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Formas de governo As formas de governo dizem respeito ao modo como os governos são organizados, variando de acordo com a forma como os elementos estatais são organizados. As formas de governo estabelecem o modo como a política organiza-se. As formas de governo dizem respeito ao modo como um determinado governo organiza os poderes e aplica o poder sobre os governados. Nesse sentido, temos uma concepção de que a organização que um determinado governo faz dos elementos estatais é a forma de governar. Os escritos mais antigos sobre o assunto remontam a Aristóteles, que elaborou, em sua obra intitulada Política, uma classificação das formas básicas de governo de acordo com as experiências políticas vividas na Grécia Antiga. Para Aristóteles, havia seis formas de governo diferentes, sendo três legítimas (monarquia, aristocracia e democracia) e três ilegítimas, que eram degenerações das formas legítimas (tirania, oligarquia e demagogia). Na modernidade, temos duas concepções de formas de governo que ganham destaque: a de Maquiavel e a de Montesquieu. Para Maquiavel, só existiam duas formas de governo, a saber, república e principado; já Montesquieu percebeu três formas de governo, sendo elas república, monarquia e despotismo. O que são as formas de governo? Segundo Paulo Bonavides, em seu clássico livro Ciência Política, as concepções de forma de governo variam. Podemos fazer distinções de três momentos em que os teóricos definiram tal forma: na Antiguidade, com Aristóteles; na Modernidade, com Maquiavel e Montesquieu; e na contemporaneidade, com autores que se dedicaram e se dedicam a entender as formas mais recentes de governo, com especificidades não notadas pelas vivências políticas anteriores. Bonavides nota, no entanto, que as classificações mais completas partem da análise aristotélica e moderna, pois elas focam naquilo que é essencial para se entender as formas de governo: "o número de pessoas que exercem o poder soberano"[1]. Nesse sentido, temos como principais formas de governo aquelas que dizem respeito à divisão do poder entre os atores políticos, ou seja, o que está em jogo é quanto um poder é dissolvido. A divisão de poder e a quantidade de pessoas que exercem a soberania estão diretamente relacionadas ao modo como um governo organiza o Estado e os elementos estatais, de modo a criar diferentes relações entre governante, governados e a "máquina estatal”. É importante salientar que Estado é diferente de governo. Enquanto o primeiro tende a ser algo fixo e pouco alterável, pois diz respeito à ideia de nação que ocupa um determinado território, o governo é algo mais passageiro e tende a durar bem menos do que o Estado. Formas de governo para a Filosofia e para a Sociologia Listamos a seguir as formas clássicas dividias por Aristóteles, Maquiavel e Montesquieu: Classificação aristotélica: Monarquia: forma de governo em que o poder se concentra nas mãos de uma pessoa, o monarca, e a soberania encontra-se concentrada naquela figura. Para Aristóteles, o monarca deveria ser uma pessoa apta ao cargo, com inteligência, estratégia e senso de justiça. Caso o monarca não tenha esses atributos, há uma tendência à degeneração do governo. https://brasilescola.uol.com.br/politica/tres-poderes.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-monarquia.htm https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/democracia.htm https://brasilescola.uol.com.br/politica/oligarquia.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/maquiavel-seu-pensamento-politico.htm https://brasilescola.uol.com.br/politica/tres-poderes.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-republica.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/maquiavel-seu-pensamento-politico.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-monarquia.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm Aristocracia: forma de governo legítima em que há um corpo de pessoas aptas a governar e, por isso, estabelecem-se enquanto casta política. Se esse grupo não governar com justiça e competência ou legislar em causa própria, a aristocracia degenera-se e torna-se uma oligarquia. Democracia: outra forma legítima, a democracia é o poder político dissolvido entre a massa de cidadãos. Todos aqueles que, por alguma razão intrínseca ao sistema político, possuem a "cidadania" (ou seja, podem participar da cidade) também exercem o poder soberano. Tirania: é uma degeneração da monarquia que ocorre quando o monarca passa a agir com injustiça e incompetência, exercendo o poder de forma extremamente arbitrária. Oligarquia: quando a aristocracia passa a legislar em causa própria e não se preocupa com as ações justas ou com o bem comum, há uma degeneração que resulta na oligarquia. Demagogia: quando a massa de cidadãos preocupa-se apenas com aqueles que estão no poder ou quando se preocupa apenas com a massa, deixando as elites de lado, o sistema democrático torna- se uma demagogia. Classificação de Maquiavel: República: pode abranger a democracia e a aristocracia. É uma forma de governo em que o poder é plural. Principado: o poder aqui é singular, ou seja, é uma forma de monarquia em que o príncipe concentra o poder em suas mãos. Classificação de Montesquieu: República: pode ser uma democracia ou uma aristocracia, e o fundamental é o fato de a "soberania residir nas mãos do povo"[2]. As ideias de pátria e igualdade entre os concidadãos são princípios basilares para o pensamento republicano, ressalta Bonavides a respeito da obra O Espírito das Leis, de Montesquieu. Monarquia: é o governo de apenas uma pessoa por meio de um corpo de leis fixas. O monarca legítimo não pode alterar as leis arbitrariamente e nem infringi-las. Despotismo: diz respeito ao monarca que desrespeita as leis, que abusa de sua autoridade e que age à revelia daquilo que é estabelecido na Constituição. Formas de governo para a Ciência Política e para a Sociologia Ciência Política e Sociologia são áreas similares, dispostas dentro do espectro do que chamamos de Ciências Sociais. A Ciência Política tem por finalidade entender as organizações, atribuições e divisões de elementos políticos, como governo, Estado, leis, sistema jurídico, ação política etc. A Sociologia, por sua vez, tem por objetivo entender a sociedade de maneira mais complexa e cientificamente metódica, criando um campo do saber que formula leis para a organização social por meio de outros elementos fornecidos por outras ciências, como a Ciência Política, as Ciências Jurídicas, a Economia e a Antropologia. Apesar de possuir um método aplicável em Ciências Sociais, a Sociologia pode valer-se de elementos advindos da Filosofia, que, ao contrário das ciências, busca estabelecer operações racionais e formulações teóricas para explicar o mundo e o seu funcionamento. Dito isso, podemos dizer que os elementos que a Sociologia e até mesmo a Ciência Política angariam para estabelecer seus conhecimentos, muitas vezes, advêm da Filosofia, do Direito e da Economia. Esse é o caso para se falar sobre formas de governo para a Ciência Política. Essa denominação contemporânea tira as suas primeiras conclusões e leis do Direito e da Filosofia Antiga. Diferença entre forma de governo e regime de governo Essa distinção é simples, porém pode causar muita confusão. Enquanto as formas de governo dizem respeito ao número de governantes e a quantidade de pessoas que exercem o poder, o regime de governo é um atributo de cada governo em particular, que adjetiva o modo como aquele governo/governante comporta-se. https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/democracia.