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W BA 05 00 _V 2. 1 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS 2 Kellin Cristina Melchior Inocêncio São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2022 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS 1ª edição 3 2022 Platos Soluções Educacionais S.A Alameda Santos, n° 960 – Cerqueira César CEP: 01418-002— São Paulo — SP Homepage: https://www.platosedu.com.br/ Head de Platos Soluções Educacionais S.A Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Giani Vendramel de Oliveira Revisor Liliane de Almeida Barbosa Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Inocêncio, Kellin Cristina Melchior Alfabetização e letramento: fundamentos metodológicos / Kellin Cristina Melchior Inocêncio. – São Paulo: Platos Soluções Educacionais S.A., 2022. 32 p. ISBN 978-65-5356-243-1 1. Alfabetização. 2. Letramento. 3. Metodologia. I. Título. CDD 379.24 _____________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB: 010289/O I58a © 2022 por Platos Soluções Educacionais S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Platos Soluções Educacionais S.A. https://www.platosedu.com.br/ 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Concepção e processos históricos da alfabetização no Brasil __ 07 Linguagem e a aprendizagem da leitura e da escrita ________ 24 Alfabetizar letrando: suas implicações teóricas, sociais e práticas _____________________________________________________ 37 A alfabetização e os recursos pedagógicos e tecnológicos digitais _______________________________________________________ 49 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS 5 Apresentação da disciplina Aprimorar-se nas possibilidades metodológicas voltadas para a alfabetização e letramento de crianças é, sem dúvida, um desafio. Portanto, convido você a cursar a disciplina “Alfabetização e letramento: fundamentos metodológicos” a fim de construir novos saberes teóricos e práticos docentes, reconstruindo concepções de termos fundamentais para o professor alfabetizador de crianças, além de refinar possibilidades de aplicabilidade lúdicas e digitais, estando em consonância com práticas metodológicas contemporâneas que atendam às expectativas dos estudantes do século XXI, das instituições de ensino e das famílias em relação à aquisição da leitura e da escrita. Entretanto, a fim de desenvolvermos conhecimentos atuais, é fundamental transitarmos entre concepções e processos históricos da educação e da alfabetização, justamente para compreendermos a construção da alfabetização das crianças no Brasil, e mais, como esse processo se fez e se refez ao longo do tempo, bem como suas implicações políticas e sociais, incluindo a legislação e a organização curricular. Além desse conhecimento, torna-se relevante a concepção e diferenciação dos termos alfabetização e letramento, pois compreender de fato e na prática o que é alfabetizar e o que é alfabetizar letrando transforma a mediação docente, incluindo a percepção acerca da aquisição da leitura e da escrita e as relações sociais e significativas de seus usos pelas crianças. Essas condições supracitadas permitem que a disciplina aborde o reconhecimento da alfabetização como exercício da cidadania, atentando o docente para a relação do uso dessa escrita e dessa leitura 6 para outras fases da vida, enfatizando o cotidiano, a construção do pensamento crítico e da autonomia enquanto sujeito social. E como essa sociedade é digital, a disciplina contempla as possibilidades metodológicas a partir do olhar ativo, englobando os recursos tecnológicos digitais da comunicação e da informação no processo alfabetizador de crianças, demonstrando ao professor as diferentes possibilidades e olhares para a alfabetização e para o letramento. Bom estudo! 7 Concepção e processos históricos da alfabetização no Brasil Autoria: Kellin Cristina Melchior Inocêncio Leitura crítica: Liliane de Almeida Barbosa Objetivos • Compreender o processo histórico da alfabetização no Brasil e suas articulações políticas e sociais. • Conhecer os avanços da alfabetização de jovens e adultos. • Constituir uma concepção para o termo “alfabetização”. 8 1. Concepção e processos históricos da alfabetização no Brasil Compreender quais caminhos históricos a alfabetização de crianças trilhou ao longo do tempo é fator preponderante e que nos permitirá uma análise do cenário atual. Para tanto, iniciamos afirmando que a alfabetização no Brasil passou por transformações importantes desde o período do Brasil Império até a contemporaneidade. Essas alterações que veremos ao longo da aula demonstram histórica e socialmente os processos e critérios que determinavam e definiam a alfabetização: o que é de fato critério para considerar um sujeito alfabetizado? Quais os movimentos metodológicos que direcionavam como deveria ser construída a alfabetização?. Para tanto, transitaremos em um longínquo período e veremos os pontos relevantes que contribuíram para nossa disciplina, a evolução e consolidação da alfabetização no Brasil entre os anos de 1759 até a primeira década do século XXI. 1.1 Alfabetização colonial No contexto inicial do Brasil Império não podemos deixar de fora a educação Jesuítica e toda a sua organização curricular, afinal, falar em história da educação é associar os primeiros fatos a esse modelo educativo. Os inacianos estavam em território brasileiro com a intenção de evangelizar os povos nativos, e por meio das relações catequéticas introduziram as letras aos indígenas. Alguns mencionam tal fato com um olhar negativo, entendendo-se que foi retirada dos indígenas a possibilidade de escolha, sendo eles então inseridos em uma cultura letrada que não desejavam. Para outros estudiosos, esse fato é percebido com grandiosidade, pois por meio da religiosidade e da ludicidade os indígenas puderam ver o mundo de outra maneira. 9 Assim, no período Jesuítico, a alfabetização ocorria por meio das cartilhas de João de Barros. Esse material era dividido pelas letras do alfabeto, com ilustrações associadas, em seguida apresentava as junções de sílabas simples e triplas – vogal e consoante, para, por último, articular esse conteúdo com os aspectos religiosos, as orações como Ave-Maria em latim, além dos mandamentos da igreja católica. Entretanto, o ano de 1759 foi marcado exatamente pela expulsão dos Jesuítas, seguida da reforma Pombalina. Nesse momento é relevante retornar a nossos estudos da educação básica e compreender com olhar docente o que de fato significou para a educação esse movimento. Temos aqui a reforma do ensino realizada por Marquês de Pombal, ou seja, sai de cena a educação Jesuítica e sua organização curricular com o Ratio Studiorum. Pombal institui a educação em estudos menores e maiores e para o Brasil, tendo sido criadas aulas régias de primeiras letras e de gramáticas. As aulas régias, porém, eram direcionadas para a elite e não tinham como objetivo direto a alfabetização, tampouco evidenciava o aspecto social envolvendo a aquisição da leitura e da escrita. Entretanto, nas aulas de preparo a alfabetização se dava justamente para que os estudos daelite pudessem continuar, especialmente nas universidades portuguesas e francesas. A alfabetização – ou primeiras letras – era realizada nas fazendas por preceptores, em especial padres seculares, contratados pelos fazendeiros para seus filhos. Nesse período de transição foi criada uma condição para a educação que traz suas heranças até os tempos atuais. Foi instituída a escola pública e laica, enfatizando que não havia mais educação por princípios religiosos – assim, a Coroa portuguesa assume a educação e os métodos de alfabetização foram iniciados. Naturalmente, nesse início eram aqueles métodos utilizados em Portugal que ocupavam espaço nas suas cartilhas. Para percepção dos métodos nesse período, observe o quadro a seguir: 10 Quadro 1 – Exemplos de métodos MÉTODO ESPECIFICIDADE Individual Atendimento individualizado aos alunos. Simultâneo Atendimento coletivo – subgrupos de alunos. Silabação ou palavração Ênfase recai na palavra e não no texto. Método Lancaster, monitoral ou mútuo Ensino coletivo – domínio dos alunos avançados. Método João de Deus Pequenos grupos de alunos – relação da leitura com a fala – Utilizava a cartilha maternal. Intuitivo ou lição de coisas A educação das vivências – ensino por etapas e formas de letras. Fonte: elaborado pela autora. Percorrendo o tempo adentramos na década de 1772, e temos as primeiras escolas públicas, também conhecidas como escolas de primeiras letras. Foram criadas com o objetivo de alfabetizar, porém, quase um século depois ainda eram poucas, e tinham especificidades que atrapalhavam o processo de aprendizagem, como grupos de estudantes em vários níveis ou estágios – em algumas situações eram encontradas em uma mesma turma crianças de 3 até 15 anos de idade classificadas apenas pelo sexo, e um único professor para reger todo esse processo que era um tanto desorganizado, sem data para iniciar e não seriado, podendo permanecer por aproximadamente seis anos ou até que o educando aprendesse a ler e a escrever. A alfabetização, porém, tinha um plano de estudos para o ensino das primeiras letras, e seguia utilizando cartilhas e compêndios. Toda essa condição era um avanço para a alfabetização, entretanto, não havia a relação entre teoria e prática, ou seja, não se relacionava a alfabetização com a vivência social; era tão somente a compreensão do código alfabético. 11 Mesmo com o passar do tempo e já na década de 1823, a alfabetização seguia o mesmo processo em relação ao código alfabético, porém, era iniciada por meio do método de ensino mútuo de Lancaster e Bell. Nesse período foi instituída a Lei Geral de Ensino no Brasil, e a intenção do processo de ensino e aprendizagem incluía a alfabetização, porém, ainda fragmentada, pois voltava-se para os meninos que frequentassem a escola das primeiras letras. Essa condição alfabética e o método aplicado era uma junção percebida como capaz de modificar a condição econômica do país e responsável por isso, diminuindo o analfabetismo e buscando uma alfabetização construída de maneira popular e com pouco tempo. Esse método foi aplicado até o ano de 1854, e depois a alfabetização se deu a partir da reforma de Couto Ferraz, que inseriu um professor adjunto ou alfabetizador; além disso a educação passava a ser obrigatória para crianças de 5 a 15 anos de idade. É relevante enfatizar que essa discussão acerca da faixa etária e da obrigatoriedade da alfabetização de crianças é antiga, porém, permanece na contemporaneidade e se altera a partir das perspectivas de governos. Na década de 2020 as crianças precisam adquirir as habilidades da leitura e da escrita até o segundo ano do ensino fundamental, ou seja, com oito anos de idade. Historicamente, mesmo com essas alterações, a alfabetização não se daria tão facilmente, afinal, nem escolas suficientes existiam – podemos dizer que havia mais analfabetos do que as escolas poderiam agregar. Em 1870 temos o início da criação da educação para todos, a escola primária, que se efetivaria por meio da cobrança de tributação. A renda viria para subsidiar a construção das escolas, denominadas “casas de escola próprias”. Nesse período, a intenção era de um grupo escolar ser caracterizado como um prédio que agregaria de quatro a dez escolas, compreendidos no raio da obrigatoriedade escolar. O método para alfabetizar era o intuitivo, que buscava mesclar a ação disciplinar e a ludicidade, pois a escola passaria a ensinar conteúdos articulados ao cotidiano. 