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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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Isto mostra como é exacta a observação de Dupré: «A testemunha-multidão 
observa, interpreta e reage de maneira diferente da testemunha-indivíduo»: 
Efectivamente, a acção de presença pode até alterar à percepção, porque uma 
observação, um grito que a acompanha, podem criar desvios e dar lugar a falsas 
interpretações (…) Individualizar o depoimento, libertá-lo das contribuições 
alheias, é uma das missões mais difíceis do juiz” (Altavilla E., 2003, p. 245-246). 
 
“19. A personalidade moral da testemunha. – O testemunho deve ser relacionado 
com a personalidade moral da testemunha” (…). 
Um cavalheiro é acusado de adultério com uma camponesa; há testemunhas que 
dizem tê-los visto num campo, a conversar, sorridentes, como será diferente o 
valor adquirido por este simples episódio, conforme a testemunha que o narrar! 
Um velho marido, roído por um ciúme senil, representará o insignificante episódio 
com tais cores, que o magistrado poderá acreditar ter a prova segura do 
adultério; o mesmo facto, contado por um rapazola, parecerá não ter qualquer 
valor. 
Narrar significa, portanto, interpretar, significa deformar um acontecimento, 
fazendo-o passar através do prisma da nossa personalidade” (Altavilla E., 2003, 
pp. 258-259). 
“36. Influência da cultura. (…) O homem culto faz um menor esforço para prestar 
um depoimento conforme à verdade, relacionado em todas as suas partes por 
ligações lógicas, do que um homem inculto. Ele tem a faculdade da atenção 
disciplinada e sempre vigilante e pronta, porque, para qualquer espécie de 
conhecimento com que tenha querido enriquecer o seu património mental, teve 
necessidade de fazer uso da atenção: uso atento, constante, dócil, não diminuído 
pela dificuldade em poder penetrar nos próprios elementos da percepção (…) 
A cultura não só favorece a percepção e a reevocação mnemónica, mas também 
a precisão com que a descrição é feita (…) 
Quantas vezes um depoimento parece inexacto, porque uma testemunha não 
soube exprimir com clareza o seu pensamento: e na audiência de discussão e 
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julgamento ela encontra-se vinculada por um depoimento, em que se interpretou 
defeituosamente aquilo que disse” (Altavilla E., 1982, pp. 276-278). 
 
Outros factores poderão também vir a exercer influência no testemunho e serem 
causas de mentiras frequentes tais como: a terra da naturalidade; associações 
políticas; os sentimentos religiosos e a multidão (Altavilla E., 2003, p. 291). 
 
4.5.2. Mentiras Conscientes 
 
“1.ª O interesse. (…) muitas vezes a resolução de uma controvérsia penal tem 
grande influência sobre uma questão patrimonial. (…) 
2ª O medo. (…) Se até há ofendidos que, no temor de maiores danos, se têm 
calado, negando reconhecer um criminoso, imagine-se como não será mais 
frequente o fenómeno em relação às testemunhas, que não têm um interesse 
especial a defender, ou uma vingança a satisfazer (…) 
É assim que nas aldeias se receia a vingança do vizinho ou do conhecido, uma 
destas vinganças que os camponeses tanto temem: corte de árvores, lesão de 
animais, incêndio de colheita. 
3ª O afecto. O direito de não depor, que têm os parentes próximos, torna mais 
difícil que se minta por afecto, mas restam outros casos não previstos pela lei, o 
de um noivo, por ex. (…) 
4ª A vingança. Razões de prudência impõem que se conheça sempre quais 
foram as relações entre a testemunha e as partes em causa. (…) 
5ª A corrupção. É uma causa de mentira muito mais frequente do que poderia 
pensar-se, em muitas regiões da Itália. 
6ª A leviandade. É frequente que, por puro espírito de maledicência, se afirme 
qualquer coisa em prejuízo de um indivíduo, e que, chamado depois à presença 
do magistrado, não se tenha a coragem de confessar que se mentiu, 
transformando-se a difamação num depoimento falso. 
7ª A paixão. Amor, ódio, espírito de partido, podem ser a causa de descaradas 
mentiras judiciárias; (…) 
8ª A vaidade. O desejo de fazer falar de si pode levar a mentir (…)” (Altavilla E., 
2003, pp. 296-298). 
 
