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Professor Esp. Nicholas Luciano Krieger PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE REITORIA Prof. Me. Gilmar de Oliveira DIREÇÃO ADMINISTRATIVA Prof. Me. Renato Valença DIREÇÃO DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Me. Daniel de Lima DIREÇÃO DE ENSINO EAD Profa. Dra. Giani Andrea Linde Colauto DIREÇÃO FINANCEIRA Eduardo Luiz Campano Santini DIREÇÃO FINANCEIRA EAD Guilherme Esquivel COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO Profa. Ma. Luciana Moraes COORDENAÇÃO ADJUNTA DE ENSINO Profa. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo COORDENAÇÃO ADJUNTA DE PESQUISA Profa. Ma. Luciana Moraes COORDENAÇÃO ADJUNTA DE EXTENSÃO Prof. Me. Jeferson de Souza Sá COORDENAÇÃO DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal COORDENAÇÃO DE PLANEJAMENTO E PROCESSOS Prof. Me. Arthur Rosinski do Nascimento COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA EAD Profa. Ma. Sônia Maria Crivelli Mataruco COORDENAÇÃO DO DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Luiz Fernando Freitas REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Beatriz Longen Rohling Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Caroline da Silva Marques Eduardo Alves de Oliveira Jéssica Eugênio Azevedo Marcelino Fernando Rodrigues Santos PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Bruna de Lima Ramos Hugo Batalhoti Morangueira Vitor Amaral Poltronieri ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO André Oliveira Vaz DE VÍDEO Carlos Firmino de Oliveira Carlos Henrique Moraes dos Anjos Kauê Berto Pedro Vinícius de Lima Machado Thassiane da Silva Jacinto FICHA CATALOGRÁFICA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP K92p Krieger, Nicholas Luciano Psicologia aplicada à saúde / Nicholas Luciano Krieger. Paranavaí: EduFatecie, 2023. 75 p.: il. Color. 1. Psicologia aplicada. 2. Sistema Único de Saúde. 3. Psicologia clínica da saúde. I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD: 23. ed. 158.1 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 As imagens utilizadas neste material didático são oriundas dos bancos de imagens Shutterstock . 2023 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2023. Os autores. Copyright C Edição 2023 Editora Edufatecie. O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. https://www.shutterstock.com/pt/ 3 Professor Esp. Nicholas Luciano Krieger Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Dante (UNIDANTE). Especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica pela Faculdade de Tecnolo- gia e Ciências do Norte do Paraná (FATECIE). É professor conteudista no Centro Universitário FATECIE; acompanhante terapêuti- co; psicólogo clínico; e assessor universitário. Possui profundo conhecimento e experiência na área da Educação e de Transtornos de Aprendizagem. CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/2294038493591119 AUTOR http://lattes.cnpq.br/2294038493591119 4 Olá, caro(a) aluno(a)! Seja muito(a) bem-vindo(a) à disciplina de Psicologia Aplicada à Saúde. Esta disci- plina apresenta extrema importância para a formação plena do profissional de Psicologia. Ao longo da mesma, exploraremos diferentes temas relacionados ao papel ocupado pela Psicologia no âmbito da saúde pública e derivados, além de contextos, formação e diretrizes relacionadas ao tema em questão. Na Unidade I, trataremos sobre o papel desempenhado pelo profissional de psi- cologia dentro da área da saúde e como a Psicologia Aplicada à Saúde se desenvolve no Brasil e no mundo. Abordaremos também questões éticas e os diferentes conceitos de saúde e de doença. Já na Unidade II, iniciaremos nossos estudos sobre o Sistema Único de Saúde, aprofundando-se nos contextos de sua criação. Dentre os diversos fatores de influência, nos dedicamos a compreender os movimentos higienistas do século XIX; a reforma sanitá- ria no Brasil; a reforma psiquiátrica; e as conferências de saúde e sua importância para a transformação que o sistema de saúde pública brasileiro vivenciou. A seguir, na Unidade III, intensificamos nossos estudos sobre o SUS, seus princí- pios e diretrizes, além de discutir sobre a saúde pública atualmente. Por fim, na Unidade IV, compreenderemos os papéis desempenhados pelo profis- sional de psicologia nas diferentes ferramentas de promoção de saúde pública oferecidas pelo sistema de saúde pública brasileiro. Tenha um excelente estudo! APRESENTAÇÃO DO MATERIAL 5 UNIDADE 4 Ferramentas de Promoção de Saúde Pública e o Papel do Psicólogo Sistema Único de Saúde UNIDADE 3 Contextos da Formação do SUS UNIDADE 2 História e Conceitos da Psicologia Aplicada à Saúde UNIDADE 1 SUMÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos • Psicologia Aplicada à Saúde como campo de atuação do psicólogo; • Psicologia Aplicada à Saúde no Brasil e no mundo; • Ética e a Psicologia da Saúde; • Diferentes conceitos de “saúde” e o processo saúde-doença. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar a Psicologia Aplicada à Saúde; • Compreender o papel do psicólogo no campo em discussão; • Discutir o processo saúde-doença. Professor Esp. Nicholas Luciano Krieger HISTÓRIA E HISTÓRIA E CONCEITOS DA CONCEITOS DA PSICOLOGIA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEAPLICADA À SAÚDE1UNIDADEUNIDADE INTRODUÇÃO 7HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Olá, aluno(a), seja muito bem-vindo(a) à nossa primeira unidade! A Psicologia surge como uma área ampla e repleta de possibilidades. Dentre os diversos campos onde o profissional de psicologia pode desempenhar um papel, a Psico- logia da Saúde surge como uma área exponencial, e conhecimentos relacionados a essa área são de suma importância para a formação de um profissional qualificado, uma vez que, ainda que não desempenhe funções nesse campo específico, é provável que todo profissional de psicologia irá interagir com o mesmo em algum momento de sua carreira. Nesta primeira unidade, buscaremos compreender alguns pontos fundamentais para o desenvolvimento desta disciplina. Conceituaremos, juntos, o que de fato é a Psicologia Aplicada à Saúde e qual o papel do psicólogo nesse campo de atuação, além de analisar as diferentes nuances econtextos dessa área no Brasil e em diferentes regiões do mundo. Abordaremos também questões éticas relacionadas à Psicologia Aplicada à Saúde e como tais questões influenciam diretamente na atuação do profissional de psicologia da área. Por fim, exploraremos os diferentes conceitos de “saúde” e o processo saúde-doen- ça, que foram desenvolvidos ao longo da história de acordo com aspectos culturais, sociais e biológicos de diferentes populações. Convido você a aprofundar seus conhecimentos sobre este tema de suma impor- tância, e lhe desejo bons estudos! PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE COMO CAMPO DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO1 TÓPICO 8HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 A atuação do psicólogo aplicada a saúde é um marco importante que começa a ser fomentado no fim século XX, uma vez que leva o foco dos profissionais para além das doenças de cunho psicológico, buscando compreender o caminho inverso, ou seja, qual o afetamento psicológico que uma doença pode gerar em um indivíduo (ALVES, 2011). Mas essa questão não estava em evidência algumas décadas atrás, em uma breve análise mais histórica, até a década de 1970 o interesse do psicólogo pela área da saúde médica era mínimo, um exemplo disto é que em 1976, a APA1 publica um relatório oficial indicando que os psicólogos do país “não se sentiam atraídos pelas áreas das doenças físicas e da saúde” (ALVES, 2011). Não obstante, na década de 1980, houve uma grande procura sobre o tema, o desenvolvimento de especializações na área e grande volume de pesquisa. Assim, surge um questionamento pertinente: o que mudou? a) Fracasso do modelo biomédico na explicação das doenças e da saúde; b) Crescimento da preocupação com a qualidade de vida e com a prevenção das doenças; c) Mudança da atenção dos profissionais de saúde das doen- ças infecciosas para as doenças crônicas, com o reconhecimento do papel fundamental que o estilo de vida tinha naquelas situações; d) Maturidade da investigação nas ciências comportamentais; e) Aumento dos custos dos cui- dados de saúde e procura de alternativas aos cuidados de saúde tradicionais (ALVES, 2011 apud BELAR, DEARDORFF e KELLY, 1987). Com essas mudanças de mentalidade, as atenções voltam a compreender que a saúde mental não está desassociada a saúde geral, e começa a trazer à tona o conceito de “saúde única”, ou seja, a ideia de que o processo saúde-doença afeta o físico e o psicoló- gico independente da origem do padecimento (BRASIL, 2013). 1 American Psychological Association ou Associação Americana de Psicologia. 9HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Assim, as famosas técnicas individuais e com foco curativo dos profissionais de saúde mental precisaram ser revistas, uma vez que a atuação da psicologia da saúde atua no coletivo, na prevenção e psicoeducação, uma contextualização e desafio novos aos profissionais psicólogos (BÖING, CREPALDI e MORÉ, 2009). Logo, dentro dessa nova contextualização de atuação do psicólogo, existem di- versas ferramentas que podem ser utilizadas de forma eficiente nas estratégias de saúde, pública ou privada: (a) os grupos; (b) terapia de reatribuição; (c) terapia comunitária; (d) terapias cognitivas comportamentais de ativação; (e) mediação de conflitos; (f) Terapia Interpessoal Breve (TIB) (BRASIL, 2013). a. Os grupos são uma forma complexa de cuidado, mas são produtores de saúde coletiva e contextualizados. Eles podem ser formados por nichos e objetivos es- pecíficos, como localização, gênero, idade e/ou sofrimentos similares. Os grupos podem trabalhar com dinâmicas, atividades recreativas e até mesmo artesanato (BRASIL, 2013). b. A terapia de reatribuição é uma ferramenta utilizada em casos de indivíduos que procuram o serviço de saúde com queixas e sintomas sem causa aparente, e após as investigações médicas permanecem sem causa. Nesses casos, existe sim um sofrimento, mas a pessoa não consegue identificar e associar o sofrimen- to aos sintomas, assim, o papel do psicólogo é localizar o sujeito dos sofrimentos causadores dos sintomas apresentados. c. A terapia comunitária é organizada em espaços públicos, possibilitando a troca de experiências e vivências, sendo um processo terapêutico circular onde todos contribuem para o andamento da sessão, e possibilita mudanças no coletivo e no individual (BRASIL, 2013). d. Ainda pouco conhecidas, as terapias cognitivas comportamentais de ativação são planos de atuação desenvolvidos pelo psicólogo visando inserir novamente na rotina do usuário do sistema de saúde em tratamento, as atividades de lazer. Pode ser individual ou em grupo, e começa trabalhando quais as atividades pra- zerosas e segue montando uma agenda ou guia para que o grupo ou o indivíduo volte a realizar essas atividades (BRASIL, 2013). e. Normalmente utilizados quando existem relações familiares disfuncionais que estão causando sofrimento ao indivíduo. A mediação de conflitos atua pontual- mente com o círculo de relacionamento envolvido em conflito e visa procurar opções cabíveis (BRASIL, 2013). f. Terapia Interpessoal Breve (TIB) são sessões rápidas de até 30 minutos re- comendadas para pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas, e possui como foco acolher e elencar estratégias de enfrentamento (BRASIL, 2013). PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE NO BRASIL E NO MUNDO2 TÓPICO 10HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 A partir da década de 1970, as aplicações da psicologia dentro do campo da saúde aumentaram esporadicamente no Brasil e no mundo. Assim, em 1996, Sherr (Alves,2011, p. 300) propôs uma matriz de identificação de situações que precisam da atuação do psicólogo: TABELA 01: MATRIZ FIGURATIVA SOBRE DIFERENTES MODOS DE INTERVENÇÃO Problemas Psicológicos Médicos Intervenção psicológica A B Intervenção médica C D Fonte: Alves (2011, p. 300) apud Sherr (1996). Conforme a matriz acima, os casos A seriam aqueles com claros afetamentos psico- lógicos que precisam de intervenção psicológica apenas (ex.: problemas de insegurança); na área B encontram-se casos de problemas médicos, mas que necessitam de apoio psi- cológico (ex.: câncer); os casos C são problemas psicológicos que precisam de intervenção médica (ex.: esquizofrenia); por fim, os casos da área D são aqueles sofrimentos físicos que não precisam de intervenção psicológica (ex.: fraturas). Entretanto, em alguns países ainda é difícil delimitar o papel do psicólogo na Saúde e sua área de atuação. Um exemplo é o Reino Unido, onde o psicólogo clínico é aquele que atua diretamente com os sofrimentos (ansiedade, depressão, esquizofrenia), e o psicólogo da saúde é aquele que estuda o processo de saúde-doença. Já nos EUA, o psicólogo da saúde é responsável pelo acompanhamento terapêutico daqueles indivíduos que estão 11HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 passando por algum processo de adoecimento físico, deixando os padecimentos psicológi- cos para outro profissional (ALVES, 2011). Não obstante, no Brasil, o psicólogo da saúde acaba atuando, na matriz de Sherr (1996), em casos exclusivamente psicológicos, tanto quanto casos de afetamentos físicos. Desde a década de 70, os psicólogos brasileiros têm atuado na área da saú- de, sobretudo na atenção terciária, no que tem sido denominado Psicologia Hospitalar. Mas a prática psicológica no contexto da atenção primária à saú- de, hoje no Brasil, ainda se acha em construção, devido ao pouco tempo de inserção do psicólogo nesse espaço (BÖING, CREPALDI e MORÉ, 2009). Logo, a atenção básica à saúde é a forma de possibilitar o primeiro acesso do indivíduo ao sistema de saúde (SUS2), tendo em vista que essa atuação tende a ser contex- tualizada, permitindo aos profissionais de saúde a compreensão dos cenários e estruturas familiares. É fundamental que nesse acolhimento, seja reconhecida a necessidade de encaminhamento e acompanhamento do profissional psicólogo (BRASIL, 2013).2 Sistema Único de Saúde ÉTICA E A PSICOLOGIA DA SAÚDE3 TÓPICO 12HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Sendo a atuação do psicólogo na saúde cheia de contextos diferentes, alta demanda e rotatividade, além de diversos níveis de complexidade, a ética com foco em redução de danos precisa ser a norteadora de todas as atividades desenvolvidas, visto que uma abor- dagem não necessariamente será eficiente em todos os casos atendidos (BRASIL, 2013). Outra nuance que cabe a ética profissional, é quanto a equipe multidisciplinar, ou seja, saber quais informações precisam ou não ser compartilhadas com os demais profis- sionais que estão atuando ativamente nos tratamentos daquele indivíduo, uma vez que o código de ética do psicólogo prevê no art. n.