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Primeira coisa do texto: acesso à cultura. (trecho em que ele fala dos padres que têm livre acesso ao mapa mundi, enquanto ele teve que aguardar e ser estratégico). A mudança de cenário à medida que ele chega em casa: relato pessoal de um homem, criado no campo, descendente de trabalhadores da terra. No texto, ele situa a questão do “progresso” e da industrialização, como um processo violento, no qual o avô dele deixou de ser um trabalhador da terra para ser um operário. Raymond Williams observa a cultura como a produção da realidade. Dos processos que se entrecruzam no cotidiano: no trabalhar, nas relações pessoais, no que se reproduz diariamente. O que se passa por gerações. “Crescer naquela família, era constatar a formação de modos de pensar: o aprendizado de novas habilidades, as mudanças de relacionamentos, o surgimento de linguagens e idéias diferentes” O pai do Raymond é um trabalhador sindicalizado, ativo no partido trabalhista. Ou seja, militante organizado. “Toda sociedade humana tem sua própria forma, seus próprios propósitos, seus próprios significados: ”A cultura se forja sob processos: pressões sociais, reivindicações, relações sociais. A cultura é viva, não é estática e não está restrita a certos ambientes. Nós construímos a cultura e somos constituídos por ela. Williams inscreve o sentido da palavra cultura como polissêmico: tanto os processos que aglutinam pessoas em torno de manifestações comuns, como as artes. Raymond é de origem pobre e estudou em Cambridge. (Cambridge, universidade tradicional do Reino Unido, berço de intelectuais, inacessível). Ele não se sentiu deslocado. A casa de chá: o que simboliza a casa de chá? Representa as afetações elitistas; o espaço em que “cultura” exprime anseios “eruditos”. Era um espaço da performance social. Ele também faz ressalvas, de que cultura não se restringe à elite. Por isso não se deve ter aversão ao conceito de cultura, porque ele não é só performance e afetação. Ao mesmo tempo que ele critica o elitismo, também critica quem é avesso à cultura por oposição ao elitismo. Outra crítica: o purismo e a tecnicidade do trabalho artístico, para que esse seja validado. Uma provocação: “No entanto, pessoas que antes estabeleciam esta referência, que queriam ser eruditos ou escritores, são hoje, e aparentemente com grande satisfação, homens da propaganda, geniozinhos da publicidade, autores de tiras em jornais.” Crítica à massificação da comunicação, ao consumismo. ( em 1958!!!) Raymond é marxista. O marxismo se baseia no método materialista histórico-dialético para estudar os fenômenos da realidade. O que isso significa? Ele não faz críticas rasas, mas busca pensar o contexto como um todo. Convite para refletir sobre: “A cultura é todo um modo de vida, e as artes são partes de uma organização social que é claramente afetada de forma radical por mudanças econômicas.” Raymond também pontua a questão do marxismo com a economia e a questão de classe. Ele aponta os perigos do reducionismo, em restringir os trabalhadores à uma “massa” moldável, influenciável. A pontuação dele é genial, porque ele é um intelectual que veio de uma origem pobre; ele se sentia desconfortável com os colegas de origem rica se referindo aos trabalhadores como “ignorantes” (uma insatisfação que eu também tenho, visto que eu sou de origem pobre). A classe subalternizada tem a sua própria cultura e é capaz de compreender pressupostos eruditos. O modo de vida da classe trabalhadora é atraente para Williams, porque as tensões, a realidade, as afinidades produzem uma cultura em comum. Isso não pode ser perdido de vista. Nisso, a gente já pode trazer para nossa realidade. A classe trabalhadora brasileira produz cultura, como qualquer outra no mundo, não só nas suas manifestações artísticas, mas no modo de ser, na estética, no vestir, no falar. Ele é marxista, mas ele não fecha 100% com outros marxistas do convívio dele. Por ele ocupar o lugar que ocupa e ter a vivência de pobre, ele consegue enxergar a realidade pelo prisma de quem vive. Ele diz que cultura não se prescreve, por isso há um erro nos socialistas que preconizam um futuro utópico, com um novo horizonte cultural, sem levar em conta a bagagem, os tensionamentos, a memória que a classe trabalhadora carrega. “Uma cultura são significados comuns, o produto de todo um povo, e os significados individuais disponibilizados, o produto de uma experiência pessoal e social empenhada de um indivíduo”. Ele fala dos processos da Inglaterra, de agrícola para industrial, e de como isso afetou a cultura. Também fala em “vulgarização”, sobre a cultura comercial da época. A gente precisa refletir o quanto o modo de vida, o