12 A partir dos fatos relatados acerca da alfabetização no período do Brasil Império é possível iniciarmos algumas considerações a respeito da concepção de alfabetização, sobretudo na relação da escola com a sociedade e a partir dos interesses políticos. Dessa maneira, é fundamental compreendermos que a desigualdade social era imensa e considerada fator preponderante nas discussões que tratavam da alfabetização e sua construção, ou seja, da escola como instituição, e a alfabetização não era para todos de fato. Assim, embora possamos perceber esforços empreendidos para a educação ao longo do período do Brasil Império, é nítida a fragilidade e a irrelevância em relação à educação primária popular e a alfabetização. 1.2 A alfabetização no Brasil República Adentrando a primeira república, período de 1889 até 1930, percebe- se que a alfabetização se embasava em métodos que não eram brasileiros – acreditava-se que o modelo educacional – principalmente da Europa e da América do Norte – vivenciava um progresso intenso e, dessa maneira, um transplante cultural ocorria, sem levar em conta a cultura brasileira e as especificidades do país. Assim, o Brasil buscou se transformar, tentando deixar de lado sua face agrária, dos coronéis, para, na sequência, iniciar um processo de industrialização. A alfabetização, porém, pós Proclamação da República, já em meados de 1890, esteve articulada à Revolução do Ensino Paulista, e mesmo que o país tenha tido avanços econômicos, a educação sofreu por quase cinco décadas a descentralização pedagógica que foi herdada do período imperial. Tal fato culminou em uma sucessão de ações que dificultou a implantação de um sistema de ensino que abrangesse uniformemente todo o território nacional. Em 1920 a população brasileira somava cerca de 80% de analfabetos, índice que espelhava a realidade do país: uma educação que na verdade 13 não era para todos, sem qualidade e com um povo sem perspectivas de alfabetização a partir de suas realidades econômicas, sociais e culturais. Uma nova escola normal foi planejada, voltando-se para a formação inicial e para o desenvolvimento das crianças: era preciso mudar a realidade a partir das crianças. Isso colocava a escola em outra condição, pois era necessário que a quantidade de instituições escolares aumentasse, e que existissem professores de qualidade para nelas trabalharem. Como a reforma de 1922 realizada por Lourenço Filho, fixava-se no Brasil uma organização pedagógica nova para as escolas primárias e, assim, foram abandonadas algumas amarras oriundas do período imperial e do modo individual, mnemônico e automático de ensino. Foi aberto espaço para um ensino com métodos racionais e considerado, para o período histórico, adequado e com aplicação para a vida, contando com professores alfabetizadores com treinamento e formação profissional. A segunda fase da República, compreendida entre os anos de 1930 e 1971, é marcada pelo desafio de ampliação do ensino fundamental, incluindo assim a alfabetização, porém, diversas condições – políticas, sociais e econômicas – não eram favoráveis. Nesse movimento a população crescia rapidamente, o que levou ao surgimento desordenado de novas metrópoles, resultando em problemas sociais e de infraestrutura: era a migração rural-urbana em várias regiões do país, com um grande fluxo de pessoas se instalando em cidades prósperas. Consequentemente, houve um grande número de analfabetos no país. A cultura eraoutro ponto fundamental e que precisava ser difundida no país. Ela se articula à conscientização, ao letramento, à capacidade de perceber o outro e o mundo, condição que enfatizava a alfabetização como necessária – porém, não apenas uma decodificação em um processo de memorização, mas de interpretação, de ação social, de percepção do sujeito a partir da leitura e da escrita. A escola precisava 14 mudar, os professores precisavam de formação adequada, a indústria deveria contribuir, e os governantes, obviamente, precisavam trabalhar por essa causa. As constituições do Brasil Republicano tomavam como princípio básico a educação como direito de todos e, nessa perspectiva, a escola se colocava como obrigatória e gratuita – para tanto, era necessária uma expansão das instituições de ensino no país. As reformas de ensino, assim como na Primeira República, se expandiram, porém, não foram suficientes e sólidas a ponto de promoverem qualidade educacional e acesso para todos. Nesse período da República, precisamente em 1934, o movimento Nacional da Escola Nova cresceu, e Lourenço Filho, Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira tomavam a frente na constituição de uma nova maneira de gestar a educação básica no Brasil. Era a busca por um processo de modernização na maneira de ensinar e aprender, envolvendo tanto discente como docente. A Escola Nova e seu movimento reformador não foi capaz de atingir a esfera nacional, e isso se deu por diversos fatores, como a falta de recursos, de edifícios e da qualidade do ensino que não atingiu o nível esperado, sobretudo na alfabetização. Entretanto, a Escola Nova se evidenciou de maneira ainda positiva perante o atual cenário da educação, pois estabeleceu definitivamente, para a sociedade, uma imagem fundamental da criança escolarizada, ou seja, não se questionava mais a presença da criança na escola, tampouco a atrelava à condição social. Em conclusão, a criança deveria, obrigatoriamente, ser alfabetizada, e isso permitia construir novas perspectivas para o país, com novos índices de alfabetizados e uma sociedade capaz de avançar social e economicamente. Os aspectos políticos também interferiram na história da alfabetização no Brasil, particularmente na intencionalidade de criar eleitores, assim, na década de 1945 o Estado Novo de Getúlio Vargas terminou 15 e a democracia abria a possibilidade do voto. Para tanto foi criada a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos, dirigida principalmente ao meio rural, com o objetivo de alfabetizar e concluir o primário em tempo menor. Por outro lado, o professor não era valorizado: eram, em sua maioria, voluntários mal remunerados. Outro ponto relevante e que permeia a educação como um todo – e de igual modo a alfabetização, sobretudo na obrigatoriedade, – é o surgimento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no ano de 1961. A intenção era a de promoção e centralizar as relações que envolvem a educação no Brasil. A mesma legislação foi reformulada em 1971 e 1996. Cabe ressaltar que na década de 1950 o analfabetismo, a evasão e a repetência eram os principais problemas, entre vários outros como a má remuneração do professorado, escolas sucateadas, falta de investimentos e suporte do estado. Como visto, as escolas passaram por diversas transformações, incluindo os seus turnos e permanência dos estudantes em sala de aula, mas o resultado para a alfabetização foi catastrófico, e o número de analfabetos subiu no país durante a Segunda República. 1.3 O combate ao analfabetismo e os programas governamentais A construção da alfabetização de crianças se inseriu ao longo do tempo como uma ação de combate ao analfabetismo no Brasil, principalmente pela obrigatoriedade da criança na escola. Historicamente alguns programas foram implementados em diferentes governos, a fim de atingir esse objetivo que, além da relação social, haviam imbuído muitos interesses políticos e econômicos. Iniciamos pela década de 1960 e, em 1963, quando o então presidente da República, João Goulart, apresenta o Plano Nacional de Alfabetização, um programa voltado para 16 a alfabetização de jovens e adultos O plano almejava a alfabetização de adultos do município de Angicos, no Estado do Rio Grande do Norte. No ano seguinte o PNA foi interrompido pelo golpe militar, porém, a alfabetização de crianças seguiu com a utilização de cartilhas e dos manuais escolares. Nessa época havia a intenção de promover não somente a alfabetização aos jovens e adultos, mas a cultura no Brasil. Assim, além das campanhas com o intuito de ensinar a ler e a escrever, os Centros Populares de Cultura (CPC) foram criados e utilizados para propagar teatro, cinema, artes e literatura para a população. No mesmo período, a Igreja Católica, com a Conferência Nacional dos Bispos (CNBB), uniu-se ao Movimento de Educação de Base (MEB), sobretudo nos municípios de Aracaju e Natal, para auxiliar no processo de alfabetização no Brasil, com apoio das comunidades eclesiais de base. Esse movimento educacional foi articulado com situações postas já em anos anteriores, como no final da década anterior, em que o educador Paulo Freire propunha uma nova pedagogia que levava em conta a vivência e a realidade do educando, o qual deveria ser um participante ativo no processo de educação. Apesar de estar encarregado de desenvolver o Programa Nacional de Alfabetização de Adultos, com o golpe militar de 1964, Freire foi exilado e um programa assistencialista e conservador foi criado: o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). Seu objetivo era apenas a alfabetização funcional – sem apropriação da leitura e da escrita – de pessoas de 15 a 30 anos (CRUZ, 2012). Outras iniciativas também procuraram contemplar a alfabetização de adultos brasileiros ainda na década de 1961, quando, além do MEB, havia o “De pé no chão também se aprende a ler”. Os programas focaram, além do processo de alfabetização, a valorização do ser humano e o desenvolvimento social. O Ministério da Educação e Cultura – MEC, no ano de 1963, realizou o I Encontro Nacional de Alfabetização 17 e Cultura Popular. Com esses movimentos, o pensamento de Paulo Freire e seus conceitos e intenções fomentavam a ideia de que uma sociedade igualitária só poderia fundamentar-se pela educação, principalmente pelo processo de alfabetização visando à conscientização dos educandos. Deixando a fase das repúblicas e adentrando na era da globalização, já na década de 1980 – a qual consideramos um divisor de águas para a educação brasileira – o estudante passava a ser percebido como o centro do processo educativo, e dessa maneira a alfabetização deveria ser trabalhada na articulação das relações sociais e das experiências múltiplas do cotidiano. A partir de 1990 e da busca por melhorias na educação e dos índices de analfabetismo, forçou-se um movimento intenso que englobava diversos aspectos, como os recursos didáticos e digitais, até a formação continuada de professores alfabetizadores. Em 1996 o Plano Nacional de Educação caminhava nesse mesmo movimento, e tinha como uma de suas metas erradicar o analfabetismo no país – foi quando o ensino por ciclos surgiu. Nessa condição de ciclos a alfabetização recebia um olhar especial, sobretudo na década de 2001, porém, dependia da escola e de suas ações paralelas para que a criança saísse do ciclo com aquisição de leitura, escrita e interpretação em língua portuguesa. Ainda em 1996 tivemos a reformulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, com vistas à flexibilização da organização da educação básica, enfatizando a condição histórica do direito para todos, em relação ao acesso e permanência na educação básica, propondo alternativas para a educação, como a progressão automática continuada para a aceleração da aprendizagem. Já no ano de 2001, o Plano Nacional da Educação foi refeito, com vigência até o ano de 2010, e a meta principal se relaciona indiretamenteà alfabetização, pois ela buscava inserir todas as crianças brasileiras na escola. 