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PROCESSOS DE FABRICAÇÃO Roberta Fátima Neumeister Usinagem CNC Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Apresentar o histórico das máquinas CNC. Descrever o funcionamento, os componentes e os comandos das máquinas CNC. Analisar o funcionamento, a programação e simulações do sistema CAD/CAM. Introdução A usinagem com máquinas CNC é muito difundida na indústria, pois possibilita a execução de geometrias complexas, que não poderiam ser fabricadas na usinagem manual ou que gerariam grandes dificuldades na execução. A redução no tempo de usinagem e a manutenção dos parâmetros especificados durante as operações também são fatores que pesam a favor de sua utilização. Os pontos negativos são a necessidade de operadores com maior qualificação e o maior tempo de planejamento da peça. Neste capítulo, você vai estudar os avanços das máquinas de comando numérico, desde seu protótipo até os dias atuais. Você vai verificar o funcionamento de uma máquina com comando CNC e seus principais componentes e vai identificar também as formas de programação e os sistemas de manufatura assistida por computador. Evolução das máquinas com comando numérico computadorizado A usinagem com comando numérico computadorizado (CNC) consiste na remoção do material de uma peça utilizando uma máquina controlada por comandos numéricos, a partir da automação de máquinas e ferramen- tas. A usinagem CNC aplica uma etapa intermediária entre o projeto e a execução da peça, que é a programação da sequência de comandos que permitem à máquina executar o formato desejado. A programação consiste em uma série de comandos e valores numéricos que descrevem a peça e a sequência de operações que a máquina deve executar, similar ao que o operador executa no planejamento da usinagem convencional, conforme leciona Silva (2008). O CNC facilita a produção de peças, mas exige que o estudo e planejamento do processo de fabricação seja executado. Isso faz com que a empresa possua maior controle da fabricação, conhecendo os tempos de execução das peças e as ferramentas disponíveis e necessárias. Além disso, outras vantagens podem ser elencadas, como a redução do tempo na fabricação das peças e o maior controle na sequência das operações. Há também o maior controle do consumo de ferramentas, pois se trata de uma usinagem com esforços e velocidades uniformes, gerando desgastes constantes. Também ocorre a redução nos tempos de preparação e na quan- tidade de itens em estoque, pois esse tipo de usinagem facilita a produção de pequenos lotes. Há também redução nos tempos e na frequência de inspeções de qualidade. As máquinas CNC nem sempre apresentaram as características atuais. As primeiras máquinas possuíam o controle numérico (NC), que utilizava calculadoras de cartões perfurados para localizar os cortes, que eram realizados manualmente. A evolução foi o processo de perfuração de fita; os orifícios nos cartões passaram a ser interpretados como valores numé- ricos para que a máquina fosse capaz de realizar cortes automáticos. Os sistemas atuais utilizam redes de conexão ou terminais de computadores para trabalhar com o programa designado e como interface com as má- quinas e podem trabalhar com praticamente qualquer tipo de ferramenta de usinagem. A evolução dos CNCs pode ser dividida em etapas, mas, dependendo das características empregadas na classificação, o agrupamento é alterado. Fitzpatrick (2013) sugere a divisão da evolução máquina-ferramenta em três gerações, considerando a forma como eram usadas na indústria e no ensino. A primeira geração é associada ao período de 1940 até 1965, quando as máquinas funcionavam como protótipos experimentais, que lentamente foram aplicados na indústria. A furadeira por fita perfurada foi uma das mais Usinagem CNC2 Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight difundidas da geração. As primeiras fresas com CN foram produzidas nessa época. A programação das peças exigia muito tempo e o custo de compra dessas máquinas era elevado. Por esse motivo, apenas empresas com produção em massa de um item