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Brasília-DF. GeotecnoloGias aplicadas ao estudo ambiental Elaboração Letícia Roberta Amaro Trombeta Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 6 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 8 UNIDADE I FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO .................................................................. 9 CAPÍTULO 1 CARTOGRAFIA ......................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 2 GEOPROCESSAMENTO .......................................................................................................... 20 UNIDADE II INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO ............ 32 CAPÍTULO 1 FOTOGRAMETRIA E FOTOINTERPRETAÇÃO ............................................................................... 32 CAPÍTULO 2 SENSORIAMENTO REMOTO ..................................................................................................... 44 UNIDADE III GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS .................................................................................. 52 CAPÍTULO 1 SENSORIAMENTO REMOTO E RECURSOS FLORESTAIS ............................................................... 53 CAPÍTULO 2 MENSURAÇÃO FLORESTAL ...................................................................................................... 60 CAPÍTULO 3 MANEJO DE FLORESTAS NATURAIS .......................................................................................... 66 UNIDADE IV AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL .......................................................................................... 73 CAPÍTULO 1 TEORIA DE AMOSTRAGEM APLICADA AOS LEVANTAMENTOS FLORESTAIS .................................. 73 CAPÍTULO 2 SISTEMA DE POSICIONAMENTO GLOBAL E PROCESSAMENTO DOS DADOS .............................. 80 UNIDADE V INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL ................................................................................................................. 89 CAPÍTULO 1 FUNDAMENTOS DE PLANEJAMENTO AMBIENTAL E GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS ............... 89 CAPÍTULO 2 USO E COBERTURA DA TERRA ............................................................................................... 108 CAPÍTULO 3 MODELO DIGITAL DE TERRENO ............................................................................................. 112 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 124 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução As Geotecnologias compreende a um amplo conjunto de ferramentas e técnicas que são são fundamentais para diversas rotinas de estudos ambientais, desde o planejamento ambiental, licenciamento ambiental, estudos florestais, planejamento urbano, dentre outros. Objetivos » Compreender as principais ferramentas das Geotecnologias para o estudo ambiental. » Entender como o Geoprocessamento pode ser utilizado na análise dos recursos florestais. » Conhecer instrumentos de Geoprocessamento para aplicações no planejamento ambiental e na gestão de recursos hídricos. 9 UNIDADE I FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO Antes de realizar qualquer aplicação que envolva cartografia e/ou geoprocessamento, é preciso conhecer seus fundamentos, os quais apresentam normas e procedimentos metodológicos que devem ser seguidos, a fim de evitar erros de deslocamento, análises em dados com sistemas de coordenadas e datum diferentes, entre outras situações. O manuseio incorreto dos dados e informações sem considerar os fundamentos básicos da cartografia pode prejudicar ou até mesmo invalidar as análises, pois não serão corretas, representando os objetos, elementos e fenômenos da superfície terrestre de forma errada. Por isso, ser um profissional que entende e tem clareza sobre a teoria irá auxiliar no desenvolvimento de trabalhos práticos, relacionados com a cartografia e o geoprocessamento, de excelência. CAPÍTULO 1 Cartografia Há muitos séculos, os homens se dedicavam ao desafio de medir a Terra. Primeiramente, foi conhecer e entender o seu formato e, depois, utilizar as edições para se localizar na superfície terrestre. Muito se avançou até os dias atuais, mas a problemática de representação da Terra ainda é uma questão permanente, sendo trabalhada amplamente na geodésia e na cartografia. Embora a Terra tenha um formato com certa esfericidade, esta não é perfeita, justamente por conta das diferenças na superfície terrestre constituídas pelo relevo. Atualmente, a figura que reproduz o formato da Terra é o geoide, o qual consisteno modelo físico da Terra, e que leva em consideração a topografia da superfície terrestre na sua representação, possuindo características complexas (Figura 1). 10 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO Figura 1. Geoide. Fonte: Pixaby apud Oficina de Textos, 2020. Para que fosse possível realizar as medições sobre a superfície terrestre, foi necessário utilizar uma figura matemática perfeita que mais se aproximasse do formato da Terra, que consiste no elipsoide como superfície de referência, sendo aplicado na realização dos cálculos necessários à representação cartográfica da Terra (Figura 2). Figura 2. Formas de representação da Terra. Diâmetro equatorial = 12.756 km esfera elipsoide geoide forma “real” Ei xo d e ro ta çã o = 12 .7 14 k m Fonte: Fitz, 2008a, p. 16. 11 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I Cada região possui características e relevos diversos. Diante disso, é necessário desenvolver elipsoides e projeções diferentes para cada região, os quais consistem em diferentes data (plural de datum). Projeções cartográficas Existem diversas projeções cartográficas que são adotadas para que se consiga representar uma superfície geoidal, portanto curva, em um plano cartográfico. Além disso, é um método empregado para que cada ponto da superfície da Terra corresponda a um ponto na representação plana e vice-versa. É importante salientar que todas as representações de superfícies curvas em um plano envolvem “extensões” e “contrações” que resultam em distorções. Como as distorções são inevitáveis em qualquer representação cartográfica, algumas propriedades podem ser escolhidas em detrimento de outras. As projeções cartográficas podem utilizar três tipos de superfícies: cilíndrica, cônica e azimutal (Figura 3). Figura 3. Classificação das projeções de acordo com o tipo de superfície de projeção: A) plana; B) cônica; C) cilíndrica. A B C Fonte: Fitz, 2008a, p. 45. As projeções cartográficas também podem ser classificadas de acordo com diferentes metodologias, as quais buscam sempre um melhor ajuste da superfície a ser representada. De acordo com Oliveira (1988), as projeções cartográficas podem ser classificadas quanto às deformações apresentadas: » Conformes (ou semelhantes): preservam as formas e os ângulos das feições representadas, mas deformam a extensão da área. A mais conhecida das projeções conformes é a projeção Mercator (não confunda com o Sistema Universal Transversa de Mercator – UTM). 12 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO A Figura 4 representa o mapa-múndi na projeção Mercator; repare que as áreas não são preservadas, por exemplo, é sabido que a Groenlândia (ao norte) é um território bem menor que o Brasil, no entanto, nessa projeção apresenta-se até maior. Figura 4. Mapa-múndi na projeção de Mercator. Fonte: Super Interessante, 2018. » Equivalentes: preservam o tamanho das áreas, mas deformam os ângulos; a mais conhecida é a projeção de Peters (Figura 5). Figura 5. Mapa-múndi na projeção de Peters. Fonte: Pena, 2020. 13 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I » Equidistantes: preservam as distâncias em pontos específicos. Não preserva a forma dos continentes e nem suas dimensões, porém mantém as mesmas distâncias, por isso a denominação equidistante. É muito utilizada para determinação e orientação em rotas marítimas e aéreas. Um exemplo é a projeção de Plate Carrée (Figura 6). Figura 6. Mapa-múndi na projeção Plate Carrée. Fonte: Qgis, 2020a. A escolha de uma determinada projeção sempre será em função do objetivo do trabalho e da representação. Sistema de coordenadas A sistemática de divisão do planeta é utilizada, na prática, para a localização de pontos sobre a superfície terrestre, de forma que os valores sejam únicos para o posicionamento de objetos, elementos e fenômenos. Para efetivar essa divisão do planeta, é necessário utilizar um sistema de referência baseado na determinação de coordenadas, as quais são expressas por meio de valores angulares (coordenadas esféricas) e lineares (coordenadas planas). Os sistemas de coordenadas mais utilizados são o Sistema de Coordenadas Geográfico, baseado em coordenadas geodésicas, e o Sistema Universal Transversa de Mercator (UTM), baseado em coordenadas planorretangulares. Nas coordenadas geográficas, a localização é dada pela intersecção entre paralelos (linhas imaginárias que circundam o planeta no sentido horizontal, sendo 14 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO o principal paralelo a Linha do Equador) ou latitudes e os meridianos (linhas imaginárias que circundam o planeta no sentido vertical, sendo o principal o meridiano de Greenwich) ou longitudes. Elas podem ter a sua notação de duas formas: graus, minutos e segundos ou graus decimais. Por exemplo, o par de coordenadas da localização aproximada do Museu de Arte de São Paulo (MASP), situado na cidade de São Paulo, é dado por latitude 23°33’41”S e longitude 46°39’21”O, transformando para coordenadas decimais tem-se latitude -23,561406° e longitude -46,655883. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais disponibiliza uma calculadora geográfica que converte as coordenadas em diversos formatos e sistemas geodésicos. Acesse pelo link: » http://www.dpi.inpe.br/calcula/. As coordenadas planas ou cartesianas são formadas por dois eixos perpendiculares, horizontal e vertical (X e Y), ou seja, são baseadas no plano cartesiano e utilizam o metro (m) como unidade para medir distâncias e determinar a posição de um objeto na superfície terrestre. Diferentes projeções poderão ser utilizadas na confecção de mapas com coordenadas planas; no Brasil, a mais utilizada é a Universal Transversa de Mercator (UTM). Sistema Universal Transversa de Mercator – UTM Foi entre as duas grandes Guerras Mundiais que diversos países da Europa e a ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) adotaram a projeção UTM para confecção de mapas militares. Como ela utiliza como unidade de medida o metro (m), ficava mais fácil calcular a distância entre os pontos, auxiliando na estratégia de ataque. Em 1950, os Estados Unidos da América (EUA) propuseram uma combinação para abranger a totalidade das longitudes (para todo o planeta), e esse sistema recebeu a denominação atual (FITZ, 2008a). As principais características do sistema UTM são: » Utiliza uma projeção cilíndrica. 15 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I » O cilindro fica transversal ao globo terrestre. » É um sistema universal, isto é, utilizado internacionalmente para representação da superfície terrestre. » Indicado para mapeamentos em grande e média escala. » Tem limitações latitudinais: pode ser utilizado entre as latitudes 80°S e 84°N. Nesse sistema, a Terra é dividida em 60 fusos de 6° de longitude, os quais têm início no antimeridiano de Greenwich (180° de longitude), e seguem de oeste para leste, em coincidência com os fusos da Carta Internacional do Milionésimo (CIM), como apresenta a Figura 7. Figura 7. Grade do sistema UTM. Fonte: Google Earth, 2020. Neste link, você pode baixar o arquivo na extensão kmz dos fusos UTM no mundo e identificar corretamente o fuso da sua área de estudo. https://pt.geofumadas.com/descarga-zonas-utm-google-earth/. No exemplo da Figura 7, foi destacado o município de Goiânia; observa-se que o fuso UTM em que está situado é o 22 Sul, já que se encontra no hemisfério Sul. Sistema Geodésico Cada datum provém do encontro entre o elipsoide e o geoide, sendo particular para cada região (ou recorte geográfico), o que explica o fato de variar em muitos países e/ou regiões (Figura 8). 16 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO Figura 8. Superfícies de referência. Datum Superfície Física Terrestre Elipsoide Geoide Fonte: Santos; Silva; Souza, 2016. Com isso, a forma e o tamanho de umelipsoide, bem como sua posição relativa ao geoide definem o datum ou o sistema geodésico, como queira denominar. É necessário se atentar, pois utilizar dois sistemas geodésicos diferentes em um mesmo projeto prejudica a qualidade e o andamento do trabalho, sendo necessário criar um padrão. O datum pode ser topocêntrico (determinado a partir de um ponto na superfície terrestre e todo o erro é distribuído) – um exemplo é o SAD69 – datum regional para a América do Sul; ou geocêntrico (o pontos de fixação coincide com o centro da Terra), os quais são modernos, como Sirgas 2000 (datum oficial do Sistema Geodésico Brasileiro) e o WGS 84, utilizado como padrão no GPS e no Google Earth e Google Maps. A Resolução da Presidência do IBGE 01/2015, de 24 de fevereiro de 2015, define a data de término do período de transição definido na RPR 01/2005 e dá outras providências sobre a transformação entre os referenciais geodésicos adotados no Brasil. Pode ser consultado no link: » ftp://geoftp.ibge.gov.br/metodos_e_outros_documentos_de_ referencia/normas/rpr_01_2015_sirgas2000.pdf. Verificação do sitema de coordenadas e datum no sistema de informações geográficas Parte fundamental e a primeira tarefa a ser executada em um trabalho com utilização da cartografia e do geoprocessamento é o conhecimento e a confiabilidade dos dados e informações que serão utilizadas em um determinado projeto. 17 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I Com isso, é essencial saber a fonte, a escala, o sistema de coordenadas e o datum, dentre outras, dos dados que irá manipular e analisar. Outra opção é consultar no próprio SIG, caso este dado geoespacial esteja georreferenciado. Para fins de demonstração, neste material de estudo será utilizado o SIG QGIS, mas todas as ferramentas a serem usadas estão disponíveis em outros softwares também. Será utilizado o QGIS por ser gratuito, o qual todos podem baixar e instalar em seu computador. No link disponível a seguir você pode baixar o instalador do QGIS. Sempre ficam disponíveis no site duas versões para baixar: a mais recente, que é a versão de testes, a qual os usuários ainda estão reportando os erros e bugs encontrados; e a versão estável, que já foi atualizada e corrigida com base no feedback dos usuários. Com isso, aconselha-se o uso da versão estável, especialmente para iniciantes. No site, você também pode explorar outras informações e conteúdos do QGIS. Nesse SIG, é possível trabalhar tanto com a estrutura de dados vetorial quanto com a matricial. No entanto, se forem necessárias muitas análises específicas com rasters, aconselha-se utilizar SIGs específicos de processamento de imagens e sensoriamento remoto. A interface do QGIS é bastante intuitiva, mas lembre que o mais importante é conhecer os conceitos e métodos empregados nos processos e ferramentas de análises espaciais. Com conhecimento sólido, será possível operar qualquer software de SIGs diversos. Disponível em: <https://www.qgis.org/pt_BR/site/forusers/download.html>. Ao abrir o software QGIS Desktop, deverá abrir o arquivo geoespacial que deseja analisar na opção: Gerenciador de Fontes de Dados > Vetor > Buscar: seleciona o arquivo desejado > Adicionar > Close (Figura 9). Este é um dado referente aos limites municipais do Brasil, de acordo com a base cartográfica do IBGE de 2019, shapefile “lml_municipio_a”. 18 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO Figura 9. Abrindo um arquivo vetorial no QGIS. Vetor Close Adicionar Fonte: própria autora, 2020. Para consultar o sistema de coordenadas e o datum desse dado, basta clicar com o botão direito em cima da camada adicionada > Propriedades > Informação > Consulta no campo SRC o sistema de coordenadas e datum (Figura 10), os quais são Sistema de Coordenadas Geográficas e datum Sirgas 2000. Figura 10. Consultando o sistema de coordenadas e o datum no QGIS. Propriedade Informação SRC EPSG:4674 – SIRGAS 200000 - Geográfico OK Fonte: própria autora, 2020. 19 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I Essa sempre deve ser a primeira quando abrir um projeto no QGIS: consultar o sistema de coordenadas e datum de todas as camadas que serão utilizadas no trabalho e uniformizá-las, reprojetando para um único sistema de referência. Para isso, basta estar cm a camada já no QGIS clicar em Vetor > Gerenciar dados > Reprojetar camada > Escolher a camada de entrada, ou seja, o dado que será reprojetado > Definir o novo SRC > Salvar o arquivo em um diretório > Executar e Close (Figura 11). Nesse exemplo, foi reprojetada a camada de Rodovias que estava em WGS 84 para Sirgas 2000. Figura 11. Reprojetando uma camada no QGIS. Executar Close SRC destino Camada de entrada ... Reprojetar camada... Gerenciar dados Vector Fonte: própria autora, 2020. Considerando que todos os dados do projeto deverão estar com o sistema de coordenadas geográficas e no datum Sirgas 2000, o qual é o sistema geodésico implantado no Brasil atualmente, deve-se reprojetar tudo o que estiver com sistema de referência diferente. 20 CAPÍTULO 2 Geoprocessamento O geoprocessamento, aliado a outras geotecnologias, trouxe avanços significativos às análises de diversos temas que utilizam o espaço geográfico como referência. É importante ressaltar que o conceito de geoprocessamento não pode ser confundido com o restante das geotecnologias, que envolve o Sistema de Informações Geográficas (SIGs), Sensoriamento Remoto, Sistema de Posicionamento Global por satélites, entre outros. Portanto, geoprocessamento não é sinônimo de geotecnologias; esta é bem mais ampla e envolve diversas técnicas e métodos. De acordo com Fitz, o geoprocessamento pode ser considerado “[...] uma tecnologia, ou mesmo um conjunto de tecnologias, que possibilita a manipulação, a análise, a simulação de modelagens e a visualização de dados georreferenciados. Trata-se, portanto, de uma técnica agregada ou não ao uso do SIG” (2008b, p. 24). Por sua vez, Silva (2009, p. 42) detalha ainda mais o conceito de geoprocessamento, definindo-o como: Um conjunto de conceitos, métodos e técnicas que, atuando sobre base de dados georreferenciados, por computação eletrônica, propicia a geração de análises e sínteses que consideram, conjugadamente, as propriedades intrínsecas e geotopológicas dos eventos e entidades identificadas, criando informação relevante para apoio à tomada de decisão quanto aos recursos ambientais. O geoprocessamento contempla um conjunto de procedimentos metodológicos necessários para analisar espacialmente o ambiente, dos quais derivam hardware, software e peopleware (operadores de geoprocessamento e o usuário da informação produzida). Então, quem utiliza ou opera uma base de dados georreferenciada, bem como técnicas computacionais para análise e sintetização de atributos que busque relações entre o fenômeno estudado a partir da distribuição espacial, está fazendo uso do geoprocessamento. Com isso, o geoprocessamento é utilizado, como destaca Silva (2009), para: » produzir e usar bases de dados georreferenciadas; » coletar e identificar matrizes de dados, definidoras de incidências territoriais comuns de múltiplas variáveis; 21 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I » transformar dados em informação; » gerar conhecimentos para apoio à decisão quanto aos recursos físicos, bióticos e socioeconômicos do ambiente. Cabe salientar que o ambiente (ou meio ambiente) tratado aqui é entendido como um conceito amplo, que envolve a natureza e a sociedade, resultando numa relação que transforma o espaço geográfico. Nesse contexto, destacam-se duas geotecnologias que são muito utilizadas no geoprocessamento: o Sistema de Posicionamento por Satélite e o SIG. O Sistema de Posicionamento por Satélite é uma geotecnologia de uso crescente em diversos ramos do conhecimento e inúmeros segmentos e atividades,como em geociências, engenharias, arquitetura, saúde etc. Já o SIG é uma ferramenta dentro do geoprocessamento e, portanto, uma geotecnologia que permite a integração de cinco componentes básicos: o hardware, o software, os dados geoespaciais, as análises e as pessoas, os quais são dependentes uns dos outros. Fitz define o SIG como: Um sistema constituído por um conjunto de programas computacionais, o qual integra dados, equipamentos e pessoas com o objetivo de coletar, armazenar, recuperar, manipular, visualizar e analisar dados espacialmente referenciados a um sistema de coordenadas conhecido. (2008b, p. 23) Com isso, o SIG é uma das grandes potencialidades das geotecnologias, com seus produtos vinculados ao espaço físico, podendo abordar fenômenos climáticos, humanos, sociais, econômicos, entre outros, com aplicações no planejamento, gestão, monitoramento, manejo, caracterização de espaços urbanos e rurais etc. (FITZ, 2008b). Outra aplicação que foi facilitada por esses sistemas é a sobreposição dos dados geoespaciais de diversas temáticas para comparações, correlações e geração de mapas de síntese, agilizando uma análise integrada do espaço. Como o SIG opera a partir de dados geoespaciais, que têm referência espacial, está associado a um sistema de coordenadas geográficas ou georrefenciado. Assim, caso os dados não tenham suas coordenadas atribuídas, deverão passar pelo processo de georreferenciamento no próprio SIG. Os dados utilizados e manipulados pelas tecnologias de geoprocessamento, de acordo com o IBGE (1999), são: » Dados de referência e cadastrais: dados digitais com a referência espacial armazenada em formato de coordenadas, podendo ser vetoriais ou matriciais, e com seus atributos não gráficos armazenados em um banco de dados. 