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AS TRÊS GERAÇÕES DE DIREITOS FUNDAMENTAIS a) 1ª geração de Direitos Fundamentais Diretamente relacionado ao processo de limitação do poder monárquico, com o consequente controle e organização do exercício do poder. A primeira geração de direitos fundamentais se caracteriza pela proteção das chamadas liberdades públicas, bem como aos direitos civis e políticos, pautados essencialmente na ideia de liberdade. Os direitos de primeira geração, desta forma, se relacionam a necessidade de proteger o indivíduo frente ao poder do Estado, obrigando uma postura passiva deste frente à liberdade individual. Artigo 5º, como os direitos à liberdade de ir e vir, ao devido processo legal, e à liberdade de expressão. b) 2ª geração de Direitos Fundamentais Trata-se de uma geração de direitos fundada na proteção dos chamados direitos sociais, culturais e econômicos. Seu surgimento em muito está relacionado à percepção de outras necessidades que a nova sociedade europeia começa a exigir, especialmente diante da crise de marginalização dos trabalhadores urbanos, bem como à ascensão de ideias políticos por maior igualdade. A segunda geração de direitos fundamentais, portanto, impõe uma nova perspectiva à noção de direito fundamental, pois este não se basta como uma exigência de atuação negativa do Estado (isto é, de contenção do Poder Público frente às liberdades individuais), mas depende também de uma atuação estatal positiva na busca de determinadas condições mínimas para a população. Primeiros exemplos de aplicação da 2º Geração de Direitos Fundamentais: Constituição Mexicana em 1917 e Constituição de Weimar em 1919 Alemanha. c) 3ª Geração de Direitos Fundamentais São caracterizados como verdadeiros direitos transindividuais, isto é, direitos que acometem a proteção da humanidade como um todo, não sendo possível determinar os beneficiados e protegidos especificamente. Também conhecidos como direitos difusos, envolvem a proteção de garantias como o direito ao meio ambiente, aos patrimônios culturais, e ao desenvolvimento. Instrumentos próprios para a proteção dos chamados direitos difusos, como a Ação Civil Pública (Lei 7.347/85), a Ação Popular (Lei 4.717/75), e a Ação de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/92). d) A discussão acerca de outras gerações de direitos fundamentais Norberto Bobbio, por exemplo, acusa o surgimento de uma quarta geração de direitos fundamentais voltada à proteção do patrimônio genético da humanidade, especialmente diante das discussões que têm sido colocadas pelo avanço da engenharia genético. Paulo Bonavides, por sua vez, aponta que o fenômeno da globalização culmina no surgimento de uma quarta geração de direitos fundamentais centrados na proteção da democracia, da informação e do pluralismo. Por fim, há autores que têm defendido que o direito à paz seja tratado autonomamente como um direito fundamental de quinta geração, deixando de estar englobado pelos direitos de terceira geração. Para estes autores, o direito à paz possui uma dimensão própria, com uma lógica universal distinta dos direitos difusos, e que assume especial centralidade no novo contexto trazido pela globalização. O CONCEITO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS Noções Gerais Do Conceito Conceito guarda forte relação com a ideia de direitos constitucionais nucleares na proteção da dignidade da pessoa humana, seja através da imposição de limites ao Estado, na exigência da prestação de serviços públicos, ou na garantia de direitos transindividuais e que envolvam toda a coletividade humana. Doutrina de Jellinek, é possível falar que os direitos fundamentais são aqueles que buscam: · garantir o direito de defesa, protegendo a liberdade dos indivíduos; · garantir a prestação de serviços públicos essenciais pelo Estado; · garantir o vínculo e a participação dos indivíduos na vida política do Estado; Características Dos Direitos Fundamentais Historicidade: os direitos fundamentais se constroem a partir da história, alterando-se de acordo com os distintos movimentos sociais e políticos; Universalidade: por se basear na proteção da dignidade