Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Avaliação Psicológica - Unidade I 
Avaliação psicológica: uma breve introdução 
Neste tópico, o estudante poderá conhecer um pouco mais sobre o surgimento 
e o conceito da avaliação psicológica. Para tanto, é importante ressaltar que 
os testes e os instrumentos psicológicos só podem ser utilizados pelos 
psicólogos que possuem inscrição no Conselho Regional de Psicologia – CRP. 
Assim sendo, os passos, as competências e os princípios éticos do 
psicólogo em relação à avaliação psicológica serão abordados com o propósito 
de esclarecer ao profissional sobre o exercício ético da profissão. 
Avaliação psicológica 
Entre as mais diversas áreas de atuação do psicólogo, destaca-se a avaliação 
psicológica como um conjunto de procedimentos aplicados ao indivíduo com o 
objetivo de colher informações. Lins e Borsa (2017) destacam a importância do 
profissional para se atentar ao cuidado dos instrumentos utilizados, uma vez 
que o uso de apenas um teste ou procedimento pode propiciar a construção 
de inferências descontextualizadas em relação ao indivíduo. Assim, não se quer 
dizer que a avaliação psicológica consiste em simplesmente corrigir os testes 
psicológicos. Pelo contrário, é necessário salientar que os testes psicológicos 
são “agregados ao processo de avaliação psicológica para se obter informações 
sobre o psiquismo do indivíduo” (LINS; BORSA, 2017, p. 12 apud ANACHE, 
2011). 
Para tanto, vamos ressaltar um importante instrumento construído 
pelo Conselho Federal de Psicologia – CFP – juntamente com os conselhos 
regionais para informar aos psicólogos sobre a prática de regularização da 
avaliação psicológica com os seus devidos preceitos éticos. Assim sendo, o 
Conselho Federal de Psicologia define a avaliação psicológica como: 
um processo técnico e científico realizado com pessoas ou grupos 
de pessoas que, de acordo com cada área de conhecimento, 
requer metodologias específicas. Ela é dinâmica e constitui-se em 
fonte de informações de caráter explicativo sobre os fenômenos 
psicológicos, com a finalidade de subsidiar os trabalhos nos 
diferentes campos de atuação do psicólogo, dentre eles, saúde, 
educação, trabalho e outros setores em que ela se fizer necessária. 
Trata-se de um estudo que requer um planejamento prévio e 
cuidadoso, de acordo com a demanda e os fins para os quais a 
avaliação se destina. 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2013 
Um processo técnico e científico realizado com pessoas ou grupos de pessoas 
que, de acordo com cada área de conhecimento, requer metodologias 
específicas. Ela é dinâmica e constitui-se em fonte de informações de caráter 
explicativo sobre os fenômenos psicológicos, com a finalidade de subsidiar os 
trabalhos nos diferentes campos de atuação do psicólogo, dentre eles, saúde, 
educação, trabalho e outros setores em que ela se fizer necessária. Trata-se de 
um estudo que requer um planejamento prévio e cuidadoso, de acordo com a 
demanda e os fins para os quais a avaliação se destina. 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2013 
De maneira resumida, destaca-se uma breve contextualização histórica do 
surgimento dos testes e da avaliação psicológica. Lins e Borsa (2017) 
ressaltaram que esses procedimentos surgiram nas primeiras décadas do século 
XX, na França. Os pesquisadores Alfred Binet e Theodore Simon divulgaram a 
versão originária da Escala Binet-Simon de Inteligência, um recurso para 
verificar o “retardo mental”, um nome adotado na época. Durante a I Guerra 
Mundial, utilizou-se a testagem psicológica para escolher os soldados mais aptos 
para o combate (LINS; BORSA, 2017). Já, após a II Guerra Mundial, alguns 
testes psicológicos foram confeccionados para avaliar os traços de 
personalidade, o desempenho do indivíduo no mercado de trabalho, o caráter, 
dentre outros (LINS; BORSA, 2017). Sendo assim, os estudos sobre a avaliação 
psicológica foram se desenvolvendo ao longo dos anos até os dias atuais. 
Passos para a avaliação psicológica, competências e princípios éticos do 
psicólogo 
Com base na Cartilha sobre Avaliação Psicológica (2013), elaborada 
pelo Conselho Federal de Psicologia, alguns passos serão salientados para 
que o profissional se atente ao realizar a avaliação psicológica de um indivíduo. 
Para tanto, é necessário que o psicólogo descreva quais são os propósitos da 
avaliação psicológica, colhendo informações sobre o indivíduo ou o grupo dos 
quais serão analisados. Além disso, as coletas de dados devem ser realizadas 
através dos instrumentos psicológicos como, por exemplo, entrevistas 
individuais ou em grupos, dinâmicas, bem como observações através da escuta 
qualificada do profissional. Após o levantamento das informações, é preciso 
agregar os dados coletados com a finalidade de indicar uma resposta, 
respaldada através dos princípios éticos do código. 
Para além dos passos seguidos pelo profissional, o psicólogo deve desenvolver 
algumas competências, conforme exposto na Cartilha sobre Avaliação 
Psicológica (2013). Tais competências se referem ao reconhecimento do 
“caráter processual da avaliação psicológica”, além de dominar as normas da 
avaliação psicológica no Brasil. Não se pode esquecer que é necessário buscar 
capacitações ou qualificações para aplicar e analisar os instrumentos 
psicológicos com o intuito de identificar a capacidade de “inteligência”, 
“memória”, “atenção”, “emoção”, entre outros (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2013, p. 15). 
Nessa perspectiva, obter os conhecimentos necessários na área 
da psicopatologia é de fundamental importância para identificar o 
desenvolvimento do indivíduo. A “validade, precisão e normas dos testes” são 
outros aspectos necessários que o psicólogo deve se atentar para utilizar a 
avaliação psicológica. Sendo assim, buscar informações 
sobre aplicação, levantamento e interpretação dos instrumentos da avaliação 
psicológica é de fundamental importância para indicar 
um diagnóstico de tratamento e acompanhamento para o paciente. Por fim, 
ressalta-se que o profissional saiba “elaborar documentos psicológicos” e 
“comunicar os resultados advindos da avaliação” (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2013, p. 15). 
 
Em relação aos princípios éticos básicos, é importante salientar que o 
psicólogo deverá desenvolver a avaliação psicológica de maneira responsável, 
isto é, os testes e os instrumentos utilizados durante o processo devem possuir 
a parecer favorável do Conselho Federal de Psicologia e o profissional deve ser 
qualificado para esta atividade. Além disso, é necessário possuir um ambiente 
favorável para a aplicação dos instrumentos psicológicos, resguardando o sigilo 
profissional sem interferências de quaisquer outras pessoas. Os registros das 
informações coletadas do indivíduo devem ser arquivados em locais seguros 
para que nenhum outro indivíduo tenha acesso. Entretanto, os laudos ou 
pareceres psicológicos devem ser endereçados apenas àqueles que necessitem 
da informação. Não se esqueça de que o profissional da área de psicologia não 
deve em hipótese nenhuma capacitar profissionais de outras áreas, 
caracterizando a violação do código de ética (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2013, p. 16-17). 
FIQUE DE OLHO: 
Segundo o Conselho Federal de Psicologia, “a avaliação psicológica é um 
processo amplo que envolve a integração de informações provenientes de 
diversas fontes, dentre elas, testes, entrevistas, observações, análise de 
documentos. A testagem psicológica, portanto, pode ser considerada uma etapa 
da avaliação psicológica, que implica a utilização de teste(s) psicológico (s) de 
diferentes tipos” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2013, p. 8-9). 
Avaliação psicológica em diversos contextos da atuação do psicólogo 
Este tópico apresentará o processo de avaliação psicológica no contexto da 
psicologia clínica, da psicologia organizacional e do trabalho, do trânsito e 
hospitalar, a partir de alguns exemplos da vida cotidiana.Psicologia clínica 
Tomando como pressuposto os escritos propostos por Baptista, Filho e Borges 
(2017), a avaliação psicológica no contexto da psicologia clínica passou a ser 
utilizada com maior frequência no Brasil a partir dos anos 1990. Isso se deu, 
principalmente, pela possibilidade de o profissional colher determinadas 
informações que poderiam subsidiar intervenções terapêuticas no sentido de 
proporcionar maiores benefícios aos pacientes ou clientes. Porém, é importante 
destacar que o psicólogo deve dominar as técnicas com qualidade para utilizar 
esses instrumentos. Para a clínica, a psicometria (métodos quantitativos em 
psicologia), o rapport (capacidade de estabelecer empatia com o indivíduo) e a 
destreza de formular hipóteses diagnósticas são fundamentais para que o 
psicólogo possa desenvolver esse processo com qualidade (BAPTISTA; FILHO; 
BORGES, 2017). Assim, os autores ressaltam que “a psicologia clínica é uma 
área da psicologia que tem como objetivo a prevenção, o diagnóstico e o 
tratamento do comportamento psicopatológico” (BAPTISTA; FILHO; BORGES, 
2017, p. 384). 
Diante dessa breve contextualização, pode-se dizer que a avaliação psicológica 
deve seguir cinco passos fundamentais: o primeiro se refere à observação 
sistematizada, logo, a anamnese (histórico dos sintomas do 
paciente), entrevistas (estruturadas, semiestruturadas ou abertas), aplicação 
de métodos projetivos (testes psicológicos) e, por último, a testagem 
psicométrica (avaliação da personalidade e capacidade do indivíduo). 
Para o melhor entendimento do estudante, cita-se como exemplo um paciente 
ou cliente que entra em contato com o psicólogo para tratar sintomas relativos à 
depressão e à ansiedade. Ao receber o indivíduo no consultório, o profissional 
se atenta para as vestimentas, a comunicação verbal e não verbal, estilos de 
vida do paciente, obtendo algumas informações que devem ser anotadas. Além 
disso, ele passa a investigar quando surgiram os primeiros sintomas da 
depressão e da ansiedade, em qual contexto e como o paciente lidou com a 
situação naquele momento. 
No decorrer das sessões, o psicólogo passa a realizar entrevistas (estruturadas, 
semiestruturadas ou abertas) com o propósito de conhecer o contexto familiar, 
social e a história de vida do indivíduo. De acordo com o relato do paciente, o 
psicólogo pode optar ou não por aplicar testes que poderão subsidiar a 
capacidade afetiva, cognitiva e comportamental do paciente. Por fim, é 
elaborado um projeto terapêutico através das sessões psicoterápicas para que 
o paciente trate dos seus sintomas e possa construir estratégias para lidar com 
a depressão e a ansiedade. Cabe ressaltar que, nesse caso, o paciente também 
deverá fazer um acompanhamento psiquiátrico como um paliativo para que 
possa ajudá-lo a tratar dos seus sintomas. Porém, ressalta-se que o uso de 
medicamentos sem o acompanhamento psiquiátrico e com o uso prolongado 
pode afetar a capacidade cognitiva, motora e a memória. 
Resumindo, os principais tópicos abordados nas entrevistas psicológicas 
consistem em obter informações sobre a “descrição do problema”, a “situação 
atual de vida”, a “história de vida do paciente”, as “experiências traumáticas”, o 
“histórico médico, psicológico e psiquiátrico”, o “status psicológico atual”, o “grau 
de abertura do cliente diante do processo terapêutico”, as “metas que possui no 
processo terapêutico” e as “preocupações do cliente” (BAPTISTA; FILHO; 
BORGES, 2017, p. 385). Aqui, vale destacar que as entrevistas realizadas de 
maneira aberta possuem uma maior possibilidade de construir um vínculo 
terapêutico, distintamente das entrevistas estruturadas – perguntas preparadas 
antecipadamente – ou semiestruturadas – perguntas elaboradas para atingir um 
objetivo (BAPTISTA; FILHO; BORGES, 2017). 
 
Os instrumentos podem ser utilizados para elucidar questões 
referentes ao funcionamento mental atual e comparar o seu 
funcionamento com outra pessoa da mesma idade, buscando 
assim, conhecer os aspectos cognitivos e emocionais do 
cliente/paciente (COHEN, 2012), e a partir daí estabelecer um 
plano de intervenção e/ou encaminhamento. O agrupamento de 
testes que serão administrados na avaliação é chamado de bateria 
de testes ou protocolo de testes. Dessa forma, muitos psicólogos 
clínicos possuem uma bateria padrão de testes psicológicos, ou 
seja, um grupo de testes que geralmente avaliam a inteligência, um 
ou dois que avaliam a personalidade e de acordo com a queixa 
buscarão compor a bateria com testes que avaliem construtos que 
investiguem melhor a queixa. A escolha por um teste psicométrico 
e/ou projetivo deve estar pautada na experiência e conhecimento 
do material. BAPTISTA; FILHO; BORGES, 2017, p. 387-388 
Para além do exposto, o psicólogo pode realizar entrevistas com familiares, 
amigos, investigar documentos ou prontuários com o consentimento do paciente 
para colher as informações necessárias sobre o indivíduo. Diante dos processos 
de avaliação psicológica, caberá ao psicólogo clínico realizar um relatório ou 
parecer psicológico e fazer uma devolução, preservando os princípios éticos, 
através da sua boa comunicação com o paciente. 
Psicologia organizacional e do trabalho 
A psicologia organizacional e do trabalho teve origem nos laboratórios de 
psicologia experimental de Wilhelm Wundt, em 1879, um psicólogo alemão, que 
dedicou seus estudos para compreender e analisar o comportamento 
humano. Pereira (2017, p. 317) salienta que Wundt “estudou os problemas 
humanos no trabalho, criando uma disciplina que pode ser identificada como 
organizadora dos fundamentos básicos da psicotécnica, principal método de 
trabalho da psicologia industrial”. 
A partir dos anos 1980 e 1990, as empresas brasileiras passaram a incorporar 
os profissionais da psicologia na área conhecida como Recursos Humanos, 
buscando construir uma visão multidisciplinar (PEREIRA, 2017). Assim sendo, 
a inserção no mercado de trabalho será um exemplo utilizado para que o 
estudante possa compreender o processo de avaliação psicológica no 
contexto organizacional e do trabalho, visto que é necessário recrutar um 
indivíduo que possui o perfil desejado pela empresa para assumir um 
determinado cargo. 
Atualmente, as pessoas buscam oportunidades de trabalho através dos sites 
destinados a ofertar vagas, cadastrando as experiências profissionais, as 
competências e as habilidades pessoais. Através do currículo, o psicólogo 
convoca o candidato para uma entrevista preliminar, selecionando àqueles que 
possuem o perfil para as próximas etapas. Aqui, cabe ressaltar que cada 
empresa planeja o recrutamento e a seleção de acordo com as avaliações que 
julgam necessárias. Logo após uma entrevista preliminar, o candidato passa por 
dinâmicas de grupo, realiza testes psicológicos, dentre outros processos 
designados de avaliação psicológica no contexto organizacional. Por fim, uma 
determinada pessoa que possui o perfil da vaga enunciada assume o cargo. 
Porém, a avaliação psicológica pode ser utilizada em diversos âmbitos 
no contexto organizacional e do trabalho. A exemplo disso, pode-se ressaltar 
as avaliações institucionais realizadas pelas empresas para mensurar o nível de 
satisfação dos clientes com o atendimento realizado, a avaliação de 
desempenho e para a escolha de profissionais que serão treinados e 
desenvolvidos pela empresa. 
Trânsito 
A Carteira Nacional de Habilitação – CNH – é um dos maiores anseios dos 
jovens ao completarem 18 anos. Porém, o processo não é tão simples. 
Atualmente, além do investimento financeiro é preciso que o indivíduo perpasse 
por diferentes processos e avaliações para obter êxito na retirada do documento. 
Assim sendo, o primeiro passo consiste na avaliação 
médica e psicológica com o propósito de identificar se o indivíduo possui 
condições biológicas, físicas e subjetivas para circular motorizadopelas ruas 
das cidades ou das grandes metrópoles. Hoje, a avaliação 
psicotécnica passou a ser concebida por avaliação psicológica 
pericial. Assim sendo, a psicologia do trânsito é definida: 
“como um estudo do comportamento humano nesse contexto, 
sendo objetivo da avaliação psicológica pericial aprofundar o 
conhecimento de aspectos comportamentais, perceptivos, 
cognitivos e de tempo de reação dos motoristas e futuros 
motoristas, visando, dessa forma, à diminuição dos índices de 
acidentes de trânsito” 
RUEDA; MOGNON, 2017, p. 411 apud ROZESTRATEN, 1981; RUEDA e 
LAMOUNIER, 2005 
A partir do texto “Avaliação psicológica no contexto do trânsito”, alguns aspectos 
importantes serão abordados para a formação do psicólogo. O primeiro deles se 
refere à promulgação do primeiro Código Nacional de Trânsito – Decreto-Lei 
nº 3.651 de 25 de setembro de 1941 – definindo o exame médico e o psicológico 
(RUEDA; MOGNON, 2017). No ano de 1953, o exame psicotécnico tornou-se 
uma obrigatoriedade para retirar a Carteira Nacional de Habilitação por 
determinação do CONTRAN (Conselho Nacional de Trânsito) com o propósito 
de identificar os aspectos relacionados à personalidade e à atenção do cidadão. 
Contudo, Rueda e Mognon (2017, p. 412) ressaltam que somente em 1998 é 
que a avaliação psicológica passou a envolver a “área percepto-reacional, 
motora e nível mental, equilíbrio físico e habilidades específicas 
complementares”. Daí, a mudança do termo psicotécnico para avaliação 
psicológica pericial. Em 2012, a Resolução nº 425 do CONTRAN, juntamente 
com a Resolução 007/2009 do Conselho Federal de Psicologia, instituíram a 
avaliação psicológica no contexto da psicologia do trânsito através de 
“entrevistas individuais, testes psicológicos, dinâmicas de grupo, escuta e 
intervenções verbais” (RUEDA; MOGNON, 2017, p. 413). 
 