22 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO » Dados temáticos: representados por estrutura vetorial ou matricial, relacionados aos temas que serão analisados no SIG. » Rede: parte dos dados de referência e temáticos que são armazenados em forma de coordenadas vetoriais, com tipologia arco-nó e com seus atributos não gráficos guardados em um banco de dados. » Imagens de sensoriamento remoto: armazenadas em representação matricial, utilizadas para mapeamentos de referência e mapeamentos temáticos. São obtidas por sensores remotos, como as imagens de satélites e fotografias aéreas e terrestres. » Dados tabulares: associados ou não aos dados gráficos ou espaciais, na estrutura vetorial, que podem contemplar informações quantitativas e/ou qualitativas. Estrutura de dados Os dados geoespaciais podem ser representados de forma digital, e por sua vez, operados em um SIG, podendo ser representados em duas estruturas: vetorial ou matricial (Figura 12). Figura 12. Estrutura de dados vetorial e matricial. Fonte: Fitz, 2008b, p. 55. 23 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I A estrutura vetorial é dada pelas geometrias (ou, simplificadamente, “desenhos”), para representação dos fenômenos, objetos ou elementos da superfície terrestre que se queira mapear. Tais geometrias podem ser mapeadas a partir de três primitivas gráficas: o ponto, a linha e o polígono (ou áreas). Nenhuma outra representação é aceita no modelo vetorial. O ponto é a estrutura menos complexa, sendo localizado a partir de um par de coordenadas conhecidas. A linha é formada por no mínimo dois pontos e um seguimento de reta e por dois ou mais pares de coordenadas conhecidas. Já o polígono é formado por um conjunto de pontos e seguimentos de reta que devem estar conectados no início e no final da geometria, caso contrário, não passarão de uma linha (Figura 13). Figura 13. Primitivas gráficas da estrutura vetorial. linha pont área X Y Fonte: Medeiros, 2020. A topologia dos dados vetoriais se baseia nos relacionamentos espaciais entre as primitivas gráficas (ponto, linha e polígono), tais como: conectividade dos elementos, se estão ligados ou não; contiguidade, que diz respeito à identificação do contato de elementos; e proximidade, que está relacionada com a distância entre dois elementos. Alguns erros topológicos comuns são: geometrias sobrepostas, espaços entre os elementos (formando buracos), linhas desconectadas etc. Os SIGs possuem ferramentas para identificação e correção dos erros topológicos, dando maior consistência (qualidade e precisão) aos dados espaciais. No entanto, vale ressaltar que o papel do analista é fundamental para a interpretação dos erros, pois podem existir condições em que a ferramenta 24 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO utilizada no SIG aponta um erro que pode não ser realmente um erro. Por exemplo, se o interesse é mapear apenas o espelho d’água de um reservatório, caso existam ilhas, a feição final deverá ter buracos, que não devem ser considerados erros. A escala é um fator determinante na representação dos dados geoespaciais na estrutura vetorial, pois definirá a qualidade dos dados, podendo ser diversa entre os dados espaciais e suas representações. É comum que, em um mapa do Brasil, as cidades principais sejam representadas com um ponto, pois é inviável representá-las como polígonos, uma vez que sua escala de representação teria de ser muito grande para propiciar um mapa legível. No entanto, em um mapa estadual, as cidades são representadas como polígonos (áreas), pois a escala de representação permite a sua visualização, e não faria tanto sentido ter um mapa estadual com as cidades localizadas como pontos. Portanto, a primitiva gráfica escolhida para representar os dados espaciais dependerá do objetivo do trabalho, com o qual a escala deverá ser compatível. A estrutura matricial, ou mais conhecida como raster (Figura 3), é organizada por uma matriz em linhas e colunas, na qual cada célula forma um pixel. O tamanho do pixel é o fator determinante da escala, fazendo referência à sua resolução espacial. Quanto menor for o tamanho do pixel, maior será sua resolução espacial ou escala (Figura 14). Figura 14. Estrutura matricial. Raster Pixel Colunas Li nh as Fonte: Qgis, 2020b. https://docs.qgis.org/2.14/pt_BR/_images/raster_dataset.png. 25 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I Os dados alfanuméricos também são parte integrante dos dados espaciais, podendo estar associados a uma geometria, a qual representa um objeto ou fenômeno da superfície terrestre, sendo facilmente relacionados a partir de um banco de dados ou por ferramentas dentro do SIG. Na escolha entre uma estrutura vetorial ou matricial, há vantagens e desvantagens na utilização de uma estrutura de dados em detrimento de outra, e tudo dependerá das análises que se pretende realizar e dos resultados e produtos esperados, pois terão ligação direta com a escolha, como apresenta o Quadro 1. Quadro 1. Vantagens e desvantagens das estruturas matricial e vetorial. Matricial Vetorial Tradução de imagens digitais matriciais geradas por sensoriamento remoto e processos e escaneamento. Tradução de imagens vetorizadas, compostas de pontos, linhas e polígonos. A execução de operações entre camadas, ou layers, de mesma área e atributos distintos é extremamente rápida e fácil, também conhecida pela expressão Raster is Faster! (Raster é mais rápido!). A execução de operações entre camadas, ou layers, de mesma área e atributos distintos é bastante complexa e demorada. O vínculo com atributos alfanuméricos é dificultado (pixel a pixel). O vínculo com atributos alfanuméricos é facilitado, já que se dá através do ponto, linha ou polígono registrado. A resolução digital está vinculada diretamente à quantidade de pixels da imagem, podendo exigir processadores de grande capacidade e velocidade. A resolução digital do mapa é limitada pela quantidade de vetores dispostos e de sua impressão, proporcionando grande detalhamento. As fronteiras das imagens são descontínuas (efeito serrilhado).As fronteiras das imagens são contínuas (feições regulares). Os cálculos de distâncias, áreas etc. vinculam-se ao desempenho do hardware. Os cálculos de distâncias, áreas etc. são, em geral, simplificados, tornando o processamento mais ágil. Fonte: Fitz, 2008b. As estruturas vetorial e matricial podem ter arquivos de diversas extensões, podendo ser utilizados no SIG ou em plataformas que hospedem os dados e informações geoespaciais, tais como: » Estrutura vetorial: › .dxf: nativa dos sistemas CAD, que faz referências aos tipos de softwares de desenho assistido por computado; › .dwg: também é uma extensão proprietária da Autodesk, a qual propicia transmissão via Web e redes; › .kml e .kmz: nativas do Google Earth e bastante populares entre os usuários de dados espaciais; › .gpx: armazena os dados e informações obtidas com aparelho GPS, em pontos, rotas e trilhas; 26 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO › .shp: é proprietária da Esri e a extensão de dados vetoriais mais utilizada no mundo. » Estrutura matricial: › .bmp: formato nativo do Sistema Operacional Windows da Microsoft, o arquivo é pesado, pois não utiliza compressor de imagem; › .jpeg: formato que faz uso do compressor de imagem, porém ocorre perda na sua qualidade; › .png: formato que tem uma forma de compactação bastante eficiente, reduzindo o arquivo e mantendo a sua qualidade; › .gif: formato que utiliza uma forma de compactação que não altera a qualidade, porém com uma paleta de apenas 256 cores, tornando-o limitado; › .tif: formato que garante a resolução da imagem e a comprime sem perder a qualidade, por isso é muito utilizado no geoprocessamento; › .geotif: é o raster em formato TIFF, porém georreferenciado. É importante destacar uma peculiaridade da extensão shapefile (.shp), pois este formato é formado por um conjunto de arquivos de diferentes extensões, das quais três são obrigatórias, para que possa ser aberto e utilizado no SIG: » .shp: arquivo responsável por armazenar as geometrias (ponto, linha ou polígono); » .dbf: arquivo responsável por armazenar a tabela de atributos da geometria; » .shx: arquivo responsável por criar um vínculo entre a geometria (.shp) e a tabela de atributos (.dbf). As demais extensões são facultativas: » .cpg: arquivo responsável por armazenar os códigos de página; » .sbn e sbx: arquivos responsáveis por armazenar o índice espacial; » .xml: arquivo responsável por armazenar os metadados geoespaciais no formato XML. 27 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I Ao transferir ou compartilhar o shapefile, todos os seus arquivos formadores precisam ter o mesmo nome e estar na mesma pasta (Figura 15); por isso, via de regra, eles são compactados em formato .zip. Figura 15. Diretório com arquivos shapefiles e suas extensões. GEOFT_BHO_PCJ_TDR.dbf GEOFT_BHO_PCJ_TDR.prj GEOFT_BHO_PCJ_TDR.sbn GEOFT_BHO_PCJ_TDR.sbx GEOFT_BHO_PCJ_TDR GEOFT_BHO_PCJ_TDR Arquivo DBF Arquivo PRJ Arquivo SBN Arquivo SBX Arquivo SHP Arquivo cpj Nome Tipo Fonte: própria autora, 2020. Acima de tudo, a escolha da extensão do arquivo a ser utilizado dependerá dos objetivos do trabalho, da forma de análise e da sua representação no produto cartográfico. De acordo com Câmara e Queiroz (2004), há pelo menos três maneiras de utilizar um SIG, as quais são convergentes e não divergentes: » como ferramenta para produção de mapas; » como suporte para análise espacial de fenômenos; » como um banco de dados geográfico, com funções de armazenamento e recuperação de informação espacial. A vinculação do SIG com um banco de dados variado e atualizado é essencial para explorar toda a capacidade do sistema e obter resultados satisfatórios. Além disso, existem as Infraestruturas de Dados Espaciais ou Geoportais, de âmbito nacional, estadual e municipal. O Brasil desenvolveu sua Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais (Inde), a qual possui um catálogo de metadados geoespaciais de diversos órgãos públicos federais. Os estados também estão desenvolvendo e consolidando suas infraestruturas de dados, como é o caso de São Paulo, com a Infraestrutura de Dados Espaciais do Estado de São Paulo (IDE–SP), de Minas Gerais, com a Infraestrutura Estadual de Dados Espaciais de Minas Gerais (Iede), do Rio Grande do Sul, com a Infraestrutura Estadual de Dados Espaciais, ou Geoportal RS, dentre outros. O município de São Paulo também disponibiliza seus dados georreferenciados em sua plataforma GeoSampa, ou Mapa Digital da Cidade de São Paulo, na qual podem ser visualizados e baixados diversos dados temáticos e sistemáticos do município. 28 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO As infraestruturas de dados racionalizam a produção e utilização dos dados geoespaciais, promovendo economia de recursos públicos, já que diversos órgãos públicos produziam os mesmos dados, além de possibilitar a aproximação dos cidadãos ao conhecimento desse tipo de dados e informações. Além disso, elas oferecem diversas formas de consumir os dados geoespaciais, que podem ser pelo download dos arquivos georreferenciados ou por conexão via Web apenas para visualização dos dados e comparação com outros dados no SIG, como é o caso da conexão Web Map Service (WMS). São diversas as opções de SIGs disponíveis gratuitamente, como: QGIS, Spring, TerraView, Grass GIS, Saga GIS, gvSIG, entre muitos outros. O mercado também oferece muitos tipos comerciais de software, com preços variados dos seus pacotes e licenças, como ArcGis, Erdas, MapInfo, GeoMedia, Trimble, ENVI etc. A escolha do SIG a ser utilizado dependerá de algumas questões, como a existência ou não de recursos financeiros a serem investidos na aquisição de licenças para sistemas comerciais, as estruturas de dados geoespaciais a serem utilizadas, entre outras. Mapas digitais e a Internet São várias as possibilidades de elaboração de mapas nos sistemas de informações geográficas. É possível organizar e/ou consolidar os resultados das análises espaciais em um mapa temático, que poderá ser exportado como sistemas de informações geográficas, dados de entrada e avaliação dos resultados da imagem, para utilizar como material cartográfico em relatórios, estudos, trabalhos acadêmicos, entre outras. No entanto, com as facilidades no compartilhamento de arquivos pela Internet, têm-se cada vez menos mapas impressos, inclusive por ser necessário um grande espaço físico para o armazenamento desses papéis, dificultando o acesso aos usuários. Atualmente, os mapas têm sido disponibilizados por visualizadores de infraestruturas de dados espaciais e WebSIGs – alguns oferecem até ferramentas básicas de análise espacial, além de permitir a geração e a exportação de imagens de mapas finais, a partir da escolha do fenômeno ou elemento a ser representado. 29 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I Outra condição que se tem associado à disponibilidade dos mapas e dados geoespaciais são as conexões com servidores via Web. Isso ocorre quando o compartilhamento dos dados e informações se dá por meio da Internet, trazendo mais rapidez e eficiência na coleta, no gerenciamento e armazenamento dos dados espaciais. Uma dessas conexões é o web map service (WMS), disponibilizado por meio de um link da Internet que conecta o servidor onde está o dado espacial desejado ao SIG a partir de uma ferramenta de simples operação. É uma nova concepção de consumo dos dados geoespaciais, racionalizando a sua produção e seu gerenciamento, além de ter uma perspectiva colaborativa e ser uma facilidade para usuários de diferentes níveis. O dado espacial disponível em um servidor pode estar organizado em uma infraestrutura de dados, que, por meio de um link disponibilizado em seu metadado, pode ser conectado com o SIG. Imagine que se queira vetorizar a hidrografia de uma bacia hidrográficado município de São Paulo na escala de 1:10.000 para um determinado estudo de ordenamento territorial. Não é necessário mais ir até o órgão público que disponibiliza a carta topográfica, a qual dispõe dessa informação, pois elas já foram digitalizadas, georrefenciadas e disponibilizadas em um visualizador e podem ser consumidas em um link WMS. O QGIS, assim como outros sistemas, oferece essa ferramenta de conexão, basta ter acesso à Internet. Também é possível acessar as imagens de satélite disponíveis pelo Google a partir da instalação de um complemento do QGIS, chamado QuickMapService, ou, ainda, fazer uma conexão direta com o seu servidor. Assim, não há mais a necessidade de produzir os dados no Google Earth e gerar arquivos kml ou kmz e ter que convertê-los para shapefile; pode-se fazer a vetorização direta no QGIS sobre as imagens, e isso dependerá da interpretação de imagens, assunto abordado posteriormente. Banco de dados geográfico Banco de dados é um conceito diretamente relacionado com o armazenamento de informações, sendo esta uma necessidade que acompanha a humanidade desde o início dos tempos. Sem uma organização prévia, é muito demorado e trabalhoso obter as informações de que precisamos em nosso dia a dia. 30 UNIDADE I │ FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO Agora, a informática pode auxiliar nesse processo de organização. Para isso, é necessário um processo que inclua armazenamento, manutenção e consulta de informações, ou seja, é preciso criar um Banco de Dados, que consiste em um conjunto de informações inter-relacionadas sobre determinado assunto, armazenado de modo a permitir o acesso organizado por parte dos usuários (PIVA, 2010). Além disso, os bancos de dados precisam ser criados com dados confiáveis, concisos e serem seguros para a aplicação desejada. Um conjunto de dados organizados pode gerar informações valiosas e estratégicas, além de agilizar os processos de trabalho, permitindo uma melhor tomada de decisão por parte do gestor. Todas as informações precisam ser coletadas e armazenadas para que possam ser utilizadas por pessoas diferentes, auxiliando no momento de tomada de decisão (MATTOS, 2010). Neste momento, é importante realizar a distinção entre dado e informação: » Dados: são fatos que podem ser registrados e sozinhos não têm significado. Constituem a base para a informação, ou seja, é o estado bruto da informação. » Informação: é um conjunto de dados organizados, que passam algum conhecimento, fato ou fenômeno. É importante se atentar para a diferença entre dado e informação: » O dado é um conhecimento bruto que necessita ser tratado e analisado. Exemplo: data de nascimento (27/10/1979). » A informação é gerada a partir da interpretação dos dados, a qual apresenta um resultado. Exemplo: de acordo com a data de nascimento, e se estivermos no ano de 2020, antes de 27 de outubro, a idade é 40 anos. Em algumas situações, é necessário desenvolver um Sistema Gerenciador de Banco de Dados (SGBD), o qual consiste em um pacote de ferramentas para facilitar os processos de definição, construção, compartilhamento e manipulação 31 FUNDAMENTOS DE CARTOGRAFIA E GEOPROCESSAMENTO │ UNIDADE I de um banco de dados entre vários usuários e aplicações. Alguns exemplos de SGBD que existem no mercado e são bastante utilizados: » Oracle. » Microsoft SQL Server. » My SQL. » Postgre SQL. Cabe destacar que o desenvolvimento e/ou implementação de bancos de dados demandam conhecimentos de linguagens de programação, a qual é um conhecimento muito valioso para a área de Geoprocessamento e de Sistemas de Informações Geográficas. Neste contexto, é possível destacar a utilização dos bancos de dados para as informações geoespaciais, ou seja, os dados e informações relacionadas com o espaço geográfico, denominado Banco de Dados Geográfico. As estruturas de dados tratadas acima representam o espaço geográfico, entendido como a realidade, através de dados geográficos no computador. Com isso, Borges, Davis Jr. e Laender destacam que “é necessário construir uma abstração dos objetos e fenômenos do mundo real, de modo a obter uma forma de representação conveniente, embora simplificada, que seja adequada às finalidades das aplicações do banco de dados” (2005, p. 83). Antes de partir para o desenvolvimento de um banco de dados geográficos, é preciso avaliar se sua rotina de trabalho e/ou organização demandam uma estrutura dessas, já que exigirá tempo, recursos humanos qualificados e recursos financeiros permanentemente. 32 UNIDADE II INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO Todo estudo ambiental que for utilizar as geotecnologias como ferramentas para análise espacial e geração de resultados que serviram para apoio à tomada de decisão, será preciso aplicar conhecimentos sobre a fotogrametria e a interpretação de imagens, as quais são essenciais para analisar as transformações da área e diagnosticar sua situação atual. O Sensoriamento Remoto, por sua vez, permite uma análise do alvo sem ter contato com ele, evidenciando os dados geográficos na superfície terrestre, inclusive permitindo uma análise histórica sobre determinados espaços que se deseja analisar, a partir da classificação das imagens de satélite. CAPÍTULO 1 Fotogrametria e fotointerpretação A fotogrametria surge no final do século XIX, na Europa, como método utilizado para fotografar monumentos de grande valor arquitetônico, porém com o nome de fotopografiaa, iconometria ou metrofotografia. Somente mais tarde, no início do século XX, é empregada como técnica para o mapeamento da superfície terrestre. O considerado “pai” da fotogrametria foi Aimé Laussedat (1819–1907), oficial do Corpo de Engenheiros do exército francês que se baseou nos princípios geométricos da perspectiva, utilizando fotografias no lugar de desenhos (ROCHA et al., 2010). Em 1858, Gaspard Felix Tournachon (1820–1910), conhecido como Nadar, iniciou a prática de utilizar fotografias aéreas para mapeamentos, quando, a bordo de um balão, a 80 metros de altura da superfície, obteve as 33 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II primeiras fotografias aéreas das proximidades de Paris (Figura 16). Além de balões, também foram utilizados pombos e pipas para fotografar o terreno entre o final do século XIX e o início do século XX. Figura 16. Caricatura de Nadar tirando fotografias aéreas “Nadar elevando a fotografia à altura da Arte”, por Honoré Daumier (1863). Fonte: Minkoff, 2011. Com a 1a Guerra Mundial (1914–1918), as fotografias aéreas ganharam notoriedade e começaram a ser intensamente usadas para fins militares, com o objetivo de reconhecer o terreno em campo inimigo por meio das fotografias do seu território. A fotogrametria é a arte, a ciência e a tecnologia utilizada para obter informações qualitativas de objetos, elementos e fenômenos do ambiente, estabelecida por um conjunto de técnicas e processos de registros, medições e interpretações fidedignas de fotografias e padrões de energia eletromagnética de imagens de satélite (THOMPSON, 1966; FITZ, 2008a). 