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1. CURATELA A curatela, assim como a tutela, é instituto de direito assistencial, para a defesa dos interesses de maiores incapazes. Há um múnus público, atribuído pela lei. São partes da curatela o curador e o curatelado. 2. Conceito de Curatela É o encargo conferido por lei a alguém para reger a pessoa e administrar os bens de outrem que não pode fazê-lo por si. São as pessoas maiores incapazes que não podem reger a própria pessoa ou administrar pessoalmente os seus bens em razão de doença ou alguma deficiência. 2.1. Sujeitos à curatela • Por força do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), não há mais absolutamente incapazes maiores de idade, incidindo a curatela somente para os maiores relativamente incapazes. São eles (art. 1.767, CC): o Os ébrios habituais (alcoólatras); o Os viciados em tóxicos; o As pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem exprimir sua vontade; o Os pródigos. Obs. Incapacidade não se presume, havendo a necessidade de ação de curatela. Obs.2. Importante destacar que a decisão judicial derivada de uma ação de curatela não pode atingir valores constitucionalmente preservados em favor da pessoa, como a liberdade e a intimidade. Nesse sentido é o art. 85 do EPD “A curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial. (...) e não alcança o direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto”. 2.2. Legitimados Wondershare PDFelement Nos termos do art. 747 do CPC, a ação pode ser proposta: • I - Pelo cônjuge ou companheiro; • II - Pelos parentes ou tutores; • III - pelo representante da entidade em que se encontra abrigado o interditando; • IV - Pelo Ministério Público. Obs. Apesar do texto legal, Cristiano Chaves e Fredie Didier destacam que o dispositivo deve ser lido à luz do EPD, de modo que a proteção do incapaz deve superar mera disposição e alcançar a proteção efetiva da pessoa humana, conferindo amplos poderes ao MP, inclusive por sua finalidade institucional, que é a defesa de interesses indisponíveis. Obs.2. Em que pese taxativo o rol do art. 747, não há ordem preferencial. 3. Da ação de curatela • Deve o autor, na exordial, especificar (art. 749, CPC): o Os fatos que demonstram a incapacidade do interditando para administrar seus bens e/ou para praticar atos da vida civil; o O momento em que a incapacidade se revelou • Deve, ainda, trazer laudo médico para fazer prova de suas alegações ou informar a impossibilidade de fazê-lo (art. 1.750, CPC). Obs. Com base nos elementos, e justificada a urgência, poderá ser nomeado curador provisório ao interditando. • O interditando será citado para, em dia designado, comparecer perante o juiz, que o entrevistará minuciosamente (vida, negócios, bens, vontades, preferências, laços familiares e afetivos) aos fins do convencimento quanto à sua capacidade para praticar atos da vida civil (art. 751, CPC). o Esta é chamada audiência de entrevista ou “arresto de interrogatório”. • Após isso, o interditando terá 15 dias para impugnar o pedido, mediante procurador constituído ou curador especial (art. 752, CPC); • Ultrapassado o prazo de 15 dias, o juiz determinará a produção de prova pericial para avaliação da capacidade do interditando para Wondershare PDFelement praticar atos da vida civil, podendo ser realizada por equipe composta de especialistas com formação multidisciplinar, especificando o laudo os atos para os quais haverá a necessidade de curatela. 3.1. Limites da curatela Na sentença (que tem natureza constitutiva), o juiz deverá, com base nas potencialidades, habilidades, vontades e preferências do interdito (art. 755, CPC), estabelecer os limites da curatela, sempre com base na defesa de sua dignidade e direitos fundamentais. 3.2. Da pessoa do curador A despeito da legitimidade para a propositura da ação de curatela, a lei dispõe de rol de pessoas aos fins de nomeação do curador (art. 1.775, CC), cuja ordem não é obrigatória, uma vez que deve levar em conta sempre o melhor interesse do curatelado. • cônjuge ou companheiro, não separado judicialmente ou de fato; • pai ou a mãe, na falta de cônjuge ou companheiro; • descendente que se demonstrar mais apto, na falta dos demais ora indicados; • Na falta das pessoas indicadas, compete ao juiz a escolha do curador. o Enunciado n. 638, aprovado na VIII Jornada de Direito Civil, do ano de 2018: “a ordem de preferência de nomeação do curador do art. 1.775 do Código Civil deve ser observada quando atender ao melhor interesse do curatelado, considerando suas vontades e preferências, nos termos do art. 755, II, e § 1.