º9 a confidencialidade dos casos atendidos, e, já no art. n.º12 afirma que em situações de trabalho multidisciplinar apenas a informação estritamente necessária deve ser compartilhada (ALVES, 2011). Art. 9º – É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organi- zações, a que tenha acesso no exercício profissional. [...] Art. 12. Nos documentos que embasam as atividades em equipe multipro- fissional, o psicólogo registrará apenas as informações necessárias para o cumprimento dos objetivos do trabalho. (CRP, 2019, p.13). Neste tópico também é válido destacar o 2º dos princípios fundamentais do Código de Ética Profissional do Psicólogo, onde está escrito: O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades, e contribuirá para a eliminação de quaisquer for- mas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opres- são (CRP, 2019, p.8). 13HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Baseando-se nesse princípio, o profissional de psicologia, dentro de um contexto de saúde, precisa estar atento para novas formas de promover o bem-estar dos usuários dos diversos sistemas de saúde existentes. Corroborando com as delimitações de saúde atuais: A política de saúde construída no Brasil, a partir do esforço da sociedade em seu processo de redemocratização e que culminou com a Constituição de 1988, tem em seu arcabouço elementos para o desenvolvimento de ações e estratégias de promoção da saúde. Os princípios de universalidade, integrali- dade e equidade, e as diretrizes de descentralização e organização hierarqui- zada, podem ser potencializados a partir do olhar e de ações de promoção da saúde, contribuindo para a qualificação do Sistema Único de Saúde, e a partir deste para a construção de uma ampla aliança nacional tendo como centro a qualidade de vida (BRASIL, 2002). Embora a ética seja um dos fundamentos do exercício da profissão de psicólogo (a), uma vez que o profissional está inserido, portanto, no campo da saúde pública, é evidente a importância do respeito não apenas ao código de ética da profissão, mas também aos padrões éticos e diferentes nuances que permeiam o campo da saúde pública, com seus diferentes profissionais e públicos atendidos. DIFERENTES CONCEITOS DE “SAÚDE” E O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA4 TÓPICO 14HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Definir o que é saúde é um processo complexo, repleto de vozes e conceitos. E o primeiro caminho existente é a realidade dualidade, onde saúde é o oposto direto de doença. Mas essa é uma definição que gera polêmicas, porque levanta uma série de outras dualidades, como o normal e o anormal. Dentro da definição ética de saúde temos, de acordo com Alves (2011), que “saúde é questão relativa à autonomia dos sujeitos, sendo, por isso, matéria relativa à felicidade”. Nesse contexto, doença é aquilo que impede o sujeito de alcançar a felicidade. Para além das reflexões filosóficas, é possível definir a doença como sendo uma alteração física ou mental que perturba as funções do indivíduo. E, dentro do adoecimen- to mental, essa definição é fundamental, uma vez que - a exemplo - uma pessoa pode apresentar uma sintomática ansiosa, mas se isso não perturba a realização das funções cotidianas, ela pode nunca ser diagnosticada com ansiedade. À guisa de ilustração, pensemos, por exemplo, a loucura que, como toda doen- ça, comporta uma história natural (ou clínica), escrita e descrita pela psiquia- tria, ao falar de fatores predisponentes e desencadeantes, fatores causais ou etiológicos, incidências, prevalências, prognósticos, comportando, também, uma história social, tão bem contada por Michel Foucault (1978), ao lado de uma história individual da loucura de cada louco (ALVES, 2011, p.134). Ademais, “saúde” é sim um termo que tende a abstração, visto que ela engloba os fatores relacionados à qualidade de vida, lazer, bem-estar, redes de apoio, etc. Esses são 15HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 fatores que podem ser culturalmente variáveis, ou seja, pode-se definir o que é a doença, mas dificilmente define-se a saúde, porque ela é um contexto. Visto isso, o adoecer também é um contexto, pois por trás de um diagnóstico exis- te uma rede de acontecimentos que vão além de fatores puramente biológicos. Assim é possível afirmar, que se a construção da saúde de um indivíduo apresenta alguma falha, ele tende ao adoecimento. Como exemplo, pode-se citar as doenças gastrointestinais, que possuem predisposições genéticas em alguns casos, mas em suma estão fortemente atreladas ao excesso de estresse e má alimentação (BRASIL, 2013). 16HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Convido você a refletir sobre o que de fato define um profissional essencial dentro da Atenção Básica à Saúde. Embora desempenhe um papel importantíssimo na promoção da saúde mental e, consequentemente, integral da população em geral, o psicólogo não é considerado um profissional de presença obrigatória na Estratégias Saúde da Família (ESF). Inclusive, o termo “psicólogo” é citado apenas uma vez em toda a Política Nacional de Atenção Básica. Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. 114p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/ pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/estrategia-saude-da-familia/legislacao/politica-nacional-atencao- basica-2012.pdf/. Acesso em: 21 mai. 2023. Entendemos que as práticas em saúde mental na Atenção Básica podem e devem ser realizadas por todos os pro- fissionais de Saúde. O que unifica o objetivo dos profissionais para o cuidado em saúde mental deve ser o entendi- mento do território e a relação de vínculo da equipe de Saúde com os usuários, mais do que a escolha entre uma das diferentes compreensões sobre a saúde mental que uma equipe venha a se identificar. Mesmo os profissionais especialistas em saúde mental elaboram suas intervenções a partir das vivências nos territó- rios. Ou seja, o cuidado em saúde mental não é algo de outro mundo ou para além do trabalho cotidiano na Atenção Básica. Pelo contrário, as intervenções são concebidas na realidade do dia a dia do território, com as singularidades dos pacientes e de suas comunidades. Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, n. 34. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 173 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ publicacoes/cadernos_atencao_basica_34_saude_mental.pdf. Acesso em: 16 abr. 2023. https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/estrategia-saude-da-familia/leg https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/estrategia-saude-da-familia/leg https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/estrategia-saude-da-familia/leg https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cadernos_atencao_basica_34_saude_mental.pdf 17HISTÓRIAE CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Ao longo desta apostila verificamos o papel do psicólogo nos contextos da saúde, em como essa atuação é vista no Brasil e no mundo, os processos éticos que permeiam a atuação desse profissional e por fim, o que se pode definir como saúde. Todos esses conceitos apresentados são as bases fundamentais para compreen- der a complexidade da atuação da psicologia da saúde e suas possibilidades, porque, conforme visto anteriormente, a saúde precisa ser concebida como “única”, uma vez que nada é sentido no corpo que não transpasse para a mente, e nada é sentido na mente que não demonstre no corpo. Inauguramos assim nossa disciplina de Psicologia Aplicada à Saúde. Nos encon- tramos na próxima unidade! CONSIDERAÇÕES FINAIS 18HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 DETERMINANTES SOCIAIS DE SAÚDE: O QUE SÃO E QUAL SUA IMPORTÂNCIA? Os determinantes sociais de saúde são atribuídos às condições em que os indiví- duos vivem e trabalham. Além disso, são considerados outros fatores que podem colocar a saúde da população em risco, como, por exemplo, aqueles de ordem econômica, social, étnica, regional, psicológica, cultural e comportamental. De acordo com a Fiocruz, estudos nessa área podem apresentar muitas variações. Isso acontece porque os determinantes sociais de saúde não devem ser vistos apenas sob o ponto de vista das doenças geradas. Mas, também, considerando todo o leque de problemas que eles podem acarretar ao indivíduo e à sociedade. Esses problemas, portanto, podem ser observados no âmbito psicológico, na qua- lidade de vida ou na experiência mais geral do que deveria ser uma vida saudável. Para entender melhor a atuação desses fatores, é preciso compreender a dificuldade em se criar uma hierarquia entre eles, já que atuam de formas diferentes em cada indivíduo. É notável, no entanto, que as desigualdades sociais são grandes causadoras de problemas de saúde, e que suas consequências são extremamente amplas e danosas. É preciso pensar, então, em formas de combatê-la – até mesmo para garantir a saúde e a qualidade de vida de grande parte dos brasileiros. Quais são os principais determinantes sociais de saúde? Os determinantes sociais de saúde podem ser divididos em dois grupos: os deter- minantes sociais estruturais e os determinantes sociais intermediários. O primeiro grupo diz respeito aos fatores mais ligados às desigualdades sociais, apresentando um impacto mais difícil de se contornar e, em geral, mais grave. Portanto, os determinantes sociais estruturais dizem respeito justamente à estrutura da sociedade. Sendo assim, tratam principalmente de classe social e acesso à educação, por exemplo, abordando também raça e etnia, gênero e sexualidade. Já os determinantes sociais intermediários, apesar de também envolver as dife- renças sociais, são mais sutis e geralmente englobam outros fatores que também podem comprometer uma vida saudável. Nesse sentido, se relacionam a condições de trabalho, disponibilidade de alimentos e ainda à prática de exercícios físicos. Por fim, é bom notar: embora esses determinantes sejam classificados separada- mente, na vida real, de fato, estão muito inter-relacionados. Uma pessoa de classe baixa, por exemplo, terá menos acesso a alimentos e provavelmente condições de trabalhos piores. LEITURA COMPLEMENTAR 19HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Como os determinantes sociais de saúde afetam a minha rotina? De acordo com um artigo de pesquisadores da Fiocruz, os determinantes sociais são totalmente relacionados à rotina. Dessa maneira, para fazer um mapeamento correto a respeito dos mesmos, também é preciso observar com atenção a rotina das pessoas e perceber os possíveis fatores que podem desencadear problemas. Por isso é tão importante buscar informações a respeito de fatores como as condi- ções de trabalho de uma pessoa, a prática de exercícios, a alimentação, a sua classe social, sua etnia e seu gênero. Afinal, não se trata só de elementos teóricos, mas de aspectos práticos que podem fornecer subsídios inclusive para as políticas públicas de saúde. Esses fatores, no entanto, não estabelecem de forma absoluta que todas as pes- soas de determinada classe, gênero ou etnia vão ter sempre mais problemas de saúde, ou até mesmo irão morrer mais cedo. Afinal, cada indivíduo concreto pode ter peculiaridades que vão entrar em confluência ou dissonância em relação ao seu grupo social. Os pesquisadores, nesse sentido, têm como uma das principais preocupações a observação da rotina e o compartilhamento de informações, visando perceber onde há pro- blemas que precisam ser combatidos. Cabe a eles, então, indicar ações no âmbito nacional, local ou até internacional que melhorem a qualidade de vida de todos os grupos sociais. Qual a importância dos determinantes sociais de saúde? A importância dos determinantes sociais de saúde diz respeito justamente à cons- trução de uma visão mais ampla e moderna a respeito do processo de saúde-doença. Dessa forma, ele passa a não ser visto apenas como um estado de ausência de doenças, mas como um estado de bem-estar físico, social e até mesmo mental bem mais amplo. No passado, a condição de saúde era vista a partir de uma perspectiva de unicausa- lidade. Ou seja, todas as doenças que eventualmente se manifestassem eram vistas como se tivessem uma única origem. Numa visão mais atual, no entanto, foi bastante ampliada a consciência de que a doença se refere a um conjunto bem mais complexo de sintomas e sinais. A saúde não se resume, portanto, à eventual ausência de alguma enfermidade. E a doença, por sua vez, atinge as pessoas de formas diferentes, podendo provocar reações também bastante variadas. Sendo assim, podemos notar que os dois conceitos não são tão opostos, como poderia parecer numa visão mais simplista. Nesse sentido, focar em esforços para entender os determinantes sociais de saúde ajuda a tratar as doenças a partir de uma perspectiva da multicausalidade. A partir disso, é possível abarcar todo um leque bem complexo de variáveis inter-relacionadas e dinâmicas que podem levar ao adoecimento de uma população. 20HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 Qual é a linha de atuação dos profissionais que estudam os determinantes sociais de saúde? Os profissionais dessa área atuam promovendo e apoiando pesquisas sobre os de- terminantes sociais de saúde em várias regiões do país. Trabalham, também, para pensar e propor medidas mais consistentes e eficazes no contexto das políticas de saúde. Dessa maneira, esses profissionais produzem conhecimento sobre a relação entre os determinantes sociais e o acesso à saúde no Brasil. Eles analisam índices gerais, fazem pesquisas de campo e trabalham com a observação de rotinas que podem levar a riscos específicos em cada área do país. Junto com a sociedade civil, esses pesquisadores podem contribuir muito para a diminuição das iniquidades na área da saúde no Brasil. Eles, afinal, também podem atuar fortemente na conscientização da população, promovendo ações que visem melhorar o acesso a uma vida saudável para todas as pessoas. Para conhecer mais sobre o assunto, recomendamos o acesso ao portal da Comis- são Nacional sobre os Determinantes Sociais de Saúde (CNDSS), no qual se encontram registros fascinantes a respeito do trabalho que é realizado no Brasil. Fonte: ZELLO. Determinantes sociais de saúde: o que são e qual sua importância? Zello Saúde, Rio de Janeiro, 2021. Disponível em: https://zellosaude.app/determinantes-sociais-de-saude-o-que-sao-e-qual-sua-importancia/. Acesso em: 21 mai. 2023. MATERIAL COMPLEMENTAR 21HISTÓRIA E CONCEITOS DA PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDEUNIDADE 1 FILME/VÍDEO • Título: Estamira • Ano: 2006. • Sinopse: Trabalhando há cerca de duas décadas em um aterro sanitário, situado em Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, Esta-mira Gomes de Sousa é uma mulher de 63 anos, que sofre de distúrbios mentais. O local recebe mais de oito mil toneladas de lixo da cidade do Rio de Janeiro, diariamente, e é também sua moradia. Com seu discurso filosófico e poético, em meio a frases, muitas vezes, sem sentido, Estamira analisa questões de interesse global, fala também com uma lucidez impressionante e permite que o espectador possa repensar a loucura de cada um, inclusive a dela, moradora e sobrevivente de um lixão. LIVRO • Título: Psicologia da Saúde: Uma Abordagem Biopsicossocial • Autor: Richard O. Straub. • Editora: Artmed. • Sinopse: Leitura obrigatória para estudantes da área da saúde mental, Psicologia da saúde utiliza o modelo biopsicossocial como parâmetro para abordar os conceitos de bem-estar físico e mental e a forma como eles se inter-relacionam. Nesta terceira edição, completamente revisada, Richard O. Straub apresenta as informa- ções mais atuais do campo e inclui exemplos que auxiliam o leitor a estabelecer conexões significativas com sua própria vida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos • Movimentos higienistas do século XIX; • Reforma sanitária no Brasil; • Reforma psiquiátrica; • Conferências de Saúde. Objetivos da Aprendizagem • Compreender fatores históricos vitais para o desenvolvimento da saúde pública; • Discutir a situação da saúde no Brasil anterior à criação do SUS; • Analisar o contexto sócio-histórico que conduziu à formação do SUS. Professor Esp. Nicholas Luciano Krieger CONTEXTOS DA CONTEXTOS DA FORMAÇÃOFORMAÇÃO DO SUSDO SUS2UNIDADEUNIDADE INTRODUÇÃO 23CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 Olá, aluno (a) seja bem-vindo! Podemos começar essa unidade pensando sobre “qual o impacto social, político e econômico de um sistema de saúde?”. Isso porque, desde os primórdios da civilização, a saúde como manutenção primária da vida tem sido discutida como parte importante da sociedade. Pois, além de uma forma de bem-estar dos indivíduos, a saúde é um importante setor econômico, produzindo empregos, serviços e bens (PAIM, 2015). Pense por um minuto e liste mentalmente: quantos itens ou serviços relacionados a saúde você utilizou essa semana? Em uma breve análise é possível identificar os produtos mais cotidianos e simples, como uma aspirina para dor de cabeça ou um curativo para um arranhão, até os serviços complexos de cirurgias e exames laboratoriais. Tudo isso é saúde. Outra pergunta pertinente é “o que a sociedade espera do setor de saúde?”, basicamente, os indivíduos esperam que esse setor cuide das pessoas e das comunida- des, gerando - muito além da ausência de doenças - qualidade de vida. Logo, em um país como o Brasil, em que se propõe um sistema de saúde como política pública, é preciso que neste sistema estejam englobados desde medidas preventivas até os cuidados específicos e encaminhamentos necessários aos usuários do serviço (PAIM, 2015). Perguntas para refletir ao longo da unidade: 01. Uma reforma sanitária é um marco histórico ou uma evolução diária? 02. O que existia em termos de saúde pública antes do SUS? 03. Quanto do modelo manicomial ainda faz parte da sociedade brasileira? 24CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 MOVIMENTOS HIGIENISTAS DO SÉCULO XIX1 TÓPICO Conhecer a história da organização sanitária no Brasil é fundamental para compreen- der que a implementação do SUS foi uma conquista de longa data. E por séculos, desde o Brasil colônia, o atendimento especializado era restrito às classes sociais de destaque - como nobreza e militares -, enquanto a população ficava à mercê da caridade religiosa - com o advento das Santa Casas em 1543. Entretanto, focaremos esse capítulo nos cenários higienistas do século XIX, que chegaram ao Brasil por inspiração da cultura grega, onde o capital humano era visto como recurso de maior valor de uma nação (JUNIOR, 2007). Preconizando normas e hábitos que colaborariam com o aprimoramento da saúde coletiva e individual, o “movimento higienista” era altamente heterogê- neo sob o ponto de vista teórico (nos seus fundamentos biológicos e raciais) e ideológico (liberalismo e antiliberalismo) (JUNIOR, 2007, p.5). Os movimentos higienistas no Brasil desempenharam um papel fundamental na promoção da saúde pública e na transformação das condições sanitárias do país ao longo dos séculos XIX e XX. Esses movimentos surgiram a partir da influência do pensamento europeu sobre higiene e saúde, e buscavam melhorar as condições de vida das popula- ções, principalmente nas áreas urbanas. Neste texto, exploraremos os avanços e desafios enfrentados pelos movimentos higienistas no Brasil, com base em citações e referências bibliográficas relevantes. Entretanto, no cenário nacional, os movimentos higienistas foram idealizados pelas elites sociais, mais como forma de “limpeza” dos conglomerados habitacionais indesejados, do que por prestígio ao capital humano. Junior (2007), traz um recorte do livro Habitação e Vizinhança de 1998, que diz: 25CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 “A ambição de arrancar do seio da capital as habitações e moradores inde- sejados pelas elites dirigentes começou a se materializar com as medidas, visando à demolição dos numerosos cortiços e estalagens, espalhados por todas as freguesias centrais do Rio de Janeiro, o que se procedeu sob a legiti- mação conferida pelo sanitarismo” (JUNIOR, 2007, p.6 apud MARINS, 1998). Porém, quais foram as ações consideradas dentro dos movimentos higienistas no Brasil? Pode-se começar citando a criação da Inspetoria Geral de Higiene, que começou com as primeiras intervenções de higiene nas escolas e fábricas. Em outro caminho, a visão sanitarista das elites promoveu demolições em massa de cortiços, obrigando a popu- lação de baixa renda - em grande parte ex-escravos - a migrar para a periferia da cidade. Em outra vertente ainda, buscando prevenir a propagação de epidemias, muitas cidades organizam frentes de vacinação obrigatória (PAIM, 2015). Todas essas tentativas e leis que buscavam promover uma “higienização” das cidades, além de qualidade de vida e saúde, acabaram gerando comoções sociais - como a revolta da vacina - por não terem sido planejadas estratégias de conscientização da população geral. Foram apenas cinco dias, mas marcaram a história da saúde pública no Bra- sil. No início de novembro de 1904, o Rio de Janeiro, então capital federal, foi palco da maior revolta urbana que já tinha sido vista na cidade. A Revolta da Vacina deixou um saldo de 945 prisões, 110 feridos e 30 mortos, segundo o Centro Cultural do Ministério da Saúde. O estopim da rebelião popular foi uma lei que determinava a obrigatoriedade de vacinação contra a varíola. Mas havia um complexo e polêmico panorama social e político por trás da revolta, e diferentes fatores ajudam a explicar melhor os protestos (DANDARA, 2022). Assim, por mais caótico que esses movimentos tenham se tornado, eles foram o estopim para a futura reforma sanitária que ganhou força no século XX - conforme estuda- remos no próximo capítulo. 26CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 REFORMA SANITÁRIANO BRASIL2 TÓPICO Diz-se que toda reforma surge de um cenário em crise, entretanto, conforme deixa claro Ferigato, Campos e Ballarin (2007), a crise não é um item individual, mas um fenôme- no global que pode ser considerado um fundamento da existência humana. Segundo Moebus e Fernandes (s.d.), a palavra crise em sua origem grega (kri- sis) caracteriza um estado no qual uma decisão tem que ser tomada. A origem filosófica da palavra é também extremamente rica e encerra o sentido originá- rio da crise. Como nos aponta Boff (2002), a palavra sânscrita para crise é kri ou kir – e significa “desembaraçar”, “purificar”. O português conservou ainda a palavra crisol, elemento químico que purifica o ouro das gangas, limpando-o dos elementos que se fixaram no metal pelo seu processo vital ou histórico e, ao longo do tempo, tomaram conta de seu cerne a ponto de comprometerem sua substância em si (FERIGATO, CAMPOS e BALLARIN, 2007). Assim, levanta-se a questão: qual situação de crise a reforma sanitária procurou resolver? A crise do baixo acesso à saúde. O sistema até então vigente era centralizado e escasso no território nacional. Essa organização foi transformada pela reforma sanitária que lutou pela ampliação dos sistemas de saúde pública em níveis municipais (MENDES, 2011). Entretanto, a resolução dessa crise levou ao surgimento de uma nova: a munici- palização autárquica, que pode ser definida como a corrida entre os municípios na busca por recursos nacionais escassos. Esse paradigma precisou ser vencido e substituído pelo sistema de cooperação intermunicipal em prol de um sistema de saúde que, ao mesmo tempo que era nacional, atuava em frentes de atenção municipal (MENDES, 2011). Conforme visto no tópico anterior, existia no Brasil uma espécie de “não sistema de saúde”, e essa não sistematização se estendia também para as condições sanitárias 27CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 do país. Uma vez que existia uma filosofia estatal de que o Poder Público só atuaria onde a iniciativa privada e os indivíduos por si só não conseguissem resolver. Isto gerou uma descontinuidade na organização sanitária, de forma que uma ação não se vinculava a nenhuma outra - causando, por exemplo, a criação de encanamentos duplicados - o que gerou diversos gastos desnecessários (PAIM, 2015). Assim, no século XX começou-se a pensar na estruturação de uma reforma social que permitisse criar programas de saúde e prevenção aos quais toda a população tivesse acesso. Dois fatores fundamentais para que essa ideia se tornasse possível foi a criação do CEBES1 em 1976 e a criação da revista Saúde em Debate. a) Democratização da saúde, o que implica a elevação da consciência sa- nitária sobre saúde e seus determinantes, e o reconhecimento do direito à saúde, inerente à cidadania, garantindo o acesso universal e igualitário ao Sistema Único de Saúde e participação social no estabelecimento de políti- cas e na gestão; b) democratização do Estado e seus aparelhos, respeitando o pacto federativo, assegurando a descentralização do processo decisório e o controle social, bem como fomentando a ética e a transparência nos gover- nos; c) democratização da sociedade alcançando os espaços da organização econômica e da cultura, seja na produção e distribuição justa da riqueza e do saber, seja na adoção de uma “totalidade de mudanças”, em torno de um conjunto de políticas públicas e práticas de saúde, seja mediante uma refor- ma intelectual e moral (PAIM, 2008). É válido ressaltar, que esse movimento - mesmo que pareça aos olhos atuais uma boa estratégia de saúde e prevenção - gerou vertentes críticas, principalmente em cunho político. O principal argumento utilizado era que uma reforma tão radical teria muita simila- ridade com o socialismo, que no contexto da época permeado pelo fantasma da guerra fria, era algo inconcebível. Ademais, com a saúde sendo um direito e estando ela mais acessível a todos, o Brasil caminhava vagarosamente para o surgimento do SUS. Não obstante, também o acesso aos hospitais psiquiátricos foi ampliado, gerando ao final do século XX um abarro- tamento de pacientes manicomiais em situação de insalubridade, abrindo assim as cortinas para que a reforma psiquiátrica fosse possível. 1 Centro Brasileiro de Estudos de Saúde. 28CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 REFORMA PSIQUIÁTRICA3 TÓPICO Antes de falar sobre a reforma psiquiátrica em si, é necessário realizar uma breve contextualização de como se dava o cuidado e a atenção às crises de ordem psiquiátrica antes dos movimentos reformistas do século XX e XIX (Ferigato, Campos e Ballarin, 2007). Vale ressaltar que crises acometeram todos os indivíduos do mundo em algum momento e em algum grau. Sendo assim, imagine viver em um cenário onde um momento de ins- tabilidade emocional pode levar a pessoa para uma vida de internação, descaso e tortura psiquiátrica. Esse é o contexto existente no ‘século dos manicômios’. Desde o início da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial, podemos ve- rificar uma considerável reformulação da assistência em Saúde Mental, que, para oferecer um tratamento não asilar/hospitalocêntrico e também não ex- cludente, tem investido significativamente nos “serviços de atenção à crise”, dentre eles os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial) e CERSAMs (Centros de referência de Saúde Mental). (FERIGATO, CAMPOS e BALLARIN, 2007). O que permitiu que a comunidade psiquiátrica nacional chegasse ao ápice dos hospitais psiquiátricos e semelhantemente sofresse as mudanças necessárias para a refor- ma foi a evolução do conceito de loucura com o passar do tempo, sendo uma construção cultural e histórica. Um exemplo, é que a “crise psicótica” do século XX já foi chamada de demonstração de sabedoria, tanto quanto de possessão demoníaca e bruxaria (Ferigato, Campos e Ballarin, 2007). E, assim como o conceito de loucura evoluiu com o passar do tempo, as formas de enfrentamento também passou por atualizações: de exorcismos e fogueiras, para confinamento e eletrochoque, até que, após a reforma psiquiátrica, ganhou forma nos cuidados psicossociais hoje oferecidos pelos CAPS e RAPS. 29CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 Portanto, a mudança da forma de assistência em saúde mental, é fruto de uma mudança de mentalidade social. Uma vez que predominou durante o tempo da psiquiatria clássica, a ideia de que tudo que fere a homeostase do indivíduo - delírio, ansiedade, problemas comportamentais - necessita ser afastado do convívio social e “curado” (FERI- GATO, CAMPOS e BALLARIN, 2007). Durante a maior parte da história de atenção ao portador de sofrimento psíqui- co, principalmente o período da psiquiatria clássica – asilar, hospitalocêntrica - a crise e toda complexidade de uma existência de sofrimento foi reduzida ao que podemos chamar de “agudização da sintomatologia psiquiátrica”. Po- demos aqui citar uma série de sintomas já catalogados como característicos: delírios, alucinações visuais e auditivas, agressividade, agitação psicomoto- ra, etc. A supressão desta sintomatologia buscaria a homeostase, a partir de um modelo de adaptação e estabilização, entendidos como positivos. O que rompe com tal homeostase e organização é, automaticamente, entendido como algo destrutivo (FERIGATO, CAMPOS e BALLARIN, 2007). Logo, quando falamos em reforma psiquiátrica, precisamos entender que esse pro- cesso trouxe um novo olhar sobre o sujeito que sofre. Entre as características desse novo olhar, podemos citar: (a) a valorização da pessoa; (b) a implementação da escuta do paciente como ferramenta terapêutica; (c) a concepção de que o sujeito que sofre também tem uma corporeidade, ou seja, um corpo que sente; (d) a utilização do psicofármaco como auxiliador do tratamento e não como fator de cura (FERIGATO, CAMPOS e BALLARIN, 2007). Só após essa mudança conceitual ser defendida e ampliada no territórionacional, é que foi possível organizar a estrutura para uma mudança estrutural e metodológica do processo de enfrentamento do sofrimento psíquico - em qualquer grau. Com o acesso aos hospitais psiquiátricos se tornando mais fácil à população, o nú- mero de pacientes crescia exponencialmente após a reforma sanitária. Assim, em meados de 1970, os psiquiatras recém-formados do país começaram a levantar as questões de descaso, violência e insalubridade vividos dentro das paredes do “manicômio” (Amarante e Nunes, 2018). A partir de uma carta encaminhada ao Ministro da Saúde com denúncias e reivindicações, foram demitidos 260 profissionais, desencadeando um pro- cesso de novas denúncias, manifestações e matérias na imprensa durante vários meses. É neste cenário de redemocratização e luta contra a ditadura, relacionando a luta específica de direitos humanos para as vítimas da vio- lência psiquiátrica com a violência do estado autocrático, que se constituiu o ator social mais importante no processo de reforma psiquiátrica (RP). Isto irá influenciar de forma significativa a construção das políticas públicas, não só na saúde, mas em outros setores (cultura, justiça, direitos humanos, trabalho e seguridade social) (AMARANTE e NUNES, 2018). 30CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 De acordo com esse cenário, surge o que se nomeia como “reforma psiquiátrica” no Brasil, que, em suma, baseia-se na série de estratégias de desinstitucionalização dos cuidados à saúde mental. Este movimento também engloba uma grande atualização de serviços e tecnologias no cuidado a esses indivíduos, além da luta por uma nova constru- ção social da loucura (AMARANTE e NUNES, 2018). Segundo Nunes, Jucá e Valentim (2007), a reforma psiquiátrica nasce a partir da reforma sanitária. De acordo com os autores, o Brasil seguiu uma tendência que vinha sen- do efetivada também em outros países do mundo, partindo do princípio de que um número considerável de problemas em saúde mental poderia ser resolvido no nível de atenção básica, além da necessidade de políticas de prevenção e promoção de saúde mental. No Brasil o documento que legitimou os direitos à saúde mental foi a Lei n.º 10.216, de 06 de abril de 2001, fruto de um longo processo de discussão entre grupos no país inteiro. Nos seus primórdios, a Reforma Psiquiátrica convergiu com o movimento sanitarista brasileiro, caracterizando-se com o ingresso dos profissionais PSI nos espaços de políticas e estratégias de saú- de no Estado na tentativa de integrar o cuidado à saúde. (PEREIRA, 2019, p.16, apud AMARANTE, 2013). Tendo em vista esse cenário emergente, a necessidade de tratamentos mais hu- manitários se torna aliada das intervenções anti-internação dos pacientes psiquiátricos, dando espaço para que na década de 1980 surgisse o primeiro CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) em São Paulo - entretanto, o direito à saúde mental só foi legitimado em 2001. Mas para que toda mudança pensada e defendida, realmente saísse do campo das ideias e movimentasse o método de cuidado para com os pacientes, foi preciso que o tema ganhasse espaço nas Conferências Nacionais de Saúde Mental (ALVES, 2011). 31CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 CONFERÊNCIAS DE SAÚDE4 TÓPICO Conforme estudado nos tópicos anteriores, para que uma grande mudança aconteça no sistema de saúde vigente, é preciso primeiramente a identificação de uma crise e uma transformação conceitual e de pensamento vigente. Como exposto por Mendes (2011, p.11): Toda grande transformação social parte necessariamente de um corpo de ideias que desafia as bases que sustentam uma determinada realidade que obstacu- liza avanços e dá sinais de esgotamento. Toda mudança profunda da realidade implica a construção de consensos e convergências que conquistam corações e mentes, mobilizando as forças políticas e sociais necessárias à sustentação do processo de transformação. A prática, sem uma boa teoria, é cega. A teoria, desvinculada da ação transformadora, é estéril. A boa teoria quando se trans- forma em força social ganha a capacidade de revolucionar a vida. A prática mi- litante, munida de uma boa teoria, ganha profundidade e dimensão estratégica. Logo, em diferentes níveis, as conferências de saúde desempenham um papel crucial na disseminação do conhecimento científico e na promoção do debate e da colaboração no campo da saúde. Durante a I Mostra Nacional de Educação Permanente em Saúde (2015), foi levantada a importância das conferências como espaço de compartilhamento de informa- ções e crescimento do setor médico, abrindo caminho para projetos como o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, uma abordagem do SUS para comunidades indígenas. Um dos principais objetivos das conferências de saúde é reunir especialistas e pes- quisadores para discutir avanços científicos e inovações tecnológicas no campo da saúde. Segundo o relatório da 10ª Conferência Nacional de Saúde (1998), as conferências são um momento para apresentar e discutir pesquisas em andamento, bem como os resultados de estudos clínicos e experimentais, promovendo assim o avanço na área da saúde, tanto teórico, quanto metodológico e ético. Além disso, as conferências de saúde também desempenham um papel importante na discussão de políticas de saúde e na tomada de decisões informadas para melhorar os 32CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 sistemas de saúde. Onde os profissionais podem compartilhar ideias e resultados obtidos, visando a melhora da saúde como um todo. Assim, as conferências podem existir ao nível internacional, nacional, local, e como defendido pela I Mostra Nacional de Educação Per- manente em Saúde (2015), até mesmo com a participação dos usuários da comunidade. É importante destacar que, devido à pandemia de COVID-19, muitas conferências de saúde têm adotado formatos virtuais para garantir a segurança dos participantes. Se- gundo Ahmed et al. (2021), “as conferências virtuais têm permitido a continuidade da troca de conhecimentos e a colaboração entre os profissionais de saúde, superando as barreiras geográficas e facilitando a participação de um público mais amplo”. Em resumo, as conferências de saúde desempenham um papel fundamental na promoção do conhecimento científico, na discussão de políticas de saúde e na criação de redes de colaboração entre os profissionais da área. Por meio desses eventos, é possível impulsionar a inovação, melhorar os sistemas de saúde e, consequentemente, contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida das comunidades. Inspetoria-Geral de Higiene (1886-1892) Criada pelo decreto n. 9.554, de 3 de fevereiro de 1886, a Inspetoria-Geral de Higiene sucedeu a Junta Central de Higiene Pública, o resultado da demanda por reforma nos serviços sanitários da Corte. O decreto de 1886 dividiu os serviços sanitários do Império em terrestre e marítimo, que ficavam dirigidos respectivamente pela Inspetoria-Geral de Higiene e pela Inspetoria-Geral de Saúde dos Portos, além de criar também o Conselho Superior de Saúde Pública. As atividades de competência da Inspetoria-Geral de Higiene compreendiam a fiscalização do exercício da medicina e da farmácia, o estudo das epidemias, epizootias e moléstias reinantes, o serviço de vacinação e seu estudo, os socorros sanitários, a polícia sanitária, a organização das estatísticas demógrafo-sanitárias, a organização e o aper- feiçoamento do Código Farmacêutico brasileiro. Para cumprimento de suas atribuições, o órgão se fazia representar na Corte pelos delegados de higiene, e nas províncias pelas inspetorias de higiene e seus delegados. A Inspetoria-Geral de Higiene enfrentava, nos anos iniciais da República, a ocorrência de epidemias, que ciclicamente atin- giam as cidades portuárias, como cólera, malária, febre-amarela e tifoide. Também nesse período verificou-se a chegada de uma nova doença epidêmica que já grassava na Europa e EUA: a peste bubônica. Na Corte, a Inspetoria-Geral de Higiene destacava-seainda por sua forte atuação contra os cortiços, considerados focos de disseminação de surtos epidêmicos. Fonte: BRASIL. Arquivo Nacional. Memória da Administração Pública Brasileira. Inspetoria-Geral de Higiene (1886- 1892). Gov.br, Brasília, 2018. Disponível em: http://mapa.an.gov.br/index.php/dicionario-primeira-republica/ 535-inspetoria-geral-de-higiene-1886-1892. Acesso em: 16 jun. 2023. 33CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 Trecho de entrevista com Humberto Costa Médico psiquiatra de formação, Humberto trabalhou nas décadas de 1980 e 1990 no Sistema Único de Saúde (SUS) em Recife e Olinda. De acordo com o senador, a reforma psiquiátrica brasileira é reconhecida mundialmente. Repórter - A Associação Brasileira de Psiquiatra (ABP) apoiou a nova Política de Saúde Mental, implementada em 2017, que trouxe algumas mudanças nas concepções de 2001. A ABP avalia que, na prática, a reforma psiquiátrica de 2001 não atingiu os resultados esperados, deixando parte da população desassistida. A entidade defende especial- mente investimentos consistentes em ambulatórios especializados. Como o senhor avalia a posição da ABP? Humberto Costa - Discordo da posição da ABP, a reforma psiquiátrica deu muitos resultados. Reduzimos o modelo que havia anteriormente, que era manicomial, de desrespeito às pessoas portadoras de transtornos, que não garantia seus direitos e a possibilidade da inserção social. E em nenhum momento houve qualquer tipo de desassistência, ao contrário. Casos que precisem de internamento, eles ocorrem em hospitais clínicos, em CAPs adequados para esse tipo de atividade. Só que os internamentos se dão pelo tempo estritamente necessário. Acabamos com a indústria da loucura, que aqui no Brasil ganhava milhões e milhões de reais por ano, simplesmente internando pessoas em mani- cômios. A defesa de ambulatórios especializados é redundante. Porque os CAPs não somente oferecem atendimento ambulatorial, como promovem atendimento em grupo, da família, terapias que envolvem o conjunto dos outros pa- cientes, terapias individuais e a medicalização quando é necessário. Então, avalio que a posição da ABP não é correta. Fonte: AGÊNCIA SENADO. Após 20 anos, reforma psiquiátrica ainda divide opiniões. Senado Notícias, Brasília, 2021. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/04/06/apos-20-anos-reforma-psiquiatrica- -ainda-divide-opiniões. Acesso em: 16 jun. 2023. “O hospício é construído para controlar e reprimir os trabalhadores que perderam a capacidade de responder aos interesses capitalistas de produção.” Franco Basaglia 34CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 Apesar dos avanços conquistados, ainda existem desafios a serem enfrentados na reforma sanitária e psiquiátrica no Brasil. A falta de investimentos adequados, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental, a estigmatização em relação aos transtornos mentais e a resistência de parte da sociedade e do sistema de saúde são alguns dos obstáculos que persistem. Além disso, a pandemia da COVID-19 trouxe novos desafios para o setor de saúde, incluindo a saúde mental. A demanda por serviços de saúde mental aumentou significati- vamente, destacando a importância de fortalecer a rede de cuidados e promover políticas públicas efetivas nessa área. Portanto, a reforma sanitária e psiquiátrica no Brasil é um processo em constante evolução, que requer o comprometimento contínuo dos governantes, profissionais de saúde, sociedade civil e da população em geral. É fundamental garantir investimentos adequados, ampliar o acesso aos serviços de saúde mental, combater o estigma e promover uma abor- dagem humanizada e inclusiva no cuidado das pessoas com transtornos mentais. Somente assim poderemos avançar rumo a um sistema de saúde mais justo, igualitário e respeitoso. CONSIDERAÇÕES FINAIS 35CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 Machado de Assis e O Eterno Brasil dos Agregados As obras icônicas de Machado de Assis, como o Vendedor de Batatas e Dom Casmurro, que fazem parte da literatura clássica brasileira - sendo algumas das leituras obrigatórias durante o ensino básico - se passam no cenário da reforma sanitária e dos movimentos higienistas do Brasil. Assim, o artigo de Bragion (2018) faz um paralelo interes- santíssimo entre os contextos apresentados nas obras e a realidade vivida pelo Brasil no final do século IX. Fonte: BRAGION, Alexandre. Machado de Assis e O Eterno Brasil dos Agregados. Diário do Engenho, [s.l.], 2018. Disponível em: https://diariodoengenho.com.br/machado-de-assis-e-o-eterno-brasil-dos-agregados/. Acesso em: 16 jun. 2023. LEITURA COMPLEMENTAR 36CONTEXTOS DA FORMAÇÃO DO SUSUNIDADE 2 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: Nise - O Coração da Loucura • Ano: 2016. • Sinopse: Ao voltar a trabalhar em um hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro, após sair da prisão, a doutora Nise da Silveira (Gloria Pires) propõe uma nova forma de tratamento aos pacientes que sofrem da esquizofrenia, eliminando o eletrochoque e lobotomia. Seus colegas de trabalho discordam do seu meio de tratamento e a isolam, restando a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início a uma nova forma de lidar com os pacientes, através do amor e da arte. LIVRO • Título: Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil • Autor: Paulo Amarante. • Editora: Fiocruz. • Sinopse: Este valioso livro analisa cuidadosamente a evolução conceitual que orientou os movimentos antimanicomiais no Brasil nas décadas de 70/80. Nele, o leitor terá acesso a informações preciosas dos bastidores desta luta, as movimentações internas, tensões, divergências das diretrizes que marcaram a história des- tes movimentos. Este estudo mostra que refletir sobre o passado é um exercício para a construção do futuro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos • O que é o SUS; • Princípios e diretrizes do SUS; • Saúde pública nos dias de hoje. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e contextualizar o Sistema Único de Saúde (SUS); • Compreender o panorama da saúde pública atualmente no Brasil; • Estabelecer a importância de princípios, diretrizes e políticas de saúde bem definidas. Professor Esp. Nicholas Luciano Krieger SISTEMA ÚNICO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEDE SAÚDE UNIDADEUNIDADE3 38SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 INTRODUÇÃO Você já parou para pensar “que diferença faz uma legislação para a saúde pú- blica?” Para começar a esboçar essa resposta, é preciso entender que na Constituição Federal de 1988 o artigo 196 já deixava claro que “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido [...] acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Entretanto, ao estabelecer a saúde como um direito constitucio- nal, implementa-se o Sistema Único de Saúde, mas, esse processo não foi tão simples quanto parece, porque estabelecer leis é algo relativamente simples se compararmos com o desafio de “mudar a forma de sobre a saúde de toda uma população”. Para pensar sobre esse assunto, tire alguns minutos e liste mentalmente quais comportamentos temos como acadêmicos/profissionaisque são baseados no mo- delo biomédico? Um exemplo bem claro, é a visão existente no senso comum que a função de um profissional de saúde é estritamente anatômica, físico, lógico - mesmo sendo amplamente discutido nas graduações da área da saúde que o bem-estar é de origem biopsicossocial. Como profissionais de saúde, estamos sempre reproduzindo em certo grau aquilo que a sociedade em que vivemos acredita, entretanto, por outro lado, também somos res- ponsáveis por identificar as insuficiências dessa forma de pensar e ser parte do processo de mudança. Sendo assim, dedicamos essa unidade a compreender o funcionamento e evolução do Sistema Único de Saúde do Brasil, porque, se você estudante parar agora e perguntar para cinco pessoas o que é o SUS, cada uma delas terá uma resposta diferente para compartilhar e como profissionais da saúde, precisamos saber responder: afinal, o que é o SUS? Perguntas para reflexão ao longo da unidade: 01. Como é estruturada a saúde pública ao redor do mundo? 02. O que é um Sistema de Saúde? 03. Como seria a situação da saúde no Brasil sem o SUS? 04. Quais as atuais insuficiências do SUS? O QUE É O SUS?1 TÓPICO 39SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 Quando se trata de saúde, espera-se que as pessoas possam viver desfrutando de qualidade de vida. E para tal, a Saúde como setor pode ser dividida em três partes: o estado vital de uma pessoa, o setor produtivo (profissionais de saúde, indústria farmacêutica, clíni- cas e hospitais) e a produção de conhecimento (universidades, pesquisa, projetos). Sendo possível assim, identificar as necessidades da sociedade e buscar novas descobertas e formas de prevenção, não obstante uma comunidade sempre irá organizar seu sistema de saúde baseado naquilo em que acreditam (PAIM, 2015). Em se tratando de Brasil, o SUS tem se organizado de forma sistemática a partir de 2005 - mesmo tendo nascido quase 10 anos antes disso - e embora seja válido em todo o território nacional e constantemente busque aumentar seu alcance e efetividade, ainda existem pessoas que têm dúvidas sobre como esse sistema é organizado (PAIM, 2015). O que a maioria sabe, é que o SUS é a sigla que corresponde ao Sistema Único de Saúde, mas o questionamento permanece o mesmo: O que é um Sistema Único de Saúde? Para responder a essa pergunta, começaremos a entender o que é um sistema. Segundo o Dicionário Online de português, o significado primário da palavra sistema é “reunião dos elementos que, concretos ou abstratos, se interligam de modo a formar um todo organizado”, logo, um sistema solar é a reunião de planetas, estrelas, cometas, etc., delimitados pelo espaço de alcance da Estrela Sol. Agora, um sistema de saúde é o conjunto de agentes (médicos, farmacêuticos, enfermeiros, psicólogos, etc.) e agências (hospitais, CAPS, laboratórios, etc.) trabalhando de forma integrada em busca de promover, proteger, reabilitar, e recuperar a saúde (PAIM, 2015). 40SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 No Brasil, o sistema de saúde utilizado é misto, pois ao mesmo tempo em que existem os atendimentos gratuitos à população contando com todo o tipo de especialistas e formas de atendimento, os serviços particulares e conveniados também são de livre aces- so. Essa amplitude de processos torna o SUS extremamente complexo e único, uma vez que, em um mesmo hospital municipal atende-se gratuitamente ou mediante a um plano particular, ou ainda, um mesmo indivíduo pode recorrer a uma USF1 e a rede privada na mesma semana/mês para resolver questões de saúde diferentes. Pelo mundo, os sistemas de saúde podem ser divididos em 3 grupos: (a) Seguro Social, onde só são atendidos mediante a contribuição com a previdência social; (b) Segu- ridade, atendimento vinculado a comprovação de cidadania; (c) Assistência, atendimento restrito para aqueles que comprovam a condição de pobreza. Sendo que no Brasil, antes da constituição de 1988, era vigente o sistema de Seguro Social, mas após a nova constituição passou a ser baseada no modelo de Seguridade. Entretanto, adaptou o modelo para a realidade nacional, visando um sistema de saúde cada vez mais universal (PAIM, 2015). TABELA 01: TIPOS DE SISTEMAS DE SAÚDE Fonte: Paim (2015, p. 35). 1 Unidade de Saúde da Família - centro de atenção primária do SUS. PRINCÍPIOS E DIRETRIZES DO SUS2 TÓPICO 41SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 A constituição de 1988 traz no artigo n.º196 que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Essa lei é fruto, conforme visto na Unidade II, de lutas e esforços políticos e sociais ao longo do século XX com o Movimento da Reforma Sanitária. TABELA 02: OS 5 ARTIGOS CONSTITUCIONAIS FORMADORES DO SUS Art. 196 - A saúde é direito de todos e dever do Estado. Art. 197 - Por ser de relevância pública, as ações de saúde devem ser Regulamentadas, Fiscali- zadas e Controladas. Art. 198 - O SUS é organizado de forma regionalizada e hierarquizada, seguindo as diretrizes: descentralização, atendimento integral e participação da comunidade. Art. 199 - A Assistência à saúde é livre à iniciativa privada, que poderá participar do SUS em ca- ráter complementar. Art. 200 - Atribuições do SUS. Fonte: Souza, [s.d.]. Podemos dividir o SUS em três frentes: 1 - PROMOVER SAÚDE: ou seja, fomentar e desenvolver medidas para gerar qua- lidade de vida e saúde para a comunidade. Aqui também está incluso o acesso à educação, ao lazer e à atividade física, que são fundamentais para a manutenção do bem-estar. 2 - PROTEGER A SAÚDE: esta proteção está relacionada com o combate de ris- cos através de vacinação, bom saneamento, distribuição de preservativos - a fim de evitar a transmissão de IST2s - e acesso a medicamentos. 2 Infecções Sexualmente Transmissíveis 42SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 3 - RECUPERAR A SAÚDE: aqui estão dispostos os movimentos que são popularmen- te conhecidos como “cuidados à saúde” e é a área do SUS que busca realizar diagnósticos, tratamentos e limitação de danos/sequelas. Seja ao nível ambulatorial, hospitalar ou domiciliar. Sobre os princípios do SUS, podemos destacar cinco: a universalidade, a equidade, a integralidade, a descentralização e a participação popular. TABELA 03: PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO SUS UNIVERSALIDADE Universalização: a saúde é um direito de cidadania de todas as pessoas e cabe ao Estado assegurar este direito, sendo que o acesso às ações e serviços deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente de sexo, raça, ocupação ou outras características sociais, ou pessoais. EQUIDADE O objetivo desse princípio é diminuir desigualdades. Apesar de todas as pessoas possuírem direito aos serviços, as pessoas não são iguais e, por isso, têm necessidades distintas. Em outras palavras, equidade significa tratar desigualmente os desiguais, investindo mais onde a carência é maior. INTEGRALIDADE Este princípio considera as pessoas como um todo, atendendo a todas as suas necessidades. Para isso, é importante a integração de ações, in- cluindo a promoção da saúde, a prevenção de doenças, o tratamento e a reabilitação. Juntamente, o princípio de integralidade pressupõe a articula- ção da saúde com outras políticas públicas, para assegurar uma atuação intersetorial entre as diferentes áreas que tenham repercussão na saúde e qualidade de vida dos indivíduos. DESCENTRALIZAÇÃO Descentralizar é redistribuir poder e responsabilidade entre os três níveis de governo. Com relação à saúde, descentralização, objetiva prestar ser- viços com maior qualidade e garantir o controle e a fiscalização por parte dos cidadãos. No SUS, a responsabilidade pela saúde deve ser descentra- lizada até o município, ou seja, devem ser fornecidas ao município condi- ções gerenciais, técnicas, administrativas e financeiras para exercer esta função. PARTICIPAÇÃO POPULAR A sociedade deve participar no dia-a-dia do sistema. Para isto, devem ser criados os Conselhos e as Conferências de Saúde, que visam formular estratégias,controlar e avaliar a execução da política de saúde. Fonte: Meldau (2018, p. 50). Por fim, as diretrizes do SUS são baseadas na epidemiologia e visam elencar as prioridades dentro da promoção, proteção e recuperação da saúde - como visto acima. Lei n.º 8.080, de 19 de setembro de 1990 CAPÍTULO II - Dos Princípios e Diretrizes Art. 7º As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados contra- tados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde (SUS), são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no art. 198 da Constitui- ção Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios: I - universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência; 43SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 II - integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e con- tínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema; III - preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral; IV - igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie; V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde; VI - divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e a sua utilização pelo usuário; VII - utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a alocação de recursos e a orientação programática; VIII - participação da comunidade; IX - descentralização político-administrativa, com direção única em cada es- fera de governo: a) ênfase na descentralização dos serviços para os municípios; b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde; X - integração em nível executivo das ações de saúde, meio ambiente e sa- neamento básico; XI - conjugação dos recursos financeiros, tecnológicos, materiais e humanos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios na prestação de serviços de assistência à saúde da população; XII - capacidade de resolução dos serviços em todos os níveis de assistência; e XIII - organização dos serviços públicos de modo a evitar duplicidade de meios para fins idênticos. (BRASIL, 1990) SAÚDE PÚBLICA NOS DIAS DE HOJE3 TÓPICO 44SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 De acordo com Paim (2015), mesmo após décadas da implementação do direito à saúde através do SUS, “ainda é difícil indicar, em termos absolutos, princípios e diretrizes efetivamente cumpridos”. Isso se dá porque, ao mesmo tempo, em que grandes passos foram dados nas questões da universalização e participação popular, a integralidade e equidade evoluíram de forma tímida. Com o SUS, assegurou-se a participação social na saúde, o que desde 1990 tem cha- mado a atenção e despertado a curiosidade de organizações e publicações internacionais. Entre- tanto, o grande desafio da atualidade, é o acesso e continuação dos atendimentos/tratamentos, evidenciando um problema de organização de informações da rede de saúde (PAIM, 2015). Também é válido destacar que hoje, o sistema de saúde brasileiro é amplamente co- nhecido pelas ESF - ou postinhos, como são popularmente chamados - entretanto, existe uma desorientação quando se trata do encaminhamento às demais agências de saúde da rede. TABELA 04: REDE DE ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE Fonte: Almeida (2019). Vi ve r s em li m ite s Re de d e At en çã o à Sa úd e da s Pe ss oa s c om D oe nç as C rô ni ca s Re de d e At en çã o às U rg ên ci as e Em er gê nc ia s Re de d e At en çã o Ps ic os so ci al Re de C eg on ha Qualificação/ Educação Informação Regulação Promoção e Vigilância à Saúde ATENÇÃO BÁSICA 45SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 Por fim, é extremamente importante conhecer o papel de cada agência dessa rede (ALMEIDA, 2019): (a) Rede Cegonha: é todo apoio para a mulher no processo materno-infantil: pré- -natal; parto e nascimento; puerpério e atenção integral à saúde da criança. (b) Rede de Urgência e Emergência (RUE): com o foco de manter o atendimento 24h e responder de forma eficiente as crises e situações críticas de saúde, é composta pela Promoção, Prevenção e Vigilância em Saúde; Atenção Básica; Serviço de Atendimento Mó- vel de Urgência (SAMU); Unidades de Pronto Atendimento (UPAs); Sala de Estabilização; Força Nacional do SUS; hospitais e atenção domiciliar. (c) Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): é focada na prevenção, manutenção e in- tervenção em saúde mental, dividida em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Unidades de Acolhimento (UA), Ambulatórios de Saúde Mental, Comunidades Terapêuticas, Hospital-dia, SAMU, UPA e sala de estabilização. (d) Viver sem limites: é o elemento da rede focado no atendimento de pessoas com deficiência, seus 3 componentes principais são a (1) Atenção Básica; a (2) Atenção especializada em reabilitação auditiva, visual, física, intelectual e em múltiplas deficiências; e a (3) Atenção Hospitalar e de Urgências. (e) Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas: foca em todas as frentes de atenção para pessoas que necessitam de cuidados oncológicos e acompa- nhamento integral. “Os limites entre direito individual e direito coletivo estão no centro do debate em torno da judicialização na Saúde, isto é, o uso da via judicial para solicitar atendimento médico, medicamento ou insumo terapêutico. [...] O abuso drena os recursos do SUS, afetando