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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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e modificam de tal maneira as afirmações de um homem que é quase 
impossível repeti-las com a precisão com que foram ditas” (Beccaria C., 2009, p. 
87). 
 
“As nossas leis proíbem os interrogatórios chamados sugestivos no decorrer de 
um processo: isto é, aqueles, segundo os doutores, que interrogam sobre a 
espécie em lugar de interrogar sobre o género, nas circunstâncias de um delito: 
isto é, aqueles interrogatórios que, tendo uma imediata conexão com o delito, 
sugerem ao réu uma imediata resposta. Os interrogatórios, segundo os 
criminalistas, devem por assim dizer envolver o facto, como uma espiral, mas 
jamais dirigirem-se-lhe em linha recta. Os motivos deste método são, ou para 
não sugerir ao réu uma resposta que o coloque a coberto da acusação, ou talvez 
porque pareça contra a própria natureza que um réu se acuse deliberadamente” 
(Beccaria C., 2009, p. 148). 
 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
“(…) A teoria clássica do testemunho, saída da prática dos tribunais, baseava-se 
na tendência espontânea do homem para acreditar no que se lhe dizia e no que 
via, ou seja, crer cegamente na fidelidade da memória humana desde que não 
fosse influenciada por determinadas tendências afectivas. É que pressuponha-se 
que a memória era capaz de conservar e reproduzir exactamente, sem 
alterações, o visto e o ouvido, o que significa que o valor das provas assentava 
em meras presunções. Esta crença na veracidade humana e na veracidade das 
coisas levava a aceitarem-se as provas tanto pessoais como materiais sem as 
devidas reservas e, portanto, sem se aperceber o que essa credibilidade tinha de 
falível. (…) 
(…) atendia aos grandes erros provenientes de uma incapacidade manifesta, ou 
aos erros voluntários e às mentiras que se julgava afectarem as declarações no 
seu todo. Donde, considerarem-se os testemunhos como um verdadeiro bloco, 
que era, portanto, aceito ou rejeitado na sua totalidade, segundo o valor moral do 
depoente. 
Já no século XVIII os jurisconsultos, segundo Mittermaier, esforçaram-se em 
agrupar, definitivamente, as testemunhas em três categorias: os capazes ou 
clássicos, os suspeitos e os incapazes.(…) 
(…) Pelos fins do século XIX, começaram a dar forma à atitude científica de 
resistir à credibilidade natural que leva o homem a acreditar tanto no que se lhe 
diz, como no que se encontra escrito, ou ainda no que se vê, sem uma análise 
prévia, atitude essa denominada crítica. 
(…) não era do depoente que se devia partir, como queria a teoria clássica do 
testemunho, mas sim do depoimento, que não devia ser considerado como um 
todo indivisível e aceitável, mas antes como um conjunto de elementos de 
conteúdo e significação dissemelhantes em que, embora alguns fossem exactos, 
tal não implicava que os outros também o fossem; impunha-se, por isso, o exame 
de cada um desses elementos” (Costa C., 1954, p. 6). 
 
“Para obter-se uma maior veracidade nos testemunhos empregam-se, por vezes, 
meios que não estão isentos de crítica. Tais são: o de atemorizar a testemunha 
com possíveis sanções, caso falte à verdade, e o do juramento. (…) 
Ora, a grande veracidade de um testemunho está em relação directa com um 
maior amor à verdade e à justiça, por parte do depoente, ou seja, com a sua 
consciência moral. Mas, como as ameaças e até o tom solene que reveste o 
juramento impressionam mais e, portanto, perturbam aqueles em quem 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
predomina esse amor à verdade e à justiça, pode compreender-se os 
inconvenientes de tal procedimento. 
Por outro lado, naqueles que têm moralidade duvidosa, ou nos amorais, 
nenhuma influência têm as ameaças e o juramento, com todo o seu cerimonial. 
Pode, ainda, a ameaça de sanções, caso falte à verdade, e o tom solene do 
juramento determinar nas testemunhas, de preferência nas emotivas, um estado 
emocional que vai reduzir, e até paralisar, o poder evocativo, embora 
temporariamente, em consequência de uma inibição (…)” (Costa C., 1954, pp. 
18-19). 
 
