Prévia do material em texto
A COMUNICAÇÃO ESCRITA NO ENSINO DE LÍNGUAS AULA 1 Prof.ª Michelle Cruvinel Buzani 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, vamos estudar a relação estabelecida entre texto e leitor, avaliando como ela se estabelece para que ocorra a comunicação de mensagens. Também faz parte dos nossos estudos, nesta primeira aula, a importância da leitura e a sua evolução ao longo do tempo. Temos ainda por objetivo entender melhor os elementos de um texto, ou seja, o que faz com que uma mensagem seja considerada um texto. Vamos, por fim, analisar a organização de textos em língua inglesa e os diferentes gêneros textuais e tipos textuais. Vamos começar! TEMA 1 – O TEXTO E O LEITOR Todo texto precisa de um leitor, e para que exista leitor, precisamos de um texto. Isso quer dizer que existe uma interação íntima entre leitor e texto, a partir do momento em que uma mensagem é transmitida por linguagem, sendo interpretada por um usuário dessa linguagem. Mas como acontece a relação entre texto e leitor? Segundo a teoria da comunicação, como define o modelo comunicativo de Roman Jakobson (Bonamin, 2017, p. 2), em uma situação de comunicação, os seguintes elementos devem estar presentes: Emissor – aquele que emite a mensagem, seja uma pessoa, grupo ou instituição. Receptor – aquele para quem é direcionada a mensagem. Código – conjunto de sinais elaborados seguindo certas regras em que cada elemento tem relação com os demais sinais. É a maneira como a mensagem é organizada, podendo ser língua oral ou escrita, gestos, sons etc., e o mais importante é que esse código seja entendido tanto pelo emissor como pelo receptor para que seja eficaz. Mensagem – é o conteúdo das informações, o objeto da comunicação. Canal – por onde a mensagem é transmitida. O canal de comunicação garante a conexão entre o emissor e o receptor, seja por meio físico ou virtual, e desde que a mensagem seja circulada entre as partes. Referente – é o conteúdo, as circunstâncias de espaço e tempo em que o emissor está situado ou o universo textual em que a mensagem está escrita. Por essa explicação, entendemos que todo leitor é um receptor e que todo texto é uma mensagem que faz uso de um código (a linguagem), que deve ser mutuamente compreendido pelo emissor e pelo leitor. Qualquer quebra 3 nessa cadeia de relações faz com que o texto não seja compreendido pelo leitor, de modo que a comunicação não acontece de forma eficaz. É importante definir que saber ler não garante que sejamos leitores. Quem sabe ler entende a junção das letras na formação de palavras, que por sua vez formam sentenças. O leitor, nas palavras de Bonamin (2017, p. 3), é mais do que um decodificador: “É aquele que questiona, pensa sobre o que leu, busca mais informações, muda de opinião, elabora ideias, ou seja, toma para si a responsabilidade de construir o conhecimento que adquire por meio da leitura.” A escrita e a leitura são tão importantes que você talvez se lembre de tentar ler todos os registros escritos ao seu redor (placas, fachadas de comércios, rótulos etc.) quando começou a ler e escrever. Somos instantaneamente seduzidos por esse universo de novas interpretações, que se abre quando iniciamos o processo de alfabetização. No entanto, não produzimos apenas textos de compreensão imediata, como os mencionados anteriormente. É necessário ainda saber interpretar textos em que o sujeito se projeta. Afinal, nas palavras de Fernandes e Paula (2012, p. 20), “escrever é tecer um texto, articulando frases, mas é também elaborar discursos formulando enunciados”. A importância da escrita vai além de simplesmente passar documentos adiante por gerações. Assim, é importante considerar a escrita para além do caráter formativo do texto, que não deixa de ser importante, mas é necessário entender a produção escrita como produção de enunciados subjetivos e com intencionalidades distintas, como estabelecem Fernandes e Paula (2012, p. 29): “Ao abordarmos o ato de escrever como um fazer marcado pela subjetividade, compreendemos essa produção dotada de ideologia e intencionalidade." No próximo tópico, vamos entender um pouco