34 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO Com isso, a fotogrametria permite executar medições precisas utilizando fotografias métricas, sendo sua maior aplicação no mapeamento topográfico e na fotointerpretação para determinar a forma, a dimensão e a posição dos objetos contidos na imagem (IBGE, 1999). Ou seja, a fotografia e a imagem de satélite são capazes de apresentar detalhes do terreno que são utilizados para interpretá-lo e medi-lo. As imagens da superfície terrestre podem ser obtidas a partir de sensores portáteis instalados em plataformas terrestres, aéreas e orbitais, e esses sensores podem ser câmeras fotográficas, câmeras de vídeo, radiômetros, sistemas de varredura e radares (FLORENZANO, 2011) (Figura17). Figura 17. Níveis de obtenção de imagens por sensoriamento remoto. satélite avião campo Fonte: Florenzano, 2011, p. 48. O termo fotogrametria, etimologicamente, deriva de três raízes gregas: photós, que significa luz; gramma, que significa gravar ou escrever; e metria, que significa medida ou medição. Portanto, sua correspondência etimológica é “medições gráficas por meio da luz”. Cientificamente, a American Society of Photogrammetry define fotogrametria como a ciência e a arte de obter medidas dignas de confiança utilizando-se fotografias (PAREDES, 1987). Inicialmente, a análise do terreno se deu a partir das fotografias aéreas, por meio de câmeras embarcadas em pombos, balões e, mais tarde, aviões. Posteriormente, evoluiu para as imagens formadas a partir de respostas espectrais, captadas por sensores que orbitam a Terra e captam essas informações por meio dos satélites artificiais. Em termos conceituais, a fotografia aérea é um registro instantâneo dos detalhes do terreno, determinada, principalmente, pela distância focal da lente 35 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II da câmera, pela altura de voo do avião no momento da captura e pelos tipos de filmes e filtros utilizados. A fotografia aérea é uma perspectiva geometricamente relacionada com o tipo de câmera usada. As fotografias aéreas se dividem em fotografia vertical, tirada com o eixo da câmera apontado para baixo (ponto nadir; extremidade inferior de uma direção que coincide com a linha de gravidade), essencialmente na vertical; e fotografia oblíqua, tirada com o eixo da câmera inclinado em relação à vertical do lugar (linha de gravidade). Antes de iniciar a prática de interpretação de imagens de sensores remotos, é necessário destacar suas diferentes posições de tomada, que resultarão em visões diferentes do objeto na superfície terrestre. Com isso, as imagens com visão vertical, também chamadas de visada nadir, são registradas por sensores a bordo de aeronaves ou satélites, nos quais o objeto ou lugar é visto do alto, de cima para baixo. As imagens com visão oblíqua apresentam uma visada lateral, com ângulos de inclinação, com o objeto ou lugar visto de cima e um pouco de lado; e as imagens horizontais, quando se está no chão, com o olhar no mesmo nível do objeto ou lugar (FLORENZANO, 2011) (Figura 18). Figura 18. Exemplos de (a) visão horizontal; (b) vertical e (c) oblíqua. b c a Fonte: Florenzano, 2011, p. 43. As fotografias aéreas podem ser influenciadas por dois grupos de fatores: » pelo ser humano, tais como distância focal da lente, altura de voo, combinações de filmes, filtros e ângulo da lente; » pela natureza, a exemplo da cor dos objetos fotografados, da posição do objeto com relação ao ângulo de incidência do sol, da bruma atmosférica, entre outros. 36 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO A qualidade da fotografia pode ser controlada pela sensibilidade do filme utilizado. Isso dependerá da seleção do espectro visível (todo ou partes) que será registrada ou, ainda, de parte do espectro invisível, como a luz infravermelha (Quadro 2 e Figura 19). Quadro 2. Relação de tipos de filmes utilizados e as fotografias resultantes. Tipo de filme Sensibilidade do filme Fotografias resultantes Preto e branco pancromático Faixa do visível Preto e branco ou pancromáticas Fotografias com os objetos representados em tonalidades de cinzas. Preto e branco Infravermelho Preto e branco infravermelhas Fotografias com os objetos representados em tonalidades de cinzas com realces. Colorido Faixa do visível Coloridas ou naturais Fotografias com os objetos representados nas mesmas cores vistas pelo olho humano. Colorido Infravermelho próximo Coloridas infravermelhas ou falsa-cor. Fotografias em que os objetos não são representados com suas cores verdadeiras. Fonte: própria autora, 2020. Figura 19. Fotografias aéreas com diferentes tipos de filmes: (a) preto e branco pancromático; (b) preto e branco infravermelho; (c) colorido natural; (d) colorido falsa-cor. a b c d Fonte: Florenzano, 2011, p. 20. 37 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II Alguns estados e municípios possuem acervos próprios de fotografias aéreas com a utilização de filmes diversos, que podem ser utilizados, por exemplo, para reconstituição de cenários, avaliação das mudanças ocorridas no território ao longo do tempo, entre outras aplicações. Nos levantamentos aerofotogramétricos atuais, o mais comum é que se use câmeras fotográficas digitais, e não mais filmes. O software Google Earth oferece, para algumas regiões do mundo, uma série histórica de imagens de diferentes anos, gratuitamente. O vídeo no link a seguir mostra mudanças no território de algumas cidades do mundo com base na análise de diferentes imagens disponibilizadas no Google Earth. https://qrgo.page.link/u1HW1. A fotogrametria se divide em fotogrametria métrica e fotogrametria interpretativa. A fotogrametria métrica define as medidas precisas na determinação de formas e dimensões de objetos no terreno, sendo utilizada em levantamentos planimétricos e topográficos e podendo determinar distâncias, ângulos, volume, área, elevação, tamanho e formas dos objetos. A fotogrametria interpretativa é responsável pelo reconhecimento dos objetos dispostos na superfície terrestre, sendo dividida em fotointerpretação e sensoriamento remoto. Com os avanços da tecnologia e da informática, a fotogrametria digital ganhou espaço e passou a ser integrada com dados de laser scanner terrestre e aéreo, imagens de satélites de alta resolução, possibilitando o processamento e a geração de modelos digitais de superfície (MDS), extração automática de feições do terreno e integração com os sistemas de informações geográficas (SIGs) (GRUEN, 2008). Atualmente, a fotogrametria tem sido muito empregada partir de drones. O que antes era feito com câmeras enormes a bordo de aviões com pilotos e equipes, hoje, com drones, é feito sobrevoando um terreno de forma autônoma com um objeto voador acoplado com câmeras e guiado por um sistema GPS. No vídeo do link a seguir, você pode saber mais sobre a regulamentação para utilização de drones no Brasil. https://qrgo.page.link/YTv3X. Essa tecnologia permitiu o ganho de tempo e a diminuição das despesas na aquisição de fotografias aéreas. 38 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO Elementos para interpretação de imagens As imagens obtidas por meio dos sensores remotos registram a energia captada do objeto observado no terreno. Independentemente da resolução ou da escala das imagens, apresentam elementos básicos para sua interpretação e análise, permitindo o estabelecimento de chaves de interpretação para as fotografias e imagens. Observar a superfície da Terra a partir de uma perspectiva aérea permite identificar objetos, padrões, fenômenos e interações que ocorrem no planeta e que dificilmente seriam compreendidos com uma visada terrestre por conta do alcance do olho humano. O desafio é observar e interpretar ao mesmo tempo uma área extensa de vários metros quadrados ou quilômetros quadrados; portanto, esse exercício de análise de fotografias e imagens aéreas requer treinamento e prática. A partir dos elementos ou variáveis de tonalidade, cor, textura, tamanho, forma, sombra, altura, padrão e localização, é possível extrair informações de objetos, áreas e fenômenos das fotografias e imagens, mudando apenas o seu significado. A tonalidade em diferentes níveis de cinza (do preto ao branco) está relacionada com a quantidade de energia refletida ou absorvida por um determinado objeto do terreno. Ou seja, se o objeto reflete mais energia do que absorve, a sua tonalidade será próxima do branco e, se absorver mais energiado que refletir, tenderá ao preto, conforme apresenta a Figura 20. Figura 20. Diferenças de tonalidades dos objetos na superfície terrestre. Serra do Mar Ubatuba Oceano Atlântico Fonte: Florenzano, 2011, p. 53. 39 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II Nota-se, na Figura 9, que a área urbana, a qual está refletindo muita energia, apresenta tonalidades claras, enquanto a água do mar e a vegetação densa, que absorvem muita energia, são representadas por tonalidades mais escuras. Com isso, é necessário ter habilidade e muito treino na observação e na interpretação das imagens e fotografias aéreas pancromáticas (tons de preto ao branco). Embora o olho humano possa diferenciar muitos tons de cinza, não está acostumado a enxergar os objetos nessas tonalidades. A cor é o elemento que permite a análise das variações de energia refletida ou emitida pela superfície fotografada ou imageada a partir de diferentes cores. As fotografias e imagens aéreas coloridas são mais facilmente interpretadas, havendo um grande ganho de informação visual na composição colorida. Também podem apresentar combinações de cores que representam a cor real do objeto ou de cores distintas, que destacam algum elemento de interesse de forma mais evidente, chamadas de composição falsa-cor (Figura 21). Figura 21. Imagem colorida dos objetos na superfície terrestre. Oceano Atlântico Ubatuba Serra do Mar Fonte: Florenzano, 2011, p. 54. A textura é outro elemento muito importante na interpretação e refere-se ao aspecto liso (uniforme) ou rugoso dos objetos visualizados, contendo informações em relação às variações (frequência de mudanças) de tons, níveis de cinza ou cor de uma imagem. Na Figura 22, pode-se observar a textura em relação ao relevo, em que as áreas que apresentam mais rugosidade têm relevo mais ondulado, com declividades mais fortes, enquanto áreas com representação de uma textura mais lisa têm relevo mais plano. 40 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO Figura 22. Imagem com diferentes texturas. a b d Guaratinguetá Aparecida Rio Paraíba do Sul a b c d Fonte: Florenzano, 2011, p. 54. O item a destacado na imagem é uma área planície de inundação do rio Paraíba do Sul, com um relevo plano, o b já apresenta um área com colinas baixas e relevo suave, o c uma área com um relevo bastante movimentando, que pode ser apreendido pela textura mais rugosa na imagem e o item d também em área de relevo com inclinações mais elevadas. O tamanho é o elemento que tem relação com a escala da fotografia ou imagem aérea. Possibilita realizar a distinção dos objetos do terreno avaliando a sua extensão, medindo comprimento (m), largura (m), perímetro (m), área (m²) e/ou volume (m³), e comparar aos objetos vizinhos (Figura 23). Figura 23. Tamanho do estádio do Maracanã em relação à sua vizinhança. Fonte: Florenzano, 2011, p. 56. 41 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II Jensen (2009) afirma que o tamanho de um objeto é uma das características mais distintivas e importantes durante a interpretação do terreno, de modo que o analista pode excluir ou inferir muitas alternativas possíveis. A forma é também um elemento de grande relevância na interpretação, e alguns objetos, feições e superfícies são identificados apenas com base nesses elementos ao descrever sua forma (linear, curvilínea, circular, triangular, elíptica, radial, retangular etc.). É o caso de estruturas ou elementos lineares, como estradas e rios, identificados facilmente, e áreas de agricultura com presença de pivôs centrais para irrigação, com forma circular, ou talhões de culturas, entre outras (Figura 24). Figura 24. Formas geométricas de uma área de agrícola. Fonte: Google Earth. Data da imagem: 8/6/2019. Florenzano (2011) salienta, ainda, que formas irregulares indicam objetos naturais (matas, relevo etc.) e formas regulares, objetos artificiais (construídos pelo homem), como indústrias, aeroportos, áreas de reflorestamento e agrícolas etc. Outro elemento que auxilia a interpretação é a sombra, que pode apresentar características da forma e dos tamanhos dos objetos no terreno. No entanto, também pode causar algumas complicações, pois esconde a superfície, podendo prejudicar a interpretação desses objetos. Por isso, a tomada das fotografias e imagens aéreas deve ser realizada por volta do horário de meio-dia, para que apresente a menor sombra possível. 42 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO O padrão é o elemento que se refere ao arranjo espacial e à organização na superfície, demonstrando como os objetos estão dispostos no terreno e quais podem estar de maneira aleatória ou ordenada. A partir desse elemento, também podem ser observados os padrões espaciais das unidades residenciais e o arruamento de um bairro, que podem auxiliar na aferição do nível socioeconômico de seus moradores, como pode ser observado na Figura 25. Figura 25. Diferenças no padrão de ocupação entre a comunidade de Paraisópolis e Morumbi, na cidade de São Paulo/SP. Fonte: Google Earth. Data da imagem: 09/06/2019. Por fim, a localização geográfica pode auxiliar na resolução de dúvidas quanto à interpretação dos objetos, sendo um critério de exclusão para objetos que não estariam dispostos em determinada porção do terreno de acordo com a sua localização — por exemplo, na identificação de tipos de vegetação que são predominantes em localidades específicas da superfície terrestre. As observações dos elementos em fotografias ou imagens auxiliam no estabelecimento de chaves de interpretação para os objetos ou alvos da superfície terrestre. Cada tipo de fotografia e imagem, a depender das suas características específicas, pode ter uma chave de interpretação construída por seu intérprete. 43 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II As chaves consistem na descrição de um conjunto de elementos de interpretação que caracterizam um determinado objeto. Elas sintetizam e orientam o processo de análise e interpretação de imagens. Utilizadas como guia, essas chaves ajudam o intérprete na identificação correta de objetos e feições representados em uma fotografia aérea ou imagem orbital de maneira consistente e organizada (FLORENZANO, 2011, p. 61) Com isso, devem ser caracterizadas as formas, os padrões, as tonalidades ou cores, o tamanho e a textura dos elementos identificados na fotografia ou imagem específica para a montagem de uma chave de interpretação única, sendo que cada produto pode apresentar chaves de interpretação diferentes. 44 CAPÍTULO 2 Sensoriamento remoto A visualização da superfície terrestre é uma prática presente no cotidiano de trabalhos que tem o espaço geográfico como objeto de estudo e análise. E alguma das tecnologias que auxiliam essa prática é o sensoriamento remoto. De acordo com Florenzano, “o sensoriamento remoto é a tecnologia que permite obter imagens – e outros tipos de dados da superfície terrestre, por meio da captação e do registro da energia refletida ou emitida pela superfície” (2011, p. 9). Fussel et. al (1986) apud Jensen (2009) detalham mais, entendendo o sensoriamento remoto como uma ferramenta ou técnica similar à matemática. O uso de sofisticados sensores para medir a quantidade de energia eletromagnética que emana de um objeto ou área geográfica à distância, e depois a extração de informação importante dos dados usando algoritmos baseados em matemática e estatística é uma atividade científica. No sensoriamento remoto, as imagens são obtidas à distância, ou seja, o sensor não tem contato físico com o objeto imageado. Os sensores são embarcados em plataformas terrestres, aéreas (balões e aeronaves) e orbitais (satélites artificiais). Conforme mostra a Figura26, o sol dissipa a fonte de energia que incide sobre a superfície terrestre e o sensor instalado no satélite capta essa energia emitida e refletida e envia os dados para a estação de recepção. Figura 26. Obtenção de imagens por sensoriamento remoto. Estação de recepção Energia emitida pela superfície Fonte de energia Satélite/sensor Energia refletida Energia incidente Energia absorvida Fonte: Florenzano, 2011, p. 9. 45 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II É importante destacar que esse registro das imagens de satélite pode sofrer interferências, como a presença de nuvens, comprometendo a qualidade e a formação das imagens. O sensoriamento remoto é realizado a partir da utilização de um sensor – instrumento que registra a radiação eletromagnética (REM), a qual se propaga em forma de ondas eletromagnéticas, medida de acordo com sua frequência e comprimento de onda. Florenzano (2011) explica que a frequência de onda refere-se ao número de vezes que uma onda se repete por unidade de tempo, quanto maior for o número, maior será a frequência ou o contrário e, ainda, quanto maior a frequência, maior também a intensidade de energia. Já o comprimento de onda é a distância entre dois picos de ondas sucessivas, quanto mais distantes, maior o comprimento. A distribuição da radiação eletromagnética é representada pelo espectro eletromagnético por regiões ou bandas, como raios gama, raios x, ultravioleta, visível, infravermelho, micro-ondas e ondas de rádio, que variam conforme o comprimento de onda e a frequência, como mostra a Figura 27. Figura 27. O espectro eletromagnético. Comprimento de onda (m) Frequência (Hz) curta longa alta baixa infravermelho raios gama raios X ultravioleta micro-ondas ondas de rádio Luz visível 10-13 10-12 10-11 10-10 10-9 10-8 10-7 10-6 10-5 10-4 10-3 10-2 10-1 1 10 102 103 104 1021 1020 1019 1018 1017 1016 1015 1014 1013 1012 1011 1010 109 108 107 106 105 Fonte: Florenzano, 2011, p. 11. No sensoriamento remoto, são utilizadas as faixas do visível, região onde o olho humano é capaz de distinguir as cores e a faixa do infravermelho, dividido em infravermelho próximo, médio e distante ou termal, detectado pela variação do calor. Cada objeto da superfície terrestre tem um comportamento quando se analisa a sua energia refletida, absorvida e transmitida, variando de acordo com o comprimento de onda. 46 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO De forma prática, o que representam as faixas na formação da imagem? Cada satélite, de acordo com seu sensor, tem características específicas e captam faixas específicas do espectro eletromagnético. É importante destacar uma diferença primordial entre as imagens de satélites e as fotografias aéreas: as fotografias aéreas, obtidas com técnicas de fotogrametria, não podem ser utilizadas para o sensoriamento remoto, pois não armazenam a energia eletromagnética; já com as imagens de satélites é possível fazer interpretação das imagens, sem necessariamente fazer o seu processamento digital com as técnicas de sensoriamento remoto. Sistemas sensores, alvos e satélites São vários os satélites que imageiam a Terra sobre diversas perspectivas e para variadas finalidades, como: os satélites meteorológicos, de Posicionamento Global, de recursos terrestres, de comunicação, dentre outros. O satélite artificial permanece em órbita e altitude e inclinação determinadas e pode ser de dois tipos: polar e equatorial. A órbita polar ou heliossíncrona é paralela ao eixo da Terra, formando uma inclinação de 90°, permitindo a passagem o satélite sobre todo o planeta e de forma sincronizada com o movimento da Terra em torno do Sol, cruzando o equador sempre na mesma hora e local. A órbita equatorial ou geoestacionária tem uma inclinação de 0° e coincide com o plano do Equador, completando um giro em torno da Terra em aproximadamente 24 horas, o mesmo período de rotação do planeta, não contemplando as áreas polares (FLORENZANO, 2011), como mostra a Figura 28. Figura 28. Órbitas de satélites artificiais. Polar Equatorial Fonte: Florenzano, 2011, p. 27. 47 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II Os satélites meteorológicos auxiliam na previsão do tempo e no monitoramento de possíveis ocorrências de desastres naturais, como furacões, fortes chuvas etc., giram em órbitas geoestacionárias muito distantes da superfície terrestre. São exemplos desses satélites: Goes, Meteosat, Elektro, Nooa, GMS e Fengyun. Centro de Previsões de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto de Pesquisas Espaciais – Cptec-INPE Na página do Cpetec-INPE, que pode ser acessada pelo link abaixo, você encontra diversas informações sobre satélites meteorológicos e a observação da atmosfera, além de ter acesso às imagens de satélites, como o Goes, que podem oferecer informações fundamentais para o planejamento das práticas florestais. https://www.cptec.inpe.br/. Já os satélites de recursos terrestres são os mais utilizados para quem tem como objetivo observar a superfície terrestre e mapear seus alvos e fenômenos. Eles possuem uma órbita quase polar, o que possibilita a sua passagem pelos diferentes pontos da Terra no mesmo horário. São exemplos desses satélites: o Landsat, Spot, Cbers, Alos, Resourcesat-1, dentre outros; e os de alta resolução como: o Ikonos, Quickbird, WorldView-2, GeoEye-1, entre outros. Além disso, a escolha do satélite para aquisição das imagens depende das suas resoluções: espacial, radiométrica, temporal e espectral. A resolução espacial está relacionada com o nível de detalhe possível de ser apreendido sobre o objeto na superfície terrestre, ou seja, a capacidade que o sensor tem de enxergar os alvos em relação ao seu tamanho real. Por exemplo, a resolução espacial do Landsat 8, nas bandas multiespectrais é de 30m, ou seja, o pixel da imagem imageia uma área de 30m x 30m. Nessas condições, qualquer objeto com dimensões menores que estas não será legível na imagem (Figura 29). 48 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO Figura 29. Resolução espacial. 1 metro 5 metros 10 metros 20 metros 30 metros IKONOS IRS SPOT-PAN SPOT-XS LANDSAT-TM Fonte: Martin, 2020. Já a resolução radiométrica diz respeito à quantificação da imagem, ou seja, à sensibilidade e a diferenciação de níveis de informação. A quantificação é dada pelo número de bits da imagem, relacionadas diretamente com a quantidade de níveis de cinza que podem ser discretizados. O nível de cinza representa a intensidade de energia eletromagnética (refletida/emitida) medida pelo sensor em relação ao tamanho do pixel, sendo limitada pela sua detecção e armazenamento (Figura 30). O sistema Landsat 7 possui sensor de 8 bits, correspondente a uma resolução radiométrica de 28 ou 256 níveis de cinza. Figura 30. Resolução radiométrica. 