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Prof. Pedro Wilson Ramos da Conceição Tema: CONCEITO DE PULSÃO a grande novidade teórica - com amplas repercussões clínicas - dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) foi: a pulsão Em 1915, no artigo As pulsões e seus destinos, Freud apresenta a pulsão na condição de ‘conceito básico’, ou seja, conceito fundamental da Psicanálise. O conceito de pulsão terá uma importância considerável para Freud, chegando a ser alçado à condição de conceito fundamental da Psicanálise (mesmo que o próprio Freud tenha constantemente indicado as dificuldades deste conceito). Ao longo do itinerário de Freud podemos verificar que a noção de pulsão promoverá efeitos em cascata no restante da malha conceitual da Psicanálise ... além disso, é em torno da pulsão que serão efetuadas as transformações mais marcantes da Psicanálise. A pulsão entra em cena em 1905, no ambiente dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade Vale frisar, mais uma vez, que apesar do título desta obra, Freud não está envolvido com a elaboração uma teoria sobre a genitalidade ou a sexologia, porém, sobre a ‘coisa sexual’. A presença da pulsão é concomitante ao abandono, por Freud, da chamada ‘teoria da sedução’: A sexualidade, no ambiente da sedução, localizava-se no exterior e era introduzida na cena infantil por um adulto (um adulto perverso). Este encontro, com alguém na posição de desamparo (daí, a referência à criança), funcionava como uma espécie de ‘primeiro motor’. Com o abandono desta perspectiva, tudo mudou: à medida em que este motor externo indicava seus limites, a maquinaria psíquica (chamada por Freud de ‘aparelho psíquico’) precisava de uma força motriz interna. O conceito de pulsão é chamado a responder por este lugar. Temos, assim, um novo cenário: Pulsão como força constante (bem distinta de uma estimulação esporádica e externa) Pulsão como exigência de trabalho A pulsão, vinda com o afastamento da teoria traumática, não é uma exclusão do outro. Mas, o que Freud vai nos propor é que é pelo corpo (pelo vivo) que o outro se apresenta. Freud nomeia este outro de Nebenmensch: o outro humano. Para melhor verificarmos as incidências clínicas do ‘vivo na vida’, é importante ressaltar uma sutil distinção presente em Freud, desde o momento de fundação da pulsão: Seelisch e Psychisch Seelisch • Pode ser traduzido por “Anímico”; • Contrariamente ao psíquico, é a dimensão do que afeta ao sujeito sem passar pelo que Freud nomeia de tópica, instância ou representação; • Ou seja: um psíquico sem borda. Psychisch • Usualmente é traduzido por “Psíquico”; • Trata-se da cena psíquica, na qual o que há é um tratamento do gozo; • Ou seja: um psíquico com borda. Por meio da pulsão, Freud estabelece uma curiosa forma de ‘biologia’ (uma “biologia ampla”) melhor designada por ele de Metapsicologia. Enfim, uma psicologia não mais calcada no primado da consciência, mas no inconsciente. Pulsão ao ver de Lacan, “A constância do impulso proíbe qualquer assimilação da pulsão a uma função biológica, a qual tem sempre um ritmo. A primeira coisa que Freud diz da pulsão é, se posso me exprimir assim, que ela não tem dia nem noite, não tem primavera nem outono, que ela não tem subida nem descida.” (Seminário 11, p. 157) A partir da noção de força, Freud vai propor que a pulsão há de ser tomada na experiência clínica como um compósito: Impulso (força); Alvo (finalidade); Fonte; Objeto; Temos, assim: Vejamos alguns detalhes dos elementos da pulsão: Força Exigência de trabalho (no caso, trabalho psíquico) Alvo Satisfação Fonte Zona erógena (tem uma estrutura de borda) Objeto É aquilo através do qual a pulsão se satisfaz; é o que há de mais intercambiáve l na pulsão A IDEIA DE TRANSFERÊNCIA Transferências 1) A enorme gama de variadas possibilidades teóricas, técnicas e práticas que estão contidas na sua conceituação. 2) O fato de que a transferência advém tanto da pessoa do analisando como, também, do próprio psicanalista... 