além da nossa compreensão completa – o Infinito diante do finito. O Credo de Niceia (325 d.C.), ou tecnicamente o Credo Niceno- Constantinopolitano (381 d.C.), é o quadro (ou caixa) que define a Trindade. As doutrinas fora do quadro são subtrinitárias, histórica e justamente rejeitadas (veja os capítulos sobre os unicistas e muçulmanos). Mas dentro da caixa de Niceia, pela longa história do cristianismo, há perspectivas que complementam umas às outras. Algumas perspectivas valorizam mais a unidade da essência, com as três pessoas denominadas “subsistências” (a perspectiva psicológica). Outras abordam mais os relacionamentos das três pessoas e confessam também a unidade da essência divina ou como procedência do Pai (a perspectiva relacional). Dentro do quadro de Niceia, as duas perspectivas complementam uma à outra – refletidas nas diversas analogias de Agostinho em A Trindade. Especialmente relevante para nós no século XXI, nosso volume aprecia mais a perspectiva relacional, porém sempre na unidade essencial do Credo Niceno. Os ensaios aqui são acessíveis, abordando princípios do Deus trino para a vida cristã. Começamos com a base bíblica que levou a igreja primitiva à articulação da doutrina de três pessoas numa substância. Qual é o perfil de uma cosmovisão trinitária? O que significa sermos criados na imago dei? Por que a Trindade é tão importante na compreensão do evangelho – até para os novos na fé? Como a Trindade reorienta jovens nas áreas de autoconceito, relacionamentos mútuos, intimidade e até sexo? A Trindade pode sugerir princípios para casamento e famílias? Como a doutrina da Trindade nos ajuda a apreciar a unidade e a diversidade no corpo de Cristo? E quanto à igreja local? Como a Trindade serve como modelo para relacionamentos em nossas congregações e até na liderança? Avaliaremos a teologia da prosperidade à luz da Trindade. Perguntamos: como lidar com a doutrina de Jesus Só (unicistas)? Por que a Trindade é a base das missões? E os muçulmanos? Quais são os passos para explicar a divindade de Jesus Cristo e a Trindade para os que dizem que isso é a pior das blasfêmias? Como a doutrina da Trindade serve como apologética ao vazio do humanismo? Qual é o valor dos credos da igreja primitiva para a igreja evangélica brasileira? E como o entendimento da Trindade pode orientar e enriquecer a adoração, seja na igreja ou ao nível individual? Reconhecemos que, em um livro relativamente básico com ensaios curtos, não podemos apresentar os vários lados de cada questão. Cada capítulo representa apenas a posição do seu autor, e como editores demos a liberdade para que cada colaborador expressasse sua posição desde que dentro dos parâmetros de Niceia. Apresentamos as ideias para diálogo como sugestões da fonte abundante da Santa Trindade. Em tudo, e com todos, queremos exaltar o nosso Senhor – Deus Pai, Filho e Espírito Santo. J. Scott Horrell e Murilo R. Melo CAPÍTULO 1 BASE FIRME: A TRINDADE A PARTIR DAS ESCRITURAS J . SCOTT HORRELL Muitas vezes, ouvimos que a palavra Trindade não faz parte da Bíblia. As Testemunhas de Jeová, mórmons e Pentecostais do Nome de Jesus (“Só Jesus” ou Unicistas) reclamam que o conceito histórico da Trindade não vem das Escrituras e sugerem até que a ideia vem de religiões pagãs, da filosofia grega ou mesmo de Satanás. Ao longo da história da igreja, há dissidentes que negaram as conclusões dos pais da igreja, proclamando de uma forma ou de outra que Jesus não era Deus, mas apenas um profeta cheio da presença de Deus, ou uma manifestação de Deus. Os muçulmanos e os hindus dizem o mesmo. Formando de uma universidade em Seattle, eu também estava com muitas perguntas e poucas respostas sobre a doutrina da Trindade. Eu era até pastor interino de uma igreja evangélica. Entretanto, fiquei perguntando de onde veio essa doutrina. Sei que é preciso que eu creia, mas por quê? Naquela época, não havia muitos recursos para pesquisar, além de tomos enormes de teologia sistemática. E, muitas vezes, até estes discutiam de forma prolongada os conflitos no desenvolvimento histórico. Mas e as Escrituras? Eu queria saber: qual é a base bíblica? Será que posso confiar nesta doutrina da Trindade? Embora o nosso sumário seja abreviado, apresentamos aqui os textos bíblicos que me convenceram no início e, mais importante, convenceram os pais da igreja primitiva e milhões de adeptos desde então. A revelação de Deus não é simplista, não é matemática infantil. A revelação de Jesus como Deus confundiu o monoteísmo judaico, berço da fé cristã – pois não é como um segundo Deus, e também não é idêntico ao Pai na sua pessoa. Depois, entrou o Espírito Santo em plena força pessoal no Pentecostes. No Novo Testamento, embora com palavras e ordem diferentes, as três pessoas da Trindade se acham juntas em pelo menos 133 passagens (inteiras). Achamos duas pessoas no mesmo versículo quase mil vezes. Desde o início, a igreja “vivia” a Trindade, quer dizer, a igreja primitiva era trinitária na sua experiência, mas não tinha as categorias conceituais para articular o que estava vivendo. Contudo, a igreja cada vez mais obedeceu ao mandato de Jesus de ir, discipular, ensinar e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. TRAÇOS DA TRINDADE NO ANTIGO TESTAMENTO O lema do judaísmo é o grande shema’: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). O Criador, o Deus de Israel, é “um”, “nenhum outro há” (4.39). Vista quase mil vezes (960) na Bíblia hebraica, a palavra “um” ou “único” (echad) vem da raiz que significa uma unidade composta. Na verdade, “um” é usado de forma parecida com o português, isto é, em vários sentidos. Geralmente indica um só, mas outras vezes fala de uma união, assim como Adão e Eva “tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.24; semelhante uso no grego, Mt 19.6). Todos os cristãos confessam um só Deus, mas isso não exclui um Deus de ampla riqueza pessoal em si. Ao mesmo tempo, “antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá” (Is 43.10; cf. 42.8). É interessante que das três palavras centrais e mais usadas para Deus no hebraico – Yahvé (“SENHOR”), ’Elohim (’ělōhîm, “Deus”) e Adonai (ādônāy, “Senhor”) – as últimas duas têm a forma plural. Esses plurais de majestade ou intensidade são usados para exaltar a grandeza do infinito Senhor, semelhante a quase 100 outras palavras hebraicas plurais. Com verbos e modificadores singulares, não indicam uma pluralidade de deuses. Como cristãos, somos sim monoteístas, mas não afirmamos necessariamente um monoteísmo monopessoal. Se Deus é Trindade, conforme a revelação em Jesus Cristo no Novo Testamento, esperamos algumas evidências no Antigo Testamento. Por exemplo, quase todosos pais da igreja interpretaram Gênesis 1.26-27 como a Trindade: “... disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Embora haja várias interpretações do texto, o erudito judeu Umberto Cassuto argumentou contra a ideia de que Deus estava falando com anjos ou com um concílio divino. Ao contrário, o verbo exortativo e os pronomes nós e nosso indicam uma ação dentro do ser divino.3 Mais tarde, vemos outros pronomes divinos em passagens-chave na história da salvação e com implicações sobre o próprio Deus (Gn 3.22; 11.7; Is 6.8). No Antigo Testamento, vemos agentes de Deus que ficam ao lado do Senhor, mas também são tidos como seres divinos ou até como o próprio Deus. Por exemplo, geralmente o Espírito (ruach) do Senhor é visto como uma força ou ação, o dedo de Deus (Gn 1.2), mas outras vezes o Espírito aparece como o mesmo Eu Sou (Is 40.13-14), ou, ainda outras vezes, como um agente divino instruindo (Ne 9.20), guiando (Sl 143.10), ou alguém que pode se entristecer devido ao pecado (Is 63.10). Vemos a mesma ambiguidade nas passagens sobre a Palavra do Senhor (Gn 1.3; Sl 33.6; Is 55.11), a Sabedoria do Senhor (Pv 8.22-31) e o Anjo do Senhor (Êx 3.2-15; Zc 3.1-6). Geralmente, o Messias é visto como o Filho prometido de Davi, mas ele também é o “Deus Forte” (Is 9.6; cf. 10.21) e o “Filho do Homem” celestial (Dn 7.13-14) recebendo honra, glória e um domínio eterno. No período intertestamentário e no tempo de Jesus, conforme o respeitado doutor rabínico Daniel Boyarin, houve várias ideias sobre o Messias, incluindo a possibilidade de que o Messias seja Deus ou até um Deus-homem.4 Com tudo isso, muitas vezes vemos Deus distinto de Deus. Em Isaías 48.12-16, o Senhor declara que ele fundou a terra e estendeu os céus, e que desde o princípio ele não falou em segredo, e “agora o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito”. Mas é o Senhor quem está falando! Em Zacarias 12, o Senhor Deus fala novamente da sua criação do céu e da terra e como muitas nações vieram contra Jerusalém: “E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e o prantearão como quem pranteia por um unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito” (12.10, ARC). Como é que Israel traspassou (lit. feriu) Deus? As palavras “unigênito” e “primogênito” neste texto descrevem o Filho de Deus no Novo Testamento (cf. Jo 19.37; Ap 1.7). Enfim, muitos textos que descrevem o Senhor no Antigo Testamento se aplicam a Jesus Cristo no Novo.5 Então, o que diremos? Que o Antigo Testamento prova a doutrina da Trindade? Claro que não. Mas as peças estavam em seu lugar para a nova revelação em Jesus Cristo.6 JESUS CRISTO É DEUS Pessoas reclamam que Jesus nunca se declarou Deus. Realmente não é verdade. Mas, vamos supor por um momento que Jesus começa seu ministério se proclamando como o Deus todo-poderoso e fazendo milagres tão espetaculares que ninguém poderia negar. Ninguém. Os inimigos seriam eliminados. Todos teriam que crer. Que tipo de religião seria essa? O que significaria crer, confiar, ter fé em Jesus como o Filho de Deus? Há uma sabedoria profunda na maneira que Deus se revelou em Jesus. Todos foram convidados a confiar. Mas poucos o seguiram. Dos dois ladrões crucificados ao lado de Jesus, um confiou, o outro não. As mulheres creram, muitos líderes religiosos não. De uma certa forma, todos são convidados, mas ninguém vem ao Filho senão pelo Pai e pelo Espírito (Jo 6.44; Mt 12.31-32). Ouvindo o evangelho, Friedrich Nietzsche disse não, mas C. S. Lewis, sim. A sabedoria e a graça do Senhor espantam. Quando Jesus se definiu como Deus, ele estava, em cada ocasião, em debate com as pessoas que já queriam matá-lo e que repetidamente tentaram fazê-lo: “Antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8.58; cf. 5.17-18) e “Eu e o Pai somos um” (10.30). Perante as acusações no Sinédrio, Jesus guardou silêncio até que finalmente o sumo sacerdote disse: “Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Jesus respondeu: “Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.63-64). Jesus assumiu os dois títulos, o Filho de Deus e o Filho do Homem (Dn 7.13), elevando ao máximo o sentido de cada um e se declarando o prometido Messias divino diante de quem todos vão se ajoelhar e adorar. O Sinédrio ficou furioso e deflagrou a crucificação do Salvador. Depois da ressurreição, Jesus esclareceu a verdadeira estrutura trinitária do Sagrado Nome, “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19), e aceitou ser adorado como Deus (Mt 28.9; Lc 24.52; Jo 20.28; cf. Mt 14.33). O Novo Testamento apresenta várias altas cristologias, declarações inegáveis que Jesus Cristo é Deus. A mais famosa é o prólogo de João – “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” – que quer dizer que o Deus Filho estava com Deus Pai em comunhão e, ao mesmo tempo, que toda a natureza divina do Pai pertence ao Filho. Por meio do Filho, todas as coisas foram criadas, “e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). Assim, o Filho não é uma criação. O Filho é “o Deus unigênito, que está no seio do Pai, [e] é quem o revelou” (lit. 1.18). Aqui vemos o início do conceito da geração eterna do Filho,7 como diz o Credo Niceno- Constantinopolitano (325/381 d.C.): “Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por ele todas as coisas foram feitas”.8 Em Colossenses 1.15-19, vemos de novo que toda a criação é criada e sustentada pelo Filho – o herdeiro (“primogênito”) de toda a criação. “Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” (1.16-17). De novo, em 2.9, Paulo se repete: “Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (theotes significa a natureza divina). Mais uma alta cristologia, Hebreus 1.2-3 declara que o Filho é “herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”. Todo o primeiro capítulo de Hebreus revela a divindade do Filho de Deus, e os capítulos 2-9 refletem a profundeza e o propósito da sua natureza humana; Cristo assumiu nossa humanidade, sem pecado. Essas passagens revelam as duas naturezas de Cristo (“a união hipostática”, cf. Fp 2.5-11). Como o ser humano perfeito, Jesus Cristo morreu como nosso substituto, e, como Deus, o valor da sua morte é infinito para todos que creem. Quanto mais estudamos as Escrituras, mais vemos evidências por todos os lados da profunda divindade de Cristo. Ele não foi adotado por Deus Pai como um jovem de Nazaré. Ele não foi criado, nem como o primeiro que criou tudo mais. E o Filho não é uma máscara ou apenas uma manifestação de uma pessoa divina (i.e., uma pessoa que aparece em três modos). Jesus Cristo é Deus como Deus Pai, sem confundir as pessoas e sem separar a essência divina. Por isso, como os discípulos quando ele acalmou o mar e como o cego que passou a ver, também nos dobramos diante dele para adorá-lo.9 O ESPÍRITO SANTO É DEUS Desde o início, a igreja primitiva entendia que Jesus é Deus, mas o lugar do Espírito Santo não foi tão claro. À primeira vista, parece que há uma falta de evidência para afirmar o Espírito, não tanto como Deus, mas como uma pessoa distinta da Trindade. Relembramos que o desejo do Espírito é de revelar e glorificar o Filho e o Pai. E sua atuação é mais subjetiva, como o vento ou a ação divina. No Antigo Testamento, a palavra “espírito” (ruach em hebraico) aparece 389 vezes como vento, respiração, alma, espíritoou o Espírito de Deus (c. 100 vezes). No Novo Testamento, a palavra grega pneuma ocorre 379 vezes, com cerca de 275 se referindo ao Espírito; o termo “Espírito Santo” ocorre 92 vezes. Como foi mencionado, o Pai, o Filho e o Espírito aparecem juntos em 133 passagens do Novo Testamento,10 e cada vez com papéis relativamente definidos. Mas será que o Espírito é Deus, igual ao Pai e o Filho? Que o Espírito é Deus vemos não apenas na fórmula do batismo (Mt 28.19), mas também quando, em Atos 5.3-9, o apóstolo Pedro acusou Ananias de mentir contra o Espírito Santo, contra Deus – e logo veio o julgamento também contra sua esposa Safira por “tentar o Espírito do Senhor”. Em 2Coríntios, Paulo escreveu: “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (3.17), e de novo “como pelo Senhor, o Espírito” (3.18).11 Assim, o Espírito Santo também é Deus. A meu ver, a passagem mais forte sobre a divindade pessoal do Espírito Santo é o relato de quando Jesus curou um homem endemoninhado, cego e mudo, e os fariseus murmuraram que o poder de Jesus era o de Belzebu (Mt 12.22-32). Jesus declarou a eles: “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (v. 31-32). O que estamos vendo aqui? Qualquer blasfêmia contra Deus, o Deus Pai, pode ser perdoada. Qualquer blasfêmia contra o Filho (o Filho do Homem, Filho de Deus) também pode ser perdoada. Mas contra o Espírito Santo jamais seria perdoada! À parte da questão sobre o que constitui a blasfêmia contra o Espírito, Jesus eleva o Espírito ao nível de Deus como pessoa – distinto do Pai e do Filho e igual na sua divindade. Pois no fim, é o Espírito Santo que atua como Deus no mundo, capacitando o arrependimento e a fé salvífica no pecador. Numa pesquisa de evangélicos nos Estados Unidos, a grande maioria afirmou a doutrina da Trindade, mas 59% responderam que o Espírito é uma força, não uma pessoa.12 Além do que temos visto, quais são as evidências da pessoalidade do Espírito Santo? Primeiro, vemos que o Espírito demonstra inteligência. Como o Espírito da verdade, ele conhece, transmite e inspira em palavras as verdades de Deus (Jo 14.17; 1Co 2.10-13). Segundo, o Espírito manifesta sua própria vontade, guiando a igreja primitiva e dando dons conforme sua vontade (At 8.29; 9.31; 13.2; 15.28; 16.6-7; Rm 8.14; 1Co 12.8,11); observamos que o Espírito fala como “eu” e “mim”. O Espírito também manifesta emoções. Podemos entristecê-lo e insultá-lo (Ef 4.30; Hb 10.29); o nosso pecado não entristece uma força nem a policia, mas sim alguém que nos ama. Ele é o Advogado, o “outro Consolador” (um do mesmo tipo do Filho; 1Jo 2.1); ele intercede por nós (Jo 14.16,26; 15.26; 16.7; Rm 8.26). Além disso, o Espírito Santo é o testemunho vivo e a própria presença de Deus em nós, que somos filhos de Deus (Jo 14.16-17,26; 15.26; Rm 8.14-16; 1Jo 3.9). Contudo, a evidência mais forte da divindade pessoal do Espírito Santo é indireta. Ele tem todos os atributos de Deus. Ele faz as obras divinas, mesmo em conjunto com o Pai e o Filho. Com 40 títulos, o Espírito é chamado o Espírito do Senhor, do Pai, do Filho, de Cristo, de Jesus, da graça, da vida, da verdade e da glória, mas tem sua distinção pessoal. A TRINDADE NO NOVO TESTAMENTO Como é que as três pessoas se relacionam? Realmente, isso é a questão-chave no mistério da Santa Trindade como um só Deus. O evangelho de João apresenta alguns traços que podem nos orientar. Primeiro, o Filho e o Espírito estavam com Deus e foram enviados ao mundo.13 Jesus vê e ouve o Pai; o Espírito ouve e fala do que ele recebe do Pai e do Filho. A linguagem da Bíblia (ver, ouvir, imitar, fazer) implica relações excepcionalmente pessoais. Segundo, as pessoas divinas conhecem e testificam cada uma da outra.14 O Pai conhece o Filho, e o Filho o Pai; o Espírito o Pai, e o Pai o Espírito etc. O Deus Filho unigênito “que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). No batismo, o Pai anunciou que Jesus é seu Filho e o Espírito desceu e pousou sobre ele como uma pomba. Há conhecimento mútuo e infinito, e eles testificam um do outro. Terceiro, cada pessoa mostra vontade, um querer distinto, em relação ao outro.15 Por um lado, há singularidade da vontade e ação divina no mundo. Por outro, a comunhão divina não é automática ou mera aparência de um Deus monopessoal. O Pai, o Filho e o Espírito operam mútua e intencionalmente no mundo e em relação um com o outro. “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir” (Jo 10.17). As relações divinas vistas na vida de Jesus implicam alguma realidade eterna do relacionamento entre o Pai e o Filho. Quarto, cada pessoa da Trindade reflete o amor (a autodoação) para a outra. O Pai ama o Filho (Jo 3.35; 5.20; 15.9; 17.23-24,26) e o Filho o Pai (14.31). Jesus falou: “Eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29) e “Como o Pai me amou, também eu vos amei” (Jo 15.9). O verbo agapao (aparece 37 vezes em João) e o substantivo agape (7 vezes) significam um amor sacrificial por uma outra pessoa. A linda realidade é que o Pai se deleita no Filho e o glorifica (Jo 8.50,54; 13.32; 17.1,5), o Filho se deleita no Pai e o glorifica (Jo 13.31-32; 14.13; 17.1,4) e o Espírito se deleita em glorificar o Filho (Jo 16.14) e o Pai. O Pai entrega todas as coisas ao Filho (Jo 3.35), e o Filho devolve todas as coisas ao Pai (1Co 15.28). Quinto, cada pessoa habita mutuamente na outra (grego, pericorese) sem ofuscar ou confundir cada pessoa em si. Várias vezes Jesus testificou que “o Pai está em mim, e eu estou no Pai” (Jo 10.38; 14.7-11; 17.11,21,23). Também o Espírito estava em Jesus (Jo 4.10-14; 7.37-39; 20.22) e Jesus está no Espírito (At 16.7; Rm 8.9; Gl 4.6; 1Pe 1.11). Nisso vemos uma doutrina profunda com amplas implicações, inclusive sobre o nosso próprio ser humano (imagem de Deus), em sermos feitos para estarmos habitados por Deus. Sexto, o Filho e o Espírito vêm do Pai. O padrão joanino mostra a preeminência do Pai na ordem divina. O Filho e o Espírito vêm do Pai. Os pais da igreja aproveitaram a ideia do Filho como o unigênito, então gerado do Pai (gerado, e não criado) fora do tempo. O Pai sempre é Pai do Filho, que sempre é Filho. E o Espírito procede do Pai (Jo 3.34; 15.26; 16.7-13). Essa ordem (grego, taxis), nas palavras de D. A. Carson, “é claramente persistente, unidirecional, sem exceção, e não pode ser negada”.16 O Filho é exaltado e corregente do reino eterno (cf. Ap 22.1-6), mas a ordem não se reverte. A Trindade não é democracia, mas é, de certa forma, comunidade divina, com cada pessoa fazendo o que convém e expressando a sua disposição distinta dentro do ser divino. CONCLUSÃO Então, a fé da igreja cristã afirma que a doutrina da Trindade é bíblica: o único e verdadeiro Deus existe eternamente em três pessoas – no Pai, no Filho e no Espírito Santo –, sendo um na sua essência divina (não há três deuses), iguais na sua glória (porque a glória é compartilhada) e cada pessoa distinta das outras em suas relações (de origem, sendo o Filho gerado e o Espírito procedido). O Credo Apostólico já estava na sua forma rudimentar em 150 d.C., Atenágoras descreveu Deus como “um em poder e três em distinção de ordem” (177 d.C.),17 Teófilo de Antioquia (c. 180 d.C.) elaborou Deus como trias (grego) e logo depois Tertuliano definiu Deus, em latim, como trinitas, tres personae et una substantia (c. 210 d.C.).18 Irineu foi muito claro que esta fé comum, esta confissão unânime, foi espalhada por todo o mundo, até os confins da terra: “As línguas do mundo podem ser diferentes, mas a mensagem da tradição é uma e a mesma”,19 qual seja, a do Pai Todo-Poderoso, do Filho encarnado por nós e do Espírito Santo (190 d.C.).20 Os esclarecimentoscontra o modalismo e mais tarde o arianismo iriam levar tempo, mas os fundamentos da doutrina da Trindade estavam firmes. Para mim, quando o testemunho da própria Bíblia ficou mais claro, senti uma plenitude da presença do Senhor como nunca na minha vida. Se o absoluto do universo é o Deus tripessoal, então a criação ganha novo significado. Foi como acender a luz e ver que tudo faz sentido. PARA REFLEXÃO 1. Por que é importante ver traços da doutrina da Trindade no Antigo Testamento? Quais são as três evidências do Deus trino no Antigo Testamento? 2. Por que Jesus não foi mais direto sobre sua divindade? Se fosse assim, como seria a chamada “fé cristã”? Ninguém entendia bem o título que ele assumiu (80 vezes nos Evangelhos): o Filho do Homem. Quais são as implicações desse título? 3. O Espírito é uma pessoa? Conte a relevância dessa afirmação para a sua vida. Você acha que podemos adorar o Espírito? Orar ao Espírito? Por quê? Quais são as bases bíblicas para suas respostas? 4. Como as três pessoas da Trindade se relacionam no evangelho de João? Nestes relacionamentos trinitários, existem alguns exemplos para nós? O que isso significa? Há cautelas também? CAPÍTULO 2 PENSAR DE TUDO UMA COSMOVISÃO TRINITÁRIA MURILO R. MELO A sabedoria é uma das mais importantes virtudes que precisamos cultivar como cristãos (Pv 4). Como vimos no capítulo anterior, Jesus é chamado de sabedoria (sophia) de Deus (Pv 8.22-31; 1Co 1.22-25). Mas, o que é sabedoria? É a capacidade de entendermos e vivermos de acordo com o que entendemos.21 Não é um exercício meramente intelectual, mas pressupõe uma reflexão cuidadosa para direcionar a vida que agrada a Deus. Muitas vezes, focamos exclusivamente na prática, sem considerar as grandes perguntas da vida. Desde 1964, o ensino da filosofia (lit. amizade da sabedoria) começou a ser excluído do currículo escolar no Brasil, já que ela não contribuía para a formação tecnicista dirigida ao mercado de trabalho.22 Acostumamo-nos a viver sem questionar, e, por vezes, até ridicularizamos as grandes questões por terem sido discutidas por séculos e ainda não termos todas as respostas. Um outro desdobramento da revolução industrial é a fragmentação das esferas da vida, comum em muitas cosmovisões atuais. Muitas vezes, isso se reflete em uma separação entre o sagrado e o secular nas nossas vidas. É com esse pano de fundo que buscamos definir uma cosmovisão trinitária. Segundo James Sire, cosmovisão é “comprometimento, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história ou um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que detemos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade e que fornece o alicerce sobre o qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser”.23 Assim, uma cosmovisão molda a estrutura e os padrões de comportamento em uma cultura, com pressuposições e valores que são passados de uma geração a outra, muitas vezes sem questionamento. Se nos imaginarmos como peixes num aquário, a água e o vidro do aquário são parte da nossa cosmovisão: podemos passar a vida sem questioná-la. Mesmo vários conceitos bíblicos têm seu entendimento profundamente ligado à uma cosmovisão imbuída na cultura que não examinamos: tome como exemplo o vestir-se com modéstia e como esse conceito mudou ao longo da história. Assim, embora busquemos uma cosmovisão trinitária, muito permanece ligado à nossa cultura, à nação e à época em que vivemos. Ao mesmo tempo, coletivamente criamos cultura e somos moldados por ela. O que buscamos é o começo de uma reflexão sobre as grandes questões da vida e como ter coerência nas suas diferentes esferas. Precisamos nos lembrar de que a Palavra de Deus nos dá bases fundamentais para essas reflexões, que estimulam uma vida coerente aos planos de Deus para nós. Não é opcional. Se queremos viver com sabedoria, como Deus planejou para nós, essas reflexões são essenciais para uma prática integrada, que faz tudo ter sentido. Podemos entender a sabedoria bíblica como uma cosmovisão que busca ser expressa em pressuposições verdadeiras, que por meio de reflexão em comunidade se tornam mais conscientes, e que pela santificação se tornam mais consistentes no nosso dia a dia e entre nossas diversas práticas. O propósito deste capítulo é estimular uma reflexão ampla, sem discutir profundamente cada questão, mas buscando uma visão de mundo abrangente, à luz da Bíblia e do entendimento de quem é o nosso Deus, como vimos no capítulo anterior: o único e verdadeiro Deus eternamente existe em três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –, um na sua essência, iguais na sua glória e distintas nas suas relações. Meu argumento é que essa visão de mundo trinitária explica melhor nosso universo, quem somos e nos orienta a uma vida agradável a Deus. Para isso, vamos contrastar outras cosmovisões – de modo superficial, é verdade, dada a diversidade entre cada uma delas e as limitações de espaço que temos. Ao fazermos algumas perguntas, fiquemos atentos para a coerência das visões de mundo. Vamos começar, então, com uma das maiores perguntas da nossa existência, aquela que vai criar as categorias-chave que abrangem as visões de mundo de todos nós. POR QUE EXISTE ALGO, EM VEZ DE NADA? Essa é a pergunta implícita no começo da história da Bíblia. Apesar de muita discussão sobre “como” nosso universo existe, temos essencialmente três categorias principais para a resposta dessa questão. No ateísmo, negando que a criação é originada por Deus, nega-se obrigatoriamente um “começo” da criação (pois qual seria sua primeira causa?). Assim, exige-se que a criação seja eterna; na física atual, energia, tempo e matéria sempre existiram (neste universo ou em outros, com geração e destruição de universos).24 Nosso universo existe na forma atual apenas por um incidente do acaso. No Brasil, temos cerca de 615 mil pessoas que se declararam ateístas no censo de 2010. Note que, em termos de cosmovisão, essa é uma posição distinta do grupo maior, “sem religião”, afirmada por quase 15 milhões de brasileiros. No panteísmo, a criação também é eterna, mas Deus e a criação são um. Deus não tem um status independente da natureza, já que a natureza menos deus é nada (e deus menos a natureza também é nada).25 Esse deus é infinito e impessoal, não permitindo um relacionamento com “ele” (até o uso do pronome pessoal é estranho). Os adeptos precisam lembrar dessa realidade, para entrar em contato com Deus em nós. Na minha adolescência, a trilogia de livros de Herman Hesse me levou para uma (curta) fase Hare Krishna, que se enquadra nessa categoria.26 O tempo aqui também é circular, já que reencarnações são comuns no panteísmo. O panteísmo monístico inclui não apenas a forma Advaita Vedanta do hinduísmo clássico, mas muitas formas de dualismo oriental (taoísmo), espiritismo e pensamento Nova Era. Cabe lembrar que existem versões ocidentais de panteísmo, especialmente depois de Hegel, que entendia Geist (usualmente traduzida como Espírito ou Mente, mas impessoal) sendo “encarnada” na história, uma particularização do universal. No Brasil, houve certa disseminação da força evolutiva proposta por Henri Bergson (élan vital), assim como sua popularização pelo filme (um favorito de minha mãe) “Zorba, o Grego”, de Nikos Kazantzakis.27 No teísmo, Deus cria o universo. A existência de Deus antecede a criação e é independente dela (ou seja, Deus é livre para criar ou não). No politeísmo, em geral, um deus principal cria ou gera outros deuses, dando origem à diversidade que observamos (religiões tradicionais africanas, candomblé, mormonismo).28 Em muitos casos, esse deus principal é bastante desinteressado da criação, ou até mesmo presente em tudo – de modo que pode ser ainda classificado como panteísmo. No monoteísmo absoluto, comum Deus monopessoal, como no islã (35 mil brasileiros) e no judaísmo (107 mil), Deus não tem nenhum “outro” para amar antes da criação. Apesar de apresentarem Deus ou Alá como compassivos, nenhum deus monopessoal pode ter essa característica antes da criação (mas ambos rejeitam que Deus mude, e tanto o judaísmo quanto o islamismo têm variações místicas que enfatizam emoções). No capítulo 13, as diferenças entre nosso Deus trino e Alá serão exploradas com mais detalhes. No segundo século, Tertuliano já argumentava que nosso Deus trino é diferente: “Pois antes de todas as coisas Deus estava só – sendo em Si mesmo e para Si mesmo universo, espaço e todas as coisas. Além disto, Ele estava só, porque não havia nada externo a Ele além de Si mesmo. Mas nem mesmo naquele momento Ele estava só”.29 Capaz de amar um outro nele mesmo, Pai, Filho e Espírito Santo desfrutavam de comunhão antes e independentemente da criação. Não há necessidade de criar um outro para poder amar ou ser servido. A criação passa a ser extensão do deleite divino, o amor eternamente existente do Deus trino extravasando em atos criativos que explicam uma natureza tão bonita, complexa e diversificada (Sl 19.1-6; 104). Deus era tudo, e decide criar algo que não ele mesmo, de certa maneira se limitando: as árvores, as rochas e os animais não são Deus. Tudo isso existe pela graça de um Deus generoso. Uma outra pergunta que nos fazemos é: QUAL O SENTIDO DA MINHA VIDA? Obviamente, essa pergunta está diretamente ligada a como entendemos a biogênese, a criação da vida, mas ela extrapola esse parâmetro para nossa existência pessoal, um sentimento que geme dentro de cada um de nós, querendo que nossa vida faça sentido. Para o ateísta, a vida é gerada por acaso, uma feliz combinação de temperatura, pressão e quantidade das moléculas certas para criar vida. Apesar da maioria dos cientistas considerar a teoria da evolução como definitiva, as pesquisas sobre origem da vida não escapam da necessidade de interferência externa.30 Simplesmente não há evidência nenhuma que esse “acaso” possa ser replicado intencionalmente em laboratório, nem mesmo nos mais sofisticados do mundo. O eticista Peter Singer é consistente com essa posição ao afirmar que toda vida senciente tem o mesmo valor, ou seja, que sua vida tem o mesmo valor que a vida de qualquer animal que sinta dor, como um rato, por exemplo.31 Não há nada especial em ser um humano. No capítulo 12, esse vazio do humanismo secular será mais discutido. No panteísmo monístico do Oriente, o ser humano, assim como tudo que existe, é uma emanação da única realidade divina. No hinduísmo, o ser íntimo da pessoa (atman, “força vital”) é Deus. Nossas consciências podem tanto nos separar da realidade divina ou ser a ponte para alcançarmos unidade com ela. No Bhagavad Gita, vemos que aqueles que conseguirem ser “conscientes da sua união comigo [Brahman] não tornarão a nascer para esta vida perecível de sofrimentos, mas vêm a mim, a eterna Beatitude”.32 O hinduísmo, embora seja uma das maiores religiões do mundo (1,1 bilhão no mundo), é pouco praticado no Brasil, com menos de seis mil adeptos. No Brasil, temos ainda cerca de 244 mil budistas (censo de 2010), de um total de mais de 500 milhões no mundo.33 Embora a maior parte dos budistas no mundo seja ateísta (e o restante, panteísta), há uma pressuposição de unidade essencial do universo, ainda que seja o Nada absoluto. O que somos é uma ilusão para o budismo; somos um mero entrelaçar de relacionamentos e energias. O budismo é entendido a partir de “quatro nobres verdades” ensinadas por Sidarta Gautama (c. 500 a.C.): 1) viver é sofrer; 2) o sofrimento é causado pelo desejo; 3) podemos eliminar o sofrimento ao eliminarmos o desejo; e 4) o nobre caminho óctuplo conduz à cessação do desejo. As escolas de budismo diferem bastante umas das outras, mas a falta de permanência da vida leva o budista a se liberar de todo desejo, atingindo não o tudo-absoluto do hinduísmo, mas o nada. O esvaziar-se completo é o nirvana (lit. extinguir-se, apagar-se). Assim, tanto no hinduísmo quanto no budismo, aquilo que nos torna indivíduos únicos é o que causa separação do alvo dessas duas religiões (o tudo ou o nada absolutos, respectivamente). Nas três formas de monoteísmo que abordamos, cada pessoa é criada por Deus/Alá com livre-arbítrio para obedecer ou não. O islã tem como preceito central a submissão como caminho para a salvação, e o Alcorão não tem nenhum conceito de sermos criados à imagem de Deus. Na Surata 8.55 lemos que “os pecadores são os piores seres aos olhos de Deus, porque não creem”. Assim, no islã, nem todas as vidas humanas têm o mesmo valor; os que se submetem (muçulmanos) estão numa categoria à parte. Apesar das severas advertências no Antigo e no Novo Testamentos quanto às consequências de rebelião contra Yahweh, nunca vemos afirmações que rebaixam serem humanos, mesmo os mais rebeldes, abaixo dos animais. Outra diferença é que muitos estudiosos do islã afirmam que o embrião recebe a alma após 40 ou 120 dias da concepção.34 Apesar de compartilharmos com o judaísmo o poderoso conceito de sermos criados à imagem de Deus, nossa fé trinitária ainda conta com a encarnação de Jesus Cristo, quando Deus se fez homem perfeito, sem pecado, para nos mostrar não apenas quem Deus é, mas também quem somos. Ao vermos Jesus se relacionando com o Pai, entendemos que cada pessoa da Trindade é um centro de consciência que compartilha a totalidade dos atributos divinos, sendo mutuamente interpenetrada pelas demais (perichoresis) e tendo a mesma essência. Deus, assim, cria outras pessoas, outros agentes morais, com pensamentos, desejos, emoções, criatividade, apreciação estética, capacidade de exercer domínio, desejo por relacionamentos e capacidade de serem habitados por ele – na sua imagem (ver ainda o capítulo 3). Apenas na vida de Jesus entendemos o que é uma vida sem pecado, de perfeita comunhão com o Pai e com os outros, mesmo no meio do sofrimento. Após o Pentecostes, recebemos o Espírito Santo em nós, nos transformando – nascemos de novo! No capítulo 4, veremos em detalhe a obra de salvação do Deus trino e como isso muda tudo. Nós amamos e valorizamos relacionamentos porque Deus amava desde antes da criação, e o Pai enviando Jesus, Jesus dando sua vida por nós e o Espírito Santo fazendo morada em nós testificam desse amor. Mas quando olhamos para o futuro, quando Jesus retornará, é que vemos povos de todas as línguas, cores de pele e nações adorando o Deus verdadeiro, na sua diversidade. Temos um perfeito equilíbrio entre unidade e diversidade na cosmovisão trinitária (no capítulo 7, discutimos a unidade e a diversidade dentro da igreja). MAS, COMO SEI O QUE É A VERDADE? Na nossa época pluralista, a epistemologia (lit. estudo de como conhecemos) é uma área extensa de pesquisa. Mais uma vez, o objetivo aqui é apenas exploratório – conto com sua graça em perdoar as grandes omissões que farei – para percebermos como epistemologia e cosmovisão são relacionadas. No ateísmo, se formos consistentes, não há base alguma para a verdade. Somos fruto do acaso, e, pela ciência, o máximo que podemos fazer é descobrir padrões que funcionam e que podem explicar provisoriamente o mundo ao nosso redor. O iluminismo partiu de um fundamento cristão, buscando conhecer a verdade de Deus revelada na criação. No modernismo (e ainda hoje, em muitos ramos da ciência), a ideia de progresso dominava, apesar de sua falta de coerência com o ateísmo (afinal, o que dá ordem? Progresso para qual fim?). Com o pós-modernismo, ocorre a quebra das categorias essencialistas, isto é, não podemos alcançar a essência de coisa alguma.35 Como exemplo, o historiador desconstrucionista Alun Munslow afirma que o historiador cria construções retóricas que servem o exercício de poder, a história como ideologia.36 A noção de que a verdade é relativa condiz com essacosmovisão ateísta. Para evitar o relativismo, Stanley Fish sugere uma âncora numa comunidade interpretativa. Mas, como saber se essa comunidade está certa? Sem absolutos, o ateísta segue Nietzsche, em afirmar suas verdades, exercendo sua vontade. Parece que a posição inevitável é expressa assim: “Apesar da minha busca por coerência levar a menos e menos respostas, acabei ficando cada vez mais confortável sem elas”.37 No panteísmo, a razão é uma ilusão. A Verdade é a Realidade (satyam, a palavra hindu para verdade, deriva de sat, realidade). Mas essa Realidade final não é racional, mas experiencial; não se trata de conhecer a realidade, mas de ser um com ela.38 Como já vimos, apesar do budismo entender a realidade final de modo diferente (como “nada”) e prescrever modos diferentes de atingi-la, também há uma distância em relação ao conceito ocidental (judaico-cristão) de realidade. Assim, o budista pergunta “qual é o som de uma só mão batendo palmas?” e outras perguntas sem respostas racionais, afinal lógica e racionalidade nos prendem a este mundo transitório. A iluminação transcende o racional. No teísmo, Deus se revela. No politeísmo, não existe nenhum absoluto e nenhuma estrutura para dar sentido a tudo, sendo tudo filosoficamente arbitrário (mormonismo). No islã, todos nascemos muçulmanos e inclinados naturalmente ao bem, mas o ambiente social leva o qalb (coração e mente) de cada um a se afastar de Deus. Mas a principal diferença para a questão da verdade é que Alá pode enganar as pessoas. Várias suratas declaram que Alá é o maior enganador, ou o mais ardiloso (3.54; 7.99; 8.30; 13.42), as palavras que melhor refletem o termo original, makr.39 Assim, existe uma possibilidade de a realidade percebida não ser coerente com o real, no islã. Ao contrário, Yahweh não pode mentir (Nm 23.19; Hb 6.18). O grande diferencial epistêmico entre a cosmovisão trinitária e o judaísmo é a pessoa de Jesus Cristo, que afirma categoricamente: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Jesus é ele mesmo a verdade, a chave interpretativa de toda a realidade. Seu uso das Escrituras valida a autoridade e a inspiração do Espírito. A tumba vazia de Jesus realmente ocorreu, demonstrando a verificabilidade de sua ressurreição. Sua encarnação, morte, ressurreição e ascensão aos céus, assim como seu futuro retorno no corpo ressurreto, afirmam tanto a realidade deste mundo (e da história) quanto do sobrenatural. Afirmamos, assim, uma base absoluta para a verdade (verdade para todos, em todas as épocas, em todos os lugares) e que essa base é o próprio Deus trino que se revela, e que a realidade corresponde com o modo que as coisas realmente são.40 Assim, nossa cosmovisão trinitária dá expressão ao estudo objetivo pelas ciências e história, mas também à expressão artística, com diferenciação entre realidade e fantasia, já que imitamos a criatividade divina. CONCLUSÃO Um estudo detalhado de cosmovisão ocuparia livros. Não abordei pontos importantes, como o equilíbrio entre misericórdia e justiça divina, tempo e espaço.41 Meu objetivo aqui foi começarmos uma conversa sobre o tema, enquanto introduzo alguns conceitos que ajudarão nos próximos capítulos. Demonstrei que cada um de nós tem uma cosmovisão, e para sermos sábios devemos examinar a nossa. Devemos almejar uma consistência na nossa visão de mundo, tanto entre diferentes ideias (p. ex. quem somos e as implicações éticas disso) quanto entre teoria e prática. Uma cosmovisão trinitária permite que nos enchamos da presença de Deus, da alegria de vivermos com ele, e nos doarmos uns aos outros como ele. Não somos trinos como nosso Deus, e precisamos de um relacionamento com Deus e uns com os outros. Cada um de nós tem pontos cegos, crenças e atitudes que nos parecem válidas, mas dos quais nossos irmãos e nossas irmãs com outras culturas podem nos alertar. Apreciamos nossa individualidade e a diferença que temos entre nós. Apenas o Deus trino explica a unidade e a diversidade e faz com que a sua vida tenha importância, pois você reflete a Deus e, ao mesmo tempo, expressa que todas as pessoas, de diferentes etnias e línguas, também são preciosas. O Deus trino é confiável e nos conduz à verdade, revelada especialmente na pessoa do Deus- homem, Jesus Cristo. Eu o convido a examinar aquilo que você acredita em relação a todas as áreas de sua vida, para ter uma vida coerente com o Deus trino que você ama. PARA REFLEXÃO 1. Como você pode ampliar essa discussão sobre cosmovisão trinitária no seu contexto? Que outras áreas deveriam ser abordadas, considerando as características de sua igreja local? 2. Enquanto examinamos as outras visões de mundo, você notou inconsistências nelas? Quais? 3. Existem elementos das outras visões de mundo que foram integrados ao modo que você enxerga o mundo? Como esses elementos geram inconsistência na sua cosmovisão? 4. Atualmente, muitas pessoas dizem que “cada um tem a sua verdade”. Explique por que você concorda ou discorda dessa posição. CAPÍTULO 3 A TRINDADE E A IMAGO DEI O QUE É O SER HUMANO? WINNETOU KEPLER Quem é o ser humano? Quem sou eu? O que define quem e o que somos? Sejam explícitas ou latentes, além de serem fundamentais e primárias para cada jovem e cada adulto da terra, essas perguntas recebem uma variedade tão diversificada de “respostas” que, em vez de tranquilizarem a mente e o coração do indagador, tendem a levá-lo para um caminho ainda mais obscuro. É por esse motivo que religiões do mundo inteiro e filósofos não desistem de tentar responder quem é o ser humano. Uma cosmovisão molda a estrutura de comportamento em uma cultura, com pressuposições e valores que são passados de uma geração a outra – muitas vezes sem questionamento. Iniciando tal conversa, o capítulo anterior apresentou a cosmovisão do ateísmo, panteísmo, politeísmo, teísmo e monoteísmo cristão, culminando com a importância de termos uma cosmovisão à luz das Escrituras. As Escrituras fornecem a base fundamental para responder às grandes questões da vida. É por meio delas que é possível ter acesso ao conhecimento da revelação progressiva do Deus trino, da origem da humanidade e do projeto divino de conduzi-la para um relacionamento pessoal com ele. Assim, surgem algumas perguntas: o que é o ser humano na Bíblia e na fé cristã? Será que Deus, como Trindade, pode nos orientar melhor quanto ao que quer dizer ser pessoa, ser imago dei? Conforme Bruce Milne, a pergunta “que é o homem?” nos “confronta hoje com nova premência e com menos perspectiva de uma resposta definida do que em qualquer outra época da história”42 – certamente no mundo ocidental pós-cristão. Partindo do pressuposto de que somente podemos compreender o ser humano à luz do que o próprio Criador diz, não podemos ter como base principal o conhecimento adquirido através dos estudos da psicologia e da antropologia secular. “Apesar da diversidade”, diz Milne, as teorias sobre o que é o ser humano “não têm uma resposta às questões finais: de onde veio a humanidade? Qual sua importância final? Para onde vamos?”43 Ainda mais, teorias seculares e não cristãs estão cheias de tensões sem solução. Deus, para a sua glória, decidiu, em sua grandeza, sabedoria, demonstração de poder, criatividade e amor, criar a humanidade de maneira que ela lhe fosse correspondente e semelhante a ele mesmo, embora finita. Diferente de todo o restante da criação, por mais bela e variada que seja, a humanidade possui a imagem de Deus. Isso desperta um sentimento de proximidade com o Criador. O salmista Davi declarou: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhepuseste” (Sl 8.3-6). Para Wayne Grudem, quando refletirmos sobre a nossa semelhança com Deus, “ficaremos espantados em perceber que, quando o Criador do universo quis criar alguma coisa ‘à sua imagem’, alguma coisa mais semelhante a ele próprio que o restante da criação, ele nos fez!”