º, do CPC”. Obs. Poderá o juiz estabelecer, com base no melhor interesse do curatelado, curatela compartilhada a mais de uma pessoa (art. 1.775-A, CC), como o caso da concessão de curatela aos pais em conjunto. ** Os efeitos da sentença de interdição são ex nunc, e os atos praticados pelo interdito, conforme a gradação de sua interdição, serão apenas anuláveis se comprovar, judicialmente, que sua incapacidade já existia no Wondershare PDFelement momento da realização do negócio. Levar-se-á em conta, todavia, a boa-fé daquele que firmou o negócio jurídico (eticidade e valorização da boa-fé). 3.3. Do levantamento da curatela Uma vez cessada a causa que determinou a curatela, caberá a qualquer interessado (interdito, curador ou pelo MP) promover o levantamento da curatela que ocorrerá após a realização de exame e de audiência de instrução e julgamento (art. 756, CPC). 4. Da Tomada de Decisão Apoiada O EPD dispõe da existência de pessoas que possuem algum tipo de deficiência (física, mental, intelectual ou sensorial), mas que podem exprimir vontade, afastando a teoria das incapacidades. ** Destina-se, portanto, para pessoas plenamente capazes (ou seja, que podem exprimir sua vontade), que se encontrem em situação de vulnerabilidade por conta de uma deficiência. • Nos termos do art. 1.783-A: o Será necessário processo judicial; o Em que a pessoa com deficiência deverá eleger pelo menos duas pessoas idôneas com as quais mantenha vínculos e que gozem de sua confiança; o Aos fins de prestar-lhe apoio na tomada de decisões sobre atos da vida civil, fornecendo-lhe informações necessárias ao exercício de sua capacidade. • Deverá ser apresentado termo em que constem (art. 1.783-A, §1º, CC): o os limites do apoio a ser oferecido; o o compromisso dos apoiadores; o o prazo de vigência do acordo; o e o respeito à vontade, aos direitos e aos interesses da pessoa que devam apoiar. • Será requerido pela pessoa a ser apoiada, com indicação expressa das pessoas aptas a prestarem o apoio (art. 1.783-A, §2º, CC); Wondershare PDFelement o Enunciado 639, da VIII Jornada de Direito Civil: “a opção pela tomada de decisão apoiada é de legitimidade exclusiva da pessoa com deficiência”. • Antes de se pronunciar sobre o pedido de tomada de decisão apoiada, o juiz, assistido por equipe multidisciplinar e após oitiva do Ministério Público, ouvirá pessoalmente o requerente e as pessoas que lhe prestarão apoio (art. 1.783-A, §3º, CC) • A decisão tomada por pessoa apoiada terá validade e efeitos sobre terceiros, sem restrições, desde que esteja inserida nos limites do apoio acordado (art. 1.783-A, §4º, CC) • Em caso de negócio jurídico que possa trazer risco ou prejuízo relevante a qualquer uma das partes, havendo divergência de opiniões entre a pessoa apoiada e um dos apoiadores, deverá o juiz, ouvido o Ministério Público, decidir sobre a questão (art. 1.783-A, §6º, CC) • A pessoa apoiada pode, a qualquer tempo, solicitar o término de acordo firmado em processo de tomada de decisão apoiada, inclusive para os fins de tomada de novas decisões, de acordo com a sua autonomia privada(art. 1.783-A, §9º, CC) Obs. Há a plena possibilidade de conversão da ação de curatela em tomada de decisão apoiada e vice-versa. Ambas são procedimentos de jurisdição voluntária e não estão adstritos à legalidade estrita, admitindo decisão por equidade. Logo, verificando o juiz que não se trata de caso de curatela (por poder exprimir vontade), converte-se o procedimento em tomada de decisão apoiada. 5. Esponsais 5.1. Noções introdutórias, conceito e natureza jurídica Etimologicamente, a expressão “esponsais” deriva do vocabulário latino sponsio, que significa promessa solene, e sponsalia, a sua realização, banquete de núpcias, que entre nós leva a denominação de noivado. Wondershare PDFelement User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation • Diante dessa visão semiológica, pode-se definir os esponsais como ato preparatório para o casamento (ou para a união estável) livremente convencionado pelos namorados ou pelos noivos, a ser realizado no futuro, com ou sem estipulação de prazo. Esta, todavia, quando descumprida por um dos promitentes, pode resultar ao outro desconforto pessoal ou prejuízo material e moral ressarcíveis pelo descumpridor da promessa. • A lei