humana, os direitos fundamentais abrangem universalmente todos os indivíduos. Limitabilidade: nenhum direito fundamental é absoluto, visto que devem ser aplicados mediante o caso concreto, havendo situações em que determinado direito fundamental se relativiza frente a outro. Concorrência: os direitos fundamentais não são necessariamente excludentes uns aos outros, devendo ser considerados como complexos normativos que incidem cumulativamente sobre a realidade. Inalienabilidade: os direitos fundamentais são indisponíveis, não podendo ser negociados ou alienados, tendo em vista não possuírem conteúdo econômico patrimonial, e serem aspectos nucleares da dignidade da pessoa humana. Imprescritibilidade: os direitos fundamentais não estão sujeitos à prescrição, isto é, não têm sua validade e eficácia condicionada ao tempo, sendo sempre válidos e aptos a produzir efeitos. A Dimensão Objetiva E Subjetiva Dos Direitos Fundamentais A dimensão subjetiva de um direito fundamental é, portanto, visualizada com o foco no sujeito de direito, que pode exigir o seu cumprimento (seja através de uma posição passiva ou ativa do Poder Público). A dimensão objetiva enfoca o direito fundamental enquanto parte do ordenamento jurídico, impondo limites e diretrizes de atuação do Estado, bem como servindo como importante parâmetro interpretativo do ordenamento jurídico como um todo. A Eficácia Horizontal Dos Direitos Fundamentais Os direitos fundamentais, na verdade, produzem efeitos nas mais distintas relações entre os indivíduos, de modo que também nas esferas privadas estes devem ser observados e garantidos. Há, assim, um dever geral de proteção dos direitos fundamentais, de modo que sua incidência se transporta automaticamente para todas as relações privadas, ainda que não tenha sido expressamente prevista contratualmente. Este é o expresso entendimento do STF, que passou a definir e aplicar este conceito e 2009, com o julgado do RE 201819/RJ, relatado pelo ministro Gilmar Mendes. “'Embora a sociedade tivesse, de fato, por seu órgão deliberativo, designado uma comissão especial para apurar as possíveis infrações estatutárias atribuídas ao autor, tal comissão, por mais ilibada que fosse, deixou de cumprir princípio constitucional, não ensejando ao apelado oportunidade de defender-se das acusações e de realizar possíveis provas em seu favor. (...) O tema versado nos presentes autos tem dado ensejo a uma relevante discussão doutrinária e jurisprudencial na Europa e nos Estados Unidos. Valho-me aqui de estudo por mim realizado constante da obra "Direitos Fundamentais e Controle de Constitucionalidade - Estudos de Direito Constitucional", sob o título "Eficácia dos direitos fundamentais nas relações privadas", desenvolvido com base em conferências proferidas no curso de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, em 20/10/1994, e no 5º Encontro Nacional de Direito Constitucional (Instituto Pimenta Bueno) - Tema: "Direitos Humanos Fundamentais", em 20/09/1996, USP/SP. (...) Não estou preocupado em discutir no atual momento qual a forma geral de aplicabilidade dos direitos fundamentais que a jurisprudência desta Corte professa para regular as relações entre particulares”. Diferença Entre Direitos Fundamentais E Direitos Humanos Os direitos humanos são uma construção da filosofia política, incorporada pelo direito internacional, para se referir a alguns direitos que existem independentemente de positivação, pelo simples fato de serem direitos inatos à natureza humana. Já os direitos fundamentais são direitos positivados nas cartas constitucionais do Estado, variando, portanto, de nação para nação. Embora pretendam à universalidade e à proteção da dignidade humana, são direitos constitucionalmente previstos, e que não podem ser considerados inatos à própria natureza humana, e nem se encontram previstos de maneira esparsas em cartas internacionais.Diferença Entre Direitos E Garantias Fundamentais Outra diferença relevante apontada pela doutrina é entre direito fundamental e garantia fundamental. As garantias são, na verdade, os instrumentos jurídicos existentes para assegurar o livre e integral exercício dos