as empregavam, ou em casos em que a produção sem o CN era muito difícil. A segunda geração inclui o período de 1965 até 1990; foi nesse período que as mudanças mais significativas foram observadas nas máquinas de comando numérico, dando origem ao CNC. O avanço pode ser atribuído ao desenvolvimento dos microprocessadores e computadores, pois facilitaram as programações e o acesso à informação. Os programas de computador também evoluíram e permitiram a programação de peças mais complexas e com utilização de múltiplas ferramentas. As máquinas CNC passaram a ser a maioria nas indústrias nessa geração; a linguagem de programação passou a ser difundida entre mais operadores e começou a ser ensinada em cursos de usinagem. As máquinas CNC começaram a apresentar características em função do processo de usinagem que executavam, mas com algumas partes comuns. Todas apresentam painel de controle com tela, teclado e botões de controle e de segurança, conforme mostra a Figura 1a. As máquinas passaram a ter suporte para diversas ferramentas (Figura 1b), pois isso reduzia tempos de troca — é o chamado magazine de ferramentas. A evolução tecnológica é uma parcela importante nas evoluções das má- quinas CNC desde a década de 1980. A melhora da tecnologia aplicada nos equipamentos CNC permitiu aumentos de velocidade em torno de 50 vezes; a aceleração nos movimentos cresceu cerca de 130 vezes, e as rotações pas- saram de 2.000 para até 80.000 rpm. Os avanços estão relacionados com mecanismos de acionamento do CNC e sistemas de controle mais eficientes, que evoluíram com a tecnologia disponível, aplicando guias lineares e fusos para as movimentações e os posicionamentos (Figura 1c). A tecnologia de acionamento e controle também permitiu a movimentação dos cabeçotes, e isso ampliou os formatos de peças possíveis de serem usinados. As máquinas CNC de cabeçote móvel são versáteis, e algumas possibilitam aplicar ferramentas giratórias. Conforme aponta Ferrari (2003), a liberdade de mais eixos na movimentação dos cabeçotes permitiu a usinagem de peças mais complexas, como pode ser observado na Figura 1d. 3Usinagem CNC Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Figura 1. a) Máquina CNC, b) suporte de ferramentas, c) fuso de esferas aplicado no acio- namento e na movimentação do CNC e d) fresadora com cabeçote móvel usinando bloco de motor. Fonte: a) Moreno Soppelsa/Shutterstock.com; b) Aumm graphixphoto/Shutterstock.com; c) Factory_Easy/ Shutterstock.com; d) Andrey Armyagov/Shutterstock.com. A terceira geração inicia em 1990 e inclui a atualidade, em que quase a totalidade das máquinas utilizadas é CNC. A interface de programação é amigável e simplificada, possibilitando a aplicação em todas as peças, incluindo superfícies extremamente complexas. A verificação de processos de fabricação em ambiente digital também permite maior interação entre a programação das peças e sua aplicação posterior. A utilização da manufatura assistida por computador (CAM) facilitou o planejamento dos processos e a aplicação do CNC no ambiente industrial. A partir da década de 1990, a evolução das máquinas e dos sistemas produtivos esteve vinculada com a necessidade de melhoria de eficiência na produção, mas as características se mantiveram similares. O objetivo atual é reduzir o tempo sem remoção de cavaco; então, o foco está em melhorar os tempos de troca de peças, o tempo de manutenção, o tempo de configuração da máquina, o tempo de troca de ferramentas e os programas ineficientes, que geram movimentos desnecessários. Nesses fatores, os estudos aplicando Usinagem CNC4 Roger Santos HighlightRoger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight CAM são muito importantes, pois permitem o estudo paralelo à produção das peças, podendo ser executados em qualquer computador e enviados para a máquina posteriormente. Em 1949, a Força Aérea norte-americana observou que uma pequena empresa chamada Parsons Corporation, que fabricava hélices e rotores para helicópteros, havia experimentado uma forma de controle por números em uma máquina de usinagem convencional. A Força Aérea