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Módulo Tributo e Segurança Jurídica SEMINÁRIO I - DIREITO TRIBUTÁRIO E CONCEITO DE “TRIBUTO” Leitura básica • CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo: Noeses, Capítulo I e itens 1 (acepções do vocábulo “tributo”) e 2 (a definição do art. 3º do CTN) do Capítulo II. • CARVALHO. Paulo de Barros. Direito tributário, linguagem e método. São Paulo: Noeses, Capítulo 2 da segunda parte, Item 2.2.2 (conceito de tributo). • BRITTO, Lucas Galvão de. Sobre o uso de definições e classificações na construção do conhecimento e na prescrição de condutas. In: CARVALHO, Paulo de Barros (Coord.). Lógica e Direito. São Paulo: Noeses, 2016. Vídeo básico • CARVALHO, Paulo de Barros. Canal PPGD UNIMAR. Constructivismo Lógico-Semântico e Norma Jurídica. Disponível em: https://www.youtube.com/live/SQQdWl8ZeDM?si=tE2Je9UK2J7U1t_q . Acesso em 30 de janeiro de 2024. Leitura complementar • CARVALHO. Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência. São Paulo: Noeses, Itens 1 (texto e contexto) a 6 (normas primárias e secundárias) do Capítulo I. • COPI, Irving. Introdução à lógica. Capítulo 4. • SOUZA, Priscila de. Intertextualidade no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2021. • CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso de teoria geral do direito (o constructivismo lógico-semântico). São Paulo: Noeses, Capítulos III e VIII. • FAVACHO, Fernando Gomes. Definição do conceito de tributo. São Paulo: Quartier Latin, Capítulo IV. • CARVALHO. Paulo de Barros. “Breves considerações sobre a função descritiva do direito tributário”. In CARVALHO, P. B; LINS, R. M. (Coord.). Ensaios sobre jurisdição federal. São Paulo: Noeses. Questões 1. Que é Direito? Há diferença entre direito positivo e Ciência do Direito? Com base em sua resposta, critique a seguinte afirmação: “Direito tributário é o ramo do Direito público positivo que estuda as relações jurídicas entre o Fisco e os contribuintes, concernentes à instituição, arrecadação e fiscalização de tributos”, e propor definição para “direito tributário”. R: Direito é o conjunto de regras necessárias para as relações sociais impostas pelo Estado que orientam a conduta humana, nas palavras de Hans Kelsen, “Direito se constitui primordialmente como um sistema de normas coativas permeado por uma lógica interna de validade que legitima, a partir de uma norma fundamental, todas as outras normas que lhe integram” Consideramos Direito Positivo os textos de lei (artigos, incisos, alíneas) que regulam as relações humanas, sendo uma linguagem prescritiva, ou seja, o que devemos ser. Já a Ciência do Direito, podemos considerar o estudo desse Direito Positivo, sendo uma linguagem descritiva, onde estudamos através de Doutrinas. Não podemos basear o Direito Tributário apenas no estudo da relação entre fisco e contribuinte, sendo, nas palavras de PAULO DE BARROS CARVALHO, “O ramo didaticamente autônomo do Direito, integrado pelo conjunto das proposições jurídico-normativas que correspondam, direta ou indiretamente, à instituição, arrecadação e fiscalização de tributos”. Sendo o Direito Tributário o ramo que estuda a criação, modificação e extinção das relações jurídicas de uma sociedade, fazendo o seu papel de Ciência do Direito, descrevendo o direito positivo Tributário. 