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/geografia/o-que-e-cidadania.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-republica.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/despotismo-esclarecido.htmhttps://brasilescola.uol.com.br/sociologia https://brasilescola.uol.com.br/filosofia Como regimes de governo, temos como exemplo os regimes democráticos, autoritários e totalitários. Os regimes democráticos são aqueles em que as ações políticas são tomadas em conjunto por um corpo de cidadãos que compreende a maioria. Um regime autoritário é aquele em que o corpo de cidadãos é excluído das decisões políticas e o poder é exercido autoritariamente por um grupo de pessoas ou por uma pessoa, passando por cima das leis e controlando a vida e a atividade política. Já os regimes totalitários, como os ocorreram na Europa no século XX (nazismo, stalinismo e fascismo), são regimes em que todos os aspectos da vida pública e da vida privada são controlados por um governo extremamente autoritário por meio de um processo de hiperinflação do Estado. Formas de governo no Brasil Desde 1822, o Estado Brasileiro formou-se como uma nação independente de Portugal. A partir de então, algumas formas de governo assumiram o poder, deixando diferenças elementares entre vários períodos. A partir da independência, Dom Pedro I tornou-se imperador do Brasil e, em 1824, foi consolidada a primeira Constituição brasileira. Nesse período, o Brasil era uma monarquia e, a partir de 1824, passou a contar com uma Constituição e com um Parlamento, tornando-se uma monarquia parlamentar. A existência ou não de um Parlamento diz respeito ao sistema político, e não a uma forma de governo. Em 1889, um golpe republicano foi organizado por militares, destituindo do poder o imperador Dom Pedro II, o que tornou o Brasil uma república presidencialista. Desde então, nunca deixamos de ser uma república presidencialista com a atuação efetiva dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Porém, em alguns momentos, os governos republicanos foram autoritários. Regimes de governo Os regimes de governo são, basicamente, os modos que definem os governos quanto à sua aplicação e dissolução do poder, podendo ser democráticos, autoritários ou totalitários. Um regime de governo é, em termos gerais, o modo como um governo comporta-se no poder, podendo ser democrático, autoritário ou totalitário. Neste texto, veremos como se define, de maneira mais profunda, um regime de governo e quais os conceitos e significados que estão por trás de cada tipo ou regime de governo. Governo x Estado Para entender os tipos de regime de governo existentes, é necessário entender a noção de governo e a distinção entre governo e Estado. Estado é uma instituição criada para definir a soberania e o conjunto de regras de um território definido, enquanto o governo é o gestor de um Estado. Tendemos a pensar, para facilitar o entendimento, que o Estado é fixo (ou é, ao menos, mais duradouro), enquanto o governo é efêmero. Nesse sentido, temos Estados regidos por governos mais flexíveis, que encontram no povo a soberania; governos menos flexíveis, que retiram a soberania do povo por meio da suspensão e da revogação de direitos; e governos que pretendem controlar a vida total da população, tanto nos âmbitos político e jurídico como no âmbito pessoal. No primeiro caso, podemos afirmar que se trata de um regime de governo democrático; no segundo, um regime autoritário e, no terceiro, um regime totalitário. Benito Mussolini (à esquerda) e Adolf Hitler (à direita) foram líderes de regimes totalitários na Europa, a saber: o fascismo e o nazismo, respectivamente. https://brasilescola.uol.com.br/historiag/regime-totalitario.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/nazismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-fascismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiab/dom-pedro.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiab/primeira-republica.htm https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/democracia.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/regime-totalitario.htm O que são regimes de governo? Quando falamos de regime de governo, tendemos a fazer uma confusão com outros conceitos que habitam o espectro da ciência política. Em geral, confunde-se regime de governo com forma de governo e com sistema político. As formas de governo podem ser as clássicas, descritas por Aristóteles como monarquia, aristocracia e democracia (essas são as legítimas), além das ilegítimas, como tirania, oligarquia e demagogia. Além dessas classificações antigas, figuram ainda as classificações modernas e contemporâneas, como a república (incluída por Maquiavel junto ao principado). Quando falamos de sistemas políticos, estamos falando de sistemas pelos quais o poder político é organizado e o poder é exercido, como o parlamentarismo e o presidencialismo. Ao se falar de regime de governo, estamos dizendo apenas do modo como o poder está distribuído entre os elementos de um mesmo Estado, podendo ser de forma autoritária, democrática e totalitária. É por meio do regime de governo que identificamos como se relaciona a soberania de um governo com os outros elementos dele: governante e governados. Ao longo da história, vimos repetidas vezes os mesmos regimes de governo aplicados de maneiras distintas. A nossa confusão entre regimes de governo e formas de governo nos faz pensar, por exemplo, que uma república sempre é democrática, enquanto uma monarquia sempre é autoritária. O erro encontra-se na confusão conceitual, pois uma monarquia é uma forma de governo que pode se apresentar como um regime democrático, pautado por uma Constituição e com um Parlamento eleito, que cria as leis, como as monarquias parlamentaristas que começaram a surgir no século XIX. A Inglaterra é um exemplo desse tipo de monarquia. Pensar em uma monarquia parlamentar não é contraditório, visto que uma monarquia é uma forma de governo, enquanto o parlamentarismo é um sistema político. Do mesmo modo, existem repúblicas que, na teoria, são democráticas, mas que os governantes se utilizam de subterfúgios para manter-se no poder, criando regimes autoritários. Um exemplo é o da Coreia do Norte, onde existem eleições periódicas, que não respeitam os parâmetros estabelecidos por