18 Desse período até a contemporaneidade a alfabetização sofreu alterações em tentativas de melhorias, inclusive em sua concepção, promovendo um ensino dinâmico e que vai além da codificação de símbolos. Além disso, a formação de professores alfabetizadores e a utilização de tecnologias digitais da informação e comunicação ficaram em evidência. No ano de 2011, tivemos o novo Plano Nacional da Educação para o próximo decênio, iniciando no ano de 2014. Entre diversos objetivos está a erradicação do analfabetismo. Essa condição nos leva a perceber que o Brasil ainda conta com pessoas que não puderam ser alfabetizadas, o que não se estende somente à área rural. Pensando no cenário infantil que engloba a alfabetização, ficou determinada a aquisição da leitura e da escrita até os oito anos de idade. Nessa mesma década tivemos programas significativos com políticas públicas educacionais voltadas à alfabetização. Um deles foi o Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa, cuja finalidade era auxiliar o processo de alfabetização infantil para atingir a meta etária, e procurava movimentar as três esferas governamentais: Federal, Estadual e Municipal, articulando-se ao Plano Nacional da Educação (PNE), que estabelecia metas em busca da melhoria e qualidade da educação. No Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), alguns componentes formadores eram fundamentais, além das ações administrativas e políticas, especialmente ao professor alfabetizador, visando corroborar diretamente para as ações docentes e aplicabilidades práticas voltadas para a alfabetização de crianças de acordo com idade estabelecida pela legislação, conforme podemos consultar no quadro a seguir: 19 Quadro 2 – Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa Formação continuada, presencial, para os professores alfabetizadores, com foco na alfabetização. Incentivo aos professores para participar da formação. Distribuição de recursos materiais do MEC, voltados para a alfabetização e o letramento, articulados pela formação (PNLD, PNBE, Jogos Pedagógicos). Aumento da quantidade de materiais didáticos entregues por sala de aula. Mobilização da sociedade e da comunidade escolar. Monitoramento e acompanhamento pelos conselhos de educação e escolares. Fonte: adaptado de Brasil (2012). Além do Pnaic, o Programa Mais Alfabetização e a Política Nacional de Alfabetização, embasada no Decreto nº 9.765, marcaram essa década. O primeiro, no âmbito da Portaria do Ministério da Educação e Cultura nº 826, de 7 de julho de 2017, foi instituído em 22 de fevereiro do ano de 2018, e está fundamentado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Esta lei auxilia na percepção do significado do termo “alfabetizar”, pois apresenta como princípio alfabetizador a capacidade da criança em compreender o funcionamento do sistema alfabético de escrita, construir autonomia de leitura e se apropriar de estratégias de compreensão e de produção de textos. Para tanto, visa ao intenso apoio às escolas a fim de auxiliar na obtenção da alfabetização até o segundo ano do ensino fundamental. Já a Política Nacional de Alfabetização proporciona uma articulação entre as esferas governamentais, secretarias e demais órgãos, com o objetivo de elevar a qualidade da alfabetização e erradicar o analfabetismo no Brasil. O Programa Mais Alfabetização foi criado pelo Ministério da Educação – MEC, após os resultados negativos representados por avaliações que verificam o nível de alfabetização das crianças ao término do terceiro ano do ensino fundamental, como a Avaliação Nacional da Alfabetização – ANA, e o Sistema de Avaliação da Educação – SAEB. A 20 atuação do docente alfabetizador está articulada ao programa, devendo ele estar presente nas escolas classificadas como vulneráveis realizando atividades alfabetizadoras, conforme reza o programa. 1.4 Conclusão Com os pontos relevantes tratados até este momento, é importante percebermos que todo esse processo histórico não se fundamentou apenas em alfabetizar crianças, tampouco na valorização do professor alfabetizador, mas voltou o olhar para os índices de analfabetismo no país. Portanto, voltar nosso olhar ao analfabetismo é, também, construir e conceituar a alfabetização brasileira, seu cenário e, sobretudo, seus avanços e retrocessos. Dessa maneira, é relevante compreendermos que o analfabetismo é uma violação de um direito primário do cidadão brasileiro, enfatizado pela Constituição Federal, Artigo 205: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (BRASIL, 1988, [n. p.]) E pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em seu Artigo 5º: O acesso à educação básica obrigatória é direito público subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comunitária, organização sindical, entidade de classe ou outra legalmente constituída e, ainda, o Ministério Público, acionar o poder público para exigi-lo. (BRASIL, 1996, [n. p.]) Assim, percebemos que a legislação ampara a condição de alfabetização, buscando garantir a todos os cidadãos brasileiros a possibilidade de aquisição da leitura, da escrita e, de igual modo, da interpretação. 21 A partir dessa garantia, os índices de analfabetismo deveriam ser inexistentes. Complementando a aprendizagem dos fatos históricos associados à alfabetização de crianças no Brasil, é perceptível a instabilidade do conceito de alfabetização, e isso significa que a concepção/termo e os parâmetros que o definiram passaram por constantes alterações ao longo do tempo, sobretudo de ordens religiosas, políticas, econômicas e sociais, e que se distanciaram da consciência social ou de atitudes democráticas. A análise etimológica do termo “alfabetizar” apontada pelos principais dicionários da língua portuguesa no Brasil promovem uma conceituação de embasamento coletivo, articulando-o às primeiras aprendizagens voltadas tão somente à aquisição de escrita e leitura. Entretanto, a alfabetização é simultaneamente um conjunto individual e coletivo, que propicia ao alfabetizando aprimorar sua aprendizagem, seja ele criança ou adulto. A cultura acumulada, o meio em que está inserido e as experiências vivenciadas, contribuem rica e diretamente para a elaboração desse processo, permitindo que a alfabetização direcione o sujeito a novos momentos, a outras perspectivas, a distintos saberes e, igualmente, que se perceba como sujeito social. As diferentes concepções nos permitem conceituar o termo alfabetização envolvendo as peculiaridades de cada momento, entretanto, não podemos deixar de lado a perspectiva social que está articulada à leitura e à escrita, considerando que todas as aquisições articuladas à alfabetização estão imbuídas de valores pessoais. E quando pensamos nisso, vamos além de codificação e decodificação de símbolos gráficos como a maior parte dos conceitos alfabetizadores, afinal, um sujeito alfabetizado está de fato no mundo, repleto de ações políticas e sociais, de conhecimento e de criação. 22 Nessa mesma perspectiva, devemos considerar que a alfabetização como ação precisa ter relação com o cotidiano, como o ato de se perceber – mesmo ainda pequeno – como parte de um grupo, de uma sociedade, e isso, certamente, vai além da decodificação alfabética. Os processos e interesses políticos influenciaram os caminhos percorridos pela alfabetização de crianças e de jovens e adultos no Brasil. Além disso, foi essa condição histórica que nos trouxe à alfabetização contemporânea e, nessa trajetória, diversos programas e ações foram reproduzidos na tentativa de promover uma população alfabetizada, o que, em alguns períodos, não significavacidadãos pensantes e críticos. Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 17 jun. 2022. BRASIL. Legislação. Coleção de Leis do Império do Brasil – 1827, v. 1, pt. I, p. 71. Câmara do Deputados, [s. d.]. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/atividade- legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis/copy_of_colecao2.html. Acesso em: 27 fev. 2022. BRASIL. Lei de 15 de outubro de 1827. Manda crear [sic] escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Rio de Janeiro, 31 out. 1827. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM..-15- 10-1827.htm#:~:text=LEI%20DE%2015%20DE%20OUTUBRO,lugares%20mais%20 populosos%20do%20Imp%C3%A9rio.&text=1%C2%BA%20Em%20todas%20as%20 cidades,primeiras%20letras%20que%20forem%20necess%C3%A1rias. Acesso em: 27 fev. 2022. BRASIL. Lei n. 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília/DF: 20 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 27 fev. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Programa Nacional Alfabetização na Idade Certa. PNAIC apresentação. Brasília/DF, 2012. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=11268-gt-capitais-pnaic- apresentacao-21062012-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 7 jun. 2022. CRUZ, Erica. A educação de jovens e adultos no Brasil: políticas e práticas. Revista educação pública. Ano 2012. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis/copy_of_colecao2.html https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis/copy_of_colecao2.html http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM..-15-10-1827.htm#:~:text=LEI%20DE%2015%20DE%20OUTU http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM..-15-10-1827.htm#:~:text=LEI%20DE%2015%20DE%20OUTU http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM..-15-10-1827.htm#:~:text=LEI%20DE%2015%20DE%20OUTU http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM..-15-10-1827.htm#:~:text=LEI%20DE%2015%20DE%20OUTU http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=11268-gt-capitais-pnaic-apresentacao-21062012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=11268-gt-capitais-pnaic-apresentacao-21062012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=11268-gt-capitais-pnaic-apresentacao-21062012-pdf&Itemid=30192 23 FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. 3. ed. São Paulo: Moraes, 1980. MARCÍLIO, Maria Luiza. História da Alfabetização no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2016. 528 p. MESQUIDA, Peri. Catequizadores de índios, educadores de colonos, soldados de Cristo. Educar em Revista, Curitiba, n. 48, p. 235-249, abr./jun. 2018. 24 Linguagem e a aprendizagem da leitura e da escrita Autoria: Kellin Cristina Melchior Inocêncio Leitura crítica: Liliane de Almeida Barbosa Objetivos • Compreender o processo de aprendizagem na alfabetização escolar. • Analisar a construção histórica da escrita e da linguagem. • Perceber os avanços do homem a partir da aquisição da leitura e da escrita. • Constituir uma concepção social do uso da linguagem. 