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TEORIA DO TESTEMUNHO TESE DE PSICOLOGIA

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presta, contribuindo assim 
para a melhor apreciação do testemunho em si e dos factores que o podem influenciar 
(Carmo, 2005). Neste contexto, a Avaliação da Validade das Declarações (Statement 
Validity Assessment – SVA) já referida, é o processo mais amplamente estudado e 
utilizado, especialmente em determinados países desenvolvidos do continente 
Americano e Europeu (Mezquita, 2005; Vrij, 2008). Inicialmente os propósitos da SVA 
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tinham por base a avaliação da veracidade das declarações de menores alegadamente 
vítimas de abuso sexual, no entanto, actualmente este procedimento é utilizado 
noutros contextos forenses, nomeadamente com adultos (Mezquita, 2005, Vrij, 2008). 
É óbvio que não existem métodos infalíveis ou perfeitos e, apesar deste método ser o 
mais estudado, o de maior sucesso e o mais utilizado, existem sempre críticas. 
 
A SVA é composta por quatro fases: análise dos documentos do processo (dados 
sócio-demográficos, natureza do evento em questão, entre outros); entrevista semi-
estruturada ao sujeito; aplicação dos critérios de validade - Criteria-Based Content 
Analysis (Análise de Conteúdo Baseada em Critérios – CBCA) e avaliação do CBCA 
através de uma lista de controlo da validade dos critérios apurados - Validity check-list. 
(Mezquita, 2005; VRIJ, 2008). 
 
Relativamente à segunda fase (realização da entrevista semi-estruturada), o método 
de maior concordância e resultados é a técnica de entrevista cognitiva de Geiselman e 
Fisher, que estimula a livre narração e incrementa a quantidade e a qualidade de 
informação que se obtém, facilitando ainda a invocação de achados mnésicos 
importantes na valoração testemunhal (Mezquita, 2005; VRIJ, 2008). De salientar que, 
na parte inicial da entrevista, deve optar-se pela formulação de questões abertas e, 
posteriormente, passar a clarificar, mediante questões também o mais abertas 
possível, os aspectos que se considere importantes serem elucidados. As questões 
fechadas só devem ser utilizadas para o esclarecimento de detalhes muito concretos 
(por exemplo, o nome do alegado agressor, idade, datas) e nunca, em momento 
algum, devem ser colocadas perguntas com um carácter marcadamente sugestivo ou 
que traduzam a interpretação do entrevistador (Mezquita, 2005; Vrij, 2008). 
 
A entrevista deverá ser presenciada por dois entrevistadores (Psicólogos) e ser 
gravada em formato áudio (idealmente em formato áudio e vídeo), para que possa ser 
integralmente transcrita a fim de se aplicarem os 19 critérios do CBCA (Criteria-Based 
Content Analysis - que avaliam de forma sistemática o conteúdo e a qualidade dos 
dados obtidos na declaração. Quantos mais critérios se verificarem (numa cotação 
entre 0 e 2 pontos), mais verídica se pode considerar a declaração. No entanto, o facto 
de não se verificarem os critérios de credibilidade não implica de forma inequívoca que 
os acontecimentos relatados não tenham ocorrido. Contudo, se o relato for verdadeiro, 
de modo geral e de acordo com a hipótese de Undeustch (que realça que as 
declarações baseadas em acontecimentos reais diferem daquelas que são fruto da 
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imaginação), a descrição dos factos afastar-se-á de um esquema estereotipado 
(narrativa linear, ordenada, desprovida de detalhes) e tende a apresentar elementos 
idiossincráticos, com descrições pormenorizadas e particularidades singulares ao nível 
do conteúdo do discurso (Mezquita, 2005; Vrij, 2008). Após este procedimento dá-se 
início à quarta e última fase, de aplicação da lista de controlo de validade dos critérios 
do CBCA (Anexo 2), que, tal como o nome indica, valida os critérios apurados de 
acordo com as características psicológicas do entrevistado, a sua própria motivação, 
as características intrínsecas da entrevista e ainda determinadas incoerências relativas 
ao processo no seu todo. 
 