tempo disponível afetam a forma como a gente “consome” ou aprecia a cultura. Também critica quem tem saudosismo de um tempo antigo. Ele reconhece que a industrialização impacta a cultura dos trabalhadores, mas fala da qualidade de vida que melhorou (saneamento, transporte, alimentação). Isso é avanço para os trabalhadores. Mas não deixa de ponderar o impacto ambiental da industrialização. (estamos falando de um texto de 1958, logo, historicizando, ele é um retrato do debate da época). Ele é um marxista, que critica a cultura comercial da época; muita gente dos estudos culturais criticava a massificação da cultura, a reprodutibilidade técnica. Hoje em dia, a gente pode apontar elitismo em quem faz essas críticas, mas na época, elas eram amparadas pelos acontecimentos históricos. A segunda guerra tinha acontecido há pouco tempo, os horrores da propaganda nazista, enfim, um monte de coisa que causava desconfiança nos estudiosos da época. Ele fala que a industrialização e a massificação dos meios tornou as relações sociais mais rasas, o que abre espaço para falta de vínculo e pros preconceitos, em suma, para o desrespeito à outridade. Williams diz que a vulgaridade não é inerente às classes mais baixas, mas resultado das relações sociais e da massificação. A nova cultura de massa e de consumo encontra aceitação por conta das necessidades das audiências. Ele rejeita a ideia de que a educação e a alfabetização popular possibilitaram o surgimento de produtos culturais e midiáticos de “má qualidade”. A crítica dele vai para os pasquins, jornais de escárnio, para produtos grotescos da época. Ele relaciona o crescimento desse tipo de conteúdo à massificação. Alguma semelhança com os dias de hoje? A ideia de relacionar o acesso do povo à educação com cultura grotesca era um projeto elitista da época. Era uma forma de difundir que a educação popular não era boa, porque o povo não sabe o que fazer com ela. Isso criava um imaginário de que a classe trabalhadora era inerentemente grotesca. o Williams critica muito o cinema e a televisão da época, por causa do contexto. Ele olhava para aquelas produções e via algo que não era emergente do povo, mas sim produzido para consumo. Por isso ele atacava a simplificação das narrativas, dos folhetins, do cinema. Ele já julgava esses meios como máquina de propaganda, distração, produtores de alienação. Pela proximidade dele com trabalhadores conhecidos, ele sabe que essas pessoas leem criticamente esses produtos culturais de massa. Logo, ele acusa a indústria, mas pondera. Ele reitera que o povo é capaz, inteligente, articulado. Assim como existem pessoas da elite que estão satisfeitas com o consumo de “baixa cultura”. Williams discorda da proposição de que o consumo de baixa cultura aniquila o de alta cultura. A cultura estaria em expansão, logo, todos os tipos de cultura acompanhariam. Os desejos de Williams: educação para todos, porque instrumentalizaria as pessoas para que se orientem nas possibilidades dadas. A revolução que traria igualdade social teria que estar costurada com a educação da classe trabalhadora. Sem restrições, sem número máximo negociável. Williams critica o tecnicismo, ou seja, o incentivo à educação técnica e voltada apenas para formar trabalhadores. Ele clama por uma educação comum, de base para a sociedade. Reitera a importância das ciênciashumanas e sociais. Propõe reverter os investimentos em propaganda para a educação, mas ciente que isso incomodaria o establishment. Ele fala em centros de recreação comunitários, como alternativas ao consumo de cultura de massa. O caminho não é impor uma cultura ou uma produção cultural revolucionária, mas desobstruir os caminhos para que ela chegue, e aceitar que ela pode ser modificada pela audiência. O espantalho do “eu pago pela educação de vagabundo”: reacionários sozinhos representam uma parcela muito pequena dos subsídios. O custeio da educação em ciências humanas é coletivo. Ele critica a publicidade: os anúncios sustentam a mídia de massa, mas eles representam um apelo ao consumo. Na sociedade capitalista, a cultura de massa e a economia estão costuradas, sendo a cultura de massa a faceta cultural do sistema. Já na época ele criticava a cultura de celebridades, a subsunção do jornalismo ao mercado publicitário, etc. Não chega a oferecer uma solução, mas propõe a reflexão. Ele fecha o texto falando em democracia. Há uma dicotomia no sentido de democracia, entre os capitalistas que não acreditam nela porque querem extrapolá-la, e os socialistas que creem que o sistema resguarda interesses de classe. Williams evoca um sentido original para a democracia, como poder popular. Quem resta acreditar na democracia? Quem ainda não foi contemplado por ela.