.44 Que pensamento profundo! Certamente não somos obra do acaso. O Deus trino desejou nos trazer à existência. Na revelação dada por Deus nas Escrituras, na história do povo judeu, podemos encontrar perfeitamente na pessoa de Cristo, o Deus-homem, o ser humano perfeito. Para desenvolvermos o raciocínio que nos conduz ao entendimento sobre o significado de sermos criados conforme a imagem de Deus, compartilharei um breve relato do desenvolvimento do conceito da imago dei na história, expondo pontos de vista de alguns pais da igreja e teólogos recentes. Na segunda parte, refletiremos sobre a “Base segura que revela a imago dei” e, no fim, faço uma proposta para firmar o que somos como seres humanos feitos para um relacionamento pessoal com Deus. O fato de termos sido criados por um Deus tripessoal, conforme sua imagem e semelhança, implica que em nós há características semelhantes às de Deus, porém ao nível de criatura. Como conhecer o Deus trino poderá nos conduzir ao conhecimento de quem somos? IMAGO DEI NA HISTÓRIA No que consiste a imago dei? Alinhados com a filosofia grega, quase todos os pais da igreja colocaram a capacidade racional e moral como o ápice da pessoa (nous, mente, e psyche, alma).45 Conforme Nonna Verna Harrison, “eles acreditavam que, como nós, seres humanos, somos feitos à imagem de Deus, o próprio Deus tem sido nosso modelo desde o momento em que fomos criados. Isso é um grande presente e um grande privilégio. [...] Ele é a fonte direta de nossa autêntica identidade humana, uma vez que a imagem de Deus é o que nos define como distintamente humanos”.46 Alguns ensinaram que o Logos, o Filho de Deus, Jesus Cristo, era visto como a imago ideal na sua divindade, o corpo sendo o santuário da imago perfeito.47 A imago dei consistia primordialmente de características racionais e morais do homem e em sua capacidade para a santidade e comunhão com Deus. Alguns limitavam a imagem às qualidades morais da justiça e da santidade com as quais Adão e Eva foram criados. Já outros incluem a presença da vontade, criatividade ou a capacidade de interagir em sociedade, perfeição moral original e imortalidade. Segundo R. N. Champlin, “não devemos pensar em qualquer modalidade de imagem física (de aparência de ser), como se o homem duplicasse, ainda que imperfeitamente, o formato de Deus. Antes, devemos abandonar toda ideia concreta, material, sólida”.48 Pelo simples fato de termos sido criados homem e mulher conforme a imagem e semelhança de Deus, e ele ser espírito, a imago dei é uma característica exclusiva do ser humano no conceito central, não na aparência física. Se este pensamento está correto, como podemos responder ao conflito de raciocínio em que Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Filho do Homem, perfeito varão, é exatamente a imagem de Deus? Antes, precisamos compreender melhor o significado das palavras “imagem” e “semelhança”. As expressões são sinônimas? Na teologia histórica encontramos uma tensão quanto ao significado. Irineu (190 d.C.) ensinava que a imagem se referia à capacidade ontológica para a razão, liberdade e comunicação com Deus, mas se torna “semelhança” somente quando tais características são realizadas. Alguns pais criam que a imagem foi perdida por causa da Queda, e outros que esta imagem foi simplesmente obscurecida.49 Vários pais (Atanásio e Ciro de Alexandria, por exemplo) insistiram que a imagem tem dois sentidos: primeiro como o raciocínio orientado para o moral, e segundo como o dom do Espírito Santo para nos tornarmos “coparticipantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo” (2Pe 1.3-4). O conceito comum de divinização na igreja primitiva é que o cristão (agora regenerado pelo Espírito) participa, ou seja, fica infuso, com a natureza divina. Tornamo-nos “deuses” pela graça, devido àquele que se tornou carne por nós. O que foi perdido por causa de Adão agora em Cristo está sendo recapitulado. Pertencemos a uma nova humanidade debaixo do Cristo vitorioso, o vencedor Jesus Cristo. Mais tarde, os teólogos reformados rejeitaram a distinção entre a imagem e a semelhança. Lutero reconhecia que Gênesis 1.26 era “um caso de paralelismo hebraico, onde ‘imagem’ e ‘semelhança’ eram termos sinônimos; o que se aplicava a um, aplicava-se igualmente ao outro”.50 Como podemos ver, o tema necessita de uma cuidadosa resposta para não cairmos em exageros ou atribuirmos ao sentido bíblico da imago dei algo que o Deus trino nunca intencionou revelar. BASE SEGURA QUE REVELA A IMAGO DEI “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). As palavras hebraicas para “imagem” e “semelhança”, segundo Grudem, simplesmente informavam aos leitores originais que o homem ao nível pessoal era igual a Deus e de certo modo representava Deus. Como para os reformadores, para ele a simplicidade se perde quando tentamos dar um significado estreito e específico demais para as duas palavras.51 Conforme Ryrie, “embora alguns venham tentado fazer uma distinção entre as duas palavras para ensinar que existem dois aspectos na imagem de Deus, nenhum contraste grande entre eles tem apoio na linguística”.52 Embora as palavras hebraicas tselem (“imagem”, 34 vezes no Antigo Testamento) e demut (“semelhança”, 25 vezes) geralmente sejam usadas para imagens físicas (estátuas, ídolos), já que Deus é criador dos céus e da terra, qualquer imagem de Deus implica uma interpretação analógica e espiritual. Conforme a história do povo de Israel se desenrolava nas Escrituras, mais e mais o Deus trino se revelava. O relato do surgimento do homem em Gênesis 2.7 diz que Deus fez algo diferente do restante da criação. Ele poderia simplesmente ter dito: “Que haja o homem”! Mas não foi isso o que aconteceu. O homem foi feito do pó da terra e recebeu diretamente de Deus o fôlego da vida. Deus, consigo mesmo (“façamos”, 1.26), decidiu que criaria um ser que carregaria a imagem e semelhança dele mesmo. Logo após ter feito o homem, “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (1.31). É por esse motivo que precisamos olhar para ele, para podermos encontrar no Criador respostas que revelam a imago dei. A essência do homem consiste em ser ele a imagem de Deus. Somos especiais! Deus pensou em dar a nós uma imagem e semelhança que um dia o Filho de Deus também assumiria, quando viesse ao mundo em forma humana para buscar e salvar pecadores. Em outras palavras, Deus fez de si mesmo o modelo que inspirou nossas características humanas. Certamente não somos semelhantes a ele em todos os aspectos. Para começar, imago dei não nos torna deuses, nem todo-poderosos, nem oniscientes (atributos incomunicáveis de Deus). Mas, certamente, há características em todo ser humano que apontam para ele. Criado com autoconsciência, Adão tinha capacidade para manter comunhão com Deus, para administrar e cuidar do Éden, para dar nomes aos animais e interagir com eles. O ser humano foi criado com o dom de pensar, comunicar, criar, sentir e desejar. Enfim, há paralelos estruturais, já que o ser humano individual recebe capacidade de pensar, raciocinar, falar com linguagem, exercitar livre vontade e até de se emocionar – semelhante à revelação bíblica de cada pessoa da Trindade. Há paralelos funcionais, porque o homem e a mulher receberam a capacidade e a autoridade para manter e governar sobre a terra, cuidando da criação divina – Adão dando nomes aos animais. Também há paralelos relacionais, primeiro com o Criador (até de andarem juntos no Éden), e entre seres humanos a ponto de juntos, homem e mulher, poderem procriar. Ainda mais, o ser humano é capaz de serhabitado por Deus, mas sem deixar sua individualidade. É possível que, de certo modo, o fato de sermos criados à imagem de Deus nos dê um paralelo da capacidade que cada pessoa da trindade tem de ser habitada pela outra enquanto permanece totalmente individual (perichorese). Assim, como o Pai habita no Filho e o Filho no Pai, e como o Espírito Santo é também o Espírito de Cristo e o Espírito do Pai, “Deus planejou a natureza humana de maneira que esta possa ser habitada por ele. Embora habitados por um Outro divino, os seres humanos são simultaneamente fortalecidos em sua individualidade”.53 Isso é refletido no próprio Jesus Cristo, imagem perfeita de Deus, quando falou: “... estou no Pai e... o Pai está em mim” (Jo 14.10-11). E ele rogou por nós: “... como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós” (17.21). Temos a capacidade estrutural e relacional de sermos habitados por Deus. Umas das diferenças fundamentais entre o ser humano e os animais é que o ser humano é capaz de conversar e se comunicar com o Criador. Segundo Lewis Sperry Chafer, “desde o princípio ele foi capaz de conversar com Deus; e, portanto, podemos inferir que a linguagem foi nele uma capacitação sobrenatural e miraculosa”.54 Entre os animais, não houve companheiro para o homem. Só outro ser humano, Eva, satisfazia: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne... tornando-se os dois uma só carne” (Gn 2.23-24). O homem e a mulher receberam a capacidade de reproduzir e experimentar unidade através da união física entre eles. Não é por “encontrar-nos a nós mesmos” que descobriremos o significado do ser humano. A Bíblia nos dirige ao nosso Criador, o Deus tripessoal. Quando o enfocamos – olhando para cima e não para dentro –, começamos, então, a recuperar nossa humanidade. Como Karl Barth insistia, o significado da pessoa humana se define somente em relação a Deus. As três pessoas da Santa Trindade providenciam, através da revelação, a estrutura ontológica para nossa pessoalidade humana, que implica relacionamentos e funções na terra. E ainda mais, essa imagem divina é aperfeiçoada tanto pela habitação divina quanto pela sua própria autodoação a Deus e aos outros.55 Note que, embora o homem e a mulher tenham herdado a imagem e a semelhança de Deus, são física e emocionalmente diferentes um do outro. Apesar dessas diferenças, Deus os criou de uma forma que estas contribuíssem para a união e o complemento um do outro. Eles são iguais em dignidade e importância e podem expressar o amor um pelo outro por meio da união estabelecida em aliança, isto é, no casamento. Essa unidade “não é somente uma unidade física; é também uma unidade espiritual e emocional de dimensões profundas”.56 O casamento é uma expressão relacional que aponta para a perfeita unidade e comunhão que existe na Trindade – reflexo analógico da perichoresis divina (habitação mútua). Grudem observa: O fato de que Deus criou duas pessoas distintas que eram homem e mulher, e não apenas um homem, é parte de nossa existência à imagem de Deus porque ela pode ser vista refletindo, em algum grau, a pluralidade das pessoas dentro da Trindade [...] Há alguma similaridade aqui: exatamente como houve comunhão, comunicação e compartilhamento de glória entre os membros da Trindade antes de o mundo ser feito (ver Jo 17.5,24 e cap. 6 sobre a Trindade), assim Deus fez Adão e Eva de tal modo que eles compartilhariam amor, comunicação mútua e dariam honra um ao outro em suas relações interpessoais. Naturalmente tal reflexo da Trindade viria a se expressar de várias formas dentro da sociedade humana, mas ela certamente existiu desde o começo na unidade íntima e interpessoal do casamento.57 Apesar de o casamento refletir, em vários sentidos, a unidade da Trindade, os solteiros não estão à margem da verdadeira humanidade. De acordo com Milne, “Jesus, o homem normativo, não era casado, e o Novo Testamento em ponto algum apresenta o casamento como sendo essencial para uma vida cristã plena”.58 O solteiro pode desenvolver sua vida cristã e sua humanidade através de outros relacionamentos humanos assim como Deus, em si mesmo, tem tanto unidade quanto diversidade. Não é de surpreender que essa unidade e essa diversidade se reflitam nos relacionamentos humanos íntimos (mas não sexuais) que Jesus estabeleceu.59 Cada uma dessas características, e tantas outras, demonstram que há em cada um de nós a imago dei; mesmo que o pecado tenha rompido uma série de relacionamentos (Gn 3.6-19): da humanidade com Deus, entre seres humanos, e do relacionamento deles com a natureza, e do restante da criação com ela mesma. A imago dei nos seres humanos ainda permanece, mas está sujeita ao pecado. Somente Deus pode restaurá-la, e ele o fará. O processo foi prometido em Gênesis 3.15 e aponta para o segundo Adão, Jesus Cristo. UMA PROPOSTA Como a Trindade revelou para nós como deveria ser o ser humano? Podemos encontrar uma imagem humana que seja exatamente como Deus planejou que deveríamos ser? Sim! Deus, em Cristo, assumiu a nossa semelhança da carne, mas sem pecado. Jesus, “ele mesmo é tudo quanto se pode saber acerca de Deus”60 e de como é o ser humano perfeito. Ele é a verdadeira imagem de Deus e, assim sendo, é o verdadeiro homem. Desta maneira, podemos afirmar que não há outra forma de podermos conhecer o verdadeiro ser humano enquanto não o conhecemos em e através de Cristo. O relacionamento entre as pessoas da Trindade, por exemplo, é refletido, de alguma forma, quando os seres humanos, em seus relacionamentos interpessoais, trocam experiências de comunicação, respeito, amor e apoio mútuo. Tais características refletem algo essencial quanto à natureza humana herdada na imago dei. Quando a Trindade revela Cristo, o Filho do Homem, o segundo e último Adão, ela manifesta como deveria ser a perfeita humanidade. Cristo foi um perfeito Filho, o perfeito amigo, o perfeito servo, o perfeito mestre, o perfeito líder, o perfeito Deus-homem (Hb 2.17; 4.15). Embora a nossa humanidade esteja corrompida pelo pecado, prevemos em Jesus Cristo o homem realizado e glorificado. Ele se encarnou e assumiu completamente a natureza humana, mas sem pecado. Assim, vemos em Jesus a riqueza da imago dei – o arquétipo61 do ser humano na nova criação. Por este motivo, não podemos perder o foco daquele que nos fez semelhantes a ele mesmo, pois somos mais completamente humanos à medida que usamos as aptidões de personalidade dadas por Deus para louvar e servi-lo.62 CONCLUSÃO Pela graça de Deus, um dia seremos completamente conformados àquele que nos salvou. Cristo é o ser humano perfeito (Rm 8.29; 2Co 3.18). Por termos sido criados conforme a imago dei e, ao mesmo tempo, termos sido salvos por intermédio do sacrifício do Filho, o que nos aguarda é a grande expectativa de sermos completamente restaurados à imagem que Deus planejou para a nossa eternidade, quando um corpo glorificado, a comunhão imaculada com Deus e a ausência do pecado serão a realidade. Diante de tudo o que refletimos, podemos compreender que nossa semelhança com Deus deveria nos constranger a cuidar melhor do nosso semelhante, bem como do mundo em que vivemos. Deus não nos criou para vivermos isolados, mas para relacionamentos. O fato de sermos portadores da imagem de Deus deveria influenciar a maneira como tratamos e honramos uns aos outros, tanto nos relacionamentos familiares, quanto na igreja, na vizinhança, na cidade em que moramos e aonde quer que formos. Respeitamos e guardamos os direitos humanos, porque todos são criados na imagem de Deus. Por compreendermos melhor que somos imago dei, temos o dever de proteger os não nascidos, os deficientes físicos e mentais, os idosos e aqueles que estão privados de recursos. Além disso, como vice-regente, como imagem do Rei, o ser humano é governador sobre a criação. Isso significa que temos responsabilidade também sobre as demais coisas queforam criadas; nossa tarefa ainda não terminou. Em contraste com as diversas formas de filosofia que tentam explicar quem é o ser humano tendo como base o próprio homem, o cristão se define olhando para o Deus tripessoal. O cristão reconhece que sua capacidade de pensar, comunicar, exercer a vontade, doar-se ao outro, amar e se relacionar com outros seres humanos, assim como ser habitado pelo Espírito Santo, é própria da Trindade. Ser imago dei é um privilégio, uma inspiração, um deleite. É saber que não estamos sozinhos no universo. É viver a experiência de sermos um com Deus, um no corpo de Cristo e sermos habitados por ele sem destruir nossa pessoalidade (até para fortalecê-la). É doar-se, é expressar amor, viver relacionamentos... mesmo com diferenças. PARA REFLEXÃO 1. Como você explica “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26)? Quais são algumas das características da imago dei? 2. Como a doutrina da Trindade informa a imago dei? Quais as diferenças? As semelhanças? 3. Contraste o perfil do ser humano da perspectiva cristã com a do ateu e a do espírita. 4. De qual maneira a imago dei influencia a minha forma de viver? CAPÍTULO 4 A TRINDADE E A SALVAÇÃO AS BOAS NOVAS DO DEUS TRINO L IBNIS S ILVA “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...” Essa será uma das poucas vezes que o novo convertido, senão muitos crentes, irá escutar sobre a Trindade de maneira prática.63 Desde os pais da igreja, estudar a doutrina da Trindade tem sido um encanto e um desafio. No entanto, muitos não têm ensinado sobre a Trindade devido à complexidade e às abordagens dadas. A doutrina da Trindade tem sido reconhecida como uma doutrina essencial da fé ortodoxa, mas sem nenhuma ligação com a vida ortodoxa (ortopraxia). Parece que, para muitos, o conhecimento de Deus e de quem ele é não está ligado à realidade do cristão no mundo. Como reverter essa situação tão triste? Um modo de transformar essa realidade nas igrejas é ensinando como a Trindade é relevante para o cristão. É começar a ensinar, não apenas na fase de maturidade do conhecimento cristão, mas desde cedo, desde o novo nascimento, desde que o cristão é novo convertido. A Trindade deve ser o fundamento para a vida do novo convertido, assim como foi na história da igreja.64 O objetivo central deste capítulo é promover o conhecimento das maravilhas que o Deus trino fez pelo pecador. Também, que este texto seja usado pelos irmãos e pelas irmãs para ensinarem em suas igrejas, em grupos pequenos e nas famílias. Mas, principalmente, este capítulo foi escrito para quem está iniciando a fé cristã, que é novo convertido – de modo que este veja as maravilhas que o Deus trino fez por ele e assim possa louvá-lo de modo digno. Que esta geração e as próximas possam entender que não existe separação entre teologia (doutrina) e prática. SALVAÇÃO: O QUE É ISSO? Se estamos falando da ação do Deus trino para salvar, precisamos então saber o que é salvação. Qual seria uma definição simples de salvação? Sobre a natureza da salvação, o Novo Dicionário de Teologia Bíblica fala: “A salvação consiste, em essência, no ato ou estado de livramento do dano ou perigo, físico ou espiritual, temporal ou eterno”.65 De maneira geral, quanto à situação do homem, a ideia bíblica de salvação envolve três noções: (1) resgate do perigo, do pecado, da morte; (2) renovação do espírito; e (3) reconciliação e restauração de um relacionamento correto com Deus.66 Assim sendo, qual é o destino, então, daqueles que não encontram resgate para a morte, renovação de espírito e restauração de um relacionamento com Deus? A morte é o destino de todos os pecadores, porque o salário do pecado é a morte (Rm 3.23; 6.23). A revelação do anjo de Deus dada a Daniel esclarece: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno” (Dn 12.2). POR QUE PRECISAMOS SER SALVOS? Como foi visto, a salvação na Bíblia envolve o resgate, a renovação e a restauração do perdido. Quem é esse perdido? Só alguns ou todos? Em que situação está esse perdido? Ele precisa ser regatado de algum perigo? Do pecado? Da morte? O perdido precisa somente de proteção? Ou ele precisa de alguma mudança? Por quê? Ter essas respostas é extremamente importante, pois “conhecer as reais dimensões da profundidade do nosso pecado vai nos ajudar a ter uma perspectiva correta de quem somos, da intensidade da contaminação e da grandeza da misericórdia divina”.67 Então, qual é a condição do homem? No salmo 51, lemos: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (v. 5). Desde nossa concepção, já somos culpados pelo pecado, já nascemos separados de Deus, já que Deus não pode conviver com o mal.68 Paulo, falando sobre a condição dos crentes antes de serem salvos, escreve: “... éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3), mostrando que o homem possui disposição para o pecado devido à sua natureza pecaminosa. O estado do ser humano é trágico. Sem poder se salvar, está mergulhado em seus desejos pecaminosos, preso a ciladas do Diabo, longe de Deus, sem esperança no mundo, carregando uma eterna dívida que não pode pagar e caminhando a passos largos para a punição eterna. Onde essa pessoa pode encontrar a salvação? O DEUS TRINO QUE SALVA O PECADOR Será que “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” é o único envolvimento prático da Trindade que precisamos saber e ser lembrados em nossa vida cristã? Então, quanto o Deus trino está envolvido na salvação do homem? Será que podemos estudar a salvação do homem sem falar de alguma das pessoas divinas? Será que precisamos apenas dar mais destaque a uma delas? Infelizmente, para algumas pessoas, essas perguntas são irrelevantes. “Meu Cristo é suficiente”, alguns dizem. “Pregar Cristo e somente Cristo é suficiente.” Sendo que, para essas pessoas, Jesus Cristo é a chave hermenêutica que destranca tudo. Alguns até citam Paulo: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado...” (1Co 1.23). No entanto, essas declarações refletem realmente o cristianismo? Lloyd- Jones nos ajuda com a resposta: Muitas vezes as pessoas se detêm numa só Pessoa. Alguns se detêm na Pessoa do pai; falam acerca do Pai e do culto a Deus e do perdão que se pode obter de Deus; no entanto, em toda sua prosa e conversa, o Senhor Jesus Cristo não é nem mencionado. Algumas outras pessoas se detêm única e inteiramente no Senhor Jesus Cristo. Concentram-se tanto nele que pouco se ouve sobre o Pai e sobre o Espírito Santo. Há outros cuja conversação só parece girar em torno unicamente das manifestações espirituais. Há esse constante perigo de esquecer-nos de que, como cristãos, temos de, necessariamente, prestar culto às três Pessoas da Trindade santa e bendita. O cristianismo é trinitário em sua origem e em sua continuidade.69 Vamos, então, sem demora, aprender o que o Deus trino fez para nos salvar? A Maravilhosa Ação do Deus Pai na Salvação do Pecador Já parou para meditar no que Paulo escreveu em Efésios 1.3? “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.” Fantástico! Deus nos deu toda sorte de bênçãos espirituais. O apóstolo Pedro nos diz mais: “Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade...” (2Pe 1.3). Tudo de que precisamos para viver uma vida que agrade a Deus nos foi dado por ele. Vejamos, então, as ações do Pai na nossa salvação. O Pai é aquele que escolhe, que chama, que atrai para Cristo, tudo porque ama intensamente os seus de modo que deu o que tinha de mais precioso: seu filho como sacrifício para salvar o mundo. É dele a salvação, pois estabeleceu sua justiça em Cristo, para justificar pela fé os que creem (Ef 1.5; Rm 3.26; 8.28; Jo 2.16; At 28.28). O Pai dá vida, dá um novo coração,perdoa e continua a perdoar e também santifica. Ele adota, faz seus filhos e filhas ao enviar o espírito de adoção, tornando-os herdeiros das promessas; de modo que, agora, são propriedade particular dele, pois ele habita e anda entre eles, os quais são santuários de Deus (1Pe 1.3; 1Jo 1.9; Ef 1.5; 2Co 6.16). Podemos nos achegar a ele do modo que estamos, com a certeza de que ele nos receberá como filhas e filhos amados, assim como fez o pai do filho pródigo (Lc 15.11- 32). O Pai dá o único e perfeito Mediador. Sendo um Pai protetor, ele garante que irá terminar a salvação que começou nos seus. O Pai os sela para o dia da redenção e nunca os abandonará. Todo o processo de salvação é um presente do Pai (Ef 2.5,8; 4.30; Fp 1.6; Hb 13.5). A Maravilhosa Ação do Deus Filho na Salvação do Pecador A carta aos Hebreus é um maravilhoso tratado de exaltação a Cristo e sua obra, pois através da “única oferta pessoal de seu corpo, Cristo destruiu Satanás (2.14), afastou o pecado (9.26,28; 10.18), libertou os que estavam em cativeiro espiritual (2.15) e, assim, trouxe ‘muitos filhos à glória’ (2.10)”.70 Percebemos que Jesus, o Filho, é exaltado em todo o Novo Testamento, seu nome está acima de todo nome; de modo que não há salvação por meio de outro nome (Fp 2.9; At 4.12). Jesus, o Filho, é representante e substituto que, no lugar do pecador, naquilo que Adão falhou e desobedeceu, obedeceu ao Pai e ofereceu-se como cordeiro sem defeito e sem mácula, que derramou seu sangue para pagar as dívidas do pecador e comprá-lo. O Filho é fundamento da salvação, sendo conhecido como salvador do mundo antes da sua fundação. Todo seu sacrifício foi porque amou o pecador (1Jo 2.1-2; Jo 6.39; 10.17-18; 1Pe 1.19-20; Ef 5.2). Os efeitos de seu precioso sacrifício são para que aqueles que creem tenham remissão de pecados, reconciliação e paz com Deus, vida eterna, uma herança e sejam chamados, justificados, santificados e glorificados (At 10.43- 44; Rm 5.1; 8.30). A Maravilhosa Ação do Deus Espírito Santo na Salvação do Pecador O Espírito Santo participa ativamente da salvação do pecador. O pecador é salvo pelo “lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.4-6). A ação do Espírito Santo é maravilhosa na vida daquele que é salvo. Ele nos vivifica, chama efetivamente, regenera, justifica, santifica, nos transforma à imagem de Cristo, nos une a Cristo, aplica os méritos de Cristo, testifica que somos filhos de Deus e nos habilita a chamar “Aba, Pai”, intercede por nós, nos sela e ainda milita contra a nossa carne (1Co 2.14; Jo 6.63; 16.14; 2Co 3.18; Rm 8.16; Gl 4.6; 5.17; Ef 1.13; 4.30). Assim como Pedro e João em Atos 4, somos cheios do Espírito Santo para dar testemunho do poder de Deus em transformar vidas. DA TEOLOGIA À PRÁTICA: REFLETINDO O DEUS TRINO EM NOSSO DIA A DIA Somos muito bons em falar das maravilhas feitas (passado) pelo Deus trino, ou somos muito enfáticos no que acontecerá (futuro) quando o Senhor Jesus Cristo retornar. Mas quais são as implicações da salvação do Deus trino para o nosso presente? Creio que uma das melhores formas de perceber as maravilhas da salvação para nosso dia a dia seja lendo a carta aos Efésios. Paulo sumariza para nós a doutrina da salvação e ainda demonstra que a boa prática está ligada diretamente à boa teologia. Prioritariamente, a finalidade da salvação se refere a receber uma nova identidade para relacionar-se com Deus. Essa nova identidade não só muda o status, mas também muda as ações, os pensamentos, as emoções, os relacionamentos. Efésios nos mostra isso. Paulo estrutura a carta de maneira fantástica! Na primeira parte da carta (caps. 1-3) aprendemos: sobre o que somos em Cristo, qual é nossa nova identidade, que somos capacitados para viver uma nova vida e que somos parte de um corpo onde Cristo é a cabeça. Essa nova identidade é dada pelo Deus trino, que age para salvar (1.3-14), transformar (2.1-8) e capacitar (1.19-20). Aquilo que somos em Cristo, somos pelo fruto da ação do Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Sempre que pego meu RG, gosto de lembrar como ele não reflete quem realmente sou. Deixe-me explicar melhor. Primeiro, lembro que a data de nascimento foi mudada – nasci de novo (2.1); depois, vejo que minha filiação é outra – agora sou Filho de Deus (1.5). Agora minha naturalidade é especial – sou concidadão dos santos (2.19). Mas não para por aí: o registro que garante isso é o livro da vida (Ap 3.5) e a data do registro é de antes da fundação do mundo (Ap 17.8). E, por último, lembro que receberei um novo nome (Ap 2.17). Fantástico, não?! Que Deus maravilhoso! Na segunda parte da carta (caps. 4-6), Paulo nos mostra as implicações daquilo que somos. Ele diz: “Rogo-vos... que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (4.1). Em outras palavras, diante da salvação que recebemos de Deus, devemos viver de modo a engradecer o Deus que representamos. A igreja, a comunidade de novas pessoas, carrega o reflexo de Deus “para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida...” (3.10). Nos capítulos finais, aprendemos de forma clara e prática a refletir o Deus trino. Devemos andar em humildade, paciência e unidade, pois “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos...” (4.4-5). Devemos andar em amor, sendo imitadores de Deus (5.1). Devemos andar como filhos da luz (5.8), evitando a idolatria e a imoralidade. Devemos andar como sábios (5.15), remindo o tempo e estando cheios do Espírito (5.18). As implicações não param aí. Uma vida cheia do Espírito Santo, então, nos leva a relacionamentos que glorificam a Deus: marido e mulher (5.22-33), pais e filhos (6.1-4), patrões e empregados (6.5-9). Não podemos dissociar nossa vida da teologia. Precisamos mergulhar profundamente no que Deus fez por nós e entender melhor o seu amor, para que cheguemos no ápice de nossa salvação. De modo que, como Paulo diz, precisamos orar mais “a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (3.18-19). Mas, qual é o ápice da salvação? O que é ser tomado de toda a plenitude de Deus? O ÁPICE DA SALVAÇÃO Realmente são maravilhosos e grandiosos os feitos de nosso Deus trino por nós, mas qual a finalidade de todos esses feitos? Sabemos que o fruto final dos feitos do Deus trino para salvar o homem (Ef 1.6,12,14), bem como tudo que fazemos (1Co 10.31) deve ser para a glória de Deus. Mas será que a salvação proporcionada por Deus tem por finalidade apenas livrar-nos da condenação eterna, do inferno? Será que a finalidade é receber bênçãos? Ou será que nos dá possibilidade de termos bons relacionamentos com o próximo? Qual é o ápice da nossa salvação? O ápice da nossa salvação é a restauração do relacionamento com Deus. O ápice da salvação é sermos plenos de Deus (Ef 3.19). Veja só! Já imaginou não ir para uma separação eterna de Deus, mas para o céu com Deus? Já imaginou ser salvo do inferno, ter seus pecados (suas dívidas) pagos, mas permanecer sem um coração que pulsa por Deus? Como podemos desejar o amor de Deus e suas dádivas sem primeiramente desejá-lo? Infelizmente repetimos os mesmos erros e nos enganamos amando e desejando mais e mais bênçãos e o amor de Deus sem realmente desejarmos um relacionamento com ele. Como explica John Piper: “Desde o primeiro pecado no jardim do Éden até o Juízo Final, no Grande Trono Branco, os seres humanos continuarão a aceitar o amor de Deus como aquilo que nos dá tudo, exceto ele mesmo. De fato, existem milhares de dádivas que fluem do amor de Deus. [...] Mas nenhuma dessas dádivas nos levará ao gozo final, se não nos tiverem levado primeiramente a Deus”.71 Qual é o gozo finalda vida dos crentes de nossos dias? Será que nossa alma tem anseio por Deus (Sl 143.6)? Será que nossa alma suspira por Deus (Sl 42.1)? Será que temos sede de Deus (Sl 42.1-2)? Infelizmente não. Atualmente, as gerações têm se afastado de Deus até mesmo buscando o amor, ou os dons de Deus. No entanto, o ensinamento bíblico é que o melhor e mais importante dom do amor de Deus é o desfrutar de quem ele é.72 É impressionante que, quando lemos os livros de teologia sistemática, vemos muitas discussões sobre a ordem de salvação (as várias visões de salvação, a cruz de Cristo, por quem Cristo morreu), de modo que nos concentramos muito na obra e no processo de salvação e nos esquecemos dos motivos da salvação do homem e sua finalidade, o ápice da salvação. Este ápice é ser dele, é estar nele, é ter comunhão com ele eternamente.73 Jesus Cristo, falando da finalidade de sua obra, diz: “A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.21). Reeves, falando da obra do Espírito Santo, também nos leva ao “ápice” de nossa salvação: “A vida que o Espírito dá não é algo abstrato. Na verdade, não é primariamente uma coisa o que ele dá. O Espírito nos dá seu próprio ser, para que possamos conhecer e desfrutá-lo, e, assim, desfrutar de sua comunhão com o Pai e o Filho”.74 A obra do Deus trino para salvar o pecador é grandiosa, maravilhosa e cheia de detalhes. Não precisamos nem devemos reduzir o evangelho a uma pessoa da Trindade. Precisamos ter em nossa mente que “o evangelho é do tamanho de Deus, porque Deus se coloca nele. O Deus vivo se liga a nós e torna-se a nossa salvação, a vida de Deus na alma do homem. Somos salvos pelo evangelho de Deus para adorar o Deus do evangelho”.75 É muito triste ver que muitos desejam, amam, buscam, louvam as bênçãos que Deus dá. Muitos têm colocado seu coração, sua alma, sua força e seu entendimento mais em dons e em coisas do que no Deus que dá todas essas maravilhas. Louvor, honra e gratidão são características daqueles que conhecem o Deus trino. Mais do que salvação, é desfrutar da maravilhosa e perfeita comunhão com o Deus trino, é amar e desejar a Deus com todo o nosso ser. PARA REFLEXÃO 1. Daquilo que você viu que o Deus trino fez por você, o que mais chamou a sua atenção? Por quê? 2. Você conhece alguém que não gosta de teologia porque é difícil e não é prática? O que você diria agora para essa pessoa sobre doutrina e prática? 3. Qual tem sido o “ápice” da salvação para você? Se não sabe, pense naquilo que você mais agradece a Deus em sua salvação. 4. O quanto o relacionamento com o Deus trino faz diferença em sua vida? Quais atitudes você precisa rever na sua vida, já que você tem um relacionamento com o Deus trino? CAPÍTULO 5 A TRINDADE E OS JOVENS AUTOCONCEITO, INTIMIDADE E SEXO CARLOS FEL IPE OL IVEIRA DO NASCIMENTO O teólogo russo Vladimir Lossky diz: “Se rejeitarmos a Trindade como o fundamento de toda realidade [...] estamos comprometidos com uma estrada que leva a lugar nenhum; terminamos em contradição, em tolice, em desintegração do nosso ser”.76 Essa afirmação é precisa e alerta para a importância da Trindade ser o referencial interpretativo das experiências humanas. A juventude é uma época carente de referenciais. Zygmunt Bauman afirma que, à medida que os jovens se deparam com as incertezas e as inseguranças da cultura atual, suas identidades sociais, culturais, profissionais, religiosas e sexuais sofrem um processo de transformação contínua.77 Portanto, é comum faltar compreensão correta da própria identidade aos jovens, o que impacta diretamente seus relacionamentos. Assim, entender as relações intratrinitárias é imprescindível à juventude. A Trindade fornece a perspectiva segura para que eles interpretem a si mesmos e suas relações, de modo que interajam com o mundo de modo apropriado. Desse modo, a Trindade ressignifica questões relacionadas ao autoconceito e também questões relacionadas à intimidade, ao sexo e casamento. QUESTÕES RELACIONADAS AO AUTOCONCEITO Senso de Inadequação Cada pessoa possui diferentes dons, características e oportunidades. Essas diferenças, quando mal-interpretadas, podem gerar desconforto e levar a comparações com (e até mesmo inveja de) quem possui condições diferentes. Esse modo de pensar equivocado é comum no jovem brasileiro.78 Pondé afirma que essa é a geração dos ressentidos, “que pensam que todos deviam amá-los mais do que amam e que acham que todos deviam reconhecer neles os grandes valores que eles não têm”.79 Contudo, a doutrina da Trindade os ajuda a construírem sua identidade no fundamento correto, pois mostra que há mais de um modo de ser pleno (Cl 1.19; 2.9). Os membros da Trindade são pessoas distintas, no entanto, todos são iguais em essência. Uma pessoa não é a outra; ainda assim, as três pessoas possuem a mesma plenitude divina. Ou seja, na Trindade, a dignidade se mantém apesar das diferenças. De maneira semelhante, há inúmeros modos de um jovem cristão ser agradável a Deus, uma vez que o que o torna digno é o fato de Deus ter feito habitar nele sua plenitude, na pessoa do Espírito Santo (Cl 2.10). Portanto, à medida que esse jovem vive pelo Espírito (Gl 5.16), sua vida é agradável a Deus. Quando Deus nos estabelece em condições diferentes, ele não nos faz pessoas diferentes em valor ou dignidade. Assim como as pessoas divinas são funcionalmente diferentes ainda que iguais em essência, também nós, embora diferentes, podemos ser agradáveis a Deus. Portanto, é perfeitamente possível ser agradável a Deus independentemente das circunstâncias (casado, solteiro, empregado, desempregado, estudante etc.). As diferenças humanas foram estabelecidas pelo próprio Deus para refletir sua multiforme graça (1Pe 4.10). Diferentemente do conceito popular, Deus ama a diversidade que ele próprio criou. Nele, a diversidade não é empecilho, mas motivo de glória. Senso de Autossuficiência Deus nos ordena a amarmos e servirmos uns aos outros (1Jo 4.7; Gl 5.13). Vida cristã é uma vida de altruísmo demonstrado em amor sacrificial. Apesar disso, dados recentes comprovam que, embora 60% dos adolescentes sirvam na igreja, esse número cai para 30% entre jovens adultos.80 De fato, tem sido cada vez mais difícil encontrar jovens adultos dispostos a servir, especialmente quando entram na universidade e, subsequentemente, no mercado de trabalho.81 A Trindade ajuda nesse cenário, pois ensina a importante lição de que dar é receber. Tomemos como exemplo a relação entre o Pai e o Filho – Deus Pai entrega a si mesmo a Deus Filho. Ele não retém, mas compartilha tudo. Tudo que o Pai é – a completa e indivisível essência divina – ele compartilha com o Filho.82 O Pai se doa ao filho. Ao Filho, portanto, não falta nada daquilo que o Pai é. Toda a glória divina e majestade do Pai pertencem também ao Filho (Jo 3.35; 14.10; 16.15; 17.7,10). Isso, no entanto, não significa que o Pai, ao se doar ao Filho, sai prejudicado. Pelo contrário, apenas ao doar-se ao Filho é que o Pai existe como Pai. Se o Pai não se doasse ao Filho, então, o Filho não existiria; no entanto, se o Filho não existisse, tampouco o Pai poderia existir, já que não é possível haver um Pai a não ser que haja um Filho. É ao doar-se ao Filho que o Pai estabelece sua própria identidade como Pai. A mesma verdade pode ser dita acerca das demais relações intratrinitárias. Esse princípio se aplica aos seres humanos. Todo serviço cristão envolve entregar algo de nós (emocional, mental, física ou materialmente).83 No entanto, doar-se dessa maneira não nos diminui. Pelo contrário, nos engrandece. Nós fomos criados para refletir a vida da Trindade, e quando as pessoas da Trindade se doam, elas também recebem. Essa é uma das razões por que Cristo ensinou que “mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20.35). Senso de Solidão Muitosjovens sofrem com solidão, um problema que só aumenta à medida em que estes envelhecem.84 Estudos realizados na Inglaterra apontam que 53% dos jovens se sentem deprimidos por causa da solidão85 e 48% dos jovens entre 18 e 24 anos afirmam se sentir solitários na maior parte do tempo.86 A solução para essa “carência relacional” está na correta compreensão da Trindade. A Trindade apresenta um Deus relacional que, surpreendentemente, nos convida a desfrutarmos de relacionamento, intimidade e pertencimento com ele. Pai, Filho e Espírito Santo se relacionam entre si. Eles se amam e vivem em comunhão e comunidade. As pessoas da Trindade são amigas, e por isso Deus pôde nos tornar seus amigos (Jo 15.15; Tg 2.23; Is 41.8). Diferente de nós, que constantemente fazemos coisas que desejamos não ser expressão de quem somos, Deus sempre age de modo consistente com quem é.87 Porque Deus nos fez seus amigos, nós podemos ter certeza de que ele é amigo (enquanto permanece Senhor e Deus – cf. Jo 15.14-15). Quando Deus nos torna seus amigos, isso significa que ele é amigo.88 Deus nos tornar seus amigos e nos inserir em um relacionamento de amor, de perdão e de cuidado é algo insondável. E, ainda assim, é o que Deus faz. Dizer que ele é nosso amigo, portanto, não prejudica sua transcendência, mas respeita quem ele revelou ser. Porque as pessoas da Trindade são amigas entre si e porque Deus é nosso amigo é que podemos ser amigos uns dos outros. Isso é uma implicação de termos sido feitos à imagem e semelhança desse Deus.89 Assim como a Trindade mostra que Deus existe em relacionamento comunitário, nós só refletimos a imagem de Deus no mundo quando não vivemos em isolamento, mas quando vivemos em relacionamento uns com os outros (Gn 2.18; Ec 4.10). Precisamos de relacionamentos, inclusive (e em especial) porque pessoas irão nos rejeitar neste mundo caído, conforme o próprio Jesus ensinou. Em resumo, amizade reflete a imagem de Deus porque o Deus trino é amigo. Em um mundo marcado por distanciamentos, solidão e relacionamentos quebrados, a Trindade nos oferece recursos para realmente não estarmos sós. Viver de acordo com nossa criação à imagem do Deus trino é o contrário de viver isolado. Nosso chamado é para vivermos em comunidade, em suporte mútuo e de sermos uns pelos outros, não apenas fazermos coisas uns pelos outros. Nosso chamado é para termos e sermos amigos, especialmente no meio cristão (Gl 6.10). QUESTÕES RELACIONADAS À INTIMIDADE, SEXO E CASAMENTO Amor Abnegado e Sacrificial Na Trindade, temos um Deus que, em essência, ama (Jo 17.24). Reeves afirma que, antes de criar o universo, Deus sempre amou.90 Sempre existiu amor em Deus, ele é fonte de amor e não pode não amar.91 Portanto, porque Deus é amor (1Jo 4.8,16) é que ele pode se autocomunicar conosco em amor. O amor trinitário se manifesta na disposição de se doar pelo bem do ser amado (Jo 3.16; 14.31).92 Todo relacionamento amoroso humano só é significativo quando reflete o amor do Deus trino. É por isso que qualquer relacionamento romântico que se baseie em paixões oscilantes e em impulsos carnais, e não no amor, é o oposto do que Deus deseja para um jovem cristão,93 pois seu objetivo é extrair algo do outro e não se doar em função do seu bem. Por isso, também, é que o relacionamento amoroso de um cristão com um incrédulo sempre será disfuncional, pois este último não é capaz de amar conforme Deus sem conhecê-lo como o amor absoluto (1Jo 4.19). O Espírito Santo ensina o cristão a amar dessa maneira (Rm 5.5; Cl 1.8) e refina o amor de homem e mulher para que este reflita o amor trinitário. Equilíbrio Entre Unidade e Singularidade Na Trindade, o amor perfeito gera unidade completa (Jo 10.30), e essa unidade é o mais elevado e influente modelo para a unidade que jovens desfrutarão no casamento. Essa unidade irá além do sexo e se manifestará em várias dimensões do casamento. Envolverá cada cônjuge indo além de si mesmo e se doando pelo outro, gerando unidade entre pessoas equivalentes em dignidade, mas diferentes entre si. É em sua vida relacional que o casal manifestará unidade em meio às diferenças pessoais. Assim como ocorre na Trindade (Jo 14.28; 5.19), o amor entre homem e mulher deve uni-los sem destruir a singularidade. Os jovens deverão compreender suas características singulares e permitir que o outro tenha a liberdade de desenvolver seu potencial e os dons dados por Deus no casamento. No entanto, as singularidades devem ser incentivadas apenas se conservam os papéis bíblicos para cada cônjuge. No casamento, o marido ama sua esposa (Ef 5.25) enquanto exerce posição de autoridade espiritual sobre ela (Ef 5.23), ao passo que ela o respeita enquanto se submete à sua autoridade (Ef 5.22-24,33). Essas definições soam absurdas para a juventude atual, que tem sido orientada em direção a uma autoperspectiva equivocada desde tenra idade.94 Porém, quando consideramos a Trindade, vemos que o Pai ama o Filho (Jo 3.35; 5.20) e tem autoridade sobre ele, uma vez que foi o Pai quem o enviou (Jo 4.34; 5.36), assim como o Filho ama o Pai e se submete à vontade dele (Jo 14.31).95 Portanto, quando vemos a diferença funcional entre Pai e Filho e reconhecemos que isso não implica em diferença de natureza ou importância entre ambos, podemos aplicar isso ao casamento e reconhecer que a autoridade espiritual que o futuro marido terá sobre sua futura esposa em nada diminuirá a qualidade ou a importância dela. Entender os relacionamentos da Trindade econômica (i.e., enquanto se relaciona conosco) conforme revelado para nós nas Escrituras nos ajuda a entender melhor a diferenciação de papéis no casamento e como, a partir dela, surge a unidade.96 Intimidade e Permanência Dentro da Trindade, há profunda intimidade. Na teologia, a intimidade trinitária é chamada de perichoresis – a eterna coabitação (ou interpenetração) das pessoas da Trindade. No casamento, o ato sexual, mais do que experiência sensorial, é o ato supremo de intimidade. Ele aponta para a Trindade à medida que o casal, ao fisicamente entregar seus corpos um ao outro, se torna uma analogia física de Deus – duas pessoas coabitando (interpenetrando-se), formando apenas uma (Gn 2.24), assim como, em Deus, três pessoas coabitam e formam um único ser. Portanto, a santidade do sexo matrimonial reside no fato de que apenas no casamento é possível haver plena unidade, por aliança, entre as duas vidas, sendo o sexo a manifestação visível dessa unidade. Intimidade, no entanto, não se limita ao sexo. Intimidade é a construção de um relacionamento que permanece por toda a vida, baseada no conhecimento mútuo. No entanto, é apenas com uma consciência clara de si mesmo que alguém pode dar-se a conhecer, de fato. Muitos jovens conduzem namoros e contraem casamentos vivendo uma mentira – fingindo ser quem o outro deseja e não quem de fato é. Isso, com o tempo, mata a relação, pois mina a intimidade. Intimidade madura exige de cada cônjuge a convicção acerca de sua identidade pessoal e da sua responsabilidade com a verdade. Se a relação não se basear na veracidade, o resultado não será intimidade e esta se limitará a mera junção simbiótica de corpos humanos no ato sexual. Não é à toa, portanto, que tantos casais hoje preferem apenas desfrutar de intimidade sexual, sem necessariamente desfrutar da intimidade gerada pela vida matrimonial.97 Enquanto os relacionamentos trinitários são eternos, o relacionamento matrimonial deve ser permanente e durar até que a morte de um dos cônjuges o encerre. O compromisso de casamento deve ser irrevogável, como reflexo da inquebrável relação intratrinitária (Mt 19.6). Muitos jovens se casam hoje sem entenderem como a união do casal deve refletir a união trinitária, e se separam por motivos e valores mundanos.98 No casamento, um cônjuge só cumprirá o compromisso que assumiu com o outro, apesar das frustrações e limitações, se depender do referencialde permanência relacional da Trindade. Sem a resiliência demonstrada pela Trindade, o medo do que o compromisso pode exigir a longo prazo pode sobrepujar o impulso do casal em direção à permanência.99 Vale lembrar que, diferentemente das pessoas da Trindade, os cônjuges humanos sempre serão imperfeitos em si e em suas relações. Nenhum deles será aquilo que quer ser ou o que precisa ser. Ainda assim, a aliança de casamento diante de Deus permanece. Um ser humano expressa seu amor e fidelidade a Deus ao ser fiel a seu cônjuge, mesmo nos períodos de tensão.100 CONCLUSÃO A Trindade não é apenas a criadora da realidade, mas é o próprio eixo interpretativo dela. Aqueles que Deus chamou para serem seu povo devem, portanto, refletir o Deus a quem adoram no modo como interpretam e conduzem suas vidas. As relações intratrinitárias são um referencial seguro para a construção de um autoconceito equilibrado na juventude. A partir do relacionamento entre Pai, Filho e Espírito, o jovem cristão realinha sua perspectiva, lidando tanto com o senso de inadequação (causado por uma má compreensão acerca do que o torna digno) quanto com o senso de autossuficiência (causado por uma convicção distorcida de que é inútil se doar a outros). A Trindade também reconfigura o coração solitário do jovem, pois mostra que convida o jovem para uma relação de amizade. Por conta disso, este pode construir amizades significativas, especialmente com seus irmãos na fé. As relações intratrinitárias também auxiliam a juventude nas questões relacionadas à intimidade, ao sexo e casamento. O modelo fornecido por Pai, Filho e Espírito Santo ensina que o fundamento do relacionamento deve ser o amor abnegado e sacrificial em vez de carnalidade e paixões desordenadas; esclarece a diversidade de papéis na relação conjugal ao mesmo tempo em que fortalece a unidade, valorizando tanto a singularidade quanto a complementaridade. Por fim, a Trindade propõe que a construção de uma vida comunitária exige intimidade crescente e veracidade constante, de modo que a relação permaneça até que a morte os separe. Há outras áreas em que a Trindade reorienta os jovens, as quais exigem aprofundamento maior. Uma delas é a relação entre o envio do Espírito pelo Pai e Filho e como isso impacta o desejo de casais cristãos de terem (ou não) filhos, para serem instrumento de bênção ao mundo. De todo modo, as áreas abordadas aqui são suficientes para mostrar que é a partir do Deus trino que os jovens cristãos reinterpretam sua trajetória, e é apenas ao refletir esse Deus que passam a viver de modo pleno. PARA REFLEXÃO 1. Os cristãos são acusados por muitos de serem contra a “diversidade”. Como a doutrina da Trindade rebate essa acusação ao mostrar que Deus cria pessoas diferentes para sua glória? Como a diversidade, segundo Deus, é diferente da “diversidade” segundo a cultura vigente? 