Hospitalar 
A avaliação psicológica no contexto hospitalar segue, basicamente, os 
processos de entrevista e testagem psicológica. Porém, cabe aqui ressaltar 
que cada contexto possui a sua peculiaridade e o psicólogo deve ser capacitado 
para desenvolver essa tarefa com primazia. Para tanto, é preciso uma gama de 
estudos e experiências profissionais para atuar nessa área. 
Desde o reconhecimento da psicologia enquanto profissão, em 1962, os 
psicólogos já atuavam na área sem muito reconhecimento. Entretanto, a partir 
da década de 1990, a psicologia hospitalar passou a trabalhar questões 
relativas à integralidade da saúde, concebendo o paciente nas suas 
dimensões biológicas, psíquicas e sociais, isto é, através de um 
modelo biopsicossocial, além de contar com uma 
equipe multiprofissional (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, 
fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, entre 
outros). Schmidt, Bolze e Crepaldi argumentam que “nessas instituições, a 
principal (mas não única) tarefa do profissional é avaliar e acompanhar 
intercorrências psíquicas dos usuários envolvidos em procedimentos médicos, 
com vistas à promoção e à recuperação à saúde” (2017, p. 462). 
Assim sendo, o psicólogo no contexto hospitalar possui a sua atuação através 
de atendimento psicoterápico individual ou em grupo com vistas à promoção à 
saúde. Para o melhor entendimento do estudante, a cirurgia bariátrica será 
utilizada como um exemplo para ilustrar a atuação da equipe multidisciplinar, 
abordando os aspectos biopsicossociais e a promoção à saúde. Assim sendo, a 
coleta de dados através das entrevistas, observações, testes 
psicológicos e dinâmicas de grupo são os procedimentos usados para 
a avaliação psicológica no contexto hospitalar. Dessa forma, a equipe possui 
os subsídios necessários para a formulação do diagnóstico, os 
encaminhamentos para os profissionais responsáveis e a construção de 
intervenções terapêuticas (SCHMIDT; BOLZE; CREPALDI, 2017). Como se 
sabe, o indivíduo que se submete a uma cirurgia bariátrica possui uma perda de 
peso considerável, fato que acarreta em mudanças físicas e psicológicas. Para 
tanto, é necessário avaliar: 
“(I) história de vida do candidato, com análise de características 
cognitivas e de personalidade, eventos estressores ao longo da 
trajetória desenvolvimental, padrões comportamentais, hábitos de 
saúde, questões acadêmico-laborais, relacionamentos 
interpessoais, suporte social, estrutura e dinâmica familiar; (II) 
investigação sobre aspectos concernentes à obesidade, incluindo 
tentativas prévias de redução de peso, comorbidades, casos de 
sobrepeso/obesidade na família, comportamento alimentar e 
significados atribuídos à ingestão de alimentos, imagem corporal e 
autoestima, fantasias relacionadas ao emagrecimento, 
expectativas quanto ao procedimento cirúrgico e às transformações 
em diferentes dimensões da vida no pós-operatório, afora 
possibilidades de manter longitudinalmente modificações nos 
padrões alimentares e de prática de atividades físicas; (III) 
sintomas psicopatológicos graves ou fatores de risco associados a 
transtornos mentais, tais quais ansiedade, depressão, abuso de 
substâncias, além de distúrbios alimentares, como bulimia, 
anorexia e compulsão “ 
(SCHMIDT; BOLZE; CREPALDI, 2017, p. 465 apud Conselho Regional de 
Psicologia do Paraná CRP/PR, s.d.; Flores, 2014; Lucena et al., 2012). 
Sendo assim, é importante que o psicólogo saiba discutir os casos para construir 
tratamentos a partir de uma perspectiva particular para seus pacientes, contando 
com a equipe multiprofissional, além de dominar os testes psicológicos que 
deverão ser aplicados a cada indivíduo, avaliando se ele possui condições para 
realizar uma cirurgia e se adaptar às transformações físicas e emocionais 
(SCHMIDT; BOLZE; CREPALDI, 2017). 
Observação e entrevista psicológica 
Nesse tópico, a observação que deve ser realizada pelo psicólogo e as 
entrevistas serão descritas para que o estudante possa compreender melhor as 
nuances de ambos os processos no contexto da avaliação psicológica. 
Observação realizada pelo psicólogo 
Ao caminharmos pelas ruas das cidades, frequentar estabelecimentos 
comerciais ou visitar familiares, observamos uma série de funcionamentos 
peculiares da própria metrópole, do local ou do contexto familiar. Não obstante, 
também, é possível observar vestimentas, gestos, comportamentos e 
expressões das pessoas que nos fornecem informações se aquele indivíduo 
pode ser de confiança, honesto, entre outras características. 
Partindo do estudo realizado por Nunes, Lourenço e Teixeira (2017) sobre 
avaliação psicológica, os autores ressaltam quatro dimensões do processo de 
observação feita pelo psicólogo. O primeiro deles se refere à possibilidade 
de testar uma teoria, isto é, observa-se como o indivíduo se comporta em 
situações distintas. O segundo está relacionado com a observação 
experimental ou naturalista, ou seja, a observação de uma situação em que o 
observador pode controlar, denominados de grupos de controle. Como 
exemplo de grupos de controle, pode-se ressaltar aqueles indivíduos que são 
medicados e outros que recebem o placebo. Assim, é possível observar quais 
os efeitos do medicamento nos indivíduos que pertencem a grupos distintos. 
A terceira dimensão elencada pelos autores em relação à observação é 
conhecida por estruturada e não estruturada. Para o exercício do psicólogo, 
a observação estruturada deve conter uma lista de tópicos dos quais se deve 
atentar para colher informações do paciente. A não estruturada parte do 
princípio de que o psicólogo marcará o primeiro encontro e observará o 
comportamento do indivíduo a partir do qual ele se apresenta. Por fim, destaca-
se a observação participante, que pressupõe uma relação entre o observador 
e o observado em que o psicólogo pode angariar percepções de como a criança 
se relaciona com o outro, por exemplo. Além disso, ressalta-se a observação 
não participante, em que o psicólogo pode observar o comportamentode uma 
criança no recreio para colher dados para a avaliação psicológica (NUNES; 
LOURENÇO; TEIXEIRA, 2017). 
No entanto, cabe ressaltar que nem todas essas dimensões são passíveis da 
atuação do profissional, uma vez que a quebra do vínculo ou confiança pode 
ocorrer a partir da invasão da privacidade da criança ou até mesmo do adulto. 
Nesse sentido, cabe ao psicólogo se atentar para o exercício ético da profissão 
e estudar qual a observação que mais se adéqua ao caso. 
 
Entrevista psicológica 
A entrevista psicológica, além de fornecer dados suficientes para as 
indagações realizadas pelo psicólogo, pode oferecer subsídios para a 
observação 
dos pensamentos, sentimentos, emoções, comportamentos, intenções e c
omunicação não verbal do paciente ou candidato. Nesse sentido, acredita-se 
que a observação pode ser realizada juntamente com a entrevista com o 
propósito de não apossar de determinados espaços frequentados pelo indivíduo. 
A observação nos mais diversos contextos pode significar uma invasão da 
intimidade da pessoa. Um primeiro aspecto importante de ressaltar é que a 
entrevista estruturada é baseada em um roteiro fechado, como no caso 
da anamnese, em que as perguntas são direcionadas para que o paciente 
responda de forma clara e precisa. Por outro lado, o psicólogo pode construir um 
roteiro de entrevista semiestruturada. Isto quer dizer que se tem um roteiro de 
perguntas que podem ser flexibilizadas a partir do relato do candidato ou 
paciente, além de poder modificar a ordem das questões (NUNES; LOURENÇO; 
TEIXEIRA, 2017). 
Para tanto, é necessário o domínio dessas questões por parte do psicólogo e a 
clareza do objetivo a ser alcançado com esse instrumento. Nesse sentido, é 
importante investigar as crenças, opiniões, intenções, comportamentos 
passados e atuais, sem induzir qualquer tipo de resposta. Além do mais, a 
condução da entrevista deve ser realizada de maneira acolhedora. Se, em 
alguns momentos, for preciso utilizar o gravador, é necessário o consentimento 
prévio do entrevistado com a assinatura de um documento. 
Para saber mais sobre entrevista psicológica, sugere-se a leitura do artigo 
“Instrumentos de avaliação psicológica: uso e parecer dos psicólogos” escrito 
por Sandra Padilha, Ana Paula Porto Noronha e Clarissa Zanchet Fagan. Os 
dados completos da referência e para acesso, você encontra nas referências 
bibliográficas no final desta disciplina. 
Testes psicológicos e outros instrumentos de avaliação psicológica 
Este tópico apresentará os testes psicológicos mais utilizados pelos 
estudantes e profissionais de psicologia e ressaltará a importância 
dos jogos e desenhos como instrumentos necessários para a avaliação 
psicológica infantil. 
Testes psicológicos 
Apresentar os testes psicológicos no contexto da avaliação psicológica não é 
uma tarefa fácil, principalmente, pelo fato de que esses instrumentos 
são caros para a aquisição de psicólogos recém-formados e, em segundo, 
existe pouco investimento nessa área de pesquisa no Brasil. 
Consequentemente, os psicólogos passam a ter conhecimento de um número 
ínfimo de testes psicológicos e a capacitação para o uso de tais instrumentos 
nem sempre abrange o público de maneira satisfatória. 
Os estudos de Noronha et al (2005, p. 392) apontam que os seguintes testes 
psicológicos são os mais conhecidos pelos estudantes de psicologia, porém eles 
nem sempre se sentem qualificados o suficiente para utilizá-los: 
Rorschach 
É um teste projetivo que consiste em 
apresentar ao indivíduo dez figuras, ilustrando 
manchas de tinta. A partir das percepções, é 
possível descrever as suas características de 
personalidade 
Desenho da figura 
humana 
 
É um teste projetivo e consiste em solicitar à 
criança ou adolescente o desenho de uma 
figura humana. A partir da sua ilustração, é 
possível identificar algumas características 
da personalidade. 
Wartegg 
 
É um teste projetivo e consiste em solicitar ao 
candidato a continuação dos traços através de 
desenhos. A partir do ilustrado, é possível 
identificar características da personalidade, 
assim como a relação que 
estabelece consigo mesmo e com os outros. 
Bender infantil 
 
É um teste utilizado para avaliar o 
funcionamento visomotor (coordenação entre 
olho e mão), objetivando identificar alguns 
danos cerebrais e o grau de maturação do 
sistema nervoso. 
Escala de Inteligência 
Wesch Crianças (WISC) 
É um teste utilizado para avaliar a capacidade 
intelectual e o processo de resolução de 
problemas pelas crianças. 
Teste de Apercepção 
Temática (TAT) 
 
É um teste projetivo e consiste em apresentar 
figuras ao indivíduo para que ele relate 
histórias. Assim, é possível identificar algumas 
características da personalidade. 
Teste de Inteligência Não 
Verbal G36 
 
É um teste utilizado pelas organizações ou 
empresas para recrutar candidatos a vagas. 
Ele possibilita identificar 
 
Aqui, é importante ressaltar que os testes utilizados para avaliação psicológica 
devem seguir os critérios psicométricos regulamentados pelo Sistema de 
Avaliação de Testes Psicológicos – SATEPSI. O uso de testes considerados 
como desfavoráveis pela comissão é passível de penalidades éticas. 
 
Jogos e desenhos 
Os jogos e os desenhos são instrumentos de avaliação psicológica utilizados 
para colher informações sobre a criança. Obviamente, elas não conseguem se 
adaptar às entrevistas abertas, estruturadas ou semiestruturadas, muito menos 
submeter a testes que dependem de uma capacidade de raciocínio que não 
condiz com o desenvolvimento adequado da criança. Por isso, 
os jogos passaram a ser instrumentos imprescindíveis para estabelecer 
um vínculo com a criança, a fim de que ela possa se sentir confortável para falar 
da sua maneira sobre os conflitos familiares, preocupações e aflições. Além 
disso, o psicólogo observará o comportamento da criança, as habilidades 
psicomotoras, a construção das histórias e os vínculos estabelecidos com 
o propósito de identificar se a criança possui alguma psicopatologia. 
Além disso, os desenhos também são instrumentos importantes para a 
avaliação psicológica, uma vez que se observa a coordenação motora, assim 
como os aspectos relativos à família, escola e o contexto socioeconômico e 
cultural. Porém, vale ressaltar que para avaliação psicológica infantil, é 
necessário realizar entrevistas com os pais ou responsáveis, familiares que 
acompanham a criança e, caso preciso, com os professores da escola ou de 
outras atividades com a finalidade de colher informações sobre a relação que a 
criança estabelece consigo mesma, bem como com as demais. A partir do 
diagnóstico, é importante preparar uma devolução aos pais com os 
possíveis encaminhamentos, caso seja necessário. Por exemplo, uma 
avaliação neurológica ou psiquiátrica, um acompanhamento escolar ou 
psicopedagógico. 
 
 
as qualidades, conhecimentos e habilidades 
dos indivíduos. 
Questionário e inventário 
 
Esse tópico apresenta como elaborar questionários a partir das discussões 
realizadas em grupos de pesquisa constituídos na Universidade Federal de 
Minas Gerais, dado que se considera importante trazer à tona as discussões 
“vivas” das dificuldades que podem permear o trabalho da atuação do 
profissional. Além disso, ressalta-se o inventário como um instrumento eficaz 
para o processo de seleção de pessoas a determinados cargos. 
Questionário 
Para muitos, elaborar um questionário é uma tarefa fácil, uma vez que não se 
tem a mínima ideia de como as perguntas podem ressoar na subjetividade de 
cada sujeito ou na indução de respostas. Para tanto, grupos de trabalho, 
conhecidos por GT, são formados para discutir a escrita, a organização dos 
questionamentos, a condução do psicólogo, bem como a sua abordagem e as 
formas de coletar os dados. Esse processo pode durar dias ou até semanas e, 
muitas vezes, é realizado poruma equipe de profissionais qualificados. 
Para tanto, é necessário saber o que se deseja investigar com a avaliação 
psicológica, qual o objetivo e, inclusive, identificar a faixa etária, gênero, 
estado civil, entre outros, para facilitar o vínculo e a abertura do indivíduo a 
responder os questionamentos. Sabe-se que os questionários são passíveis de 
manipulação por parte dos indivíduos, uma vez que se sentem envergonhados 
em relatar determinados aspectos em poucos encontros. Para tanto, é 
necessário um bom manejo do psicólogo para facilitar esse processo de abertura 
por parte do avaliado. Após a construção do questionário, é necessário fazer um 
teste com um grupo de voluntários para verificar se realmente as perguntas são 
acessíveis ao bom entendimento do avaliado e se existe algum equívoco por 
parte do instrumento. Assim sendo, o questionário pode ser transformado ao 
longo dos meses para determinados segmentos dos quais desejamos obter 
informações. Cita-se, como exemplo, questionários realizados na avaliação 
psicológica com policiais militares e com agentes penitenciários. Esse 
instrumento deve ser adaptado em relação ao contexto e o perfil do trabalhador. 
Inventário 
Os inventários psicológicos são, comumente, utilizados pelas empresas para 
selecionar os candidatos de acordo com o perfil do cargo. Nos dias atuais, as 
empresas utilizam o Inventário Fatorial de Personalidade (IFP) com o intuito 
de fazer uma triagem antes da aplicação dos testes psicológicos, uma vez que 
necessitam de maiores recursos financeiros para esses instrumentos. Assim, 
somente aqueles que podem ocupar o cargo acabam passando por esse 
processo de testagem psicológica. Com isso, o inventário se torna uma 
ferramenta mais acessível para aplicar a um número maior de candidatos. Os 
principais aspectos abordados no IFP são: 
 assistência; 
 dominância; 
 ordem; 
 denegação; 
 intracepção; 
 desempenho; 
 exibição; 
 afago; 
 mudança; 
 persistência; 
 agressão; 
 deferência; 
 autonomia; 
 afiliação; 
Este inventário é reconhecido pelo Conselho Federal de Psicologia e identifica 
possíveis fatores comportamentais que o candidato possa ter na condução do 
seu trabalho no interior da empresa. 
Conclusão 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
 apreender o conceito de avaliação psicológica; 
 compreender os passos, as competências e os princípios éticos do 
psicólogo em relação à avaliação psicológica; 
 conhecer a avaliação psicológica no contexto da psicologia clínica, da 
psicologia organizacional e do trabalho, no contexto do trânsito e no 
contexto hospitalar; 
 entender a importância da observação na avaliação psicológica; 
 assimilar a entrevista psicológica como um processo de avaliação 
psicológica; 
 saber sobre os testes mais utilizados pelos estudantes e profissionais de 
psicologia; 
 adquirir conhecimento sobre os jogos e desenhos no processo de 
avaliação psicológica infantil; 
 estudar os questionários e inventários utilizados na avaliação psicológica. 
 