contratou a Parsons e patrocinou os estudos e o desenvolvimento do controle numérico. Foram planejadas e executadas as adaptações de controle numérico para uma fresadora de três eixos, a Hydrotel. Os controles e comandos convencionais foram retirados e substituídos pelo comando numérico, dotado de leitora de fita de papel perfurado, unidade de processamento de dados e servomecanismos nos eixos. Esse foi o protótipo de uma máquina CN; depois desse período, a Força Aérea norte-americana teve um grande desenvolvi- mento, pois as peças complexas, empregadas na fabricação dos aviões a jato de uso militar, passaram a ser produzidas de forma simples e rápida, reduzindo-se os prazos de entrega do produto. Em 1956, surgiu o trocador automático de ferramentas. Mais tarde, em 1958, os equipamentos com controle de posicionamento ponto a ponto e a geração contínua de contornos foram melhorados por esse sistema em desenvolvimento. A partir de 1957, houve, nos Estados Unidos, uma grande corrida na fabricação de máquinas comandadas por CN, o que propulsionou a evolução até as máquinas atuais. Principais características de máquinas CNC O processo de usinagem CNC apresenta as principais características da usi- nagem manual, mas exige algumas defi nições claras de posicionamento e coordenadas para permitir a programação das peças utilizando o comando numérico. A máquina CNC necessita de uma base, em que uma peça de trabalho pode ser fi xada; contém eixos pré-defi nidos, ferramentas para execução da peça e o programa, que especifi ca a movimentação nos eixos e as ferramentas necessárias, conforme apresentado na Figura 2a. A principal diferença entre a máquina manual e a máquina CNC é a forma de movimentação dos eixos, sendo aplicados servomotores e sistemas de comando com realimentação, que permitem a verificação da posição real e 5Usinagem CNC Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight da posição esperada, o chamado sistema fechado. As máquinas CNC aplicam os sistemas de fusos de esferas com esferas recirculantes (Figura 2b), e o conjunto comporta-se como um rolamento sem folga, podendo atingir alta repetitividade nos movimentos dos carros de movimentação. A qualidade do sistema de acionamento do eixo impacta na repetibilidade do eixo, na resolução da máquina e na repetibilidade da forma e são os fatores determinantes na escolha de uma máquina CNC, conforme aponta Groover (2014). Figura 2. a) Peça fixada em mesa com possibilidade de giro durante processo de usinagem em CNC; b) fusos e servomotores utilizados em acionamentos de máquinas CNC. Fonte: a) Andrey Armyagov/Shutterstock.com; b) science photo/Shutterstock.com. As máquinas CNC podem ser centros de usinagem, tornos CNC, fresadoras, entre outros equipamentos. O centro de usinagem é um dos mais comuns, pois é multioperacional, então, apresenta maior gama de possibilidade de peças, permitindo executar formatos tridimensionais com furações e roscas, bem como gerar objetos em formato cilíndricos, retangulares ou qualquer forma que possa ser desenhada. As máquinas CNC geralmente apresentam funcionalidades como a troca de ferramentas, com possibilidade de armazenar mais de uma ferramenta e exigindo apenas comando de troca, sendo que o tempo de troca entre as ferramentas é baixo. Algumas máquinas apresentam duas superfícies de trabalho, possibilitando operação contínua, mesmo entre abastecimentos e desabastecimentos. As máquinas apresentam comandos e componentes para operação em alta velocidade de rotação, mas possuem exatidão elevada de parada e posicionamento. Contam também com sistemas de refrigeração acionados por comandos. Os dispositivos de segurança também são parte das máquinas e apresentam sensores intertravados para evitar acidentes, conforme leciona Fitzpatrick (2013). Usinagem CNC6 Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight O torno CNC também é difundido e apresenta características similares ao centro de usinagem, porém limita-se à produção de peças cilíndricas. Um torno CNC típico é apresentado na Figura 3a; externamente, observam-se o comando numérico com botões para