2. Como as relações de mútua autodoação das pessoas da Trindade fornecem um parâmetro para a frequência, contribuição e serviço dos jovens em sua igreja local? 3. “Em um mundo marcado por distanciamentos, solidão e relacionamentos quebrados, a Trindade nos oferece recursos para realmente não estarmos sós.” Como essa verdade deve impactar nossas amizades na era de relacionamentos virtuais, redes sociais e conexões digitais? 4. Como a equivalência em essência e a diferença de papéis entre as pessoas da Trindade ensinam maridos e esposas acerca da real natureza de sua relação no casamento? 5. Como os conceitos de autodoação e de coabitação entre as pessoas da Trindade devem impactar as concepções de amor, sexo e intimidade de um casal? CAPÍTULO 6 DICAS PARA UM CASAMENTO E UMA FAMÍLIA SAUDÁVEIS A TRINDADE COMO PRINCÍPIO FORMADOR, PARADIGMÁTICO E ORIENTADOR DA FAMÍLIA CREUSE P. SANTOS ENTÃO, A FAMÍLIA MORREU MESMO? De tudo o que Deus criou, talvez o que vem mais recebendo ataques em nossos dias é justamente a família. Vivemos num mundo onde se declara a morte da família,101 e há uma quantidade imensa de divórcios, até mesmo entre cristãos, como testemunho dessa realidade. Além disso, discussões como homossexualidade, identidade de gênero, poliamor, dentre outras, têm lançado ainda mais críticas ao que até hoje era chamado de família. Em muitas cidades brasileiras, escolas estão cancelando Dia dos Pais e Dia das Mães para substituí-los pelo Dia da Família, pois já é realidade definir como “família” a união de duas pessoas do mesmo sexo. E para que ninguém fique constrangido, o Dia da Família homenageia a todos, sem definir homem (pai) ou mulher (mãe) como no modelo anterior. Alguns ambientes públicos já têm banheiros unissex e já é possível ver nas ruas meninos que nasceram com o sexo masculino serem criados como meninas, vestindo roupas de meninas e desfilando com bonecas nas mãos. Mais recentemente, o governo brasileiro iniciou uma discussão sobre o reconhecimento civil do que vem sendo chamado de poliafetividade,102 ou seja, a união amorosa entre três pessoas. Além dessas questões, temos uma grande maioria de casais que decide se casar, mas não quer ter filhos para poder se dedicar à carreira, à profissão ou como dizem: “Viajar, passear e curtir a vida, sem filhos para atrapalhar”. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2014,103 realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, apenas 44,8% das famílias brasileiras são consideradas famílias tradicionais, compostas de um homem (marido), uma mulher (esposa) e seus filhos. Não é exagero se ainda adicionarmos, a essa salada mista, os animais, que atualmente são tratados como gente, e para muitos são membros da família. Segundo uma pesquisa atual do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 61% dos entrevistados consideram seus animais de estimação como um membro da família e gastam em média 184 reais mensais com seus pets.104 Já existe todo tipo de amparo para os bichinhos: salão de beleza, hotel, hospital, plano de saúde, esteticista, serviço de táxi, cemitério etc. As relações deixaram de ser duradouras e os vínculos familiares têm sido cada dia mais facilmente rompidos. Já é realidade no país existir mais uniões estáveis do que os tradicionais casamentos civis.105 Ou seja, basicamente, o novo conceito de família, que está sendo cada vez mais aceito socialmente e já é maioria no país, é: 1. Qualquer número de pessoas ou animais; 2. De qualquer gênero; 3. Que vivam no mesmo ambiente familiar ou não; 4. Podendo ter filhos ou não; 5. Que quando têm filhos, estes podem ser da relação atual ou de diversas outras, além de adotivos; 6. Que criam seus filhos sem preocupação de transmitir- lhes qualquer identidade de gênero. Portanto, a família não é mais reconhecida sequer pelos laços de ancestralidade ou grau de parentesco, tem prazo de validade, aceita até animais e, em geral, está unida em torno de uma criança.106 Vendo esse quadro sobre família, temos que nos perguntar: o que Deus acha disso? Como o fato de o homem refletir a imago dei pode dar alguma orientação nesse sentido? Sendo este um livro sobre a Trindade, como podemos avaliar a família à luz de um Deus trino? TRINDADE E FAMÍLIA No capítulo 3, vimos um vasto panorama histórico- sistemático do ser humano como sendo criado para refletir a imagem e semelhança de Deus, a imago dei. Essa definição deixa bastante evidente que, à luz da Bíblia, os parâmetros epistemológicos de definição de família que os cristãos devem assumir não vêm da sociologia, da psicologia ou até mesmo do que é aceito socialmente. Ou seja, aquilo que os cristãos devem aceitar como família vem do Criador e de seus propósitos criacionais, dentre eles o de revelar o próprio Deus. Deste modo, podemos afirmar, com base em Gênesis, que Deus é revelado em uma relação monogâmica e vitalícia, entre homem (masculino) e mulher (feminino), capaz de se reproduzir e ter filhos,que por sua vez devem refletir a imagem de Deus.107 A Trindade como Resposta ao Poliamor e ao Divórcio Podemos ressaltar que, ainda que Deus expresse pluralidade nas diferentes pessoas da Trindade, essas pessoas formam uma unidade indivisível. O casamento, ainda que envolva duas pessoas distintas, recebeu o decreto de que eles seriam “uma só carne”. Ou seja, a vontade primordial de Deus para o homem e a mulher é que o prazo de validade para o fim do casamento seja somente a morte, e não traições, ciúmes, dinheiro, e o mais famoso dos motivos, incompatibilidade de gênios. Assim como um Deus plural e indivisível, também deveria a união matrimonial plural (homem e mulher) representar essa indivisibilidade na figura de uma só carne no casamento. Nada deveria ser motivo de divórcio, como expressam as fortes palavras de Jesus: “Não foi assim desde o princípio” (Mt 19.8), e a reação dos discípulos: “Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar” (19.10). É claro que vivemos tempos difíceis e as pessoas enfrentam situações de pedofilia, de violência doméstica, de ameaças contra a vida etc. Em situações assim, é evidente que, para preservação da vida, é melhor a separação. Mas essas devem ser exceções. A regra é a indissolubilidade do casamento, que deveria ser preservado a todo custo, e, por isso, em nossas igrejas, o divórcio não deveria ser banalizado, sendo algo comum e normal. Como diz a famosa música “... é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”,108 as Escrituras descrevem que Deus é amor (1Jo 4.7-8). Isto é, o amor não é um simples sentimento passageiro, o amor não é uma emoção, o amor não é uma troca, o amor é uma pessoa: Deus. Ou seja, ele é a única fonte de amor verdadeiro e também o exemplo de amor (1Jo 4.10), por isso podemos afirmar que o amor jamais acaba (1Co 13.8). Um casal que quer fugir do divórcio deve estar fortemente apegado a Deus, manifestando assim a presença dele, em obediência a ele (1Jo 4.3), pois é esse amor que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Co 13.7). Esse amor não é uma opção pelo outro nem pelo que ele tem para oferecer, é uma opção por Deus, pelo amor que ele já ofereceu na cruz, é uma opção pela obediência, que muitas vezes vai contra todo sentimento humano; um amor que envolve morrer para si mesmo, como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. O casamento deveria ser um dos relacionamentos humanos que mais apontam para essa escolha incondicional, definitiva e inabalável de amar alguém até o fim da vida como Jesus amou (Jo 13.1). A Trindade como Solução para o Machismo e o Feminismo Também é importante notar que Deus expressa singularidade nas pessoas da Trindade, e cada uma destas pessoas tem funções diferentes. Deus também expressou isso ao criar dois seres distintos, que, apesar de plenamente iguais em termos de sua humanidade e dignidade, são completamente diferentes em funções. Por mais que o feminismo tenha surgido e queira lutar contra os fatos, é evidente que, desde a constituição física, até a espiritual, holisticamente, homens e mulheres são significantemente diferentes, e essas diferenças claramente apontam para funções diferentes. Adão não é auxiliador idôneo de Eva, nem Eva foi responsável pelo pecado entrar no mundo (Rm 5.12), ou seja, Deus fez Adão e Eva com funções diferentes. Jesus foi submisso ao Pai, como a mulher deve ser a seu marido; Jesus se sacrificou pela igreja para realizar a vontade do Pai, assim como o marido deve fazer por sua esposa. Ou seja, tanto a mulher quanto o homem, ao expressarem suas diferentes funções, expressam nuances distintas das diferentes pessoas da Trindade. A relação de exclusividade e mútua procedência da Trindade (pericorese) pode ser demonstrada no casamento através de um pertencimento mútuo, em que o homem pertence à mulher e a mulher ao homem (1Co 7.4), e em uma relação de exclusividade e fidelidade total, o que também nomeamos de monogamia: um homem com uma mulher, um para um, um de um, um com um. Essa monogamia expressa não só a natureza do casamento, como também a natureza daquele que os criou. Além disso, as relações intratrinitárias ensinam que, ainda que haja uma submissão funcional, como a de Cristo para com o Pai (e da mulher para o marido), isso, de nenhuma maneira, expressa que qualquer das pessoas da Trindade é superior à outra. Muito pelo contrário, Jesus e o Pai são um. Pessoas diferentes, mas de essência e existência igualitárias e unas.109 Jesus é tão Deus quanto o Pai, tão onisciente, onipotente, onipresente, autoexistente, eterno, soberano etc., participando igualitariamente em todos os atributos divinos com o Pai e o Espírito. E até mesmo aquilo que afirmamos da submissão do Filho ao Pai é algo limitado em expressar a realidade da Trindade. Pois a vontade do Pai é a mesma do Filho. Em última instância, Jesus, ao se submeter à vontade do Pai, se submeteu à sua própria vontade soberana. Ao mesmo tempo em que o Pai se submeteu a Jesus em aceitar a vontade dele, de não se apegar à condição de Deus e adentrar a natureza humana. Essa realidade é expressa no casamento, ou seja, se a mulher deve se submeter ao seu esposo, isso jamais deve ser feito contra sua própria vontade. Não é uma submissão imposta pela força, autoritária ou violenta, mas uma submissão voluntária, cheia da consciência de que é uma submissão baseada no amor sacrificial como o de Cristo pela igreja. Por outro lado, Paulo, em Efésios 5.21, afirma que essa submissão é mútua e recíproca, ou seja, o marido também deve ser submisso à sua esposa, e a forma como ele demonstra essa submissão é reproduzindo o serviço, humildade e sacrifício de Cristo, abrindo mão de si mesmo, morrendo para si mesmo e cuidando de como agradar a sua esposa (1Co 7.33). Sendo assim, a submissão da mulher deve ser uma submissão como a de Cristo a Deus Pai, e a submissão do homem deve ser como a de Cristo à igreja. Em ambos os casos Cristo se submeteu, e em ambos essa submissão implicava na cruz. Ou seja, tanto esposas quanto maridos devem se submeter “uns aos outros”. Isso significa abrir mão de si mesmos e de seus desejos, sofrendo o prejuízo para o bem do outro, para a honra do outro. E ainda existe uma última realidade, a submissão de Cristo unindo-se à igreja. Assim, quando homem e mulher se sacrificam “um ao outro”, eles se unem a Cristo, e assim, mais ainda, um ao outro. Essa realidade de submissão mútua destrói completamente as ideias de machismo e feminismo, que colocam o casamento num igualitarianismo, onde ambos consideram que têm “direitos iguais”, num conflito eterno para que seus direitos sejam atendidos. Pelo contrário, a Bíblia suplanta essa ideia quando nos leva a considerarmos o outro superior a nós mesmos (Fp 2.3-4). Assim, ambos são atendidos, não igualitariamente, pois não são iguais, mas são atendidos em suas vontades e necessidade individuais específicas. Ou seja, para sermos práticos, o homem carrega o peso, pois é muscularmente mais forte, doa o casaco no dia frio, pois tem mais pelos e pele mais grossa, vai à frente na escada, pois usa sapatos mais estáveis e tem mais força para sustentar a mulher em caso de queda. Ao mesmo tempo, a mulher, com sua sensibilidade e habilidade multitarefas, cuida da casa e dos filhos, e o faz muitas vezes até mesmo doente, pois é mais resiliente a uma gripe, que normalmente destrói os homens. Além de questões físicas, é fato que intelectual e emocionalmente também somos diferentes, e que mulheres são muito melhores que os homens em questões relacionais como comunicação e expressão de sentimentos, assim como homens, de forma reconhecida pelas mulheres, têm maior capacidade de liderança.110 Usei esses exemplos gerais, simples e corriqueiros (que em casos específicos podem apresentar incongruências), não como regras estabelecidas, pois cada sociedade tem seus padrões para feminilidade e masculinidade,mas para, dentro da cultura que estou inserido, demonstrar que ambos são fortes, mas também limitados em suas especificidades, e podem agir em complementaridade em vez de em competição, como o machismo e o feminismo pressupõem. Enfim, ao olharmos para a Trindade, temos esse padrão que ao mesmo tempo é de igualdade de ser e apresenta distinção no agir. Porém, esse agir nunca compete com o ser, pelo contrário, é a distinção no agir que complementa o ser, sendo que todo o agir individual visa ao bem e à exaltação do outro, e assim fortalecendo reciprocamente a unidade do ser. A Trindade e a Questão do Gênero e da Função Social Além de solucionarmos a questão do machismo e do feminismo, também ressaltamos a importância de enfatizarmos em nossas comunidades a distinção de gênero, ou seja, é bom ser homem, tanto quanto é bom ser mulher, e que homens e mulheres, apesar de apresentarem diferentes funções sociais, são complementares e têm fator preponderantemente igual para uma sociedade saudável. Essa realidade precisa ser ressaltada na sociedade brasileira, que em geral é matriarcal e tem uma alta porcentagem de lares apenas com mulheres como chefe de família.111 Muito desta realidade que atinge nosso país é fruto da desvalorização social do homem. É evidente que vivemos uma crise na masculinidade112 e perdemos o referencial masculino. Em geral, na sociedade brasileira, ou o homem é bruto e violento, predador sexual (muitas vezes tendo os próprios filhos como vítimas) e irresponsável, sendo uma figura inexistente na vida doméstica e na criação dos filhos, ou é um “banana de pijama”,113 dominado pela mulher, tendo basicamente o papel de contribuir apenas com uma porcentagem do sustento econômico da família, e em alguns casos, inclusive, invertendo-se completamente os valores criando o personagem social do “dono de casa”.114 Essa realidade não está longe das igrejas. As mulheres na igreja são a maioria, quase que sem exceções, demonstrando assim seu maior interesse por espiritualidade e relacionamento com Deus e com outros, e como consequência natural os homens estão gradativamente perdendo a liderança.115 Fato que é reflexo de que, na maioria dos lares, não são os homens os principais responsáveis pela vida e orientação espirituais da família. Na verdade, são os menos interessados pela leitura bíblica, oração, estudo da Palavra e participação nos programas da igreja, função que geralmente tem sido relegada às mulheres. Essa perda de referência da liderança masculina tem sido um dos fatores preponderantes para essa verdadeira epidemia social homoafetiva.116 Pois, se os homens são agressivos e predadores sexuais ou se são ausentes e uma carga a mais (quase que mais um filho sobre a responsabilidade da mulher), que mulher desejará tê-los como companheiros? Ou ainda, que meninos buscarão a eles como referencial de modelo a ser seguido? Foi o próprio Deus que disse: “Não é bom que o homem esteja só”. Essa fala é extremamente relevante, num contexto em que todas as afirmações de Deus acerca de sua criação são categóricas: “É bom”. A única coisa que não é boa é o homem sozinho, sem sua correspondente feminina. E não é bom justamente por não ser um reflexo completo. Deus diz da mulher: “Farei para o homem alguém que seja compatível (física e espiritualmente) e que o auxilie (complete – funcionalmente ou propositalmente)”, isso implica que, se ela é uma complementação, ela também não é completa em si mesma e precisa de sua outra parte. É o próprio Deus que deixa evidente que o “é muito bom” de Gênesis 1 está na pluralidade e na complementaridade de homem e mulher. Muito se tem dito da existência de homem e mulher buscando sua masculinidade e sua feminilidade em Deus.117 Isso é um erro, seja qual for o gênero escolhido. Grande parte desse erro reside no fato de relacionar imagem e semelhança com identidade, e não como representação. Deus não é nem macho nem fêmea, ainda que seja refletido na feminilidade e na masculinidade. Porém, algumas das tentativas de descrever o reflexo de Deus na masculinidade e na feminilidade acabaram por esbarrar em fatores sociológicos, que divergem de cultura para cultura (sociedades matriarcais ou sociedades patriarcais) e por isso acabaram se contradizendo. O grande problema dessa discussão é querer afirmar a imagem de Deus nos gêneros separadamente, como se fossem dois espelhos distintos, e como se o espelho fosse a imagem que ele reflete, identificando Deus ora com o masculino, ora com o feminino. Segundo minha percepção, esta é uma visão hermenêutica equivocada do texto bíblico, que define que a imagem de Deus é espelhada em homem e mulher juntos.118 Ou seja, o gênero masculino não é o espelho da imagem de Deus, nem o gênero feminino o é. Deus não é macho nem fêmea e, por isso, não pode ser identificado nos gêneros especificamente. É fato que homens e mulheres têm a mesma dignidade, pois refletem a imagem de Deus igualmente; também é fato que ambos têm pessoalidade (razão, intelecto, volição etc.), sendo distintos de todos os outros seres criados. Porém, há mais uma qualidade que precisa ser acrescentada, que é o relacionamento. Homem e mulher, por natureza, foram criados para comunicar a imagem de Deus juntos para a criação,119 pelo ato de dominar a terra e de multiplicar a imagem de Deus por meio de seus filhos. Sendo assim, o espelho da imagem de Deus é a união de homem e mulher: “... homem e mulher os criou”. Esclarecendo: o macho sozinho não reflete a imagem plena de Deus, e a fêmea sozinha também não reflete a imagem plena de Deus. Os dois juntos, no relacionamento conjugal, refletem quem Deus é de maneira especial. Portanto, é uma questão de gênero, no sentido de que, biblicamente, a imagem de Deus só pode ser comunicada e representada por meio de macho e fêmea, que são complementares e podem se reproduzir, e assim formarem uma sociedade que dominará a terra juntos.120 Desta forma, nunca poderemos, como cristãos, aceitar a ideia de chamar de família qualquer coisa que não reflita idealmente os seguintes pontos:121 1. Um macho com uma fêmea: expressando a pluralidade de Deus e a individualidade das pessoas da Trindade; 2. Deixando pai e mãe (casamento civil): expressando a unidade de Deus; 3. Unindo-se carnal e espiritualmente: expressando a unidade indissolúvel de Deus e o amor de Deus; 4. Podendo gerar filhos: expressando a capacidade criativa de Deus; 5. Dominando a terra: expressando a soberania mediada de Deus. Estou convicto de que essa definição e sua aplicação não só farão os seres humanos mais felizes, com casamentos mais duradouros e saudáveis, como também solucionarão problemas educacionais na criação de filhos, contribuindo para uma sociedade mais saudável em todos os sentidos. PARA REFLEXÃO 1. De que maneiras pensar na Trindade pode ser instrutivo para o casamento? 2. E, pelo contrário, em que devemos evitar usar a Trindade como metáfora para o casamento e a família? 3. Como a realidade da Trindade como padrão para entender o casamento e a família se choca com os conceitos atuais? 4. Usando este capítulo e o anterior como base, como podemos entender o celibato (de Paulo e Jesus, veja Mt 19.10-11; 1Co 7) e o casamento à luz da Trindade? Como você poderia favorecer amizades profundas que reflitam a Trindade, no seu contexto? CAPÍTULO 7 A TRINDADE E O CORPO DE CRISTO APRECIANDO UNIDADE E DIVERSIDADE IV IS COSTA FERNANDES Cada ser humano é singular em suas características pessoais. Tanta variedade também se reflete nos relacionamentos, pois as diferenças têm o potencial de separar. Por essa razão, existem várias denominações cristãs, muitas delas nascidas a partir de divisões decorrentes de vários tipos de diferenças. Tal realidade faz com que a comunhão e a cooperação entre essas igrejas sejam pequenas, diminuindo consideravelmente o impacto que os cristãos poderiam promover neste mundo. Nessesentido, a prática da igreja parece se distanciar da realidade do Deus trino que a criou. A unidade e a diversidade em Deus coexistem de maneira harmônica. Seria possível que a igreja refletisse algo dessa realidade divina? Será que a doutrina da Trindade pode, de alguma forma, orientar a igreja em seus relacionamentos, de modo que exista mais unidade no meio de tanta diversidade? Cremos que sim! Nosso objetivo neste capítulo é propor algumas reflexões iniciais sobre estas questões, que auxiliem a prática na igreja em relação à unidade e à diversidade. ELEMENTOS DA DOUTRINA DA TRINDADE Apesar de várias questões serem abrangidas pela doutrina da Trindade, nosso foco estará apenas nos temas de unidade e diversidade, por serem relevantes para abordar o assunto da fragmentação da igreja. A doutrina da Trindade pode lançar luz sobre esse tema, na medida em que o Deus criador de todas as coisas manifesta semelhante unidade e diversidade. Um aspecto essencial nesta discussão é a compreensão dos termos ousia e hypostasis, ou seja, natureza divina e pessoa. A posição firmada no Concílio de Constantinopla fala de “uma ousia [substância] em três hypostases122 [pessoas]”.123 O primeiro termo se refere aos chamados “universais” e o segundo, aos “particulares”. Nas palavras de Franklin Ferreira e Alan Myatt: “Os particulares são objetos concretos que existem como entidades individuais. Eles estão localizados numa região do espaço, num determinado momento. Os universais são entidades que se repetem, uma vez que o universal é demonstrado em todos os exemplos dos particulares do mesmo tipo. Assim, o conceito universal de cachorro é exemplificado em todos os cachorros individuais, ou seja, nos cachorros particulares”.124 Quando aplicada à Trindade, essa distinção impedia a alegação da existência de três deuses. Enquanto existe diversidade nas pessoas, a ortodoxia afirma a unidade de essência. Portanto, no que se refere à ousia (essência) existe unidade. No que se refere à hypostasis (pessoa) existe diversidade. Hypostases é um termo que faz referência à pluralidade de pessoas de Deus. Trata-se de uma diferença dentro do ser, sem que exista uma essência separada125. Cada uma delas é identificada, na Bíblia, como Pai, Filho e Espírito Santo e fazem parte do “ser único e não derivado de Deus”.126 As diferenças entre as pessoas da Trindade não são ontológicas, mas relacionais.127 Desse modo, embora sejam consideradas uma única essência (ousia), distinguem-se das demais pelas suas relações, o que torna cada pessoa (hypostasis) singular.128 Assim, o Pai é diferente do Filho na medida em que o primeiro eternamente gera o segundo (Sl 2.7; Hb 1.5-6; Cl 1.15,18). O Espírito distingue-se do Pai por ser dele procedente (Jo 15.26; Gl 4.6). O Filho e o Espírito distinguem-se entre si pelo seu relacionamento recíproco. O Espírito opera na concepção (Mt 1.18; Lc 1.35), ressurreição (Rm 8.11), vida e ministério de Jesus (Lc 4.1,18), enquanto Cristo promete e envia o Espírito (juntamente com o Pai, Jo 15.26) e é quem batiza com o Espírito (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16). Conforme destaca Franklin e Myatt, “o Pai, o Filho e o Espírito Santo são assim relações, no sentido de que o que quer que cada um deles seja, sempre o é em relação a um ou a ambos os demais”.129 A ousia, por sua vez, destaca a unidade existente em Deus. Essa unidade não é apenas de propósito, mas de essência.130 Essência é a qualidade do ser, que o faz ser o que ele é. No que se refere às pessoas da Trindade, a ousia que as caracteriza é a divindade que é apenas uma, com seus atributos incomunicáveis.131 As três pessoas não possuem uma natureza divina separada, mas compartilham de uma única e mesma ousia. Por isso é preciso falar em um único Deus e não em três deuses.132 Compreender a unidade (ousia) e a diversidade (hypostases) no Deus trino é de grande importância se pretendemos que a igreja reflita essas características de forma apropriada. A diversidade de Deus se manifesta em seus relacionamentos eternos, bem como em suas funções no plano redentor. Sua unidade, por sua vez, revela-se em sua essência divina e também em seu propósito e em seus pensamentos. Tal entendimento é relevante para a igreja, pois parece ser apropriado que a igreja reflita essa unidade e essa diversidade. RELACIONAMENTOS NA IGREJA Se cremos que existe em Deus tanto a unidade quanto a diversidade, é natural que as relações humanas criadas reflitam estes mesmos elementos.133 Uma vez que as Escrituras ensinam que a igreja foi estabelecida por Deus, a conclusão é que ela deve refletir estes aspectos em seus relacionamentos. Assim, indicaremos, de maneira breve, como vislumbres da unidade e da diversidade do Deus trino podem ser vistos na vida da igreja. Diversidade Cristã Não é preciso grande esforço para perceber a diversidade existente na criação. Por semelhante modo, essas distinções existem na humanidade e também no meio da igreja. Mesmo sendo parte de um só corpo em Cristo, ainda assim existem diferenças entre os membros. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, essa diferença não precisa ser algo ruim. Quando vemos a diversidade no meio de uma igreja, devemos ser gratos a Deus pelo fato de podermos glorificá- lo, refletindo um pouco da unidade e da diversidade do Deus trino.134 Em outras palavras, o que glorifica a Deus não é os cristãos serem todos iguais, mas o fato de se relacionarem com amor e harmonia apesar das diferenças. O problema é que o pecado faz com que as pessoas não lidem adequadamente com essas diferenças, o que acaba por resultar na separação. Embora aplicado num contexto diferente, Jesus afirma em Mateus 19.8 que é a dureza do coração humano para amar e perdoar que conduz à separação nos relacionamentos. A doutrina da Trindade deve orientar os cristãos a lidar com as diferenças que não sejam contrárias à unidade promovida pelo Espírito Santo. Elas refletem a diversidade existente no Deus trino. Por isso, as diferenças não devem ser suprimidas, mas valorizadas.135 Existe espaço para elas no meio do povo de Deus. Desse modo, é preciso cuidado para que os pastores e líderes não imponham a uniformidade na igreja. A liderança pode ser tentada a querer que a comunidade seja feita à sua própria imagem e semelhança, corrigindo e disciplinando aqueles que pensam diferente. Algo semelhante pode acontecer com os membros da igreja que não conseguem permanecer unidos por simples questões de diversidade na preferência do estilo de pregação, na condução pastoral ou simplesmente pela escolha da cor da tinta para a pintura da igreja. Um caso muito comum é a existência de desentendimentos e até mesmo divisões na igreja por causa do estilo musical no louvor. No entanto, a diversidade existente entre as pessoas pode ser uma grande demonstração do poder do evangelho. Existe uma tendência atual de pessoas em igrejas locais se organizarem por afinidades e características comuns. Porém, uma igreja assim apenas demonstra um fenômeno social. É o que acontece com pessoas que se reúnem apenas por terem algo em comum, como um grupo de amigos que se reúne para jogar futebol ou baralho, ou pessoas que saem juntas para andar de bicicleta ou moto. Esses grupos podem existir sem a intervenção divina. Contudo, pessoas com diferenças raciais, sociais, bem como de outras naturezas, vivendo amorosamente unidas numa igreja é uma clara manifestação do poder unificador do evangelho.136 O apóstolo Paulo fala sobre essa ação unificadora em sua carta aos Efésios ao mostrar que a obra de Cristo uniu grupos profundamente distintos entre si, como os judeus e os gentios (Ef 2.11-22). Mas é preciso considerar que diferenças são essas. Na Trindade existe diversidade de relacionamentos e funções. Espera-se diversidade da mesma natureza na igreja. Contudo, o que vemos são diferenças de preferências, crenças e propósitos, as quais não são encontradas no Deus trino.Desse modo, parece-nos que não é essa diversidade que reflete a Deus em sua plenitude. Nessas diferenças, portanto, deve-se buscar a unidade. Assim, quando a igreja diverge sobre o enfeite da classe do ministério infantil, é preciso que alguém esteja disposto a ceder em favor da unidade. Quando se trata de diferenças de crenças e propósitos, é fundamental que existam maturidade e paciência para que, juntos, estudem as Escrituras em humildade e oração, em busca da unidade. Contudo, mesmo que a unidade em crenças periféricas não seja totalmente alcançada, ainda é possível a comunhão, quando existe concordância nos elementos centrais da fé. Unidade Cristã Ao contrário do que muitos pensam, unidade no meio da igreja não exige uniformidade ou ausência de diferenças.137 Como destaca Carl Braaten, a unidade da igreja está baseada na Trindade.138 Fundamenta sua perspectiva em Efésios 4.4-6, onde o apóstolo Paulo afirma a unidade da igreja e cita, além de outros elementos unificadores, a existência de um só Espírito, um só Senhor e um só Deus e Pai. A unidade da igreja envolve relacionamento, reciprocidade e mutualidade entre seus membros numa amorosa comunidade de iguais.139 Dentro da igreja existem pessoas com diferenças em suas características, convicções, habilidades, formação, costumes etc. Contudo, elas são iguais em Cristo, o que deveria promover algum grau de união. Com efeito, em sua oração sacerdotal, Jesus ora para que aqueles que o Pai lhe deu fossem um, assim como o Filho e o Pai são um (Jo 17.21). É preciso considerar que tipo de unidade devemos esperar na igreja. Não podemos esperar, por exemplo, unidade em desvios doutrinários ou morais. Na Trindade houve, de uma forma que jamais poderemos compreender completamente, a quebra da unidade quando os pecados da humanidade estavam sobre Jesus (Mt 27.45-46). Desse modo, até mesmo com o Deus trino não houve unidade diante do pecado.140 Não podemos esperar que seja diferente com as relações humanas. O ensinamento bíblico é que o pecador não arrependido deve gerar quebra da comunhão (Mt 18.15- 17). Desse modo, não se pode tolerar heresias, desvios doutrinários e pecados sob o pretexto de viver em união. Além disso, na Trindade encontramos unidade de essência, pensamento e propósito. Em Cristo, o cristão já compartilha dessa unidade essencial pelo Espírito e pela Palavra. Na medida em que os cristãos agora são participantes da natureza divina (2Pe 1.4), todos eles também estão unidos numa mesma essência, apesar disso ainda não se manifestar em sua plenitude na presente era. Contudo, vemos profundas diferenças de pensamento e convicções. Parece-nos que a unidade neste aspecto deve ser buscada para refletir a relação trinitária. Essa busca deve se concentrar em certos elementos gerais. Ao tratar sobre o tema da unidade, o apóstolo Paulo afirma a existência de alguns elementos comuns gerais que unem os cristãos: um corpo, um Espírito, uma esperança, um Senhor, uma fé, um batismo, um Deus e Pai (Ef 4.4-6). O que precisamos é de parâmetros bíblicos para orientar a forma como lidamos com a unidade e a diversidade. AFIRMAÇÕES SOBRE UNIDADE E DIVERSIDADE Com base nessas compreensões sobre a Trindade, podemos fazer as seguintes afirmações sobre a unidade e a diversidade cristãs: 1. A diversidade cristã reflete a Trindade. Existe diversidade no Deus trino. Por isso a criação possui tanta variedade. O mesmo acontece dentro da igreja. Pessoas possuem histórico, aparência física, aptidões, preferências, dons etc. diversos entre si (Rm 12.4-8). Tudo isso reflete algo da diversidade trinitária. 2. A diversidade cristã reflete o poder do evangelho. Isso acontece porque a unidade no meio de grande diversidade apenas é possível por meio do poder do evangelho e não por subterfúgios sociais. É a salvação em Cristo que promove essa unidade (Jo 17.20-23). 3. A diversidade na igreja deve ser de natureza semelhante à da Trindade. Não nos parece apropriado afirmar que a diversidade trinitária autoriza qualquer tipo de diversidade no meio da igreja. Não se pode admitir, por exemplo, diversidade de condutas morais. De modo semelhante, deve haver uma busca ativa para solucionar as diferenças de preferências, crenças e propósitos, uma vez que as mesmas não existem na Trindade. Isso deve encorajar a igreja a buscar a unidade nestas questões. 4. A diversidade cristã não deve ser reprimida. Considerando que a diversidade na igreja é capaz de refletir a diversidade existente na Trindade, a implicação é que a mesma não deve ser reprimida. A analogia do corpo usada pelo apóstolo Paulo indica que na igreja também existe diversidade entre seus membros (1Co 12.12-27), a qual pode se manifestar em diferenças de raça, gênero, nível socioeconômico, idade, estado civil, formação acadêmica, dons, habilidades e preferências pessoais, dentre outras. 5. A unidade cristã é uma realidade espiritual. A unidade cristã é fruto da ação divina. Deus opera nos cristãos de modo que reflitam a unidade existente entre o Pai e o Filho (Jo 17.20-23). Nesse sentido, a unidade compreende uma realidade espiritual na qual todo cristão se encontra a partir de sua conversão, ao ser habitado pelo Espírito Santo e inserido no Corpo de Cristo. Entendida desse modo, a unidade não é algo a ser buscado, pois já existe. 6. A unidade cristã é uma prática de vida. Em outro aspecto, a unidade compreende uma prática da vida, na qual os cristãos permanecem juntos em comunhão. Tal compreensão parece coerente com o que o apóstolo Paulo afirma em Efésios 4.3-6, ao encorajar os cristãos a preservar a unidade. Em Cristo, os cristãos já possuem vários elementos que os unem. Entendida desse modo, a unidade deve ser preservada, refletindo, na prática, a realidade espiritual já existente. 7. A unidade cristã não exige igualdade. É comum as igrejas promoverem a comunhão em grupos formados a partir de afinidades e características iguais (faixa etária, estado civil, preferências pessoais etc.). Contudo, a unidade existente nesses grupos pode ser apenas um fenômeno social, que independe da ação de Deus. Nesse sentido, até mesmo grupos não cristãos podem apresentar certo tipo de unidade. É o que acontece, por exemplo, com aqueles que se reúnem regularmente para jogar futebol, andar de bicicleta, pescar etc. A unidade cristã, entretanto, é diferente, pois não depende de características comuns, mas do poder de Deus. A verdadeira unidade cristã é derivada de elementos espirituais comuns (cf. Ef 4.3-6), mesmo entre aqueles que possuem características e preferências pessoais totalmente distintas entre si. 8. A unidade cristã não será totalmente alcançada nesta era. Apesar de ser possível e progressiva, por causa do pecado a união vivencial entre cristãos apenas será plenamente realizada na era vindoura. Na prática, isso evita falsas expectativas de que as diferenças entre cristãos, como é o caso das barreiras denominacionais, serão totalmente superadas. 9. A unidade cristã deve ser buscada com práticas apropriadas para questões específicas. Questões essenciais:141 busca pela unidade. Inclui-se aqui tanto as questões morais quanto as doutrinas essenciais. Caso não sejam alcançados a unidade e o arrependimento, o melhor é que a separação aconteça para que desvios doutrinários e morais não contaminem o povo de Deus. Questões periféricas: busca pela unidade. Caso não seja alcançada, ainda é possível a unidade por meio da concordância com as crenças centrais.142 Fazem parte dessas questões os temas sobre os quais as Escrituras não fazem afirmações categóricas, como, por exemplo, formas de batismo e formas de governo.143 Questões de preferência: busca pela unidade através da disposição mútua em abrir mão dos próprios interesses em favor do próximo. São os temas para os quais as Escrituras dão plena liberdade de escolha, como o lugar onde será construído o prédio da igreja, se a igreja terá ou nãoum prédio, quais serão as ênfases ministeriais de uma comunidade cristã etc. 10. A unidade cristã deve ser buscada em elementos comuns gerais (Ef 4.3-6). Existem certos elementos que unem todos os cristãos. O apóstolo Paulo destaca esses elementos: um corpo, um Espírito, uma esperança, um Senhor, uma fé, um batismo e um Deus. Um dos problemas das divisões está no fato de se dar grande atenção às especificidades, firmando convicções sobre temas nos quais a própria Bíblia não faz afirmações categóricas. Uma possível implicação disso é que a formulação de confissões de fé mais abrangentes144 pode ser útil para promover a unidade entre igrejas para determinados fins, mesmo que cada igreja local ou denominação mantenha sua própria declaração de fé, que preserve sua identidade e suas convicções específicas. 