Avaliação Psicológica - Unidade II 
Para que se compreenda a evolução da área da avaliação psicológica tanto no 
âmbito nacional quanto no internacional, é importante revisitar as origens da 
psicologia como ciência. Este tópico irá tratar do desenvolvimento dos estudos 
sobre os primeiros testes psicológicos, que foram a base para a consolidação 
da avaliação psicológica como importante área da psicologia. 
A noção de avaliar os fenômenos psicológicos remonta à própria história da 
psicologia moderna, com o médico e cientista que foi considerado o pai da 
psicologia, Willhelm Wundt (1832-1920). Ele criou o primeiro laboratório de 
estudos experimentais em psicologia na Alemanha e chamou a atenção de 
diversos pesquisadores, que foram estudar com ele e fundaram seus próprios 
laboratórios posteriormente. Wundt se utilizava de métodos experimentais no 
laboratório para estudar funções mentais simples como a percepção e a 
sensação, e seus discípulos usaram o conhecimento de métodos e técnicas 
aprendidos com ele para fundar o que mais tarde se chamou de psicologia 
aplicada (SCHUTZ; SCHUTZ, 2014). 
A seguir serão apresentados alguns estudiosos cujos trabalhos foram decisivos 
para o desenvolvimento dos instrumentos de medida em psicologia. 
Galton e as medidas sensoriais 
 
Galton foi um biólogo inglês que se dedicou a estudar as aptidões humanas por 
meio de medidas sensoriais, tomando como referência a capacidade do 
indivíduo em discriminar o tato e os sons. Ele elaborou uma série de testes em 
seu laboratório e coletou dados de mais de 9.000 pessoas. Para ele, quanto 
mais inteligente fosse um indivíduo, mais alto seria o seu nível de 
funcionamento sensorial (SCHUTZ; SCHUTZ, 2014). 
Galton tinha como objetivo incentivar o nascimento de indivíduos mais aptos na 
sociedade e desestimular o nascimento dos inaptos, sendo ele o responsável 
por cunhar a palavra “eugenia”, que advém do termo grego Eugenes e significa 
ser de boa estirpe, dotado de qualidades hereditárias nobres (SCHUTZ; 
SCHUTZ, 2014). Segundo Pasquali (2001), a grande contribuição de Galton 
para o desenvolvimento de medidas psicológicas foi a criação de testes de 
discriminação sensorial, a criação de escalas e inventários de atitudes, e o 
desenvolvimento e a simplificação de métodos estatísticos para os dados que 
coletava. Cattell e os testes mentais 
James Cattell foi um psicólogo americano, o primeiro a empregar a expressão 
teste mental, administrando vários deles a seus alunos quando era professor 
na Universidade da Pensylvania. Cattell seguiu as ideias de Galton ao elaborar 
testes para medir a habilidade motora, tempo de reação e capacidades 
sensoriais, ou seja, tarefas mais elementares e menos complexas do que 
aquelas que hoje são avaliadas pelos testes psicológicos. Seu interesse era no 
estudo das diferenças individuais (SCHUTZ; SCHUTZ, 2014). 
Deve-se a Cattell também o início do ensino da análise estatística para os 
resultados dos estudos experimentais. O uso de técnicas estatísticas permitiu 
que grupos maiores de pessoas fossem estudados, em busca das 
características comuns a determinados grupos, em vez de avaliações 
individuais (SCHUTZ; SCHUTZ, 2014). Embora Cattell tenha sido o precursor 
do teste mental, o movimento dos testes psicológicos começou com outros 
pesquisadores. No início do século XX, houve um grande desenvolvimento 
teórico e prático no campo da inteligência, como será apresentado a seguir. 
Binet e o teste de inteligência 
 
Alfred Binet (1857-1911) foi um psicólogo francês, autodidata, que introduziu de 
forma efetiva a medição das habilidades cognitivas humanas, marcando o início 
dos testes de inteligência. Para ele, as diferenças entre os indivíduos são 
consequência de funções mentais mais complexas, como a memória, atenção, 
compreensão ou apreciação estética, e nesse sentido, afastou-se de seus 
antecessores ao defender a avaliação de processos mentais superiores, 
contrariamente às funções sensório-motoras (ALMEIDA, 2002). Binet introduziu 
sua escala de inteligência em 1905, para ajudar a identificar crianças no sistema 
escolar de Paris que poderiam ter dificuldades com a educação formal. Ele 
identificou as tarefas intelectuais das crianças em diversas faixas etárias e 
desenvolveu um teste de inteligência composto por 30 problemas em nível 
crescente de dificuldade (SCHUTZ; SCHUTZ, 2014). 
Mais tarde, em 1916, Lewis Terman desenvolveu uma nova versão do teste e 
lhe deu o nome de Escala StanfordBinet, passando a adotar, a partir daí, o 
conceito de quociente de inteligência (QI), definido com a proporção entre a 
idade mental (a idade que em média uma criança é capaz de realizar tarefas 
específicas) e a cronológica. A Escala de Inteligência Stanford-Binet foi o 
padrão ouro para a medição da inteligência por décadas, e o QI consideradouma medida global do potencial cognitivo de um indivíduo, integrando em um 
único escore um conjunto heterogêneo de funções cognitivas (ALMEIDA, 2002). 
Primeira Guerra Mundial e o avanço da testagem 
 
Com o advento da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos se viram diante 
do desafio de avaliar o nível de inteligência de um grande número de recrutas, 
classificando-os e direcionando-os para atividades mais adequadas. Inúmeros 
testes de avaliação da inteligência para aplicação em grupo passaram a ser 
desenvolvidos por psicólogos, que também se voltaram para o desenvolvimento 
de testes para a avaliação de características de personalidade. O uso dos 
testes psicológicos teve enorme aceitação nos Estados Unidos em diversos 
segmentos da sociedade, principalmente no sistema educacional, que passou 
a adotar o conceito de QI como parâmetro principal para determinar a colocação 
do aluno e seu desenvolvimento (SCHUTZ; SCHUTZ, 2014). 
Muitos testes começaram a ser criados nesse período, entretanto, alguns eram 
mal elaborados e sem as evidências científicas necessárias. Assim, os testes 
que foram importantes no estabelecimento da psicologia como ciência, 
começaram a ter sua validade questionada pela falta de comprovação de sua 
eficácia, além de serem utilizados como única fonte de informação para a 
realização de diagnósticos (BUENO & PEIXOTO, 2018). Esses 
questionamentos acabaram por recair sobre a capacidade da psicologia como 
ciência em dar respostas válidas para a sociedade. Avanços na análise 
estatística e a sistematização dos testes 
Enquanto Binet desenvolvia o seu teste de inteligência, Charles Spearman, na 
Inglaterra, vinha ampliando o uso dos métodos de correlação propostos por 
Galton. Foi Spearman quem elaborou as bases conceituais para a análise 
fatorial, uma técnica utilizada para reduzir um grande número de variáveis a um 
conjunto menor de fatores, e que se tornaria central para o avanço da testagem 
e da teoria dos traços (URBINA, 2006). 
Em 1927, Spearman desenvolveu a primeira teoria de inteligência com base em 
análise estatística de resultados. Para ele, a inteligência poderia ser definida 
como um fator geral (fator “g”), sendo esse o conjunto de todos os testes, mas 
ao mesmo tempo como um fator específico a cada teste, o qual não poderia ser 
generalizado para todos os testes. Tais fatores teriam origem distinta, sendo o 
fator geral dependente de uma energia mental biológica e inata, e os fatores 
específicos dependentes da aprendizagem, ou seja, poderiam ser treinados 
(ALMEIDA, 2002; YATES et al., 2006). 
A partir dos trabalhos de Spearman sobre o fator geral de inteligência e o 
conceito de correlação estatística, foi desenvolvida a Teoria clássica dos testes, 
que apresentava as duas principais propriedades psicométricas dos 
instrumentos: a validade e a confiabilidade. No tópico sobre a fundamentação 
científica dos testes psicológicos, esses e outros conceitos serão abordados 
com mais detalhes. 
A partir de 1930, os testes tiveram um crescimento importante nos Estados 
Unidos. As escalas de inteligência Wechsler-Bellevue foram desenvolvidas no 
período em que o país entrou na Segunda Guerra Mundial, utilizando análises 
estatísticas mais sofisticadas. As principais contribuições das escalas Wechsler 
incluíram muitas inovações técnicas (como escores de desvio-padrão) e a 
combinação de testes verbais e de execução em uma única escala (PADE, 
2016). Posteriormente, as escalas Wechsler continuaram a ser testadas e 
aprimoradas, com a WISC - Wechsler Intelligence Scale for Children (1949), a 
WAIS - Wechsler Adult 
Intelligence Scale (1955) e a WPPSI - Wechsler Preschool and Primary Scale 
of Intelligence (1967) (ALMEIDA, 2002). As escalas Weschler ainda são 
amplamente utilizadas nos dias de hoje, com a continuidade dos estudos de 
aprimoramento das propriedades originais do instrumento. 
Em 1931, Thurstone afirmou que o desempenho intelectual dos indivíduos era 
explicado por habilidades mentais primárias independentes entre si, em um 
conjunto de sete fatores: compreensão verbal, fluência verbal, aptidão 
numérica, aptidão espacial, raciocínio, velocidade perceptiva e memória. A 
partir de sua teoria, diversas baterias para avaliação de aptidões intelectuais 
foram elaboradas, como a Differential Aptitudes Tests (DAT) e General Aptitude 
Test Battery (GATB) (ALMEIDA, 2002). Credita-se a Thurstone a criação da 
análise fatorial múltipla, o que deu a base inicial para a psicometria, a teoria e 
a técnica de medida dos processos mentais, segundo Pasquali (2009). 
A psicometria, segundo Pasquali (2009), é um conjunto de técnicas utilizadas 
para mensurar, de forma adequada e experimentalmente comprovada, um 
conjunto ou uma gama de comportamentos que se deseja conhecer melhor. A 
psicometria auxilia o pesquisador a verificar se o teste de fato mede o que se 
propõe a medir; além de demonstrar se a operacionalização do construto em 
itens de fato corresponde a esse construto. 
Não serão abordados em profundidade todos esses conceitos que dizem 
respeito às operações estatísticas. É importante, no entanto, compreender que 
a evolução e o refinamento dos instrumentos de avaliação psicológica se deram 
graças ao desenvolvimento de técnicas estatísticas e tecnológicas, úteis para a 
validação das propriedades psicométricas dos testes e para a qualidade das 
análises de resultados. A partir de agora, acredita-se que seja possível ampliar 
a perspectiva e conhecer o desenvolvimento tanto da área de avaliação 
psicológica quanto dos seus instrumentos no Brasil e no mundo. 
Desenvolvimento da avaliação e seus instrumentos no Brasil e no mundo 
Conforme foi abordado, o uso de medidas para avaliar fenômenos e processos 
mentais esteve presente desde o início da psicologia como ciência. Com a 
evolução das técnicas estatísticas, foi possível que os psicólogos avançassem 
qualitativamente em suas teorias, principalmente sobre os dois grandes 
constructos da inteligência e da personalidade, desenvolvendo 
concomitantemente instrumentos de avaliação com maior qualidade. Dessa 
forma, será abordado, na continuação da unidade, o panorama da área de 
avaliação psicológica no mundo e, mais especificamente, no Brasil. Panorama 
da avaliação psicológica no mundo 
Além do desenvolvimento dos testes de inteligência, uma grande gama de 
testes de personalidade e psicopatologia passou a ser construída a partir da 
década de 1920. Esse período de guerra mundial contribuiu para o aumento 
dos testes que visavam avaliar o funcionamento psicológico e emocional das 
pessoas, expandindo o alcance e o papel das avaliações psicológicas para o 
campo da saúde (PADE, 2016). 
Na Suíça, em 1921, um psiquiatra chamado Hermann Rorschach publicou um 
teste que consistia em 10 manchas de tinta que deveriam ser apresentadas ao 
examinando para que ele as interpretasse. Essa foi a primeira técnica projetiva 
formal, e possuía um método padronizado para obter e interpretar as reações 
aos cartões de tinta, analisando de maneira sistemática as respostas únicas de 
cada sujeito e que representam a sua forma de perceber o mundo (URBINA, 
2006). Desde então, o Teste de Rorschach recebeu diversas atualizações, 
sistema de escores, normas atualizadas e critérios para a interpretação dos 
resultados. 
Outro conhecido teste projetivo, o TAT – Teste de Apercepção Temática – foi 
introduzido em 1930 (PADE, 2016). As técnicas projetivas são até hoje 
utilizadas para acessar aspectos da personalidade dos examinandos, que de 
outra forma ficariam encobertos. Por ter um sistema de interpretação mais 
qualitativo e menos numérico, as técnicas projetivas são controversas no que 
diz respeito à sua validade, embora seu uso seja significativo por psicólogos 
(URBINA, 2006). Inventários de personalidade também tiveram grande 
desenvolvimento durante a década de 1940, com muitos refinamentose 
perspectivas teóricas diferentes na construção dos instrumentos. A análise 
fatorial foi crucial para o desenvolvimento desses instrumentos, como o de 
Cattell, que utilizou a técnica para identificar os traços de personalidade mais 
essenciais (URBINA, 2006). O conhecido teste MMPI - Minnesota Multiphasic 
Personality Inventory – é até hoje amplamente utilizado e foi criado em 1940 
com o objetivo de avaliar pacientes adultos durante a rotina de cuidados 
psiquiátricos, assim como determinar a gravidade dos sintomas e dar uma 
estimativa de mudanças (PADE, 2016). 
Todo o conhecimento produzido nesse período promoveu a confiança 
necessária para que mais psicólogos e pesquisadores trabalhassem no 
desenvolvimento de escalas e testes. Os governos dos países a nível 
internacional, assim como as pessoas interessadas nos serviços clínicos e 
institucionais, começaram a demandar que programas de graduação 
treinassem os psicólogos para desenvolver testes e novas tecnologias para uso 
em avaliação em diferentes contextos. A habilidade dos testes em descrever o 
comportamento de maneira precisa foi reconhecida, auxiliando a tomada de 
decisões em vários âmbitos sociais. 
Desenvolvimento da área de avaliação psicológica no Brasil 
 
É notável que, no Brasil, os primeiros esforços para o desenvolvimento da área 
de avaliação psicológica tenham ocorrido na primeira metade do século XX. Em 
1924, por exemplo, houve a publicação do primeiro livro brasileiro sobre testes 
psicológicos por Medeiros e Albuquerque, bem como a adaptação do teste de 
inteligência de Simon-Binet, na Bahia, nesse mesmo ano. Além disso, 
contabiliza-se a inauguração de centros de pesquisas como o Instituto de 
Seleção e Orientação Profissional (ISOP) e o Serviço Nacional de 
Aprendizagem Industrial (SENAI). Tais fatos surpreendem por terem ocorrido 
em um momento em que a psicologia ainda era incipiente no país, revelando, 
contudo, ações que denotavam interesse e expectativas de desenvolvimento 
da área de avaliação psicológica no país (NORONHA e REPPOLD, 2010). 
Segundo Pasquali e Alchieri (2001), houve um grande entusiasmo pela área de 
avaliação psicológica no Brasil no período que coincidiu com o funcionalismo 
americano pós-guerra, porém o declínio começou a ocorrer entre as décadas 
de 1960 e 1970, devido em especial à falta de qualificação dos professores 
universitários sobre esse tema em cursos de psicologia no país, somado à baixa 
produção científica na área. Assim, o desenvolvimento da avaliação psicológica 
no país ficou estagnado por quase três décadas. 
A criação de centros e laboratórios de pesquisa em avaliação psicológica 
ligados a programas de pós-graduação em universidades, a partir da década 
de 1980, bem como a publicação de uma revista científica especializada sobre 
o tema, suscitou novo interesse na área, elevando gradualmente a qualificação 
de docentes e pesquisadores. Nesse sentido, houve o reforço também do 
Conselho Federal de Psicologia, com a Resolução nº 25 /01 de 2001, que 
definiu e regulamentou o uso, a elaboração e a comercialização de testes 
psicológicos, aprimorando os procedimentos de avaliação psicológica. Essa 
resolução foi reformulada em 2003 e, depois disso, recebeu diversas 
atualizações, sendo a mais recente de agosto de 2018, estando em 
consonância com os avanços na área da avaliação psicológica nas últimas 
décadas (PADILHA, NORONHA e FAGAN, 2007). 
Vale ressaltar, ainda, que a criação de duas sociedades científicas 
representativas da área de avaliação psicológica, promovendo eventos 
dedicados ao debate sobre os caminhos da avaliação psicológica no país, 
contribuiu imensamente para o seu avanço. São elas a Associação Brasileira 
de Rorschach e Métodos Projetivos (ASBR), fundada em 1993, e o Instituto 
Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP), fundado em 1997. 
Fundamentação científica dos instrumentos de avaliação psicológica 
Como já foi exposto anteriormente, a psicometria diz respeito a um conjunto de 
técnicas utilizadas para mensurar, de forma adequada e experimentalmente 
comprovada, uma gama de comportamentos que se deseja conhecer melhor. 
Essas técnicas, em última instância, auxiliam o pesquisador a verificar se o teste 
de fato mede o construto que se propõe a medir, como afirmou Pasquali (2009). 
De maneira geral, a psicometria tem como objetivo explicar o sentido que têm 
as respostas dadas pelos sujeitos a uma série de tarefas de um teste, o que é 
chamado de itens. A fundamentação científica na construção de um teste é, 
portanto, crucial em diversas etapas de seu desenvolvimento, de maneira que 
vários cuidados devem ser tomados pelo pesquisador para que o teste, ao final, 
apresente bons critérios de validade. 
A primeira etapa para a elaboração e o desenvolvimento de um teste 
psicológico deve ser a definição operacional de um construto. Um construto 
pode ser um processo psicológico – depressão, ansiedade, motivação, 
autoeficácia, resiliência, entre outros – ou uma característica dos indivíduos. 
Para isso, é fundamental que o pesquisador empreenda uma revisão 
bibliográfica extensa da literatura sobre o construto que deseja medir, a partir 
da qual ele vai fazer suas escolhas teóricas. Por exemplo, um construto amplo 
como o estresse apresenta diversas vertentes teóricas que explicam e 
conceituam suas fases, por isso, é importante que o pesquisador tenha em 
mente qual a teoria de base que vai seguir para a elaboração e o 
desenvolvimento dos itens do seu instrumento. 
Depois de elaborada a versão inicial do instrumento, com a construção dos itens 
que o compõem, o mesmo deverá ser avaliado por um grupo de especialistas 
na área de avaliação do teste. Por exemplo, um teste neuropsicológico deve ter 
a sua primeira versão avaliada por profissionais especialistas em 
Neuropsicologia. Após a análise e sugestões dos especialistas, o instrumento 
poderá ser modificado e aprimorado até chegar à versão que irá ser testada em 
uma amostra de sujeitos, a população-alvo. 
De acordo com as considerações do Sistema de Avaliação de Testes 
Psicológicos – Satepsi, contidas na Resolução do Conselho Federal de 
Psicologia (CFP) nº 009, de 25 de abril de 2018, os principais parâmetros 
psicométricos para a construção de testes psicológicos são: (1) evidências de 
precisão / fidedignidade; (2) evidências de validade; e (3) sistema de correção 
e interpretação dos escores. A seguir, será feita uma explanação sobre cada 
um desses parâmetros. 
Evidências de precisão / fidedignidade 
 