organismos internacionais para regulamentar tais eleições. A Praça dos Três Poderes, em Brasília, é símbolo da República Brasileira por reunir a tríade dos poderes em nosso país: Executivo, Legislativo e Judiciário. Outros exemplos são os de ditaduras, como a Ditadura Militar brasileira, que ocorreu entre 1964 e 1985. O governo militar era autoritário, tendo fechado o Congresso Nacional, cassado mandatos de parlamentares opositores, proibido partidos políticos e suspendido os direitos constitucionais, criando um Estado de exceção. Apesar do governo militar, o Estado Nacional Brasileiro nunca deixou de ser uma república. Diferença entre forma de governo e regime de governo As formas de governo são amplamente discutidas no âmbito da ciência política e têm a sua primeira classificação no tratado Política, de Aristóteles, na Grécia Antiga. Aristóteles identificou seis tipos de forma de governo, sendo três legítimas e três ilegítimas. As legítimas: Monarquia; Aristocracia; Democracia. As ilegítimas: Tirania; Oligarquia; Demagogia. https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/formas-de-governo.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm https://brasilescola.uol.com.br/politica/presidencialismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-republica.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiab/ditadura-militar.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm Além das formas descritas por Aristóteles, temos tratados filosóficos modernos, como O Príncipe, de Maquiavel, que postula a existência de apenas duas formas: a república e o principado. De todo modo, as formas de governo são norteadoras da ação política. Podemos dizer que as formas de governo são embasadas em sistemas filosóficos que dizem como um governo deve comportar-se e organizar-se para enquadrar-se naquelaforma. Os regimes de governo, por sua vez, são mais simples e dizem respeito apenas ao modo como um governo ou um governante atua, exercendo o seu poder sobre os governados. Nesse sentido, temos governos que exercem o poder de forma mais concisa, desconsiderando a participação popular, e governos abertos à participação popular, podendo ser divididos entre regimes democráticos, autoritários e totalitários (esse último é a maior expressão do autoritarismo possível). Tipos de regime de governo Podemos eleger três tipos centrais de regime de governo. Esses três tipos condensam as formas de governar em categorias, dizendo respeito ao modo como se relacionam governantes, poder e governados. São eles: Regimes de governo democráticos: aqui, há o reconhecimento de que a soberania é popular, ou seja, de que o povo detém o poder e deve exercê-lo. Nesse espectro, temos as democracias, tanto representativas quanto participativas, nas quais o povo vota, elege representantes, pode participar da criação das leis e da organização política em geral. Para que um regime político seja democrático, é necessário estabelecer uma Constituição para garantir direitos e delegar deveres, além de haver mecanismos que garantam a participação de todos os cidadãos no sistema político, o acesso à informação, a transparência e a lisura nos sistemas políticos. Regimes de governo autoritários: quando uma pessoa ou um grupo político controla, de maneira arbitrária, o sistema político e o Estado, mantendo privilégios e privando uma camada da população de acessar a soberania, temos um regime de governo autoritário. Costumamos chamar esse tipo de regime de ditadura, na qual as regras e as leis políticas são ditadas por uma classe que domina a política, cerceando a ideia de cidadania e restringindo os direitos políticos. Nesse caso, há a tomada do Estado por parte do governo, que não reconhece, na maioria das pessoas, a cidadania. Regimes de governo totalitários: aqui há uma elevação do autoritarismo ao máximo. Os regimes totalitários apropriam-se de maneira total do Estado, inflando-o ao máximo, criando novas regras estatais e impondo essas regras a todos os aspectos da vida das pessoas (tanto a vida pública e política quanto a vida pessoal). O Estado totalitário controla tudo, os limites do poder político das pessoas, o que elas podem falar, fazer, consumir, o trabalho, o que elas fazem nos momentos de lazer, etc. Os únicos exemplos completos e concretos de totalitarismo que pudemos observar no mundo contemporâneo ocorreram na Alemanha nazista, na União Soviética stalinista, na Itália fascista e em Portugal e na Espanha (estes tiveram regimes totalitários inspirados no fascismo italiano). Democracia Palavra de difícil definição, a democracia abriu espaço para a participação política popular em diferentes sociedades e épocas, além de possuir tipos diversos. A democracia é a possibilidade de exercício político por parte do povo. Crédito da Imagem: shutterstock https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/aristoteles.htm https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/maquiavel-seu-pensamento-politico.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-republica.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/totalitarismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-ditadura-militar.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/nazismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/governo-stalin.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-fascismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-fascismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/salazarismo.htm https://brasilescola.uol.com.br/historiag/franquismo.htm Democracia é a prática política de dissolução, de alguma maneira, do poder e das decisões políticas em meio aos cidadãos. O termo democracia tem origem grega, podendo ser etimologicamente dividido da seguinte maneira: demos (povo), kratos (poder). Origem da democracia A democracia ocidental teve origem em Atenas, na Grécia Clássica. Os gregos antigos criaram a ideia de cidadania, que se estendia àquele que é considerado cidadão e poderia, portanto, exercer o seu poder de participar da política da cidade. A democracia grega era restrita, e essa ideia começou a mudar a partir da Revolução Francesa e do iluminismo moderno, que, por meio do republicanismo, passaram a advogar por uma participação política de todas as classes sociais. Ainda na Modernidade, apesar de avanços políticos e de uma ampliação do conceito de democracia, as mulheres não tinham acesso a qualquer tipo de participação democrática ativa nos países republicanos, fato que somente começou a ser revisto com a explosão do movimento feminista das sufragistas, que culminou na liberação, pela primeira vez na história, do voto feminino, na Nova Zelândia, em 1893. Apesar de conhecermos de perto a democracia, o conceito que designa a palavra é amplo e pode ser dividido e representado de diferentes maneiras. Não existindo apenas um tipo de regime político democrático, a democracia divide-se, basicamente, em: direta, participativa e representativa. Tipos