programação e controle na execução, a pedaleira aplicada para fixação da peça e a carcaça externa. Há a possibilidade de abertura da porta para troca de ferramentas, manutenção, retirada e fixação da peça, entre outras funcionalidades. Internamente, observam-se a placa com castanhas para fixação da peça, similar ao torno manual, o magazine de ferramentas, os barramentos, o sistema de refrigeração, dentre outros componentes, conforme mostra a Figura 3b. Figura 3. Torno CNC a) externo e b) interno. Fonte: a) Lisa S./Shutterstock.com; b) Pixel B/Shutterstock.com. As máquinas CNC normalmente apresentam dois ou três eixos de movi- mento para que se possa usinar qualquer forma, para atender as necessidades e especificações. Certas configurações incluem movimentos de ferramentas e mesa, que adicionam eixos às máquinas, podendo chegar a nove eixos. As máquinas CNC podem apresentar uma ou várias ferramentas, sendo que as máquinas com uma ferramenta podem executar um número menor de operações do que as que apresentam mais ferramentas. A quantidade de eixos e de ferramentas depende das definições da empresa, pois o custo do equipamento aumenta com as funcionalidades adicionais. O benefício de mais recursos é permitir a execução de peças complexas em uma única máquina, enquanto, para máquinas com uma ferramenta, por exemplo, há necessidade de movimentação da peça para a sua finalização. 7Usinagem CNC Roger Santos Highlight Todas as máquinas CNC são comandadas por um sistema de coordena- das cartesianas para a elaboração de qualquer perfil geométrico desejado. As coordenadas são todos os pontos relacionados com a geometria do desenho, que orientam o programador na elaboração dos programas CNC. O mais simples de analisar é o sistema de coordenadas do torno CNC, pois apresenta normalmente dois eixos. O eixo X é o eixo transversal da máquina e está relacionado, no torno CNC, com as coordenadas de diâ- metro. Nele se aplica o ponto de referência, que coincide com a linha de centro do eixo árvore principal da máquina, denominado X0. O eixo Z é o eixo longitudinal e é relacionado, no torno CNC, com as coordenadas de comprimento da peça. O ponto de referência pode ser estabelecido em qualquer lugar, de acordo com o programador, dentro da área de trabalho da máquina. O ponto de referência deve facilitar a programação e é denominado ponto zero da peça. O acionamento do torno mecânico é executado pelo eixo árvore principal, em que são estabelecidas rotações e também a fixação das peças usinadas por meio de uma placa, sendo muitas vezes chamado de eixo C. Em alguns tornos CNC, o eixo árvore possibilita o controle e o posicionamento do eixo por meio de coordenadas angulares, conforme aponta Silva (2008). As máquinas CNC precisam de uma programação para que possam operar, e os comandos de programa são os responsáveis pelo controle da máquina, informando todas as etapas de fabricação de uma determinada operação de uma peça. Uma linha de comando de um programa CNC pode conter informações sobre o movimento da ferramenta, o movimento da peça, as informações dos parâmetros de corte ou funções auxiliares, como ligar ou desligar o refrigerante, acionar o eixo da árvore, etc. Mais de uma técnica de programação são empregadas. Astécnicas de programação mudam de empresa para empresa, mas, de forma geral, pode-se elencar as principais formas, conforme aponta Lynch (1997): programação manual, programação de entrada manual e programação via CAD/CAM. A programação manual consiste na execução do programa para a má- quina sem aplicar recursos computacionais. As trajetórias, os parâmetros de corte e as funções auxiliares são definidas de forma manual pelo pro- gramador, que documenta as informações em formulários de controle. A programação manual é executada para peças de geometria simples e poucas Usinagem CNC8 operações e exige a digitação do código e o envio do programa para a máquina. A programação manual também pode executar a programação manual utilizando o computador e é aplicada em programação de peças mais complexas. A programação com entrada manual de dados consiste na inserção