 
 
 
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4.5.3. A Testemunha e o Juiz 
 
“(…) O juiz é, instintivamente, levado a um juízo de credibilidade acerca das 
testemunhas. Acontece, frequentemente, que o depoimento de uma testemunha, 
considerada digna de fé, o persuade da maneira como se desenrolou um 
acontecimento: esta opinião cristaliza-se, e todo o posterior elemento de prova 
que contraste com ela será desvalorizado por ele, somente dando valor às 
provas que a reforcem. 
«É que, efectivamente, uma lei psicológica geral é a da nossa inércia em face 
das primeiras opiniões que formamos a respeito de um determinado objecto» 
(Musatti, citado por Altavilla, 2003, p. 487). 
E porque, no geral, as primeiras testemunhas ouvidas no julgamento são as de 
acusação, e especialmente os autuantes, aos quais o juiz presta uma fé ilimitada, 
as provas de defesa encontram um estado de consciência pré-constituído, que 
dificilmente se conseguirá abalar. Pelo contrário, o juiz procura desacreditar a 
importância dos seus depoimentos, ou não lhe atribuindo nenhuma (fazendo-as 
referir ao depoimento escrito, de maneira que as testemunhas passam no 
julgamento como sombras incolores, o que é ainda mais grave, porque, 
normalmente, os juízes, ou os jurados, não conhecem o processo, de maneira 
que lhes é oferecido um processo seleccionado, em conformidade com a opinião 
que dele formou o Presidente), ou até ridicularizando a testemunha, ou 
brutalizando-a com ameaças de prisão. O juiz deveria, pelo contrário, recolher 
imparcialmente as provas: escutar tudo para, só depois de encerrados os 
debates, proceder a um exame comparativo e crítico, não criando presunções de 
veridicidade ou de falsidade” (Altavilla E., 2003, p. 487). 
 
“Trata-se de um acervo de informação não verbal, dificilmente documentável, mas 
imprescindível e incindível para a valoração da prova que seja produzida a fim de 
ser apreciada segundo as regras de experiência comum e lógica do homem 
médio suposto pela ordem jurídica, pressupostos subjacentes à livre apreciação e 
convicção do julgado em análise crítica da provas que concorram para a formação 
da sua convicção” (in Parecer elaborado por Joel Timóteo Ramos Pereira, Juiz de 
Direito, Adjunto do Gabinete de Apoio ao Vice-presidente e aos Membros do CSM 
de 02-07-2009). 
 
 
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4.6. A Credibilidade do Testemunho 
 
“Um aspecto a considerar em qualquer boa legislação é o de determinar com 
exactidão a credibilidade das testemunhas e as provas do crime. Todo o homem 
razoável, isto é, que tenha uma certa conexão nas suas próprias ideias e cujas 
sensações sejam conformes às dos outros homens, pode ser testemunha. A 
verdadeira medida da sua credibilidade não é senão o interesse que ele tenha 
em dizer ou não a verdade. (…) A credibilidade deve, portanto, diminuir 
proporcionalmente ao ódio, ou à amizade, ou às estreitas relações entre a 
testemunha e o réu. (…) A credibilidade de uma testemunha diminui tão 
sensivelmente quanto mais cresce a atrocidade de um delito ou a 
inverosimilhança das circunstâncias” (Beccaria C., 2009, pp. 85-86). 
 
“(…) Da mesma forma, a credibilidade de uma testemunha pode algumas vezes 
diminuir, quando ele seja membro de uma qualquer sociedade privada cujos usos 
e princípios sejam ou não sejam bem conhecidos ou sejam diferentes dos 
públicos. Um tal homem tem, não só as suas próprias paixões, mas as dos 
outros. 
Finalmente é quase nula a credibilidade da testemunha quando se faça das 
palavras um delito, pois que o tom, o gesto, tudo aquilo que precede ou que 
segue as diferentes ideias que os homens associam às mesmas palavras 
alteram