Um teste psicológico é sempre um esforço de unir em um instrumento um 
conjunto de comportamentos observados a respeito de um determinado 
construto. Entretanto, essa elaboração pode sofrer influência de erros, 
chamados de erro de medida. Segundo Andrade e Valentini (2018), quanto 
maior for o erro de medida, menor será a precisão dos escores do teste. Assim, 
logicamente, a utilização de instrumentos cujos escores são pouco precisos 
pode acarretar em maior chance de erros de diagnóstico. 
Algumas fontes de erros que podem afetar os escores de um indivíduo na 
realização de um teste são as condições de testagem do examinando, o formato 
do próprio instrumento e as diferenças entre avaliadores. Por exemplo, se um 
indivíduo responde a um teste psicológico sob alguma circunstância de estresse 
pessoal, isso pode alterar o seu padrão de resposta. Condições da testagem, 
como a estrutura do local onde se aplica o teste (condições de luminosidade, 
mobiliário e temperatura), assim como as diferenças subjetivas entre os 
avaliadores (características pessoais, maior rigidez ou flexibilidade na 
aplicação), são outros elementos que podem acarretar em imprecisão na 
estimação dos escores (ANDRADE; VALENTINI, 2018). 
O formato do teste é outra fonte potencial de erros, tanto na forma como no 
conteúdo dos seus itens. É esperado que os itens de um testesejam o mais 
consistente entre si e reflitam de fato os aspectos psicológicos do indivíduo, 
produzindo resultados precisos. O nível de consistência interna é um coeficiente 
que mede a precisão dos itens de um teste: valores próximos de um significam 
maior precisão do instrumento. Segundo a Resolução do CFP (009/2018), a 
avaliação dos indicadores de precisão varia ente C (insuficiente) e A+ 
(Excelente), sendo um teste considerado excelente quando apresenta dois ou 
mais estudos com indicadores superiores a 0,80. 
Entretanto, para ser considerado aprovado, um teste precisa ter indicadores de 
precisão acima de 0,60. Cabe ao profissional psicólogo verificar os indicadores 
de precisão de um instrumento e selecioná-lo de acordo com o grau de 
importância daquele resultado no contexto de sua avaliação (ANDRADE e 
VALENTINI, 2018). 
 
 Evidências de validade 
De acordo com o Standards for Educational and Psychological Testing, a busca 
por evidências de validade dos testes psicológicos é condição fundamental para 
o seu desenvolvimento e avaliação (AERA et al., 2014). Como já foi dito 
anteriormente, entende-se por validade a capacidade de um instrumento medir 
aquilo a que se propõe a medir. 
Atualmente, pode-se afirmar que existem cinco fontes de evidências de validade 
dos testes, segundo a última versão do Standards for Educational and 
Psychological Testing (AERA, 2014): 
 
 
FIQUE DE OLHO: O conhecimento sobre evidências de validade de um teste 
está em constante atualização. Para considerar que um teste apresenta 
evidências de validade satisfatórias, o mesmo deve ser avaliado em inúmeros 
estudos e com populações diferentes. O artigo de Andrade e Valentini (2018) 
traz em uma linguagem acessível as principais diretrizes utilizadas para a 
construção dos testes psicológicos no Brasil, de acordo com a Resolução CFP 
nº 009/2018. 
Sistema de correção e interpretação dos escores 
O sistema de correção e interpretação dos escores é uma parte importante da 
utilização dos testes psicológicos, portanto, deve ser criteriosa para que a análise 
dos resultados do examinando não fique comprometida. De forma geral, a 
Evidências baseadas no conteúdo 
do teste 
Relaciona o conteúdo dos itens do teste e 
o construto que pretende medir. 
Evidências baseadas no processo 
de resposta 
Procura pistas dos processos cognitivos 
necessários para que o examinando 
responda um determinado item. 
Evidências baseadas na estrutura 
interna 
Busca o grau de adequação da relação 
entre itens do teste e o seu fator (variável-
latente). 
Evidências baseadas na relação 
com outras variáveis 
Investiga relações com outras variáveis, 
com outros testes que supostamente 
meçam o mesmo construto ou construtos 
relacionados, e com variáveis que meçam 
construtos diferentes. 
Evidências baseadas nas 
consequências da testagem 
 
Relaciona o teste às consequências de 
suas utilizações que podem ser tanto 
desejadas quanto indesejadas. 
proposta de um bom sistema de correção é a transformação de escores brutos 
em informações mais interpretáveis (ANDRADE e VALENTINI, 2018). 
O sistema de correção que toma como referência a amostra normativa é 
chamado de sistema referenciado da norma, e é o mais utilizado. Diz respeito à 
comparação dos escores brutos de um indivíduo com a população da qual ele 
foi retirado. Por exemplo, em uma escala que mede autoestima em 
adolescentes, só saberemos se o examinando tem uma autoestima acima ou 
abaixo da média se tomar como referência o escore médio de autoestima nessa 
população. 
 
Conceito de teste psicológico 
A seguir, serão apresentadas algumas definições importantes sobre o teste 
psicológico, os requisitos para o uso adequado e os objetivos de sua aplicação 
em diferentes situações. 
Teste psicológico 
O teste psicológico, segundo Urbina (2006, p. 11-12), “é um procedimento 
sistemático para a obtenção de amostras de comportamento relevantes para o 
funcionamento cognitivo ou afetivo e para a avaliação destas amostras de acordo 
com certos padrões”. 
De acordo com a definição de Hutz (2015, p.12), o teste psicológico é “um 
instrumento que avalia (mede ou faz uma estimativa) construtos (também 
chamados de variáveis latentes) que não podem ser observados diretamente”. 
Alguns exemplos de construtos na psicologia são altruísmo, inteligência, 
otimismo, ansiedade, entre outros. 
Os testes psicológicos, portanto, são ferramentas que auxiliam o psicólogo a 
obter informações de forma precisa e sistematizada, para fazer inferências sobre 
determinada característica ou comportamento de uma pessoa. Para que seja 
uma ferramenta eficaz, o teste psicológico deve ser usado de maneira hábil e 
apropriada pelo psicólogo, que deve estar preparado tanto técnica quanto 
teoricamente para a sua aplicação e interpretação. O psicólogo despreparado, 
ao fazer uso dos testes, pode produzir informações irrelevantes, anular 
resultados com interpretações equivocadas, e até mesmo prejudicar pessoas, 
rotulando-as ou negando-lhes oportunidades (URBINA, 2006). 
Todos os testes psicológicos necessitam de padronização, caso contrário, seus 
resultados não terão validade científica. A padronização dos testes se refere 
primeiramente à forma de administração do mesmo, assim como aos 
procedimentos necessários para a sua avaliação e interpretação de resultados. 
Uma segunda forma de padronização dos testes diz respeito às suas normas, 
ou seja, à compilação dos resultados de um grupo de indivíduos no processo de 
desenvolvimento do teste. O desempenho coletivo dessa amostra normativa 
passa a ser o padrão de referência para outros indivíduos que responderem ao 
teste depois de sua padronização (URBINA, 2006). 
Todas as informações sobre a aplicação e a padronização dos testes estão 
contidas no seu manual, assim como as tabelas da amostra normativa (que é a 
população que foi usada como referência para as futuras aplicações), que são 
geralmente divididas por faixa etária e, às vezes, por sexo. Isso porque, a 
depender do construto que está sendo avaliado, o desempenho do indivíduo 
pode mudar de acordo com a sua faixa etária (HUTZ, 2015). 
 
Usos atuais dos testes psicológicos 
 
Atualmente, os testes psicológicos são mais sofisticados e embasados 
metodologicamente, e sua aplicação destina-se a uma variedade de contextos e 
situações nas áreas: escolar, clínica, ocupacional, hospitalar, esportiva, entre 
muitas outras. Segundo Urbina (2006), o uso dos testes pode ser dividido em 
três categorias: 
Para a tomada de decisões 
Quando é necessário utilizar critérios para 
selecionar, alocar, classificar, diagnosticar, 
e conduzir processos com indivíduos, 
grupos ou organizações. Os testes em 
caso de tomada de decisões devem ser 
utilizados dentro de uma estratégia mais 
detalhada e minuciosa, que leve em conta 
o contexto particular de cada avaliação, 
para que não seja a única ferramenta 
disponível para a busca de informações. 
Em pesquisas psicológicas 
Testes são muito empregados em diversos 
campos de pesquisa em psicologia, sendo 
muitas vezes desenvolvidos em trabalhos 
de dissertação e tese. São úteis para 
coletar dados sobre traços afetivos, 
cognitivos e comportamentais de diferentes 
populações. 
Para autoconhecimento e 
desenvolvimento pessoal 
Esta forma de uso acontece com mais 
frequência em psicoterapia e 
aconselhamento, de forma individualizada, 
para que o paciente/cliente tenha acesso a 
informações que promovam o seu 
crescimento pessoal. 
Outra utilização importante dos testes psicológicos está relacionada à avaliação 
da eficácia de um programa de intervenção. Por exemplo, medir as habilidades 
sociais de adolescentes com um teste específico antes e após um programa de 
intervenção para ampliar o repertório de habilidades sociais com duração de oito 
semanas (HUTZ, 2015). 
Quanto à sua classificação, alguns documentosde diretrizes internacionais 
apresentam definições diferentes para os testes. Segundo os Standards for 
Educational and Psychological Testing (AERA et al., 2014), por exemplo, são 
seis categorias de testes psicológicos: (I) cognitivos e neuropsicológicos; (II) 
família e casal; (III) problemas comportamentais; (IV) comportamento social e 
adaptativo; (V) personalidade; e (VI) vocacional. No Brasil, a Resolução do 
Conselho Federal de Psicologia (CFP) nº 009, de 25 de abril de 2018, a 
nomenclatura teste foi - 20 - utilizada para incluir escalas, inventários, 
questionários e métodos projetivos/expressivos (ANDRADE; VALENTINI, 
2018). 
 
Testagem e avaliação psicológica 
É comum que a expressão testagem psicológica seja muitas vezes 
confundida e usada como sinônimo de avaliação psicológica. A verdade é que 
a testagem, ou seja, o uso de testes psicológicos, é uma parte de um processo 
de avaliação psicológica, o que envolve outras tarefas e elementos, como será 
visto a seguir. Segundo Urbina (2006), o uso inadequado dessas expressões 
se deve em grande parte à comercialização dos testes psicológicos, quando 
alguns autores e editores começaram a usar a palavra avaliação nos títulos de 
seus testes. 
Testagem psicológica 
O uso dos testes psicológicos é uma das ferramentas disponíveis ao psicólogo 
para realizar uma avaliação psicológica. A testagem psicológica usada de 
maneira isolada vai produzir como resultado apenas a interpretação de um 
determinado teste, segundo os escores do indivíduo. Porém, os resultados de 
um único teste psicológico não são suficientes para que o psicólogo tome 
decisões, faça inferências ou aponte diagnósticos a respeito de um indivíduo ou 
grupo. 
Por esse motivo, é imprescindível que o uso da testagem seja sempre realizado 
dentro de uma situação contextualizada, como parte de um processo de coleta 
de dados mais amplo, para que o psicólogo tenha condições de responder a uma 
demanda inicial. Também é importante salientar que o psicólogo que realiza uma 
avaliação psicológica, se assim decidir e com base em uma sustentação teórica 
adequada, não é obrigado a fazer uso de testes psicológicos, visto que existem 
outras ferramentas de avaliação que ele pode utilizar, como será visto a seguir. 
 
 
Avaliação psicológica 
De acordo com o Art. 1 da Resolução nº 009/2018 (CFP, 2018), a avaliação 
psicológica pode ser definida como um processo estruturado de investigação 
de fenômenos psicológicos, composto de métodos, técnicas e instrumentos, com 
o objetivo de fornecer informações para a tomada de decisão, no âmbito 
individual, grupal ou institucional. Assim, de acordo com essa definição, é 
possível perceber que a avaliação psicológica é composta por elementos que se 
complementam, sendo o uso dos instrumentos psicológicos uma entre outras 
técnicas, como a entrevista e a observação. 
A avaliação psicológica pode ser empregada em diferentes contextos e traz 
inúmeros benefícios à sociedade, tendo um importante papel na tomada de 
decisões tanto a nível individual quanto institucional, inclusive orientando ações 
em políticas públicas desenhadas no contexto macrossocial (ANDRADE e 
VALENTINI, 2018). Por isso, a seriedade na elaboração de instrumentos, nas 
práticas de testagem e na formação do profissional avaliador é de suma 
importância para o uso ético e eficaz dos resultados de uma avaliação 
psicológica. 
 
Principais diferenças entre testagem e avaliação psicológica 
 
Urbina (2006) resume de forma bastante clara e didática as principais diferenças 
entre testagem e avaliação, de acordo com aspectos inerentes a ambas as 
situações, conforme pode ser visualizado na tabela abaixo. 
 
 
Conclusão 
 
 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
 conhecer as origens da testagem dos processos mentais e o 
desenvolvimento histórico dos instrumentos de avaliação psicológica; 
 estudar o desenvolvimento dos instrumentos e da área de avaliação 
psicológica no Brasil e no mundo; 
 identificar conceitos básicos da psicometria, assim como as etapas de 
construção e validação de um teste psicológico; 
 aprender sobre o conceito de teste psicológico, seus usos em diferentes 
contextos e suas classificações; 
 identificar as diferenças principais entre testagem e avaliação psicológica. 
 