25 1. A construção da aprendizagem e a alfabetização de crianças Compreender como o corpo humano constitui as possibilidades estruturais que geram aprendizagem é fundamental para o desenvolvimento integral dos sujeitos, e pensando em aprendizagem escolar, reconhecer como o estudante aprende torna-se fundamental para o processo alfabetizador, pois vai além das relações biológicas, mas da autoavaliação docente e das práticas pedagógicas. Assim, compreender as possibilidades de construção de saberes a partir de autores clássicos como Piaget (1985), Ferreiro e Teberosky (1986), Soares (2018) e Vigotsky auxilia o processo metodológico, pois eles abordam as relações biológicas e cognitivas que envolvem esse movimento, além de enfatizarem as interações sociais e dialógicas associadas ao ato educativo. Dessa maneira, é possível uma facilitação da compreensão de alfabetização e do caminho a ser percorrido para que a aquisição da alfabetização seja percebida e construída no âmbito social da linguagem e não no processo de memorização. Para tanto, abordaremos duas perspectivas, de Piaget e de Ferreiro e Teberosky, principalmente pela aproximação com a construção da leitura e da escrita associada à alfabetização social. Iniciamos sob a ótica piagetiana e seus pensamentos construtivistas, pelos quais a inteligência é construída pelas interações, sobretudo no desenvolvimento infantil. Essa condição procurou indicar a importância da criança na construção dos seus próprios saberes, além de mostrar os comportamentos dos sujeitos a partir de situações específicas e de faixa etária. Desse modo, a alfabetização pode ser percebida como uma construção gradativa de saberes e que deve, obrigatoriamente, ter a participação e interação ativa da criança com os meios e com os saberes. Nessa perspectiva piagetiana a inteligência é organizada por quatro condições fundamentais: a maturação; o papel da experiência, ou seja, dos 26 efeitos do meio na estrutura da inteligência; a transmissão social em sentido amplo, como a própria linguagem e como fator essencial; e a equilibração ou autorregulação. Os estudos piagetianos influenciaram outros estudiosos da alfabetização infantil, como Ferreiro e Teberosky, e a teoria da epistemologia genética, que enfatiza exatamente a relação, a interação e a evolução derivadas do movimento existente entre o sujeito e o objeto de conhecimento. Assim, o desenvolvimento infantil natural e o pensamento obrigatoriamente se constituem em quatro distintas fases, do nascimento até o adentrar na adolescência, que são os estágios piagetianos do desenvolvimento: Quadro 1 – Estágios do desenvolvimento Piagetiano Estágio sensório motor 0 a 2 anos Estágio pré-operatório 2 a 7 anos Estágio das operações concretas 7 a 9/12 anos Estágio lógico-formal A partir dos 12 anos Fonte: elaborado pela autora. A partir dos estágios de desenvolvimento infantil, Piaget propõe o estado de equilíbrio, que é a transição entre um estágio e outro, e que é constituído por outras duas ações: a assimilação e a acomodação. É um reajuste neurobiológico para buscar um novo equilíbrio. Para compreensão desse processo, a assimilação é percebida como algo novo apresentado à criança que, por sua vez, relaciona esse novo elemento a esquemas mentais preexistentes. A acomodação já constrói modificações no sistema de assimilação e transforma em novo conhecimento, adaptando o novo conceito. O construtivismo na alfabetização, especialmente a partir da década de 1980, teve um caráter específico de melhoria da alfabetização, buscando as relações sociais que abordaremos ao longo desta aula, além do intuito de diminuir os índices de reprovação e o fracasso na 27 alfabetização, mesmo que esses estivessem relacionados a questões sociais. Para tanto: […] propunha-se que a solução, para combater os altos índices de reprovação na aprendizagem inicial da língua escrita, seria não um novo método, mas uma nova concepção do processo de aprendizagem da língua escrita, tendo como fim último o de contribuir na solução dos problemas de aprendizagem da lectoescrita1 na América Latina, e o de evitar que os sistema escolar continue produzindo futuros analfabetos. (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999, p. 32) A alfabetização embasada no construtivismo de Ferreiro nos propõe duas maneiras para a aquisição da leitura e daescrita: coletiva e individual. Assim, essa construção da alfabetização parte da lógica individual, mas é aberta às relações sociais que dela derivam, seja em ambiente escolar ou não. Assim, cabe ao educador ter a percepção – ou entrever – se o caminho que a criança percorrerá para desenvolver a escrita e a leitura agregará maior significado ao processo, sobretudo se comparado aos métodos alfabetizadores anteriores. Nessa perspectiva, a ideia construtivista herdada de Piaget: O sujeito que conhecemos a partir da teoria de Piaget é aquele que procura ativamente compreender o mundo que o rodeia e trata de resolver as interrogações que este mundo provoca. Não é um sujeito o qual espera que alguém que possui um conhecimento o transmita a ele por um ato de benevolência. É um sujeito que aprende basicamente através de suas próprias ações sobre os objetos do mundo e que constrói suas próprias categorias de pensamento ao mesmo tempo que organiza seu mundo. (FERREIRO, 1999, p. 29) Dessa forma, temos que a teoria é sustentada na intenção de que a aprendizagem seja a atividade do educando, e mais, sua relação construída com o objeto de conhecimento, cabendo às instituições escolares propor um ambiente de fato alfabetizador. Nessa perspectiva o aprendizado do alfabetizando é construído por etapas, especialmente 1 Lectoescrita – Habilidade adquirida para leitura e escrita. 28 marcado por avanços dos estudantes, e igualmente dos possíveis equívocos na construção da aprendizagem – auxiliares na construção do conhecimento – chegando ao produto final – o domínio do código linguístico. Logo, pela tendência construtivista articulada à alfabetização, acredita-se que há um respeito ao tempo e à evolução individual de cada aprendiz, considerando, inclusive, as maturações biológicas da criança para construir as sequências hipotéticas e provocar o conhecimento. A partir dessas reflexões iniciais veremos o processo histórico que permeia a linguagem, principalmente na construção da escrita e da fala, articulando com a alfabetização de crianças. 2. Linguagem e a construção histórica da escrita e da fala Neste momento realizaremos algumas análises que envolvem sociedade e linguagem para o processo de desenvolvimento da criança e a aquisição da leitura e da escrita. Para tanto, iniciamos apresentando a concepção de linguagem e, na sequência, abordaremos a construção da comunicação e seu processo social. A linguagem em um sentido amplo, mas essencial para nossa disciplina, parte da ideia de um aglomerado de sinais que os sujeitos utilizam para se comunicar, considerando gestos, palavras, desenhos, símbolos e mesmo músicas e placas, entre outros. Entretanto, devemos ir além no aspecto linguagem e comunicação, embasando-nos em autores como Freire (2013) e Bakhtin (2011), que enfatizam a ação de comunicação – principalmente pela linguagem verbal – como um fenômeno social, capaz de transformar os sujeitos e, consequentemente, a sociedade. A partir dessa concepção, também considerada nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), o 29 aspecto pedagógico metodológico para a escrita, leitura e oralidade deve se embasar em textos orais e escritos, de diferentes gêneros discursivos, utilizados em diferentes situações comunicativas e suas esferas sociais. Assim, com as potencialidades discursivas aumentam-se os recursos linguísticos, de modo que os estudantes tenham ao seu dispor a maior escala possível de competências de habilidade e competências de sua língua para um uso adequado. As articulações existentes entre escrita e oralidade nos remete aos pensamentos de Marcuschi (2001, p. 17), pois enfatiza que […] ambas permitem a construção de textos coesos e coerentes, ambas permitem a elaboração de raciocínios abstratos e exposições formais e informais, variações estilísticas, sociais e dialetais e assim por diante. Tais processos auxiliam que as crianças em idade alfabetizadora a se inserirem em uma realidade social da utilização da língua. Pensando na sociedade contemporânea perceberemos essas diferentes possibilidades de linguagem, e em um movimento simples de observarmos décadas anteriores, compreenderemos que há um processo evolutivo na maneira de nos comunicarmos, sobretudo se voltarmos nosso olhar para as tecnologias digitais da comunicação e informação. Para um entendimento dessa relação e das implicâncias sociais derivadas dessa condição evolutiva, voltaremos no tempo, mais precisamente no surgimento das primeiras civilizações, e na necessidade de compreensão e comunicação entre seus pares: os hominídeos. No período paleolítico, os hominídeos iniciaram a comunicação distante da fala que conhecemos, mas por gestos, sinais, símbolos e até mesmo gritos e grunhidos, pois a vida coletiva exigia, mesmo a 5000.000 a.C., a necessidade de compreensão e de ampliação dos relacionamentos entre os sujeitos e os ambientes, o que inclui desde as atividades do cotidiano até as possibilidades de transformações. 30 Em uma sequência cronológica dos fatos, apresentamos as pinturas rupestres que permaneceram até 8.000 a.C. Elas permitiam uma melhor comunicação visual, com sequências e histórias completas. A partir desse período a comunicação avançou principalmente na escrita, por exemplo, com os povos sumérios e a escrita cuneiforme, uma das mais antigas formas de comunicação do homem – estamos nos referindo ao período de 3.500 a.C., coincidentemente o mesmo período do surgimento das primeiras organizações que deram origem às cidades na Mesopotâmia. É importante compreendermos que essa formação de cidades se deu muito distante dos municípios que temos na atualidade, pois elas iniciaram como espécies de vilas e aglomerados de sujeitos que lá habitavam e que dividiam a mesma atividade, a agricultura. A partir da comunicação e seus avanços, esses aglomerados avançavam, e já em 2.000 a.C. se formavam próximo ao Rio Nilo e na China, apresentando uma extensão significativamente maior do que os primeiros vilarejos. Além dessa característica geográfica, a organização social se transfazia e outros cenários e ações se faziam presente, como o comércio de diferentes produtos e os artesanatos. A partir desses movimentos considera-se que a linguagem em si foi desenvolvida, e a comunicação reconhecida como ação revolucionária. É exatamente nesse sentido que as articulações começam a tomar forma em nossa temática, pois por meio do comunicar-se é que o homem passou a realizar trocas, emitir mensagens e informações para o desenvolvimento pessoal e social, permitindo, mais adiante, a construção de documentos, legislações e obras literárias. Prosseguindo com a compreensão histórica e social da comunicação, é imprescindível abordarmos as contribuições dos povos egípcios que, por volta de 3.300 a.C. organizaram um sistema de escrita que permaneceu até 394 d.C.: os hieróglifos – ou escrita sagrada, termo que representa perfeitamente os indivíduos que a utilizavam: os sacerdotes, membros 31 da realeza e escribas. Entretanto, os sinais que o compunham eram inúmeros, ao todo aproximadamente sete mil, o que classifica esse sistema de escrita como extremamente difícil e inacessível, condição que chamou atenção e gerou pesquisas por volta do século XVII. Além disso, os egípcios se reinventaram e criaram a forma primitiva de troca de mensagens escritas, os correios, por meio de mensageiros que caminhando entregavam os dizeres registrados em cerâmicas e argilas. Nessa crescente, chegaram ao papiro. Essa comunicação foi reformulada por outros povos sendo realizada por cavalos e até por pássaros, ao longo da história. Há ainda um fato histórico mais significativo para a comunicação: a criação de símbolos essenciais embasados na escrita cuneiforme, pelos fenícios, a 1.200 a.C. e que, em um processo evolutivo, chegará a outros códigos de comunicação escrita, como os alfabetos grego e latino, este último oque utilizamos na contemporaneidade. Figura 1 – Alfabeto fenício Fonte: dvarg/iStock.com. 32 Outros movimentos foram significativos para a comunicação escrita, como o surgimento do papel e da prensa móvel para, com a evolução do homem, da sociedade, da comunicação e das tecnologias, surgirem ao longo do tempo e da história outras possibilidades de escrita. Devemos nos atentar à relação histórica existente na descoberta da linguagem oral, pois há ainda condições contraditórias e pesquisadores que discutem um período preciso para o surgimento da fala ao homem. Para tanto, devemos compreender que essa condição humana depende de articulações existentes a partir de variados estímulos, promovendo a ligação entre o cérebro, laringe, cordas vocais e língua. Alguns estudiosos acreditam que a fala humana surgiu há 50 mil anos, entretanto, essa fala não tem relação com o diálogo em si, como uma conversa nos tempos atuais, com narrativa, mas sim com uma comunicação mínima para o período, porém, com avanços ao longo do tempo e do desenvolvimento humano. Assim, é imprescindível a compreensão de que o discurso se transformou com o tempo, sobretudo ao observarmos os recursos utilizados para a comunicação, seja ela constituído pela fala ou escrita. Já na intencionalidade, nos motivos pelos quais a linguagem é utilizada se perpetuou, pois os discursos são sempre permeados de intenções e objetivos, afinal, a linguagem surgiu exatamente a partir da necessidade de comunicação e desenvolvimento, ou seja, numa perspectiva socioideológica. É exatamente essa condição que movimenta os sujeitos, permitindo interação, ação e reflexão entre os interlocutores. 