de democracia As democracias podem ser classificadas com base no modo como se organizam, e também podem apresentar diferentes estágios de desenvolvimento. Por isso, o termo é amplo e de difícil definição, pois o simples ato de dizer que “a democracia é o poder do povo” ou de associar democracia à prática de eleições não define o conceito em sua totalidade. Podemos estabelecer três tipos básicos de democracia: Democracia direta É a forma clássica de democracia exercida pelos atenienses. Não havia eleições de representantes. Havia um corpo de cidadãos que legislava. Os cidadãos reuniam-se na ágora, um local público que abrigava as chamadas assembleias legislativas, nas quais eram criadas, debatidas e alteradas as leis atenienses. Cada cidadão podia participar diretamente emitindo as suas propostas legislativas e votando nas propostas de leis dos outros cidadãos. Os cidadãos atenienses tinham muito apreço por sua política e reconheciam-se como privilegiados por poderem participar daquele corpo tão importante para a cidade, por isso eles levavam a sério a política. Os cidadãos preparavam-se, mediante o estudo da Retórica, do Direito e da Política, para as assembleias. Eram considerados cidadãos apenas homens, em sua maioridade, nativos de Atenas ou filhos de atenienses e livres. As decisões, então, eram tomadas por todos, o que era viável devido ao número reduzido de cidadãos. Democracia representativa É mais comum entre os países republicanos do mundo contemporâneo. Pela existência de vastos territórios e de inúmeros cidadãos, é impossível pensar em uma democracia direta, como havia na Grécia. Vários fatores contribuíram para a formação desse tipo de democracia, dos quais podemos destacar: I. Sufrágio universal. II. Existência de uma Constituição que regulamenta a política, a vida pública e os direitos e deveres de todos. III. Igualdade de todos perante a lei, o que está estabelecido pela Constituição. IV. Necessidade de eleger-se representantes, pois não são todos que podem participar. V. Necessidade de alternância do poder para a manutenção da democracia. As democracias representativas são regidas por Constituições que estabelecem um Estado Democrático de Direito. Nessas organizações políticas, todo cidadão é considerado igual perante a lei, e todo ser humano é considerado cidadão. Não pode haver desrespeito à Constituição, a Carta maior de direitos e deveres do país, e os cidadãos elegem representantes que legislarão e governarão em seu nome, sendo representantes do poder popular nos poderes Executivo e Legislativo. A vantagem desse tipo de organização política é a exequibilidade, e sua desvantagem é a brecha para a corrupção e para a atuação política em benefício do bem privado e não do bem público. Por ser um sistema em quea participação política não é exercida diretamente, mas por meio de representações, ele é chamado de democracia indireta. A eleição de representantes políticos é a característica principal da democracia representativa. Democracia participativa Nem uma democracia direta, como era feita na Antiguidade, nem totalmente indireta, como acontece com a democracia representativa, a democracia participativa mescla elementos de uma e de outra. Existem eleições que escolhem e nomeiam membros do Executivo e do Legislativo, mas as decisões somente são tomadas por meio da participação e autorização popular. Essa participação acontece nas assembleias locais, em que os cidadãos participam, ou pela observação de líderes populares, nas assembleias restritas, que podem ou não ter direito a voto. Também acontecem plebiscitos para ser feita uma consulta popular antes de tomar-se uma decisão política. Esse tipo de democracia permite uma maior participação cidadã, mesmo com a ampliação do conceito de cidadania, e pode ser chamada democracia semidireta. Exemplos de democracia A possibilidade de participação direta na política é a principal característica da democracia participativa. Muitos países republicanos ocidentais têm, em algum grau, o desenvolvimento de algum tipo de democracia. Também existem grandes monarquias, como a Inglaterra, que são democráticas. Em sua maioria, os países democráticos executam a democracia representativa. O sistema político no Brasil pode ser chamado de representativo, mas a nossa Constituição Federal de 1988 permite uma ampla participação popular, que, caso fosse efetivamente aplicada, poderia colocar-nos no patamar de democracia participativa, inclusive prevendo a possibilidade de uma iniciativa popular legislativa. Alguns estados dos Estados Unidos exercem a participação semidireta, e um bom exemplo de país que exerce a democracia participativa é a Suíça. Já a democracia direta não existe mais em nível nacional na contemporaneidade devido à sua inexequibilidade perante a ampliação do conceito de cidadania. Democracia moderna Protesto contra Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, no dia de sua posse. A democracia moderna estabelece o tratamento igualitário a todos. O turbilhão de ideais surgido na Europa durante a Modernidade deu origem ao iluminismo e às chamadas revoluções burguesas. O iluminismo é um bom exemplo do resgate de certos ideais ocidentais, esquecidos durante muito tempo, contra o chamado Antigo Regime. Tratava-se de pensar em uma ampliação do conceito de soberania (agora popular) e de cidadania. Para tanto, era necessário reavivar a ideia de democracia dos gregos e trazer uma nova forma de pensar a política, sem estratificação social, como acontecia no sistema aristocrático europeu até então. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, entoados como mantras durante a Revolução Francesa, são um forte símbolo da democracia moderna, que nasce ao mesmo tempo que o republicanismo; porém vale lembrar que república e democracia não são sinônimos. A democracia moderna prevê a criação de um Estado de direito, onde todos são, a princípio, livres e iguais, não importando a origem, a classe social, a cor ou a religião. Aliás, o Estado democrático deve ser laico, para que contemple as pessoas de todas as religiões existentes. As democracias mais maduras datam do mesmo período em que crescia o pensamento iluminista europeu, no século XVIII, e podemos citar a França e os Estados Unidos como as mais antigas. Nessas democracias maduras, há um problema recente relacionado à pouca participação popular e à insatisfação com a criação de um Estado, às vezes, omisso, às vezes, burocrático demais, dificultando a vida dos cidadãos, acirrando as desigualdades sociais ou sendo travado pela corrupção do sistema. Existem também as recentes e frágeis democracias que, seguindo os exemplos modernos, ainda não conseguiram estabelecer-se plenamente, e muitos cidadãos ainda não estão habituados à vida democrática. São democracias que surgiram somente no século XX, depois de ditaduras conservadoras de direita, ditaduras comunistas ou longos regimes totalitários (como é o caso de Portugal e Espanha). Democracia e ditadura