mais sobre a evolução da escrita na sociedade letrada. TEMA 2 – IMPORTÂNCIA DA ESCRITA E DA LEITURA NA EVOLUÇÃO HUMANA Certamente, uma das principais ferramentas usadas pelo ser humano é a linguagem. Por meio dela, são criadas outras ferramentas, com a transmissão de ideias e mensagens, contendo os mais variados conteúdos. Foi por meio da linguagem que o ser humano alcançou territórios que seriam inabitados pela espécie, caso a linguagem não estivesse presente. Imagine como seria difícil (se 4 não, impossível) que um grupo de seres humanos saísse de um território e chegasse a outro, utilizando-se de barcos ou outros meios de transporte, caso não existisse uma linguagem independente da decodificação de expressões faciais ou gestos. Seria muito pouco provável que o comandante de uma embarcação conseguisse se comunicar com os demais tripulantes, uma vez que ele precisa olhar adiante, de modo que não pode manter contato visual com os demais tripulantes o tempo todo. A não ser pelo uso de uma linguagem parecida com a que temos hoje, essa embarcação muito provavelmente não chegaria ao seu destino de forma bem-sucedida. Posteriormente ao surgimento da linguagem, o uso de alfabetos que organizam mensagens em palavras e frases fundamentou a documentação de importantes conteúdos, desde livros religiosos a tratados comerciais, como apontam Fernandes e Paula (2012, p. 18): “Além das questões comerciais, aspectos culturais e religiosos devem ser considerados, a exemplo do que ocorre com a fé islâmica, que teve na escrita seu maior fator de disseminação.” Como vimos até aqui, através da escrita, podemos perpetuar crenças, mitos e documentos históricos. Podemos ainda desenvolver registros subjetivos em que o escritor se imprime no texto. Nessa perspectiva, o ato de escrever não é apenas a junção de letras em palavras, palavras em frases e frases em parágrafos. Como já estudamos, escrevemos quando temos algo a dizer, intencionalidade que pode ir muito além de uma mera sinalização de algo em uma placa ou um registro em um documento comercial. Por meio da escrita expressamos opiniões, como fazemos, por exemplo, em mídias variadas após a leitura de um determinado conteúdo. Você, com certeza, já escreveu um comentário em um website, defendendo o seu ponto de vista após ler uma notícia. Essa interação por meio de registros de opiniões acontece por meio da escrita. Podemos manifestar o nosso ponto de vista oralmente – e, com certeza, o fazemos –, mas ele não estaria registrado para o acesso de outros leitores. Em suma, a linguagem e a escrita possibilitam não apenas que textos objetivos sejam transmitidos ao leitor, mas também que textos subjetivos tenham alcance, recebendo um registro, da mesma forma que os textos objetivos. 5 TEMA 3 – O QUE FAZ UM TEXTO SER UM TEXTO? Estudamos nos tópicos anteriores que há uma íntima relação entre texto e leitor, e que um texto pode ser tanto objetivo como subjetivo, valendo-se o escritor de suas intencionalidades para a escrita. Também discutimos que a interpretação de um texto vai muito além da compreensão do código utilizado pelo escritor. Mas o que, afinal, é um texto? Um texto pode ser oral ou precisa necessariamente ser escrito? Textos são sempre registros formais? Vamos considerar os estudos de Ingedor Koch, Ângela Kleiman e Halliday e Hassan, estudiosos da linguagem. Vejamos um resumo de como os autores definem “texto” (Bonamin, 2017, p. 51): Ingedor Koch - texto é a manifestação verbal que engloba a seleção de elementos linguísticos e a organização desses elementos durante a atividade verbal, criando assim a interação entre os parceiros, não apenas nos conteúdos, masem linha com as práticas socioculturais. Ângela Kleiman -: o texto é considerado uma unidade semântica, em que vários elementos se unem pelo vocabulário, sintaxe, significado e estrutura. Halliday e Hassan - texto denota linguagem funcional, seja ela oral ou escrita, com significados a serem expressos e repetidos de forma constante, com diferentes códigos (sons ou símbolos). É uma unidade semântica. A partir dessa elucidação, podemos ver que um texto não precisa ser apenas um