2048 (11 bits) 256 (8 bits) 128 (7 bits) 16 (5 bits) 4 (2 bits) 2 (1 bits) Fonte: Martin, 2020. 49 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II A resolução temporal está associada com o tempo que o satélite leva para revisitar uma determinada área, o que permite obter imagens mais ou menos frequentes. Por exemplo, o satélite Landsat 8 tem um período de revisita de um mesmo lugar na superfície terrestre de 16 dias, ou seja, somente após esses dias o seu sensor irá imagear a mesma área novamente. E a resolução espectral está relacionada com o número de bandas que os sensores a bordo dos satélites conseguem diferenciar, sendo que os sensores voltados para o sensoriamento remoto do ambiente captam nas faixas do visível, infravermelho próximo e médio. De acordo com a energia refletida pelos objetos, é possível distingui-los na superfície terrestre, ou seja,como as imagens de satélites são formadas pela radiação eletromagnética registrada como resposta do objeto ou alvo, cada um apresentará um comportamento espectral ou assinatura espectral. A assinatura espectral é baseada na intensidade com que cada objeto ou alvo na superfície terrestre reflete ou emite a REM nos diversos comprimentos de onda no espectro eletromagnético. Ao analisar a curva espectral da vegetação, da água e do solo, é possível compreender o comportamento de cada um dos alvos nas respectivas regiões do espectro eletromagnético como demonstra a Figura 31. Figura 31. Curva espectral da vegetação. visível Infravermelho próximo Infravermelho médio água limpa água turva solo argiloso solo arenoso vegetação 80 70 60 50 40 30 20 10 0,4 0,6 0,8 10 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 2,4 2,6 Comprimento de onda (um) Fonte: Florenzano, 2011, p. 12. 50 UNIDADE II │ INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO A vegetação (verde e sadia), na região do visível, reflete mais energia na faixa correspondente ao verde, por isso, nosso olho humano enxerga a vegetação na cor verde. No entanto, é na faixa do infravermelho próximo que a vegetação reflete mais energia e se diferencia dos demais alvos dispostos na superfície terrestre (FLORENZANO, 2011). Com isso, se os objetivos mais relevantes do trabalho forem analisar a vegetação, é indicado utilizar as imagens de um sensor que capta informações na faixa do infravermelho próximo e não apenas do visível. Combinação de bandas As imagens obtidas por sensores remotos são geralmente obtidas em diferentes canais, produzidas de forma individual e disponíveis em tons de cinza: mais próximo do branco quando o objeto na superfície terrestre reflete mais energia e absorve menos, e preto quando absorvem toda a energia e não refletem nada. É possível configurar essas imagens com seus filtros coloridos disponíveis na escala RGB (red – vermelho, green – verde e blue – azul), realizando uma composição colorida entre as bandas da imagem escolhida. De acordo com Florenzano, “nas imagens coloridas, a cor de um objeto vai depender da quantidade de energia por ele refletida, da mistura das cores (segundo o processo aditivo) e da associação das cores com as imagens” (2011, p. 22). É possível observar nas Figuras 32, 33 e 34 a composição colorida de acordo com as bandas e as cores escolhidas para cada uma de forma sequencial, relativas ao Landsat 7. Figura 32. Imagem colorida de Ubatuba, obtida a partir das imagens ETM Landsat 7, das bandas 3, 4 e 5, com as cores azul, verde e vermelha, respectivamente. Canal 3 Canal 4 Canal 5 Serra do mar Ubatuba Oceano atlântico Composição colorida TM 3 4 5 Fonte: Florenzano, 2011, p. 23. 51 INTRODUÇÃO À FOTOGRAMETRIA, INTERPRETAÇÃO DE IMAGENS E SENSORIAMENTO REMOTO │ UNIDADE II Figura 33. Imagem colorida de Ubatuba, obtida a partir das imagens ETM Landsat 7, das bandas 3, 4 e 5, com as cores azul, vermelha e verde, respectivamente. Canal 3 Canal 4 Canal 5 Serra do mar Ubatuba Oceano atlântico Composição colorida TM 3 4 5 Fonte: Florenzano, 2011, p. 23. Figura 34. Imagem colorida de Ubatuba, obtida a partir das imagens ETM Landsat 7, das bandas 1, 2 e 3, com as cores azul, verde e vermelha, respectivamente. Canal 3 Canal 5 Canal 4 Serra do mar Ubatuba Oceano atlântico Composição colorida TM 3 4 5 Fonte: Florenzano, 2011, p. 23. Note que a mudança das bandas utilizadas e/ou as suas respetivas cores mudam completamente a composição colorida das imagens ressaltando mais ou menos os alvos, como pode ser observado com a vegetação e a área urbana nas três imagens. O tipo de composição colorida deverá ser escolhido de acordo com os alvos que mais sejam necessários serem realçados e analisados no trabalho. Deve-se sempre consultar os manuais dos sensores dos satélites escolhidos para a aquisição das imagens para compreender e escolher a melhor forma de realizar a composição das imagens coloridas. 52 UNIDADE III GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS É crescente o número de utilização de recursos florestais nos mais diversos segmentos que necessitam desse tipo de matéria-prima, como as indústrias de papel e celulose, de móveis, na produção de energia, entre outros. No entanto, há legislações ambientais específicas que normatizam as formas de extração do recurso florestal da natureza, bem como estabelecem aqueles que podem não ser retirados. Com isso, é necessário o conhecimento acerca da identificação dessas áreas com ou sem algum tipo de restrição na sua exploração. E saber identificar isso territorialmente torna-se muito estratégico e uma habilidade que pode diminuir as chances de erros e produzir um conjunto de dados e informações mais confiáveis, inclusive no momento de apresentação junto aos órgãos ambientais. É nesse sentido que os conhecimentos de geoprocessamento, interpretação de imagens, Sistema de Informações Geográficas, sensoriamento remoto e dos Sistemas de Posicionamento por Satélites podem subsidiar e contribuir, com base na aplicação das suas técnicas, a geração e organização das informações específicas sobre os recursos florestais, o qual ainda é um setor que carece de profissionais qualificados com esses tipos de conhecimento. A seguir serão abordados alguns temas importantes associados aos recursos florestais e como estes podem ter suas análises e estudos subsidiados pelas ferramentas oferecidas pelo geoprocessamento. Além disso, as técnicas associadas ao geoprocessamento fornecem uma visão global da área de estudo e um maior detalhamento da tipologia florestal, inclusive na determinação de fragmentos florestais e árvores isoladas. 53 CAPÍTULO 1 Sensoriamento remoto e recursos florestais O Sensoriamento Remoto é uma das ferramentas de geoprocessamento que subsidia a identificação das áreas de vegetação na superfície terrestre. E saber identificar uma área florestal é uma das habilidades importantes para um operador, especialmente, o profissional que trabalha ou trabalhará com essa temática, inclusive pela relevância que essas áreas têm. Uma área com vegetação protege o solo, contribui para a umidade do ar, entre outras. No entanto, a destruição das florestas tem ocorrido em ritmo acelerado, contribuindo para o aquecimento da atmosfera e o desequilíbrio do ecossistema (FLORENZANO, 2011). Nas imagens do satélite Landsat (disponíveis gratuitamente para download no site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), é possível identificar em uma região amazônica a textura do relevo plana (lisa), rios de água limpa (azul escuro), rios com sedimentos em suspensão na água (azul) e as cidades ou povoados (rosa), conforme mostra a Figura 35. Figura 35. Imagem do satélite Landsat 5 de uma região amazônica. Anavilhanas Rio Negro Fonte: Florenzano, 2011, p. 92. 54 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS Os mesmos elementos naturais podem ser identificados em uma imagem de satélite Landsat para uma região com florestas da Mata Atlântica, sendo possível observar a textura mais rugosa do relevo, as áreas laranja que indicam as clareiras e as áreas de mangue em verde escuro (Figura 36). Figura 36. Imagem do satélite Landsat de uma região de Mata Atlântica. mangue Ilha do Mel Paranaguá Oceano Atlântico Fonte: Florenzano, 2011, p. 93. Essas informações, além de forma visível, também podem ser extraídas das imagens de satélites a partir do comportamento espectral da vegetação. Como já mostrado na Unidade I, um objeto ou elemento da superfície terrestre reflete parte da energia ou pode absorvê-la e assim ficar num estado de energia maior ou exercida, de acordo com as suas especificidades. As moléculas de uma planta verde típica que absorvem nos comprimentos de onda na região do visível (0,35 – 0,70 um) são denominadas pigmentos,sendo a clorofila o mais importante pigmento vegetal absorvedor da luz azul e da luz vermelha e pouco na luz verde, fazendo com que as folhas verdes sadias pareçam verdes aos nossos olhos (JENSEN, 2011) (Figura 37). 55 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III Figura 37. Reflectância espectral característica da folha vegetal verde sadia. Infravermelho Próximo Infravermelho Médio Infravermelho refletido Visível Comprimento de onde (um) Fatores Dominantes Controladores De Reflectância foliar Pigmentos foliares do mesófilo paliçádico: clorofilas a e b; B-caroteno etc. Espalhamento no mesófilo esponjoso Conteúdo de água foliar R ef le ct ân ci a e Tr an sm is sã o At m os fé ric a (% ) Bandas de absorção primária da clorofila Bandas de absorção da água atmosférica 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 0,4 ,5 ,6 ,7 ,8 ,9 1 1,2 1,4 1,6 1,8 2 2,2 2,4 2,6 Fonte: Jensen, 2011, p. 359. A partir do comportamento espectral das características dos dosséis vegetais, outros dados de sensoriamento remoto para identificar estresse, produtividade e outras variáveis híbridas da vegetação podem ser associados a eles. (JENSEN, 2011). Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (IVDN ou NDVI) Outro método muito utilizado para gerar e analisar dados e informações sobre a vegetação e a partir da aplicação do NDVI, o qual de acordo com (JENSEN, 2011, p. 388) é um índice de vegetação importante por que: » Mudanças sazonais e interanuais no desenvolvimento e na atividade da vegetação podem ser monitoradas. » A razão reduz muitas formas de ruídos multiplicativos (diferenças de iluminação solar, sombras de nuvens, algumas atenuações atmosféricas, algumas variações topográficas) presentes em múltiplas bandas de imagens e múltiplas datas. 56 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS Jensen (2011, p. 388) também aponta as desvantagens do uso do NDVI: » Sendo um índice baseado em razão, é não-linear e pode ser influenciado por efeitos ruidosos aditivos, tais como: radiância de trajetória atmosférica. » O NDVI é altamente correlacionado com o Índice de Área Foliar (IAF), entretanto, esta relação pode não ser tão forte durante o período máximo de IAF, aparentemente devido à saturação do NDVI quanto o IAF é muito alto. Por exemplo, se o intervalo dinâmico do NDVI é ampliado a favor de condições de baixa biomassa, sendo comprimido a favor de condições de alta biomassa, de florestas. O oposto é verdadeiro para a Razão Simples, para a qual grande parte do intervalo dinâmico abrange florestas de alta biomassa, mas tem pouca variação reservada para regiões de baixa biomassa (pastagens, biomas áridos, biomas semiáridos). » O NDVI é muito sensível às variações do substrato sob o dossel (por exemplo, os solos que são visíveis sob os dosséis). Os valores de NDVI são particularmente altos com substratos mais escuros. O NDVI pode ser gerado no SIG, basta a aplicação de uma fórmula matemática entre as bandas das imagens responsáveis pela geração do índice, como mostra o Quadro 3 para as imagens do satélite Landsat. Quadro 3. Bandas dos satélites Landsat utilizadas para o NDVI. Satélite Bandas Landsat 5 Banda 3 (Red – vermelho) Banda 4 (Near Infrared – infravermelho próximo) Landsat 7 Banda 3 (Red – vermelho) Banda 4 (Near Infrared – infravermelho próximo) Landsat 8 Banda 4 (Red – vermelho) Banda 4 (Near Infrared – infravermelho próximo) Organização: a autora, 2020. Para utilizar as imagens do satélite Landsat 8, é necessário realizar o download das cenas, que pode ser através do catálogo de imagens do INPE para a área de interesse, realizando um simples cadastro. O site para baixar as imagens do satélite Landsat e outros diretamente do catalogo de imagens do INPE é http://www.dgi.inpe.br/catalogo/. 57 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III Neste exemplo, será utilizada uma cena que abrange parte do litoral do Estado de São Paulo. Inicialmente, é preciso abrir o QGIS Desktop, inserir as imagens que correspondem às bandas 4 e 5 em Gerenciador de Fontes de Dados Livres > Raster > Buscar > Adicionar > Close, conforme Figura 38. Figura 38. Inserido raster no QGIS. Raster LO82190762020120CUB00_B4 Abrir Close Adicionar Fonte: própria autora, 2020. Posteriormente, acesse Raster > Calculadora Raster > digitar a fórmula que corresponde ao cálculo do NDVI: (NIR – RED) / (RED + NIR) e pressione OK (Figura 39). Figura 39. Cálculo do NDVI no QGIS. Calculadora raster LO82190762020120CUB00_B5 LO82190762020120CUB00_B4@1 LO82190762020120CUB00_B5@1 ndvi@1 ... (“LO82190762020120CUB00_B5@1” - “LO82190762020120CUB00_B4@1”) / (“LO82190762020120CUB00_B4@1” + “LO82190762020120CUB00_B5@1”) Expressão válida Fonte: própria autora, 2020. 58 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS Com isso, é criada uma imagem com o índice NDVI que varia entre -1 e 1, onde quanto mais o valor do pixel for próximo de 1, maior a probabilidade de ser uma área vegetada. Como as imagens são originalmente em tons de cinza, é preciso classificar em imagens falsa-cor para realçar a vegetação em relação aos outros elementos que não são vegetação. Para isso, tem-se que clicar com o botão direito do mouse sobre a camada > Propriedades > Simbologia e configurar de acordo com os parâmetros indicados nas Figuras 40, 41 e 42. Figura 40. Classificando a imagem do NDV no QGIS – Parte 1. Propriedades Fonte: própria autora, 2020. Figura 41. Classificando a imagem do NDV no QGIS – Parte 2. Banda simples falsa-cor Cumulativa Corte de contagem Precisão Real (mais lento) Gradiente de cores Fonte: própria autora, 2020. 59 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III Figura 42. Classificando a imagem do NDV no QGIS – Parte 3. Aproximado: em Bilinear Ausente: Média OK Fonte: própria autora, 2020. Com a imagem classificada, é possível distinguir a vegetação (em verde) dos demais elementos como o mar (em vermelho) e partes das Regiões Metropolitanas da Baixada Santista e de São Paulo (em laranja), como apresenta a Figura 43. Figura 43. Imagem do satélite Landsat 8 classificada com base no NDVI. Fonte: própria autora, 2020. É possível utilizar o NDVI para diversas aplicações, desde quantificar as áreas com cobertura vegetal, até realizar uma análise temporal, com base em imagens do mesmo lugar em diferentes anos. 60 CAPÍTULO 2 Mensuração florestal O geoprocessamento é uma ferramenta que pode contribuir muito com a mensuração florestal, inclusive no auxílio às atividades de campo, que não podem ser substituídas, mas podem ser diminuídas. Um dos recursos que pode ser bastante utilizado, além do sensoriamento remoto, é a fotogrametria, com base na interpretação de imagens, especialmente, na identificação e estimativa volumétrica de áreas isoladas ou em grupo, a qual otimiza, inclusive, os custos com trabalho de campo. De acordo com Campos et al. (1990), o potencial de uma área florestal pode ser estimada através de fotografias aéreas, com a medição de parâmetros que conduzam à estimativa do volume de árvores individuais ou através da estimativa do volume dos povoamentos com características definidas, tais como: densidade e números de árvores por unidade de área. São utilizadas fotografias e imagens de satélites para a interpretação, desde instrumentos super sofisticados como imagens de satélites de altíssima resolução e imagens capturados por Vants ou, popularmente chamados, drones, até mesmo um reconhecimento preliminar pelo Google Earth®. Para tanto, é indispensável o treinamento do olhar do operador na interpretação de imagens e fotografias aéreas, pois será determinante para a definição da qualidade do trabalho. Uma técnica utilizada para realizar a estimativa volumétrica de árvores isoladas, a partir da construção de uma tabela que indica o volumede uma árvore, a qual irá determinar o DAP e a altura, é estimar a altura total, o diâmetro da copa e a posição de uma árvores em relação a sua vizinha, utilizando as seguintes variáveis, como estabelece Pires (2001): » H = altura; » DC = diâmetro da copa; » Ac – área da copa; » Nh = número de árvores que vegetam em uma área circular que envolve a árvore em consideração, com raio à altura desta; 61 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III » A = número de copas de árvores que se encontram dentro de um ângulo maior que um pré-estabelecido (por exemplo 20°), o qual parte do centro da árvore em consideração; » Nm = número m de árvores vizinhas que são menores que as árvores em questão; » P = proporção da área da copa que é recoberta pela projeção vertical da copa de outra árvore; Deve-se utilizar para realizar o mapeamento os procedimentos de vetorização, conforme a indicação da melhor primitiva gráfica, por exemplo, para calcular áreas apenas é possível a partir do polígono. Se a necessidade for apenas ter a localização das árvores, está pode ser com a utilização de um ponto. Outro instrumento muito importante é o GPS, utilizado em campo para marcar a coordenada das árvores isoladas e das parcelas amostrais dos fragmentos de vegetação que serão medidos. Depois de coletados os pontos estes podem ser extraídos para serem visualizados Nos Sistemas de Informações Geográficas e no próprio Google Earth para a elaboração dos mapas. Supressão da vegetação Um tema muito importante é a questão da supressão da vegetação, seja para exploração florestal ou para a implantação de empreendimentos, e saber quantificar os valores de áreas de vegetação que serão suprimidas é essencial para elaboração dos planos de compensação. É necessário ter o mapeamento das áreas com vegetação de acordo com os critérios exigidos no trabalho a ser executado, por exemplo, mapear apenas a classe de vegetação nativa ou subdividi-la de acordo com os seus estágios de regeneração (avançado, médio ou inicial). Aqui serão demonstrados dados hipotéticos para que seja extraída a área a ser suprimida e o seu respectivo quantitativo. No exemplo, um determinado empreendimento de uma planta industrial será sobreposto a uma área com vegetação nativa (Figura 44). 62 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS Figura 44. Polígonos hipotéticos de vegetação e do empreendimento. Fonte: própria autora, 2020. Para calcular a área a ser suprimida, basta utilizar a ferramenta de intersecção disponível no QGIS (e em outros SIGs também); a sua execução criará um arquivo espacial novo em que se sobrepõe as duas áreas intersectadas, no caso o fragmento de vegetação nativa e a área do empreendimento. Para tanto, é necessário clicar em Vetor > Geoprocessamento > Interseção, ajustar as opções de camada de entrada e camada de sobreposição e Executar (Figura 45). Figura 45. Ferramenta de interseção no QGIS. Geoprocessamento Interseção Vegetação Camada de entrada vegetação [EPSG:3822] Camada de sobreposição empreendimento [3822] Executar Fonte: própria autora, 2020. 63 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III Será gerada uma nova camada com o resultado apenas para a área que sobrepõe os dois dados geoespaciais (Figura 46). Figura 46. Nova camada gerada pela ferramenta de Interseção. Interseção Fonte: própria autora, 2020. Posteriormente, deve-se realizar o cálculo de área para saber quanto de vegetação nativa será afetada pelo empreendimento em questão. É importante destacar que o dado para o qual será calculada a área deve estar em um sistema de referência métrico, como no exemplo Sirgas 2000 UTM 23S, sendo o sistema UTM referenciado em metros. Para isso, é necessário abrir a Tabela de Atributos, habilitar a edição e ir na ferramenta calculadora de campo (Figura 47). Figura 47. Abrindo a tabela de atributos e calculadora de campo no QGIS. Abrir tabela de atributos Abrir calculadora de campo Fonte: própria autora, 2020. 64 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS Na calculadora de campo, deixe habilitada a opção de Criar um Novo Campo; deve-se colocar um nome para o campo (que indique o valor) e clicar em Geometria > $area e Ok (Figura 48). Por fim, um novo campo será criado com o quantitativo da área em metros quadrados (m²), como mostra a Figura 49. Figura 48. Calculadora de campo executando o cálculo de área. Fonte: própria autora, 2020. 65 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III Figura 49. Novo campo criado na tabela de atributos com o quantitativo da área em m². Fonte: própria autora, 2020. Como resultado, obteve-se que 474.555.602,71 m² ou 47.455,56 ha (hectares) de vegetação nativa serão afetados com a implantação do empreendimento. 