3. Linguagem na perspectiva social: ensino e aprendizagem A partir das considerações históricas e da compreensão da relevância da linguagem, é primordial analisarmos o conjunto linguagem, ensino 33 e aprendizagem, pois a alfabetização de crianças se articula a todo o movimento associada ao pensamento e suas expressões. Esse movimento se dá desde o nascimento, da construção da língua e das relações sociais, e promove a aquisição da escrita e da leitura, uma ação muitas vezes complexa e erroneamente isolada das perspectivas sociais. Nesse processo, a alfabetização deve se dar nas perspectivas sociais contemporâneas, colocando a criança no centro do processo educativo e nas distintas realidades, procurando desenvolver a consciência da função social da escrita e da leitura – buscando esclarecer, por exemplo, os motivos pelos quais elas são tão importantes e como são utilizadas em sociedade. Além disso, é imprescindível a aquisição dos códigos e convenções constitutivas do sistema alfabético de escrita e o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias para a escrita e leitura. Essa condição pode distanciar o professor de sua zona de conforto, especialmente se ele alfabetiza a partir da maneira pela qual foi ensinado, ou ainda, no que vivenciou teórica e metodologicamente em sua graduação, apoiando-se no que acredita que perpassa o tempo e que atinge o resultado esperado, distanciando a alfabetização de práticas sociais e o aproximando da condição mnemônica da aquisição da escrita e leitura, sem pensamento e significado. Entretanto, o docente é fundamental não somente nas práticas metodológicas de uma alfabetização construtivista, mas de conhecimento e responsabilidade na mediação para a construção da aquisição da leitura e da escrita na perspectiva social da língua. O professor alfabetizador consciente de sua função compreende que ensinar está muito distante da ação de repetição e de transmissão de saberes, e mais, que essa perspectiva do processo de ensino e aprendizagem se dá, obrigatoriamente, na ausência de uma prática bancária, mas sim, de um processo de construção gradativa e dialógica. 34 Nesse cenário podemos, analogicamente, colocar a alfabetização de crianças alicerçada em Freire, quando propõe uma educação libertadora, sendo que a principal característica é o diálogo democrático e que possibilita trocas de experiências. A criança se alfabetizada na perspectiva social é preparada para a compreensão do mundo, de sociedade e de si próprio, sendo capaz de utilizar a linguagem oral e escrita de maneira crítica. Por essa razão, cabe ao educador a tarefa de conduzir os alfabetizandos a produzirem saberes, sobretudo da escrita e da leitura. O educador democrático não pode negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão. Uma de suas tarefas primordiais é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se “aproximar” dos objetos cognoscíveis. E esta rigorosidade metódica não tem nada que ver com o discurso “bancário” meramente transferidor do perfil do objeto ou do conteúdo. É exatamente neste sentido que ensinar não se esgota no “tratamento” do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas se alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. (FREIRE, 2002, p. 12) Diante dessa condição, é imprescindível que o professor alfabetizador proporcione oportunidades de desenvolvimento crítico ao educando em relação ao seu próprio mundo – sua realidade e a da sociedade em seu entorno. Para compreendermos as relações sociais a partir da comunicação verbal é essencial a concepção de língua como recurso de comunicação, em que a linguagem é percebida como instrumento único de informação, recaindo nos pensamentos de Travaglia (1996, p. 22): “a língua é vista como um código, ou seja, como um conjunto de signos que se combinam segundo regras, que é capaz de transmitir uma mensagem, informações de um emissor a um receptor”. Essas associações são fundamentais para a alfabetização, não bastando somente aprender a escrever, mas também a expressar o pensamento, sobretudo 35 pela fala, valorizando os fatores sociais e suas potencialidades para o desenvolvimento da criança. Compreender a língua e suas possibilidades de comunicação, posicionar-se e interagir socialmente são aspectos sociais que devem ser trabalhados na alfabetização de crianças. Dessa maneira se faz necessário transformar práticas metodológicas de sala de aula, buscando contemplar não somente a escrita, mas a expansão de ideias e a capacidade de ser sujeito social de fato. Alguns fatores culturais e sociais supracitados interferem nesse movimento de comunicação e das relações sociais que permeiam a aprendizagem das crianças, o que inclui a alfabetização. A partir disso, Castro enfatiza esse movimento: Fatores como a classe social, econômica, escolarização dos pais, região em que habita, descendência, determinadas características históricas e culturais são aspectos que estão a todo momento mediando as possibilidades de sucesso ou insucesso escolar dos alunos, conforme estejam programadas as expectativas metodológicas e avaliativas da escola. (CASTRO, 2005, p. 12) Assim, desde as primeiras possibilidades de comunicação e de alfabetização a língua não pode ser percebida apenas como um código, um conjunto de signos que se articulam e combinam para a transmissão de informações, mas como algo que possibilite o pensamento, o desenvolvimento e a interação entre sujeitos e meios, nos seus contextos reais. Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. CASTRO, G. de. A avaliação de língua portuguesa nas séries iniciais. Curitiba: Editora UFPR, 2005. FERREIRO, E. Alfabetização e cultura escrita. Revista Nova Escola, n. 162, maio 2003. 36 FERREIRO, E. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1995. FERREIRO, E.; PALACIO, M. G. Os processos de leitura e escrita: novas perspectivas. Porto Alegre; Artmed, 1987. FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Cultura escrita e educação. Conversa de Emília Ferreiro com José Antônio Castorina, Daniel Goldin e Rosa Maria Torres. Porto Alegre: Artmed, 2001. FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita.Porto Alegre: Artes Médicas, 1999. FREIRE, P. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013. FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001. PIAGET, J. A psicogênese dos conhecimentos e a sua significação epistemológica. In: PIATELLI-PALMARINI, M. (org.). Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem: o debate entre Piaget e Noam Chomsky. Lisboa: Edição 70, 1985. TRAVAGLIA, L. C. Concepções de linguagem. In: Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 1996. 37 Alfabetizar letrando: suas implicações teóricas, sociais e práticas Autoria: Kellin Cristina Melchior Inocêncio Leitura crítica: Liliane de Almeida Barbosa Objetivos • Compreender a construção da aquisição da leitura e da escrita para a criança. • Reconhecer as articulações entre os termos alfabetização e letramento. • Conhecer os principais métodos alfabetizadores e suas especificidades. 38 1. Alfabetização e letramento: concepções A aquisição da leitura e da escrita pode se dar por diferentes perspectivas metodológicas, entretanto, além de compreender os códigos e símbolos desse processo, é preciso desenvolver e dominar as competências e habilidades de leitura e de escrita, bem como as relações sociais desse movimento. Assim, não basta que a criança saiba ler e escrever, mas também permitir que ela se aproprie de uma alfabetização dialógica. Essa condição está associada ao letramento, porém, muitas vezes, A alfabetização dialógica, que está articulada ao letramento, fica de lado no processo metodológico do professor alfabetizador, sobretudo, pela urgência de obtenção de resultados ao final do ano letivo. A Base Nacional Comum Curricular, por sua vez, não dissocia a alfabetização – como aquisição da leitura e escrita – das possibilidades sociais de utilização da língua: é uma ação única e interdisciplinar. Assim como a alfabetização, o letramento se constituiu em uma tomada gradativa e histórica, principalmente a partir da década de 1980 e em países de primeiro mundo, como França e Estados Unidos, buscando sanar problemáticas percebidas a partir da ausência do domínio de competências para o uso da leitura e da escrita. Esse movimento no Brasil também se tornou indissociável, e caminham juntos a construção da aquisição do sistema convencional de uma escrita alfabética e ortográfica com as habilidades e competências sociais da aquisição da escrita e da leitura. Figura 1 – Alfabetização e letramento Fonte: elaborada pela autora. 39 Por um lado, é necessário reconhecer que alfabetização – entendida como a aquisição do sistema convencional de escrita – distingue-se de letramento – entendido como o desenvolvimento de comportamentos e habilidades de uso competente da leitura e da escrita em práticas sociais. Distinguem-se tanto em relação aos objetos de conhecimento quanto em relação aos processos cognitivos e linguísticos de aprendizagem e, portanto, também de ensino desses diferentes objetos. Acerca dessa distinção entre os dois processos, Por outro lado, também é necessário reconhecer que, embora distintos, alfabetização e letramento são interdependentes e indissociáveis: a alfabetização só tem sentido quando desenvolvida no contexto de práticas sociais de leitura e escrita e por meio dessas práticas, ou seja, em um contexto de letramento e por meio de atividades de letramento; este, por sua vez, só pode desenvolver-se na dependência da e por meio da aprendizagem do sistema de escrita. (SOARES, 2017, p. 64) Nessa perspectiva social da alfabetização, é relevante que os professores reflitam e utilizem recursos diferentes, sejam eles dialógicos ou digitais. Um exemplo claro dessa dinâmica é a utilização de diferentes gêneros textuais, pois esses materiais estão em circulação no contexto social e auxiliam os alfabetizandos pelos distintos objetivos, como informar, persuadir, emocionar, advertir, orientar e ironizar, entre outros. A partir dessa condição é relevante analisarmos os métodos alfabetizadores e refletirmos a respeito das possibilidades do letramento existente – ou não – em cada um deles. Lembrando que o processo de letramento depende exclusivamente da consciência do professor alfabetizador em ir além de propostas que validem tão somente a codificação e decodificação de símbolos gráficos, além da mediação docente para a construção das habilidades e competências dentro desse processo. 