“Outra inibição que todo o jurista deve conhecer é a inibição retroactiva, ou 
simplesmente retroacção, que leva a olvidar tudo o que justamente precede um 
acidente, quando este determine a perda dos sentidos de quem o sofreu. Assim, 
se alguém relatar, com pormenores, o que aconteceu exactamente antes de um 
acidente em que desmaiou, é quase certo faltar à verdade” (Costa C., 1954, p. 
20). 
 
“Mas o testemunho pode, ainda, ser recolhido, como dissemos, pelo método 
misto, da autoria de Lipmann, constituído pelos dois métodos anteriores: 
começa-se pela audição em depoimento livre para, em seguida, passar-se ao 
interrogatório. É, como se verifica das experiências de Snee e Lush, o método 
que mais garantias oferece quando, pelo testemunho, se procura atingir a 
veracidade dos factos. 
Na verdade, como cada um dos dois métodos referidos esclarece um aspecto 
particular do testemunho, o método misto terá o mérito de beneficiar dessa 
particularidade. Além disso, permite obter, com uma só prova, um grande número 
de informações e possibilita ainda a comparação da memória espontânea com a 
memória forçada. 
A importância e vantagem do uso deste método avultam, muito especialmente, 
no tribunal, por, nesse caso, os depoimentos das testemunhas e do réu serem 
inicialmente livres e, portanto, estarem ao abrigo de perguntas intempestivas que 
possam afectar a sua espontaneidade, fazendo com que não se obtenha o ponto 
de vista íntimo, pessoal, dos primeiros momentos (…)” (Costa C., 1954, pp. 23-
24). 
 
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A CREDIBILIDADE DO TESTEMUNHO – A VERDADE E A MENTIRA NOS TRIBUNAIS 
―(…) Pelo método de interrogatório, obtém-se uma maior extensão do testemunho do 
que pelo método do depoimento livre, no entretanto, o interrogatório por mais apertado 
que seja, não consegue obter certos elementos que podem ser evidenciados pelo 
método da recognição (…)‖ (Costa C., 1954, p. 26). 
 
“Depois do que dissemos sobre o valor do testemunho, poderia supor-se que as 
decisões da justiça, sobretudo no foro criminal, onde a prova é, por excelência, 
dada pelo testemunho, deixavam muito a desejar. E a velha imagem da justiça 
de olhos vendados e balança numa das mãos, não representava mais do que a 
impossibilidade de ela ver para qual dos pratos pende a verdade” (Costa C., 
1954, pp. 32-33). 
 
“Portanto, os futuros magistrados, esses pelo menos, devem ter uma forte 
preparação criminológica e psicológica para poderem estar à altura da sua 
importante e delicadíssima missão. Não se julgue, contudo, que ao falarmos 
numa preparação psicológica queremos referir-nos ao conhecimento de uma 
psicologia teórica e geral que é, no fim de contas, a que comummente se ensina. 
Queremo-nos, sim, referir a uma psicologia concreta, prática, viva, ou seja, 
verdadeiramente pragmática, que, por isso mesmo, encontre uma aplicação 
imediata em justiça e que possa ser um instrumento perfeitamente útil aos 
magistrados” (Costa C., 1954, p. 36). 
 
4.6.1. Credibilidade das Testemunhas ou dos Peritos 
 
“Durante o julgamento é importante ter em conta o impacto que as testemunhas 
ou peritos provocam nos jurados, não esquecendo que estes dão atenção ao que 
querem acreditar, não ao que os advogados querem que eles acreditem. Além 
disso, enquanto seres humanos que são, os jurados estão com mais atenção no 
início da tarefa mas com o prolongar desta ficam saturados, atendem aos 
detalhes do que aconteceu (desprezando detalhes do que não aconteceu), são 
sensíveis às emoções manifestadas pelas testemunhas (nomeadamente quando 
estas se apresentam seguras e convincentes, ou inversamente irritadas e 
arrogantes) e sobretudo são mais sensíveis quando se apela ao sentido de 
justiça do que à vingança (Bernstein, 2006). A credibilidade do