66 CAPÍTULO 3 Manejo de florestas naturais O Brasil tem uma legislação ambiental bastante rígida, justamente para proteger os recursos naturais do território nacional, especialmente as florestas naturais. No entanto, em alguns casos, é possível realizar o manejo sustentável de áreas florestais, com base em práticas que não de extração dos recursos florestais madeireiros e não madeireiros. De acordo com a Lei no 11.284 de 2 de março de 2006, que dispõe sobre a gestão de florestas públicas para a produção sustentável, em seu Art.3o, inciso VI, manejo de floresta sustentável é definido como: Administração da floresta para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se cumulativa e alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços de natureza florestal (BRASIL, 2006). Assim, o manejo deve se dar de forma sustentável, a qual consiste no “conjunto de intervenções efetuadas em uma área florestal, visando à obtenção continuada de produtos e serviços da floresta, mantendo a sua capacidade produtiva” (MMA, 2008). Parte-se, então, do objetivo de manter a floresta viva, que a exploração não acarrete no seu fim, deixando terras “arrasadas”, mas que se crie uma forma de uso sustentável e uma floresta sempre produtiva. O manejo deve se basear no potencial existente na floresta, ancorado numa produção sustentável tanto econômica, social e ambiental. Para tanto, como destaca o MMA (2008), é necessário definir os objetivos do manejo com base nas características da floresta, respeitando seus limites e potencialidade: » Produção de bens: › Madeireiros: lenha, estacas, madeira para serraria etc. › Não-madeireiros: forragem, frutos, semestres, resinas, óleos etc. 67 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III » Produção de serviços ambientais: › Conservação de água e solo; › Manutenção da biodiversidade; › Captura de carbono. Com isso, as propriedades que ainda têm vegetação podem requerer a sua exploração de forma sustentável, sempre avaliando os aspectos de existência ou disponibilidade de vegetação e o mercado consumidor que justifique e viabilize a produção (MMA, 2008). Alguns aspectos técnicos devem ser observados para o planejamento e implementação do manejo das florestas: definição da área a ser manejada, o inventário florestal, a estimativa de crescimento, as técnicas de intervenção, o arranjo da exploração e os tratos silviculturais. Em seguida, serão abordados mais detalhadamente os aspectos técnicos que podem ser desenvolvidos parcial ou integralmente com técnicas de geoprocessamento, especialmente a interpretação de imagens, o SIG e o Sistema de Posicionamento Global por Satélites. Definição da área a ser manejada A primeira etapa é definir espacialmente os limites fundiários da propriedade objeto do manejo florestal. Basicamente, isso pode ser feito de duas formas: » Pelo memorial descritivo da matrícula que faz a descrição e identificaçãodas coordenadas dos vértices. » Pela realização de um georreferenciamento, que deverá ser realizado por equipe especializada e ter como resultado o levantamento planimétrico dos limites da propriedade. De posse do limite correto da fazenda, esta informação deve ser representada como um polígono para utilização no SIG, já que se trata de uma área. Para estabelecer a área de floresta a ser manejada, é importante analisar os usos na propriedade: » Realizar o uso e ocupação do solo da propriedade, classificando a propriedade da seguinte forma: vegetação nativa, área consolidada, hidrografia, corpo d’água, acessos, áreas de servidão, em grande escala, utilizando a interpretação de imagens. 68 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS O Serviço Florestal Brasileiro disponibiliza um manual para a realização do Cadastro Ambiental Rural e, dentre os temas que ,tratamos demostra as classes de uso do solo consideradas. http://car.gov.br/public/Manual.pdf. O documentário A Lei da Água oferece uma discussão sobre a mudança do Código Florestal, sobretudo quanto à delimitação das Áreas de Preservação Permanentes (APP): https://www.youtube.com/watch?v=jgq_SXU1qzc. Posteriormente, a área restante de vegetação nativa pode receber o manejo, de acordo com a legislação vigente, para a qual deverá ser elaborado o Plano de Manejo. Inventário florestal Com a identificação da área da propriedade que está disponível para o manejo das florestas, é fundamental conhecer as características e a composição dessa área florestal. Para isso, torna-se essencial realizar o levantamento das espécies existentes na propriedade, a quantidade e tamanho das árvores e o volume utilizável, definido como Inventário Florestal. Nessa etapa, o geoprocessamento também pode ser utilizado como apoio no estudo de campo com a utilização do aparelho de GPS para localização e registro das parcelas amostrais, as quais serão utilizadas para o detalhamento de informações das medidas de todas as árvores e, posteriormente, a análise de resultados. Associando, assim, com a utilização do SIG, os resultados obtidos com a localização em relação à propriedade e a área florestal. Arranjo de exploração De acordo com as orientações do MMA (2008), a área florestal que será manejada na propriedade deve ser dividida em Unidades de Produção Anual (UPA) ou talhões. O número de talhões geralmente é igual ao ciclo de corte, sendo sua área aproximadamente igual se a vegetação for homogênea. 69 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III Nessa etapa, o SIG pode auxiliar na tomada de decisão do tamanho de cada talhão e sua localização em relação ao núcleo florestal, com base nos cálculos de área, que podem ser operacionalizados de forma simples pelo sistema e auxiliar no apoio às atividades operacionais de campo. Um dos instrumentos muito importantes que planeja e consolida as formas de realizar o manejo das florestas é o Plano de Manejo Florestal, entendido como um documento técnico para o estabelecimento de um zoneamento para identificar por zonas o uso da área. Plano de manejo de florestas O Plano de Manejo é um instrumento básico de planejamento e orientações das atividades e forma de ocupação e manejo de uma determinada área, considerando suas características, bem como suas fragilidades e potencialidades. Souza e Soares (2013) indicam um roteiro para elaboração dos Planos de Manejo de Florestas que pode ser adaptado para qualquer região, como estabelecido no Quadro 4. Quadro 4. Roteiro para elaboração de Plano de Manejo de Florestas. 1. Informações gerais 1.1. Categoria do Plano de Manejo Florestal (ver Instrução Normativa do MMA no. 5 de 11 de dezembro de 2006). 1.2. Titularidade da floresta: pública ou particular. 1.3. Tipo de vegetação predominante: Floresta Estacional Sem decidual, Floresta Estacional Decidual, Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Mista. 1.4. Estado da floresta manejada: primária ou secundária. 2. Responsáveis Técnicos (indicando nome completo, profissão, ocupação/cargo e no de registro no Conselho de Classe, em cada uma das etapas abaixo, mesmo que os nomes se repitam). 2.2. Elaboração do Plano de Manejo. 2.3. Inventário Florestal. 2.4. Execução das atividades. 2.5. Representante Legal. 3. Objetivos do Plano de Manejo. 3.1. Deve estar alinhado com os objetivos da área a ser manejada. 4. Justificativa Técnica e Econômica. 4.1. Sintetizar as técnicas de manejo utilizadas no plano e a análise econômica do produto ou dos produtos obtidos do manejo florestal. 5.1. Informações sobre a propriedade. 5.2. Localização da área. 70 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS 5.3. Região. 5.4. Estado. 5.5.. Municípios abrangidos. 5.6. Marcos limites da propriedade (Norte, Sul, Leste e Oeste). 5.7. Coordenadas geográficas. 5.8. Formas de acesso à área. 5.9. Área a ser manejada. 6. Descrição do ambiente. 6.1. Meio físico. 6.1.1. Clima. 6.1.2. Geologia. 6.1.3. Declividade. 6.1.4. Formas de relevo (Geomorfologia). 6.1.5. Tipos de solo presente na área a ser manejada. 6.1.6. Hidrografia (bacia hidrográfica, rios e córregos presentes na área a ser manejada). 6.2. Meio biótico. 6.2.1. Descrição da vegetação presente na área a ser manejada (tipo de floresta, predominância de uma determinada espécie ou de várias espécies). 6.2.2.Descrição da fauna presente na área a ser manejada (répteis, aves, mamíferos, peixes, anfíbios). 6.2.3. Inter relação entre flora-fauna. 6.3. Meio Socioeconômico 6.3.1. IDH. 6.3.2. Saúde 6.3.3. Educação 6.3.4. Energia elétrica e saneamento básico 7. Uso e ocupação do solo atual Realizar o mapeamento do uso e ocupação do solo a partir da interpretação de imagens. 8. Macrozoneamento Elaborar o mapa de macrozoneamento da área a ser manejada, a partir da síntese entre os componentes da descrição do ambiente. Deve conter: 8.1. Hidrografia 8.2. Altitude 8.3. Divisão das Unidades de Produção Anual (UPA) 9. Descrição dos recursos florestais (Inventário Florestal) 9.1. Metodologia utilizada. 9.2. Resultados. 9.3. Análise florística. 9.4. Estrutura e densidade. 9.5. Capacidade produtiva. 10. Informações sobre o manejo florestal 10.1. Fundamentos do manejo florestal sustentável 10.2. Sistema silvicultural 10.3. Espécies florestais a serem manejadas 71 GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS │ UNIDADE III 10.4. Espécies florestais a serem protegidas 10.5. Regulação da produção (Intensidade de corte, produção da floresta, Ciclo de corte inicial, Estimativa de produção anual); 10.6. Descrição das atividades da colheita florestal em cada UPA (Elaboração de mapas contendo o local das estradas, abertura e manutenção das estradas, corte e traçamento das árvores, planejamento do arraste, Carregamento e transporte das toras, Tratamentos silviculturais pós- colheita. 11. Investimentos e custos do manejo florestal 12. Identificação e elaboração dos impactos ambientais e socioeconômicos 13. Medidas de proteção das florestas 13.1. Monitoramento e manutenção das UPAs. 13.2. Proteção contra invasões. 13.3. Proteção das APPs. 13.4. Prevenção e combate de incêndios. Fonte: Adaptado de Souza e Soares, 2013. Principalmente para a descrição do ambiente que o SIG pode contribuir para coletar, analisar e gerar os mapas temáticos que devem ser inseridos no texto do plano de manejo. A coleta dos dados e informações em bases oficiais é fundamental para manter a confiabilidade e a qualidade do documento, o qual será analisado pelas autoridades competentes. Planejamento da produção florestal O planejamento é fundamental para garantir êxito na produção florestal. O bom planejamento e a execução das etapas as serem implementadas irá definir a organização no processo de produção florestal, bem como a qualidade dos produtos obtidos com as florestas e a sua viabilidade econômica. Imagine que uma fábrica consumidora de madeira tem que planejar a localização de um núcleo florestal,sendo essencial que se pense na localização dos espaços livres para plantação ou locais que podem receber manejo adequado para a determinada atividade, no volume de madeira que pode ser gerado e as rotas possíveis com a identificação das distâncias entre a fábrica e o núcleo. É nesse momento que várias ferramentas de geoprocessamento podem ser utilizadas, a partir das diferentes análises espaciais. Inicialmente, deve-se determinar uma área de influência no entorno da fábrica, que deve estar alinhada com o setor de gerenciamento, pode ser um raio de 10km, 20 km ou 50 km, isso dependerá do conhecimento prévio da região. 72 UNIDADE III │ GEOPROCESSAMENTO E RECURSOS FLORESTAIS Para tanto, se deve ter a área da fábrica mapeada e a partir disso é possível aplicar as ferramentas de análise espacial do “buffer” no Sistema de Informações Geográficas, para delimitar a área de influência estabelecida. Após isso, deve-se identificar através de interpretação de imagens e fotografia aéreas ou com as técnicas de sensoriamento remoto os lugares que poderiam receber ou torna-se os núcleos florestais da fábrica, dentro dessa área de influência determinada anteriormente. Também é preciso analisar as rotas de acesso possíveis para cada uma das áreas potenciais em receber os núcleos florestais, tanto os acessos principais, quanto os acessos alternativos, e medir as distâncias em relação à fábrica. É importante que a base de dados também contenha dados e informações georreferenciadas sobre os solos, produtividade, declividade do terreno, clima, dentre outros, sempre pensando nas variáveis que auxiliam no planejamento da produção florestal. De posse de todos os dados e informações geoespaciais, a próxima etapa é relacioná-los, sendo uma das mais importantes capacidades de um SIG. Com base nos melhores indicadores, por exemplo, menor distância, área que apresente melhor capacidade produtiva, com clima mais favorável para a produção, entre outros, é possível estabelecer a melhor área para receber os núcleos florestais. O grande poder do SIG é a sua capacidade de integração. Ele é capaz de trazer variadas formas de informação, de muitas formas diferentes e relaciona-las através da localização espacial. Ainda é capaz da análise espacial dessas informações, permitindo que a tomada de decisões seja apenas limitada pela imaginação (IPEF, 1993, p. 7). Outra atividade em que o SIG pode contribuir é nos Inventários Florestais, que são fontes de dados para qualquer planejamento florestal. Neste caso, também pode auxiliar no seu planejamento, na geração de dados e informações, nas análises e armazenamento, tais como: na definição de um esquema de amostragem, do tamanho de parcela, da intensidade de amostragem, das tabelas de volume, funções de produção, dos modelos de crescimento, na geração de um banco de dados e do relatório. Além disso, muita inferência pode ser feita também sobre compras de terra, escolha de espécies etc. (IPEF, 1993). O mesmo raciocínio pode ser aplicado às análises na decisão para a melhor localização de uma fábrica consumidora de madeira. 73 UNIDADE IV AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL Nesta unidade, serão apresentadas algumas opções de amostragem para execução de inventários florestais e como são dispostas na área a ser estudada. Também será abordada a importância dos Sistemas de Posicionamento Global para a execução, registro e processamento dos dados das atividades de campo apontando as características desses sistemas e demonstrando como os dados obtidos podem gerar informações em ambiente SIG. CAPÍTULO 1 Teoria de amostragem aplicada aos levantamentos florestais No inventário florestal, os levantamentos florestais selecionam amostras, as quais consistem em pequenas frações da população que se quer analisar, para estimar as características para o todo. Os inventários florestais são instrumentos básicos para qualquer tipo de estudo e avaliações no campo florestal, árvores isoladas e áreas para supressão. Contribuem na produção florestal com a avaliação, de forma estatística, das potencialidades e capacidades produtivas dos recursos florestais de determinada área (CUNHA, 2004). Para essa análise estatística, são determinadas unidades amostrais ou parcelas, as quais representam uma parte da população objeto do estudo (CUNHA, 2004). Conforme estabelece Cunha (2004), as parcelas podem ser circulares, retangulares ou quadradas, sendo mais comum a forma retangular ou quadrada. Seu tamanho ou forma varia em função da categoria do levantamento e a técnica de amostragem: » Parcelas de 50m x 50m em inventários 100%. 74 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL » Parcelas de 10m x 100m em levantamentos que utilizam sentido de caminhamentos em transectos (faixas). » Parcelas em conglomerados de 20m x 250m e 10m x 250m. » Parcelas permanentes de 100m x 100m e 50m x 200m. » Parcelas de 10m x 10m em análise de regeneração da vegetação. » Parcelas de 20m x 100m indicadas para amostragem simples. Como os objetivos das análises nos levantamentos florestais são distintos, os métodos de amostragem podem ser diferenciados em função da floresta em questão, a qual se pretende realizar as análises. Amostragem aleatória simples A amostragem aleatória diz respeito a uma população constituída por N unidades, numerada sequencialmente e, assim, n unidades serão sorteadas sem reposição. A componente aleatória é, portanto, o número sequencial escolhido entre 1 e N (YAMAMOTO; LANDIM, 2013). No caso, estes pontos deverão ser localizados dentro da região de amostragem do estudo, a partir das suas coordenadas geográficas. Para aplicar esse método de amostragem no QGIS, deve-se criar um shapefile de polígono que represente a área a ser amostrada e saber quantidade de pontos necessários. A ferramenta para criação de pontos aleatórios dentro de um polígono é encontrada em Vetor, Investigar > Pontos aleatórios no interior dos polígonos (Figura 50). Figura 50. Ferramenta de criação de pontos aleatórios no interior dos polígonos no QGIS. Vetor Investigar Pontos aleatórios no interior dos polígonos Fonte: própria autora, 2020. 75 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV A camada de entrada será o polígono que representa a área a ser amostrada, a estratégia de amostragem com contagem de pontos e em expressão digitar o número de pontos necessários para o determinado estudo estatístico, por exemplo, 100. Se for o caso, também pode determinar uma distância mínima entre os pontos (Figura 51). Figura 51. Configuração da ferramenta de criação de pontos aleatórios no interior dos polígonos no QGIS. Fonte: própria autora, 2020. Com isso, é criado um shapefile de pontos aleatórios que servirá para aplicar a metodologia em campo e inserir as informações coletadas na tabela de atributos (Figura 52). Figura 52. Shapefile de pontos aleatórios no interior do polígono. Pontos aleatórios Fonte: própria autora, 2020. 76 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL Esse método é bastante aceitável, pois sua taxa de erro é baixa, porém é mais indicado para áreas com características de vegetações mais homogêneas. Amostragem aleatória sistemática A amostragem sistemática é feita sobre os nós de uma malha regular definida com base em uma origem escolhida aleatoriamente. Teoricamente, a componente aleatória seria dada pela escolha do ponto de origem, mas isso não é o que ocorre na prática, pois a malha regular é definida pelo responsável pela amostragem para otimizar a coleta das unidades dentro da região de estudo (YAMAMOTO; LANDIM, 2013). Por exemplo, define-se aleatoriamente uma faixa de caminhamento dentro do fragmento florestal, por onde deve iniciar o levantamento e, em seguida, instala-se a unidade padrão para a coleta de dados, partir das dimensões amostrais e distâncias entre as faixas estabelecidas (CUNHA, 2004), conforme representa a Figura 53. Figura 53. Representação deunidades amostrais com base na amostragem sistemática. Fonte: Cunha, 2004, p. 50. Neste caso, na amostragem aleatória sistemática, as distâncias entre um determinado número de pontos são desenvolvidas a partir de uma grade dentro da área a ser amostrada. Utilizaremos a mesma área de estudo do exemplo da amostragem aleatória simples. 77 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV No QGIS, isso é feito utilizando a ferramenta Pontos Regulares, disponível em Vetor e Investigar (Figura 54). Figura 54. Ferramenta de criação de pontos regulares no interior dos polígonos no QGIS. Vetor Investigar Pontos regulares Fonte: própria autora, 2020. Na extensão de entrada, clicando nas reticências, iremos escolher a opção usar extensão da camada, para utilizar a área de interesse para a amostragem. Na contagem/espaçamento de ponto, basta determinar a distância escolhida entre os pontos, por exemplo 10 metros; a cada 10 metros, será inserido um ponto (Figura 55). Figura 55. Configuração da ferramenta de criação de pontos regulares no interior dos polígonos no QGIS. Fonte: própria autora, 2020. 78 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL Com isso, é criado um shapefile de pontos aleatórios que servirá para aplicar a metodologia em campo e inserir as informações coletadas na tabela de atributos (Figura 56). Figura 56. Shapefile de pontos regulares no interior do polígono. Pontos regulares Fonte: própria autora, 2020. Esse método é indicado quando os componentes da amostra são heterogêneos. Os trabalhos de campo são mais simples e, portanto, acarretam menor custo de execução. Amostragem em conglomerados É utilizada em inventários florestais de grandes áreas e, principalmente, se as amostras forem compostas por uma população heterogênea. Cunha (2004) explica que a estrutura do conglomerado consiste em um formato de cruz com quatro subunidades, cada uma com ¼ de ha, ou seja, medindo 10m x 250m, a qual vem demonstrando bons resultados (Figura 57). Figura 57. Representação de unidades amostrais com base na amostragem de conglomerados. Fonte: CUNHA, 2004, p. 50. 79 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV Para as amostragens, o geoprocessamento pode auxiliar na localização das amostras e, posteriormente, no processamento dos dados obtidos em campo, os quais serão analisados e representados espacialmente nos mapas. A utilização do aparelho de GPS em campo é fundamental para registrar a localização das parcelas. 80 CAPÍTULO 2 Sistema de posicionamento global e processamento dos dados Após decidir o melhor método que será utilizado na amostragem, ainda no processo de levantamento em campo, é necessário utilizar equipamentos de geotecnologias, como um receptor GPS para geolocalizar cada uma das amostras realizadas em campo. O Sistema de Posicionamento Global (GPS) ou Navigation Satellite with Time and Ranging (NAVSTAR–GPS) foi concebido para fins militares no ano de 1973 pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O objetivo era localizar alvos na superfície terrestre (como tropas inimigas), facilitar o deslocamento de unidades e permitir navegação de alta precisão no lançamento de mísseis e bombas. No entanto, foi apenas em 1980 que o então presidente norte-americano Ronald Wilson Reagan autorizou o uso civil do GPS. Não demorou muito para essa tecnologia servir a outras finalidades, sendo uma importante ferramenta para os trabalhos geodésicos, cartográficos e topográficos. Atualmente, o GPS é a ferramenta mais moderna utilizada para determinar a localização de um ponto na superfície terrestre com grande precisão, ou seja, muito próximo do seu posicionamento real, oferecendo apoio à navegação terrestre, marítima e aérea. O sistema GPS é composto por 32 satélites, sendo 30 operacionais, em seis planos com quatro satélites cada, que circulam na órbita terrestre e operam 24 horas por dia, ininterruptamente (Figura 58), fornecendo coordenadas de pontos no terreno, bem como sua altitude associada. Essa constelação de satélites permite uma cobertura mundial do sistema, e em qualquer lugar da Terra é possível obter sinais de pelo menos quatro satélites. Figura 58. Constelação de satélites do sistema GPS. Fonte: Prometric Technologies, 2012. 