Manifestante queimando carro durante protesto. A discordância é marca fundamental da democracia. Sistematicamente, democracia e ditadura são termos opostos. Não é o simples fato de haver escolha política em um país (eleição) que o torna, automaticamente, uma democracia. Muitas ditaduras permitem eleições para que o processo político pareça mais legítimo, porém a ausência de participação popular na política e outros fatores podem denominar o que chamamos de ditadura. Para ser considerado, efetivamente, uma democracia, um país deve conter, entre outras coisas: Liberdade de expressão e de imprensa; Possibilidade de voto e elegibilidade política; Liberdade de associação política; Acesso à informação; Eleições idôneas. A não observância dos fatores anteriores, somada a outros fatores, como a derrubada de uma Constituição legal sem a formação de uma Assembleia Constituinte, pode indicar a existência de uma ditadura. Quando um Estado Democrático de Direito, representado pela Constituição, é, por algum motivo, suspenso, interrompido ou deixado de lado, podemos dizer que há a formação de um Estado de exceção, uma das características de uma ditadura. O filósofo francês contemporâneo Jacques Rancière escreveu um livro intitulado O ódio à democracia, em que ele disserta sobre a crise democrática que tem assolado os países no século XXI. Segundo o pensador, o mundo tem agido contra a democracia por uma espécie de medo que ela pode colocar no cidadão médio: o medo de que a democracia seja o regime político por excelência. Rancière afirma que a democracia é o regime do dissenso, e isso tem promovido a cisão da população. É normal que haja discordância dentro de um regime democrático, mas deve haver também respeito mútuo por todas as partes que respeitam a democracia, e deve haver uma tentativa de construir-se um projeto comum com base na discordância. A partir do momento em que setores autoritários não respeitam os seus adversários, tem-se início um processo de ódio contra a democracia que pede o fim dela para que o adversário e a sua posição política sejam eliminados. É daí que surge o anseio pela ditadura. Democracia no Brasil Como tantas outras coisas no Brasil, a relação entre democracia e política aqui é complicada. Na Primeira República, ou República Velha, tivemos um período provisório comandado por setores militares (1889- 1894). Um período em que a chamada política café com leite deu início a um longo conchavo entre líderes de São Paulo e Minas Gerais para a presidência do país. Em 1930, uma chapa liderada por Júlio Prestes, paulista, foi indicada e eleita, porém os políticos mineiros não aceitam a eleição, iniciando a Revolução de 1930, que acabou com a república e iniciou a Era Vargas. Uma característica da Primeira República era o voto de cabresto, em que os coronéis locais mandavam e fiscalizavam as pessoas quando votavam, criando uma fraude que descaracteriza a legitimidade do processo democrático. A democracia só foi restabelecida no Brasil em 1945, e, em 1964, o país viveu outro golpe contra a república brasileira e contra a democracia. Trata-se do golpe civil-militar, que impôs um regime de exceção entre 1964 e 1965, suspendendo direitos civis e a Constituição, impondo a censura contra a imprensa e fechando, em alguns momentos, o Congresso Nacional. Em 1985, a ditadura militar acabou, mas deixou como marca as eleições indiretas para presidente. Houve a prevalência de um grande movimento, iniciado ainda no fim da ditadura, que se chamava “Diretas Já!” e pedia o estabelecimento de eleições diretas para presidente. Em 1988, aconteceu a Assembleia Constituinte, que criou a Constituição Federal de 1988 e restabeleceua possibilidade da democracia plena, reforçando direitos e promovendo a igualdade. O respeito a essa democracia, até mesmo por parte de representantes do Legislativo, do Judiciário e do Executivo, e por parte da população civil, ainda é um problema, pois temos visto a violação sistêmica dos valores constitucionais por parte de políticos eleitos pelo povo e por parte do próprio povo. Em meio a altos e baixos, a democracia brasileira segue oscilando. Democracia e Oligarquia Democracia e Oligarquia congregam grandes divergências em suas aparências Ao longo do tempo, as civilizações foram responsáveis pela criação de diferentes formas de governo. No mundo contemporâneo, principalmente no que se refere ao Ocidente, existe um grande consenso de que o regime democrático ou democracia seja a melhor e mais justa maneira de organização política já criada. Tal concepção se sustenta, principalmente, na ideia de que o sistema democrático seja mais justo e defenda os princípios de liberdade e igualdade entre os homens. Reconhecendo a democracia como o “governo do povo”, acabamos determinando que outras formas de governo sejam menos eficientes e justas. Entre essas outras formas, a oligarquia é um dos modelos que mais se claramente distancia do regime democrático. Afinal de contas, como mesmo diz a sua acepção original, a oligarquia apresenta o “governo de poucos” ou o “governo de uma minoria”. Em muitos casos, essa minoria se confunde com as elites políticas e econômicas de um país ou território. Apesar de aparentarem como opostos, oligarquia e democracia são regimes que podem se interpenetrar em algumas situações. Na história do Brasil, por exemplo, vemos que na República Oligárquica a distribuição e a autonomia dos poderes – típicos em uma democracia – conviviam com artimanhas fraudulentas que preservavam os cargos políticos nas mãos de uma reduzida elite agroexportadora. Dessa forma, podemos notar a coexistência de elementos democráticos e oligárquicos em um mesmo regime. Ao contrário do que muitos pensam, a ideia de democracia como o governo de uma maioria não nasceu na Grécia Antiga. Em Atenas, o direito ao voto era reservado a uma parcela de cidadãos que não correspondia à maioria dos moradores daquela antiga cidade. Por outro lado, também podemos hoje notar que muitas democracias são rodeadas por sérios problemas. Não raro, os representantes eleitos pelo povo, pela maioria, atuam politicamente em favor de uma abastada minoria. Pontuando esses exemplos e análises, percebemos que democracia e oligarquia correspondem a um valor de oposição apenas no campo das teorias. Na prática, os cidadãos devem estar sempre alertas para que um governo de aparências democráticas não avilte o poder a ele concedido por ações escusas e que respondem ao anseio de um único grupo social. Afinal de contas, mais do que uma forma de governo, a democracia é uma experiência dinâmica e sempre inacabada. O papel do Estado segundo Thomas Hobbes Para Hobbes, o Estado deve regular as relações humanas Considerado como um dos teóricos do poder absolutista em vigor na Idade Moderna, Thomas Hobbes viveu entre 1588 e 1679. Para Hobbes, o Estado deveria ser a instituição fundamental para regular as relações humanas, dado o caráter da condição natural dos homens que os impele à busca do