registro escrito, pois pode ser antes uma conversa, uma canção ou qualquer outra forma de expressão oral. Segundo Bonamin (2017, p. 53), para que exista uma conexão entre emissor e receptor, é importante que o texto conte com os seguintes aspectos: Organização textual coesa e coerente - organização dos elementos linguísticos de forma tal que sejam entendidos corretamente, permitindo o ato da comunicação. Estrutura adequada - significa estruturar e organizar a mensagem apropriada aos diferentes gêneros textuais. Nível de linguagem (registro), resultado de contextos sociais específicos – possivelmente o tipo de linguagem informal utilizada em um bilhete será muito diferente da linguagem de um memorando ou ofício, que costuma ser mais formal. Nas duas formas, as partes do discurso adequam o vocabulário e o significado alinhados ao diferentes contexto e interlocutores. Desse modo, podemos dizer que o texto é uma manifestação verbal (oral ou escrita) que conta com: organização, para que haja entendimento; estrutura apropriada, para que seja reconhecido como parte de um gênero textual; e registro adequado ao contexto dos interlocutores. 6 Nós, professores, quando ensinamos a escrita, às vezes nos deparamos com textos produzidos por nossos alunos que carecem de um ou mais desses elementos constituintes. É de extrema importância evidenciar aos alunos que nesses casos o texto não cumprirá com a intencionalidade do emissor/escritor, por não ser compreendido efetivamente pelo receptor/leitor. A falta de compreensão pode ser parcial, gerando um entendimento incompleto do texto, ou má interpretação; ou ainda ser total, quando o leitor não consegue, de modo algum, chegar ao que o emissor tinha como objetivo. Vamos analisar como a falta desses elementos responsáveis por caracterizar um texto pode impactar a sua compreensão. Imagine o seguinte texto: “Fui ao mercado mais longe de casa. No entanto que perdi uma hora do meu dia para ir e voltar.” O uso de “no entanto” causa estranhamento na compreensão da mensagem, uma vez que é um elemento de coesão que estabelece contraste de informações. O emissor do texto tinha por objetivo estabelecer uma relação de consequência entre o fato de ter ido a um mercado distante e a perda de duas horas para cumprir a tarefa. Aqui, seria apropriado o uso de “tanto que”, elemento que estabeleceria a relação de consequência apropriada. Pense agora em uma pessoa que esteja argumentando contra uma medida política. Após evidenciar as razões do seu posicionamento, o emissor defende um argumento usado em defesa da ideia, em relação à qual se opõe, sem explicar que se trata de um contra-argumento aos seus pontos. Veja este exemplo: “Eu não concordo com a medida de aumento de impostos porque já temos muito a pagar e não vemos o retorno dos impostos pagos em forma de benefícios à população. É interessante criar mais impostos, eles aumentam divisas.” O interlocutor, muito provavelmente, ficaria confuso, pois o posicionamento do emissor parece incoerente, afinal a frase “É interessante criar mais impostos, eles aumentam divisas” vai de encontro com o que havia sido dito anteriormente. Para evitar o estranhamento, poderíamos nos expressar da seguinte forma: “Eu não concordo com a medida de aumento de impostos, porque já temos muito a pagar e não vemos o retorno dos impostos pagos em forma de benefícios à população. Por mais que alguns digam que é interessante criar mais impostos, pois eles aumentam divisas.” A partir do uso de “por mais que alguns digam que”, fica claro para o interlocutor que a frase seguinte não é a opinião de quem fala, mas um contra-argumento. 