usuários e atemorizando gestores.” Leia a matéria completa: http://www.livrosinterativoseditora.fiocruz.br/sus/wp-content/ uploads/2015/04/radis_ED92_pg8e9_pg_504.pdf Qual a sua opinião sobre a questão de Saúde e Justiça? http://www.livrosinterativoseditora.fiocruz.br/sus/wp-content/uploads/2015/04/radis_ED92_pg8e9_pg_504.pdf http://www.livrosinterativoseditora.fiocruz.br/sus/wp-content/uploads/2015/04/radis_ED92_pg8e9_pg_504.pdf 46SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 UMA CONSTRUÇÃO DE CINCO DÉCADAS Conhecido como Medicare, o sistema de saúde do Canadá, país com cerca de 33 milhões de habitantes, garante acesso a uma cobertura universal abrangente de serviços médico-hospitalares e clínicos. Apesar de referido como um sistema, no singular, reúne um conjunto de dez planos provinciais e três territoriais. Sua construção levou mais de cinco décadas. Até o fim dos anos 1940, a assistência à saúde no Canadá era dominada pelo setor privado. A tendência só começou a ser revertida com a experiência de Saskatchewan, primeira província a estabelecer um plano público para atendimento hospitalar, em 1947. Nove anos depois, aprovou-se lei para que o governo federal dividisse os gastos desse tipo de serviço com províncias e territórios — meta atingida em 1961. Em 1962, Saskatchewan deu mais um importante passo na direção da universalização, ao adicionar ao plano atendimento clínico. Como aconteceu anteriormente, o governo do Canadá adotou a ideia, criando, em 1966, uma lei que regulamen- tava a divisão também desses custos. Em 1972, todas as províncias e territórios haviam estendido a cobertura. Em 1979, pesquisa encomendada pelo governo federal canadense constatou que os serviços de saúde do país sofriam com a dupla cobrança por parte dos prestadores de serviço — médicos e hospitais exigiam que pacientes suplementassem o que lhes era pago pelo plano provincial. O relatório levou a uma revisão do sistema e à promulgação em 1984 da Canada Health Act, lei que define os princípios do sistema de saúde canadense, baseados nos valores de equidade e solidariedade. A lei indica como primeiro objetivo do sistema “proteger, promover e restaurar o bem-estar físico e mental dos residentes do Canadá e possibilitar acesso de qualidade a serviços de saúde sem barreiras financeiras ou de outro tipo”. O primeiro princípio é o de administração pública, pelo qual o plano de saúde de uma província deve ser administrado e operado, numa base não lucrativa, por órgão público ligado ao governo provincial. O segundo,de abrangência, estabelece que o plano deve incluir todos os serviços clinicamente necessários — internação, medica- mentos, suprimentos e exames, entre outros. A assistência aos casos crônicos também está prevista, mas pode ser exigido pagamento extra para cobrir custos de alojamento. A universalidade é o terceiro princípio do sistema: o plano deve conferir o direito a toda a população residente a um pacote de serviços. O quarto, acessibilidade, determina que se deve dispensar, sem entraves, um justo acesso aos serviços médico-hospitalares. Ninguém pode ser discriminado em termos de atendimento, idade, estado de saúde etc. Esse direito é válido em todo o território, segundo o princípio de portabilidade. Cabem às províncias e aos territó- rios a gestão e a prestação dos serviços. O governo federal cuida da fixação e administração de princípios ou normas nacionais do sistema, contribui para o financiamento, oferta serviços para grupos específicos — militares, detentos de penitenciárias federais, povos autóctones residentes em reservas, reclusos e guardas da Real Polícia Montada do Canadá — e atua na promoção e proteção da saúde e na prevenção de doenças. Um canadense faz o seguinte itinerário quando precisa de assistência: procura uma clínica ou médico de sua preferên- cia, apresenta seu cartão de seguro de saúde, é atendido sem necessidade de pagar diretamente no local ou preencher formulários e, com a receita em mãos, recebe do farmacêutico os remédios prescritos e a informação de como usá-los. Alguns grupos, como idosos e crianças, contam com serviços não abrangidos pelo regime de seguro de saúde na- cional — medicamentos, clínica dentária, oftalmologia e cuidados a domicílio. Os demais canadenses precisam recorrer a um plano privado de saúde para terem acesso a esses serviços Fonte: DOMINGUEZ, B. Por dentro dos sistemas universais. Radis, Rio de Janeiro, v.99, 2010. Disponível em: http://www.livrosin- terativoseditora.fiocruz.br/sus/wp-content/uploads/2015/04/por_dentro_dos_sistemas_universais.pdf. Acesso em: 06 jul. 2023. 47SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 Assim, retornamos à questão inicial desta unidade: qual o impacto que uma legis- lação tem em um sistema de saúde? Podemos começar citando que a lei que prevê a saúde para todos é o início de uma mudança social, onde será necessário desenvolver ações que implantem a cultura da saúde pública, para que a população possa aderir a essa nova política. Entretanto, como vimos ao longo da unidade, a implementação, construção e funcionamento do SUS não surge do dia para a noite, é um sistema que a mais de 30 anos segue sendo ampliado e aperfeiçoado, para que alcance toda a população. Por mais que exista um hábito de admirar os sistemas e tecnologias existentes em outros países, não podemos negligenciar os méritos nacionais. O Brasil, por sua vez, tem mérito reconhecido por todo mundo como referência em Sistema de Saúde Pública, sendo inspiração para diversos países. CONSIDERAÇÕES FINAIS 48SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 Maior sistema público de saúde do mundo, SUS completa 31 anos: SUS é o único sistema de saúde pública do mundo que atende mais de 190 milhões de pessoas. O SUS é considerado o maior sistema de saúde pública do mundo, em um país considerado o quinto maior em extensão e o sétimo maior em população, esses números gigantescos tornam o desafio de organizar e gerir um sistema de saúde funcional ainda maior. E explicar sobre esse funcionamento e a importância de ser defendido é o foco central do artigo da UNA-SUS em comemoração aos 31 anos de atividade desse sistema público. Fonte: UNA-SUS. Maior sistema público de saúde do mundo, SUS completa 31 anos. UNA-SUS, Brasília, 2021. Disponível em: www.unasus.gov.br/noticia/maior-sistema-publico-de-saude-do-mundo-sus-completa-31-anos. Acesso em: 06 jul. 2023. LEITURA COMPLEMENTAR 49SISTEMA ÚNICO DE SAÚDEUNIDADE 3 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: Quando Falta o Ar • Ano: 2023. • Sinopse: quando Falta o Ar mostra a intersecção entre saúde, religiosidade, desigualdade e racismo estrutural em várias regiões do país. O documentário aborda a pandemia com foco no cuidado, revelando a face humana da luta coletiva contra a Covid-19 em entrevistas com médicos, enfermeiros e agentes comunitários. LIVRO • Título: Pacientes que curam: O cotidiano de uma médica do SUS • Autor: Julia Rocha. • Editora: Civilização Brasileira. • Sinopse: Os textos de Pacientes que curam apresentam o que Julia - uma mulher negra, médica de família e comunidade, mãe e cantora - vivenciou no plantão no hospital, em seu consultório, na Unidade Básica de Saúde, na UPA ou em visita a pacientes em casa. E, ao fazer isso, traçam um retrato de um Brasil periférico, que vive mal desde sempre. Ao mesmo tempo, revelam o que há de universal, de sensível, no humano. No livro, vemos como saúde é muito mais do que não estar doente: é ter garantido o direito ao trabalho, à moradia, à alimentação, à educação, ao lazer e aos demais componentes do Estado de bem-estar social. Mas como proporcionar direitos às pessoas que estão em situação de vulne- rabilidade social? Como fazer cumprir os artigos da Constituição que estabelecem acesso universal e igualitário à saúde? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos • Estratégia Saúde da Família (ESF); • Saúde Familiar e Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF); • Rede de Atenção Psicossocial em Saúde (RAPS); • Projeto Terapêutico Singular; • Intervenção grupal; • Psicoeducação nos serviços públicos de saúde. Objetivos da Aprendizagem • Conceituar as diferentes ferramentas utilizadas pelo SUS na promoção de saúde pública; • Compreender, brevemente, o funcionamento dos mecanismos terapêuticos e de psicoeducação atuantes no Brasil. Professor Esp. Nicholas Luciano Krieger FERRAMENTAS DE FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO E O PAPEL DO PSICÓLOGOPSICÓLOGO UNIDADEUNIDADE4 51FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 INTRODUÇÃO Olá, aluno (a)! Bem, o que nós estudamos até aqui? Compreendemos as bases históricas de uma psicologia da saúde, visualizamos o contexto que tornou o surgimento do SUS possível, mergulhamos na compreensão do que significa ter um Sistema Único de Saúde em nosso país e como ele se estrutura. Para enfim, chegarmos nesta última unidade que busca responder a uma questão que provavelmente já passou pela sua cabeça ao longo dessa disciplina: Qual é o papel de um psicólogo dentro de todo esse contexto? Para refletir: 01. Quais os mecanismos de promoção de saúde mental que existem na sua cidade? E em seu bairro? 02. Muito além da clínica, como atua um profissional de psicologia dentro das redes de apoio psicossociais? ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA (ESF)1 TÓPICO 52FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 A Estratégia Saúde da Família (ESF) é o pilar que estrutura a atenção básica à saúde pelo SUS, visando enxergar a família de forma sistêmica. Reconhecendo que seja de forma individual ou grupal, os usuários - e suas famílias - nãopodem ser vistos separadamente do contexto que os permeiam, das suas relações sociais e territórios que ocupam. Sendo esta integralidade o grande desafio dos cuidados propostos pelas ESF (BRASIL, 2013a). Para que esse cuidado seja possível, se faz necessário cadastrar as famílias atendi- das pela ESF em questão, diagnosticar a situação de saúde em que esses indivíduos vivem e traçar estratégias de cuidado, considerando também, famílias que vivem em situação de risco, de isolamento ou vulnerabilidade. Realizar um mapeamento - ou cartografia - desse cenário é uma tarefa complexa e requer da equipe multiprofissional muita dedicação, além de exigir a existência de uma relação de confiança entre os usuários e os prestadores desse serviço (BRASIL, 2013a). Como essa confiança surge? A família precisa desenvolver um vínculo com a equipe - que muitas vezes será iniciado pelo contato do Agente Comunitário de Saúde, previamente treinado pelo psicólogo ou assistente social - através da escuta, acolhimento e valorização daqueles indivíduos. Sendo a própria família protagonista na construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS)1. Assim, com o diagnóstico situacional realizado pela equipe multiprofissional, o atendimento prioritário será para aquelas famílias que se encontrarem com membros em situação de sofrimento psíquico intenso, dependência de álcool e outras drogas, e/ou ne- cessitar de cuidados especiais (BRASILa, 2013). 1 O capítulo 4 desta unidade é inteiramente dedicado aos PTS. 53FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 [...] um primeiro passo nesse sentido é instrumentalizar os agentes comuni- tários de Saúde (ACS) na identificação dessas situações. Vecchia e Martins (2009) ressaltam que a estratégia de atender prioritariamente as famílias com maiores dificuldades psicossociais é importante, desde que tal priorização não produza estigmatização, considerando o dinamismo e a complexidade da vida de cada família (BRASILa, 2013a, p.65). A ESF é muito importante, porque além de facilitar o acesso às consultas e atender as demandas da família, promove ações coletivas mensalmente, permitindo assim, que indivíduos que não solicitam ajuda - seja por estarem em situação de dependência química, cárcere privado ou violência doméstica - sejam atendidos de alguma maneira e recebam auxílio, como afirma Brasil (2013), apud Lancetti (2006) “pessoas que muito necessitam e pouco ou nada demandam”. Outra organização facilitadora da ESF são os prontuários familiares, um sistema que mantém reunidos os prontuários de cada indivíduo daquela família, e pode ser acessa- do e consultado por todos os profissionais de saúde, facilitando assim o atendimento, uma vez que em cada prontuário familiar consta as queixas anteriores, tratamentos oferecidos, e funcionamento da dinâmica familiar (BRASIL, 2013a). Não obstante, uma grande barreira para o funcionamento pleno da Estratégia Saú- de da Família, é a setorização clássica presente nas diferentes áreas formativas dentro da saúde, visto que são poucos os cursos que trabalham a pluralidade na atuação em saúde. Isto demanda maior tempo de treinamento para as equipes das ESF compreenderem o pa- pel de cada integrante, o porquê das reuniões multiprofissionais constantes e a importância de não tomar uma decisão - seja diagnóstica ou de tratamento - sem consultar o panorama social e a estrutura daquela família. SAÚDE FAMILIAR E NÚCLEO DE APOIO À SAÚDE DA FAMÍLIA (NASF)2 TÓPICO 54FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 O Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) é o aporte especializado para as ESF, e formam uma parceria que busca, através de discussões de casos clínicos, consultas conjuntas e intervenções com toda a família e comunidade, desenvolver o acesso à saúde e bem-estar (BRASIL, 2013a). Os Nasfs são constituídos por equipes compostas por profissionais de di- ferentes áreas de conhecimento, que devem atuar de maneira integrada e apoiando os profissionais das equipes de Saúde da Família, das equipes de Atenção Básica para populações específicas (consultórios na rua, equipes ribeirinhas e fluviais, etc.) e Academia da Saúde, compartilhando as práticas e saberes em saúde nos territórios sob a responsabilidade destas equipes, atuando diretamente no apoio matricial às equipes da (s) unidade (s) na (s) qual (is) o Nasf está vinculado (BRASIL, 2013a, p.20). De acordo com o Caderno de Atenção Básica n.