direitos fundamentais. A garantia fundamental, desta forma, é o modo pelo qual este direito se realiza. Ex. Mandado de Segurança, Mandado de Injunção, Habeas Corpus) DIREITOS FUNDAMENTAIS NO ORDENAMENTO JURÍDICO-CONSTITUCIONAL BRASILEIRO Os direitos fundamentais estão concentrados principalmente nos artigos 5º, 6º e 7º do texto constitucional brasileiro, destacando-se, respectivamente, como direitos individuais e coletivos. Contudo, embora haja esta concentração, não é correto afirmar que estes artigos esgotam os direitos fundamentais existentes no ordenamento jurídico brasileiro. Importante destacar o previsto expressamente pelo artigo 5º, inciso § 2º do texto constitucional: “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. Tal dispositivo tem fundamentado o que parte da doutrina vem denominando como direitos fundamentais implícitos, isto é, direitos fundamentais que, embora não previstos expressamente pelo texto constitucional, podem ser interpretados da própria sistemática constitucional. Trata-se do que tem sido denominado direito fundamento em seu conceito material, devendo receber a mesma proteção jurídica concedida aos demais direitos fundamentais. O STF igualmente tem decidido nessa linha, sufragando a noção de abertura do catálogo constitucional de direitos, como o fez no caso da regra da anualidade tributária, do direito de greve dos servidores públicos, do direito (dever) de proteção ambiental, entre outros” Tais discussões têm enorme relevância prática, tendo em vista que a caracterização de uma norma enquanto direito fundamental traz importantes efeitos. Para citar como exemplo uma forte discussão doutrinária existente, coloca-se em questão se a inimputabilidade penal dos menores de 18 anos de idade (artigo 228 do texto constitucional) seria um direito fundamental. Tal caracterização é relevante, tendo em vista que neste caso a redução da maioridade penal seria inconstitucional, ainda que feita por emenda constitucional, visto que esbarraria na cláusula pétrea de “direitos e garantias individuais” determinada no artigo 60 da Constituição. Art. 60, § 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma federativa de Estado; II - o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a separação dos Poderes; IV - os direitos e garantias individuais. DIREITOS FUNDAMENTAIS E TRATADOS INTERNACIONAIS Conjuntamente com este dispositivo constitucional, é imprescindível destacar o previsto no § 3º do mesmo artigo 5º: “§ 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. Importante a se destacar é a tese firmada pelo STF quando do julgamento do RE 466.343-SP, em 2008, que fixou a impossibilidade da prisão civil de depositário infiel, por conta da aplicação do Pacto de San José da Costa Rica. ESPÉCIES DE DIREITOS FUNDAMENTAIS NO TEXTO CONSTITUCIONAL DE 1988 a) direitos e deveres individuais: Trata-se predominantemente das liberdades individuais, materializando as proteção e garantias dos indivíduos em face do poder do Estado. Sua previsão está concentrada no artigo 5º do texto constitucional. b) direitos e deveres coletivos: São os direitos que se propagam na esfera coletiva, configurando-se principalmente enquanto direitos sociais. c) direitos de nacionalidade: São os direitos decorrentes da existência de um vínculo jurídico do indivíduo com o Estado brasileiro. O artigo 12 da Constituição é o principal dispositivo na regulamentação da nacionalidade, definindo os requisitos para a aquisição deste vínculo, bem como os direitos e obrigações que decorrem de sua existência. d) direitos políticos: São os direitos que envolvem a participação dos indivíduos no poder político do Estado. A regulamentação de tais questões encontra-se prevista principalmente nos artigos 14, 15 e 16 do texto constitucional. e) partidos políticos: O tema é tratado especialmente no artigo 17 da Constituição Federal, que baliza os direitos e obrigações dos partidos políticos, caracterizando-os como pessoas jurídicas de direito privado com autonomia para definir sua estrutura interna e realizar suas atividades políticas. APLICABILIDADE DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NO