 
Avaliação Psicológica - Unidade III 
Processo de avaliação psicológica 
A avaliação psicológica “permeia toda e qualquer prática da psicologia” 
(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2003); é um processo técnico e 
científico realizado com pessoas ou grupo de pessoas que, de acordo com cada 
área do conhecimento, requer técnicas, ferramentas e metodologias específicas; 
é uma atividade essencialmente investigadora, processual e em constante 
construção; é dinâmica e se constitui em fonte de informações de caráter 
explicativo sobre os fenômenos psicológicos. Tem por finalidade de subsidiar os 
trabalhos nos diferentes campos de atuação do profissional de psicologia 
(saúde, escolar, trânsito, jurídica, organizacional, orientação profissional, dentre 
outras). Trata-se de um estudo que requer um planejamento prévio e cuidadoso, 
de acordo com o propósito e os fins aos quais a avaliação se destina. 
Normatização da avaliação psicológica 
Considerando a necessidade de estabelecer parâmetros sobre avaliação 
psicológica que possam orientar o trabalho do profissional de psicologia em 
diferentes contextos de atuação, o Conselho Federal de Psicologia 
normatizou através da Resolução Nº 9, de 25 de abril de 2018, as Diretrizes 
para a realização de avaliação psicológica. O processo de avaliação 
psicológica, quando bem fundamentado, é capaz de prover informações 
importantes para o desenvolvimento de hipóteses, que levem à compreensão 
das características psicológicas de uma pessoa ou de um grupo. Essas 
características podem se referir à forma como as pessoas irão desempenhar 
uma dada atividade, à qualidade das interações interpessoais que elas 
apresentam, ao acometimento por possíveis patologias, grau de sanidade, 
adoecimento ou sofrimento mental, dentre outros aspectos. 
Assim, dependendo dos objetivos da avaliação psicológica, a compreensão 
poderá abranger aspectos psicológicos de natureza diversa. É importante 
notar que a qualidade do conhecimento alcançado depende da escolha de 
instrumentos que maximizem a qualidade do processo de avaliação psicológica. 
De acordo ao Conselho Federal de Psicologia, a “avaliação psicológica é, antes 
de tudo, um meio de apreciar a presença no mundo material, do vivido, um modo 
de apreensão das realidades objetivas e subjetivas que tocam os fenômenos 
psíquicos nas suas dimensões antropológicas” (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2013, p. 19). Os resultados das avaliações psicológicas devem 
considerar e analisar os condicionantes históricos e sociais e seus efeitos no 
psiquismo, com a finalidade de servirem como instrumentos para atuar, não 
somente sobre o indivíduo, mas na modificação desses condicionantes que 
operam, desde a formulação da demanda até a conclusão do processo de 
avaliação psicológica. Vale ressaltar que os resultados das avaliações 
psicológicas podem gerar grande impacto para as pessoas, os grupos e a 
sociedade (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2003). 
O comportamento humano é resultado de uma complexa teia de dimensões 
inter-relacionadas que interagem para produzi-lo. Na expectativa de tentar 
compreender todas as nuances e relações que perpassam pelo indivíduo ou 
pelos grupos, os profissionais de psicologia buscam informações que os ajudem 
a responder questões sobre o funcionamento psicológico das pessoas e suas 
implicações, através deavaliações calcadas em métodos cientificamente 
sustentados. Tais métodos conduzem a respostas muito mais confiáveis que 
opiniões leigas no assunto, suposições infundadas ou simplesmente inferências. 
A avaliação psicológica é um processo amplo que envolvea integração de 
informações provenientes de diversas fontes, dentre elas, testes, entrevistas, 
observações, dinâmicas de grupo, vivências, análise de documentos e outros. 
A psicologia atua em diversos campos profissionais e, em todos eles, se faz 
necessária a realização de avaliação psicológica como um processo 
científico propriamente dito. Não obstante, a avaliação psicológica não é um 
campo de atuação específica da psicologia, é uma prática que envolve 
competências específicas que o profissional deve ter para realizá-la em diversos 
contextos de atuação que dela podem necessitar. 
 
Avaliação psicológica como prática exclusiva do(a) psicólogo(a) 
A exclusividade dessa prática justifica-se pela formação ampla que a psicologia 
oferece, que permite um olhar sistêmico acerca dos fenômenos psicológicos que 
não consideram unicamente aspectos subjetivos; desta, podem emergir 
aspectos da personalidade, da cognição, do afeto, da motivação, da memória, 
da atenção e outros fenômenos humanos para poder, enfim, serem 
compreendidos, vistos com mais clareza em seus meandros, como estão 
envolvidos e imbricados, poder enxergar, analisar e descrever o sujeito 
(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2003). 
Diante do exposto e considerando a inserção da psicologia nos mais diversos 
setores, a atuação do profissional de psicologia é cada vez mais requerida e 
suas atividades cada vez mais necessárias. Adiante, adentraremos nas minúcias 
que garantem a efetividade do processo de avaliação psicológica. 
 
Entrevista diagnóstica 
 
Conforme já mencionado, a avaliação psicológica pode ser realizada por meio 
de várias técnicas, que o profissional de psicologia tem à sua disposição: a 
entrevista, a observação, os testes, as dinâmicas, dentre outras. Neste tópico 
trataremos da entrevista diagnóstica, um instrumento indispensável e 
poderoso que o profissional de psicologia “deve” utilizar no processo de 
avaliação psicológica. A conceituação clássica da entrevista psicológica é a de 
Sullivan (1970), que a define como: 
 
Uma situação de comunicação vocal entre duas pessoas (a two-
group) mais ou menos voluntariamente integrados num padrão 
terapeuta-cliente que se desenvolve progressivamente com o 
propósito de elucidar formas características de vida das pessoas 
entrevistadas, e vividas por elas como particularmente penosas ou 
especialmente valiosas e, de cuja elucidação, ela espera tirar 
algum benefício. 
Sullivan (1970) 
Uma situação de comunicação vocal entre duas pessoas (a two-group) mais ou 
menos voluntariamente integrados num padrão terapeuta-cliente que se 
desenvolve progressivamente com o propósito de elucidar formas características 
de vida das pessoas entrevistadas, e vividas por elas como particularmente 
penosas ou especialmente valiosas e, de cuja elucidação, ela espera tirar algum 
benefício. 
Sullivan (1970) 
Seguindo nosso objetivo nesta unidade, veremos que a entrevista diagnóstica 
consiste em uma das técnicas utilizadas pelos profissionais de psicologia para 
obter determinadas informações a respeito de um indivíduo ou de um grupo, 
devendo ser elaborada e orientada por meio de um propósito específico. A 
qualidade dos dados obtidos na entrevista está diretamente relacionada 
ao preparo do profissional; este deve dispor de conhecimentos que abarquem 
a finalidade de uma entrevista, domínio sobre a técnica, delimitação de seu foco, 
boa capacidade de comunicação, empatia, escuta atenta e qualificada, além de 
estar despido de qualquer juízo de valor e/ou julgamento prévio. Para Santos 
(2014), a entrevista é uma excelente ferramenta, capaz de auxiliar na 
compreensão de comportamentos, habilidades, pensamentos, planejamentos, 
organização, solução de problemas, entre outros aspectos, a depender da 
situação e finalidade da técnica. 
Vários são os autores que discorrem sobre as metodologias da entrevista 
diagnóstica. Entretanto, caberá ao profissional de psicologia eleger aquela que 
estará em consonância com sua linha de atuação ou seu referencial teórico e 
que será congruente com o propósito da entrevista. 
Ao longo do conteúdo desta unidade, mencionaremos alguns autores que 
norteiam a utilização da entevista diagnóstica para os profissionais de psicologia, 
contudo, conforme já dissemos, trata-se de uma técnica dinâmica, flexível e 
que deverá ser alinhada ao propósito da demanda. 
 
Referenciais teóricos para a entrevista diagnóstica 
Para Santos (2014), o profissional de psicologia pode utilizar a entrevista em 
diversos campos de atuação, no entanto, sua modalidade, classificação e/ou 
finalidade dependerá do tipo de atividade que esteja realizando. 
Dentre as modalidades descritas por Santos (2014), tem-se a entrevista 
diagnóstica, cujo objetivo é proporcionar o levantamento de informações que 
subsidiem à elaboração de hipóteses diagnósticas, indicando também o 
tratamento adequado. A entrevista devolutiva visa esclarecer os resultados 
oriundos do processo de avaliação, enquanto que a entrevista de 
encaminhamento tem a finalidade, como expresso, de encaminhar o indivíduo 
para outros profissionais, de modo que estabeleça a procedência da avaliação, 
tratamento ou atendimento. A entrevista de intervenção 
psicoterápica objetiva auxiliar o sujeito em suas dificuldades, dentro do 
processo psicoterápico; a entrevista de avaliação de pessoal tem como 
propósito selecionar ou alocar, de forma estratégica, as melhores pessoas para 
determinadas atividades ou cargos; a entrevista de desligamento possui o 
intuito de fazer um levantamento dos resultados, diante da demanda inicial, 
retomando relevantes pontos ocorridos durante o processo, como também em 
situações de desligamento do emprego; a entrevista de pesquisa intenciona a 
coleta de dados de acordo com os objetivos da pesquisa. 
Nosso objetivo, neste tópico, é fornecer subsídios ao profissional de psicologia 
para utilizar a entrevista diagnóstica como parte integrante e fundamental da 
avaliação psicológica. Ainda, segundo Santos (2014), podemos classificar a 
entrevista diagnóstica em três tipos: 
 
 
Não estruturada 
 
Permite que o entrevistado se expresse livremente, cabendo ao entrevistador 
fazer apenas pequenas colocações frente à fala do entrevistado. 
 
Semiestruturada 
 
Tem seu roteiro construído a partir do objetivo principal da entrevista, de 
acordo com o que se deseja ou planeja investigar, com questões ou tópicos 
simples que podem ser complementados ou investigados de maneira mais 
aprofundada durante o processo. 
 
Estruturada 
 
Segue um roteiro, mantendo um padrão de aplicação, ordem e igual sequência 
de questões, facilitando uma análise quantitativa. 
 
 
Para Bleger (1998), a entrevista pode ser de dois tipos 
fundamentais: aberta e fechada. Na fechada as perguntas já estão previstas, 
assim como a ordem e a maneira de formulá-las, e o entrevistador não pode 
alterar nenhuma dessas disposições. Na entrevista aberta, pelo contrário, o 
entrevistador tem ampla liberdade para as perguntas ou para suas intervenções, 
permitindo-se toda a flexibilidade necessária em cada caso particular. Para este 
autor, pode-se diferenciar também as entrevistas segundo o beneficiário do 
resultado. Assim, podemos distinguir: 
a) A entrevista que se realiza em benefício do entrevistado – que é o caso da 
consulta psicológica ou psiquiátrica. 
b) A entrevista cujo objetivo é a pesquisa, na qual importam os resultados 
científicos. 
c) A entrevista que se realiza para um terceiro (uma instituição). 
Cada uma delas implica variáveis distintas a serem levadas em conta e orienta 
a conduta do entrevistador, assim como do entrevistado, e sobre o campo total 
da entrevista. 
Do ponto de vista de Tavares (2002), as diversas técnicas de entrevista têm em 
comum o objetivo de avaliar para fazer algum tipo de recomendação, seja 
diagnóstica ou terapêutica. Para este autor, aentrevista, como ponto de contato 
inicial, é crucial para o desenvolvimento de uma relação de ajuda. A aceitação 
das recomendações ou a permanência no tratamento dependem de algumas 
características importantes desse primeiro contato, que são influenciadas por um 
conjunto de competências do entrevistador. A dificuldade de aceitação das 
recomendações ou a desistência de iniciar um processo terapêutico, quando 
ocorre, se dá nos primeiros contatos. 
Em outros contextos, em que a entrevista diagnóstica também é utilizada como 
ténica, a relação de cooperação entre o profissional de psicologia e o 
entrevistado é amparada no preparo do entrevistador. 
 
Habilidades necessárias para uma entrevista diagnóstica bem-sucedida 
Na prática, a entrevista antes de poder ser considerada uma técnica, deve ser 
vista como um contato social entre duas ou mais pessoas. O sucesso da 
entrevista dependerá, portanto, da qualidade geral de um bom contato social, 
sobre o qual se apoiam as técnicas clínicas específicas. Concomitantemente, 
a execução da técnica é influenciada pelas habilidades interpessoais do 
entrevistador. Essa interdependência entre habilidades interpessoais e o uso da 
técnica é tão grande que, muitas vezes, é impossível separá-las. O bom uso da 
técnica deve ampliar o alcance das habilidades interpessoais do entrevistador e 
vice-versa. 
Enfim, a literatura sobre o tema “entrevista diagóstica” é ampla, contudo, 
seguramente o que definirá a eficácia da técnica é o preparo do profissional de 
psicologia; a sua capacidade de observação, de percepção, de leitura de 
entrelinhas, sua escuta qualificada e seu feeling. 
Vale ressaltar que, na praxis, não existe um tipo específico de entrevista superior 
a outro, contudo, há o mais adequado para cada finalidade e condições. 
A entrevista pode ser dividida em três momentos: momento inicial de 
ambientação ou enquadramento, no qual se destina um curto espaço de tempo 
para o rapport e esclarecimento sobre o objetivo desta. Momento intermediário, 
no qual é destinado a maior parte do tempo, e onde o entrevistador explora o 
estado mental do indivíduo e começa a delinear suas hipóteses. Momento do 
encerramento, em que são destinados os minutos finais para o entrevistador 
encerrar a coleta de dados e finalizar a entrevista. 
Para assegurar que os resultados atingidos, advindos da entrevista diagnóstica, 
sejam amparados pela técnica e rigor científico, é necessário atentar para os 
seguintes aspectos: criação de um clima favorável, um ambiente adequado, 
iluminado e climatizado, estabelecer o rapport, garantir que o indivíduo esteja à 
vontade antes de iniciar a entrevista, preparo prévio, foco, dando ciência dos 
processos e objetivos da entrevista a iniciar e, como já foi enfatizado, as 
habilidades ténicas do profissional entrevistador. 
É imperativo que a entrevista é um dos mais importantes instrumentos para 
coleta de informações que o profissional de psicologia tem à sua disposição, 
visto que tal instrumento pode ser utilizado nos mais diversos contextos, 
podendo facilmente ser adequado às necessidades de cada caso (desde que os 
devidos cuidados sejam tomados), sem perder a sua validade científica. 
Concluindo, percebemos que as entrevistas podem se organizar segundo vários 
tipos, de forma versátil e dinâmica, geralmente orientadas, segundo o enfoque 
teórico do entrevistador, segundo seus objetivos e ainda segundo a sua 
estruturação. Não obstante, devemos ressaltar que a eficácia da entrevista 
diagnóstica dependerá ainda de habilidades profissionais tais como: 
conhecimentos profundos dos transtornos mentais, compreensão 
psicodinâmica, domínio dos princípios teóricos da entrevista, de sensibilidade e 
empatia, além de outras já mencionadas ao longo deste conteúdo. 
 
Planejamento do processo 
A importância do conhecimento aprofundado do processo de avaliação 
psicológica se constata em critérios e diretrizes de nossos conselhos 
psicológicos e educacionais, os quais indicam a obrigatoriedade desta 
temática na matriz curricular de cursos de psicologia de nosso país 
(NUNES, 2012). 
Como muito bem colocado pelo Conselho Federal de Psicologia, e citado 
no início desta unidade, “a avaliação psicológica permeia toda e 
qualquer prática da psicologia”, além de ser procedimento exclusivo 
do profissional de Psicologia. Diante disso, o profissional deverá dedicar 
atenção especial ao preparo técnico e metodológico para o exercício 
dessa prática. 
No primeiro tópico desta unidade, discorremos sobre o que é o processo 
de avalição psicológica, sua importância, sua amplitude, suas várias 
aplicações e a competência do profissional de psicologia sobre este 
procedimento. No segundo tópico, abordamos os aspectos relativos à 
entrevista diagnóstica e sua fundamental importância no processo de 
avaliação psicológica. Vale ressaltar que, a entrevista diagnóstica é o 
primeiro passo do processo de avaliação psicológica propriamente dito, 
seja qual for o contexto e o propósito a que ela se destina. Será através 
das informações coletadas na entrevista e das suas percepções, que o 
profissional de psicologia planejará o processo de avaliação e 
selecionará os instrumentos mais adequados aos objetivos que pretende 
atingir. 
Neste terceiro tópico, abordaremos como planejar o processo de avalição 
psicológica, as etapas, a importância e os objetivos de cada uma delas. 
 