40 2. Os métodos alfabetizadores e o uso social da leitura e da escrita Nesse item analisaremos os métodos alfabetizadores, articulando as particularidades de cada um deles com o aspecto social do uso da escrita e da leitura, afinal, estamos abordando não somente a compreensão de um código, mas o letramento associado à alfabetização. A partir dessa informação, é relevante afirmarmos que os métodos alfabetizadores estão no Brasil a partir de determinações históricas e foram direcionados conforme os interesses políticos de cada época. As metodologias aplicadas ao longo do tempo foram subdivididas em dois grupos: sintéticas e analíticas. A primeira surgiu na segunda metade do século XIX e era alternada com os métodos analíticos por longas décadas. Como característica inicial, há como compreensão da construção do sistema de escrita a articulação entre oralidade e escrita – consciência fonológica de unidades de análises menores para maiores. As unidades de análises perante o método sintético são diversificadas e se classificam entre letras, fonemas ou sílabas. Para cada uma das especificidades, uma nomenclatura específica, mas, ao objetivo final é atribuída a decodificação dos códigos alfabéticos, conforme propõem Morais, Albuquerque e Leal: […] as subunidades da língua, relacionando essas às correspondências fonográficas, partem de unidades menores e mais elementares como as letras, os fonemas ou sílabas para, em seguida, passar às unidades maiores ou inteiras como palavras, frases ou texto, seguindo sempre do mais simples para o mais complexo de forma linear, de modo que só se aprende um elemento novo depois de se aprender outro. (MORAIS; ALBUQUERQUE; LEAL, 2005, p. 18) 41 Como o próprio nome sugere, o processo metodológico alfabético se caracteriza por utilizar as menores unidades de análise: as letras. Ao evoluir-se das unidades menores para as maiores, segue-se a justaposição das letras, formando, assim, as sílabas e, sequencialmente, partes ou o todo de palavras. Essa perspectiva metodológica foi muito utilizada a partir da década de 1980, e talvez você tenha sido alfabetizado a partir dessa formulação: letras, sílabas e palavras. Naturalmente que esse movimento não constrói um processo social da aquisição e utilização da leitura e da escrita, pois se embasa na memorização das famílias silábicas, como demonstra Carvalho: O método alfabético ou de soletração caracteriza-se pela aplicação através de uma sequência fixa baseada nos estímulos auditivos e visuais, sendo a memorização o único recurso didático utilizado, pois, o nome das letras é associado à forma visual, as sílabas são aprendidas de cor e com elas se formam palavras isoladas. (CARVALHO, 2010, p. 22) A compreensão desse movimento fica aquém da criticidade, ou seja, majoritariamente a criança não compreende a formação das sílabas ou palavras, mas as memoriza e avança na construção delas, codificando e decodificando os símbolos, reproduzindo a leitura e a escrita. Em um processo seguinte, a soletração se articula ao método alfabético e novas orientações metodológicas são assumidas. Esse método insere a soletração de letras e sílabas, bem como as combinações delas, transformando-as em palavras. A sonorização se dava por meio de “cantigas” dessas palavras, ou seja, a criança em processo de alfabetizaçãodeveria cantarolar a soletração das palavras, afirmando, assim, a condição mnemônica do método: […] o procedimento de soletração, que gerou exaustivos exercícios de “cantilenas” (cantorias com os nomes das letras e suas combinações) e também o treino com possíveis combinações de letras em silabários. Essas atividades eram sem sentido, porque demorava-se a chegar ao significado. Imaginem uma pessoa decorando e cantando combinações (be-a-ba, be-e- 42 be, etc.) e soletrando para tentar decifrar a palavra bola: “be-o-bo, ele-a-la = bola”. (FRADE, 2005, p. 23) No século XIX um clássico representante do método sintético de soletração foi o “Cartas de ABC”, que se traduzia como cartas para aprender a ler. O processo de alfabetização era, em grande parte e por muitas décadas, explicitado como a arte da leitura, deixando a escrita em segundo plano. O método fônico, também classificado como sintético, visa à relação fônica entre as letras, relacionando a palavra dita com a escrita – sendo que a unidade de reflexão não é a letra, mas sim, o som dela. O alfabetizando deve compreender os sons das letras em uma progressão, ou seja, inicia memorizando o som e o código das vogais, partindo para as consoantes e, posteriormente, para as relações existentes entre elas, que são as sílabas e as palavras. É válido ressaltar que para que o método fônico tivesse sua aplicabilidade correta, era preciso respeitar a construção das relações diretas entre fonemas e grafemas, sobretudo em relação à complexidade, sendo esse o principal objetivo do processo de alfabetização. As relações entre fonemas e grafemas nem sempre são consideradas diretas, ou seja, o som da letra pode ser representado graficamente por outro símbolo, como o “g” e o “gu”, estabelecendo um grau de complexidade para essas sílabas. O oposto também ocorre; assim, nas relações diretas entre fonemas e representações gráficas – principalmente na utilização das letras “p” e “b”, “v” e “f”, “t” e “d” – estabelece-se um processo de facilitação de compreensão e memorização das sílabas para a formação de palavras. Além do método apresentar em sua construção a memorização e, como no método alfabético, priorizar a leitura, igualmente não considera a variação linguística presente no Brasil. Essa lacuna pode – e deve – confundir, significativamente, as crianças alfabetizandas, 43 uma vez que essa característica não produz relações diretas entre fonemas e grafemas. E mais: o método não considera a alternância de posicionamento das letras na composição de uma palavra, bem como do seu valor sonoro, ou seja, uma única letra pode representar diferentes fonemas. Para exemplificar temos a letra “s”, cuja grafia ora se encontra no início da palavra, ora no meio ou no final; tal característica também se repete no fonema, por vezes exprime som de “z” e/ou justaposta com outra letra, como o “sc”, […] a letra s, por exemplo, corresponde a diferentes fonemas, conforme apareça no começo da palavra (sapato, semente, sílaba, sorte, susto) ou entre vogais (casa, pose, música, pouso, usual). […] o fonema / s / por ser representado pela letra s (sapeca), pela letra c (cenoura), pela letra ç (laço), pelo dígrafo ss (assar), pelo dígrafo sc (descer), pelo dígrafo xc (excelente). O princípio de relação direta da fala com a escrita não se aplica, então, à maioria dos casos. Por isso temos a ortografia e diversas convenções para estabilizar essas diferenças de representação. (FRADE, 2005, p. 26) A fim de diminuir os equívocos propostos no método fônico, suas variações foram postas em prática, sobretudo associações entre os fonemas e grafemas por meio de imagens, ou seja, inter-relacionando a percepção visual a um som e, inversamente na mesma proporção, a percepção auditiva para o grafema, além da utilização de onomatopeias. Percebemos que o método segue, independentemente de seus equívocos, com sua aplicabilidade partindo da relação entre os fonemas e grafemas, em uma ordem mecânica e acrítica, que determina a complexidade do aprendizado da escrita. Além dos métodos descritos, o método silábico, ou silabação, de natureza sintética, organiza a alfabetização das crianças inicialmente pelas unidades menores ao todo, sobretudo nas junções vocálicas e formação silábica. De igual modo, a silabação se espelha em uma pseudoalfabetização, embasada na memorização e no distanciamento da autonomia e criticidade da criança. 44 Como lacuna metodológica percebe-se que a intenção do método se ocupa em promover a memorização da sílaba criada em vez da compreensão do texto e das palavras que o compõem. Essa sistematização é reconhecida em diversos materiais e firma-se como uma especificidade do método silábico, explanado, por exemplo, pela cartilha “Caminho Suave”. A silabação, em relação aos demais métodos sintéticos, apresenta uma prerrogativa justamente por seu enfoque na construção silábica, que auxilia o aluno na compreensão da relação com os fonemas, propriamente pela fala que também é silabada e não soletrada. Frade (2005, p. 30) enfatiza que a alfabetização nessa metodologia se depara com um problema, “os textos ‘fabricados’ para treino das sílabas são artificiais, muitas vezes sem sentido e deslocados de qualquer uso social.” Os métodos analíticos realizam o processo inverso na construção da alfabetização em comparação aos métodos sintéticos, deste modo, partem de unidades de análise maiores, como a palavra, a frase ou o texto. Nas relações existentes entre o processo de ensino e a linguagem, espera-se que a metodologia analítica auxilie a criança na compreensão da linguagem como um todo. A partir dessa afirmativa, o método se justifica, pela própria leitura e escrita que ocorrem de maneira fragmentada. Nesse viés, a codificação e decodificação seguem um princípio mecânico, afastando-se da valorização social que deve existir na alfabetização. O método palavração enfatiza a palavra como unidade de análise, e por conseguinte a junção silábica que a compõe, ou seja, a criança reconhece globalmente as palavras e, posteriormente, ocorre a decomposição silábica. Há um processo relevante determinado ao alfabetizador na busca das palavras exploradas, uma vez que o método não estabelece uma ordem crescente de dificuldade delas. Nesse sentido, não há sílabas determinadas como complexas; há o estudo do todo, da percepção da palavra, da escrita, do significado, da leitura. 45 Por sua vez, a palavração – sem a construção do diálogo – também exige do educando um processo de memorização, pois a tendência é de a criança decorar algumas configurações gráficas, porém, sem compreensão, diálogo ou significado. Nessa metodologia o alfabetizando pode enfrentar dificuldades significativas na construção de novas palavras, fato esse que pode ser evitado com a amplitude na análise silábica. A concepção analítica sentenciação é localizada em diversas literaturas como sequência do método palavração, contudo, altera-se a unidade de análise, passando da palavra para a sentença. Dessa maneira, o aluno do processo de alfabetização é ensinado a reconhecer de forma global a sentença que, por conseguinte, será decomposta em palavras e sílabas. Nesse cenário, é possível trabalhar com os elementos já identificados pelos alfabetizandos na sentença e, a partir deles, formar novas palavras. No que se refere à nossa análise acerca dos métodos alfabetizadores, abordamos neste momento as especificidades da metodologia global de alfabetização. Essa, por sua vez, exprime como característica relevante a utilização de contos e pequenas histórias, fatores predominantes na construção da alfabetização de crianças, isto é, o método parte de unidades maiores para menores de análise. Para o início da utilização do método global, foram produzidos os chamados pré-livros – como “O Livro de Lili”, de autoria de Anita Fonseca, e o “Livro Sarita e seus Amiguinhos”, dos autores Cecy Thofehrn e Jandira Szechir, os quais traziamtextos, contos e lições. Os textos com entonação artificial eram distantes de uma alfabetização consciente, autônoma e crítica, mas o método foi considerado positivo no aspecto da leitura, pois é possível que ela seja realizada por sentenças ou textos e que se dê pelo reconhecimento global. Contudo, constatamos um processo, considerado por nós uma desvantagem: o direcionamento mecânico do ato de alfabetizar para que essas “leituras” acontecessem, certamente distantes do contexto social. 