11. A unidade cristã pode ser progressivamente alcançada quando os cristãos compreendem o seu propósito e papel. Deus tem um propósito comum para o seu povo, de ser glorificado através dele (Ef 1.9-12; 3.20-21). Também distribuiu funções e dons distintos à igreja, que permitem que o indivíduo coopere com o propósito. Compreender isso ajuda a viver em unidade e cooperação. Os diferentes propósitos e áreas de atuação de cada igreja, as diferentes habilidades, características e dons podem ser unificados quando se compreende que tudo isso deve ser usado a serviço de um propósito maior. Nesse sentido, a figura paulina dos membros do corpo cooperando entre si é pertinente à realidade atual. 12. A unidade cristã precisa estar em harmonia com a santidade. Desse modo, não se pode tolerar heresias, desvios doutrinários e pecados sob o pretexto de viver em união. Neste sentido, a igreja jamais pode ser inclusiva na perspectiva atual, que tende a aceitar as práticas homossexuais e outros comportamentos pecaminosos que não condizem com o padrão moral de Deus. Assim, após considerar a natureza da unidade e diversidade existentes em Deus, pudemos refletir acerca de alguns desdobramentos para a vida da igreja. Cremos que uma unidade e uma diversidade, orientadas pelas afirmações apresentadas acima, podem conduzir a igreja a uma prática que reflete, de forma limitada mas progressiva, a unidade e a diversidade existentes no Deus trino. CONCLUSÃO A realidade nos mostra que a igreja muitas vezes não sabe o que fazer com a diversidade nem como buscar a unidade prática. Nesse sentido, compreender a doutrina da Trindade é relevante na medida em que nos mostra como o próprio Deus vive em unidade e diversidade, embora em perfeita harmonia. Uma vez que a igreja é uma criação do Deus trino, nada mais natural que possua a capacidade de refletir essa mesma unidade e diversidade, embora de maneiras distintas e limitadas. Entendida dessa forma, a diversidade deve ser vista como algo positivo, que glorifica a Deus. De modo semelhante, a unidade prática deve ser desejada e preservada. Para isso, compreender a unidade da essência e da diversidade real das três pessoas fornece um direcionamento. Em sua essência santa, Deus é um só. Também é uno em seus pensamentos e em seu propósito. Espera-se que a igreja também busque a unidade nesses aspectos. Por outro lado, em sua subsistência, Deus é trino. Nele existe diversidade de relacionamentos e de funções. Devemos esperar o mesmo tipo de diversidade na igreja. Lidar com a unidade e a diversidade dessa forma pode parecer um alvo utópico para muitos. Certamente o padrão é perfeito, pois é fundamentado num Deus sem limitações ou defeitos. No entanto, é da vontade do Senhor que seu povo busque esse ideal, confiante na graça divina. É possível nos aproximarmos gradualmente desse padrão e refletir um pouco do Deus trino para um mundo que não sabe como lidar com a diversidade nem o que é a verdadeira unidade. Como igreja de Cristo, prossigamos nessa busca até aquele dia em que desfrutaremos disso plenamente. PARA REFLEXÃO 1. De que forma a ênfase na tolerância à diversidade em nossos dias pode ultrapassar os limites da diversidade existente na Trindade? 2. Quais afirmações sobre unidade e diversidade precisam ser mais bem compreendidas e aplicadas em sua igreja? 3. De que forma sua igreja poderia melhor usufruir da diversidade nela existente? Como isso poderia refletir o Deus trino? 4. Com base nos princípios apresentados no capítulo, de que forma prática você pode contribuir para a unidade em sua igreja? CAPÍTULO 8 A TRINDADE E A IGREJA LOCAL ASPECTOS DA IMAGEM DO DEUS TRINO COMO MODELO PARA OS RELACIONAMENTOS INTERNOS DA LIDERANÇA NA IGREJA LOCAL MARCELO DIAS As lideranças de igrejas, por diversas razões, raramente têm um bom relacionamento entre si. Esse fato prejudica o propósito de Deus para sua igreja, conduzindo membros a um estilo de vida que não desfruta da abundância oferecida por Deus. Este capítulo apresenta três atributos da Trindade – ela é pessoal, amorosa e santa – como modelo que guiará os relacionamentos interpessoais de toda liderança de modo a promover conformidade à imagem de Deus e modelar tal estilo de vida para a igreja. Ao promover uma liderança piedosa e exemplar, serão minimizados escândalos entre cristãos e não cristãos, e a igreja refletirá com mais eficácia a glória de Deus. Para isso, serão abordados atributos comunicáveis do Deus trino e como eles afetam o relacionamento intratrinitário. O padrão encontrado no relacionamento da Trindade, por sua vez, será relacionado com as exigências de Deus para aqueles que almejam o episcopado (1Tm 3.1). Por fim, tendo em vista que a liderança eclesiástica é modelo para seu rebanho (1Pe 5.3), serão apresentadas sugestões para o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis de uma liderança local, de modo a modelar também os relacionamentos entre os cristãos. É fato que muitos pastores da liderança brasileira, tanto titulares quanto auxiliares, não refletem o caráter de Deus em suas vidas. Não lidam com seus desejos de receber glória e de exercer a primazia na igreja (3Jo 9). Como consequência, pastores titulares tratam seus companheiros de ministério como empregados que estão ali para servir a eles e não a Deus. Por outro lado, jovens pastores, com os mesmos desejos pecaminosos, agem com leviandade e armam ciladas contra seus colegas de ministério a fim de tomarem seus lugares nas igrejas. A RESTAURAÇÃO DA IMAGEM DE DEUS NO HOMEM O Deus trino criou o homem à sua imagem (Gn 1.26-27),145 o qual deveria espalhar-se sobre a terra (Gn 1.28). Isso implicaria espalhar também a imagem de Deus. Sua imagem no homem significa que as características comunicáveis146 do Deus trino lhe foram doadas na criação. Pela própria natureza do infinito Deus, muitos de seus atributos não foram compartilhados com o ser humano. Os atributos comunicáveis encontram-se no ser humano dentro de certos limites, isto é, estão restritos por nossa própria natureza de seres criados. O pecado do homem desfigurou a imagem de Deus nele. Isso o separou de um relacionamento íntimo com seu Criador, tornou-o seu inimigo (Rm 5.10) e concedeu-lhe uma indisposição natural no que diz respeito a Deus (Ef 2.1; Tt 3.3). O ser humano, nessa condição, passou a viver antropocentricamente ao invés de teocentricamente. Desde então, o Deus trino vem executando seu plano para a restauração de sua imagem no homem (Gn 3.15; Rm 8.29; 2Co 3.18). Essa restauração se inicia quando alguém crê em Jesus como seu único e suficiente Salvador (Rm 1.16; 10.9- 11) e se completará no momento da transformação do corpo corruptível em incorruptível (1Co 15.50-54). Nesse intervalo, acontece o processo de santificação, e é por meio dele que Deus vem restaurando sua imagem na vida de seus filhos. Além disso, esse processo é um instrumento de Deus para refletir sua imagem aos que não creram (2Co 5.17-21), tornando-se, assim, uma ferramenta do Espírito para atraí-los ao evangelho (Tt 3.1-7). O RELACIONAMENTO INTERPESSOAL NA TRINDADECOMO MODELO PARA O RELACIONAMENTO INTERPESSOAL NA LIDERANÇA Deus É Infinitamente Pessoal e Relacional A existência da Trindade consiste numa evidência da pessoalidade de Deus. Francis Schaeffer afirma que “dentro da Trindade, antes da criação de qualquer coisa, havia [...] real comunicação”.147 As Escrituras demonstram a pessoalidade de Deus por meio das interações entre Pai, Filho e Espírito. O uso da primeira pessoa do plural, “nós”, tanto em pronomes quanto em verbos, sugere um relacionamento intratrinitário (Gn 1.26;148 3.22) diante da revelação do Novo Testamento e como os pais da igreja primitiva afirmaram. Essa pessoalidade é demonstrada também por meio da participação conjunta em suas obras e propósitos. O Espírito participou da criação (Gn 1.2). Semelhantemente, o Filho também participou (Jo 1.3; Cl 1.16). Em Mateus 3.16-17, no batismo de Jesus, o Pai e o Espírito estavam presentes autenticando o início de seu ministério. Em Atos 7.55, o Espírito fez Estêvão contemplar a glória do Pai e do Filho antes de seu martírio. Em Atos 10.38, Pedro afirma que, quando o Pai estabeleceu o Filho para sua missão, concedeu-lhe o Espírito, e o Filho fez tudo “porque Deus era com ele”.149 A busca e a interação do Deus trino com o ser humano demonstram sua pessoalidade. Desde a criação, Deus escolheu se relacionar com o homem (Gn 3).150 Agiu com bondade (Gn 1.29-30). Afirmou que não era bom o homem estar só, da mesma forma como o Deus trino não estava (Gn 2.18). Deus falou com Agar (Gn 16), com Abraão (Gn 12,15,17–19,22) e com Jacó (Gn 32,35,46). Ele conversou com Moisés (Êx 3; 19.19) e falou com profetas (1Sm 3; Is 5.9; Jr 1.7). A encarnação de Jesus e toda sua vida demonstram um Deus pessoal (Evangelhos). O Espírito falou com Felipe (At 8.29), com Pedro (At 10.19; 11.12), com os profetas e mestres de Antioquia (At 13.2) e afirmou a Paulo que ele passaria por tribulações (At 20.23).151 Assim também a habitação do Espírito naqueles que creram (Rm 8.11),152 bem como a possibilidade de entristecê-lo (Ef 4.30) e ofendê-lo (Hb 10.29) manifestam o ser pessoal – enfim, tripessoal – por toda a eternidade. Assim, o Deus trino é inerentemente relacional. O ser divino se relaciona intensamente entre si, além das três pessoas trabalharem juntas com o mesmo propósito. Desde a criação, este Deus se aproxima intencionalmente do ser humano para se relacionar também com ele. A Trindade e os Relacionamentos na Liderança Eclesiástica Jaime Kemp afirma: “Observo que grande porcentagem de pastores brasileiros não tem amizades profundas, compromissadas. Infelizmente, em alguns casos nem mesmo suas esposas são suas amigas”.153 Minha percepção é que líderes de uma mesma igreja geralmente se relacionam muito pouco entre si. Seus relacionamentos são apenas “profissionais”. Suas conversas e interações visam estritamente a ações e planejamentos ministeriais. Embora esse tipo de relacionamento seja útil e importante, o modelo apresentado pela Trindade não se restringe às relações ministeriais. Pelo contrário, relacionamentos precisam ser intencionais e promover o bem do outro, repartindo com outros sua própria vida. Isso não significa que todas as pessoas devem ter a mesma proximidade, mas estarem abertas para isso é de grande importância. Em razão de sua natureza, um dos círculos íntimos de amizade do líder precisa ser a liderança ministerial. A igreja é liderada por presbíteros154 que precisam ter o mesmo propósito,155 as mesmas convicções bíblico-doutrinárias e um estilo de vida exemplar. Essas áreas serão alcançadas e solidificadas também por meio da intimidade e da confiança mútua suficientes para líderes abrirem seus corações e receberem ajuda uns dos outros nas tentações, nas lutas e nos sofrimentos, sem o medo de serem condenados, usados, “apunhalados pelas costas”, enganados ou feridos. Comunhão é relacionamento que produz vida espiritual, é participar da vida do outro com o propósito de conformarem-se à imagem de Cristo. Isso se dá porque imita o relacionamento intratrinitário, que é sempre benéfico para o outro.156 A aproximação intencional que usa o caráter de Deus como critério produzirá grandes benefícios para aqueles que se engajam na vida de comunhão. Provérbios sugere a busca de relacionamento interpessoal como reflexo da sabedoria (Pv 18.1), no entanto, isolar-se ou mesmo ter relacionamentos superficiais dentro de uma liderança demonstra propósitos à parte do caráter do Deus trino. Kemp diz que “o homem, quando no pastorado, enfrenta pressões e estresses que demandam ser compartilhados com amizades profundas”.157 É possível afirmar que amizades profundas são muito importantes porque significam modelar as relações a partir do relacionamento intratrinitário. Schaeffer afirma: “Porque eu sou feito à imagem de Deus e porque Deus é pessoal, tanto um relacionamento pessoal com Deus quanto o conceito de comunhão, como também o companheirismo, têm validade”.158 Ao mesmo tempo, a maioria das igrejas locais se estrutura com um pastor principal e outros pastores auxiliares. Historicamente, os padrões hierárquicos da Igreja Católica, as Igrejas Ortodoxas Grega e Orientais e a Igreja Anglicana refletem o esquema sacerdotal do Antigo Testamento. Alguns veem nisso a maneira de atuar paralela com a própria Trindade econômica (vista na história da salvação), com a prioridade do Pai e a submissão do Filho e do Espírito Santo.159 Várias denominações protestantes tradicionais e igrejas carismáticas seguem estruturas semelhantes. Outras igrejas evangélicas e livres buscam uma pluralidade de liderança mais equilibrada, dividindo a atuação ministerial entre os líderes conforme os dons espirituais, habilidades e experiência pastoral. Independentemente do modelo da liderança, o amor mútuo na Santa Trindade – a Trindade ontológica (imanente) – é modelo a ser seguido nos relacionamentos de cada liderança local. Dessa forma, ela refletirá o amor e a santidade num mundo devastado pelo pecado. Tendo em vista o modelo da comunhão intratrinitária, sugiro duas ações para a prática da liderança: • Aproximar-se gradativa e intencionalmente dos líderes com quem se divide o ministério. Separar momentos na agenda para encontros informais e lazer, com e sem a presença das famílias. • Começar paulatinamente a compartilhar dificuldades, lutas, sofrimento etc. Começar com assuntos mais simples e, à medida que a amizade se intensifica e a confiança aumenta, compartilhar assuntos mais difíceis e íntimos. Quando a liderança tem um pastor titular ou pastor principal na igreja local, é especialmente importante que ele incentive um ambiente de verdadeira comunhão. Quando ele se abre, ele começa a criar espaço para os outros. É claro que isso é um processo, e um processo com risco. Mas isso inicia passos para confessar as nossas incertezas, fraquezas, medos e até pecados. Nem tudo é dito no início. Conte com a confidencialidade dos outros (alguns fazem até um voto de confidencialidade). Tudo é mantido no círculo da liderança, menos o que exige disciplina na igreja ou até processo jurídico. Os líderes se preocupam uns com os outros para que todos cresçam. Assim, há mútua e saudável prestação de contas e cada um contribui com a formação do caráter de Cristo na vida do outro. O AMOR INTRATRINITÁRIO COMO MODELO PARA O AMOR INTRALIDERANÇA Deus É Amor As Escrituras afirmam que Deus é amor (1Jo 4.8,16). Tal declaração sugere que a maneira como as três pessoas agem uma para com as outras é fruto de sua própria essência. Deus ama porque é amor. Para Ryrie, “essas afirmações não refletem propriedades de Deus (isto é, Deus é... amoroso), mas demonstram aspectos essenciais de sua natureza [...] Ele é amor independentemente de qualquer oportunidade [ad extra] de expressá-lo”.160 O Deus trino é amor eternamente. Pai, Filho e Espírito sempre se amaram porque amar faz parte da natureza de Deus, e expressar deliberadamenteesse amor é característico de cada pessoa divina. As Escrituras revelam esse amor mais diretamente entre o Pai e o Filho, provavelmente pela função de cada pessoa da Trindade: o Pai ama o Filho (Jo 3.35; 5.20; 10.17; 15.9; 17.23-24,26) e o Filho ama o Pai (Jo 14.31; 17.4). O amor intratrinitário foi a base para o amor de Deus pela criação e por suas criaturas. Michael Reeves demonstra que o Pai sempre amou o Filho (Jo 15.9) e que a criação foi um transbordar desse amor.161 As Escrituras declaram abundantemente o amor do Pai por suas criaturas.162 Sua expressão máxima foi dar seu Filho para morrer (Jo 3.16). Da mesma forma, o Filho também amou os homens e as mulheres (Jo 13.34).163 Semelhantemente, o Espírito ama o ser humano. Todavia, o amor como atributo do Espírito em geral não está abertamente declarado (cf. Rm 15.30164), mas é possível demonstrar o amor do Espírito por meio de inferências. Ele é o agente do amor do Pai (Rm 5.5) e quem produz o amor naqueles que vivem sob seu controle (Gl 5.18,22). Ações do Espírito, tais como regenerar (Tt 3.5), capacitar (At 1.8) e santificar (Gl 5.22-23)165 o homem, acontecem em prol do seu bem e sugerem amor. Sendo Deus, é também inegável que o amor seja uma característica inerente ao Espírito, pois o Pai está no Filho, o Filho está no Espírito e o Espírito está no Pai. Conforme Agostinho e a tradição ocidental, o Espírito é o amor do Pai para o Filho, e o amor do Filho para o Pai – o dom mútuo que unifica a Trindade. Refletindo o Amor Intratrinitário na Liderança Eclesiástica O modelo do amor de uns para com os outros procede tanto do amor intratrinitário (Jo 15.12; 1Jo 4.7-8) quanto do amor divino expressado por suas criaturas (1Jo 3.16; Jo 15.9). Esse amor é o fundamento da obediência (Jo 14.15,21,23- 24; 15.10) e expressa a ação divina na vida de seus discípulos (Jo 13.35). Sua marca é a abnegação e sua expressão maior é a entrega sem restrições para o bem maior do outro (Jo 3.16; 15.13). Ele não é uma opção (Jo 15.12,15); pelo contrário, a comunhão com o Deus trino exige amor pelos irmãos (1Jo 2.10). Jesus afirmou que seus discípulos seriam conhecidos manifestando amor uns pelos outros (Jo 13.35). Tais palavras sugerem que a liderança seja exemplo, pois elas foram primariamente dirigidas aos primeiros líderes da igreja, os apóstolos. Cada líder deve expressar o exemplo de amor um para com o outro de modo que suas ovelhas aprendam observando. “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2-3, ênfase acrescentada).166 Alguns líderes podem tratar bem suas ovelhas, mas maltratar os seus companheiros de ministério. Essa incoerência pode indicar amor não genuíno, acepção de pessoas, desejo de controle e poder e até ciúmes. Outros, todavia, podem usar suas capacidades como meios de manipular e exercer a primazia sobre outros, ganhar popularidade e dinheiro. Exercitar o amor pelos companheiros de ministério mantém o foco no lugar certo e protege a liderança de disputas e contendas. O amor produz alegria quando o outro é elogiado e é bem- sucedido na realização de um programa. Por outro lado, o foco em si mesmo torna líderes em “Sauls”, com ciúmes e desejo de manter-se no topo do poder e da popularidade (1Sm 18.6-9), pois “a natureza humana é influenciada pelo desejo de obter poder”.167 O amor conduz o homem a sair do caminho para outros passarem, mas a falta dele o faz atropelar tudo o que está à sua frente para se sobressair e ser beneficiado. A consideração/amor pelos companheiros de ministério precisa acontecer mesmo que entendamos ser piores ou melhores do que eles. É importante que se entenda que a dinâmica do corpo de Cristo comporta diferentes capacidades em diferentes níveis, sem contudo tornar alguém maior ou melhor por isso (1Co 12.12-27). Após um encontro para aprofundar o relacionamento com algum companheiro de ministério, é prudente fazer uma análise do próprio coração para discernir a eventual presença de barreiras, indisposições e/ou indiferença. Entender-se melhor ou superior é uma demonstração clara da falta de amor. Quando alguém se foca em si mesmo, perde a essência do próprio Deus de vista. O amor como modelo intratrinitário pode sugerir certas ações iniciais para cada indivíduo: (1) agendar uma tarde para meditar e orar sobre o amor e a sua expressão prática na vida dos companheiros de ministério; (2) após um encontro para aprofundar o relacionamento com algum companheiro de ministério, sondar o próprio coração para discernir a eventual presença de barreiras, indisposições e/ou indiferença; (3) avaliar como cada um se sente com as vitórias e elogios (ou derrotas e críticas) dos outros; (4) acertar-se com Deus (1Jo 1.9) e, se preciso, com o irmão. A SANTIDADE INTRATRINITÁRIA COMO MODELO PARA A SANTIDADE INTRALIDERANÇA Deus É Santo A própria declaração de Deus – “eu sou santo” (Lv 11.44) – já é suficiente para afirmar sua santidade, mas declarações da santidade de Deus são frequentes nas Escrituras.168 Ele é designado como luz (1Jo 1.5), o que estabelece o contraste entre ele e as trevas (o mal). Ele é Pai das luzes (Tg 1.17), em paralelismo com “boa dádiva” e “dom perfeito”, o que indica que tudo aquilo que vem do Senhor é puro, santo. Nada em Deus é mau, e tudo em Deus é bom, e isso reflete sua santidade. Carlos Osvaldo Pinto diz que a santidade de “Yahweh significa sua separação do mal em toda e qualquer de suas formas”.169 O salmo 16, um salmo messiânico, declara que o Messias é santo (Sl 16.10).170 Sua santidade, embora não reconhecida pelos israelitas, é declarada pelos demônios (Mc 1.24) e pelos cristãos do início da igreja (At 4.27,30). Hebreus afirma que o Filho, embora tivesse passado por tentações, manteve-se puro, santo, sem pecado (Hb 4.15). O Espírito é designado como Santo em três ocorrências no Antigo Testamento. No Novo Testamento, ele é denominado “Espírito Santo” mais de 90 vezes. Sua ação santificadora é iniciada na própria salvação e se mantém por toda a vida dos que creem em Cristo, o que sugere sua santidade (2Ts 2.13; 1Pe 1.2). Uma Liderança Santa: Reflexo da Santidade do Deus Trino Ferreira e Myatt afirmam que Deus estabeleceu “sua própria santidade como padrão moral que devemos imitar”,171 o que pode ser observado nos dois Testamentos.172 A santidade dos cristãos é tanto uma posição quanto um processo (Mt 6.9; 1Co 1.2; 6.11; Hb 10.14). Deus chamou seus filhos para a santidade e deseja que vivam nesse processo (1Ts 4.3-4,7). E, da mesma forma como o amor, a santidade de Deus deve ser imitada por suas criaturas, independentemente da situação em que se encontram. Pedro citou Levítico para seus leitores num contexto de perseguição e tristezas (1Pe 1.6-11). A esperança de encontrarem-se com Cristo, o seu exemplo (1Pe 1.11) e seu justo juízo futuro (1Pe 1.17) eram a motivação para se adequarem à ordem de imitar o Deus trino (1Pe 1.15-16). Vivemos num país onde a frouxidão moral geralmente é a norma de vida. O indivíduo não se preocupa com certo ou errado, a não ser que isso afete a si mesmo. Assim, a cultura onde o “importante é ter vantagem” é encontrada também nas igrejas cristãs. Não seria diferente no caso de muitas lideranças eclesiásticas no Brasil. Embora as Escrituras tenham critérios claros para o estabelecimento de líderes e a permanência deles na liderança (1Tm 3.1-15; Tt 1.5-9; 1Pe 5.1-4), poucos líderes sequer estudaram tais qualificações. Estão mais preocupados com o desempenho do que com a santidade. Mas John Jowett afirma: “Podemos vir a supor que falar bem é viver bem, que a habilidade expositiva é piedade profunda, e enquanto abraçamos afetuosamente o não essencial, escapa-nos a genuína essência”.173 Não é de surpreender, então, que muitoslíderes briguem entre si, dividam igrejas, machuquem a liderança, suas famílias e muitas ovelhas. É grande a incidência de pastores que adulteram com suas ovelhas, que são viciados em pornografia ou em jogos na internet, são iracundos, dominadores, apegados ao dinheiro, obstinados de opinião, mentirosos e complacentes com o pecado (o que é diferente de ser compassivo, perdoador). É natural que muitos filhos de pastores nem queiram saber do ministério. Outros vêm para o seminário e abrem seus corações dizendo que seus pais são pessoas diferentes em casa e na igreja. Não é de se admirar que disciplina é uma palavra quase que abominável na igreja, pois ou há “tratamento” sem sabedoria e muita dureza, ou fecham-se os olhos para não perder um dizimista, sem ter alguém que cobre a santidade dos pastores. A lista poderia continuar, mas o que não pode ser esquecido é que o relacionamento com Deus e a santidade cultivados hoje não garantem a piedade e a proximidade com ele amanhã. Todo dia é um dia de relacionamento e de buscar santidade. Diante da santidade do Deus trino, faz-se necessário imitá- lo e mudar tanto o coração quanto o comportamento, cumprindo a razão de ser santo. Como é que o cristão pode crescer em santidade? 1. Avaliar diariamente o coração para certificar-se de que não há impedimentos no relacionamento pessoal com Deus e se há necessidade de perdoar um companheiro cristão; 2. Desenvolver hábitos que protejam a mente, de modo a pensar nos princípios bíblicos (Sl 1; Fp 4.8; Sl 119.11,15- 16); 3. Fazer amigos íntimos (especialmente na liderança) que promovam o temor, a piedade e a santidade; 4. Tratar a indisposição do coração diante de críticas. CONCLUSÃO O homem foi criado à imagem do Deus trino com o propósito de encher toda a terra com ela. Essa imagem foi manchada pelo pecado, fazendo-se necessária sua restauração. Essa restauração tem sua base na obra de Jesus Cristo, o Deus Filho. Por meio dela o Deus trino age com o propósito de restaurar sua imagem no homem. Esse processo nada mais é do que conduzir o homem a ser novamente o que ele deveria ser: espelho da imagem de Deus. Deus estabeleceu sua igreja como um agente para transformação do ser humano à imagem de Cristo. Estabeleceu líderes para ajudarem os santos e santas nessa tarefa. E, enquanto ajudam suas ovelhas, líderes se tornam e modelam a imagem de Deus. No entanto, a liderança eclesiástica moderna tem deixado de focalizar em seu propósito para se concentrar em resultados numéricos e antropocêntricos. A busca da conformação com a pessoalidade, o amor e a santidade de Deus ajudará líderes a modelar a imagem de Deus para suas ovelhas. Assim como Pai, Filho e Espírito desejam. PARA REFLEXÃO 1. O que a igreja local pode fazer para discernir possíveis rupturas nos relacionamentos de seus líderes? 2. Como os líderes (incluindo o pastor titular ou principal) podem iniciar e modelar a comunhão trinitária para a igreja? 3. Quais são os perigos de uma comunhão íntima, seja na liderança ou na comunidade maior da igreja local? Há limites? Explique. 4. Como a igreja pode ajudar seus líderes a serem mais íntimos, transparentes e humildes uns com os outros e requerer esse comportamento de outros chamados líderes da igreja? CAPÍTULO 9 AO QUE DEUS NOS CHAMA? TEOLOGIA DA PROSPERIDADE À LUZ DA DOUTRINA DA TRINDADE GARY WAYNE PARKER “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males” (1Tm 6.10). Essa severa advertência do apóstolo Paulo ao seu mentoreado, Timóteo, estabelece um princípio importante que deve alertar todos os crentes sobre os perigos do amor ao dinheiro. Ganância e ingratidão parecem brotar naturalmente nos corações das pessoas depois da Queda (Gn 3), mas contentamento e gratidão precisam ser cultivados. Especialistas em marketing entendem esse princípio e se esforçam para vender seus produtos, apelando para a insatisfação e o desejo por mais que se alojam em nosso interior. Infelizmente, muitas igrejas “comercializam” o evangelho prometendo às pessoas prosperidade proporcional às suas contribuições. A teologia da prosperidade atrai multidões apelando para a ganância do homem. É perigoso construir uma igreja sobre o ensinamento de “que a piedade é fonte de lucro” (1Tm 6.5). O que a doutrina da Trindade informa à teologia da prosperidade? Essa é a questão que este capítulo procura responder. Uma breve história e uma visão geral das crenças da teologia da prosperidade serão examinadas. A doutrina e a natureza da Trindade, vistas no exemplo sacrificial de Jesus e o que significa ser criado à imagem e semelhança de Deus, serão o foco deste estudo. Finalmente, a maneira que a doutrina da Trindade poderá ser aplicada e ensinada numa cultura influenciada pela teologia da prosperidade concluirá o trabalho. Não pretendemos fazer uma avaliação completa do movimento, mas focaremos principalmente no Brasil. Este capítulo é escrito de uma perspectiva teológica conservadora e tradicional que defende a autoridade e a suficiência das Escrituras. TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: UMA BREVE HISTÓRIA Acredita-se tradicionalmente que a teologia da prosperidade tenha suas raízes no ensino de Kenneth Hagin. No entanto, um estudo cuidadoso da história demonstra a forte influência de Essek William Kenyon (1867-1948). Ele era de origem metodista, tinha pouco treinamento teológico formal, mas ministrava em igrejas metodistas, batistas e pentecostais. Quando jovem, Kenyon “matriculou-se no Emerson College, em Boston, o núcleo do movimento ‘transcendental’ no final do século XIX e início do XX. As várias sociedades filosóficas que floresceram durante certo tempo naquele campus, àquela época, são hoje reunidas sob o título ‘seitas metafísicas’”.174 Ele produziu 18 livretos em que registrou seus ensinamentos, nos quais buscou reunir a fé cristã na redenção por meio de Cristo e o ensino transcendental de que a mente pode controlar a realidade.175 Kenneth Hagin nasceu prematuramente em 1918. Sua infância e sua juventude foram marcadas pela doença, pela pobreza associada à Grande Depressão, pelo abandono por seu pai e pelo colapso mental de sua mãe.176 Aos 15 anos de idade, ficou acamado por mais de um ano, período em que afirma ter recebido revelações diretamente de Deus – especificamente sobre a verdadeira interpretação de Marcos 11.23-24. “A essência dessa revelação era que, para obter resultados da parte de Deus, o fiel deve confessar em voz alta seus pedidos e nunca duvidar de que tenham sido respondidos, mesmo que as evidências físicas não indiquem que a oração foi atendida.”177 É preciso confessar repetidamente seu desejo até que se torne realidade. Hagin afirma ter recebido todos os seus ensinamentos diretamente de Deus. Ele não tinha treinamento teológico formal nem foi orientado por outro ministro. No entanto, muitos dos seus ensinamentos são bem semelhantes aos dos 18 livros escritos por Kenyon, e Hagin admitiu ter lido essas obras. No entanto, ele sustenta que suas mensagens foram o produto da revelação divina, e as semelhanças entre seus ensinamentos e as de Kenyon devem-se a ambos serem a Palavra de Deus.178 Muitos outros pastores e autores norte-americanos, como Kenneth Copeland, Benny Hinn, Oral Roberts, Dave Robertson, Paul Crouch e, mais recentemente, Joel Osteen também influenciaram a teologia da prosperidade no Brasil. No entanto, Hagin e seus escritos foram os mais influentes.179 R. R. Soares, que publicou muitos dos livros de Hagin e escreveu vários outros de conteúdo semelhante, tem sido um dos líderes mais influentes da teologia da prosperidade no Brasil. Valnice Milhomens, líder dos Ministérios da Palavra da Fé, foi uma das primeiras proponentes depois de ter sido exposta a esse ensinamento na África do Sul.180 TEOLOGIA DA PROSPERIDADE: CRENÇAS BÁSICAS As crenças da teologia da prosperidade podem ser resumidas em três “crises” básicas. A primeira é uma crise de autoridade.Uma das reivindicações mais comuns dos líderes desse movimento é que eles recebem revelações diretamente de Deus. Eles recebem novas revelações e interpretações divinamente inspiradas da Bíblia.181 Isso lhes dá uma enorme autoridade, o que torna quase impossível questionar seus ensinamentos. Essa linha direta de comunicação com Deus faz com que eles se considerem a voz de Deus na terra. O perigo disso é que a sua própria autoridade pode parecer ser superior à autoridade das Escrituras. Outro aspecto da crise de autoridade é visto na maneira como fazem exigências a Deus. Gondim explica que “na Teologia da Prosperidade fé não é depender totalmente do caráter de Deus, mas ‘chamar realidades à existência’. Fé não é depositada em Deus, mas em um poder dirigido a Deus que o força a fazer o que se deseja que ele faça”.182 Eles afirmam que seus ensinamentos têm autoridade divina e que podem exercer autoridade sobre Deus. A segunda área de crença é uma crise de prioridades. Para muitas pessoas, o aspecto mais importante da vida cristã é a riqueza e a saúde. A prosperidade se torna a maior virtude e a pobreza é considerada sinônimo de pecado. “Uma das afirmações mais contundentes dessa corrente é que o cristão deve ser próspero financeiramente e sempre ser livre de qualquer enfermidade. Quando isso não acontece, é porque ele deve estar vivendo em pecado ou porque não tem fé.”183 Parece que a saúde do corpo se torna mais importante que a santidade do espírito e que a prosperidade tem prioridade sobre a piedade. Valdemiro Santiago incentiva os seus ouvintes a entregarem “trízimo” do décimo terceiro salário: “Você vai ser fiel e vai tirar 30% e vai falar: ‘Senhor, representando a santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo’, você vai dar nesta obra; 70% vai ficar com você. Você vai fazer coisas que nunca fez na tua vida”.184 Silas Malafaia apresenta fórmula para seus ouvintes obterem casa própria: “Você vai oferecer um aluguel seu... fala ‘Eu vou oferecer uma semente de um aluguel para que o Senhor possa abrir a porta para eu ter minha casa própria’”.185 R. R. Soares afirmou que é errado para um crente ir a um médico porque é uma demonstração de falta de fé.186 A terceira e mais preocupante crise é uma crise de identidade. Isso envolve uma visão completamente distorcida de quem é o homem e de quem é Jesus. Hagin afirmava que os crentes têm uma natureza divina que é não semelhante, mas igual à de Deus. Os crentes são encarnações de Deus exatamente como Jesus.187 Kenneth Copeland disse: “Você não tem Deus morando dentro de você. Você é Deus”.188 Além de ver o homem como Deus, a teologia da prosperidade tem uma visão herética de Jesus e da crucificação. Eles ensinam que a morte física de Jesus não poderia pagar o preço do pecado. Eles insistem em que Jesus morreu espiritualmente indo para o inferno, assumindo a natureza de Satanás e sendo separado do Pai e do Espírito por três dias até a ressurreição. Kenyon nega que o sofrimento de Cristo na cruz fosse físico e literal.189 Essas visões distorcidas do homem e de Jesus ajudam a explicar a teologia e a antropologia por trás da teologia da prosperidade. A VERDADE DA TRINDADE Como a doutrina da Trindade informa a teologia da prosperidade? A Trindade é frequentemente vista como uma doutrina problemática, difícil de compreender e ainda mais difícil de aplicar. Stanley Grenz discordaria dessa visão: “Eu sugeriria que o propósito da teologia é servir à igreja e à sua missão engajando-se na tarefa construtiva de apresentar um modelo coerente do mosaico cristão de crenças que seja fiel às narrativas e aos ensinamentos bíblicos e seja relevante para o cenário contemporâneo”.190 À primeira vista, ensinamentos sobre a Trindade podem parecer apoiar a teologia da prosperidade. Jim Berg afirma: “Deus faz tudo para a sua glória”, e “glorificar Deus deve ser o coração de todo crente”.191 Essa dedicação à sua própria glória, juntamente com a verdade de que o homem foi criado à imagem de Deus, tem sido usada pelos proponentes para defender a teologia da prosperidade. Contudo, Deus buscar a sua própria glória é muito diferente de uma pessoa promovendo sua própria glória. Apesar das afirmações acima sobre os crentes serem Deus, as Escrituras deixam claro que existe apenas um Deus (Dt 4.35-39; Is 43.10; 1Co 8.4-6; 1Tm 2.5). Não é egoísta Deus buscar a sua própria glória, porque ele é Deus. No entanto, quando os homens se consideram Deus, isso é idolatria. Deus ser trino revela verdades vitais sobre a sua natureza. Ele é completo em si mesmo e tem desfrutado de profunda e perfeita comunhão dentro do relacionamento trinitário por toda a eternidade. Ele não criou o homem porque estava sozinho ou precisava de algo, mas para multiplicar sua alegria compartilhando-a com seres humanos. Dentro do relacionamento da Trindade, o Pai glorifica o Filho, o Filho glorifica o Pai e o Espírito glorifica o Pai e o Filho. “Na própria revelação de Deus, encontramos o Pai, o Filho e o Espírito Santo, cada um amando o outro, dando-se ao outro, honrando o outro, glorificando o outro.”192 Essa visão social e “outrocêntrica” da Trindade confronta a teologia da prosperidade. A natureza doadora e sacrificial da Trindade é claramente vista na cruz de Cristo. Filipenses 2.5-11 descreve essa natureza como Jesus se esvaziando, humilhando-se e tornando-se obediente até a morte na cruz. Jesus suportou dor, humilhação e morte por amor ao Pai e ao Espírito. Os sofrimentos de Jesus foram os sofrimentos da Trindade. Qualquer pai que tenha visto um filho sofrendo sabe um pouco do sofrimento do Pai ao observar a tortura do seu Filho. Esse sofrimento só se intensifica quando o Pai abandona o Filho na cruz para pagar o preço do pecado (Mt 27.46). É da natureza de Deus amar, e o amor se doa (Jo 3.16). Jesus chama seus discípulos para seguir seu exemplo: “E quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.27-28). Quando a Trindade criou a humanidade à sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27), proporcionou aos homens e às mulheres um relacionamento único consigo. Isso não significa que o ser humano se torne Deus, mas sim que ele assume semelhanças com o Senhor. Possuímos razão e vontade e fomos criados para viver num relacionamento vertical com Deus e horizontal com homens e mulheres. O ser humano foi criado para refletir o que chamamos de atributos comunicáveis de Deus, como amor, fidelidade, humildade e santidade. João Calvino ensinou que “os humanos ocupam um lugar especial na tarefa de espelhar Deus. Eles são o ‘espelho mais brilhante’ no qual a glória de Deus pode ser vista”.193 É claro que a queda do homem tem manchado significativamente esse espelho. Cristo redime o crente do pecado e o regenera, e o Espírito Santo habita no crente, para que a imagem de Deus possa ser restaurada nele. Essa restauração será completa no futuro, mas começa agora. “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1Jo 3.2). A encarnação de Cristo é a perfeita imagem de Deus ao homem (Cl 1.15,19). O Espírito Santo está trabalhando nos corações dos crentes para os conformar à imagem de Cristo (Rm 8.29). “A natureza autodoadora de cada pessoa da Trindade sugere que os ensinos de Jesus sobre o amor e o autossacrifício relacionam-se com a natureza íntima da imago dei do homem.”194 Essas verdades sugerem que qualquer tentativa de informar a teologia da prosperidade através da Trindade deve ser feita pelo exemplo e pelos ensinos de Cristo. APLICANDO A TRINDADE À TEOLOGIA DA PROSPERIDADE Informar àqueles sob a influência da teologia da prosperidade à luz da Trindade deve começar com a educação. Ensinar a verdade das Escriturasé a única fonte de autoridade disponível para combater qualquer falso ensino. Além dos princípios delineados acima sobre a natureza doadora da Trindade e a imago dei, os principais ensinamentos de Cristo são vitais para essa discussão. Jesus resumiu o ensino da Lei em dois mandamentos: amar a Deus e amar os outros (Mt 22.37-40). Mais tarde, falando com seus discípulos, ordenou que amassem uns aos outros como ele os amava (Jo 13.34). A essência da vida cristã é o amor – não do ego, mas dos outros. Paulo reitera este princípio exortando os crentes a considerarem os outros como superiores a si mesmos, assim como fez o Deus Filho, Jesus Cristo (Fp 2.3-7). Um dia, todo homem estará diante de Cristo para prestar contas de como amou a Deus e os outros. Jesus adverte que muitos ouvirão estas palavras naquele dia: “Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me” (Mt 25.42-43). Jesus deixa claro que, quando amamos os necessitados, estamos amando a ele. Quando a teologia da prosperidade considera a pobreza e a doença como sinais de pecado, em vez de motivos de amor, ela incorre no julgamento de Deus e perde a oportunidade de amar a Deus como ele deseja ser amado. Jesus e Paulo instruem os crentes a guardar seus tesouros no céu, em vez de acumular riquezas na terra (Mt 6.19-24; 1Tm 6.6-19). A riqueza, por si só, não é pecaminosa e é geralmente apresentada nas Escrituras como uma bênção de Deus (Dt 8.18; 2Co 9.8,11 etc.).195 Seguir os princípios das Escrituras frequentemente melhora a saúde e a situação financeira de uma pessoa.196 No entanto, a riqueza não deve se tornar um ídolo ou mesmo um fator motivador. A natureza sacrificial e abnegada da Trindade demonstra que esses recursos devem ser usados para ajudar os pobres e promover o reino de Deus. Essa doação deve ser feita de maneira privada e alegre, de modo que as recompensas sejam concedidas no céu (Mt 6.3-4; 2Co 9.6-12). Não importa ser rico ou pobre, o chamado e o exemplo de Jesus são de dar a si mesmo (Mt 10.39; 16.25). O ato de dar não deve ser um meio de alcançar uma vida de abundância na terra, como é ensinado na teologia da prosperidade, mas ter foco em recompensas eternas. “Ao compreender o Deus trino e autodoador, descobrimos que o que Cristo nos pediu para fazer ao doar-nos é exatamente o que Deus exemplifica repetidamente em sua própria autorrevelação.”197 A exortação é outro meio pelo qual a teologia da prosperidade deve ser confrontada. Jesus não hesitou em confrontar a hipocrisia que cercava o seu ministério (Mt 15.7; 22.18; 23.13,15,23,25,27). Paulo instruiu seus mentoreados a confrontar falsos mestres e garantir que não tivessem acesso à igreja.198 Quando se trata de teologia da prosperidade, a passividade não é uma opção. O glorioso evangelho do Senhor Jesus Cristo, a fama do Pai e a verdade do Espírito nas Escrituras inspiradas estão sob ataque. Milhões de pessoas estão sendo iludidas por esses falsos profetas. Não é hora de timidez. O rebanho do Bom Pastor deve ser protegido desse perigo. Os propagadores da teologia da prosperidade devem ser confrontados e chamados ao arrependimento. Aqueles que foram enganados devem ser instruídos na verdade da Palavra de Deus. Talvez a maneira mais eficaz pela qual a teologia da prosperidade possa ser informada seja através da exemplificação. Deus nos chama para refletir sua imagem em nossas palavras e ações. As igrejas que proclamam a teologia da prosperidade são grandes e impressionantes, e aqueles que medem o sucesso pelos números podem ser tentados a imitá-las. Em vez disso, devemos ser exemplos de humildade, amor, contentamento, generosidade, gratidão, sofrimento, alegria e santidade. Como indivíduos, devemos demonstrar compaixão aos outros e nos engajar na missão de levar o amor da Trindade às nações. Nossas famílias devem cuidar de nossos vizinhos e sacrificar nosso próprio conforto para abençoar outras pessoas. Como o Pai enviou o Filho, no poder do Espírito, para redimir um mundo perdido, assim também devemos enviar nossos filhos e netos para os cantos mais escuros do globo, onde eles possam sacrificar suas vidas, para que a luz do evangelho possa brilhar nessas nações. Nossas igrejas não devem se concentrar em si mesmas e em seus programas como um fim em si. Devemos estar ativos em nossas comunidades, apaixonados pela missão e intencionalmente servir sacrificialmente as pessoas que precisam desesperadamente de esperança. “Assim como as pessoas da Trindade não se confinaram apenas entre elas mesmas para amarem-se, mas criaram o mundo e entraram redentivamente em nossa existência, assim também a igreja local é chamada a doar-se a um mundo alienado.”199 PARA REFLEXÃO 1. O que você pode fazer para proteger seu coração da ganância e cultivar contentamento? 2. Como você pretende ajudar amigos e conhecidos que depositam esperança na teologia da prosperidade? 3. Quais são as áreas de insatisfação na sua vida/igreja? Como você pretende transformá-las em motivos de gratidão? 