81 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV É importante destacar que o sistema geodésico ou datum adotado como referência nos dados do sistema GPS é o World Geodetic System de 1984 (WGS84), que é um datum mundial, o mesmo sistema de referência utilizado no Google Earth, por exemplo. Dessa forma, sempre que for necessário originar produtos cartográficos a partir dos dados GPS, será preciso transformá-los em Sistema de Referência Geocêntrico para as Américas (Sirgas 2000), que é o sistema geodésico brasileiro. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 1999), são quatro os métodos de posicionamento do sistema GPS, conforme a precisão obtida: » Absoluto (ponto isolado): fornece uma precisão de 100 metros. » Diferencial: as posições absolutas, obtidas com receptor móvel, são corrigidas por um receptor fixo, estacionado em um ponto de coordenadas conhecidas; ambos coletam os dados ao mesmo tempo e alcançam precisão entre 1 a 10 metros. » Relativo: é o mais preciso, utilizado em aplicações geodésicas; dependendo da técnica utilizada (estática, cinemática ou dinâmica), é possível obter precisão de até 1 parte por milhão (ppm). O Brasil dispõe de uma Rede Brasileira de Monitoramento Contínuo (RBMC), gerida pelo IBGE, com um aplicativo on-line chamado serviço on-line para pós-processamento de dados GNSS (IBGE-PPP), com o qual é possível corrigir os pontos coletados com o GPS, com base na rede de monitoramento. Com o advento do avanço tecnológico, hoje existem no mercado aparelhos e técnicas que popularizaram o uso do sistema GPS e outros que alcançam altas precisões. O próprio smartphone, que nos acompanha diariamente, dependendo da marca e modelo, oferece precisões bastante aproximadas da realidade. Quando, por exemplo, você utiliza o aplicativo Waze para se deslocar de um endereço a outro, está utilizando o GPS do seu smartphone. Além disso, temos atualmente o Sistema Global de Navegação por Satélite (GNSS, Global Navigation Satellite System), que incorpora, além do sistema GPS, alguns outros sistemas, como: » Globalnaya Navigationnaya Sputnikovaya Sistema (Glonass): sistema russo formado por 28 satélites, sendo 24 operacionais em três planos orbitais, com oito satélites cada. 82 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL » Galileo: sistema europeu, formado por 30 satélites em três planos orbitais, com 10 satélites cada. Apresenta compatibilidade com os sistemas GPS e Glonass. » Compass/Beidou (conhecido em inglês como China’s Compass Navigation Satellite System — CNSS): sistema chinês que conta com 35 satélites, cinco geoestacionário e 30 em órbita média. No vídeo disponível no link a seguir, você pode conferir mais informações sobre o sistema Galileo e sua comparação com outros sistemas de posicionamento por satélite: https://qrgo.page.link/XaMFk. O posicionamento por sistema GNSS também pode ser determinado por diversos métodos, segundo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA, 2013). Alguns dos mais utilizados são: » Relativo: obtido a partir de dois ou mais receptores GNSS que coletam dados simultaneamente, com ao menos um dos receptores ocupando um ponto de referência. É dividido em grupos: › relativo estático: tanto o receptor do ponto de referência quanto o receptor do ponto de interesse devem permanecer estacionados (estáticos) durante todo o levantamento; › relativo estático-rápido: similar ao relativo estático, mas com menor duração de rastreio, que em geral é inferior a 20 minutos; › relativo semicinemático (stop and go): o receptor do ponto de interesse permanece estático, mas por um intervalo de ocupação bastante curto, necessitandocoletar dados no deslocamento entre um ponto de interesse e outro; › relativo cinemático: enquanto um receptor está estacionado no ponto de referência, o receptor que coleta os dados do ponto de interesse permanece em movimento; assim, a cada instante de observação, que coincide com o intervalo de gravação, é determinado um conjunto de coordenadas; › relativo a partir do código C/A: um receptor ocupa o ponto de coordenadas conhecidas enquanto o outro coleta dados dos pontos de interesse; as coordenadas são obtidas por meio de pós-processamento. 83 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV » Real Time Kinematic (RTK) e Differential GPS (DGPS): baseiam-se na transmissão instantânea de dados de correções de sinais de satélites, do receptor instalado no ponto de referência ao receptor que percorre os pontos de interesse. Proporciona o conhecimento em tempo real de coordenadas precisas dos pontos levantados. Em termos de receptores de GPS, são vários os tipos disponíveis, todos eles com a função de coletar os dados enviados pelos satélites, estabelecendo as coordenadas, distâncias, altitude, entre outros valores associados à superfície terrestre. Para Seeber (1993), os principais componentes de um receptor GPS são: » antena com pré-amplificador; » seção de radiofrequência para identificação e processamento do sinal; » microprocessador para controle do receptor, amostragem e processamento dos dados; » oscilador; » interface para o usuário, painel de exibição e comandos; » fonte de energia; ν memória para armazenar os dados. Cabe destacar que, como a posição da antena do receptor determina o ponto da leitura das coordenadas, é preciso dar especial atenção ao seu posicionamento, pois pode interferir significativamente na localização. Além disso, a escolha do método de posicionamento, bem como do aparelho receptor GPS, está intrinsecamente relacionada com os objetivos do trabalho, ou seja, com a finalidade da sua utilização. Por exemplo, se o que você precisa é apenas localizar um ponto na superfície terrestre de forma aproximada, pode utilizar um receptor básico, do tipo Garmin, ou até seu próprio smartphone. Contudo, se o objetivo for realizar um levantamento topográfico ou determinar a locação de alguma obra, a precisão tem de ser muito alta, exigindo a utilização de receptores do tipo L1 e L2. A captura do posicionamento é mais precisa quando se utilizam dois receptores de sinais de posicionamento por satélite, ou seja, o equipamento L1 e o equipamento L2, um receptor é estacionado e fica capturando os sinais de satélite, enquanto o outro receptor percorre a área capturando os pontos, por meio da triangulação entre os sinais, o posicionamento é corrigido, o que proporciona maior precisão. 84 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL Existem vários modelos de receptores GPS no mercado, mas um modelo de navegação já é o suficiente para este tipo de trabalho (Figura 59). É interessante escolher um equipamento portátil e que tenha uma boa precisão, os modelos mais recentes vêm com antena mais potente que auxiliam na qualidade do sinal, sobretudo em áreas que possam ter uma cobertura vegetal mais densa ou em um dia que as condições atmosféricas não estejam tão favoráveis. Figura 59. Exemplo de um modelo de receptor de navegação por GPS. Fonte: Garmin, 2020. Atividades de campo e tratamento dos dados obtidos Também é imprescindível para a atividade de campo possuir uma caderneta para fazer as anotações que sejam importantes sobre o trabalho que está sendo realizado. Às vezes, parar no campo e digitar todas as observações que se deseja no equipamento irá demandar muito tempo, já que a maioria dos modelos não tem um teclado facilitado. Por isso, anotar na caderneta as observações para cada um dos pontos registrados pode ser mais rápido durante o campo e, posteriormente, essas anotações serão resgatadas para o arquivo digital geoespacial que será criado e para o relatório. 85 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV As coordenadas geográficas dos elementos que se deseja mapear deverão ser identificadas em campo a partir da coleta e armazenamento do ponto no aparelho GPS, tais como: todos os vértices da amostra, rotas, indivíduos, pontos que chamaram atenção etc. Posteriormente, na volta do campo, os dados armazenados no aparelho GPS deverão ser salvos no computador, para dar origem aos mapeamentos. Existem diversos softwares específicos que fazem esse processo de extração dos dados GPS, um dos mais utilizados e de fácil manuseio é o TrackMaker®; com ele, é possível gerar arquivos vetoriais de extensão .gpx, que guardam as informações georreferenciadas dos pontos e rotas coletados. De posse dos arquivos gpx, estes devem ser importados para um SIG, como é o caso do QGIS, na opção Gerenciados de dados livres > Vetor > buscar arquivo e adicionar (Figura 60). Figura 60. Importando arquivo gpx para o QGIS. Vetor Pontos de Passagem_12-AB-20 Arquivo GPX Close Adicionar Fonte: própria autora, 2020. Em seguida, é preciso converter o arquivo gpx em shapefile, a fim de uniformizar as informações para todo o projeto e ser possível de geoprocessar, caso seja necessário. Para isso, deve-se clicar com o botão direito sobre a camada desejada > Exportar > Salvar feições como > configurar os parâmetros necessários, conforme mostra a Figura 61. 86 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL Figura 61. Conversão de arquivo gpx em shapefile no QGIS. Shapefile EPSG:4326 – WGS 84 OK Pontos de passagem_12-AB-20 Exportar Salvar feições como... Fonte: própria autora, 2020. Não se pode esquecer que os aparelhos GPS vêm configurados de fábrica com o sistema de coordenadas geográficas e o datum wgs84. Deve atentar-se para o correto manuseio dessas informações no processo de conversão do formato e na reprojeção (se for o caso). Feito isso, se foram registradas informações na caderneta de campo e estas associadas aos pontos coletados com o GPS, pode-se fazer o seu registro na tabela de atributos. Para isso, basta abrir a tabela de atributos da camada que deseja editar e habilitar a edição (Figura 62 e 63). Figura 62. Tabela de atributos de um shapefile no QGIS. Pontos_12abr2020 Abrir tabela de atributos Fonte: própria autora, 2020. 87 AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL │ UNIDADE IV Figura 63. Habilitando a edição da tabela de atributos para criação de campo no QGIS. Fonte: própria autora, 2020. Para isso, é necessário criar um novo campo na tabela de atributos que receberá essa descrição associada a cada feição (no caso, a cada ponto). É necessário escolher o tipo de célula a ser criado; no exemplo, para descrição do estágio da vegetação, será utilizado o tipo texto (Figuras 64 e 65). Figura 64. Adicionando campo de texto na tabela de atributos no QGIS. Fonte: própria autora, 2020. 88 UNIDADE IV │ AMOSTRAGEM NO INVENTÁRIO FLORESTAL Figura 65. Adicionando texto no campo criado. Fonte: própria autora, 2020. É importante salientar que as descrições devem ser padronizadas. Como esse caso do exemplo está se referindo ao estágio da vegetação, quando for descrever as espécies dos indivíduos, o Diâmetro à Altura do Peito (DAP) e outras características, deve-se criar outros campos, para que as consultas também possam ser individualizadas por tipo. Além de esses registros auxiliarem nas análises de geoprocessamento, são também importantes formas de documentação dos dados obtidos em campo. Os dados obtidos geralmente podem ser utilizados para auxiliar na descrição dos relatórios de campo, sendo uma forma de organizar em um texto e comprovar a partir das coordenadas geográficas os objetos de interesse e suas respectivas características. 89 UNIDADE V INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Nesta unidade, serão apresentados os fundamentos básicos e introdutóriosde planejamento ambiental, bacias hidrográficas e gestão de recursos hídricos, com a representação de diversas possibilidades de mapeamentos temáticos. Também serão especificadas as metodologias de desenvolvimento de mapeamentos de uso e cobertura da terra, bem como de aquisição e geração de modelos digitais de terrenos, entendidos como duas ferramentas essenciais para esse tipo de trabalho. CAPÍTULO 1 Fundamentos de planejamento ambiental e gestão de recursos hídricos Ao longo da história, a ação humana sempre teve sua forma de intervenção na natureza baseada na procura do seu próprio desenvolvimento, transformando os espaços naturais e utilizando os recursos necessários para a manutenção das suas necessidades, sem considerar as limitações do ambiente. Ross apud Santos e Souza escrevem: Assinala que a sociedade ao apropriar-se do território e dos recursos ambientais, interfere significativamente nos fluxos energéticos e consequentemente na funcionalidade dos sistemas. Essas intervenções são procedidas sem considerar as fragilidades dos ambientes. Muito pelo contrário, ocorrem de forma acelerada promovendo alterações nas paisagens naturais num espaço muito reduzido de tempo. Nas últimas décadas, foram verificadas evidências que essas alterações trouxeram problemas ambientais em escala global sem precedentes na história da humanidade. (2011, p. 87-88) 90 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Nesse contexto, o planejamento ambiental apresenta um importante referencial teórico e metodológico para pensar a racionalidade no uso e ocupação da terra de uma determinada área, considerando tanto uma análise histórica da ocupação, quanto suas características atuais. De acordo com Santos: O planejamento ambiental surgiu, nas últimas três décadas, em razão do aumento dramático da competição por terras, água, recursos energéticos e biológicos, que gerou a necessidade de organizar o uso da terra, de compatibilizar esse uso com a proteção de ambientes ameaçados e de melhorar a qualidade de vida das populações. Surgiu também como uma resposta adversa ao desenvolvimento tecnológico, puramente materialista, buscando o desenvolvimento como um estado de bem-estar humano, ao invés de um estado de economia nacional. O planejamento ambiental vem como uma solução a conflitos que possam ocorrer entre as metas da conservação ambiental e do planejamento tecnológico. (2004, p.27) Segundo Almeida et al.: O planejamento ambiental consiste em um grupo de metodologias e procedimentos para avaliar as consequências ambientais de uma ação proposta e identificar possíveis alternativas a esta ação e avaliar as contraposições entre as aptidões e usos dos territórios a serem planejados. (1999, p.14) O principal objetivo do planejamento ambiental é garantir as condições ecológicas para o desenvolvimento efetivo da produção social e todas as atividades da população, através do uso racional e da proteção dos recursos ambientais (RODRIGUEZ, 1994). Ribeiro afirma que: O planejamento ambiental constitui um dos principais instrumentos da política ambiental e uma ferramenta efetiva para a promoção do desenvolvimento sustentável, na medida em que permite o alcance da sustentabilidade ambiental, que pode ser expressa em um meio ambiente estável e melhorado, capaz de compatibilizar a máxima produtividade econômica com o maior benefício e equidade social. (2012, p. 60-61) 91 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V No entanto, muitas formas de apropriação não foram planejadas e, atualmente, os recursos naturais têm sofrido essa pressão, como é o caso dos recursos hídricos. A escassez hídrica está se tornando cada vez mais frequente em municípios que antes tinham uma situação confortável quanto à disponibilidade de água, como é o caso da região sudeste do Brasil. Este momento torna ainda mais importante a racionalidade na gestão dos recursos hídricos, intensificando o planejamento, a conservação e o controle no uso das águas. Segundo Leal (2000), está ocorrendo uma mudança, lenta e gradual, no pensamento da inesgotabilidade e disponibilidade da água, refletindo uma preocupação crescente com o seu desperdício. Esta transformação cultural é motivada pela crise hídrico-ambiental gerada pela intensa degradação, que provoca a redução da disponibilidade hídrica, tanto em quantidade como em qualidade, ao mesmo tempo em que se verifica um aumento da demanda para os múltiplos usos antrópicos e fica cada vez mais evidente que a degradação das águas constitui um dos mais graves impactos deste século. (LEAL, 2000, p. 6) Nesse sentido, para dar conta de uma das premissas da gestão dos recursos hídricos, as quais são melhorar a qualidade das águas e garantir quantidade suficiente, é necessário um crescente esforço para uma mudança de paradigma e a construção de uma nova relação entre a sociedade e a natureza, que esteja preocupada com a diminuição dos impactos ambientais, especialmente os ligados aos recursos hídricos. Na medida que o ser humano é parte integrante da natureza, e ao mesmo tempo ser social e, por consequência, detentor de conhecimentos e valores socialmente produzidos ao longo do processo histórico, tem ele o poder de atuar permanentemente sobre sua base natural de sustentação, alterando suas propriedades, e sobre o meio social provocando modificações em sua dinâmica. (QUINTAS, 2006, p. 21) Para Setti et al.: gestão de recursos hídricos, em sentido lato, é a forma pela qual se pretende equacionar e resolver as questões de escassez relativa dos recursos hídricos, bem como fazer o uso adequado, visando a otimização dos recursos em benefício da sociedade. A condição fundamental para que a gestão dos recursos hídricos se realize é a motivação política para a sua efetiva implantação. (2000, p. 45) 92 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Os autores completam ainda que: a gestão das águas é uma atividade analítica e criativa voltada à formulação de princípios e diretrizes, para o preparo de documentos orientadores e normativos, estruturação dos sistemas gerenciais e tomada de decisões que têm por objetivo final promover o inventário, uso, controle e proteção dos recursos hídricos. (SETTI et al., 2000, p. 69) Uma das unidades de análise mais utilizadas no planejamento ambiental e na gestão de recursos hídricos é a unidade territorial da bacia hidrográfica, por oferecer uma visão conjunta do comportamento dos elementos naturais e da ação humana num espaço delimitado. A própria Lei no 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, traz em seu artigo 1o, inciso V, que “a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos” (BRASIL, 1997). Ou seja, todos os estudos que envolvam questões referentes à gestão e ao gerenciamento de recursos hídricos devem adotar a bacia hidrográfica como recorte de estudo e análise. A bacia hidrográfica constitui, segundo Christofoletti, “uma área drenada por um determinado rio ou por um sistema fluvial, funcionando como um sistema aberto, em que ocorre a entrada e saída de energia e matéria” (1980, p. 19). Do ponto de vista do planejamento, a bacia se caracteriza por: Abranger parte de um conjunto de feições ambientais homogêneas (paisagens, ecossistemas) ou de diversas unidades territoriais; Considera-se como a unidade mais apropriada para o estudo quantitativo e qualitativo do recurso água, e dos fluxos de sedimentos e de nutrientes; Assume-se como a unidade preferencial para o planejamento e a gestão ambiental (RODRÍGUEZ; SILVA; LEAL, 2011, pp.30-31). Com isso, o planejamento ambiental das bacias hidrográficas deverá ter como propósito fundamental articular a organização espacial e ambiental, para que possa estar em equilíbrio no ambiente, bem como priorizar a racionalidade e a estabilidade dos aspectos do espaço natural e das paisagens de diferentes áreas. 93 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V A fim de entender as ações antrópicas e os dados causados ao ambiente, propõe-se aplicar a proposta metodológica utilizada por Leal (1995), que se baseia nas concepções de Rodriguez (1984), considerando a elaboração do planejamento ambiental, contendo as etapas de Organização, Inventário, Diagnóstico, Prognóstico e Propostas de melhoria do estado ambiental da bacia hidrográfica em análise. Para o cumprimento dessas etapas do planejamento ambiental, é necessário que os estudos dos elementos da bacia hidrográfica estejam organizados em diversas temáticas para cumprir essas etapas e a obtenção do conhecimento necessário da área estudada, promovendo a integração das suas interações no território, nessa perspectiva de análise do uso e ocupação das terras de uma determinada área, pode seguir a proposta de Santos (2004, p.128), demonstrada na Figura 66. Figura 66. Ilustração das possíveis relações entre temas e funções ocorrentes em um território. Uso e ocupação da terra Água Clima Declividade Geologia Geomorfologia Solo Vegetação Fauna Economia Político-Institucional População Fonte: Santos, 2004, p. 128. Como se observa, deve-se articular o estudo da água com o levantamento do uso e ocupação da terra. De acordo com Santos: 94 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Uso e ocupação das terras é um tema básico para o planejamento ambiental, porque retrata as atividades humanas que podem significar pressão e impacto sobre os elementos naturais. É uma ponte essencial para a análise das informações do meio biofísico e socioeconômico. [...] As informações sobre esse tema devem descrever não só a situação atual, mas as mudanças recentes e o histórico de ocupação da área de estudo. (2004, p. 97) Nesse contexto, é possível seguir a recomendação metodológica para o desenvolvimento do planejamento ambiental de bacias hidrográficas destacado por Rodriguez (1994) na Figura 67. Figura 67. Concepção metodológica do planejamento ambiental. VI – Fase Executiva Instrumentação jurídica, administrativa e financeira Definição estratégica Sínteses: regulação, controle e correção Mecanismos de gestão Sistema de informação: monitoria e vigilância V – Fase Propositiva Definição de políticas setoriais Modelo de Organização Territorial: - Tipos funcionais; - Regime de uso; - Princípios geoecológicos Planos e programas de manejo Normas de organização Prognósticos de tendências e cenários alternativos IV – Fase de Diagnóstico Evolução de potencial: exploração, utilização e disposição. Evolução do estado, risco e deterioração geoecológica Evolução da utilização: eficiência e impacto Identificação da problemática ambiental (geoecológica) Diagnóstico integrado Qualidade ambiental III – Fase de Análise Estrutura: organização e diversidade Funcionamento: função geoecológica e processos Dinâmica: temporal e evolução Modificação e transformação antropogênica Indicadores geoecológicos: Estabilidade e integridade I – Fase de Organização II – Fase de Inventário Definição de objetivos Desenho da investigação Delimitação da área de estudo Componentes Naturais. Caracterização Geoecológica Componentes Antrópicos Caracterização Socioeconômica Interações Critérios Eco-geográficos e sócio-políticos do Planejamento Distinção, classificação e cartografia das unidades geoecológicas Fonte: Rodriguez, 1994; Trombeta, 2015. 