No entanto, apesar da entrevista ser a principal ferramenta de avaliação, muitos 
autores defendem que é fundamental a administração de testes de psicodiagnóstico 
para a avaliação da sinceridade com que uma pessoa se manifesta perante um perito 
e/ou um juiz, pois estes auxiliam na tradução da situação psicológica do interrogatório 
(Calabuig G., 2005; Magalhães et al., 2010). Através da utilização complementar de 
testes psicológicos (por exemplo, de inteligência, personalidade, conduta e de 
malingering – fingimento intencional de doença ou sintomas a nível físico ou 
psicológico, com o objectivo de conseguir algo em troca) pode-se deduzir o estado 
mental, afectivo, volitivo e intelectual do depoente, o que nos coloca na pista da 
veracidade das suas declarações e confissões (Calabuig G., 2005; Magalhães et al., 
2010). Além deste aspecto, a utilização inteligente de testes psicológicos permite 
descobrir de modo fácil, rápido e fiável os rasgos de personalidade do indivíduo, assim 
como alguns sintomas psicopatológicos que possam estar presentes; ajuda ainda a 
completar a entrevista 
clínico-forense, proporcionando um maior nível de objectividade na produção de um 
parecer verdadeiramente fundamentado (Calabuig G., 2005; Magalhães et al., 2010). 
Com crianças (especialmente as mais novas) os psicólogos podem e devem ainda 
recorrer a técnicas específicas de suporte à expressão verbal, como estratégias 
lúdicas ou desenhos (Machado e Antunes, 2005; Magalhães et al., 2010). 
 
Além do exposto, e especialmente em casos de menores presumivelmente vítimas de 
abuso sexual, é ainda elementar recolher informação junto do maior número possível 
de sujeitos que possam ter estado em contacto com a alegada vítima, nomeadamente 
pais e outros familiares, bem como Professores, Técnicos de Saúde, amigos, entre 
outros. Estes indivíduos podem ter um papel preponderante na alegação de 
sintomatologia e sua evolução (através de entrevistas e questionários, como o CBCL - 
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Child Behavior Checklist e o TRF - Teacher´s Report Form), como sejam as 
repercussões em termos de rendimento escolar e o surgimento insidioso ou abrupto de 
determinados comportamentos que no momento possam ter sido desvalorizados 
(Machado e Antunes, 2005). Podem ainda ser utilizados outro tipo de protocolos que 
valorizem um ou mais domínios ao nível do desenvolvimento cognitivo, linguístico e 
narrativo, mnésico, sócio-moral, emocional e afectivo, relacional, comportamental, do 
apoio familiar, do risco de revitimização, dos indicadores de trauma psicológico e outro 
tipo de indicadores clínicos de relevância (Magalhães et al., 2010). 
 
Sintetizando, na valoração testemunhal todos os pormenores são importantes, pois a 
minúcia da análise técnico-científica (conduzida por peritos devidamente qualificados 
do domínio da Psicologia) é fundamental, quer para a própria avaliação da 
credibilidade do testemunho, quer para o evitamento de uma situação indesejada de 
vitimização secundária - para as reais vítimas ou para os arguidos injustamente 
acusados (Mezquita, 2005; Vrij, 2008). Deste modo, a avaliação da credibilidade do 
testemunho constitui-se como uma ferramenta indispensável em determinados 
contextos jurídico-legais, que suplanta as limitações de uma mera apreciação, pelo seu 
reconhecimento empírico e ainda pela visão holística e fundamentada de todo o 
cenário processual (Mezquita, 2005; Vrij, 2008). 
 
Assim não bastará um testemunho reportar, isoladamente, um pormenor ou corrigir 
espontaneamente determinado detalhe para merecer credibilidade, pois o seu 
depoimento deve ser analisado como um todo. Uma pontuação alta num só critério ou 
outro não nos dará certezas de nada. Para além disto tem de ser analisada e validada 
pela check-list.