ORDENAMENTO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO O termo “aplicação imediata” refere-se, assim, à ideia de que os direitos fundamentais possuem todos os meios e elementos suficientes para sua incide sobre a realidade fática. classificação visa distinguir as normas constitucionais de acordo com a sua potencialidade em produzir efeitos imediatos. Para José Afonso da Silva, as normas constitucionais podem ser: (i) de eficácia plena: norma constitucional que não depende de qualquer outra condição para produzir efeitos, tal como, por exemplo, a norma que prevê o direito à livre associação para fins lícitos. (ii) de eficácia contida: norma constitucional que não depende de outra condição para produzir efeitos, mas que estes podem ser restringidos por leis de hierarquia infraconstitucional, tal como, por exemplo, a inviolabilidade do sigilo de comunicações telefônicas, que pode ser restringida “por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal” (CF, art. 5º, inciso XII). (iii) de eficácia limitada: norma constitucional cujos efeitos dependem da implementação de outra condição. Subdividem-se em: a) princípio institutivo: normas que dependem da regulamentação por lei ordinária para a produção de efeitos, tal como a previsão da Constituição Federal de que a União possui competência para instituir impostos sobre grandes fortunas (CF, art. 153, VII). b) norma programática: normas que dependem da atuação do Estado para efetivação, estando condicionada a fatores políticos, sociais e econômicos que possibilitem a sua produção de efeitos, tal como a garantia dos direitos sociais (como, por exemplo, a garantir ao direito de pleno emprego para todos). CONFLITOS DE DIREITOS FUNDAMENTAIS É nesse sentido que, ao caracterizar os direitos fundamentais, umas das qualidades colocadas é a sua limitabilidade. Isto porque os direitos fundamentais podem ser restritos em determinadas situações, especialmente em casos que envolvam conflitos com outros direitos também fundamentais. Como exemplo, pode-se citar o eventual conflito entre um direito fundamental à publicidade com o direito fundamental à privacidade. Se é de interesse nuclear para uma comunidade que haja transparência em relação às informações que envolvam a Administração Pública (como o vencimento dos funcionários públicos), há também a precaução de se proteger a intimidade eventualmente violada nessa situação. Razoabilidade E Proporcionalidade Dois destes parâmetros de grande importância no direito brasileiro são os conceitos de razoabilidade e proporcionalidade. Trata-se de conceitos que visam garantir a harmonização entre direitos fundamentais eventualmente colocados em conflito. Parte-se, assim, do pressuposto de que tais conflitos não geram a exclusão absoluta de um direito em detrimento do outro, mas que ambos podem ser ponderados a fim de se alcançar uma solução otimizante. A razoabilidade se refere à conformidade entre os meios e fins intentados na restrição de um direito fundamental. A proporcionalidade, por sua vez, é um conceito importado do direito alemão que parte da distinção entre regras e princípios. Regras E Princípios (i) Regras: normas que se aplicam por subsunção (se X, entãoY). São normas jurídicas que incidem automaticamente sobre a realidade fática quando verificada sua hipótese de incidência. A aplicação das regras, portanto, é automática à ocorrência da hipótese de incidência. (ii) Princípios: normas que se aplicam por ponderação (se X, então Y na maior possibilidade possível), sendo, na verdade, um mandado de otimização. Os princípios, portanto, não incidem integral e automaticamente quando verificada sua hipótese de incidência, mas devem ser aplicados na maior medida possível. A ocorrência de uma hipótese incidência para estas normas, portanto, apenas resulta num mandado de otimização para que elas incidam na maior medida possível. A Regra Da Proporcionalidade (i) Análise da adequação: verifica se a medida tomada realmente (restrição do direito fundamental X) é apta a atingir o seu fim (proteção do direito fundamental y). (ii) Análise da necessidade: verifica se não haveria outro meio menos danoso ao princípio direito