do programa diretamente no comando da máquina, conforme mostra a Figura 4a, e permite que os programadores e os operadores gerem alterações no programa. É aplicada em empresas menores, que estão iniciando a utilização do CNC e não podem contratar um programador. Algumas máquinas CNC permitem que o operador usine uma peça manualmente, e a sequência de operações executada é gravada em um código, que pode ser usado para a usinagem de peças sequenciais. A programação usando CAD/CAM é a automatização da programação, com um programa sendo gerado por um software de CAM que utiliza o desenho como base, gera todos os comandos de programação e grava em um arquivo de texto, que é enviado para a máquina, conforme mostra a Figura 4b. O programa de CAM exige um desenho bidimensional, para máquinas de dois eixos, e tridimensional, para máquinas de três eixos ou mais. Depois de importada a peça, deve-se especificar as dimensões brutas do material para a peça, as ferramentas disponíveis e os parâmetros limites da máquina que será utilizada. O programa, então, gera a programação para usinagem do material bruto na peça desejada. Cada programa de CAM apresenta suas peculiaridades e pode apresentar funções de otimização. Figura 4. a) Programação manual e b) programação com aplicação de software CAD/CAM. Fonte: a) Dmitry Kalinovsky/Shutterstock.com; b) FERNANDO BLANCO CALZADA/Shutterstock.com. 9Usinagem CNC Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight A máquina, normalmente, é conectada a um computador por saída se- rial ou por conexão local, para permitir a transferência dos programas. A máquina também possui memória interna, que permite manter programas de peças usuais, evitando a necessidade de programação toda vez que deve ser executada. Itens básicos para programação CNC Para a programação de uma máquina CNC, é necessário executar o planeja- mento da peça com todos os detalhes, pois iniciar a execução de uma peça sem esses cuidados pode gerar erros e danos. A escolha dos eixos, do ponto zero da peça, da forma de fi xação e da sequência de operações é essencial, conforme leciona Fitzpatrick (2013). Todas as máquinas CNC são comandadas por um sistema de coordenadas cartesianas para a elaboração de qualquer perfil geométrico; o torno facilita o entendimento, pois apresenta dois eixos, X e Z, conforme observa-se na Figura 5a. Depois de conhecido o padrão de coordenadas da máquina, deve- -se definir o ponto zero da peça; é possível trabalhar com várias definições de ponto zero em um torno CNC, mas, normalmente, aplica-se o ponto zero na face da peça ou no encosto das castanhas. A partir do ponto zero da peça, executa-se a programação, que pode ser executada aplicando-se coordenadas absolutas ou coordenadas incrementais, sempre levando em conta a operação e a ferramenta que deve ser aplicada. As posições são positivas ou negativas, em função da coordenada e do ponto zero adotado. As coordenadas absolutas são as que se relacionam sempre com o ponto de referência, que é o ponto zero da peça, e podem ser chamadas também de medidas de referência ou medidas reais. A Figura 5b apresenta um exemplo de coordenadas absolutas, em que todas as dimensões são indicadas a partir do ponto zero, B. As coordenadas incrementais aplicam a medida adicional em relação a um posicionamento anterior; então, utilizam-se medidas de distância entre dois pontos. A Figura 5b apresenta o exemplo de dimensional incremental, sendo a cota em função do ponto anterior. A utilização de coordenadas absolutas incrementais ou absolutas é definida pelo programador. Usinagem CNC10 Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Figura 5. a) Coordenadas do torno CNC e b) coordenadas incrementais e absolutas. Fonte: a) Adaptada de Silva (2008); b) Adaptada de Fitzpatrick (2013). Depois da definição das posições em que a ferramenta deve estar para que gere o perfil necessário, com as posições em X e Z, no caso do torneamento, deve-se executar o programa aplicando os parâmetros de corte e a sequência de operações. Existe mais de uma forma de compilar um programa para CNC, mas o mais