2. Diferenciar “termo”, “conceito” e “definição”, trazendo exemplos para cada um deles. O que é “conceito” e “definição”? Há definições no âmbito da Ciência do Direito? E no âmbito do direito positivo? E o que é tributo? Explique apontando se há uma “definição” ou “conceito” de tributo no direito positivo? Com base na sua definição de tributo, quais dessas hipóteses são consideradas tributos? Não esqueça de fundamentar suas respostas. (Vide anexos I, II, III e IV): (i) valor cobrado pela União a título de ressarcimento de despesas com selos de controle de IPI fabricado pela Casa da Moeda; R: Não é considerado tributo, tendo o STJ decidido a inexigibilidade do ressarcimento de custos e demais encargos pelo fornecimento de selos. (ii) contribuição sindical (considerar as alterações da lei 13.467/17[footnoteRef:1]); [1: Art. 545. Os empregadores ficam obrigados a descontar da folha de pagamento dos seus empregados, desde que por eles devidamente autorizados, as contribuições devidas ao sindicato, quando por este notificados.] R: Após a reforma trabalhista a contribuição sindical não é mais compulsória, e sim uma escolha do contribuinte, sendo assim não se encaixa na definição do artigo 3º, CTN. (iii) tributo instituído por meio de decreto (inconstitucional); R: Apenas alíquotas podem ser alteradas por meio de decreto, conforme o artigo 153, §1º da CF, sendo assim, tributos criados por meio de decreto não devem ser considerados. (iv) o tributo inserido na base de cálculo de outro tributo; R: É considerado tributo, tendo como exceção apenas o artigo 155 §2º, inciso XI da CF, sendo o valor do IPI na base de cálculo do ICMS. (v) prestação pecuniária exigida pelo solo criado (solo criado = solo criado artificialmente pelo homem sobre ou sob o solo). R: A prestação pecuniária cobrada pelo solo criado é a ODC, porém o precedente do STF entende que a ODC é apenas uma ferramenta de política urbana, não se encaixando assim na definição de tributo do artigo 3º, CTN. R: Termo, no âmbito jurídico damos o significado de decisão, sendo um ato praticado por imperativo legal. Já conceito é a explicação de algo presente na ciência do direito, podendo ser ela subjetiva e variar de indivíduo para indivíduo; Por fim, definição podemos entender como algo que delimita, que atribuí uma exatidão à algo, presente no Direito positivo, como por exemplo o artigo 3º do CTN. A definição de tributo está no artigo 3º do CTN, delimitado como “Toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituida em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”. 3. Diferencie “enunciado” de “proposição” e “proposição descritiva” de “proposição prescritiva”. Com base na resposta aos dois questionamentos anteriores, qual a relação entre proposição e norma jurídica? R: Proposição, é a definição científica de um enunciado jurídico, indo além da letra da lei, explicando de maneira mais detalhada. Na proposição descritiva, buscamo informar os outros, e na prescritiva visamos modificar comportamentos. A relação entre norma jurídica e proposição é que a proposição é uma descrição cientifíca da norma, enquanto a norma proibe, obriga ou permite uma ação, a proposição ira relatar que existe uma norma sobre aquela ação. 4. Diferencie norma jurídica em “sentido amplo” e norma jurídica em “sentido estrito”. O que é norma jurídica primária e norma jurídica secundária? R: A norma jurídica em sentido amplo é a proposição prescritiva e em sentido estrito é a interpretação dessa proposição com a hipótese e consequência. A norma jurídica primária vai definir a hipótese, o dever jurídico diante de uma situação, já a norma jurídica secundária irá definir uma sanção caso essa hipótese ocorra. 