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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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valor. A testemunha tem tendência para aumentar os números‖ 
(…) (Altavilla E., 2003, p. 246). 
 
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―11. 4.º Transformação da perplexidade em certeza. A testemunha sente-se ofendida 
se alguém duvida da exactidão das suas percepções, das suas recordações‖ (Altavilla 
E., 2003, p. 247). 
 
―12. Influência do tempo.(…) A exactidão da recordação diminui com o decorrer do 
tempo‖ (Altavilla E., 2003, p. 249). 
 
“21. A preparação para o depoimento. – Aquele que assiste a um acontecimento, 
se se convence de que deverá depor e, mais ainda, se se propõe depor, é levado 
a acentuar aquele trabalho de reminação e de crítica; preocupado em fazer um 
depoimento preciso e completo, não somente examinará com toda a atenção as 
suas recordações, mas também as submeterá a confronto com o que os outros 
dizem ter visto e com o que contam os jornais. 
Quando for chamado a depor, sentirá um estado de orgasmo, que tem certa 
analogia com o do estudante que vai fazer exame, isto é, não só trata de verificar 
as suas recordações, mas formula a si mesmo as perguntas que, eventualmente, 
lhe poderão ser feitas: quer dizer, prepara-se para depor” (Altavilla E., 2003, p. 
260). 
“(…) 24. Determinação da data, da hora e da duração. – É sempre difícil precisar 
as datas e as horas. 
Mas a data ainda é mais difícil de precisar, porque o dia se perde na 
uniformidade dos outros dias; será fácil recordar se era de verão ou de inverno, 
mas determinar qual o dia de Novembro ou de Julho é extremamente difícil, 
porque faltam aspectos especiais de luz e de calor, que possam criar uma 
diferenciação; por conseguinte, a não ser que no momento do facto se tenha 
fixado na recordação a data, a ela pode chegar-se somente através de um 
raciocínio, utilizando associações e pontos de referência. Já passou algum tempo 
sobre o facto, quando a testemunha é chamada: conta aquilo que viu. O juiz não 
está persuadido da sua sinceridade e pergunta-lhe subitamente: “Pode dizer-me 
em que dia isso se passou?” 
E a testemunha, se está de boa fé, poderá dar diversas respostas. 
Imediatamente: “Foi em 15 de Agosto”. “Como consegue recordar esse dia com 
tanta precisão?” “Porque era o dia da festa da Assunção, e eu regressava de ver 
as iluminações, quando ouvi o tiro e corri para o local”. Aqui há dois elementos 
importantes: a coincidência com uma data que se relaciona com um 
acontecimento extraordinário e o ter imediatamente dado importância ao facto. 
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Mas quando faltam este importante ponto de referência e este conhecimento, 
graças aos quais o acontecimento se fixou na recordação como ocorrido em 15 
de Agosto, o processo evocativo torna-se mais complexo e difícil” (Altavilla E., 
2003, pp. 262-263). 
 
“(…) 26. A medida de um objecto. – A medida de um objecto dá lugar a 
frequentes equívocos. Em relação às dimensões, Stern e Claparède observaram 
uma maior precisão quanto às pequenas dimensões: é que nós somos, 
frequentemente, levados a medir os objectos que nos rodeiam, criando, assim, 
termos precisos de comparação. (…) 
Por exemplo, eu estou habituado a estudar diante de uma grande mesa de três 
metros, e muitas vezes, para determinar a dimensão de um objecto, tenho-me 
surpreendido a compará-lo mentalmente com a minha mesa. 
Claparède observou que se é mais preciso nas dimensões horizontais do que 
nas verticais, e isto explica-se porque, nas circunstâncias habituais da vida, nós 
nos colocamos, geralmente, num plano horizontal, e é sobre este plano que 
estamos habituados a medir a grandeza dos objectos (…)”(Altavilla E., 2003, pp. 
268-269). 
 