brasileira não contém dispositivo específico acerca do instituto; o Previsto apenas no Código de Direito Canônico de 1983, promulgado pelo Papa João Paulo II, com a expedição da Constituição Apostólica Sacrae Disciplinae Leges, de 25 de janeiro de 1983, cujo cânon 1.062 e seus parágrafos 1 e 2, têm a seguinte redação: Canon 1062 – § 1. A promessa de matrimônio, tanto unilateral como bilateral, denominada esponsais, rege-se pelo direito particular estabelecido pela Conferência dos Bispos, levando-se em conta os costumes e as leis civis, se as houver. § 2. Da promessa de matrimônio não cabe ação para exigir a celebração do matrimônio, mas cabe ação para reparação dos danos, se for devida • Possui sua natureza jurídica de contrato preliminar de direito de família, que recebe a tutela do direito das obrigações, quando, na sua execução resultar ilícito civil por descumprimento de um dos promitentes, em prejuízo do outro, aplicando-se as disposições dos arts. 186 e 927 do CC. 5.2. Do “ficar”; Do “namoro”, Do “namoro qualificado”; e do “Noivado” Estes institutos não são conceituados pela Lei, sendo seus requisitos formatados pelos costumes. • “Ficar” é conceituado como união passageira de cunho afetivo ou para fins sexuais; Wondershare PDFelement User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation o Manter com alguém convívio de algumas horas, sem compromisso de estabilidade ou fidelidade amorosa • “Namoro” é conceituado como união pública, duradoura e, em regra, com fidelidade recíproca. o E o namoro qualificado? ▪ É aquele em que as intenções do casal são projetadas para o futuro, no propósito de constituir uma entidade familiar. • “Noivado”, normalmente vindo de um namoro estável e prolongado, é conceituado como uma promessa de casamento realizada entre duas pessoas capazes, livres e desimpedidas o É importante a publicidade da condição de noivos, mas não demanda a estipulação de prazo para a realização do matrimônio. Obs. Cuidado com a proximidade dos conceitos com a união estável (união pública, contínua, duradoura e com o fim de constituição de família). No namoro qualificado/noivado, a família é futura, com intenção/objetivo projetado no futuro. Na união estável, a família é presente, já existe. A diferença está no “animus familiae”. Obs.2. E o contrato de namoro? Utilizado com o intuito de obstar a caracterização da União Estável, a celebração do contrato de namoro se difundiu e visa, precipuamente, “assegurar a ausência de comprometimento recíproco e a incomunicabilidade do patrimônio presente e futuro”. Em que pese ser autorizada sua celebração (já que a lei não exige forma prescrita e o objetivo não é ilícito), não conseguirão as partes impedir a eventual caracterização de uma união estável, cuja configuração decorre de elementos fáticos, e não de um negócio jurídico. 5.3. Do rompimento do noivado e seus efeitos Como ora referido, o conceito de esponsais se confunde com o de noivado, representando promessa de casamento futuro. Wondershare PDFelement User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation Entretanto, se algum dos nubentes, injustificadamente, resolve não se casar, tem-se o rompimento do noivado, acarretando, ao prejudicado, sentimento de dor, tristeza e revolta. 5.4. Efeitos • Em relação à própria realização do casamento, em que pese a promessa antes efetivada, não há falar em sua realização compulsória, porquanto presente a liberdade de escolha do consorte (manifestação do princípio da dignidade da pessoa humana); o Demais disso, o consentimento para o casamento deve ser dado no momento da celebração (art. 1.514, CC). • Em relação aos demais efeitos (morais e materiais), doutrina e jurisprudência compreendem pela possibilidade de indenização aos fins de reparação dos danos eventualmente ocorridos; o Art. 186, CC - Aquele que por ação ou omissão voluntária, imprudência ou imperícia, violar direito ou causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. 