95 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Rodriguez (1994) detalha cada uma das etapas do planejamento ambiental: » Fase de Organização: implementação metodológica e operativa do processo de Planejamento Ambiental. » Fase de Inventário: que é a caracterização geoecológica e socioeconômica, a determinação das unidades geoecológicas que servirão de base operacional para todo o processo de planejamento. » Fase de Análise: implica na análise das propriedades das unidades geoecológicas e na sistematização dos indicadores ambientais básicos. » Fase de Diagnóstico: abarca a avaliação do potencial dos recursos, do estado e a deterioração geoecológica, os riscos, a avaliação da eficiência de uso e impacto atual e a identificação dos problemas ambientais. » Fase Propositiva: consta da elaboração do modelo de Organização Ecológico-Territorial, mediante o estabelecimento dos tipos fundamentais de uso; a sustentação dos princípios e critérios geoecológicos do modelo proposto; a proposição do sistema de medidas (aproveitamento, restauração, conservação e proteção), dirigidas a assegurar as políticas de gestão ecológica; o prognóstico das tendências e cenários alternativos do modelo e o estabelecimento dos instrumentos administrativos, jurídicos, legais e sociais que assegurem a aplicação do programa de Organização Ecológico-Territorial. » Fase de Execução: que consiste na instrumentação dos mecanismos de gestão, informação e síntese (regulação e controle), dirigidos a assegurar a aplicação do modelo proposto de Organização Ecológico-Territorial. Com base nessa proposta, o planejamento de uma bacia hidrográfica deve considerar a análise separadamente de cada um desses temas, como: geomorfologia, geologia, solos, declividade, hipsometria, vegetação, drenagem e os dados quantitativos de população, economia, entre outros, que subsidiarão a elaboração de diversos produtos cartográficos dessas temática e, principalmente, do uso e ocupação das terras, que será um importante resultado dessa pesquisa. 96 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Mapeamentos no planejamento ambiental e na gestão de recursos hídricos Diante desses aspectos, as geotecnologias podem ser amplamente utilizadas nos trabalhos de planejamento ambiental de bacias hidrográficas e de gestão de recursos hídricos, sobretudo a partir da utilização do SIG. É necessário elaborar um amplo estudo que contenha os mapas temáticos do meio físico, meio biótico e meio socioeconômico, para que se consiga ter uma leitura de cada um dos temas e posteriormente analisá-los de maneira integrada. Aqui será apresentada uma série de mapas temáticos elaborados para subsidiar o planejamento ambiental da bacia hidrográfica localizada em um município do interior do Estado de São Paulo, chamado Álvares Machado. Estes foram desenvolvidos a partir do levantamento de dados e análises espaciais nos sistemas de informações geográficas (TROMBETA, 2015). É importante lembrar que a utilização das geotecnologias é um meio para auxiliar no apoio à tomada de decisão dos analistas e gestores. Na fase de Organização é pensado o plano de trabalho, o conjunto de mapeamentos que serão necessários e a identificação e delimitação da área de estudo, sempre atrelada à escala de análise correta para um determinado tamanho de área. A identificação da área de estudo nessa pesquisa partiu da delimitação da bacia hidrográfica do rio Guaiçarinha sobre cartas topográficas na escala de 1:10.000, as quais foram disponibilizadas pelo Instituto Cartográfico Geográfico do Estado de São Paulo (IGC) de forma analógica, ou seja, as cartas em papel que seriam necessárias para recobrir a bacia hidrográfica. Esse trabalho demandou a digitalização das cartas e, posteriormente, o seu georreferenciamento no SIG e a vetorização das suas feições, como curvas de nível, hidrografia, pontos cotados, sistema viário e a delimitação da baciahidrográfica com base nesses elementos fisiográficos (Figura 68). 97 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Figura 68. Exemplo de mapa de localização. LOCALIZAÇÃO Presidente Bernardes Santo Anastácio Álvares Machado Presidente Prudente Alfredo Marcondes Bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP LEGENDA Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Lagos Limite Álvares Machado Limites municipais Drenagem Fonte: Trombeta, 2015. As cartas que estão disponíveis em formato de imagem ou PDF nos órgãos oficiais de produção de cartografia sistemática podem ser georreferenciadas para utilização no SIG. Neste link, você confere como georreferenciar cartas topográficas no QGIS: https://www.youtube.com/watch?v=QDf2c4r5CpQ. É possível encontrar cartas topográficas já de forma digital, nos bancos de dados geoespaciais e nas Infraestruturas de Dados Espaciais, como mencionado acima, inclusive algumas bases cartográficas do IBGE estão disponíveis já em formato vetorial. O problema é que nem todos os municípios e estados do país dispõem de tais tecnologias. Depois vem a etapa do Inventário, em que o levantamento e o tratamento dos dados geoespaciais é fundamental para se caracterizar a bacia hidrográfica, como os mapas de hipsometria e declividade (Figuras 69 e 70), elaborados a partir da criação de um modelo digital de elevação com curvas de nível e pontos cotados; falaremos no capítulo 3 desta unidade sobre Modelo Digital de Elevação (MDE). 98 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Figura 69. Exemplo de mapa de hipsométrico. Bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP HIPSOMETRIA Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Drenagem Lagos Convenções Cartográficas Fonte: Trombeta, 2015. Este mapa permite observar as diferenças altimétricas na bacia hidrográfica, ou seja, onde estão localizadas as áreas mais altas e mais baixas, sendo um instrumento importante de ordenamento territorial. O mapa de declividade é essencial para qualquer trabalho que se proponha analisar o ambiente, sendo utilizado para diversas aplicações, como orientar a urbanização, entender o escoamento das águas superficiais etc. Outros mapas temáticos também são muito importantes, como o de geologia, essencial para analisar a dinâmica superficial dos terrenos. É importante destacar que esse tipo de dado geralmente vem de fontes secundárias, já que a elaboração de um mapeamento geológico demanda muito recurso técnico e financeiro, além disso, não há problemas em utilizar outras fontes, visto que são informações que demoram muito tempo para se alterarem, numa escala de tempo geológica (Figura 71). 99 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Figura 70. Exemplo de mapa de declividade ou clinográfico. Bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP Convenções Cartográficas Drenagem Lagos Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha CLINOGRAFIA Fonte: Trombeta, 2015. Figura 71. Exemplo de mapa geológico. GEOLOGIA Legenda Cenozóico Bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP Qa Ka1 Ka4 Ka5 Fonte: Trombeta, 2015. 100 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Quando elaborarem os mapas temáticos, atentem-se na organização da legenda, de modo que o mapa apresente de forma clara e completa todas as informações para a sua interpretação, não é recomendável utilizar apenas os códigos na legenda e apresentar a descrição apenas no texto, pois as imagens devem se comunicar individualmente. O relevo é um dos elementos indispensáveis na elaboração do planejamento ambiental, além de caracterizar as formas presentes no ambiente, mantêm relação com a sua dinâmica, é a base para outros cruzamentos e análises de dados e informações sobre as interfaces natureza e sociedade. Este pode ser feito a partir da análise das curvas de nível, de modelos digitais de elevação ou utilizar fontes secundárias, tudo dependerá dos materiais e dados que tiver disponível. A construção do mapa geomorfológico do exemplo deu-se pela interpretação das formas de relevo a partir das curvas de nível (Figura 72). Figura 72. Exemplo de mapa geomorfológico. Convenções Cartográficas Drenagem Lagos Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha GEOMORFOLOGIA Bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP Fonte: Trombeta, 2015. O mapa de solos ou pedológico também é fundamental para a análise do meio físico, trazendo informações sobre o tipo de solo, as quais possibilitam inferir sobre o nível de permeabilidade, de fragilidade, dentre outros (Figura 73). 101 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Os mapas temáticos que detalham as drenagens também são de extrema importância para o planejamento ambiental e a gestão de recursos hídricos, ter o conhecimento detalhado dos cursos d’água presentes na bacia hidrográfica contribui com o aprofundamento do estudo, além de subsidiar posteriormente o mapa de Áreas de Preservação Permanente (APP), como demonstram as Figuras 74 e 75. Figura 73. Exemplo de mapa pedológico. PEDOLOGIA Convenções Cartográficas Lagos Drenagem Legenda Solos Bacia Hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP Argissolos vermelhos Argissolos vermelho- amarelos Neossolos Gleissolos Fonte: Trombeta, 2015. Figura 74. Exemplo de mapa de drenagens e nascentes. Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Legenda Rede de drenagem Convenções cartográficas Nascentes Drenagem Lagos Planície de inundação Bacia Hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP REDE DE DRENAGENS E NASCENTES Fonte: Trombeta, 2015. 102 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Figura 75. Exemplo de mapa de hierarquia fluvial. HIERARQUIA FLUVIAL Bacia Hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP Legenda Hierarquia fluvial Classificação Strahler 1ª ordem 2ª ordem 3ª ordem 4ª ordem 5ª ordem Convenções cartográficas Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Fonte: Trombeta, 2015. Outra análise que deve estar presente é mostrar a expansão da urbanização ao longo do tempo, a qual deve ser realizada a partir da interpretação de fotografias e imagens aéreas históricas (Figura76). Figura 76. Exemplo de um mapa de expansão territorial. Expansão Territorial do município de Álvares Machado/SP Legenda Década da expansão 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 Sem dados Eixo viário Logradouro Divisa municipal Localização Fonte: Trombeta, 2015. 103 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Os mapas de análise socioeconômica também são importantes, principalmente os relacionados às variáveis do censo demográfico que apresentam uma caracterização detalhada da condição da população em um determinado território. O primeiro passo é identificar os setores censitários que estão inseridos integral e parcialmente na área de interesse (Figuras 77), de posse desses limites é possível associar as variáveis do censo, que são inúmeras, as quais apresentam características econômicas, sociais e ambientais da população e do ambiente em que residem, como número de habitantes, renda, existência de infraestruturas e serviços de saneamento básico etc. Figura 77. Exemplo de mapa com os setores censitários da área de interesse. Bacia Hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado/SP Legenda Situação do setor Setor de áreaurbanizada de cidade ou vila Setor rural, exclusive aglomerado rural Setores censitários que não foram considerados Convenções cartográficas Drenagem Lagos Limite da bacia hidrográfica do Córrego Guaiçarinha SETORES CENSITÁRIOS Fonte: Trombeta, 2015. Nesse link, em “Censos” você pode consultar e baixar os dados de todos os Censos Demográficos realizados no Brasil. Inclusive baixar o shapefile com a malha dos setores censitários para correlacionar as variáveis de interesse. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/downloads-estatisticas.html. 104 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Na etapa de Diagnóstico, os mapeamentos também estão presentes e são fundamentais para entender a realidade e a condição atual do ambiente estudado; as análises dessa etapa que vão apontar os caminhos a serem seguidos para o ordenamento territorial. Um mapa é o de Áreas de Preservação Permanente (APP), elaborado a partir da hidrografia detalhada da área de estudo e a interpretação e a aplicação da Lei no 12.651, que dispõe sobre a proteção da vegetação nativa, também denominada de Novo Código Florestal, apresentando as áreas que devem ser preservadas e suas respectivas referências métricas, como as APP de cursos d’água. No SIG, essas áreas podem ser delimitadas com o uso da ferramenta buffer, que cria uma área de influência com o tamanho informado, sendo uma primeira análise que deve ser verificada em campo. A ferramenta de buffer é de simples utilização, no QGIS ela é encontrada no conjunto de ferramentas Vetor, em Geoprocessamento, como mostra a Figura 78. Figura 78. Ferramenta de buffer no QGIS. cursos_dagua_lote01 Cursos_dagua_lote01 Buffer Geoprocessamento 30,0000000 metros Executar Fonte: própria autora, 2020. Este exemplo demonstra a aplicação de um buffer para delimitação de APP de 30 metros nos cursos d’água de uma área. Dentro da ferramenta buffer, basta na camada de entrada indicar o shapefile de drenagem e no item distância indicar o parâmetro desejado e executar. Com isso, será criado um shapefile com a área de influência de 30 metros no entorno dos cursos d’água (Figura 79). 105 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Figura 79. Shapefile criado a partir da ferramenta buffer no QGIS. Buffer_30m_cursos_dagua_lote0 1 Fonte: própria autora, 2020. Outros mapas como o de fragilidade ambiental podem ser elaborados a partir da síntese entre diversos temas, como declividade, solos e uso e cobertura da terra. Esse tipo de mapas é muito utilizado para identificar as áreas mais frágeis no território e ordenar a ocupação (Figura 80). Figura 80. Exemplo de mapa de fragilidade. Bacia Hidrográfica do Córrego Guaiçarinha Álvares Machado Legenda Grau de fragilidade Processo erosivo Fraca Média Média Muito forte Processo de inundação Forte Forte Muito forte Convenções cartográficas Drenagem Lagos Limite da bacia hidrográfica do córrego Guaiçarinha FRAGILIDADE AMBIENTAL Fonte: Trombeta, 2015. 106 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL As etapas de Prognóstico e Propostas também podem ter o uso do geoprocessamento, mas esta será no sentido de modelar cenários e construir propostas que sejam possíveis de espacializar. Esses são apenas alguns exemplos de mapas que podem ser utilizados no planejamento ambiental e na gestão de recursos hídricos, como os mapas de Unidades de Conservação, Lei de Uso e Ocupação do Solo, dentre outros, cada projeto terá as suas especificidades de análises e preocupações. Você deve estar se perguntando: mas como elaborar esses mapas? Organizar os layouts e gerar as figuras? Os Sistemas de Informações Geográficas, a exemplo do QGIS, têm uma ferramenta de layout de impressão (Figura 81), na qual é realizada a organização do mapa e são colocados os elementos obrigatórios, tais como: legenda, norte geográfico, grade coordenadas, escala gráfica e escala numérica (Figura 82). Figura 81. Layout de impressão no QGIS. Novo layout de impressão Fonte: própria autora, 2020. 107 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Figura 82. Itens a serem adicionados no modo de layout de impressão. Adicionar item Adicionar mapa Adicionar mapa 3D Adicionar imagem Adicionar rótulo Adicionar legenda Adicionar barra de escala Adicionar formato Adicionar seta Adicionar item de nó Adicional HTML Adicionar tabela de atributos Fonte: própria autora, 2020. Para tanto, basta adicionar esses itens e montar o mapa, como se estivesse fazendo isso em cima de uma folha de papel, escolhendo o tamanho e a escala desejada, mantendo o padrão cartográfico. O vídeo “Mudanças na Cobertura e Uso da Terra” do IBGE, explica de maneira bastante completa como inserir cada um dos elementos para elaboração de um mapa temático. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=2PHsHkGrlj8. É importante salientar que os mapeamentos não substituem os trabalhos de campo para conhecimento mais detalhado da área, inclusive a confirmação e verificação das informações cartográficas. 108 CAPÍTULO 2 Uso e cobertura da terra O conhecimento do uso das terras é essencial no planejamento ambiental e na gestão de recursos hídricos, está associado com todas as etapas do estudo das erosões: causas, consequências, prevenção, recuperação etc. Quando o solo está ocupado de maneira adequada com o tipo de relevo, clima, solo e estrutura geológica da região, os processos erosivos terão menor intensidadade ou nem ocorrerão. Por isso, um dos instrumentos mais importantes para conhecimento da área é o mapa de uso e cobertura da terra, associado ao trabalho de campo. Esse mapeamento também é o utilizado nos cruzamentos espaciais com outras informações. O vídeo “Mudanças na Cobertura e Uso da Terra”, do IBGE, explica de maneira bastante simples a importância desse tipo de mapeamento. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zFKVEpg25Qk. O mapeamento do uso e da cobertura da terra analisa a distribuição geográfica da tipologia de uso, identificada a partir de padrões homogêneos na cobertura da superfície terrestre, com trabalho no escritório e no campo, envolvendo a observação, interpretação, análise e classificação dos diferentes usos e coberturas, espacializando-os por meio de mapas (IBGE, 2013). Além disso, esse mapeamento é de grande utilidade para o conhecimento e análise das formas de uso e ocupação do espaço. Consiste numa importante ferramenta para o planejamento e tomada de decisão para a escolha da melhor forma de intervenção. São quatro os princípios básicos para classificação do uso e cobertura da terra, segundo o IBGE (2013): » a escala de mapeamento; » a natureza da informação básica; » a unidade de mapeamento e definição da menor área a ser mapeada; » a nomenclatura. 109 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V A maior parte dos mapeamentos de uso e cobertura da terra voltados para o estudo das erosões tem de ser em grande escala, ou seja, que apresente bastante detalhes do terreno. A proporção entre os tamanhos dos mapas/cartas e o tamanho do terreno representados é indicada pela escala. A escala é a relação entre a medida de uma porção territorial mostrada em mapa e seu tamanho real na superfície terrestre. São definidas de acordo com os assuntos a serem representados nos mapas/cartas, podendo ser maiores ou menores, conforme a necessidade de se observar um espaço com maior ou menor nível de detalhamento. Podem ser representadas numérica ou graficamente. A escala gráfica é a representação de distâncias do terreno sobre uma linha reta graduada. É constituída de um segmento à direita da referência zero, conhecido como “escala primária”,e outro à esquerda, denominado “talão” ou “escala de fracionamento”, dividido em submúltiplos da unidade escolhida, graduados da direita para a esquerda (Figura 83). Não há necessidade de transformação matemática de centímetros para quilômetros ou metros. Figura 83. Escala gráfica. Escala 1: 25.000 2000m 1000m 1000m 500m Escala 1: 50.000 3000m 2000m 1000m 1000m Escala 1: 100.000 6000m 2000m 4000m 0 2000m Escala 1: 250.000 20 km 15 5 0 5 10 Fonte: IBGE, 1999. A escala numérica utiliza como forma de representação uma fração, cujo numerador ou divisor é representado sempre pela unidade, que equivale a uma unidade de medida no mapa, enquanto que o denominador representa a grandeza numérica proporcional no terreno, comumente representado por um múltiplo de 10 (Figura 84). 110 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Por exemplo, uma escala de 1:1.000 indica que, para cada unidade do sistema métrico medida no mapa, há uma correspondência de 1.000 unidades no terreno. A escala é tanto maior quanto menor for seu denominador: a escala de 1:1.000.000 é menor que a escala de 1:10.000. Figura 84. Escala numérica. E 1 10 X Ex: E 1 25.000 ou E 1:25.000 Fonte: IBGE, 1999. A natureza da informação básica está relacionada com os meios utilizados para extração dos dados a serem classificados a partir das tipologias de uso e ocupação das terras. As fotografias aéreas e as imagens orbitais são fontes básicas para esse tipo de mapeamento, porém são insuficientes para dar conta da realidade, sendo importante a realização de trabalhos de campo para verificação e complementação das interpretações e padrões identificados pelas imagens no escritório. A unidade mínima de mapeamento define o tamanho da menor unidade de área mapeável, observando sua legibilidade, capacidade de representar as características essenciais do terreno, atendendo a escala e propósitos dos levantamentos, e a relação entre os custos operacionais e o fornecimento da informação da cobertura terrestre (IBGE, 2013). A nomenclatura deve ser construída a partir das especificidades no mapeamento da diversidade do território, devendo ser compatível com a escala, o tamanho da menor área a ser mapeada, a fonte básica de dados e com as necessidades do usuário. A maioria das nomenclaturas utiliza terminologias que expressam as atividades humanas na superfície terrestre, como mostra a Figura 85. 