4. Quais são os sacrifícios que você pretende oferecer para imitar a Trindade e espalhar sua fama entre as nações? CAPÍTULO 10 SEPARANDO AS OVELHAS DAS CABRAS COMO LIDAR COM OS PENTECOSTAIS “JESUS SÓ” (UNICISTAS)? ARI LANGRAFE JR. Se você é cristão há algum tempo, provavelmente conhece pessoas que também afirmam ser cristãs, mas professam uma fé que não é comprometida com as Escrituras. Pessoas que, no fim das contas, conhecem apenas outro evangelho. Mas antes de gritar “anátema!”, espere um momento... É muito fácil entrar em discussões e criar um ambiente de hostilidade, afinal aprendemos ou pensamos que devemos defender a fé ou tomar um caminho ainda mais fácil: ignorar e desprezar. Permita-me propor outra abordagem. “Defender a fé sem perder a razão. Coloque de lado por um instante a ideia de que apologética (defesa da fé) é algo belicoso ou agressivo”, como disse o professor Jonas Madureira em uma de suas aulas de apologética. O propósito da apologética não é meramente ganhar uma discussão, ou argumentar melhor, mas envolve ganhar pessoas que são nossos colegas no trabalho, familiares e indivíduos com quem nos importamos. Não se trata de vencer um debate, mas ganhar pessoas, e só ganhamos pessoas por meio do evangelho. Portanto, tenha o evangelho em vista. Lembre-se da sua história. Você não se tornou cristão porque perdeu ou ganhou uma discussão, ou como diz Joey Coffey, porque é inteligente ou estava certo. Você foi salvo porque precisava de um salvador, e ele veio até você. Isso significa graça. Não perca de vista a graça ao compartilhar o evangelho ou defender a sã doutrina.200 Ao apresentar a Palavra de Deus, creia que ela irá defender a fé. O poder está no evangelho. Você vai com amor e firmeza e o evangelho vai com transformação e poder. Ao encontrar pessoas que não conhecem Jesus ou que são confusas quanto à fé, seja exatamente como aquele de quem queremos falar. Lembre-se de Jesus junto ao poço de Samaria (os samaritanos eram considerados uma seita pelos judeus) falando com a mulher. Ao fazer as perguntas certas, permita-se ouvir perguntas honestas e responda com sabedoria, paciência e mansidão a verdade do evangelho. Minha oração sempre é que a verdade do evangelho continue nos surpreendendo, pois a máxima continua valendo: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). COMPRA A VERDADE E NÃO A VENDAS (PV 23.23) As Escrituras descrevem todos os cristãos autênticos como aqueles que conhecem a verdade e que foram libertos por ela (Jo 8.32). Eles creram na verdade com todo o coração (2Ts 2.13). Obedeceram a verdade mediante o Espírito de Deus (1Pe 1.22) e receberam um amor fervoroso por meio da verdade, mediante a obra graciosa de Deus em seus corações (2Ts 2.10). Portanto, defender aambiguidade, exaltar a incerteza ou, de qualquer forma, obscurecer a verdade é um modo pecaminoso de nutrir o erro e fomentar a incredulidade.201 A TRINDADE É REALMENTE IMPORTANTE? Dentre os inúmeros grupos sectários que existem no Brasil e no mundo, três grupos principais merecem atenção especial devido ao grande número de seguidores. São os mórmons, as Testemunhas de Jeová e os pentecostais unicistas. Todos eles são associados ao seu proselitismo e clara divergência em relação ao Deus trino e à doutrina bíblica. Os dois primeiros são reconhecidos como seitas pela maior parte das igrejas no Brasil e ficam longe de se serem aceitos como doutrina cristã verdadeira. Mas o terceiro grupo, o pentecostalismo unicista, mais numeroso que os mórmons e as Testemunhas de Jeová, tem se aproximado do evangelicalismo, principalmente por sua semelhança com a doutrina pentecostal, e assim tem confundido e enganado a muitos.202 Assim, vale a pena entendermos o ressurgimento da doutrina unicista, pois, dentro da roupagem evangélica, os pentecostais unicistas afirmam ter recebido uma nova revelação de uma verdade bíblica central, a saber, que Deus é uma pessoa e seu nome é Jesus, que então se manifesta como Pai, Filho e Espírito Santo. Consequentemente, estão afirmando que a doutrina da Trindade é falsa. No unicismo temos uma boa ilustração de como um forte zelo pela doutrina pode levar uma pessoa ou uma igreja ao erro, se não se fizer um estudo equilibrado da Bíblia. O sabelianismo ou modalismo antigo vestido de “Só Jesus” é um exemplo disso. Tais doutrinas surgem como interpretações equivocadas, geralmente descontextualizadas ou ênfases exageradas do significado do cristianismo. OS UNICISTAS: CAVANDO MAIS FUNDO Modalismo Antigo A origem do unicismo se prende aos primeiros séculos da era cristã. No fim do segundo século da nossa era, surgiu um movimento doutrinário a respeito da natureza de Deus por Práxeas, na Ásia Menor, e Noeto, em Roma (que afirmava que o Deus Pai morreu na cruz), mas tomou forma mais popular por meio dos ensinos de Sabélio,203 um presbítero no norte da África. Sabélio insistia em que Deus é uma pessoa só que se manifesta como o Pai (Jeová) no Antigo Testamento, o Filho nos Evangelhos e o Espírito Santo em Atos e na igreja. É interessante que foi Tertuliano, o pai da igreja mais “pentecostal” (montanista), quem também mais atacou as doutrinas unicistas (sabelianismo) como heresia. Essa concepção conhecida como “modalismo” ensinou que Deus operava em modos ou manifestações diferentes em momentos distintos – às vezes como o Pai, outras como o Filho e ainda outras como o Espírito Santo. Essa visão desvaneceu-se no terceiro século, mas a ideia permaneceu, pois estava mais perto de afirmar o Filho e o Espírito como sendo igualmente Deus do que a maioria das alternativas. Na controvérsia, houve adaptações e adesões por todo o quarto século. Essa questão provocou na igreja o desejo de estudar essa questão por numerosos pastores e doutores, conhecidos como pais da igreja, que contribuíram de forma definitiva para a formulação da fé cristã, debatendo e, finalmente, lançando por terra esse falso ensino. Porém, essa doutrina falsa ressurgiu no século XX com uma nova roupagem, por intermédio do movimento chamado “Só Jesus” ou “Nova Luz”.204 Hoje, igrejas independentes, em especial as igrejas pentecostais, têm aceitado a falsa interpretação concernente à pessoa de Deus, adotada pelo “Movimento Só Jesus”. É importante notar que os ensinos referidos de novas revelações muitas vezes são um retrocesso a velhas heresias, contra as quais a igreja precisou – e ainda precisa – lutar para manter firme a sua integridade. O Novo Início dos Unicistas Ainda que a história dos unicistas ou do movimento “Só Jesus” possa ser rastreada até os primeiros anos do movimento pentecostal em 1906, ela teve seu início a partir da reunião anual do movimento pentecostal realizada em abril de 1913, em Arroyo Seco, nos arredores de Los Angeles, na Califórnia. O preletor, R. E. McAlister,205 disse que os apóstolos batizavam somente em nome do Senhor Jesus e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – então, o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo deve ser Jesus.206 McAlister foi notificado de que seu ensino possuía elementos heréticos. Ele tentou esclarecer sua prédica, mas ela já havia produzido efeito.207 Um de seus ouvintes era John Sheppe, que, após aquela mensagem, passou uma noite em oração refletindo sobre a mensagem de McAlister e concluiu que Deus havia revelado o batismo verdadeiro, que seria somente “em nome de Jesus”. Nesse período, o australiano Frank J. Ewart estudou a questão da unidade por um ano e tornou-se o primeiro a formular claramente uma visão modalista de Deus. Em 1914, Ewart realizou um batismo com o evangelista Glenn Cook, cada um batizando o outro em nome de Jesus, e passou a pregar sobre a fórmula batismal de Atos 2.38, onde chegou à conclusão de que o nome de Deus seria então somente o nome Jesus.208 Esse movimento começou então a crescer em cima dessa polêmica e ficou conhecido por vários nomes, tais como: Nova Questão, movimento Só Jesus, o Nome de Jesus, Apostólico ou Pentecostalismo Unicista.209 A partir dessa centelha, uma chama irrompeu e quase destruiu as recém-formadas Assembleias de Deus. A questão chegou ao plenário em 1915, juntamente com a necessidade de se estabelecer parâmetros doutrinários. Em 1916, as Assembleias de Deus votaram para afirmar o trinitarianismo histórico dentro de seus artigos de fé. Aqueles que se apegaram ao movimento “Só Jesus” (156 dos 585 pastores) saíram para formar suas próprias organizações.210 Depois de várias fusões e divisões, houve concordância que os unicistas têm em comum a unicidade de Deus em torno de dois pontos principais: a prática do batismo em nome de Jesus e da experiência pentecostal do batismo do Espírito Santo no nome de Jesus, de acordo com Atos 2.38. Crescimento das Igrejas Unicistas Igrejas unicistas frequentemente assumem identidades como “Apostólica”, “Unidade” e “Igrejas de Jesus Verdadeiro”. Entre as igrejas que surgiram desse movimento, a Pentecostal Unida é, provavelmente, a mais forte. Dentre estas, duas das maiores, a Igreja Pentecostal Incorporada e as Assembleias Pentecostais de Jesus Cristo, se fundiram em 1945 e formaram a Igreja Pentecostal Unida, hoje com ramificações em quase todo o mundo. Estatísticas recentes afirmam que a Igreja Pentecostal Unida Internacional (UPCI, na sigla original) está estabelecida em cerca de 190 países. No Brasil, a Igreja Pentecostal Unida teve início em 1957, em Porto Alegre.211 No Brasil, os movimentos unicistas mais conhecidos são Igreja Voz da Verdade, do conjunto de mesmo nome; Igreja Apostólica do Brasil; Assembleia de Deus do Nome; Assembleia de Deus Renovada; Assembleia de Deus Unicista; Igreja Cristã Apostólica; Igreja Evangélica de Jesus Cristo; Igreja de Deus no Brasil; Igreja Pentecostal dos Apóstolos; Igreja Pentecostal Unida do Brasil; Igreja Pentecostal Unida Internacional; o Tabernáculo da Fé e o movimento As Maravilhas de Jesus.212 NO QUE OS UNICISTAS CREEM? A Igreja Pentecostal Unida declara que “algumas das Doutrinas básicas da Igreja Apostólica estão fundamentadas principalmente em Atos 2:1-4, 36-47, com destaque especial para Atos 2:38 onde temos o arrependimento, batismo nas águas em Nome de Jesus e Dom do Espírito Santo como requisitos do plano de salvação”.213 Os teólogos unicistas entendem que a expressão “em nome”, usada em Mateus 28.19 referindo-se ao Pai, Filho e Espírito Santo, reflete apenas nomes singulares de Jesus. Assim, o que parecia ser apenas uma polêmica referente à fórmula batismal resultou na negação da doutrina da Trindade. Os unicistas não aceitam a pluralidade de pessoas na unidade divina e interpretam qualquer referência à ideia de Trindade como sendo várias manifestações de Deus ou de Jesus.Logo, não são contra a Trindade pelo fato de não crer que Jesus seja Deus, mas ironicamente pelo fato de crer que Deus é só Jesus. A doutrina unicista tem duas verdades bíblicas como premissas. A primeira verdade bíblica é que há somente um Deus. A segunda é que Jesus é Deus. Dessas duas verdades, os unicistas deduzem que Jesus Cristo é Deus em sua totalidade, sendo assim, Jesus tem que ser o Pai, o Filho e o Espírito Santo, negando a doutrina da Trindade. Essa argumentação presume que, por uma coisa acontecer antes de outra, logo, a segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira, o que não é necessariamente verdadeiro. Os termos Pai, Filho e Espírito não expressam quem Deus é apenas para com os seres humanos criados, mas sim evidenciam as relações intratrinitárias antes da criação. O Filho é o Filho do Pai. O Pai e o Filho enviam o Espírito Santo. É claro que o Espírito era o Espírito antes de ser enviado. No batismo de Jesus, “o Espírito de Deus” desceu como pomba e a voz dos céus dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16-17). Em várias ocasiões, Jesus dirigiu-se ao Pai em oração (p. ex. Jo 11.41; 17.1-26). Jesus declarou: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). O Pai e o Filho se dirigem um ao outro como “eu” e “tu”. Mesmo quando Cristo diz “eu e o Pai somos um” (Jo 10.30), nós não apenas temos a distinção entre “eu” e o “Pai”, mas também o “um” (grego, hen) é neutro (que implica a mesma deidade, essência; Jo 10.33-39) e não “um” (grego, heis) masculino (assim sendo, a mesma pessoa). Como os pais da igreja entendiam, essas distinções dificilmente podem ser negadas como revelando distinções pessoais.214 Para contrapor a teologia unicista, a fé cristã histórica observa que frequentemente duas, e às vezes as três, pessoas da divindade estão à vista – por exemplo: na encarnação, no batismo, na ressurreição e na ascensão. A relação de amizade entre Jesus, como o Filho de Deus, e Deus o Pai – através de noites de oração, no monte da Transfiguração, no Getsêmani, e especialmente na cruz – não faz sentido em uma teologia de “Só Jesus” na qual Deus é uma única pessoa. Ainda mais, ficamos imaginando como o Deus eterno poderia ser amor, se as distinções pessoais divinas são meros modos ou simples manifestações. Na teologia unicista, a revelação de Deus na criação e salvação como Pai, Filho e Espírito Santo, de fato, não revela verdadeiramente quem é Deus em si mesmo, e sim os nomes que são as máscaras de um ator. Mais de 200 vezes é referido como Filho, mais de 200 vezes referiu-se ao Pai como alguém distinto dele, em mais de 50 versículos podemos observar Jesus e o Pai lado a lado. Será que Jesus estava fantasiando quando disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito”?215 TRABALHANDO A PRÁTICA O pentecostalismo unicista declara que “a doutrina básica fundamental é o padrão bíblico de salvação completa, o que significa o arrependimento, o batismo por imersão em águas em nome somente do Senhor Jesus Cristo e o batismo com o Espírito Santo com o sinal inicial de falar em outras línguas de acordo com a direção do Espírito”.216 Qualquer coisa adicionada à fé em Jesus Cristo como sendo uma condição para a salvação é uma salvação baseada em obras. Adicionar qualquer coisa ao evangelho é dizer que a morte de Jesus na cruz não foi suficiente para comprar nossa salvação. Dizer que precisamos ser batizados para sermos salvos é dizer que precisamos adicionar nossas boas obras e obediência à morte de Cristo para que sua morte seja suficiente para a salvação. Apenas a morte de Cristo pagou pelos nossos pecados (Rm 5.8; 2Co 5.21). O batismo é um passo importante que todo cristão deve seguir, pois significa nossa identidade com Cristo em sua morte e ressurreição e nossa incorporação como membro do corpo de Cristo, que é a igreja, mas o batismo não pode ser uma condição para a salvação. Argumentar a favor disso, como fazem os pentecostais unicistas, é dizer que a morte e a ressurreição de Cristo não foram suficientes. Quanto à fórmula do batismo em águas, o testemunho bíblico e a história da igreja nos primeiros séculos confirmam que o batismo era ministrado cada vez mais no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). Tertuliano, Clemente de Alexandria e Basílio advertiram: “Ninguém seja enganado nem se suponha que, pelo fato de os apóstolos [em Atos] frequentemente omitirem o nome do Pai e do Espírito Santo, ao fazerem menção do batismo, não seja importante invocar estes nomes”.217 Cipriano, no ano 200 d.C., falando de Atos 2.38, disse: “Pedro menciona aqui o nome de Jesus Cristo, não para omitir o do Pai, mas para que o Filho não deixe de ser unido com o Pai. Finalmente, depois de ressurreto, os apóstolos são enviados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.218 POR QUE A DOUTRINA DA TRINDADE É TÃO IMPORTANTE? O que acontece quando o trinitarianismo é substituído pelo unitarismo, a visão de que Deus é meramente um? Um dos resultados é que o Deus assim descrito tende a perder definição e marcas de sua personalidade. Nos primeiros séculos da era cristã, os modalistas, os arianos e os neoplatônicos cultuaram um Deus não trinitário. Esse Deus era puramente um, sem pluralidade de nenhum tipo. Mas um o quê? Uma unidade de quê? O Novo Testamento tem uma resposta marcante para a questão: uma unidade de Pai, Filho e Espírito Santo. É interessante que, quando o Novo Testamento enfatiza mais fortemente a unidade de Deus, ela parece não resistir à nominação de mais do que uma das pessoas da Trindade (cf. 1Co 8.4; Ef 4.4-6). Para os autores bíblicos, a Trindade confirma, em vez de comprometer, a unidade de Deus. A unidade de Deus é precisamente a unidade de três pessoas. A maior razão para crer na Trindade é o fato de a Bíblia apontar para um Deus trino sem perder sua unidade. O Deus cristão é três em um. Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Há apenas um Deus (Dt 6.4; Is 44.6). Mas o Pai é Deus (Jo 20.17), o Filho é Deus (Jo 1.1; Rm 9.5; Cl 2.9; Hb 1.10) e o Espírito é Deus (Gn 1.2; At 2; Rm 8; 1Ts 1.5). De alguma maneira são três e de alguma maneira são um. O Credo Niceno diz que eles são um “ser”, mas três subsistências, ou, traduzindo de maneira diferente, uma “substância” e três “pessoas”. Prefiro simplesmente dizer: “um Deus, três pessoas”.219 O fato é que não sabemos precisamente como os três são um e o um é três. Não sabemos isso, uma vez que sendo Deus, os três são iguais; não há superioridade ou inferioridade no ser de Deus. Ser Deus é ser superior a qualquer coisa. CONCLUSÃO A igreja, através dos séculos, sempre ensinou que dentro da unidade do único Deus existem três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; e essas três pessoas compartilham da mesma natureza e atributos; então, com efeito, essas três são o único Deus. Muitos unicistas são sinceros em sua fé, mas infelizmente não foram ensinados da maneira correta. Na verdade, muitos deles nunca receberam um ensino sistemático da Bíblia sobre a Trindade e tudo o que conhecem a respeito dela é a doutrina de sua igreja. As igrejas evangélicas unicistas são antitrinitárias. No entanto, devemos apontar que seu antitrinitarianismo não é igual à posição adotada pelos unitaristas (Testemunhas de Jeová), pois os unicistas não nutrem ideias preconceituosas contra a divindade de Jesus, como é o caso do unitarismo (arianismo). Ironicamente, os unicistas são antitrinitários pelo fato de acharem que a divindade é exclusivamente a pessoa de Jesus e não compreenderem a unidade composta de Deus. Esse ensinamento existe há séculos, de uma forma ou de outra, como modalismo ou sabelianismo. Essa doutrina foi combatida por Tertuliano em Contra Práxeas, quando o apologista usa pela primeira vez o termo latim trinitas (“trindade”) para a divindade.220 A igrejarejeitou o modalismo, argumentando, com base nas Escrituras, que a triunidade de Deus é evidente, uma vez que mais de uma pessoa da Trindade é vista frequentemente ao mesmo tempo e muitas vezes interagindo uma com a outra. Portanto, o pentecostalismo unicista é antibíblico. Ao conversar com eles, convide-os a refletir no ensino da Bíblia como um todo. Reconheça que a doutrina trinitária vai além da compreensão humana. Todavia, cremos na doutrina da Trindade porque a Bíblia a ensina. Convide-os a meditar em passagens-chave onde Cristo se relaciona com o Pai. A compreensão correta dos ensinamentos doutrinários do cristianismo é a solução para a confusão criada pela multidão de vozes que reivindica a posição de portadora da verdadeira fé. PARA REFLEXÃO 1. Todo o cristianismo histórico tem anatematizado o modalismo como heresia. Como você se relaciona com amigos que pertencem ao movimento “Só Jesus”? 2. Como podemos ajudar os pentecostais unicistas a entender como o movimento deles começou e onde se encaixa na história da fé cristã? 3. Qual é a razão dos pentecostais unicistas não crerem na Trindade? 4. Como o modelo de “salvação completa” (que significa o arrependimento, o batismo por imersão em águas em nome somente do Senhor Jesus Cristo e o batismo com o Espírito Santo com o sinal inicial de falar em outras línguas) não está de acordo com as Escrituras Sagradas? Que versículos você usaria para defender isso? CAPÍTULO 11 O PORQUÊ DAS MISSÕES COMO A TRINDADE INFORMA A MISSÃO? ERIOMAR HELDIR DE FREITAS MAIA Por que todos nós fomos chamados à missão – isto é, alcançar outros, sejam nossos parentes, vizinhos na comunidade em que vivemos, colegas no trabalho, na escola ou faculdade ou os povos na Índia ou nos países africanos? A resposta é fascinante: o Deus trino é missionário no Filho e no Espírito Santo. Todos fomos chamados a darmos de nós mesmos aos outros para testemunhar do evangelho. O ponto de partida para a compreensão desse nosso excelente chamado é o Deus trino. Qual é a fonte primária para a compreensão do Deus trino e sua missão? O que motiva o Deus trino para tal missão? Qual é a relevância e a aplicação para nós após a compreensão mais profunda da Trindade? A partir do conhecimento da doutrina trinitária e sua relação íntima e pessoal com a igreja, vamos discutir como nossa vida deve modelar-se à missão de Deus pelo planejamento, a providência e a promoção das três pessoas da Trindade e como devemos fazer parte dela até o seu triunfo. A revelação de Deus “como Pai, Filho e Espírito Santo é o centro e o absoluto para entender toda a realidade humana. E, como elemento fundamental para a compreensão da realidade humana, a doutrina da Trindade é o quadro essencial das missões cristãs”.221 A Santíssima Trindade, desde a sua eternidade, não somente revela a ela mesma, mas a sua missão (cf. 2Tm 1.9). A BÍBLIA: FONTE PRIMÁRIA PARA A COMPREENSÃO DO DEUS TRINO E SUA (NOSSA) MISSÃO O testemunho bíblico, em ambos os Testamentos, afirma com precisão e saturação a doutrina trinitária e a missão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para glória dele. Antes de toda e qualquer criação, Deus era completamente autossuficiente e tudo que existia era Deus; não havia coisa alguma que não fosse Deus (1Cr 29.10; Sl 90.2; 1Tm 1.17; Hb 1.12). Após a criação do mundo material e imaterial, o Deus trino criou pessoas à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1.27). Fomos criados para partilharmos do relacionamento de amor que sempre houve entre as pessoas da Trindade. “O amor da Trindade é perfeito e completo por si só. Contudo, por pura bondade e generosidade, Deus quis criar uma grande multidão de outras pessoas para participar da sua eterna e extática ‘troca de amor’.”222 As criaturas resolveram pecar contra o seu Criador trazendo condenação eterna a toda a humanidade (cf. Gn 3). A missio dei sempre foi trazer o ser humano de volta à sua companhia através do perdão eternamente planejado pelo Pai, providenciado pelo Filho e promovido pelo Espírito. Como Sant’Anna e Milano abordam no capítulo 13 (sobre Alá monopessoal), existe a necessidade de Deus subsistir em pluralidade de pessoas para que o Deus perfeitamente santo possa prover perdão sem comprometer a sua justiça. DEUS PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO PLANEJOU, PROVIDENCIOU E PROMOVEU A MISSÃO A missão é motivada pelo amor e para a glória de Deus. João escreveu: “... pois Deus é amor” (1Jo 4.8). O amor do Deus trino expressado desde a eternidade numa mútua relação pessoal de amor motivou a missão de Deus para salvação do homem (cf. Rm 5.8). Não só porque Deus nos ama, mas porque “as três Pessoas da Trindade vivem uma ‘eterna troca de amor’”.223 Michael Reeves afirma que “o amor não é algo possuído pelo Pai, apenas uma de suas muitas emoções. Na realidade, ele é amor. Ele não poderia não amar. Se ele não amasse, não seria Pai”.224 A glória de Deus é a principal razão de todo o plano eterno da Trindade que envolve toda a perfeita criação visível e invisível, a história da Queda e da redenção da humanidade e separação do povo que se chama Israel e a igreja (cf. Rm 11.36). Para sua glória, Deus planejou a missão para que o evangelho chegasse a toda criatura por intermédio da propagação dessa boa nova. Martyn Lloyd-Jones afirma que “o objetivo supremo desta obra [pregação do evangelho] é glorificar a Deus. Esse é o ponto central. Esse é o objetivo que deve dominar e sobrepujar todos os demais. O primeiro objetivo da pregação do evangelho não é salvar almas – É GLORIFICAR A DEUS”.225 Deus, motivado pelo amor e para sua glória trina, enviou o seu Filho ao mundo, encarnado em Jesus, para providenciar, por meio de um único sacrifício, a salvação para os perdidos. O Filho partilhou o amor e a glória de Deus Pai aos homens através do seu ministério terreno. O verdadeiro propósito de Cristo, a essência da encarnação, é que “Cristo Jesus veio para lidar efetivamente com o pecado, para tornar-se a expiação do pecado, o destruidor da culpa do homem, assim para ser o conquistador e aniquilador do pecado. Que ele assim o fez fica objetivamente em evidência pelo perdão do pecado e libertação do poder do pecado dos cristãos nele, os quais aprendem a apropriar-se de seus méritos e seu poder”.226 Reeves coloca essa dinâmica de forma devocional ao afirmar que “o Pai entrega toda a sua glória, seu amor, suas bênçãos, seu próprio ser com exclusividade ao Filho – e, então, ele envia o Filho para partilhar essa plenitude conosco”.227 Na ceia, em Lucas 22, o Filho revelou o custo do pagamento pela salvação: “Isto é o meu corpo oferecido por vós...” (v. 19) e “meu sangue derramado em favor de vós” (v. 20). O plano eterno da Trindade envolveu um custo altíssimo para a salvação da humanidade. Foi necessário o pagamento pelo pecado por meio do único sacrifício perfeito, o completamente Deus e completamente homem, Jesus Cristo (cf. Jo 1.29). Antes da criação do universo, Deus sabia da entrada do pecado no mundo e do remédio pelo qual ele iria efetuar o perdão do pecado. Peters ainda afirma que “em sua infinita sabedoria, Deus designou a salvação; em sua infinita graça e a um custo infinito, Deus concedeu a salvação por intermédio de Jesus Cristo, seu Filho unigênito”.228 O Filho de Deus, ressurreto dentre os mortos, bradou no monte das Oliveiras: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). O Pai concedeu autoridade ao Filho e ele aos seus discípulos, para vivermos em amor (Mt 22.37- 39) e para propagarmos a mensagem do evangelho aos perdidos. Em João 17.18 encontramos o fundamento deste mandato: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo”. John Piper afirma que “a supremacia de Jesus Cristo como nosso Deus soberano e exaltado é a nossa autoridade para a missão [...]. Nós obteremos a nossa autoridade para pregar o evangelho a todas as pessoas, em todas as épocas e em todos os lugares da gloriosaexaltação do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo”.229 O Espírito fora enviado para promover a missão de Deus. João registrou as palavras do Filho: “Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.21-22). O Espírito Santo promove, neste mundo, a missão do Pai juntamente com o Filho. O Espírito se submete ao plano do Pai e do Filho numa relação de amor e para sua glória. Assim como a salvação se originou no eterno plano de Deus e se concretizou “historicamente na pessoa e obra de Cristo, o eterno Filho de Deus, a administração e a efetivação da salvação foram encarregadas ao Espírito Santo”.230 O papel do Espírito Santo na salvação é convencer o pecador. O Filho falou sobre o Espírito: “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Uma vez que o pecado está enraizado no coração humano, “o Espírito nos confere novo nascimento em uma nova vida precisamente por dar-nos um coração novo (Ez 36.26; Jo 3.3-8)”.231 Após a salvação, o Espírito Santo dá convicção ao crente em Cristo de adoção verdadeira pelo Pai (cf. Rm 5.5; 8.16). A segurança da nossa salvação pelo Filho e do amor do Pai é efetuada pelo Espírito, que “torna a comunhão com o Pai e o Filho real e deliciosa”.232 A obra de crescimento do corpo de Cristo, a igreja, é atribuída ao Espírito Santo (cf. 1Co 12.12-13). A igreja, em sua unidade, é composta por muitos membros com uma multiplicidade de dons e talentos. A igreja cresce cada vez mais pelo habitar do Espírito Santo em cada pessoa que crê em Cristo. O TRABALHO EVANGELÍSTICO E MISSIONÁRIO DEPENDE EXCLUSIVAMENTE DA TRINDADE A igreja reflete a expressão do Deus trino missionário no amor, na unidade, na diversidade, na mutualidade, na igualdade, na ordem, na comunhão e na missão. A missão de levar o evangelho é autorizada pela Trindade. “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.18-20). A igreja começa, então, onde a missão começa: com o Deus trino. Deus, em sua compaixão por nós, “institucionalizou missão e missões primeiro através de Israel e agora por meio de sua igreja”.233 O objetivo primordial de Deus “era levar o evangelho até os confins da terra. Essa tarefa fazia parte da Grande Comissão que Jesus deu a seus discípulos, ela se consolidou rapidamente”.234 Para Sanders, “o Pai é aquele que envia Cristo à sua missão de salvação e também envia o Espírito Santo para completar a obra. Visto desse ângulo, a economia da salvação é algo que foi moldado em forma pelo próprio Pai através dos seus dois emissários pessoais, o Filho e o Espírito”.235 Ao observar o verbo “ide” em Mateus 28.19, surge uma pergunta: “Ir... para fazer o quê?”. É como Yago Martins despertou seus leitores com essa pergunta e acrescentou: “Precisamos cair na real e entender que o ‘ide’ é só o começo, não sua conclusão”.236 A resposta é dita pelo próprio Senhor no mesmo texto das Sagradas Escrituras: fazei discípulos. Ele não disse, como ironiza Martins, “ide e fazei o que quiseres...”,237 nem “fazer convertidos”,238 como falou Keith Phillips. Robert Coleman comentou sobre a Grande Comissão em Mateus 28.19: “Este texto indica que os discípulos deveriam sair pelo mundo e ganhar outras pessoas para o Evangelho. Elas se transformariam naquilo que eles mesmos já eram: discípulos de Cristo”.239 Bill Lawrence define discípulo da seguinte forma: “Um discípulo é um aprendiz que pode ajudar outros a aprender, alguém que pode reproduzir em outros o que Cristo está fazendo nele próprio pelo poder do Espírito Santo”.240 O fazer discípulos de Cristo envolve a proclamação fiel da Palavra de Deus a exemplo do Mestre. Jesus disse aos seus discípulos: “Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.20a). Pelo simples fato de estar no ministério, ninguém é levado a ser discípulo de Cristo sozinho. Martins foi contundente ao afirmar: “Estar teológica e interpessoalmente preparado para fazer discípulos de Cristo e para desgastar suas energias glorificando a Cristo na obra de discipulado é o que deve estar na sua mente quando pensa em Missões”.241 Bill Lawrence analisou o seguinte: “Uma igreja cumprida da Grande Comissão ensina como Jesus ensinou: do púlpito e por meio de relacionamentos que transformam experiência da vida cotidiana em lições eternas, para que seus membros se tornem multiplicadores de multiplicadores”.242 A nossa motivação para realizar a missão de Deus, seja local ou mais distante, origina-se do amor eterno do Pai (cf. 1Jo 4.11). Afinal, é dando de nós mesmos em amor aos outros que mais nos aproximamos da imago dei.243 Outra motivação para missão é a glória dele. O salmista canta: “Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas” (Sl 96.3). Devemos anunciar e “promover a glória de Deus até os confins da terra”.244 As primeiras missões protestantes viam a glória de Deus como seu motivo primordial.245 Devemos realizar a missão de levar o evangelho nos moldes do plano do Deus missionário. O amor e a glória dele devem nos motivar para realizar esse trabalho. Somos exortados para nos darmos inteiramente aos outros com Cristo, compartilhando o evangelho de Cristo e fazendo boas obras em Cristo (Ef 2.10). É importante saber que a missão requer sacrifício por parte daqueles que se dispõem a fazê-la aqui ou acolá. Cristo sacrificou-se pela igreja (cf. Ef 5.25). Paulo entendeu isso, e o seu ministério envolveu sacrifícios (cf. At 9.16; Fp 1.21). Você se dispõe a sacrificar sua vida pelo nome do Senhor? Para refletir verdadeiramente o caráter do Deus tripessoal, os crentes na igreja local precisam considerar com seriedade “os imperativos do Novo Testamento, dando-se não só um ao outro, mas a um mundo necessitado, às vezes hostil”.246 A nossa missão na terra, através dos séculos e até o último dia, sempre foi e será promovida pela obra do Espírito Santo de Deus (cf. At 1.8). João registrou: “‘Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio’. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20.21- 22). A obra da salvação é do Espírito Santo (cf. Tt 3.4-5). Os dons são distribuídos por ele (cf. 1Co 12.11; Ef 4.11). A presença divina na missão é garantida aos crentes (cf. Mt 18.20). “Deus é um Pai magnífico. Deus é um magnífico Salvador, Jesus Cristo. Mas, se não fosse pelo magnífico Espírito Santo, eu ainda seria um pecador miserável e odioso! Não basta ter um Pai-Deus que me ama e fornece-me. Não é suficiente ter um Salvador que morreu por meus pecados. Para qualquer uma dessas bênçãos fazer a diferença em nossas vidas, também deve haver presente neste mundo a Terceira Pessoa de Deus, o Espírito Santo”.247 Missões são essencialmente um ministério do Espírito Santo, o que é um conforto para nós, “no sentido de que podemos confiar nele plenamente para realizar seu trabalho”.248 CONCLUSÃO Em suma, a missão, seja local, seja mais distante, é uma tarefa urgente da igreja. Jesus já havia dito: “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4). Pare e pense por um minuto. Temos a Santíssima Trindade a cooperar nesta missão de amor. Sendo imitadores do Deus trino, devemos nos envolver mais nos planos de Deus enquanto é dia. A igreja no Novo Testamento “não tentou realizar seu evangelismo dentro dos limites de um prédio, mas sim no mundo”.249 Agora é a hora de cada um de nós ir, partir em missão, “anunciando o Evangelho, criando comunidades e fazendo discípulos.Na certeza de que Jesus está conosco, na certeza de que a Trindade Santa nos ilumina, somos chamados a sermos discípulos missionários”.250 A identidade missionária está firmada no Deus trino que “envia”.251 O conceito da missio dei (a missão de Deus) é o reconhecimento de que Deus é um Deus que se envia, que envia a igreja, sendo “a missão mais importante das Escrituras”.252 Wilbert Shenk explica que “Jesus Cristo é a encarnação dessa missão; o Espírito Santo é o poder dessa missão; a igreja é o instrumento dessa missão; e a cultura é o contexto em que essa missão ocorre”.253 É importante entender que fomos convocados para seguir o modelo trino de missões e confiar exclusivamente na autoridade do Senhor Jesus (Mt 28.18) e na presença do Espírito Santo nesta obra (At 1.8). Os resultados que o Deus trino promove através da nossa fidelidade na proclamação do evangelho são surpreendentes! Podemos confiar que veremos múltiplos discípulos, líderes e igrejas em todos os lugares, de todos os povos, línguas e nações, como ele prometeu a Abraão (Gn 22.18) e nos revela em Apocalipse (5.9). PARA REFLEXÃO 1. O que tem motivado as igrejas, as agências ou missões a realizarem a tarefa de levar o evangelho dentro e além de suas fronteiras, com diligência, sabendo que essa obra envolve sacrifícios? 2. O que tem motivado os líderes contemporâneos a incentivarem missões em suas igrejas? 3. Pare e pense um pouco sobre o amor do Deus trino por você. Esse amor motiva você a amar o seu próximo e a realizar as boas obras que ele realizou (1Jo 4.7-21)? 4. Como você pretende participar na atividade missionária do Deus trino em alcançar o perdido e fazer discípulos? Pense em termos concretos, que lhe permitam avaliar sua fidelidade nisso. CAPÍTULO 12 A PERSPECTIVA TRINITÁRIA UMA APOLOGÉTICA AO VAZIO DO HUMANISMO SECULAR ARTHUR VINIC IUS GOTTLIEB LUPION Há muitos anos me deparei com um livro chamado E Se Jesus Não Tivesse Nascido?254 Uma leitura interessante, em que o autor aborda como o mundo seria diferente se ele não tivesse encarnado. O que o livro não avaliou foi como uma sociedade relativista consegue ignorar de fato que Jesus nasceu, enquanto, de maneira politicamente correta, concorda que ele existiu. Quem somos como sociedade ocidental, historicamente e de modo geral, é fundamentado nos valores e princípios judaico-cristãos. No entanto, o mundo pós-moderno e, por conseguinte, seus valores estão mais arraigados em outras linhas de pensamento que não a judaico-cristã. Vivemos um momento em que as pessoas aceitam a ideia de Jesus, mas rejeitam quem ele é e transformam o Cristo das Escrituras numa fábula, num homem como outro qualquer, ou ainda minimizam a magnitude de seus feitos e de quem ele é. Se concordarmos com essa realidade, percebemos, mesmo inconscientemente, os princípios do humanismo secular influenciando o modo de pensar do homem moderno ocidental. A “estrutura interpretativa”,255 a chamada cosmovisão do homem pós-moderno, é sem dúvida influenciada por essa filosofia. Para entender o modo de pensar do tempo atual, é fundamental entender o humanismo secular. Muitos líderes cristãos, apesar da capacidade de apontarem algumas das características do humanismo, não conseguem definí-las com clareza histórica ou refutá-las de maneira bíblica. Sendo assim, é fundamental entendermos mais acerca desse tema para o bom desenvolvimento das comunidades locais que desejam reunir-se ao redor de Cristo. HUMANISMO SECULAR O humanismo secular, em todas as suas variações, defende o não teísmo.256 O humanismo tem origem no movimento renascentista do século XIV, desenvolvendo-se de fato no iluminismo, desencadeando no que pode ser definido “como uma postura de vida humanista”.257 É interessante notar que o humanismo secular é caracterizado por ser a parte do secularismo que lida com as questões da moral e políticas. As questões relativas à origem e à natureza do universo são deixadas para o naturalismo.258 Atualmente, percebe-se que o humanismo secular é uma visão de mundo positiva, avaliando a positividade da humanidade, não partindo para o ataque a outras crenças. No entanto, com base nessa positividade, aos poucos os argumentos vão denegrindo a perspectiva da necessidade de uma Deidade.259 Historicamente houve diversas vertentes neste movimento, mas podemos salientar os elementos comuns ao humanismo secular: o não teísmo, no qual nem todos negam a existência de Deus, mas todos negam a necessidade de um Criador; todo o universo é explicável por meio do naturalismo; todos creem num relativismo ético, assim, não há absolutos dados por Deus, e a humanidade tem liberdade para decidir seus próprios valores, e, por consequência, os valores são culturais; o ser humano é autossuficiente, capaz de resolver sozinho todos os seus problemas, sem necessidade de auxílio divino. Logo, a razão e a educação são a única esperança para a humanidade alcançar seu potencial existencial.260 No primeiro manifesto humanista, de 1933, “os valores de liberdade, criatividade e realização são claramente considerados universais e irrevogáveis”.261 Para os humanistas, a perspectiva de Deus restringe o potencial humano de evolução, assim como minimiza a liberdade, tanto de expressão quanto de desenvolvimento moral. A premissa no primeiro manifesto é “que cada pessoa tem dentro de si o poder para sua realização”.262 Assim, o secularismo negou claramente a existência de Deus e a substituiu pela crença no homem. Nega toda crença sobrenatural, devido à inviabilidade de prová-la de maneira científica. Alguns humanistas criam que havia um espaço para esse tipo de fábula, com base na necessidade de o homem desenvolver sua criatividade. Qualquer crença teísta era vista como um limitador para o desenvolvimento humano. Sendo assim, a perspectiva de um Deus monopessoal e soberano oferece restrições à liberdade nos aspectos da moral, do desenvolvimento, das realizações, do determinismo de valores e do objetivo de vida. Percebe-se que muito da cosmovisão pós-moderna é centrada na fragmentação da verdade, da realidade, da razão e dos valores;263 e também é contaminada por relativismo, pluralismo, sincretismo, dualismos, paganismo, egoísmo, narcisismo, hedonismo, consumismo, imediatismo e pragmatismo.264 Essas crenças são de diversas formas oriundas do humanismo secular, baseadas na relativização da verdade básica acerca da pessoa de Deus. O relativismo, tão presente em nosso tempo, pode ser sintetizado como: “A doutrina que prega que algo é relativo, contrário de uma ideia absoluta, categórica. Afirma que as verdades (morais, religiosas, políticas, científicas, entre outras) variam conforme a época, o lugar, o grupo social e os indivíduos de cada lugar. Postura segundo a qual toda avaliação é relativa a algum padrão, seja qual for, e os padrões derivam de culturas”.265 O pensamento relativista trouxe sérias consequências para a sociedade de modo geral, por meio do materialismo científico, como niilismo266 e existencialismo.267 Com base nesses pensamentos, só importa o momento, os fatos acontecem ao acaso de maneira fatalista e aleatória. Assim, se Deus existisse dentro dessa crença, ele seria como uma criança mimada, com um olhar indiferente para sua fazenda de formigas. Esses e outros pensamentos humanistas seculares evoluíram, estando presentes de diversas formas em nosso tempo. A tabela abaixo demonstra as diferenças da modernidade para a pós-modernidade. Mas o que poderia ser chamado de diferenças, na verdade são consequências ou, num sentido irônico, evolução do extremo das doutrinas humanistas tão presentes na modernidade. Contrastes dos valores da modernidade e pós-modernidade Valores da Modernidade Valores da Pós-Modernidade O absoluto O relativo A unidade A diversidade O objetivo O subjetivo O esforço O prazer A trajetória (passado e futuro) O presente A razão O sentimento A ética A estéticaA modernidade, assim tão rodeada de absolutos, destruiu os absolutos da Palavra de Deus que poderiam fundamentar a ética, o agir, o sentir e as decisões na pós-modernidade. Quando não há referência imutável, a qual somente é o Deus trino, surge o relativo, e com base na relatividade infelizmente “tudo é possível”. O interessante é que o relativismo não surgiu de um abandono da razão, mas do extremo da razão que descaracteriza o que não pode explicar.268 Essas mudanças são notórias a partir da década de 1970, quando a ética aplicada do Ocidente sofreu mudanças evidentes. Visivelmente, a aceitação do homossexualismo e do aborto por partes significativas da sociedade refletem que grandes tabus começaram a cair. Começava a se formar uma sociedade pós-moderna, na qual alguns padrões de referência, que ainda sofriam significativa influência cristã, foram relativizados e conduziram a um individualismo notório. E assim surge o homem pós- moderno que afirma: “O que eu decido é bom e correto”, enquanto o seu vizinho que faz exatamente o contrário também pode afirmar “o que eu decido é bom e correto”, e, então, os dois fazem o que é “bom e correto de maneira individual”. No momento atual, a relativização evolui ainda mais, assim como a fragmentação da verdade, por meio da subjetividade proposta pelos humanistas. Essa evolução pode ter relativizado e fragmentado suas crenças dentro do próprio protestantismo. Vive-se um momento em que uma apologética ao humanismo secularista é proferida por diversas pessoas que professam a fé cristã, mas que, por meio do sincretismo, confundem e promulgam pseudoprincípios bíblicos, relacionados à prosperidade, à missão integral, à igreja emergente, ao evangelismo igualado a uma forma de proselitismo, às formas de superação de obstáculos com base no crer em si próprio, ao coaching cristão, entre outras manifestações de que o ser humano consegue e pode. Sempre é necessário verificar com clareza as respostas do cristianismo ao humanismo secular; no entanto, há uma necessidade latente para esses movimentos que invadem as igrejas locais com pensamentos humanistas. Dentre todas as possíveis respostas, a perspectiva da triunidade é a melhor. A doutrina da Trindade ruge como a melhor apologética a aqueles que entendem que a busca do sentido da vida se dá por meio daquilo que é inteligível, sem absolutos e com o ser humano como figura central. Ela refuta amorosamente e de maneira contundente a influência dos pensadores humanistas na sociedade. Ela deve ser determinante para o proceder do cristão em todos os âmbitos de sua vida. APOLOGÉTICA TRINITÁRIA AO HUMANISMO SECULAR O conhecimento do Deus trino provê para a atualidade princípios e valores necessários para uma vida digna de ser chamada humana. A totalidade da revelação acerca de Deus nos apresenta uma resposta adequada ao humanismo secular. Deus é trino em sua totalidade:269 com base nas Escrituras percebemos que são três pessoas em uma essência. Deus em Trindade e Trindade em unidade, num relacionamento de igualdade de diferentes funções.270 O Deus das Escrituras é pessoal, amoroso, autossuficiente, autodoador, unido na diversidade, que se comunica e vive em perfeita comunhão.271 Ele cria seres “à sua imagem” (Gn 1.26-27). A perspectiva de um Deus que transmite aspectos seus é a base para a imago dei presente em cada ser humano. A imagem de Deus no homem fundamenta alguém que é racional, possuidor de capacidade de escolha e moralidade.272 Os aspectos acerca de Deus, descritos