5.5. Requisitos para caracterização do dever de indenizar Para Maria Helena Diniz, são requisitos para a responsabilidade indenizatória: • A promessa livre de casamento firmada pelos noivos (e não só por seus pais); o Não se exige escritura pública ou documento particular, provando-se pelos meios usuais (confissão, testemunhas, e- mails, conversas, convite de casamento • A recusa de cumprir a promessa por parte de um dos noivos; o A ruptura deve ser clara, podendo ser expressa ou tácita. • A ausência de motivo justo; o Motivo justo seria o caso de vontade viciada, traição, existência de impedimentos legais etc. • A ocorrência de dano à outra parte. Wondershare PDFelement User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation User Annotation A responsabilidade civil decorrente da ruptura da promessa de casamento está subordinada à presença dos requisitos gerais para a configuração de qualquer ato ilícito (art. 186 do Código Civil), ou seja: a) fato lesivo voluntário, causado pelo agente, mediante ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência; b) ocorrência de um dano patrimonial ou moral; e c) nexo de causalidade entre o dano e o comportamento do agente. o Material; ▪ Resultado de gastos com os aprestos do casamento (vestido de noiva, festa das bodas, mobília do futuro lar etc.), demissão do emprego para casar-se, abandono dos estudos com a mesma finalidade, renúncia a uma herança ou a doação por pressão do noivo; ▪ Lucros cessantes – o prejudicado poderia destinar o seu dinheiro para outra finalidade, estava às vésperas de ser promovido, deixou de fazer uma prova de concurso que pouco abre. o Moral. ▪ É o resultado de todo o sofrimento impingido à pessoa abandonada, por exemplo, no altar. ✓ Há aqui, para além da tristeza e do desgosto, violação de direito fundamental, como a honra e a integridade psíquica. 5.6. Consequências • Devolução dos presentes de casamento aos doadores, porque se torna ineficaz a liberalidade feita em contemplação de casamento que não se realizou (art. 546, CC1). o Da mesma forma, os donativos trocados entre os noivos, assim como as lembranças, cartas e fotografias de cada qual devem retornar ao legítimo dono. 1 Art. 546. A doação feita em contemplação de casamento futuro com certa e determinada pessoa, quer pelos nubentesentre si, quer por terceiro a um deles, a ambos, ou aos filhos que, de futuro, houverem um do outro, não pode ser impugnada por falta de aceitação, e só ficará sem efeito se o casamento não se realizar. Wondershare PDFelement Obs. A perda do efeito deriva da doação condicional realizada, ou seja, a transferência efetiva do bem só se efetivaria com a celebração do casamento. • Ineficácia do pacto antenupcial, tendo em vista que sua eficácia é condicionada à realização do casamento (art. 1.653, CC) o Se não realizado por escritura pública, será nulo. 5.7. Julgados diversos APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. CASAMENTO MARCADO. ROMPIMENTO DE NOIVADO. PRAZO RAZOÁVEL PARA DESFAZIMENTO DOS COMPROMISSOS. AUSÊNCIA DE SITUAÇÃO VEXATÓRIA. ENLACE MATRIMONIAL. IMPRESCINDÍVEL MANIFESTAÇÃO DA LIVRE VONTADE. DANOS MORAIS NÃO INDENIZÁVEIS. RESSARCIMENTO DAS DESPESAS. CABIMENTO. AQUIESCÊNCIA E CONCORDÂNCIA TÁCITA DO REQUERIDO COM OS CONTRATOS FIRMADOS PELA REQUERENTE. APURAÇÃO DE VALORES. LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA. O noivado, embora simbolicamente implique um compromisso assumido pelos noivos de futuro enlace matrimonial, não pode significar a impossibilidade de rompimento desse compromisso por uma das partes, passível de ser considerado ato ilícito passível de indenização por danos morais, eis que nem mesmo o matrimônio, consagrado no civil e no religioso, onde as partes assumem, literalmente, obrigações uma com a outra, quando simplesmente desfeito gera tais danos. Todo compromisso amoroso, seja em que circunstância for, tem riscos de desfazimento, e as partes, ao assumirem tal compromisso também assumem os riscos, de modo que o fim do romance, do namoro, do noivado ou do casamento não pode ser imputado como ato ilícito da parte, a menos que o caso concreto demonstre situações singulares onde o causador do fim do relacionamento tenha, efetivamente, impingido à outra uma situação vexatória, humilhante e desabonadora de sua honra, o que, aqui, não ocorreu. Assim, em princípio, o só rompimento da relação não gera obrigação de indenizar por danos morais, debalde os danos materiais, obviamente, sejam devidos, mormente quando houve concordância do requerido em relação aos compromissos financeiros assumidos pela requerida para a realização do matrimônio. Com isso, a sentença deve ser parcialmente mantida em seu mérito, com a ressalva de que os valores devidos devam ser apurados em liquidação de sentença. (TJMG, AC nº 10145120268548001, Relator: Luciano Pinto, 17ª Câmara Cível, J. 21/02/2013). APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. ROMPIMENTO DE NOIVADO. NÃO COMPARECIMENTO DO NOIVO AO MATRIMÔNIO. DANO MORAL CONFIGURADO. AUSÊNCIA DE COMUNICAÇÃO PRÉVIA O QUE EVITARIA MAIORES CONSTRANGIMENTOS. DANOS MATERIAIS, COMPROVADOS. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA. SENTENÇA MANTIDA. NEGADO PROVIMENTO AO RECURSO. (Apelação Cível nº 0000813-45.2010.8.19.0075, 6ª Câmara Cível, Relator: Des. CLAUDIA PIRES DOS SANTOS FERREIRA, Julgamento em 19/10/2011) Wondershare PDFelement EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - INDENIZAÇÃO - RAZÕES COMPLEMENTARES - JUNTADA DE SUPOSTO DOCUMENTO NOVO - CONGRUÊNCIA - NÃO CONHECIMENTO - LITISPENDÊNCIA ENTRE PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO E PROCESSO CIVIL - IMPOSSIBILIDADE - PREJUDICIAL DE MÉRITO - COISA JULGADA FORMAL EM ÂMBITO CRIMINAL - IMPOSSIBILIDADE - AGRAVO RETIDO - NÃO ACOLHIDO - PRELIMINAR DE INOVAÇÃO RECURSAL - REJEITADA - RESPONSABILIDADE PELAS SUPOSTAS AGRESSÕES FÍSICAS - NÃO ACOLHIMENTO POR AUSÊNCIA DE PROVAS - ESPONSAIS - RUPTURA UNILATERAL LOGO APÓS A REALIZAÇÃO DA CERIMÔNIA RELIGIOSA COM EFEITOS CIVIS - NÃO APERFEIÇOAMENTO DO CASAMENTO CIVIL POR CULPA DO RÉU - FATO NOTÓRIO NO ÓRGÃO DE TRABALHO DAS PARTES - DANO MORAL CONFIGURADO - QUANTUM INDENIZATÓRIO - MANUTENÇÃO - DANO MATERIAL - MANTIDO COMO FIXADO - SENTENÇA MANTIDA (...) As provas trazidas aos autos, muito bem analisadas pela Juíza, atestam que a ruptura do relacionamento se deu em circunstâncias que causaram grandes dissabores e abalos psicológicos à autora, pois a cerimônia de casamento ocorreu com a presença de vários membros e servidores deste Tribunal, do qual é servidora e o réu magistrado, gerando repercussões desagradáveis no seu ambiente de trabalho. (...) Em que pese a falta de prova das agressões físicas, a conduta do réu nas vésperas do casamento ao negar a existência da amante, bem como deixar de formalizar o registro da certidão do casamento, são reprováveis, pois ciente de todos os preparativos, esperou acontecer a cerimônia religiosa para mostrar-se arrependido e provocar o perecimento do ato público e solene de casamento religioso com efeito civil" AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 664.171 - RJ (2015/0036714-1) DECISÃO Trata-se de agravo contra decisão que inadmitiu o recurso especial. O apelo extremo, com fundamento no art. 105, inciso III, alínea "a", da Constituição Federal, insurge-se contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro assim ementado: "Apelação cível. Responsabilidade civil. Direito de Família. Rompimento de esponsais. Noiva que pretende reparação de danos morais e materiais sofridos após descoberta de que o pretendente já era casado. Ruptura de esponsais que, em regra, não enseja reparação, salvo prova do nos autos que houve má-fé por parte de um dos nubentes. Responsabilidade civil objetiva. Abuso do direito, à inteligência do art. 187 do CC. Ao agente não é dado atuar de modo excessivo ou violador do direito alheio. Violação da cláusula geral de boa-fé objetiva. Tutela da confiança. Dever jurídico de manutenção de um comportamento ético e coerente. Réu que, sabendo que não poderia se casar, confessa ter iludido noiva por falta de coragem de lhe contar a verdade. Comportamento contraditório (venire contra factum proprium). Precedentes. Poder de agir de outro modo que justifica o dever de indenizar. Dano moral fundado na quebra de confiança advinda do comportamento antiético e incoerente do consorte. Verba indenizatória que deve ser mantida. Dano material consistente na repercussão patrimonial do desenlace. Despesas suportadas pela nubente que devem ser ressarcidas, à luz das provas dos autos. Com efeito, não trata a espécie de penalizar o noivo que rompeu os esponsais dentro dos limites da autonomia de sua vontade, mas são as circunstâncias envolvidas que ensejam a responsabilização do demandado, mormente quando provado nos Wondershare PDFelement autos que houve má-fé por parte de um dos nubentes, induzindo a erro o outro. Transpondo o instituto para a espécie destes autos, ao réu não era dado produzir na futura consorte uma expectativa tão concreta de realização pessoal a ponto de com ela se casar para, quando da descoberta da verdade, constatar-se a contradição com seu próprio comportamento (isto é, querer romper o noivado por já ser casado e não ter coragem de fazê-lo), em meio a repercussões de ordem patrimonial e extrapatrimonial sofridas pela noiva. Wondershare PDFelement