5. Dada a seguinte lei (texto fictício): Estado de Minas Gerais, Lei Estadual nº 2.017, de 10/10/2017 A Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais Decretou e eu sanciono a seguinte lei: Art. 1º Esta Taxa de Controle, Monitoramento e Fiscalização de Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Hídricos, que tem como fato gerador o exercício do poder de polícia do Estado sobre estas atividades. Art. 2º A base de cálculo dessa taxa é a receita bruta obtida com a comercialização de mercadorias ou de serviços que utilizem recursos hídricos. Art. 3o. A alíquota é de 3%. Art. 4º Contribuinte é a pessoa, física ou jurídica, que utilize recursos hídricos com a finalidade de exploração ou aproveitamento econômico. Art. 5º A taxa será apurada mensalmente e recolhida, mediante preenchimento da guia de recolhimento, até o último dia útil do mês seguinte ao da exploração ou do aproveitamento do recurso hídrico, sob pena de multade 10% sobre o valor do tributo devido. Art. 6º Na ausência de apuração e recolhimento da taxa pelo contribuinte,a autoridade fiscal competente deverá lavrar “Auto de Infração e Imposição de Multa”, aplicando multa de 50% sobre o valor da taxa devida. Art. 7º É isenta do pagamento da taxa a utilização de recurso hídrico na captação e consumo destinados à atividade agropecuária. Art. 8º. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Pergunta-se: a) Aponte a concepção de “norma jurídica” adotada por você e indique quantas e quais normas há nessa lei? Identifique-as. R: Norma jurídica atribui uma consequênca à uma hipótese, sendo assim o artigo 1º e 4º atribui a hipótese, sendo a utilização de recursos hídricos para exploração ou aproveitamento econômico e o artigo 5º e 6º atribuem a consequência, sendo ela o pagamento da taxa e a sanção em caso de não pagamento e não apuração. b) Qual dessas normas institui tributo? R: O artigo 1º da Lei Estadual 2.017 institui um tributo, a taxa. c) Qual dessas normas é estudada pela Ciência do Direito Tributário? Justificar. R: Todas as normas podem ser objeto de estudo pela Ciência do Direito Tributário. d) O texto legal, acima transcrito, é Ciência do Direito? Justificar. R: Não, o texto acima é considerado Direito Positivo pois é a lei em si e não o estudo sobre ela. Sugestão para pesquisa suplementar • Capítulos I, II, V e item 6 do Capítulo VII do livro Curso de teoria geral do direito (o constructivismo lógico-semântico), de Aurora Tomazini de Carvalho. São Paulo: Noeses. • Capítulo I (definição de tributo), art. 3º e art. 4º do livro Comentários ao Código Tributário Nacional, de Rubens Gomes de Sousa, Geraldo Ataliba e Paulo de Barros Carvalho. São Paulo: Quartier Latin. • Capítulo II do livro Lançamento tributário, de Eurico M. Diniz de Santi. São Paulo: Max Limonad. • Capítulo I do livro A prova no direito tributário, de Fabiana Del Padre Tomé, São Paulo: Noeses. • Capítulo I, itens I.2 a I.4 do livro Presunções no direito tributário, de Maria Rita Ferragut. São Paulo: Quartier Latin. • Capítulo II item 2.4 do livro Contribuições: regime jurídico, destinação e controle, de Paulo Ayres Barreto. São Paulo: Noeses. • Capítulo I do livro Estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, de Lourival Vilanova. São Paulo: Noeses. • Hipótese de incidência tributária, primeira parte: “Noções introdutórias”, e terceira parte: “Classificação jurídica dos tributos”, de Geraldo Ataliba. São Paulo: Malheiros. • Itens: 3. (Sistema dos fundamentos óbvios), 10. (O maior equívoco), 11. (Diagnóstico da demência e a terapêutica), 12. (A doutrina do direito tributário a des raisons que la raison ne conntaît pas), 16. (Ciência do Direito), 17. (Lei científica e lei jurídica – Ser e dever ser – Causação e normatividade), 18. (Crítica aos críticos da teoria normativa do direito – Kelsen) e 19. (Direito é instrumento), do livro Teoria geral do direito tributário, de Alfredo Augusto Becker. São Paulo: Noeses. Anexo I ADI 447 NA EXCLUSAO DA INCIDENCIA ESTABELECIDA PELO PAR. 3. DO ART. 155 DA CONSTITUIÇÃO, SITUA-SE A TAXA DE CONSERVAÇÃO RODOVIARIA, CRIADA PELA LEI N. 8.155, DE 28.12.90, CUJO FATO GERADOR E A AQUISIÇÃO DE COMBUSTIVEL LIQUIDO. (ADI 447, Relator(a): OCTAVIO GALLOTTI, Tribunal Pleno, julgado em 05-06-1991, DJ 05-03-1993 PP-02896 EMENT VOL-01694-01 PP-00025 RTJ VOL-00145-01 PP-00015) Passagem do voto do Ministro