atendimento de seus desejos de qualquer maneira, a qualquer preço, de forma violenta, egoísta, isto é, movida por paixões. Afirmava que os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito, pois cada um pretende que seu companheiro lhe atribua o mesmo valor que ele atribui a si próprio. Dessa forma, tal situação seria propícia para uma luta de todos contra todos pelo desejo do reconhecimento, pela busca da preservação da vida e da realização daquilo que o homem (juiz de suas ações) deseja. Deste ponto de vista surgiria a famosa expressão de Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. Daí, nas palavras de Hobbes, “se dois homens desejam a mesma coisa [...] eles se tornam inimigos”. Todos seriam livres e iguais para buscarem o lucro, a segurança e a reputação. Nas palavras de Francisco Welfort, em sua obra intitulada Os Clássicos da Política (2006), a igualdade entre os homens, na visão de Hobbes, gera ambição, descontentamento e guerra. A igualdade seria o fator que contribui para a guerra de todos contra todos, levando-os a lutar pelo interesse individual em detrimento do interesse comum. Obviamente, isso seria resultado da racionalidade do homem, uma vez que, por ser dotado de razão, possui um senso crítico quanto à vivência em grupo, podendo criticar a organização dada e, assim, nas palavras de Hobbes, julgar-se mais sábio e mais capacitado para exercer o poder público. Dessa forma, a questão da igualdade e da liberdade em Hobbes é vista de forma diferente daquela leitura mais convencional destes termos, com significados “positivos”, como se viu nas revoluções contra o poder absolutista dos reis, principalmente no caso da Revolução Francesa. Logo, a liberdade segundo Hobbes seria prejudicial à relação entre os indivíduos, pois na falta de “freios”, todos podem tudo, contra todos. A paz somente seria possível quando todos renunciassem a liberdade que têm sobre si mesmos. Hobbes discorre sobre as formas de contratos e pactos possíveis em sua obra Leviatã, apontando ser o Estado o resultado do “pacto” feito entre os homens para, simultaneamente, todos abdicarem de sua “liberdade total”, do estado de natureza, consentindo a concentração deste poder nas mãos de um governante soberano. Seria necessária a criação artificial da sociedade política, administrada pelo Estado, estabelecendo-se uma ordem moral para a brutalidade social primitiva. Citando Hobbes, Francisco Welfort mostra que o Estado hobbesiano seria marcado pelo medo, sendo o próprio Leviatã um monstro cuja armadura é feita de escamas que são seus súditos, brandindo ameaçadora espada, governando de forma soberana por meio deste temor que inflige aos súditos. Em suma, este Leviatã (ou seja, o próprio Estado soberano) vai concentrar uma série de direitos (que não podem ser divididos) para poder deter o controle da sociedade, em nome da paz, da segurança e da ordem social, bem como para defender a todos de inimigos externos. Mais especificamente, nas palavras de Hobbes: “Isso é mais do que consentimento ou concórdia, pois resume-se numa verdadeira unidade de todos eles, numa só e mesma pessoa, realizada por um pacto de cada homem com todos os homens [...] Esta é a geração daquele enorme Leviatã, ou antes – com toda reverência – daquele deus mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa” [...] É nele que consiste a essência do Estado, que pode ser assim definida: ‘Uma grande multidão institui a uma pessoa, mediante pactos recíprocos uns aos outros, para em nome de cada um como autora, poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum’. O soberano é aquele que representa essa pessoa”. (HOBBES, 2003, p.130-1 31). Dessa forma, estes seriam alguns dos princípios que justificariam os discursos do poder absolutista ao longo da Idade Moderna. Fica evidente que neste modelo de Estado que desconsiderava as liberdades individuais não haveria espaço para a democracia e suas instituições. Ao contrário, os usos da força, da austeridade e da repressão, geram sociedades onde prevalece a desigualdade, a instabilidade, o medo e o esvaziamento da discussão política. Por isso, o final da Idade Moderna foi marcado pela Revolução Francesa, encabeçada por uma burguesia descontente com os desmandos de um rei e desejosa por participação política. Assim, ao se olhar para a História, é possível ver que as características deste Estado Soberano não se limitaram às monarquias na Europa, mas também se fizeram presentes – mesmo que indiretamente e com outraroupagem – em diversos regimes ditatoriais como no Brasil e em tantos outros países na segunda metade do século XX, guardadas as devidas proporções. Da mesma forma, é contra Estados totalitários com tais características que lutam hoje muitos povos do norte da África e do Oriente Médio. As bases do Estado e do pensamento liberal O Estado, no pensamento liberal, tem funções e poderes limitados, devendo conservar os direitos naturais do homem. John Locke - Pai do pensamento liberal Segundo Norberto Bobbio, podemos compreender “liberalismo” como uma determinada concepção de Estado, na qual este tem poderes e funções limitados. Assim, será o avesso daquele Estado no qual o poder absolutista imperou em boa parte da Idade Média e da Idade Moderna. Da mesma forma, ele se contrapõe ao que hoje consideramos ser o Estado social, ou de bem-estar social que se viu na URSS no século XX. Além disso, Bobbio também aponta que um Estado liberal não é necessariamente democrático, mas, ao contrário, realiza-se historicamente em sociedades nas quais prevalece a desigualdade à participação no governo, sendo ela bastante restrita em termos gerais, limitada a classes possuidoras (BOBBIO, 1995). Obviamente, o Estado liberal seria fruto de um pensamento liberal, pensamento este discutido por vários intelectuais nos últimos cinco séculos, mas que teria suas bases nas teses de John Locke (1632-1704), considerado o pai do liberalismo principalmente por conta de suas ideias em “Dois tratados do governo civil”, obra publicada no final do século XVII. No primeiro tratado, ele faz uma crítica ao tipo de Estado caracterizado pelo poder absolutista do rei, pautado na escolha divina. No segundo tratado, escreve sobre a origem, extensão e objetivo do governo civil. Há um trinômio muito importante em sua obra constituído pelos conceitos de Estado natural, Contrato social e Estado civil. Para Locke, o homem é anterior à sociedade e a liberdade e a igualdade fazem parte de seu Estado de natureza. No entanto, elas não são vistas de forma negativa como nas ideias de Thomas Hobbes (o qual afirma que os sentimentos de liberdade e igualdade conduzem a guerra constante), mas sim dizem respeito a uma situação de relativa paz, concórdia e harmonia. Nas palavras de Francisco Weffort (2006), nesse estado pacífico os homens já eram dotados de razão e desfrutavam da propriedade que, numa primeira acepção genérica utilizada por Locke, designava simultaneamente a vida, a liberdade e os bens como direitos