7 Podemos também pensar na seguinte situação: o funcionário de uma empresa precisa escrever um breve e-mail para a sua equipe, agendando uma reunião. A equipe seria tomada de estranhamento se, ao invés de um texto enxuto, todos recebessem um texto argumentativo de duas páginas. Nesse caso, a falha estaria na estrutura do texto. Ainda pensando em estrutura, pode acontecer o contrário: um candidato ao vestibular de uma universidade precisa escrever um texto argumentativo. O corretor da prova certamente estranharia ao ler um texto que se assemelhasse a uma mensagem instantânea de aplicativos para celulares. Um outro exemplo: em uma roda de amigos, um dos emissores faz uso de expressões e vocabulário extremamente formais. É bem provável que os colegas ali presentes estranhassem o comportamento do emissor. Ele poderia até virar até motivo de piada por parte dos demais, que se perguntariam: “Mas por que ele está falando tão formalmente entre amigos?” Aqui temos, claramente, um problema de registro. Em conclusão, após examinar os elementos que constituem um texto, com possíveis quebras na relação escritor/leitor, oriundas da ausência dos mesmos elementos, fica claro que um texto não é um amontoado de palavras escritas ou ditas aleatoriamente. Ao escrever, devemos ter intencionalidade, considerando um receptor claro, para que as nossas escolhas ajudem o texto a ser interpretado com efetividade. TEMA 4 – OS DESAFIOS DO TEXTO ESCRITO Talvez você já tenha passado pela experiência de estar à frente de uma folha em branco que precisa ser preenchida, não apenas por palavras, mas por um texto. Essa experiência também é parte da vivência dos nossos alunos, que muitas vezes se queixam quando precisam escrever um texto que foge às estruturas às quais estão habituados. Nossa intenção aqui não é rotular que a tecnologia tem impactos negativos à escrita, mas hoje, com certeza, estamos muito mais habituados a produzir textos suscintos, que exprimem quase que de imediato o que esperamos de nosso interlocutor. Não seria um problema, se nas situações por que passamos apenas essa estrutura de texto fosse suficiente, mas vivemos inúmeras situações em que precisamos escrever textos mais complexos, como e-mails, textos argumentativos, artigos etc. Como professores, precisamos estar cientes de que, 8 muito provavelmente, nossos alunos estarão muito mais familiarizados com textos menos complexos, e que assim parte do nosso trabalho como professores é prepará-los para escrever textos com maior grau de complexidade. Ao preparar os alunos para o ato de escrever, reduzimos o abismo que alguns enxergam quando comparam fala e escrita. Não é incomum que os alunos que se queixem por não conseguirem produzir de forma escrita com a mesma facilidade e eficácia que produzem na forma oral. Ressaltamos o conceito de “preparar” os nossos alunos a escrever, afinal um texto escrito não é simplesmente uma transcrição de um texto oral. “Essas características peculiares aos textos escritos, contudo, não são aprendidas naturalmente [...]. Fazem-se necessárias aulas dedicadas à produção de textos” (Fernandes; Paula, 2012, p. 130-131). No trabalho do professor de língua estrangeira, pode surgir o seguinte questionamento: “Por que ensinar meu aluno a escrever em língua estrangeira quando o contexto da Educação Básica pressupõe habilidades e saberes relacionados muito mais ao inglês instrumental?” Se consideramos um contexto mais amplo, o aluno às vezes deverá escrever em língua estrangeira. Assim, é pouco profissional ignorar a sua ansiedade quando esse momento chega. Fernandes e Paula (2012, p. 133) listam outros bons motivos para preparar os nossos alunos a escrever emlíngua estrangeira, entre os quais destacamos: “para poder responder a questões das provas escritas, muito comuns em cursos de língua estrangeira; [...] para estarem aptos a estudar em países onde a língua- alvo seja a primeira língua; e para poderem trabalhar em empresas estrangeiras”. Essas são apenas algumas das inúmeras razões que podemos elencar como justificativas para preparar os alunos na escrita em língua estrangeira. Em um mundo cada vez mais globalizado (por mais que esse termo já soe ultrapassado), o jovem estudante estará cercado de oportunidades que demandam a capacidade de escrever em língua estrangeira. É importante que o professor saiba diferenciar texto oral e texto escrito, estando apto a salientar essas diferenças para os seus alunos. De acordo com Fernandes e Paula (2012, p. 134), observamos as seguintes diferenças entre texto oral e texto escrito: • Texto oral: é efêmero; apresenta características prosódicas e paralinguísticas; pouquíssimo