aplicado é por código EIA (Associação das Indústrias Eletrônicas) ou ISO (Organização Internacional de Normalização), também chamado de linguagem G. A linguagem G foi adotada pelo sistema ISO como um padrão a ser usado pelos fabricantes de comandos, com algumas normas rígidas que exigem man- ter as funções básicas e universais, funções que não podem ser definidas de maneiras diferentes e que tenham a mesma finalidade em todos os comandos. Fora da lista de comandos da norma, os fabricantes possuem liberdade para criação de recursos próprios; essa possibilidade impulsiona a criatividade entre os fabricantes — dessa forma, alguns oferecem mais recursos do que outros, conforme leciona Silva (2008). A linguagem de programação é a maneira de se comunicar com a máquina por meio de códigos; é a transformação de um desenho ou peça em números e letras, que são matemáticas. O programa é caracterizado por uma sequência de sentenças que são memorizadas pelo comando e executadas na usinagem uma após a outra. O bloco de dados ou as sentenças do programa apresentam caracteres que têm o objetivo de informar ao comando as operações que devem ser executadas, pois as sequências de caracteres são padronizadas, 11Usinagem CNC Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight Roger Santos Highlight sendo que cada combinação apresenta uma instrução, conforme pode ser observado no Quadro 1. Fonte: Adaptado de Silva (2008). Funções preparatórias Código G Função G00 Avanço rápido G01 Interpolação linear G02 Interpolação circular/interpolação helicoidal (sentido horário) G03 Interpolação circular/interpolação helicoidal (anti-horário) G04 Pausa, parada exata G20 Entrada em polegadas G21 Entrada em milímetros G28 Retorno ao ponto de referência G41 Compensação do raio da ponta da ferramenta Funções auxiliares M3 Eixo girando no sentido horário M4 Eixo girando no sentido anti-horário M20 Adiciona alimentador de barras M21 Para alimentador de barras M49 Troca de barras N Número sequencial de blocos: N10, N20, N30 Quadro 1. Algumas funções da linguagem ISO para programação CNC As letras de endereçamento, como G, M, T, F, S e N, são instruções que podem executar um movimento ou assumir uma função. O sufixo G representa funções preparatórias, como o tipo de coordenadas e a unidade de entrada; o sufixo M indica as funções auxiliares; o sufixo T representa números e tempos de ferramentas, enquanto F representa a velocidade de avanço, S a velocidade de rotação, e N é o número da linha do endereço. Usinagem CNC12 Existem funções preparatórias de movimento, funções auxiliares, funções para troca de ferramenta, indicação de parâmetros de usinagem, etc. Um programa apresenta definições iniciais, por exemplo, se a entrada de cotas é em polegadas ou em milímetros, se o eixo gira em sentido horário ou anti- -horário; somente depois disso a sequência de comandos para a operação é executada.A Figura 6 apresenta um exemplo de programa para torno CNC; juntamente com a peça em coordenadas absolutas, observa-se a definição das funções preparatórias, do avanço e das posições da ferramenta. As máquinas CNC também apresentam ciclos fixos, como para furação e rosqueamento, os quais poupam tempo de programação e evitam erros nas programações. Figura 6. Exemplo de peça e programa para torno FANUC. Fonte: Adaptada de Silva (2008). 13Usinagem CNC FERRARI, A. V. F. A evolução dos tornos automáticos: do came ao CNC. Material Didá- tico. São Paulo, SP: Ergomat, 2003. E-book. Disponível: em https://edisciplinas.usp.br/ pluginfile.php/1806743/mod_resource/content/1/AF%20Folder%20Evolution%20 Ferrari%201.pdf. Acesso em: 19 mar. 2019. FITZPATRICK, M. Introdução a usinagem com CNC. Porto Alegre, RS: McGraw-Hill, 2013. (Série Tekne). GROOVER, M. P. Introdução aos processos de fabricação. Rio de Janeiro, RJ: LTC, 2014. LYNCH, M. The key concepts of CNC: modern machine shop. Cincinati, [s. l.], v. 69, n. 11, p. 81-144, 1997. SILVA, S. D. CNC: programação de comandos numéricos computadorizados – tornea- mento. 8. ed. São José dos Campos, SP: Érica, 2008. 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