naturais do ser humano. No estado natural do homem ele possuiria direitos naturais que não dependeriam de sua vontade (um estado de perfeita liberdade e igualdade). Locke afirma que a propriedade é uma instituição anterior à sociedade civil (criada junto com o Estado) e por isso seria um direito natural ao indivíduo, que o Estado não poderia retirar. “O Homem era naturalmente livre e proprietário de sua pessoa e de seu trabalho” (WEFFORT, 2006, pg. 85). Contudo, apesar de John Locke acreditar no lado positivo da liberdade e da igualdade no estado de natureza, tal situação não estava isenta de inconvenientes como a violação da propriedade. Para contornar esses inconvenientes era preciso fazer um contrato social, que unisse os homens a fim de passarem do estado de natureza para a sociedade civil. Seria necessário instituir entre os homens um contrato social ou um pacto de consentimento, no qual o Estado é constituído como “dono” do poder político para assim preservar e consolidar ainda mais os direitos individuais de cada homem, direitos estes que eles já possuíam desde o estado de natureza. Assim, “é em nome dos direitos naturais do homem que o contrato social entre os indivíduos que cria a sociedade é realizado, e o governo deve, portanto, comprometer-se com a preservação destes direitos” (MARCONDES, 2008, p. 204). Segundo Weffort, no Estado civil os direitos naturais inalienáveis do ser humano à vida, à liberdade e aos bens estão mais bem protegidos sob o amparo da lei, do árbitro e da força comum de um corpo político unitário. Este seria o sentido e a necessidade da formação do Estado como garantidor de direitos. Não é por outro motivo que John Locke é considerado o pai do individualismo liberal. Sua obra terá grande influência na conformação do pensamento liberal ao longo do século XVIII. A doutrina dos direitos naturais está na base das Declarações dos Direitos dos Estados Unidos (1776) e na Revolução Francesa (1789). O Estado liberal é o Estado limitado, sendo a função dele a conservação dos direitos naturais do homem. Assim, se a defesa dos direitos dos homens é o mote do pensamento liberal, a valorização do individualismo é uma consequência óbvia e direta no Estado Liberal ou, nas palavras de Bobbio, “sem individualismo não há liberalismo” (BOBBIO, 1995, pg. 16). Certamente, o desenvolvimento desses valores e dessa visão de Estado foi fundamental para o desenvolvimento do capitalismo enquanto modo de produção, formando as bases jurídicas da sociedade capitalista. Dessa forma, as questões levantadas são: até que ponto a liberdade e igualdade entre os homens conseguem andar juntas no sistema econômico capitalista? Embora o Estado liberal garanta a defesa da liberdade, ele poderia garantir a igualdade (em seu sentido mais amplo) entre os homens? Fica o convite à reflexão. Maquiavel e a autonomia da política O intelectual Nicolau Maquiavel tratou principalmente sobre política na obra “O príncipe”, descrevendo como o governante deveria agir e quais virtudes deveria ter a fim de se manter no poder e aumentar suas conquistas. Maquiavel ensinou como o governante deveria agir e quais virtudes deveria ter a fim de se manter no poder e aumentar suas conquistas Nicolau Maquiavel, nascido na segunda metade do século XV, em Florença, na Itália, trata-se de um dos principais intelectuais do período chamado Renascimento, inaugurando o pensamento político moderno. Ao escrever sua obra mais famosa, “O Príncipe”, o contexto político da Península Itálica estava conturbado, marcado por uma constante instabilidade, uma vez que eram muitas as disputas políticas pelo controle e manutenção dos domínios territoriais das cidades e estados. Conhecer sua trajetória como figura pública e intelectual é muito importante para que as circunstâncias nas quais este pensador pensou e escreveu tal obra sejam compreendidas. Maquiavel ingressou na carreira diplomática em um período em que Florença vivia uma República após a destituição dos Médici do poder. Contudo, com a retomada dessa dinastia, Maquiavel foi exilado, momento em que se dedicou à produção de “O Príncipe”. Esta sua obra seria, na verdade, uma espécie de manual político para governantes que almejassem não apenas se manter no poder, mas ampliar suas conquistas. Em suas páginas, o governante poderia aprender como planejar e meditar sobre seus atos para manter a estabilidade do Estado, do governo, uma vez que Maquiavel conta sucessos e fracassos de vários reis para ilustrar seus conselhos e opiniões. Além disso, para autores especializados em sua vida e obra, Nicolau Maquiavel teria escrito esse livro como uma tentativa de reaproximação do governo Médici, embora não tenha logrado êxito num primeiro momento. Outro fator fundamental para se estudar o pensamento maquiaveliano é o pano de fundo da Europa naquele período, do ponto de vista das ideologias e do pensamento humano. Ao final da Idade Média, retomava- se uma visão antropocêntrica do mundo (que considera o homem como medida de todas as coisas) presente outrora no pensamento das civilizações mais antigas como a Grécia, a qual permitiu o despontar de uma outra ideia política, que não apenas aquela predominante no período medieval. Em outras palavras, a retomada do humanismo iria propor na política a “liberdade republicana contra o poder teológico-político de papas e imperadores”, como afirma Marilena Chauí (2008). Isso significaria a retomada dohumanismo cívico, o que pressupõe a construção de um diálogo político entre uma burguesia em ascensão desejosa por poder e uma realeza detentora da coroa. É preciso lembrar que a formação do Estado moderno se deu pela convergência de interesses entre reis e a burguesia, marcando-se um momento importante para o desenvolvimento das práticas comerciais e do capitalismo na Europa. Assim, Maquiavel assistia em seu tempo um maior questionamento do poder absoluto dos reis ou de alguma dinastia, como os Médici em Florência, uma vez que nascia uma elite burguesa com seus próprios interesses, com a exacerbação da ideia de liberdade individual. Questionava-se o poder teocêntrico e desejava-se a existência de um príncipe que, detentor das qualidades necessárias, isto é, da virtú, poderia garantir a estabilidade e defesa de sua cidade contra outras vizinhas. Dessa forma, considerando esse cenário, Maquiavel produziu sua obra com vistas à questão da legitimidade e exercício do poder pelo governante, pelo príncipe. A legitimação do poder seria algo fundamental para a questão da conquista e preservação do Estado, cabendo ao bom rei (ou bom príncipe) ser dotado de virtú e fortuna, sabendo como bem articulá-las. Enquanto a virtú dizia respeito às habilidades ou virtudes necessárias ao governante, a fortuna tratava-se da sorte, do acaso, da condição dada pelas circunstâncias da vida. Para Maquiavel “...quando um príncipe deixa tudo por conta da sorte, ele se arruína logo que ela muda. Feliz é o príncipe que ajusta seu modo de proceder aos tempos, e é