46 O método natural se articula com os encaminhamentos do método global, diferenciando-se apenas na construção de pequenos textos por parte dos alfabetizandos, embasados em um repertório mínimo de palavras. Tais palavras não estão relacionadas a um trabalho diretamente relacionado ao seu contexto, promovendo significado às crianças e/ou, tampouco, trabalhado como um movimento cultural e dialógico. As palavras classificadas como conhecidas dos estudantes são mescladas com imagens, a fim de auxiliar o processo “natural” de aprendizagem da leitura, conforme imagem: Figura 2 – Método Natural Fonte: Soares (1986. p. 41). Assim, a memorização da escrita de palavras é acentuada, promovendo, com o passar do tempo, uma escrita mecânica; porém, isso não significa consciência ou criticidade a partir do que se escreve e do que se consegue ler. Para melhor compreendermos as especificidades dos métodos analíticos e dos métodos sintéticos, vejamos o quadro a seguir: 47 Quadro 1 – Especificidades dos métodos analíticos e sintéticos ESPECIFICAÇÕES DOS MÉTODOS SINTÉTICOS Soletração Baseia-se essencialmente no princípio da memorização e nos sons das letras do alfabeto. Posteriormente, para a associação das sílabas e da relação fonema e grafema. A última etapa do processo realiza a escrita e leitura das palavras, dando início à construção de frases e pequenos textos. Silabação O processo de alfabetização inicia pela formação das sílabas, intitulada famílias silábicas, seguindo para a formação e leitura das palavras isoladas e frases. Fônico Método embasado no reconhecimento dos sons dos fonemas. Após esta associação, inicia a formação das sílabas e famílias silábicas, finalizando com a formação de palavras e frases. ESPECIFICAÇÕES DOS MÉTODOS ANALÍTICOS Sentenciação O texto inicia com as frases, ou orações, seguindo para as palavras que serão trabalhadas, e finaliza com o estudo delas, envolvendo sílabas, letras e sons. Palavração O texto tem início pela palavra. Posteriormente vêm sílaba, os fonemas e o estudo das letras. Global puro Esse método aplica-se ao texto de maneira globalizada, ou seja, não o separa em partes menores. A alfabetização se dá no aprendizado do todo. Global de contos Esse método tem como base o conto literário. Posteriormente inicia o aprendizado da leitura e da escrita. Fonte: adaptado de Mortatti (2006). Embora a reflexão realizada em relação aos métodos sintéticos e analíticos tenha sido centrada na visão alfabetizadora crítica e do letramento, enfocando a relação social da leitura e da escrita, reconhecer as diferenças metodológicas se torna relevante, especialmente para o alfabetizador e para o pesquisador do processo educacional. Ambos, sintéticos e analíticos, constituíram todo o processo histórico da alfabetização no Brasil, além de estabelecerem aprendizado a respeito da relação fonema e grafema, escrita e leitura, destacando o processo alfabetizador embasado na codificação e decodificação dos símbolos que compõem a língua portuguesa. 48 Finalizando, destacamos que independentemente de metodologia aplicada, a alfabetização deve ser percebida como um ato de conhecimento e de criação que valoriza o ambiente da criança em idade alfabetizadora e, consequentemente, o seu universo vocabular. Dessa maneira, a sociedade e a escola se entrelaçam, exercendo seu movimento básico de educar e formar sujeitos. Referências CARVALHO, Marlene. Alfabetizar e letrar: um diálogo entre a teoria e a prática. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2010. FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva. Métodos e didáticas de alfabetização: história, características e modos de fazer de professores: caderno do professor. Belo Horizonte: Ceale/FaE/UFMG, 2005. 72 p. (Coleção Alfabetização e Letramento) MORAIS, Artur Gomes de; ALBUQUERQUE, Eliana Borges correia de; LEAL, Telma Ferraz. (org.). Alfabetização: apropriação do sistema de escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. MORTATTI, Maria do Rosário Longo. História dos métodos de alfabetização no Brasil. In: Seminário Alfabetização e letramento em debate, Departamento de Políticas de Educação Infantil e Ensino Fundamental da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação. Brasília: MEC, 2006. SOARES, G. R. Estudo comparativo dos métodos de ensino da leitura e da escrita. 4. ed. Rio de Janeiro: Papelaria América Editora, 1986. p. 41. SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2017. 49 A alfabetização e os recursos pedagógicos e tecnológicos digitais Autoria: Kellin Cristina Melchior Inocêncio Leitura crítica: Liliane de Almeida Barbosa Objetivos • Compreender a importância dos recursos tecnológicos digitais para a educação. • Conhecer as possibilidades de ensino e aprendizagem para a alfabetização com o uso de tecnologias digitais da comunicação e informação. • Analisar os recursos tecnológicos digitais no processo alfabetizador de crianças. 50 1. As tecnologias digitais da informação e da comunicação Sabemos que ao longo do processo histórico da educação brasileira o professor assumiu diferentes frentes de trabalho, especialmente no que condiz às relações didático-metodológicas, que se alteram conforme os aspectos políticos e sociais. Ao adentrarmos na década de 1980, os recursos em sala de aula foram somados à voz do professor e à utilização de ferramentas usuais, como o livro didático e o quadro de giz. Entrávamos em outra era, e fazer a educação exigia novos olhares, cada vez mais tecnológicos, chegando ao século XXI. Na contemporaneidade, a sala de aula se ampliou, a educação se globalizou, o professor recebeu diferentes desafios que, de maneira ampla, estabelecem-se a partir de recursos tecnológicos digitais. Contudo, reflexões essenciais se consolidam e dividem os professores em dois grandes grupos: o primeiro formado pelos que têm aversão à tecnologia digital educacional e que consideram as práticas um aumento de trabalho, mas que levam a mesma aprendizagem; e o segundo grupo, de docentes que percebem a necessidade de aprimoramento e atualização de suas práticas, a fim de aperfeiçoar e conferir qualidade ao trabalho. Esse último grupo, em sua maioria, é de pessoas levadas pelas reflexões pertinentes ao momento e pela insegurança em não dominar as possibilidades de atuações práticas, resultando na busca por formação que as permita novos conhecimentos para exercer suas atividades com excelência. Articuladas a essa condição do professor, somamos as orientações curriculares, como a proposta da Base Nacional Comum Curricular (2018), que movimentou as escolas regulares, e suas propostas políticas pedagógicas, inserindo obrigatoriamente as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação –TDIC na associação necessária para a aprendizagem e desenvolvimento. 51 Nessa perspectiva, as instituições educativas devem ir além da ação de exigir do professor o conhecimento, mas, também, de proporcionar formação continuada de qualidade, bem como promover ações com grupos de auxílio e recursos digitais, para a aplicabilidade do ensino híbrido, desenvolvendo competências de exploração e do uso prático das múltiplas possibilidades digitais em ambientes escolares. Podemos considerar esse o primeiro desafio, pois é perceptível – não somente empírico, mas com foco em pesquisas na área educacional tecnológica digital – que pouco foi ofertado pelas instituições públicas e privadas. Tal ausência nos leva a refletir: afinal, como o professordeve buscar conhecimento para o uso de recursos digitais se o chão da escola se exime dessa responsabilidade? É um grande ciclo que deve atuar em consonância, resultando em práticas de ensino personalizado e híbrido. O professor, porém, assume seu papel na utilização das tecnologias digitais em ambiente escolar e, para tanto, tomamos como base os estudos de Coll e Monero (2010), conforme explicitado na Figura 1: Figura 1– O professor e o uso das TDIC Fonte: adaptada de Coll e Monero (2010). 52 As três propostas nos permitem compreender o ensino híbrido e o papel docente na sociedade, articulando tanto os saberes científicos como os sociais e a utilização dos recursos tecnológicos digitais, para promover a motivação necessária ao aprendiz, de modo que, mediado pelo professor, ele possa construir e reconstruir saberes para a sua formação integral, atendendo a uma das competências gerais da BNCC: Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BRASIL, 2018, p. 9) Podemos considerar que a reorganização da escola e das funções de seus atores é medida fundamental para o professor; e mais, a formação continuada deve aprimorar, transformar, motivar e ampliar os saberes e possibilidades, a fim de atender ao novo estudante, que é partícipe da cultura digital, Em decorrência do avanço e da multiplicação das tecnologias de informação e comunicação e do crescente acesso a elas pela maior disponibilidade de computadores, telefones celulares, tablets e afins, os estudantes estão dinamicamente inseridos nessa cultura, não somente como consumidores. […] se engajado cada vez mais como protagonistas da cultura digital, envolvendo-se diretamente em novas formas de interação multimidiática e multimodal e de atuação social em rede, que se realizam de modo cada vez mais ágil. Por sua vez, essa cultura também apresenta forte apelo emocional e induz ao imediatismo de respostas e à efemeridade das informações, privilegiando análises superficiais e o uso de imagens e formas de expressão mais sintéticas, diferentes dos modos de dizer e argumentar característicos da vida escolar. Todo esse quadro impõe à escola desafios ao cumprimento do seu papel em relação à formação das novas gerações. (BRASIL, 2018, p. 61) 53 Dessa maneira, escola e professor seguem articulados para a busca da qualidade educativa diretamente associada à utilização de tecnologias digitais de informação e comunicação: É importante que a instituição escolar preserve seu compromisso de estimular a reflexão e a análise aprofundada e contribua para o desenvolvimento, no estudante, de uma atitude crítica em relação ao conteúdo e à multiplicidade de ofertas midiáticas e digitais. Contudo, também é imprescindível que a escola compreenda e incorpore mais as novas linguagens e seus modos de funcionamento, desvendando possibilidades de comunicação (e também de manipulação), e que eduque para usos mais democráticos das tecnologias e para uma participação mais consciente na cultura digital. Ao aproveitar o potencial de comunicação do universo digital, a escola pode instituir novos modos de promover a aprendizagem, a interação e o compartilhamento de significados entre professores e estudantes. (BRASIL, 2018, p. 61) Para tanto, o corpo docente deve estar preparado para atender e, além disso, aprimorar o desenvolvimento e mediar a construção de saberes desses estudantes nativos digitais. As metodologias ativas estão inclusas nesse processo e, com a mediação docente, são capazes de transformar a educação de transmissora para significativas práticas e experiências. Essa condição exige do professor o desenvolvimento de habilidades digitais que, associadas às condições de formação continuada, são os maiores desafios ao professor contemporâneo, ou seja, ele deve construir novas perspectivas de “o que ensinar, para que ensinar e como ensinar”. Ao encontro dessa necessidade docente, […] a formação do professor também deve se pautar pela atividade criadora, reflexiva, crítica, compartilhada e de convivência com as diferenças, usando as mídias e as tecnologias como linguagem e instrumento da cultura, estruturantes do pensamento, do currículo, das metodologias e das relações pedagógicas. É preciso reinventar a educação, analisar as contribuições, os riscos e as mudanças advindas da interação com a cultura digital, da integração das TDIC, dos recursos, das interfaces e das linguagens midiáticas à prática pedagógica, explorar o potencial 54 de integração entre espaços profissionais, culturais e educativos para a criação de contextos autênticos de aprendizagem midiatizados pelas tecnologias. (BACICH; MORAN, 2018, p. 17) Nessa perspectiva, o professor do século XXI se deparará com distintos desafios, como contemplar as proposições da Base Nacional Comum Curricular, e buscar a qualidade e o aperfeiçoamento necessários, a fim de formar integralmente o estudante imerso na cultura digital e, assim, construir novas formas de ensinar e aprender, apoiadas nas mídias digitais e no desenvolvimento de metodologias ativas como parte constituinte da relação entre teoria e prática. Para tanto, veremos na sequência possibilidades de metodologias ativas exemplificadas para a alfabetização e letramento de crianças. 