tempo entre a elaboração da mensagem e 9 a produção; apresenta repetições; apresenta frases mais curtas e de estrutura simplificada; faz uso de vocabulário mais coloquial; não exige o uso da forma culta; pode ser recapitulado e moldado caso o interlocutor não compreenda a mensagem; a ênfase é a construção de relacionamentos. • Texto escrito: é permanente; não existem características prosódicas nem paralinguísticas; há mais tempo entre a elaboração e a produção da mensagem; menor frequência de repetição em relação aos textos orais; uso de frases mais longas e complexas; uso de vocabulário mais formal; exige a utilização de forma culta; precisa ser claro, para minimizar possíveis dificuldades de interpretação do leitor; ênfase nas práticas de registrar de informações, completar tarefas e desenvolver ideias e argumentos. Tais diferenças não se aplicam apenas a textos de língua estrangeira, mas são as mesmas quando analisamos textos de língua materna: “O conhecimento dessas características pode ser muito útil para um professor de produção de textos, seja em língua materna, seja em língua estrangeira” (Fernandes; Paula, 2012, p. 134, grifos do original) TEMA 5 – GÊNEROS TEXTUAIS E TIPOS DE TEXTOS Como anteriormente, textos podem ser orais ou escritos. Agora vamos entender o conceito de gênero textual, que se aplica tanto à modalidade oral quanto à escrita. Bakhtin (1997, p. 290, citado por Bonamin, 2017, p. 88) descreve: A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera de atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas [...] cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso. Textos de um mesmo gênero devem compartilhar de um mesmo objetivo comunicativo, de uma comunidade discursiva, de uma estruturação e de um registro (escolha de vocabulário e estruturas gramaticais e estilísticas). Em resumo, para que um texto faça parte de um determinado gênero, ele precisa ser reconhecido pela comunidade discursiva que o irá interpretar. Vamos tomar como exemplo uma receita culinária, que é um gênero textual. O objetivo 10 comunicativo de uma receita é instruir sobre o preparo de um prato. A comunidade discursiva que irá fazer uso desse gênero textual compreende cozinheiros, chefes de cozinha e qualquer outra pessoa que queira preparar pratos. Para cumprir esse objetivo comunicativo, e para que a comunidade discursiva reconheça o texto como uma receita, são feitas escolhas, como: explicitar ingredientes e modo de preparo (estruturação); usar imperativos, como “adicione”, “bata” etc.; usar unidades de peso ou medida, como “quilos”, “colheres” etc. (registro). Respeitadas essas características, comuns a todas as receitas, o texto é de fácil compreensão para o leitor. Até aqui, definimos o que são gêneros textuais. Porém, um gênero textual pode ser composto de vários tipos de texto. Entramos agora na definição de tipologia textual. Segundo Bonamin (2017, p. 91), o termo é empregado para, nas palavras de Marcuschi (2002) “designar uma espécie de sequência teoricamente definida pela natureza linguística de sua composição – aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relação, lógica”. Vejamos os tipos de texto mais comuns: • Descrição: este tipo textual descreve pessoas, lugares, objetos ou situação, com clareza e riqueza de detalhes. Para isso, faz amplo uso de adjetivos. • Narração: conta fatos reais ou fictícios, com personagens em um certo tempo e lugar. • Dissertação/argumentação: apresentação de opiniões e posicionamentos pessoais, por meio da argumentação. Tais textos tem por objetivo fazer refletir, explicar, avaliar e conceituar. • Exposição: textos que expõe dados, informações, teorias ou conceitos. Diferem de textos argumentativos por não trazerem a opinião ou o posicionamento do autor. • Injunção: são textos que buscam provocar uma ação por parte do interlocutor. Como trabalham com instruções e conselhos, é comum, nesse tipo de texto, que seja usado o modo imperativo. • Conversacional: para alguns autores, este tipo de texto tem uma função dialógica simples. Perguntas retóricas fazem parte desse tipo textual. É importante