infeliz aquele cujo proceder não se ajusta aos tempos.” (MAQUIAVEL, 2002, p. 264). Conforme afirma Francisco Welffort (2001) sobre Maquiavel, “a atividade política, tal como arquitetara, era uma prática do homem livre de freios extraterrenos, do homem sujeito da história. Esta prática exigia virtú, o domínio sobre a fortuna”. (WELFFORT, 2001, p. 21). Contudo, a forma como a virtú seria colocada em prática em nome do bom governo deveria passar ao largo dos valores cristãos, da moral social vigente, dada a incompatibilidade entre esses valores e a política segundo Maquiavel. Para Maquiavel, “não cabe nesta imagem a ideia da virtude cristã que prega uma bondade angelical alcançada pela libertação das tentações terrenas, sempre à espera de recompensas no céu. Ao contrário, o poder, a honra e a glória, típicas tentações mundanas, são bens perseguidos e valorizados. O homem de virtú pode consegui-los e por eles luta” (WELFFORT, 2006, pg. 22). Assim, essa interpretação maquiaveliana da esfera política foi que permitiu surgir ideia de que “os fins justificam os meios”, embora não se possa atribuir literalmente essa frase a Maquiavel. Além disso, fez surgir no imaginário e no senso comum a ideia de que Maquiavel seria alguém articuloso e sem escrúpulo, dando origem à expressão “maquiavélico” para designar algo ou alguém dotado de certa maldade, frio e calculista. Maquiavel não era imoral (embora seu livro tenha sido proibido pela Igreja), mas colocava a ação política (construída pela soma da virtú e da fortuna) em primeiro plano, como uma área de ação autônoma levando a um rompimento com a moral social. A conduta moral e a ideia de virtude como valor para bem viver na sociedade não poderiam ser limitadores da prática política. O que se deve pensar é que o objetivo maior da política seria manter a estabilidade social e do governo a todo custo, uma vez que o contexto europeu era de guerras e disputas. Nas palavras de Welffort (2001), Maquiavel é incisivo: há vícios que são virtudes, não devendo temer o príncipe que deseje se manter no poder, nem esconder seus defeitos, se isso for indispensável para salvar o Estado. “Um príncipe não deve, portanto, importar-se por ser considerado cruel se isso for necessário para manter os seus súditos unidos e com fé. Com raras exceções, um príncipe tido como cruel é mais piedoso do que os que por muita clemência deixam acontecer desordens que podem resultar em assassinatos e rapinagem, porque essas consequências prejudicam todo um povo, ao passo que as execuções que provêm desse príncipe ofendem apenas alguns indivíduos” (MAQUIAVEL, 2002, p. 208). Dessa forma, a soberania do príncipe dependeria de sua prudência e coragem para romper com a conduta social vigente, a qual seria incapaz de mudar a natureza dos defeitos humanos. Assim, a originalidade de Maquiavel estaria em grande parte na forma como lidou com essa questão moral e política, trazendo uma outra visão ao exercício do poder outrora sacralizado por valores defendidos pela Igreja. Considerado um dos pais da Ciência Política, sua obra, já no século XVI, tratava de questões que ainda hoje se fazem importantes, a exemplo da legitimação do poder, principalmente se considerarmos as características do solo arenoso que é a vida política. O Estado de direito e a divisão constitucional dos poderes A divisão constitucional dos poderes é dada da seguinte forma: Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário. O Estado de direito, por sua vez, é o Estado regulado por leis, normas. República Federativa do Brasil constitui-se em um Estado de direito Para discutirmos a ideia de Estado de direito e a divisão constitucional dos poderes, partimos aqui do posicionamento de um dos principais cientistas políticos do século XX: Noberto Bobbio. Por Estado de direito deve-se entender um Estado no qual os poderes públicos são regulados por normas, por leis. A sociedade deve ser governada sob as leis, e os poderes (executivo, legislativo e judiciário) devem ser regulados também por uma constituição. O Estado de direito seria caracterizado pela transformação dos direitos naturais em leis do Estado, isto é, pela constitucionalização dos direitos naturais. Segundo Norberto Bobbio, “na doutrina liberal, Estado de direito significa não só a subordinação dos poderes públicos de qualquer grau às leis gerais do país, limite que é puramente formal, mas também subordinação das leis ao limite material do reconhecimento de alguns direitos fundamentais considerados constitucionalmente, e, portanto, em linha de princípio ‘invioláveis’ [...]” (BOBBIO, 1995, pg. 18). Dessa forma, cabe ao Estado de direito uma preocupação permanente (pelo menos do ponto de vista teórico) com a promoção e preservação da cidadania plena, a qual seria constituída pelos direitos civis, políticos e sociais. Assim, a divisão constitucional dos poderes (dada pela Constituição) é feita entre o Poder Executivo, Poder Legislativo e Poder Judiciário, cada qual com sua respectiva função na organização da sociedade. Em linhas gerais, ao Poder Executivo cabe a administração do Estado propriamente dita, naquilo que diz respeito ao governo da máquina pública. Ao Poder Legislativo cabe a formulação, discussão e aprovação de leis, as quais são pensadas conforme as demandas e anseios da sociedade por ele representada. E, por final, ao Poder Judiciário cabe o julgamento dos possíveis conflitos, agindo de forma imparcial, pautando pela obrigatoriedade do cumprimento das leis. Do Estado de direito nascem mecanismos constitucionais para impedir os abusos de poder ou o seu exercício ilegal. Nas palavras de Norberto Bobbio, tais mecanismos são garantias da liberdade dos indivíduos, no sentido de que estes não devem estar presos aos “desmandos” de qualquer um que assuma o poder. Estes mecanismos nascem da interação desses poderes públicos (na interdependência destes), e na visão de Bobbio, os mais importantes são: I. O controle do Poder Executivo por parte do Poder Legislativo (ou controle do próprio governo – representado pelo poder executivo – pelas assembleias de vereadores, deputados, e senadores); II. O eventual controle do parlamento no exercício do Poder Legislativo por parte de uma corte jurisdicional, isto é, pelo Poder Judiciário; III. Uma relativa autonomia do governo local em todas as suas formas e em seus graus com respeito ao governo central;(pensemos na relação Governo Municipal, Governo Estadual e Governo Federal); IV. Uma magistratura independente do poder político. Assim, a República Federativa do Brasil constitui-se em um Estado de direito e, dessa forma, todas essas características descritas acima se aplicam ao caso brasileiro. No entanto, como convite à reflexão, basta sabermos até que ponto as definições teóricas dos papéis e funções de cada poder aqui colocado – principalmente no tocante à imparcialidade, ao controle do abuso de poder e à autonomia de cada um – de fato são coerentes com nossa realidade política e governamental.