nas Escrituras, fundamentam essas características nele. Esses atributos, que são percebidos no ser humano como sendo um presente de seu Criador para distingui-lo da criação impessoal, tornam o ser humano único na sua criação, capaz de relacionar-se com Deus, já que as características transmissíveis de Deus fundamentam a possibilidade de personalidade273 do ser humano.274 Deve-se sempre lembrar que, conforme Gênesis 1.10,12,18,21,25, tudo que Deus criou é bom. Logo, tudo que foi criado por Deus é bom, na sua forma original. Sendo assim, a capacidade de relacionamento e cada esfera desenhada por Deus ao longo das Escrituras, na sua forma original, são boas, tais como igreja, família e estado.275 O pensamento humanista secular afirma que o ser humano não necessita de um ponto de referência existencial além dele mesmo. Esse argumento é frágil, assim como o homem é frágil. As escolhas más do homem ao longo da história, marcadas por guerras, genocídios, atentados, terrorismo, entre outros, levam a duvidar da ética positivista oriunda da moral desse fraco ponto de referência. Quando atrelamos a perspectiva de um Deus trino, pessoal, que criou este homem à sua imagem, temos não só um ponto de referência moral, mas esperança existencial para o ser humano. Este Deus que cria e sustenta a criação “segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11) continua soberano sobre toda a criação, guiando e dirigindo todas as coisas. A percepção de José, em Gênesis 50.20, demonstra que Deus não só dá esperança por meio da bondade, mas também por meio da maldade: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida”. Este Deus, vendo as más escolhas do homem e como afetaram a humanidade (cf. Rm 3), age em prol dos seres humanos (cf. Rm 5). Vale ressaltar que há uma atribuição de maneira igualitária pelos autores do Novo Testamento e os autores do Antigo Testamento com relação à soberania de Deus (1Tm 6.15-16; cf. Jr 10.7; Sl 135.5). Ou seja, a intervenção divina devido às escolhas do homem não tornou Deus “menos” soberano. Assim, percebe-se que ele age em todas as coisas (Rm 8.28), inclusive sobre o mal, com o propósito de transformar o ser humano à imagem de seu Filho (Rm 8.29-30). A partir dessas ideias podemos ampliar ainda mais as perspectivas sobre Deus, seus planos e sua obra de criação máxima, que é o ser humano, como um ser pessoal, à imagem de um Deus pessoal e soberano. No entanto, o secularismo afirma que um Deus monopessoal e totalmente soberano anula a livre escolha do homem. Três entendimentos fundamentais precisam ficar claros acerca desse pensamento. Primeiro, a soberania de Deus é um alívio para o homem, conforme descrito acima, e entendido, por exemplo, por José. Um ser limitado é incapaz de lidar com todas as probabilidades de ações ao seu redor. Suas ações acarretam muitas outras, gerando o que poderia ser chamado de efeito borboleta.276 Assim, a soberania não priva o homem de sua liberdade,277 ela liberta da responsabilidade de governo sobre todas as coisas e auxilia o desamparado (cf. Is 57.15). Importante ressaltar que enquanto Deus é “distante” por ser poderoso, ele é próximo e pessoal: “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15). Segundo, Deus é dotado de livre vontade.278 Com base nessa livre vontade ele é, de fato, possuidor de um livre- arbítrio totalmente autônomo. Deus capacita o ser humano com base em quem ele é. Ele é soberano, de livre vontade e, ao mesmo tempo, amoroso e autodoador. Ao efetuar a obra da criação, “ele deliberadamente escolheu limitar-se, porque fez algo além de si mesmo”.279 Deus viabiliza um exemplo de verdadeira liberdade para o homem, a qual constitui-se não em fazer o que quiser, como quiser, mas em limitar-se em prol do próximo, visando ao bem maior da sociedade. Diferente dos humanistas seculares, o cristianismo acredita que, sim, a transformação vem pelo amor e sacrifício de Deus na cruz e não meramente pela boa educação ou segurança financeira. A Trindade é um modelo de uma sociedade vivendo em perfeita harmonia.Novamente, percebemos que só podemos ser pessoais e relacionais porque somos feitos à imagem do Deus tripessoal. Da mesma forma que o Deus trino utiliza sua liberdade para autodoar-se, podemos experimentar um modelo de liberdade divino. O terceiro entendimento que contrapõe a perspectiva humanista secular é que Deus não é monopessoal. Sendo trino, ele é tripessoal.280 A perspectiva da tripessoalidade gera uma interação de formas diferentes sobre a mesma questão com o ser humano. Pode-se questionar: como Deus, sendo santo e justo, em harmonia e sem divisão, relaciona- se com o mal que o homem pecador produz? Segundo Franklin Ferreira, a viabilidade está na Trindade: Por fim, não existe tensão entre a santidade e o amor de Deus. A santidade exige que a pena do pecado seja paga (Rm 1.18-32; 2.1–3.20), e o amor age para que alguns sejam justificados, para entrar em comunhão com Ele (Rm 1.17; 3.21). A união entre esses atributos é demonstrada na Cruz. Nela, o eterno Filho de Deus se entregou, como nosso representante, para satisfazer a santidade do Pai, ofendida por nossos pecados, e para proporcionar perdão para todos quantos confiam em Cristo.281 Assim, a ação das pessoas da Trindade, cada uma realizando uma função, permite que o homem viva com capacidade de escolha. Deus é justo e misericordioso, ele exige perfeição, mas ao mesmo tempo justifica o ser humano e, então, atua na vida dessa pessoa. O justo, o justificador e o Espírito Santo atuam. Três pessoas, um só Deus. Um Deus idôneo, onde cada pessoa da Trindade pode suportar os atos contra si, mas as outras duas podem julgar esses atos. Um Deus que vive em unidade, onde sempre houve e sempre haverá diversidade, é capaz de dotar o homem de arbítrio. O homem tem liberdade somente porque Deus é trino e de livre vontade.282 PERSPECTIVA TRINITÁRIA E A IGREJA LOCAL Uma perspectiva trinitária de Deus influencia diretamente o modo de ser igreja. Quando se entende melhor os conceitos de como a Trindade vive em comunidade e de como nós somos chamados para a comunhão com um Deus trino, podemos, de fato, entrar em comunhão uns com os outros. Assim, a comunhão com Deus pode ser visível na comunhão eclesiástica. A igreja, a comunidade criada por Deus para nos relacionarmos na imitação de quem ele é, nos fornece a perspectiva correta para adquirir e praticar uma cosmovisão trinitária.283 O humanismo abandona o único ponto de referência imutável existente, ignorando quem Deus é. No entanto, quando a igreja local tem o Deus trino como único ponto de referência de maneira perceptível em seus programas, cultos, propósitos, por meio de uma mutualidade real, baseada na autodoação e autoentrega de cada membro, é possível alcançar comunhão em unidade preservando a diversidade, regida por absolutos de santidade. O corpo de Cristo é uma das expressões mais claras da existência da Trindade. Onde pessoas que não teriam um motivo claro para se amarem, escolhem se sacrificar umas pelas outras. Quando isso acontece, temos uma apologética viva e clara ao humanismo secular. Por isso, a igreja local necessita ser a expressão da Trindade para as pessoas que não conhecem a Cristo, por meio da aceitação mútua, do sacrifício e do entendimento da soberania de Deus, orando e apoiando-se mutuamente, suportando uns aos outros e cumprindo os demais mandamentos recíprocos do Novo Testamento. Na igreja local, seres limitados são exortados a imitarem o ilimitado (Ef 5.1). O humanismo é extremamente presente na pós- modernidade. A perspectiva trinitária possibilita a construção de uma resposta para todos esses elementos. A igreja local deve estar disposta a viver à imagem de um Deus na sua totalidade. É poderoso refletir que somos criados à imagem de Deus, mas quando comunidades que seguem a Cristo praticam e vivem a autoentrega, mostram ao mundo uma realidade que espelha o amor de Deus (Jo 17). A falta de comunhão verdadeira em uma igreja local produz cristãos individualistas. A mutualidade, os relacionamentos profundos e a autoentrega são extremamente necessários para a formação de uma igreja que reflita a imagem da Trindade. 284 CONCLUSÃO Obviamente, o conceito profundo sobre a Trindade é necessário para toda e qualquer pessoa. No decorrer deste capítulo, percebeu-se que os conceitos humanistas seculares estão presentes na atualidade de diversas formas, e a perspectiva da Trindade é, sem dúvida, a melhor resposta para eles. No entanto, o humanismo secular, incrustado em nossa sociedade, conduz o indivíduo a uma cosmovisão que frutifica em individualismo, egoísmo e relativização. As absolutas verdades de um Deus autodoador e que eternamente vive em comunidade são essenciais para a formação de uma cosmovisão que permita ao indivíduo alcançar a maturidade. Assim, a necessidade de explanação acerca da perspectiva trinitária, buscando a formulação de uma cosmovisão trinitária, parece ser o caminho seguro para a condução do indivíduo rumo à piedade, à fidelidade e à relevância. Interessante perceber que a constituição de quem Deus é nos ampara. A providência divina, por exemplo, nos dá um motivo para suportar todas as coisas. Um Deus criador e pessoal nos oferece uma oportunidade de relacionamento, uma viabilidade para os aspectos de personalidade e um padrão de comportamento. Ele, sendo o criador da família e da sociedade, tem um plano ativo para elas. Sendo autodoador e agindo de livre vontade, nos capacita para escolher e nos oferta um padrão libertador para essas escolhas. Por fim, por ser tripessoal, se relaciona conosco de maneira completa, não permitindo desamparo por causa da sua justiça nem libertinagem por causa do seu amor. A perfeição da Trindade é viabilizadora de uma vida próspera para o ser humano num mundo caído, à medida que vivemos em comunidade como ele vive em comunidade. PARA REFLEXÃO 1. No meio universitário acadêmico, percebe-se os princípios do humanismo secular vivos. Jesus disse: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). Cristãos não podem abandonar a academia tanto quanto não podem crer em qualquer ideia contrária às Escrituras. Como a cosmovisão trinitária pode auxiliar a ser relevante e manter-se fiel em situações como essa? 2. Como você percebe um humanismo secular presente nos meios em que está inserido? E como a Trindade pode auxiliar a superar os desafios oferecidos por esse pensamento? 3. Vemos em João 17.20-21 a possibilidade de que o mundo conheça a verdade por meio do relacionamento: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste”. Como essa ideia se aplica na igreja local e em que forma a sua existência é uma apologética ao humanismo? CAPÍTULO 13 A TRINDADE E ALÁ DESAFIOS NO DIÁLOGO CRISTÃO COM OS MUÇULMANOS PAULO C. SANT’ANNA E JOSH MILANO O islamismo nega enfaticamente a doutrina da Trindade e levanta várias barreiras com relação ao pensamento cristão. Os principais obstáculos enfrentados por cristãos ao tentarem compartilhar o evangelho aos muçulmanos surgem de pressuposições assumidas sobre o cristianismo à luz do Alcorão ou devido às suas tradições históricas. O desafio é tentar transpor essas barreiras ou divergências de crenças na tentativa de buscar pontes para o diálogo sobre o Deus trino revelado na Bíblia. IDENTIFICANDO AS BARREIRAS COM A TRINDADE Mesmo crendo que a Bíblia foi divinamente inspirada em seus manuscritos originais, os muçulmanos tendem a crer que a doutrina da Trindade foi uma invenção inserida pelos cristãos e seria, consequentemente, uma heresia. Carlos Madrigal aponta o surgimento dessas barreiras em dois erros na crença do islã: Os que rejeitam a Trindade o fazem baseados em dois erros principais. O primeiro erro consiste em pensar queas Sagradas Escrituras (Taurat-[...]; Zabur-[...]; Injil-[...]) (sic) têm sido adulteradas, e, portanto, os versículos que sustentam a Trindade são considerados forjados. No entanto, tal suposição é completamente infundada. O segundo erro é a alegação de que essa doutrina não procede de revelação divina, mas que é resultado de decisões caprichosas e infundadas tomadas nos concílios da igreja primitiva – especialmente no Concílio de Niceia, em 325 d.C.285 Esses dois erros citados por Madrigal já seriam suficientes para erguer uma barreira intransponível neste diálogo. Porém, por outro lado, o próprio Alcorão poderá fornecer temas importantes para a conversa, pois faz alusões às Escrituras, dando crédito a elas. Assim, é sábio aproveitar pontos da crença do islã para uma abordagem bíblica sobre a Trindade. O islã afirma ser a mensagem do mesmo Deus do Antigo e do Novo Testamentos, pois está revelado no Alcorão286 em várias passagens, como nas Suratas 2:136,138-140; 4:150- 152. Um exemplo é a Surata 29:46 com a declaração que confirma a ideia da crença: “E não disputeis com os adeptos do Livro, senão da melhor forma, exceto com os injustos, dentre eles. Dizei-lhes: cremos no que nos foi revelado, assim como no que vos foi revelado antes; nosso Alá e o vosso são Um e a Ele nos submeteremos”.287 O islã é uma religião monoteísta com o conceito de que Alá é infinito, pessoal e criador, mas ainda muito diferente do Deus trino das Escrituras; ele é uma unidade absoluta. Afirmar a Trindade com Jesus e o Espírito é, para o islã, o pecado imperdoável chamado shirk, como explica Silas Tostes: “É atribuir parceiros a Alá, ou seja, considerar algo ou alguém que não tem natureza divina como Deus, adorando-o como tal”.288 Na Surata 4:48 encontramos a seguinte declaração: “Alá jamais perdoará a quem Lhe atribuir parceiros; porém, fora disso, perdoa a quem Lhe apraz. Quem atribuir parceiros a Alá cometerá um pecado atroz”.289 Para os muçulmanos, Alá é absoluto e autossuficiente, que não precisa relacionar-se com alguém. Por outro lado, o Deus do cristianismo é relacional em sua essência; constituído como Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas e uma substância. Por isso manifesta-se de forma finita na criação e pode continuar sendo Deus independente da criação. O autor Fred Sanders tem uma afirmação neste ponto sobre o Deus trino: “Coisas como a criação e a redenção são coisas que Deus faz, e continuaria sendo Deus se ele não tivesse feito. Porém a Trindade é quem Deus é, e sem ser a Trindade, ele não seria Deus. Deus menos criação continuaria sendo Deus, mas Deus menos o Pai, Filho e Espírito Santo não seria Deus”.290 Os estudiosos do islã também defendem que os atributos de Alá são semelhantes aos do Deus cristão, mas sem aceitar a Trindade. Na Surata 1, Alá é descrito como clemente e misericordioso e que é também soberano no dia do juízo. Desta maneira, Alá é monopessoal e não se relaciona com o pecador. Porém, a Bíblia afirma um Deus trino que poderá resolver a questão do pecador, enviar o seu Filho para demonstrar sua misericórdia e imputar justiça, sendo que não há nenhum ser humano justo (Rm 3.23). Scott Horrell comenta: Como é que o Absoluto Moral do universo pode perdoar e ter comunhão com um pecador? Na Bíblia, Deus é o Justo, mas também o Justificador de nossos pecados (Rm 3.23-26), precisamente porque ele é mais do que uma pessoa. Por causa de sua pluralidade de pessoas, o Deus Triúno pode ser o Santo Juiz sem se comprometer, o Cordeiro sacrificial que morreu em meu lugar e o Espírito santificador que atua em mim.291 Embora os conceitos básicos de uma crença monoteísta se assemelhem ao conceito cristão, a crença na divindade monopessoal como Alá não é o Deus da Trindade bíblica. Por essas razões e outras, os muçulmanos são enfáticos em negar a divindade de Jesus e os versículos que apresentam a Trindade. APRESENTANDO A TRINDADE POR PONTES DE AMOR Ainda que as crenças do islã apresentem barreiras difíceis de serem transpostas, é possível construirmos pontes dos temas do Alcorão para com a revelação bíblica em defesa da Trindade. A seguir, veremos três aspectos da doutrina cristã e as devidas alusões no Alcorão que podem servir de pontes para um diálogo amoroso sobre a Trindade. Deus Filho Jesus Cristo A divindade de Cristo é condenada no islamismo e no Alcorão. Afirmar que Jesus é o “Filho de Deus” é uma heresia, pois encaram esse tipo de filiação apenas em nível biológico, pois Deus jamais teria contato sexual com uma mulher. Eles o veem como um profeta humano, ou seja, um homem mensageiro de Deus equiparado a Abraão, Moisés e Davi. Todavia, na Bíblia, a filiação de Jesus e sua divindade estão amplamente relacionadas em várias passagens, como por exemplo: Deus o chama de Filho amado (Mc 1.11; Lc 3.23); Jesus é pré-existente e eterno (Jo 8.58); Jesus e o Pai são um (Jo 10.30); quem vê o Filho vê o Pai (Jo 14.9). O próprio Jesus foi acusado de declarar ser o Filho de Deus ou o próprio Deus (Mc 14.61-64), então não poderia ser apenas profeta. Como apresentar o Filho para a compreensão de um muçulmano? O relato do nascimento virginal de Jesus é descrito no Alcorão e pode ser uma ponte para o diálogo sobre a pessoa de Jesus. Duas passagens do Alcorão relatam o nascimento de Jesus, a Surata 19:26-29 e a Surata 3:42-47. Esta última relata assim: 42. Recorda-te de quando os anjos disseram: Ó Maria, Alá te elegeu e te purificou, e te preferiu a todas as mulheres da humanidade! 43. Ó Maria, consagra-te ao Senhor. Prostra-te e ajoelha-te com os que se ajoelham! 44. Estes são alguns relatos do desconhecido, que te revelamos. Tu não estavas presente com eles quando, com setas, tiravam a sorte para decidir quem se encarregaria de Maria; tampouco estavas presente quando estavam a discutir entre si. 45. E quando os anjos disseram: Ó Maria, Alá te anuncia o Verbo, cujo nome será o Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e que se contará entre os próximos de Alá. 46. Falará aos homens ainda no berço, bem como na maturidade, e se contará entre os virtuosos. 47. Perguntou: Ó Senhor meu, como poderei ter um filho, se mortal algum jamais me tocou? Disse-lhe o anjo: Assim será. Alá cria o que deseja, posto que quando decreta algo basta dizer: Seja! e é.292 Esse texto do Alcorão pode trazer uma alusão ao texto bíblico de Lucas 1.26-38. No texto bíblico há maior riqueza de detalhes que não estão registrados no Alcorão. A Bíblia relata o nascimento de Jesus pela virgem Maria de maneira milagrosa sem que ela tivesse contato íntimo, como afirma a Surata 3:47 anterior. O foco deve estar nos detalhes bíblicos sobre quem é Jesus, como sugere Don McCurry: “Sendo que os mais importantes são que Jesus será um Salvador, que herdará um reino eterno, que ele é o auge das promessas de Deus feitas a Abraão, Jacó/Israel e Davi, e que será chamado ‘o Filho de Deus’, ‘o Filho do Altíssimo’”.293 O relato do nascimento virginal e miraculoso de Jesus reforça sua divindade e mostra que Deus não teve um relacionamento sexual com Maria. Outra ponte possível para apresentar a divindade de Jesus é o fato do Alcorão se referir a Jesus como o Verbo ou a Palavra encarnada. Essa afirmação está na passagem do Alcorão mencionada anteriormente (Surata 3:42-47). O Alcorão dá ênfase a Jesus como sendo a Palavra de Deus, veja a Surata 4:171: “O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão somente um mensageiro de Alá e o Seu Verbo, com o qual ele agraciou Maria por intermédio do seu Espírito”.294 Sobre este conceito, a Bíblia é bem clara: Jesus é o Logos, o Verbo ou a Palavra de Deus encarnada. Isso é sinônimo de sua pré-existência, participação na criação e divindade reveladas na Bíblia (Jo 1.1-4,14; Cl 1.16-17; Hb 1.1-3). Madrigal resume o conceito bíblico de Jesus como Verbo: Em resumo, podemos dizer que o fato de que Jesus é o Filho de Deus não está sujeito ou depende do seu nascimentoterreno. Antes de nascer como um homem, o ser espiritual que estava “instalado” em Jesus – a Palavra divina – já era, de fato, o Filho, a revelação viva de Deus, o Kalamu’llah. Ele não foi forçado a nascer como um homem. Mesmo que Jesus não tivesse vindo a este mundo, continuaria a ser o Filho (isto é, a Palavra), porque já existia no coração de Deus. Foi depois de assumir uma natureza humana que ele se tornou o Filho do Homem, o Messias e o Salvador. Por seu nascimento, Jesus Cristo foi e é um homem; mas, como a Palavra divina que vive desde a eternidade, ele é e sempre foi Deus em pessoa.295 Uma excelente oportunidade no diálogo com o muçulmano é apresentar o conceito bíblico da pessoa do Senhor Jesus como o Verbo encarnado, pré-existente, sendo ele mesmo o Filho de Deus, o Redentor. Jesus é o Unigênito Filho de Deus, ele também é o primogênito, mas não em ordem de nascimento e sim de primazia, pois Deus deseja nos adotar como filhos. O Deus Pai da Bíblia e o Alá do Islã No islã, a terminologia de Deus como Pai não é comum devido ao mesmo argumento de que Deus também não tem Filho. A nomenclatura “pai” evoca para os muçulmanos um significado estritamente biológico, o que para o cristão também seria uma heresia. Há muitos textos na Bíblia para se referir a Deus como Pai nos seus diversos sentidos: o Pai de Israel (Is 63.16); a Deus Pai pertencem todas as coisas (1Co 8.6); o Pai que ouve nossas orações (Ef 3.14-15); o Pai que disciplina seus filhos (Hb 12.9-10); o Pai que dá boas dádivas (Tg 1.17). Os textos bíblicos que apresentam Deus como Pai têm de nos remeter à eternidade, pois a paternidade de Deus revela o relacionamento de amor na Trindade. O Senhor Jesus declara em João 17.24: “... porque me amaste antes da fundação do mundo”, confirmando esse relacionamento. Na eternidade, o Deus trino se relacionava numa comunidade de amor, e fomos criados como demonstração desse amor para desfrutar da comunhão com ele. Alguns concluem que a criação originou-se no sobrefluir de amor e de autossacrifício dos relacionamentos trinitários. Certamente, esse Deus trino criou, sustenta e envolve-se com todas as dimensões da existência. Assim conclui também Thomas Finger: Contudo, embora este processo autodoador e autoesvaziador seja tão radical, tal Deus trinitário permanece distintamente outro. Assim o entrelaçamento de Deus com as criaturas evoca maravilha elevada, pois não procede de uma necessidade natural – não porque já somos o corpo de Deus, mas da graça.296 No diálogo cristão com o muçulmano é preciso apresentar que Deus é um Pai amoroso, que sua paternidade espiritual é de um relacionamento muito diferente das experiências negativas que a paternidade humana possa providenciar. Podemos recorrer sempre ao amor do Pai celestial (2Co 13.13), pois ele mesmo é a fonte de amor (1Jo 4.7-8). Deus Pai nos ama, e por causa do seu amor – que começa dentro da Trindade – ele também quer nos adotar como filhos (Mt 5.45; Jo 1.12; 1Jo 3.1). A oração de Jesus por nós revela o seu desejo de que esse amor do Pai esteja em nós (Jo 17.26). O grande amor de Deus Pai é demonstrado ao dar o seu próprio Filho Jesus por nós para recebermos a salvação (1Jo 4.9-10; Jo 3.16). Somente um Deus trino pode ter um plano tão maravilhoso de adotar novos filhos e torná-los coerdeiros com Jesus (Rm 8.29). O Espírito Santo e o Islã O desafio permanece em apresentar o Espírito Santo como sendo Deus. O Alcorão menciona Maria como uma tentativa de se tornar a terceira pessoa da Trindade. O apoio para esse pensamento parece ser baseado no Alcorão, Surata 5:116. E recorda-te de quando Alá disse: Ó Jesus, filho de Maria! Foste tu que disseste aos homens: Tomai a mim e a minha mãe por duas divindades, em vez de Alá? Respondeu: Glorificado sejas! É inconcebível que eu tenha dito o que por direito não me corresponde. Se o tivesse dito, tê-lo-ias sabido, porque Tu conheces a natureza da minha mente, ao passo que ignoro o que encerra a Tua. Somente és Conhecedor do desconhecido.297 O texto acima parece estar reafirmando a humanidade de Jesus e Maria, e que adorá-los como Deus é um erro. Há uma explicação para tal ponto de vista, como esclarece Silas Tostes: Há duas possibilidades de como Maomé se convenceu de que a crença da Divindade de Maria era aceita por cristãos. Talvez obteve este conhecimento através de uma obscura seita cristã chamada Collyridians. Estes adoravam Maria e lhe ofereciam um bolo em adoração, chamado Collyris. Ou simplesmente o obteve por meio do que pensou ser verdade, segundo as aparências, pois alguns cristãos veneram Maria em suas expressões populares de fé, de tal maneira, que poderia ter lhe parecido que era uma doutrina cristã, a divindade de Maria. Sendo assim, Maomé poderia ter concluído que Maria era parte da Trindade, o que é contrário ao ensino bíblico sobre ela.298 Na doutrina cristã evangélica, a veneração ou adoração de Maria é inaceitável e é inconcebível colocá-la como membro da Trindade até mesmo entre católicos romanos que aceitam sua veneração. Os muçulmanos também concluem que os textos que mencionam o “Espírito Santo” devem obviamente ser uma referência ao anjo Gabriel, que se revelou ao profeta Maomé. Por isso, é necessário explicar quem a Bíblia diz ser o Espírito Santo. Ele não é uma força ou energia, mas uma pessoa: chamado de Consolador – o paracletos (Jo 14.26; 15.26; 16.7). Expressa sentimentos (Ef 4.30) e vontade (At 16.7). É reconhecido como Deus: chamado de Espírito do Senhor (2Sm 23.2), ele é Deus (At 5.3-4) e existe desde a eternidade (Hb 9.14; 1Pe 1.10-12). O Espírito Santo é uma pessoa e age em nosso meio, ele tem um ministério de convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo de Deus (Jo 16.8); dando-nos a nova vida espiritual quando nos tornamos filhos (Jo 3.6) e garantindo a salvação e filiação (Ef 1.13; Rm 8.11,16). As obras do Espírito Santo também apontam para a sua divindade: participação da criação do mundo (Gn 1.2); a inspiração das Escrituras (2Pe 1.21); a concepção de Jesus (Mt 1.20); e sua morada no crente (1Co 6.19). Inevitavelmente, o Espírito Santo é Deus de acordo com a Bíblia, e não uma invenção posterior dos cristãos. Os credos dos apóstolos, de Niceia e de Atanásio não definiram a Trindade, foram apenas uma tentativa de organizar os pensamentos sobre a Trindade para instruir a igreja contra eventuais heresias. O Deus trino é glorioso e soberano, o que o torna transcendente. No entanto, ao mesmo tempo, ele também é imanente ao garantir a sua presença (Jo 14.16-17) e comunhão (1Co 6.19) por intermédio do Espírito Santo. Um Deus monopessoal e absoluto é apenas transcendente e não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, pois uma excluiria a outra. CONCLUSÃO Por mais confusas que possam ser as ideias do islã sobre a Trindade, os cristãos precisam assumir uma postura de amor nesse diálogo. O amor é a maior dádiva que alguém pode oferecer e a fonte desse amor é o próprio Deus trino (1Co 13.1-7,13; 1Jo 4.8). Temos que lembrar que o convencimento das verdades espirituais vem através da obra do Espírito Santo na vida daqueles que se submetem a ele. Muçulmanos vieram ao Brasil como imigrantes no passado e, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são hoje mais de 35 mil pessoas. Alguns líderes muçulmanos ainda afirmam que os números podem chegar a 1,5 milhão de fiéis.299 Ainda que haja divergência nas estimativas, é verdade que a cada dia a população de seguidores do islã só cresce, sendo por conversões ou pela chegada de refugiados de países em conflito. Diante dessas informações, a igreja brasileira deve se conscientizar e preparar os cristãos para essas portas que se abrem. Sim, criar oportunidades de se aproximar de muçulmanos, com o intuito de lhes apresentar o evangelho do Deus trino. Que o povo de Deus possa se engajar num diálogo com os muçulmanos sobre o Deus trino, que é aquele que revela oseu amor, que nos resgata com o seu amor e nos recebe em seu amor. Convide-os para experimentar esse amor. PARA REFLEXÃO 1. Ao investigarmos a natureza do Deus trino e de Alá, aparentemente vemos atributos semelhantes, como justiça e misericórdia. No entanto, quais seriam as implicações das crenças no aspecto monopessoal de Alá e do Deus trino em relação aos seus atributos? 2. Na visão do islã, é grande heresia chamar Deus de Pai, pois é inconcebível que Deus tenha gerado filhos. Basicamente, o argumento utilizado é da impossibilidade de uma filiação biológica, logo, como podemos explicar biblicamente a maneira que nos tornamos filhos de Deus? 3. Há um controverso entendimento dos muçulmanos a respeito de Maria, de que ela seria uma pessoa da Trindade. Como que o conhecimento do texto do Alcorão e do texto bíblico podem ser argumentados para se refutar essa ideia? 4. Existe uma maneira prática em que um cristão pode demonstrar o amor de Deus por um muçulmano? Como? CAPÍTULO 14 OS CREDOS TRINITÁRIOS E O PENSAMENTO CERTO COMO OS CREDOS PODEM FUNCIONAR NA IGREJA CÉSAR ORLANDO MENDOZA RAMÍREZ Uma das características de grande parte da igreja evangélica brasileira é sua anticonfessionalidade, ou seja, ser indiferente a tudo aquilo que está relacionado com confissões de fé e catecismos. Dentro dessa rejeição da prática de ensinar essas formulações de fé, também podemos agregar os credos – que historicamente foram de grande importância para o desenvolvimento da doutrina cristã. Infelizmente, os credos possuem uma fama de ser algo desnecessário para a vida cristã. Ironicamente, aqueles que são contrários às confissões de fé, aos catecismos ou aos credos também possuem seus próprios dogmas, que talvez não estejam escritos, porém são conhecidos publicamente pela comunidade à qual pertencem. Eles também defendem pontos que os diferenciam de outras comunidades cristãs. A verdade é que a grande maioria das discussões acontece com relação às “doutrinas denominacionais”, como qual é o tipo certo de batismo, o verdadeiro significado da santa ceia, qual é a forma de governo correta, como devemos entender os dons espirituais etc. O problema com isso é ficarmos preocupados com questões periféricas e nos esquecermos do mais importante, como por exemplo: o que nos identifica como cristãos? Quais são as doutrinas históricas e fundamentais que estão além do denominacionalismo? Por isso, é de muita importância que, em nossa época, a igreja de Cristo volte a apreciar os credos que enfatizam o Deus trino – dentre os quais temos o Credo dos Apóstolos, de Niceia, de Constantinopla, da Calcedônia e de Atanásio – bem como entenda como estes se relacionam com a igreja atualmente. Desde o início de sua existência, a igreja quis organizar o essencial da sua fé em resumos articulados. Como dizem Franklin e Myatt, os credos principais serviam como símbolo de identificação e comunhão: “Desde o seu início, o cristianismo confessou sua fé de forma lógica e objetiva, através de credos, confissões e catecismos, e isso cedo se refletiu na anuência ao Credo dos Apóstolos, ao Credo de Niceia, à Definição de Calcedônia e ao Credo de Atanásio”.300 Paralelo a isso, os credos resolveram conflitos que surgiam dentro da igreja, fruto de heresias que formulavam ensinos errados e destruíam os alicerces da fé. Enfim, a aceitação ou a rejeição de um credo servia para distinguir os crentes e os negadores de uma doutrina específica ou de um conjunto de doutrinas ao redor da pessoa de Jesus Cristo e da Santa Trindade. Com o tempo, certos credos entraram na liturgia da igreja, geralmente depois da leitura das Escrituras, como uma afirmação da fé congregacional. Por isso, numa época como a nossa, onde temos variadas informações que ingressam numa grande velocidade em nossas igrejas locais, com muitas delas inclusive indo além ou até contradizendo a Palavra de Deus, os credos se tornam uma ajuda para delimitar o que de fato está conforme o ensino bíblico e o que é herético. Os reformadores protestantes não tinham medo de usar os credos. Infelizmente, depois de Calvino e Lutero, surgiram posições radicais que se desligavam da tradição histórica da igreja. Atualmente, temos evangélicos que não gostam de ouvir a palavra “tradição”, já que acreditam que isso os vincula com o catolicismo. No Brasil, muitas denominações evangélicas desenvolveram uma grande oposição aos ritos, cerimônias e mensagens que tenham algum vínculo com o catolicismo, por isso, usando o argumento de Sola Scriptura, rejeitaram os credos. O entendimento errado da Sola Scriptura levou muitos grupos evangélicos a acreditarem que sua interpretação da Bíblia é a única base e autoridade na vida do cristão, enquanto afirmam que os credos são o resultado de tradições humanas inúteis e enganosas. Lamentavelmente, deixam de lado uma rica história de interpretação das Escrituras em comunidade, onde o Espírito de Deus agiu na vida dos crentes do passado. Quando nos desvinculamos totalmente da tradição cristã, esquecendo-nos que a própria Bíblia insiste que sigamos o ensino dos apóstolos e o ensinemos a outros (2Tm 3.10-17), corremos o risco de nos tornarmos a autoridade final da interpretação. Também sabemos que vivemos numa época de rápida mudança mundial, onde princípios que guiavam a humanidade, e especialmente a cultura cristã, estão sendo destruídos, e não temos tempo para construir novos valores com a mesma rapidez que outros se destroem. Por isso, é muito importante que a igreja seja flexível em sua forma, a fim de alcançar o ser humano perdido, porém sem se esquecer da sua essência – em quem tem crido. Neste contexto, o estudo dos credos se torna muito relevante para nossa época, já que eles são de extremo valor para manter uma vida saudável nas igrejas. BREVE HISTÓRIA DOS CREDOS Sabemos que a Bíblia não foi escrita como um livro de teologia sistemática ou um compêndio, onde podemos encontrar uma parte específica que fale sobre a Trindade, sobre pneumatologia, escatologia etc. Obviamente, ela fala sobre esses temas, e o desafio da boa teologia é juntá-los e mostrar o que Deus revela sobre um tema específico, para logo dialogar com questões da época atual e poder mostrar que a Palavra de Deus tem resposta para um ser humano perdido. Dentro desse processo, os credos se tornaram muito importantes, já que neles podemos encontrar um resumo do que temos crido e por quê. O Credo Apostólico O Credo dos Apóstolos é o mais conhecido dos credos e por muito tempo foi atribuído aos doze apóstolos,301 porém muitos estudiosos acreditam que ele se desenvolveu a partir de pequenas confissões batismais empregadas nas igrejas dos primeiros séculos. Sabemos que é bem antigo: atualmente alguns autores acreditam que alcançou sua forma rudimentar (a Velha Fórmula Romana) em mais ou menos 150 d.C. Por volta do século VI começaram a circular histórias sobre seu processo de formação.302 A forma integral do Credo, tal como a conhecemos hoje, teve sua origem em torno do século VIII na Gália, atual França. Para Franklin e Myatt, doutrinas essenciais encontram-se neste credo: “Desde cedo, a igreja cristã afirmou o conteúdo do ‘cristianismo puro e simples’, as afirmações mais básicas e distintivas da fé cristã, no assim chamado Credo dos Apóstolos”.303 Podemos acreditar que existe uma conexão entre o Credo dos Apóstolos com credos antigos menores, como por exemplo o Credo Romano Antigo, que provém da segunda metade do século II.304 O Credo Apostólico surgiu como resposta à exigência que as Escrituras fazem aos cristãos para que confessem sua fé de forma clara e simples e também serviu para combater o paganismo.305 A versão mais antiga que conhecemos provém de Marcelo, bispo de Ancira (capital da Galácia), aproximadamente nos anos 337-341 d.C. O objetivo de Marcelo foi provar sua ortodoxia ao bispo Júlio I. O Credo de Marcelo é claramente trinitário, embora aparte cristológica seja maior que a referente ao Pai e ao Espírito. A versão atual do Credo afirma claramente o caráter trino de Deus; a encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte, ressurreição e ascensão; a igreja como criação do Espírito Santo; o perdão dos pecados; a ressurreição do corpo e a vida eterna. O Credo de Niceia (325 d.C.) O Credo de Niceia foi elaborado no primeiro Concílio Ecumênico (universal) da Igreja, que foi realizado na cidade de Niceia (atual Iznik, na Turquia), no ano 325 d.C.306 O propósito deste credo foi combater o ensino de Ário, um presbítero da igreja de Alexandria, natural da Líbia, que havia declarado que embora o Filho fosse divino, ele era o primeiro ser criado através de quem tudo o mais foi criado, e, portanto, o Filho não possuía a mesma essência com o Pai. A natureza de Cristo era parecida com a de Deus (“natureza semelhante”, homoiousios), e não igual (“natureza idêntica”, homoousios).307 Também ensinou que o Espírito Santo foi criado pelo Filho. Quando o Concílio de Niceia procurou resolver essa questão, um grupo de bispos liderados por Alexandro de Alexandria defendeu que o Filho era da mesma substância (homoousios) que o Pai. Depois de semanas de debate, o imperador Constantino afirmou, junto com o bispo Alexandro e a grande maioria dos bispos presentes, que Cristo era da mesma substância (ou essência) do Pai. O Credo de Constantinopla (381 d.C.) Com respeito ao Espírito Santo, o Credo de Niceia simplesmente dizia “cremos no Espírito Santo”, dando por entender que o Espírito, assim como o Filho, era da mesma essência que o Pai. Ainda mais, houve oscilação no Império entre o chamado arianismo e a ortodoxia de Niceia, com vários sínodos e novos credos comprometidos com o que foi antes rejeitado. Pior ainda, um novo imperador, Juliano, “o Apóstata”, queria devolver o mundo para o velho paganismo. A igreja estava sem definição, e para isso foi realizado o Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., sob a orientação (inicial) de Gregório de Nazianzo. O Credo de Constantinopla reivindicou a eterna igualdade do Filho com o Pai: o Filho é “eternamente gerado do Pai, Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma substância com o Pai, através de quem tudo foi criado”. Sobre o Espírito, o Credo declara: “Cremos no Espírito Santo, Senhor vivificador, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho conjuntamente é glorificado e que falou por meio dos profetas”. Ainda que esse credo não utilize a expressão “de uma só substância com o Pai” em relação ao Espírito Santo, usada para falar sobre Cristo no Credo de Niceia, descreve a obra do Espírito Santo em termos que não poderiam ser atribuídos a qualquer outro ser criado. A partir do Credo de Constantinopla – geralmente tido e citado como “o Credo de Niceia” –, os seguintes Concílios Ecumênicos de Éfeso (431 d.C.) e Calcedônia (451 d.C.) foram construídos. O Credo de Calcedônia (451 d.C.) O imperador Marcião convocou o quarto concílio ecumênico, conhecido como o Concílio de Calcedônia, no ano 451. Semelhante ao Concílio de Éfeso, em 431, mas agora de forma mais definitiva, o propósito desse concílio foi corrigir controvérsias entre as igrejas ocidentais e orientais a respeito da encarnação e da natureza de Jesus Cristo. Era necessário escrever um novo credo que definiria de modo claro a relação entre as duas naturezas de Cristo (divina e humana). Três posições principais que foram rejeitadas no concílio: (1) Jesus teve um corpo humano, porém os aspectos espirituais e racionais eram divinos. Fisicamente ele era um homem, porém não tinha alma nem espírito humano. De fato, essa posição defendida por Apolinário já havia sido condenada no Concílio de Constantinopla em 381; (2) em Jesus foram unidos um homem e Deus sem mistura, de tal maneira que Jesus quase foi entendido como duas pessoas no mesmo corpo – uma posição atribuída a Nestório; e (3) contra o nestorianismo, Êutico defendeu que as duas naturezas, humana e divina, se fusionaram de tal maneira que Jesus teve uma só natureza, nem inteiramente Deus nem inteiramente homem; surgia, assim, uma terceira substância antes inexistente, diferente de qualquer corpo humano. O Concílio de Calcedônia rejeitou essas três posições. Enfim, a Definitio Fidei, isto é, a Definição de Calcedônia, estabeleceu a resposta à questão cristológica: as duas naturezas, divina e humana, cada uma completa e perfeita, se juntam na única pessoa de Jesus Cristo, “sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação” – isto “para nós e para a nossa salvação”. Sendo plenamente Deus, o sacrifício de Jesus é perfeito e infinitamente valioso, suficiente para pagar o preço de todos os pecados. Sendo plenamente humano, seu sacrifício é em nosso lugar. Como diz Gregório de Nazianzo em sua carta a Cledônio, “o que não é assumido por Jesus, ele não cura, mas o que é unido à sua divindade, ele salva”. Assim, ao afirmarmos com Calcedônia a união do divino e humano em Jesus, podemos nos alegrar da sua suficiência para nos salvar em todos os aspectos da nossa existência. O Credo de Atanásio (c. 500 d.C.) O Credo de Atanásio (Quicunque vult) foi inicialmente atribuído por alguns a Atanásio, bispo de Alexandria (c. 296- 373 d.C.), honrando o famoso defensor da doutrina da Trindade. Baseado na teologia de Atanásio, Constantinopla e Agostinho, o Quicunque vult funcionava como catequese para os novos na fé na igreja latina (católica romana). A mais antiga menção ao Credo de Atanásio é do século VI, através de um sermão de Cesário. A forma definitiva do século VIII reflete a teologia dos quatro primeiros sínodos ecumênicos. Esse credo possui 40 artigos e, ainda que seja um tanto longo, é considerado “um majestoso e único monumento da fé imutável de toda a igreja quanto aos grandes mistérios da divindade, da Trindade de pessoas em um só Deus e da dualidade de naturezas de um único Cristo”.308 Na igreja ocidental, o credo foi elaborado para orientar novos convertidos à fé trinitária para o batismo: “Adoramos um Deus em Trindade e a Trindade em Unidade, sem confundir as Pessoas, sem dividir a essência. Pois há uma Pessoa do Pai, uma do Filho, outra do Espírito Santo. Mas a Divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é Uma só, a Glória igual e coeterna a Majestade”. E de novo, “o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, porém não há três Deuses, mas um só Deus”. Ao mesmo tempo, o Credo de Atanásio esclarece a distinção de cada pessoa da Trindade – o Pai como o gerador, o Filho gerado e o Espírito procedido, todos dignos de adoração. Os Credos Apostólico, Niceno, Constantinopolitano, Calcedônico e de Atanásio unificam a igreja de Jesus Cristo. São afirmados por todos os protestantes da Reforma, todos os evangélicos e todos os pentecostais tradicionais – junto com as Igrejas Católica e Anglicana. As verdades neles expressas dividem a fé bíblica e ortodoxa das outras religiões e de todas as seitas subcristãs rejeitadas da longa história cristã. A IMPORTÂNCIA DOS CREDOS PARA A NOSSA ÉPOCA A importância dos credos não está na sua repetição vã, ou mesmo na sua memorização, mas em expor e ensinar doutrinas essenciais da fé cristã. Apresentamos seis razões pelas quais os cristãos deveriam apreciar, estudar e aproveitar para uso na igreja local os credos centrais da igreja antiga.309 Esses pontos podem servir como contextualização para séries de mensagens que explicam os credos, a sua utilidade para nossas igrejas e o nosso relacionamento com o Deus trino. 1. Os Credos Oferecem Resumos Claros sobre Nossa Fé Quando estudamos os Credos dos Apóstolos, de Niceia, de Constantinopla, da Calcedônia e de Atanásio, podemos aprender, de forma breve, verdades sobre nossa fé – em quem temos crido. Usualmente os cristãos não têm tanto tempo para ler coleções teológicas e chegar a conclusões sobre sua fé, por isso os credos sãode grande ajuda, já que podem ser memorizados e lembrados em todo momento. Com isso, podemos usá-los em várias situações em que precisamos falar sobre nossa fé. 2. Os Credos Permitem Identificar Quanto Conhecemos sobre Deus As igrejas precisam de presbíteros que liderem conforme a vontade de Deus, e, para que isso aconteça, a Bíblia nos recomenda que eles não devem ser neófitos na fé: “Não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo” (1Tm 3.6). Os credos nos ajudam a avaliar quanto um cristão tem crescido no conhecimento da fé, já que isso está vinculado com seu conhecimento das doutrinas básicas que nos permitem saber nossa identidade como filhos de Deus e defender nossa fé (1Pe 3.15). Uma igreja que não ensina os credos corre o risco de ver o povo de Deus correr atrás de mentiras. Sempre é necessário lembrar que não é só uma repetição de informação; pelo contrário, os credos são manifestações de uma igreja que está viva e que deseja preservar sua fé. 3. Os Credos nos Ensinam o que É Importante Os credos proporcionam às igrejas um mapa pedagógico do que deve ser ensinado. Com isso podemos identificar o que é importante para um bom currículo no ministério de educação cristã. A doutrina da Trindade é muitas vezes omitida ou muito abreviada em várias igrejas, por ser considerada complicada e misteriosa, mas os credos nos lembram de sua importância vital. 