“27. Distâncias. – (…) teremos grandes diferenças de apreciação, conforme a 
profissão e o estado psicofisiológico. Um geómetra calculará uma distância 
melhor que um camponês. A um homem fatigado, a estrada parecerá mais longa 
que a um desportista vigoroso. Dois namorados percorrerão quilómetros, 
pensando ter andado poucos metros; um pai, que se dirija para junto do filho 
moribundo, achará interminável uma curta rua (…) Finalmente, tem-se notado 
que a determinação das distâncias, feita voltando a cabeça, é sempre diferente e 
menos segura do que a feita em posição normal” (Altavilla E., 2003, p. 271). 
 
“30. Juízo acerca da velocidade. – É, também, muito difícil o juízo acerca da 
velocidade: indagação frequente nos atropelamentos. (…) 
Geralmente, porém, depois de um desastre, as testemunhas têm tendência para 
exagerar também as velocidades médias. Ainda aqui intervém um poderoso 
factor de reconstrução lógica; pensa-se que sem uma excessiva velocidade o 
atropelamento não se teria dado, e, por conseguinte, substituiu-se pela 
integração lógica a percepção efectiva. (…) 
Um campónio, vindo pela primeira vez à cidade, achará sempre exagerada a 
velocidade de um automóvel que ele compara com o pesado andamento do seu 
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boi, e, o provinciano anda pela cidade movimentada num estado de 
preocupação, numa ansiedade, que cria nele uma hostilidade em relação a todos 
os meios demasiado velozes de locomoção. 
É preciso, em seguida, saber se a testemunha ia a pé, ou num veículo e de que 
espécie; e deve notar-se que o critério mais impreciso é, precisamente, o de 
quem se encontra num outro veículo e se esforça por estabelecer relações” 
(Altavilla E., 2003, p. 272-273). 
“38. A influência de outras profissões. – À medida que subimos na escala social, 
serão cada vez menores os aspectos que diferenciam as testemunhas em 
relação com a sua profissão. 
Há um, porém, que se mantém constante: a maior exactidão com que se 
percepciona e recorda um pormenor que esteja relacionado com a própria 
profissão. E é assim, antes de mais nada, porque a atenção anda sempre ligada 
a um interesse particular: ora a profissão determina um especial interesse por 
algumas coisas, em virtude do qual é espontaneamente levada a distingui-las e 
analisá-las. Se passamos por uma rua onde trabalham sapateiros, notaremos 
imediatamente a atenção com que eles examinam o nosso calçado. (…) 
(…) Isto pode, ainda, provocar uma restrição do campo da atenção, fazendo com 
que a consciência se torne impermeável a estímulos mais importantes: por isso, 
o sapateiro, que observou os pormenores de um par de sapatos, pode equivocar-
se ao identificar o rosto da pessoa que os usava” (Altavilla E., 2003, pp. 279-
280). 
 
“7. Curiosidade. – Para o estudo do testemunho tem grande valor o exame da 
curiosidade, que varia de indivíduo para indivíduo e que pode explicar-nos a 
diferença de interesse e, por conseguinte, a diferença de atenção. 
«A percepção consciente supõe um elemento de novidade» (Gérard-Varet, 
1898), e é por isso que a curiosidade é um princípio capital na dinâmica do 
pensamento que a novidade alimenta” (Altavilla E., 2003, p. 240). 
 
“O testemunho como fenómeno colectivo. – Poderia parecer que o testemunho 
deveria considerar-se como uma típica expressão de um fenómeno de psicologia 
individual, muito embora com o desdobramento entre o percepcionado e o lógico, 
entre a estática da adquisição mnésica e a dinâmica do processo associativo e a 
posterior acção deformadora do raciocínio, mas com frequência não é assim: o 
testemunho é o resultado de um fenómeno de psicologia colectiva. 
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Se a um acontecimento estiveram presentes várias testemunhas, elas são, 
fatalmente, levadas a manifestar as suas impressões: embora muitas vezes 
absolutamente contrastantes, não é raro que, através do raciocínio e das 
observações, cheguem a uma versão concordante, que é a que se cristaliza na 
sua recordação (…)