fundamental X para que o direito fundamental Y pudesse ser protegido. (iii) Análise da proporcionalidade: verifica se a restrição do direito fundamental X em detrimento da promoção do direito fundamental Y é uma medida que otimiza os valores envolvidos em conflitos, isto é, se a restrição de um direito fundamental é proporcional e justifica a proteção do outro direito fundamental conflitante. DIREITOS FUNDAMENTAIS NO ORDENAMENTO JURÍDICOCONSTITUCIONAL BRASILEIRO: ASPECTOS ESPECÍFICOS DIREITO À VIDA (ARTIGO 5º, CAPUT) O direito à vida envolve o direito de permanecer vivo (salvo em caso de guerra declarada – situação em que a Constituição autoriza a instituição da pena de morte), bem como direito a possuir uma vida digna. Neste último caso, o direito à vida dialoga diretamente com outras proibições constitucionais, tais como a proibição ao tratamento indigno, à tortura, às penas de caráter perpétuo, bem como aos trabalhos forçados e cruéis. I. Células-tronco embrionárias: No caso, contudo, o STF entendeu que referidos embriões congelados não haviam ainda sido introduzidos no útero da mulher, de forma que não poderiam ser considerado vida, em seu sentido jurídico. Ademais, o caso envolvia a necessidade de proteção do direito à saúde e ao desenvolvimento científico. II. Aborto de feto anencéfalo Na ADPF 54, julgada em 2012, o STF votou para dar interpretação conforme aos artigos 124, 126 e 128, I e II do Código Penal, de modo que a interrupção de gravidez de fetos anencéfalos não seria considerado crime de aborto, não estando coberto pelo referido tipo penal. Isto porque, na visão majoritária do STF, não havendo qualquer expectativa de vida extra-uterina, não é possível que a interrupção de referida gravidez viola qualquer direito a vida. De modo contrário, assim afirmou o STF, a imposição estatal da manutenção deste tipo de gravidez representa verdadeira violação à dignidade, liberdade, saúde, privacidade e autodeterminação das mulheres grávidas. III. Eutanásia e ortotanásia Os dois temas não possuem definição pacífica na doutrina e na jurisprudência, sendo ambos objeto de muita discussão. A eutanásia é a abreviação da vida de doente incurável e em estágio terminal, visando diminuir sua dor e sofrimento. A ortotanásia, por sua vez, é o não prolongamento artificial da morte de quem já está em processo de morte, com o desligamento de aparelhos respiratórios por quem já teve morte cerebral, por exemplo. De maneira geral, a eutanásia ainda é colocada no direito brasileiro como prática de indução ao suicídio ou mesmo homicídio doloso. A ortotanásia, por sua vez, tem sido regulamentada por resoluções médicas, recebendo maior amparo legal. DIREITO À IGUALDADE (ART. 5.º, CAPUT, I) O direito fundamental à igualdade envolve, de maneira geral, dois aspectos: (i) igualdade formal: todos devem ser tratados de maneira isonômica frente à lei, não havendo qualquer diferenciação dos indivíduos por conta de suas características. (ii) igualdade material: todos devem ser tratados de modo que a igualdade seja efetiva implementada, considerando as desigualdades existentes entre os indivíduos. I. ADPF 186, julgada em 2012 Nesta ação, declarou-se constitucional a chamada Lei de Cotas, que estabelecia uma reserva de 20% das vagas em universidades públicas para estudantes negros e indígenas, desde que tenham cursado o ensino fundamental e médio em escola pública. II. ADPF 32, julgada em 2011 Pelo referido julgado, o STF reconheceu o direito dos casais homoafetivos de contraírem união estável, desde que cumpridos os requisitos definidos na legislação. A decisão se baseou justamente na ideia de igualdade, de modo que o conceito de união estável não poderia ficar restrito aos casais heteroafetivos, sob risco de injusta e injustificada discriminação dos casais que não se enquadravam neste padrão sexual. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE (ART. 5.