4. Os Credos Delimitam o Poder da Manipulação Numa época onde palavras são usadas para afirmar “grandes ‘verdades’ que nunca anteriormente foram ensinadas” e que, na grande maioria das vezes, tem como objetivo manipular o povo de Deus, levando-o por um caminho contrário à verdade, os credos se tornam importantes, já que servem para delimitar o poder da manipulação nas igrejas locais. Se, por um lado, uma leitura individualista da Bíblia permite que qualquer líder proponha qualquer coisa, os credos, por outro, já definiram limites claros para nossa fé, dentro dos quais temos liberdade de explorar e clarificar nossas posições. Um exemplo é a relação com as propostas da teologia da prosperidade. 5. Os Credos nos Conectam com o Passado Sabemos que as bases do cristianismo não foram construídas recentemente; pelo contrário, elas são de longa data e foram realizadas por diferentes irmãos em Cristo para nosso benefício. Numa época como a nossa, em que o antigo é muitas vezes rejeitado por acreditarmos que o novo sempre é melhor, surge a necessidade de reavaliar essa posição com a ajuda dos credos. Podemos ver o agir de Deus através da história do cristianismo derramando sabedoria sobre seu povo para que venhamos a entender melhor sua Palavra e combater heresias. O uso dos credos nos conecta com o passado, que também é nosso (já que a igreja é uma só), e nos identifica com um Deus que está agindo na história. 6. Os Credos nos Ajudam a Lembrar o Propósito do Culto Os credos sempre estiveram vinculados diretamente com o culto público, por isso não podemos desvinculá-los de nossos cultos, já que por meio deles declaramos publicamente que Jesus é o Senhor e que a salvação é uma obra do Deus trino – o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Consequentemente, não devemos acreditar que o uso dos credos nas nossas liturgias possa tornar nossos cultos densos e pouco vibrantes. O uso dos credos em nossos cultos serve para lembrar em quem temos crido e o motivo pelo qual estamos reunidos nesse momento, ou seja, nos ajuda como cristãos a dar sentido aos fundamentos da fé. Numa época onde existe um pluralismo religioso, com uso de linguagem similar a muitos cultos cristãos, os credos nos ajudam a lembrar que o Senhor ao qual dedicamos o culto é Jesus – o único caminho para a salvação. APLICAÇÃO: OS CREDOS NA IGREJA EVANGÉLICA Nesse tempo de muita confusão teológica pelo qual a igreja está passando, é aconselhável que todos os cristãos devam conhecer sua fé, saber no que creem e por que creem. Infelizmente, em nome de um suposto “pluralismo inclusivista”, a igreja evangélica brasileira (e mundial) tem se enfraquecido doutrinariamente, daí a importância de voltar a estudar os credos, já que o propósito deles sempre foi nortear nossa fé. Heber Carlos de Campos nos ajuda a entender como o estudo dos credos é relevante para nossa época:310 Reforçando quem somos, a igreja de Cristo: somos o povo de Deus, que foi chamado por meio da pregação do evangelho. Esse evangelho diz respeito a quem é Deus, quem é Cristo, quem é o Espírito Santo, quem é o homem, o que é a igreja etc. Assim, os credos nos auxiliam a entender quem somos e a apresentar aos outros a nossa identidade em torno de Cristo. Combatendo os ataques de heresias e outras religiões: muitos credos surgiram para combater falsos ensinamentos que apareceram na igreja. Atualmente a igreja de Cristo precisa de um norte teológico que sirva para combater ensinamentos não bíblicos, tais como a teologia da prosperidade, a negação da soberania de Deus, as revelações de anjos, técnicas seculares de crescimento etc. Evitando o pluralismo do tempo presente: vivemos em uma época que defende todas as crenças e opiniões como igualmente corretas. Os credos se colocam contra essa ideia, afirmando que existe uma posição que a igreja deve tomar como verdadeira, sendo assim, todas as outras são distorções ou negações dela. Limitando o experiencialismo: sem os credos, as “revelações” e experiências podem ganhar status de autoridade final. É comum vermos certos cânticos antibíblicos tornarem-se moda na igreja e parte inquestionável do culto. Da mesma forma, a visão de um pastor pode tornar-se lei em uma igreja, mesmo que princípios bíblicos sejam derrubados por isso. Isso se deve pela falta de “muros doutrinários”. Obviamente os credos não abordaram todas as doutrinas, por isso reconhecemos que os muros são especialmente importantes nas doutrinas essenciais da fé. Estimulando exortação e correção. Como na igreja fiel e antiga, os credos são úteis para corrigirem os cristãos, caso eles estejam se desviando da fé. Para isso é necessário que todos os cristãos saibam claramente em que a igreja crê. CONCLUSÃO Uma vez que muitos cristãos possuem pouco conhecimento bíblico, aprender os credos é proveitoso, já que neles temos um resumo da fé que deveria ser conhecido por todo cristão. Os credos podem ser usados em classe de catecúmenos para o ensino das doutrinas-chave do cristianismo, ajudando os novos cristãos a terem um conhecimento simples e correto do que é a essência do cristianismo. Também podem ser usados na celebração da ceia do Senhor como uma forma de mostrar o que a igreja acredita como um único corpo. Finalmente, podem servir como roteiro de pregação ou estudo bíblico, sendo estudados ao longo de várias semanas. Essa ênfase na explicação dos credos é importante para evitar a repetição vazia que muitas pessoas experimentaram na Igreja Católica Romana, sem entender a riqueza que eles expressam. Por esses e outros motivos, o estudo e o uso dos credos em nossas igrejas podem ser de grande utilidade. PARA REFLEXÃO 1. A Bíblia diz que a igreja é coluna e baluarte da verdade (1Tm 3.15). Essa verdade foi conservada pela igreja ao longo de sua história. Até que ponto os credos, atualmente, são úteis para combater os ensinos errados que aparecem nas comunidades locais? 2. Os primeiros credos foram fruto de reflexão, querendo, com isso, obter respostas que venham ajudar a igreja a cumprir a missão que Cristo lhe entregou. Infelizmente, por vários momentos, se levantaram vozes questionando a necessidade deles. Será que os muitos questionamentos nos têm influenciado negativamente para usar os credos em nossas igrejas? 3. Alguns cristãos afirmam que “a letra mata” (2Co 3.6), portanto estudar os credos pode nos levar a destruir nossa vitalidade espiritual. Será que é suficiente para nossa caminhada de fé manejar a Bíblia ao acaso, abrindo em qualquerlugar e pregando sem considerar a interpretação que a tradição tem realizado através dos séculos? 4. Os credos históricos procuravam corrigir o erro excluindo-o, e usavam a Bíblia para isso, explicando como ela se opunha ao ensino herético. Hoje, até que ponto procuramos na Bíblia as respostas aos muitos erros que enfrentamos? Ou será que a Bíblia já não tem as respostas? CAPÍTULO 15 AMAR MELHOR APROFUNDANDO A ADORAÇÃO AO DEUS PAI, DEUS FILHO E DEUS ESPÍRITO SANTO CIDRAC FERREIRA FONTES Adoração é um tema relevante nos dias atuais, pois ocasionalmente observamos que certos rituais litúrgicos não coadunam com os parâmetros bíblicos e não legitimam uma adoração verdadeira. Pastoreio há 23 anos a igreja Assembleia de Deus, e dentro do meio pentecostal temos vivenciado certo desequilíbrio e exagero concernentes à adoração, seja ela individual ou de forma comunitária. Diversas vezes ouvi líderes conduzindo cânticos e pronunciando veementes afirmações como: “A adoração nos leva à presença de Deus!”. É claro que somos encorajados, renovados e edificados quando adoramos coletivamente, mas o que nos leva à presença de Deus é a morte e ressurreição de seu Filho. Expressões como essa (e outras) demonstram uma superficialidade de muitos crentes no que tange à adoração.311 MAS, O QUE É ADORAÇÃO? E QUAL A RELAÇÃO DA TRINDADE COM ADORAÇÃO? A palavra adorar literalmente significa: inclinar-se até o chão, prostrar-se diante de alguém em reverência ou temor. No entanto, o domínio semântico da palavra é bem complexo e pode ultrapassar o seu sentido literal. Adoração sobrepõe os ritmos musicais, sermões, reuniões, ofertas, liturgias e outras expressões corporais. Adoração sempre diz respeito à identidade antes que tenha alguma coisa a ver com atividade. Todo nosso estilo de vida, pensamentos, atitudes, relacionamentos pessoais, música etc. dizem muito sobre nossa adoração. O que quer que façamos, mesmo que estejamos simplesmente comendo, bebendo, falando, envolvidos nos negócios, estando em casa ou na igreja, devemos fazer tudo para a glória de Deus. Isso é adoração. E todas as vezes que nos reunimos, nos envolvemos na adoração de uma forma coletiva.312 O alicerce da adoração não se concentra nas emoções humanas, mas nas relações divinas apresentadas pelas próprias Escrituras. Isso significa que o eixo da adoração é teológico e nunca voltado para o homem. O significado de adoração nas Escrituras sempre foi teocêntrico e nunca antropocêntrico.313 O conceito de adoração dos salmistas era “teocêntrico”. Eles afirmavam que nada na terra era digno se não estivesse na relação apropriada com o criador do universo, o doador da vida, mestre, juiz e salvador.314 A diversidade da Trindade informa claramente a pluralidade das formas pelas quais a igreja adora o seu Criador. O intercâmbio entre o Pai, o Filho e o Espírito é a moldura para orientar a liderança local e a igreja à adoração e viabilizar relacionamentos sadios e duradouros que expressam uma adoração trinitária. O QUE A IGREJA PERDE POR DESCONHECER A TRINDADE? A profundidade ou superficialidade da igreja em adorar pode ser medida pela insipiência de alguns crentes acerca da relação entre Trindade e igreja. Um maior entendimento da Trindade conduz-nos a um relacionamento mais íntimo com o Pai, de uma compreensão mais profunda da vontade de Deus em nossas vidas, de uma adoração plena, de relacionamentos saudáveis na família, na igreja e na sociedade. Quando estudamos o Novo Testamento e nos deparamos com o culto oferecido pelos seguidores do judaísmo, podemos concluir que aquela liturgia não representava uma adoração ao Deus trino. Primeiramente porque eles não admitiam que o Pai pudesse compartilhar sua glória com o Filho. O estilo de vida dos fariseus, sua abordagem rude com o próximo, sua religiosidade inflexível e seu exclusivismo demonstravam um monarquismo monoteísta em vez de trinitário. O radicalismo e a severidade com o próximo não refletiam um Deus trino que se doou à humanidade. Gerald Bray disse que “os cristãos primórdios cultuavam o Deus único em uma Trindade que demoraria alguns séculos para ser definida, mas que era real na experiência deles”.315 Bray está querendo dizer que a adoração da igreja primitiva refletia o Deus trino. O estilo de vida daqueles cristãos já demonstrava uma influência trinitária tanto em sua adoração quanto na sua experiência. A forma como compartilhavam seus dons e recursos, doando-se uns aos outros, expressava o Pai que compartilha com o Filho sua glória, poder e majestade, e que se autodoou ao criar o mundo, o homem e proporcionar nossa redenção. A maneira que eles se subordinavam uns aos outros também expressava o Filho, que em amor e voluntariedade subordinou-se ao Pai, mesmo sendo igual ao Pai em poder e glória. O Pai, o Filho e o Espírito Santo decidiram não existir somente para eles, e por amor criaram o mundo. Assim, a igreja que adora o Deus trino não vive em torno de seus objetivos e satisfação, mas ela existe para se doar à humanidade. Adoração e atitude estão juntas no culto. Hebreus 13.15-16 diz: “... portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome. Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros o que vocês têm, pois de tais sacrifícios Deus se agrada” (NVI). O texto diz que há um “sacrifício de louvor” (adoração) e “fazer o bem e de repartir” (atitude). Para que a igreja aprofunde sua adoração e adore melhor a Trindade é necessário que ela compreenda que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são merecedores de uma mesma adoração. Todas as três pessoas, embora distintas, possuem a mesma divindade. A visão trinitária da adoração nos habilita a participar, por meio do Espírito, na comunhão do Filho com o Pai. Essa comunhão entre o Pai e o Filho é descrita na oração sacerdotal de Jesus em João 17. ADORANDO O PAI Quanto à paternidade divina, era normal aos judeus compreenderem Deus como Pai da nação judaica, mas era quase inconcebível concordarem nele como Pai de indivíduos. Eles não admitiam Jesus se referir a Deus como Pai. Todavia, a palavra “Pai” foi usada mais de 250 vezes no Novo Testamento e sempre se referindo a Deus, sendo que quase a metade encontra-se no evangelho de João. O evangelho de João usa o termo “Pai” 122 vezes, ultrapassando o uso da palavra “Deus”, que ocorre 83 vezes, formando nosso modelo em dirigir-se a Deus como Pai. Esses dados nos informam que, no período do Novo Testamento, a adoração era direcionada ao Pai na maioria das vezes. Quando estudamos o intercâmbio entre o Pai e o Filho, concluímos que o Pai possui características singulares que o tornam distinto das demais pessoas. O Pai é a fonte divina de toda existência, o originador de tudo, ele tem a vida em si mesmo, e por meio do Filho e do Espírito dá a vida a todos. A expressão “Pai” é muito relevante, pois denota-o como sendo o fundamento e a fonte de geração eterna do Filho e da procedência eterna do Espírito. João 5.26 diz: “Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo”. Carson comenta que o uso de “Aba” (“Pai” ou “meu Pai”) foi adotado por Jesus e posteriormente pelos cristãos primitivos (Rm 8.15; Gl 4.6); e não há evidências, antes de Jesus, do uso desse termo para tratar a Deus.316 A oração do “Pai Nosso” relatada por Lucas revela que a paternidade de Deus ultrapassa a compreensão que os discípulos tinham da soberania de Deus. Mostra-nos primeiramente o quanto o Filho era íntimo do Pai, e em segundo lugar revelou para seus discípulos que Deus (Pai) é próximo e bondoso para com seus filhos e que eles poderiam, como indivíduos, se aproximar do Pai em suas orações. Ao registrar a oração do “Pai Nosso”, Lucas não incluiu a frase “que estás nos céus”, o que é de grande importância, pois traz a figura do “Pai” para um contexto mais pessoal e relacional.A ausência dessa expressão informa uma Trindade econômica, onde o Pai se relaciona com sua criação. Há muitas afirmações sobre os atributos do Pai e seu caráter nas Escrituras. Podemos conhecer muito sobre Deus através da sua Palavra e das suas obras. Essas afirmações positivas acerca de Deus são suficientes para que sua igreja o adore plenamente. Por outro lado, os escritores bíblicos não escreveram tudo sobre Deus, pois Deus é insondável, e o homem não pode descrevê-lo em sua essência. O Deus que nos foi revelado pelo Filho ainda permanece, em certo sentido, o Deus desconhecido. Nosso desafio na adoração é conectar o conhecido com o desconhecido sobre Deus. Aproximamo-nos em adoração daquele que é e que pode fazer infinitamente mais do que tudo que pensamos (Ef 3.20), sempre com deleite em conhecê-lo e amá-lo mais a cada dia, até mesmo por toda a eternidade. ADORANDO O FILHO Em todo o Novo Testamento, o nome “Jesus” aparece com mais frequência. O termo “Senhor” também é muito encontrado nas epístolas, sempre se referindo a Jesus. Assim também nos Evangelhos, o vocábulo “Filho” geralmente se refere a Jesus. Ele é chamado nos Evangelhos de Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus. Ladd menciona que a expressão “Filho de Deus” tem um significado elevado, pois revela que ele é Deus e participa da natureza divina e encarnou-se com o objetivo de revelar Deus à humanidade.317 Adoramos o Filho porque ele é digno de ser adorado da mesma forma como o Pai é. Há muitas declarações explícitas dos próprios lábios de Cristo de que ele é Deus igual ao Pai (Jo 8.58; 10.30; Mt 28.19). A palavra Deus (theos) também foi atribuída ao Filho (Jo 1.1-3,18; 20.28- 29). Há diversas declarações em Atos e nas epístolas que Jesus é Deus (At 10.36; 20.28; Rm 9.5; Cl 1.16-19; 2.9; Tt 1.3-4). Um nome de Deus no Antigo Testamento usado para o Filho encontra-se em Isaías 9.6. Há muitos exemplos no Novo Testamento da palavra “Senhor” (grego, kyrios) ser empregada para o Filho (Lc 2.11; 1Co 8.6; Hb 1.10-12). Essa expressão ocorre mais de 6 500 vezes no Antigo Testamento para se referir ao Deus Criador (YHWH). A pré-existência (Jo 8.58; 17.5,24; Is 9.6), onipresença (Mt 18.20; 28.20; Cl 1.16-17), onipotência (Mt 28.18; Hb 1.3) e imutabilidade (Hb 13.8) são atribuídas ao Filho da mesma forma como são atribuídas ao Pai. Há várias obras, diversos sinais e títulos de Jesus encontrados nos Evangelhos, em Atos e nas cartas que declaram seu caráter divino. João 5.20 diz que o Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que faz; o versículo 21 revela que, com o mesmo poder que o Pai tem de ressuscitar os mortos, o Filho vivifica quem quer; no versículo 23, João relata que a mesma honra dada ao Pai deve ser concedida ao Filho. Dentre todos os quatro evangelhos, João é o que apresenta uma visão mais cristalina sobre a relação do Filho com o Pai. O termo “Filho” aparece 40 vezes em João, mas quando comparamos com o uso da palavra “Pai”, observamos que as citações a Deus como Pai são bem mais frequentes, pois Jesus fala mais do Pai do que de si mesmo.318 Esses dados indicam que no Novo Testamento a maior parte da adoração era direcionada ao Pai, conforme o próprio Filho ensinou. O relacionamento do Filho com o Pai orienta a igreja que a adoração é uma relação de intimidade e subordinação. Em João 5.19-20, observamos que o Filho não age independentemente do Pai: “O Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai”. Essa expressão não indica que o Filho é inferior, mas mostra uma profunda intimidade dele com o Pai. Tudo que o Pai faz, o Filho faz da mesma maneira. Esse texto não apenas mostra que o Filho não deseja fazer nada sem o Pai, mas também que ele não pode agir independentemente do Pai. ADORANDO O ESPÍRITO SANTO Atualmente há segmentos religiosos que não creem que o Espírito Santo seja uma pessoa distinta ou mesmo que deva ser adorado como Deus. Há outros grupos religiosos que enfatizam muito a obra carismática do Espírito Santo, mas não esclarecem seu aspecto pessoal e divino. Quando Leonardo Boff disse que “há setores cristãos que se concentram somente na figura do Espírito Santo”,319 ele faz referência a grupos religiosos que enfatizam demasiadamente a ação do Espírito Santo na vida dos seus membros, mas que não enfatizam as outras duas pessoas e a divindade do Espírito. O contexto de boa parte da igreja brasileira tem sido marcado por essa característica, em que seus crentes são estimulados a viverem e desfrutarem uma experiência efervescente com o Espírito. Todavia, sentimos falta de uma teologia bíblica de adoração, que reoriente seus membros aos aspectos pessoais e divinos do Espírito, que ensinem que ele é merecedor da mesma adoração que tributamos ao Pai e ao Filho. Muitos crentes, erroneamente ou por desconhecimento, veem o Espírito Santo como um poder ou força enviado pelo Pai exclusivamente para a capacitação da sua igreja para evangelismo, encorajamento e fortalecimento. Se o Espírito Santo é uma pessoa divina e digna de ter os mesmos atributos e os mesmos títulos do Pai, então ele é plenamente digno de ser adorado com a mesma intensidade que adoramos o Pai e o Filho. Sabemos que não há nenhuma oração ao Espírito nas Escrituras. O Espírito sempre nos direciona a adorar o Pai pelo Filho. Todavia, não é errado adorar o Espírito, e até convém que o façamos, porque ele é Deus. O Espírito Santo é visto nas Escrituras em termos pessoais. Embora intimamente relacionado à ressurreição de Cristo, ele é também o Espírito do Pai. Ele é ainda uma pessoa distinta do Pai e do Filho, e com eles um único Deus trino (Mt 28.19; At 5.3-4,9; 2Co 3.17-18). O Espírito Santo pode ser adorado, pois possui os mesmos atributos divinos do Pai e do Filho: onisciência (1Co 2.10), onipotência (Is 40.13-17), onipresença (Sl 139.7-12), santidade (Ef 4.30), vida (Rm 8.2) e verdade (Jo 14.17). O Espírito Santo ainda possui atividades divinas como o Pai e o Filho: criação do mundo (Gn 1.2; Jó 33.4), inspiração das Escrituras (2Tm 3.16), novo nascimento nos crentes (Jo 3.4- 5), batismo (1Co 12.13), habitação (Rm 8.13-14) e permanência nos filhos (1Jo 3.9). O Espírito Santo tem diversos outros títulos, incluindo Espírito do Senhor (Jz 3.10), do Pai (Mt 10.20) e do Filho (Rm 8.9). O título “outro Consolador” se refere a outro do mesmo tipo de Jesus, isto é, um outro Consolador igualmente divino (Jo 14.16). Quando Jesus disse: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18), ele não estava pensando no período pós-ressurreição ou na sua segunda vinda visível, mas sim que estaria conosco na pessoa do Espírito Santo. O Pai e o Filho são descritos como habitando nos céus. O Pai enviou o seu Espírito a pedido do Filho (Jo 14.16-17). A fonte do Espírito é o próprio Pai, é dele que emana a vida – o Espírito (Jo 14.26). Nossa adoração toma novas profundidades quando humildemente absorvemos esses conceitos trinitários. É através do Espírito Santo que o Pai desenvolve o amor eterno pelo Filho. E ao partilhar de seu Espírito conosco, o Pai e o Filho participam do seu amor, participam da sua própria vida.320 Por intermédio do Espírito desfrutamos do amor do Pai pelo Filho e do Filho pelo Pai. Michael Reeves estava certo ao dizer que a vida que o Espírito Santo nos dá vai muito além de um pacote fechado de bênçãos: é a sua própria vida compartilhada conosco. O Pai, ao compartilhar conosco do seu Espírito, está de fato compartilhando da sua vida. CONCLUSÃO Jesus disse que “vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (Jo 4.23). O Pai está em busca dos verdadeiros adoradores. Há muito material escrito sobre esse texto, e todos eles têm o seu devido valor. Mas acredito que a comunhão com Deus e os relacionamentos pessoais desenvolvidos pela igreja primitiva nos fornecem umabase segura e sólida para identificar com precisão esse modelo de adoradores que o Pai procura. Mesmo não tendo ainda uma doutrina trinitária claramente definida, a experiência registrada pelos escritores bíblicos demonstrou que a igreja primitiva já adorava o Deus trino, uma vez que eles procuravam desenvolver um nível de mutualidade que é encontrado somente no relacionamento entre o Pai e o Filho. O padrão de comunhão e edificação dos crentes descrito em Atos indica que a igreja compreendia o intercâmbio e a intimidade entre o Pai e o Filho. Ao ler o relato da vida da igreja em Atos, concluímos que a adoração deles não estava limitada a cânticos, liturgia, templo e festas, ainda que isso tenha seu devido lugar, mas estendia-se na comunhão e edificação mútua dos irmãos. Se a igreja atual deseja aprofundar sua adoração de forma que seus membros desfrutem de um relacionamento mais próximo com Deus e cultivem amizades saudáveis que glorifiquem a Cristo, será necessário que ela se disponha a orientar seus membros a relerem as Escrituras atentando para os aspectos trinitários relacionados à adoração. Como definiu James B. Torrance: “Adoração é o presente de participarmos através do Espírito na comunhão do Filho encarnado com o Pai”.321 PARA REFLEXÃO 1. Quais os resultados práticos na vida diária de uma igreja que reflete uma adoração ao Deus trino? 2. Podemos adorar e orar ao Espírito Santo da mesma forma como adoramos e oramos ao Pai? 3. Em quais aspectos a relação do Filho com o Pai estabelece uma moldura à nossa adoração? 4. Como o conceito de Deus como “Pai” pode aprofundar nossa adoração? OBSERVAÇÕES FINAIS J . SCOTT HORRELL E MURILO R. MELO O famoso professor da Universidade de Oxford, Alister McGrath, se converteu à fé cristã enquanto estava estudando biofísica molecular.322 Ele observa que muitas pessoas fora da comunidade cristã supõem que a crença na Trindade é um exemplo clássico da irracionalidade da fé. Mas para ele foi o oposto. Sua conversão ao cristianismo não veio por uma experiência emocional poderosa, nem por uma única verdade que foi entendida de repente. Persuadido pelo bom senso da verdade cristã inteira, McGrath concluiu que “devemos pensar a distinta lógica trinitária como a estrutura maior da fé cristã – uma maneira de entender a nós mesmos e nossos mundos que transcende os limites da razão humana, mas ao mesmo tempo ajuda a nos posicionarmos no meio da racionalidade ‘nativa’ ou da racionalidade do dia a dia dentro de um contexto que faz sentido”.323 Foi esse quadro maior da fé que convenceu o ateu McGrath da veracidade cristã – um quadro baseado na revelação bíblica e na confissão nicena de uma cosmovisão trinitária. A teologia da Trindade ofereceu a maneira mais plausível para entender o universo e a vida humana. E nós concordamos. Em vez de atrapalhar, a doutrina da Trindade se torna uma apologética bela e persuasiva para não cristãos – sejam ateus, humanistas, espíritas ou muçulmanos. A confissão da Santa Trindade marca toda a igreja cristã histórica e atual. A doutrina do trino Deus fundamenta-se nas Escrituras que relatam o engajamento do Criador com sua criação. Contudo, a doutrina da Trindade brota da confissão do apóstolo Tomé que Jesus Cristo – agora fisicamente ressurreto – é nosso Senhor e Deus (Jo 20.28). A divindade de Jesus é a pedra fundamental da verdadeira fé que nos reconcilia com Deus. Não há dois ou três deuses, nem uma pessoa divina com máscaras ou apenas manifestações. O único e verdadeiro Deus eternamente existe em três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo –, um na sua essência, iguais na sua glória (pois é uma glória compartilhada) e distintas nas suas relações. Ao mesmo tempo, reconhecemos os limites do pensamento humano sobre o infinito Deus em sua refulgência e glória. Diante da revelação divina nas Escrituras e na história, nós nos dobramos de joelhos. Tomamos uma postura de humildade. Há tanto que não sabemos. Algum dia, quando formos redimidos e purificados na presença do Senhor Deus, entenderemos muito mais do que agora. Mas, ainda na eternidade, sempre seremos criaturas diante do Criador infinito, tripessoal e resplandecente. Através da Palavra, guiada pelo Espírito, a igreja histórica acertou na articulação básica da doutrina da Trindade. Os Concílios de Niceia (325 d.C.) e Constantinopla (381 d.C.) estabeleceram a estrutura de como devemos pensar em Deus, ou seja, formaram a “caixa” definindo os parâmetros do pensamento ortodoxo versus o que fica fora da ortodoxia cristã. Assim, dentro da “caixa” ou estrutura da ortodoxia trinitária há espaço para concepções ou lentes diferentes de como entendemos e articulamos o Deus trino. Nenhuma explicação do Deus bíblico e cristão capta tudo. Na história da teologia trinitária vemos alguns que favorecem a preeminência do Pai, de quem é gerado o Filho e de quem procede o Espírito – todos eternos e iguais na sua divindade. Outros enfatizam a essência do ser divino explorando seus atributos com argumentos filosóficos sobre a necessidade da existência do Criador, a Primeira Causa. Outros dão prioridade às três pessoas da Trindade, com seus relacionamentos internos e também para conosco na vida cristã. Em tudo, dentro da caixa de Niceia, essas lentes não se contradizem, mas se complementam.324 Engrandecem o Senhor Deus, que nos aproxima, mas também sempre fica além de nós. Enchem o coração com admiração e temor reverencial. Com diversas vozes e perspectivas, A Trindade, a Igreja e a Realidade Social é uma tentativa de explorar o sentido do Deus trino para as nossas vidas, comunidades cristãs e o mundo ao nosso redor. Começamos no capítulo 1 com um estudo nas Sagradas Escrituras dando uma base firme da doutrina trinitária. Embora a palavra “Trindade” não exista na Bíblia, certamente a ideia e a experiência do único Deus como Pai, Filho e Espírito Santo são abundantes (os três são pessoas vistas juntas em mais de 130 passagens no Novo Testamento). O capítulo 2 apresentou traços de uma cosmovisão trinitária diante das grandes questões da vida: por que existe algo em vez de nada? Qual o sentido da minha vida? Como sei o que é a verdade? Em tudo, o entendimento trinitário se demonstra lindo e superior a qualquer outra opção, enchendo a vida com significado e coerência. No capítulo 3, Winnetou Kepler explorou o conceito de imago dei. Já que Deus é três pessoas em relacionamento eterno, o que significa isso para nós como pessoas – nós que temos a mesma natureza humana, mas também somos pessoas distintas e únicas, em parte definidas pelos relacionamentos pessoais ao nosso redor? Enfim, concluímos que, porque o Criador é pessoal, eu também sou pessoal: há base ontológica para o ser humano como indivíduo e em comunidade. Libnis Silva, no capítulo 4, destaca a importância do mandato de Jesus: “... fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Pela ação livre e gratuita da Trindade, o convertido é resgatado do pecado, renovado no espírito e reconciliado para o relacionamento íntimo com Deus. O capítulo 5, por Carlos Felipe (“Café”) Oliveira do Nascimento, demonstra como o ensino da Trindade reorienta jovens para aceitar sua individualidade, formar um autoconceito saudável, respeitar outros – especialmente do outro gênero –, apreciar a santidade de intimidade e sexo e imitar a Trindade em se dar aos outros. Creuse Santos coloca a Trindade como “princípio formador, paradigmático e orientador da família” no capítulo 6 – isso no meio de uma sociedade confusa e quebrada, em que o conceito de família morreu para muitos. Ele aplica a unidade/diversidade da Trindade aos papéis distintos do homem e da mulher no casamento e nas famílias, cada um se dando ao outro (Ef 5.21-33). Ivis Fernandes, no capítulo 7, nos exorta a apreciar como o próprio Deus trino – um só na sua essência, mas diverso nas suaspessoas – é refletido na unidade e diversidade na igreja. Assim, líderes devem valorizar as diferenças culturais, educacionais e econômicas no meio cristão e nas igrejas locais, sem insistir na uniformidade de todos, mas também incentivar uma consagrada unidade na missão de Cristo. No capítulo 8, Marcelo Dias destaca aspectos interpessoais da Trindade como modelo ideal de como a liderança na igreja local pode e precisa se relacionar – isso num contexto atual em que pastores e pessoas com autoridade usam seu poder para se elevar e manipular outros na liderança em vez de iniciar amor, transparência e dependência mútua. Gary Parker propõe no capítulo 9 que a disposição da Trindade exemplificada no sacrifício de Jesus Cristo na cruz serve como antídoto à teologia da prosperidade. Ele observa três problemas centrais: revelações pessoais assumem a autoridade acima da Bíblia; as prioridades cristãs focam no bem-estar pessoal; e os líderes, tanto quanto os seguidores, se identificam e se elevam como “supercrentes” (até divinizados). Em contraste, o Deus da Bíblia é o Deus trino que se autoentrega, uns pelos outros e para o mundo. O capítulo 10, por Ari Langrafe Jr., aborda mais uma área sensível e crítica para evangélicos: como lidar com os pentecostais “Jesus Só”? Diferentes dos mórmons e das Testemunhas de Jeová, os unicistas se identificam como pentecostais – embora a teologia modalista já fosse considerada heresia desde os primeiros séculos d.C. Afinal, Langrafe insiste que evangélicos devem se informar e estar prontos para responder aos unicistas pelo ensino bíblico claro e histórico. Eriomar Heldir de Freitas Maia mostra, no capítulo 11, que o próprio Deus enviou seu Filho e o Espírito (a missio dei) para nos resgatar e para transformar as nossas vidas e o mundo. O Deus trino planejou, providenciou e promoveu a missão. Assim, a Trindade é nosso exemplo missionário: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). No capítulo 12, Arthur Vinicius Gottlieb Lupion apresenta “a perspectiva trinitária” como “uma apologética ao vazio do humanismo secular” – a posição não teísta, positivista, mas também fragmentada. Nesse âmbito, a totalidade da revelação acerca da Trindade provê uma plataforma mais elevada e convincente para sustentar os princípios e valores necessários para uma vida humana digna. A segunda maior religião no mundo é o islamismo, a qual é crescente e, às vezes, agressiva. Paulo Sant’Anna e Josh Milano abordam no capítulo 13 os desafios no diálogo com muçulmanos, especialmente nas confissões cristãs centrais: a divindade de Jesus Cristo e a Santa Trindade – tidas como blasfêmias fatais no islã. Os autores criam pontes, até do próprio Alcorão, para persuadir o muçulmano da veracidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo. No capítulo 14, César Orlando Mendoza Ramirez exorta a igreja evangélica a utilizar os Credos dos Apóstolos (c. 150 d.C.), de Niceia (325/381), da Calcedônia (451) e de Atanásio (c. 500) na adoração e no ensino tanto individual quanto congregacional. Nos dias atuais, quando pessoas inventam qualquer novidade teológica, os antigos credos históricos seguram as verdades centrais da fé cristã, a qual “uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Finalmente, Cidrac Ferreira Fontes amplia nossa visão de como melhor adorar Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo no capítulo 15. Advertindo contra louvor desviado ou sem equilíbrio nas igrejas locais, o autor (que é pastor pentecostal) enfatiza a importância não apenas da experiência trinitária em louvor, mas também da expressão deliberada e doutrinariamente firme ao nosso Deus trino, exaltando cada pessoa conforme os seus papéis, suas atividades bíblicas e sua dignidade. Em resumo, A Trindade, a Igreja e a Realidade Social é uma tentativa de destilar o significado do Deus trino para as nossas vidas, para as comunidades cristãs e para o mundo ao nosso redor. Porque Deus é realmente Deus, infinito em toda a sua perfeição, há muito ainda para ser explorado. A. W. Tozer percebeu: “O que vem às nossas mentes quando pensamos sobre Deus é a coisa mais importante sobre nós”.325 Porque somos criados à imagem de Deus, nosso ser pessoal no seu ideal é definido por Deus. Somos finitos e contingentes, mas legados com dignidade imensa. A ontologia do que é pessoa – a estrutura essencial da nossa realidade, nosso desejo de relacionamentos com outros, nossa disposição de criar e produzir – reflete a imago dei. Deus nos desenhou para que possamos conhecê- lo, amá-lo e servi-lo de maneira frutífera. Ao mesmo tempo, o ser humano é rebelde, egoísta e pecador. Cada pessoa precisa do “Salvador do mundo” (1Jo 4.14), Jesus Cristo. Somos convidados a confiar nesse Deus que pagou, ele mesmo, o preço para nos reconciliar consigo. Somente pelo Deus Filho somos feitos filhas e filhos do Deus Pai, e pelo Deus Espírito somos unidos e capacitados para viver vidas santas e em harmonia com outros na igreja e nos doarmos para alcançar a sociedade. Enfim, nosso conceito de Deus nos define. Seja como indivíduo, na igreja ou na sociedade em geral, nosso pensar sobre Deus gera consequências. “Nenhum povo jamais se elevou acima da sua religião, e [...] nenhuma religião se tornou maior que o seu conceito de Deus.”326 Quando pensamos nas maravilhas de um Deus trino que cria tudo que existe pelo seu amor intratrinitário, tudo em nossas vidas deve se orientar a esse bem supremo, que é nosso Deus. Nossas vidas passam a ter um sentido novo; nossas igrejas e até nossa sociedade são fortalecidas e impactadas por essa confissão trinitária, que antecipa o futuro – a volta de Cristo e o reino do Deus trino na terra. Esse reino expressa a unidade (todo joelho se dobrará, Fp 2.9-11; cf. Is 45.23) e a diversidade (“... todas as nações, tribos, povos e línguas...”, Ap 7.9) que apenas um Deus trino pode entender como o reino de perfeita paz e justiça que espelha seu ser. Vem, Senhor Jesus! NOTAS INTRODUÇÃO 1 Agostinho, Confissões (São Paulo: Mundo Cristão, 2017), p. 219. Confissões é a primeira autobiografia intimista na história ocidental; mudou o gênero de autobiografia para essa forma que ficou comum hoje em dia. 2 John W. R. Stott, “Theology: A Multidimensional Discipline”, in: Doing Theology for the People of God, eds. Donald M. Lewis e Alister E. McGrath (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1996), p. 3-4. CAPÍTULO 1 BASE FIRME 3 Umberto Cassuto, A Commentary on the Book of Genesis, 2 vols. (Jerusalém: Magnes Press, The Hebrew University, 1961), 1.55. Veja Zc 12.1. 4 Daniel Boyarin, The Jewish Gospels: The Story of the Jewish Christ (Nova York: New Press, 2012), p. 7. Inclusive, para Boyarin, não era inesperado que o Messias fosse sofrer na mistura de ideias messiânicas. Contra o monoteísmo estrito da Ortodoxia Judaica (de Maimônides), um outro professor judaico, Benjamin D. Sommer, The Bodies of God and the World of Ancient Israel (Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 2009), p. 132-43, defende que o Senhor do AT toma várias formas e que o conceito da Trindade já estava latente na mistura do judaísmo antes de Cristo. 5 Sl 45.6-7; 110.1; Is 44.6; 45.22-23; 63.8-11,16. 6 Vendo as aparentes múltiplas pessoas nos discursos divinos no AT, os autores do NT e a grande maioria dos pais da igreja interpretaram esses como revelação do Filho e do Espírito. Veja Matthew W. Bates, The Birth of the Trinity: Jesus, God, and the Spirit in the New Testament and Early Christian Interpretation of the Old Testament (Oxford: Oxford University Press, 2015). 7 Também Jo 5.26; veja Fred Sanders e Scott R. Swain, eds., Retrieving Eternal Generation (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2017), esp. cap. 4; D. A. Carson, “John 5:26: Crux Interpretum for Eternal Generation”, p. 79-97, e cap. 5; Charles Lee Irons, “A Lexical Defense of the Johannine ‘Only Begotten’”, p. 98- 116. 8 Tecnicamente a versão é o Credo Niceno-Constantinopolitanode 381, geralmente chamado o Credo Niceno. Disponível em: http://www.annusfidei.va/content/novaevangelizatio/pt/annus- fidei/professione-di-fede.pdf. 9 Mt 14.33; Jo 9.38; veja tb. At 10.36; Rm 9.5; 1Co 8.4-6; Tt 2.13. 10 Veja Mt 3.16-17; 28.19; Lc 10.21-22; Jo 3.34-36; 14.23-26; At 7.55-56; Rm 15.30; 1Co 12.3-6; 2Co 13.13[14]; Ef 1.17; 4.4-6; 5.18-20; 2Ts 2.13-14; Hb 2.3- 4; 1Pe 1.2-3; 3.18; 1Jo 4.2; Jd 19-21; Ap 21.9-11. 11 Quem é “o Senhor” nesse contexto? O kurios divino pode se referir a Cristo ou ao Pai, mas o ponto é que a palavra “o Senhor” se constituiu o título atribuído também ao Espírito. 12 Jeremy Weber, “Christian, What Do You Believe? Probably a Heresy About Jesus, Says Survey”, Christianity Today, 17 out. 2018. Disponível em: https://www.christianitytoday.com/news/2018/october/what-do-christians- believe-ligonier-state-theology-heresy.html. 13 Jo 1.1-2,18; 3.11,31-34; 5.17,19,21; 6.38; 16.13-15. 14 Jo 7.29; 8.55; 10.15; 16.13-14; 17.25; Rm 8.9; 1Co 2.11-13. 15 Jo 5.21; 14.27; 15.12. 16 D. A. Carson, “John 5:26: Crux Interpretum for Eternal Generation”, p. 92; veja p. 79-97. 17 Atenágoras, Apelo em favor dos Cristãos, 12. 18 Teófilo, Para Autólico 2.10, 15; 2.22. 19 Irineu, Contra Heresias 1.10.3. 20 Ibid., 1.10.1. CAPÍTULO 2 PENSAR DE TUDO 21 William Arndt, Frederick W. Danker e Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: University of Chicago Press, 2000), p. 934. 22 Cláudio Roberto Brocanelli, “O Ensino de Filosofia no Brasil: História e Perspectivas para o ‘Filosofar’”, Colloquium Humanarum 9, n. 1 (2013): 50. 23 James W. Sire, O Universo ao Lado: Um Catálogo Básico sobre Cosmovisão, 4 ed. (São Paulo: Hagnos, 2009), p. 16. 24 O livro de física, voltado para uma audiência leiga, que popularizou essa visão foi O Universo Numa Casca de Noz (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011), de Stephen Hawking. 25 Millard J. Erickson, Christian Theology, 3 ed. (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2013), p. 275. 26 Meu pai, que também era médico, me convenceu de que se nossos corpos precisam de vitamina B12 para produzir células normais e uma dieta vegetariana como a de Hare Krishna não contempla isso, há uma falta de coerência entre como somos feitos e o que devemos fazer. Assim, um argumento de cosmovisão (com um exame microscópico de uma anemia megaloblástica) me livrou do erro. 27 Uma boa revisão de Bergson é Dante Augusto Galeffi, “Religião e Ciência: Diferença e Repetição – Uma Investigação a partir da Concepção Moral e Religiosa de Henri Bergson”, Caderno CRH 26 (2013). Kazantzakis dizia que Bergson foi um dos seus “pais espirituais”. 28 Um bom relato da criação no candomblé é de Sergio Sezino Douets Vasconcelos, “A União Mística com o Orixá através da Participação no Axé”, Horizonte 11, n. 30 (2013). O mormonismo tem uma série de deuses-pai infinita, não resolvendo bem a questão de origem; veja Susanna Morrill, “Women and the Book of Mormon: The Creation and Negotiation of a Latter- day Saint Tradition”, Journal of Book of Mormon Studies 26 (2017). O sermão de Joseph Smith mencionado por ela (em inglês) é esclarecedor: Joseph Smith Jr., “The King Follett Sermon”. Disponível em: https://www.lds.org/ensign/1971/04/the-king-follett-sermon?lang=eng. Acesso em: 27 dez. 2019. 29 Tertuliano, Contra Práxeas 5. 30 Neste artigo esperançoso de uma rede de reações químicas que possa produzir vida, os autores acabam admitindo que nem mesmo na construção dos elementos necessários para a vida sabemos fazer uma cascata de reações independente de estímulo externo. Paul J. Bracher, “Origin of life: Primordial Soup that Cooks Itself”, Nature Chemistry 7, n. 4 (2015). 31 Peter Singer, Practical Ethics, 2ª ed. (Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 1993), p. 23, 55. 32 Bhagavad Gita, canto VIII.15. “Bhagavad Gita”. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/zip/bhagavadgita.pdf. Acesso em: 21 mai. 2018. 33 Uma interessante análise do budismo no Brasil é de Frank Usarski, “O Dharma Verde-Amarelo Mal-Sucedido: Um Esboço da Acanhada Situação do Budismo”, Estudos Avançados 18 (2004). 34 Fatima Agha Al-Hayani, “Muslim Perspectives on Stem Cell Research and Cloning”, Zygon 43, n. 4 (2008): 790. 35 David Jasper, A Short Introduction to Hermeneutics (Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 2004), p. 112. 36 Alun Munslow, Deconstructing History, 2ª ed. (Nova York: Routledge, 2006), p. 168. 37 Richard B. Norgaard, Development Betrayed: The End of Progress and a Co- Evolutionary Revisioning of the Future (Londres, Inglatera: Routledge, 1994), p. viii. 38 Klaus K. Klostermaier, “Hindu-Christian Dialogue on Truth”, Journal of Ecumenical Studies 12, n. 2 (1975): 9-10. 39 É importante lembrar que é apropriado falar do Alcorão apenas em árabe (lit. Recita), e que traduções não são consideradas o Alcorão, sendo mais correto falar “tradução da mensagem do Alcorão”. Uma boa articulação de makr e da disputa epistêmica com muçulmanos, com base nos escritos de Alvin Plantinga, é de Erik Baldwin e Tyler D. McNabb, “An Epistemic Defeater for Islamic Belief?”, International Journal of Philosophy and Theology 76, n. 4 (2015): 356. 40 Norman L. Geisler, Baker Encyclopedia of Christian Apologetics (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1999), p. 742. 