111 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Figura 85. Esquema teórico de construção de uma nomenclatura da cobertura terrestre. Planeta Terra Terra Áreas antrópicas Áreas naturais Outras áreas Água continenta l Água costeira Água Não agrícolas Agrícolas Florestal Campestre Áreas descobertas Fonte: IBGE, 2013. O Manual Técnico de Uso e Cobertura da Terra, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apresenta o detalhamento da estrutura para o sistema básico de classificação da cobertura e uso da terra em três níveis de escala, com maiores ou menores detalhes. O manual está disponível no link: » https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv81615.pdf. Utilizando o SIG, o mapa de uso e cobertura da terra pode ser elaborado a partir da classificação de imagens de satélite, procedimento mais utilizado para área de média e pequena escala; ou a vetorização de ortofotos e mesmo as imagens disponíveis no Google Earth, com a criação de um shapefile de polígono e utilizando as ferramentas de vetorização, indicando o atributo para cada classe mapeada. 112 CAPÍTULO 3 Modelo digital de terreno O Modelo Digital do Terreno é muito utilizado no planejamento ambiental e na gestão de recursos hídricos, sendo um instrumento fundamental para compreensão de diversos fenômenos e objetos dispostos na superfície terrestre. Além disso, auxiliam a obtenção de outros dados e informações, com uma interface bastante evidente com os Sistemas de Informações Geográficas. No entanto, nem todo modelo digital é igual ou deve ser utilizado com as mesmas finalidades, deve-se estabelecer os objetivos e escolher o modelo que mais atender às necessidades do trabalho. É uma ferramenta muito utilizada em diversas atividades e segmentos, bem como por muitas áreas do conhecimento, pela sua versatilidade de aplicações e por subsidiar a tomada de decisão. Com o advento da fotogrametria digital, foi possível o processamento de imagens digitais em um computador, a visualização do terreno em três dimensões, a geração de modelos digitais de terreno, a extração de curvas de nível, a produção de ortofotos e a extração de mais detalhes dos atributos planimétricos do terreno. Posteriormente, com as funcionalidades dos Sistemas de Informações Geográficas e do Sensoriamento Remoto, novos métodos e ferramentas de análise espacial surgiram e se aprimoraram com alta velocidade. Dentre as análises espaciais da distribuição de fenômenos e objetos da superfície terrestre, os Modelos Digitais do Terreno (MDTs) são uns dos instrumentos mais utilizados para caracterizar e entender os processos e a dinâmica do Planeta. Variadas são as definições para os MDTs, no entanto, elas não são excludentes umas das outras, mas complementares. De acordo com Felgueiras: Os modelos digitais de terreno representam a variabilidade de um atributo, ou fenômeno geográfico, que ocorre dentro de uma região geográfica de interesse. Um sistema de modelagem digital de terreno compreende: a aquisição de um conjunto de amostras representativas do fenômeno a ser estudado; a criação do modelo digital, propriamente dito; e, a definição de uma série de processamentos de análises sobre os modelos com a finalidade de se extrair informações úteis à uma aplicação de geoprocessamento. (1999, p. 2) 113 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Os MDTs são gerados com a coleta de amostras do fenômeno a ser mapeando e após a sua geração ele ainda por favorecer a extração de outros dados e informações. Por exemplo, um MDT que foi elaborado a partir da coleta de dados e informações topográficas pode ser pós-processado em ambiente SIG e gerar novas análises, como a declividade do terreno. El-Sheimy (1999) define o MDT de forma mais sintética, sendo uma representação estatística da superfície contínua do terreno por um número elevado de pontos selecionados com coordenadas (X, Y e Z), conhecidas em um sistema de coordenadas arbitrário. Conforme apresenta Rosa (2002), o modelo digital do terreno (MDT) é a representação de superfícies físicas ou artificialmente criadas. Através de processos matemáticos, ou seja, através da modelagem procura-se determinar a superfície que melhor representa um conjunto de dados pontuais, em geral por ajuste de funções ou por interpolações. O geoprocessamento estabelece uma relação muito importante com MDTs, pois através dos Sistemas de Informações Geográficas (SIG) – instrumento essencial para tratamento e análise espacial dos MDT – é possível desenvolver diversas aplicações, como nas áreas de planeamento urbano e rural, análises de aptidão agrícola, verificação e desdobramentos de impactos ambientais, entre outras. Com os avanços tecnológicos e da informática, bem como do SIG, a utilização dos MDTs tornou-se mais abrangente, como complementa Fitz “podendo esse modelo ser considerado como a representação digital da variação contínua de qualquer fenômeno geográfico que ocorre na superfície ou até mesmo na atmosfera terrestre” (2008b, p. 73). Essas análises espaciais realizadas com o MDT podem ser qualitativas ou quantitativas e fornecem um conjunto de informações que subsidiarão a tomada de decisão pela analista. É comum pensar que o MDT apresenta apenas características físicas do terreno, mas a sua geração pode ser dada a partir de diversos outrosobjetos e fenômenos, como um modelo que mostre a concentração de equipamentos de cultura em um determinado município para ações de planejamento e gestão pública. Outra característica importante dos MDT é a possibilidade de analisar e entender um determinado fenômeno sem a necessidade, num primeiro momento, de estar na mesma região geográfica escolhida. 114 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL As análises desenvolvidas sobre um MDT permitem a obtenção de diversos resultados (FELGUEIRAS, 1999): » Visualizar modelos em projeção geométrica planar. » Gerar imagens de nível de cinza, imagens sombreadas e imagens temáticas. » Obter mapas topográficos. » Calcular volumes de aterro e corte. » Realizar análises de perfis sobre trajetórias predeterminadas. » Gerar mapeamentos derivados tais como mapas de declividade e exposição, mapas de drenagem, mapas de curva de nível e mapas de visibilidade. Felgueiras e Câmara (2004) destacam outros fenômenos típicos do terreno que podem ser representados por um MDT, tais como: levantamentos de dados do relevo, informação geológica, levantamentos de profundidades do mar ou de um rio, informação meteorológica e dados geofísicos e geoquímicos. Em síntese, o MDT é uma superfície real representada no computador indispensável para apresentar de forma mais visual e objetiva os fenômenos e as interações entre os objetos terrestres. É representado por equações analíticas ou uma rede (grade) de pontos, de modo a transmitir ao usuário as características espaciais do terreno. A distribuição dos pontos coletados pode ser representada em superfícies tridimensionais, com a utilização de ferramentas do SIG, de acordo com duas estruturas principais: grades regulares (GRID ou DEM) ou redes trianguladas ou irregulares (TIN), conforme apresenta a Figura 86. Figura 86. Representações tridimensionais de uma mesma superfície. a) grade regular (DEM ou GRID); b) rede triangulada irregular (TIN). a) DEM b) TIN Fonte: Grohmann, 2015, p. 11. 115 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V A Grade Regular (GRID) é uma estrutura matricial simples, com valores atribuídos para cada pixel do raster, com a localização conhecida (coordenadas). E a Rede Triangulada Irregular (TIN) é uma estrutura vetorial de distribuição dos pontos de forma irregular, conectados por uma rede de arestas que formam triângulos que não se sobrepõem e que, posteriormente, pode ser transformada em um raster. Como os pontos coletados para os modelos são amostrais, ou seja, não recobrem toda a superfície do terreno, são utilizados diferentes métodos de interpolação para atribuir valor aos locais sem amostragem, os quais apresentam características e resultados diferentes, sendo especificados no Quadro 5 os principais métodos utilizados, principalmente em ambiente SIG. De acordo com Fitz: A interpolação pode ser entendida como um método que, utilizando funções matemáticas, permite encontrar valores de dados intermediários contidos entre outros dois valores de dados conhecidos de dados conhecidos. Os dados interpolados representam, portanto, uma aproximação da realidade. Assim, quanto mais dados conhecidos existirem, tanto mais fiel será a modelagem realizada. (2008b, p. 76) Quadro 5. Principais métodos de interpolação. Método de interpolação Descrição Representação gráfica Triangulação de Delaunay Triangulação de um conjunto de pontos que formam uma coleção de arestas “círculo vazio”, ou seja, são encontrados apenas dois pontos dentro do círculo para cada aresta. Diagrama de Voronoi Forma uma estrutura geométrica que representa a informação sobre a proximidade de um conjunto de objetos. Polígonos de Thiessen Definem a área a partir do método de interpolação do vizinho mais próximo, ou seja, utilizando os pontos que estão mais próximos.. Vizinhos naturais Baseado no mosaico dos polígonos de Voronoi para definir pesos para a interpolação. Splines Utiliza uma função matemática que minimiza a curvatura da superfície, de maneira que a superfície resultante seja suave, com segundas derivadas e passe pelos pontos amostrais. Krigagem Relaciona a semivariância (metade da variância) entre pontos amostrais sucessivos e sua distância para definir a função semivariograma, que será utilizada para analisar a dependência espacial entre as amostras. Fonte: Grohmann, 2015. Organização: a autora, 2019. 116 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Além do método de interpolação, os MDT podem ser obtidos a partir da fotogrametria digital, com técnicas de restituição de fotografias aéreas e imagens de satélite de diferentes resoluções espaciais, tomadas por sensores com capacidade de gerar imagens estereoscópicas. É importante destacar que existem algumas diferenças semânticas ao tratar dos modelos digitais, que implicam em formas de obtenção e resultados diferentes: Modelo Digital de Terreno (MDT), Modelo Digital de Elevação (MDE) e Modelo Digital de Superfície (MDS). O MDE e o MDT são dados do tipo raster (estrutura matricial), apresentando as seguintes características principais: » São uma representação digital de uma porção da superfície terrestre. » São compostos por uma matriz de pixel com valores das coordenadas planimétricas (X e Y). » Apresentam valores de intensidade do pixel correspondente à elevação (Z), ou seja, os dados referentes à altitude. Diferenças entre a altura e a altitude. A altura faz referência à diferença métrica entre a base do objeto e o topo do objeto. E a altitude faz referência à diferença métrica entre o topo do objeto em relação ao nível do mar, ou seja, é a distância vertical em relação ao nível do mar. Ou seja, a altura de uma pessoa não muda (é fixa), se estiver em casa, em um prédio de 20 andares ou na praia, a sua altura será a mesma. Já a altitude dessa mesma pessoa é variável, se estiver no nível do mar será zero (ou próxima de zero) e se estiver no pico de uma montanha terá um valor de altitude superior (Figura 87). 117 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Figura 87. Diferença dos registros coletados pelo MDT e o MDS. ALTURA ALTITUDE Topo da montanha 4 Km Nível do mar Base da montanha 3 Km 2 Km 1 Km 0 Km Fonte: Domingues, 2019. No Brasil e em outros países, o MDT e o MDE têm sido tratados como sinônimos, ou seja, são utilizados para o mesmo tipo de aplicações. Entendidos como modelos que representam a superfície da terra, considerando as diferenças altimétricas do terreno, que conta o valor da altitude em relação ao nível do solo. No entanto, em outros países, como os Estados Unidos da América, estes dois modelos são entendidos como diferentes e complementares. O MDT é um complemento do MDE, podendo ser formado por dados vetoriais que complementam as informações inseridas num dado raster. Já o MDS conta não apenas a altitude em relação ao nível do solo, mas considera, ainda, qualquer edificação que esteja sobre essa superfície, tanto daquelas construídas pelas atividades humanas, como elementos naturais – por exemplo, a copa das árvores que são consideradas no estabelecimento das altitudes identificadas. Portanto, o MDS não considera apenas a altitude em relação ao solo, mas tudo que estiver em cima, como casas, prédios, copa das árvores etc. (Figura 88). Figura 88. Diferença dos registros coletados pelo MDT e o MDS. MDS MDT Fonte: Digimap, 2016. 118 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL Obtendo um modelo digital do terreno As primeiras questões que devem ser respondidas são: qual objetivo do MDT? Qual é o recorte geográfico do MDT? De posse dessas duas respostas, já poderá escolher o melhor modelo para atender os objetivosdo trabalho. Não é difícil se deparar com uma localidade que não possui modelos digitais disponíveis, com isso, a analista terá de propor alternativas para obter um modelo. Existe a possibilidade de aquisição de MDTs prontos para diversas porções da superfície terrestre, mas deve-se atentar para a sua escala de produção. O Quadro 6 especifica os modelos globais, disponibilizados para grande parte da superfície terrestre. Quadro 6. Modelos Digitais do Terreno globais ou quase globais. Dados Ano Resolução (km) País em que foi desenvolvido DTED (restrito) 1970 - EUA TERDAT 1985 18 EUA ETOPO5 1988 9 EUA TerrainBase 1995 9 EUA JGP95E 1995 9 EUA GTOPO30 1996 1 EUA GLOBE 1999 1 EUA ACE 2000 1 Inglaterra ETOPO2v1 2001 4 EUA SRTM 03” v1 2003 0.09 EUA ICEsat 2003 0.2 EUA GMRT v1 2011 1 EUA DTM 2002 2002 1 EUA SRTM30PLUS v1 2004 1 EUA SRTM 03” v2 2005 0.09 EUA ETOPO2v2 2006 4 EUA SRTM30PLUS v2 2006 1 EUA DTM 2006 2006 1 EUA SRTM30PLUS v3 2007 1 EUA ETOPO1 2008 2 EUA CGIAR-CSI SRTM V4.1 2008 0.09 Internacional ACE2 2008 0.09 Inglaterra SRTM30PLUS v4 2008 1 EUA ASTER GDEM v1 2009 0.03 Japão SRTM30PLUS v5 2009 1 EUA SRTM30PLUS v6 2009 1 EUA DLR SRTM X-SAR 2010 0.03 Alemanha 119 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Dados Ano Resolução (km) País em que foi desenvolvido GMTED2010 2011 0.25 EUA GMRT v2 2011 1 EUA ASTER GDEM v2 2011 0.03 Japão SRTM30PLUS v7 2011 1 EUA SRTM30PLUS v8 2012 1 EUA SRTM 03” v3 2013 0.09 EUA SRTM30PLUS v9 2013 1 EUA TanDEM-X 2014 0.01 Alemanha SRTM30PLUS v10 2014 1 EUA SRTM 01” v3 2014 0.03 EUA Fonte: Adaptado de Grohmann, 2015. Caso seja necessário gerar um MDT, algumas fases devem ser seguidas (NAMIKAWA et al., 2003): » Aquisição de dados: obtenção de informações da superfície real que possibilite a caracterização matemática do modelo, geralmente esses dados são representados por curvas de isovalores e pontos tridimensionais. » Geração de modelo: elaboração de um modelo matemático composto por estruturas de dados e funções de interpolação que simulem o comportamento da superfície real a partir dos dados coletados. Os modelos mais utilizados são os modelos de grade regular retangular e os modelos de grade irregular triangular. » Utilização do modelo gerado: utilização do modelo em substituição à superfície real. As aplicações podem ser qualitativas, tais como a visualização do modelo com a utilização de projeções geométricas planares ou quantitativas, tais como: cálculos de volume e geração de mapas de declividade. Fitz (2008b) destaca também algumas etapas operacionais para geração de um modelo digital: » Realizar um levantamento dos dados disponíveis e procurar caracterizá-los espacialmente. Normalmente, trabalha-se com dados pontuais (altitudes no terreno, temperaturas, pluviosidade de estações meteorológicas etc.) ou com isolinhas (linhas de mesmo valor: isoietas, isotermas, isóbaras, isoípsas etc.). 120 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL » Introduzir os dados no sistema (digitalização / vetorização). » Traçar as respectivas isolinhas a partir dos dados pontuais (dispostos em tabelas, desde que georreferenciados, ou mesmo em mapas). » Estabelecer os parâmetros de interpolação dos pontos. » Aplicar o módulo do respectivo software para a geração do modelo. Na Figura 89, pode-se observar a utilização de curvas de nível ou isoípsa (modelo vetorial), as quais unem pontos de mesma altitude, demonstrando o comportamento do relevo, e a sua transformação em um modelo digital, para representação tridimensional do terreno. Figura 89. Dados representados de forma vetorial e transformados em um modelo digital. a) b) 450 400 350 300 250 200 150 Fonte: FITZ, 2008b, p. 56. A interpolação de diferentes métodos é uma das formas de geração dos modelos digitais a partir de dados vetoriais coletados ou de fontes secundárias. Outra forma é obter modelos digitais prontos, disponíveis gratuitamente ou por diversas empresas no mercado. Atualmente também se têm obtido modelos digitais a partir da fotogrametria digital, especialmente a partir do uso de drones, que diminuem os custos e deixam o processo de aquisição mais rápido, sendo viáveis economicamente, até para pequenas áreas. Neste link, você pode conferir uma animação da produção de modelos digitais com drone. https://www.youtube.com/watch?v=y4KO5tqJsdQ. 121 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V Principais aplicações dos modelos digitais do terreno Com a evolução das técnicas de obtenção e geração dos MDT, suas aplicações têm se tornado cada vez mais variadas e alcançado diversos segmentos, como: a construção civil, o planejamento urbano e ambiental, mineração, biologia, monitoramento ambiental, hidrologia, entre outros. Como os MDTs são, de forma geral, representações matemáticas contínuas da distribuição espacial das diferenças altimétricas de uma porção da superfície terrestre, são utilizados para diversas aplicações, como as destacadas por Burrough (1986): » Armazenamento de dados de altimetria para gerar mapas e perfis topográficos. » Ortorretificação de imagens. » Análise de corte e aterro para projeto de estradas e barragens. » Elaboração de mapas de declividade e exposição para apoio à análise de geomorfologia e erodibilidade. » Determinação de intervisibilidade de pontos. » Análise de variação geofísica e geoquímica. » Apresentação tridimensional (em combinação com outras variáveis). Na geração de ortofotos, o MDT é o elemento mais crítico e importante no que se refere à precisão do produto final, pois é a informação que representa o terreno e as estruturas existentes nele com detalhes, a depender da escala de obtenção (SILVA, 2002). Como se tem definições e resultados diferentes para cada modelo digital a ser utilizado, é importante destacar algumas das suas especificidades, por isso, deve-se inicialmente sempre definir os objetivos do trabalho: » Modelo Digital do Terreno ou Modelo Digita de Elevação: › Armazenamento de dados de altimetria para gerar mapas topográficos. › Análises de corte-aterro para projeto de estradas e barragens. 122 UNIDADE V │ INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL › Elaboração de mapas de declividade e apresentação tridimensional, ou seja, representação 3D. › Cálculo do volume do terreno (movimento de terra). » Modelo Digital de Superfície. » No planejamento urbano, por exemplo, na definição, no plano diretor de um município, para delimitar a altura máxima de edifícios em determinadas zonas. » Projetos de engenharia. » Inspeção de plantas industriais. » Estudo e planejamento para infraestruturas. » Segurança pública e privada, para identificar modelos para ação. » Definição de rotas. » Cálculo de volume de pilhas de materiais e objetos. Para Vieira (2001), o MDT é uma solução numérica eficiente no sentido de permitir o armazenamento de dados de altimetria e geração de mapas topográficos, perfis e seções, visualização tridimensional do terreno, simulação de projetos de movimentação de terra, elaboração de mapas de declividade e exposição solar, cálculo da direção e volume acumulado dos fluxos de águas superficiais. A Geomorfologia e a Geologias são ciências que utilizam muito o MDT, principalmente a sua derivação do modelo sombreado (hillshade), muito utilizado para delimitação de compartimentos geomorfológicos e estruturas geológicas, a partir da identificação de áreas semelhantes, manipulado totalmente em ambiente SIG (Figura 90). Figura 90. Modelo sombreado do relevo. Fonte: ArcGis. 123 INSTRUMENTOS PARA O PLANEJAMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E PARA O PLANEJAMENTO AMBIENTAL │ UNIDADE V A Hidrologia também faz bastante uso dos modelos digitais, sobretudopara geração e associação com modelos hidrológicos, integrando-os a partir de aplicações em SIG para definir a direção de fluxo de água, calcular a área de contribuição, extrair a rede de drenagem, entre outras. 124 Referências ACERVO DIGITAL. Imagens de satélite 1984-2016: 32 Anos de Mudanças na Terra. 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ZvnPUlsTcJw. Acesso em: 22 jul. 2020. ALMEIDA, Josimar Ribeiro de et al. Planejamento Ambiental: caminho para participação popular e gestão ambiental para nosso futuro comum. Uma necessidade, um desafio. 2. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca Estácio de Sá, 1999. ARCGIS. Arcgis for desktop – Arcmap: Hilshade function. Disponível em: https://desktop.arcgis.com/en/arcmap/10.3/manage-data/raster-and-images/ hillshade-function.htm. Acesso em: 22 jul. 2020. 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