Carlos Velloso: “Os tributos, nas suas diversas espécies, compõem o Sistema Constitucional Tributário brasileiro, que a Constituição inscreve nos seus arts. 145 a 162. Tributo, sabemos todos, encontra definição no art. 3º do CTN, definição que se resume, em termos jurídicos, no constituir ele uma obrigação que a lei impõe às pessoas, de entrega de uma certa importância em dinheiro ao Estado. As obrigações são voluntárias ou legais. As primeiras decorrem da vontade das partes, assim, do contrato; as legais resultam da lei, por isso são denominadas obrigações ex lege podem ser encontradas tanto no direito público quanto no direito privado. A obrigação tributária, obrigação ex lege, a mais importante do direito público, ‘nasce de um fato qualquer da vida concreta, que antes havia sido qualificado pela lei como apto a determinar o seu nascimento.’ (Geraldo Ataliba, ‘Hermenêutica e Sistema Constitucional Tributário’, in ‘Diritto e pratica tributaria’, volume L, Padova, Cedam, 1979). As diversas espécies tributárias, determinadas pela hipótese de incidência ou pelo fato gerador da respectiva obrigação (CTN, art. 4º), são a) os impostos (CF, art. 145, I, arts. 153, 154, 155 e 156), b) as taxas (CF, art. 145, II), c) as contribuições, que são c.l) de melhoria (CF, art. 145, III), c.2) sociais (CF, art. 149), que, por sua vez, podem ser c.2.1) de seguridade social (CF, art. 195, CF, 195, § 4º) e c.2.2) salário educação (CF, art. 212, § 5º) e c.3) especiais: c.3.1.) de intervenção no domínio econômico (CF, art. 149) e c.3.2) de interesse de categorias profissionais ou econômicas (CF, art. 149). Constituem, ainda, espécie tributária, d) os empréstimos compulsórios (CF, art. 148). (...)” Anexo II RE 387.047 EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. LEI N. 3.338/89 DO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS/SC. SOLO CRIADO. NÃO CONFIGURAÇÃO COMO TRIBUTO. OUTORGA ONEROSA DO DIREITO DE CRIAR SOLO. DISTINÇÃO ENTRE ÔNUS, DEVER E OBRIGAÇÃO. FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE. ARTIGOS 182 E 170, III DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. 1. SOLO CRIADO Solo criado é o solo artificialmente criado pelo homem [sobre ou sob o solo natural], resultado da construção praticada em volume superior ao permitido nos limites de um coeficiente único de aproveitamento. 2. OUTORGA ONEROSA DO DIREITO DE CRIAR SOLO. PRESTAÇÃO DE DAR CUJA SATISFAÇÃO AFASTA OBSTÁCULO AO EXERCÍCIO, POR QUEM A PRESTA, DE DETERMINADA FACULDADE. ATO NECESSÁRIO. ÔNUS. Não há, na hipótese, obrigação. Não se trata de tributo. Não se trata de imposto. Faculdade atribuível ao proprietário de imóvel, mercê da qual se lhe permite o exercício do direito de construir acima do coeficiente único de aproveitamento adotado em determinada área, desde que satisfeita prestação de dar que consubstancia ônus. Onde não há obrigação não pode haver tributo. Distinção entre ônus, dever e obrigação e entre ato devido e ato necessário. 3. ÔNUS DO PROPRIETÁRIO DE IMÓVEL URBANO. Instrumento próprio à política de desenvolvimento urbano, cuja execução incumbe ao Poder Público municipal, nos termos do disposto no artigo 182 da Constituição do Brasil. Instrumento voltado à correção de distorções que o crescimento urbano desordenado acarreta, à promoção do pleno desenvolvimento das funções da cidade e a dar concreção ao princípio da função social da propriedade [art. 170, III da CB]. 4. Recurso extraordinário conhecido, mas não provido. (RE 387047, Relator(a): EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 06-03-2008, DJe-078 DIVULG 30-04-2008 PUBLIC 02-05-2008 EMENT VOL-02317-04 PP-00799 RTJ VOL-00204-03 PP-01314 LEXSTF v. 30, n. 355, 2008, p. 263-287) Passagem do voto do Ministro Eros Grau (relator): “14. Observe-se que tributo é prestação de caráter obrigacional. O Código Tributário Nacional, ao referir a conduta “pagamento de tributo”, a ela atribui esse caráter. A comprovação disso é alcançada mediante o simples exame, por exemplo, dos textos dos seus artigos 113, 114, 119 e 121. Essa atribuição de caráter obrigacional àquela conduta é unanimemente reconhecida pela doutrina. 