41 Para avançar nesses tópicos, recomendo o artigo de J. Scott Horrell, “In the Name of the Father, Son, and Holy Spirit: Toward a Transcultural Trinitarian Worldview”, Evangelical Review of Theology 38, n. 2 (2014), p. 126-137. Uma versão em português (e anterior) é J. Scott Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, Vox Scripturae 4, n. 1 (1994), p. 55-77. CAPÍTULO 3 A TRINDADE E A IMAGO DEI 42 Bruce Milne, Estudando as Doutrinas da Bíblia: Conheça a verdade, 5 ed. (São Paulo: ABU, 1996), p. 92. 43 Ibid. 44 Wayne Grudem e Jeff Purswell, Manual de Teologia Sistemática: Uma introdução aos princípios da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2001), p. 207. 45 H. Crouzel, “Image”, Encyclopedia of Ancient Christianity, 3 vols., ed. Angelo Di Berardino (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2014), 2.320-322. 46 Nonna Verna Harrison, God’s Many-Splendored Image: Theological Anthropology for Christian Formation (Grand Rapids, MI: Baker, 2010), p. 30, veja 30-37. 47 Crouzel, “Image”, p. 320. 48 Norman R. Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 6 vols., 5 ed. (São Paulo: Hagnos, 2001), 3.246. Por outro lado, Tertuliano e outros consideravam que esta imagem incluía características corporais (cf. 1Co 11.7). 49 Crouzel, “Image”, p. 321. 50 Milne, Estudando as Doutrinas da Bíblia, p. 99. Veja Louis Berkhof. Teologia Sistemática, 2 ed. (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), p. 190. 51 Grudem, Manual de Teologia Sistemática, p. 204. 52 Charles C. Ryrie, Teologia Básica (São Paulo: Mundo Cristão, 2012), p. 112. 53 J. Scott Horrell, “O Deus Trino que Se Dá, a Imago Dei e a Natureza da Igreja Local”, Vox Scripturae: Revista Teológica Latino-Americana 4:2 (dez. 1996), p. 252. 54 Lewis Sperry Chafer, Teologia Sistemática, vols. 1-2 (São Paulo: Hagnos, 2003), p. 570. Embora a comunicação seja uma característica forte quanto à imago dei no seu ideal, ela não é a única que nos define como feitos à imagem de Deus. É por este motivo que autistas, embriões e pacientes comatosos, mesmo diante de limitações, ainda são imago dei. Podemos deduzir isso partindo do relato de João Batista que, ainda no ventre de Isabel, estremeceu de alegria ao ouvir a saudação de Maria para sua mãe, Isabel (Lc 1.39-42). No salmo 139, o salmista tinha consciência de que o próprio Deus era seu criador no ventre de sua mãe e que o havia visto em substância ainda informe (Sl 139.13-16). 55 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 252, 262. 56 Grudem, Manual de Teologia Sistemática, p. 216. 57 Ibid. 58 Milne, Estudando as Doutrinas da Bíblia, p. 103. 59 Grudem, Teologia Sistemática, p. 127. 60 Champlin, Enciclopédia de Bíblia, Teologiae Filosofia, p. 3245. 61 Chafer, Teologia Sistemática, p. 580. 62 Millard J. Erickson e L. Arnold Hustad, orgs., Introdução à Teologia Sistemática (São Paulo: Vida Nova, 2002), p. 226. CAPÍTULO 4 A TRINDADE E A SALVAÇÃO 63 Desde o primeiro século (Mt 28.19, e na Didaqué), a fórmula trinitária foi usada para o batismo como elemento básico da Regula Fidei, a Regra da Fé. 64 Interessante notar que os credos trinitários tinham lugar importante para o catecismo dos novos convertidos como preparação para o batismo. No Ocidente, o credo de Atanásio (Quicumque vult) se tornou obrigatório para muitos. 65 T. Desmond Alexander e Brian S. Rosner, eds, “Salvação”, Novo Dicionário de Teologia Bíblica (São Paulo: Vida, 2009), p. 1155. 66 Douglas C. Walder, “Salvation”, Holman Illustrated Bible Dictionary (Nashville: Holman, 2003), p. 1434. 67 Jenuan Silva Lira, Desejo Dominado: Alcançando vitória na luta contra o pecado (Eusébio, CE: Peregrino, 2017), p. 26. 68 Rm 1.18–3.23; 1Co 15.21-22; Ef 4.17-19; Is 59.2. 69 D. M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23 (São Paulo: PES, 1996), p. 49. 70 Bruce A. Demarest, The Cross and Salvation: The Doctrine of Salvation (Wheaton, IL: Crossway, 1997), p. 27. 71 John Piper, Deus É o Evangelho (São José dos Campos, SP: Fiel, 2006), p. 10. 72 Ibid. 73 Importante salientar que creio que os benefícios da salvação incluem ter relacionamentos restaurados no âmbito horizontal. Isso fica muito claro em Efésios e principalmente em 1João, onde deixar de amar o irmão é o mesmo que nunca ter conhecido a Deus. 74 Michael Reeves, Deleitando-se na Trindade: Uma introdução à fé cristã (Brasília, DF: Monergismo, 2014), p. 99-100 (ênfase no original). 75 Fred Sanders, The Deep Things of God: How The Trinity Changes Everything (Wheaton, IL: Crossway, 2010), p. 117. CAPÍTULO 5 A TRINDADE E OS JOVENS 76 Vladimir Lossky, The Mystical Theology of Eastern Church (Cambridge: James Clarke, 1957), p. 66. 77 Zygmunt Bauman, Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi (Rio de Janeiro: Zahar, 2005), p. 34. 78 Isso se deve, em grande parte, à hegemonia de Paulo Freire e sua “pedagogia do oprimido” no sistema de educação do país. Uma resposta mais alinhada com a antropologia bíblica pode ser lida em Thomas Giulliano, Desconstruindo Paulo Freire (Rio de Janeiro: História Expressa, 2017). 79 Luis Felipe Pondé, A Era do Ressentimento: Uma agenda para o contemporâneo (Rio de Janeiro: Leya, 2017), p. 17. 80 Duas pesquisas recentes realizadas pelo Barna Group confirmam essa tendência: “The myth of the lazy teen”. Disponível em: https://www.barna.com/research/teen-attitudes-toward-service/. Acesso em: 16 jan. 2018; e “Generations and generosity: how age effects giving”. Disponível em: https://www.barna.com/research/generations-generosity-age- affects-giving/. Acesso em: 16 jan. 2018. 81 Chap Clark, “Youth Ministry as Practical Theology”, The Journal of Youth Ministry, vol 8, n. 1 (outono 2008), p. 9‐37. 82 A teologia ortodoxa afirma que o Deus Pai é Fons Divinitatis (fonte da divindade). 83 Robert Letham, “How the Triune God Transforms Worship”, Credo Magazine, vol. 3, n. 2 (abr. 2013), p. 40-46. 84 Andrew Root, Revisiting Relational Youth Ministry: From a Strategy of Influence to a Theology of Incarnation (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2007), p. 17. 85 AVIVA, The Aviva Health Check UK Report. Disponível em: http://www.aviva.co.uk/media-centre/story/17307/younger- generationburdened-with-anxiety-and-lonel/. Acesso em: 16 de jan. 2018. 86 The Big Lunch, “More than two thirds of adults in the UK experience loneliness and the feeling is most acute among young people”. Disponível em: http://www.thebiglunch.com/documents/TheBigLunchLonelinesspressrelease- FINALAPPROVED-16April2015_000.doc. Acesso em: 16 jan. 2018. 87 A teologia ortodoxa afirma que Deus é um em essência, de modo que a unidade entre as pessoas da Trindade é essencial. As pessoas da Trindade se habitam mutuamente (ou coabitam) no tipo de relacionamento mais profundo e para qual todo amor humano deve apontar. Assim, os relacionamentos intratrinitários, embora diferentes, são, ao mesmo tempo, tão similares aos nossos. 88 Cynthia L. Rigby, “More Than a Mystery: The Practical Implications of the Trinity in Ministry with Youth”, The 1999 Princeton Lectures on Youth, Church, and Culture (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1999), p. 57-70. 89 Jonathan Holmes, The Company We Keep: In Search of Biblical Friendship (Mineápolis: Cruciform Press, 2014), p. 23. 90 Michael Reeves, Delighting in the Trinity: An Introduction to the Christian Faith (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2012), p. 27. 91 Michael Reeves, “Why a Triune God Is Better than Any Other”, Credo, vol. 3, n. 2 (abr. 2013), p. 34-39. 92 Um tremendo contraste é estabelecido aqui entre Yahweh, o Deus dos judeus e cristãos, e Alá, a divindade do islã. Enquanto Alá ama apenas aqueles que o amam e o servem, Yahweh tanto amou o mundo que entregou seu filho em sacrifício para que todo aquele que nele crer seja salvo (cf. Jo 3.16). 93 Christopher West, Teologia do Corpo para Principiantes: Uma introdução básica à revolução sexual por João Paulo II (Porto Alegre: Myriam, 2014), p. 118. 94 Em especial, a ideologia feminista e a ideologia de gênero, cuja agenda comum é a eliminação das linhas divisórias entre homens e mulheres, descaracterizando ambos. Um contraponto a ambas a partir de uma antropologia cristã se encontra em Wayne Grudem, Confrontando o Feminismo Evangélico: Respostas Bíblicas para Perguntas Cruciais (São Paulo: Cultura Cristã, 2009); Albert Mohler Jr., Desejo e Engano: O verdadeiro preço da nova tolerância sexual (São José dos Campos, SP: Fiel, 2008); e Paul David Tripp, Sex in a Broken World: How Christ Redeems What Sin Distorts (Wheaton, IL: Crossway, 2018). 95 O que não significa que isso foi imposto ao Filho. Antes, a ortodoxia crê que o Filho voluntariamente se submeteu à vontade do Pai na Aliança da Redenção antes da fundação do mundo (assim, referente à Trindade econômica). De modo que a submissão do Filho é uma submissão mútua (assim como a do Espírito) na autodoação trinitária na criação. É importante lembrar que, entre Apocalipse 5–22, tanto “Aquele que está no trono” quanto o “Cordeiro” reinam juntos. 96 Embora a teologia ortodoxa afirme que há plena igualdade de autoridade entre as pessoas da Trindade, essa plena igualdade de autoridade é exercitada de maneiras diferentes por cada uma das pessoas. Há a livre autodoação de cada pessoa, mas é expressa de modo diferente e autêntico por cada uma. 97 Uma pesquisa feita pelo Barna Group em 2017 mostrou que 88% da juventude norte-americana entende ser uma boa ideia coabitar com alguém antes do casamento (“The trends redefining romance today”. Disponível em: https://www.barna.com/research/trends-redefining-romance-today. Acesso em: 16 jan. 2018). 98 Ibid. A pesquisa indicou que o índice de divórcio entre casais cristãos é de 25%, igual ao índice entre casais não cristãos. 99 Evelyn Eaton Whitehead e James D. Whitehead, Marrying Well: Stages on the Journey of Christian Marriage (Garden City, NY: Image Books, 1983), p. 229. 100 Respeitando os limites biblicamente estabelecidos e preservando a integridade física. CAPÍTULO 6 DICAS PARA UM CASAMENTO E UMA FAMÍLIA SAUDÁVEIS 101 David Cooper, A Morte da Família, 3ª ed. (São Paulo: WMF Martins Fontes, 1994). 102 Manuel Carlos Montenegro, “Cartórios são proibidos de fazer escrituras públicas de relações poliafetivas”, Agência CNJ de Notícias, 26 jun. 2018. Disponível em: http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/86892-uniao-poliafetiva- pedido-de-vista-adia-a-decisao. 103 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “Tabelas Coeficientes de Variação”, atualizado em 20 mai. 2016. Disponível em: https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pna d2014/sintese_coef_var_ods.shtm.104 Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, 19 set. 2017. Disponível em: http://site.cndl.org.br/61-dos-donos-de-animais-de-estimacao-veem-seus-pets- como-um-membro-da-familia-gasto-mensal-e-de-r189-em-media/. 105 Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo, “Uniões consensuais superam casamentos civil e religioso”, Jusbrasil, 14 jul. 2014. Disponível em: https://arpen- sp.jusbrasil.com.br/noticias/127239479/unioes-consensuais-superam- casamento-civil-e-religioso. 106 Roseli Sayão e Julio Groppa Aquino, Família: Modo de Usar, Série Papirus Debates, 2ª ed. (Campinas, SP: Papirus, 2006), p. 15. Veja Ana Carla Harmatiuk Matos, As Famílias Não Fundadas no Casamento e a Condição Feminina (Rio de Janeiro: Editora Renovar, 2000); Marcos Alves da Silva, Da Monogamia – A Sua Superação Como Princípio Estruturante do Direito de Família (Curitiba: Editora Juruá, 2013); e Rodrigo da Cunha Pereira e Giselle Câmara Groeninga, coords., Direito de Família e Psicanálise: Rumo a uma Nova Epistemologia (Rio de Janeiro: Imago, 2003). 107 Não afirmamos a existência de qualquer relação direta entre as pessoas da Trindade e o ser humano em suas duas formas existenciais (homem e mulher). Em termos ontológicos Deus existe além do gênero, e as expressões de gênero humanas não refletem individualmente alguma das pessoas da Trindade. Como é dito: “O Pai não é o marido, e o Espírito Santo não é a esposa, e Jesus o Filho de ambos”. De igual modo, como vimos no capítulo 5, relações de amizade íntima podem refletir relações trinitárias como vemos nas vidas de Jesus e Paulo. 108 Marcelo Augusto Bonfa, Renato Manfredine Jr. e Eduardo Dutra Villa-Lobos, “Pais e Filhos”, do álbum Tempo Perdido, ao vivo, Legião Urbana, São Paulo: Sony/ATV Music Publishing LL, 1986. 109 A discussão sobre a submissão do Filho ao Pai continua hoje. Conforme as Escrituras, Jesus foi sempre obediente. Mas a questão-chave é se a subordinação do Filho na kenosis (Fp 2.5-7) revela uma ordem na Trindade eterna (em si). Alguns acham que sim, de perspectivas diferentes, inclusive teólogos como Karl Barth, Hans Urs Von Balthasar, Wayne Grudem e Bruce Ware. O teólogo inglês John Owen (séc. XVII) colocou o ato livre de submissão do Filho no pacto da redenção antes da criação do mundo. Em grande parte, a ortodoxia cristã restringe a submissão do Filho à missão da redenção na Trindade “econômica”, e que o Pai e o Filho são perfeitamente iguais sem submissão na Trindade ontológica (“imanente”). Contudo, o debate continua. 110 Uma pesquisa divulgada pelo jornal Estado de São Paulo aponta que 82% das trabalhadoras creem que a liderança masculina é mais racional (Gisele Tamamar, “Mulher Prefere Chefe Homem”, Blog Seu Bolso, Estadão, 8 mar. 2012. Disponível em: http://www.estadao.com.br/blogs/jt-seu- bolso/2012/03/08/mulher-prefere-chefe-homem/. Ver http://entretenimento.r7.com/hoje-em-dia/videos/muitas-mulheres-preferem- ter-chefe-homem-20102015). Além disso, outra pesquisa divulgada pela revista Época Negócios aponta que “67% das mulheres preferem chefes homens a chefes mulheres” (“Mulheres Preferem ter Chefe Homem”, Época, Negócios. Caderno Carreira/Trabalho 13/08. Disponível em: http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,ERT87670- 16349,00.html). 111 Estevão Taiar, “Número de lares chefiados por mulheres sobe de 23% para 40% em 20 anos”, Valor Econômico, 6 mar. 2017. Disponível em: http://www.valor.com.br/brasil/4889492/numero-de-lares-chefiados-por- mulheres-sobe-de-23-para-40-em-20-anos. 112 Sérgio Gomes Silva, “A crise da Masculinidade: Uma Crítica à Identidade de Gênero e à Literatura Masculinista”, Psicologia, Ciência e Profissão, vol. 26 (Rio de Janeiro: Instituto de Medicina Social/IMS/Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2006), p. 118-131. 113 Expressão que faz referência ao estereótipo social do homem ausente, que não tem autoridade e tem mínima participação na vida familiar, caracterizado, de maneira geral, por estar sentado de pijama na frente da televisão e com uma barriga saliente e cara de tédio. 114 Aline Gomiero, “Cresce o Número de Maridos que Ficam em Casa Cuidando dos Filhos”, Online Claudia: Sua Vida, Editora Abril, 4 mai. 2014. Disponível em: https://claudia.abril.com.br/sua-vida/cresce-o-numero-de-maridos-que- ficam-em-casa-cuidando-dos-filhos/. 115 Pode-se destacar a acirrada discussão contemporânea na Convenção Batista Brasileira sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral, e a maioria de missionárias nos campos missionários que de fato exercem o ministério e a função pastoral. 116 A palavra “epidemia” aqui está sendo usada não no sentido médico-clínico, mas sim no sentido figurativo: “fig. coisa que se difunde rapidamente e é adotada por muitas pessoas: Epidemia de minissaias” (Michaelis: Dicionário Prático da Língua Portuguesa). O crescimento vertiginoso da homossexualidade pode ser observado em pesquisas como: Gary J. Gates, Same-Sex Couples and the Gay, Lesbian, Bisexual Population: New Estimates from the American Community Survey, The Williams Institute on Sexual Orientation Law and Public Policy (UCLA School of Law, Oct. 2006). Acesso em: 4 ago. 2015. E também no último senso divulgado pelo IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de- noticias/releases/15160-registro-civil-2014-brasil-teve-4-854-casamentos- homoafetivos.html. 117 Para um panorama mais completo da discussão, histórico e teóricos envolvidos, recomenda-se a leitura de Hart M. Nelson, Neil H. Cheek Jr. e Paul Au, “Gender Differences in Images of God”, Journal for the Scientific Study of Religion, vol. 24:4 (dez. 1985), p. 396-402. 118 Edesio Sánchez, “Family in the Non-narrative Sections of the Pentateuch”, em Richard S. Hess e M. Daniel Carroll R., coords., Family in the Bible: Exploring Customs, Culture, and Context (Grand Rapids, MI: Baker, 2003), p. 33, Kindle. Veja ainda Gregory Brown, “God’s Design For The Family (Colossians 3:18-21)”, 25 jan. 2016. Disponível em: https://bible.org/seriespage/14-god-s-design-family-colossians-318-21. Acesso em: 27 dez. 2017. 119 Michael Anthony e Michelle Anthony, Theology for Family Ministry (Nashville: B&H, 2011), p. 700-701, Kindle. 120 Andreas Köstenberger e J. David W. Jones, Deus, Casamento e Família: Reconstruindo o Fundamento Bíblico, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 2015), p. 29. 121 Esses pontos são ideais, mas permitem termos exceções válidas, como um casal de cristãos sendo estéril e que deseja adotar, ou ter pais mais velhos que são cuidados pelo casal morando juntos. CAPÍTULO 7 A TRINDADE E O CORPO DE CRISTO 122 Hypostases é o plural de hypostasis. 123 Millard J. Erickson, Introdução à teologia sistemática (São Paulo: Vida Nova, 1997), p. 135. 124 Franklin Ferreira e Alan Myatt, Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual (São Paulo: Vida Nova, 2007), p. 188. 125 R. C. Sproul, Somos Todos Teólogos (São José dos Campos SP: Fiel, 2017), cap. 11, 10º parágrafo. 126 Ibid., 11º parágrafo. 127 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 186. 128 Wayne Grudem, Teologia Sistemática: Atual e exaustiva (São Paulo: Vida Nova, 1999), p. 185-186. 129 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 183. 130 Grudem, Teologia Sistemática, p. 174. 131 John Owen, A Doutrina da Trindade: Provada pela Bíblia (Francisco Morato, SP: O Estandarte de Cristo, 2019), Kindle. 132 Conforme diz o Credo de Atanásio: “Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus. Contudo, não há três Deuses, mas um só Deus”. 133 Grudem, Teologia Sistemática, p. 190. 134 Ibid., p. 191. 135 É evidente que não estamos tratando aqui de diferenças relacionadas a desvios doutrinários ou morais. Em questões como estas não deve haver unidade. O pecado quebra a comunhão e causa separação. Sobre esse assunto trataremos mais adiante. 136 Mark Dever e Jamie Dunlop. A Comunidade Cativante (São José dosCampos, SP: Fiel, 2016), parte 1, cap. 1, Kindle. 137 Paulos Mar Gregorios, “Human unity for the glory of God”, The Ecumenical Review, vol. 37, n. 2 (1985), p. 210, cf. 206-212. 138 Carl E. Braaten, “The Triune God: The Source and Model of Christian Unity and Mission”, Missiology, vol. 18 n. 4 (1990), p. 424. 139 Ibid., p. 425. 140 É evidente que os pecados que quebraram a comunhão entre o Pai e o Filho não eram de Jesus, mas da humanidade, e foram colocados sobre Cristo na cruz. Entretanto, não ocorre quebra da ousia de Deus. 141 Embora a Bíblia seja um livro de absolutos, a definição daquilo que é essencial ou periférico pode variar de um contexto para outro ou de uma época para outra. Uma discussão sobre esse tema seria extensa e não caberia nos limites deste capítulo. Uma reflexão interessante sobre o assunto foi feita por Gregory Koukl, “Doutrinas cristãs essenciais”. Disponível em: https://tuporem.org.br/doutrinas-cristas-essenciais/. 142 Em situações como estas é necessária uma avaliação individual, feita debaixo de reflexão bíblica e oração, para saber se a consciência permite conviver com uma crença e prática diferente. 143 Assim como acontece com as questões essenciais, também existem dificuldades para se definir quais são as questões periféricas. Sua abrangência pode aumentar ou diminuir de acordo com os critérios utilizados. Embora nem todos concordem com os exemplos, eles foram apresentados com base na ausência de determinação bíblica expressa. Existem descrições bíblicas sobre esses assuntos, mas não prescrições bíblicas a respeito deles. 144 Embora igrejas locais ou denominações possam ter suas declarações doutrinárias específicas, é possível subscrever declarações mais amplas com o objetivo de cooperação denominacional ou missionária. Esse é o propósito de organizações como a Aliança Evangélica Brasileira. CAPÍTULO 8 A TRINDADE E A IGREJA LOCAL 145 “À nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Esta combinação única de expressões, virtualmente idênticas, enfatiza a natureza incomparável dos seres humanos e sua relação especial com Deus” (Nahum M. Sarna, Genesis, The JPS Torah Commentary [Filadélfia: Jewish Publication Society, 1989], p. 11 [ênfase acrescentada]). 146 Os atributos incomunicáveis pertencem à natureza do infinito Deus (onisciência, onipotência etc.), enquanto os atributos comunicáveis descrevem as características pessoais (amor, retidão etc.), e de que outros seres pessoais (criados e finitos) podem participar. 147 Francis A. Schaeffer, The Complete Works of Francis A. Schaeffer, 5 vols. (Wheaton, IL: Crossway, 1982), 1.93-94. 148 Um plural de autodeliberação, conforme Gesenius’ Hebrew Grammar, ed. E. Kautzsch, trans. A. E. Cowley, 2ª ed. (Oxford, Inglaterra: Clarendon, 1910), 398, 124, n. 2. 149 A expressão “que Deus era com ele” (grego, hoti ho theos ên met’autou) indica relação, aprovação e capacitação. 150 O diálogo de Gênesis 3.7-19 sugere fortemente uma relação pessoal contínua anterior à queda (veja 2.16-17). 151 É importante observar que as palavras usadas para a ação do Espírito muitas vezes implicam que ele comunicou com palavras (At 9.31; 10.19; 11.28; 15.28). 152 1Co 3.16; Gl 3.2; 2Tm 1.14. 153 Jaime Kemp, Pastores em Perigo (São Paulo: Hagnos, 2006), p. 51. 154 Outras nomenclaturas também são usadas, mas a função é a mesma. 155 Um estudo sobre o propósito de Deus para sua igreja deve direcionar o propósito da liderança. 156 Isso não significa que os relacionamentos intratrinitários causem alguma mudança em qualquer das suas pessoas, mas que o padrão do relacionamento está de acordo com o caráter santo e amoroso de Deus e por essa razão é sempre benevolente. 157 Kemp, Pastores em Perigo, p. 56. 158 Schaeffer, Complete Works, 2.32. 159 Veja Miroslav Volf, After Our Likeness: The Church as the Image of the Trinity (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1998). 160 Charles C. Ryrie, Biblical Theology of the New Testament (Dubuque, IA: ECS Ministries, 2005), p. 290-291. 161 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 50-51. 162 Rm 5.5,8; 8.39; 2Co 13.11,13; Ef 2.4; 6.23; Tt 3.4; Hb 12.6; 1Jo 3.1; 4.7- 10,16. 163 1Jo 3.16; veja Mc 10.21; Jo 11.3; 13.1; 14.21; 20.22; 21.7; Rm 8.35; 2Co 5.14; Gl 2.20; Ef 3.19; 5.2. 164 É possível que esse seja um genitivo objetivo que indicaria o amor “ao Espírito” ou genitivo subjetivo, indicando que o Espírito ama. Veja Joseph A. Fitzmyer, Romans: A New Translation with Introduction and Commentary, Anchor Yale Bible Commentary (New Haven, CT: Yale University Press, 2008), p. 677. 165 Ryrie, Teologia Básica, p. 33. Ver tb. 2Ts 2.13; 1Pe 1.2. 166 A palavra “dominador” (grego, katakurieuô) é usada para governantes tiranos na lição de Jesus aos discípulos (Mt 20.25) e para designar a ação de um demônio atacando e ferindo pessoas (At 19.16). 167 Kemp, Pastores em Perigo, p. 42. 168 Veja M. William Ury, “Holy, Holiness”, Evangelical Dictionary of Biblical Theology, ed. Walter A. Elwell (Grand Rapids, MI: Baker, 1996), p. 340-344. 169 Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento (São Paulo: Hagnos, 2006), p. 35. 170 Ver At 2.27; 13.35. O campo semântico do grego hosios permite usá-lo também como sinônimo de hagios, uma vez que é usado a maioria das vezes referindo-se tanto ao Pai quanto ao Filho (Ap 15.4; Hb 7.26). Assim também o hebraico hasid como qodesh por ter sido usado para Deus (Sl 145.17). 171 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 212. 172 Lv 11.44-45; 19.2; Nm 15.40; 1Pe 1.14-16. 173 John Henry Jowett, O Pregador, Sua Vida e Obra (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1968), p. 28. CAPÍTULO 9 AO QUE DEUS NOS CHAMA? 174 Alan B. Pieratt, O Evangelho da Prosperidade, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 1996), p. 26. Algumas dessas seitas incluiriam: Igreja da Unidade, a Igreja da Ciência Divina, a Igreja da Verdade, Liga da Igreja de Cristo, O Cristo que Cura a Sociedade e a Assembleia Cristã. 175 Ibid., p. 28. 176 Ibid., p. 23. 177 Ibid., p. 24. 178 Ibid., p. 29. 179 Ricardo Gondim, O Evangelho da Nova Era, 5 ed. (São Paulo: Abba, 1999), p. 5. 180 Alderi Souza de Matos, “Raízes históricas da teologia da prosperidade”, Ultimato (jul.-ago. 2008). Disponível em: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/313/raizes-historicas-da-teologia- da-prosperidade. 181 John Ankerberg e John Weldon, Os Fatos Sobre o Movimento da Fé (Porto Alegre: Chamada, 1993), p. 32. 182 Gondim, O Evangelho da Nova Era, p. 103. 183 Paulo Romeiro, Super Crentes: O Evangelho Segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens, e os Profetas da Prosperidade (São Paulo: Mundo Cristão, 1993), p. 25. 184 Valdemiro Santiago. Disponível em: https://www.youtube.com/watch? v=0LgjL6VMEO8&feature=youtu.be. 185 Silas Malafaia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4Me- irBFPSs. 186 Pieratt, O Evangelho da Prosperidade, p. 57. 187 Gondim, O Evangelho da Nova Era, p. 83. 188 Ibid., p. 85. 189 Ibid., p. 69. 190 Stanley J. Grenz, The Social God and the Relational Self (Louisville, KY: Westminster John Knox, 2001), p. 9. 191 Jim Berg, Created for His Glory (Greenville, SC: Bob Jones University Press, 2002), p. 31. 192 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 247. 193 Grenz, The Social God and the Relational Self, p. 167 194 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 254. 195 Ver Dt 30.9; Js 1.7-8; 1Rs 2.2-3; 2Cr 26.5; 31.21; Sl 1.3; 112.1-3; Mc 10.29- 30. Veja John M. Frame, A Doutrina da Vida Cristã (São Paulo: Cultura Cristã, 2016), p. 770. 196 Peter L. Berger, “You Can Do It!”, http://www.booksandculture.com/articles/2008/sepoct/10.14.html. 197 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 255. 198 1Tm 1.3-11; 4.1-16; 6.3-5; 2Tm 2.23-26; 3.1-9; 4.1-5; Tt 1.10-16; 2.15; 3.9- 11. 199 Horrell, “O Deus Trino que Se Dá”, p. 260. CAPÍTULO 10 SEPARANDO AS OVELHAS DAS CABRAS 200 Joey Coffey, Defenda Sua Fé – Pondo por terra as gigantescas questões da apologética (São Paulo: Vida Nova, 2012), p. 12. 201 John MacArthur Jr., Guerra pelaVerdade (São Paulo: Vida Nova, 2010), p. 11. 202 Os unicistas têm imenso impacto sobre o evangelicalismo nos países em desenvolvimento, ainda que muitos grupos não tenham uma adesão formal. A maioria das estimativas numéricas está desatualizada e não é verificável. A fonte mais recente aponta 24 milhões no mundo, mas sem fontes estatísticas. Esta estimativa vem do “Pentecostalismo Unicista”, Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Oneness_Pentecostalism. Baseado em Eric Patterson e Edmund Rybaczyk, The Future of Pentecostalism in the United States (Nova York: Lexington, 2007), p. 123-124. Acesso em: 17 nov. 2019. 203 Sabélio era de origem africana e chegou a Roma por volta do ano 217 d.C. Nesse tempo, ele começou a pregar e defender o seu ponto de vista conseguindo reunir um grande número de seguidores. Posteriormente Sabélio foi excomungado por Calisto, bispo de Roma, e fugiu para o Oriente, e mais tarde para o Egito, onde morreu em 260 d.C. A seita herética por ele fundada sobreviveu até o século IV. Veja R. Frangiotti, História das Heresias: Séculos I– VII (São Paulo: Paulus, 1995), p. 49, 51; M. Simonetti, “Sabellius– Sabellianism”, Encyclopedia of Ancient Christianity, ed. Angelo Di Berardino, 3 vols. (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2014), 3.445. 204 R. Oliveira, Seitas e Heresias: Um Sinal dos Tempos (Rio de Janeiro: CPAD, 2002), p. 153. 205 Robert Edward McAlister (1880-1953). Pastor e diretor das Assembleias Pentecostais do Canadá, nasceu e foi criado num lar presbiteriano. Ele participou de encontros na rua Azusa, em Los Angeles, em 1906, retornando ao Canadá como um pentecostal verdadeiramente entusiasmado. Ele é lembrado dentro de sua denominação como aquele que deu o grande impulso para o unicismo. D. A. Reed, “Oneness Pentecostalism”, The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements, Stanley M Burgess, coord., 2ª ed. (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2002), p. 936-944. 206 Stanley Horton, org., Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal (Rio de Janeiro: CPAD, 1995), p. 99. 207 Ibid. 208 Ibid., e Reed, “Oneness Pentecostalism”, p. 936. 209 Para conhecer melhor o início da história do movimento unicista, veja Reed, “Oneness Pentecostalism”, p. 936-44; e Walter J. Hollenweger, The Pentecostals: The Charismatic Movement in the Churches (Londres, Inglaterra: SCM Press, 1972), p. 31-32. 210 Reed, “Oneness Pentecostalism”, p. 938. 211 Igreja Pentecostal Unida do Brasil. Disponível em: http://www.ipubgoias.com.br/quem-somos/. Acesso em: 16 mai. 2018. 212 Esequias Soares, “Unicismo: heresias ou questões secundárias?”, Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Disponível em: http://www.cacp.org.br/unicismo-heresias-ou-questoes-secundarias/. Acesso em: 27 nov. 2019. 213 Igreja Pentecostal Unida do Brasil, Home page. Disponível em: http://www.ipubgoias.com.br/quem-somos/. Acesso em: 27 nov. 2019. 214 Também Lc 2.49; Jo 2.16; 5.22-23; 8.54; 14.2,13,16,21,24,26; 1Co 12.3; Hb 1.5. Veja a lista de textos contra a doutrina dos Só Jesus em Ricardo Becerra, “Unicismo”, Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Disponível em: http://www.cacp.org.br/unicismo/. Acesso em: 28 nov. 2019. 215 Gordon H. Clark, The Trinity (Unicoi, TN: Trinity Foundation, 1990), p. 8-12. 216 A Igreja Pentecostal Unida do Brasil declara em seus artigos de fé que o falar em línguas faz parte da salvação, no entanto o fenômeno de falar em línguas em Atos é registrado apenas três vezes: no Pentecostes (At 2.2-12), no Pentecostes gentio no lar de Cornélio (10.44-47) e quando os discípulos de João Batista conheceram a fé cristã plena (19.1-7). 217 Oliveira, Seitas e Heresias, p. 238. 218 Ibid., p. 239. 219 John Frame, Apologética para a Glória de Deus (São Paulo: Cultura Cristã, 2010), p. 43. 220 Tertuliano, Contra Práxeas, 10; ACD 1.68; PL 2.165; ANF 3:604. Já em 177 d.C., Atenágoras defendeu Deus como um na essência, mas três em distinção e ordem, A Plea Regarding Christians, 10.1ff; e Teófilo de Antioquia falou de Deus como trias (Para Autólico 2.10,15; 2.22). CAPÍTULO 11 O PORQUÊ DAS MISSÕES 221 J. Scott Horrell, “The Trinity, the Imago Dei, and the Nature of the Local Church”, Connecting for Christ: Overcoming Challenges Across Cultures, ed. Florence P. L. Tan (Singapura: Florence Poh-Lian Tan, 2009), p. 24, cf. 1-30. 222 Christopher West, Teologia do Corpo para Principiantes (São Paulo: Paulinas Editora, 2017), p. 19. 223 Ibid., p. 18. 224 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 33. 225 Martyn Lloyd-Jones, “A Apresentação do Evangelho”, p. 3 (ênfase no original). Disponível em: http://www.slideshare.net/linomar31/a-apresentao- do-evangelho. Acesso em: 28 nov. 2019. 226 George W. Peters, Teologia Bíblica de Missões (Rio de Janeiro: CPAD, 2000), p. 57. 227 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 81. 228 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 23. 229 John Piper e Justin Taylor, The Supremacy of Christ in a Postmodern World (Wheaton, IL: Crossway, 2007), p. 132, citado em Yago Martins, Você Não Precisa de um Chamado Missionário (Joinville, SC: BTBooks, 2015), p. 52. 230 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 194. 231 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 98. 232 Ibid., p. 110. 233 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 23. 234 Gerald Bray, Igreja: Um relato teológico e histórico (São Paulo: Shedd Publicações, 2017), p. 70. 235 Fred Sanders, The Deep Things of God: How the Trinity Changes Everything, 2ª ed. (Wheaton, IL: Crossway, 2017), Kindle. 236 Martins, Você Não Precisa de um Chamado Missionário, p. 212. 237 Ibid., p. 213. 238 Keith Phillips, A Formação de um Discípulo (São Paulo: Vida, 2008), p. 17. 239 Robert R. Coleman, Plano Mestre de Evangelismo, 2ª ed. (São Paulo: Mundo Cristão, 2006), p. 103. 240 Bill Lawrence, Autoridade Pastoral: Servindo a Deus, liderando o rebanho (São Paulo: Vida, 2002), p. 73. 241 Martins, Você Não Precisa de um Chamado Missionário, p. 216. 242 Lawrence, Autoridade Pastoral, p. 76. 243 J. Scott Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, Vox Scripturae, vol. 4, n. 1 (mar. 1994), p. 66. 244 John Dickson, The Best Kept Secret of Christian Mission: Promoting the Gospel with More than Our Lips (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2010), p. 31. 245 Charles Chaney, “The Missionary Dynamic in the Theology of John Calvin”, Reformed Review, vol. 17 (mar. 1964), p. 36-37, citado em Martins, Você Não Precisa de um Chamado Missionário, p. 61. 246 Horrell, “The Trinity, the Imago Dei, and the Nature of the Local Church”, p. 23. 247 Nicky Cruz e Charles Paul Conn, The Magnificent Three (Old Tappan, NJ: Revell, 1976), p. 103, citado em Sanders, The Deep Things of God, Kindle. 248 Peters, Teologia Bíblica de Missões, p. 194. 249 Paul I. Enns, The Moody Handbook of Theology, 2ª ed. (Chicago: Moody, 2008), p. 378. 250 Juventino Kestering, “A Santíssima Trindade é convite para missão”, 11 jun. 2015. Disponível em: https://www.cnbbo2.org.br/a-santissima-trindade-e- convite-para-a-missao/. Acesso em: 27 nov. 2019. 251 Ed Stetzer, Plantando Igrejas Missionais: Como plantar igrejas bíblicas, saudáveis e relevantes à cultura (São Paulo: Vida Nova, 2015), p. 47. 252 Andreas J. Kostenberger e Peter T. O’Brien, Salvation to the Ends of the Earth (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001), p. 269. 253 Wilbert R. Shenk, “Mission Strategies”, Toward the Twenty-First Century in Christian Mission, orgs, James M. Phillips e Robert T. Coote (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1993), p. 221-223, citado em Stetzer, Plantando Igrejas Missionais, p. 48. CAPÍTULO 12 A PERSPECTIVA TRINITÁRIA 254 James Kennedy, E Se Jesus Não Tivesse Nascido? (São Paulo: Vida, 2003). 255 Norman L. Geisler e William D. Watkins, Worlds Apart (Grand Rapids, MI: Baker, 1989), p. 11. 256 Norman L. Geisler, Enciclopédia Apologética: Respostas aos Críticos da Fé Cristã (São Paulo: Vida, 2002), p. 403. 257 Elias Hendrikson, Santidade (São Paulo: Clube dos Autores, 2008), p. 18. 258 Hans-DietarMutscheler: “O naturalismo é a concepção de que podemos ‘explicar’ suficientemente o ser humano com os recursos da ciência da natureza” (Hans-Dietar Mutscheler, Introdução à Filosofia da Natureza [São Paulo: Loyola, 2002], p. 24). Assim, o naturalismo, por meio da ciência, buscou explicar a origem de todas as coisas. O naturalismo serve de base para o desenvolvimento do pensamento humanista. A medida daquilo que é verdade é ser inteligível ao ser humano e passível de ser provada. Deus gradativamente tornou-se uma sombra mitológica ilógica. 259 Brendan Sweetman, Religião: Conceitos-Chaves em Filosofia (São Paulo: Penso Editora, 2013), p. 131. 260 Geisler, Enciclopédia Apologética, p. 403. 261 Ibid., p. 403. 262 Ibid., p. 40. 263 David Noebel, “Compreendendo as Seis Cosmovisões Dominantes no Mundo”, Forcing Change, vol. 4, n. 2 (22 mar. 2011). Disponível em: http://www.espada.eti.br/cosmovisao.asp. Acesso em: 5 nov. 2019. 264 Richard Guerra, Desconforme-se: Um alerta para o jovem do século 21 (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017), p. 1. 265 Informação fornecida por Hélder Cardin, no congresso de fé e pós- modernidade da Aliança Bíblica, em Caxias do Sul-RS, 30 jun. 2012. 266 Pensamento de Friedrich Nietzsche, que apresenta a história como cíclica, ausente de significado transcendente. Onde não há nada além do aqui e agora. 267 Segundo Abbagnano: “O Existencialismo afirma que o homem é uma realidade finita, que existe e age por sua própria conta e risco. Afirma que o homem está ‘lançado no mundo’, ou seja, entregue ao determinismo do mundo, que pode tornar vãs ou impossíveis as suas iniciativas” (Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia, Revista e Ampliada [São Paulo: Martins Fontes, 2007], p. 402). 268 José Geraldo de Oliveira, “CCM e TC pós modernismo 2” [Cultura, Comunicação, e Mídia e Teorias da Comunicação], 2015. Disponível em: https://pt.slideshare.net/JoseOliveira34/ccm-e-tc-pos-modernidade-2. Acesso em: 10 de nov. 2019. 269 Apesar deste termo não estar contido nas Escrituras e da dificuldade comprobatória deste fato no Antigo Testamento, é inegável tal conceito da triunidade de Deus nas Escrituras. 270 Conforme o Credo Niceno-Constantinoplano (325/381 d.C.) e o Credo de Atanásio. Especificamente no que tange à trindade econômica, este conceito retrata o relacionamento de iguais em uma hierarquia funcional no relacionamento com sua obra e sua criação. 271 J. Scott Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, Vox Scripturae: Revista Teológica Brasileira, vol. 4, n.1 (mar. 1994), p. 61-64. 272 Não há discussão sobre essas características no ser humano, de tal modo é inegável que estas características são apresentadas no decorrer da Bíblia como de Deus. Assim, a perspectiva de Criador e criatura torna-se mais evidente na própria constituição do homem. 273 Podemos atribuir ao conceito de personalidade o principal conjunto de características de cada indivíduo que o torna único. Conforme conceito etimológico e uso do mesmo. 274 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 61. 275 Stephen C. Perks, “A Christian View of the State”, Christian and Society, vol. 12, n. 4 (2002), p. 23. 276 “Efeito borboleta” é um termo que se refere à dependência sensível às condições iniciais dentro da teoria do caos. Aplica-se devidamente à circunstância do homem assumindo algo incapaz de gerir. 277 O homem é limitado em sua essência e não pela soberania de Deus. Suas capacidades não são infinitas. Ele está preso ao tempo e ao espaço. Ele tem início e fim, terreno. A tentativa máxima de liberdade de um ser afetará a de outro, impossibilitando uma livre vontade. 278 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 71. 279 Ibid., p. 60. 280 Ibid., p. 76. 281 Franklin Ferreira, Teologia Cristã: Uma introdução à sistematização das doutrinas (São Paulo: Vida Nova, 2015), p. 81. 282 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 71. 283 Mário de França Miranda, A Igreja numa Sociedade Fragmentada (São Paulo: Loyola, 2006), p. 85. 284 Horrell, “The Trinity, the Imago Dei, and the Nature of the Local Church”, p. 1-30. CAPÍTULO 13 A TRINDADE E ALÁ 285 Carlos Madrigal, Explaining the Trinity to Muslims: A personal reflection on the biblical teaching in light of the theological criteria of Islam (Pasadena, CA: William Carey Library, 2011), p. 134-138, Kindle. 286 Samir El Hayek, O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado com Comentários (São Paulo: MarsaM, 2004). 287 Ibid.; Alcorão, Surata 29:46. 288 Silas Tostes, O Islamismo e a Trindade (São Paulo: Ágape, 2001), p. 29. 289 Ibid.; Surata 4:48. 290 Fred Sanders, The Deep Things of God: How Trinity Changes Everything (Wheaton: Crossway, 2010), p. 70, Kindle. 291 Horrell, “Uma Cosmovisão Trinitária”, p. 67-68. 292 Ibid., Surata 3:42-47 (ênfase acrescentada). 293 Don McCurry, Passos para a Eternidade: Jesus do Alcorão à Bíblia (Foz do Iguaçu, PR: Letras, 2013), p. 29. 294 Hayek, O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado, Surata 4:171. 295 Madrigal, Explaining the Trinity to Muslims, p. 668-674, Kindle. 296 Thomas Finger, “Modern Alienation and Trinitarian Creation”, Evangelical Review of Theology, vol. 17, n. 2 (abr. 1993), p. 204. 297 Hayek, O Significado dos Versículos do Alcorão Sagrado, Surata 5:116. 298 Tostes, O Islamismo e a Trindade, p. 61-62. 299 Rodrigo Cardoso, “Os caminhos do Islã no Brasil”, ISTO É, 21 jan. 2016. Disponível em: https://istoe.com.br/349181_OS+CAMINHOS+DO+ISLA+NO+BRASIL/. Acesso em: 24 mai. 2019. CAPÍTULO 14 OS CREDOS TRINITÁRIOS E O PENSAMENTO CERTO 300 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 22. 301 Paulo Anglada, Sola Scriptura: A doutrina reformada das Escrituras (São Paulo: Os Puritanos, 1998), p. 178. 302 Franklin Ferreira, O Credo dos Apóstolos (São José dos Campos: Fiel, 2015), p. 26. 303 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 19. 304 O. G. Oliver Jr., “Credo dos Apóstolos”, in: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, 2 vols. (São Paulo: Vida Nova, 1993), 1:362-363. 305 M. E. Osterhaven, “Regra de Fé”, in: Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã, Walter A. Elwell, ed. (São Paulo: Vida Nova, 2009), p. 260. 306 Ferreira e Myatt, Teologia Sistemática, p. 165. 307 Ryrie, Teologia Básica, p. 35. 308 Archibald A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster: Comentada por A. A. Hodge (São Paulo: Os Puritanos, 2008), p. 27. 309 Sou em grande parte dependente de Carl Trueman para os pontos que se seguem. Carl R. Trueman, “¿Por qué los cristianos necesitan confesiones?”. Disponível em: https://reformadoreformandome.wordpress.com/2013/04/12/carl-trueman/. Acesso em: 28 dez. 2019. 310 Heber Carlos de Campos, “A Relevância dos Credos e Confissões”, Fides Reformata, vol. 2 n. 2 (jul.‐dez. 1997), p. 97‐114. CAPÍTULO 15 AMAR MELHOR 311 D. A. Carson e Timothy Keller, Louvor: Análise Teológica e Prática (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017), p. 48. 312 Ibid., p. 44. 313 Merrill C. Tenney, Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), p. 109. 314 Ralph L. Smith, Teologia do Antigo Testamento: História, Método e Mensagem (São Paulo: Vida Nova, 2001), p. 300. 315 Bray, Igreja, p. 38. 316 D. A. Carson, O Comentário de Mateus (São Paulo: Shedd, 2011), p. 208. 317 George Eldon Ladd, Teologia do Novo Testamento, ed. rev. (São Paulo: Hagnos, 2014), p. 213. 318 Andreas J. Köstenberger, Scott R. Swain, Pai, Filho e Espírito Santo: A Trindade e o Evangelho de João (São Paulo: Vida Nova, 2014), p. 98. 319 Leonardo Boff, A Santíssima Trindade é a Melhor Comunidade, 12ª ed. (Rio de Janeiro: Vozes, 2011), p. 34. 320 Reeves, Deleitando-se na Trindade, p. 8. 321 James B. Torrance, Worship, Community and the Triune God of Grace (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1997), p. 20. OBSERVAÇÕES FINAIS 322 Alister E. McGrath tem três doutorados da Universidade de Oxford e escreveu mais de 50 livros; ele é o atual professor de ciência e religião na Faculdade de Teologia e Religião da Universidadede Oxford e professor de divindade no Gresham College, em Londres. 323 Palestra para a Sociedade Evangélica da Filosofia, San Antonio, TX, EUA, 18 nov. 2016, publicada como Alister E. McGrath, “The Rationality of Faith: How Does Christianity Make Sense of Things?”, Philosophia Christi 18:2 (2016), p. 395-409. A Trindade é um tema importante nos escritos de McGrath desde a década de 1980. 324 Por isso, os teólogos John Frame e Vern Poythress insistem na importância de multiperspectivalismo, ou seja, a importância de apreciar diversas lentes na aproximação de Deus. Veja Vern S. Poythress, Knowing and the Trinity: How Perspectives in Human Knowledge Imitate the Trinity (Phillipsburg, NJ: P&R Publications, 2018), p. xxi-xxv; Symphonic Theology: The Validity of Multiple Perspectives in Theology, reimpr. (Phillipsburg, NJ: P&R, 2001). 325 A. W. Tozer, Knowledge of the Holy: The Attributes of God: Their Meaning in the Christian Life (Nova York: Harper & Row, 1961), p. 9. 326 Ibid. BIBLIOGRAFIA FONTES IMPRESSAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, Revista e Ampliada. São Paulo: Martins Fontes, 2007. AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Mundo Cristão, 2017. AL-HAYANI, Fatima Agha. “Muslim Perspectives on Stem Cell Research and Cloning”, Zygon 43, n. 4 (2008). ALEXANDER, T. 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