Prévia do material em texto
1. Leia, a seguir, o trecho de um texto do geógrafo inglês David Harvey. Depois, responda às questões. O direito à cidade [...] Quero explorar aqui outro tipo de direito humano: o direito à cidade. Será que o espantoso ritmo e a escala da urbanização nos últimos 100 anos contribuíram para o bem-estar humano? A cidade, nas palavras do sociólogo e urbanista Robert Park, é a tentativa mais bem-sucedida do homem de refazer o mundo em que vive mais de acordo com os desejos do seu coração. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é também o mundo onde ele está condenado a viver daqui por diante [...]. Saber que tipo de cidade queremos é uma questão que não pode ser dissociada de saber que tipo de vínculos sociais, relacionamentos com a natureza, estilos de vida, tecnologias e valores estéticos nós desejamos. O direito à cidade é muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. Além disso, é um direito coletivo e não individual, já que essa transformação depende do exercício de um poder co- letivo para remodelar os processos de urbanização. A liberdade de fazer e refazer as nossas cidades, e a nós mesmos é, a meu ver, um dos nossos direitos humanos mais preciosos e ao mesmo tempo mais negligenciados. Desde seus primórdios, as cidades surgiram nos lugares onde existe produção excedente, aquela que vai além das necessidades de subsistência de uma popu- lação. A urbanização, portanto, sempre foi um fenômeno de classe, uma vez que o controle sobre o uso dessa sobreprodução sempre ficou tipicamente na mão de poucos [...]. Sob o capitalismo, emergiu uma conexão íntima entre o desenvolvi- mento do sistema e a urbanização. HARVEY, David. O direito à cidade. Piauí, n. 82, jul. 2103. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/ materia/o-direito-a-cidade/. Acesso em: 21 jul. 2020. a) Considere o texto acima e, com base no que foi exposto, explique a relação entre a produção da cidade e o modo de vida. b) Em que sentido seria possível comparar a cidade a um mero produto, a uma mercadoria consumível? Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade.Explorando NÃO ESCREVA NO LIVRO Retrato de Henri Lefebvre em sua casa, na França. Fotografia de 1979. Henri Lefebvre (1901- -1991) filósofo e sociólo- go francês. Estudioso das questões sobre o espaço urbano e da relação entre as formas de produção industrial e a sua influên- cia sobre a organização da cidade. Tem como um dos seus mais célebres li- vros: O direito à cidade, de 1968. Pe rfil Cartaz do filme Parasita. Dica O filme sul-coreano Parasita, ganhador do Oscar de 2019, conta a história de duas famílias bastante distintas, uma muito rica (os Park) e outra pobre (os Kim), que se entrecruzam quando Ki-woo tona-se o tutor da filha da família Park. Em meio aos luxos da família abastada, ele planeja meios de infiltrar toda a sua família na mansão. A questão que se coloca, afinal, é: quem seria parasita de quem? Parasita. Direção de Bong Joon-ho. Coreia do Sul: Pandora, 2019 (131 min). Classificação indicativa: 16 anos. F ra n c o is L O C H O N /G a m m a -R a p h o / G e tt y I m a g e s R e p ro d u ç ã o /P a n d o ra F ilm e s 103 V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 103V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 103 14/09/2020 12:0114/09/2020 12:01 TEMA 4 Aprofundando a desigualdade Os professores de Geografia, de Sociologia e de História são indicados, prioritariamente, para o trabalho deste segmento. Fotografia de comunidade no bairro Jardim Panorama, em São Paulo (SP), em 2020. Ao fundo, prédios comerciais e residenciais de alto padrão. A desigualdade de classes é bastante evidenciada nas paisagens urbanas. Vimos ao longo deste capítulo que as sociedades são compostas de classes so- ciais e que a estrutura social de uma sociedade se reproduz com base nas relações que essas classes sociais estabelecem entre si. Vimos também que nas sociedades contemporâneas essas relações se configu- ram com base em distintos interesses, que na maioria das vezes são opostos. Assim, o conflito entre interesses contraditórios fundamenta a própria reprodução da es- trutura social e dá sentido ao modo como nos organizamos socialmente. Depreende-se disso que a lógica interna de organização social baseada nessa relação de classe é histórica e tem características específicas. Uma delas é que as classes sociais no capitalismo se organizam em torno da propriedade privada. Em uma troca supostamente entre iguais, os possuidores de propriedade compram a força de trabalho daqueles que nada mais possuem além dela. Supostamente vivemos em uma sociedade em que todos são considerados livres juridicamente, mas ainda assim, outros fatores, como o econômico, influenciam nossa liberdade jurídica. Apesar de sermos iguais perante a lei, não acessamos da mesma for- ma a riqueza social produzida. Ou seja, as condições de habitação e de saneamento básico, o acesso à saúde de qualidade, ao lazer e à educação são usufruídos de manei- ra desigual, o que, segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), duplica a desigualdade já dada de início, quando nascemos em famílias menos favorecidas. Com isso, desde o início já partimos de uma desigualdade estrutural que divide a sociedade em várias classes sociais, mas, de maneira mais geral, em duas grandes classes. No entanto, essa desigualdade estrutural é reforçada e reproduzida por ou- tras, que em certa medida requalificam essas desigualdades. Resumindo, o fato de não ter renda suficiente para realizar estudos adequados para o ingresso em uma boa universidade pode reforçar a condição de classe. Não ter acesso adequado à educação acaba por aprofundar a desigualdade social. Ou ainda, não ter acesso a bons livros, peças de teatro e bons filmes, faz com que minha cultura geral e tam- bém, em alguns casos, específica, limite a minha acessibilidade a certos empregos e profissões com melhor remuneração. Classe média É comum ouvir a expressão “classe média” e entender que se trata de uma classe que teria uma média de renda situada entre a das classes capitalistas e a dos trabalhadores manuais. No entanto, é preciso aprofun- dar essa análise superficial. A classe média tem como um dos seus elementos definidores o fato de que ela compartilha da ideia de que é o mérito que de- termina a ascensão social, isto é, as hierarquias sociais no trabalho seriam fruto do esforço pessoal. Para o cientista polítio Décio Saes, a ideologia da meri- tocracia seria o elemento específico e delimitador da classe média. Conceito BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. São Paulo: Vozes, 2014. SAES, Décio Azevedo Marques de. Classe média e escola capitalista. São Paulo: Crítica Marxista, 2005. Disponível em: https:// www.ifch.unicamp.br/ criticamarxista/arquivos_ biblioteca/artigo122artigo5. pdf. Acesso em: 26 ago. 2020. Ta le s A zz i/ P u ls a r Im a g e n s 104 V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 104V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap4_088-111.indd 104 14/09/2020 12:0114/09/2020 12:01