Finalidades e objetivos da avaliação psicológica 
 
Para que o processo de avaliação psicológica seja bem embasado, antes mesmo 
da entrevista, o profissional de psicologia deverá ter claro em mente 
a finalidade e o objetivo da avaliação que realizará. 
Ciente da finalidade e do(s) objetivo(s) da avaliação, o profissional de 
psicologia iniciará o planejamento do processo e as decisões que tomará 
deverão ser pautadas nos seguintes aspectos: 
 o contexto; 
 os propósitos; 
 os construtos psicológicos; 
 a adequação dos instrumentos; 
 as condições técnicas e metodológicas a serem utilizadas. 
Esses aspectos nortearão todo o processo, que poderá seguir algumas etapas. 
Antes de entrar na descrição de cada etapa, vale lembrar que a avaliação 
psicológica é um processo dinâmico e flexível e o planejamento será decidido 
pelo profissional de psicologia, baseado nos aspectos descritos acima. Portando, 
os passos descritos adiante poderão servir como orientação aos profissionais, para 
que conduzam sua metodologia de trabalho. 
Etapas do planejamento do processo de avaliação 
psicológica 
O material que serviu como referência para a descrição das etapas do planejamento a 
seguir foi abordado no 9º Congresso Brasileiro de Avaliação Psicológica, realizado em 
Salvador/BA, no ano de 2019, promovido pelo Instituto Brasileiro de Avaliação 
Psicológica – IBAP. Baseado neste material, que é consonante as obras de Cunha 
(2009) e Avoglia (2012), e na práxis de profissionais de psicologia com vasta 
experiência no tema, foi elaborada uma perspectiva bem abrangente do planejamento do 
processo de avaliação psicológica, a qual apresentaremos a seguir: 
Entrevista diagnóstica: Esta etapa foi amplamente abordada no tópico dois desta 
unidade. Porém, nunca é demais reforçar que se trata de um instrumento de alta 
relevância e deverá integrar todos os processos de avaliação psicológica, seja qual for o 
objetivo e a finalidade, até porque as informações coletadas na entrevista irão balizar o 
planejamento do processo de avaliação psicológica. Pode ser necessária mais de uma 
sessão para concluir a entrevista, assim como, pode acontecer também, de o profissional 
precisar entrevistar outras pessoas além do próprio entrevistado (parentes, amigos, 
vizinhos, cuidadores). 
Essas situações dependerão das circunstâncias e objetivos da avaliação. Por exemplo, se 
a avaliação for solicitada pelo poder judiciário para compor um processo de interdição 
judicial e,no momento da entrevista diagnóstica, o entrevistado apresentar pensamento 
desconexo e/ou não estiver abordável, outras pessoas do convívio do entrevistado 
poderão ser ouvidas. Outra situação para exemplificar: ao chegar ao consultório o/a 
paciente apresenta-se em um estado de tristeza tão profundo que não consegue 
verbalizar, apenas chora. Nessa situação, o profissional fará uma intervenção pontual 
naquele momento e destinará outro encontro para a entrevista detalhada e coleta 
minuciosa de dados. Várias são as possibilidades e intercorrências que podem acontecer 
no momento da entrevista diagnóstica, daí a necessidade de o profissional de psicologia 
estar muito bem preparado. 
Identificar as queixas: Nesta etapa, o profissional de psicologia vai avaliar todas as 
informações coletadas, identificar as queixas do entrevistado, fazer a conexão de todos 
os dados observados durante a entrevista diagnóstica, para começar a delinear a próxima 
etapa. Neste ponto, o olhar sistêmico do entrevistador poderá identificar inclusive as 
queixas, por ventura, não verbalizadas (angústia, opressão, mágoa, desejo de morrer, 
revolta, outros). Quanto mais preparado o profissional estiver, mais dados conseguirá 
coletar, seja pela escuta, seja pela observação ou pelo conjunto de suas habilidades. 
Levantamento de hipóteses: Com base em tudo que foi coletado e observado nas 
etapas anteriores, o profissional de psicologia inicia o processo de elaboração das 
hipóteses diagnósticas. Percebe-se que, a cada etapa vencida, mais conhecimento e 
preparo são exigidos do profissional. Neste momento, faz-se necessário ter amplos 
conhecimentos dos fundamentos básicos da Psicologia, dentre os quais podemos 
destacar: 
desenvolvimento, inteligência, memória, atenção, emoção, dentre outros. O profissional 
deverá, ainda, ter domínio do campo da psicopatologia, para poder identificar problemas 
graves de saúde mental, transtornos psicopatológicos já instalados, risco de 
autoextermínio, auto e/ou heteroagressividade, dentre outras situações extremas. 
Seleção de instrumentos: Diante das hipóteses levantadas, faz-se necessária a seleção 
dos instrumentos que serão utilizados no processo de avalição psicológica. O 
profissional de psicologia tem uma gama enorme de instrumentos e ferramentas 
disponíveis para serem utilizados, entretanto, deverá possuir um referencial solidamente 
embasado nas teorias psicológicas (psicanálise, psicologia analítica, fenomenologia, 
psicologia sóciohistórica, cognitiva, comportamental, outas) de modo que a análise e 
interpretação dos instrumentos seja coerente com seus referenciais; deverá ter 
conhecimentos da área de psicometria, para poder julgar as questões de validade, 
precisão e normas dos testes e ser capaz de escolher e trabalhar de acordo com os 
propósitos e contextos de cada um. Ainda, deve possuir domínio dos procedimentos 
para aplicação, mensuração e interpretação do(s) instrumento(s) utilizados para a 
avaliação psicológica. 
Concluindo, a escolha adequada dos instrumentos é complexa e deve levar em conta os 
dados empíricos que justifiquem simultaneamente, o propósito da avaliação associado 
ao contexto específico. Lembre-se, a magnitude do conhecimento alcançado depende da 
escolha de instrumentos que maximizem a qualidade do processo de avaliação 
psicológica. 
Contrato de trabalho: Levantadas as hipóteses diagnósticas e selecionados os 
instrumentos que serão utilizados, é chegado o momento de formalizar todo o processo 
de trabalho para a realização da avaliação psicológica. Neste momento, será acordado 
entre as partes, profissional de psicologia e contratante, a dinâmica do trabalho, valores, 
número de encontros ou sessões, ferramentas utilizadas, datas, horários, prazo para 
conclusão do processo, dentre outras tratativas pertinentes à formalização da prestação 
dos serviços. Cabe ressaltar que toda e qualquer relação de trabalho envolvendo o 
profissional de psicologia, deve, imperativamente, ser pautada em seu Código de 
Ética. 
Organização dos instrumentos: Estão incluídas, nesta etapa, todas as ferramentas 
avaliativas (dinâmicas, vivências, observações e testes projetivos e/ou psicométricos, 
jogos, inventários, outras), pois vencidas as etapas anteriores (entrevista diagnóstica, 
identificação das queixas, levantamentos das hipóteses, seleção dos instrumentos e 
contrato de trabalho), o profissional de psicologia terá bem definidos os objetivos da 
avaliação, as particularidades do indivíduo ou grupo a ser avaliado e as técnicas 
avaliativas que utilizará. 
Sendo assim, deverá organizar a metodologia de aplicação dos instrumentos/estratégias 
selecionados para a realização da avaliação psicológica. A organização desse processo 
deverá possibilitar que as técnicas forneçam informações de forma a complementar às 
colhidas nas etapas anteriores, permitindo que articuladas e integradas, forneçam 
subsídio amplo para atender aos objetivos esperados pela avaliação psicológica. Ao 
confrontar as informações colhidas e as hipóteses levantadas inicialmente, o profissional 
pode constatar a necessidade de utilizar outros instrumentos/estratégias de modo a 
refinar ou elaborar novas hipóteses. Sendo assim, não é recomendada a utilização de 
uma só técnica ou um só instrumento para a avaliação psicológica e a aplicação deverá 
seguir uma lógica de complementariedade, ou seja, uma irá complementando a outra de 
forma a confirmar, ou não, as informações inicialmente observadas. 
Aplicação dos testes: A utilização de métodos e técnicas psicológicas constitui função 
privativa da psicóloga e do psicólogo, com base nos objetivos previstos no parágrafo 1º, 
do art. 13, da Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, e no art. 4º, do Decreto nº 
53.464/1964, portanto, sua utilização deve ser pautada nos princípios éticos 
fundamentais que norteiam a atividade profissional da psicóloga e do psicólogo, e no 
inciso IV dos Princípios Fundamentais no Código de Ética Profissional da psicóloga 
e do psicólogo, “que estabelece a responsabilidade da psicóloga e do psicólogo por seu 
contínuo aprimoramento profissional e pelo desenvolvimento da psicologia como 
campo científico de conhecimento e de prática”. 
Como vimos no início desta unidade, a Resolução Nº 9 de 25 de abril de 2018 do CFP 
– Conselho Federal de Psicologia “estabelece diretrizes para a realização de avaliação 
psicológica no exercício profissional da psicóloga e do psicólogo, regulamenta o 
Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos - SATEPSI”. Um dos aspectos que 
motivou este documento foi a demanda social e técnico-científica de construir um 
sistema contínuo de avaliação de testes psicológicos compatível com a dinâmica da 
produção científica e com as necessidades dos profissionais de psicologia. O SATEPSI - 
Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos foi desenvolvido pelo Conselho Federal de 
Psicologia (CFP) com o objetivo de avaliar a qualidade técnico-científica de 
instrumentos psicológicos para uso profissional, a partir da verificação objetiva de um 
conjunto de requisitos técnicos e divulgar informações sobre os testes psicológicos à 
comunidade e às(aos) psicólogas(os). É essencial que o profissional de psicologia tenha 
total conhecimento do aparato legal que envolve os instrumentos de avaliação 
psicológica, em especial os testes, para que sejam aplicados com ética e 
responsabilidade, seguindo as orientações de serem utilizados, exclusivamente para os 
fins a que se aplicam. O profissional de psicologia deverá ter conhecimento prévio dos 
testes antes de utilizá-los, tanto no que tange à aplicação, quanto à mensuração e/ou 
avaliação, correção e análise. 
Os testes podem ser aplicados individualmente ou em grupo e, de modo geral, o 
material deve estar em bom estado de conservação, o ambiente para aplicação deve ser 
arejado, agradável, limpo e tranquilo. No caso da escolha de um teste em especial,é 
necessário que o profissional de psicologia faça a leitura cuidadosa do manual e das 
pesquisas envolvidas na sua construção para decidir se ele deve ou não ser utilizado 
naquela situação. Uma boa fonte de informações sobre pesquisas na psicologia, além é 
claro, do manual, é a Biblioteca Virtual em Saúde. 
Correção e análise dos testes: A correção, análise, mensuração ou interpretação 
dos testes vão variar conforme o tipo e o objetivo de cada um. Como falado 
anteriormente, é de suma importância que o profissional de psicologia tenha 
domínio das ferramentas utilizadas no processo de avaliação, para interpretar as 
impressões fornecidas e fazer a integração destas, com os dados observados nas 
etapas anteriores do processo, especialmente, com a entrevista diagnóstica. 
Os testes objetivos, normalmente, são mais simples de serem mensurados; 
costumam ter um crivo e o manual orienta sobre a correção. Os testes 
projetivos são mais complexos e dependem de muito domínio do profissional, 
pois a análise envolve categorizar as informações, fazer uma síntese diagnóstica 
que irá corroborar ou refutar as informações colhidas na entrevista e demais 
etapas do processo de avaliação psicológica. 
Elaboração de documentos: A depender do contexto, o profissional de 
psicologia é solicitado a produzir diferentes tipos de documentos psicológicos: 
atestado psicológico, parecer psicológico, declaração, relatório psicológico ou 
multiprofissional, laudo psicológico. A escolha do tipo de documento a ser 
formalmente escrito com os resultados da avaliação dependerá da demanda 
específica apresentada pelo contexto, o conteúdo avaliado e a quem será 
destinado o documento. A Resolução Nº 6 de 26 de março de 2019 do CFP – 
Conselho Federal de Psicologia “institui as regras para elaboração de 
documentos escritos pela(o) psicóloga(o) no exercício profissional”. O Artigo 3º 
da Resolução versa que “toda e qualquer comunicação por escrito decorrente do 
exercício profissional da(o) psicóloga(o) deverá seguir as diretrizes escritas neste 
manual”. 
Portanto, trata-se de documento de leitura e arquivo 
obrigatórios pelo profissional. Conforme o Artigo 4º da referida Resolução, no 
inciso 1º, “A confecção do documento psicológico deve ser realizada mediante 
solicitação por usuária(o) do serviço de psicologia, por suas(seus) responsáveis 
legais, por uma(um) profissional específico, por equipes multidisciplinares ou 
por autoridades, ou ser resultado de um processo de avaliação psicológica.” 
Inciso 2º, “O documento psicológico sistematiza uma conduta profissional na 
relação direta de um serviço prestado a pessoa, grupo ou instituição”. Inciso 3º, 
“A(o) psicóloga(o) deverá adotar como princípios fundamentais na elaboração de 
seus documentos as técnicas da linguagem escrita formal (conforme artigo 6º) e 
os princípios éticos, técnicos e científicos da profissão (conforme artigos 5º e 
7º)”. Inciso 4º, “ De acordo com os deveres fundamentais da profissão na 
prestação de serviços psicológicos, as(os) envolvidas(os) no processo possuem o 
direito de receber informações sobre os objetivos e resultados do serviço 
prestado, e ter acesso ao documento produzido pela atividade da(do) 
psicóloga(o).” O documento discorre ainda sobre os princípios técnicos e 
éticos da(o) profissional de psicologia, modalidades de documentos, assim como 
seus conceitos, finalidades e estruturas, prazo de validade dos conteúdos e 
documentos e, como novidade, o documento regulamenta a entrevista devolutiva, 
que veremos na próxima etapa. 
Entrevista devolutiva: A Resolução Nº 6 de 25 de março de 2019 do CFP – 
Conselho Federal de Psicologia, traz uma novidade sobre este tema: a 
obrigatoriedade do profissional de psicologia em fazer a devolutiva do processo 
de avaliação psicológica a quem o solicitou. Na Sessão VII, Artigo 18º, está 
disposto que é dever do profissional de psicologia disponibilizar pelo menos uma 
sessão para a entrevista devolutiva. Esta prática ainda é pouco comum em alguns 
segmentos de atuação da psicologia, o que gera muitas dúvidas sobre este 
procedimento. A entrevista devolutiva deve ser realizada no final do processo de 
avaliação psicológica; a devolução será a conclusão do processo. Esta etapa, na 
práxis, pode necessitar de até três sessões, pois dependendo do feedback, o 
solicitante poderá ficar mobilizado e o profissional de psicologia terá de ter 
sensibilidade para perceber e interromper no momento adequado, dando 
continuidade em outra sessão. Assim como em todas as etapas anteriores, o 
profissional deverá estar muito bem preparado, para perceber os sinais de 
desconforto que poderão emergir durante a devolução. Faz-se necessária 
uma estruturação desta entrevista, iniciando pelos aspectos positivos do sujeito 
e adentrar, de forma cuidadosa, nos aspectos a serem trabalhados. Esta entrevista 
poderá ser antes ou depois do laudo concluído, alguns profissionais preferem 
fazer após, pois durante a devolutiva podem surgir novos dados que serão 
relevantes no laudo. Outro ponto de dúvida é: para quem dar a devolutiva? A 
devolutiva deve ser dada para quem solicitou a avaliação psicológica. Entretanto, 
o profissional de psicologia deverá ficar atento quando esta devolutiva for 
fornecida a terceiros e seguir fielmente o preconiza o Código de Ética da(o) 
Psicóloga(o). 
Diante de todas as etapas expostas neste tópico, cabe ressaltar que se trata de uma 
orientação ao profissional de psicologia, dos elementos que abrangem todo o 
processo de avaliação psicológica, contudo, será o profissional que construirá sua 
metodologia de trabalho, podendo ou não perpassar pelas etapas descritas, na 
ordem que melhor convier aos seus objetivos, ao contexto em que a avaliação 
estiver inserida e, principalmente, ao seu referencial teórico de atuação. 
FIQUE DE OLHO: O conhecimento sobre evidências de validade de um teste 
está em constante atualização. Para considerar que um teste apresenta 
evidências de validade satisfatórias, o mesmo deve ser avaliado em inúmeros 
estudos e com populações diferentes. O artigo de Andrade e Valentini (2018) 
traz em uma linguagem acessível as principais diretrizes utilizadas para a 
construção dos testes psicológicos no Brasil, de acordo com a Resolução CFP 
nº 009/2018. 
Sistema de correção e interpretação dos escores 
O sistema de correção e interpretação dos escores é uma parte importante da 
utilização dos testes psicológicos, portanto, deve ser criteriosa para que a análise 
dos resultados do examinando não fique comprometida. De forma geral, a 
proposta de um bom sistema de correção é a transformação de escores brutos 
em informações mais interpretáveis (ANDRADE e VALENTINI, 2018). 
O sistema de correção que toma como referência a amostra normativa é 
chamado de sistema referenciado da norma, e é o mais utilizado. Diz respeito à 
comparação dos escores brutos de um indivíduo com a população da qual ele 
foi retirado. Por exemplo, em uma escala que mede autoestima em 
adolescentes, só saberemos se o examinando tem uma autoestima acima ou 
abaixo da média se tomar como referência o escore médio de autoestima nessa 
população. 
Sessões de avaliação 
Conforme já mencionado ao longo deste conteúdo, compete ao profissional de 
psicologia planejar e realizar o processo avaliativo baseando-se na finalidade e 
objetivos, considerando ainda aspectos como contexto, propósito, construtos 
psicológicos, escolha de instrumentos, condições técnicas e metodológicas e o 
referencial teórico de atuação. 
Número de sessões necessárias ao processo de avaliação psicológica 
A prerrogativa do número de sessões para a realização do processo, das 
questões a serem respondidas, bem como quais instrumentos/técnicas de 
avaliação devem ser utilizados será do profissional de psicologia, baseado nos 
seguintes elementos: contexto no qual a avaliação psicológica se insere, 
propósitos da avaliaçãopsicológica, construtos psicológicos a serem 
investigados, adequação das características dos instrumentos/técnicas aos 
indivíduos avaliados, condições técnicas, metodológicas e operacionais do 
instrumento de avaliação. 
Para além desses elementos, deverá ser considerada também a linha de 
atuação do profissional ou qual o referencial teórico de sua preferência. Baseado 
nessas informações, o profissional de psicologia definirá quantas sessões e/ou 
encontros serão necessários para a conclusão do processo. Esse número pode, 
inclusive, ser alterado no decorrer do processo, tendo em vista peculiaridades 
ou imprevistos ocorridos. 
A título de exemplo, vamos considerar uma avalição psicológica para aquisição 
da CNH – Carteira Nacional de Habilitação. A princípio, foram previstas duas 
sessões do profissional de psicologia com o candidato: uma para entrevista e 
outra para aplicação dos testes. O profissional disponibilizou ainda, mais uma 
sessão para avalição dos testes e elaboração do laudo. Entretanto, ao avaliar os 
testes, a(o) psicóloga(o) teve dúvidas e considerou os testes inconclusivos, será 
necessária outra sessão para aplicação de novos testes e mais uma para nova 
análise dos resultados. Em outro contexto, como nas avaliações psicológicas 
clínicas, o número de sessões pode variar completamente se levar em 
consideração o referencial teórico do profissional e a demanda do paciente. 
O profissional de psicologia deve ter sempre em mente que, apesar de todo o 
planejamento do processo de avalição psicológica, a qualquer momento ao 
longo deste, podem emergir do avaliado questões de natureza subjetiva que 
implicarão na imediata intervenção do profissional e, as vezes até, necessidade 
de rever o planejamento e adaptar os instrumentos e/ou técnicas. 
 