º 34, quando se pensa em atendi- mento familiar é preciso considerar: (a) a conceituação de família e sua complexidade; (b) o contexto histórico e social dessa família; (c) a noção de que o trabalho deve ser com todos os membros da família, doentes ao não; (d) a compreensão de que a família é afetada como um todo quando há uma mudança em qualquer um dos seus membros; (e) reconhecer que existe sempre a possibilidade de mudança; e (f) promover apoio e compreensão entre os membros da família (BRASIL, 2013b). A tabela abaixo mostra algumas intervenções relacionadas à saúde da família que podem ser tomadas pela equipe: 55FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 TABELA 01: INTERVENÇÕES DE APOIO À SAÚDE DA FAMÍLIA Entrevista Familiar Objetiva realizar a caracterização do sistema familiar (estrutura, desenvolvi- mento e funcionamento familiar, condições materiais de vida, estado de saúde dos integrantes, rede social da família, etc.). Genograma O Genograma Familiar é uma representação gráfica da família. Identifica suas relações e ligações dentro de um sistema multigeracional (no mínimo três ge- rações). Instrumento amplamente utilizado na Terapia Familiar, na formação de terapeutas familiares, na Atenção Básica à Saúde e, mais recentemente, em pesquisas sobre família. Ecomapa O Ecomapa, tal como o Genograma, integra o conjunto dos instrumentos de avaliação familiar. Entretanto, enquanto o Genograma identifica as relações e ligações dentro do sistema multigeracional da família, o Ecomapa identifica as relações e liga- ções da família com o meio onde ela vive. Foi desenvolvido em 1975 por Ann Hartman. É uma representação gráfica do sistema ecológico da família. Iden- tifica os padrões organizacionais da família e a natureza das suas relações com o meio, mostrando-nos o equilíbrio entre as necessidades e os recursos da família. F.I.R.O: Fundamental Interpersonal Relations Orientation (Orientações Fundamentais nas Rela- ções Interpessoais) Objetiva compreender melhor o funcionamento da família estudando as suas relações de poder, comunicação e afeto. A família é estudada nas dimensões de inclusão, controle e intimidade. Essa ferramenta é bastante útil quando a família se depara com situações que provocam crises familiares e demandam negociações e alterações de papéis entre os seus membros, tais como problemas de saúde, mudanças, doenças agudas e crônicas, hospitalizações, etc. Também é utilizada na avaliação de problemas conjugais ou familiares, para entender como a família está lidando com alterações no ciclo da vida. P.R.A.C.T.I.C.E. Objetiva a avaliação do funcionamento da família de um paciente específi- co. Fornece informações sobre a organização familiar e o posicionamento da família diante dos problemas enfrentados, possibilitando o manejo daquele, caso específico. Essa ferramenta foca no problema, permite uma aproximação esquematizada para trabalhar com a família, facilita a coleta de informações e a elaboração da avaliação com construção de intervenção. ● Presenting problem (problema apresentado); ● Roles and structure (papéis e estrutura); ● Affect (afeto); ● Comunication (comunicação); ● Time of life cycle (fase do ciclo de vida); ● Illness in family (doença na família); ● Copingwith stress (enfrentamento do estresse); ● Ecology (meio ambiente, rede de apoio). Discussão e Reflexão de Casos Clínicos Discussão e reflexão de casos comequipe multiprofissional - discussão dos casos clínicos, estudo de caso, etc. Projeto Terapêutico de Cuidado à Família Permite conhecer e construir um projeto terapêutico de cuidado para a família. O Projeto Terapêutico é um conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas a partir da discussão em equipe interdisciplinar, com apoio matri- cial, se necessário, e com a participação da família na sua elaboração. Fonte: BRASIL (2013b, p.67-68). É possível destacar, portanto, que os NASFs desempenham diferentes abordagens visando prestar suporte à Atenção Básica no Brasil, buscando ampliar a rede de apoio em saúde ofertada à comunidade e promovendo uma maior abrangência e resolutividade (BRASIL, 2017). REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL EM SAÚDE (RAPS)3 TÓPICO 56FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 Como visto nas unidades anteriores, para que a saúde mental fosse parte integran- te da saúde pública humanizada, foram necessárias décadas de luta. E, em 2001, após mais de dez anos de discussão no Congresso, a Lei n.º 10.216 foi promulgada, garantindo assim o direito da pessoa portadora de transtornos mentais e direcionando todo o modelo assistencial vigente. Assim, a partir de 2001 surgem as RAPS, ademais, apenas com o decreto Presidencial n.º 7508/2011 é que a Rede de Atenção Psicossocial passa a ser um serviço indispensável na construção do sistema de saúde nacional (BRASIL, 2013a). A Rede é composta por serviços e equipamentos variados, tais como: os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); os Serviços Residenciais Terapêu- ticos (SRT); os Centros de Convivência e Cultura, as Unidades de Acolhimen- to (UAs), e os leitos de atenção integral (em Hospitais Gerais, nos CAPS III) (BRASIL, 2013b, p. 30). Portanto, o nome Rede é dado no sentido de construir um entrelaçamento entre as diferentes formas de intervenção, visando um atendimento síncrono que trabalhe com a mesma linguagem em todos os elementos da rede de atenção. Esses serviços integrados são fundamentais no momento de cartografar o Plano Terapêutico Singular. A RAPS busca, através do SUS, oferecer amparo e cuidados a indivíduos acome- tidos por transtornos mentais ou dependência química, além de seus familiares, em dife- rentes níveis de complexidade e buscando promover cuidados integrais para as diferentes demandas apresentadas (BRASIL, s.d.). 57FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 TABELA 02: ONDE A RAPS ESTÁ PRESENTE? Na Atenção Básica Unidade Básica de Saúde; Núcleo de Apoio a Saúde da Família; Consultório de Rua; Apoio à Atenção Residencial de Caráter transitório; Centros de Convivência e Cultura; Atenção Psicossocial Estratégica Centros de Atenção Psicossocial nas suas diferentes modalidades. Atenção de Urgência e Emergência SAMU 192; Sala de Estabilização; UPA 24 horas e portas hospitalares de atenção à urgência /pronto- -socorro, Unidades Básicas de Saúde. Atenção Residencial de Caráter Transitório Unidade de Acolhimento; Serviço de Atenção em Regime Residencial. Atenção Hospitalar Serviço Hospitalar de Referência (SHR) para atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorren- tes do uso de crack, álcool e outras drogas; Enfermaria especializada em hospital geral; Estratégia de Desinstitucionalização Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT); Programa de Volta para Casa (PVC). Estratégias de Reabilitação Psicossocial Iniciativas de Geração de Trabalho e Renda; Empreendimento Solidários e Cooperativas Sociais. Fonte: BRASIL (2013b) PROJETO TERAPÊUTICO SINGULAR4 TÓPICO 58FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 Com a atuação das ESF e NASF contextualizando as situações familiares, torna-se possível à equipe multiprofissional elaborar um plano de ação que promova o bem-estar daquele grupo. No primeiro momento, essa equipe precisa (a) mapear - ou cartografar - a rede de apoio desses indivíduos (parentes, amigos e vizinhos), depois (b) ampliar esse mapa para as instituições disponíveis na comunidade em que se inserem, (c) encontrar novas possibilidades dentro do cenário social da família e assim (d) oferecer os programas de escuta, grupos de orientação, intervenção domiciliar e a utilização de serviços de saúde e lazer necessários para que o bem-estar seja possível (BRASIL, 2013a). [...] é importante que as equipes de Atenção Básica garantam a participa- ção da família na construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) de cada paciente, além de estimularem-na a participar de debates sobre o tema em reuniões dos conselhos locais e nas conferências de Saúde. Assim, a família também contribuirá na construção, na implementação e no acompanhamento de políticas públicas de atenção à saúde mental (BRASIL, 2013a, p.66). Assim sendo, o esforço para proporcionar a movimentação individual e familiar em prol da aquisição de bem-estar (físico e mental) é chamado de Projeto Terapêutico Singular. Entretanto, as equipes de saúde precisam aprender a resistir a ideia de “fórmula mágica”, uma vez que, mesmo que um PTS seja feito de forma impecável, exigirá esforço para ser colocado em prática - esforço por conta da equipe profissional e pela rede de apoio do usuário - e terá efeitos visíveis a médio e longo prazo (BRASIL, 2013a). Ou seja, um projeto terapêutico é um plano de ação compartilhado composto por um conjunto de intervenções que seguem uma intencionalidade de cuidado 59FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 integral à pessoa. Neste projeto, tratar das doenças não é menos importante, mas é apenas uma das ações que visam ao cuidado integral. Um Projeto Te- rapêutico Singular deve ser elaborado com o usuário, a partir de uma primeira análise do profissional sobre as múltiplas dimensões do sujeito. Cabe ressaltar que esse é um processo dinâmico, devendo manter sempre no seu horizonte o caráter provisório dessa construção, uma vez que a própria relação entre o pro- fissional e o usuário está em constante transformação (BRASIL, 2013a, p.33). Um dos papéis dos profissionais de saúde atuantes nas intervenções psicosso- ciais é ver além de um indivíduo adoecido, enxergar além da queixa e compreender que o seu papel é promover saúde em um sentido mais amplo e complexo. Por exemplo, ao atender um indivíduo que apresenta vulnerabilidade social, além de encaminhá-lo para os tratamentos de saúde aos quais ele necessita, o agente pode - e deve - instruí-lo e encaminhá-lo para um CRAS ou CREAS para que o aporte social naquela situação também seja dado. Visualizar e encaminhar esse Projeto Terapêutico Singular, passa pelo processo de cartografia. Mas, o que é cartografar? Originalmente, a palavra cartografia significa “estudo de- talhado sobre os mapas ou descrição de mapas” (Dicio, 2019), mas, dentro do contexto de saúde, cartografar é mapear todos os serviços nos quais aquele indivíduo/família necessita e elencar a ordem de prioridade entre eles. Para melhor visualização, vejamos um exemplo: Exemplo de Cartografia: Família Flores Parte I: Levantamento de Informações Quem procurou atendimento (usuário): Cravo: homem, 37 anos, apresenta sofri- mento mental intenso desde a adolescência com delírios, alucinações e sumiços de casa. Pai - Copo de Leite: falecido. Mãe - Orquídea: mulher, 63 anos, diagnosticada com hipertensão e diabetes, apre- senta sofrimento mental com delírios e alucinações e sintomas de depressão. Irmão - Gerônimo: homem, 39 anos, usuário de álcool e crack. Irmã - Rosa: mulher, 33 anos, cuidadora da família. Cunhado - Narciso: homem, 35 anos, provedor financeiro. Sobrinha - Margarida: mulher, 7 anos. Sobrinho - Lírio: homem, 9 anos. Comunidade: área de forte tráfico de drogas. Parte II: Organização do EcoMapa e Genograma 60FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 Fonte: BRASIL (2013b,p. 80) Parte III: Organizar o Projeto Terapêutico Singular Projeto Terapêutico Singular: (a) participação de grupos de saúde mental da comu- nidade; (b) encaminhamento para atendimento com o médico, com o psiquiatra e com o psicólogo; (c) atendimento domiciliar para verificar a necessidade de cuidados específicos; (d) oficinas de geração de renda. Parte IV: Organizar o cuidado com a família Competências familiares Fragilidades Potencialidades O que fazer? Responsável (profissional da equipe de SF) Dinâmica, estrutura e funcionamento da família Contexto sociocultural e econômico Rede intra e extrafamiliar Aspectos relevantes da história familiar que auxiliam no entendimento dos proble- mas de saúde apresentados Impacto do problema atual (o que motivou a abordagem familiar Fonte: BRASIL (2013a, p.76) apud SOARES, PAGANI e OLIVEIRA (2005, p. 32). Grupo de Diabetes Grupo de Hipertensão Grupo de Saúde Mental Copo de Leite Gerônimo 39 anos Cravo 37 anos Rosa 33 anos Narciso 35 anos Lírio 9 anos Margari. 7 anos Orquídea 63 anos 2º fonte de renda: aposentadoria 1º fonte de renda: salário Grupo de saúde mental Oficina de Geração de renda Consultas e Visitas CAPS AD INTERVENÇÃO GRUPAL5 TÓPICO 61FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 Rosa e Peto (2018), trazem em sua obra, experiências vividas através da prática de interações grupais, mostrando que a espontaneidade desses momentos atua como forma de desabafo social, liberando assim tensões que estavam inviabilizando as relações daquele sujeito. Não obstante, todo ser humano se vê presente em diversos grupos, nos quais ele atua, modifica e é por ele modificado (BARROS, 2009). [...] a preocupação central com o estudo dos pequenos grupos em suas di- mensões mais concretas e existenciais, é atingir a autenticidade nas suas relações, a criatividade e a funcionalidade nos seus objetivos; para isto, é importante descobrir que estruturas são mais favoráveis, que clima de gru- po permite isto, que tipo de liderança é mais eficaz, que técnicas são mais funcionais e facilitadoras, como se dão os mecanismos de atração e rejeição interpessoais, etc. (RAMALHO, 2010, p.7). Os grupos são ferramentas muito ricas na atenção psicossocial, uma vez que permitem a troca de experiências e momentos de acolhimento social que o atendimento individual não alcança. Ademais, em se tratando de saúde pública, os grupos são uma forma mais abrangente de atendimento, permitindo que mais pessoas tenham acesso aos serviços de saúde mental (RIBEIRÃO PRETO, 2021). A intervenção grupal permite aos usuários novos aprendizados e reflexões sobre o processo saúde-doença, auxiliando nas atitudes em relação ao autocuidado e enfren- tamento das situações, mostrando aos indivíduos novas possibilidades de como viver. Não obstante, os grupos atuam como grandes agentes de psicoeducação da comunidade, levando informação e formas de prevenção - física e mental - para potencializar o processo de cura/tratamento daqueles indivíduos (RIBEIRÃO PRETO, 2021). Para que um grupo seja implementado, a equipe de saúde precisa primeiramente compreender o diagnóstico do local em que se insere, e pode fazer isso através de perguntas como: (a) Conhecemos nosso território?; (b) Quais as principais demandas e necessidades 62FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 dos usuários deste território? (c) Quais são os indicadores de saúde da comunidade?; (d) Quais os riscos e vulnerabilidades observados?. Ao levantar essas informações é possível verificar ainda qual a faixa-etária mais atendida, quais as principais queixas dos usuários, as causas mais comuns de adoecimento e quais determinantes do território tem potencial de adoecer (RIBEIRÃO PRETO, 2021). Assim, define-se qual o perfil do (s) grupo (s) a serem montados, quais temas serão abordados e qual o objetivo daquele grupo. A tabela abaixo demonstra as características estratégicas que precisam ser definidas na hora de organizar um grupo na atenção à saúde: TABELA 