º, II) O princípio da legalidade estabelece que o Poder Público apenas pode agir mediante o estabelecimento de lei, de forma que apenas esta pode obrigar o indivíduo a fazer ou deixar de fazer algo. Trata-se de uma importante limitação do poder do Estado, visando justamente proteger a esfera de autonomia dos indivíduos. DIREITO À LIBERDADE RELIGIOSA (ARTIGO 5º, VI) ADI 4439. Estabelece a liberdade de crença e consciência dos indivíduos, fixando a ideia de laicidade do Estado. A laicidade do Estado, importante pontuar, não significa que o Poder Público deva tomar uma posição de rejeição das religiões, mas de que toda e qualquer crença deve ser respeitada, sendo dever do Poder Público garantir que esta possa ser praticada. O laicismo, portanto, é a promoção efetiva da liberdade religiosa, garantindo as condições necessárias para que toda crença possa ser cultuada. Desta forma, é constitucional o ensino religioso confessional nas escolas públicas, desde que: sejam oferecidas oportunidades de ensino confessional para as mais distintas matrizes religiosas; o aluno não seja obrigado a participar das aulas de ensino religioso confessional. DIREITO AO DEVIDO PROCESSO LEGAL (ARTIGO 5º, INCISO LIV) O direito ao devido processo legal envolve uma série de garantias procedimentais que devem ser respeitadas para que um indivíduo sofra qualquer tipo de restrição em sua liberdade. Trata-se, assim, de um complexo normativo que busca garantir um adequado processamento de acusações que possam resultar em algum tipo de restrição de direito ao indivíduo. De forma geral, é possível citar como direitos integrantes do devido processo legal o direito: (i) à ampla defesa (direito de paridade de armas na defesa de acusações); (ii) ao contraditório (direito de se manifestar sobre toda questão processual relevante); (iii) ao juiz natural (direito de não ser julgado por um tribunal de exceção, mas pelo juiz competente conforme disposições legais previamente estipuladas); (iv) à presunção de inocência (direito de que ser considerado inocente de toda e qualquer acusação criminal até que esta seja cabalmente comprovada); (v) à vedação de provas ilícitas (direito de não ser condenado a partir de provas obtidas de maneira ilícitas, que deverão ser desentranhadas dos autos e completamente desconsideradas). Recentemente, o julgado do STF que mais teve impacto sobre a temática envolvendo estes direitos foi do HC 126292, julgado em 2016. Alterando a sua jurisprudência majoritária até então, a corte passou a admitir que réus condenados em segunda instância sejam presos, mesmo que ainda caibam recursos que possam reverter referida decisão. DIREITO À PRIVACIDADE (ART. 5º, X) O inciso X do artigo 5º da Constituição prevê expressamente que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. O direito à privacidade, portanto, é gênero que envolve outros quatros direitos fundamentais: direito à intimidade, direito à vida privada, direito à imagem e direito à honra, sendo assegurada a indenização pelo dano material ou moral decorrente de suaviolação. De maneira geral, é possível a quebra de sigilo: bancário; fiscal; dados telefônicos; de comunicações. De forma geral, a quebra de sigilo bancário, fiscal e dados telefônicos são menos gravosos, podendo ser determinadas independentemente de decisão judicial em algumas situações, como o é em caso de investigações instauradas por CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito). INVIOLABILIDADE DOMICILIAR (ARTIGO 5.º, XI) A Constituição Federal dispõe expressamente que a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém podendo nela penetrar sem o consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial. DIREITO À LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DE PENSAMENTO (ARTIGO 5.º, IV) A Constituição Federal assegura a liberdade de manifestação do pensamento, vedando apenas o anonimato. Trata-se de uma cláusula geral que dialoga diretamente com outras liberdades, como a liberdade de culto, liberdade artística, liberdade científica, etc. I. RE 511.961, julgado em 2009 Tal decisão julgou inconstitucional a exigência de diploma de graduação em jornalismo para o exercício desta profissão, sob justificativa de que se tratava de requisito indevido e restritivo da liberdade de manifestação, bem como à liberdade profissional. II. HC 82.424, julgado em 2003 Neste caso, o STF definiu como crime de racismo a escrita, edição, publicação e circulação de livros com suposta discriminação contra judeus. A referida obra possuiria ideias antissemitas, preconceituosas e discriminatórios, não encontrando respaldo na liberdade de expressão. III. ADPF 187, julgada em 2011 O STF definiu ser constitucional a realização da chamada “Marcha da Maconha”, movimento que ocorre anualmente pautando o pedindo de descriminalização do uso de maconha. No entender da corte, a constitucionalidade do movimento possui respaldo nos direitos fundamentais de livre manifestação do pensamento (art. 5.