2. Metodologias ativas e a alfabetização e o letramento de crianças As crianças que se encontram em idade alfabetizadora – até o segundo ano do ensino fundamental – são nativos digitais e têm conhecimentos diretos ou indiretos acerca da tecnologia em seu cotidiano, como celulares, notebooks, computadores, aplicativos e softwares, entre outros. Essa condição exige que a escola e o corpo docente se adaptem e ofereçam possibilidades de criar aprendizagens com o uso de metodologias ativas, visando ao engajamento dos alfabetizandos, e promovendo a motivação para a construção e compreensão do mundo das letras e suas aplicabilidades sociais. Para contemplar esse movimento tecnológico digital, veremos duas possibilidades metodológicas: a aprendizagem maker e a aprendizagem por estações. A primeira prática metodológica nos remete ao termo “Do it Yourself”, que traduz-se “Faça você mesmo”, enaltecendo a autonomia 55 e a criatividade, remetendo ao construtivismo. Segundo Moura (2019, p. 25), a aprendizagem maker está associada à […] ação ou atividade com viés educativo que, utilizando-se das tecnologias, conduza a um processo de prototipação/construção/ manutenção de um produto, físico ou digital, relacionando tal processo a um conteúdo científico. Consoante a esse pensamento, Blikstein, Valente e Moura (2020, p. 523) enfatizam que essa aprendizagem ativa “cria condições para que o estudante tome consciência e entenda os conceitos curriculares que estão presentes nos produtos que constroem”. Isso significa que para a alfabetização há diversas possibilidades, inclusive lúdicas, que podem ser iniciadas na educação que enfatiza o movimento maker, como a criação de jogos voltados para a coordenação motora fina e até mesmo a consciência fonológica. Essa prática metodológica pode ser associada aos direitos de aprendizagem da educação infantil, preconizados na Base Nacional Comum Curricular: participar, explorar, expressar, brincar, conviver e conhecer-se. A aprendizagem por estações possibilita, assim como no movimento maker, o engajamento, a flexibilidade, a utilização de recursos tecnológicos digitais, trabalhar a criatividade, o desenvolvimento do pensamento crítico, a autonomia e a aprendizagem colaborativa, além do direcionamento específico para a alfabetização e letramento. É fundamental que o professor trace os objetivos que busca, e a partir dessa condição organize as estaçõespelas quais deseja que as crianças transitem. A partir do exposto enfatizamos que as metodologias ativas são essenciais para a alfabetização das crianças na contemporaneidade. Esse movimento é capaz de trazer significado com o meio tecnológico e digital do cotidiano das crianças, sobretudo ao articularmos aos jogos e diferentes aplicativos, como veremos na sequência. 56 3. A alfabetização de crianças e o uso de aplicativos e sites As crianças que estão em idade alfabetizadora estão em contato com aplicativos e sites em seu cotidiano, sendo eles um recurso natural para a construção de saberes em diferentes áreas. Essa condição não é diferente para a alfabetização e letramento, portanto, a utilização dos aplicativos e sites visa à aprendizagem por estímulos que se aproximam da criança e trazem significado e engajamento, capazes de desenvolver habilidades e competências que auxiliam na construção da aquisição da leitura e da escrita, como a autonomia e o pensamento crítico. Entretanto, a utilização de aplicativos e sites como recursos metodológicos educacionais exige do professor perspectivas e conhecimentos que vão além da formação inicial, ou seja, não é suficiente o professor perceber a importância desses recursos para a aprendizagem das crianças na contemporaneidade; ele deve conhecer as especificidades de cada recurso que deseja utilizar, e mais, saber como utilizá-lo. É válido ressaltarmos que a ausência do conhecimento docente e a insegurança derivada dessa condição, em sua maioria, exercem o efeito oposto, o que significa que em vez do recurso tecnológico digital ser um diferencial para o processo de ensino e aprendizagem, ele promoverá um distanciamento ou confusão, e a atividade que era para ser dinâmica acaba desmotivando tanto o professor quanto a criança alfabetizanda. Dessa maneira, para que o professor atue com metodologias ativas e diferentes sites e aplicativos que embasam essa condição educativa, é fundamental agir a partir da articulação existente os elementos da Figura 1: 57 Figura 2 – Metodologias ativas e o docente alfabetizador Fonte: elaborada pela autora. Tal condição, associada aos objetivos do professor, permite atividades voltadas ao desenvolvimento da alfabetização crítica, sendo síncrona ou assíncrona, possibilitando leitura, escrita, interpretação, raciocínio lógico e matemático, trabalho coletivo, empatia e outras habilidades. Assim, devemos perceber que a utilização metodológica de um aplicativo deve ir além do desejo de construir uma metodologia ativa, uma proposta diferente demonstrada para a coordenação pedagógica da escola, ou ainda uma condição decorativa para a aula. Isso significa que o docente deverá constantemente refletir acerca da sequência didática proposta, das etapas da aula e dos objetivos de aprendizagem. Os sites e aplicativos podem, além dessa construção de aprendizagem, ser utilizados na finalização desse processo, ou seja, na fixação de ações voltadas para a leitura e a escrita, auxiliando no registro e no processo avaliativo, permitindo – até mesmo por jogos e movimento lúdicos – perceber a necessidade de retomada de objetos de conhecimento ou a utilização de outras metodologias. 58 A partir dessa perspectiva é fundamental reforçarmos que os aplicativos e sites devem ser utilizados com prudência e direcionamento, e que não substituem outros processos metodológicos, sobretudo a própria atuação docente ou atividades de registro e construção concreta. É preciso um equilíbrio para que de fato essas ferramentas auxiliem no desenvolvimento da criança e da construção da alfabetização. Além da perspectiva do próprio professor quanto à utilização das metodologias ativas, não podemos abster as instituições de ensino da sua responsabilidade nesse processo formador, afinal, além do próprio docente se preocupar com seu progresso profissional, é preciso apoio por parte das escolas, como a oferta da formação continuada e de aplicativos pagos. Essa junção entre formação e recursos permitirá que o professor construa movimentos seguros para mediar a alfabetização e o letramento de crianças nativos digitais. Fundamentados nas orientações supracitadas, adentramos em uma etapa prática, exemplificando duas possibilidades de atuação a partir do site gratuito Wordwall e do aplicativo voltado para a alfabetização de crianças, o GraphoGame Brasil. Iniciamos pelo Wordwall, escolhido por não exigir do professor um amplo conhecimento digital e indicado àquele docente que deseja iniciar a utilização de jogos, aplicativos e outros recursos para dinamizar a aula e a construção da alfabetização e letramento. Ele permite criar jogos diversos como o famoso “Pac Man”, tanto para uso coletivo como individual, atividades de combinações, roletas, caça-palavras e diversas possibilidades articuladas às letras e formação de palavras. O professor poderá utilizá-lo de diferentes maneiras, inclusive como recurso voltado para o processo avaliativo, sempre articulando-o aos objetivos propostos, temáticas múltiplas e diferentes componentes curriculares. 59 Figura 3 – Possibilidades no Wordwall Fonte: https://wordwall.net/pt. Acesso em: 17 jun. 2022. Na condição interdisciplinar voltada para a alfabetização e para o letramento, o site não se aplica tão somente à língua portuguesa, mas possibilita criar atividades em diferentes componentes curriculares, cabendo ao docente promover essa associação com diferentes práticas e inserindo o estudante como protagonista nesse processo. Outro movimento importante no site é a orientação ao professor na criação das atividades, sugerindo modelos na inserção do conteúdo, impressão das atividades ou até mesmo o jogo em uma tela, seguindo os passos indicados por ele, como na Figura 2: https://wordwall.net/pt 60 Figura 4 – Wordwall Fonte: captura de tela do site Wordwall (2022). O aplicativo GraphoGame Brasil trabalha a formações das primeiras palavras, enfocando aspectos ortográficos, além da construção das habilidades fonológicas essenciais para a alfabetização e letramento. De maneira lúdica a criança inicia pelas vogais, reconhecendo o desenho e o som, além das diferenças com os acentos ortográficos. Figura 5 – GraphoGame Fonte: https://alfabetizacao.mec.gov.br/grapho-game. Acesso em: 17 jun. 2022. O aplicativo é direcionado para crianças de 4 a 9 anos de idade e pode ser baixado gratuitamente, para uso no celular ou no computador. https://alfabetizacao.mec.gov.br/grapho-game 61 Além dessas sugestões há outras inúmeras possibilidades gratuitas para o uso do professor, cabendo a utilização de acordo com cada realidade educativa. O que deve ser considerado é sempre a possibilidade de promover a construção da alfabetização e do letramento de maneira crítica e significativa. Referências BACICH, L.; MORAN, J. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem téorico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018. e-PUB. BLIKSTEIN, P.; VALENTE, J.; MOURA, É. M. de. Educação Maker: Onde Está O Currículo? Revista e-Curriculum, v. 18, n. 2, p. 523-544, jun. 2020. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/curriculum/article/view/48127/32229. Acesso em: 7 jun. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília/DF, 2018. BRASIL. Ministério da Educação. GraphoGame. Política Nacional de Alfabetização, Ministério da Educação, [s. d.]. Disponível em: https://alfabetizacao.mec.gov.br/ grapho-game. Acesso em: 10 maio 2022. COLL C.; MONERO, C. Psicologia da educação virtual: aprender e ensinar com as tecnologias da informação e da comunicação. Porto Alegre: Artmed, 2010. MOURA, É. M. Formação docente e educação maker: o desafio do desenvolvimento das competências. 2019. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-03032020-171456/pt-br. php. Acesso em: 7 jun. 2022. WORDWALL. A maneiramais fácil de criar seus próprios recursos didáticos. Wordwall, 2022. Disponível em: https://wordwall.net/pt. Acesso em: 10 maio 2022. https://revistas.pucsp.br/curriculum/article/view/48127/32229 https://alfabetizacao.mec.gov.br/grapho-game https://alfabetizacao.mec.gov.br/grapho-game https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-03032020-171456/pt-br.php https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-03032020-171456/pt-br.php https://wordwall.net/pt 62 Sumário Apresentação da disciplina Concepção e processos históricos da alfabetização no Brasil Objetivos 1. Concepção e processos históricos da alfabetização no Brasil Referências Linguagem e a aprendizagem da leitura e da escrita Objetivos 1. A construção da aprendizagem e a alfabetização de crianças 2. Linguagem e a construção histórica da escrita e da fala 3. Linguagem na perspectiva social: ensino e aprendizagem Referências Alfabetizar letrando: suas implicações teóricas, sociais e práticas Objetivos 1. Alfabetização e letramento: concepções 2. Os métodos alfabetizadores e o uso social da leitura e da escrita Referências A alfabetização e os recursos pedagógicos e tecnológicos digitais Objetivos 1. As tecnologias digitais da informação e da comunicação 2. Metodologias ativas e a alfabetização e o letramento de crianças 3. A alfabetização de crianças e o uso de aplicativos e sites Referências