15. A amplitude do enunciado do artigo 3º do CTN é afetada pelo caráter obrigacional do tributo. O texto desse artigo 3º há de ser interpretado em coerência com a sistemática da codificação, que impede a intrusão, no conceito de tributo, de prestação de dar não obrigacionais. (...) 17. Aparentemente caberiam no interior do enunciado do artigo 3º do CTN todas as entradas compulsórias de moeda nos cofres públicos, decorrentes de obrigação ex lege, que não constituam sanção por ato ilícito. Um determinado ponto, todavia, é unanimemente reconhecido pela doutrina: ele é objeto de uma relação jurídicade natureza obrigacional. Aqui estão de acordo gregos e troianos: a relação jurídico-tributária, é de natureza obrigacional. Logo, não é possível a afirmação da existência de tributo onde não ocorra relação jurídica de natureza obrigacional. (...) 56. Já o tributo consubstancia objeto de obrigação. Seu pagamento é procedido no interesse alheio, isto é, do Estado. Trata-se, pois, de ato devido. (...)” Anexo III RE 94.001 ACRÉSCIMO DE 200% AO IMPOSTO IMOBILIÁRIO SOBRE IMÓVEIS ONDE HAJA CONSTRUÇÕES IRREGULARES. ACRÉSCIMO QUE CONFIGURA SANÇÃO A ILICITO ADMINISTRATIVO. O ARTIGO 3. DO CTN NÃO ADMITE QUE SE TENHA COMO TRIBUTO PRESTAÇÃO PECUNIARIA COMPULSORIA QUE CONSTITUA SANÇÃO DE ATO ILICITO. O QUE IMPLICA DIZER QUE NÃO E PERMITIDO, EM NOSSO SISTEMA TRIBUTÁRIO, QUE SE UTILIZE DE UM TRIBUTO COM A FINALIDADE EXTRAFISCAL DE SE PENALIZAR A ILICITUDE. TRIBUTO NÃO E MULTA, NEM PODE SER USADO COMO SE O FOSSE. SE O MUNICÍPIO QUER AGRAVAR A PUNIÇÃO DE QUEM CONSTROI IRREGULARMENTE, COMETENDO ILICITO ADMINISTRATIVO, QUE CRIE OU AGRAVE MULTAS COM ESSA FINALIDADE. O QUE NÃO PODE - POR SER CONTRARIO AO ARTIGO 3. DO CTN, E, CONSEQUENTEMENTE, POR NÃO SE INCLUIR NO PODER DE TRIBUTAR QUE A CONSTITUIÇÃO FEDERAL LHE CONFERE - E CRIAR ADICIONAL DE TRIBUTO PARA FAZER AS VEZES DE SANÇÃO PECUNIARIA DE ATO ILICITO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO CONHECIDO E PROVIDO, DECLARADA A INCONSTITUCIONALIDADE DA REDAÇÃO DADA, PELA LEI 7.785, DE 20 DE SETEMBRO DE 1972, AO INCISO I DO ARTIGO 15 DA LEI 6.989, JA ALTERADO PELA LEI 7.572, DE 29 DE DEZEMBRO DE 1970, TODAS DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. (RE 94001, Relator(a): MOREIRA ALVES, Tribunal Pleno, julgado em 11-03-1982, DJ 11-06-1982 PP-05680 EMENT VOL-01258-02 PP-00537 RTJ VOL-00104-03 PP-01129) Anexo IV ADI 5.794 Ementa: Direito Constitucional e Trabalhista. Reforma Trabalhista. Facultatividade da Contribuição Sindical. Constitucionalidade. Inexigência de Lei Complementar. Desnecessidade de lei específica. Inexistência de ofensa à isonomia tributária (Art. 150, II, da CRFB). Compulsoriedade da contribuição sindical não prevista na Constituição (artigos 8º, IV, e 149 da CRFB). Não violação à autonomia das organizações sindicais (art. 8º, I, da CRFB). Inocorrência de retrocesso social ou atentado aos direitos dos trabalhadores (artigos 1º, III e IV, 5º, XXXV, LV e LXXIV, 6º e 7º da CRFB). Correção da proliferação excessiva de sindicatos no Brasil. Reforma que visa ao fortalecimento da atuação sindical. Proteção às liberdades de associação, sindicalização e de expressão (artigos 5º, incisos IV e XVII, e 8º, caput, da CRFB). Garantia da liberdade de expressão (art. 5º, IV, da CRFB). Ações Diretas de Inconstitucionalidade julgadas improcedentes. Ação Declaratória de Constitucionalidade julgada procedente. 