salientar que a definição de gêneros textuais leva em conta características externas à linguagem. Devemos evidenciar para os nossos 11 alunos que os gêneros textuais podem ser compreendidos em domínios discursivos, responsáveis por produzir o contexto da comunicação. Tais domínios discursivos nos dizem como devemos estruturar a nossa mensagem, para que ela seja claramente entendida pelo interlocutor. Nas palavras de Drey (2015, p. 2): “em situações semelhantes, escrevemos textos com características semelhantes, que podemos chamar de gêneros de textos, conhecidos de e reconhecidos por todos, e que, por isso mesmo, facilitam a comunicação: a conversa em família, a negociação no mercado ou o discurso amoroso.” Podemos entender como “domínio discursivo” um conjunto de práticas comunicativas em determinado contexto. Vamos tomar como exemplo o contexto de “conversa em família” citado no excerto de Drey. Muito provavelmente, nesse contexto seríamos mais informais, demonstrando afeto. Teríamos, ainda, abertura para expressar reações negativas com relação ao que um familiar propõe na conversa. Esses elementos formam o domínio discursivo da situação “conversa em família”, que se caracteriza por certas escolhas de vocabulário e estrutura. Imagine que, à mesa de um almoço em família, uma pessoa faça uso de pronomes de tratamento como vossa excelência, vossa senhoria. Seria no mínimo curioso, uma vez que tais pronomes não se aplicam ao domínio discursivo em questão. É importante também perceber que os gêneros textuais são compostos por vários tipos textuais. Isso fica claro quando analisamos, por exemplo, um texto do gênero e-mail. Vejamos1: Dear all, As we agreed in our last meeting, the changes in the workplace will be: all desks aligned; one chair to the staff member and two chairs to clients; computer screens in a position where you can show it to your client if need be. Please, follow these rules as of Monday next week and make sure your workspace is as organised as possible. Best regards, Mark Sullivan Head of HR Neste texto, temos o tipo textual descritivo, pois o autor descreve como deve ser a nova organização do espaço de trabalho. Ele também o injuntivo, pois 1 Queridos colegas, como concordamos em nossa última reunião, as mudanças no local de trabalho serão: todas as mesas alinhadas; uma cadeira para o membro da equipe e duas cadeiras para clientes; monitores de computadores em posição em que seja possível mostrá-lo ao seu clientese necessário. Por favor, sigam estas regras a partir de segunda-feira da próxima semana e certifiquem-se que seu local de trabalho esteja o mais organizado possível. Atenciosamente, Mark Sullivan, Chefe de RH. 12 solicita-se que a equipe siga as regras a partir de determinada data, para assegurar a organização do espaço. Vamos analisar o gênero e-mail em mais detalhes em aulas futuras. Porém, até aqui, você já sabe que esse gênero, como todos os outros, pode ser composto por mais de um tipo textual. NA PRÁTICA É muito comum, ao iniciar uma aula sobre escrita e leitura, nos depararmos com alunos pouco interessados, por entenderem que os textos são apenas registros escritos e muito extensos. É importante mostrar para os nossos alunos que os textos também são expressões orais. Além disso, um texto eficiente deve ser compreendido pelo receptor da mensagem, seja o interlocutor de uma conversa ou o leitor de um registro escrito. Muitas vezes, as produções textuais de alguns alunos não correspondem ao gênero textual desejado, o que causa quebra na cadeia comunicativa. Precisamos estar preparados para mostrar a esse aluno o que causou o problema, considerando os motivos pelos quais o texto foi mal compreendido. Vamos tomar como exemplo um aluno que, em uma atividade de sala de aula, deveria escrever um e-mail solicitando uma informação. Ao acessar a atividade do aluno para correção, o professor nota que o campo de corpo do e- mail está vazio. Ao analisar o campo “assunto”, o professor vê o texto que deveria ter sido escrito no corpo do e-mail. Para o aluno, um jovem muito habituado a mensagens instantâneas e de estrutura simples, pode não haver