03: ORGANIZAÇÃO DE GRUPOS Tipos de grupo: Promoção de Saúde; Tem como objetivo promover conhecimentos e ações que evitem o adoecimento e desenvolvam o bem estar. Prevenção de Agravos de Doenças; Seu foco é nos casos de doenças crônicas que causam grandes prejuízos à saúde a médio e longo prazo, e visam trabalhar a importância da qualidade de vida apesar da situação. Grupos de Convivência; Tem por objetivo gerar vínculo e desenvolver ha- bilidades sociais, além da troca de experiências e vivências entre os usuários. Grupos de Habilidades de vida; Trabalha a reflexão, discussão e aquisição de habilidades relevantes para o dia-a-dia dos usuários, muito eficaz em grupos de jovens e adolescentes. Grupos Operativos; Seu objetivo é desenvolver o aprendizado de al- guma atividade: desenho, crochê, pintura, como forma de manutenção da saúde física e mental. Rodas de Conversa; Momento de troca de diálogo, busca apresentar novos pontos de vista sobre uma determinada situação vivida pela comunidade. Terapia Comunitária. O foco desse grupo é atuar diretamente na dimi- nuição das angústias e ansiedades cotidianas. Estrutura do grupo Aberto; Grupo no qual se recebe novos integrantes ao longo do processo. Fechado; Grupo que manterá os mesmos participantes até seu término. Semiaberto. Grupo que aceita novos participantes à medida que as vagas são liberadas (sistema de fila de espera). Definir com antecedência para a formação de um grupo Critérios de seleção dos participantes; Quais usuários poderão se inscrever e participar do grupo Número de participantes; Sugere-se algo entre 8 e 12 participantes para o funcionamento saudável de um grupo. Os profissionais que irão participar das reuniões. Organizar quem conduzirá o grupo e quem dará o suporte. Fonte: Ribeirão Preto (2021, p.13-16) Assim, muito além de terapêutico, os grupos atuam como agentes de mudança nas relações sociais desse sujeito, alteram a rotina dos usuários e podem ser articulados com o aprendizado e com a geração de renda. Isso permite que, de forma sistemática, cada indivíduo desenvolva e melhore sua qualidade de vida de forma integral (BRASIL, 2013a). PSICOEDUCAÇÃO NOS SERVIÇOS PÚBLICOS DE SAÚDE6 TÓPICO 63FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 A evolução no acesso à informação globalizada permitiu que a saúde como conceito fosse ampliada para além da doença, entretanto as práticas metodológicas não acompanham o mesmo ritmo. Por isso, a educação e a psicoeducação se tornam tão importantes nos serviços de saúde, uma vez que ao mudar a forma de olhar e interagir com o processo saúde/doença/ bem-estar ampliam-se as possibilidades metodológicas dentro dessa comunidade (Reis, Silva e Un, 2014). Como definido nas Cartas da Promoção da Saúde em 2002, psicoeducar é: “um processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle des- te processo. [...] A saúde deve ser vista como um recurso para a vida, e não como objetivo de viver [...]” (BRASIL, 2002, p.19). Mas enfim, o que é a psicoeducação? Psicoeducação é uma ferramenta psicológica que organiza e sistematiza formas de ensinar o indivíduo mais sobre sua própria saúde mental, sobre opções de tratamento, alternativas disponíveis e caminhos possíveis dentro do contexto desse sujeito. Tornando assim, as pessoas mais conscientes sobre sua situação, o que atua diminuindo a evasão dos tratamentos propostos (IPPr, s.d.). O processo de psicoeducação é visto como ferramenta de promoção de saúde, uma vez que enquanto o usuário enxerga seu problema de forma individualista e isolada, acaba por não visualizar as oportunidades de vida e bem-estar que são possíveis dentro da sua realidade. Ao proporcionar a contextualização dos sofrimentos, o usuário do sistema de saúde deixa de ser umreceptor passivo dos tratamentos e passa a ser um agente ativo do processo de cura (Reis, Silva e Un, 2013). 64FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 Existem diversos caminhos pelos quais a psicoeducação é possível dentro dos servi- ços de saúde, entre eles: (a) no atendimento individual, quando o psicólogo/psiquiatra/médico explica para seu paciente de que forma seu diagnóstico irá impactar no seu funcionamento cotidiano; (b) quando a ESF promove ações para apoiar e educar os familiares e a rede de apoio do paciente; (c) promoção de aulas e palestras sobre cuidados com a saúde física e mental, e formas de acessar os serviços oferecidos pelo SUS; e (d) grupos de apoio com pessoas de comum diagnóstico para compartilhar vivências, estratégias e caminhos. Uma estratégia que o Governo do Ceará desenvolveu, é a psicoeducação para profissio- nais de saúde, promovendo o APOIO PSICOEDUCACIONAL através da Escola de Saúde Públi- ca do Ceará Paulo Marcelo Martins Rodrigues (ESP/CE) entre os estudantes de especializações na área da saúde. O projeto conta com plantão psicoeducacional, grupos de apoio e assessoria em casos de dificuldade de aprendizagem, proporcionando assim, além do acolhimento e da troca de experiências - característicos do processo de psicoeducação - uma melhora qualitativa na formação desses profissionais ao disponibilizar auxílio para as dificuldades de aprendizagem que os profissionais encontrarem durante o processo (NEPOMUCENO, 2022). Ações como esta, permite-nos ampliar nosso conceito de psicoeducação, mos- trando que existem diversas estratégias e caminhos para potencializar o atendimento em saúde, a formação de profissionais e a aderência aos tratamentos por parte dos usuários. Todas essas alternativas passam pelo processo de psicoeducação, mostrando seu papel fundamental na evolução do sistema de saúde (Reis, Silva e Un, 2013). “A única diferença entre a loucura e a saúde mental é que a primeira é muito mais comum.” – Millôr Fernandes Quais as possíveis razões para que o autor Millôr Fernandes tivesse essa opinião sobre a saúde mental? Millor Fernandes (1923 - 2012) foi um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro que ganhou notoriedade com obras como: A Bíblia do Caos (1994) e Poesia Matemática (2009). Fonte: ESPÍRITO SANTO. Poder Judiciário. Tribunal de Justiça. Secretaria de Gestão de Pessoas. Saúde Mental do Trabalhador. Vitória: TJES, 2018. Disponível em: http://www.tjes.jus.br/wp-content/uploads/ Cartilha_Saúde-Mental-do-Trabalhador.pdf. Acesso em: 04 ago. 2023. 65FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 “O bem-estar físico, psíquico e social é a liberdade de regular as variações que ocorrem no estado do organismo. Se se aceita esta visão das coisas, então se compreende melhor que a saúde não é apenas responsabilidade dos outros, de uma instituição, dos médicos ou do Estado. É, antes de mais nada, responsabilidade de todos e de cada um” (Dejours, Dessors e Desriaux, 1993). Qual a nossa responsabilidade como profissionais de psicologia dentro da promoção de bem-estar? Fonte: DEJOURS, Christophe; DESSORS, Dominique; DESRIAUX, François. Por um trabalho, fator de equilíbrio. Rev Adm Empres, São Paulo, v.33, n.3, p.98-104, 1993. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rae/a/4t8CX dBtny3nzzYb8fpWFLy/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 04 ago. 2023. Relato do Grupo de Mulheres: Um pacto para a vida com emoções [...] A cada grupo mais mulheres vão se agregando e se fortalecendo por serem mulheres. O grupo acontece uma vez por semana em uma igreja que é o local de fácil acesso e que comporta todas as mulheres. Em um dia no qual os profissionais da saúde mental não puderam ir, o grupo aconteceu assim mesmo, coordenado por uma ACS: “A gente aprendeu que era para deixar todo mundo conversar sobre a vida e o ser mulher. No grupo não falamos sobre o uso das medicações, em nenhum momento dizemos sobre se devem ou não usar a medicação, o foco é o fortalecimento da mulher para a vida sem anestesias, com capacidade para assumir as suas dores e viver suas emoções” [...] Fonte: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Aten- ção Básica, n. 34. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 173 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicaco- es/cadernos_atencao_basica_34_saude_mental.pdf. Acesso em: 25 jul. 2023. 66FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 Como visto anteriormente, o sistema de saúde desenvolvido no Brasil é conceitual- mente muito rico, e mesmo enfrentando dificuldades orçamentárias e estruturais para sua implementação integral em todo o território nacional, as medidas de intervenção propostas pelas ESF e pelos RAPS, permitem visualizar a saúde como contexto social, para além do consultório e do diagnóstico. E, para mudar a visão social sobre saúde/doença/bem-estar, o profissional de psicologia exerce um papel muito amplo, desde proporcionar as intervenções em grupo, auxiliar na elaboração de um Projeto Terapêutico Singular e Familiar, até promover a psi- coeducação dos usuários e profissionais. Ademais, a psicologia da saúde, como constructo, tem muito a crescer e evoluir no Brasil e no mundo, tanto em questões conceituais e teóricas, quanto nas estratégias e intervenções práticas propostas pela disciplina. E, se você chegou até aqui, você faz parte da construção desse futuro teórico/metodológico da Psicologia da Saúde! CONSIDERAÇÕES FINAIS 67FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 GUIA PRÁTICO DE GRUPOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA Link de acesso: https://www.ribeiraopreto.sp.gov.br/portal/pdf/saude464202308.pdf LEITURA COMPLEMENTAR 68FERRAMENTAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA E O PAPEL DO PSICÓLOGOUNIDADE 4 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME/VÍDEO • Título: Saúde tem Cura • Ano: 2022. • Sinopse: “Saúde tem Cura”, dirigido por Silvio Tendler com o apoio da Fiocruz, aborda a potência e as fragilidades do Sistema Único de Saúde (SUS), o único sistema de saúde do mundo que atende a mais de 190 milhões de pessoas gratuitamente. O filme mostra como era o Brasil antes do SUS, fala da luta para a sua cria- ção, traça um panorama da atualidade e pensa o futuro da saúde pública. Conta com depoimentos de profissionais que participaram da sua criação; de médicos como Drauzio Varella, Paulo Niemeyer e Margareth Dalcolmo; de profissionais que atuam no dia a dia do sistema; de representantes da sociedade civil e de usuários. LIVRO • Título: Saúde Mental para a Atenção Básica • Autor: Nina Soalheiro. • Editora: Fiocruz. • Sinopse: Esta coletânea analisa diversas temáticas importantes e atuais em saúde mental e atenção psicossocial na rede básica, abordando os conceitos de forma acessível, embora mantendo sua complexidade. Baseados em pesquisas sobre cuidado em saúde mental na Estratégia Saúde da Família no Rio de Janeiro, os textos convidam o leitor a exercitar uma aproximação entre questões acadêmicas e práticas de cuidado no território. Os autores - profis- sionais com larga experiência de trabalho neste campo - buscam sistematizar e coletivizar saberes e práticas de forma a estimular as equipes de atenção básica a construírem e renovarem abordagens na perspectiva da desinstitucionalização. Segundo a organizadora, o entendimento de desinstitucionalização defendido no livro é aque- le “que nos impulsiona para uma cultura do cuidado em instituições abertas e com um estilo coletivo de trabalho”. Diversas questões são colocadas em perspectiva, no sentido de ampliar os aspectos envolvidos no adoecimento com sofrimento psíquico, como a cultura e o ambiente em que se vive. A direção apontada é a da superação da dicotomia corpo-mente, destacando-se que a atenção psicosso- cial exige um cuidado interdisciplinar, integralizado e territorial. 69 Prezado (a) aluno (a), Neste material,busquei trazer para você os principais conceitos a respeito da ges- tão de produtos e marcas. Para tanto abordamos as definições teóricas e, neste aspecto, acreditamos que tenha ficado claro para você o quanto é estratégico para gestores de todas as áreas de uma organização compreenderem os processos de identificação de necessidades e oportunidades no mercado para a criação e oferta de produtos e serviços que atendam as expectativas dos consumidores. Destacamos também importância histórica das marcas para identificação e diferen- ciação dos produtos em ralação aos concorrentes e vimos o quanto a construção de uma marca baseada em critérios sólidos podem contribuir para o sucesso de um produto ou empresa no mercado. Além dos aspectos teóricos que contribuíram profundamente para o entendimento dos assuntos aqui abordados, trouxemos vários exemplos e técnicas para uma melhor compreensão sobre criação e gestão de marcas fortes. Levantamos também aspectos históricos que nos levaram a chegar nas formu- lações, processos e técnicas que hoje aplicamos nas organizações. Esse olhar para o passado para entender o presente e visualizar o futuro é algo inerente aos empreendedores que pensam em suas organizações como gestores eficientes e antenados. Ao pensarmos em uma organização voltada a administração estratégica, como aqui abordamos e contemplando também a comunicação como cultura organizacional, temos que sempre levar em consideração o diálogo, o respeito e o ouvir nossos parceiros de trabalho, nossos colaboradores e todos aqueles que integram nossa equipe. A partir de agora acreditamos que você já está preparado para seguir em frente desenvolvendo ainda mais suas habilidades para criar e desenvolver produtos e marcas de sucesso no mercado e realizar bons negócios. Até uma próxima oportunidade. Muito Obrigado! CONCLUSÃO GERAL 70 AGÊNCIA SENADO. Após 20 anos, reforma psiquiátrica ainda divide opiniões. Senado Notícias, Brasília, 2021. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/mate- rias/2021/04/06/apos-20-anos-reforma-psiquiatrica-ainda-divide-opinioes. Acesso em: 16 jun. 2023. AHMED, S.; SANGHAVI, D.; BELLINI, E. Impact of the COVID-19 pandemic on scientific research and implications for healthcare scientific conferences: a virtual healthcare scientific conference model. Postgraduate medical journal, 97(1149), 469-470, 2021. Dis- ponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7833269/ Acesso em: 16 jun. 2023. ALMEIDA, D. Saúde em rede – Você conhece o SUS? Parte 2. Deviante, [s.l.], 2019. Disponível em: https://www.deviante.com.br/noticias/saude-em-rede-voce-conhece-o-sus- -parte-2/. Acesso em: 13 jul. 2023. ALVES, Railda Fernandes (org.) et al. Psicologia da Saúde: teoria, intervenção e pes- quisa. Campina Grande: EDUEPB, 2011. 346 p. Disponível em: https://static.scielo.org/ scielobooks/z7ytj/pdf/alves-9788578791926.pdf. Acesso em: 16 abr. 2023. AMARANTE, P; NUNES, M. O. 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