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proporcionava uma vantagem crucial para a sobrevivência, a disponibilidade de amlas automáticas para garotos de treze anos tomou-a, com demasiada freqüência, uma reação desastrosa. Nossas Duas Mentes Uma amiga me falava de seu divórcio, uma dolorosa separação. O marido apaixonara-se por uma mulher mais jovem no trabalho, e de repente anunciara que ia deixá-la para viver com a outra. Seguiram-se meses de brigas amargas sobre casa, dinheiro e custódia dos filhos. Agora, passados alguns meses, ela dizia que sua independência Ihe agradava, que se sentia feliz em estar por conta própria. - Simplesmente não penso mais nele; na verdade não me importa. Mas, ao dizer isso, seus olhos, por um instante, se inundaram de lágrimas. Aquele momento de olhos marejados poderia passar facilmente desapercebido. Mas a compreensão empática de que os olhos marejados de uma pessoa significam que ela está triste, apesar das palavras em contrário, é um ato de compreensão tão seguro como a destilação do sentido das palavras numa página impressa. Uma é um ato da mente emocional, a outra, da racional. Num sentido muito verdadeiro, temos duas mentes, a que pensa e a que sente. Esses dois modos fundamentalmente diferentes de conhecimento interagem na construção de nossa vida mental. Um, a mente racional, é o modo de compreensão de que, tipicamente, temos consciência: mais destacado na consciência, mais atencioso, capaz de ponderar e refletir. Mas junto com esse existe outro sistema de conhecimento impulsivo e poderoso, embora às vezes ilógico a mente emocional. (Para uma descrição mais detalhada das características da mente emocional, ver o Apêndice B.) A dicotomia emocional/racional aproxima-se da distinção popular entre "coração" e "cabeça" saber que alguma coisa é certa "aqui dentro do coração‖ é um tipo diferente de convicção de algum modo uma certeza mais profunda do que achar a mesma coisa com a mente racional. Há uma acentuada gradação na proporção entre controle racional e emocional da mente; quanto mais intenso o sentimento, mais dominante se toma a mente emocional e mais intelectual a racional. É uma disposição que parece originar-se de eras e eras da vantagem evolucionária de termos as emoções e intuições como guias de nossa resposta instantânea nas situações em que nossa vida está em perigo e nas quais parar para pensar o que fazer poderia nos custar a vida. Essas duas mentes, a emocional e a racional, operam em estreita harmonia na maior parte do tempo, entrelaçando seus modos de conhecimento para nos orientar no mundo. Em geral, há um equilíbrio entre as mentes emocional e racional, com a emoção alimentando e informando as operações da mente racional, e a mente racional refinando e às vezes vetando o insumo das emoções. Mas são faculdades semi-independentes, cada uma, como veremos, refletindo o funcionamento de circuitos distintos, mas interligados, no cérebro. Em muitos ou na maioria dos momentos, essas mentes se coordenam estranhamente; os sentimentos são essenciais para o pensamento, e vice-versa. Mas, quando surgem as paixões, o equilíbrio balança: é a mente emocional que toma o comando, inundando a racional. O humanista do século dezesseis Erasmo de Rotterdam escreveu, numa veia satírica, sobre essa perene tensão entre razão e emoção: Júpiter legou muito mais paixão que razão pode-se calcular a proporção em 24 por um. Pôs duas tiranas furiosas em oposição ao solitário poder da Razão: a ira e a luxúria. Até onde a Razão prevalece contra as forças combinadas das duas, a vida do homem