problema, afinal a mensagem está ali, apenas em outro campo. Cabe ao professor mostrar que, em uma situação real, esse e-mail sequer seria lido. Além disso, ao corrigir uma redação (que se caracteriza pela presença do tipo textual argumentativo), às vezes notamos apenas características de um outro tipo textual, como o descritivo. Nesse caso, o aluno passa o texto todo descrevendo uma situação, ao invés de expressar um posicionamento por meio de argumentos. É nosso dever como professores evidenciar para o aluno que aquele texto não está dentro do esperado, apontando caminhos de reescrita. Para praticar, analise os e-mails mais recentes que você tem em sua caixa de mensagens. Identifique os tipos textuais presentes. Converse com seus colegas e veja se eles têm as mesmas percepções que você. Justifique as suas percepções. Por 13 exemplo, se vocês concordarem que em um determinado e-mail existe a presença do tipo textual injuntivo, ressalte o trecho do e-mail que apresenta esse tipo, e quais foram os motivos que levaram o autor a fazer aquela escolha. FINALIZANDO Nesta aula, estudamos a importância de estabelecer efetivamente a relação entre texto e leitor. Falamos sobre os elementos necessários para que exista comunicação: emissor, receptor, código, canal, mensagem e referente. Caso falte qualquer um desses elementos, não há comunicação de ideias através da linguagem. Vimos ainda que, para ser um leitor, não basta saiba unir letras para formar palavras, e palavras para formar frases. A leitura demanda um posicionamento ativo. Ao ler, o leitor questiona, forma opiniões, tira conclusões. Nesta aula também estudamos a importância da leitura e da escrita em nossa evolução. Falamos um pouco sobre o modo como a linguagem foi importante para alcançar territórios e evoluir como espécie inteligente. Estudamos como o surgimento de alfabetos possibilitou o registro, na forma escrita, do que antes era apenas transmitido de forma oral. Graças a esse avanço da linguagem, registros orais foram transformados em registros permanentes, eternizando o que antes era apenas oralizado. Sem os alfabetos, não teríamos acesso a documentos comerciais, religiosos e históricos, tão importantes para entendermos a nossa evolução. Estudamos ainda elementos necessários para que um texto se constitua como um texto, e não apenas um amontoado de palavras. Nessa perspectiva, para que um texto seja funcional, precisamos de elementos de coesão e coerência, estrutura e nível apropriado de linguagem ou registro. Sem isso, palavras e frases em sequência podem não exprimir a mensagem desejada. Perdemos, então, a intencionalidade inicial para a produção textual. A seguir, tematizamos os desafios do texto escrito, analisando a importância, como professores, de preparar nossos alunos para a atividade da escrita em língua estrangeira. Neste tópico, apontamos alguns bons motivos para trabalhar a escrita em língua estrangeira, elucidando algumas dificuldades pelas quais o aluno pode passar quando tem de produzir um texto escrito. Pelo fato de não serem apenas uma transcrição do texto oral, textos escritos podem ser trabalhosos, tanto em língua materna quanto em língua estrangeira. Assim, é importante praticar a escrita em língua estrangeira em sala de aula. 14 Por último, analisamos o que são gêneros textuais e tipos textuais, sublinhando a importância de saber as suas características, para a produção de textos efetivos, e que se prestem a finalidades específicas. Esperamos que os conceitos trabalhos (texto, leitor, gêneros textuais e tipos textuais) tenham ficado claros. Sobretudo, nosso desejo é colocar em evidência a importância de ensinar escrita em língua estrangeira, para que o aluno domine ferramentas que o ajudem a desenvolver as competências e habilidades necessárias em um mundo globalizado. Nos vemos na próxima aula! 15 REFERÊNCIAS BONAMIN, M. M. C. Oficina de textos em inglês. São Paulo: Pearson, 2017. DREY, R. F. Inglês: prática de leitura e escrita. Porto Alegre: Penso, 2015. FERNANDES, A. C.; PAULA, A. B. Compreensão e produção de textos em língua materna e língua estrangeira. Curitiba: InterSaberes, 2012.