1. À lei ordinária compete dispor sobre fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes quanto à espécie tributária das contribuições, não sendo exigível a edição de lei complementar para a temática, ex vi do art. 146, III, alínea ‘a’, da Constituição. 2. A extinção de contribuição pode ser realizada por lei ordinária, em paralelismo à regra segundo a qual não é obrigatória a aprovação de lei complementar para a criação de contribuições, sendo certo que a Carta Magna apenas exige o veículo legislativo da lei complementar no caso das contribuições previdenciárias residuais, nos termos do art. 195, § 4º, da Constituição. Precedente (ADI 4697, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 06/10/2016). 3. A instituição da facultatividade do pagamento de contribuições sindicais não demanda lei específica, porquanto o art. 150, § 6º, da Constituição trata apenas de “subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão”, bem como porque a exigência de lei específica tem por finalidade evitar as chamadas “caudas legais” ou “contrabandos legislativos”, consistentes na inserção de benefícios fiscais em diplomas sobre matérias completamente distintas, como forma de chantagem e diminuição da transparência no debate público, o que não ocorreu na tramitação da reforma trabalhista de que trata a Lei nº 13.467/2017. Precedentes (ADI 4033, Relator(a): Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal Pleno, julgado em 15/09/2010; RE 550652 AgR, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Segunda Turma, julgado em 17/12/2013). 4. A Lei nº 13.467/2017 emprega critério homogêneo e igualitário ao exigir prévia e expressa anuência de todo e qualquer trabalhador para o desconto da contribuição sindical, ao mesmo tempo em que suprime a natureza tributária da contribuição, seja em relação aos sindicalizados, seja quanto aos demais, motivos pelos quais não há qualquer violação ao princípio da isonomia tributária (art. 150, II, da Constituição), até porque não há que se invocar uma limitação ao poder de tributar para prejudicar o contribuinte, expandindo o alcance do tributo, como suporte à pretensão de que os empregados não-sindicalizados sejam obrigados a pagar a contribuição sindical. 5. A Carta Magna não contém qualquer comando impondo a compulsoriedade da contribuição sindical, na medida em que o art. 8º, IV, da Constituição remete à lei a tarefa de dispor sobre a referida contribuição e o art. 149 da Lei Maior, por sua vez, limita-se a conferir à União o poder de criar contribuições sociais, o que, evidentemente, inclui a prerrogativa de extinguir ou modificar a natureza de contribuições existentes. 6. A supressão do caráter compulsório das contribuições sindicais não vulnera o princípio constitucional da autonomia da organização sindical, previsto no art. 8º, I, da Carta Magna, nem configura retrocesso social e violação aos direitos básicos de proteção ao trabalhador insculpidos nos artigos 1º, III e IV, 5º, XXXV, LV e LXXIV, 6º e 7º da Constituição. 7. A legislação em apreço tem por objetivo combater o problema da proliferação excessiva de organizações sindicais no Brasil, tendo sido apontado na exposição de motivos do substitutivo ao Projeto de Lei nº 6.787/2016, que deu origem à lei ora impugnada, que o país possuía, até março de 2017, 11.326 sindicatos de trabalhadores e 5.186 sindicatos de empregadores, segundo dados obtidos no Cadastro Nacional de Entidades Sindicais do Ministério do Trabalho, sendo que, somente no ano de 2016, a arrecadação da contribuição sindical alcançou a cifra de R$ 3,96 bilhões de reais. 8. O legislador democrático constatou que a contribuição compulsória gerava uma oferta excessiva e artificial de organizações sindicais, configurando uma perda social em detrimento dos trabalhadores, porquanto não apenas uma parcela dos vencimentos dos empregados era transferida para entidades sobre as quais eles possuíam pouca ou nenhuma ingerência, como também o número estratosférico de sindicatos não se traduzia em um correspondente aumento do bem-estar da categoria. 