3) À medida que a psicanálise ganha uma gradativa e enorme expansão, diversos autores, desde distintas épocas e referenciais psicanalíticos divergentes, ou mesmo convergentes, conceituam formas muito específicas de situações transferenciais. (Zimerman, 1999). O conceito de transferência em Freud Transferência é quando o sujeito envolve o analista em seu processo de análise. (Kaufmann, 1996, p. 548) O paciente vê no seu analista o retorno – a reencarnação – de algumas figuras importantes de sua infância ou de seu passado e consequentemente a ele transfere sentimentos e reações que sem dúvida se aplicavam a esse modelo. (Cunha, 1970, p. 215) O conceito de transferência em Freud Que são as transferências? São reimpressões, reproduções das emoções e dos fantasmas que devem ser desvelados e feitos conscientes a medida que progride a análise; o característico delas é a substituição de uma pessoa anteriormente conhecida pela pessoa do médico. (Freud, 1996, p.279) Porque considerar? • Para Sigmund Freud, a transferência ocorre quando o analisando (paciente) reproduz seus padrões de pensamento e comportamento em direção ao analista. • Analista e analisando são pessoas e, portanto, trazem distintas bagagens de vida. Não há como anular isso durante a terapia. • Então, é esperado que o analisando reproduza padrões de pensamento e comportamento que costuma (ou costumava) ter com seu pai, sua mãe, seu cônjuge etc. durante a análise, como se “substituísse” essas pessoas pelo analista. E esse processo é a transferência. Durante a análise, o analisando “revive” sua vida psíquica na forma como interage com o analista, sendo possível identificar: a ideia que o analisando faz de si, as relações de afeto com coisas ou pessoas, as fantasias e representações, a forma amorosa ou ríspida como reage ao outro etc. Tipos de Transferência Transferência positiva: propicia uma forma com que a terapia pode superar resistências e vencer um lado formal demais ou ritualístico demais que a vinha tomando. Significa que, ao transferir, o analisando engaja-se no coração de seus incômodos psíquicos e revela sua “verdadeira face”. Reduz a preocupação com “qual a imagem o analista está fazendo de mim?”. Transferência negativa: é quando a transferência começa a gerar entraves demasiados que implicam no desgaste da relação entre analista e analisando. Assim, o foco acaba sendo somente criticar ou questionar o analista, ou evitar tocar em questões sensíveis, o que pode adicionar resistências excessivas à livre associação. Podemos partir da premissa que a transferência positiva seja constituída por sentimentos conscientes de simpatia, envolvimento com o tratamento e cordialidade dirigidos à figura do analista; logo, como uma circunstância conveniente ao desenvolvimento da análise. Todavia, isto é também um problema para a condução das análises. Caso nos concentremos no campo movediço da transferência positiva, podemos cair nos erro de nos aliarmos excessivamente ao eu do analisando (e, por fim, do próprio analista) e manter, assim, a ignorância acerca de seus avessos. Certamente, a face aprazível da transferência positiva é mais cômoda para a administração do setting analítico. Isto se torna mais visível (e perigoso) na medida em que tudo isto pode convergir para os fantasmas narcisistas do analista. Já no que tange àquilo que Freud nomeou como “transferência negativa” podemos encontrar o paciente reticente a dirigir seu discurso ao analista; ele desconfia do profissionalismo e comprometimento do analista, argumenta sobre a inocuidade do próprio trabalho terapêutico e mantem uma distância cautelosa (“não acredito nisto...”). Este posicionamento, em boa parte, responde pelos abandonos precipitados que costumam ocorrer ao iníciode uma análise. Freud menciona também a transferência erótica, que pode ser positiva. Ocorre quando o(a) analisando(a) inconscientemente se sente atraído pelo(a) analista e, sem o saber, isso ajuda com que se exponha mais. Mais detalhes sobre a intensificação da ‘transferência erótica’ “Por mais dócil que tenha sido até então, ela [a paciente] repentinamente perde toda a compreensão do tratamento e todo interesse nele, e não falará ou ouvirá a respeito de nada que não seja o seu amor, que exige que seja retribuído. Abandona seus sintomas ou não lhes presta atenção; na verdade, declara que está boa.” (Observações sobre o amor transferencial, p. 211) O sentimento mais perigoso para um psicanalista é a ambição terapêutica (FREUD. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, p. 153) A ambição educativa é de tão pouca utilidade quanto a ambição terapêutica (FREUD. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, p. 158) Os fenômenos da transferência não devem ser tomados pelo psicanalista em referência ao seu próprio narcisismo: “Ele [o psicanalista] deve reconhecer que o enamoramento da paciente é induzido pela situação analítica e não deve ser atribuído aos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não tem nenhum motivo para orgulhar-se de tal ‘conquista’ como seria chamada fora da análise. E é sempre bom lembrar-se disto.” (Observações sobre o amor transferencial, p. 210) A “exigência do amor” de transferência tensiona o analista para fora de sua posição (cf.Observações sobre o amor transferencial, p. 212) : Recomendação freudiana: o analista não deve recuar diante da transferência: “Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos infernos, mediante astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo, sem lhe haver feito uma única pergunta.” (Observações sobre o amor transferencial, p. 213) Dificuldades e contratransferência O analista terá dificuldade em lidar com a transferência afetuosa e as resistências. Tendo que trabalhar as contratransferências, ou seja, seus próprios embaraços no decorrer do processo analítico com o paciente. Como manejar o amor de transferência O analista deve ouvir o paciente, conservar o conteúdo, tratar como irreal, e não ceder aos encantos da sedução. É válido refletir sobre a importância da transferência de amor, e que para muitos analistas resistir seja uma tarefa difícil. Método complexo, mas indispensável para o tratamento analítico. Alguns Apontamentos: A transferência é uma exigência indispensável na análise. Não podemos evitá-la, mas devemos trabalhar com ela; Freud acredita que, assim como o sintoma, a transferência também é criação da doença e por isso deve ser combatida; Lidar com a transferência é a tarefa mais difícil do psicanalista: ele precisa percebê-la, apurá-la a partir de indícios; A transferência pode atuar como uma poderosa resistência, impedindo o andamento da análise; Alguns Apontamentos: O tratamento psicanalítico não cria o fenômeno da transferência, ele simplesmente a revela; Desde que percebida e interpretada a cada aparecimento, a transferência pode ser uma poderosa aliada ao tratamento; A transferência é uma atuação de parte das lembranças e fantasias; Alguns Apontamentos: Somente após a superação da transferência é que se tem novamente acesso ao complexo patogênico; A análise ocorre no campo da transferência. Mas será que toda transferência funciona enquanto resistência? Não – transferência positiva x transferência negativa. O manejo do analista ao perceber a transferência, deve considerar 1. Não manifestar ao analisando que tudo é transferência; o melhor é esperar mais elementos reiterados antes de formular uma interpretação. 2. Não agir com o analisando com uma resposta contratransferencial que alimente o comportamento que ele espera e que ele já vivencia lá fora. O manejo do analista ao perceber a transferência, deve considerar 3. Não “lecionar” sobre transferência durante a terapia; pode-se, claro, eventualmente mencionar o conceito de transferência e sua explicação, se for relevante ou se o analisando perguntar a respeito ou quiser entender por que está agindo assim com o analista. 4. Não focar em histórias de vida do próprio analista, nem de outros de seus pacientes. Isso seria um tanto quanto narcisista e/ou poderia anular a percepção de “ambiente seguro” que o analisando espera ter na terapia. O manejo do analista ao perceber a transferência, deve considerar 5. Quando possível, apontar que a transferência pode estar ocorrendo: não precisa chamar de transferência, nem fazer isso a toda hora, mas é interessante o analista algumas vezes falar sobre a transferência com o analisando https://www.youtube.com/watch?v=aRsk3zedzA0 https://www.youtube.com/watch?v=aRsk3zedzA0 Referências CUNHA, J. Dicionário de termos de psicanálise de Freud. Porto Alegre: Editora Globo, 1970. FREUD, S. . Estudos sobre a histeria. Rio de Janeiro: Imago. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). 1996 ________ A dinâmica da transferência. In: Obras completas, vol. 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. ________ Observações sobre o amor transferencial. In: Obras completas, vol. 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1996