Sessões complementares 
Diante da complexidade que envolve o processo de avalição psicológica, 
constata-se que esta prática requer do profissional muito estudo, preparo 
técnico, dedicação e desenvolvimento de habilidades extremamente peculiares 
que permitirão ao avaliador ler nas entrelinhas, ouvir o inaudível, perceber o 
imperceptível, enxergar o invisível e interpretar os códigos e sinais que trarão à 
tona uma versão do sujeito avaliado que nem ele próprio conhece. 
Sendo assim, ao longo do processo, podem ocorrer situações nas quais o 
profissional de psicologia necessitará de instrumentos secundários ou 
complementares à sua prática e destinar sessões do processo para aplicação 
dessas ferramentas, assim como para a discussão dos resultados com equipe 
multidisciplinar. 
Conclusões sobre a prática da avaliação psicológicaConforme é preconizado 
pelo Conselho Federal de Psicologia e foi repetidamente frisado ao longo deste 
conteúdo, a avalição psicológica “permeia toda e qualquer prática da 
psicologia”. Está inserida na rotina dos profissionais, independente de 
orientação teórica, das finalidades e objetivos dos atendimentos, dos contextos 
variados, das dinâmicas de trabalho, enfim, não existe metodologia de trabalho 
sem avaliação. No contexto geral da avaliação psicológica, os referenciais 
teóricos ainda são muito tímidos, pois voltam-se mais para as linhas de atuação 
propriamente ditas e, caberá a cada profissional da psicologia, buscar o 
conhecimento específico que melhor lhe convier. 
Contudo, nosso objetivo aqui pautou-se basicamente em demonstrar o quanto 
são amplos os campos de atuação da psicologia, o quão importante é conhecer 
as técnicas, os instrumentos e as metodologias disponíveis; informar sobre a 
legislação e aparato legal que envolve o tema e chamar a atenção de forma 
especial para o preparo do(a) psicólogo(a) no que tange às suas habilidades 
profissionais. Os anos de prática com certeza apuram as técnicas, contudo, as 
habilidades devem iniciar seu desenvolvimento no momento em que o indivíduo 
escolhe ser psicólogo(a). Como já foi dito, ler nas entrelinhas, ouvir o inaudível, 
perceber o imperceptível, enxergar o invisível e interpretar os códigos e sinais 
não são tarefas fáceis, mas possíveis aos olhos e ouvidos treinados e à 
capacidade de observação refinada do bom profissional. 
 
Conclusão 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
 estudar o processo de avaliação psicológica; 
 entender a relevância da entrevista diagnóstica; 
 conhecer as etapas do planejamento do processo de avalição 
psicológica; 
 compreender a dinâmica das sessões de avaliação; 
 saber um pouco mais sobre as fontes fundamentais e complementares de 
informação. 
 
Avaliação Psicológica - Unidade IV 
Noções preliminares sobre ética 
A palavra "ética" vem do grego ethose está ligada à filosofia moral, significando 
caráter, disposição, costume e hábito. É, portanto, um modo de ser ou aquilo que 
o homem traz dentro de si na relação consigo mesmo e com o mundo, o seu 
caráter habitual e as suas disposições perante a vida, seus costumes, e também 
sua moral. Segundo Aristóteles, ser ético é muito mais do que um problema de 
costumes, de normas práticas; supõe a boa conduta das ações, a felicidade pela 
ação feita e o prêmio ou a beatitude pela alegria da autoaprovação diante do 
bem feito (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 1996). 
De acordo com Tomanik (2008), as discussões sobre ética são permeadas por 
muitas dúvidas e várias possibilidades de respostas. É preciso primeiramente 
clareza quanto ao sentido do termo ética: esse termo pode se referir ao 
direcionamento de decisões individuais diante de situações específicas, atuando 
como um princípio norteador das ações de um indivíduo, como pode servir para 
indicar um campo de estudos e de reflexões sistemáticas, classificado como uma 
subárea da filosofia. 
É importante distinguir a ética de outras formas de regulação do comportamento 
em sociedade. Por exemplo, as normas e as leis fornecem diretrizes de conduta 
baseadas em modos corretos e incorretos de ação do homem na sociedade, 
estabelecendo formas de punição para os que não seguirem tais diretrizes. Já a 
ética, embora também atue como um elemento de controle de condutas 
individuais e coletivas depende das convicções do próprio indivíduo que executa 
uma ação. Ou seja, a decisão ética depende da ponderação do homem, sua 
reflexão sobre o ato a ser executado e suas consequências, baseada no seu 
próprio conjunto de valores sobre o que é certo e errado (TOMANIK, 2008). 
Assim, citando Tomanik, “a única recompensa a ser esperada em decorrência 
de uma ação eticamente direcionada é a satisfação de ter feito da forma correta 
aquilo que precisava ou que deveria ser feito” (2008, p. 398). 
A ação ética, portanto, se caracteriza por ser praticada por um sujeito autônomo 
e livre para fazer suas próprias escolhas, capaz de refletir e assumir suas 
condutas. A reflexão e a ação ética parte do princípio de que não vivemos 
isolados em sociedade, e que os resultados de nossas ações terão um impacto 
no outro e na coletividade. Por isso, pode-se dizer que a ética é construída a 
partir das relações sociais, baseando-se em pressupostos fundamentais como a 
liberdade, o conhecimento ou consciência, o ato humano e a responsabilidade. 
Na área da saúde, na qual se inserem os psicólogos como categoria profissional, 
a conduta ética é analisada sob o ponto de vista da relação do psicólogo com 
seu paciente, do psicólogo com outros profissionais, e do psicólogo com a 
sociedade como um todo. Os códigos de ética vêm a agrupar e registrar aqueles 
princípios morais e formas de ação que foram socialmente construídos e 
representam uma conduta ética esperada no exercício profissional. 
A seguir, iremos apresentar a importância da conduta pautada pela ética no 
exercício profissional do psicólogo e os princípios fundamentais que regem a 
bioética, uma vertente da ética empregada para os dilemas e desafios da área 
da saúde. 
 
Bioética 
A ética deve permear toda a conduta profissional do psicólogoe deve ser um 
tema recorrente de discussão e reflexão desde a formação nos cursos de 
graduação. De nada adianta um profissional se aperfeiçoar teórica e 
tecnicamente, se não assumir uma postura ética, pautada na preservação dos 
direitos humanos essenciais. Aspectos como o sigilo do paciente e a relação em 
equipe multidisciplinar são apenas alguns dos vários pontos que o psicólogo 
deve atentar no exercício de sua profissão. 
Além dos padrões de conduta estabelecidos, o psicólogo pode se deparar no 
seu cotidiano com inúmeras situações e dilemas, em que uma reflexão ética será 
necessária para apontar o melhor caminho a seguir. Os princípios da 
bioética auxiliam o profissional da saúde a lidar com questões relacionadas à 
vida, a relação profissional-paciente e em relação à pesquisa com seres 
humanos. 
Segundo Calvetti, Fighera e Muller (2009), o termo bioética foi criado no ano de 
1970 pelo professor, biólogo e oncologista Van Resselaer Potter, diante dos 
desafios que a inovação tecnológica vinha trazendo aos tratamentos e 
intervenções de saúde. Assim, a bioética tem como objetivo integrar os 
diferentes aspectos das ciências biológicas com as ciências humanas, discutindo 
questões relacionadas à sobrevivência da humanidade e à promoção da saúde. 
São princípios da bioética: a beneficência, não maleficência, autonomia e justiça. 
(CLOTET, FEIJÓ e OLIVEIRA, 2005). A seguir, será explicado cada um desses 
princípios (CALVETTI, FIGHERA e MULLER, 2009). 
 
Princípios da bioética e psicologia 
 
Veja, abaixo, os princípios da bioética e psicologia: 
 
 
Beneficência 
É entendida como sendo a oferta da 
melhor assistência ao paciente, 
maximizando os benefícios do tratamento 
e minimizando os prejuízos. Para isso, é 
necessário avaliar as vantagens, os 
custos, os riscos e os benefícios dos 
tratamentos em saúde. 
Não maleficência 
Esse princípio destaca que os atos 
diagnósticos ou terapêuticos devem 
sobretudo evitar o dano, ou seja, não 
 
FIQUE DE OLHO: A psicologia desenvolve muitos dos conceitos e princípios 
da bioética, especialmente se considerarmos que o psicólogo é ao mesmo 
tempo um especialista em comportamento humano e um agente promotor de 
saúde e bem-estar. Para isso, é importante que a formação pessoal do 
psicólogo ocorra em paralelo a sua formação profissional, para que ele 
desenvolva uma visão de homem e de mundo atrelada à sua atuação junto ao 
paciente. 
Os princípios da bioética, embora sejam mais comumente associados à 
medicina e à escolha por tratamentos e intervenções de saúde, podem ser 
transpostos facilmente para a psicologia e para outras áreas da saúde que se 
caracterizam pela relação com pessoas em situações de doença (seja física ou 
mental) e fragilidade. Assim, os psicólogos não estão imunes a enfrentar 
dilemas éticos no exercício de sua profissão, e a área de avaliação psicológica 
requer um cuidado especial, visto que produz resultados que impactam 
consideravelmente a vida das pessoas (DIAS, GAUER, RUBINS e DIAS, 
2007). 
 
podem agravar o estado ou condição do 
paciente. 
Autonomia 
 
Refere-se ao direito da pessoa quanto à 
capacidade de decidir livremente sobre o 
consentimento ou a recusa de tratamento. 
Dessa forma, as pessoas têm o direito de 
decidir sobre tratamentos que dizem 
respeito ao seu corpo e sua vida, devendo 
o profissional de saúde respeitar esse 
direito de escolha. 
Justiça 
 
Esse princípio estabelece como condição 
fundamental a equidade, ou seja, o 
profissional tem a obrigação ética de tratar 
cada indivíduo conforme o que é 
moralmente correto e de dar a cada um o 
que lhe é devido. Assim, o profissional 
deve atuar com imparcialidade e não 
deixar que aspectos sociais, culturais ou 
religiosos, por exemplo, interfiram na 
condução de tratamentos (CLOTET, 
FEIJÓ e OLIVEIRA, 2005). 
Código de ética profissional do psicólogo 
Um código de ética é um conjunto de princípios gerais que fundamentam a 
prática de uma categoria profissional, sugere normas que explicitam situações 
profissionais e indicam caminhos que minimizam a ocorrência de falhas 
relacionadas à conduta com usuários dos serviços e colegas. O Conselho 
Federal de Psicologia entregou, em agosto de 2005, o código de ética 
profissional do psicólogo, por meio da Resolução CFP n. 010/05. 
Em sua apresentação, o código de ética profissional dos psicólogos deixa claro 
que se trata de uma construção baseada no respeito pelo sujeito e seus direitos 
fundamentais, a partir de valores contidos na Declaração Universal dos 
Direitos Humanos, refletindo também a realidade do país naquele momento. 
Assim, deixa claro que o conjunto de práticas e padrões de conduta não é algo 
fixo e imutável no tempo, sendo seu objetivo primordial promover a autorreflexão 
necessária a cada indivíduo para o bom exercício profissional, em consonância 
com os valores relevantes para a sociedade como um todo. Em outras palavras, 
um código de ética deve atuar na promoção de discussões sobre a ética, e não 
como ferramenta de controle e imposição de normas rígidas e inquestionáveis 
de conduta (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005). 
Sobre as responsabilidades e proibições ao psicólogo, deve-se destacar 
algumas que estão contidas no código de ética e estão relacionadas à área de 
avaliação psicológica. 
Responsabilidades e deveres éticos do psicólogo 
Por exemplo, é responsabilidade do psicólogo “assumir responsabilidades 
profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, 
teórica e tecnicamente” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005). Esse 
é um aspecto essencial para aqueles que querem trabalhar com avaliação 
psicológica, visto que não é suficiente a formação generalista resultante dos 
cursos de graduação. O psicólogo deve se instrumentalizar através de cursos de 
pós-graduação voltados para o ensino da prática de avaliação psicológica, ter 
conhecimento sobre testes e instrumentos, elaboração de laudos, além de saber 
como entregar os resultados e fazer encaminhamentos. 
Também cabe ao psicólogo “informar, a quem de direito, os resultados 
decorrentes da prestação de serviços psicológicos, transmitindo somente o que 
for necessário para a tomada de decisões que afetem o usuário ou beneficiário” 
(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005). Aqui se deve atentar para o 
pedido inicial para realização de uma avaliação psicológica, ou seja, qual a 
pergunta que deve ser respondida com determinada avaliação. Quaisquer 
informações que o psicólogo venha a ter acesso no processo de avaliação 
psicológica e que não se relacionem à demanda inicial não devem constar da 
devolução dos resultados, baseado no princípio do sigilo profissional. São 
exceções as situações de risco de vida e demais casos previstos em lei, em que 
o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca 
do menor prejuízo. 
Para Amendola (2014), cabe ao psicólogo em todas as circunstâncias em que 
for solicitada a sua atuação realizar uma escuta crítica dessa demanda, a fim 
de saber o que apresentar, e se necessário redefini-la ou dizer não quando o 
pedido superar suas possibilidades. Para isso é necessária uma postura ética e 
crítica para além das competências técnicas e instrumentais, e que contenha um 
olhar atento para os efeitos e consequências mais amplas de sua prática. 
Outra responsabilidade do psicólogo que merece atenção está expressa como 
“zelar para que a comercialização, aquisição, doação, empréstimo, guarda e 
forma de divulgação do material privativo do psicólogo sejam feitas conforme os 
princípios deste código” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2005). De 
acordo com a Resolução do CFP n° 007/2003, que institui o Manual de 
Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo psicólogo, decorrente 
de avaliação psicológica, todos os documentos escritos decorrentes de 
avaliação psicológica, bem como o materialque o fundamentou (testes e demais 
instrumentos, relatos de observação e de entrevistas), devem ser guardados 
pelo prazo mínimo de cinco anos. Essa responsabilidade cabe tanto ao psicólogo 
quanto à instituição em que ocorreu a avaliação psicológica (CONSELHO 
FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2003). 
A respeito das vedações ao exercício do psicólogo, cabe mencionar o item 
“interferir na validade e fidedignidade de instrumentos e técnicas psicológicas, 
adulterar seus resultados ou fazer declarações falsas” (CONSELHO FEDERAL 
DE PSICOLOGIA, 2005), pertinente aos resultados produzidos por uma 
avaliação psicológica. Cabe ao psicólogo, ao realizar um processo de avaliação, 
atuar de maneira imparcial quanto aos resultados e interpretações decorrentes 
do uso de instrumentos, avaliando tais dados à luz do contexto socioambiental 
do avaliando, pautado nos princípios da justiça e da não maleficência, ou seja, 
evitando o dano ao indivíduo. 
Além de esclarecer as responsabilidades, as vedações e as formas gerais de 
conduta, o código de ética profissional dos psicólogos apresenta as formas 
previstas de punição diante de faltas éticas, a saber: advertência, multa, 
censura pública, suspensão do exercício profissional por até 30 dias e cassação 
do exercício profissional, as duas últimas dependendo da aprovação do 
Conselho Federal de Psicologia (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 
2005). 
Neste momento, após essa breve explanação sobre o código de ética dos 
psicólogos, acredita-se que seja possível ampliar a perspectiva sobre a ética na 
avaliação psicológica, bem como apresentar as resoluções que foram 
produzidas pelo Conselho Federal de Psicologia, com vistas a orientar a conduta 
ética dos profissionais. 
 
Ética na avaliação psicológica 
A qualidade dos documentos psicológicos resultantes de avaliações tem sido 
uma constante preocupação de docentes e pesquisadores no Brasil, e também 
do Conselho Federal de Psicologia, visto que houve um aumento no número de 
denúncias e penalizações de psicólogos que cometem infrações ao código de 
ética. Sem dúvida, há uma qualificação insuficiente dos psicólogos que atuam 
em diversos segmentos de trabalho e que se veem frente ao desafio de produzir 
documentos psicológicos em diversas situações, como na área jurídica, para 
seleção de emprego, concursos públicos, porte de arma e procedimentos 
cirúrgicos, como são o caso da cirurgia bariátrica e da cirurgia de vasectomia, 
entre outros (AMÊNDOLA, 2014). 
Segundo Rodrigues (2011), a avaliação psicológica geralmente é realizada 
utilizando-se um modelo psicológico de natureza clínica que envolve: 
 
 o levantamento de perguntas relacionadas com os motivos da consulta, 
que levarão à definição de hipóteses e objetivos da avaliação; 
 o planejamento, seleção e utilização de instrumentos de exame 
psicológico; 
 o levantamento quantitativo e qualitativo dos dados, integração das 
informações coletadas e inferências para a formulação do laudo; 
 a entrevista devolutiva para a comunicação dos resultados; 
 a orientação, encaminhamento e encerramento do processo com a 
formulação final de um relatório. 
 