9. A garantia de uma fonte de custeio, independentemente de resultados, cria incentivos perversos para uma atuação dos sindicatos fraca e descompromissada com os anseios dos empregados, de modo que a Lei nº 13.467/2017 tem por escopo o fortalecimento e a eficiência das entidades sindicais, que passam a ser orientadas pela necessidade de perseguir os reais interesses dos trabalhadores, a fim de atraírem cada vez mais filiados. 10. Esta Corte já reconheceu que normas afastando o pagamento obrigatório da contribuição sindical não configuram indevida interferência na autonomia dos sindicatos: ADI 2522, Relator(a): Min. EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 08/06/2006. 11. A Constituição consagra como direitos fundamentais as liberdades de associação, sindicalização e de expressão, consoante o disposto nos artigos 5º, incisos IV e XVII, e 8º, caput, tendo o legislador democrático decidido que a contribuição sindical, criada no período autoritário do estado novo, tornava nula a liberdade de associar-se a sindicatos. 12. O engajamento notório de entidades sindicais em atividades políticas, lançando e apoiando candidatos, conclamando protestos e mantendo estreitos laços com partidos políticos, faz comque a exigência de financiamento por indivíduos a atividades políticas com as quais não concordam, por meio de contribuições compulsórias a sindicatos, configure violação à garantia fundamental da liberdade de expressão, protegida pelo art. 5º, IV, da Constituição. Direito Comparado: Suprema Corte dos Estados Unidos, casos Janus v. American Federation of State, County, and Municipal Employees, Council 31 (2018) e Abood v. Detroit Board of Education (1977). 13. A Lei nº 13.467/2017 não compromete a prestação de assistência judiciária gratuita perante a Justiça Trabalhista, realizada pelos sindicatos inclusive quanto a trabalhadores não associados, visto que os sindicatos ainda dispõem de múltiplas formas de custeio, incluindo a contribuição confederativa (art. 8º, IV, primeira parte, da Constituição), a contribuição assistencial (art. 513, alínea ‘e’, da CLT) e outras contribuições instituídas em assembleia da categoria ou constantes de negociação coletiva, bem assim porque a Lei n.º 13.467/2017 ampliou as formas de financiamento da assistência jurídica prestada pelos sindicatos, passando a prever o direito dos advogados sindicais à percepção de honorários sucumbenciais (nova redação do art. 791-A, caput e § 1º, da CLT), e a própria Lei n.º 5.584/70, em seu art. 17, já dispunha que, ante a inexistência de sindicato, cumpre à Defensoria Pública a prestação de assistência judiciária no âmbito trabalhista. 14. A autocontenção judicial requer o respeito à escolha democrática do legislador, à míngua de razões teóricas ou elementos empíricos que tornem inadmissível a sua opção, plasmada na reforma trabalhista sancionada pelo Presidente da República, em homenagem à presunção de constitucionalidade das leis e à luz dos artigos 5º, incisos IV e XVII, e 8º, caput, da Constituição, os quais garantem as liberdades de expressão, de associação e de sindicalização. 15. Ações Diretas de Inconstitucionalidade julgadas improcedentes e Ação Declaratória de Constitucionalidade julgada procedente para assentar a compatibilidade da Lei n.º 13.467/2017 com a Carta Magna. (ADI 5794, Relator(a): EDSON FACHIN, Relator(a) p/ Acórdão: LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 29-06-2018, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-083 DIVULG 22-04-2019 PUBLIC 23-04-2019) image1.jpeg image2.jpeg image3.jpg