º, IV) e de reunião (art. 5.º, XVI). IV. ADPF 130, julgada em 2009 O STF entendeu que a chamada Lei de Imprensa (Lei n. 5.250/67) não foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988, tendo em vista a existência de diversas regulamentações excessivas, e aspectos que colocavam em risco à liberdade de imprensa, ofendendo basilares importantes de um regime democrático. V. ADI 4.815 Nesta ação, o STF entendeu por unanimidade que é livre a publicação de biografias não autorizadas, não havendo qualquer necessidade de que haja consentimento do biografado para que a obra possa ser editada e publicada. Eventuais danos devem ser tratados sede de responsabilidade civil após a sua comprovação, sendo completamente inconstitucional a censura prévia de algum livro. A corte afirmou referida decisão com base nos direitos fundamentais à liberdade de pensamento e de sua expressão, de criação artística, de produção científica, de liberdade de informação e de proibição de censura (artigos. 5.º, IV, V, IX, X e XIV; e 220 da Constituição Federal). LIBERDADE DE ASSOCIAÇÃO (ARTIGO 5.º, XVII, XVIII, XIX, XX E XXI) A liberdade de associação possui quatro significados distintos: (i) ninguém pode ser obrigado a se associar ou se manter associado. (ii) ninguém pode ser proibido de se associar ou se manter associado. (iii) o Poder Público não pode interferir na organização das associações, que devem ser estabelecidas nas formas da lei. (iv) O Poder Público não pode dissolver compulsoriamente uma associação, sendo que sua desconstituição apenas poderá ocorrer mediante decisão transitada em julgado, em hipótese de finalidade ilícita. DIREITO DE PETIÇÃO E OBTENÇÃO DE CERTIDÕES (ART. 5.º, XXXIV) A Constituição Federal também assegura a todo cidadão, sem a necessidade de pagamento de taxas, a possibilidade de: (i) peticionar no Poder Público em defesa de direito ou contra ilegalidade ou abuso de poder; (ii) obter certidões em repartições públicas para a defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal. DIREITO À INTEGRIDADE FÍSICA E MORAL DOS PRESOS (ARTIGO 5.º, XLIX) Trata-se do direito de que os presos sejam tratados devidamente em sua condição de humanidade, preservando a sua dignidade, e garantindo o acesso a todos os direitos fundamentais que o ordenamento jurídico assegura. I. RE 841.526-RS, julgado em 2016 Nesse sentido, destacável a decisão do STF no RE 841.526-RS, em que restou reconhecida a responsabilidade civil do Estado pelos danos ocasionados aos detentos que estão sob custódia de estabelecimento prisional estatal. III. Estado Inconstitucional de Coisas (ADPF 347, julgado liminarmente em 2015) Em 2015, o STF, numa importação conceitual inovadora do direito colombiano, declarou que o sistema carcerário brasileiro vive um estado de coisas inconstitucional. A decisão reconhecia que o sistema carcerário brasileiro violava vários direitos fundamentais, sendo esta uma expressa situação fática de inconstitucionalidade, e que demanda urgente e intensa atuação do Poder Público. DIREITO À SAÚDE E EDUCAÇÃO (ARTIGO 6.º, CAPUT) O direito à saúde e a educação são direitos sociais fundamentais expressamente previstos no texto constitucional. Por serem direitos sociais, conforme já se verificou, são normas constitucionais programáticas, dependendo de programas políticas para se efetivarem no plano fático. A efetivação destes direitos, desta forma, envolve complexas discussões acerca da possibilidade do Poder Judiciário exercer seu poder de tutela para garantir a materialização da saúde e da educação a todos, tendo em vista os limites colocados pela separação de poderes.