A avaliação psicológica é uma atividade exclusiva dos psicólogos, assim como 
os testes psicológicos são de uso restrito a essa categoria profissional. Apesar 
disso, diversos testes, questionários e instrumentos que avaliam aspectos 
emocionais, cognitivos e comportamentais podem ser utilizados por outros 
profissionais que trabalham com pessoas. Esses instrumentos são chamados de 
não privativos e podem ser usados por psicólogos de forma complementar e 
secundária à avaliação, desde que sejam fundamentados em literatura científica. 
De qualquer forma, utilizando-se ou não de testes psicológicos em um processo 
de avaliação psicológica, o psicólogo deve sempre atentar para o uso adequado 
das informações geradas e principalmente para a cientificidade dos instrumentos 
utilizados na avaliação. 
 
Resoluções do Conselho Federal de Psicologia 
Segundo Muniz (2018), é preciso que o psicólogo no Brasil tenha conhecimento 
sobre as resoluções do Conselho Federal de Psicologia, que normatizam 
algumas práticas e contextos específicos da avaliação psicológica, além 
daqueles contidos no código de ética. Tais resoluções abordam aspectos 
específicos do uso da avaliação psicológica em diferentes contextos, e sobre 
elas vamos tratar a seguir. 
 
Resolução CFP n. 002/2016 
A resolução CFP 002/2016 foi elaborada para regulamentar a avaliação em 
concursos públicos e processos seletivos de natureza pública e privada, 
revogando a Resolução CFP Nº 001/2002. Teve como objetivo aprimorar os 
serviços técnicos dos psicólogos e também defender a população usuária 
desses serviços, os candidatos, estabelecendo normas que visam garantir a 
qualidade técnica das avaliações, bem como as condições legais e éticas 
adequadas. Leva em conta a necessidade de orientar tanto psicólogos quanto 
instituições sobre os procedimentos adequados em processos de avaliação 
psicológica, nos níveis técnico, legal e ético (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2016). 
Para cumprir tal propósito, a resolução apresenta uma série de artigos, entre os 
quais se faz necessário destacar alguns. Quanto aos editais dos concursos 
públicos, por exemplo, este deve apresentar de modo objetivo os construtos e 
dimensões psicológicas a serem avaliados, assim como quais os procedimentos 
cabíveis no caso de interposição de recursos; na elaboração do edital, ainda, é 
obrigatória a participação de psicólogo para definir tais construtos e dimensões 
(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2016). 
Seguindo, a resolução estabelece que o psicólogo deve se declarar impedido de 
avaliar candidatos com os quais tenha relação próxima, que possa afetar a 
qualidade do trabalho que será realizado, um aspecto ético pertinente ao 
trabalho dos psicólogos em geral, inclusive no atendimento clínico. Um processo 
de avaliação psicológica deve ser isento de vieses que possam influenciar a 
devolução dos resultados, devendo o psicólogo atentar para julgamentos e 
interpretações de ordem pessoal, preferências e interferências de qualquer 
natureza nos resultados (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2016). 
Quanto à devolução de resultados, somente o candidato tem o direito de 
conhecê-los por meio de entrevista devolutiva, podendo o candidato requerer 
formalmente um documento resultante de sua avaliação psicológica. Isso vai de 
encontro ao princípio ético da autonomia do candidato (usuário), que poderá 
decidir na posse de documento resultante de uma avaliação psicológica sobre 
seu direito de interpor recursos, no caso de ter sido considerado inapto 
(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2016). 
 
Resolução CFP 009/2018 
A Resolução 009/2018 trata das diretrizes básicas para a realização da 
avaliação psicológica, incluindo o uso de métodos, técnicas e instrumentos. 
Preza fortemente pela justiça e proteção dos direitos humanos, sendo uma 
resolução de grande destaque para a área da avaliação psicológica. Além disso, 
regulamenta sobre a avaliação para que um teste receba a designação de teste 
psicológico e seja favorável para o uso dos profissionais psicólogos. 
A partir da elaboração da Resolução 009/2018, foram revogadas as Resoluções 
n. 002/2003 (sobre o uso, a elaboração e a comercialização de testes 
psicológicos) e n. 005/2012 (atualização da resolução de 2003), assim como as 
Notas Técnicas n. 01/2017 (com orientações para psicólogos, editoras e 
laboratórios sobre o uso de serviços, recursos e produtos psicológicos em 
ambiente virtual), e n. 02/2017 (com atualização de orientações de normas de 
testes psicológicos). Tais iniciativas foram fundamentais para a qualificação dos 
instrumentos de avaliação psicológica e para a evolução da psicologia como 
ciência, na medida em que propiciaram que psicólogos e instituições 
oferecessem à sociedade uma atuação pautadana ética, e em consonância 
como o que está no código de ética profissional (MUNIZ, 2018). 
 
FIQUE DE OLHO: O Conselho Federal de Psicologia elaborou e publicou em 
2010 um documento que trata das diretrizes para a regulamentação da profissão, 
especialmente sobre a temática da avaliação psicológica. É uma leitura 
essencial para aqueles que querem se aprofundar sobre temas que circundam 
a avaliação psicológica. Recomenda-se a leitura do capítulo 4, de autoria de 
Alexandra Ayach Anache e Caroline Tozzi Reppold intitulado “Avaliação 
psicológica: implicações éticas”. Os dados para acesso a este material se 
encontram nas referências bibliográficas. 
No que concerne ao tema da ética, alguns pontos merecem destaque nessa 
resolução. Por exemplo, é considerada uma falta ética a utilização de testes 
psicológicos com parecer desfavorável ou que constem na lista de testes não 
avaliados no site do SATEPSI. É considerada exceção a utilização de tais testes 
em casos de pesquisa na forma da legislação vigente, e de ensino com objetivo 
formativo e histórico na psicologia ( CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 
2018). 
Reforçando o que já consta no código de ética dos psicólogos, a Resolução 
009/2018 traz a questão da justiça e da proteção dos direitos humanos em seu 
último item, do artigo 30 ao 33. Salienta que o psicólogo deve atender aos 
requisitos técnicos e científicos no processo de avaliação psicológica, além de 
considerar os princípios do código de ética. Já em relação à produção, validação, 
comercialização e aplicação dos testes psicológicos, ao psicólogo é vedado: 
realizar atividades que caracterizem negligência, preconceito, exploração, 
violência, crueldade ou opressão, bem como induzir a quaisquer tipos de 
convicção (ideológicas, políticas, religiosas, de orientação sexual, entre outras) 
(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2018). 
Além disso, o psicólogo deve atuar na realização de estudos, pesquisas e 
produção de conhecimento considerando os processos de desenvolvimento 
humano, configurações familiares, sexualidade, identidade de gênero, as 
características de pessoas com deficiência, classe social, entre outras 
construções sociais, históricas e culturais (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2018). 
 
Ética no uso dos instrumentos de avaliação psicológica 
Como foi visto, o CFP preocupa-se em estabelecer padrões de conduta e 
requisitos técnicos para que os psicólogos tenham parâmetros em sua atuação 
profissional na área de avaliação psicológica, levando em conta seus deveres, 
valores e responsabilidades para com a ciência e com os usuários de seus 
serviços. 
Princípios éticos, exercício profissional e uso de testes 
De acordo com Wechsler (2001), a Associação Psicológica Americana 
desenvolveu o primeiro código de ética para a profissão na década de 1950, 
ordenando seis princípios gerais destinados a orientar os psicólogos para os 
ideais superiores da profissão. São eles: competência, integridade, 
responsabilidade científica e profissional, respeito pela dignidade e direitos das 
pessoas, preocupação com o bem-estar do outro e responsabilidade social. 
A figura “Princípios éticos na atuação do psicólogo” apresenta de forma 
esquemática como esses princípios operam na atuação do psicólogo. 
 
De acordo com Godoy e Noronha (2005), é importante que os psicólogos tenham 
condições de reconhecer e entender os usos e as limitações dos testes que 
utilizam, levando em conta que eles são construídos para avaliar certos eventos, 
procedimentos ou atributos, numa população específica e sob circunstâncias 
restritas. No planejamento da avaliação psicológica, desde a escolha dos testes 
e instrumentos até a elaboração do laudo e devolução dos resultados, o 
psicólogo deve ter capacidade de antever os possíveis conflitos éticos que 
venham a surgir e que podem afetar a qualidade do trabalho prestado, quando 
malconduzidos pelo profissional. Wechsler (2001, apud ANACHE e REPPOLD, 
2010) descreveu uma lista de dez deficiências graves no uso dos testes 
psicológicos, de acordo com a opinião de especialistas ao redor do mundo, a 
saber: 
 
 fotocopiar material sujeito a direitos autorais; 
 utilizar testes inadequados na sua prática; 
 estar desatualizado na sua área de formação; 
 desconsiderar os erros da medida nas suas interpretações; 
 utilizar folhas de resposta inadequadas; 
 ignorar a necessidade de explicações sobre pontuação nos testes aos 
solicitantes da avaliação; 
 permitir aplicação dos testes por pessoal não qualificado; 
 desprezar condições que afetam a validade dos testes em cada cultura; 
 ignorar a necessidade de arquivar o material psicológico coletado; 
 interpretar além dos limites dos testes utilizados. 
 
Tais deficiências devem ser continuamente debatidas em âmbito nacional e 
internacional, para que a avaliação psicológica seja uma prática cada vez mais 
consolidada, com diretrizes claras e profissionais capacitados para o seu 
exercício. Vale lembrar que a consulta ao Sistema de Testes Psicológicos – 
SATEPSI é obrigatória para selecionar apenas instrumentos e testes favoráveis, 
o que garante que evidências científicas foram e estão sendo produzidas com 
qualidade suficiente para que o instrumento seja permitido para uso. Após a 
verificação da validade do teste no SATEPSI, cabe também ao psicólogo analisar 
suas normas e se a aplicação do teste está permitida para todas as faixas etárias 
e graus de instrução, caso contrário, o psicólogo estará cometendo o erro de 
selecionar um teste inadequado para o avaliando em questão. 
 
Situações que envolvem potenciais conflitos éticos 
Hutz (2015) pontua algumas situações em que o psicólogo pode se deparar com 
alguns dilemas éticos no exercício da avaliação psicológica. Por exemplo, uma 
solicitação muito frequente é a de avaliação psicológica com vistas 
ao diagnóstico clínico, ou psicodiagnóstico, por meio da qual o psicólogo 
diagnostica uma suspeita de depressão, risco de suicídio ou transtorno de déficit 
de atenção. É importante que nesses casos o psicólogo tenha, além do 
conhecimento sobre a avaliação, testes e técnicas, um profundo conhecimento 
sobre psicopatologia, para que suas conclusões não tragam graves prejuízos ao 
avaliando, lembrando o princípio da não maleficência. 
A área jurídica é outro contexto que traz inúmeros desafios e situações 
delicadas de avaliação, em que o psicólogo é solicitado a produzir pareceres 
sobre adoção, guarda de menores, situações de abuso físico e sexual, entre 
outras. Muitas vezes, há uma determinação judicial para que a pessoa faça a 
avaliação psicológica, sem possibilidade de recusar-se sem sofrer 
consequências. Apesar desse contexto, é importante que a pessoa a ser 
avaliada saiba o que será feito e que estará sendo avaliado, bem como quem 
terá acesso às informações produzidas de forma clara (HUTZ, 2015). 
Nas organizações, o psicólogo é requisitado para avaliar candidatos a vagas 
profissionais, bem como avaliar candidatos em concursos públicos. Nessas 
situações, e em todas as demais, é imprescindível que o psicólogo atente para 
as questões de confidencialidade das informações e privacidade do candidato, 
especialmente na elaboração do laudo escrito, não expondo o que não é 
relevante aos objetivos da avaliação. Igualmente, a decisão para considerar um 
candidato apto ou inapto deve estar pautada em critérios objetivos e 
fundamentação teórica (HUTZ, 2015). 
Ética na avaliação psicológica e no uso dos instrumentos de avaliação: 
requisitos legais 
A seguir, será apresentado de maneira resumida como ocorre a instauração 
de processos éticos disciplinares junto aos conselhos regionais de 
psicologia no Brasil, e ainda informações sobre um levantamento recente junto 
ao Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, que esclarecem sobre os 
principais temas relacionados às infrações éticas no país. 
Processo ético disciplinarDe forma geral, o processo de investigação das faltas éticas ocorre quando 
uma denúncia é feita contra o psicólogo por infringir o código de ética profissional 
ou cometer faltas disciplinares. Tais denúncias podem ser feitas por qualquer 
pessoa que se sinta lesada por um psicólogo ao contratar seus serviços. Para 
realizar uma denúncia, a pessoa deve se apresentar ao Conselho Regional de 
Psicologia (CRP) em que o psicólogo denunciado estiver inscrito, portando um 
documento com os seguintes dados: nome e qualificação de quem denuncia; 
nome e qualificação do profissional denunciado; descrição detalhada do fato; 
provas documentais que possam auxiliar no processo de apuração e quaisquer 
meios existentes que sustentem o que é alegado (ZAIA, OLIVEIRA e NAKANO, 
2018). 
Cabe a cada jurisdição regional investigar as denúncias, mantendo sob sigilo seu 
conteúdo, a fim de apurar os fatos. As denúncias são encaminhadas à Comissão 
de Ética de cada região, que irá inquirir o psicólogo denunciado, analisar a 
documentação apresentada e, posteriormente, redigir um parecer a respeito da 
conduta ética investigada. A comissão então terá condições de recomendar a 
exclusão da representação, a mediação das partes envolvidas ou, ainda, a 
instauração do processo ético disciplinar. Considerando a complexidade dos 
procedimentos que envolvem a análise e instauração de processos éticos, 
sugere-se a visualização da Resolução n° 006/2007 (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 2007) sobre o Código de Processamento Disciplinar para maiores 
detalhes. 
 
Dados atuais sobre processos éticos julgados – CRP-SP 
Muniz (2018) realizou recentemente um estudo de levantamento dos processos 
éticos julgados pelo CRP-SP entre os anos de 2014 e 2018, que traz dados 
interessantes sobre os principais temas dos processos instaurados, locais de 
atuação dos psicólogos e tipos de julgamentos. Nos anos de 2015 e 2016, por 
exemplo, 44,74% e 55% dos processos que foram julgados referiam-se à área 
de avaliação psicológica, respectivamente. Já em 2017, esse número caiu para 
11% dos processos, o que representa uma redução positiva. 
Quanto ao tipo de julgamento, observou-se que 75% do total de processos 
receberam penalidade de advertência, seguido de censura pública (13,33%) e 
arquivamentos (11,11%). Em relação ao tema dos processos julgados, mais da 
metade (55,56%) referiram-se à Vara de Família, assim como o local de atuação 
do psicólogo que mais se destacou entre os processos foi o consultório 
(51,11%). 
Sobre as práticas julgadas nos processos de ética, a produção de documentos 
e o manejo da avaliação psicológica foram as que mais aparecerem como 
motivos de denúncia, contabilizando 72% dos processos. A tabela abaixo 
apresenta as práticas em que houve ocorrências de infrações éticas no período 
analisado pela autora, entre 2014 e 2018. 
 
Como fica claro, a produção de documentos escritos que decorre da avaliação 
psicológica se sobressai entre as práticas julgadas, em especial os laudos 
psicológicos, que necessitam conter uma análise fundamentada de forma 
técnica, científica e ética. A Resolução 06/2019 veio para atualizar as regras 
concernentes à elaboração de documentos escritos produzidos pelo psicólogo 
no exercício profissional, revogando as Resoluções CFP nº 15 /1996, nº 07/2003 
e a nº 04/2019 (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2019). Da mesma 
forma, no manejo da avaliação psicológica, deve-se atentar para a falta de 
fundamentação ou habilidade na condução do processo de avaliação 
psicológica, o que está em concordância com o que muitos autores pontuam 
sobre as deficiências na formação em avaliação psicológica (MUNIZ, 2018; 
FRIZZO, 2004). 
Assim, para finalizar esta unidade sobre a importância de se pensar eticamente 
na avaliação psicológica, ressalta-se a importância da consciência social, bem 
como dos princípios fundamentais de direito, dever, justiça, igualdade, liberdade, 
solidariedade e respeito na atuação do psicólogo, seja em qualquer âmbito. A 
formação ética permanente deve ser uma constante em todas as etapas do 
desenvolvimento do ser humano, na família, escola e outros meios sociais. Ao 
internalizarmos uma postura ética perante a vida, o código de ética profissional 
será apenas um instrumento de orientação e normatização, de discussão e 
reflexão, e não um instrumento coercitivo e punitivo. 
 
Conclusão 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
 
 conhecer algumas noções preliminares sobre ética e os princípios que 
norteiam a bioética em sua intersecção com a psicologia; 
 estudar o código de ética profissional do psicólogo, conhecer as 
responsabilidades e deveres do psicólogo no exercício profissional e a 
ética na avaliação psicológica; 
 compreender alguns aspectos de importantes resoluções do Conselho 
Federal de Psicologia que tratam sobre a ética na avaliação psicológica; 
 refletir sobre a ética no uso de instrumentos de avaliação psicológica, os 
princípios éticos que regem a atuação profissional do psicólogo e 
situações de avaliação que podem trazer dilemas éticos; 
 saber sobre os passos dos processos éticos disciplinares junto aos 
conselhos regionais de psicologia, bem como dados recentes sobre um 
levantamento de processos éticos julgados.

Mais conteúdos dessa disciplina